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Uma proposta de livro

Márcia Augusto (Filósofa e Escritora) Ensaio sobre a má educação A deseducação. Uma tentativa.

É a primeira vez que começo um texto a saber que vou escrever um livro, a querer escrever, pelo menos… escrevo, porque faço vídeos e os vídeos não chegam… sinto que se perdem… também textos soltos não me servem mais ao propósito, não a este, também pelo menos. Escrevo para compreender, à la Saramago, talvez, mas sem ele… não tão sem ele… Escrevo, porque não percebo o mundo… não percebo o uso da força, o uso abrupto e violento da força contrária, que nos faz mal, que nos anula, que nos faz desistir de nós. Há dois grandes momentos que decidem este livro… o primeiro remonta à minha infância, quando eu, sem saber isso do mundo, peguei no prato da sopa, na cantina da escola, na primeira classe, hoje primeiro ano do primeiro ciclo, para beber a sopa, como se de uma caneca se tratasse… fi-lo, como sempre fazia em casa e via fazer… os meus avós, felizmente, nunca me disseram que era “errado”. O rapaz que estava à minha frente, pouco mais velho do que eu, mas com a malícia necessária, inventada pela Terra, para saber o que se pode e o que se não pode fazer, riu-se de mim, apontou-me o dedo e abriu a boca como se de uma caverna se tratasse para me engolir a vergonha, no riso dele, que me anulava, ou eu deixava que me anulasse, porque veio a empregada da escola, a dona Laura, mãe da Anita, outra funcionária, em meu auxílio – hoje chamam-se auxiliares de educação; ganhamos cada vez mais filtros e dizemos cada vez menos. É como se as palavras do concreto não nos chegassem… por dificuldade e falta de perícia a dizer o que queremos, achamos que paráfrases o vão fazer melhor do que nós. Idiotas que somos. Dona Laura foi rápida a acudir-me: tirou-me o prato da boca, deu-me a colher para a mão e disse que era assim que se comia. Eu engoli o choro – isso já tinha aprendido a fazer – e senti-me vitimizada pela crueldade daquele menino mau que usurpava do seu lugar de poder e eu, eu era uma mera vítima do que tinha acontecido. Dona Laura viera acudir-me, proteger-me, e eu achei que aquela seria só a minha primeira grande lição. Tivera outras, em casa… mais para a frente, talvez lhes retorne. Bom, este foi o primeiro momento que justificou o livro… o outro foi mais recente e eclodiu da minha emancipação – achada. Há uns dias, ouvia uma música da Beyoncé, chamava-se “Listen” caracterizava bem, demasiado bem, a minha situação… o facto de ter ouvido uma Voz, uma Verdade, a minha e de agora a ter de continuar. Ora, para continuarmos um caminho, temos de o descobrir. Parece-me óbvio. Contudo, no momento em que ia partilhar o vídeo do Youtube no Facebook, parei, acorrentei-me nos meus pensamentos de intelectualidade educada, socializada, violentada. As pessoas inteligentes e cultas não partilham vídeos da Beyoncé… isso não é atividade digna de um intelectual. E começaram – ou voltaram – aí todas, ou algumas, as


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questões que tenho para resolver com a classe intelectual de que, um dia, fiz parte… talvez, depois deste livro, não lhes pertença mais. Mas o que importa se agora posso dizer o que me apetece? Liberdade ou repressão socialmente ensinada. Liberdade. É por isso que escrevo… para ensaiar a Liberdade. Percebo, então, ou antecipo que viver no mundo é fingir, é esconder quem eu sou, porque o que eu sou é errado… percebo também que isso me faz infeliz… por isso, ou o propósito do mundo é sermos infelizes – não me parece, visto que todos vibramos com a felicidade, não há um ser que seja indiferente à emoção de alegria, portanto, parece-me inequívoco que a Felicidade como boa é um facto e, se é um facto e é boa, parece-me inevitável que a queiramos. Inevitável também me parece que ela ocorra na ordem inversa do fingimento, do aniquilar do que eu Sou… parece-me que ela acontece na fruição, na Verdade de mim a fluir, sem preocupações com o amanhã, nem mesmo com o agora… o que vão pensar de mim? Provavelmente, não há maior medo do que este… talvez, alguns de nós aceitem melhor falar sobre o medo da morte do que sobre o medo do que os outros pensam de nós. Na verdade, ninguém está importado com isso, ou defende que não está… mas todos passamos, talvez, 16 horas do nosso dia a ter atividades veladas e acalentadas, orientadas pelo “o que vão pensar de mim? (…) Se fizer isto, não vão gostar; se fizer aquilo vão congratular-me…” e tudo se passa fora de nós… nada mais errado e inverso à verdade. Tudo se passa dentro de mim… e o que está fora é a narrativa, a interpretação que eu dei àquilo que parece que está a acontecer. Mas toda e qualquer mensagem foi construída, entendida por mim… e quanto a isto, parece-me, que não discutimos. Tenho-me debatido com os “meus” princípios e os do mundo, mas a diferença é que, agora, os do mundo não contam mais, ou contam menos. A propósito, hoje na paragem, vi um cartaz a publicitar um medicamento para a fadiga intelectual e/ou física. Por isso, comecei a escrever mentalmente mais ou menos assim e, por isso, aqui reproduzo… Doem-me cartazes que me manipulam… que me dizem que a minha vida dava um filme, porque sou muito ativa e, por isso, fico cansada… e, se fico cansada, isso não quer dizer que devo abrandar, isso quer dizer que preciso de um comprimido. Doem-me também as mentiras do ensino e das universidades… a mentira de que preciso de uma ou várias licenciaturas acompanhadas de mestrados e fanfarras doutorais para trabalhar com competência. Vamos perceber que para fazer o que eu faço, eu necessitaria, segundo o Mundo, de duas licenciaturas e dois mestrados (em Literatura e em Filosofia). A verdade é que tenho uma licenciatura e uma pós-graduação que nada tem a ver com isto (Ciências da Comunicação, Especialização em Assessoria de Imprensa e Marketing Digital, porque, acreditei, precisava de uma profissão… a profissão, não esta, mas a de ensinar é que precisa de mim… e


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eu, quando me combino com ela, sou feliz… mas ela é a necessidade do mundo, eu sou a Solução. Depois, cursei o início de uma Licenciatura em Filosofia que tenho dúvidas quanto ao ato de a terminar numa Universidade… por variadíssimas razões… uma delas é a de que tenho de provar que sei, quando a vida já me selecionou como sabedora capaz de ensinar o que nas universidades e nas escolas não ensinaram – não raras vezes, ajudo alunos do ensino superior a terminarem licenciaturas de Filosofia, Literatura e Educação, sem que eu haja terminado uma delas, sequer… não sou eu que sou extraordinária… é o ensino que não está bem, não pode estar. Reconheço que, às vezes, preciso de uma escola… para me disciplinar… mas isso é o ego, que não quer fazer por amor, por bem… se tivermos autodisciplina e amarmos o que fazemos, estudamos de forma autodidata e não precisamos de empatar milhares nos cofres dos ministérios. Isto não é teoria. Isto sou eu a experimentar e a corroborar… –. Outra é a de que acho que grande parte dos ensinadores de hoje leram muitos livros, mas poucos experimentaram o ensinamento). A Faculdade é necessária para títulos, mas não é necessária para eu aprender, se eu estiver disposta a seguir os meus talentos… o que eu sei aprendi nos livros e a meditar… a pensar e a ensaiar discursos e debates em frente a um espelho… sou louca? Provavelmente. Voltando à competência. O que é trabalhar “com competência”? Eu chamo-lhe amor ao que eu faço, ao que eu Sou a ajudar os outros… não há maior competência do que essa… eu amar o que estou a fazer e dar isso aos outros, de forma a ajudá-los, porque naquilo que eles precisam (aprender, pensar, mudar…), eu tenho talentos “melhores”, mais aguçados… como eles têm os deles. Ensino os meus alunos que devem usar o que melhor sabem fazer – desenhar, pintar, escrever, ensinar, narrar – para ajudarem os outros e que, dessa forma, o mundo só poderá corresponder com a abundância e amor, porque o mundo responde de acordo com as leis em que eu acredito. Ainda que aquilo em que eu acredito não seja necessariamente verdade… aqui entramos num primeiro – ou último, ou do meio, sei lá – conflito com o livre-arbítrio, porque se eu acredito, escolho acreditar – consciente ou inconscientemente, para o universo é igual de onde vem, desde que haja crença – em leis inverídicas, elas vão manifestar-se para mim e é aí que eu convoco, reclamo para mim, de novo, o lugar de Deus… a ideia mais incompreendida, mais maltratada da História. Ser Deus é escolher. A cada nova escolha, movimento-me em Deus, enquanto ação, despoletada por um pensamento – Deus Ativo e Deus Passivo, respetivamente.


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Chamo a este livro de má educação, porque ele conta exatamente o inverso daquilo que foi por nós considerada boa educação… os livros, o recurso ao ensino intelectual e livresco – eu adoro


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livros, mas não me parece que me sirvam de muito se eu não os pratico, se eu não valido as suas conclusões na prática, se eu me fico pelo filosofar vaidoso e caprichoso do “café filosófico”, como se a Filosofia fosse vã e servisse apenas o mero e vazio capricho de intelectuais sem causa… é isso que eles, o mundo das leis que os homens inventam, nos querem mostrar, fazer acreditar, mas isso não é verdade… a Filosofia pode e deve ser a coisa mais prática e praticável do mundo, basta que, para isso, haja Vontade e entendimento intelectual e cognitivo. A questão é que grande parte dos professores, educadores, jornalistas, todos os que têm funções de Comunicação a cargo, ficam-se pelo domínio intelectual sem entenderem (cognição) o que dizem e sem uma profunda, honesta, humilde e abnegada vontade de ensinar. Para ensinar eu preciso de testar. E não me posso ficar pelas regras… eu tenho de saber explicar as regras… e se não sei, eu preciso de as experimentar, de as testar… todos somos cientistas, praticantes de conhecimento, cada um à sua maneira… Ainda ontem falava sobre Matemática… o problema da Matemática, que grande parte dos estudantes despreza e pede, em prece desesperada – acho que é dos poucos momentos em que os adolescentes se rendem a Deus, o dos altares talvez e não é desse que eu quero falar – para que acabe. A eterna torcida do humano para a vida, o tormento que ela é, acabar. Isso não tem de ser assim. Mas tornando à Matemática, dizia que não poderia ser um problema dos alunos… a isto, um aluno meu retorquiu “mas, professora… a melhor da turma tirou 19.”, ao que lhe respondi: “Que importa, B.? O ensino não pode ser para as estrelas…”, porque, se é, continuamos altamente condicionados e, pior, a limitar a aprendizagem de uma forma vil, clandestina e arrogante, chamando uns de burros – a massa – e a minoria de estrelas. Seria importante que, em vez de se ensinar que operações dentro de parêntesis se realizam primeiro, ou que multiplicações e divisões se fazem em primeiro lugar, deveria ser mostrado com evidência, clareza comprometida, porquê que estas operações são mais importantes, ou de que forma impactam o resultado. Mas isso daria trabalho… seria demasiado filosófico e implicaria que os professores explicassem a Lógica… também não estamos para aí virados, parece-me. É mais fácil dizer que 29 alunos são burros e um é inteligente, porque sabe sem lhe contarem a Verdade. Isto não é verdade, não pode ser. Assim era em Filosofia… a minha professora percebia imenso daquilo, a do secundário… e, como eu costumava dizer, ela tinha subido tão alto que já não sabia descer… isto é a desculpa que se arranja para falar de professores que já não têm paciência para alunos… mesmo as boas alunas da minha turma, que tiravam 18’s e 19’s a tudo, a Filosofia tiravam 13… com suor, chegaram ao 15, creio. Eu tirava 19 e tivera 20 no exame nacional, sem grande esforço… porque aquilo era demasiado simples, demasiado bonito para mim… foi aí, aos 16 anos que comecei a dar explicações de Filosofia e a ver a primeira grande subida da minha vida… um aluno, dois anos mais novo do


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que eu – a autoridade a ensinar não requer diferenciação de idade; antes diferença intelectual percebida associada a uma vontade genuína que o outro aprenda –, sobe de 4 para 12. Depois disso, os fenómenos viriam a repetir-se (desde 8 para 14, passando por 12 para 18). Não, não sou eu que sou extraordinária… ou sou, como todos somos, quando fazemos aquilo que amamos; mas é, sobretudo, isso sim, o Amor, o Amor comprometido com a ajuda, com a vontade verdadeira, material, que o aluno entenda e leve o ensinamento para a vida. Finalizando… eu não entendo nada de Matemática, mas faço isto com a Filosofia… desconstruo, faço fitas com as fórmulas, ridicularizo-as e reduzo-as ao que são, símbolos que se afastam três vezes da realidade – a primeira grande realidade, a Única, a Verdadeira, está em tudo o que é, tudo o que existe e é partilhada pelo Todo, pela Mente única e unicista - toda a gente já teve fenómenos telepáticos ou mediúnicos; é nesse nível que a Mente Única atua; entre outros claro… a Mente capaz de me unir aos meus irmãos, aos meus pares, aos meus iguais… a Mente capaz de reconhecer compaixão, amor, verdade compartilhada – uns chamarão de Deus, outros de Universo, Inteligência Superior… enfim…. Vamos chamar-lhe de a Mente e/ou Deus. Funcionarão como sinónimos. Deus, porque simpatizo com o termo e sei que sou parte dele, dela, da Mente. Nesta mente estão todos ou todo o Conhecimento… está Platão (e Platão é pouco para tudo o que existe, tudo o que é), está Pessoa, estão os Pensamento de Einstein, de Descartes, de Leibniz, de Lucrécio, de Aristóteles (de quem sou cada vez menos fã – moral – de cada vez que me aprofundo no “Ética a Nicómaco”, porque creio que é ali, na “Metafísica” e em “A República” que nasce a manipulação do Ocidente… com tudo o que havia de bom na Filosofia, vamos à noção de ética Aristotélica, onde, para mim, estão as primeiras bases do sistema jurídico atual – o homem precisa de leis, porque se não as tiver fará aquilo que lhe apetece e, por isso, o homem que não age corretamente precisa de castigos, ser punido. Isto é nefasto e contra-Humanidade. O homem não evolui por castigo, nem por medo. O homem evolui por compaixão, por amor, por autoconhecimento… temos sistemas prisionais a abarrotar, cidadãos que saem ainda “piores” de lá e achamos que está tudo bem e normal, que os homens são maus… Isto é preguiça… Comodidade do não-agir. O problema reside em ser mais fácil catalogar homens de bons e maus, o reino continua infantil e selvático e, para além de não termos de enfrentar o terror da mente, do “eu” terreno, para chegar à Mente (Parménides diz isto muito bem em “O Proémio”, mas não o quisemos compreender e preferimos dar noções herméticas do ser que é e do ser que não é e, por isso, nunca foi. Contudo, adverte a Deusa (Deus, no Antigo, era feminino, enquanto agente do passivo delicado, que é a Energia de que fazemos parte, antes dos preceitos católicos), por tudo teremos de passar – pela ilusão, atravessar o caos da mente, para chegar ao que é, à Verdade.


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A propósito disso, partilho uma parte de um artigo meu, ainda de passos frágeis – mais do que os de agora; continuam frágeis, mas já não estão sob a jurisdição de uma universidade, que me diz o que tenho de dizer ou pensar: «Por outro lado, a deusa diz ao jovem que, para conhecer, é necessário que passe por tudo - como que, para passar para a luz, o jovem precisa de passar pela sombra, reconhecer a sombra para que a possa iluminar, talvez; só na ausência de luz pode haver desejo de ver – esta é uma interpretação minha, talvez controversa (Fr. 1: 25). Mas, mais ainda, o jovem deve aprender que o mesmo é ser e pensar, porque apenas o caminho do Ser, do que é, da Verdade, pode ser pensado. A relevância filosófica do poema abre também espaço à questão da dualidade (para além do racionalismo já referido), já que, ordena-lhe, depois, a deusa (Fr. 7: 5): “Contempla as coisas que, embora ausentes” –

ausentes aos olhos, aos sentidos? –, “estão sempre

presentes ao espírito”. Podemos subentender uma dualidade? Era também Parménides um dualista? Pois, as coisas ausentes (a quem, ao quê? - aos membros, aos olhos, ao corpo, à doxa?) estão presentes para o espírito. O que é o espírito? Em “Da Natureza” de José Trindade dos Santos, esta passagem equivale a “Nota também como, o que está longe, pela mente se torna firmemente presente(...)”. O espírito em Mckirahan corresponde a mente em José Trindade dos Santos; mas, afinal, a mente, capaz de tornar firmemente presente o que está longe. estará separada dos membros, da doxa, da aparência e das crenças dos mortais e, de um modo mais dramático ou radical, do corpo? É Parménides quem antecipa ou delineia as primeiras aceções sobre o racionalismo metafísico assente no dualismo? Por outro lado, no fragmento 5, na tradução trabalhada por Mckirahan, “Para mim é indiferente de onde partir: pois ali mesmo retornarei uma vez mais”, e, no fragmento 6, “o caminho de todos é retrocedente”, quer a deusa dizer que chegar ao conhecimento é sempre uma viagem de regresso, de retorno, como se fosse um estádio natural do do Ser, de que os membros, corpos, aparência, homem e mulher conceberam uma separação, que não existe, para retornar ao Uno e, bem assim, o que é nunca deixou de ser, necessitando apenas os humanos de voltar ao que É, que sempre foi? O não ser nunca pode ser, mas teremos de passar pela doxa, visto que nos separámos, para retornar ao que É? Esta interpretação é controversa, mas, nem por isso, impossível de conceber – pois, “para mim é o mesmo por onde haja de começar: pois aí tornarei de novo”.» (Augusto, 2016). Esse é um caminho que muito poucos de nós, por agora, estão dispostos a percorrer. Magoavame, corroía-me por dentro que professores da mais “alta casta filosófica” se limitassem a debitar livros, sem nunca, NUNCA, se terem ajoelhado, sentado e terem ficado uma hora a meditar, a inspirar e expirar, durante um ano que fosse, que falassem sobre o processo


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platónico da Iluminação sem nunca terem tentado, pelo menos, o resultado… acharem que aquilo era tudo fantasioso e que, se atualmente aquelas teorias não teriam cabimento. Magoame mesmo o desrespeito, o não perceberem absolutamente nada do que está ali escrito, ou terem medo de perceber e se aterem ao óbvio… e não me venham falar de tempo, eu comecei isto numa jornada de 60 horas trabalho semanais, quando trabalhava em Marketing à semana e em venda de colchões e sofás ao fim de semana – queria juntar dinheiro e, na altura, acreditava que o dinheiro só vinha mediante sacrifício e muito trabalho; essa é outra crença nefasta para a nossa autossustentabilidade; dinheiro que serviria para pagar um empréstimo de uma pós-graduação, quando ainda acreditava nas leis do mundo: tens de ter muitos estudos, sobretudo de Universidades bem creditadas, para ser alguém (tive de cair em muitas esparrelas para chegar hoje a este livro). Hoje reconheço que Ser não requer ninguém para representar, nenhum indivíduo reconhecido – isso é do “eu”, mente física que quer ter um carro ou ostentar cargos como Professor Catedrático na Faculdade X da Universidade Y ou CEO de uma multinacional ou Artista ou Poeta ou Escritor… tudo é ego, tudo são máscaras que achamos que precisamos para nos entendermos e mostrarmos algo a ser no mundo. O que eu Sou é imenso e muda, aparentemente, flutua, transita na matéria. Hoje eu posso ser a maior professora de Filosofia do Mundo, amanhã posso ser convocada para ser Escritora, Poetisa, Professora de Literatura (representações que o Ser assume para ir ao outro, para o ajudar), Terapeuta (que não é mais do que alguém que ensina a Verdade do mundo… esqueçamos isso de mentes doentes e mentes saudáveis… eu atraio mentes doentes para curar, porque eu própria estou doente e, pelas leis do Universo, se eu ensino a cura dos meus irmãos, pacientes, que são Um comigo no Todo, eu curo-me e, quando eu me curo, ele cura-se. Porque o fenómeno é global e expande-se, molécula a molécula. A Física Quântica, a Cosmologia e muitos livros espirituais explicam bem isto… eu não explico, porque não sei explicar mais do que isto. Transcende-nos, está para lá do nosso entendimento… mesmo a Mecânica Quântica vai falhar, porque o Universo mostra-se conforme pode, conforme sabe que vai ser compreendido… eu só compreendo o que eu estou disponível para compreender. Por muito que a minha professora de Matemática – e ela era boa – me quisesse ensinar equações de 2º grau, eu não compreendi, porque eu escolhi não compreender… teria ganhos em não compreender, porque, achava eu, não ia precisar daquilo para nada… e não precisei até agora (embora não me fizesse mal nenhum ter desenvolvido mais o raciocínio, mas eu Escolhi não compreender; assim é com as leis do Universo, com a nossa Natureza transcendental a Ser, que nos ultrapassa… nós compreendemos, porque e se escolhemos compreender, saber, despir “egoceitos” e receber conceitos que não compreendemos com base lógica, quer dizer, recorrendo à parte do cérebro que raciocina, mas que sentimos… uma luz qualquer que quase


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nos fere os olhos – não é por acaso que Deus, palavra latina (a língua portuguesa foi a única que manteve o étimo igual ao vocábulo latino), surge a partir do Protoindo-Europeu “Diw” ou “Deiwos”, que significa “brilhante” e ou “celeste”. Não é, pois, por acaso, que no final de uma meditação, ou no meio, ou logo no início, ou mesmo quando invocamos entidades “superiores”, nas quais acreditamos, se deem fenómenos de luz, de iluminação, como se uma lanterna, um holofote se acendesse na nossa fronte – é uma luz que vemos de olhos fechados, normalmente, que nos faz sentir Unos a tudo –; é nessa medida que não é surpreendente que a palavra signifique “brilhante”, porque, de facto, é algo que brilha –, o corpo torna-se qualquer coisa que não é habitualmente, flutua ou balanceia com a leveza de uma folha de papel e não interessa nenhuma lição do mundo, nada interessa a não ser sentir o que é ali agora, unidos ao todo… se se chega lá com a mente física? Nem pensar. Isso seria nefasto para o ecossistema... se um CEO ou um governante que quer liderar o mundo tivesse acesso a isto recorrendo ao raciocínio, a Humanidade, o Planeta – se é que ele existe em forma física; pode existir, mas no sistema da Verdade, ele não é físico, ele é uma ideia, só se compreende – já teriam desaparecido. É o amor a moeda de troca do Universo… é a bondade, é o propósito… por que queres aprender? Para governar, ter vantagens? Podes voltar para trás, não vais conseguir… por isso vemos tantos milionários infelizes e a viverem o dia a medicamentos… não há nada de errado com o dinheiro, mas há na forma como ele é visto, conquistado… se é por ego que queremos dinheiro, para ostentar, podemos esquecer… tudo nos será tirado e tirado sob a forma que mais nos dói. Numa altura destas, em que o ser é milionário ficar sem dinheiro pouco ou nada valeria… provavelmente, libertá-lo-ia… mas é porque o Universo é amoroso e quer que o ser aprenda a Verdade (isso também a Vontade do Ser, unida ao Todo), o que move, que lhe vai tirar (na verdade foi o ser que se tirou isso a si próprio) Amor, Afeto, Saúde… qualquer coisa que ele valorize e tenha percebido que o dinheiro, enquanto medalha egóica não oferece. Mais uma vez, não quero que entendam o dinheiro como algo mau… o dinheiro é uma expressão de Deus, da Natureza Divina, do Cosmos em Nós, que nós Somos… mas, como o Amor de uma mulher, se é usado para ostentar, para usurpar, para levar vantagem, vai matar o homem, vai magoá-lo, assim é o dinheiro. Mesmo o Amor, se não for bem compreendido, será usado contra o próprio homem porque isso foi uma escolha sua (tal como a ideia de Deus compreendida erradamente destrói, porque é um poder demasiadamente poderoso para ser mal compreendido; ainda assim está nas nossas mãos, no nosso livre-arbítrio, escolher como compreender e como usar a Ideia). E não é Deus que é mau, é a escolha que é errada. E é na escolha que eu sou Deus em ação. Penso – Deus Passivo -, Escolho – Deus Ativo. Não há como quebrar isto. É o nosso livre-arbítrio. É óbvio que seria muito mais fácil e confortável pensar num Deus fora de mim, a ordenar o mundo… na verdade, seria um ser bem cansado… ele


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Márcia Augusto (Filósofa e Escritora)

opera a partir das nossas mentes, da parte da nossa mente partilhada, Única, a que é capaz de se emocionar com o outro, que se liga ao outro, que gera amor, compaixão, cuidado genuíno com o outro. Se me perguntassem o que é Deus, eu diria cuidar. De mim, dos meus sonhos, dos meus talentos, do que eu acredito, do que eu já não quero mais acreditar, daquilo que eu crio, Deus é amar-me. E quando eu me amo, porque vivemos na dimensão de espelho (se preferirmos essa imagem à da Mente Única e Unicista – porque ela é Única, uma só, e trabalha como uma máquina com o propósito de unir, de gerar resultados unos, que funcionem positivamente, generosamente, benevolentemente, carinhosamente, para todos no Todo), eu, por consequência, amo os meus irmãos, as plantas, as pedras, os rios, tudo o que eu vejo, porque tudo é compartilhado.

Ensaio Sobre A Má Educação  

Ensaio diarístico sobre o pensamento de Márcia Augusto, professora, filósofa e escritora.

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Ensaio diarístico sobre o pensamento de Márcia Augusto, professora, filósofa e escritora.

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