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Julie Buxbaum – O Oposto do Amor

O OPOSTO DO AMOR

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Julie Buxbaum – O Oposto do Amor

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Julie Buxbaum – O Oposto do Amor

Julie Buxbaum Editora Rocco

ABA DA FRENTE: Antes de completar trinta anos, Emily Haxby já tinha conquistado tudo aquilo que a maior parte das mulheres apenas sonha: um diploma em direito na Universidade de Yale, um apartamento pequeno, mas descolado, em um nobre endereço nova-iorquino, uma carreira meteó-rica numa das mais bem-sucedidas firmas de advocacia dos Estados Unidos, e um namorado bonito e apaixonado que está prestes a pedi-la em casamento. Entretanto, mesmo essa vida cinematográfica guarda os seus segredos. Emily está cansada de resolver casos jurídicos duvidosos para grandes empresas, enquanto precisa lidar com chefes loucos para trocar promoções por "favores" sexuais, e colegas dispostas a jogar sujo para puxar o seu tapete. Ela também não tem certeza se Andrew, seu namorado aparentemente perfeito, é o homem certo.

ABA DE TRÁS:

Assim que Emily decide terminar com Andrew, e jogar seu emprego para o alto, descobre que seu avô, a pessoa que mais ama no mundo, está sofrendo de Alzheimer e perdendo o jogo contra a morte. As lembranças do pai ausente e da mãe, morta quando Emily tinha apenas treze anos, vêm à tona e obrigam-na a reavaliar toda a sua vida. Agora, Emily precisa lidar com uma série de perdas, aprendendo a sobreviver ao inevitável e lutar pelo que ainda pode ser recuperado. O oposto do amor é um romance divertido e maduro, que marca a impressionante estréia literária de Julie Buxbaum.

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JULIE BUXBAUM formou-se na Universidade da Pensilvânia e na Harvard Law School. O oposto do amor é seu romance de estréia.

"O oposto do amor é emocionante, arrojado e escrito com muita sabedoria. Eu amei este livro." Marian Keyes, autora dos best-sellers Melancia e Férias!

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Para o meu pai, com amor e gratidão. E para a minha mãe, que é amada e lembrada, todos os dias.

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PRÓLOGO Sua foto já está pendurada na geladeira. Preto e branco, 7X12, sem pose, descontraída — você, encolhida, de perfil Você, totalmente contida dentro de mim. Aqui está o que eu sei: como quantidades imensas de carne vermelha, xingo religiosamente, canto com desafino, mas com convicção. Choro quando me convém, rio quando é inoportuno, leio o obituário e os anúncios de casamentos do The New York Times, em voz alta, nessa ordem. Você: você pesa menos que um litro de leite. Você não é mais uma teoria. Você é uma menina. Quando o médico nos disse, bateu palmas, como se estivesse levando o crédito pelo negócio todo. Como se fosse ele a transformá-la num acontecimento exclamatório, do intangível ao concreto, um bebezinho. Eu não queria desapontá-lo, mas o tempo todo nós sabíamos que eu estava esperando uma filha, desde o primeiro segundo em que descobri que estava grávida, da mesma forma que sabíamos que lhe daríamos o nome de Charlotte. (Seu pai fica me corrigindo — nós estamos grávidos, diz ele, não apenas você —, mas será que os tornozelos dele estão tão inchados aponto de parecer estar em prisão domiciliar? São os seios dele que estão pesados como balões cheios de água? Ele pode estar esperando, mas eu estou grávida.) — Um milhão de mulheres já fizeram xixi nessas tirinhas. Você também pode fazer, Emily. — Foi isso que seu pai me disse para me convencer a ir ao banheiro e oficializar o que nós suspeitávamos. Mas eu estava nervosa e demorou uma hora e meia até que eu chegasse perto do vaso e mais uma hora depois disso, pois ele entrou comigo e ficou com crise de pânico. Mas eu fiz, como os milhões de mulheres antes de mim, depois houve um sinal positivo que, após checar três vezes na caixa, e confirmar com o número 0800, e fazer xixi em mais algumas tirinhas, nos disse tudo que precisávamos saber. Ali eu compreendi, de uma forma que ia além dos desejos, de uma forma que pode ter beirado a necessidade, que você seria uma menina. Eu também entendi que outras noites como esta viriam, e quase torci para que chegassem, quando eu ficaria sentada enquanto seu pai dormisse, quando minhas emoções oscilariam entre a empolgação e o medo. Seu pai, que efeito de um material mais ensolarado, que canta no chuveiro e não bate na madeira, cujo corpo agora está encolhido junto a mim, com os olhos remexendo enquanto sonha com super-heróis e discursos no recebimento de prêmios, acha que minha necessidade de documentar minha vida para você, com palavras e fotografias, é uma indulgência mórbida. Ele se pergunta por que flerto com os paradoxos fúteis da vida — a linha entre o amor e seu oposto, a linha entre pegar ou largar. Mas realmente não é tão simples assim. Essa forma crônica de fazer crônica, o modo como escrevo, tudo isso está longe de ser racional. Às vezes, tento rebobinar vinte semanas, até mais, para lembrar de quando você era uma idéia, algo com que sonhávamos na escuridão, quando o sono não vinha. Mas, mesmo naquela época - até em seu pré-mundo —, eu sentia essa compulsão de preservar a nós todos numa pilha de lembranças, tornando-nos indeléveis. Uma forma de garantir a travessia de qualquer futuro divisor temporal: você sempre me encontrará aqui, nestas páginas, até muito depois que eu tiver partido. E vamos ser honestas, quem sabe quanto tempo estarei por aqui? Nós, mulheres da família Haxby, não somos conhecidas por nossa longevidade. Mas isso está meio fora de questão, pois, independentemente de quando eu for, pode ser aos quarenta e dois ou aos oitenta e dois, você esquecerá partes inteiras de mim. Essa é a Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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benção e a maldição da perda: você não pode escolher o que cai na inevitável dissolução da lembrança, nem o que fica com você, nem o que irá assombrá-la à noite, sua cabeça pesada de lembranças, enquanto seu marido sonha com paredes de escalada e coxas cobertas de lycra. Minha própria mãe, cujo nome lhe dei, ficou perdida nas piadas recicladas e desfocadas nos ângulos de algumas fotografias mal tiradas. Então, não há tanto perdido nem deixado para trás; é mais como se as coisas houvessem sido distorcidas e destiladas. E, embora eu encontre consolo nesta cópia retocada da pessoa que ela foi um dia, em noites como estas, anseio pelo verdadeiro. A realidade. Nua e crua. Talvez o resultado da perda - as migalhas de lembranças - tenha, de alguma maneira, me amedrontado mais do que a perda em si. A verdade é que eu nunca aprendi a andar de bicicleta porque, entre outras razões, é algo que nunca se esquece. Esta sou eu: alguém que ao mesmo tempo anseia por algo e teme pelo compromisso de lembrar. Há o esquecimento, a desintegração da memória, de pouquinho em pouquinho; e há a impossibilidade de esquecer, a marca em cicatriz, com todas as suas camadas. Ambos me assombram de suas maneiras próprias. Você jamais conhecerá a pessoa que um dia eu fui, aquela que existiu antes de você, de algumas formas, antes mesmo que eu fosse eu. Mas esta história de quem eu me tornei, esta história sobre nós, é seu legado, tanto quanto meu. E agora que seu retrato está na geladeira, agora que eu posso interpretar meu papel de boneca russa, agora que não haverá mais vida para mim num mundo sem você, eu lhe passo tudo que posso preservar: esta história de como nos tornamos uma família — seu pai e eu, Ruth e vovô Jack, meu próprio pai, que também está acordado agora, ocupado na montagem do berço com babados cor-de-rosa. Esta história é a linha divisória onde vivo e a qual adoro, e deixo de herança, aquela que está entre a lembrança e o esquecimento, o compromisso e a libertação, ser deixada e deixar para trás. A linha, sempre a linha, a mesma linha que me separa de minha mãe. A mesma linha que me separa de você.

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Capítulo 1 Ontem à noite, eu sonhei que picava Andrew em cem pedacinhos, como um chefào Benihana, e os comia, um por um. Ele tinha gosto de frango. Depois, eu me senti ligeiramente decepcionada. Eu vinha sentindo vontade de comer carne. Quero esquecer esse sonho. Vou bloquear a textura de Andrew à moo shu. A coceira por engoli-lo em seco. Vou apagar isso completamente, sem ecos prolongados, nem déjà vus irritantes, apesar da possibilidade de meu sonho inevitavelmente ter me trazido a este momento. Porque eu já sei que, ao contrário do sonho — um beco sem saída -, isso vai permanecer. Estou vivendo uma lembrança inevitável. Hoje, eu termino com Andrew num restaurante que tem lápis de cera na mesa e cascas de amendoim no chão. Uma jovem bêbada está no meio de uma festa de despedida de solteira, vestindo pouco mais que um chapéu de caubói e pingentes, e tenta organizar uma fila de dançarinos. Agora eu percebo que deveria ter esperado por um cenário melhor. Dá a impressão de que nosso relacionamento se resuma a algumas cervejas e uma boa porção de asinhas meio chamuscadas. Não era esse o efeito que eu estava buscando. Imaginei que nossa separação seria algo sincero e civilizado, talvez até um pouquinho romântico. O rompimento fantasioso se passava em minha cabeça feito uma pantomima; sem explicações, apenas sorrisos tristes, um beijo de despedida no rosto, um aceno por cima do ombro. Uma pontada de nostalgia e o torpor da libertação, uma substância inflamável, talvez, mas algo que ambos entenderíamos, pelo qual ficaríamos gratos. Em vez disso, Andrew me olha de maneira estranha, como se eu fosse uma estrangeira que ele acabou de conhecer e cujo sotaque não consegue entender. Eu me recuso a olhá-lo nos olhos. Tento abrandar o ímpeto de sair correndo pela Terceira Avenida, de me afogar na multidão saindo dos bares. Certamente seria melhor do que sentir a confusão de Andrew reverberando em sua pele, como mau cheiro. Eu prendo as pernas em minha banqueta de bar e olho para uma gotinha de molho barbecue no lábio superior de Andrew. Isso ajuda a abrandar a minha culpa. Como eu poderia levar a sério um homem que anda por aí com comida na cara? Para ser justa, Andrew não está andando. Ele permanece ali, empoleirado, estarrecido. E eu também estou enfeitada com temperos. O ketchup no meu top branco faz parecer que meu coração está vazando. - Isso nunca seria algo do tipo felizes para sempre. Você sabia disso - eu digo, embora esteja claro, pelo silêncio dele, e pelos últimos dias, que ele não sabia. Fico imaginando se ele sente vontade de me bater. Quase desejo que sim. Agora parece estranho que eu não tivesse percebido esse momento a caminho, que eu não tivesse percebido que estava chegando, que eu não tivesse começado a planejar antes de ontem. Eu geralmente sou boa com finalizações - na verdade, até me orgulho delas - e sempre acho as pessoas falsas quando afirmam que um rompimento surgiu do nada. Nada vem do nada, exceto, talvez, os acidentes bizarros. Ou câncer. E até para essas coisas você deve estar preparado. Eu poderia ter simplesmente deixado o fim de semana rolar, seguir o plano original com precisão militar e acordar amanhã com Andrew em minha cama, e seus braços ao redor dos meus ombros. Mais tarde, no trabalho, eu poderia contar alguma piada sobre o Dia do Trabalho. Porém, embora eu acredite firmemente que uma árvore não tomba na floresta até que alguém conte uma história interessante a respeito, agora eu percebo que não haverá muitas notícias boas para compartilhar amanhã. Pelo menos engraçadas, não. Eu me assegurei disso.

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Hoje, durante os momentos finais do feriado, eu me encontro sentada diante de Andrew, o homem com quem passei os dois últimos anos, tentando explicar por que precisamos parar de nos ver nus. Quero dizer a ele que o problema não é meramente nossas idades - eu tenho vinte e nove e Andrew tem trinta e um. Estamos agindo sob uma ilusão cultural coletiva que exige uma ligação aleatória depois do marco de um quarto de vida, qualquer um acaba algemado a quem aterrissar ao seu lado durante uma dança das cadeiras. Essa é a única forma com que consigo explicar como Andrew passou tanto dos limites ontem, com suas intimações de um anel, com seus indícios de um pedido de casamento iminente. Mas eu não digo nada disso em voz alta, é claro. As palavras parecem vagas, como uma desculpa, talvez, parecem demais com a verdade. Nós nunca fomos um daqueles casais inclinados à fantasia, que presumiam um final feliz, ou escolhem no primeiro encontro o nome do filho que ainda não nasceu. Na verdade, nosso primeiro encontro foi num restaurante notoriamente parecido com este, e em vez de falar do futuro, ou até de nós mesmos, apostamos quem comeria mais asinhas de frango apimentadas. Nós saímos do restaurante com os lábios tão inchados que quando ele me deu um beijo de boa noite eu quase não consegui sentir. Quatro meses depois, ele admitiu ter se apressado para terminar o encontro porque as asinhas lhe deram dor de barriga. Levei mais dois meses para confessar que deixei que ele ganhasse. Ele não aceitou isso muito bem. No entanto, sempre que o futuro de fato surgia, sempre incluíamos o conveniente "se" em nosso vocabulário, diminuindo o peso do que viesse em seguida, deixando a coisa menos carregada. - Se um dia tivermos filhos, eu espero que eles tenham os seus olhos e os meus dedos dos pés - eu dizia, enquanto traçava círculos na barriga de Andrew, com a ponta dos dedos. - Se um dia tivermos filhos, eu espero que eles tenham seus intestinos. Assim podemos inscrevê-los em competições de comilança e nos aposentar no México com o que ganharem. - Ele puxava meu cabelo num rabo-de-cavalo, depois deixava-o escorregar pelas mãos, como se as mechas fossem só emprestadas. Talvez a lição aqui seja prestar atenção. Sempre há uma razão, não é? Tem de ser assim, pois, se não houvesse, que sentido teria? Então, talvez desta vez eu deva ser vigilante, tomar cuidado. Porque de alguma forma, em alguma hora de ontem, sem que eu notasse, sem que eu percebesse, nossa marca de pênalti mudou. O plano era caminharmos até o Central Park com nossos amigos, Daniel e Kate, para celebrarmos o nosso tempo livre, propositadamente matando o tempo. A cortina de umidade de Manhattan havia sido substituída por uma brisa sussurrante e, depois de um agosto sufocante, estávamos aliviados entre as estações. Como no restante da cidade havia lugares melhores para estar durante o, feriadão, aproveitamos as calçadas só para nós. Andrew e eu nos entrelaçávamos enquanto andávamos pela rua, trocando cotoveladas nas costelas, esticando o pé para tropeçarmos em nós mesmos, beliscando a bochecha um do outro, num joguinho de quem pega por último. Eu sentia um prazer puro, não aquela felicidade que estremece. Nada do alarde da ansiedade ou da queda livre em meu estômago para avisar o que estava por vir. Daniel e Kate caminhavam à nossa frente, O anel de noivado dela reluzia de forma desproporcional ao seu tamanho, ocasionalmente atingido pelo sol, e lançava um show de cores na calçada. Nossos amigos mais próximos - ontem nós ainda podíamos dizer "nossos", ainda éramos "nós" — e, de alguma forma, mais que isso, eles também eram símbolos de como as coisas podem ser para algumas pessoas, como o compromisso pode parecer fácil. Daniel e Kate eram adultos liderando essa brigada, apesar de estar claro que nós deveríamos saborear esse restinho de verão, antes que as árvores se despissem de suas folhas para receber a neve.

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Depois que eu peguei Andrew num último movimento de 'te peguei' - a manobra que nunca falha na distração - ele acabou com o jogo e entrelaçou os dedos nos meus. Nós caminhamos desse jeito por um tempo, de mãos dadas, até que eu o senti brincar com meu dedo vazio, segurando-o com a mão toda, como se fosse uma criança. E, apesar de continuar quieto, era como se ele falasse as palavras em voz alta. Ele ia me pedir em casamento. Os pensamentos dele, eu sabia, eram inteiramente metódicos - as formas de fazer o pedido, sem o "se", ou o "porquê". Arranjar um dia livre para pegar o trem até Connecticut a fim de pedir a permissão de meu pai, ou ir até Riverdale pedir ao meu avô Jack. Mencionar o nome de meu restaurante predileto e o joalheiro da família dele. Nenhuma meditação sobre a maneira como ele me conhece bem o suficiente para unir nossos futuros, nenhuma preocupação por não conseguir decifrar os pensamentos infinitos que passam pelo meu cérebro inacessível a qualquer momento. Mas, no fim das contas, esse é o Andrew. Alguém que não se incomoda muito com o "se", nem com o "porquê". Antes que eu pudesse pensar se o meu pânico crescente era meramente resultado de uma ilusão, ele me puxou até uma vitrine de joalheria, com o braço atrás de minhas costas. Eu imaginei os anéis piscando para mim, rindo do meu desconforto. - Você gosta de alguma coisa? - perguntou ele. - Aquela pulseira é bonita - eu disse. - Ah, e aqueles brincos são maravilhosos. Eu gosto dos pingentes. Nunca uso nada pen¬durado. E, olhe, eles dão garantia do dinheiro de volta. Eu gosto quando se pode ter o dinheiro de volta. - E os anéis? - Brilham demais. Eu prefiro os brincos de pingente. - Ora, vamos, que tipo de lapidação você gosta? Princesa, oval, marquesa? - O homem claramente fizera seu dever de casa. Eu percebi que essa não era a primeira vez que ele pensava nisso. Porra. - Eu não sei a diferença. Não é meu estilo - eu disse, o que era verdade. Eu achava que Marquesa era uma ilha no Caribe. Então, por não saber mais o que fazer, eu apontei para longe. - Olhe! - Eu parecia uma criancinha que acabou de aprender uma palavra nova. - Um cachorrinho. ***************** O restante da tarde se desenrolou como uma comédia com um bom roteiro escrito, nós quatro jogando um jogo bobo, fazendo macaquices no meio do parque, atacando uns aos outros sem necessidade alguma. Eu talvez fosse a mais tola de todos, compensando excessivamente o terror que eu sentia, de alguma maneira acreditando que a palhaçada poderia adiar o inevitável. Mas realmente não havia saída. Eu prometera não trabalhar nesse fim de semana, tinha até deixado "acidentalmente" o meu BlackBerry no escritório, algo que eu jamais fizera antes, ao longo dos meus quase cinco anos como advogada da Altman, Pryor & Tisch, LLP. Eu estava sem rédeas, o que parecera uma boa idéia antes do fim de semana, quando eu pensei que precisava de uma folga do trabalho, não da minha vida. Eu não sabia que ia querer mergulhar de volta na pilha de papéis de minha mesa, sair correndo para um lugar onde não há espaço para palavras como "nosso" e "nós". Mas trabalhar seria um mero adiamento. Eu tinha tomado minha decisão em frente à Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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joalheria. Eu ia terminar com Andrew antes que ele se ajoelhasse e fizesse a pergunta impossível, Eu estilhaçaria nosso mundo confortável e ingênuo como o garoto que brinca com um revólver na sessão da tarde. Entretanto, o auto-conhecimento é algo escorregadio quando nos deparamos com uma situação regida pelo "supostamente". Eu entendo que supostamente deveria querer me casar com Andrew. Que algumas mulheres esperam a vida toda para estar diante de um homem de joelhos, ou fantasiam sobre uma pedra reluzente que, em silêncio, anuncia ao mundo: Veja, alguém me ama, alguém me escolheu. Que algumas mulheres sonham com aquela valsa com seus maridos antes que a multidão se lance à vigorosa "YMCA". Ou, melhor ainda, que quase todas nós queremos alguém que seja nosso próprio parceiro de crime, que nos pegue no aeroporto para nos levar para casa, para nos animar quando formos bem-sucedidas e segurar nosso cabelo quando vomitarmos. E, se eu for honesta com você, eu quero isso, sim, de uma forma ou de outra. Mas casar? Com Andrew? Até que a morte nos separe? Não posso fazer isso. Eu não seria nada além de uma fraude, fingindo ser adulta, uma farsante interpretando o papel de noiva. Nem eu mesma quero passar o resto de minha vida comigo. Como é que Andrew pode querer? E como você explica a alguém que ama que não pode se dar a ele, porque, se o fizesse, não teria certeza de quem estaria dando? Que você não tem certeza nem do quanto valem as suas palavras? Você não pode dizer isso a alguém, principalmente alguém que você ama. Portanto, eu não digo. Em vez disso, faço a coisa certa. Eu minto. - Bem, então eu acho que é isso - Andrew diz para mim, com uma voz quase inaudível, acima da música do fonógrafo. Seu tom era duro e resignado, sem qualquer menção de súplica. Ele lida com isso de maneira profissional. Aceitação clínica. - Eu sinto muito. Andrew apenas consente com a cabeça, como se ele subitamente se sentisse sonolento e sua cabeça fosse pesada demais para carregar. - Eu quero que você saiba que me importo muito com você - digo, como se estivesse lendo num livro sobre como terminar com alguém. Eu tenho até a ousadia de acrescentar: — Não é você, sou eu. Andrew solta uma risada sufocada. Eu finalmente o provoquei. Ele passou da confusão para a tristeza e agora, finalmente, para o que me deixa mais à vontade, raiva. - Você está certa pra cacete. É você. Não se preocupe. Eu sei que tudo é sobre você. — Ele pega a jaqueta e está prestes a sair. Eu quero impedi-lo, para prolongar esse momento terrível e decisivo. Mas não há mais nada a ser dito. - Sinto muito - sussurro, conforme ele joga algumas notas sobre a mesa. - Sinto mesmo. Isso tira o ar da cena e a tensão nos ombros dele abranda, com o som das minhas palavras. - Eu sei - diz ele, e seus olhos perfuram os meus. Surpreendentemente, eles não estão repletos de raiva, nem tristeza, nem amor, mas têm algo que parece muito com pena. Andrew limpa a garganta, me dá um beijo na bochecha e sai andando calmamente do restaurante. Em segundos, ele será absorvido pelo movimento da Terceira Avenida. E eu que fico sentada, sozinha, olhando a porta e mastigando os ossinhos das asas que ele deixou.

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***************** Eu caminho as vinte quadras até meu apartamento, e isso me ajuda a arejar a cabeça. O ar coca em meu nariz, outra dica de que em breve o outono aliviará o verão. Eu pego a Avenida Madison e olho a multidão aproveitando os últimos momentos do fim de semana prolongado desta temporada, sentada com coquetéis brilhantes em tablados provisórios no nível da rua. Eu os invejo por saborea¬rem o último gosto de liberdade antes da semana de trabalho. Por um instante, penso em parar para tomar um cosmopolitan, num bar chique; talvez eu possa fingir ser um deles, em camuflagem, e adiar qualquer sensação por mais uma ou duas horas. Em vez disso, eu sigo em frente. Conforme caminho, focalizo os números das ruas. A contagem desacelera meus pensamentos. Décima quarta, você fez o que tinha que fazer. Décima terceira, nós não éramos para ser. Décima segunda, isso é culpa minha. Décima primeira, eu fiz isso. Eu me consolo com o ritmo e o fato de ser a única responsável pela forma como as coisas se desenrolaram. Sei que deixei o relacionamento ir longe demais. Deveria ter dado tchau há meses, quando magoaria menos aos dois, muito antes de ser levada até uma vitrine de joalheria. Ao menos, penso eu, consegui recobrar o controle. Décima, as coisas estão sob controle. Nona, você vai ficar bem. Oitava, ele teria partido de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. Ele a deixaria de qualquer forma. Quando chego ao meu prédio, Robert, meu porteiro, me acompanha do lado de dentro. Ele tem setenta e poucos anos, com uma cabeleira branca cômica que combina com a barba. Parece um Deus benevolente, ou um Papai Noel e tem a mesma tendência a interferir. A presença constante de Robert, e até mesmo as suas perguntas rápidas, confortam os moradores do prédio, quase todo composto por quitinetes; nós sabemos que alguém estará lá ao chegarmos em casa, que alguém perguntará como estamos, alguém irá notar se não voltarmos. - Onde está sua outra metade essa noite? - pergunta ele. - Na casa dele. - Ele sorri para mim e sai do caminho para que eu entre no elevador vazio. — Tenha uma boa-noite. - Boa-noite, Emily. De agora em diante, meu dia acabará bem aqui. Exatamente na porta da frente. A voz de Robert será a última voz que eu ouvirei na maioria das noites. Seu rosto será o último rosto que verei.

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Capítulo 2 Na primeira vez que Andrew riu dormindo, eu deveria tê-lo acordado e terminado com ele, ali, na hora. Ninguém merece ser tão feliz. Mas, em vez disso, eu me aconcheguei a ele, colei a barriga junto às suas costas e absorvi as vibrações. Eu tinha esperanças de que aquilo que o tornava tão livre, tão puro, fosse contagiante. Não era. Quando durmo à noite, eu sonho em preto-e-branco. Vejo imagens de homens me perseguindo em labirintos circulares, sonho que estou sendo tragada por um esgoto em formato de envelope, de desaparecer em meio à multidão do Times Square. Em alguns dias, meus sonhos de ansiedade são prosaicos, do tipo que todo mundo já sonhou: dentes caindo, apareço para trabalhar nua, gritando até a garganta secar. Até os mais excitantes podem surgir, mudando de um gênero romântico para o noir. Nesses sonhos, eu me levanto, depois de um sexo apaixonado com um estranho, deixo a fumaça do cigarro sair por uma janela escura e olho a pessoa que esqueci, e com quem agi mal. Nem sempre eu tenho pesadelos. Às vezes, a noite traz apenas um doce alívio. Mas posso lhe dizer isso: eu posso ter rido de meus sonhos, na manhã seguinte, do deboche de seus efeitos especiais de pornô classe B, mas nunca ri durante o sono. Eu simplesmente não sou tão feliz assim. Na noite passada, eu estava deitada no meio de minha cama tamanho queen, me esforçando para recuperar o espaço, para eliminar qualquer evidência de um dia ter sido dividida em dois lados. Eu aliso a ruga que Andrew deixou no lençol, apenas doze horas antes, esticando, vigorosamente. O sono não veio. O despertador toca às oito e eu me arrasto para fora da cama. Uma rápida olhada no espelho confirma o que eu já sabia: estou com uma cara de merda. Tenho olheiras enormes, como se alguém tivesse me atacado com uma caneta hidrográfica roxa. Meu estômago dói pela sensação de vazio. Você fez isso, eu digo a mim mesma. Não vá começar a sentir pena de si mesma agora, Supere. Eu visto meu terninho preto predileto que sempre dá a sensação de uma fantasia, pelo listrado alongando meu corpo, o corte consegue ser tanto profissional quanto sexy. Ao vesti-lo, eu me transformo no personagem de quadrinhos que Andrew e eu costumávamos chamar, numa dupla ressonante, de "suuuuper advo¬gada". Eu o coloco hoje, para ter um impulso a mais. Meu trajeto parece estranhamente solitário. O trem número 6, normalmente abarrotado no horário que chego à rua Bieecker, só tem outras duas pessoas: um sem-teto, com os dedos manchados de tinta e uma pilha de jornal no colo, e uma jovem de saia e tênis, lendo Harry Potter. Nenhum dos dois olha para cima quando eu me sento. O trem me deixa na Grand Central, e eu ando mais duas quadras até o meu prédio, um arranha-céu bem parecido com seus vizinhos, com milhares de janelas que não abrem. Elas são lacradas para evitar que as pessoas pulem. Eu mostro meu crachá de segurança para Marge, a guarda da roleta. Ela deve ter mais de l,80m, tanto de altura quanto de largura, seus bíceps e coxas indistinguíveis. Um palíndromo humano. Seu rosto também tem uma simetria misteriosa, com feições formadas por linhas paralelas; seus olhos são perto demais do nariz, espelhando os lábios - fino e grosso, apertados no meio.

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Todos os dias, Marge usa um conjunto azul-marinho de poliéster que repuxa no pescoço, botas com biqueira de alumínio e batom rosa choque, este último, provavelmente comprado para lutar com a meia-idade que se aproxima logo, ou acaba de chegar. Eu gostaria de ter a presença de Marge. Quando ela adentra uma sala, imagino que as pessoas notem. Essa é uma mulher, eles pensam, que poderia me dar uma surra em dez segundos ou menos. Essa é uma mulher, pensam eles, cuja maquiagem nem ia ficar borrada. Eu passei pela Marge ao menos duas vezes por dia, cinco dias por semana, durante os cinco últimos anos, mais do que 2.600 vezes no total — uma vez eu contei — e ela nunca me disse bom-dia. Logo que comecei a trabalhar no Altman, Pryor & Tisch, de alguma forma era quase desumano que nosso encontro diário passasse despercebido, e passou a ser minha missão fazer com que Marge me notasse. Era uma forma de tornar minha vida profissional mais interessante, já que o restante de minhas horas eram passadas trancadas em salas de reunião revisando milhões de documentos de contabilidade para um caso de fraude. Eu descobri, com meu amigo Mason, que alguns de meus colegas homens atenuavam sua culpa ao se masturbarem no banheiro. Agora, é claro que evito apertar a mão deles no escritório. Marge parecia um projeto mais apropriado. Eu estava tentando esculpir minha própria Nova York, mais amistosa. Minhas táticas eram inofensivas. Eu tentava sorrir e usar o nome dela, elogiar seu cabelo. Uma vez eu até tentei cutucá-la. Admito que isso foi um erro. Mas, apesar de meu esforço destemido, Marge nunca disse uma única palavra para mim. Jamais sequer sorriu para mim. Eu gosto de acreditar que isso foi por ela ter sido treinada no Palácio Buckingham, e se tivesse que falar teria um sotaque britânico, não o Brooklynês dos outros guardas. Eu gosto de acreditar que é seu dever cívico olhar diretamente à frente. Depois de aproximadamente um ano, eu finalmente desisti de minha campanha. Simplesmente fiquei sem energia. Nova York parece fazer isso com as pessoas; acaba finalmente te esgotando até que você faça as coisas do jeito dela. Agora eu simplesmente aceno a cabeça para Marge, quando passo e imagino que ela sinta algo que lembre uma afeição maternal por mim. Quando chego ao meu escritório, Karen, minha secretária, já deixou doze recados em minha cadeira, com um lembrete que diz: Boa Sorte!!!! Quatro pontos de exclamação, um para cada recado de um sócio notavelmente difícil, Carl MacKinnon, exigindo uma explicação por eu não ter respondido aos seus seis e-mails durante o fim de semana. Eu escrevo uma mensagem rápida, passiva e agressiva, com muito menos deferência do que o habituai. Hoje eu simplesmente não estou a fim de ficar de quatro. Para: Carl R. MacKinnon, APT De: Emily M. Haxby, APT Assunto: FIM DE SEMANA DE FERIADO Acidentalmente, deixei o BlackBerry no escritório durante o fim de semana, portanto, não vi todos os seus e-mails até essa manhã. Em resposta às suas perguntas urgentes, a data de nossa audiência no caso Quinn é 29 de agosto de 2010, em aproximadamente dois anos. E, não, eu ainda não comecei a preparar. De: Carl R. MacKinnon, APT Para: Emily M. Haxby, APT Assunto: Re: FIM DE SEMANA DE FERIADO

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Emily, você já está na empresa tempo suficiente para saber que esquecer seu BlackBerry "acidentalmente" é uma desculpa inaceitável. Esteja em meu escritório ao meio-dia. Temos assuntos a discutir. Há alguns anos, o e-mail de Carl teria me deixado em prantos; hoje, eu rio para extravasar. Se ele quiser me despedir ao meio-dia, será uma benção. De: Emily M. Haxby, APT Para: Mason C. Shaw, APT Assunto: FW: Re: FIM DE SEMANA DE FERIADO Opa. Mason, você poderia, por favor, arranjar para que Marge dê uma surra no Carl? Aposto que ela te deixaria assistir.

De: Mason C. Shaw, APT Para: Emily M. Haxby, APT Assunto: Re: FW: Re: FIM DE SEMANA DE FERIADO Farei isso. Mas, pelo que ouvi sobre Carl, acho que ele pode gostar. Ele é o tipo de cara que gosta de uma boa surra. Almoçamos na quinta? Graças a Deus pelo Mason. Às quatro da manhã - quando estou me afogando numa piscina de textos, sem ter mais que poucas horas de sono ao longo da semana - Mason é aquele que faz ótimas imitações dos sócios seniores que continuam a me fazer rir. Ele consegue transformar o absurdo de nossa existência diária na APT uma fonte inesgotável de diversão, manipulando o tédio de maneira mágica, como se fosse uma modalidade esportiva. Mason é o tipo de cara que aproveitou todas as pequenas vitórias do Segundo Grau simultaneamente, foi capitão do time de futebol, presidente do corpo estudantil e desvirginou todo o grupo de animadoras de torcida — mas, em vez de atingir o pico, como tantos reis das formaturas do passado, ele continuou a pilhagem até se formar, em primeiro lugar, em sua turma de direito, em Stanford. Ele é um monogamista em série, de curta atenção, significa que sempre tem namorada, mas nunca por tempo suficiente para que eu precise lembrar o nome dela. Elas geralmente são permutáveis, de qualquer forma: louras e siliconadas, incrustadas de objetos brilhosos. Exigem pouco e obtêm menos ainda. Não tenho certeza se meu caminho teria cruzado com o de Mason para que nos tornássemos amigos fora do mundo bizarro da vida do escritório de advocacia, mas agora que somos, ele é um amigo fiel. De: Emily M. Haxby, APT Para: Mason C. Shaw, APT Assunto: Re: Re: FW: Re: FIM DE SEMANA DE FERIADO Não sei se ainda terei meu emprego na quinta. Se tiver, estamos combinados. Se não, você que paga.

Antes que eu tenha tempo de responder às outras mensagens de trabalho e sair da cratera que criei para mim mesma, ao não verificar o e-mail durante o fim de semana, Kate passa pelo meu escritório e enfia a cabeça na porta. Seus cabelos estão puxados, num coque, com uma faixa na cabeça, e sua camisa social está para dentro, com um cinto. Tudo no devido lugar. Mas Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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sua expressão é suavizada pelos pés-de-galinha nos cantos dos olhos; de alguma forma, as rugas fazem com que ela pareça mais jovem, até brincalhona. - Emi - sussurra ela -, o que você fez? No início, eu penso que ela está falando sobre minha mentira para Carl, e eu sinto medo de realmente poder ser despedida. Como ela soube tão rápido? Como vou pagar o aluguel? Mas depois lembrei da noite anterior e vejo a expressão de tristeza em seu rosto, como se eu tivesse terminado com ela, e não com Andrew. - Imagino que as boas noticias se espalham rápido. - A minha voz inexpressiva desmente o meu sorriso. - Andrew ligou para Daniel ontem à noite. - Ah. Kate senta à minha frente e fecha a porta, empurrando-a com seu salto agulha. - Estou preocupada com você. Não entendi. - Eu sei. Eu também não tenho muita certeza se entendi. - Mas vocês eram felizes. - Acho que sim, às vezes. Mas casar? Não é uma boa idéia. – As sobrancelhas de Kate se juntam e ela me olha, me olha de verdade, como se subitamente não tivesse certeza de quem sou. Ainda estou aqui, ainda estou aqui, eu quero dizer, mas não digo, porque não estou surpresa por sua reação. Eu sabia que ela ficaria aborrecida, até zangada comigo por terminar com Andrew, já que foi ela quem nos aproximou. Kate arranjou nosso encontro às escuras, sob a teoria de que faria sentido selar o vazio da amizade, sendo apenas lógico que uma de suas melhores amigas e um dos melhores amigos de seu noivo fossem a combinação perfeita. Ela não estava tão errada. Logo que Kate surgiu com a idéia, ela descreveu Andrew como "um ótimo partido", o que logo me deixou relutante em conhecê-lo. Embora todos os que eu conhecia parecessem estar sossegando com alguém, ou em busca disso, eu nunca fui a uma expedição em alto-mar para pescar um namorado. E um ótimo partido, bem, isso parecia ser pedir dor de cabeça. Embora Kate não acreditasse em mim, eu gostava de ficar sozinha. Como filha única de pais facilmente dispersivos, eu nunca tive problemas em me divertir. Preferia as coisas dessa forma. Quando eu era criança, mesmo antes da morte de minha mãe, eu ficava em meu quarto e escrevia com hidrográfica 'VÁ EMBORA', na porta, passava a maior parte do meu tempo enfurnada, lendo os mistérios de Nancy Drew, um lugar onde as crianças pareciam mais espertas e capazes do que os adultos. Eu mal notava quando meus pais jogavam beijos ao saírem pela porta, para alguma festa, imperturbáveis em seu desejo de entrarem num mundo onde eu não tinha altura para ser aceita. Como adulta, eu não mudei tanto assim. Mas, para ser justa, Kate estava absolutamente certa; Andrew era um bom partido. Irresistível, se eu estivesse inclinada a resistir, o que não era o caso. Ele preenche todos os requisitos: é inteligente, bem-sucedido e engraçado. Bonito, mas não de matar. Seu olho esquerdo é ligeiramente mais baixo que o direito, e um jeitinho cativante de inclinar a cabeça para igualá-los. Ele sempre tira o lixo, troca o rolo de papel higiênico, tira cabelo do ralo do chuveiro. Claro, ele deixa os pedaços de unha na mesinha de centro, sempre está vinte minutos atrasado, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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e gosta secretamente de pornografia na Internet, mas eu não tenho dúvidas de que ele dará um ótimo marido para alguma esposa de sorte. A verdade é que ele seria um desperdício comigo. - Andrew realmente gostava de você. Ele disse ao Daniel. Você foi bem - Kate me relatou, depois de nosso primeiro encontro. Como se o programa fosse uma performance e eu tivesse obtido uma boa crítica. Mais tarde, quando Andrew e eu oficialmente nos tornamos um casal, Kate ficava triunfante por suas habilidade de casamenteira. Agora eu me sinto culpada por manchar sua re¬putação. Ela queria colocar um casamento em seu currículo e teria ficado empolgada em ser uma de minhas damas. Ela realmente gosta desse tipo de coisa; seu sorriso é misteriosamente inabalável diante da possibilidade de um tafetá da cabeça aos pés. Eu não ficaria surpresa se ela já tivesse encomendado para mim uma ca¬miseta com "Sra. Warner" escrito nas costas. - Emi, por favor, apenas me diga por quê - diz ela e, subitamente, com toda minha força que tenho em meu corpo, eu quero fazer minha amiga entender. Só não sei como. Nem tenho certeza se entendo. - Eu não sei por quê, só não conseguia me ver como a Sra. Warner. Nem como a Sra. Haxby-Warner. Ou qualquer que fosse meu nome. Eu não posso me casar com ele, Kate. Não posso. Não tenho certeza se continuaria a ser eu, se o fizesse. - Eu me concentro em desenhar corações vazios em meu bloco de anotações. - Qualquer um. - Você não precisa mudar seu nome. - Eu sei disso. Não tem a ver com o meu nome. - Eu começo a desenhar grandes buquês de flores, fazendo bolinhas como pétalas. - Mas eu não entendo. Ele ainda nem te pediu em casamento. Vocês não precisam casar agora, se você não estiver preparada. - Ela olha para o anel em sua mão e a cobre com a outra mão. - Mas eu nunca vou estar pronta. Andrew é ótimo. Nós duas sabemos disso. Isso simplesmente não é o bastante. Eu não posso ser sua outra metade. Sabe o que quero dizer? pergunto, embora eu saiba que ela não sabe. Nunca precisou questionar as coisas entre ela e Daniel. Simplesmente sempre soube. O charme de Kate está em sua placidez. - Talvez você esteja esperando por algo que não existe - diz ela. - Não é que eu esteja procurando alguém melhor, ou algo assim. Ele é ótimo. Mas ele não me entende. - Sei que pareço estar cheia de desculpas esfarrapadas, mas eu não posso me obrigar a dizer o que realmente não quero. Eu o comi, Kate. E ele tem gosto de frango. Eu o comi, Kate, eu não senti quase nada. Eu guardo esses pensamentos para mim, pois sei que não fazem sentido algum. - Acho que a verdade da questão é que não tem nada a ver com Andrew - digo. - Não. Não, acho que não - diz ela, e o olhar que ela me lança, agora, é idêntico ao que Andrew expressou ontem à noite; parece um pouco com pena. Ela atravessa a sala e me beija na testa, um gesto que só ela consegue safar depois de fazer. Nem condescendência ou julgamento, só um gesto para estabilizar novamente o astral. Kate nunca sai estremecida; em vez disso, faz questão de deixar tudo tranqüilo. - Está certo, vamos falar mais sobre isso depois. Preciso voltar ao trabalho - diz ela. Kate Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tem três anos a mais de casa e pretende se tornar sócia no ano que vem. Se assim for, e será, se há alguma justiça neste mundo, Kate se tornará a segunda mulher sócia como advogada de litígio nos duzentos anos da história da APT. Eu, por outro lado, fui comunicada em minha última avaliação de que precisava trabalhar mais em prol de minha dedicação à firma. Aliás, tome cuidado. Evite o Carl hoje, a qualquer custo. Ele está procurando alguém para trabalhar no novo caso da água da Synergon. - Por favor, por favor, me diga que você está inventando isso. Eu já tenho uma reunião agendada com ele para essa tarde. Não há dúvidas. Agora a expressão nos olhos dela é definitivamente de pena. Estou ferrada. No primeiro dia de trabalho na APT, nós fomos ensinados pelos associados mais antigos que, para sobrevivermos, havia três interditos: a Synergon, o Carl MacKin-iion e o chinês da esquina. - E fica pior. Carisse já foi designada para o projeto, portanto, ela será a pessoa mais sênior abaixo de Carl. Olhe, eu gosto de achar que não detesto ninguém neste mundo, mas isso seria uma mentira cabeluda. Eu odeio a Carisse. Até a Kate, que não desgosta de ninguém, abre uma exceção para ela. A Carisse é uma daquelas mulheres que deveriam ser expulsas da irmandade. Suas transgressões, além de dormir com inúmeros sócios casados, incluem joguinhos com seus subordinados, do tipo Pondo a Culpa no Outro, ou Faça Meu Trabalho Para Mim, e Eu Fico Com o Crédito, Obrigada. Ela é famosa por dizer coisas como Nossa, você está horrível/cansada/inchada, ou dar parabéns por sua gravidez inexistente. Embora ela esteja somente dois anos à minha frente na firma, seja apenas uma vírgula na categoria de associada, ela comanda como se fosse uma sócia diretora. Às vezes, eu penso que, se pudesse matá-la e me safar, não seria difícil puxar o gatilho. O mundo seria um lugar bem melhor sem ela. - Desculpe - diz Kate, antes de sair pela porta. Olho para o meu bloco e percebo um novo conjunto de desenhos. Eu estava desenhando pequenos punhais. ***************** Ao meio-dia, eu entro no escritório de Carl de um jeito que espero ser desafiador. Talvez o meu comportamento descortês o faça mudar de idéia quanto a me designar para esse caso. Eu sintonizo Marge. Ela me dá força em horas como esta. Carl senta atrás de uma escrivaninha imensa de mogno que fica vazia, exceto por um monitor de tela plana. Embora não seja um homem alto, sua cadeira fica distante do chão, a uma altura que parece algo em torno de três metros do chão. Eu percebo que as cadeiras de visitantes estão a uns cinco centímetros do chão. Ele está ao telefone e sinaliza para que eu entre, com um gesto do pulso. Eu me sento no assento minúsculo. Esse truque da cadeira, na verdade, funciona. Eu me sinto como uma criança de cinco anos de idade tomando uma bronca no gabinete do diretor. Na parede há molduras impressionantes alinhadas e os nomes são gritantes. Princeton. Wharton Business School. Harvard Law School. Será possível que ele tenha cursado as três? Tem um prêmio da Save the Children pendurado ao lado; aparentemente, Carl foi o doador do ano em 1994, 1999 e 2005. Há uma foto dele abraçando um africano magrinho na moldura. Carl me encara, me avalia, enquanto fala manso com o cliente ao telefone. Eu seguro o bloco de anotações junto ao peito para evitar que ele olhe o meu decote. Ele é do tipo que, de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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alguma forma, pensa que é perfeitamente aceitável que num instante grite com uma associada e no momento seguinte, se a associada estiver vestindo uma saia, coloque a mão em sua coxa. O boato é que, apesar de suas ações terem sido reduzidas em mais de cinco vezes por assédio sexual, ele jamais será demitido porque poderia levar muitos clientes grandes, como a Synergon, com ele. Também cor¬re uma fofoca na firma que ele uma vez arremessou o New York Civil Procedure and Laws Rule Book na cabeça de um associado. Deve ter doído. Ah, eu cheguei a mencionar sua esposa grávida? Ela está espe¬rando gêmeos. Se eu sei que vou ter reunião com Carl, geralmente visto a mi¬nha roupa mais desleixada, deixo a maquiagem em casa e prendo o cabelo num coque de velhinha. Gosto de acreditar que é por isso que ele nunca me cantou. E claro que sou firmemente contra assédio sexual, mas tenho que admitir que me preocupa o fato de minhas roupas funcionarem tão bem; eu sou a única mulher do escritório em quem ele nunca deu em cima. Bem, eu estou escalando você para o novo caso da água da Synergon. Será você, eu e a Carisse, porém, como a pessoa mais Júnior, eu espero que você faça todo o trabalho de deslocamento nesse caso — diz Carl, depois de desligar o telefone. Aí está. Meu estômago revira. O fato de já saber que ia acontecer não amortece o soco. "Eu espero que você devote cento e dez por cento de seu tempo. Isso vai exigir toda a força de trabalho que temos e é uma ótima oportunidade para que você demonstre sua dedicação à firma. Eu espero que não haja incidentes como o desse fim de semana. Eu concordo com a cabeça e Carl funga, como se o ar estivesse lora um cheiro ruim." - Claro, Carl. Sinto muito quanto a isso. - O pedido de desculpas escapole antes que eu consiga frear e fico envergonhada de mim mesma, por entregar os pontos com tanta facilidade. Eu devia dar logo uma chupada no pau dele e acabar com isso de uma vez. - Está certo, agora, aqui vão os detalhes. A Synergon está sen¬do processada por umas cinqüenta famílias diferentes, no tribunal estadual de Arkansas. Basicamente, nós estamos fazendo uma defesa contra um bando de casos do tipo Erin Brockovich, embora, felizmente, aquela puta não esteja envolvida dessa vez. Você sabe, ela não se parece nada com a Julia Roberts. - Oh - digo. - Toda essa gente pobre naquele fim de mundo em Arkansas pegou câncer, está com um terceiro olho nascendo e alega que as causas estão no despejo de substâncias químicas na água. - Há evidência desse despejo? - Sim, a Synergon vem despejando petroquímicos no rio Caddo há cinqüenta anos. Eles apenas presumiram que ninguém do LB que mora perto seria esperto o suficiente para processar. - LB? - pergunto. - Lixo branco. Mas, honestamente, o despejo não eqüivale, necessariamente, ao câncer. Sim, eles vêm despejando químicos, mas ninguém provou por que essa gente está adoecendo. Olho para Carl e vejo um leve sorriso querendo surgir nos cantos de seus lábios. Percebo que ele sente prazer em esmigalhar os pequenos. Carl deve ter sido sacaneado diariamente no Segundo Grau, deve ter apanhado no refeitório, talvez até tenha sido arrastado. Simplesmente não há outra explicação para sua maldade. Sua vingança despropositada. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Esse caso é simplesmente a exceção dos queixosos querendo tirar dinheiro da América corporativa - diz ele. - Mas se houve despejo... - Eu realmente preciso repetir isso? Escreva, Emily. O despejo não equivale, necessariamente, ao câncer. O despejo eqüivale ao despejo. Não ao câncer. Entendeu? - Acho que sim... - Então, aqui está o nosso plano de ataque, embora eu vá deixar os detalhes e o grosso por sua conta. Nós vamos usar o A Civil Action para enrabá-los. Você leu esse livro? - Sim, foi exigido no meu primeiro ano da faculdade de direito. - Eu não acrescento que foi para uma aula de ética e a finalidade era nos ensinar como não exercer o direito. - Bom, bom. Aqui está o panorama. Primeiro, nós arranjamos relatórios especialistas de alguns cientistas que neguem a causalidade entre os químicos e o câncer. O que eu realmente não acho que exista. - Carl olha as suas anotações. - Há uma lista de especialistas que a Synergon sempre utiliza. Nós também vamos apresentar aos autores da queixa toneladas de solicitações, de testes e entrar com o maior número de requerimentos que pudermos para aumentar seus custos legais. A Synergon tem pilhas de dinheiro para colocar nisso, mas o outro lado, claramente, não tem. "Depois que ganharmos o julgamento sumário, o que certa¬mente ganharemos, pois eles não podem provar coisa alguma, então, vem o terceiro ato. Nós os processamos pelos custos advocatícios. Provavelmente não receberemos, mas, para nós, ainda é uma situação de ganhar ou ganhar. A Synergon fica bem impressionada pela nossa posição agressiva, nós podemos cobrar mais horas e o melhor de tudo é que isso ensina a todos a não se meterem com a Synergon." Ele sorri novamente, e eu juro que vejo seu peito se estufar. - Comece a fazer o esboço do primeiro conjunto de solicitações imediatamente. Espero que esteja em minha mesa amanha de manhã. E também se programe para viajar bastante para o Arkansas, durante os próximos meses. Arranje uma bagagem decente. E mais uma coisa. - Ele pára e espera que eu lhe devolva o olhar. - Belo terno, Emily. - E com uma piscada de olho, eu sou dispensada de seu escritório. De alguma forma, ele não me deixa dúvidas de que acabou de me imaginar nua.

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Ao aceitar um emprego como advogada de litígio, num escritório de grande porte, você sabe que está vendendo a alma. Qualquer um que tente lhe dizer o contrário esta mentindo, ou enganando a si mesmo. Até aquele instante, eu sempre pensava em ter vendido minha vida, não a minha alma. Eu sabia que esse emprego exigiria todo o meu tempo, restaria pouco para qualquer coisa que lembrasse uma vida social. Como associada, cancelamento de planos, consultas médicas e férias seriam adicionados ao pacote. A maioria de nós passa a sexta-feira de dedos cruzados, rezando para que aquela semana seja uma exceção, que um sócio não venha despejar trabalho em nossa mesa, que invariavelmente "precise" estar pronto segunda-feira de manhã. Exceto por vender a alma, ser uma associada ainda é bom negócio. Embora na maioria Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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dos dias eu me sinta sobrecarregada e desestimulada, o salário me dá espaço suficiente para pagar os empréstimos astronômicos da faculdade de direito e alugar meu quitinete no Village. Embora o lugar só tenha trinta e oito metros quadrados, em Manhattan, onde as pessoas vendem seus órgãos para conseguir um apartamento, ter meu cantinho é um luxo. Eu começo a olhar as queixas registradas contra a Synergon. Leio a respeito de alguns dos requerentes, gente pobre de uma pequena cidade da qual ninguém nunca ouviu falar: Caddo Valley, Arkansas. População: 565. A primeira queixa é da família Jones, porque a mãe, Jo-Ann, morreu de leucemia aguda. Agora o Sr. Jones tem cinco filhos para criar, todos entre dois e nove anos. Eles moram a quatrocentos metros do rio Caddo e Jo-Ann é a sétima pessoa em Caddo Valley a ter o diagnóstico. Proporcionalmente, a cidade tem um índice quinhentas vezes maior do que a média nacional. Enquanto analiso os detalhes da queixa, estou sentada no quadragésimo andar de um arranha-céu, no meio da cidade de Nova York. Meu escritório é um quadrado construído de aço reluzente e vidro, um poleiro imponente com uma vista do caos urbano organizado. A única coisa que tenho em comum com os Jones é que minha mãe também morreu de câncer. Isso subitamente não parece muito. Uma sensação de vergonha me invade, ao perceber que esse é o meu trabalho. E para isso que sou paga. A cada duas semanas recebo um cheque, tenho previdência privada e assistência médica (que deve me dar assistência, caso eu tenha câncer) e, em troca, eu1 passo essa noite e os próximos seis meses elaborando formas para impedir que a Synergon redistribua uma minúscula porção de sua fortuna para cinqüenta famílias que precisam e merecem a ajuda. Eu fico imaginando o que Andrew pensaria sobre o caso, ele que traz as pessoas de volta à vida, todos os dias, na sala de emergência, mas o tiro de minha cabeça. Depois, num lampejo, penso em minha mãe, cujo cabelo caiu, mecha por mecha, e cujos seios foram arrancados, penso no que ela diria se soubesse no que me transformei depois de grande. Eu não sei. Em vez disso, dou um clique na página da American Câncer Society (Sociedade Americana de Câncer) e faço uma doação de cem dólares, uma pequena penitência, quase nada se comparado aos cinqüenta milhões de dólares que estão em jogo no litígio. Depois começo a rascunhar as inúmeras solicitações de investigação para CarI e esqueço o resto. Não ergo os olhos até que a janela escureceu e noite caiu em Manhattan. O único som são as sirenes distantes e ocasionais, como uma canção de ninar confortante e nova-iorquina. Em momento algum, me ocorre pedir demissão.

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Capítulo 3 Chego em casa e encontro uma pilha de roupa suja no meio do apartamento. A altura surpreendente passa do alerta amarelo (elevado) para laranja (alto), avisando que não terei nem uma única calcinha limpa amanhã. Eu decido que não faz mal se eu me rebelar contra o policiamento das calcinhas; ninguém vai olhar embaixo da minha saia no trabalho. E, se o fizerem, vão ter o que merecem. A luz da minha secretária eletrônica pisca duas vezes. Plinc Plinc. Esse é o código da máquina para duas mensagens. - Oi, Emily, é seu pai. Só dando um alô. - Clique. - Oi, Emi. - A voz de Jess ressoa nas paredes do meu apartamento e me lembra que moro num quadrado perfeito. — Espero que você esteja se mantendo firme sobre o negócio todo com o Andrew. Sexta à noite, eu e você no Merc Bar. Vamos fazer uma noitada na cidade. Não aceito negativas. - Embora eu tenha conhecido Jess em conseqüência de uma coincidência de alojamento, no primeiro ano na Brown, ela deixou de ser amiga de faculdade para ser minha gêmea siamesa oráculo mãe judia co-dependente Tony Robbins. Eu quero retornar a ligação, mas sei que já passou de seu horário de dormir. Jess vai para a cama durante a semana às 22:43, único vestígio de sua luta contra a disfunção obsessiva compulsiva da infância. Pego o telefone para ligar para o meu pai, já que ele - ao contrário de Jess e o restante de nós - não acredita no sono. - Aqui é Haxby, o representante do governador - diz meu pai, ao atender ao telefone, aparentemente achando que quem estiver ligando em seu celular, à uma hora da madrugada, ainda não saiba que ele é o representante do governador. Como se alguém se importasse. Reavalio se afinal foi uma boa idéia ligar, ou se deveria ter continuado nosso joguinho de piqueesconde telefônico. Falar com meu pai tem o efeito colateral de me fazer sentir muito sozinha no mundo. - Oi, pai. É Emily. Como vai? - Tudo bem, querida. Mantendo a forma. Corri quase dez quilômetros hoje de manhã, às cinco horas. - Nossa, pai — comento como se ele não me dissesse isso todas as vezes que eu ligo. Acho que essa pode ser uma forma passivo-agressiva de me criticar, já que ele sabe que eu não faço, nunca fiz, o mesmo. - Sim, bem, é importante manter a forma. Você deveria tentar, uma hora dessas. No Central Park, talvez. - Pai, eu vivo no centro. - Então, talvez pudesse correr até o parque. Isso me lembra que preciso ir ver o seu novo apartamento, um dia desses. - Não é tão novo. Já moro aqui há mais de um ano. - Claro, claro. Então, em que a superestrela do litígio está trabalhando? Eu conto ao meu pai sobre o caso da Synergon, mais porque nos parece fácil falar sobre o meu emprego. Mas, conforme descrevo o que está se passando em Caddo Valley, fico preocupada em dar, talvez pela primeira vez, um bom motivo para que meu pai se envergonhe de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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mim. Afinal, ele é um servidor civil. - Nossa, garota. É ótimo fazer contatos na Synergon. E bom que você dedique seu tempo a esse caso. Esse é o tipo de coisa que pode fazer sua carreira. - Mas, pai, eu estou defendendo a Synergon. Quero dizer, sei que não se pode provar nada, mas mesmo assim... - Negócio é negócio, Emi. Você sabe disso. E não tem mal algum em fazer amizade em lugares influentes. - Agora percebo que eu gostaria de uma reação diferente de meu pai; queria que ele gritasse comigo, que me criticasse por fazer algo errado, que meu trabalho torna o mundo um lugar pior. Eu queria que tivéssemos uma briga, o que, na verdade, é ridículo. Meu pai e eu nunca brigamos. Simplesmente não é algo que meu pai faça. Brigar é mesquinho e desagradável para ele, melhor deixar para as crianças. Meu pai tem aquele verniz de todos os políticos: o brilho, o charme, a aparência de garoto e têmporas grisalhas. Quando ele dá um aperto de mão, usa as duas mãos para demonstrar o quanto está interessado em conhecer a pessoa. Ele também olha nos olhos, como se dissesse, eu me importo. Mas eu não sei o que há por baixo de todo esse polimento. Ele nunca me mostrou. A verdade é que eu amo meu pai, mas, particularmente, não gosto dele. Acho que não gosto, particularmente, porque não tenho certeza se ele gosta de mim. Depois que minha mãe morreu e só ficamos os dois em casa, havia uma pequena oportunidade para que ao menos tentássemos nos comunicar. Poderíamos ter gritado, chorado, dito todas as coisas que normalmente seriam imperdoáveis. Poderíamos ter chorado juntos, até que reconhecêssemos que havíamos perdido uma das poucas coisas que nos unia. Poderíamos ter rido loucamente, como fiz com minhas amigas, no canto, após o velório, como se eu dissesse isso não dói, isso não dói, isso não dói. Mas isso nunca aconteceu. Minha mãe morreu numa tarde de quinta-feira e eu estava de volta à escola na segunda. Não me deram a opção de ficar em casa. Nós dois arranjamos nossas maneiras de nos alimentar, separadamente, e fomos em frente, seguindo nossas rotinas. Como se sempre tivéssemos vivido dessa forma, como se nada houvesse mudado, como se não nos sentíssemos de repente como um cão de três patas. Embora eu ouvisse meu pai chorar tarde da noite, enquanto estava deitada em minha cama, no quarto ao lado, embora ouvisse o seu sofrimento nos suspiros e na respiração ofegante, no choro soluçado abafado em travesseiros, ecoando o meu próprio pranto, eu não batia em sua porta e ele não batia na minha. Claro que eu pensava em pedir ajuda. Às vezes, eu ficava em pé, do lado de fora do quarto dele, imóvel, sem conseguir erguer os braços, incapaz de bater na madeira. Não tenho certeza do motivo pelo qual nossas portas parecem tão impenetráveis. Talvez sentíssemos um tipo de sentimento de posse sobre nosso pesar, temendo que ao compartilhá-lo estivéssemos dando os únicos pedaços que tínhamos deles. Ou, talvez, nenhum de nós tivesse força sobrando para consolar o outro nas profundezas assustadoras da noite, já que esgotávamos toda a nossa energia durante o dia, nos mantendo ocupados, ocupados, ocupados, fingindo que estávamos muito bem. - Pai, sabe de uma coisa? Preciso ir. Ainda tenho trabalho a fazer essa noite - digo. Mentirinha número um. - Está certo. Por favor, mande lembranças para o Andrew. - Mandarei. - Mentirinha número dois. Não estou pronta a dizer a ele que eu e Andrew terminamos. Assim como meu emprego, o meu relacionamento é uma fonte de contentamento Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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para meu pai; significa que minha felicidade não é mais responsabilidade dele. Sou cúmplice nisso. Ao longo dos anos, segui, religiosamente, uma regra silenciosa, sempre que possível, eu cuidaria de mim mesma. Ser viúvo já é difícil sem o fardo adicional de ter de ser pai. - A propósito, vou visitar o vovô Jack, no domingo. Quer vir? - Não dá, Emi. Você sabe como é. Diga ao meu pai que estou ocupado demais. As coisas estão loucas no escritório. - Digo, sim. - Mentirinha número três. Eu jamais ofenderia meu avô com a desculpa predileta do meu pai. - Continue fazendo um bom trabalho, garota - diz meu pai. Logo em seguida, em vez de sua voz, o telefone dá linha. Vou para debaixo das cobertas, exausta, e olho para o peitoril da janela, vazio, com exceção de algumas fotografias. Andrew e eu em meu último jantar de aniversário, velas reluzindo misteriosamente sob meu queixo, como se meu rosto estivesse iluminado por dentro. Jess e eu no casamento da irmã dela, as duas de tafetá roxo e maquiagem borrada. E uma foto pequena da minha família, nós três juntos, diante dos degraus de nossa casa, em Connecticut. Estou vestindo um macacão OshKosh, segurando a minha merendeira da Mulher Maravilha, orgulhosa, para a câmera. E o meu primeiro dia no jardim-de-infância, e pareço destemida. A única coisa que me mantém no lugar é o segundo necessário ao clique da câmera. Essa noite, eu deixo a luz do banheiro acesa e verifico a tranca da porta da frente duas vezes. Descanso novamente no meio da cama, estendo os braços e começo a passá-los pelo lençol. Mas é um exercício infrutífero, pois, quando paro de mexer os braços para cima e para baixo, acabo exatamente no mesmo lugar onde havia começado.

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Capítulo 4 - Como vai? - pergunta Jess, quando retorno sua ligação, na manhã seguinte. A ênfase no "vai" faz parecer que alguém acabou de morrer. - Estou bem. Estou preocupada com você. - Eu imagino Jess do outro lado da linha, sentada em seu cubículo cor-de-rosa de meia parede. Aposto que ela está enrolando o fio do telefone em volta dos dedos, compondo formas elaboradas de animais, como costumava fazer na faculdade. Embora seus cartões de visita afirmem que ela é designer gráfica, Jess é paga para ficar desenhando no computador. - Não precisa se preocupar. Estou bem. Não se esqueça de que fui eu quem terminou com ele. Foi uma decisão minha. - Por isso que estou preocupada. - Jess... - Não, é sério, é por isso. Tenho pensado muito nesse assunto. Você provavelmente é a melhor pessoa que conheço e nunca magoaria o Andrew, a menos que fosse absolutamente necessário. Eu gostaria de conseguir ver algum sentido nisso tudo. Vocês pareciam tão bem juntos. - Jess, não quero te cortar, mas será que podemos falar sobre isso depois? Estou no escritório. - Da primeira vez que liguei para Jess e contei que eu e Andrew havíamos terminado, tive a esperança ingênua de que ela fosse seguir a regra universal do rompimento e me favorecer com uma pichação do ex-namorado. Eu queria que ela dissesse Nunca gostei daquele cara, ou Sempre achei que ele tinha um cheiro meio esquisito, mas nunca quis dizer nada. Em vez disso, as reações de Jess variaram de (a) "Mas eu achava que ele foi a melhor coisa que já te aconteceu", a (b) "Tudo bem, se você não quer casar com ele, eu caso" e (c) a minha favorita: "Você perdeu a porra do juízo?" - Está certo, vou parar de falar só porque ainda não é meio-dia e dá pra notar que você ainda não tomou o seu café. Mas na sexta à noite nós vamos sair - diz ela com a voz diferente da minha graças ao fato de não estar afogada em trabalho. O escritório de Jess tem aquela energia contagiante da Internet. O efeito de mesclar mobília moderna, alta tecnologia, uma máquina de fliperama e uma equipe composta estritamente por gente que usa óculos estilosos. - Com toda a certeza. - Eu gostaria de estar no escritório de Jess agora, vestindo jeans e bebericando Red Buli. Eu estaria trocando uma rotina por outra, talvez, mas a dela ainda é melhor. No mundo da Jess, as sandálias de dedo são incentivadas. - Com toda certeza? - pergunta ela, incapaz de esconder a surpresa. - Claro, mal posso esperar. - Sério? Eu estava me preparando pra te convencer. Já tinha todo o discurso pronto. Quer ouvir? - Não. - Tem certeza? É muito inspirador.

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- Eu já estou inspirada, mas, se você quiser que eu te ouça, posso ouvir. - Não, o discurso agora não vai ficar tão bom. Não preciso que você finja para mim. - Sério, vou ficar feliz em ouvir. Que direção você achava que eu ia seguir? Muito arrasada para sair? Ocupada demais com o trabalho? - É claro que ocupada demais com o trabalho. Você jamais seguiria o caminho do coração partido. Não faz seu estilo. - É, você provavelmente está certa. - Emi, talvez você não esteja pronta para um Andrew. - Por favor, vamos parar com esse assunto. Eu nem sei o que isso significa. - Posso fazer só mais uma pergunta? Só uma? - Claro - concordo. - Manda ver. - Você está bem mesmo? - Acho que sim. Acho que fiz a coisa certa. Para todo mundo. Eu realmente acredito nisso. - Se você está dizendo. - O tom mostra que ela não acredita em mim, mas agora Jess não tem tempo para lidar com isso. Ela fala com um colega, ao fundo. -Você tem que fazer os peitos dela maiores, e o Mark disse que quer um toque de mamilo. Isso faz com que eles pareçam mais saudáveis. - Em que vocês estão trabalhando? - pergunto, contente pela chance de mudar de assunto. - No rótulo de uma vitamina infantil.

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Capítulo 5 Ao longo dos dias seguintes, o trabalho me engole. Carl continua me dando inúmeras tarefas e funções relativas à Synergon e eu continuo, fazendo uma a uma. A monotonia e seu ritmo vagaroso deixam pouco espaço para qualquer pensamento. Eu passo vinte horas do meu dia no escritório e não levanto da cadeira até que meus olhos vitrificam e agulhas começam a espetar os meus pés. Como todas as minhas refeições nessa cela quadrada, o alimento sai de uma máquina automática, e sujo documentos importantes com migalhas e borrões. Numa empresa de advocacia, essas manchas são um distintivo de honra. Não penso em Andrew. Em vez disso, sinto um espaço vazio, um branco vácuo onde os pensamentos sobre ele, as lembranças dele antes habitavam. Meu apartamento também parece assim, já que agora há uma tranqüilidade opressora no locai. A caixa de cereal está guardada no armário, a tampa do meu vaso sanitário está abaixada e o travesseiro de Andrew não está amassado. Mas eu não tenho ficado muito em casa. Saio de manhã cedo, quando as ruas ainda estão quietas, exceto pelos sons dos caminhões de lixo fazendo a coleta. A essa hora, as outras poucas pessoas que compartilham os quarteirões da cidade comigo caminham com as cabeças baixas e golas em pé. Todos parecemos culpados. Pouco antes do amanhecer, quando deixo o escritório, pego um táxi de vidro fume para casa. Olho para fora cegamente, conforme a cidade passa num borrão escuro. Subo na cama anestesiada, sem notar a ausência de Andrew e durmo apenas algumas horas antes de recomeçar. Há uma parte de mim que se compraz pelas bolsas sob os olhos e pelo meu corpo estar dolorido pela falta de exercícios. Eu me pego dizendo coisas do tipo "devo ter perto de trezentas horas para cobrar esse mês", ou "parece que vai ser outra virada de noite‖, para meus colegas, quando passo por eles, no corredor, indo ou vindo do banheiro, como se isso fosse algo do qual se orgulhar, esse autoflagelo. Gosto de pensar que eles têm um pouquinho de admiração pela minha dedicação, mas não sou tão boba. Convenço a mim mesma de ser divertido brincar de grande advogada na cidade grande trabalhando todas essas horas, cercada de telefones tocando e bordas de pizza dormida. Que estou me deleitando nessa caricatura de vida. Seria uma mentira, pois a verdade é que eu realmente não sinto muita coisa. Só uma dor tediosa em minhas extremidades.

*****************

Pronta? - pergunta Mason, batendo em minha porta, e tomando um choque ao dar uma olhada ao redor. Meu escritório, em geral bem arrumado, parece um cenário de crime, como se os bandidos tivessem revirado tudo para fazer o homicídio parecer acidental. Eu também posso ver que ele percebe o cheiro azedo no ar, do jantar da noite anterior e, provavelmente, porque não tomo banho há alguns dias, mas ele é educado demais para comentar. Mason parece deslocado aqui, de cabelo ainda molhado, caprichosamente penteado. - Pronta para quê? - Almoçar. - Mason arruma a abotoadura no punho da camisa, como se a bagunça fosse contagiosa. - Oh, não posso, perdão, esqueci. Coisa demais para fazer. Devo ter umas trezentas horas extras esse mês - digo, pois essas parecem ser as únicas palavras que consigo juntar numa Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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frase. - Cale a boca. Você parece a Carisse. Agora tire esse lindo rabinho da cadeira. Nós vamos sair. E, a propósito, você está parecendo e cheirando como o presente que o Rambo me deixou ontem, à noite. - Rambo é o basset de Mason; cheio de papadas e babão. No fim das contas, acho que Mason não é tão educado. - Obrigada. - Venha. Nós vamos ao Charlie’s E você vai pedir aquele filé do qual vive falando. Ele me conduz pela porta com a mão no meu cóccix e seus movimentos acompanham o discurso, ambos controladores e preguiçosos. Ele é do Texas e, apesar de ter passado a última década acima da linha de Mason-Dixie, ele não perdeu aquele ritmo sensual e lento. Eu me derreti na primeira vez que ele me chamou de "querida", mas agora não dou mais tanta atenção. Mas às vezes olho para Mason e suas mãos grandes e penso: "o único caubói que restou em Nova York ". Sigo-o pela saída do escritório, conforme ele me conduz até a luz do sol que queima meus olhos, depois, piedosamente, de volta à escuridão. No Charlie's há reservados com sofás de couro marrom, paredes com forração de madeira e garçons com paletós de feltro verde. Tudo parece gritar Homens comem filés aqui. Eu adoro tudo de lá; os pequenos grupos de homens de negócios com suas mangas arregaçadas, mergulhando nos pratos de costeletas; a quantidade generosa de azeitonas que vêm dentro do Martini; o próprio Charlie, que fica atrás do bar e cumprimenta alguns dos clientes pelo nome. Mason senta diante de mim, caindo pesadamente no sofá. Ele gosta de se espalhar em bastante espaço e se esparrama todo. Acho que é sua maneira de expressar a masculinidade, essa forma elaborada de desdobrar braços e pernas, longos e musculosos. - Ouvi dizer que você está trabalhando no negócio da Synergon. Minhas condolências - ele diz. - Não é tão mau. - Certo. Não, sério, o que há de errado com você ultimamente? Costumo colocá-la para fora do meu escritório para conseguir trabalhar e agora, do nada, você está fazendo horas extras como uma louca. - É, bem, você sabe como é trabalhar para o Carl... Tenho andado muito ocupada. - Fico pensando se devo dizer ao Mason que Andrew e eu terminamos. Tenho a sensação de que se dissesse em voz alta, principalmente para ele, faria parecer mais real, mais oficial. Eu sempre tive a impressão de que ele nunca gostou do Andrew, e contar a ele agora me daria a sensação da traição. Eu ensaio, em minha cabeça, algumas vezes. Andrew e eu terminamos. Eu terminei com Andrew. Essas descrições parecem imprecisas. Não exatamente corretas. A verdade é que eu terminei com Andrew e eu. Terminei conosco. - Eu terminei com o Andrew - confesso, em voz alta. - Entendo - ele diz, como se precisasse de um instante para formular a frase seguinte. Ao contrário de meus outros amigos, ele não começa a me bombardear com expressões de solidariedade. - O que houve? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Ele estava se preparando para me pedir em casamento. Mason balança a cabeça, como se não houvesse mais nada a dizer. Como se me conhecesse e isso fizesse total sentido. Como se eu não fosse louca. Por outro lado, pode apenas ser seu impulso masculino não falar sobre esse tipo de coisa. - Vamos pedir. — Ele chama o garçom e parece que a conversa acabou, pelo menos por enquanto. - Para mim, o cheeseburger duplo com uma porção de cebola frita. E para a senhorita, o filé. E, por favor, traga mais uma porção de batatas fritas à parte, pois ela precisa - diz ele, de modo arrastado, depois sorri para o garçom. - Ela acaba de partir o coração de um pobre homem. Andrew não reaparece na conversa pelo resto do almoço. Mas nós papeamos sobre todas as outras coisas. Conversamos sobre o trabalho, sobre Carl, sobre Rambo. Falamos sobre Laurel, atual namorada de Mason, que recentemente fez uma cópia da chave do apartamento dele sem pedir sua autorização. Quando terminamos, estou tão nutrida pela conversa quanto pela comida. Quando saímos do Charlie's e caminhamos de volta à luz, o sol também dá uma boa sensação, sinto o calor em minhas pálpebras, o que também é muito bom. Eu quase me sinto normal.

*****************

O caos do meu escritório me espanta, assim que entro. Juro que vou para casa cedo essa noite, ter uma boa noite de sono, talvez tomar um banho longo, ficar de molho e tirar os resíduos. Sinto-me revigorada só em pensar, até que vejo Carisse, em pé, diante de minha mesa. Ela parece uma boneca com cabeça de mola, com o crânio de um homem paleolítico se equilibrando em pernas de palito. E vai entrando. Primeiro os dentes. - Ouvi dizer que o Andrew terminou com você. Que droga, ele era gatinho. - Quem usa palavras como 'gatinho' depois da nona série? Eu penso em corrigi-la, dizendo que, na verdade, fui eu quem terminou com Andrew, mas percebo, com um grande prazer, que não ligo para o que ela pensa. - Então, você provavelmente deveria guardar isso. - Carisse vai direto à minha jugular, apontando para o porta-retratos em cima da mesa, era uma foto minha com Andrew. Na foto, nós estamos lado a lado, de mãos dadas, enlameados, depois de acamparmos em New Hampshire, no último verão. Eu ainda não havia resolvido o que fazer com a foto. De alguma forma, achei errado guardá-la na gaveta. Como se jogasse fora uma evidência. - Acho que sim. - Eu devo ter aparentado tristeza, pois Carisse sorri maliciosamente para mim, como se nós estivéssemos jogando tênis e ela tivesse acabado de marcar um ponto. Seus lábios finos se curvam ligeiramente, como os de um vilão de história em quadrinhos, e fico imaginando se eu lhe desse um sopapo atrás da cabeça, o rosto dela permaneceria daquele jeito. Ela espera um segundo, como se fôssemos amigas e eu fosse me confidenciar. Quando fica claro que eu não falaria, ela larga uma pasta imensa sobre a minha mesa. Será que Carisse pensou que teríamos um papo sincero e eu fosse chorar no ombro dela? Se eu o fizesse, será que ela pegaria a pasta de volta? - Carl quer que você escreva uma proposta intimidadora e que me mande uma cópia do Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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primeiro esboço. Toda a informação está aqui. - Ela vai saindo do meu escritório, puxando a bainha da saia-lápis cinza, que, assim como seus saltos, está pelo menos dez centímetros acima do apropriado para o escritório. Ela pára e olha para trás, como se tivesse tido uma idéia tardia. Eu preciso disso até às nove horas de amanhã. Apontou, atirou, matou. ***************** Depois que Carisse sai, o fedor de seu perfume permanece. Eu olho para a pasta e percebo que ela me deixou umas catorze horas de trabalho. Faço um trabalho de segunda. O único motivo para esta proposta é forçar a outra parte a desperdiçar os tributos legais, não parece razão suficiente para perder outra noite de sono. Embora eu escreva o mais rápido que posso, só termino depois de meia-noite. Antes de deixar o escritório, programo o envio do e-mail com o arquivo anexado para ser despachado, mais tarde, para Carisse. Às quatro e meia da manhã. Quem manda ela se vangloriar por dormir com o BlackBerry embaixo do travesseiro? Imagino Carisse dando um pulo da cama, quando o e-mail chegar. A campainha alta fazendo-a babar como um cachorro de Pavlov. Ao menos agora estamos jogando um jogo novo. Chamado paixão adolescente.

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Capítulo 6 - Estou vestindo branco depois do Dia do Trabalho. Não me interessa. Pode me prender e acabar logo com isso - diz Jess, na sexta à noite, e por cumprimento estica os braços com os punhos juntos, pronta para ser algemada. Ela entra toda em-pinada, vestindo um top branco, com uma fita amarela presa no pescoço e calças brancas apertadas. Uma roupa que só pode cair bem em três pessoas em todo o país. Jess, por acaso, é uma delas. — De qualquer forma, a Vogue diz que hoje em dia isso é totalmente permitido. - Desde quando você lê a Vogue? - Não leio. Acabei de inventar. Você acreditou em mim? - Não. – Sorrio. A Jess jamais compraria a Vogue. Nunca lhe ocorreria olhar fotos para se vestir como outras pessoas. Eu, por outro lado, me visto para me misturar. - Está bem, senhorita. Deixe-me vê-la. - Jess me leva até o espelho de corpo inteiro. Ela pega minha bolsinha de maquiagem e começa a pintar meu rosto, acrescentando muito ao pouquinho que eu havia posto. Fazemos isso há anos, agora Jess já conhece meus limites, a quantidade exata de cor que permito, quanto de maquiagem me faz deixar de sentir atraente para me sentir patética, e fica dentro deles. Nós estabelecemos uma divisão de trabalho. Ela é minha personal stylist e decoradora. Eu sou sua contadora. ***************** Jess tira um bastão da bolsa e passa glitter sobre meus olhos. Eu logo fico com uma aparência mais alerta. Pouco antes de sairmos, ficamos lado a lado diante do espelho e temos prazer pelo fato de sermos fisicamente opostas. Ela é alta e bem definida, tem cotovelos e joelhos salientes. Minhas extremidades são mais arredondadas, curvas, meus ossos são confortavelmente acolchoados. Ela tem cabelo louro, quase branco, bem curtinho, junto ao couro cabeludo, todo desigual, o que deixa óbvio que ela mesma é quem corta. Meu cabelo é tão escuro que se destaca em fotografias e é comprido, com cachos pesados. Quando entramos num bar, os homens imediatamente se viram para olhar melhor para ela. Eu geralmente não sou escolhida em meio a uma multidão. De vez cm quando, sou notada, ou reconhecida, com o tempo. Mas realmente não me importo. Os homens que estão interessados numa mulher como a Jess não se interessam por mim, e vice-versa. Somos espécimes distintas, em todos os sentidos. Tomamos umas taças de Two Buck Chuck enquanto nos arrumamos, então, até a hora de sairmos, já estou me sentindo mais leve. Jess segura o meu cotovelo e lá vamos nós, batendo nossos saltos rumo ao centro da cidade. Por um instante, temos a sensação de retorno à faculdade, risonhas e cheias de otimismo. Um espetáculo, independentemente de alguém se dar ao trabalho de olhar. - Você falou com o Andrew? - ela pergunta, e minha leveza se esvai. - Não. Ele certamente não vai me ligar. - Dou de ombros, como se estivesse fora de meu controle. Como se ela não tivesse acabado de enfiar o salto no meu pé. - Talvez você deva ligar para ele. - Não, pra dizer o quê?

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- Eu não sei. Você sente falta dele, não? - Não sei. Estou ocupada demais com o trabalho nessa última semana até para pensar nisso. - Por que você fica fazendo isso consigo mesma? - Ela pára de andar e se vira para me olhar, na calçada. - Fazendo o quê? - Ser sua pior inimiga. E como se você tivesse prazer em partir seu próprio coração. - Ela balança a cabeça para mim, como se eu fosse incorrigível, como se eu fosse um velho contando uma piada suja. - Isso não é verdade... Só não estava certo, Jess. Não posso casar com ele. Simplesmente não posso. - Meu lábio inferior começa a tremer. Eu enfio os dedos no meio das palmas e a ameaça das lágrimas se afasta. - Ah, Emily. - Ela me puxa para dar um abraço. O fato de dizer meu nome inteiro dá uma entonação falsa à frase e quando me deparo com a clavícula de Jess, sua altura é um insulto. - Como você pode ser a pessoa mais divertida que conheço, e também a mais infeliz? Não é exaustivo? — pergunta ela. Eu não sei como explicar a coisa, por isso, fico calada. Eu queria fazer uma piada, talvez fazer uma menção ao coelhinho das pilhas Duracell, mas isso só provaria o ponto de vista dela. Em vez disso, seguimos pelo resto do caminho em silêncio. Passo o tempo todo pensando que deveria ter ficado em casa e alugado um DVD. Talvez me masturbado vendo a versão em minissérie de Orgulho e preconceito. Tem mais de seis horas de duração. Seria menos cansativo que isso. O bar está repleto de alunos de faculdade e alguns recém-formados. As mulheres estão de camisetas estampadas e juvenis - M-ckey Mouse, o símbolo do Super-Homem, Smurfs-, barrigas com piercings excessivamente expostas. Embaixo, elas vestem saias jeans cortadas sem bainhas. Os homens vestem camisas pretas justas, com dois botões abertos. O ar é pesado e cheira a gel de cabelo. - É impressão minha ou todo mundo aqui tem doze anos? - pergunta Jess, e eu fico surpresa por ela notar. - Estou tentada a pedir um Shirley Temple, só para me encaixar. Ela senta no bar e pede para cada uma de nós uma vodca com tônica, que desce em trinta segundos. - Tequila? - sugere ela. Depois de três drinques o bar parece bem diferente. Sinto falta disso, eu penso. Você nunca sabe quando vai encontrar alguém que irá mudar a sua vida. Nova York tem uma pulsação constante e pode ser um lugar perigoso para as pessoas de imaginação fértil; todos que vemos são uma possível rota rumo a um futuro diferente. O cara no supermercado que usa o tênis Puma verde, pedindo ovos de granjas que não maltratam as galinhas na livraria strand, o homem de terno que encosta em você quando o metrô arranca, o outro de costeletas e cabelo quase raspado lendo The Believer. Todos os estilos de vida, talvez, mas possíveis renascimentos também, como o primeiro Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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ano de faculdade, tudo outra vez. Mas a maré muda rapidamente, quando olho para os homens reunidos em pequenos grupos ao redor do bar. Todos eles parecem menininhos, com cabelos espetados e olhos claros. Eu me sinto vestida demais e deslocada. O que estou fazendo aqui? Isso acontece muito comigo, o momento nunca chega a fazer jus à expectativa. Ao menos posso esperar que mais tarde, bem mais tarde, minha memória, assim como a de uma historiadora revisionista, irá retocar o evento dessa noite ao deletar a minha angústia existencial. Vou me lembrar de rir e me embebedar com Jess; não vou lembrar de querer ir para casa. Anos atrás, quando fomos a Paris pela primeira vez, Jess e eu ficamos nos deleitando durante os meses anteriores, decorando os guias de viagem e ensaiando nosso francês incipiente. Com dois dias de férias, lembro do piquenique, uma baguete e fromage, na grama de uma igreja, e nós parecíamos muito maduras, apesar de ainda nem termos vinte anos. Enquanto ficamos lá sentadas, falando sobre o queijo amargo, eu sentia uma pontada de decepção. Foi para isso que fiquei esperando séculos? Eu não deveria me sentir diferente aqui? E depois, enquanto dançávamos com um francês bonito, numa boate, sabendo que eu parecia estar totalmente despreocupada, minha juventude ainda queria se deleitar, e eu precisava repetir em minha cabeça, como um mantra: Isso é divertido, isso é divertido. E claro que enfiar a minha língua na boca dele ajudou muito a ignorar as vozes. Mas, meses depois, comecei a lembrar das férias como algo idílico e fazia piadas sobre minha conquista francesa cujo nome, bem apropria¬do, era Jacques. A viagem se pagou no brilho posterior. Agora olho para Jess e ela está de papo com um cara que só tem uma sobrancelha. Ele parece a Frida Kahlo. Dou um tapinha no ombro dela e digo que vou dar um pulo lá fora para fazer uma ligação rápida. Ela agarra meu pulso. Com força. - Vai ligar para o Andrew? - Não. - Não faça isso. Se for ligar para ele, espere até ficar sóbria. Confie em mim. Você vai me agradecer amanhã — diz ela, como se fosse uma autoridade sobre o perigo de realizar ligações bêbada. - Eu só ia ligar para dar um oi. - Passa o telefone. - Eu entrego o celular para Jess, que, apesar de ser esquelética, é mais forte que eu e poderia me dar uma surra. Ela desliga o telefone e o devolve. Estou claramente muito bêbada, porque a questão parece encerrada para mim. Depois de quatro horas e incontáveis drinques, Jess e eu estamos sentadas nas banquetas conversando com Frida e o amigo de Frida. Ironicamente e por acaso Frida é pintor. O amigo de Frida, cujo nome eu não sei ou não consigo me lembrar, diz que é empresário, mas quando lhe pergunto em que área ele atua, ele me olha, vago. Passo boa parte da conversa encarando as sobrancelhas dele que, em contraste com o visual de bigode na testa de Frida, foram depiladas com cera, por um profissional. Elas são triângulos perfeitos. Quando a sala começa a girar e fico entediada de tanto pesar as vantagens e desvantagens de se cuidar demais, ou de menos, é hora de ir para casa. Jess, que tem uma libido maior do que a de qualquer outra pessoa que conheço - ela se intitula uma 'feminista de sexo positivo', embora eu desconfie que isso se baseia menos na filosofia e mais no prazer -, fica para trás, supostamente para persuadir Frida. Admiro o fato de sua abordagem em relação ao Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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sexo ser tão simples. Eu poderia usar uma boa dose da indiferença de Jess. Vou para casa sozinha e cumprimento Robert na porta. Ao cambalear rumo ao elevador, ele me recomenda uns copos de água antes de ir para a cama. Preciso de algumas tentativas até conseguir enfiar a chave na fechadura, mas acabo entrando e vou, aos trancos e barrancos, até o banheiro. E fico lá, agachada, com a cabeça descansando sobre o vaso sanitário, contente por sentir o fresquinho em meu rosto, até que o brilho do sol entra pela janela, anunciando que é de manhã. Esse foi o melhor sono que tive a semana toda.

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Capítulo 7 Estou com dor em todos os lugares. Não consigo atravessar o quarto sem sucumbir à tontura. Dou uma olhada no relógio, mas viro a cabeça rápido demais e sinto uma nova onda de náusea. Tenho de encontrar meu avô às dez horas, em Riverdale. São 8:55 e eu preciso pegar o trem de 9:15. O que significa que eu deveria ter saído para ir à estação Grand Central dez minutos atrás. Merda. Penso em cancelar tudo, mas simplesmente não posso fazer isso com vovô Jack. Poderia fazer isso com qualquer outra pessoa, talvez, mas não com vovô Jack. Ele sempre esteve disponível para mim. Eu me arrasto para levantar do chão, escovo os dentes e boche¬cho um pouco. É bom que eu não solte um jato de vômito com cheiro de tequila na casa de repouso onde meu avô vive. Como não dá tempo de tomar banho, passo um lenço umedecido embaixo dos braços. Pego uma camiseta e uma calça jeans da minha montanha de roupa suja, jogo a bolsa no ombro e saio pela porta como um foguete, desço os seis lances de escada correndo - não dá tempo de esperar pelo elevador - e alcanço a rua. Hoje não vou ganhar nenhum concurso de higiene. Uma olhada rápida no reló¬gio descarta qualquer sonho com café. Disparo oscilante rumo ao metrô e considero a possibilidade de ainda estar bêbada. Chego à plataforma na hora em que o trem está saindo. Droga. Leva no mínimo uns seis minutos até chegar o próximo trem. Não posso perder o trem para Riverdale, eu sei, possivelmente falo em voz alta. Certamente em voz alta. Ainda estou bêbada. Porra. As outras pessoas na estação se afastam de mim, como se minha doença mental fosse contagiosa. Eu gostaria de lhes dizer que não se preocupem, que só estive bebendo, mas percebo que isso pro- vavelmente não irá melhorar as coisas, já que são apenas nove da manhã. Em vez disso, pouso a cabeça nas mãos e dou um gemido para mim mesma. O vagão sacode para a frente e para trás, provocando a minha ressaca. - Emily? - pergunta uma voz fantasmagórica, vinda do alto. Vejo sapatos pretos recémengraxados diante de mim, mas não levanto a cabeça. Isso não pode estar acontecendo. Estou imaginando. Deus, diga que isso não está acontecendo. Talvez se eu continuar com a cabeça baixa e fingir não estar ouvindo a voz de Andrew, ele se afaste. Eu aperto os olhos fechados, torcendo para que isso o faça desaparecer. Mas não faz. Ao abri-los, ele ainda está lá. Sapatos recém-engraxados. Isso realmente está acontecendo. - E aí - digo. Ele olha para mim com curiosidade e pela contração de seus ombros dá para ver que está tentando não rir. Olho para baixo e percebo que estou vestindo sua velha camiseta da equipe de natação do MIT, uma que ele havia me prometido jogar fora. As palavras PERERECAS RASPADAS E MOLHADAS estão escritas em letras pretas no meu peito. Embora eu tenha achado meio engraçado quando ouvi a história pela primeira vez — aparentemente, a mascote da universidade era uma perereca, e a equipe de natação costumava raspar as pernas para nadar mais rápido; acho que deu para entender a piada -, agora não é mais tão divertido. O único benefício de estar bêbada é que não sinto toda a profundidade de minha humilhação. - Você precisa de ajuda? - Dá para ver que ele está gostando daquilo, e não posso culpálo. - Porra - proclamo, em voz alta, embora só tivesse a intenção de manter o xingamento em minha mente. - Porra - repito, alto e bom som, dessa vez irritada por ter vingado antes, quando só queria pensar. Componha-se, Emily. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- E aí - tento continuar. - Desculpe. Ainda estou bêbada de ontem à noite. - Estou vendo. - Tequila. Estou indo para ver vovô Jack. Tô atrasada. - Mantenho a cabeça baixa para evitar as vertigens. - Você saiu com a Jess, não foi? - A Jess já é manjada por me levar para sair e me deixar em frangalhos. Ela parece achar saudável perder o controle de suas funções físicas de vez em quando. Para ela, vomitar significa o fim de uma boa noitada. - Foi. Drinques. E a camiseta é porque eu tava atrasada. - Meus lábios continuam me traindo. Tenho frases claras na cabeça, mas elas não se traduzem em palavras. Andrew senta ao meu lado e começa a parecer preocupado. - Tem certeza de que está bem? - Estou legal. Só atrasada. E um pouquinho enjoada. - A voz eletrônica anuncia a Grand Central Station. - Essa é a minha parada - digo, orgulhosa por formular uma frase inteira e aliviada por escapar. Mas, para minha surpresa, Andrew sai do trem e vem atrás de mim. Ele sobe os dois lances de escada me segurando pelo cotovelo, enquanto ando oscilante. Chegamos à área principal do terminal que parece estranhamente vazia, e quase íntima em sua vastidão; as constelações no teto parecem estar mais baixas do que o habitual. O lugar está vazio o suficiente para ouvirmos o tiquetaque do imenso relógio, que imagino ser um símbolo, mas, em meu estado atual, não sei dizer o quê. Sinto Andrew ao meu lado, e meu braço fica morno e formigando. Pare com isso. Não é hora para isso, digo a mim mesma. O formigamento subitamente me deixa ansiosa, me lembra do trem sacudindo, e penso na possibilidade de vomitar nos sapatos de Andrew. Conto os intervalos da minha respiração conforme os tiquetaques — inspiro no tique e expiro no taque — e fico grata porque a náusea me abandona. - Você não está em condições de ir a lugar algum - diz Andrew. E, apesar de querer dizer algo juvenil e muito descolado, do tipo Você não é meu chefe, ou Quem morreu e indicou você para ser o próximo capitão, eu me contenho. Andrew está absolutamente certo. Eu o deixo me conduzir até o Starbucks e sento. Ele pede meu telefone celular e eu lhe dou. Ainda está desligado, desde ontem. Ele abre e procura o número do meu avô. - Vovô Jack - diz ele —, é o Andrew. - Eu não posso ouvir o que meu avô está dizendo do outro lado, mas sei que é algo alegre, porque Andrew sorri ao telefone. - Infelizmente, Emily vai se atrasar um pouco. - Ele olha devolta para mim e franze o rosto. - Não, nada que preocupe. Houve um problema com o metrô e ela perdeu o trem. Ela provavelmente vai pegar o de dez e quinze. - Farei isso, vovô Jack. Espero também aparecer logo. Mande lembranças para Ruth. Andrew desliga o telefone e me devolve o aparelho. Ele me olha, como se dissesse: Não acredito que acabo de mentir para o vovô Jack. Depois vai até o balcão e volta com duas xícaras de café e dois croissants de chocolate. - Obrigada - agradeço.

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Andrew não responde. Ele senta diante de mim e seus ombros começam a tremer um pouquinho, depois sacodem. Ele parece estar chorando e meu coração se aperta de culpa. Eu nunca tive a intenção de magoá-lo. Mas, no fim, Andrew não está nada chorando. Ele está morrendo de rir. Começa dando risadinhas, mas, em segundos, está às gargalhadas, com a cabeça no meio das pernas. Eu também começo a rir. Não posso evitar, a risada de Andrew sempre foi contagiante e as lágrimas começam a rolar pelo meu rosto. Nós nos recompomos e o ataque parece terminar. Mas eu começo a soluçar e a coisa começa de novo. Andrew dá tapas nos joelhos, eu seguro a barriga. Estamos rindo com tanta força que chega a doer. E muita risada para qualquer um. Eu olho para cima, nossos olhares se cruzam e assim, de repente, cessa o riso e o momento se transforma num silêncio estranho. Eu gostaria que pudéssemos esquecer de nos lembrar. - Então, como você tem andado? - pergunto, para quebrar a tensão. - Bem. ótimo, na verdade. Realmente ótimo. - Que bom, fico contente. - E você? — indaga ele, como se fôssemos meros vizinhos, como se apenas algumas semanas antes não tivéssemos feito amor no chão da minha cozinha. E em minha banheira. E no provador da Saks. - Tudo bem. Ocupada no trabalho. Muito ocupada. - Ponho as mãos ao redor da xícara de café para aquecer as pontas dos dedos. Tomo um gole de café e me queimo. - Caso interessante? — Andrew dá uma mordida no croissant. Fica com uma migalha colada na boca, ele sempre fica com os lábios grudentos... e eu quero lamber. Não seria a primeira vez. - Fraude de contabilidade - minto. — Totalmente fascinante. E você? Alguma coisa interessante acontecendo no pronto-socorro? - Ontem fiz um parto. Foi legal. O milagre da vida e tudo o mais. - Nossa - digo. - Nossa. - É. Bom, então está bem. - Andrew se levanta, um sinal de que nossa conversa agora acabou, e joga nossos croissants inacabados no lixo. Eu ainda não estou pronta para ir embora, nem tinha terminado meu café-da-manhã, mesmo assim, vou atrás dele rumo ao terminal, até que ele pára em frente ao grande relógio. - Cuide-se — diz ele. Eu olho para baixo, esperando um beijo de despedida. Sei que é mais do que mereço, mas quero sentir seus lábios, sentir o formigamento de Andrew, só mais uma vez. Eu nem me importaria com um beijinho no rosto, como um irmão, ou primo distante. Isso já seguraria a minha onda. - Você também. Obrigada por sua ajuda - digo, mas ele não me ouve. Quando olho para cima, com a cabeça inclinada, na expectativa, estou falando para o ar vazio. Andrew já está do outro lado da estação, correndo o mais rápido que pode, em direção à saída. *****************

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A casa de repouso de Riverdale me lembra um hotel de Las Vegas. Tem uma recepção enfeitada — teto com sancas douradas e sofás de braços entalhados, e até um balcão de conciérge. O andar principal tem uma sala de cinema, sala de jantar e uma lanchonete, todos ao redor de uma sala de estar. O leiaute torna quase im¬possível encontrar a saída. As televisões nos elevadores anunciam eventos que exigem seu tempo e atenção: "O exterminador do futuro, filme de ação, essa noite!", "Política no Oriente Médio: alguma esperança de paz?", "Investimento 101: Como fazer duráveis suas economias". Não tenho certeza qual dos dois é mais deprimente, a casa de repouso ou Vegas, mas eles compartilham aquele otimismo superficial maculado por uma clientela já desgastada. As pessoas vão para ambos os lugares para morrerem lentamente. No entanto, para uma casa de repouso, é o melhor que se pode ter. Meu avô tem um apartamento de um quarto no andar dos "idosos ativos", uma "cobertura" com janelas do chão ao teto. Sua decoração é arrumada e eficiente, tudo tem múltiplas funções, exatamente do jeito que ele gosta. A mesa de centro tem uma gaveta embutida para jogos de tabuleiro, a torradeira faz frango assado, o assento do vaso sanitário toca músicas. Quando meu avô se mudou para cá, uns anos antes, depois de um pequeno enfarto, aquilo pareceu um compromisso decente. Ao menos aparentemente, a independência estava sendo preservada. Ele pode ter uma dieta planejada por nutricionistas e carregar um cartão com recomendações de um lado para o outro. Mas, no final do dia, ele tem sua própria porta que dá para a rua. Ele foi inflexível, em seu apartamento teria uma porta diretamente para a rua. O maior problema com esse lugar, fora o fato de que uma vez que um residente se muda para lá ele nunca mais sai, é a convivência com os doentes. O apartamento do vovô Jack divide o elevador com os andares de "cuidados intensivos", fazendo com que cada viagem se torne um lembrete do que o futuro reserva. Ninguém quer ver os suportes onipresentes, com sacos de fluidos pendurados como frutas de plástico, as enfermeiras grandes cuidando de gente pequena. Ninguém quer ouvir os gemidos que soam terrivelmente como despedidas. Eu aceno para vovô Jack e Ruth, sua vizinha e amiga, quando os vejo do outro lado do corredor. Ao atravessar o assoalho de mármore, vejo Ruth tirar um fiapo da camisa xadrez de meu avô. - Você andou bebendo, meu amor? - pergunta meu avô, depois que beijo seu rosto. O homem tem um faro de policial da narcóticos. - Foi. Várias doses de tequila, ontem à noite. Desculpe, vovô. - Eu sabia. Por isso que estava atrasada, certo? Estava com a cara na privada? - Algo parecido. - Obrigada. Você acaba de me fazer ganhar trinta pratas. Ruth? — Ele estende a mão. - De que está falando? - Eu apostei com a Ruth que não havia problema algum com o metrô, e ela disse que você não mentiria para mim. Eu, obviamente te conheço um pouquinho melhor. - Meu avô levanta o boné do entregador de jornais para mim, uma relíquia de sua adolescência. Fico tentada a roubálo, como fiz com seu casaco da Burberry. Sei que ele não se importaria. Ele diz que fica contente em ter suas roupas circulando por Manhattan num segundo round. - Desculpe. - Viro para Ruth e lhe dou um abraço. - Eu aprendi com o melhor. Isso não é um exagero. A verdade é que tudo que sei na vida aprendi com o vovô Jack. A amarrar os sapatos, a sempre carregar um livro, a dizer por favor e obrigada, a manter um Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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segundo contato através de um cartão, a sonhar acordada como um passatempo, a dar grandes gorjetas, a questionar a existência de Deus, a sorrir na dor. A aparecer. Depois da minha mãe, ele era a minha pessoa predileta quando eu era criança. Um superherói da vida real, que entrava e saía de cena conforme era necessário. Quando fui reprovada em meu exame de motorista, quando tive meu apêndice removido, quando Toby Myers disse que eu tinha o buço cabeludo e me fez chorar diante de toda a turma na sexta série, foi ele quem fez com que tudo isso doesse um pouquinho menos. E, mesmo hoje em dia, isso não mudou muito. Minha mãe costumava dizer que meu avô se transformou depois que eu nasci. Já quase com sessenta anos, ele deixou de ser um homem para ser um pai. Não tenho certeza do que ele foi para meu pai, quando estava crescendo - talvez tenha sido distante, ocupado, muito como meu pai é agora comigo -, mas, durante a minha vida, principalmente depois que minha mãe morreu, ele tem sido o vovô Jack, a pessoa que torna suportável ser filha única, a pessoa que me faz sentir menos só. Nós três deixamos a casa de repouso, meu avô no meio; Ruth e eu, cada uma de um lado de braços dados, saímos rumo ao ar fresco. Caminhamos lentamente e, de tempos em tempos, os dois se comunicam silenciosamente, e dão uma paradinha. Tenho certeza de que é meu avô quem precisa recuperar o fôlego, não Ruth, mas não faço perguntas. Felizmente, não temos como ir longe, só até o restaurante da esquina. Não preciso ser lembrada dos limites do meu avô. Eu já penso nisso diariamente. O vovô Jack e eu estamos diante de impossibilidades estatísticas. Eu venho estudando estatísticas - outra habilidade aprendida com meu avô, que foi atuário, de profissão — e os números não batem. A matemática diz que ele não chegará ao fim da década; minha pura negação diz que ele chegará. Eu não posso, não vou imaginar a vida sem o vovô Jack. Quando chegamos ao restaurante, requisitamos um reservado de vinil vermelho e pedimos picles e café. Nós vamos muito ali, porque é o tipo de lugar que o faz sentir em qualquer lugar da América, qualquer lugar mesmo; a ambigüidade nos faz sentir a milhas de distância de Riverdale. Meu avô parece magro, então eu o forço a pedir um milk-shake de morango. Ele precisa se inclinar para alcançar o topo do copo alto e fica com um bigode rosa so¬bre o lábio. Mas eu não digo nada, porque acho que ele fica uma graça, como uma criança pequena. Isso ajuda a esconder o fato de que seu rosto hoje parece mais velho. A pele está mais flácida, como se estivesse solta das bochechas. Isso cria rugas profundas, aceitas somente em supermodelos. Nos anos oitenta. - Então, Emi, onde está o Andrew? - pergunta meu avô. Andrew sempre vinha a Riverdale comigo, e nós quatro jogávamos pôquer o dia inteiro. De cada dez partidas, Ruth nos dava uma surra em nove. - Nós terminamos. - O quê? Por quê? - Vovô Jack se endireita, olha para mim. - Você sabe, essas coisas acontecem. E vocês? O que têm feito de bom? - Ora, vamos, Emily. Ninguém está interessado em ouvir que eu e Ruth aprendemos a tricotar ontem. Desembucha. Você está bem? - Nada a dizer. Estou bem. Às vezes, as coisas simplesmente acabam. - O que houve? - ele insiste. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Nada. - Terminar é mais que nada - ele diz. - Deixe a Emily em paz, Jack. - Ruth dá um gole no milk-shake do meu avô. Ao contrário de meu avô, Ruth parece bem-disposta, até atrevida. Ela não é jovem, é claro, já que deve ter uns oitenta e poucos, mas é jovial. Veste um terninho Chanel de bouclê, e o cabelo está arrumado com laquê num coque platinado. Embora eu possa imaginar como ela deve ter sido anos atrás, linda como a rainha da formatura, não dá para pensar que ela pudesse ser mais bela do que é agora. Ruth tem o tipo de beleza - as rugas, as pintas, a pele curtida - que torna impossível desviar o olhar, que quer examinar cada detalhe. Apontar para a cicatriz em seu pescoço, como um novo amante faria, e dizer Agora me conte qual é a história dessa marca. Embora eu não tenha certeza quanto aos parâmetros do relacionamento dela com o vovô Jack - se compartilham mais do que apenas amizade -, de qualquer forma, meu avô se deu bem. Ruth Wasserstein é uma lenda viva. Ela teve uma cadeira no tribunal de apelação americano por mais de quarenta anos e chegou a ser cogitada para a Corte Suprema. (Do jeito que ela conta, "outra judia chamada Ruth" acabou chegando lá primeiro.) Meu avô a provoca, dizendo que não acredita que ela realmente foi a famosa Ruth Wasserstein, já que é divertida demais para ser uma juíza. Mas, em sua defesa, ela utiliza bastante a palavra "protesto". - Ora, vamos, não estou chateando a Emily. Isso é importante. Quero saber o que aconteceu. O Andrew terminou com você? Ele entrou em pânico? Se foi isso, vou quebrar as pernas dele. Melhor ainda, vou contratar alguém para matá-lo. Eu tenho contatos, você sabe. - Vovô, não há necessidade de matar ninguém. Eu terminei com ele. - Sério? — o vovô e a Ruth perguntam, juntos. - É sério. - Mas ele parecia um rapaz tão bacana - comenta Ruth. - E ele me comprou aquele negócio do clube da cerveja do mês. Você acha que agora ele vai cancelar? — meu avô pergunta. - Jack - diz Ruth. - Relaxe, eu estou brincando. Embora aquela bebida com abricó tenha sido muito legal. Não foi, Ruthinha? - Foi. Emily, se você não se importa, posso lhe perguntar qual foi o motivo do rompimento? Quero dizer, ele só parecia tão... bem, na falta de outra palavra, perfeito para você. - Não, na verdade, não era. Nós nunca íamos nos casar, sabe? Apenas pareceu a hora certa de terminar - respondo. - Mas ele ia te pedir em casamento - informa o vovô Jack. - O quê? Como sabe disso? - Ele me disse. Bem, na verdade, ele me perguntou. Eu o incentivei a ir em frente.

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- Você o quê, vovô? Vovô, por que não me disse? Por que não me alertou? Eu não acredito nisso. - Achei que você gostaria da surpresa. Eu deveria ter dito não? Como eu poderia dizer não para o cara? Desculpe, Emily, mas ele é ótimo. A maioria dos garotos de hoje em dia não são criados para ser homem, mas os pais dele fizeram um trabalho decente. - Você só gosta do Andrew porque ele é médico - digo. - Não é verdade. Andrew é um cara muito bom. Ele se deu ao trabalho de vir até aqui para me perguntar pessoalmente. - Ele veio aqui? Em Riverdale? Quando? - Não me lembro exatamente. Na semana passada, talvez. - Então só é preciso que alguém venha lhe pedir permissão? - digo, suavemente, pois sei que não posso culpar meu avô pela forma como as coisas se desenrolaram. Foi culpa minha. Foi minha decisão. - E. E não se esqueça da cerveja. A cerveja também ajudou. - O que ele disse? - Não vou mentir para você. Não foi lindo. Ele estava nervoso. Mal conseguiu pôr as palavras para fora. Mas ele foi educado e sério, e você tem que respeitar o cara por tentar fazer a coisa certa. - Nós ficamos com o coração na mão, esperando que você ligasse dizendo que ficou noiva - completa Ruth. — Estávamos tão empolgados. Os dois olham para mim, ainda com um pouquinho de esperança nos olhos. Como se isso fosse uma piada e Andrew fosse entrar pela porta a qualquer minuto. A culpa pesa em minhas vísceras. Tenho decepcionado bastante gente nos últimos dias. - Sinto muito. Eu simplesmente não pude fazer isso. Não tive a intenção de decepcionar vocês também. - Você não nos decepcionou, eu apenas gostava do cara, meu bem. Tenho me preocupado menos com você durante esses dois últimos anos que passaram juntos. Ele parecia cuidar bem de você - explica o vovô Jack. — Só isso. - Eu posso cuidar de mim mesma. Sou uma mulher feita. Falo como uma garota de dezesseis anos, resmungando sobre os privilégios de usar o carro. - Ai, meu Deus, você sabe se ele perguntou ao meu pai? - Acho que não. Eu falei com Kirk alguns dias atrás e ele não falou nada a respeito, e eu não lhe disse nada — confirma o vovô Jack. - Bom. Por favor, não conte para meu pai. Eu simplesmente não estou pronta para conversar com ele sobre isso, entende? - Sem problemas. Emily? - Que foi? - Tudo que quero é que você seja feliz - diz vovô. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Eu sei, vô. - Receio que você não consiga fazendo isso sozinha — ele continua. - Estou bem, de verdade. Estou feliz. Sério. Realmente estou. - Você é cheia de papo furado - diz o vovô Jack, ainda que de maneira gentil. - O que posso fazer? Eu aprendi com o melhor. - Meu avô apenas concorda, subitamente sério. - Isso significa que nós não podemos mais convidá-lo para o pôquer? - pergunta ele. - Provavelmente não - digo. - Droga - reclama Ruth. - Era tão fácil ganhar dele. - Eu sei — acrescenta meu avô. - Nem era justo. Algumas horas depois, eu caminho com Ruth e meu avô até às portas dos apartamentos deles, as unidades PH1 e PH2. - Eu te vejo depois, Emily. - Meu avô me dá um beijo de despedida. - Dê um oi para... - Ele pára no meio da frase e deixa as palavras no ar. - Vovô? - Diga oi para, você sabe, qual é o nome dele... - Kirk - completa Ruth, rapidamente. - Diga olá para Kirk, por ele. - E, e diga que ele deve vir me visitar de vez em quando — diz meu avô. - É claro, vô. Direi a ele. O vovô Jack entra para descansar e Ruth me convida ir ao apartamento dela para tomar um chá. Ela diz que isso irá me aquecer para a volta. Fico feliz pela desculpa de passar um tempo em seu apartamento que eu adoro, pois é divertido ver o oposto de meu avô. Tudo ali é supérfluo. Em vez de ter uma ou duas fotografia preferidas, as paredes são forradas de fotos, cobrem todas as superfícies. O sofá florido tem duas mantas, uma lisa e outra estampada, já que ela não conseguia decidir qual das duas queria mais. Ela tem quatro relógios de parede, todos antigos, cada um deles celebrando o tempo que passa. Quando vou ao apartamento de Ruth, examino-o como se fosse um museu. Começo pela estante de livros, embutida, superlotada e cheia de tesouros: primeiras edições autografadas, autores que eu havia esquecido, mas sempre quis ler, obras da própria Ruth. Depois sigo olhando as fotografias de seus três filhos, primeiro, quando crianças, depois mais tarde, já como pais. As minhas prediletas são de Ruth sozinha, ainda jovem, vestida com a beca negra do tribunal. Numa delas, sua pele está lisinha, o cabelo está mais comprido e preso num coque na nuca. Mas o sorriso é o mesmo, os dois dentes da frente em ângulo, juntos, o lábio infe¬rior estreito pelo riso. - Eu tinha quarenta e poucos anos quando essa foto foi tirada. - Ruth coloca uma bandeja com centenas de chás diferentes em cima da mesa. - Não sei no que é mais difícil de acreditar: Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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que um dia fui tão jovem, ou que agora estou tão velha. - Você ainda está ótima. - Obrigada, querida. Ouça, desculpe quanto a Andrew. Não tive a intenção de fazê-la se sentir mal. - Não fez. De forma alguma. - Se qualquer hora você quiser conversar, estarei aqui. Sei que você fala com seu avô sobre essas coisas, mas, se quiser a opinião de uma mulher... - Obrigada, fico grata por isso. — Eu olho outra foto de Ruth, uma de vinte e poucos anos, que nunca conheci, segurando um bebê, é uma fotografia de uma mãe. - De verdade. - Essa é a minha Sarah. Ela era um lindo bebê. - Fica claro que, para Ruth, aquela é uma foto de uma filha. - Muito bonitinha. - Agora ela também é advogada, em Washington, embora esteja se preparando para a aposentadoria. Está no fim da carreira, enquanto você está apenas começando a sua. — Ela olha para a foto mais uma vez, balança a cabeça e põe o porta-retrato novamente sobre a lareira. — Ouça, eu queria falar com você sobre Jack, se não se importa. Você o tem achado um pouquinho diferente nessas últimas semanas? - Na verdade, não. Quero dizer, ele parece cansado, talvez, e provavelmente precisa sair mais. A idéia de você e o vovô tricotarem é depressiva. Por quê? O que está havendo? - Eu não sei. Ele simplesmente parece estar ficando confuso com mais freqüência. Esquecendo, perdendo as coisas... - Acho que é só uma característica dos Haxby. Eu sou exatamente assim. Quando fui ao banheiro, percebi que estou vestindo a minha calcinha do avesso. Os Haxby são avoados. Tenho certeza de que é só isso. - Talvez, mas... - Ele teria me falado, se não estivesse bem. Quando fomos ao médico, da última vez, eles disseram que ele poderia começar a esquecer as coisas um pouquinho mais, que na idade dele isso é esperado. - Mas, Emily... - Ele teria me procurando se algo estivesse errado, Ruth. Sério, meu avô está bem. - Noto que ela sabe o que estou querendo dizer: Ele tem que estar bem. Simplesmente tem que estar. - Está bem. - Ela abana a mão, num gesto que eu interpreto como ignore o que eu disse. E é exatamente o que faço. Terminamos o nosso chá de uma forma maravilhosamente civilizada, sem os mindinhos esticados, e falamos sobre como foi para Ruth ser uma das quatro únicas mulheres em seu curso de direito. Papeamos, fofocamos, rimos e nenhuma das duas voltou a dizer mais nenhuma palavra sobre o vovô Jack

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Capítulo 8 Três semanas depois, estou na fila do terminal da Continental Airlines, no aeroporto de Newark, com Carl MacKinnon. Estou carregando um laptop, uma bolsa pendurada no ombro, quinze pastas de depoimentos e arrastando uma mala com uma das rodinhas quebrada. São quatro e meia da manhã e, apesar da dor nos braços pelo excesso de bagagem, acho que vou dormir em pé. Minha cabeça fica caindo de lado e eu sinto a baba se formar nos cantos de minha boca. Pela profissional exímia que sou, uso a manga para limpar. Fica uma marca. Quando chega nossa vez de fazer o check in, a mulher atrás do balcão lança um imenso sorriso para nós, apesar do horário cruel. Tento retribuir o entusiasmo, mas meus lábios não têm energia para isso. O efeito é algo parecido com mostrar os dentes. Começo a dizer para a mulher que estamos seguindo para Little Rock, Arkansas, mas Carl me interrompe. - Houve um sério equívoco. - Ele pronuncia cada uma das sílabas da frase. - Minha colega está reservada na classe econômica. Solicito que ela seja transferida para a primeira classe, imediatamente, acomodada ao meu lado. - A mulher registra a gravidade da questão, digitando furiosamente. Embora eu não fale nada, não há erro algum. Eu fui responsável pela reserva dos vôos e a secretária de Carl se encarregou de providenciar o hotel. Propositadamente escolhi a classe econômica, deixei Carl na primeira. Imaginei que o aperto da poltrona seria um preço pequeno a pagar por algum tempo longe dele. - Sinto muito, senhor. A primeira classe está completamente lotada - diz ela. Percebo que eu estava prendendo a respiração e a solto, lentamente. A idéia de ter de sentar ao lado de Carl pelas próximas três horas e meia é quase demais para suportar. - Isso é inaceitável. - Carl bate com força no balcão. — Eu vôo mais de cem mil milhas por ano na Continental. Qual é o seu nome? Eu exijo falar com seu gerente. — Carl joga alguns cartões de plástico sobre o balcão. Um cartão platina de milhagem, um American Express Black, um reluzente cartão de acesso ao Admiral Club. Em resposta, a mulher digita o teclado violentamente e um pouquinho de suor se forma em sua sobrancelha. - Bem, parece que acaba de surgir algo, senhor. Desculpe, senhor. — Ela começa a imprimir e juntar os documentos. — Infelizmente, haverá um custo adicional de duzentos e sessenta e quatro dólares. Está tudo bem? Ela continua digitando, só para parecer ocupada. - Certamente. - Carl lhe entrega o cartão de crédito e pisca para mim. A viagem é por conta da Synergon. - Vocês dois estarão na IA e 1B. Tenham uma boa viagem. E lá se vai a minha manhã de liberdade. Ela entrega os nossos cartões de embarque e no meu há um selo de segurança, mas no de Carl, não. Isso significa que, antes de embarcar no vôo, toda a minha bagagem será revistada manualmente. Realmente é irônico que ela pense que entre nós dois eu seja a mais parecida com um terrorista. Talvez essa seja a punição por me associar a um bundão desses. Ao entrarmos pelo setor de segurança, Carl dá um sermão sobre positividade, diz que não chegarei a lugar algum nesse mundo sem isso. Ele claramente cresce depois desse golpe da poltrona e fica todo alegre. Fazemos uma parada estratégica para cafeína e amido no terminal, e ele puxa conversa. Sua personalidade parece totalmente circunstancial. Em balcões e atrás de escrivaninhas, ele passa por cima das pessoas com sua agressividade. Mas, sentado lado a lado, em cadeiras plásticas, equilibrando nossos pãezinhos no colo e o café no braço da cadeira, ele Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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age como um ser humano, é até amistoso, como se estivesse ansiando por nossos três dias juntos no Arkansas. Eu não estou. Vou passar as próximas vinte e quatro horas sozinha, com Carl. Depois de nosso vôo, vamos de carro até Arkadelphia (um lugarejo tão remoto que nem apareceu no Google Earth, quando fiz uma busca) e passamos os três próximos dias numa sala de reuniões empoeirada, pegando o depoimento do Sr. Jones. O plano é interrogá-lo sobre os detalhes sórdidos da morte de sua esposa. Creio que as palavras exatas de Carl foram "Faça-o chorar". E no dia seguinte ficará ainda mais horrível. Ao meio-dia, carisse se juntará a nós. Quando estamos prontos para embarcar, a segurança do aeroporto me puxa de lado e abre a minha bagagem, para diversão de todos na fila. Eles observam, enquanto o guarda de segurança usa uma luva plástica para revistar as minhas calcinhas. Carl fica olhando, provavelmente para ver se eu sou chegada a um fio-dental. Fico feliz em decepcioná-lo. Mas, até tomarmos nossas poltronas na primeira classe, meu chefe e todas as outras pessoas sabem que uso anticoncepcional e compro calcinhas de algodão na Target. Após a humilhação da segurança, o vôo prossegue relativamente tranqüilo. Pegamos um pouco de turbulência e os avisos de apertar cintos se acendem, mas Carl me deixa sozinha durante a maior parte do tempo, contente por eu estar fazendo o seu trabalho. E eu fico contente por ser deixada em paz. Como a Carisse só chegará no dia seguinte, eu que vou pegar a maioria dos depoimentos, pois fui designada para fazer o esboço do requerimento sumário. Isso é importante. Se nós ganharmos, e com "nós" eu me refiro à Synergon, o caso todo é arquivado antes do julgamento. A companhia não paga nada - nadica de nada - para as pessoas de Calddo Valley. No entanto, eles pagam um bocado de taxas advocatícias para nós. E com "nós", eu me refiro à APT. Embora eu não seja fã de questões subjetivas, escrever esse requerimento é a minha primeira oportunidade, em quase cinco anos na firma, de mostrar aos sócios que tenho um cérebro, que sou capaz de fazer mais do que revisar documentos, dia após dia, na sala de reuniões. Esse é o verdadeiro trabalho de advogado. É a chance de dar um salto na minha carreira e eu pretendo usá-la. Quando saímos do avião, o fato de estarmos longe de Nova York logo fica evidente. Tudo é mais devagar ali. A mudança de ritmo parece um alívio. A cadência arrastada do Sul também tem um efeito relaxante em Carl, magicamente removendo sua antipatia. Ele passou da ira com a moça da Continental à razoável amizade comendo pãezinhos, e agora está amicíssimo. Daria para pensar que estamos no Arkansas para algumas rodadas de golfe, não para dar uma rasteira no Sr. Jones (palavras de Carl, não minhas). Embora o cara da locadora de veículos demore vinte minutos para encontrar a nossa reserva, Carl se abstém de fazer cena. O American Express Black fica firme na carteira e as mãos dele, nos bolsos. Ele papeia comigo e começa a me chamar de "garota". Falando coisas do tipo: "É bom sair um pouco da cidade não é, garota?" e "Espero que os sócios não estejam te pressionando muito ultimamente, garota". Eu sorrio e ignoro o tom de complacência, pois, na verdade, eu também me sinto diferente aqui. O ar é menos carregado, deixa mais espaço entre as coisas - minhas palavras, meus passos, minha respiração. O trajeto para Arkadelphia é uma estrada reta e dirigimos com as janelas abertas. Eu me deleito com o silêncio, a falta do som orquestrado de fundo; não há buzinas, nem o barulho de milhares de pés atingindo o chão, nem caminhões carregando e descarregando. A estrada numa paisagem vazia, definida pelo que não existe.

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Naquele mundo não existem arranha-céus nem shoppings. Nós dirigimos durante milhas sem avistarmos nenhum carro, sem uma única menção a McDonald's. Em vez disso, há apenas terra marrom, com plantas ocasionais, sempre espinhentas, pontilhando o horizonte. Só eu e Carl na estrada vazia, com os braços para fora da janela, empurrando todo aquele ar. Acabamos saindo da estrada e entramos no estacionamento do Hampton Inn. Quando viajo a trabalho, uma das curtições é a chance de dormir em cinco estrelas, como o Ritz e o Four Seasons, lugares onde eu jamais iria se estivesse pagando a conta. Mas, aparentemente, esse é o único hotel em Arkadelphia, o próximo da lista depois do Motel 6. Acho que nessa viagem não vou aumentar a minha coleção de miniaturas de xampu, não vou dormir nua em lençóis de 700 fios e, infelizmente, não vou pedir o serviço de quarto para evitar o jantar com Carl. Entramos no hotel, um retângulo de cimento que poderia passar por uma escola. Também tem aquele cheiro, como se a lanchonete fosse perto e estivesse servindo hambúrgueres e tortinhas de fruta. O garoto atrás do balcão tem o cabelo repuxado para trás com a ajuda de muito gel, um crachá onde se lê: "Bob" e um tipo trágico de acne que torna difícil não encará-lo. Sobre o lábio há uma ligeira penugem, um ensaio de bigode. A cintura das calças está caída o suficiente para ver que ele está usando cuecas Calvin Klein e, por algum motivo, essa informação — a roupa de baixo de Bob - me deixa um pouco constrangida. - Sejam-bem vindos ao Hampton Inn - diz ele. - Reserva para MacKinnon. — A voz de Carl é novamente pretensiosa. Um quarto com cama king-size, certo? — pergunta Bob. Carl não diz nada. Em vez disso, está interessadíssimo em tirar uma sujeira debaixo da unha. - Ah, não - digo. - Deve haver reserva para dois quartos. - Deixe-me dar uma olhada rápida aqui, mas parece que só há uma reserva no sistema. Bob digita no teclado, lentamente, e ignora o telefone tocando. - Está certo, mas nós precisamos de dois quartos, independentemente da reserva. Por favor. - Mantenho a voz firme, como se dissesse: não tem jogo. Ele digita mais um pouco e parece reler uma lista. - Nada feito, dona. Estamos totalmente lotados. Estamos na época da feira municipal - diz Bob. - Mas eu tenho uma reserva — insisto. - Não, nada feito, dona. - Bob repete. - Você não parece entender. Nós precisamos de dois quartos. E eu tenho uma reserva. Tento chamar a atenção de Carl. Por que ele não está ajudando? Onde está o American Express Black? Eu me sinto traída por meu corpo, minha primeira reação são as lágrimas, não a raiva, pois ele interpreta a visão que Bob tem de "dona" e Carl, de "garota". - Isso é Inaceitável. - Copio o tom que Carl usou mais cedo. Bob ri. Ele não está nem um pouquinho intimidado por mim. - Desculpe, aqui em nosso computador diz que é uma reserva única, para um quarto com cama king-size. — Bob vira o monitor em minha direção. Preciso ficar na ponta dos pés para me Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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debruçar no balcão e ver. "Olhe, há um lembrete de que foí solicitada, especificamente, uma cama king-size, e não duas camas - diz Bob. - Não há nada que eu possa fazer." As lágrimas se transformam em raiva. Eu olho para Carl, que ainda não está sintonizado, e vejo que, na verdade, ele está inspecionando um folheto da Biblioteca Clinton. - Carl? - Eu ainda tenho esperanças de que ele irá intervir, que não fez isso de propósito, que a secretária dele deve ter se enganado. Gritar com o atendente não surtirá qualquer efeito. Só será recebido com mais riso. Deboche, até. Carl simplesmente me ignora, absorto pela foto de Clinton com o Fleetwood Mac. - Eu preciso falar com seu gerente - digo. - Eu sou o gerente. - Bob sorri. Ele parece estar gostando de nossa pequena batalha, me colocando, como uma mulher presunçosa da cidade grande, em seu devido lugar. Tenho quase idade suficiente para ser mãe dele. - Desculpe, como eu disse, não há nada que eu possa fazer. - E quanto ao Motel Seis? — pergunto. — Você tem o número deles? - Tudo cheio. Nós recebemos o movimento excedente. - A voz de Bob está cheia de orgulho por trabalhar no segundo hotel mais conhecido de Arkadelphia. - Ora, vamos, Emi. Não se preocupe. - Carl enfia o folheto no bolso traseiro. Desde quando ele me chama de "Emi"? - Bob, nós podemos dividir o quarto. Não é o fim do mundo, certo? Ambos somos adultos. - Carl pisca para Bob e Bob logo lhe dá algumas chaves. Não tenho certeza do que dizer, mas sei que perdi. Não tenho nenhuma outra alternativa. Seria infantil contestar, e Carl nunca seria imbecil de admitir qualquer coisa além de um erro sincero. Tento salvar o restinho de dignidade que ainda tenho. - Nós vamos precisar de uma cama de armar - solicito, e Bob olha para mim, depois coloca o dedo na borda de suas cuecas Calvin Klein, para puxá-la ainda mais para cima. - Com certeza - diz Bob, e fica claro que enquanto for seu turno não haverá caminha de armar.

***************** Quatro horas depois, já na metade do depoimento, é que eu percebo que as coisas podem piorar. Eu não coloquei pijama na mala. Respire fundo. Para dentro e para fora. Há um repórter do tribunal que está gravando cada palavra que eu digo, portanto, qualquer gaguejo ficará registrado para a posteridade. Esqueça a organização da hora de dormir por enquanto. Acabe o depoimento. Faça seu trabalho. Finja ser uma profissional. Você é uma profissional. Estamos sentados junto a uma mesa retangular de armar, que mal cabe dentro da sala quadrada e quente. Nossas cadeiras esbarram nas paredes, nossos joelhos esbarram nos do vizinho. Não tenho certeza do motivo pelo qual os advogados dos requerentes nos colocaram aqui; ao passarmos pelo escritório deles vimos que havia espaço suficiente. Será, talvez, algum tipo de truque psicológico? O Sr. Jones está sentado diante de mim e responde às minhas perguntas de forma obediente, até respeitosa. Ele está usando óculos grossos com lentes de resina e uma armação marrom fincada em suas bochechas, e as mangas de seu paletó esportivo são ligeiramente curtas nos punhos. Ele me chama de "senhora" e constantemente concorda com a cabeça, como Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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se quisesse parecer colaborar. Olho minhas anotações e tento focar a atenção. Faço uma série de perguntas aparentemente vazias, mas, mentalmente, estou elaborando a base do requerimento judicial. Carl quer que eu siga a rota habitual de culpar a vítima. Meu objetivo é provar que há dezenas de outras variantes em jogo que podem ter causado o câncer da Sra. Jones, qualquer coisa exceto a água poluída pela Synergon. - Quanto pesava a sua esposa, Sr. Jones? - Cento e trinta quilos. - Ela alguma vez foi aconselhada por um médico a fazer dieta? - Protesto, informação irrelevante. - Pode responder, Sr. Jones. - Sim. - E ela fez? - Não. - Ela freqüentava uma academia? - Não. - Fazia exercícios? - Não. Ela sempre dizia que só se vive uma vez. Não fazia sentido perder tempo com exercícios. - Ela fumava? - Sim. Mas parou. Depois que a pequena Sue Ann escondeu seus cigarros. Isso mexeu com ela. - Por quanto tempo ela fumou? - Quinze anos. - Qual era o café-da-manhã habitualmente servido em sua casa, quando sua esposa estava viva? - Bacon com ovos. De vez em quando, lingüiça. - É verdade que Caddo Valley é famoso por sua fritada de chocolate? - Sim, senhora. A senhora precisa experimentar, enquanto está aqui. - Obrigada, senhor. Farei isso. O senhor mora próximo à usina Farm Tech? - Sim.

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- A que distância, aproximadamente? - Não muito longe. Mais adiante, na estrada, a uns quatrocentos metros. - E a Synergon é proprietária dessa usina? - Não, senhora, eu creio que não. Eu fico envergonhada em admitir, mas gosto do depoimento. Até que sou boa nisso, penso, conforme vou pegando o Sr. Jones nas respostas favoráveis, uma após a outra. Devo estar fazendo um trabalho decente, pois Cari me deixa comandar o show. É satisfatório reafirmar meu próprio poder, depois de ter sido tão bruscamente subestimada pelo recepcionista do hotel naquela manhã. "Donas" não fazem com que seus clientes economizem milhões de dólares, digo a mim mesma. - Sr. Jones, diga-me, há algum histórico de câncer na família de sua esposa? - Protesto, informação irrelevante. - Pode responder, Sr. Jones. - Sim, senhora, há. Os pais de minha esposa, ambos também tiveram câncer. Eles morreram num espaço de dois anos um do outro. Ela atira, ela acerta, a galera vai à loucura. Sinto puro orgulho, por um instante, até cruzar com o olhar do Sr. Jones. Ele simplesmente me olha. Triste e um pouquinho confuso.

*****************

- Adorei a parte em que você fez o bastardo nos contar tudo sobre os casos de câncer na família. Ótimo argumento genético - diz Carl mais tarde, com a energia de um garoto de doze anos contando sobre seu filme de ação favorito. - Boa estratégia, mudar de assunto tão rápido que ele nem pôde dizer que beberam a água da Synergon. Brilhante, Haxby. Brilhante. Estamos só nós dois mais uma vez, jantando no Cracker BarreI, a alguns quilômetros do nosso hotel, na beira da estrada. Carl ainda está com a sua expressão para "cliente ver" e é só charme e sinceridade. Ele interpreta o papel de um cavalheiro mais velho e gentil, temperando a conversa com histórias de guerra interessantes, para exibir sua estirpe. Menciona Princeton pelo menos Ruas vezes e se refere à época que passou em Cambridge, código de advogado para o curso de direito de Harvard. Ele reclama, debochando da quantidade de trabalho que faz para os curadores do Museu de Arte Moderna. Eu me pergunto se algumas mulheres o acham atraente com essa exibição fluídica de riqueza e controle. Carl não é horrível, embora eu tenha certeza de que ele gostaria de mover cada um de seus olhos para mais perto do nariz. Ao contrário da maioria dos homens no escritório, ele ainda tem cabelos fartos e grisalhos, penteados com capricho, e suas rugas lhe dão uma aparência mais distinta que envelhecida. Pelo fato de não sair de férias e morar em Nova York, seu bronzeado só pode ler saído de uma máquina, ou de um frasco. E ele se veste para ocultar o curso da gravidade; o peito masculino atarracado e a bunda chata passam despercebidos sob os ternos Armani risca de giz e as camisas asiáticas. Mas ele está ridículo, com suas abotoaduras azul berrantes, presas às mangas monogramadas da camisa, comendo uma salada espalhafatosa, em meio aos pratos de plástico, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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ao refil de refrigerante, e às famílias que vestem camisetas e jeans, saboreando suas costeletas de porco fritas. Eu peço o hambúrguer de 250g e uma porção de purê de batata com alho, bastante alho, só para garantir. Já me disseram que, além de dar em cima das mulheres do escritório, Carl é freqüentemente visto jantando com modelos em Manhattan, com a aliança escondida no bolso. Eu não entendo o que elas encontram nele, com sua crueldade casual. Embora eu imagine que, além de Carisse, haja várias mulheres por aí que equacionem riqueza com atração, não tenho certeza se já conheci alguma. Todas as mulheres que conheço estão em busca de Lloyd Dobler, não Gordon Gekko. Quando terminamos de comer, Carl pergunta se eu gostaria de dividir a torta de chocolate. Eu recuso. Enfiar nossas colheres no mesmo prato parece algo íntimo demais e certamente pareceria que estávamos num encontro amoroso. Na saída, olho rapida¬mente a loja Cracker Barrel, mas, apesar de milhares de tipos diferentes de alimentadores de passarinhos, não há uma única camiseta, nem short, à venda. Não tenho certeza do que farei quando chegar a hora de ir para a cama. Tudo que eu trouxe foram ternos e roupa de baixo. Carl segue de volta para o hotel e eu sinto o silêncio da noite ao nosso redor, e vou ficando cada vez mais nervosa. Espero que Carl tenha entendido o recado essa manhã, com a minha reação quanto a dividir o quarto. Certamente ele não pode acreditar que eu queira fazer sexo com ele. Será? Ele tem duas vezes a minha idade. É casado. É meu chefe. Talvez Bob tenha arranjado a cama de armar? Não imagino Carl se oferecendo para dormir na caminha de armar e estremeço ao pensar em deitar no carpete empoeirado do Hampton Inn com meu terno. Até entrarmos na recepção, estou tremendo. Penso em falar sobre verrugas genitais, mas não encontro um meio casual de tocar no assunto e desisto, não é muito sábio lançar esse tipo de boato. Nem em defesa própria. Eu mencionei "meu namorado" algumas, no carro, sem qualquer reação de Carl. Se sua esposa grávida não o detém, tenho certeza de que meu namorado imaginário tão pouco o fará. Noto uma loja de conveniência na esquina, e digo a Carl que o encontrei lá em cima, em um minuto. Ele sorri para mim e concorda, fico pensando se ele acha que vou comprar preservativos. Não, penso, você está apenas imaginando essas coisas. Ele não vai dar em cima de você e, se fizer, você irá dispensá-lo educadamente. Isso é o mais próximo que tenho de um plano. E, por favor, meu Deus, faça com que a loja tenha algo que lembre um pijama. Fico grata ao ver uma camiseta pendurada junto à parede. Ignoro o Alguém no Arkansas ama, pelo fato de que minha única outra opção é uma com o Clinton fumando um charuto. Definitivamente, não é a mensagem que quero. Compro a camiseta em tamanho extragrande e um short, está escrito atrás Beije minha bunda de Arkansas. É o melhor que consigo. Então - diz Carl, quando entro no quarto. Ele está deitado na cama, vestindo só a camisa e cuecas samba-canção xadrez. Acidentalmente olho para baixo e vejo a cabeça rosa de seu pênis para fora da cueca. Acabei de ver o pênis de Carl MacKinnon. Não acredito que acabei de ver o pênis de Carl MacKinnon. Repito as palavras e logo a palavra "pênis" começa a soar ridícula. A imagem também cauteriza meu cérebro e desejo que algum dia consiga esquecê-la. Embora eu perceba que estou encrencada, ainda há uma parte de mim que quer rir. A situação saiu tanto de controle que eu até espero um par de algemas felpudas. - Onde está a cama de armar? — pergunto, como se meu chefe não estivesse deitado numa cama, de cuecas samba-canção, e como se sua braguilha estivesse fechada.

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- Acho que o Bob não trouxe. - Ele dá de ombros. – Você está linda com esse terno, mas não é desconfortável? Talvez você queira tirar. - Carl me olha casualmente, como se tivesse acabado de me pedir uma pasta. Fico imaginando se ele sabe que o pinto está de fora. Certamente não sabe. - Não, estou bem. Realmente. É... vou ligar para recepção e perguntar sobre a caminha de armar. - Mantenho os olhos fixos no telefone e em seu disco rotativo. - Não precisa. Essa cama é grande o suficiente para nós dois. - Ele dá um tapinha no edredom. - Não, não seria apropriado, Carl — digo, torcendo para que minha entonação firme demonstre que não tenho qualquer interesse de dividir a cama com ele. Jamais. - Ora, vamos, Emily. Deixe de ser tão tímida. Vai ser divertido dormir junto - diz Carl, numa voz de garoto. Será que alguém lhe disse que fazer voz de criança aos sessenta anos é bonitinho? Não tenho a menor idéia do que fazer ou dizer. Eu gostaria de ter feito um curso sobre como reagir ao ver o membro de seu chefe. - Creio que não. Se você está sugerindo o que acho que está, eu não creio que seja uma boa idéia. - Eu dou as costas para Carl e, com o dedo trêmulo, giro o disco até conseguir falar com a recepção. Por sorte, Bob não está em serviço. - A caminha estará aqui em cinco minutos digo. - Bem, é o seguinte - diz ele. - Ainda estou com fome e, como não comi sobremesa, quero comer você. Você gostaria disso, não? - Carl estica a mão e pega em suas partes. Isso não pode estar acontecendo. Eu quero chorar e rir, e vomitar, tudo ao mesmo tempo. Como poderei algum dia voltar a olhar nos olhos de alguém em meu trabalho? Imagino que seus rostos serão substituídos pelos genitais de Carl. Pior, pela imagem de Carl massageando as suas genitais. Agora ele está totalmente de barraca armada. - Não - digo. - Não, eu não gostaria disso. Na verdade, nem quero ter essa conversa. Isso não vai acontecer. Por favor, pare agora mesmo. - Achei que você seria do tipo que faz jogo duro. Pode me dar trabalho. Não se preocupe, eu gosto de desafios. - Carl. - Há um tom constrangedor de apelo em minha voz. - Emily. - Carl. - Emily. - Não. Absolutamente não. Não posso fazer isso. Por favor, por favor, por favor, deixe-me em paz. - Não tenho certeza por quê mas, de alguma forma, essas são as palavras mágicas, e eu percebo, no canto do meu olho, que agora ele está com as mãos atrás da cabeça. Está certo, como quiser - diz Carl, e sacode os ombros, como se eu tivesse acabado de recusar a oferta de um travesseiro, e não cunilíngua de meu chefe. - Ah, a propósito, eu providenciei a chamada para seis e meia, para termos mais tempo e nos prepararmos para o depoimento – diz ele, em tom casual. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Com certeza - digo, como a associada eternamente dedicada. - Parece bom. Carl me dá as costas e apaga a luz. Eu sento no escuro, esperando a batida na porta. Estou toda arrepiada, apesar de ainda estar vestindo meu conjunto de lã. Quando a caminha finalmente chega, eu dou uma gorjeta de cinqüenta dólares para o mensageiro. Vou encontrar um jeito de cobrar isso da Synergon. Mas, é claro, com ou sem caminha de armar, eu não consigo dormir ali. Não sei bem o que eu estava pensando. Não posso dividir esse pequeno quarto com Carl, apesar do fato de ele estar roncando e do fato de ele ser um time de um homem só — isso sinaliza que ele não virá para cima de mim essa noite. Eu me tranco no banheiro com um travesseiro e um cobertor e deito na banheira, segurando o chuveirinho com as duas mãos, como se fosse um revólver, lamentando o fato de não ter encontrado um Wal-Mart para comprar uma arma de verdade. Provavelmente, dá para comprar uma aqui, em Arkadelphia.

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Capítulo 9 Na manha seguinte, quando acordo, lampejos da noite anterior povoam meu cérebro. Vejo a cueca samba-canção xadrez. Vejo o Pequeno Carl saindo para me dar um oi. Vejo mãos prontas para brincar. Por favor, faça isso parar. Durante o café, Carl não muda seu comportamento em relação a mim, como se o incidente jamais tivesse acontecido. Sua naturalidade me faz pensar se eu imaginei a coisa toda. Estranhamente, reajo de forma particularmente diferente em relação a ele. Meu comportamento é como um instinto capenga de sobrevivência. Por volta de meio-dia, durante um intervalo nos depoimentos, vejo Carisse dobrando o corredor, apressada, com os punhos cerrados. Pela primeira vez na minha vida, fico contente ao vê-la. Ao me ver, suas feições se modificam, formando um sorriso falso, os lábios se esticam, numa linha horizontal. Seu rosto, como sempre, está pastoso, como se ela fosse um boneco de massa de modelar e seu criador tivesse esquecido de retirar os excessos. Seus cabelos estão divididos no meio, em tufos finos e presos num rabo de cavalo. O rosado de seu couro cabeludo está à mostra e, por um instante, imagino como alguém pode achar isso encantador. Antes que ela diga oi, eu lhe digo que nós temos que dividir um quarto no hotel, que houve um engano na reserva. Ela me olha intrigada, como se minhas palavras não fizessem o menor sentido. Suas sobrancelhas se arqueiam e se juntam no alto, fazendo sombra sobre os olhos. Imagino que seja útil na chuva. - Você não espera que eu divida o quarto com Carl, não é? - eu pergunto, encarando e esperando que ela entenda o recado. Apesar de ser a Carisse, eu penso em implorar por sua compaixão. Não vou suportar repetir a performance da noite anterior. - Claro que não - diz Carisse, num tom que significa que ela quer dizer exatamente o contrário. Naquela noite, nós três vamos jantar no Hog Pit Barbecue, um daqueles lugares decorados para parecerem que você está comendo ao ar livre. Tem árvores artificiais junto às paredes, estrelas adesivas no teto e o piso é coberto de feno. Estamos cercados de americanismo: toalhas plásticas quadriculadas em vermelho e branco, crianças bagunceiras com dedos pegajosos e o requisito indispensável do HPB (Hog Pit Barbecue): o babador. Eu mastigo, desfrutando das expressões contidas dos rostos de Carl e Carisse quando chega o salpicão de repolho, que é o mais próximo de uma salada vendido no local. Quase consigo ver Carisse calculando mentalmente os gramas de gordura da maionese. Ambos se recuperam surpreendentemente rápido e depois de algumas cervejas estamos compartilhando um tempo decente. De forma espantosa, eu esqueço as imagens da noite anterior. Carl está se comportando primorosamente outra vez, contando histórias sobre como a firma mudou ao longo da última década. Fico sabendo que a diretoria está abrindo um escritório em Moscou e me abstenho de sugerir que eles dois se transfiram para lá. O único momento estranho é quando Carl se ausenta da mesa para atender a uma ligação da esposa. - Então, você e Carl dividiram um quarto ontem à noite, certo? - Carisse sussurra, erguendo tanto a sobrancelha direita que Chega a juntá-la com o cabelo. - A cidade inteira está lotada e a secretária de Carl cometeu um erro. Mas nós não dividimos a cama. - É mesmo? Por que não? - As sobrancelhas estão iguais novamente, mas os lábios se apertam. Acho que ela gosta de exibir a flexibilidade de personagem de desenho animado que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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tem no rosto. - Eu não dividiria a cama com meu chefe. - Ora, vamos, ele até que é bonitinho. Somos amigas, você pode me contar. - Eu não faria isso. Além do mais, ele é casado. - Não menciono que não somos, nem nunca seremos amigas. - E daí? - E daí? Você está brincando? - Ora, você realmente quer que eu acredite que você não dormiu com Carl na noite passada? — Antes que eu tivesse a chance de responder, Carl volta à mesa e Carisse logo muda de assunto. - E então? Teve notícias de seu ex? - pergunta ela. - Que ex? - pergunta Carl, com uma falsa inocência. É claro que menos de vinte e quatro horas antes eu falava incessantemente sobre o quanto amo meu namorado e o quanto sou comprometida com ele. - Ah, esse cara que terminou com a Emily, no mês passado. E uma pena, porque ele era um ótimo partido. - Ela põe a mão sobre a minha para parecer que está me consolando. É uma manobra esperta da parte dela, pois isso me impede de estrangulá-la. - Obrigada, Carisse. - Eu subitamente me sinto enjoada pelo consumo excessivo de porco industrializado. Aparentemente a minha invenção de um namorado falso para evitar dormir com ele está além do poder de imaginação de meu chefe. Após terminarmos nossa refeição, Carl sugere irmos ao bar na frente do Hampton Inn. Ele diz que está a fim de ficar "baleado". Quem fala assim? Embora eu esteja de péssimo humor e saiba que beber só me deixará pior, ouço a mim mesma concordando em ir. Não tenho certeza sobre por que sinto necessidade de agradar a Carl, principalmente depois do fiasco da noite anterior. Mas eu sinto. Ainda sinto. Como uma esposa que sofreu abuso e, de alguma forma, acha ter merecido. Não cheguei a pensar seriamente se devo relatar sobre Carl à firma. Eu teria que passar por todo o episódio de disse-me-disse, e isso não seria conduzido discretamente - até aí, eu sei. As pessoas logo estariam sussurrando, olhando de forma estranha pelos corredores, o lugar se tornaria desconfortável e eu teria de ir embora. Acredito que eu poderia processá-lo, mas isso significaria o fim de minha carreira de advogada. Ninguém se arriscaria a contratar uma "encrenqueira". Parece uma conclusão prévia de que não farei nada. Não pos¬suo o instinto da luta. O que realmente me deixa injuriada: eu me sinto tola, ou pior, puritana, por me aborrecer com a coisa toda. Qual é realmente o grande problema? Sim, foi desconfortável e desagradável, mas por que ficar toda alterada por causa disso? Carl aceitou o não Como resposta. Ainda assim, minhas emoções revolvem, ecoando, crescendo; eu me sinto infantil pela minha ira, depois irada por minha infantilidade. O lugar se chama Sunny's Swimming Hole e as cervejas só custam um dólar. Bóias e coletes salva-vidas estão pendurados nas paredes brancas, uma tentativa de decoração artística, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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eu imagino. Sempre fui fã de bares temáticos de mergulho e fico decepcionada porque, para mim, o programa já foi estragado pela companhia. Ij pioramos a maioria das mesas vazias e sentamos em três banquetas perfiladas diante do bar. Carl está no meio, entre mim e Carisse. O bartender coloca sobre o balcão guardanapos com o logotipo do Burger King, e Carl me surpreende, pedindo três doses de tequila. - Não, obrigada - digo. - Ora, vamos, Haxby. Deixe de ser estraga prazeres. - Carl empurra a dose já servida em minha direção. Penso se ele está me punindo pela mentira sobre Andrew. Aceito e nós três viramos os copinhos, depois mordemos limão azedo. Sinto a queimação descer por minha garganta, meus braços começam a formigar. Sei que no intervalo de trinta segundos minhas vísceras estarão em brasa. Tomamos outra dose e a náusea chega. - O que houve, Haxby? Não consegue acompanhar gente grande? - diz Carl, e Carisse gesticula pedindo a terceira rodada. Para mim já era o bastante. - Acho que não, Carl - digo, e desço da minha banqueta, rendida, com a mão sobre o balcão do bar para segurar minha cabeça que gira. — Estou exausta. Vou voltar para o hotel. Carisse, a chave? - Ela olha para mim, triunfante. Embora eu não saiba por que tudo para ela é uma competição, estou tranqüila quanto ao fato de novamente perder. - Obrigada pelo jantar, pessoal — digo, e saio do Sunny's Swimming Hole, felicíssima pela vontade de vomitar ter passado. A sensação de libertação é imediata; eu nem pisco ao passar por Bob na recepção, e sinto um puro prazer ao entrar no quarto de Carisse e ver as duas camas. Visto meu traje de Arkansas e me encolho debaixo das cobertas. Mas a alegria some com a mesma rapidez. A luz do banheiro faz sombras na parede, e a cadeira do canto se transformou em algo sinistro. Estou assustada e sozinha, e só penso em pegar o telefone e ligar para o Andrew. Preciso compartilhar os detalhes sanguinários dessa viagem. Ouvi-lo me confortar, dizer que vai ficar tudo bem. Eu disco o número, rápido, antes que minha mente registre as conseqüências. Ele atende no segundo toque. - Alô - diz ele. Eu entro em pânico. Não digo nada, nada mesmo, porque agora ele está na linha, e não tenho certeza se tenho algo que valha a pena ouvir. Certamente ele não vai se importar com a minha noite encolhida na banheira. Meus problemas não são mais da conta dele. - Alô? - ele volta a dizer. - Quem é? Eu estou ouvindo você respirar. Sinto o peso do telefone em minhas mãos e ele fica pesado demais para continuar segurando. Eu desligo. Um pequeno lapso. Um erro. Sei que só queria ouvir a voz de Andrew. Digo a mim mesma que só queria ouvi-lo respirar. *****************

Acordo com a testa latejando, castigo pelas doses de tequila. Percebo que a cama ao meu Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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lado está intocada, com um chocolate sobre o travesseiro. Quando desço para o café-da-manhã, Carl e Carisse já estão lá, lendo juntos o The Wall Street Journal. - Bom-dia - digo, ao me juntar a eles, na mesa. - Bom-dia. - Carl olha o relógio. - Você está atrasada. Sabe que isso não são férias. - Não são nem oito horas. - Carisse bate nele com o jornal. - Deixe-a em paz. - Sim, bem, nós estamos trabalhando há horas. - Carl olha para Carisse, irritado com seu jeito brincalhão, depois olha para mim, de cima a baixo, lentamente. - Então, Emily, Carisse e eu estávamos conversando sobre o requerimento judicial. Detesto ter que lhe dizer isso, mas decidi que você não está pronta para escrever o requerimento. Sinto muito. Mas Carl não parece sentir, ao contrário, parece bem satisfeito consigo mesmo. Como o gato que comeu o rato, sendo que o rato é a Carisse. - Por que não? - pergunto, sentindo a decepção crescer por dentro. - Porque eu vou escrevê-lo. - Carisse larga o jornal. Sua mão direita está bem juntinho à mão de Carl, tão perto que os miudinhos quase se tocam. Ela lança um olhar em minha direção, e seu rosto está tão claro que quase diz em voz alta: Só precisei dar uma chupada. E nem precisei engolir.

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Capitulo 10 Ás vezes, quando não consigo dormir, imagino meu enterro e imagino tributos fúnebres. Na fantasia, eu sempre morro de um jeito trágico, mas inevitável. Um motorista bêbado passa por cima de mim. Tenho um aneurisma. Eu me asseguro de sofrer pouquinho, mas morro com coragem, dignidade e calcinha limpa. Gosto mais de pensar no enterro do que na forma como eu morro. Quem iria? Quem enfrentaria seus medos de discursar na tribuna da igreja? E quem acharia ter coisa melhor a fazer e nem sequer daria as caras? Fico imaginando se as pessoas chorariam, se haveria alguém que prenderia as lágrimas, temendo jamais conseguir contê-las. Imagino o depois, na casa de meu pai, em Connecticut, onde todos os meus amigos se reuniriam no meu antigo quarto de infância. Eles se sentem muito como crianças num evento de adultos, apesar do fato de que agora também estejam crescidos. Alguém pega uma garrafa e começa a brindar. Enquanto se aquecem com o álcool, eles passam o tempo folheando os meus álbuns de escola, que ficaram a última década juntando poeira. Um deles pararia numa foto minha, com catorze anos, de permanente e cheia de espinhas, botões despontando como seios, e riria, ao mostrar aos outros. Era isso que Emily ia querer, alguém diria, gesticulando vagamente ao redor da sala. Na cerimônia, meu pai faria um discurso brilhante, talvez o melhor de sua carreira, no qual falaria de seu papel de pai, e da tragédia da perda de um potencial tão jovem. Eu o imagino usando a palavra "desperdício", mas não estou certa por quê. Acho que ele não falaria muito de mim, a não ser, talvez, para falar das minhas realizações. Tenho certeza de que o curso de direito em Yale seria mencionado mais de uma vez. Gabar-se de seu filho, por algum motivo, não é vulgar quando ele está morto. Aposto que Kate leria um poema, talvez aquele de Quatro casamentos e um funeral, e sua leitura seria impecavelmente perfeita, pungente, triste, e talvez grata também, pelo tempo que passamos Juntas. Não haveria olhos secos na casa. Jess, por outro lado, levaria o pessoal para outro lado, faria todos rirem e, por um instante, faria com que todos esquecessem o corpo literalmente morto na sala. Ela contaria histórias impróprias da faculdade, o tipo de coisa que meus pais jamais saberiam: posições comprometedoras, personalidades superficiais, aquela visita terrível no pronto-socorro. Lá do céu - embora tenha fantasias de meu funeral, eu não acredito em céu - vou olhar para baixo e me orgulhar de Jess; ela é quem vai captar quem eu sou para a grande platéia. Obviamente, há uma grande platéia. Como Andrew e eu terminamos, ainda não descobri como vou encaixá-lo no cenário. Antes, eu o imaginava em pé, próximo ao porta-bíblia, meu corpo descansando logo atrás dele, num caixão fechado. Ele vestiria seu terno preto, que o deixa mais alto e forte do que ele realmente é, e começaria dizendo algum clichê, porém tocante. Emily teria gostado se ríssemos hoje e não que chorássemos. Ela ia querer que comemorássemos sua vida, não que lamentássemos a sua morte. E, com as lágrimas correndo no rosto, Andrew contaria histórias engraçadas sobre nosso breve tempo juntos, enquanto todos ririam tristemente, junto com ele, mas, dessa vez, seria um riso de recordação, não de despedida. Na nova fantasia, eu ainda não passei da parte em que o vejo no último banco da igreja. Seu rosto está austero, mas não inconsolável. Ele nem está vestindo preto. No funeral de minha mãe, de que me lembro só em parte, eu não chorei, nem falei. Não era esse tipo de funeral. Um homem que nunca conheceu minha mãe ficou diante de uma igreja lotada e disse algumas coisas a seu respeito. Suas palavras eram vagas e tinham um sentido Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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universal, como um horóscopo. Meu pai e eu nos sentamos em silêncio, na primeira fila — foi a única vez que não vi meu pai aproveitar a oportunidade para falar - e me senti como se o lugar inteiro estivesse me olhando, o que provavelmente era verdade. Quem é que não gosta de dar uma espiada na tragédia? Tinha certeza de estar sentada com os ombros eretos, para que pelo menos as pessoas dissessem, no caminho de casa: Bem, a filha certamente tem uma boa postura. E, embora eu estivesse desconfortável porque minha calcinha ficava subindo, fiquei totalmente imóvel. Um dia antes, o vovô Jack havia trazido minha meia-calça e conjunto preto, do shopping. Não houve um momento antes do funeral em que eu pudesse dizer a ele que aquelas roupas eram um número menor do que eu usava. Meu pai também se movimentava de uma forma diferente naquele dia — robotizado e rijo — ficava indo ao banheiro, uma desculpa para evitar todos aqueles apertos de mão ridículos. Nós estávamos cansados demais para ouvir coisas como Nós sentimos muito e Ela era uma mulher maravilhosa. Cedo demais para consolo, cedo demais para o que era esperado de nós. Cedo demais para o pretérito perfeito. No funeral, tinha a sensação de que tudo aquilo estava acontecendo com outra pessoa. O caixão, na igreja, não abrigava minha mãe, pois, como poderia? Segundo sabia, mães não morrem. Principalmente se você mora num subúrbio de Connecticut, um mundo de gramados e unhas bem cuidadas, a distância de um trajeto de trem completo da vida real. Principalmente se você tem catorze anos. Em meu mundo, a pior coisa que podia acontecer era ficar sem par na formatura. Agora me parece estranho, mas eu lembro que, em vez de encarar que perdi minha mãe, passei o dia preocupada com a forma como as outras pessoas me viam. Eu gostaria de ter derramado algumas lágrimas, não por me sentir triste, pois o que eu sentia era bem mais profundo e vazio do que tristeza, mas porque as lágrimas pareciam apropriadas. Como eu não confiava em mim mesma para parar - não confiava que, uma vez que me soltasse, eu não daria um soco no homem com a fita no pescoço, dizendo chavões, atrás do púlpito -, eu mantive meu rosto seco e sentei sobre as mãos. Meu pai fez o mesmo. O funeral modelar não servia para ela - ele sabia disso, eu sabia disso, toda a congregação sabia disso —, mas meu pai estava impotente. Nós dois estávamos respirando debaixo d'água. Depois do funeral, quando já estávamos de volta à nossa casa, o vovô Jack me pediu o terninho e eu lhe dei, caprichosamente dobrado, no saco original da Macy's. Eu me troquei e coloquei jeans e uma camiseta, como uma criança normal, e pensei no quanto devia ter lhe custado para ir até a Macy's escolher a minha roupa para o funeral. Espero que ele tenha fingido que eu precisava do conjunto para um evento social honroso, ou minha formatura do Ensino Médio; espero que ele não tenha precisado explicar. Mais tarde, sem ninguém olhando, meu avô, que já tinha tirado o paletó e a gravata, colocou de volta o boné de entregador de jornal, foi comigo até os fundos da casa, onde ele já havia colocado uma lata de lixo de metal. Ele tirou o conjunto do saco e jogou em cima de todo o lixo - em cima dos talheres e pratinhos descartáveis das pessoas, dos restos de suas quiches. O vovô Jack me deixou acender o fósforo e nós ficamos ali por um tempo, distantes das mãos, das desculpas, do pretérito perfeito, juntos, olhamos as chamas lamberem tudo, transformando aquilo em cinzas. Minha mãe morreu lentamente, por um longo tempo. Mas, no fim, não houve alívio para nós, como imagino que, às vezes, deve haver. O adeus ainda assim chegou cedo. Ela passou um ano em tratamento, um ano que passou vomitando atrás de portas fechadas, pedia para ser deixada em paz e fumava baseados no quintal dos fundos, atrás do depósito de ferramentas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Naquele ano, aprendi a reconhecer o cheiro dos hospitais, o ritmo das más notícias. Naquele ano, vi meu pai se desmanchar e encolher, como se fosse ele, não ela, morrendo lentamente. Como se fosse ele, não ela, morrendo havia muito tempo. Em nosso último Dia de Ação de Graças em família, meu pai fez um brinde à saúde de minha mãe, já que ela estava em casa e parecia que as coisas estavam melhorando. Nós tilintamos nossas taças e meu pai até me deixou beber um pouco de vinho, que tinha um gosto agridoce e fez meus olhos lacrimejarem. Eu detestei. Minha mãe estava com um lenço de seda sobre a cabeça e lembro de pensar que ela estava mais bonita careca, suas feições imaculadas pelos cabelos. Somente seus olhos castanhos, sem so¬brancelhas, delicada, macia e terna; jovem também, com um bri¬lho rebelde diante da desintegração de seu corpo, diante das novas sombras em seu rosto. Acho que agora, se eu fosse reduzir minha mãe aos fragmentos da memória, a uma pilha de adjetivos, ela seria assim, aqueles olhos, desafiadores e alertas, numa luta infernal para se manter conosco. Meu pai e eu comemos toneladas de peru, numa compensação ao fato de que minha mãe só empurrava o dela pelo prato, de um lado para o outro. Eu me pergunto se ali ela sabia que estava morrendo, se ela fez aquele dia de Ação de Graças para nós, para que guardássemos na lembrança, já que seria o último dela em volta da imensa mesa de carvalho. Talvez meu pai também soubesse, e o show era todo para o meu bem, jovem demais para perceber a fragilidade do sorriso de meus pais. Ou jovem o suficiente para dançar conforme a música, para deixar a vontade de acreditar sobrepujar o que estava tão claramente escrito no rosto dos dois. Mas eles cancelaram o Natal daquele ano, porque o Natal era todo preparado por minha mãe e ela estava doente demais para sair da cama. Imagino que meu pai poderia ter feito as compras e armado a árvore, pendurado as meias, como minha mãe fazia todo ano, mas seria um deboche, um Natal fingido, e nós finalmente tínhamos passado da fase de fingir. Depois me disseram que nós não íamos comemorar da mesma forma de sempre - haveria menos presentes, não armaríamos a árvore - daí bati a porta do meu quarto e me amuei, como uma criança impossível, uma típica adolescente ou um pouquinho de cada. Xinguei em voz alta, sentindo o poder das palavras gritadas, habitualmente não toleradas na casa. Eu me aproveitei da única curtição da doença de minha mãe: eu podia forçar os limites. ―Por que tudo precisa girar em volta dessa porra?" eu gritava para as paredes, para meus pais, através das paredes, para Deus, embora tivesse certeza de que, àquela altura, eu já havia deixado de acreditar nele. Deixar de comemorar o Natal foi a forma que eles encontraram de me dizer que havia acabado, e quando ela foi internada novamente, na virada do ano, nós todos sabíamos que seria a última vez. Ninguém sentou comigo para me explicar; não tenho certeza se alguém conseguiria. Em vez disso, eu descobri, por minha conclusão e pelo fato de que minha mãe diminuía progressivamente. Como a Lily Tomlin, em A incrível mulher que encolheu, exceto que não era tão engraçado. Em seu último dia, meu pai me acordou e pediu que eu me vestisse. Tudo que ele disse foi: "É isso." Era inverno, então, coloquei um suéter de gola alta que fazia cócegas em meu queixo e me fazia suar nas axilas. Fomos de carro para o hospital sem trocar nem uma única palavra. De vez em quando, meu pai respirava fundo, como se fosse dizer algo, mas parecia pensar melhor; cada respiração, de um jeito estranho, era uma declaração de medo. Eu olhava pela janela, incapaz de encarar o rosto de meu pai. Seu queixo estava com uma sombra da barba por fazer, os olhos Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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estavam vermelhos e lacrimosos, exatamente como os meus. Quando chegamos lá, minha mãe estava dormindo, em coma ou apagada pela morfina. Nunca ficou claro para mim e eu não pensei em perguntar. Cada um de nós ficou de um lado da cama. Meu pai segurava sua mão direita e eu, a esquerda. Seus dedos pareciam estranhos ásperos e frios, artificialmente pesados. Apenas para ter algo a fazer, arrumei o lenço para que não escorregasse de sua testa careca e desenhei sobrancelhas com maquiagem da bolsinha na prateleira. Nós nos sentamos ali durante horas, sem dizer uma palavra. Apenas ouvindo cada respiração. Desesperados para ouvir a seguinte. Por volta de duas da tarde, o médico passou por lá, afagou o ombro de meu pai para ter sua atenção e disse: "Agora não vai demorar." Ele simplesmente balançou a cabeça para mim, como se eu fosse uma adulta, que merecesse ser reconhecida. Ela morreu exatamente às cinco da tarde, como se tivesse terminado o seu turno do dia. Nós soubemos, porque a respiração não veio, embora nós esperássemos. Estupidamente esperançosos, mas ambos pensando: acabo. É assim que vai terminar. Não como nos filmes, onde há sempre um barulho para alertar o espectador, uma máquina que dispara tão ruidosa que os médicos podem vir e começam a bater no peito do doente. Um crescendo dramático. Não, a ausência de som nos informou que havia terminado. Total quietude e imobilidade. Se não fosse eu, nem fosse minha mãe que tivesse acabado de parar, seria bonito, na verdade, como no fim de uma sinfonia, o pequeno intervalo antes do aplauso. Mas fui eu e foi minha mãe e agora, agora, é a quietude que eu acho o mais assombroso de tudo. Depois, a caminho de casa e antes das ligações e das conversas rápidas, meu pai e eu fomos ao mercado e enchemos o porta-malas de comida para as pessoas que viriam dar suas condolências, na semana seguinte. Eu escolhi a travessa de frios que minha mãe usara em minha festa de aniversário, no ano anterior, achando apropriada. Enchemos o carrinho sem discussão, com tudo de que precisávamos. Compramos biscoitos. E lasanha congelada. Antiséptico bucal. Cotonetes suficientes para a próxima década. Quando voltamos para o carro, meu pai aumentou o rádio no último volume e assim seguimos por todo o trajeto de volta. As letras das músicas dos anos 1950 – ―Wake Up LIttle Susie‖, ―Breaking Up Is Hard to Do‖, ―Love Potion nº 9 – estavam na ponta da língua, e nossas bocas se movimentavam junto, pelo hábito. As canções ecoavam piedosamente em nosso ouvidos. Ficamos um tempo assim, sentados, na entrada da garagem, quando chegamos em casa, com o motor ligado, ambos despreparados para parar a música.

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Capítulo 11 - Eu não vou como uma porra de uma gata, nem uma porra de uma enfermeira, nem uma porra de uma melindrosa e nem vou vestir nenhuma fantasia de borracha. – Deslizo os dedos sobre o tecido de um blazer de veludo num brechó em East Village. – Mas eu quero ficar um tesão. Jess apenas sorri para mim e concorda com a cabeça. Ela me atura em meu discurso extravagante, sempre o mesmo durante essa época do ano. - Eu não quero ser uma daquelas mulheres que usam o Halloween como desculpa para saírem nuas, só isso – prossigo, como se vela já não tivesse ouvido tudo isso antes. – Essa vai ser a primeira vez que encontrarei Andrew, depois que ele me viu suando tequila no metrô. Preciso estar bem. Mas também quero uma fantasia de verdade. - Dominatrix? – pergunta ela, segurando um biquíni de tachinhas, com dois buracos no lugar dos mamilos. – Isso vai chamar a atenção dele. Jesse bate em minha bunda com um chicote comprido de couro. E dói pra cacete, mas não reajo. - Está bem, está bem, muito batido – diz ela. - Por favor, me ajude, Jess. - Que tal ir como Mônica Lewinsky? Ou, melhor ainda, Anita Hill? – Aparentemente foi um erro contar para Jess o que aconteceu em Arkansas. Depois de me xingar por uns dez minutos seguidos, e tentar me convencer de processar a firma, acho que agora Jess resolveu achar meio engraçado. O que até é, se não tiver acontecido com você. - Sério, preciso de sua ajuda. - Você falou com ele? - Quem? Carl? - Eu tiro o blazer da arara e cheiro. Por algum motivo, espero que tenha o cheiro do vovô Jack, almiscarado e terno. Não tem. Cheira a poeira. Cheira a morte. - Não, idiota, Andrew. - Não. - Você ligou para ele? - Não. - Mesmo? - Não liguei. Ela me dá outra chicotada, dessa vez, com mais força. - Está bem, só uma vez. - Eu coloco o blazer de volta no lugar. — Mas não nos falamos. Eu entrei em pânico e desliguei. - Ai, Emi. Você está pior do que eu pensei. Você realmente precisa de ajuda.

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- Estou bem, realmente. - Passando trote para seu ex-namorado? Aquele com quem você preferiu terminar? E, com toda a certeza parece que você está indo super bem. Passamos o resto do dia vasculhando o bairro à procura de fantasias. Embora ainda faltem alguns dias para o Halloween, a maioria das pessoas ao redor parece já estar fantasiada. Passamos por um homem de fraldas, outro de colante e patins, mas Jess jura que já viu ambos antes, na Primeira Avenida. Jess quer ir de feiticeira, por isso compramos um chapéu pontudo, glitter, e uma túnica aveludada. Nesse momento, ao colocar todos os apetrechos de uma vez, ela fica parecendo uma cafetina sem teto, mas tenho certeza de que Jess encontrará um jeito de transformar sua fantasia em algo charmoso. Em nossa última parada, numa daquelas lojas de Manhattan que vende desde boas de penas até câmeras digitais, encontro uma tiara brilhosa, escondida numa vitrine cheia de narguilés de vidro. Pergunto à vendedora se está à venda, e onde ela encontrou aquilo. - Isso é dos meus tempos de Miss Mississippi, 1983. — Ela passa a mão na barriga, por cima da camiseta que diz "Eu amo Nova York". Sua pele tem um tom amarelado doentio, e falta um dente da frente. As últimas décadas foram cruéis para ela. - Ah, que se dane, a quem quero enganar? Eu te vendo por vinte pratas. - O tom de sua voz me diz que essa foi apenas mais uma rendição, dentre tantas outras. - Fechado - digo, e a mulher pega a tiara na vitrine, cautelosa para não tocar as pérolas e diamantes falsos, entremeados em arcos repetidos, E linda. É ridícula. É perfeita. Depois que dou o dinheiro, ela embrulha a tiara em papel de seda, forrando cada um dos cantos com carinho, repetidamente. Ela o faz devagar. - Que te dê saúde, que te dê saúde — diz ela, se permitindo um último e demorado olhar, antes de colocar dentro do saco e me entregar.

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Na noite de Halloween, eu me transformo na rainha do baile de formatura. Coloco o vestido de dama de honra do casamento da irmã de Jess e gosto do tafetá fresco colado em minha pele. Ajeito o decote e abro mais a fenda da saia, fora o fato de que estou coberta de lantejoulas. - Minha garotinha cresceu - diz Jess, ao colocar a tiara em minha cabeça, e fingir chorar. - Como estou? - Dou a voltinha final, ciente de que estou bem legal, dando uma olhada em tudo. O pano gruda em todos os lugares certos e me sinto sexy. Talvez não sexy como uma dominatrix, porém, bem sexy. Essa tiara tem alguma coisa de especial. - Gostosa pra cacete. E eu? - Mais gostosa ainda - digo, porque ela está. Ela recosturou o manto, para usá-lo pendurado, como uma capa cintilante, e está com um vestido preto colado, por baixo. O chapéu de feiticeira está ligeiramente inclinado para trás, provocador. E o rosto reluz com a purpurina, combinando com seus olhos pintados de preto. - Está nervosa por ver o Andrew? - pergunta ela.

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- Tô. Jess pega sua vareta e professa palavras mágicas sobre a minha cabeça, para deixar tudo certo. Eu aperto os olhos fechados enquanto ela faz isso, torcendo para que ajude. - Muito bem - diz ela, convicta, tudo está arranjado por sua mágica. Ela me dá o braço e cria uma sensação momentânea, como se estivéssemos prestes a embarcar numa aventura. - E lá vamos nós.

***************** Dá para ouvir a festa antes de atravessarmos a rua, rumo ao apartamento de Kate e Daniel. Não consigo identificar a música, mas o ambiente está ruidoso. Sinto aquela energia, aquele zunido que sempre bate antes de entrar numa sala onde todos estão arrumados e falando ao mesmo tempo. Tento me livrar de minha ansiedade pela performance - Por que sentir medo de Andrew? Por que devo temer alguém? - e lembro que adoro o Halloween. As melhores coisas da vida, por um dia, se tornam socialmente permitidas. O despir de sua identidade. A escolha de uma nova. O torpor glutão do açúcar. Quando eu era pequena, o Halloween era um feriado de família para nós; meus pais e eu circulávamos pelo bairro com fantasias combinando, geralmente com temas da TV - os Smurfs, os Brady, os companheiros de apartamento do programa Three's Company. Meu pai adorava a parte estrategista: nós evitávamos os Hogan, na esquina, porque eles davam passas, e sempre batíamos na porta dos Dempsey, apesar de estarem a umas dez quadras de distância, que sempre eram generosos com as imensas barras de doce. Minha mãe adorava a parte criativa, a transformação de nós três numa unida¬de, com algumas alinhavadas. Eu gostava da parte intermediária, de entrar e sair, abrindo caminho e tendo a atenção deles. Fizemos isso todos os anos até eu fazer doze anos, quando parei com a tradição. Resolvi que se fantasiar era coisa de criança. Kate e Daniel moram em Tribeca, num imenso loft e, ao contrário do meu apartamento, é um lugar de adultos. Cheio de cimento e encanamentos à vista, e pouquíssimos móveis. Eles gostam de descrever o lugar como "industrial", como se fosse uma boa coisa, embora eu não tenha certeza quanto ao motivo de desejar uma casa parecida com um armazém. Conforme entramos, os dois vêm correndo até nós. Olho por cima dos ombros dos dois, para ver se acho Andrew na sala cheia, mas não o encontro. Logo de cara, conto seis dominatrixes, duas gatas pretas e três enfermeiras sapecas. Nada de Andrew. E, pelo menos por enquanto, me orgulho de ser a única rainha da sala. - Está certo, sei que você vai me odiar por isso, mas acho que i ii ê deve saber logo... — Kate fala à guisa de cumprimento. - Oh, não. - Sim, Carisse está aqui — diz Daniel, e sai para guardar nossos casacos. É assim que eles fazem as coisas. Em equipe. - Por que você a convidou? - Não convidei. Bem, não especificamente. Eu mandei e-mails para todos os associados, convidando todos da firma. Esqueci que ela realmente poderia vir — diz Kate. Olho por cima do ombro de Kate e vejo Carisse em pé, no canto, segurando uma taça de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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vinho. Ela está fantasiada de Peitões, com os seios transbordando para fora do top e com a bunda num short supercurto, cor de laranja. Eu rio, mas paro quando vejo como ela está conversando com Andrew. Ele reciclou a mesma fantasia que usa todo ano: costeletas possas coladas, calças brancas boca-de-sino cheias de tachinhas, que achou no sótão dos pais, e uma almofada embaixo da camisa prateada de gola larga. Andrew é o Rei, mas na versão barriguda e suarenta do fim. No último Halloween, perguntei por que ele escolheu usar aquela encarnação do Elvis, em vez da outra, pela qual o mundo se apaixonou. Eu não esperava uma resposta de verdade, mas obtive: "Ele era quem era, Emily. Você não ficaria i riste por ser lembrada apenas com seus vinte anos, por melhor que fosse?" Andrew então fez sua imitação característica, com a boca torta, tão charmosamente assimétrica, e eu lhe dei um beijo na mesma hora. Hoje ele guarda a sua melhor imitação para Carisse. Ela é quem ganha o beicinho e o giro da perna. Quando Jess vê que estou olhando, ela me leva direto ao bar montado num canto. - Tequila? - pergunta ela. - Não. Vodca. Eu tento não cometer o mesmo erro duas vezes. - Ela me serve uma dose, engulo de uma vez. Quase não sinto queimar. Jess mistura vodca com tônica e joga uma rodela de limão. Ela me passa o copo sem dizer nada. Chego para o lado quando vejo um homem vestido com algo que parece ser uma fantasia de hambúrguer. Ele vem chegando de mansinho e pega a garrafa de gin. - Parece que nós somos o par ideal - diz ele, e me dá uma cotovelada na costela com seu hambúrguer de plástico. Ele se serve de um drinque. - Perdão? - Você é uma rainha de formatura, certo? Bem, eu sou o Burger King - diz ele apontando orgulhosamente a cabeça, e, obviamente, ele também está de tiara, só que parece ser feita de ouro. - Perspicaz - digo, porque não consigo pensar em mais nada a dizer. Meus olhos ficam voltando a Carisse e Andrew, que agora conversam num outro canto. - Tiara legal. — Jess aponta para a cabeça do cara. - Não é uma tiara. E uma coroa. - Ele esfrega uma das mãos nas pontas douradas. - É uma tiara. Coroas fazem o círculo inteiro. Tiaras são só meio círculo. Isso é uma tiara Jess explica. Eu olho para ela, incerta quanto ao seu motivo para ficar ar¬ranjando briga com um hambúrguer. O cara olha para ela, também confuso, como se nós fôssemos mais do que ele pediu. - É, tanto faz. - Ele pega um drinque e se afasta, dando um esbarrão em Jess com seu pão, ao passar por ela. - O que foi isso? - Eu não ia ficar de bobeira olhando um cara com uma tiara horrível dando em cima de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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você. Você está acima disso. De qualquer jeito, eu queria que ele nos deixasse em paz. Agora, por favor, pare de olhar para eles. Você está me constrangendo. - Não estou olhando - digo, e viro o olhar para Jess, porque obviamente estou olhando. - Ele não vai para casa com ela, você sabe, né? - Eu sei. - Ele provavelmente está falando com ela apenas para te deixar com ciúmes. - Eu sei. - Você deveria ir até lá e dizer oi, encarar a coisa com tranqüilidade. - Eu sei. - Apenas lembre que foi você quem terminou com ele. - Eu sei. - Por que foi mesmo que fez isso? Olho para ela e dou um gole lento em meu drinque. - Eu não sei. - É - diz ela. - Foi o que eu pensei.

***************** Não demora muito para que meu incômodo se dissipe com o álcool. Não paro de olhar para Carisse e Andrew, que agora parecem ainda mais íntimos do que antes, mas já não sinto vergonha nem tento esconder. Pondero que ela está pedindo que as pessoas encarem, já que seus peitos parecem estar prestes a saltar da blusa. Andrew, apesar do fato de estar vestido como um Elvis idoso, está fantástico. Seus cabelos estão com gel, um meio-termo entre um pompadour e um fauxhawk. Ele tem rugas ao redor dos olhos, e elas ficam exageradas quando ele ri. Fico tentada a ir até lá lambê-las, enfiar minha língua nas dobrinhas macias. Não tenho certeza sobre por que nunca me ocorreu fazer isso antes. Carisse se inclina em sua direção conforme eles conversam, ambos claramente flertando, e eu me pergunto como pude abrir mão dele. Andrew queria casar comigo. Quem faz algo assim? Eu poderia ter dito que sim. Afinal, é apenas uma palavra. Um novo caminho teria se revelado, e eu poderia tê-lo seguido, deixado que me levasse a algum lugar, qualquer que fosse, realmente. E agora seríamos nós, ali naquele canto, não eles. As pessoas dizem sim o tempo todo. É uma escolha, como qualquer outra coisa. Eu vou ser uma daquelas pessoas que dizem sim. Eu decido. Como ensinam nos programas de doze passos, que você deve agir "como se" fosse uma pessoa que faz o oposto do que habitualmente faz. Os alcoólatras devem agir "como se" não quisessem um drinque. Eu devo agir "como se" fosse alguém que diz sim. E tão simples. Três letras. Ignoro intencionalmente os pensamentos que soam como vindos da boca de Jess. Você não está pronta para um Andrew. E os que soam como eu, aqueles que mais doem. Seria Andrew quem acabaria indo embora. Você fez o que tinha de ser feito. Foi embora primeiro. Mas Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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as palavras são vagas, como um ruído ao longe, e não tenho energia para analisá-las. Em vez disso, através do torpor de nossas vodcas com tônica, e alguns drinques puros, começa a ficar claro que eu preciso falar com Andrew. Nesse instante. Digo a mim mesma que não tenho motivo para ficar nervosa. O homem no canto é uma pessoa que já me viu nua mais vezes do que consigo contar, alguém que costumava ocupar metade de minha cama, e possivelmente ainda mais de minha vida. Não faz mal que agora ele seja o homem do canto, que finge que não me viu entrar na festa, um homem que prefere conversar com uma garçonete de peitões. Atravesso a sala e vou abrindo caminho por entre as fantasias. Atração estática, a Mona Lisa, um pirulito Mulher Maravilha, um par de dados, mais uma porra de uma gata. - E aí - digo, para os dois. - Posso falar com você, sozinho, um minuto? — pergunto a Andrew, e inclino a cabeça na direção do corredor que dá nos banheiros. É o único lugar do loft inteiro que parece ter alguma privacidade. O resto do apartamento parece um palco enorme. - Claro - diz ele. - Eu te vejo mais tarde, Carisse. - Vejo Andrew dando uma última olhada nos seios dela, antes de me seguir pelo corredor. - E aí? - ele pergunta. - Como você tem passado? - Tudo bem — digo. — Bem. E você? — Não tenho certeza de qual pose manter e subitamente me sinto ridícula com minha fantasia. Quero parecer à vontade, o que é quase impossível num vestido longo. Estou hesitando sobre os saltos, pelo nervoso e pelos drinques. - Bom - diz ele. - Fico contente em saber que está se sentindo melhor. Você estava meio detonada no metrô. - É. - Não consigo mais ficar de conversa fiada. Preciso falar. - Ouça, Andrew, sim. - O quê? - Sim, eu quero dizer sim. - Olho para cima e vejo que ele não faz a menor idéia do que estou falando. Posso ver que ele está pensando se eu estou mais bêbada do que pareço. Estou. - Sim? Sim para o quê? - Ele me encara, mas está sorrindo. Ele acha divertido quando estou bêbada. Faço uma ligeira preparação para me animar. Você consegue fazer isso. - Sim, eu quero me casar com você. - Eu falo. Direto ao ponto. Sinto orgulho por conseguir colocar as palavras para fora. -Perdão? — Andrew dá um passo à frente e me olha, lá embaixo. Dá a impressão de que ele está mais alto do que o habitual, quase ameaçador. Seus cabelos escuros caem sobre a testa, uma mecha grossa sobre os olhos, mas ele não afasta. - Acho que não te pedi para se casar comigo. Na verdade, eu sei que não fiz isso. Que diabos você está pretendendo, Emily? Eu sinto o peso por ele usar meu nome todo. Não Emi, mas Emily. Ele não pareceu aliviado, nem amoroso, nem mesmo gentil. Ele parece muito zangado. - Eu, eu só... eu queria que você soubesse que cometi um erro. Quero lhe dizer sim. Coloco meu braço no ombro dele, meu jeito de dizer por favor, não fique zangado, nós podemos consertar isso.

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- Você é uma peça, sabia disso? O que a faz pensar que depois de toda essa merda que você fez durante esses dois meses eu um dia ia querer me casar com você? A idéia me dá nojo. — A voz de Andrew fica mais alta, mas ele percebe e abaixa o volume. "Você perdeu a porra da cabeça‖ — ele continua e dá um passo atrás. Embora ele agora esteja sussurrando, seu tom é duro. Ele respira profundamente, e exala lentamente, controlado, como fazem em aulas de ioga. "Sabe de uma coisa? Eu não preciso disso agora. Você está bêbada. Felizmente, eu tenho bom senso por nós dois. Eu vou fingir que você não me fez este insulto. Vou fingir que isso nunca aconteceu‖. - Andrew me dá as costas. "Tchau, Emily. Boa sorte para você - diz ele, algumas palavras sem sentido, ditas por cima do ombro. Uma idéia tardia." - Mas Andrew... - Eu não consigo terminar minha frase, ele já está na metade do corredor, e voltou para a festa, perdido por entre a multidão das fantasias de bazar. Eu encontro Jess e digo a ela que precisamos ir para casa. Agora. Ela dá só uma olhada em meu rosto e corre para pegar os casacos. Ao voltar, pega meu cotovelo e me conduz até a entrada. - Você está bem? — ela sussurra para mim, com um sorriso engessado. Ela não é boba de chamar atenção para nós. -Não, nada bem. Nem um pouco bem - digo. Até então eu estava segurando a enxurrada de lágrimas. Mas não vou conseguir segurar por muito mais tempo e fico grata quando chegamos à porta da frente. Dou uma olhada rápida, ao sair. Não consigo evitar. Vejo que Andrew está novamente conversando com Carisse, e as cabeças estão inclinadas à frente, numa caricatura de flerte. No outro canto, percebo o cara da tiara beijando alguém, sua alface falsa apertada junto a um corpo branco. Eu os aponto para Jess. - Sem chance - diz ela. - Não posso acreditar. E foi ali, quando entendi a simplicidade de tudo, o ápice das escolhas que me trouxeram até esse momento - o Burger King se atracando com uma mulher vestida de Rainha de Laticínios - que minhas lágrimas começaram a cair.

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Capitulo 12 - Emily, querida? Alô? Alô? - Uma voz áspera ecoa no apartamento e invade meus sonhos. - Não tenho certeza se essa máquina está funcionando. Está? — Há um som alto, uma batida. A pessoa do outro lado está batendo com o fone em algo duro. "É a Ruth Wasserstein, aqui. Eu já lhe deixei alguns recados e não consigo encontrar seu pai. Sei que é cedo, mas, por favor, ligue de volta para mim. É... bem, é importante." - Ruth? Oi, sou eu. O que há de errado? - digo. Meus instintos acordam e superam minha ressaca. Em vez de náusea, eu me sinto sacudida pelo medo. Minha secretária eletrônica está piscando furiosamente, e meu pulso começa a combinar com seu ritmo. Vovô Jack. Algo aconteceu com o vovô Jack. Não há outra explicação lógica para que Ruth esteja me ligando às oito da manhã, num sábado. O vovô Jack está morto. E assim, que essas coisas acontecem. Com ligações telefônicas inesperadas e secretárias eletrônicas com luzes piscantes. E assim que essas coisas acontecem. - Está tudo bem. Recupere o fôlego. Ele deve estar bem - diz Ruth. - Só que ele... bem, ele sumiu. Jack sumiu. - Sumiu? Então, ele não está morto? - Morto? Não, ele não está morto. - Ruth ri, mas se contém. - Bem, ao menos, eu acho que não. - Então, você está dizendo que o vovô Jack não está morto, certo? E isso que você está dizendo. - Oh, querida, eu não pretendia assustá-la assim. Ele apenas saiu por aí, só isso. Tenho certeza de que está bem. Mas acho melhor você vir até aqui. Eu já avisei a polícia. - Estou indo. Ruth? - Respiro fundo, querendo que o oxigênio faça meu corpo parar de tremer. - Muito obrigada por me ligar. - Claro. E não se preocupe, Emily, ele provavelmente só está perdido. - Ela desliga o telefone. Só perdido, eu digo a mim mesma, como se ela dissesse isso de forma figurada. Saio correndo pela porta e sem nem escovar os dentes, ou pentear o cabelo. Preciso encontrar o vovô Jack. Por favor, Deus, não deixe que ele esteja morto, repito meu novo mantra em meio à respiração. Não tenho tempo para pensar positivo. Quando atravesso a porta da frente, feito uma bala, passo por Robert, e dou uma olhada rápida em meu porteiro, lembro que ele também é um senhor idoso, provavelmente apenas alguns anos mais novo que meu avô Jack, com seus próprios netos. Uma inveja doentia me invade, um sentimento não muito diferente de quando vejo mães e filhas nas lojas de departamentos fazendo compras juntas, compartilhando o espaço do cubículo do provador. Por que não foi o Robert que sumiu, em vez do meu avô Jack? Eu me pergunto. Por que sempre são as pessoas que eu amo? Por que sempre tem de ser aquelas que mais me fazem falta? Estou amargurada e zangada, acima de tudo. Até acima do medo. - Para onde está indo, princesa? - pergunta Robert, sem saber que estou pensando coisas odiosas sobre ele. Sua gentileza me envergonha.

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- Desculpe, Robert, tenho que correr - digo, entrando num táxi. Por que meu vovô Jack? - Divirta-se, princesa. - Ele assovia. Princesa? Cinco minutos depois, já dentro do táxi, depois de berrar "Riverdale" para o motorista, percebo que ainda estou vestindo a minha fantasia de ontem à noite, com tiara e tudo. Levo as mãos à cabeça e aperto com força as pontinhas de metal. Essa é a parte assustadora do conto de fadas, antes do final feliz. Quando a Cinderela perde o sapatinho, ou a Bela Adormecida morde a maçã envenenada. Sinto as pontas afiadas da tiara perfurando a pele. Não paro de apertar até tirar sangue. Quando chego à casa de repouso, Ruth está me esperando na recepção com dois policiais. Eles são educados o suficiente para não comentarem sobre meu traje. - Olá, eu sou Emily Haxby. Jack Haxby é meu avô. - Eu estendo a mão e aperto a mão dos dois. Uso minha voz de advogada; talvez a seriedade do meu tom possa apagar as lantejoulas. Meus olhos imediatamente varrem a recepção, torcendo para tudo seja um grande engano e que o vovô Jack esteja sentado em algum lugar, lendo um livro. Talvez eles simplesmente não o tenham visto, como quando você não percebe que está com os óculos no rosto. - Mandamos duas viaturas vasculharem as ruas, Srta. Haxby. Tenho certeza de que o encontraremos logo — diz um dos policiais, com a mão pousada casualmente no quadril, logo acima do cinto em que está a arma. Ele podia me dar um tiro nesse instante, eu penso. Podia girar a pistola com o indicador, como fazem nos velhos filmes de faroeste, e me dar um tiro agora. O que seria preciso para provocá-lo? Será que gritar até que meus pulmões parassem seria o suficiente? - Você falou com seu pai, querida? - pergunta Ruth. Deixei alguns recados enquanto vinha para cá, mas só a secretária eletrônica atendeu. Ele já pode estar a caminho. De qualquer forma, é isso que espero. - Fico tentada a me desculpar por ser a única representante da família. Sinto-me totalmente inadequada para a tarefa. Posso lidar com isso, repito. Pelo amor de Deus, me formei em direito em Yale. Posso lidar com um octogenário sumido. Você consegue. - Está certo. O que devemos fazer? Devo começar a procurar a pé? Preciso fazer alguma coisa. - Minha voz está firme. Eu transpiro controle. O vovô Jack vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. - Senhora, acho que provavelmente seria melhor se esperasse aqui, com a Srta. Wasserstein. Ela nos deu uma foto recente e algumas das enfermeiras se ofereceram para nos ajudar. Elas têm algumas idéias dos lugares favoritos de seu avô. Não se preocupe, vou lhe telefonar quando o encontrar. - Percebo quando ele diz "quando" e não "se", o que dá um certo alívio. Eles vão encontrá-b. - Estou com meu telefone celular. Você pode me ligar enquanto procuro - digo e me viro para sair, mas Ruth coloca as mãos em meu braço, de uma forma suave, mas ao mesmo tempo firme. - Deixe-me ir com você - diz ela, e no meio segundo que demoro para responder, ela vê que estou preocupada por ela me fazer ir mais devagar. - Por favor.

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- Claro. É claro. Olho os dois policiais antes de os deixarmos para trás para fazerem sua própria busca. Eles parecem capazes, com seus revólveres e os cabelos grisalhos. - Venha, querida — diz Ruth, e nós damos os braços e atravessamos as portas automáticas em direção à rua. Ela indica o caminho. - O que houve? - pergunto, conforme seguimos. Dá uma sensação um pouquinho melhor por estarmos em movimento, procurando, embora minha voz ainda esteja repleta de ansiedade. Ruth me conta apenas os fatos importantes, com a precisão que vem de advogar por cinqüenta anos. - Quando passei no apartamento de seu avô, essa manhã, ele tinha saído. Imaginei que estivesse no café-da-manhã, por isso desci para procurá-lo, mas ele também não estava lá. Então, comecei a procurar e ninguém o vira. Pedi que as enfermeiras vasculhassem o prédio, o que fizeram, sem encontrá-lo. E, bem, agora aqui estamos. Ela afaga minha mão de uma forma confortante, sem ser paternalista, de um jeito que me faz sentir tanta falta de minha avó, e de minha mãe, e de Andrew, e do vovô Jack, que parece que vou explodir de tanto vazio. - Ele provavelmente saiu por aí e se perdeu. Às vezes, ele fica confuso. - Eu sei. - Minha cabeça voa por um instante e eu lembro da noite anterior, depois volto ao vovô Jack. Procuro um jeito de me consolar, de achar a melhor hipótese para a situação, mas não consigo encontrar. A melhor ainda é a que Ruth descreveu - ele ficou confuso e saiu por aí -, mas isso pouco adianta para acalmar minha ansiedade. Isso significa que vou perder o vovô Jack em breve, talvez lentamente, mas a única coisa que interessa é que não sei se posso. Não sei se consigo perder Andrew e o vovô Jack, ambos no mesmo ano. Ruth e eu viramos à esquerda saindo da casa de repouso e pegamos o caminho habitual de meu avô. Caminhamos de um jeito mecânico e forçado, como se fosse um passeio matinal típico de sábado, e fingimos empolgação pelo bebê que passa ao lado, ou pelo cachorrinho fazendo xixi na grama. Mas nossos olhos percorrem tudo à frente, buscando pistas. Espiamos as vitrines e vemos Carnes penduradas. Pães frescos. Pirâmides de papel higiênico. Nada do vovô Jack. Minha coluna dá uma sensação de rigidez e alerta, minha cabeça dói pelo olhar perscrutador. Não deixo nenhum detalhe passar. Imagino os piores cenários, não consigo evitar. Vamos tropeçar no corpo dele, na esquina, virado de lado e imóvel, com a carteira esvaziada, um taco de beisebol próximo. Vamos encontrá-lo desgrenhado, assustado e, de início, nem vamos reconhecê-lo. Nunca mais voltaremos a ver o vovô Jack. Compro um chocolate quente para Ruth na lanchonete. Só há uma mesa com duas cadeiras. Eu me sinto decepcionada ao sairmos, em parte porque meu avô não está aqui, porém, mais por eles não terem me dado qualquer espaço para procurar. - Emily - diz Ruth, me fazendo sair de meu devaneio. – Como está o trabalho? Dou um sorriso oblíquo. Ela está tentando me distrair, e fico grata pelo empenho. - O trabalho está uma porcaria. - É, eu sei como é. Longas horas, certo?

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- É, e parceiros cheios de luxúria. - Enquanto vasculhamos as ruas, conto a Ruth a história de Arkansas, sobre o fato de estar do lado errado e a proposta de Carl. Até descrevo suas cuecas samba-canção abertas e o fato de ter visto aquelas coisas. Não tenho certeza do motivo pelo qual compartilho isso, com os detalhes sujos e tudo o mais, mas algo em sua ternura me diz que ela consegue agüentar. Sei que nada disso depõe a meu favor, mas também fico à vontade por ela saber. - Acho que as coisas não avançaram tanto quanto eu pensei -comenta ela. — Achei que as mulheres já tivessem superado isso. - É, eu também. - Enfiamos a cabeça numa loja de penhores, uma loja de antigüidades, uma farmácia. Ninguém viu o vovô Jack. Onde diabos se meteu o vovô Jack? Ruth me mantém falando enquanto caminhamos, e explico por que não quero denunciar Carl para a firma. Fico surpresa por ela compreender. Jess não entendeu isso, não entendeu a humilhação que envolveria, na destruição potencial de minha carreira. Jess acha que ficar quieta é um ato de covardia, o que pode muito bem ser. - Acho que você tem de decidir se a briga vale a pena. É você quem escolhe as batalhas de sua vida - diz Ruth. - Você tem que decidir aquilo que quer. - Eu não faço a menor idéia do que quero. - Além de encontrar o vovô Jack. Isso é tudo que quero nesse momento. - Você vai descobrir. Sabe, acho que, de alguma maneira, as coisas eram mais fáceis na minha época. Eu tinha que lutar todas as batalhas. Não havia escolha. Pelo menos, não para mim. Vocês são meio que a geração da ressaca. - Geração da ressaca? - Olho para o meu vestido de formatura amassado e minha xícara de café. E baixo a minha cabeça, que ainda está do jeito que saiu da cama. - Quero dizer, é quase como a manhã seguinte, após a última onda do movimento feminino. Não há energia restante para manter o clima da conquista. Onde estamos agora? No pós-feminismo? Pós-pós-feminismo? - Eu não sei. Apenas pós-feminismo, certo? - Verificamos no banco. Os corredores compridos das novas comidas integrais. Embora os orgânicos não sejam o estilo do meu avô, hoje todas as apostas estão valendo. Vamos olhar todos os lugares, se precisarmos. - Só acho que não tenho a energia. Por favor, não me veja como representante de nada. Eu não quero que Ruth culpe as mulheres de minha geração só porque não consigo me aprumar. - Não. Acho que estamos ficando para trás. Não sei o motivo, mas há uma fobia geral da intelectualidade neste país. Nós só temos uma mulher na Suprema Corte. É uma loucura. Somos tão terrivelmente regressivas. - Ela espalma as mãos com força, agressão pura. Agora me dá vontade de ter visto Ruth em ação, em seu auge, no tribunal, coordenando julgamentos, tomando os nomes. Aposto que, quando jovem, as pessoas a chamavam de ―geniosa". Aposto que, isso devia deixá-la injuriada. - Você tem a palavra, querida. - Ruth, recupera a compostura. Alisa as calças compridas, um gesto de transição na conversa. - Você já pensou em desistir? - Sim e não. Melhor, eu não sei o que faria se desistisse. Isso é mais ou menos o que sou, se é que faz sentido. - Quando as pessoas me perguntam sobre mim, digo que sou advogada. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Acho que é meio como uma identidade. Eu realmente não tenho mais nada. - É, eu sei o que você quer dizer. Sou uma juíza, é o que eu digo. Embora agora eu seja apenas uma velha senhora vivendo num lar de aposentados. Embora agora a única coisa que eu julgue seja a apresentação mensal dos idosos. Você sabia que Jack fez uma apresentação alguns meses atrás? - Ruth sorri, o que reorganiza as rugas de seu rosto. Ela inverte os parênteses e transforma as vírgulas em apóstrofes. O desenho é de uma mulher que não tem arrependimentos. Tento lembrar o repertório do vovô Jack, mas não consigo pensar numa única piada. Só ouço o ritmo e o imagino lá, em pé, no jantar, no corredor estreito entre as mesas, imitando o Andrew, para mim, para praticar. Nós o aplaudimos de pé. - É. Ruth, como você descobriu quem queria ser? - pergunto, mas isso não é exatamente o que quero saber. O que realmente quero perguntar, mas não o faço, é quando me tornarei quem eu devo ser. - Ainda não descobri quem quero ser, querida - diz Ruth, respondendo às minhas duas perguntas, depois joga a cabeça para trás, com uma gargalhada sincera e gostosa. - Não estou brincando. Ainda não descobri. Mas não conte isso às minhas filhas. Eu minto para elas todos os dias. Digo que com o tempo elas vão descobrir. Só para que elas continuem a fazer o que estão fazendo. Mas deixe-me contar um segredinho, pois acho que você pode lidar com isso. Ela se inclina para cochichar em meu ouvido. - Todos os pais mentem para seus filhos. E nosso dever. Mas a verdade é que acho que muitos de nós não sabemos o que estamos fazendo. Boa parte do tempo, nós andamos por aí confusos e muito sozinhos. Provavelmente como Jack deve estar agora. A menção de meu avô e o fato de que ele está desaparecido, ou perdido, ou o que quer que seja, dá uma sensação de um golpe leve no estômago, um lembrete do que eu tenho, do que não tenho e do que provavelmente perderei. Agora caminhamos por um pequeno parque e, apesar de estar procurando por ele, não sei bem o que procuro. Será que as pessoas ficam diferentes quando estão perdidas? Será que, de alguma forma, ele pode se camuflar atrás do balanço, ou da grama, ou dos sem-teto deitados nos bancos do parque? - Emily, você precisa perceber que todos nós estamos sempre inventando as coisas, conforme seguimos em frente. - Ruth balança o braço, para explicar que está se referindo a isso também, nossa busca nas redondezas. Concordo e guardo o conselho em algum lugar onde eu possa consultar depois, quando precise. Estamos sempre inventando as coisas, conforme seguimos em frente. Ruth respira fundo e pára de falar por um instante, como se estivesse resolvendo alguma coisa, e alisa os cabelos. Ela olha para mim, agora sorrindo. "Mas há algo que eu preciso, eu preciso lhe dizer. - Ela se inclina à frente novamente, como se estivesse se preparando para um discurso importante. Ela pode ver a expressão ávida em meus olhos, eu penso. Ela sabe que preciso de ajuda." - Sim - digo, ansiosa por um pouquinho de orientação. - Ligaram lá dos anos oitenta pedindo esse modelito de volta. Nós rimos tanto que algumas pessoas na rua nos olhavam, como se nosso barulho fosse nocivo, mais um poluente no ar do Bronx. Mas é bom demais extravasar um pouco da tensão e esquecer nossa missão por apenas um minuto.

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No final do parque, viramos novamente à esquerda, "cobrindo a área", como dizem nos programas policiais. Tento não ficar toda hora verificando o meu celular enquanto procuramos, embora nem a polícia, nem meu pai tenham ligado. Conversamos um pouco mais sobre trabalho e eu até digo algumas coisas sobre o rompimento com Andrew. Mas não menciono o que aconteceu na noite anterior. Essa ferida ainda está sangrando, a minha presunção me envergonha. Só posso alegar a bebedeira. É a única defesa que consigo arranjar para a minha idiotice. Vejo um restaurante na esquina, não o nosso restaurante, mas uni parecido, com o mesmo cheiro de gordura e iluminação florescente na vitrine de tortas. Levo Ruth para dentro, rezando para que o vovô Jack esteja ali, em algum lugar, que ele tenha achado as ruas vazias demais e talvez tenha se refugiado no barulho do restaurante. Para ali que eu iria, eu penso. Para esse lugar que eu viria para ser encontrada. Um lugar com barulho de pratos batendo, uma jukebox e bebês que choram, e cospem de suas cadeirinhas altas. Esse é um lugar onde ser achado e onde se perder. E, sentado num sofá de um dos reservados, de costas para nós, com o boné de entregador de jornais, está um homem que, pelo menos de costas - camisa xadrez, cabelos grisalhos ralos na nuca - é igualzinho ao meu avô. Só que muito, muito menor. Eu o aponto para Ruth. Caminhamos até o vovô Jack, de modo a não assustá-lo, mas, quando nos aproximamos, não vemos qualquer expressão de alívio em seu rosto, só felicidade em nos ver. Meu primeiro pensamento é Obrigada por ele não estar morto. - Ora, olá. Minhas duas damas prediletas. Sentem - diz ele, gesticulando para que nós sentemos no sofá ao seu lado. Ruth e eu olhamos uma para a outra, e debatemos, sem palavras, a forma como lidar com isso, como lidar com ele. Sentamos do lado oposto da mesa, para que possamos olhá-lo de frente. - Então, o que as minhas garotas fizeram hoje? Você mandou lavar o Cadilac, Martha? ele pergunta a Ruth, olhando direto para ela, mas, de alguma forma, vendo a minha avó. Ruth apenas acena a cabeça, talvez um pouquinho chocada, porém, mais derrotada, eu acho. - E você, querida, como vão as coisas? Por favor, diga ao meu filho que é melhor ele se apressar e te dar um aperto. Eu quero uns netinhos - diz o vovô Jack, olhando para mim e rindo. Ele pensa que eu sou a minha mãe. Eu quero rir com ele, mas é claro que a sensação some, assim que surge. Só uma fuga momentânea da incerteza esmagadora que vem do fato de fazer parte da alucinação de outra pessoa, da tristeza decorrente de ter a sua existência esquecida por quem você ama. De ver que ele também está apagado por um truque da imaginação. Nesse momento ele está vivendo numa época anterior ao meu nascimento. - Vovô? — pergunto. — Você está bem? Nós andamos procurando por você. - Imagino que a melhor alternativa é ignorar suas palavras e persuadi-lo com as minhas. — Ficamos realmente preocupadas. — Franzo as sobrancelhas, numa expressão exagerada para demonstrar a ansiedade que ele pode não ouvir. - Ora, não seja tola, meu bem. - Ele acena, como se eu não fizesse sentido. Não tenho certeza se, nesse momento, ele me reconhece, e fico desesperada e receosa de descobrir. De certa forma, há consolo em sua imprecisão. Talvez eu possa fingir que ele está bem, que essa manhã foi apenas uma perda temporária de sanidade. As pessoas se recuperam. - Jack, nós pusemos a polícia à sua procura. Você não pode simplesmente sair assim. Fiquei preocupada. As enfermeiras ficaram preocupadas. - Ruth usa seu contato visual como ferramenta para trazê-lo de volta. Não funciona. Meu avô apenas a olha e dá de ombros. Numa Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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atitude casual, quase cômica. - Ora, pare com isso, Martha. Você está sempre se preocupando à toa. Estou bem. Só saí para uma partida de golfe. - Seu sotaque também mudou. Está mais acentuado, nova-iorquino. Olhe aqui, Charlotte, sua sogra está sempre no meu pé, sem motivo. Você deixa o meu filho sair de vez em quando, não deixa? - Eu não tenho nada a dizer diante disso, nada mesmo, já que meu coração está partido pelo fato de que o vovô também parece estar indo embora. Posso não ser médica, mas sei o suficiente. Todos sabemos. Ruth e eu estamos pensando a mesma coisa. Então, o Alzheimer é assim. Depois, numa prece, não muito diferente da que fiz essa manhã, eu digo: Por favor, faça com que ele volte, pelo menos por um tempinho. Duas horas depois, estamos sentadas no pronto-socorro; o vovô Jack parece pequeno, com seus pequenos braços e pernas para fora do avental hospitalar. Ele está sentado, de pés pendurados para fora da maça, e olha em volta, confuso. - O que estamos fazendo aqui? - ele pergunta a cada quinze minutos. Ele entra e sai, ou vai e volta, a períodos de muito tempo atrás e agora. Quando ele some, Ruth e eu apenas ignoramos e fingimos que ele está fazendo sentido no contexto de nossa conversa. Conversamos com os médicos longe de meu avô; ele está numa área isolada por uma cortina. Eu digo a eles que isso parece súbito. Da última vez que o vi, no jantar, ele estava bem. Talvez, um pouquinho confuso no fim da visita, mas, de modo geral, ele estava bem. Mas Ruth interfere. - Emily, detesto dizer isso, mas ele vem piorando há algum tempo. Eu tentei lhe contar isso da última vez que você esteve aqui, mas você não pareceu entender — diz ela, gentilmente. Meu rosto esquenta, pela vergonha profunda. - Então, o que acontece agora? - Infelizmente, não temos tratamento efetivo. Ele deve ver um especialista logo, porém o mais importante é que precisamos intensificar os cuidados - explica o médico. Suas palavras são como um segundo tapa na cara. Ele está absolutamente certo, esse homem de jaleco branco, que parece apenas alguns anos mais velho que eu. Eu me pergunto se ele já viu seus parentes sumirem. Será que consegue ver a minha vergonha? - Atualmente, ele está numa instituição ótima, mas eu acho que é hora de transferi-lo de andar, para a chamada "ala de cuidados intensivos" - sugere o médico. Quero gritar que sei o que é a ala de cuidados intensivos, que meu avô Jack me disse que ali é a última parada antes da saída. - Ele precisa de atenção constante, onde as enfermeiras possam olhá-lo regularmente. Ouça, não sei quanto você conhece sobre Alzheimer... - continua o médico. - Não muito - eu o interrompo. - Só o que vi na televisão e o que vi hoje, eu acho. - Seu avô tende a deteriorar mentalmente e, às vezes, deixará de fazer coisas básicas. Como se vestir. Mas a maioria das pessoas não morre disso. Elas geralmente morrem de alguma outra coisa, você sabe, conforme a idade chega. - O médico olha para Ruth como se pedisse desculpas, mas ela não parece nem um pouco ofendida. - E como funciona quanto a ele nos reconhecer? Ele parece estar entrando e saindo pergunto. - Será assim, de agora em diante? - E difícil dizer. Ele parece estar passando por um episódio grave hoje, mas amanhã pode acordar bem mais próximo do normal. E uma doença traiçoeira. Imagino que o que aconteceu já tenha ocorrido antes, de alguma forma. Estou correto? — O médico olha para Ruth para se certificar e ela acena a cabeça positivamente.

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- Mas não assim. Não tão mal. Nem perto. Quero dizer, se eu soubesse, eu teria... - Ela não termina a frase. Ela está envergonhada, com um olhar cúmplice. Eu quero dizer a ela que não se sinta mal, não é sua culpa. Já carrego culpa suficiente por nós duas.

*****************

Bem mais tarde, levo o vovô Jack para a casa de repouso, depois providencio a troca de andar, contrato uma enfermeira particular adicional, que o acompanhará vinte e quatro horas por dia, depois me escondo no banheiro de Ruth e choro, depois eu a abraço muitas vezes, encomendo um buquê imenso para surpreendê-la amanhã de manhã, pego emprestado uma camiseta e um short e tiro o vestido, assino todos os formulários médicos de meu avô e descubro qual é a cobertura do plano de saúde para "cuidados intensivos", depois dou tchau para o vovô Jack, e vou para o meu apartamento vazio e a minha secretária eletrônica. Plinc, plinc, plinc, plinc. Plinc. Há três recados da Ruth, de antes do início do meu dia. Antes, quando não havia Alzheimer. Também tem, finalmente, um recado do meu pai. - Oi, Emi, recebi seus recados. Passarei a semana inteira em Washington D.C. Tenho certeza de que você tem tudo sob controle. Tenho certeza de que ele só saiu por aí, você sabe o quanto Jack é independente. Ligue para a minha assistente se precisar de algo. - Estou cansada demais para reagir à negação óbvia de meu pai, tão reflexiva quanto conveniente. O primeiro recado é de alguma hora de ontem à noite, que parece um milhão de anos atrás, de quando eu devia estar dormindo, ou a caminho de casa, vindo da festa. A voz de Andrew é embriagada e agressiva, mas ele é curto e grosso. Seu recado é de uma palavra, três letras, repetido três vezes. - Não, não e não.

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Capítulo 13 Da primeira vez que Andrew disse "eu te amo" nós estávamos sentados no cinema, depois da metade de um filme de ação. Era sobre gangues em Los Angeles, ou policiais corruptos, ou um assassino em série, ou algo assim. Eu só lembro que era um filme ridículo, escolhido pelo Andrew. Nós tínhamos feito um acordo que para cada filme de ação assistiríamos a uma comédia romântica, o que ambos achamos ser um bom negócio. Eu me lembro de estar ali sentada, antes que ele dissesse, desfrutando do calor do ombro de Andrew junto ao meu, e me sentindo grudenta e ligada de tanto doce com refrigerante. Eu estava assistindo ao filme, mas não muito, meio que observando, eu acho. Assistindo ao filme como uma espectadora de esportes. Não faço a menor idéia do motivo de Andrew ter escolhido aquele momento, porque ele se virou para mim, depois que um personagem estava estirado na calçada, com os miolos espalhados pelo chão. Um show sangrento para os espectadores atentos. Mas foi o momento que ele escolheu e eu acho que nunca vou saber por quê. Ele se virou para mim e sussurrou e, de início, eu não entendi as palavras. Só senti o calor de seu hálito fazendo cócegas em minha orelha. Então, me inclinei para trás novamente, como se dissesse eu não te ouvi, e também porque eu queria sentir aquela cosquinha outra vez. E foi quando eu ouvi, em sua segunda tentativa. - Eu te amo. Eu não sabia o que fazer de início. Fiquei trêmula, com calor, nervosa e suando. Pensei em retribuir, ali, na hora. E o fiz, para mim mesma, algumas vezes; pratiquei em minha cabeça. Eu também te amo. Eu também te amo. Eu também te amo. Mas não conseguia filiar as palavras, porque são palavras que você não pode desdizer. Queria fazer isso com calma, fazer disso uma decisão, não um reflexo; então, não disse nada. Só peguei a mão dele e apertei. E, como aquilo não pareceu suficiente, eu me encostei a ele e dei um beijo apaixonado, parecido com o que veríamos mais tarde, no fim do filme, pouco antes de subirem os créditos. Da segunda vez que Andrew disse "eu te amo", nós estávamos deitados na cama, numa tarde de domingo. Foi umas duas semanas depois, num daqueles dias quentes de verão, quando é bem melhor ficar deitado nu sobre os lençóis, com o ar-condicionado no máximo, do que sair. Nós estávamos deitados de frente para o mesmo lado, minhas costas junto ao peito de Andrew, que traçava desenhos em meu braço com a ponta dos dedos. Ele começou a escrever frases no meu corpo com os dedos, e eu as lia em voz alta, conforme ele escrevia. Primeiro, eram frases bonitinhas, como E. é fedorenta, A. abala o mundo de E. e A. é um gostosão. Nós estávamos rindo muito, nossos ombros tremiam como se nós estivéssemos com muito frio. E, então, Andrew subitamente parou de rir e começou a escrever de novo com o dedo. Dessa vez a pontinha do dedo fazia cócegas em minha clavícula direita. Eu te amo. Eu não disse nada de volta, e não li, como estava fazendo com as outras frases. Só peguei os dedos dele, levei aos meus lábios e beijei. Não tinha certeza se devia falar, realmente, porque ele não tinha falado. Mas, aparentemente, ele queria o meu eco, porque não houve mais riso depois daquilo. Ficamos ali deitados mais alguns minutos, cada um subitamente desligado do outro. Pensei em dizer em voz alta, quando ficou claro que Andrew precisava ouvir, mas, em vez disso, só fiquei praticando novamente em minha cabeça, congelada de medo, dúvida, as palavras nunca chegaram aos meus lábios. Logo depois, Andrew levantou, pegou o jeans e a camiseta no chão, e foi se vestir no Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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banheiro. Ele me deixou ali, nua e sozinha, na cama, e saiu pela porta, no calor, sem sequer dizer uma palavra. Nem mesmo uma bem fácil, como tchau. Nós nunca falamos sobre aquela tarde de domingo. Na próxima vez que o vi, dois dias depois, ele me olhou nos olhos e disse: "Vamos simplesmente deixar isso pra lá." E consegui, porque pude deixar de lado algo que não poderia ser desfeito. Então, Andrew não falou "eu te amo" novamente, por um bom tempo, e as palavras passaram sem serem ditas, nós dois sabendo que elas não voltariam à nossa vida até que eu as dissesse. Um ano depois, nós estávamos numa lanchonete, uma daquelas que tentava fazer uma última afirmação contra a Starbucks, com suas cadeirinhas baratas, seus biscoitos sem ingredientes de origem animal (como ovos, leite etc.) e seus chás excessivamente promissores, com nomes como Serenidade, ou Paz Interior. Eu estava carregando uma pilha de processos, tentando fazer algumas horas extras de trabalho no fim de semana, e Andrew sentou com uma das mãos segurando sua caneca, com o nariz no The New York Times; nós dois éramos uma paródia do casal yuppie do novo milênio. Ficamos ali sentados, em silêncio, embora não houvesse silêncio algum. Acima do ruído típico de uma lanchonete e cafeteria - a máquina de café expresso, o clique da caixa registradora, a sineta da porta -, Andrew fazia seus próprios barulhos, um ronco ocasional diante de algo que havia lido no jornal, o tilintar das chaves em seu bolso, uma fungada, já que estava saindo de uma gripe, uma limpada na garganta. Enquanto ficamos ali sentados, eu só conseguia ouvir os barulhos específicos de Andrew, o ritmo de sua respiração, entrando e saindo, o assovio baixinho. Ronco. Tilintar. Fungada. Limpada. Hipnotizada. Eu queria comprar a trilha sonora de Andrew. O amor só pode ser isso, eu pensei. Sem querer que seus barulhos jamais parassem. E eu disse a ele, ali, do nada, sem qualquer premeditação ou indução. Antes que eu pudesse me conter e pensar sobre as conseqüências. - Eu te amo. Andrew só sorriu e acenou a cabeça, depois voltou a ler o jornal. Ele não retribuiu ali, pois sabia que eu não queria que fosse um reflexo. Mais tarde, na cama, ele voltou a dizer, pela quarta vez, e eu disse também, pela segunda vez. E somente, então, é que essas palavras passaram a fazer parte de nossas vidas, alguns compassos novos acrescentados aos nossos outros barulhos da noite. *****************

No domingo de manhã, quando acordei, no apartamento vazio, percebi que precisava recuperar o controle de minha vida. Primeiro ligo para o vovô Jack, e ele reconhece a minha voz. De alguma forma, ontem eu encontrei a religião, por isso volto a falar com Deus. Obrigada, eu digo. Tudo que preciso é mais um pouquinho disso. Antes do dia de ontem, o vovô Jack e eu tínhamos longas conversas ao telefone, principalmente nos finais de semana, quando eu sempre ficava com preguiça, ou ocupada demais com o trabalho, para fazer a viagem até Riverdale. Nós falávamos de tudo e não falávamos de nada realmente. Sobre os filmes que cada um de nós havia visto (nunca os mesmos), as diretrizes da associação de residentes (até recentemente ele era o presidente), restaurantes (nós dois comedores frugais) e meu pai (um enigma infinito e objeto de nosso fascínio). Hoje nós conversamos sobre o clima. - Como está aí fora? - ele pergunta. - Não sei. Mais ou menos. Parcialmente nublado. Para sair de casaco. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Não com o meu casaco de inverno. - Não, isso seria demais. - Guarda-chuva? - Acho que não, vovô. Mas talvez queira levar seu boné. - Está bem. - Por quê, aonde você vai? - Sair. Lá fora, para dar uma caminhada. - Por favor, leve a enfermeira. - Emily. - Por favor. - Boné, checado. Casaco, checado. Enfermeira, checada, está no meu bolso. Está bem, estou partindo. Ouço uma das enfermeiras de ontem à noite ao fundo, uma com um sotaque jamaicano pesado, dizendo que eu não me preo¬cupasse, que ela vai com ele. - Emily? -Sim? - Está tudo bem com você, por aí? - Estou bem, vô. - Coloque um casaco, está bem? Mas não precisa de casaco de inverno. - Eu te amo - digo, pouco antes de desligar. - Também te amo, garota. Agasalhe-se. Agora, preciso me redimir pela minha imensa cagada da outra noite. Sei que devo um pedido de desculpas a Andrew, mas não quero uma conversa de reparação. Em vez disso, só quero apagar o fato de tê-lo humilhado com minha presunção. Um e-mail é a melhor alternativa, eu penso. Talvez seja a saída mais fácil, mas aí está. O equivalente virtual de um bilhete no travesseiro depois de ficar com alguém só por uma noite. Para: Andrew T. Warner, warnerand@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Desculpe E aí, A.? Queria me desculpar pela outra noite. Aparentemente, ver o Rei me deixou "balançada". Mas, sério, desculpe. Por tudo. Tchau, Andrew. Bjs e abs, Emily

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Não cliquei no enviar logo; em vez disso, deixei a mensagem ali na tela do computador, por um tempo. De vez em quando, eu volto e a leio, como se fosse pela primeira vez. O que você quer dizer, Emily? Eu me pergunto se está muito frívola, se uma piada é inapropriado. E o tchau, Andrew, é muito melodramático? Devo mencionar o recado dele? Não, ele estava bêbado e eu mereci. Eu já apaguei, da única forma que podia. Também fico com dificuldades para assinar, pensando se devo colocar com amor, ou tudo de bom, ou lembranças. Fico com o bjs e abs, e passo um tempão com o bjs, bjs, e depois com um abração. Depois fico em dúvida entre o beijo e o abração. E já não sei se devo mandar os dois para o Andrew. Mais do que um já parece excesso, até desespero. Um, sem o outro, fica estranho. Com .imor, fica terno demais, confiante demais que ele me perdoará. Finalmente clico em enviar e mando o rascunho, batendo com tanta força na tecla de forma que não possa recuperar a mensagem. E meu e-mail partiu rumo a algum lugar, fora de meu controle, entrega expressa. Eu o imagino como algo tangível, as letras se espremendo pelos fios sob a cidade, numa linha caprichada, fazendo sons de sucção; enquanto ele segue do meu apartamento até o de Andrew, no alto da cidade, mais rápido do que o trem da linha 6.

***************** As pessoas gostam de dizer que o oposto ao amor não é o ódio, mas indiferença. Tende a haver uma reverência sussurrada ao redor da expressão, como se tivesse poderes curativos mágicos. Melhor ser odiada do que ignorada por aquele seu ex; melhor ser odiada do que ignorada, de maneira geral. Do contrário, você pode passar a vida olhando para o oposto do amor. Mas eu acho que isso é conversa fiada. Papo furado. Será que a indiferença realmente pode ser pior do que o ódio? E tão depressivo passar a maior parte de nossos dias cercados por pessoas que sentem algo pior do que raiva por nós. Eu não posso acreditar nisso. Não vou acreditar nisso. Porque, se o fizesse, eu não seria capaz de pegar o telefone agora. Em vez disso, teria que me esquivar da indiferença com indiferença e não ligar de volta para o meu pai. Mas, é claro, eu ligo. Claro, pego o telefone e disco o número do celular dele, provavelmente pela sexta vez em vinte e quatro horas, e espero pelo sinal da caixa postal. Enquanto estou praticando o recado em minha cabeça — algo ligeiramente zangado, mas não excessivamente confrontador - ouço a voz de meu pai atender. - Alô, aqui é Kirk Haxby. - Oi, pai. É a Emily — esclareço, como se ele tivesse mais de um filho. - Oi, querida. Como estão as coisas por aí? Você já achou meu pai? — Ele ri da piada, como se o vovô Jack se perdesse o tempo todo, como se eu estivesse fazendo um estardalhaço por nada. Sinto que começo a perder a paciência, meu corpo começa a me decepcionar, como sempre, produzindo lágrimas, quando estou só com raiva. - Pai? — Minha voz começa a tremer e eu me curvo. Descanso a cabeça sobre a mesa da cozinha, sentindo o frescor na testa. Não consigo resolver se devo pedir que meu pai venha para o resgate, para assegurar que eu esteja fazendo todas as coisas certas com o vovô Jack, ou se devo fazer isso sozinha e mandar meu pai para o inferno. Deixar que ele administre Connecticut, em vez de nossa pequena família. — Pai, ontem foi realmente sério.

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- Dê-me um instante, Emily. — Ouço meu pai cobrir o fone e falar com alguém ao fundo, algo sobre um fax e seis cópias. Seu tom é áspero e imagino que as pessoas que trabalham com meu pai devem ser intimidadas por ele. Penso na possibilidade de al¬guns deles terem fantasias de assassinato com ele, como eu tenho com Carl. - Estou de volta. Desculpe por isso. Sou todo seu. O que houve? - O vovô Jack saiu por aí. Ruth e eu o encontramos à toa, num restaurante. Ele estava desorientado, pai. - Agora as lágrimas brotam, uma a uma, descendo lentamente pelo meu rosto. Eu não seco. E não deixo que elas penetrem em minha voz. - E ele não nos reconheceu. - Droga. - Ouço meu pai enxotar outro assistente, dizendo num tom de alerta "agora não". Diga-me exatamente o que houve - ele me pede. Meu pai assumiu seu modo político, sua voz é de controle e ele está no comando. De certa forma, isso é um alívio e sinto meu corpo entregar a responsabilidade. - Aparentemente ele vem piorando há um tempo. Da última vez que fui visitá-lo ele parecia bem, mas eu não sei. Ruth tentou me contar, mas não ouvi - digo, como se fosse uma confissão, embora saiba que meu pai é tão culpado quanto eu. Ele não vai a Riverdale há meses. Eu digo tudo ao meu pai, detalhadamente - sobre eu e Ruth procurando durante horas, sobre meu avô não nos reconhecer, os médicos dizendo que ele irá piorar; pulo a parte que meu avô Jack me confundiu com a minha mãe. - Está certo. Bem, então, vamos providenciar enfermeiras, cuidados em tempo integral, mudá-lo para aquela outra ala. Precisamos verificar junto ao plano de saúde. Deixe-me colocar minha assistente na linha. Ela pode ajudar. - Como sempre, os detalhes antes da emoção. - Já foi tudo feito. Você não me ligou ontem, então, eu mesma fiz - Essa é minha única provocação, bem pequena, mas, pela pausa que se segue, ele percebe. Isso pode ser cruel de minha parte, mas espero que ele sinta o impacto de sua ausência. Eu dou o relatório detalhado para o meu pai. Sobre o plano de saúde da Blue Cross, a mudança de andares, os números telefônicos do atendimento de emergência. Também me atenho aos detalhes. Assim como meu pai, eu os acho calmantes, essa é uma das coisas que temos de parecido. - Ele tem uma consulta com o neurologista na próxima quinta-feira. Espero ir, mas posso ficar presa no trabalho — aviso. - Eu vou - diz meu pai, me surpreendendo. - Claro que irei. - Ouço mais alguns ruídos ao fundo, conforme meu pai diz para que sua assistente reorganize sua agenda. Ele vem para Nova York. Ergo a cabeça e encosto o pescoço nas costas da cadeira. Fecho os olhos e não digo nada por alguns segundos. Agora as lágrimas escorrem na horizontal, inundando meu cabelo. - Emily? - diz ele. - Você ainda está aí? - Estou, pai. - Emily, me desculpe, estarei aí em breve. - Eu sei, pai.

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- Fico feliz que você estivesse aí ontem. Eu... eu não sabia. - Eu sei, pai. — Antes tarde do que nunca, penso. Um clichê para um cartão de aniversário atrasado, mas mesmo assim eu me agarro a ele. - Eu te amo, você sabe. - Eu sei, pai - digo, o que, obviamente, é mentira. O que quero dizer é Eu sei, pai. Eu sei que você não me odeia.

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Capitulo 14 Eu não digo bom-dia a Marge, quando passo por ela na roleta de segurança, a caminho do escritório. Pela primeira vez, em meus cinco anos de firma, eu não digo "olá", "bom-dia", ou "como vai você", nem aceno a cabeça. Vai sefoder, Marge. Eu penso. Foda-se. Você. Direciono toda a minha raiva na direção dela, mas sem reconhecer a sua existência. Uma vingança por todas as vezes que ela me ignorou. Hoje Marge é tudo que há de errado em minha vida e sinto tudo de uma só vez, uma onda de ódio apontada para um alvo impenetrável. Odeio Marge por milhões de motivos, mas principalmente porque sei que ela não vai perceber meu desprezo. Então, minha raiva simplesmente escorre pelo chão, como uma poça em meus pés, uma porra de uma poça na qual piso, ao passar. Vai se foder, Marge. Eu entro no elevador, e um homem horrendo, de terno lindo, corre para segurar a porta. Carl. Eu imediatamente aperto o botão para fechar a porta, mas Carl é rápido demais para mim. Ele enfia as mãos entre as portas, conforme vão se fechando, e quando elas reabrem, ele entra na caixa de vidro. Ele exibe um sorriso triunfante e fica claro para mim que, como tudo que ele faz, vê isso como uma vitória. Vai se foder, Carl, eu penso, mas não digo nada e, quando Carl me diz "Bom-dia", eu não posso me dar ao luxo de ignorá-lo. Ele é a porra do meu chefe. - Dia, Carl. - Deixo de fora o "bom" intencionalmente, meu pequeno ato de rebeldia. Não quero que ele tenha um bom-dia e, na verdade, nem tenho certeza se ele merece ter um dia. Conheço um bocado de gente que merece mais. - Emily, que bom que te encontrei. Temos algumas caixas sobre a questão da Synergon e preciso que você faça a revisão. - Algumas caixas? - Mantenho a voz calma, embora já saiba o que está a caminho. Só em olhar seu tom de deboche, posso ver que ele está prestes a jogar um caminhão de trabalho de bosta no meu colo. Uma revisão documental, nada menos que isso. O que significa um caminhão do trabalho mais merda que você possa imaginar, trabalho que pode te fazer beber ou se masturbar no banheiro, trabalho geralmente feito por alguém muito mais júnior do que eu. Trabalho para alguém que ainda tem que pagar o seu pedágio de calouro. Eu já paguei o meu. Durante cinco anos de merda. Vai se foder, Carl. - É. — Ele prolonga a agonia, de propósito. - Seiscentas e setenta e oito caixas, para ser exato. E elas têm de ser revisadas até a próxima segunda-feira. - Impossível — digo. — Então, precisamos chamar alguns estagiários. Eu não tenho como olhar esse negócio todo até segunda. Seiscentas e setenta e oito caixas? — Cruzo os braços, desafiadora, sem a intenção de chamar a atenção de Carl para os meus seios. - Não, Emily, quero que você faça isso. Você conhece esse caso melhor do que qualquer outra pessoa. Não quero que qualquer associado júnior faça bobagem. Confio em você. — Sei que Carl está tentando passar o trabalho como um elogio e, apesar de ter funcionado comigo alguns meses antes, hoje eu não caio nessa. Eu me recuso a passar vinte horas por dia da semana que vem numa sala de reunião, sem fazer nada além de ler página após página para a Synergon. - Sem chance, Carl. Não posso fazer isso - digo, orgulhosa por enfrentá-lo. Talvez eu possa mudar, penso. Talvez possa finalmente ser alguém que diz as palavras certas. - Sim, pode sim. — Carl me olha de cima a baixo, parecendo pensar quanto valho, avaliando se quer compartilhar esse elevador comigo. - E, te digo mais, Emily - ele continua ao sair do elevador —, você vai fazer. - A cronometragem é perfeita. As portas se fecham atrás dele, como um ponto ao final de sua frase. E, quando eu respondo, já estou falando sozinha, com Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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minha imagem refletida nas portas espelhadas, com metade de mim em cada uma delas. - Foda-se, Carl – digo, dessa vez, em voz alta, a raiva me forçando a pronunciar cada som, minha boca sentindo o prazer das letras. Mas o que realmente quero dizer, novamente, não é o que sai. O que realmente quero dizer é Vai se foder, Emily. Foda-se. Você. *** Quando entro em meu escritório, a primeira coisa que verifico é se Andrew respondeu meu e-mail. Não respondeu. Diga a mim mesma que ele responderá, que suas palavras logo estarão em meu monitor. A essa altura, eu já não penso muito no que ele pode dizer. Só me preocupo com o fato de se um dia a resposta chegará. - Onde esteve na sexta-feira à noite? – pergunta Mason, ao entrar em meu escritório, sem bater. Ele senta na cadeira de visita, cruza as pernas e me olha, com olhos sonolentos. – Você está horrível, querida. – Mason diz, antes que eu tenha a chance de responder. Sua voz é meiga e posso ver que não está falando por mal. - Vai se foder, Mason – digo, sem qualquer força por trás das palavras. Sorrio, mostrando que estou brincando. Tento mentalmente lembrar que preciso me esforçar para melhorar minha linguagem, porque nunca se sabe quando há crianças por perto. E isso é tudo que preciso acrescentar à minha consciência, ultimamente. Corrupção de menor. - Sério, você está bem? – pergunta Mason, embora seu tom pareça mais curioso do que preocupado. - Agüentando firme. Foi um fim de semana difícil. - Quer falar a respeito? – Mason se inclina à frente em sua cadeira, como se dissesse Você pode falar comigo, mas depois se encosta, como se dissesse, ou não. - Não, acho que não. Desculpe, tive que ir embora da festa cedo. Teria sido legal ficar por lá. - Você perdeu minha fantasia fantástica – diz ele, enquanto meu telefone toca. O identificador de chamadas me diz que é Carl. Eu ignoro e puxo um pouco de durex do suporte, e começo a enrolar em volta do meu dedo. Faço um Band-Aid transparente. - Mesmo? Você estava de que? - Eu fui de Rei da Formatura. – Um rei da formatura? Por um instante eu paro de mexer no durex e avalio Mason. Ele sempre foi bonito, claro, mas hoje eu noto, pela primeira vez, as suas sobrancelhas longas e como elas se curvam no fim, como os efeitos especiais numa propaganda de rímel. Talvez Mason e eu sejamos predestinados, como o Burger King e a Rainha dos Laticínios. Talvez isso estivesse em minha cara, o tempo todo. - Sério? – Eu visualizo a última namorada de Mason, Laurel, e tento lembrar se, na única vez que a encontrei, eles estavam felizes juntos. - Não, estou brincando. Ouvi dizer que sua fantasia estava ótima, Emi. – Talvez não. Afasto a idéia de Mason e eu fazendo sexo de tiaras combinando. - Mas eu ia gostar de ter dado uma olhada no seu vestido roxo – diz ele, e pisca para mim. Meu telefone toca outra vez. Carl, de novo. - Você não precisa atender?

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- Não, é o Carl. Talvez, se eu o ignorar, ele pare. Mas você foi de quê, Mace? - Ah, nada de especial. Saí pela tangente. Usei meu antigo traje de texano. O chapéu de caubói, botas, meu jeans de cintura alta demais para Nova York. Eu estava um tesão. - Tenho certeza que sim, querido. – Eu faço o sotaque sulista mais arrastado que consigo. - você não faz idéia, doçura. – Ele pisca novamente, e eu rio, pois só mesmo o Mason, para conseguir dar duas piscadas para uma garota em cinco minutos. – Então, eu vi o Andrew e a Carisse num papo empolgado na festa. Parecem ter feito amizade rápido. - É? Eu não notei. - Mesmo? Porque eu achei que foi este o motivo para você sair correndo. - Eu não saí correndo. – ele me olha como se dissesse Ora, vamos, eu vi você, vi você e seu vestido roxo. – Está bem, eu saí correndo, mas não foi por isso. Para ser franca, realmente não quero falar a respeito. - Está bem, mas só me diga uma coisa. Você está bem, Emily? Estou começando a ficar um pouquinho preocupado. Ultimamente você está parecendo um zumbi. - Eu sei. Mas estou legal. - Jura? - Juro. - Jura pela vida da sua mãe? - Só precisou uma pergunta para que eu perceba que Mason não me conhece tão bem. - Eu juro - minto, e ele sai do meu escritório, satisfeito. **** Ignorar o Carl não o faz desistir. Ele deixou três recados e me mandou seis e-mails na meia hora seguinte. Eu preciso sair do escritório e tirar um tempo para pensar em meu próximo passo. Recuso-me a revisar as seiscentas e setenta e oito caixas de Carl. Não dá. Não vou fazer. Penso em voltar ao elevador, me imagino apertando o botão do térreo e saindo desse emprego, rumo ao anonimato da Park Avenue. Deixando meu corpo sentir o clima de outono, seu frescor, como um tapa no rosto. Talvez eu nem precise limpar a minha mesa. Posso deixar meu velho eu e toda a sua tralha para trás. Os arquivos da Synergon. A foto em minha escrivaninha. Recomeçar. Talvez eu possa assumir um novo nome, um pseudônimo, com poderes transformadores. Um eu melhor, mais forte e articulado. Apenas continue andando, eu digo a mim mesma, ao chegar às portas giratórias. Apenas continue andando. Mas não tenho a coragem de sair assim e, para dizer a verdade, até que gosto do meu nome. Em vez disso, viro à esquerda ao sair de meu escritório e sigo direto até o banheiro feminino, mantendo a cabeça baixa, conforme caminho. Lá dentro, sinto um alívio imediato, mesmo antes de esvaziar a bexiga. Adoro o banheiro da APT com sua bancada de mármore preto e torneiras cromadas que formam um belo arco. As cubas das pias saem da parede, desafiando a gravidade. E a melhor parte é que os cubículos com os sanitários são imensos, maiores do que os provadores da Bloomingdale's. Excetuando o ataque de odores desagradáveis vindos de uma colega de trabalho, é o tipo de lugar onde uma garota pode ficar reclusa por um momento. Eu sempre me escondo ali, no segundo cubículo da direita, e observo o desfile de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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saltos altos pretos, passando por baixo da porta. Sento na privada e fecho os olhos, apertados. Talvez, se não enxergar nada, conseguirei bloquear as imagens que ficam piscando indo em minha cabeça. As sobrancelhas de Andrew, franzidas, imitas, confusas, quando terminei com ele, depois esticadas, na lesta. A cueca sambacanção xadrez de Carl, no quarto do hotel. O sorriso triunfante de Carisse. O vovô Jack olhando através de mim. O vovô Jack vendo minha mãe. Sinto meu corpo começar a relaxar e deixo minha cabeça rolar para o lado. Imagino o som do CD Sons do oceano que às vezes coloco para tocar tarde da noite, e acho fácil recriá-lo, porque, afinal de contas, estou no banheiro das mulheres. Ouço ondas batendo e voltando, imagino a areia quente entre os dedos dos meus pés. Minha mente vaga, e saio flutuando. Não sei por quanto tempo fico ali sentada, mas a julgar pela rigidez dos meus ombros e a baba em meu rosto, já faz um bocado. Acordo com o som de minha secretária chamando meu nome e batendo na porta, ruidosamente. - Emily, você está aí dentro? Você está bem? - pergunta ela. - Estou bem. Estou bem. Já estou saindo - Eu me preparo para sair da segurança do confinamento do cubículo. Você consegue. - Carl está procurando por você. Ele está ligando a cada cinco minutos, e já passou pela sua sala algumas vezes. Não é por nada, mas você deveria ligar de volta para ele. - O homem está fora de controle. — Eu me recomponho e tento disfarçar que estava dormindo no banheiro. Estico as calças do meu terninho, rezo para não ter marcas na testa de apoiá-la no prendedor metálico de papel higiênico e saio do cubículo. Como se fosse cronometrado, ouço meu nome sendo anunciado nos auto-falantes. - Emily Haxby. Emily Haxby. Por favor, ligue para o ramal 670. Por favor, ligue para o ramal 670. Emily Haxby, por favor, ligue para o ramal 670. - Era o ramal do Carl. - Ele ainda vai me matar - digo a Karen. Seus olhos têm compaixão e ela estica a mão e toca a minha cabeça. Um gesto fraternal, e eu sinto uma onda de amor por ela e encosto a cabeça em suas mãos. Ao menos tenho Karen. Ao menos minha secretária me ama. - Querida, você está com um pedacinho de papel higiênico no cabelo. Eu desço dois lances de escada, até o escritório de Carl. A batida dos meus saltos no cimento gera ura repique barulhento. Nem posso ir ao banheiro em paz. Como você se atreve, Carl? Não bato ao entrar no escritório de Carl. Simplesmente abro a porta e entro, como se fosse a dona do lugar. Estou lívida. Vai se foder, Carl. Foda-se. Você. Sento em sua cadeira de visitante e ele ergue o olhar, surpreso pela minha entrada pouco educada. - Você ligou, você foi lá, você mandou uma mensagem pelo prédio. O que posso fazer por você? - O sarcasmo transborda em minhas palavras. Não consigo me obrigar a ser civilizada. Respiro fundo duas vezes, torcendo para que isso diminua um pouco o meu descontrole, mas o oxigênio só me inflama mais. Eu quero dar com o meu bloco pautado na cabeça de Carl. Quero lhe dar um sopapo. Quero enfiar o dedo em seus olhos. Quero lhe dar uma joelhada no saco. Eu odeio o Carl. Mais do que a Marge, mais do que a Carisse, mais do que meu pai. Eu o detesto pra cacete. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- E... bem. Eu queria discutir sobre as caixas que precisamos rever. A. Sap - diz Carl, calmamente. Os olhos dele são curiosos e vejo que ele não está acostumado a encarar a raiva dos associados. As coisas geralmente são ao contrário. A forma como ele diz "A. Sap", como se fossem duas palavras, me dá nos nervos. A.S.A.P. é o que me dá vontade de gritar na orelha dele. O termo asap é um acrônimo de "as soon as possible", "o mais rápido possível", seu merda. Não A. Sap. - Não. - Eu não o olho nos olhos, pois receio perder o controle, se olhar. - Perdão? - Não. Eu não vou revisar aquelas caixas. Estou em meu quinto ano como associada. Isso é uma tarefa para o primeiro ano e se você quer que seja feita, sugiro que encontre alguns juniores para fazê-lo - disse rapidinho, emendando as palavras, uma na outra. Mas a raiva vai aumentando. Eu não vou fazer. Repita depois de mim, Emily, eu não vou fazer isso. - Desculpe. Isso não é uma decisão sua. Você irá fazê-lo, porque eu estou lhe pedindo. — Isso significa que eu deveria tê-lo deixado me comer porque você me pediu? Eu quase deixei as pa¬lavras escaparem, alto e bom som, mas sei que não posso. Cheguei a beiradinha, mas isso seria pular. - Carl, eu não vou fazer isso. Você pode me despedir se quiser, mas nós dois sabemos que não seria muito sábio de sua parte. Pelo que aconteceu em Arkansas. — A ameaça sai antes que eu formu¬lasse a idéia e não posso acreditar que tive a audácia de realmente dizer aquilo. Carl também está chocado, é palpável, e ele pára e recupera a compostura. O que foi que eu fiz? - Está certo. Entendi. Vou encontrar alguém para revisar as caixas. Mas não vou aceitar esse tipo de comportamento vindo de você no futuro. Ande com cuidado, Haxby. Ande com cuidado. (Considere isso a sua única carta na manga. - Por um instante, fico impressionada com Carl, sua habilidade para ceder um pouquinho, mas voltar ao controle absoluto. De me lembrar gentilmente que, ao final do dia, ele tem todo o poder. - Sabe de uma coisa? Eu peço demissão. - E novamente as palavras saem, sem que eu saiba. Sem planejamento. Então, esse será o dia em que eu me demito, penso, comigo mesma. Eu vou me lembrar desse dia. Ele será diferente de todos os outros, ontem c amanhã, pois esse é o dia em que vou embora. Carl parece calmo, até sereno, e não parece nem um pouco incomodado por eu ter pedido demissão. - Ora, vamos. Eu não vou aceitar isso. Você não vai sair. E um membro valioso na equipe da APT. Você tem demonstrado a sua dedicação a essa firma, repetidamente. E só porque está zangada agora não é razão para jogar fora a sua carreira aqui. Então, aqui está o que vai acontecer. — Carl se inclina à frente e tem uma expressão quase gentil, como o pai de alguém. Você vai voltar ao seu escritório e repensar. Eu não vou aceitar sua demissão. Na verdade, vou fingir que você não pediu demissão. Nós vamos arranjar outros associados para fazer a revisão e você vai tirar um tempo para se reestruturar. Está certo? Saia de férias ou algo assim. E aí está, a chance de pegar tudo de volta, de desfazer a coisa toda. Quantas vezes na vida você tem a chance de voltar atrás assim? Ele está jogando uma corda de salvação. Emily, pegue. Você pode desfazer a demissão. - Carl, é sério, eu me demito - repito, e posso ver que realmente é para valer. Embora meus pensamentos conscientes me digam para desdizer, agora tem outra pessoa comandando o Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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show. A idéia de ter que trabalhar na APT, mesmo por mais um segundo, é esmagadora. Para mim chega, eu percebo. Isso aqui acabou para mim. - Eu já lhe disse. Não vou aceitar a sua demissão. Agora, por favor, saia do meu escritório. - Ele moveu alguns papéis em sua mesa. — Alguns de nós têm trabalho a fazer. Saio da sala de Carl e volto até a minha, pensando em minhas alternativas. Aos olhos da APT eu ainda não pedi demissão. Ainda posso voltar para trabalhar amanhã e pegar o meu pagamento na sexta. Ainda tenho plano de saúde. Isso pode ser apenas mais um segredinho entre mim e Carl, um daqueles que vive em minha última gaveta com o meu short Beije minha bunda de Arkansas. Mas também sei que agora não posso voltar atrás. Não quero crescer para me tornar Carl MacKinnon, ou nenhum dos outros sócios, nem mesmo os que eu admiro. Essa não é a vida que quero. Não sei o que realmente quero, mas agora sei o suficiente para dizer que não é isso. É hora de ir embora. Ao chegar em meu escritório, ligo para o sócio-diretor da APT. Se Carl não me ouve, vou arranjar alguém que aceite a minha demissão. Sem surpresa, sou atendida pela secretária eletrônica de Doug Barton e deixo um recado dizendo que preciso falar com ele com urgência. Também deixo um recado para o chefe do departamento de litígio, James Slicer. Não digo a nenhum dos dois que estou me demitindo, pois, por motivos de reputação, isso é algo que é melhor ser dito pessoalmente, não para uma máquina. - Estou me demitindo — digo a Kate, pessoalmente, em seu escritório, alguns minutos depois. - O quê? - Eu me demiti. Bem, na verdade, estou me demitindo. Carl se recusou a aceitar a minha demissão, portanto, deixei recados para Doug e James. Estou indo embora. Hoje. - Entre aqui. - Ela me leva até a cadeira de visitante. Kate fecha a porta e senta de frente para mim, atrás de sua imensa mesa de madeira. Ela realmente parece ser uma advogada, sentada em meio às pilhas de papel caprichosamente arrumadas, as pastas de couro e um daqueles abajures verdinhos. - Você está bem? Você parece um pouquinho... um pouquinho... exausta. Ou... - Ela faz uma pausa, decidindo se realmente quer dizer o que está pensando. - Bem, você parece meio histérica. - Estou bem. Estou pedindo demissão. Então, sim, estou um pouco nervosa, mas não tente me convencer do contrário. - Por quê? - Porque estou indo embora, ou porque não quero que você me convença do contrário? - Por que você está indo embora? - Isso aqui acabou pra mim, Kate. Eu detesto. Tudo nesse lugar. Exceto, é claro, você e Mason. Mas detesto todo o resto. Chega. Sinto que não estou melhorando o mundo, mas o estou tornando pior. Não foi para isso que estudei direito. - Respiro fundo e continuo: - E Carl queria que eu revisasse seiscentas e setenta e oito caixas para a Synergon e eu lhe disse que não o faria. Eu o ameacei, porque ele deu em cima de mim em Arkansas. Então, ele disse que eu não precisava revisar as caixas. Mas esse não é o ponto, é Kate? - Agora eu começo a chorar, e os fios de lágrimas descem pelas minhas bochechas. Eu os seco com a manga e Kate me dá uma Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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caixa de lenços de papel. Sei que ela quer me perguntar sobre o que houve com Carl, mas não conclui o pensamento. As palavras vão saindo. Aquele não foi apenas o dia em que fui embora, mas acho que foi o dia em que tive diarréia verbal. Eu me pergunto se algum dia conseguirei recuperar o controle sobre minha boca. - E eu simplesmente me sinto terrível. O vovô Jack está com Alzheimer. Descobri esse fim de semana. Ele se perdeu, foi horrível. E sinto falta de Andrew. Embora Jess provavelmente estivesse certa. Não estou pronta para um Andrew. Mesmo assim, é uma merda. E, se ele acabar ficando com a Carisse, eu mereço. Agora acho que ele me odeia, e esse é provavelmente o pior sentimento de todos. - Kate tenta interromper o meu monólogo, provavelmente para dizer algo como Andrew não te odeia, mas eu não a deixo falar. - E sabe do que mais? Quer saber da maior? Eu dormi no banheiro feminino hoje. No meu cubículo favorito. Kate, fiquei com papel higiênico no cabelo. De alguma forma, aquilo quebrou o clima e Kate e eu caímos na gargalhada até que as lágrimas rolavam pelo rosto dela também. Ela seca os olhos freneticamente, com um lenço de papel, tentando evitar que o rimei escorra, mas é tarde demais. Pela primeira vez, vejo a aparência de Kate por baixo da maquiagem perfeita. De alguma forma, ela parece mais livre. Passo a hora seguinte na segurança de seu escritório e conto a ela exatamente o que aconteceu com o vovô Jack. Dou todos os detalhes explícitos de compartilhar um quarto de hotel com Carl também, e ela empalidece ao pensar na situação. - Acho que eu lhe daria um chute no saco - diz Kate. Mudamos o rumo da conversa para seus planos de casamento e, surpreendentemente, gosto de falar sobre os detalhes. Das cores. Das flores. Da banda. Os convites. Eu me consolo ao imaginar a lista de afazeres de Kate, com itens cuidadosamente riscados, uma vez que ela tem certeza de que são inteiramente certos para ela e Daniel. Vejo que ela encara o casamento como o momento do salto mortal. Se esse dia correr bem, assim será o restante. Imagino como o casamento de Kate seria para mim, caso os últimos meses tivessem sido diferentes. Também seria o momento do meu salto. Andrew estaria atrás de Daniel, no altar, bonito, em seu smoking, o padrinho perfeito. Eu estaria do outro lado, de frente para ele, enfileirada com as damas de honra de Kate, numa fila rosa clara. Andrew me olharia e sorriria para mim, um daqueles sorrisos de quem sabe, um sorriso que diria algo como Isso seremos nós, em breve. E se eu fosse alguém diferente, alguém pronto, eu sorriria de volta, um sorriso que diria algo como eu também te amo. E penso como será agora, que estraguei tudo. Andrew e eu olharemos direto para a frente, sem cruzarmos os olhares. Ele irá levar Carisse como seu par e olhará para ela, no meio dos convidados. E, quando eles trocarem aqueles sorrisos, eu ficarei muda, no canto, como num sonho ruim, quando você grita, mas não emite som algum. Embora minha decisão de me demitir hoje pareça final, existem forças que me impedem de seguir adiante. Nem o sócio-diretor, nem o chefe do departamento de litígio retornaram as minhas ligações; aparentemente, qualquer emergência que eu tenha não pode ser importante o suficiente a ponto de parar a geração de dinheiro, por alguns minutos. Penso em ir até a recepcionista e suborná-la para usar o alto-falante da empresa. Eu me imagino com o microfone na mão, anunciando a minha demissão para todos na APT, com um aviso. Senhoras e senhores, eu diria, e todos parariam o que estivessem fazendo, e ouviriam. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Aqui é Emily Haxby, eu estou pedindo demissão, seus filhos-dã-puta. Ou, talvez, faria algo mais simples, mais educado. Da forma como havia imaginado essa manhã. Sairia pela porta da frente e jamais voltaria. Deixaria para trás a APT, deixaria para trás a Emily Haxby. Ao ir embora depois do expediente, passo pela sala de reunião, próxima aos elevadores. Dou uma olhada pela porta e vejo que está repleta de caixas. Seiscentas e setenta e oito caixas, para ser exata. A vista do Central Park, que vai do chão ao teto, está bloqueada por montanhas de papelão. Carisse está debruçada à mesa, lendo cada palavra de um documento, cuidadosamente. Depois de alguns segundos, ela larga e pega a folha seguinte, de uma pilha de aproximadamente dois palmos. Eu bato na janela e aceno, ao passar. Eu sorrio, quando vejo que ela ainda está na caixa número um.

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Capitulo 15 Meu grande momento chega às onze e meia da manhã de quarta-feira, quando eu finalmente sou chamada a entrar no escritório de Doug Barton. Como sócio-diretor da firma, ele tem o escritório do canto, um escritório de chefe, e suas duas paredes são de vidro. A vista dupla dá a impressão de que estamos sus¬pensos, acima de Nova York, pendurados acima da cidade, sem a solidez do chão. Embora o meu escritório seja no mesmo andar do de Doug, dá a impressão de que aqui é mais alto. Fico tonta antes mesmo de me sentar. - Então, Emily, o que há? - pergunta Doug, depois de apertarmos as mãos e eu me instalar em sua cadeira de visitas. Sua voz é amistosa e casual, como se fôssemos amigos de longa data, embora eu não tenha certeza de que ele soubesse meu nome, até hoje. - Bem, eu gostaria de falar com você a respeito de algo importante. — E depois, com um tom descontraído, eu acrescento, "Doug". Sua escrivaninha está totalmente livre de papéis, livros e blocos pautados. Já que não parece fazer nada para se manter ocupado com trabalho de verdade, eu me pergunto o que ele faz aqui dentro, o dia inteiro. Talvez eu deva lavar as mãos depois da reunião. Só para garantir. Olho pela janela e fico estarrecida ao ver um homem, do lado de fora, olhando para mim. Ele também sorri, como se fôssemos amigos há séculos, depois pega um rodinho e o passa no vidro de cima para baixo, num movimento cadenciado. Ele está balançando a cinqüenta andares do chão, só para garantir que nossa vista não fique embaçada. - Certo. - Doug tosse, seu jeito educado de dizer "Vá direto ao assunto'*. Ele parece fazer um papel de advogado na televisão, com seu cabelo grisalho, cutículas feitas e o olhar de comando. - Estou aqui para lhe dar minha carta de demissão. Um aviso prévio ligeiramente mais curto, mas não o encontrei na segunda-feira. Meu último dia será a próxima sexta. - Lamento ouvir isso. Sempre a vi como um membro valioso da equipe APT. Você tem demonstrado uma dedicação contínua à firma. - Ele limpa a garganta. Tenho a impressão de que os elogios não vêm naturalmente, que são uma inconveniência do escritório. Ele ajeita as abotoaduras sob o paletó e vejo que são gravadas com monogramas, como as de Carl. Uma versão adulta de um escudo de acampamento. - Obrigada, Doug. — Estou me divertindo usando seu nome. Estou meio tentada a forçar esse negócio a virar uma camaradagem, até tentar erguer a mão espalmada para bater na dele. - Posso lhe perguntar para onde você está indo? - Ele pega um bloco na gaveta, para anotar minha resposta, e pousa a ponta da caneta, aguardando. - Na verdade, ainda não sei. Vou tirar um tempinho de folga para arejar a cabeça, mas logo vou precisar procurar uma nova colocação. Por motivos financeiros. — Ele sacode a cabeça, como se também se identificasse. Porém, pelo Rolex em seu pulso, imagino que preocupações financeiras não sejam grande coisa para ele. - Isso é muito incomum. Nossos associados geralmente partem por outro emprego. Muito raramente nós vemos associados saírem para... para... - Ele faz uma pausa e limpa novamente a garganta. - Não fazerem nada. Ele fala como se fosse um palavrão horrível, como se eu tivesse dito que estava indo embora para estuprar criancinhas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- E, a decisão foi meio súbita. Mas eu precisava de algum tempo livre. Não tirei mais que alguns dias de folga, desde que comecei, há cinco anos. Acho que não tirei férias de verdade, nem uma única vez. - O rosto dele registra as implicações disso. Quando os associados partem, há uma exigência de que a firma pague pelas férias vencidas. Esse é o único motivo pelo qual posso me demitir sem precisar de outra colocação. A APT me deve mais de três meses de salário. - Nós sempre gostamos de saber mais dos associados que partem - diz ele. - Portanto, seria ótimo se você puder discutir comigo algumas de suas razões para seguir adiante. - Ele me surpreende com a pergunta seguinte. Até agora, achei que ele estivesse seguindo um script. - Vejo que você trabalhou um bocado com Carl MacKinnon, ultimamente. Como foi essa experiência? Sua pergunta é suficientemente sutil, para que eu tenha a opção de morder a isca ou ignorá-la. Finjo estar fascinada pela vista, para ganhar alguns instantes pensando em minha resposta. Eu presumia que a firma havia adotado uma política de "não pergunte, não conte" quanto a assédio sexual, portanto, sou pega desprevenida. Estou incerta quanto à forma como Doug reagiria se eu contasse a verdade sobre Carl. Vejo que homens como ele, com cinqüenta e tantos anos, ou sessenta e poucos, geralmente subestimam o que tenho a dizer, como se tudo que saísse de minha boca fosse desimportante. Acho que eles não sabem como se relacionar com uma mulher jovem demais para flertar, velha demais para ser tratada como criança e feminina demais para serem mentores. Ou, talvez, muitos deles tenham filhas com idade próxima à minha, a quem já se acostumaram dispensar. Olho a estante de livros atrás dele, buscando fotografias de família. Não há. - Trabalhar com Carl é desafiador. - Eu paro novamente. - E realmente acho que ele tem dificuldade em criar um ambiente saudável para mulheres. - Não estou certa se quero dizer mais e ser responsável por delatar Carl; mas, ao mesmo tempo, detesto a idéia de que ele perturbe as novas associadas, mulheres recém-saídas do curso de direito, ainda tentando descobrir como sobreviver na APT. Quero preservar sua ingenuidade e otimismo, só mais um pouquinho. "Deixe-me colocar dessa forma. Eu já ouvi de outras e vi por experiência própria, que ele pode ser inconveniente. - Tenho consciência de que este é um comentário ameno, que os modos de Carl vão muito além de inconvenientes, mas, pela expressão no rosto de Doug, posso ver que não preciso esmiuçar. Ele está me ouvindo e entende. Não precisa saber os detalhes sobre a palhaçada com reservas de hotel, nem a oferta de sexo oral. Ainda é assédio sexual, mesmo quando eles se oferecem para fazer todo o trabalho duro." - Você pretende... - Doug pára e eu percebo que ele gosta de disparar perguntas de efeito, intencionalmente cronometrando o tempo para um impacto máximo. - Processar? - Realmente não pensei a respeito. Não é uma luta que eu particularmente esteja com vontade de ter, embora eu precise lhe dizer, tenho uma grande causa. - É verdade. Carl não apenas deu cm cima de mim, mas me tirou a elaboração do requerimento, logo depois que eu disse não. Fico surpresa que tenha sido tão negligente; foi claramente um ato de retaliação. "Eu não gostaria de ver a firma destruída por conta de um sócio inacreditavelmente irresponsável — eu digo e descruzo as pernas para fincar os dois pés no chão. Respiro fundo, antes de prosseguir. - Mas acho, sim, que está na hora de limpar a casa. Se não o fizer, eu não prometo nada." Doug faz uma anotação e vejo que ele está levando a minha ameaça muito a sério. Ele sabe que deve haver muitas mulheres como eu por aí e que, ao manter Carl por perto, ele está Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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expondo a firma a milhões de dólares em indenizações. Não sei se ele acha possível que eu processe, mas não tenho certeza se isso é importante. Se eu não o fizer, é só uma questão até que alguém faça. - Obrigado. Agradeço por sua sinceridade - diz ele. - Sem problema. - Sinto que recuperei um pouco do controle da situação. Em menos de duas semanas, eu jamais terei que ver Carl novamente. - Eu lhe desejo toda a sorte em seus empreendimentos futuros. — Ele se levanta e aperta minha mão, dando tchau, indicando que nossa conversa terminou. - Obrigada. - E decido dar um último tiro. - Oh, e eu presumo que receberei um cheque de bonificação no final do ano, levando em conta que ultrapassei minha meta de carga horária. - Certamente. Eu mesmo providenciarei. - Ele sorri e parece orgulhoso por eu ter perguntado. Fico imaginando se ele está com vontade de espalmar a minha mão no alto. - Por favor, mantenha contato. - Obrigada. - E só pela diversão, e porque posso, novamente, acrescento: — Doug. Saio do escritório e fecho a porta atrás de mim. Espero até chegar na metade do corredor para ficar fora de vista, antes de fazer a minha primeira dança de vitória na APT. Uma dança de meninas muito, muito malvadas.

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Capitulo 16 Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Assunto: Obrigada! Querida Emily, Agora tenho um e-mail (eu queria colocar uma carinha sorridente aqui. Minha neta me ensinou como fazer, mas agora não lembro. Portanto, por favor, leia um sorriso aqui.) Sei que estou uma década atrasada nesse negócio, mas ganhei um laptop de aniversário. É pequenininho, pequenininho. Não sei como uma máquina tão pequenina consegue fazer tanto. Primeiro de tudo, eu queria agradecer muito pelas flores!!!! Eram lindas e meu apartamento ainda está com um cheiro adorável. Espero que não se importe, mas tirei uma das rosas e trouxe para o novo quarto de Jack. Sei que você tem falado com as enfermeiras, mas achei que você gostaria de saber de mim, que ele está indo um pouquinho melhor. Ele tem tido melhores momentos do que aqueles que vimos no último fim de semana e nós até jogamos algumas rodadas de pôquer!!! (insira uma carinha sorridente, outra vez). Não diga a ele que eu contei, mas lhe dei uma surra. De qualquer forma, estou empolgada por fazer parte do supercondutor que é a Internet. Minha caligrafia nunca foi boa, então, acho que isso equipara as coisas. E é tão rápido. Vou digitar isso e você vai receber. É incrível! Espero vê-la em breve. Sua amiga, Ruth Wasserstein

Para: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Re: Obrigada! Ruth! Bem-vinda ao e-mail!!! Fico feliz que você tenha gostado das flores. Tenho grandes novidades para você: pedi demissão de meu emprego! O que acha? Sinta-se à vontade para mentir e me dizer que essa foi a melhor decisão que já tomei. A propósito adorei o seu endereço de e-mail. Você acha que devo mudar o meu para desempregada@yahoo.com?

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Assunto: Re: Re: Obrigada! Acho que você deve mudar seu e-mail para felizdesempregada@yahoo.com. Parabéns! Sério, estou muito orgulhosa de você. Agora que você terá bastante tempo livre, teria algum interesse em participar de meu novo clube do livro? Espero que não se importe, mas você será a única com menos de setenta e cinco anos.

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Para: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Re: Re: Re: Obrigada! Sinto-me honrada que você tenha se lembrado de mim. Eu adoraria participar. O que vocês estão lendo?

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Assunto: Re: Re: Re: Re: Obrigada! Uma biografia de Margaret Thatcher. Brincadeira. Estamos lendo O diário de Bridget Jones. Todas nós assistimos ao filme na semana passada e nos apaixonamos por Colin Firth. Advogados têm uma coisa, não têm? Eu deveria ter me aposentado e ido para Londres.

Para: Jess. S. Stanton, jesssstaton@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Nenhuma palavra, ainda Não tive qualquer noticia de Andrew, e já se passaram alguns dias. O que você acha que isso significa?

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Jess. S. Stanton, jesssstaton@yahoo.com Assunto: Re: Nenhuma palavra, ainda Isso quer dizer que ele te odeia. (Brincadeira) Isso quer dizer que ele te ama. (Brincadeira) Não faço a menor idéia do que isso significa. Talvez signifique que ele está ocupado. Para: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Re: Re: Re: Re: Re: Obrigada! Ruth, mandei um e-mail para Andrew alguns dias atrás e ainda não tive respostas. O que isso significa?

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Assunto: Re: Re: Re: Re: Re: Re: Obrigada! Significa que ele ainda te ama, querida. E isso que você quer ouvir, certo? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Capítulo 17 A luz da minha secretária eletrônica está piscando. Plinc, plinc, plinc. Andrew. Eu atravesso o apartamento e finjo desinteresse – largo as chaves, tiro os sapatos, solto a bolsa -, mas depois estou de volta, em frente à máquina. Como uma mariposa na lâmpada. É constrangedora essa expectativa de apertar o botão, é constrangedor o fato de eu estar circulando de um lado para o outro, que nem um urubu faminto. É tão clichê ficar ansiosa por uma luz piscante e tola. Não, ainda não estou pronta para apertar o play. Preciso tomar banho primeiro. Tenho que arejar minha cabeça. Porém, enquanto tiro a roupa e ligo o chuveiro, a expectativa é esmagadora. Volto correndo, cubro os olhos, aperto o play. É claro que não é o Andrew. Na verdade, é melhor que não seja o Andrew. - Oi, Emi. Você pode levar o Jack para a consulta médica? Se não, posso providenciar um serviço de motorista e uma enfermeira para levá-lo. Desculpe por ter ficado preso. Sei que prometi, mas você sabe como e´. Estou ocupado, administrando Connecticut. Por favor, me ligue de volta para confirmar. Obrigada. Eu te devo uma. Se eu tivesse a chance de apagar três palavrinhas do universo, bani-las de voltarem a serem usadas juntas, eu escolheria, sem pestanejar, ―ocupado, administrando Connecticut‖. Não, ―eu te amo‖, nem mesmo ―não leva a mal‖, embora todos saibam ser um insulto disfarçado. Em vez disso, eu escolheria ―ocupado, administrando Connecticut‖. Porque, apesar de meu pai usar essas palavras como desculpa, elas não são nada além de uma escolha. Aparentemente, não posso competir com a boa gente do Estado da Constituição. Isso não tem nada de novo; meu pai perdeu minha festa de aniversário de treze anos, a primeira festa em que convidei meninos e a última que minha mãe deu para mim, pois ele estava ocupado demais com uma mudança na legislação que mudava o nome do fóssil oficial de Connecticut para Eubrontes giganteus. Ouço o recado do meu pai quatro vezes. A repetição ajuda a diminuir a decepção. Na verdade, acho que realmente não faz diferença se ele vem ou não. Eu estava planejando levar o vovô Jack para sua consulta, de qualquer forma. Provavelmente, isso é um boa coisa, penso. Ele só ia atrapalhar. Então, o que é que tem se ele te decepcionou um pouquinho? Cresça, Emily. Seja gente grande. Tento argumentar coma tristeza que me invade. Uma tristeza muda, dormente, que anestesia as pontas de seus dedos. Aquele tipo mais difícil de combater, porque dá a sensação de não ser nada. Dá a impressão de se estar discutindo com uma geladeira. Jogo uma refeição congelada dentro do microondas e como numa bandeja plástica, como se estivesse num avião. Embora eu geralmente ignore os legumes do canto direito da embalagem, hoje eu me forço a comê-los, pois isso é o que os adultos fazem. Nós comemos vagem. Deito no sofá e fico anestesiada com uma maratona de reality shows. Essa noite faço questão de assistir somente àqueles programas em que alguém é eliminado. Acho calmante ver as pessoas se importarem tanto por terem perdido, assistir à crença equivocada de que seu mundo só se estende até onde as câmeras alcançam. ***** - Eu posso levá-lo – digo ao meu pai, pelo telefone, algumas horas depois. - Obrigado, garota. Desculpe por isso. – ele remexe em alguns papéis ao fundo. – As Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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coisas estão enlouquecidas com o negócio do orçamento. Ouço mais ruídos e reconheço o truque; isso dá a impressão de que você está tão ocupado que nem pode parar de trabalhar pra uma rápida ligação telefônica. Eu o uso sempre, como os sócios da APT. - Sem problemas. Eu estava planejando ir, de qualquer forma. — Visto o meu moletom do curso de direito de Yale, mas vesti-lo me faz sentir mais nova e estudantil, então tiro e coloco um cardigã. - Dar uma escapada mais cedo do trabalho vai lhe causar dor de cabeça? Não quero que você arranje encrenca - ele diz. - Não deve ter problema. - Meu pai não precisa saber que eu pedi demissão; isso será visto como nada menos que fracasso. - Bem, obrigada, Emi, eu te devo uma. - Deve uma o quê? Eu quero perguntar. Deve uma ocasião de ser meu pai? Da próxima vez que eu me encontrar desempregada, solitária e apavorada por causa do vovô Jack, vou me lembrar de cobrar. - A propósito, precisamos conversar sobre o dia de Ação de Graças - diz ele. Meu estômago revira. Não, eu me sinto como se meu pai tivesse enfiado a mão pela minha goela e espremido minhas vísceras. Eu tinha esquecido, convenientemente, a Ação de Graças e a maratona exaustiva até o outro lado de janeiro. - Certo. - Bem, que tal se formos ao meu clube, em Connecticut? A comida vai ser boa e você verá gente da vizinhança que não vê há anos. Será divertido. — Ele tenta parecer entusiasmado, mas soa falso. Meu pai sabe que não sou uma grande fã de seu "clube". É o tipo de lugar de onde Groucho Marx e Woody Allen ficariam felizes de se dizerem sócios, pois, obviamente, não poderiam freqüentá-lo. E até muito pouco tempo e, mesmo agora, ligeiramente "étnicos". - E quanto ao vovô Jack? — pergunto. — Não podemos deixá-lo passar o dia de Ação de Graças sozinho. — O ruído de papéis ao fundo pára e meu pai limpa a garganta. - Claro. Você não me deixou terminar. Pegue o trem e nós vamos almoçar no clube; depois voltamos de carro até Riverdale e podemos passar a noite com meu pai. Vou pedir a minha assistente que providencie um pequeno bufê de jantar para nós três. O que me diz? - Parece bom. - E, claro, Andrew vai nos acompanhar. Eu não o vejo há séculos. - Ele não pode. Ele vai para casa no dia de Ação de Graças. - Acrescento mais uma mentira à pilha. - Que pena. Gostaria de falar com ele sobre o novo plano de saúde que estamos lançando. - É, bem, fica para outra vez. Ouça, eu tenho pilhas de trabalho para fazer, uma grande ação que vai acontecer em algumas semanas, por isso, tenho que ir, pai. - Eu também, querida, tchau. Eu e meu pai desligamos ao som dos papéis remexidos pelos dois.

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Capítulo 18 Hoje é meu último dia de trabalho. Minha mesa foi esvaziada. Suas tripas arrancadas, etiquetadas e enviadas para o arquivo central. Agora as paredes estão vazias, exceto pelos pregos onde estavam pendurados os meus diplomas. Minhas fotos, canecas e livros foram todos embalados, caprichosamente, em duas caixas de papelão. Parece estranho ter tão pouco a levar, depois de cinco anos que somam toda a minha experiência aqui, e pode ser levada para casa, no metrô. De alguma forma, deveria haver mais. Imagino se estou carregando esses cinco anos em meu corpo. As rugas em minha testa e as que brotam nos cantos de minha boca. Punhos que agora ficam mais doloridos quando chove. Alguns quilos extras, um pouco do peso embaixo dos meus olhos. Talvez, ao menos por um tempo, será o espelho que trará as lem¬branças do meu tempo na APT. Antes de descer, olho meu e-mail, novamente, pela décima vez hoje e pela centésima vez essa semana. A tela me diz que tenho uma nova mensagem, e respiro fundo antes de abrir a caixa de entrada. Por favor, não deixe ser propaganda. Cruzo os dedos e clico.

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: AndrewT. Warner, warnerand@yahoo.com Assunto: Re: Desculpa E aí, E.? Fiquei triste em saber do vovô Jack. (Kate contou ao Daniel...) Se houver algo que eu possa fazer, por favor, me diga. Ele foi como um avô para mim, nesses últimos dois anos, então, se o que sinto é alguma pista, você deve estar sofrendo, nesse momento. Quanto à festa e, particularmente, meu recado na secretária eletrônica, também lamento. Nenhum de nós dois é muito bom ao dizer o que realmente quer dizer, eu acho. Eu gostaria de saber o que queria dizer. Isso tornaria as coisas mais fáceis. Não é? Mas eu não sei. Tenho tentado descobrir, durante as últimas duas semanas, ou, talvez, desde o Dia do Trabalho, mas não encontro nada. Em vez disso, acho que provavelmente é apenas hora de dizer tchau. Paz, A.

Em princípio, só o fato de Andrew ter tirado um tempo para escrever um e-mail de volta já é o suficiente para trazer ondas de alívio. Ele não me odeia. Dá quase uma sensação de intimidade ao ver suas palavras em minha tela. Palavras dirigidas somente a mim. Eu gosto de ser a E. de seu A. Eu o imagino sentado junto à sua escrivaninha Ikea preta, uma relíquia da época de faculdade, que o viu passar pelas provas finais, as de admissão e, agora, um e-mail de despedida para mim. Ele escreve, cuidadosamente, cada frase e pensa nas implicações. Sua despedida é realmente perfeita, embora eu fosse preferir um beijo e um abraço, ou até um com amor. Sei que não conquistei nenhum dos dois. Mas Andrew, sim, e eu gostaria de poder reescrever meu e-mail original, e reassinar com amor, para sempre, Emily. Não estou certa por que isso teria feito qualquer diferença, mas, para mim, é importante. Eu leio o e-mail repetidamente, e acabo memorizando, por acidente. Meu instinto é escrever de volta, imediatamente, para ao menos prolongar nosso contato. Eu quase prefiro a agonia de esperar uma resposta dele, do que não ter nada para esperar. Não me sinto pronta para desistir. Andrew está certo; nunca fui boa em dizer o que queria, e nem em saber o que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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queria. Percebo que suas palavras contêm uma decisão implícita. Em vez disso, acho que provavelmente é apenas hora de dizer tchau. Eu me agarro à esperança, por alguns minutos, por conta da palavra "provavelmente", como se isso desse a entender algum tipo de indecisão por parte dele. Mas, depois de ler a frase em voz alta, para mim mesma, sei que estou enganada. Pedi para receber um tchau e ganhei. A inércia do ar em minha sala dá uma sensação sufocante e tento preencher o vazio batendo com o lápis sobre a mesa. Tchau, Andrew, repito, como um cântico, seguindo a batida. Tchau. An. Drew. ***** - Sua falta será sentida - diz Carl, mais tarde, na festa de despedida que Kate organizou para mim, numa das salas de reunião. Tem umas quarenta pessoas aqui, todas comendo camarões gigantes e bebericando vinho em minha homenagem. Eu só reconheço me¬tade delas. Advogados não resistem à comida grátis. - Obrigada. Tenho a impressão de que esse lugar seguirá em frente, sem mim. - Mas, para ser honesta, eu me sinto desconfortável imaginando segunda-feira. Não gosto do fato de que todos aqui voltarão ao trabalho e cuidarão da vida, sem pensar duas ve¬zes no fato de que meu escritório agora está vazio. Serei esquecida no instante em que entrar no elevador essa noite. - Sua saída não tem nada a ver com... bem, isso não tem nada a ver com o mal-entendido em Arkansas, não é? — ele pergunta. - Não houve mal-entendido algum, Carl. Na verdade, acho que você foi perfeitamente claro. E sabe de uma coisa? Tenho certeza de que Carisse fez um ótimo trabalho escrevendo aquele requerimento. Ela demonstrou sua dedicação à firma. - Ergo minha taça de vinho em meio brinde, concedendo a vitória a Carisse e Carl. Dessa vez, estou dizendo exatamente o que quero. - Não entendi bem o que você quer dizer com isso - diz ele. Dou de ombros e deixo sua frase no ar, sem resposta. Percebo, com uma onda de prazer, que não tenho mais obrigação de falar com Carl; não tiro qualquer proveito de puxar seu saco. - Tchau, Carl. - Eu saio andando. Ando pela festa e vejo que não é tão esquisita quanto eu esperava. Eu havia imaginado um monte de conversa fiada e despedidas incômodas. Do tipo que você fica indecisa quanto a apertar a mão ou dar um abraço, e se vale a pena fingir que manterá contato. Passo a maior parte do tempo falando com pessoas que gosto, aquelas de quem realmente sentirei falta. Miranda Washington, sócia de litígio que tenho como favorita, vem até mim para se despedir. Ela é uma negra lésbica, o tipo de advogada que leva os diretores de RH ao orgasmo, por conta da quantidade de lacunas que podem preencher numa pesquisa de diversidade. Por causa dela, os encartes da APT se gabam sobre a sociedade multifacetada. Temos advogados negros! Advogados gaysl Advogadas mulheres! Mas, apesar da diversidade do recorde público, os sócios não ficaram tão empolgados com a possibilidade de tê-la, logo de início; eles não sabiam exatamente o que fazer com ela. Mas, no fim, como sempre, votaram de acordo com seus bolsos. Miranda é uma ex-profissional de banco de investimentos e trouxe à APT um imenso histórico de seus dias em Wall Street. - Doug me disse que você derrubou o Carl. Só queria dizer que me orgulho de você. Já era hora de alguém abrir o verbo — diz Miranda. - Obrigada. - Olho para os pés de Miranda. Ela está de Ali Star cor-de-rosa, com um Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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terninho conservador, risca de giz. - Mas não tenho certeza se o derrubei. Não lutei pra valer, se entende o que quero dizer. - Isso não é verdade. Aqui entre nós, você conseguiu o que pediu para aquele bundão ali. Espero que seja oficial já na próxima reunião de sócios. Venho tentando isso há anos, e ninguém ouve. Portanto, obrigada. Nós duas olhamos para Carl. Ele está conversando com Caris¬se em tons sussurrantes, com a mão no ombro dela. Eles parecem que vão sair dançando uma valsa, a qualquer momento. Por um instante, chego a sentir pena de Carisse. Tenho pena dos dois. - Ei, posso te fazer uma pergunta? - Qualquer coisa - digo. - Por que você veio trabalhar aqui? - Não sei. Em parte, para pagar meu empréstimo da faculdade. Mas essa não é toda a verdade. - Qual é? - Falta de imaginação, eu creio. Trabalhar numa firma grande era o que todos estavam fazendo. A parte triste é que sei que isso vai soar constrangedoramente ingênuo, mas comecei querendo fazer outra coisa. Eu queria mudar o mundo. A uma certa altura, realmente pensei que fosse possível. - Dá pra ver. Você leva jeito de quem tem um sangue atuante. - Obrigada, eu acho. Agora, nem tanto. - Bem, talvez seja hora de você começar. - O quê? Mudar o mundo? Ora, vamos. - É. Sério, se eu ouvir que você acabou aceitando exatamente o mesmo emprego, na firma do outro lado da rua, vou lá pessoalmente, te dar uma surra. Vá fazer algo verdadeiro. Vá mudar o mundo. Por que você não pode ser a pessoa a fazer isso? - Não sei - digo. - Está certo, talvez, não mudar o mundo. Isso parece um trabalho difícil. Mas e só um cantinho? Promete? - Ela ergue o mindinho. - Promete ao menos tentar? - Está certo. - Vou tentar. E nós enlaçamos os dedinhos num pacto. **** Algumas horas depois, eu dou tchau para Kate e Mason. É um tchau de aeroporto, com lágrimas, abraços e fungadas dramáticas. Eu me sinto tola, já que sei que verei os dois na semana que vem. Mas não consigo evitar. Para nós três, isso é um tipo de final, e, apesar de ser a minha hora de ir embora, ainda é triste partir. E como dizer adeus aos meus companheiros de guerra. Foram eles que ficaram comigo na trincheira. Acenderam meus cigarros e me protegeram do fogo inimigo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Ao sair da APT pela última vez, levo uma caixa de papelão embaixo de cada braço. Enquanto o elevador desce, tenho a impressão de que pareço ter sído despedida. Há algo depreciativo a respeito do papelão, minha tralha espetando para fora da caixa, o molhado ao redor dos meus olhos. As outras pessoas recuando, nos cantos, como se ser despedido fosse contagioso. Dá vontade de dizer que eu pedi demissão, anunciar isso com alegria, mas eu sei que seria estranho. Em vez disso, ergo a cabeça o mais alto possível, endireito a coluna e saio do elevador com a maior dignidade que consigo. No portão de segurança, vejo Marge, de guarda, com seu uni¬forme azul. Queria que ela me desse parabéns, me desejasse boa sorte, me desse uma finalização, mas sei que isso é pedir demais. Conforme passo pela roleta, um número de apenas um dígito surge no visor. Mais uma pessoa sem nome saiu do prédio. - Tchau, Marge - digo, ao passar por ela. E, talvez por causa das caixas, talvez por estar claro que essa é a última vez que eu a incomodarei, Marge responde. - Tchau. - Seu sotaque, no fim das contas, é britânico, mas não do tipo bacana que eu havia imaginado, mais da classe baixa londrina. Olho para ela, com o estado de choque e a alegria estampados no rosto. Marge acaba de falar comigo. Ela realmente falou comigo. Ela cruza com meu olhar, mas não sorri. Só me olha, pensativa, como se estivesse avaliando essa mulher e seu papelão. Depois, num lampejo, ela dá uma piscada.

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Capítulo 19 Eu me sinto uma maluca, sentada aqui, de pijamas listrados, comendo torrada com geléia e dedos melados, limpando as migalhas que grudam nos meus peitos, cobertos pelo moletom. Isso ainda na semana passada teria parecido tão divertido quanto um romance, algo que eu ansiava fazer, mas hoje parece patético. E agora, o que acontece? Fico imaginando. Será que apenas fico aqui sentada, o dia todo, torcendo para ter algum tipo de maratona de reality shows? Prometi tirar duas semanas de folga, antes de começar a procurar um novo emprego. A idéia era me dar uma chance de arejar a cabeça. Mas agora que é segunda-feira de manhã, e eu acordei e não fui trabalhar, e os únicos programas na TV são novelas e noticiários locais, e todos os meus amigos estão ocupados, em seus empregos, não faço a menor idéia de que porra significa "arejar a cabeça". Penso na possibilidade de fazer um pouco de exercício, para ver se minhas pernas ainda funcionam e podem me fazer andar, mas decido que não. Estou cansada demais para me trocar, depois suar, depois tomar banho, e depois me trocar de novo. Para ser honesta, eu me sinto cansada demais para fazer qualquer coisa que seja. Cansada demais até para dormir. Deito no sofá, com os pés sobre as almofadas. Ligo a TV e deixo os meus olhos encararem a tela, cegamente. É desse jeito que as pessoas relaxam, digo a mim mesma, enquanto fico aqui deitada, e entro num estado meio catatônico. Embora eu não consiga seguir os diálogos das histórias, assisto às novelas, continuamente. Há algo confortante no jeito de falar, beijar e gritar uns com os outros, dessa gente bonita, de cabelo brilhoso. Gosto do fato de boa parte da história ser implícita, em geral, depois que uma porta se fecha. Quero dizer isso literalmente, é claro. Os atores constantemente fecham umas portas imensas de mogno, depois olham para a câmera, como se dissessem eu o amo, ou eu vou matá-lo, em breve. Para evitar qualquer sutileza, a música preenche os vazios, se intensificando, se alguém é perigoso, ou está em perigo, abran¬dando quando os personagens estão para se beijar. Crio tramas paralelas elaboradas, para compensar os anos que perdi. Gêmeos diabólicos e mortos que ressuscitam. Irmãs recém-descobertas e reunidas. Punhaladas nas costas, em ambos os sentidos da expressão. Amores perdidos, ganhos, perdidos novamente. Em minha imaginação, os personagens ganham muitas chances de repetir as cenas. Até a sexta-feira considero a possibilidade de haver algo errado comigo. Sem que eu notasse, fui além do relaxamento. Não houve uma transição sinistra, nem acompanhamento musical. Eu não saí do sofá, durante cinco dias. Eu até durmo aqui. Repito que gos¬to da sensação do tecido áspero em minhas costas, que é preciso esforço demais para atravessar a sala e ir até a minha cama. Não parece fazer muito sentido. Às vezes, eu nem levanto para ir até o banheiro e espero, pacientemente, até passar a vontade de fazer xixi. Geralmente passa. Eu não ligo para ninguém e, apesar de o telefone tocar, algumas vezes eu não me levanto para atender. A luz da minha secretária eletrônica está acesa, mas não tenho energia para contar quantas vezes está piscando, nem apertar os botões. Fico pensando se a depressão é assim, e tento pensar nos sinais descritos em comerciais da televisão. Não tenho vontade de me machucar, o que é bom. Não me sinto triste, nem irritada. Também não me sinto feliz. Talvez seja uma gripe. Será? Mas minha cabeça não dói e não estou com febre. Penso em tomar um Tylenol, mas não sei para quê. Simplesmente fico aqui sentada, vendo televisão, e às vezes crio tramas paralelas, às vezes não. Às vezes durmo. Horas incontáveis se passam, e por não conseguir contá-las, acho que fiquei dormindo o sono dos mortos. Aquele tipo imperturbável por pesadelos, ou a Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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necessidade de virar para o lado. Apenas sono vazio, imóvel. Não parece haver nada que eu deva fazer a seguir, então, apenas fico aqui. Onde está quentinho e não tem nada de assustador. Agora percebo que o trabalho era meramente um cenário, uma forma de preencher os meus dias vazios. Sem o trabalho, é como se todo o som tivesse sido desligado. Penso muito no Andrew. Finjo que ele está aqui, sentado comigo, sem dizer muita coisa, mas também assistindo à televisão. Ele pode segurar minha mão e pegar um copo de água para mim. Ele arranjaria tramas melhores que as minhas. Envolveria mais paixão. Mais sexo. Talvez vingança. Eu me permito até pensar que minha mãe também está aqui, de bobeira, no meu sofá. Não deixo minha mente seguir muito nessa direção, mas, às vezes, eu a imagino colocando os dedos frios sobre a minha testa, para sentir se estou com febre. Ela provavelmente me faria comer alguma coisa, pois não me aventurei muito além do pão nesses últimos dias. Já estou quase sem pão, mas minha geladeira está vazia, e não posso me incomodar para pedir nada a ser entregue. E trabalho demais encontrar algum dinheiro. Em minha imaginação, minha mãe está sentada, quieta, mas isso é mais porque eu não me lembro de sua voz. Mas estou distorcendo as coisas, pois, quando minha mãe estava viva, ela nunca ficava sentada quieta - ela sempre conversava, conversava, conversava durante qualquer coisa a que assistíssemos, até o The Cosby Show. Ela sempre achou que a vida real era muito mais interessan¬te que a televisão; nunca entendeu a necessidade de fuga. Também dou algumas falas para minha mãe na história. Ela tende a ficção científica. Milagres médicos e coisas do tipo. Isso é o oposto do amor, eu percebo, quando viro e vejo meu sofá vazio, olhando através de meus companheiros imaginários. O oposto do amor não é a raiva; é a indiferença. E uma porra de um desentranhar. Hara-kiri. E pegar uma pá imensa e cavar seu próprio coração, seus intestinos, sem deixar nada para trás. Nada de você para dar, nada, nem para tomar. Nada, além de um pulsar silencioso e algumas novelas que divertem um pouquinho. Se o amor é entregar o ser e o coração, então, isso, meu amigo — o desentranhar pessoal —, é o oposto. Eu gostaria de saber bordar, para poder alinhavá-lo numa porra de uma almofada.

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Capitulo 20 Eu acordo com o som de batidas fortes. Abro os olhos e, de início, fico incerta de onde estou. Nada é familiar. Vejo um piso claro de madeira, um tapete cor de aveia. Lentamente, a consciência retorna. Ainda estou deitada no sofá. O calor deve ter chegado de madrugada, porque minhas roupas estão colando de suor e meu cabelo está úmido no pescoço. Ouço a chave na fechadura, mas estou grogue demais para ver quem é. Não tenho certeza se me importo. Se for um ladrão, pode levar o que quiser dos meus pertences. Não acho que tem nada de valor aqui. A não ser a minha televisão. Vão ter que me matar para levá-la. - Emily? Mas que diabos? - Jess entra em meu apartamento e deixa as chaves em cima da mesa da cozinha, como se fosse a dona do lugar. Ela me encara, deitada no sofá, e dá uma longa olhada em volta. Posso ver que está calculando os dias desde a última vez que nos falamos, vejo que está tentando fazer as contas de quantos dias eu estou deitada ali. Eu facilitaria as coisas, mas não tenho certeza do que dizer. - Por que você não tem atendido ao telefone? Eu devo ter deixado uns cem recados. - Jess atravessa a sala e fica à minha frente, bloqueando a visão da TV. Fico pensando se devo responder. Talvez eu possa fechar meus olhos novamente e fingir que estou dormindo. Não quero magoá-la, mas estou cansada demais para ouvir, cansada demais para esse negócio de falar. Estou cansada até para ficar envergonhada por ela me ver assim. - Você está doente? - Não sei. - Há quanto tempo está deitada aí? - Não sei. - Emily - diz ela, não como uma pergunta, nem uma ordem, mas um suspiro. Um suspiro cansado e, por um instante, imagino se eu não teria feito o barulho. Não, certamente foi Jess, porque, depois do suspiro, eu a vejo assumindo o controle de si mesma, depois o meu. - Levante - acrescenta ela, e arranca meu cobertor. Sem dó. - Mas eu estou cansada, Jess. Só mais alguns minutos. - Eu quero mais desse sono, do sono que nunca conheci até agora, o tipo de sono que se instala no fundo de sua alma, do tipo que você injetaria nas veias, se pudesse. - Não. - Mas... - Levante e entre no chuveiro. - Ela agarra meus pulsos e me força a levantar. Eu fico meio tonta. Não lembro da última vez em que fiquei na vertical. - Agora. - Ela apontando o caminho para o banheiro, como se eu não soubesse como chegar lá sozinha. - Está bem - concordo porque não tenho energia para lutar contra ela e porque ela já é conhecida por usar suas unhas compridas como arma. Jess me segue até o banheiro e liga a água. - Jesus, quanto tempo faz que você tomou um banho? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Não sei. Eu tento tirar minha roupa, lentamente, como uma dançarina de striptease retardada. Meu moletom de capuz cheira como o quarto de um adolescente. - Quando foi a última vez que você comeu? - Não sei. Comi um pouco de pão. Muito pão - digo. Depois, para marcar alguns pontos, acrescento: - Era integral. -Jess sai do banheiro, deixa a porta aberta. - Agora eu estou entrando - grito, para mostrar que também estou ali, que quero ajudá-la a me ajudar. Mas Jess me ignora, porque já está ao telefone. - Duas pizzas gigantes de pepperoni, por favor. - Ela dá meu endereço ao cara da entrega. - Rápido - ela diz. — E uma emergência. ***** Aproximadamente uma hora depois, nós duas estamos sentadas na minha mesa da cozinha. Eu descubro que é sábado, uma semana inteira depois que deixei meu emprego. Também são quatro e meia da tarde, embora eu pudesse jurar que era de manhã. Estou vestindo uma roupa limpa que a Jess escolheu e deixou para mim no banheiro. Uma camiseta branca e o meu jeans favorito. Antes de conversarmos, como cinco pedaços de pizza, um atrás do outro. - Cheguei perto de quebrar o meu recorde pessoal — digo. - Lembra que na faculdade eu comi sete? — Estou tentando trazer a Jess para o meu lado, ganhá-la com nossas lembranças felizes. Fazê-la esquecer como eu estava, apenas sessenta minutos atrás. Sinto a vergonha me invadir, lentamente. Alguém testemunhou o meu desespero. - Ãrrã. Beba um pouco de água também - diz Jess. Eu me inclino à frente e viro o copo que ela põe diante de mim. Ela o enche novamente, eu viro outra vez. - Obrigada. Desculpe. Eu não tive a intenção de não ligar de volta. Olho para ela, ela olha para mim, depois desvia o olhar. Ela parece incerta de como falar com essa minha encarnação, se me trata com brandura ou me dá a surra que eu mereço. - Agora estou bem. - E verdade; de alguma forma, a exaustão passou. Eu me sinto desperta e viva. Fico pensando se Jess pôs algo escondido na minha pizza. - Aqui. - Ela me dá um pedaço de papel com o nome e endereço de sua terapeuta. — Você tem uma consulta na quarta. Enquanto você estava no chuveiro - explica ela, antes mesmo que eu pergunte. - Obrigada. - Percebo que não estou em posição de contestar. Não me afastei tanto do fundo para deixar de perceber que o que está acontecendo não é normal. - Não tive a intenção de deixar de ligar. Quero dizer, eu só fiquei muito cansada e com vontade de dormir. E perdi um pouco o prumo, sabe como é? - Jess acena que sim, mas não diz nada. Sei que ela sabe. Uma vez, ela também teve um caso de amor com um sofá, na época de faculdade. - Você vai ficar legal, Emi. As pessoas simplesmente desmoronam às vezes. Nós vamos te consertar. Na verdade, você é quem vai se consertar. Ela pega as caixas vazias de pizza e as coloca num saco de lixo. Noto que o capuz do meu Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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moletom está pendurado para fora do saco, mas deixo para lá. Talvez seja hora. - É. Tiro um instante para deixar que as palavras de Jess ecoem em minha cabeça. As pessoas simplesmente desmoronam de vez em quando. Jess e eu vamos dar uma volta para pegar um ar fresco, e acontece de ser um daqueles dias espetaculares de outono em Manhattan, onde as árvores ficaram amarelas e vermelhas, mas a maioria das folhas ainda está presa. Sem estarem prontas para sujar as ruas, sem estarem preparadas para a rendição ao inverno. O sol brilha reluzente e seus raios cortam tão profundamente como o frio do ar. Caminhamos lentamente, de braços dados, ao redor de West Village, e todas as outras pessoas pelas ruas da cidade parecem figurantes, ou dançarinos extras em nosso dueto. Jess fala mais, conforme caminhamos, e aponta para os detalhes arquitetônicos nos prédios de tijolinhos, mostra seu lugar favorito para comer bagels, sua lavanderia e as esquinas onde ela deu beijos especiais — todas as coisas que eu já sabia, mas gosto de ouvir novamente. Ali, no cruzamento da Décima Primeira com a Sexta Avenida, bem em frente à Escola Pública 41, ela beijou um ex-namorado do Ensino Médio, novamente, só mais uma vez, antes que ele se casasse com outra pessoa. Era de tarde, no fim do recreio e as crianças que estavam no pátio vibraram, ignorando os professores que os mandavam entrar. ***** Na manhã seguinte, quando acordo, sigo direto para o chuveiro. Nem chego perto do sofá, ou da televisão, que agora fica de frente para a parede, desligada da tomada. Imagino que um tempo separadas pode ser bom para nós duas. Raspo as pernas, faço as sobrancelhas, coloco roupa limpa, tirada da secadora, até passo um pouco de corretivo, porque, apesar de não ter feito nada além de dormir a semana passada inteira, estou com olheiras. Como é hora de reassumir o papel de funcionar como um ser humano, é apenas lógico que eu me pareça com o meu papel. Ao deixar o prédio, Robert faz um fiu fiu para mim. Provavelmente inapropriado para um porteiro, mas fico grata pelo elogio. - Não sei para onde você vai - diz Robert -, mas vai matá-los. - Obrigada. - Resolvo que é melhor guardar para mim mesma que estou seguindo para o andar de tratamento intensivo da Casa de Repouso de Riverdale. O único lugar onde isso é uma possibilidade real.

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Capitulo 21 - Não vou deixá-los enfiarem um caleidoscópio na minha bunda. Não vou - diz o vovô Jack, ao me entregar a carta do médico. Não tenho certeza de onde é essa, pois o vovô Jack tem andado numa turnê médica ultimamente. Desde nossa ida ao neurologista, algumas semanas atrás, ele já foi ver um psiquiatra, um cardiologista, um médico de doenças internas, um urologista, um gastroenterologista e agora, finalmente, o que parece ser um proctologista. Ele joga o papel em mim, como uma criança bírrenta, embora hoje esteja perfeitamente lúcido. Nós quase podemos fingir que está tudo bem quando ele está assim, quando parece exatamente com o velho vovô Jack, quando não estamos em outra porcaria de sala de espera. Fico tentada a remexer seus cabelos brancos e beliscar suas bochechas flácidas, mas sei que isso só vai deixá-lo ainda mais zangado. Estamos novamente no restaurante, dessa vez, em nosso restaurante, e minha boca tem um gosto amargo e doce, com restos da refeição composta basicamente por café adoçado e picles. O lugar está mais cheio do que o habitual - há uma festa infantil nos fundos - e nossa conversa é constantemente interrompida pelo barulho. Quando eles cantam parabéns para um garoto chamado Steven, com um babador cheio de espaguete, eu e o vovô Jack acompanhamos. - Não é um caleidoscópio. E só um microscópio, ou uma câmera, algo assim. E aqui diz que eles precisam ver o seu cólon. É importante. - Dou uma olhada na anotação e sinto o peso de nossa inversão de papéis. Estou encarregada por suas decisões médicas. Agora eu assino os formulários de permissão. - Tenho oitenta e nove anos. Estão cagando para a aparência do meu cólon. — Olho para o vovô Jack e percebo que ele está dando um sorriso malicioso. - Sem trocadilho, boneca. Ficamos rindo da piada até depois de já ter passado a graça. - Posso ser honesto com você? - ele pergunta, e afasta o canudo do milk-shake. - Claro. - Eu sei o que está acontecendo comigo, Emily. Posso ver. Seria assim tão terrível se houvesse algo perigoso acontecendo em meu cólon? Eu não respondo. Encaro a carta que tenho nas mãos com tanta intensidade, que as palavras se unem como um borrão de Rorschach, na forma de uma mancha. - Sério. Isso pode ser uma coisa boa. A voz dele é macia. Ele está entoando uma canção de ninar. Fico tentada a pousar a cabeça em seu ombro e relaxar. Mas, em vez disso, cruzo os braços sobre o peito. - Há algo... eu não sei, certo sobre deixar as coisas como são, não há? Deixar que as coisas aconteçam da forma como devem ser. - Ele diz como se fosse fácil sentar e deixar que células cancerígenas, ou qualquer coisa que pudesse estar à espreita, o destrua. Imagino seu interior, em minha cabeça. Formigas famintas arrancando pedaços de seus órgãos. Elas só deixam para trás balões murchos. "É melhor assim. Você não quer admitir, mas é. Eu posso ser a primeira pessoa na história do mundo que pode dizer, com cem por cento de sinceridade, que espera ter um câncer. Na verdade, estou começando a comer mais dessa droga de açúcar agora. Emily, eu rezo para ter câncer. Por favor, Deus, me dê um câncer!"

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Sua voz se eleva e ele fica de joelhos, no chão do restaurante, numa prece debochada, com as mãos rosadas juntas. - Deus, me dê o grande C! Vamos. Você consegue. Eu quero o grande C! - Pare com isso. — Pego seu cotovelo e o levanto, mas o vovô Jack me ignora. Ele está ocupado demais ajoelhado. - Grande C! Grande C! Grande C! - Pare com isso, você está fazendo uma cena. As pessoas estão começando a olhar. Isso não tem graça. - Ora, vamos, diga comigo. Grande C! - Não. - Para que lado fica Mecca? Ele começa a se curvar, freneticamente. - O que você está fazendo? - Pedindo de todas as maneiras. - Está certo. Entendi. Nada de colonoscopia. - Díga. - O quê? - Você sabe o quê. Grande C! - Está bem. Grande C! Agora, por favor, sente-se. - O vovô Jack se levanta e se joga no sofá do reservado, ao meu lado, satisfeito. -Anime-se, garota. - Ele coloca o guardanapo de volta no colo. — Eu te prometo que, se eu viver e passar dos noventa, vou deixar os médicos me abrirem um novo buraco na bunda, se quiserem. Até lá vou estar tão confuso que vou correr por aí com as fraldas na cabeça. - Vovô, você sabe que isso é um monte de besteiras. Ele me olha, e seu sorriso se abre, de um lado ao outro do rosto. Quando ele dá um apertãozinho em minha mão, sei que ele nunca esteve mais orgulhoso. - Sem trocadilhos, boneca. Sem trocadilhos.

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Capitulo 22 O prédio onde fica o consultório da Dra. Lerner é no West Village, escondido numa rua repleta de charmosos edifícios nova-iorquinos de tijolinho. O tipo de prédio que você imagina abrigar uns cem dentistas (e ao menos um terapeuta e dois cirurgiões plásticos) e o faz pensar no que antes houvera ali; de quem era a casa que deu lugar ao peso do empreendimento comercial, e como os planos foram tramados pelo comitê de zoneamento urbano. Nesse acordo talvez alguém tenha ganhado aparelhos dentários grátis, ou uma rinoplastia. A reforma do prédio demonstra que deve ter havido uma destruição para a reconstrução, ocorrida por volta dos anos setenta. A iluminação fluorescente da recepção deixa o interior com um ar esquecido e sombrio. Um guarda está assistindo a uma pequena TV numa mesinha dobrável e nem olha quando entro no elevador sem assinar o livro de visitantes. Fico feliz por não deixar um rastro no papel. Ao entrar no consultório da Dra. Lerner, estou pronta para uma audiência. Onde pessoas irão me encarar e pensar sobre o que deve haver de errado comigo. Imagino uma sala de espera cheia de gente, um ou outro excessivamente medicado e babando. Acabo sendo a única ali. Não tenho certeza se isso é um alívio ou uma decepção. Já pratiquei minha expressão facial serena no espelho, uma que diz Só estou aqui porque sou complicada. Sento-me no sofá xadrez gasto e espero. Há revistas na mesinha de centro, uma escolha entre The Economist e Cosmo, ambas de pelo menos dois anos atrás. Imagino que isso seja algum tipo de teste psicológico e resolvo optar pela The Economist. Espero que isso me faça parecer mais preocupada com os assuntos do mundo e a disseminação da democracia. Como se minha vida fosse maior do que os problemas que pretendo deixar no consultório da Dra. Lerner. Folheio a revista, lentamente. Embora não consiga me concentrar nas palavras, ou nem mesmo entender os gráficos, finjo ler. Estou ansiosa; a idéia de pagar alguém para me ouvir, de certa forma, me faz sentir imoral e ilícita, como se eu estivesse pagando para ter sexo. Isso parece fundamentalmente oposto ao código moral do americano padrão. Gosto de pensar em minha gente como otimistas do silêncio - deixe o elefante em paz e, eventualmente, talvez com a ajuda de algumas Mimosas, ele desaparecerá da sala por iniciativa própria. Depois de uns dez minutos, duas mulheres saem da porta fechada à minha direita, um delas passa bem rápido pela sala de espera. Reconheço a etiqueta da terapia e não olho para ela. Em vez disso, concentro minha atenção na mulher que ficou para trás, que imagino ser a médica. Mas, olhando mais de perto, a Dra. Lerner não parece uma médica. Ela parece ser uma leitora de tarô. Tem um monte de pulseiras douradas, que sobem pelo braço, e está vestindo um sarongue rosa-choque. Embora a iluminação seja fraca, tenho noventa e cinco por cento de certeza de que ela não é indiana. - Você deve ser a Emily. — Ela estende a mão para apertar a minha. — Sou a Dra. Lerner. — Ela me conduz até o consultório, que parece ainda mais escuro e cavernoso, e tem pilhas de livros alinhados à parede. O cheiro de incenso é forte. Isso me lembra do apartamento do namorado de minha amiga da faculdade, onde meus olhos lacrimejavam por causa das velas acesas para ocultar o cheiro de bagulho e a iluminação era bem fraca para que eu não visse sua acne. "Sente-se - Ela aponta para outro sofá, também xadrez. Ela senta de frente para mim, numa cadeira de armar com uma almofada e se acomoda numa posição de lótus. Ela parece ser velha demais para manipular o corpo tão confortavelmente. Eu também me sento e fico pensando se devo copiá-la. Resolvo que não, ao lembrar que estou vestindo uma saia." Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Então, o que a traz aqui hoje? — pergunta ela, numa voz alegre, como se fosse uma vendedora de roupas. Ela repousa os braços nas panturrilhas, com as palmas das mãos para cima e suas pulseiras fazem um tilintar abafado. - Tenho passado por um período difícil, ultimamente. A Dra. Lerner não responde e imediatamente reconheço a técnica. Já a usei muito em testemunhas relutantes. Nada faz mais com que as pessoas falem do que o desconforto do silêncio. Eu mordo a isca, mais porque estou pagando cem dólares. - Eu recentemente passei por um episódio de depressão. - Entendo. E o que a faz dizer isso? O que quer dizer, exatamente? - Seu tom é casual, não clínico, ou pausado, como o de um médico. É como se fôssemos amigas, papeando e tomando café. - Coloque dessa forma, eu não conseguia sair do meu sofá. Eu dormi. Muito. Por uma semana seguida. Finjo bocejar, uma tentativa bizarra de ênfase. - E agora? - Nem tanto. Quero dizer, tive um estalo e saí daquilo. Mas agora me sinto meio triste. Antes eu me sentia anestesiada. De alguma maneira, eu realmente estava melhor antes. Isso faz sentido? - Certamente. É um mecanismo de defesa muito comum. Muita gente se fecha emocionalmente quando não quer lidar com o que está ocorrendo em suas vidas. Algumas pessoas se fecham durante anos — diz ela, o que me faz pensar em meu pai. — Por que não me conta o que aconteceu com você até agora? Algo aconteceu, ou mudou, recentemente? - Não muito. Quero dizer, terminei com meu namorado, Andrew, no Dia do Trabalho, mas isso foi há meses e fui eu quem terminou com ele, por isso, a essa altura, eu realmente já deveria ter superado isso. E pedi demissão do meu emprego, mas acho que isso provavelmente é uma coisa boa. Eu detestava aquilo. A outra coisa em que consigo pensar é que meu avô ficou doente. Ele foi recentemente diagnosticado com Alzheimer. Mas isso já vem ocorrendo há algum tempo, por isso, não foi tão chocante. - Eu me apresso em dizer as palavras, já que estou aqui, tenho que aproveitar a minha hora ao máximo. - Emily, você percebe que põe uma justificativa em todos os seus sentimentos? Emily, isso soa como se você não se sentisse no direito de estar chateada ou de reagir a nada. — Eu me pergunto se usar o meu nome repetidamente é outra técnica. Qual é o primeiro nome da Dra. Lerner? Eu me pergunto. Ela parece ser Peggy. Ou talvez uma Priya? - Deixe-me sugerir algo - continua ela. - Depois que eu falar, quero que você tire um momento para pensar no que eu disse. Para se concentrar nas palavras. Posso ver que sua mente está acelerada e quero me assegurar de que você me ouça. Parece que não estou prestando atenção? Estou prestando atenção? Foco, Emily, foco. Eu coloco justificativas em todos os meus sentimentos?

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- Por que não começamos com Andrew? O que houve? - A pergunta me dá uma sensação de violação. Quero dizer a ela que cuide de sua própria vida, mas depois lembro que a estou pagando para cuidar da minha. - Eu terminei com ele. Estávamos namorando havia dois anos e eu estava preocupada que ele fosse me pedir em casamento. Então, terminei. - Digo isso de uma forma casual, como se eu fosse alguém que arrasa corações sem ligar a mínima para isso. - Entendo - diz ela, embora eu não tenha certeza se ela enten¬de. — Por que você terminou? - Diga-me você. A Dra. Lerner não se digna a responder e seu silêncio é punitivo. Sua expressão diz coopere comigo. - Para ser honesta, não tenho certeza. Na época, eu sentia que tinha de fazê-lo. Sabia que não podia me casar com ele. - Por que motivo? Por que não podia se casar com ele? - Não sei. Eu simplesmente não podia. Eu me sentia uma fraude. - Essa é uma escolha interessante de palavra. - Imagino que sim. - O que é uma fraude para você? Respiro fundo para conter minha irritação. Não estou ali para uma lição de vocabulário. - Certo, você sabe, uma fraude. Como se eu estivesse fingindo. Como se eu estivesse ali, mas na verdade não estivesse. - Você amava Andrew? - Sim, amava. Eu o amava. - E agora? - Agora? - Agora. Paro por um instante, embora saiba a resposta dessa pergunta. Só não tenho certeza se estou pronta para dizer as palavras em voz alta. - Sim, eu ainda o amo. Sim. - E o sexo? - Perdão? - E o sexo? Como era? Eu paro novamente.

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- Faço essa pergunta porque isso diz muito sobre o relacionamento. Então, como era? O sexo. - Bom pra cacete. De alguma forma, conversar sobre sexo quebra o gelo e fico mais à vontade com a Dra. Lerner. Sinto um pouco como se fôssemos amigas papeando num café, exceto por só falarmos de mim. - Vamos falar sobre sua família — sugere a Dra. Lerner, quando estamos mais ou menos no meio de nossa consulta. Eu quero rir, porque sabia que, de alguma forma, ia dar nisso. A terapeuta esperando que eu repasse todos os meus traumas de infância. - Não tenho tanta família assim, portanto, não há muito a dizer. Sou filha única. Meu pai vive em Connecticut. Ele é político. E eu lhe disse sobre meu avô Jack. É isso. - E a sua mãe? - Eu sabia que ela ia perguntar, claro. E, por um instante, penso em mentir. Eu podia responder que ela tam¬bém vive em Connecticut. Já fiz isso antes, já que as pessoas não sabem como responder quando você diz que sua mãe está morta. Depois do "eu sinto muito", e do "eu não sabia", fica difícil seguir com a conversa. Às vezes, eu minto de forma implícita, dizendo ―a minha família mora em Connecticut", porque é mais simples do que explicar. Não é desconfortável dizer que minha mãe morreu, a questão é que todos se sentem desconfortáveis ao ouvir. - Ela morreu. - Mentir para a terapeuta é má idéia. - Entendo. - Dessa vez eu sei que ela entende. Ela entende que minha mãe está morta e isso me ferrou, irremediavelmente. - É, bem, foi de câncer, eu tinha catorze anos. - Câncer. Catorze - repete ela, como se fossem palavras estrangeiras que lhe parecessem interessantes. - Poxa, mas isso é uma droga. Eu rio, porque ela está precisamente certa. Realmente é uma droga.

***** O restante de nossa hora juntas voa. Esqueço que o relógio está correndo e passo boa parte do tempo falando de coisas triviais. Como a Marge, o Carl e como é tomar um depoimento. Ocasionalmente, eu me preocupo por estar saindo demais do foco por estar ali - minha morada no sofá. Eu pergunto sobre isso à Dra. Lerner, mas ela só me diz para "relaxar e confiar no processo". E, porque estou surpresa com o término da sessão, e por resolver confiar nela, independentemente do que isso signifique, marco outra consulta com a Dra. Lerner para a próxima semana. Vou para casa pelo caminho mais longo e dou a volta no bairro. As folhas começam a cair e formar alguns montes sob as árvores, cuidadosamente espaçadas. Eu chuto os montes, gostando do som que meus pés fazem, conforme espalho as folhas pela calçada, adicionando um pouquinho mais de caos à cidade. De vez em quando, cheiro as mangas do meu suéter. Eu até que gosto do fedor de patchouli.

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Capítulo 23 Para mim, o calendário pode ser um campo minado. Todo ano eu espero que alguns dias sejam mais difíceis que outros. A maioria dos feriados principais. Dia das Mães. O aniversário da morte de minha mãe. Seu aniversário. O meu. Se fosse para marcar esses dias com um X preto indelével, ele surgiria a cada dois meses, mais ou menos. Até que não é tão ruim. Mas, quando o fim do ano se aproxima, com aquele monte de festas de Ação de Graças, Natal, e Ano-Novo, é um baque. Mal consigo recuperar o fôlego da primeira bomba e já tomo a segunda, depois, a terceira. Até janeiro chegar, eu já estou tão exausta emocionalmente que tomo a mesma resolução todos os anos: dormir mais. Como se fechar os olhos num quarto escuro por algumas horas seguidas pudesse repor os pedacinhos da minha alma devorados atualmente, por volta dessa época. Se é que serviu para alguma coisa, minha semana no sofá derrubou o mito do poder redentor do sono. Eu vinha temendo o, dia de hoje, Ação de Graças, desde que meu pai e eu fizéramos planos, ou talvez desde essa mesma época no ano passado. Deixe-me ser clara. Tenho consciência de que tenho muito a agradecer, e sei que falando em termos relativos, principalmente numa escala global, a minha vida é muito boa. Mas o Dia de Ação de Graças, por algum motivo, tem um efeito inevitável de me fazer inventariar a metade vazia do meu copo. Há somente uma fonte de amor incondicional para cada um de nós, e eu perdi a minha aos catorze anos. Não quero dizer isso de uma forma autopiedosa. Só quero dizer que o Dia de Ação de Graças me lembra que a maior parte do amor que vou receber adiante em minha vida terá que ser conquistada. E dá um trabalho dos diabos conquistar amor. Não estou certa se tenho esse tipo de energia. Meu pai me pega na estação de trem e seguimos direto ao country clube. Não paramos na casa dele, pois não há mais motivo para ir lá. Não gosto de ver a transformação: o declínio lento demonstrado através de fotografias expostas em porta-retratos e a substituição dos móveis. Um testamento da erosão gradativa da memória. É o vovô Jack em forma de casa. O country clube de meu pai, ou simplesmente o "clube", como ele gosta de dizer, parece a sede de uma antiga fazenda, tem gramados extensos e profundamente verdes, inúmeras varandas e uma entrada longa e circular para os carros. Há cercas vivas e altas ao redor, numa tentativa de separá-la das ruas cruéis de Greenwich, Connecticut, e impedir todos aqueles vândalos de espiarem Xan-grilá. Ao adentrar, depois de autorizado por um sujeito no portão de segurança, manobristas de rosto negro e uniformes engomados lhe dão as boas-vindas. Abrem a porta do seu carro. Fazem uma reverência. Depois saem rapidamente com o veículo e o levam até um estacionamento distante. A entrada é perfilada por placas comemorativas de campeonatos de tênis e golfe. Os vencedores têm nomes pretensiosos, seguidos por números, nomes que cairiam bem melhor em iates do que em gente. Há algumas fotos das equipes de tênis: todos de branco e, para enfatizar a brancura dos uniformes, eles vestem camisas brancas, shorts brancos, meias brancas e tênis brancos, o branco ofuscante que só se vê em comerciais de detergente, o tipo de branco que diz nós somos mais brancos do que você. A sala de jantar tem uma casualidade debochada, como uma mistura de hotel com salão de bailes, decorada com arranjos de flores outonais. Algumas pinhas soltas estão espalhadas, dando um ar de autenticidade. Quando entramos na sala, meu pai faz uma breve varredura, em busca de rostos conhecidos, depois acena a cabeça, sorri e abana a mão, como o vencedor de um concurso num desfile local. O lugar está repleto de "constituintes", a gente que ele espera que irá elegê-lo como governador dentro de alguns anos. Como nunca fui especialista em cumprimentos a distância, evito o contato visual e sigo obedientemente o maitre, até nossos Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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lugares. - Você não tem nada menor? - pergunto, quando ele nos coloca numa mesa para seis. - Não, sinto muito. Geralmente acomodamos grupos grandes no Dia de Ação de Graças. Ele nos entrega os cardápios, antes de se afastar. Meu pai e eu nos sentamos diante um do outro, assimetricamente, e as quatro cadeiras vazias nos encaram. Nós as preenchemos mentalmente, com nossos mortos. Meus avós maternos, mãe de meu pai, minha mãe, e logo, possivelmente, meu avô Jack. Meu pai sinaliza chamando um garçom e exige que as cadeiras sobressalentes sejam retiradas. Ele não diz isso em voz alta, mas seus gestos, sua grosseria e impaciência são transparentes: nós não jantamos com fantasmas. - Sr. Haxby, que bom tê-lo conosco hoje. E esta deve ser sua adorável filha, de quem o senhor está sempre falando. Emily, certo? - O garçom fala com um sotaque inglês que surte o efeito de deixar nossa refeição ainda mais formal, como se tivéssemos voado até Londres para celebrar a conquista do Novo Mundo. Fico surpresa que ele saiba meu nome e me pergunto se eles mantêm uma lista de convidados para dar ao clube uma aparência mais amistosa. Meu pai sorri para ele, e eu estico o braço para apertar sua mão. - E a Srta. Anne, irá nos acompanhar hoje? - pergunta o garçom. Anne é a assistente pessoal de meu pai, a mulher sobre quem ele brinca, dizendo não viver sem. Fico surpresa que o chefe dos garçons também a conheça pelo nome. - Não, ela não virá. - O tom de meu pai repreende o garçom pela indiscrição. Mas é meu pai quem se entrega. Ele só pode estar saindo com Anne, uma mulher apenas alguns anos mais velha que eu. Ela não pode ter mais que trinta e três anos. Anne é uma morena miúda que se adorna com enfeites de festa, pérolas no pescoço, pequenos diamantes nas orelhas, relógio fino, telefone fino. Paro um instante para processar essa nova informação, meu pai e Anne, e descubro que gosto da idéia. De alguma maneira, isso faz meu pai parecer mais humano. O garçom sai rapidamente depois disso, com as cadeiras extras, mas sem o nosso pedido de drinques. Ele se afasta de cabeça baixa, como se o tivéssemos banido de nossa ilha onde só cabem duas pessoas. - Então, você e Anne vêm muito aqui? - Para almoços de negócios. Não é muito longe do escritório. Acho que estou vendo os Pritchard. Vamos até lá dizer oi? - Ora, pai pode me contar. Eu não sou imbecil. Você está saindo com ela? Estaria tudo bem, se estivesse. Ela é uma ótima mulher. — Na verdade, eu admiro Anne. Ela incrementa a vida; sua voz, seus gestos, sua presença parecem chamar atenção sem esforço, sem ser chamativa, sem ser grosseira. Se ela não trabalhasse para o meu pai, se não estivesse dormindo com meu pai, se as circunstâncias fossem outras, eu conseguiria nos ver como amigas. - Não seja ridícula, Emily. Sou seu supervisor. Isso não seria apropriado. - Ele corta o assunto com um aceno de mão para que o garçom traga nossos drinques. Dois martinis, sem gelo, com azeitonas extras. - Como vai o Andrew? — meu pai pergunta. - Bem. Ele tem andado bem ocupado no trabalho. - Pois é. Nós, os Haxby, continuamos a mentir uns para os outros. Assim que fazemos o negócio por aqui.

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- Bom. - Meu pai esfrega as mãos. — Vamos pedir. - Como o cardápio dessa tarde é fixo, o que meu pai realmente quer dizer é Vamos começar logo com isso para acabar mais rápido. Estamos desconfortáveis nessa mesa imensa, cheia de pequenas inverdades; deixamos pouco espaço para conversa. Depois que fazemos o pedido, a comida logo chega. Os empregados fazem uma apresentação espalhafatosa com a nossa comida, colocando-a à nossa frente com muita fanfarrice e um erguer elaborado das tampas. Um dos auxiliares chega a dizer "Voilà", quando abre a minha. Antes de começar, meu pai faz um agradecimento, algo que ele só faz quando estamos em público. As mãos juntas em prece, olhos fechados, seu cabelo mais cor de sal do que de pimenta comprido na frente, penteado para trás das orelhas. Ele parece sincero - um garoto de colégio, mais jovem do que seus cinqüenta e oito anos — quando dá graças pela comida que compartilhamos nessa refeição maravilhosa, amém. Nossos pratos estão repletos de elementos quintessenciais da Ação de Graças: peru, purê de batatas, recheio c molho, exceto que a comida é trazida em porções individuais. Eu acho isso depressivo, minha refeição arrumada em pequenos montes tirados de forminhas. - Você gostaria de um pouco do meu molho? - pergunto. - Estou comendo a mesma coisa que você, Emily - diz meu pai. — Por que eu ia querer o seu, se tenho o meu? Acho que não faz mal o fato de não termos muito a conversar durante o almoço, pois somos interrompidos constantemente. Tenho certeza de que foi por isso que meu pai quis vir aqui, para início de conversa; é uma chance excelente para misturar os negócios com a obrigação. Homens e mulheres de aparência séria vêm apertar a mão de meu pai e dar tapinhas sentimentais em suas costas. Mantemos sorrisos amistosos congelados em nossos rostos, nossa tarefa como chefes da brigada da rede de contatos. Algumas famílias também se aproximam, gente do bairro que conheço há anos, em quem raramente penso. Seus nomes só me vêm à cabeça quando meu pai tem alguma fofoca a relatar, a maioria sobre gente que nasceu ou morreu. Algumas divorciadas também param, uma de cada vez, a caminho do "toalete". Elas dão beijos no rosto de meu pai e o cobrem de perfume e decotes, e dicas do tipo "precisamos tomar um drinque". Ele aceita as ofertas com charme, como se estivesse surpreso com a atenção, como se não percebesse a avidez, pois, desde que minha mãe morreu, meu pai se tornou o solteiro mais elegível de Greenwich. Ele é atraente, bem-sucedido e viúvo - o que significa que não possui uma ex-esposa incômoda, nem a bagagem de um solteiro perpétuo. Para seu crédito, ele nunca se interessou particularmente em explorar essas oportunidades, é cordial com as divorciadas parcialmente para preservar-lhes a dignidade, parcialmente para preservar-lhes os votos. Acho que velhos amigos da família são aqueles que me lembram o motivo por eu nunca ter gostado dali. A promoção pessoal é desavergonhada. Nós ouvimos sobre filhas que estão se casando e ingressando em "famílias com fundo de ações", sobre casas de férias de vinte mil metros quadrados e formandos de inúmeras fraternidades. Eu elogio a bolsa de uma mulher e ela diz: - Oh, essa coisinha? - Depois, baixinho: - Marc Jacobs, da Barneys. - Como se ela estivesse envergonhada por estar disponível à grande massa. Nós ouvimos os cochichos exagerados e ale¬gres, sobre os infortúnios das pessoas: falência, câncer, divórcio.

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Não é a riqueza em si que acho desconfortável. Afinal, eu trabalhava na APT, onde os sócios faturam milhões por ano. E a cultura da competição misturada ao prazer pelo infortúnio alheio que eu acho desanimador. Afinal, eu me sinto como se tivesse passado a última hora atrás de Carisse no placar. Como se eu estivesse tomando uma surra num jogo em que nem sequer entrei. Evito o assunto do trabalho até a hora da nossa torta de abóbora. Só para constar, não nos dão fatias de torta; mas tortinhas individuais em miniatura, com uma minicobertura. Acho que a idéia é que sejam bonitinhas, essas tortas de anão. - Então, como vai o trabalho? - meu pai pergunta, mudando para o assunto que costumava ser nosso porto seguro. É claro que eu sabia que isso estava por vir, mas ainda não havia decidido como responder. Se eu disser a verdade, o pior que pode acontecer é meu pai ficar chateado comigo. Se eu mentir, nada acontece. Eu minto. - Movimentado, mas nada demais. - E o caso da Synergon? Como vai indo? - Bem. Mas não posso falar a respeito. Sabe como é, sigilo entre cliente e advogado. - Oh. - O rosto de meu pai se entristece. Não tenho certeza se é porque eu o decepcionei na questão em que nós dois nos conectamos, ou se isso o aborrece porque eu faço parte de um clube onde ele não pode ser membro. Mas sua expressão me faz sentir culpada, e fico em dúvida. Será que limpo a minha barra? Mas isso agora parece impossível, porque soltei uma mentira deslavada bem na cara dele. Eu resolvo jogar outro osso e mudar a conversa para política, o assunto predileto de meu pai. - E como estão as coisas com você? Alguma grande novidade no gabinete do governador? - Fico feliz que você tenha perguntado. E me orgulho em dizer que nós criamos quinze mil empregos, só neste ano. - Minha pergunta foi suficiente. Passamos o resto da refeição e todo o trajeto de carro até Riverdale discutindo a política de Connecticut, um assunto que eu aprendi por osmose. Mas, como somos membros de carteirinha de partidos distintos, resolvemos deixar de lado qualquer discussão ideológica. - Então, digamos que você esteja no noticiário da Fox e precise agir na defensiva com Bill O'Reily. O que faria? - pergunta ele. - Vomitaria em seus sapatos. - Fale sério, Emily. Se você possui opiniões fortes, precisa aprender a vendê-las. A questão não é mais a idéia em si. E a embalagem. E a habilidade de comunicar a idéia. - Eu sei argumentar. Fiz direito. - Você não entende o ponto de vista. Não se trata de argumento. E o RP. Tem a ver com a rotação. Você deve, por exemplo, começar uma frase dizendo algo como Tenho certeza de que você concorda que blablablá. Faz com que o outro lado tenha que articular uma oposição a algo impossível. - Então, o que você está me dizendo é que tudo é a força oponente - digo. - E muito mais difícil argumentar contra nada, do que contra alguma coisa. Não há dar e receber sem o dar.

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- Exatamente. Eu estou dizendo que tem tudo a ver com falar, sem falar. Essa é a técnica. - Falar sem falar? - Ãrrã, falar sem falar. - Eu consigo fazer isso. ***** - Por que diabos vocês demoraram tanto? - pergunta o vovô Jack quando entramos na sala do andar de tratamento intensivo. Ele está sentado numa cadeira, folheando uma antiga revista National Geographic, cheia de mulheres tribais de seios à mostra. Há poucas enfermeiras por conta do feriado e o lugar está esvaziado. Todos por aqui já desistiram e foram para casa, ou para o céu. As boas-vindas bruscas de meu avô são um presságio para a visita. Talvez tenha sido muito otimismo de minha parte esperar um dia bom. - Oi, vovô Jack. - Eu lhe dou um beijo. A assistente que contratei para fazer companhia para meu avô salta e fica de pé, olha para o relógio, depois para mim. Eu consinto, ela pode ir embora, mas estou distraída demais para lembrar de agradecer-lhe, só de¬pois que ela saiu pela porta. - Oi, pai - meu pai diz, e aperta a mão do vovô Jack. - Onde diabos você se meteram? - pergunta meu avô, abanando para dispensar nossos cumprimentos. - Nossa reserva era para as cinco e meia. Meu pai dá um passo para trás e vira a cabeça, incapaz de olhar meu avô nos olhos. Fica logo aparente que já faz muito, muito tempo desde sua última visita. Esse vovô Jack é novo para ele, com uma pele flácida demais caindo sobre a boca, uma pele fina como papel sobre os ossos das maçãs do rosto, reduzido à alucinação de uma sinapse, um ricochete neuronal. O vovô Jack está com a pele sardenta e as pálpebras inchadas, num rosto assombrado de alguém que já viveu demais. - Desculpe, nós ficamos presos no trânsito. Mas, tudo bem, podemos fazer a Ação de Graças aqui - digo. Meu tom é excessivamente alegre e o meu entusiasmo falso só parece aumentar a tensão da sala. - E quanto ao show, Martha? - pergunta o vovô Jack. A cabeça de meu pai cai nas mãos, com a menção de sua mãe, que está morta desde que eu ainda usava fraldas. Sua reaparição me faz questionar a realidade por uma fração de segundo. Será que todos nós poderíamos estar vivendo um enorme mal-entendido? Mas, é claro, isso não é nada além de minha própria descarga química de esperança. - Nós não vamos ao show, vovô. Mas vamos comer peru. Está tudo servido lá embaixo. Meu pai cruza o olhar com o meu e faz um sinal em direção à porta. - Voltamos, já, vovô. - Isso é para que ele não fique assustado porque o deixamos para trás. Não tem importância quem ele pense que somos. Não quero que ele pense que está sozinho. Meu pai e eu vamos até o lado de fora, até algo que parece um corredor de hospital. E branco, cheira a antisséptico e tem equipamentos eletrônicos espalhados. Sons estranhos ecoam pelas paredes, gemidos de gente mudando de posição em suas camas. Uma mulher de avental Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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azul está sentada, sozinha, atrás de uma mesa de fórmica, no posto de enfermagem, remexendo num saco engordurado do McDonald’s. Pretendo convidá-la para o banquete que temos armado lá embaixo. Planejo fazer isso, não por seu benefício, mas pelo nosso. Meu pai me conduz pelo cotovelo através do corredor e me conduz a um pequeno vão com duas cadeiras e uma máquina de refrigerantes. É o tipo de cubículo onde as pessoas dão más notícias. - O que foi? - Você está de sacanagem comigo, porra? - pergunta meu pai, apontando o dedo longo em meu rosto, para demonstrar sua irritação. Ele também come as cutículas, penso, vagamente. Nunca tinha notado que ele também faz isso. "Você está de sacanagem comigo, porra? - ele berra, dessa vez, num tom inequivocamente violento. Fico chocada demais para responder. Eu nunca tinha ouvido meu pai usar a palavra "porra". Nem uma única vez, em toda a minha vida. Meu pai também nunca gritou comigo, apesar de minhas tentativas de provocá-lo durante toda a minha adolescência. A experiência é tão estranha que não sei se é desagradável. Mas decididamente é confusa e posso ver que ele também está surpreso por suas palavras ásperas. Será que todos nós perdemos a razão? Teria havido algum tipo de curto-circuito coletivo nos Haxby? " - O quê? - Por que você não me disse que ele estava assim? Por que não me disse que ele estava assim, tão mal? - Meu pai bate com o punho na parede branca, e as juntas de seus dedos se arranham ao atingirem o reboco. - Eu falei, sim. - Uma onda de exaustão me invade, competindo com a raiva que vem se formando, logo a seguir. - Eu lhe disse - repito, mas, dessa vez, sai como um sussurro. - Não, não disse. Você não me disse que ele estava assim. - Agora, o seu tom é o de uma criança petulante. Ele já não é mais o cara poderoso com quem almocei, aquele que estava contente, manipulando todas as pessoas no country clube. Nesse momento, ele parece assombrado e perdido, como um garoto que quer que a mãe lhe diga que vai ficar tudo bem. Engraçado é que eu me sinto da mesma forma. - Que porra você acha que é o Alzheimer, pai? Você mesmo poderia ter visto no dia em que o vovô sumiu. Se ao menos se desse ao trabalho de me ligar de volta. Ou talvez poderia ter ido ao neurologista e falado, você mesmo, com o médico. Ali, já sei, você podia tirar um tempo de porra da sua agenda que administra aquela porra daquela cidade de Connecticut para vir alguma outra vez. Eu paro para recuperar o fôlego. - Ou, talvez, talvez estivesse ocupado demais trepando com a Anne. — Berro com ele com tanta força que meu pai dá um passo atrás, absorvendo as palavras como um golpe físico. Mas eu não terminei. Ainda não. Minha fúria é vomitada brutalmente, como se eu estivesse expelindo as palavras, como se eu estivesse com algum tipo bizarro de doença de estômago. "E por que essa porra é culpa minha? Por que a porra da responsabilidade é minha? Ele é seu pai. E seu parente também. Você acha que isso é fácil para mim? - Eu grito o mais alto que consigo, até que minha garganta comece a arder. Até sentir dor. "Bem, não é. Não é fácil. Como você se atreve? - Eu falo, exigente, pois não consigo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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pensar em mais nada para despejar em cima dele. Fico chocada com a força de minha explosão e, com a mesma rapidez, se dissipa. E não deixa qualquer vestígio de raiva, apenas um cansaço esmagador. Eu deslizo pela parede até ficar sentada, numa posição fetal. Abraço os joelhos e pouso a cabeça de encontro a eles. Ouço o som do choro e não assimilo de imediato que está vindo de mim. Esse tipo de encontro, as lágrimas e os gritos, é sem precedentes e dá uma sensação bizarra pelo fato de eu e meu pai estarmos tão fora do script. Durante um tempinho, nenhum de nós diz qualquer coisa, deixando que aquele intervalo esfrie um pouco o calor da hora." Meu pai acaba sentando ao meu lado, no chão, nós dois varremos a poeira da parede com nossos ternos pretos, sem ligar a mínima. Ele se curva exatamente na mesma posição que eu, depois passa o braço em volta dos meus ombros. - Eu sinto muito - ele diz, e noto que seu rosto também está molhado. — Sinto muito, muito mesmo. - Meu pai me puxa e me abraça e meu nariz escorrendo deixa uma marca em sua manga. — Eu não estava esperando isso, que ele estivesse assim - acrescenta ele. - Eu sei. - Eu meio que pirei. - Eu sei - repito. Embora ele seja meu pai, sei que ele é filho do vovô Jack. Meu pai e eu andamos devagar, dando um passo de cada vez, deliberadamente, como se nós é que precisávamos de "tratamento intensivo". Ao passarmos pelo posto de enfermagem, percebo que a mulher já não está mais sentada atrás do balcão e fico aliviada. No fim das contas, não quero convidá-la para a nossa Ação de Graças. Quero que sejamos só nós três. ***** Pela segunda vez no dia, eu me entupo com peru, batatas e molho, arranjando, de alguma forma, espaço em meu estômago para outra rodada. Meu avô, meu pai e eu nos sentamos ao redor de uma pequena mesa de carvalho numa das salinhas privativas que há no andar de baixo. A comida é servida no estilo familiar, em travessas e, como o pessoal do bufê esqueceu de trazer talheres para servir, nós mergulhamos nossos talheres nas travessas de alumínio. Nossos garfos deixam marcas nas montanhas de purê de batatas. Meu pai, apesar de exausto, se serve pela segunda vez e se oferece para servir nossos pratos novamente. Ele fica encarando o vovô Jack, como se tentasse imaginar onde a coisa desandou tanto. Ou, talvez, só esteja procurando provas de que a pessoa à sua frente ainda é seu pai. - Seu filho veio me visitar outro dia - diz o vovô Jack, para o meu pai, quando ele se levanta para se servir de outro pedaço de torta de maçã. Até agora, as confusões tomaram forma de um tipo de viagem no tempo; se o vovô Jack não está falando conosco aqui e agora, ele está falando com sua esposa e filho, cinqüenta anos atrás. Eu me pergunto se é por isso que devemos esperar. Desassociação de qualquer coisa concreta ou real. - Ele é um ótimo rapaz. E médico! - Meu avô bate palmas ao pronunciar essas palavras, com puro prazer com seu neto imaginário. - Pai, eu não tenho filho homem. Só a Emily, lembra? - Não seja tolo, Kirk. Ele veio aqui, apenas alguns dias atrás. E está tão alto, sabia? E ele me deixou ganhar no pôquer. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Do que você está falando? - Pergunte à Ruth. Ela ficou tão contente em vê-lo. Nós dois esvaziamos os bolsos do pobre garoto. - Andrew? - pergunto. Andrew veio visitar o vovô Jack? - Andrew! — meu avô repete, depois de mim, e volta a bater palmas. - Eu ganhei quatro jogadas seguidas. Que rapaz bacana. - Por que o Andrew viria visitar o seu avô sem te avisar? — pergunta meu pai e sinto meu estômago revirar. - Ele me contou. Eu que esqueci - digo. Meu pai parece confuso, mas deixa pra lá. Será que o Andrew realmente veio visitar o vovô Jack? Ou isso é apenas mais uma de suas ilusões? - Nós jogamos muito pôquer. - O vovô Jack tira um bolo de dinheiro do bolso da calça. Vê? Ganhei trinta pratas. ***** Depois do jantar, meu pai me deixa na cidade antes de voltar para Connecticut. Não falamos muito durante o percurso, nós dois estamos cansados demais para falar. Apesar do fato de meu pai e eu termos feito o que a Dra. Lerner chamaria de "progresso", fico aliviada que esse dia esteja quase no fim. - Quanto ao Natal... - começa meu pai quando vou saindo do carro. - Sim? - O que você está com vontade de fazer esse ano? - pergunta ele. - Eu não sei. - Diante do que está acontecendo com Jack, o que diz se pularmos? - Pularmos? E, eu realmente não estou com vontade de comemorar e tenho certeza de que você também não quer isso. Portanto, porque simplesmente não, você sabe, ignoramos. - Está bem. - É, não parece certo comemorar. O que acha? - É, acho que sim. - Simplesmente seria errado. - Certo - concordo. - Então, nós pulamos. Eu vou simplesmente fingir... - Isso. Como se não fosse... - Como se não fosse Natal. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Capítulo 24 Quando Kate bate à minha porta, às duas e meia da manhã, no dia seguinte à Ação de Graças, ela interrompe um sonho perturbador no qual o vovô Jack e o Andrew estão jogando strip pôquer. Graças a Deus, ela me acorda bem na hora que os dois só estão de cuecas. Kate, por outro lado, está vestida de calça de pija¬ma de flanela, um moletom de Columbia e meias. Ela não me diz nada, embora eu não a veja há semanas. Só fica parada na porta, com os olhos encharcados, o nariz escorrendo, sem sapatos. Mas só quando vejo que seus cabelos estão encaracolados é que me dou conta de que é uma emergência. Logo entro em ação e em trinta segundos ela está sentada em meu sofá, com uma caixa de Kleenex numa mão e uma Cuba Libre na outra. - Acabou o casamento. — Ela olha para o drinque como se ele tivesse a chave de seu futuro. — Acabou o casamento — ela repete. Dessa vez a voz dela falha e posso ver que ela está relutando para conter outra rodada de lágrimas. - O que aconteceu? - Eu sento de frente para ela, no sofá e esfrego os olhos para despertar. Penso em me servir um drinque puro. Não tenho certeza se consigo lidar com a desintegração de Kate e Daniel; há consolo em saber que existe gente nesse mundo que não apenas acredita na existência "daquela metade", mas, na verdade, a encontra. - Eu acho que nosso relacionamento era como o comunismo - explica ela, o que me faz achar que esse não é o seu primeiro drinque da noite. - Nós éramos bons na teoria. Na prática, nem tanto. - Ela ronca, rindo da própria piada e derrama um pouco do drinque no moletom. - Mas o que aconteceu? - pergunto, novamente, mas Kate não responde. Em vez disso, ela apenas encara a tela apagada da televisão. - O que provocou a queda do Muro de Berlim? Quem deu a primeira marretada? Kate? - Foi tudo uma farsa. E isso. Nós somos uma farsa. - Ela cruza os braços e se inclina para trás, como se estivesse perplexa com uma súbita revelação. - Quero dizer, imagine se o Muro de Ber¬lim fosse feito de Legos. Não, qual é nome daquele jogo em que você tira uma peça de baixo e coloca no alto, e quem fizer a torre cair perde? - Dominó? - chuto. Não faço a menor idéia do que ela está falando. - Não. — Kate bate com o drinque em cima da mesinha de centro. - Ah, Banco Imobiliário? Detetive? - Não! Jenga! — Kate ergue as mãos no ar. — Obrigada, Deus, isso ia me deixar maluca. De qualquer forma, o ponto é que nós éramos assim. Baseados apenas sobre algumas peças móveis. - Mas vocês eram baseados em algo além de peças, ou tijolos, ou o que quer que seja. - Se parece um pato e age como um pato, então, só pode ser um pato, certo? Mas nós não éramos uma porcaria de um pato. — A histeria de Kate aumenta um pouquinho e ela me atira um monte de metáforas. - Nós parecíamos um, agíamos como um, mas não éramos um. - Então, o que eram? Se não eram um pato? - Jenga. Nós éramos Jenga - diz ela, agora calmamente, como se isso fizesse total sentido, como se eu fosse uma idiota por não estar acompanhando. — O jogo com as peças instáveis.

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De instabilidade eu entendo. Aliás, nós estamos sentadas no exato lugar onde tive o meu colapso. Imagino, rapidamente, se há algo nesse sofá que faz as pessoas ficarem insanas, e se uma ida até a loja da Ikea seria de bom tom. Depois lembro que estou desempregada e não posso pagar por um sofá novo. - Está certo, então, você e Daniel eram como o Jenga e não como patos. Eu até que entendo. Mas o que realmente aconteceu? - O que está havendo, Kate? - pergunto a ela, pois está na hora de acabar com a conversa fiada. Precisamos falar sobre o que aconteceu. - Eu simplesmente percebi que estava me casando com ele por todos os motivos errados. Achei que, se parecêssemos e agíssemos como a coisa real, nos tornaríamos a coisa real. Mas não aconteceu. Não éramos como você e Andrew. Não éramos destinados um ao outro. - Mas eu e o Andrew terminamos. - Eu sei, mas isso não é porque vocês não eram predestinados um ao outro. - Ela assoa o nariz ruidosamente no lenço de papel. Soa como uma campainha. - Não éramos? — Estou perdida novamente, mas, dessa vez, é um problema gramatical. Essa maldita negativa dupla sempre me pega. Ela está dizendo que eu e o Andrew éramos predestinados um ao outro? Ou está dizendo que não éramos? E o Muro de Berlim foi uma alusão à queda do comunismo, certo? - Você e o Andrew terminaram porque provavelmente são meio maluquinhos, não por não serem predestinados um ao outro - ela explica, de um modo casual, depois afaga minha mão. Como se fosse eu quem tivesse aparecido no apartamento dela, às duas e meia da manhã, discursando a respeito de brinquedos infantis. - E quero dizer isso da melhor maneira. - Isso não é sobre mim. - Quero dizer, por fora, nós temos muito em comum, e Daniel tem todas as qualidades que eu sempre disse que queria. Você sabe, ele é engraçado, inteligente e tudo o mais. Mas eu realmente nem tenho certeza se gosto tanto dele assim. O cara faz a sobrancelha com cera. Como posso me casar com um cara que faz a sobrancelha com cera? - Bem, pense na alternativa. Você não vai querer casar com um cara que tem uma "monocelha". - Verdade - Kate concorda como se estivesse reconsiderando todo o rompimento. Ela sacode a cabeça para não lembrar. - Mas isso não tem a ver com pêlos, Emily. Eu acho que pensei que devia casar com o Daniel porque ele apareceu na hora certa. Tenho trinta e quatro anos, eu deveria querer me casar. Principalmente se quero ter filhos, preciso começar logo. Mas acho que simplesmente percebi que isso não significa que devo me contentar com o homem errado. - Mas vocês dois gostam de lofts — digo, por nada. Percebo que estou tentando encontrar algo para me agarrar, mas eu achava que Kate gostava de Daniel. Nunca pensei na possibilidade de o relacionamento deles ser só uma fachada. - Ouça isso. Essa noite ele só chegou em casa depois da meia-noite. Não ligou, nem nada, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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para dizer que ia se atrasar. Ele acabou tomando uns drinques com uns clientes e o celular não pegava no bar. Nada demais, certo? Mas a questão não é essa. Enquanto estava em casa, esperando por ele, eu me convenci de que ele estaria me traindo e sabe qual foi a minha primeira reação? Eu balanço a cabeça. - Alívio. Você acredita nisso? Senti alívio por ele estar me traindo, por mais horrível que pudesse ser, isso deixaria tudo claro. Eu não teria outra escolha, a não ser deixá-lo. Na verdade, eu não queria ter outra opção. E foi por isso que finalmente terminei. Hoje, percebi que é exaustivo ser covarde. - Kate, eu quero lhe dizer algo. Você é a minha heroína. - Mas você não está me ouvindo. Acabou. Eu vou envelhecer sozinha e ter um zilhão de gatos. Não sou uma heroína. Sou uma fracassada. - Kate agora começa a chorar, soluçando nos lenços de papel. - Não, você é minha heroína. Porque é corajosa. Na verdade, você tem coragem para ir atrás daquilo que quer. Não está se contentando apenas porque o resto do mundo lhe diz para fazê-lo. Sabe quantas pessoas podem dizer que vivem segundo suas próprias regras? O restante de nós apenas anda por aí, o tempo todo com medo, e faz as coisas por presumir não ter outra escolha. Ela me olha, com um meio sorriso no rosto. - É? - É. Deixe-me perguntar uma coisa. Você ama o Daniel? -Quero ter certeza de não se tratar somente de um ataque nervoso pré-nupcial. - Sim e não. Quero dizer, eu me importo muito com ele. Ele é uma parte imensa de minha vida. Mas se o amo pra valer? Amor até que a morte nos separe? Eu não sei. Acho que não. Kate des¬cansa a cabeça no braço do sofá. - Talvez eu esteja apenas louca. Talvez eu simplesmente tenha surtado de vez. - Isso é por ele não ser perfeito? Porque ninguém é. - A não ser por suas sobrancelhas ridículas, não há nada que eu realmente desgoste nele. Ele é meio perfeito - diz ela, e sacode os ombros. - Quando você chega em casa e ele está lá, você fica feliz em vê-lo? - De vez em quando, mas, na maioria das vezes, eu meio que gostaria que ele fosse embora. - Se ele precisasse de um de seus rins, você lhe daria? - Absolutamente não. - Kate não hesita nem por um instante. - Se eu precisasse de um de seus rins, você me daria? - pergunto, tirando vantagem do fato de ela não estar em condições de mentir. - Certamente. — Ela começa a chorar mais uma vez. — Isso significa que eu e você devemos nos casar? Que eu sou lésbica? Eu nunca pensei nessa possibilidade. Talvez eu seja. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Droga. Será que é por isso que estou assim? Eu tento ficar séria. - Kate, você não é lésbica, não que haja algo de errado com isso. - Você acha que ser lésbica irá ajudar ou atrapalhar minhas chances de arranjar alguém para namorar? — Não consigo prender o riso, porque, pela primeira vez na noite, eu vejo alguma lembrança da Kate que conheço. - Você não é lésbica, por isso não acho que isso irá afetar as suas chances de encontrar alguém, de um jeito ou de outro. E obrigada pelo rim. Sério, isso significa muito para mim. - E significa mesmo. Percebo que, apesar de ser filha única, tenho algumas irmãs nesse mundo. - Eu também te daria meu rim, Kate. "Você fez a coisa certa. Desistindo do noivado, eu quero dizer. Você não deveria passar o resto de sua vida com alguém com quem não quer voltar para casa todos os dias - digo isso com autoridade, como se soubesse o que estou dizendo. Não acho que Kate deva se casar com Daniel. Não mais." - Ele não passou no teste do rim - ela afirma, como se a questão estivesse resolvida. — Dar a ele o meu rim soa mal até em teoria. Na verdade, nosso relacionamento é pior que o comunismo. ***** - O que o Daniel disse quando você falou com ele? - pergunto, algumas horas depois. Ainda estamos no sofá e substituí o drinque de Kate por uma xícara de chá. Ela já vai ter muito com que se preocupar amanhã e definitivamente não irá precisar de uma ressaca para completar o seu dia. - Ele ficou muito preocupado com todos os nossos depósitos. Você sabe, como o dinheiro que ele deu de sinal para alugar o salão, a banda, as flores. Na verdade, ele pegou um bloco e começou a fazer a conta. - Como isso a faz sentir? - Essa é uma frase que aprendi com a Dra. Lerner e estou curiosa para ver se funciona fora da bat caverna da psicóloga. - Melhor, para ser honesta. Isso me faz sentir que ele também estava nessa pelos motivos errados. Quero dizer, se quando eu lhe disse que não queria mais me casar, sua maior preocupação era quanto dinheiro ele ia gastar, então, ele não pode realmente querer passar o resto da vida comigo, certo? Eu queria ter uma resposta para Kate. Não sei, realmente não sei como isso funciona. - Eu gostaria de lhe dizer, mas não sou muito boa em julgamento de caráter. Achei que vocês fossem felizes. - Não éramos infelizes. Só não éramos felizes, felizes, sabe? - Eu sei. - Fecho os olhos por um minuto e penso no quanto de nossas vidas é desperdiçado com fingimentos. - Estou morta de medo. - E, mas talvez, às vezes você precise fazer as coisas mais temí¬veis para chegar aonde Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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precisa estar. - Eu sei que você está certa. - Vejo Kate começar a ficar sonolenta. Ela me pede para acordá-la em algumas horas, pois tem que ir para casa se trocar antes de seguir para o escritório. Sua marcha inabalável para se tornar sócia continuará amanha, prosseguindo pelo fim de semana do feriado, e eu espero que o trabalho lhe dê alguma distração. Pelo menos por um tempinho. - Ei, Emily — diz Kate, depois que lhe dou um beijo de boa-noite na testa. - Hein? - Obrigada por estar aqui. - Sempre às ordens. E um preço pequeno para se pagar por um rim.

***** Quando eu finalmente volto para a cama, já não sonho com Andrew e o vovô Jack jogando strip pôquer. Em vez disso, sonho que estou numa cama de hospital, com os braços roxos por causa do soro. Olho acima e vejo um monte de gente aglomerada à minha volta, um círculo de cabeças ao redor de um lustre. Não consigo identificar os rostos, porque está claro demais, mas posso ouvir as vozes falando de mim. - No fim das contas, os órgãos dela não servem para nada - comenta o médico. - Nunca vi um paciente com tão pouco. Nem há nada sobrando. - O que quer dizer? - Andrew pergunta. Ele está vestido de avental cirúrgico e tem um estetoscópio pendurado no pescoço. Ele parece um médico, não um namorado. - Quero dizer, ela... é... bem, veja você mesmo. - O médico levanta o meu roupão com um puxão dramático da mão e sinto a minha pele exposta para a multidão. Quero perguntar o que está havendo, mas, quando abro a boca, não sai nada. Só o silêncio desesperador dos pesadelos. - Ela é oca - diz Andrew, empolgado, como se não me conhecesse e eu parecesse um caso médico interessante. - Olhe essas marcas. Acho que ela deve ter feito isso em si mesma. Ouço o apito ininterrupto, o que significa que a linha do monitor ficou contínua, o som da morte em todos os episódios de Plantão Médico. Bem, então, é isso, eu penso. Estou morta. Morte pelo desentranhamento. Mas, é claro, eu não estou morta. E, quando acordo, percebo que o barulho terrível está vindo do meu despertador e fico decepcionada. Eu queria saber o que aconteceria depois.

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Capítulo 25 O sonho me assombra pelo resto do dia, até da semana, e me remói. Não consigo lidar com a idéia de que me tornei um nada para Andrew, só mais um pedaço de carne numa mesa cirúrgica. Não consigo lidar com o fato de que eu mesma arranjei isso tudo para mim, que o perdi para sempre. Antes, quando pensava em nós, sentia apenas um vazio - um zumbido elétrico -, mas agora, subitamente, é como uma serra elétrica, um oceano em minhas veias, pontos que se abrem. Nunca desejei que ele não estivesse lá, quando eu chegava em casa, jamais pensei que pudéssemos ser reduzidos a um mero artifício. Talvez nos faltasse a durabilidade, mas não a intimidade verdadeira. Dói pensar que ele deve estar tocando a vida adiante. Embora Kate afirme não saber se ele está namorando novamente, eu imagino que deva estar. Andrew é um cara que funciona com absolutos. Seu tchau é um tchau de verdade. E seu pedido de casamento teria sido para a vida inteira. Não tenho certeza se escrever para o Andrew é uma boa idéia e penso em esperar até a próxima consulta com a Dra. Lerner para falar a respeito. Da última vez, ficamos tão ocupadas desconstruindo o Dia de Ação de Graças que o nosso tempo acabou antes que eu pudesse chegar ao Andrew. Mas, como não quero ser o tipo de pessoa que não toma uma decisão sem o aval do terapeuta e, mais ainda, por não querer dar a ela a oportunidade de me dizer o que fazer, sento no computador e escrevo um e-mail para Andrew.

Para: Andrew T. Warner, warnerand@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: E aí Oi, A. O vovô Jack disse que você foi visitá-lo na semana passada. Se foi, eu só queria dizer obrigada. Eu sei que ele gosta de sua companhia e o fato de ele ter se lembrado significa muito. Espero que você tenha tido um bom Dia de Ação de Graças. E também achei que você devia saber que penso em você o tempo todo e sinto sua falta. Amor, para sempre, E

Não paro para pensar se sôo como um caçador à espreita, nem leio para identificar erros. Apenas clico em enviar e deixo que meu e-mail saia voando por Manhattan e, dessa vez, o imagino como uma bola maciça de fliperama, se esquivando dos táxis e das pessoas, seguindo para a uptown, fazendo todo esse trabalho só para marcar um ponto. Talvez Andrew a devolva impulsionada por sua energia cinética, e nós vamos ficar indo e vindo assim, por um tempo, a máquina zunindo, nós dois finalmente nos comuni¬cando, conectados. Mas, em vez disso, eu bato na bola e ela cai no buraco da esquerda e eu vejo as luzes do fim do jogo piscando. Eu já sei que, com Andrew, não tenho chance. Cinco minutos depois, vejo que tenho um novo e-mail.

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Andrew T. Warner, warnerand@yahoo.com Assunto: Re: E aí Fui visitar o vovô Jack por mim. Não por você. Achei que deveria dizer meu próprio adeus. Emily, eu não sei como dizer isso de uma maneira educada, não sei se há uma boa maneira Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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para se dizer isso, então, vou apenas dizer: Por favor, pare de me procurar. Por favor, me deixe em paz. A.

Eu mereço isso. Tenho consciência disso. Mereço as lágrimas, a dor e a perda, pois fui eu que fiz. Então, tudo que posso fazer é escrever uma resposta de uma frase, em minha tela: Eu te daria o meu rim. Tudo que posso fazer é não clicar no enviar.

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Capítulo 26 Hoje, a Dra. Lerner está de quimono. É um tecido de seda rosa, de mangas longas e largas. Seu consultório está novamente escuro, mas eu já vi a Dra. Lerner o bastante para agora dizer, com certeza, que sua etnia nunca combinou com sua roupa. No entanto, suas feições continuam indecifráveis e mutantes. Às vezes, quando seu cabelo está puxado para trás e coberto, eu me convenço de que ela poderia ter idade para ser minha avó. Nesse momento, está solto, em ondas castanhas emoldurando seu rosto, e me pergunto se ela chega a ter quarenta. - Vi minha mãe hoje - digo, assim que sento no sofá do cosultório. - Conte-me a respeito. - A Dra. Lerner não morde a isca. Em vez disso, ela espera, paciente, por uma resposta, como se eu tivesse uma explicação perfeitamente boa para ver minha mãe, quinze anos após sua morte. Como se eu fosse a pessoa mais sã do mundo. - Está bem, eu não vi minha mãe, não realmente. O que quero dizer é que achei tê-la visto, o que acontece com uma certa freqüência, na verdade. Posso estar no metrô, numa loja, ou qualquer outro lugar, e penso que vi minha mãe. Tento dobrar as pernas para imitar a Dra. Lerner, mas me contento com um meio lótus, porque meu lado esquerdo não colabora. - Continue - diz ela. - Bem, geralmente isso é provocado por alguma coisa. Como o cabelo de alguma mulher, ou uma orelha, ou o caimento da calça e, por um instante, só um instante, fico convencida de que aquela mulher é a minha mãe. Fico elaborando uma história sobre como minha mãe ainda poderia estar viva. Então, faz sentido que minha mãe esteja no trem comigo, ou algo assim. Totalmente doida, certo? -Totalmente doida - repete a Dra. Lerner, como se não achasse nada de doido nisso. Conte-me o que aconteceu hoje. - Eu estava de pé, numa esquina, esperando o sinal fechar, para ser mais exata, era a esquina da Trinta e três e a Terceira, e notei uma mulher, bem na minha frente. E, por algum motivo, havia algo nos cílios, o formato dos olhos, e pensei, só por um segundo, não pode ter sido por mais de um segundo, Poderia ser minha mãe? Quero dizer, talvez, depois de quinze anos, ela estivesse diferente, certo? Criei uma história imbecil para me fazer acreditar. Depois parei, porque percebi que estava sendo ridícula, e o momento passou e fui comprar calcinhas novas, porque detesto lavar roupa. - Conte-me sobre a história imbecil que você criou e como ela a fez sentir. - Ela solta o ar junto com "história imbecil", e me dá uma caixa de lenços de papel, embora eu não esteja chorando. Eu aceito a oferta, só em caso de a doutora saber de algo que eu não sei. - É muito constrangedor. Mas, dessa vez, eu vim com a idéia de que talvez, naquele dia, no hospital, quando a vi morrer, fosse tudo uma farsa. Talvez a minha mãe tenha se envolvido em algum negócio brabo com a máfia, ou algo assim, e agora esteja no programa de proteção à testemunha. - Eu me sinto tola; pior, patética; assim que ouço as palavras em voz alta. De alguma forma, por uma fração de segundo, elas pareciam plausíveis em minha cabeça. – Você sabe, pois há milhares de professoras de inglês em Connecticut que estão secretamente envolvidas com a máfia. - Mas como isso a fez sentir? Essa que é a parte interessante, a parte com a qual podemos aprender, e você parece querer evitar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Começo a jogar a caixinha de lenços de papel no ar. Pego e solto. - Certo, como me fez sentir? - Jogo a caixa para cima e para baixo, mais algumas vezes, olhando sua pirueta vertical. - Sim, Emily, como a fez sentir? - Ela pega a caixa no ar e a coloca ao meu lado, no sofá. - Acho que me fez sentir bem. Porque acho que a pior parte quanto a ela estar morta é o aspecto final. Eu nunca mais vou poder vê-la. Quero dizer, acabou. Já acabou há quinze anos. Isso é muito assustador. - Assim que as palavras saem de minha boca, sinto meu interior se revolver. As lágrimas começam a correr em meu rosto, rápido demais para que eu consiga parálas. Pego um lenço de papel, zangada porque a Dra. Lerner estava um passo à minha frente. "Então, arranjar uma fantasia, mesmo que envolva alguma história imbecil como a máfia, me dá um segundo de esperança que seja. Ou possibilidade. Ou alguma coisa. E, antes que eu perceba o quanto tudo isso é loucura, aquilo me dá uma sensação de, quero dizer, parece um... um alívio - confesso." - Eu não acho loucura, como você diz, buscar um tipo de fuga, de vez em quando. Faz sentido perfeitamente e imagino que seja muito comum. Mas quero que você pense em outras formas de ter alívio. — Ela ainda soltando ar ao dizer "loucura" e "alívio". Se eu não estivesse ocupada chorando, até riria com o gesto. — Basicamente, o que estamos fazendo, aqui, é destrinchar os seus mecanismos de defesa. Porque, no decorrer do tempo, os mecanismos de defesa podem nos impedir de viver nossas vidas. - Eu vivo a minha vida — retruco. - Por enquanto, vamos voltar à sua mãe. - Ela me ignora. A Dra. Lerner se especializou na arte de me ignorar. - Do que você sente mais falta? Eu quase rio novamente, porque é como se eu estivesse assistindo a um daqueles filmes sobre câncer, uma história manipuladora de lágrimas que mostra carecas brilhosas e crianças terminais, apesar de ser cotado como o filme mais animador do ano. Os trailers devem vir com um alerta: Esse filme vai deixá-lo aos prantos e desidratado. A Dra. Lerner é culpada da mesma propaganda enganosa. Ela parece meiga, como uma deusa-mãe, sentada em sua posição lótus, em seu quimono artesanal, mas ela é diabólica. - Sabe do que mais sinto falta? Isso vai soar horrível, mas acho que sinto falta da idéia dela, mais do que de qualquer outra coisa.Não estou bem certa por que sinto falta de minha mãe. Simplesmente sinto falta de ter uma mãe... - O que isso significa? Ter uma mãe? - Às vezes, é tão difícil não ter uma mãe. Quando todo mundo vai para casa, passar as festas, por exemplo, eles têm essa pessoa, e eu provavelmente romanceio um pouco essa noção, mas eles têm essa pessoa que quer tomar conta deles, que os ama incondicionalmente. Eu sinto falta de ter essa pessoa. Sabe, essa pessoa que me amaria, independentemente do que tivesse acontecido, não importa o quanto eu tivesse ferrado a minha vida. - Há muitas pessoas que a amam, Emily. -Eu sei, mas essa não é a questão, é? Não com a incondicionalidade. Eu posso mal ser capaz de me lembrar dela, mas sei que, depois dela, ninguém me consolou da mesma forma, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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nem pode fazê-lo. Não me lembro de jamais ter me sentido sozinha ou ignorada quando criança. Posso ter sido meio solitária, mas nunca me senti só. - O que você lembra de sua mãe, sobre ela, especificamente? - Detalhes vagos, na maioria. Como ela sempre era mais inteligente do que todo mundo. Ela simplesmente parecia saber tudo. Conseguia explicar o funcionamento de baterias ou da fotossíntese. A Dra. Lerner acena a cabeça. Ela não afirma o óbvio: Como você pode não lembrar de todas as vezes que sua mãe te pôs para dormir e disse "eu te amo ", e ficou acordada até tarde colando macarrões em seus trabalhinhos de arte? Como você pode não lembrar disso, mas lembra que ela sabia explicar fotossíntese? Que tipo de pessoa se esquece da própria mãe? Eu me lembro de quando ela estava morrendo e quem ela era nessa época - corajosa, desafiadora e doente, tão inacreditavelmente doente -, mas isso não era ela. Seria como julgar um livro pela última frase. Eu não dediquei um tempo para memorizá-la, quando tive a chance. Nada das coisas importantes, como a cadência de sua risada, ou a textura de sua voz, ou o tato das pontas de seus dedos sobre a minha testa. Nunca me ocorreu que eu poderia precisar dessas lembranças um dia. Agora, quando a imagino, tenho de recorrer a uma nostalgia barata. Uma fotografia. Penso em uma que costumava ficar numa das prateleiras de nossa sala de estar, embora ela também tenha desaparecido. Era início dos anos setenta e minha mãe está sentada na praia, direto com seu maio na areia. Seus olhos castanhos ficaram comigo, desprotegidos e brilhantes, vivos o bastante para queimar através da estática da fotografia. Foi tirada bem antes do meu nascimento, por isso, quando a imagino, penso numa mulher que nunca me conheceu, e uma mulher a quem jamais conheci também. - É, é da idéia que sinto falta. Porque eu esqueci de conhecer a pessoa por trás da idéia. - Conversa fiada. - O quê? - Isso é conversa fiada e você sabe disso. Você acaba de me dizer exatamente o que lembra de sua mãe. Que ela a fazia se sentir menos só. Que era mais inteligente do que todas as outras pessoas. Não tire isso dela e não tire de você mesma. - Mas isso é exatamente o que quero dizer. Não há nada para ser tirado de mim. Ela partiu há muito tempo. ****** - Vamos falar sobre alguns de seus outros mecanismos de defesa - a Dra. Lerner me fala, mais tarde, depois de me dizer que tem mais um horário livre e que eu preciso ficar. - Que outros mecanismos de defesa? E, por favor, não diga nada sobre Andrew. Não posso lidar com isso agora. - Fico tentada a sair, rumo à boca da cidade de Nova York. Ser engolida e mastigada me misturando a outras pessoas sem rosto e sem nome, marchando pelo quarteirão. - Vamos voltar ao presente, pode ser? - Ela junta as mãos formando uma torre, como faria um advogado, antes de tomar a palavra. Depois de me ver duas vezes por semana por quase um mês, a Dra. Lerner está prestes a apresentar seu caso. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Nem tenho certeza de onde começar. - Uma verdadeira advogada teria vindo preparada, eu penso. Será que estou tão ferrada que ela nem sabe por onde começar? - Bem, o vovô Jack é um bom exemplo. Você escolheu não notar os sinais da doença dele. Eu não estou aqui apontando culpa. Entendo seus motivos, mas você precisa enxergar sua fuga. Seu pai. São necessárias duas pessoas para haver comunicação. Você acha que torna a vida mais fácil ficando quieta. E o Andrew. Sei que você disse que eu não deveria falar sobre ele, mas deixe-me dizer isso. Eu poderia escrever um livro inteiro sobre seus mecanismos de defesa com Andrew. - A Dra. Lerner desfaz o formato de torre das mãos e coloca-as uma sobre a outra, no colo. Ela parece satisfeita consigo mesma por dizer as coisas assim. A mesma expressão que as pessoas demonstram depois de dizerem "Não leve a mal, mas...". "Oh, e eu quase esqueci. Sua carreira. Por quanto tempo você consegue ignorar o fato de estar desempregada? Você já parou para pensar no que de fato quer fazer com a sua vida? Seus dias? Percebe? Você não fica entediada com a negação?" - Entendo o que quer dizer - digo, embora seja mentira. Não vejo nada, exceto a caixa de lenços de papel, que agora é só uma caixa de papelão vazia. Parece que é assim que a terapia funciona: a Dra. Lerner atira algo e agora é minha função pegar as palavras e dar-lhes sentido com exemplos do mundo real. Eu podia contar a ela como deixei de dizer ao meu pai que queria passar o Natal com ele. Ou como levei mais de um ano para dizer ao Andrew que o amava. Como fiquei tão assustada em perdê-lo, ou amá-lo, e o deixei antes que isso acontecesse, expresso esses pensamentos. Não em voz alta. Não consigo. Talvez por não acreditar nela, porque suas explicações são tão simples, tão embrulhadas em psicanálise. Quando penso em mecanismos de defesa, penso num garotinho batendo na menininha que ele mais gosta, no playground. Não penso em mim. Não penso em sofás, mães mortas, ex-namorados, Alzheimer, desemprego, pais ausentes, assédio sexual e todas as outras coisas que estão fazendo essa confusão na minha vida. Não, eu não penso nem um pouco em mim. Então, em vez disso, não digo nada e deixo que se instale um silêncio estranho, e espero que a Dra. Lerner fale. São necessárias duas pessoas para jogar. - Eu adoro quando você prova o meu ponto de vista por mim - diz ela, alguns minutos depois, e sorri para mim. Não se trata de um sorriso feliz, mas de um.sorriso vitorioso. - Eu menciono mecanismos de defesa, a forma como você se cala e ergue um muro de pedra ao redor de sua vida e como é que você reage? O que faz? Você cala a boca. -Mas... - Mas o quê? Emily, acorde. Essa é a sua vida, pelo amor de Deus. E hora de encarar isso. Você não chegará a lugar algum, não conseguirá superar nada, se não se deixar sentir, para começar. Já é hora de fazer isso. - Está bem. - Pare de olhar para a caixa de lenços de papel. Ela não tem nenhuma resposta para você. - Mas... eu simplesmente... eu não sei. - O que ê que você não sabe? Que sua mãe está morta há quinze anos e finalmente, finalmente você começa a lidar com isso? Que você está sabotando sua própria vida por ter medo de realmente vivê-la?[

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- E só que... eu não sei, eu... - Fale mais alto - diz a Dra. Lerner, agora, gentilmente. - Não consigo ouvi-la. Ninguém consegue.

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Capitulo 27 Vinte e quatro horas se passaram desde minha última sessão com a Dra. Lerner, e eu me vejo me embriagando de Andrew. Um exercício tortuoso de recontá-lo, as nuances e os detalhes, com as especificações de um cineasta de documentários. Agora percebo que, durante nossos dois anos juntos, passei boa parte do tempo - não desfrutando, não, isso seria fácil demais, mas memorizando - guardando aqueles melhores pedacinhos para mais tarde. Para saborear depois que ele me deixasse. A Dra. Lerner está certa. Eu venho vivendo uma vida de gratificação atrasada — o cigarro depois do sexo. Mas alguém arrancou o meu colete à prova de balas. Alguém me obrigou a olhar, repetidamente, a vida que deixei quase sem olhar para trás. Alguém, não, Emily, você. Olhe, eu digo para mim mesma. Olhe. Então, eu o faço. Olho tudo, de lupa, tudo de que sinto falta, tudo que mereço perder: Sinto falta do jeito que ele beijava meu ombro nu, sempre que podia. Sinto falta da forma como ele limpava a garganta antes de tomar um gole d'água e como coçava o braço esquerdo com a mão direita quando estava nervoso. Sinto falta de quando meu cabelo caía e ele o colocava atrás da minha orelha, de como media minha temperatura quando eu ficava doente, ou quando ele estava entediado. Sinto falta de seus óculos na minha mesinha-de-cabeceira. Sinto falta de vê-lo tirando cochilos no sofá, domingo à tarde, com o jornal sobre a barriga, como um cobertor. De como suas mãos ficavam enlaçadas enquanto ele dormia. Sinto falta da cadência de sua fala e da bobeira de seus trocadilhos. Sinto falta de brincar de médico quando fazíamos amor, ou mesmo quando não fazíamos. Sinto falta de seu cheiro, de lavanderia e mel (por causa do xampu), no apartamento dele. Lavanderia e coco (por causa do meu xampu), na minha casa. Sinto falta de quando ele me obrigava a ouvir rap francês e ficava cantando junto, com um sotaque horrível. De quando ele dizia "eu te amo" ao desligar o telefone depois de falar com a irmã, sem jamais se sentir tímido ou envergonhado, independentemente de quem mais estivesse por perto. Sinto falta porque seu programa ideal de sexta-feira incluía um DVD, comer comida chinesa direto na embalagem e ficar agarradinho no meu edredom. Sinto falta por ele reler os livros de sua infância, depois os da minha. Sinto falta por ele ter sido o único homem sobre quem eu peidei, e perto de quem peidei, livremente. Sinto falta por ele entender que as festas de fim de ano eram difíceis para mim e nunca querer que eu me sentisse sozinha. Nunca mais, pelo resto de minha vida. Eu sinto tanta falta de Andrew, que paro e me agacho, com a cabeça no meio dos joelhos. Sinto tanta falta de Andrew, que começo a balançar para a frente e para trás, abraçando a mim mesma, para fazer isso parar. Sinto tanta falta de Andrew, que vomito no banheiro, esvaziando meu corpo na privada, numa golfada violenta. Sinto tanta falta de Andrew que dou descarga para tudo ir embora.

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Capítulo 28 Para: Jess S. Stanton, jessstanton@yahoo.com, Ruth Wasserstein, yourhonor24@ yahoo.com, Mason C. Shaw, APT, Kate R. Callahan, APT De: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com Assunto: Socorro! Certo, galera, eu preciso de uma ajuda. Preciso de um novo emprego para ontem e não estou certa quanto ao que fazer com essa porcaria desse diploma de direito. Fico grata por todas sugestões e idéias. Amor, Emily PS: Por favor, nada de empregos que envolvam preparo de comida, suor, nem franjas, nem os dois juntos.

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com De: Kate R. Callahan, APT Assunto: Re: Socorro! Talvez você deva se tornar uma terapeuta. Falando nisso, muito obrigada por sua ajuda naquela noite, e todo o apoio que tem me dado desde então. Você me faz sentir muito melhor. Estou começando a sentir que desistir do noivado foi a melhor decisão que já tomei...

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com De: Jess S. Stanton, jessstanton@yahoo.com Assunto: Re: Socorro! Minha melhor amiga extraordinária! Que pena que essa é uma posição não remunerada, pois esse é o seu emprego oficial. Eu sei que isso pode parecer improvável, mas que tal um emprego de advogada?

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com De: Mason C. Shaw, APT Assunto: Re: Socorro! Eu voto para que você se torne uma stripper. Aliás, quem é essa Ruth, sua amiga? Ela é gostosa? Ainda estamos combinados para uns drinques na sexta?

Para: Mason C. Shaw, APT De: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com Assunto: Re: Re: Socorro! Ruth é gostosa, mas muito fora do seu alcance. Os drinques ainda estão combinados. Striptease geralmente exige tanto o suor quanto as franjas. Da próxima vez, leia as instruções com cuidado.

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Para: Emily M. Haxby, emilyhaxbay@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Assunto: Re: Re: Socorro! Desculpe por não vê-la no Dia de Ação de Graças, mas me diverti muito com os meus netos, em Washington. De qualquer forma, já era hora de você perguntar por um emprego. Eu tenho ótimas idéias, mas vou guardá-las comigo até fazer algumas ligações. A propósito, dei uma surra no Jack novamente, no pôquer. Ganhei trinta pratas!

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Capitulo 29 Então, quando ela diz que quer um fag, a Bridget quer dizer que está com vontade de fazer sexo com um gay? - Maryann, uma mulher bem miudinha, uma uvinha-passa de batom vermelho borrado, pergunta ao restante do meu grupo de leitura octogenário. - Porque eu acho isso um termo muito ofensivo. Meu neto é gay. - Eu não sabia disso. Nós devíamos providenciar para que ele conheça o meu Walter. Ele acabou de sair do armário, nesse último mês de junho - diz Shirley, e pega um guardanapo para anotar o telefone do neto. Shirley está mais para ameixa do que uva-passa, tem o peso mais concentrado no tronco. Parece que seu corpo quis manter um pesinho a mais só para aquecer seus órgãos. Somos seis, cinco mulheres de oitenta e poucos anos — embora eu tenha uma grande desconfiança de que Shriley pode muito bem ter noventa e poucos — e eu, sentadas no restaurante aonde geralmente vou com o vovô Jack. Nós só estamos ali há meia hora, mas eu já adoro cada uma delas. Os cabelos são tingidos nas cores mais improváveis, tons de amarelo, vermelho e azul, e armados com laquê, em penteados que parecem balões ao redor de seus rostos. O perfume coletivo é pesado e o ar se mistura aos cheiros do restaurante, uma combinação pungente de talco de bebê e bacon. Até agora, a refeição em si não correu de maneira tão suave. Três das mulheres mandaram a sopa de volta - duas porque estava fria demais e outra por estar muito salgada. O ar-condicionado foi diminuído, depois voltou a ser aumentado. O restaurante é barulhento demais, nosso garçom lento demais, as porções são grandes demais. Surpreendentemente, todo esse espalhafato por parte delas não é irritante; dá um certo alívio sentar com gente que optou criticar a educação social. Há muito tempo elas deixaram de lado a pretensão e o filtro entre pensamentos e palavras. Embora eu tenha lido O diário de Bridget Jones anos atrás, não estou aqui para discutir o livro. Em vez disso, estou cem por cento pela companhia, por mais ranzinza que seja. Quero deitar a cabeça no colo de cada uma dessas mulheres, pedir a elas que me façam um cafuné e que me contem suas vidas. Os amores que perderam e ganharam. E provavelmente perderam outra vez. Se um dia já se sentiram cansadas demais para sair do sofá. Se algum dia vomitaram de mágoa. Se têm medo de morrer. Penso se essas mulheres acham estranho que eu esteja aqui, principalmente por não ter nenhum parentesco com Ruth, mas elas não parecem se importar comigo. Ao contrário, elas me olham como uma representante de todas as coisas jovens, uma porta-voz de minha geração. Isso me faz desejar que tivessem es¬colhido a biografia de Margaret Thatcher, no fim das contas. Não sinto vontade de falar sobre a condição de solteira, da promiscuidade das mulheres de Sex and the City, ou mesmo da charmosa e desajeitada Bridget. Minhas amigas e eu repassamos tudo antes. Quero saber como é estar na outra ponta da vida e ter todas as suas escolhas já feitas. Quero aprender com elas, não o contrário. - Fag também significa cigarro - explico. - É uma expressão britânica. - Ela certamente fuma bastante. Suas amigas fumam tanto assim, Emily? - pergunta Shirley, rouca, dando a impressão de que passou anos tragando Winstons. Ela pega o celular, abre o flip e depois fecha. Notei que todas elas fazem isso. O aparelho é como um distintivo de honra no grupo sênior. - Até que não. - O que é verdade, mas acho que mentiria, mesmo se não fosse. Quero causar uma boa impressão.

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- E quanto a beber? Suas amigas bebem tanto assim? - pergunta Shirley, baixando seu café com uma dose de vodca. Essa mulher tem história. Imagino Shirley com vinte anos, circulando pelos portos, fumando cigarros longos e esperando seduzir um jovem oficial de uniforme engomado - Algumas bebem. A maioria das minhas amigas trabalha até tarde, então, elas não têm muito tempo. - Desculpe fazer tantas perguntas, é que nós escolhemos o livro para ver como é ser jovem hoje em dia - diz Maryann. - E porque o Colin Firth é lindo - completa Shirley. - Fico tão contente que Bridget tenha um final feliz. - Maryann sorri, depois reaplica o batom, que tem o efeito de manter seu sorriso no lugar. — Eu gosto de finais felizes. - Eu também. - Shirley fecha os olhos. Em pensamento, ela foge para uma época antes da casa de repouso de Riverdale. Talvez veja um oficial e faça amor com ele no banco de trás de um Chevy. - Então, você tem um namorado, Emily? - pergunta Maryann, e todas as mulheres se viram para me olhar, curiosidade à flor da pele. Na verdade, o que ela está perguntando é em que categoria eu me encaixo: estou à procura ou sou comprometida? Eu gostaria que fosse simples assim. Nenhuma das acima, eu quero dizer. Dou um zero a mim mesma em meu boletim. Zero representando um zero à esquerda. - Vamos falar sobre o livro, garotas. Não a coloquem numa saia justa assim - interrompe Ruth. Ela sabe quase toda a história de Andrew e esse ainda é um assunto dolorido. Dolorido, claro, o termo mais abrandado do século. Minhas tripas ficaram espalhadas na estrada e ainda estou catando os pedaços, me recompondo. - Tudo bem - digo. - Eu tinha um namorado, mas nós terminamos alguns meses atrás. Então, acho que agora ele é meu ex-namorado. Tem sido difícil. Mas é culpa minha. Eu que terminei, então realmente não deveria reclamar. - Oh, querida, eu sinto muito, eu não deveria ter perguntado - Maryann dobra o guardanapo no colo. - Então, o que houve? - Maiyann! - diz Ruth. - Ele era sua cara-metade? - Shirley se inclina. - Eu não sei - respondo. - Vocês realmente acreditam nessa coisa de cara-metade? - Eu não - diz Ruth. - Você foi casada por cinqüenta anos! - observa Maryann. - Verdade, mas isso foi um fato a posteriori. Só agora sei que Irving era a minha metade, porque nós passamos cinqüenta anos juntos. Não era nenhum tipo de metade predestinada. E não sei lhe dizer quando ele deixou de ser o Irving, o adorável e confiável, meu marido e farmacêutico, de Bensonhurst, e se tornou a minha cara-metade. Mas, bem, as coisas não aconteceram desse jeito tão organizado.

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- Claro — concorda Shirley. - Meu Stan, eu o amava mais do que jamais imaginei amar qualquer outro ser humano, mas isso não fica claro desde o início. Vejam, eu quase o deixei algumas vezes. Uma vez, pus as crianças e todos os meus troços na traseira da caminhonete e ia dirigindo para a Flórida. Só cheguei até a estrada de Jersey e liguei para Stan de um telefone público, numa parada no acostamento. Eu não tinha celular naquela época. Engraçado, eu nem sabia mais por que estávamos brigando. A questão é que qualquer um que lhe disser que manter um relacionamento é algo fácil está mentindo deslavadamente. - Eu ainda não encontrei a minha metade. - O tom deliberado de Maryann me faz pensar se é a primeira vez que ela diz isso em voz alta. - Mas e quanto ao, qual é mesmo o nome dele? Do seu marido? - pergunta Shirley, sem qualquer constrangimento de não lembrar do nome do marido falecido da melhor amiga. - Definitivamente, não. Casei com ele porque estava envelhecendo, e ele me pediu em casamento, e minha mãe me disse que eu devia casar. Ele era um homem decente, mas... Maryann pára e passa a cochichar. - Não era muito inteligente. Mas, não se preocupem, eu não parei de procurar. Que mal há, se temos uma proporção de dois homens para cada mulher por aqui? E eu ainda dou um caldo. Todas nós rimos com Maryann, mas nosso riso é de aprovação. Por que ela deveria desistir? Talvez, para ela, um final feliz, na verdade, chegará na hora certa, no fim. - Eu sou a minha cara-metade - afirma Betty, uma mulher que passou quase todo o tempo fora da conversa, sem disposição de abraçar ou espetar Bridget, como o restante de nós. – Sempre fui, sempre serei e gosto que seja assim. - Eu tive algumas metades. - Shirley ri. - Acho que qualquer um que a faça feliz conta. Alguns me fizeram feliz, na minha época - Ela fecha os olhos novamente e eu imagino que agora ela esteia pensando em mais de um banco traseiro. Depois de um momento, Shirley abre os olhos e suspira. Suas lembranças trazem uma onda de prazer, e seu rosto fica vermelho. - Eu não se, quanto a você - comenta Shirley -, mas eu certamente gostaria de um cigarrinho.

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Capítulo 30 Embora conversemos quase todos os dias, eu não vejo Kate há quase duas semanas, desde que ela apareceu em minha porta, pato. Hoje, em seu escritório, ela está com o cabelo brilhoso e opaca. Suas roupas são alinhadas, bem cortadas e monocromáticas. Nada de manchas, nem amassados, nem farelos. Ela uma mulher que acaba de desistir de seu noivado. Não é uma mulher que tem trabalhado semanas de oitenta horas para ter um homem chamado Daniel. Ela parece invejável, por yocê poderia passar na rua e pensar, eu não me importaria em ser ela. - Você não vai acreditar nisso — Kate fala como se já estivesse no meio de uma conversa. Ela não parece notar que eu já não o no fim do corredor. - O que está havendo? - Espere um minuto. O que você está fazendo aqui? – pergunta ela, depois levanta para me cumprimentar direito. Eu chego mais perto dela, para ver se essa Kate nova e melhorada é apenas ilusão. - Vim encontrar Mason para tomar uns drinques essa noite, então, pensei em parar e ter certeza de que você está bem, ver se quer de juntar a nós. - Eu tento olhá-la nos olhos. Espero que ela esteja bem. Espero que não desmorone por trás de portas fechadas. - Não, obrigada, eu tenho trabalho a fazer. Mas estou bem. Mesmo. Não fantástica, mas chegando lá. Quando você sabe que a decisão certa, fica mais fácil lidar com as coisas. E acho que Daniel também deve estar aliviado. - Por um minuto, ela parece pensativa e triste, e dá para ver que está dizendo a verdade. Sua roupagem é parte real, parte aspiração. - Então, no que não vou acreditar? - pergunto. - Carl foi demitido. - Mesmo? - Os sócios anunciaram aproximadamente uma hora atrás. Eu ia te ligar, mas fiquei presa numa reunião. De qualquer forma, eles não disseram demitido, exatamente. Disseram que ele estava dei¬xando a firma, mas todo mundo sabe o que isso significa. Estou tão feliz por nunca mais ter que trabalhar com ele. — Kate senta atrás da mesa, como se agora fosse para valer. Portanto, obrigada. - Por que você está me agradecendo? - pergunto, e ela exibe uma expressão que diz Ora, vamos, que retribuo com um meio sorriso. - E o que vai acontecer com a Synergon? Carl vai levar o cliente? - Lembro que não faz muito tempo e eu estava tomando o depoimento do Sr. Jones, perguntando a ele sobre a dieta da esposa falecida. Agora, a idéia me envergonha. - Não, Miranda assumiu. Ela convenceu a Synergon que, pelo fato de terem um RP tão ruim ultimamente, seria bom para a imagem deles se fossem representados por uma negra lésbica. Demonstra que apoiam a diversidade. De qualquer forma, a melhor parte é que ela os forçou a fazer um acordo e assumir uma perda gigante. Algo em torno de oito dígitos. - Nem posso te dizer o quanto isso me deixa feliz. Então, algo bom realmente surgiu a partir da minha saída? Carl foi mesmo embora? De verdade? - Ãrrã. De verdade. Carl deixou o prédio. Adiós, amigo. — Kate se levanta novamente, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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esfrega as mãos num gesto de quem diz "já vai tarde", depois beija meu rosto se despedindo. Eu adoraria ficar e comemorar, mas tenho uma conference call na Quarenta e Seis F. Te vejo em breve? - Claro. - Te adoro, Emi - Kate diz, por cima do ombro, e sai apressada de seu escritório, me deixando para trás, confortavelmente sentada em sua cadeira de visita da APT. ***** Tenho que fazer hora até encontrar Mason, então, pego o caminho mais longo até seu escritório e vou deslizando os dedos pela parede. O lugar parece exatamente o mesmo — o cheiro de pipoca queimada da sala de café, o barulho das copiadoras, sócios pedindo às secretárias que façam, cancelem ou confirmem reservas e associados de cabeça mergulhada em papel, se recusando a erguer o olhar enquanto o mundo passa. Estar aqui dá uma sensação boa, no mínimo por me lembrar o motivo pelo qual fui embora. Paro no banheiro feminino, em homenagem aos velhos tempos. Uma mulher de sapatilhas está no meu cubículo predileto, então, eu espero e fico enrolando junto à pia, até que ela saia. - Emily. - Carisse? - Sem saltos, vestindo uma saia tipo camponesa, ela parece miúda. Quase meiga. - Que sapatos são esses? Eu nem te reconheci sem salto. Ela olha para mim e eu vejo seu rosto inchado e manchado, como alguém que andou chorando. E uma expressão familiar a todos da APT. - Oh, desculpe, quero dizer, você está bem? - pergunto. - O quê? Você está aqui para tripudiar sobre Carl? Em busca de aplausos pelo trabalho bem-feito? - Seu tom casual indica que ela não está sendo retórica. - Não, eu só parei para dizer oi a algumas pessoas. - Você deveria tripudiar, se divertir. - Não estou tripudiando. - Vá em frente. Não vou condená-la. Apenas diga. - Eu não falei nada. - Mas estava pensando. Como pude ser tão imbecil? E isso que você está pensando, não é? Sério, o que eu podia estar imaginando? - Não sei o que... - O quão estúpida Carisse pode ser? - Você não é estúpida. - Ah, sou sim. Quer ouvir a parte mais ridícula? Na verdade, eu me apaixonei por ele. Caí de amores pela coisa toda. Ele me deixou um recado na secretária eletrônica, ontem à noite, dizendo que acabou. Quem é dispensada com um recado? Depois, hoje ele vai embora sem nem Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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dizer tchau. O escroto. O que eu esperava de um cara que trai a esposa grávida? - Sinto muito. - Que clichê constrangedor. Olhe para mim. Esse é o visual de um clichê, senhoras e senhores. - Ela faz uma reverência e a vulnerabilidade de seu gesto, os olhos tristes, me fazem sentir pena. - Você fez uma má escolha, só isso. - Uma resposta clichê. Que apropriado. - Não sei o que você quer que eu diga. - Não diga nada. - Então tá, não direi nada. - Eu não dormi com Andrew. Só para que você saiba. Não faria isso. - Está certo. Então, que bom. Então, obrigada por me dizer. - É. - Agora suas lágrimas pararam e ela limpa o rosto com uma toalha de papel molhada. - Você vai ficar bem? - Vou superar. - Sinto muito, Carisse. Realmente sinto. - É, bem, você está certa. Eu fiz escolhas ruins. - Todas fazemos. - Outra coisa, eu sei que deveria ter dito isso muito tempo atrás, mas sinto muito por você e Andrew. É uma pena. Vocês pareciam legais juntos. - É, bem, obrigada, eu acho. - Sabe, acho que essa deve ser a conversa mais longa que já tivemos. - Talvez pudéssemos fazer isso uma outra vez — sugiro. O rosto de Carisse perde toda a defensiva e o sarcasmo. - É, eu ia gostar. - Eu também. - Embora eu não tenha certeza se estou dizendo isso para valer. ****** - Emily, meu grande amor perdido - diz Mason, depois que eu quase o derrubo quando corro para abraçá-lo. — Estou tão feliz em vê-la. - Estou tão contente de te ver, Mace. - Ergo o rosto e sorrio para ele. - Tá bom... Aposto que você só está sorrindo porque ouviu sobre Carl. — Mason me dá um Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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beijo no rosto e me puxa para os elevadores. Conforme caminhamos, contemplo seu perfil. Como sempre, ele parece limpo, barbeado, recém-saído do chuveiro, mesmo ao final de um dia de trabalho. De alguma forma, o cabelo da nuca está molhado, mas o colarinho está seco. Quando chegamos ao térreo, vejo Marge na roleta de segurança, de guarda, na frente de uma banqueta de madeira. Meu coração bate um pouquinho mais rápido, pois sei que ela não me reconhecerá. Sua piscada no último dia pareceu um ponto conclusivo e eu gostaria de ter deixado assim. - Olá - eu a cumprimento. - Obrigada - diz Marge, sem qualquer motivo e isso me faz imaginar se estou ouvindo coisas. Mas não estou, porque ela puxa uma varinha de metal para me impedir de sair. Será que ela pensa que sou um risco à segurança? - O que foi? - Eu quero lhe agradecer por fazer aquele tal de Carl ser demitido. - Fico sem palavras. Quem é essa mulher? FBI? CIA? Ml5? - O quê? - Aquele bastardo beliscou a minha bunda todos os dias, durante dez anos — diz ela, e me deixa passar. — Duas mil quatrocentas e trinta e duas vezes, ao todo. Eu sei, porque contei. - Você contou? - Sim, contei. - Por que não disse nada? - Tenho dois filhos na faculdade. - Duas mil quatrocentas e trinta e duas vezes é bastante coisa. E muito beliscão. - Sim, um bocado. Por isso, obrigada. E minha bunda também agradece, sinceramente. - Bem, Marge e bunda da Marge - sorrio —, o prazer é meu. - Passo pela porta, mas depois mudo de idéia. Percebo que preciso só de mais uma coisa dela. E parece que ela também está pronta para isso, pois seu braço já está no ar. A minha mão fica formigando depois da espalmada que ela me deu. ***** Mason e eu vamos tomar uns drinques no Royalton Hotel, é perto, dá para ir a pé do escritório da APT. Embora estejamos encravados bem no centro da cidade, o lugar tem um ar minimalista da antiga Hollywood, e é charmoso ficar sentado ali, bebericando de um copo largo, de vestido sedutor. Todas as poltronas do lugar são estofadas de branco, o que dá mais um tom de perigo à experiência; meu drinque, em contraste, é vermelho sangue. Nós brindamos a partida de Carl e meu encontro com Marge e, embora Mason não tenha perguntado os detalhes específicos sobre o que aconteceu, ele diz: Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Você fez algo bom. Fico aliviada por ele não estar interessado nos detalhes; a verdade dá uma sensação mais de golpe do que de uma saída fácil. Brindamos a nós mesmos, depois brindo ao terno de Mason, que é azul-marinho, risca de giz e perfeito e, antes que eu perceba, estamos na segunda rodada e as cócegas nos meus braços me dizem que estou começando a ficar altinha. - Terminei com a Laurel - diz ele, alguns minutos depois, e não chego a ficar surpresa. Mason tem um déficit de atenção para relacionamentos. - O que houve? - Eu não sei. Disse a ela que não queria mais vê-la. Ela até que era legal, mas simplesmente não tinha aquele fogo, sabe? - Mason agora me encara, realmente me olha e, pela primeira vez essa noite, eu imagino se não estou aqui acidentalmente num encontro amoroso. Já tomamos uns drinques antes, mas sempre ficou claro que éramos só amigos. Essa noite parece diferente, de alguma forma. Estamos os dois solteiros, arrumados e flertando. De algum jeito, o sexo sempre acha seu caminho nessa equação. - É, eu sei. - Olho para o meu drinque. Sinto-me nervosa e imagino se estou corando. É só o Mason, repito. Relaxe. - E o que ela disse? - Posso dizer que não acho que ela vá me mandar um cartão de Natal esse ano. — A garçonete vem e pergunta se queremos outra rodada. - Um Cosmopolitan para mim e um Martini para ele. Mas, por favor, traga azeitonas extras, ele precisa - digo, com o meu melhor sotaque sulista. - Ele acaba de partir o coração de uma pobre garota. - Está vendo, é disso que eu preciso. Um pouco mais de fogo. - Ele se debruça na mesa, se aproximando de mim um pouquinho mais. Eu sinto meu estômago apertar, daquele jeito que sempre acontece quando um homem bonito te olha como se quisesse te comer no jantar. - É? - digo, de um jeito meio imbecil. Será que eu quero que isso seja um encontro amoroso? Mason não é do tipo que te deixa preocupada em "arruinar a amizade". E definitivamente é sexy com toda aquela masculinidade, peito largo, mãos peludas e maus modos, me faz imaginar que trepa como um caubói. Fico molhada só de pensar. Eu me forço a manter o olhar para Mason e continuo esse jogo que ele começou. Talvez isso seja o que eu preciso para esquecer Andrew. Tirá-lo de mim e me preencher com outra pessoa. Talvez se eu ouvir, sentir o cheiro e absorver as características específicas de Mason, vou esquecer as de Andrew. Praticar a velha sedução e realizar uma troca. Meu corpo nunca vai saber a diferença. Mason se debruça um pouquinho mais, como se enfatizasse suas intenções. Eu também me inclino, como se dissesse Você pode arranjar alguma coisa por aqui. Tomo um gole de meu drinque. Mason dá um gole no dele. Nossos olhos ficam fixos, e estou gostando de ser essa garota, dar uma variada. Alguém livre de vez em quando. Alguém que faz escolhas inesperadas. Apenas vá com a maré, digo a mim mesma. Viva um pouquinho. Os joelhos de Mason acidentalmente batem nos meus, sob a mesa, mas ele não pede Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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desculpas. Conversamos sobre o que fazer em seguida, e como eu preciso de um emprego, embora a conversa não seja séria. Nós inventamos uns empregos dos sonhos como provadora dos sorvestes Ben & Jerry's, escritora de guias de viagem de luxo, e Mason fica o tempo todo voltando a stripper. - Claro que seria uma boazuda de classe — diz ele, e eu passo o dedo pela borda do meu copo. - Você bem que ia gostar de uma desculpa para colocar botas de cano alto e meia arrastão todos os dias - ele completa ao ver meus dedos deslizando ao redor do círculo. - E essas roupas deixariam seu corpo respirar. — Mason fecha os olhos um instante, fingindo que está imaginando. Eu rio e bato em seu braço. Ele pega a minha mão e a segura com as duas mãos dele por alguns segundos a mais, depois solta. Mason pede outra rodada e eu não o impeço. Mais um drinque irá me deixar além dos limites, passando de altinha para bêbada. Eu torço pela transição. - Você está querendo me deixar de porre, Mason Shaw? — pergunto, numa voz que espero ser bonitinha, não tola. - Sim, senhora - diz ele. - Sabe, eu tenho sentido falta de trabalhar com você, ultimamente. Não tem sido a mesma coisa sem você. - Obrigada. Eu também tenho sentido a sua falta. Essas últimas semanas têm sido uma loucura. - O que você tem feito? Eu penso um instante, antes de responder. Absolutamente nada e tudo. Meu sofá, o Dia de Ação de Graças. A Dra. Lerner e o vovô Jack. Tenho sentido saudade de Andrew. A sensação de que posso implodir a qualquer momento, como se meu interior fosse ceder. O grande final depois de anos de erosão. Mas, é claro, não digo nada disso a Mason. Ele não entenderia uma implosão emocional. No entanto, entenderia fazer sexo para esquecer outra pessoa. Na verdade, até incentivaria. - Nada demais — digo. - Tenho assistido a muita televisão. Depois de uma ou duas horas, nós dois estamos bêbados, rindo e arranjando desculpas para ficar tocando um no outro. Mason toca meu cabelo, meus dedos, meu joelho. Eu toco em seu ombro quando levanto para ir ao banheiro, depois, novamente, quando volto. Sinto minha visão embaçada e ao mesmo tempo superaguçada. Como se o corpo de Mason fizesse parte da conversa, e estivéssemos recebendo pontos por nossa coreografia. Chega a conta e eu ofereço a minha metade, mas Mason empurra meu dinheiro, enquanto toca levemente o interior dos meus pulsos. Ele me lembra que estou desempregada e rimos disso, porque, por algum motivo, é engraçado. Deixamos o Royalton para trás, rindo e impressionados por não termos manchado as nossas poltronas brancas. Imaginamos que todos estão compartilhando de nossa bebedeira e rimos para as pessoas ao deixarmos o bar. Eu nem olho para ver se elas retribuem o sorriso. A mão de Mason está em meu quadril. Apesar de morarmos em direções opostas, entramos num táxi sem discussão. Mason me fala para dizer ao motorista onde eu moro. E o faço e, antes que eu perceba, estamos do lado de fora de meu apartamento e Mason segura a minha mão e me conduz para dentro do prédio. - Emily, você está bem? — pergunta Robert, mantendo a guarda, como de costume.

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- Bem, obrigada. Eu tento parecer sóbria. — Esse é meu amigo Mason. Do trabalho. - Prazer em conhecê-lo, senhor. - Robert aperta a mão de Mason. Ele avalia o terno de Mason, conclui que ele parece bem apessoado e nos deixa passar. - Boa-noite - Mason e eu dizemos ao mesmo tempo, depois entramos no elevador. E, subitamente, dentro do confinamento dessa caixa, fico nervosa, com aquela sobriedade da manhã seguinte. Nós ficamos colados à paredes opostas, um de frente para o outro, e Mason sorri para mim, um daqueles sorrisos de quem sabe das coisas, dizendo Mal posso esperar para deixá-la nua. Mas ele ainda não me beija, e fico grata por isso. Preciso de um segundo para recompor meus nervos. O fato de ver Robert, que cumprimentava Andrew praticamente todas as noites, durante dois anos, me deixa imaginando se, no final das contas, essa é mesmo uma boa idéia. Você consegue, Emily. Apenas olhe para ele. Ele é delicioso. Nós entramos em meu apartamento, significa que entramos em meu quarto, já que moro numa quitinete. O lugar parece menor com Mason aqui, e, embora ainda estejamos do outro lado do cômodo, distantes da cama, sinto que estamos muito perto dela. Quero mais distância. - Quer outro drinque? - Não, obrigado, querida. - Mason vem em minha direção e ficamos a menos de um palmo de distância. Ele passa um dos braços atrás de minhas costas e me puxa, e nossos rostos quase se tocam. Nós vamos nos beijar. Estou prestes a beijar Mason. Mas ainda não nos beijamos. Mason tenta me olhar nos olhos primeiro, para ver se está tudo bem, mas não consigo olhar para cima. Em vez disso, olho para seus lábios, que a qualquer segundo estarão tocando os meus. E aí começamos a nos beijar, bem de leve, primeiro. Mason faz isso perfeitamente. Vai dando selinhos, bem provocadores. Seus lábios roçam nos meus e ele mantém a boca fechada, então, também fico com a minha fechada e os beijinhos dão cócegas. E como deveria ser, nossos beijos vão ficando mais intensos, e as línguas saem. Eu fecho os olhos; já não quero olhar mais os lábios dele, pois sei onde estão. Isso é um erro. Não os beijos, mas fechar os olhos. Fico desorientada e vejo Andrew por trás das minhas pálpebras. Beijo Mason com mais força para fazer Andrew desaparecer, a imagem e o nome, apertando meus lábios junto aos dele. Eu penso que Andrew está provavelmente beijando outra pessoa nesse exato momento, a uma distância de apenas um trajeto de trem até outra parte da cidade, e não tenho razão alguma para me sentir culpada, ou deprimida. Ele me disse para deixá-lo em paz. Isso sou eu o deixando em paz. Então, eu continuo beijando o Mason, mas agora abro os olhos bem abertos. Olho para ele enquanto nos beijamos. Examino Mason de perto, com um olhar clínico. Vejo sua sobrancelha cheia e um sinal na maçã direita do rosto. Concentre-se no sinal. E charmoso. Concentre-se nisso. Mason abre os olhos e me vê. O beijo pára e ele dá um passo atrás. Ele tira um instante para recuperar o fôlego e a fala. - Você quer mesmo? - ele pergunta, não com raiva, mas suavemente.

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Eu resolvo ir em frente com isso, com ele - esse é o caminho — então, não respondo e apenas me inclino à frente e coloco meus lábios junto aos dele e nós nos beijamos mais um pouco. - Emily. - Ele dá dois passos atrás. Nós nos olhamos e sua expressão diz tudo: Assim, não. Eu não te quero assim. - É o Andrew? - ele pergunta, embora eu saiba que ele já sabe a resposta. Confirmo com um movimento de cabeça, chateada demais comigo mesma para falar. Por que tive que arrastar Mason para isso? - Ah, Emi - diz ele, quando vê que estou quase aos prantos. Ele agora me puxa para perto, num abraço de amigo. - Eu não sabia. Se soubesse, nunca teria feito. - Eu sei. - Só achei que seria divertido. - Achou nada, quer dizer, eu que não achei. Quero dizer, isso não é culpa sua. Desculpe, Mason. Eu achei que podia. E teria sido... - Sim? - É, teria sido divertido. Uma lágrima escorre e cai no paletó de Mason. - É uma pena, não é? - ele diz, em voz alta, quase alto demais para a sala vazia. - O quê? - Isso. Eu já queria te pegar há anos, querida. - Ele solta uma risada e, de alguma forma, isso tira o tom de sexo do ar, e somos apenas nós, meu velho amigo Mason e eu, no meu apartamento. - Sem brincadeira. Onde você aprendeu a beijar assim? Você é profissional. - Eu sei. As garotas me dizem isso há anos. Acho que eu deveria patentear a técnica. - Obrigada, Mason. Por entender, eu quero dizer. - Eu me sinto envergonhada e levo a mão aos lábios para cobrir a evidência. - Sem problemas. Para que servem os amigos? - Ele levanta um chapéu imaginário, o caubói eternamente galante. - Mas ouça, já que você me deixou todo ouriçado, que tal me dar o telefone de sua nova amiga. Ruth, não é? - Desculpe, Mace, mas Ruth não atende chamadas de disque sexo. Mas espere aí. Eu tenho uma idéia. - Eu levo o telefone sem fio para o banheiro, faço uma ligação rápida e volto com um pedaço de papel. - Lembra da minha amiga Jess, de quem você sempre me perguntava? - É, a loura alta, não é? — pergunta ele, com um olhar empolgado. Jess e Mason sempre falavam sobre dormir um com o outro, embora a hora certa nunca tivesse coincidido. - Vá até lá. Agora. Ela está te esperando - digo e dou a ele o papel com o endereço dela.

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- Mesmo? - Mesmo. - Eu te amo, querida - diz ele, e me beija no rosto. E antes que eu possa dizer qualquer coisa, Mason já está saindo pela porta, a caminho de fazer sexo com a minha melhor amiga. E bom que eu deixe claro que acredito em sexo casual, da mesma forma que acredito em psicofarmacologia, eutanásia e o direito de escolha. Eu quero que tudo esteja disponível para mim e o restante do mundo, mas eu preferiria não precisar. E dormir com Mason essa noite poderia ser uma boa idéia, ao menos no sentido estatístico. Meu número chegaria a cinco, bem mais respeitável e ligeiramente menos constrangedor do que quatro (embora ainda dê para contar numa só mão), levando em conta que tenho vinte e nove anos e já vivi o suficiente para que tivesse feito sexo farto e abundante, com gente muito interessante. Mas aí é que está o xis da questão. Sei que não sou boa em sexo casual. (Não no sexo em si, no que presumo estar na média, nem melhor nem pior do que as garotas que eu conheço, embora, provavelmente, não chegue nem perto de Jess, que tem muito mais prática e se prepara como se fosse um exame de doutorado. Ela faz até fichamentos.) Se eu tivesse dormido com o Mason, amanhã de manhã eu acordaria pensando no que isso representaria para mim, e isso significaria algo - embora eu não tenha certeza do quê -, mas, provavelmente, não seria grande coisa para ele. No contexto mundial, ou, melhor ainda, em minha microcélula no mundo, o fato de termos feito sexo não faria a menor importância. E isso é verdade, independentemente do quão habilidoso Mason possa ser, já que o acontecimento provavelmente não seria incluído em minha autobiografia. Se eu não vou lembrar disso quando tiver a idade de Ruth e estiver de papo-furado com outras velhinhas na casa de repouso de Riverdale, então, não vale a pena me preocupar agora. Mas aqui está outro negócio: eu sou uma hipócrita, pois, mesmo sabendo que o sexo com Mason não significaria nada, em sentido algum, eu ainda penso e me preocupo, e penso em Andrew e Mason, Mason e Andrew, eu e o sexo, como eu me saí, se faremos isso de novo, será que realmente significou uma despedida de Andrew, se poderei ser tão flexível da segunda vez, e se eu estava com cheiro bom. E não tenho esse tipo de energia. Portanto, para mim, sexo casual é como laticínios. Não é uma boa idéia, já que não tenho uma digestão tão boa para tudo isso. Depois que Mason vai embora, fico deitada no meio da cama, olhando o teto, e listo as coisas que entendo em meu mundo. Dois menos um é igual a um. Estou em meu apartamento porque peguei um táxi até aqui e depois peguei o elevador e depois abri a porta e beijei Mason e depois fiz algo que o fez partir, o que me fez ficar sozinha. Dois menos um é igual a um. Esse barulho no banheiro é a descarga vazando porque não liguei para o encanador vir consertar. Vou acordar amanhã, depois de dormir pouco e não tão bem, terei dor de cabeça, já que estarei desidratada dos seis cosmopolitans que bebi. O vovô Jack está desaparecendo porque as células nervosas em seu cérebro estão morrendo, o que surge em uma a cada dez pessoas, quando envelhecem. Talvez Ruth seja uma das outras nove que estão seguras, mas, ninguém sabe, pois as porcentagens não funcionam dessa maneira. Andrew provavelmente está na cama com outra pessoa, mas, provavelmente do outro lado da cidade, a uma distância de um trajeto inteiro de metrô ou táxi. Ele está longe o bastante para que eu não possa ouvi-lo. Dois menos um é igual a um. A esposa de Carl está gerando gêmeos, porque o esperma dele fertilizou o óvulo dela, que se dividiu, e isso pode acontecer independentemente do quanto a pessoa seja um cuzão. Não sei o que meu pai está fazendo, mas aposto que envolve orçamentos, cálculos e escolhas impossíveis. Dois menos um é sempre igual a um. Eu preciso ouvir a voz de outra pessoa - algo real e tangível a que eu possa me ater antes de ir para a cama. Eu interfono para Robert, lá embaixo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Boa-noite, Robert - digo, por entre a estática do interfone. - Boa-noite, Emily - ele responde como se compreendesse. Como se as pessoas ligassem para ele o tempo todo apenas para ouvir sua voz.

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Capítulo 31 Cara, eu te devo muito - Jess me diz, pelo telefone, no dia seguinte. Num tom sinistro, como um garoto de fraternidade estudantil. - Aquele cara devia patentear a técnica dele. - Então, você não se importou por eu ter sido a sua cafetina por uma noite? - Eu me sinto estranha por ter mandado Mason ao apartamento dela, afinal, essa foi a primeira vez que fiz algo parecido com meus amigos. - Tá brincando? Você não foi nada cafetina. Pelo menos não minha. Se foi dele, devo dizer que fez jus a cada centavo. Vou te poupar dos detalhes, já que você o passou adiante. Mas deixe-me dizer, você perdeu. Ele poderia ter colocado um pouco de juízo na sua cabeça. - Considere isso como o seu presente de Natal. Falando nisso, quer ir fazer compras de Natal hoje? - Eu cruzo os dedos. Detesto a idéia de passar o dia ouvindo as musiquinhas natalinas sozinha. - Desculpe - diz ela. - Estou dolorida demais para andar. **** - Cara, eu te devo muito - Mason me diz, uns vinte minutos depois, no mesmo tom. - Então, você também não se importou de eu ter sido a sua cafetina por uma noite? Eu me senti mal sobre tudo que aconteceu. - Está brincando? Foi a melhor noite da minha vida. Com aquela ali pareceu um rodeio. Ela vai para o meu caderninho. - Ele suspira, como se tivesse acabado de comer uma refeição ótima. - Quer ir fazer compras de Natal comigo, hoje? - Desculpe - diz Mason. - Tô moído. ***** - O que você vai fazer hoje? - Ruth pergunta, quando me liga, um pouquinho mais tarde. Ela diz isso de forma acusadora, como se pudesse me ver agora, sentada no sofá, de pijama, sem a menor intenção de sair de casa hoje, ou nunca mais. Subitamente, estar lá fora, em meio às pessoas comprando o mundo, os sinos do Exército da Salvação e a neve falsa das lojas de departamento parece mais do que eu posso agüentar sozinha. Eu tenho prestado atenção ao chamado da televisão, onde o mundo fica limitado aos quatro cantos. Tudo fica seguramente limitado ao quadrado e totalmente irrelevante para a minha vida. - Nada demais — digo, o que é verdade, embora "nada demais" seja uma resposta bem diferente de não tomar banho e apodrecer meu cérebro, com a MTV e meus dentes, com um pacote de balas de goma em forma de ursinho, sendo o último, a pura verdade. - Bem, então, encontrarei você à uma e meia, na Blooming-dale's. Nós temos uma excursão até a cidade hoje, e acho que já vi as Rockettes o suficiente. De qualquer forma, preciso de sua ajuda para escolher alguns presentes de Natal. Minha objeção é dispensada antes mesmo que eu tenha a chance de formular. - Tudo bem - concordo. Talvez eu consiga lidar com o frenesi festivo se tiver Ruth ao meu lado. Ela será meu escudo, como uma Marge particular, só que bem menor, com oitenta e quatro Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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anos e judia. - Emily, há algumas coisas que precisamos discutir - diz ela, antes de desligar, agora com a voz meiga, como se quisesse me ajudar a sair desse sofá. Talvez tenha algum conselho profissional, algum destino em mente para a pilha de currículos que eu imprimi, mas ainda não descobri para onde mandar. Talvez Ruth se torne o meu oráculo particular, a tomadora de decisões em minha vida, já que aquela que venho usando, há mais de uma década, parece estar defeituosa. Ela disse Boa perspectiva, quando perguntei se deveria aceitar a oferta de emprego na APT, e repetiu a mesma frase quando perguntei se deveria romper com Andrew. Foi ela que me fez chegar até aqui. Hoje, quando pergunto se Ruth ocupará seu lugar, ela me dá duas respostas diferentes: Muito duvidoso. Muito duvidoso? Eu a sacudo mais uma vez e tiro Resposta nebulosa, tente novamente. Eu tento novamente, conforme indicado e, quando tiro a mesma resposta três vezes, percebo que vem coisa por aí. Ruth vai morrer. E isso que a Bola 8 Mágica está dizendo através de sua janela plástica inquebrável e segura. Um dia, provavelmente nos próximos cinco anos ou dez, se tivermos sorte, Ruth irá morrer e, então, eu irei ao seu enterro e talvez jogue algumas pás de terra sobre seu caixão. Será que fazem isso em enterros judaicos? Jogam pás de terra? E, na manhã seguinte, vou acordar - tendo ou não jogado as pás de terra - num mundo sem Ruth, um mundo cruel, e vou cuidar da vida. E fingir que está tudo bem, que estou perfeitamente bem, que gente velha morre todo dia. - Eu detesto a época de festas - diz Ruth, com um cumprimento, ao nos encontrarmos, diante da Bloomingdale's, à uma e meia em ponto. Eu me recompus, tomei banho, coloquei maquiagem para esconder que andei chorando. Espero que Ruth não pergunte por que meus olhos estão vermelhos, pois não posso explicar que passei as últimas duas horas redigindo seu necrológio em minha cabeça. De alguma forma, eu não acho que ela irá entender. - Olhe toda essa gente lotando a cidade. Eu quero lhes dizer para irem para casa e me deixarem fazer compras em paz. - Ela enlaça o braço ao meu, para que não sejamos separadas pelas hordas de compradores. Eu respiro fundo e tento memorizar tudo sobre ela. O calor de seu casaco de lã junto ao meu, o cheiro de seu Shalimar que acaba sendo ligeiramente diferente da forma como exalava o de minha avó, o som de sua voz. Assim que entramos, sou imediatamente sufocada por todo o estímulo visual e fico irritada por isso interferir em minha total absorção de Ruth. Hoje é o dia em que vou me ater, guardá-la na lembrança, para que, quando ela tiver partido, eu não fique oca. Mas não consigo focar, com as luzes piscando, o ar perfumado, os cotovelos, os guardachuvas, a porra do Rudolph, a rena do nariz vermelho, as mães e as filhas. Principalmente as mães e as filhas, uma propaganda festiva de tudo que não tenho e não posso comprar. Um outdoor ambulante com todos os detalhes que já esqueci. Ou jamais pensei em me lembrar. Olho para Ruth e aperto o braço dela mais forte. Ela dá uma sensação de isolante. Ela me guia pela multidão, atravessando a loja, depois retorna, nos levando de volta ao lugar onde havíamos começado. - O que você me diz se pularmos as compras e irmos comer algo? — pergunta Ruth e, mesmo antes que eu responda, ela vai me conduzindo ao café no andar abaixo. - Sim, por favor. - Não consigo andar em meio a tudo isso hoje. Agora percebo. E sufocante ficar em pé, sob o peso de milhares de pessoas comprando, cada uma delas consumindo avidamente, riscando os nomes de suas listas intermináveis. Imagino homens fazendo compras para suas amantes e esposas. Filhas comprando para seus pais e padrastos, irmãos e irmãs. Meio irmãos e irmãs. Primos. Amantes. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Minha lista é tão pequena que nem preciso escrever. ****** - Você está terrível - Ruth diz para mim quando nos sentamos uma de frente para a outra no café lotado. Aqui, a atmosfera ainda é ruidosa, mas contida. Não parece que a tensão coletiva está prestes a explodir. - Obrigada. - Eu gosto que Ruth se sinta suficientemente à vontade comigo para dizer as coisas como são. — E também me sinto terrível. - É? — ela me pergunta sem forçar a barra. - É. Tenho sentido falta de Andrew. Ele disse que não quer que eu o procure nunca mais. - Isso deve ter doído. - Arrã. Mas eu pedi, não foi? - É, acho que pediu. Mas isso não torna as coisas mais fáceis, não é? - Não. E as festas são difíceis para mim, sabe? - Para mim também — diz ela. — É nessa época do ano quando mais sinto falta de Irving. - Como era ele, o Irving? - E estranho, mas eu detesto descrevê-lo para as pessoas, pois não faço justiça. De alguma forma isso o diminui e o transforma numa lista de detalhes. A verdade é que ele era um mensch. Conhece essa palavra? Eu aceno dizendo que sim. Irving era mensch, um ser humano maravilhoso, repleto de virtudes. - Bem, ele era assim. Era simplesmente bom, inteligente e gentil. Mas muito, muito tímido. Eu costumava falar por nós dois. Os pais dele saíram da Alemanha pouco antes da guerra e se mudaram para o Brooklyn. Acredite se quiser, eles se mudaram para a casa ao lado da dos meus pais e fomos vizinhos enquanto crescíamos. Fomos à formatura do Ensino Médio juntos. Passamos por tudo lado a lado. Ele conheceu cada uma das minhas fases: quando eu era uma garota magrinha, quando fui uma promotora bravia, quando sentei no banco de juíza. Agora é difícil, porque ele não teve chance de conhecer essa minha versão Ruth, cidadã sênior. - Você quer dizer a "Ruth que dá surra sem dó no pôquer"? - Essa também. Ele ficaria surpreso. Sabe de uma coisa? Acho que as festas são difíceis para todo mundo. Todos estamos encenando um grande espetáculo. As festas são um modo social de dizer ao mundo "estou bem". Se você tem presentes a dar e festas a ir, então, deve estar tudo certo em sua vida, não é? - Acho que sim. - Você já viu alguém rir num enterro? - Ruth me pergunta, do nada, e fico imaginando se, de alguma forma, ela sabe sobre mim e meus amigos depois da morte de minha mãe. Quando rimos histericamente, num canto, por ser a única coisa que sabíamos fazer. - Arrã. - Por ser Ruth, eu entrego mais. - Depois do enterro de minha mãe, foi isso que fiz. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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E o engraçado foi que realmente parecia engraçado. Hilário, até. Foi tão ridículo que não podia ser nada, exceto engraçado. - Exatamente. Acho que é isso que as pessoas fazem com as festas. Elas embrulham tudo com muito capricho, com um peru, presentes inteligentes e litros de gemada e riem sem parar, mas, no fim do dia, sempre tem gente faltando na mesa. Ou você senta com aquelas cadeiras vazias e ri, ou pode escolher nem ir para a mesa. Eu preferia ir para a mesa - ela afirma, de forma definitiva, como se estivesse dando um veredicto. Culpado ou inocente. - Você está dizendo que preciso começar a ir para a mesa, certo? - Estou dizendo que você tem de ir para mesa, sim. Mas também que aquele riso acaba se transformando num riso verdadeiro, se você deixar. Você não pode ter medo dessas coisas. Tem de lutar. E sempre haverá cadeiras vazias e também é normal. Emily, preciso lhe dizer — ela diz, e eu penso, pronto, lá vem, ela vai me dizer que está morrendo. - Está certo. - Eu respiro fundo, para me acalmar. Vai ficar tudo bem. Você consegue. Já fez isso antes. - Jack está piorando. Acho que o estamos perdendo. Fico confusa. Sei que estamos perdendo o vovô Jack. Eu estava lá quando ele desapareceu. Mas quero ter certeza de entender o que ela está dizendo, já que da primeira vez que ela quis ter essa conversa ou não consegui ouvi-la. - O que quer dizer, exatamente? Pode falar com todas as letras. - Ele está morrendo, Emily. De alguma outra coisa. Ele quase não está comendo. Eles acham que é câncer de cólon. Mas não sabem. - Eu tenho ligado todos os dias, mas ele não me contou nada. Ele diz que se sente bem. Eu olho para baixo e brinco com meu guardanapo. E o rasgo em longos pedaços brancos. - Você conversou com a médica? - Primeiro eu me atenho aos detalhes técnicos. Sempre os mais fáceis, primeiro. - Sim. Ela passou por lá há alguns dias, quando eu estava com Jack. Aparentemente, seu avô se recusa a fazer uma colonoscopia, portanto eles não têm certeza do que se trata. Mas tudo aponta para isso. Meu guardanapo já não é mais um guardanapo. É uma pilha de centenas de pedaços de um ex-guardanapo. - Tudo bem. Tudo bem... Sabem quanto tempo? - pergunto, pois isso parece ser o que eu deveria saber. Embora eu não tenha certeza se importa. O vovô Jack e eu sempre pulamos as despedidas formais e a contagem de tempo. Eu armazenei uma vida inteira dele, e isso precisa ser o bastante. Isso é o bastante. - Eles acham que em breve. Provavelmente não amanhã, mas em breve. — Os olhos dela param nos meus; são ternos e maternais. Ela quer cuidar de mim, quer fazer doer menos. Mas é seu olhar que dói mais do que qualquer outra coisa, pois é este que vou guardar, é para ele que vou voltar, como uma velha foto. Memorizo seu rosto, as rugas aleatórias, suas belas rugas, do tipo que está desaparecendo com toda uma geração apresentada ao Botox. Quero retratá-las. Quero esculpi-las. Quero sentir essa expressão para sempre. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Agora percebo que não vou jogar pás de terra. Se, ou quando, eu me lembrarei dessa expressão. Esse olhar será seu tributo. Nem mais, nem menos. - Obrigada por me contar. Dessa forma. De um jeito que eu não posso fugir. - Largo o guardanapo esfarrapado sobre a mesa, fazendo uma pequena montanha de papel inútil. - É claro. - Você acha que eu devo ligar para o meu pai e dizer a ele? - Ele sabe. - Ela abaixa o olhar para não cruzar com o meu. - Ele sabe? - Ele tem estado lá todas as noites essa semana. Ele tem de saber. - Ruth olha o monte de papel rasgado. - Mas por que ele não me ligou? Por que não me disse? - pergunto, embora não seja para ela a quem eu deva perguntar. - Eu não sei. Por não ter notícias suas essa semana, eu imaginei que seu pai simplesmente não conseguira dizer. Espero que eu não tenha invadido seu espaço. Só achei que você deveria saber. - Obrigada. Sério, eu nem sei como lhe dizer o quanto agradeço. - Eu me levanto e dou a volta na mesa para lhe dar um abraço. Ela parece miúda em meus braços, um punhado de ossos sob o conjunto grosso de lã. - É melhor assim, sabe. O vovô Jack ir dessa forma. É o jeito que ele quis. Ele mesmo disse. - Dá a sensação de ser errado dizer isso, antes de ser verdade. Como se eu já estivesse colocando o vovô Jack entre os mortos. - Eu sei. É melhor assim. - Ruth pousa a mão em cima da minha e ela parece mais pesada do que eu havia imaginado. Sólida. - É - concordo. - Eu sei. Eu respiro fundo e solto o ar. A pilha de guardanapo cai no chão como borboletas camicases, mas nenhuma de nós duas se abaixa para pegar os pedaços. No fim das contas, eu e Ruth nos sentimos revigoradas o suficiente para enfrentar o restante da loja. Damos os braços novamente, e caminhamos em meio às hordas, mal notando quando esbarram em nós com suas sacolas cheias de compras. "Noite feliz" está tocando ao fundo, e alguns clientes cantam juntos, inconscientemente. Somos abordadas por algumas vendedoras de perfume, mas todos nos deixaram em paz para circular. Passamos ao redor das echarpes de caxemira e nos deleitamos, afagando os tecidos macios. Compro luvas para Kate e Jess. Ruth compra um chapéu para seu filho e um xale da Burberry para si mesma. Enquanto continuamos a caminhar juntas, acredito que as pessoas pensem que eu e Ruth somos avó e neta. Espero que sim. Eu gostaria que pensassem que tenho alguém tão especial para andar de braços dados pela Bloomingdale's. Hoje não tenho inveja das outras duplas da loja de departamentos. Ter Ruth em minha mesa é mais que o suficiente.

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Capítulo 32 Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Doug F. Barton, APT Assunto: Trabalho Olá, Emily. A Família APT lhe deseja Boas Festas. Eu não sabia que você conhecia a Ruth Wasserstein! Mas que mundo pequeno. Fui estagiário dela logo que saí da faculdade de direito e ela é minha mentora há vinte anos. De qualquer forma, ela mencionou que você decidiu começar a procurar por um novo emprego e que não seria possível convencê-la a voltar à APT. Portanto, encurtando a história, faço parte do quadro diretor da ACLU e eles estão em busca de um novo advogado para a equipe. Infelizmente, a redução de salário será significativa, mas Ruth achou que você se interessaria. Se estiver interessada, por favor, entre em contato ASAP e providenciarei uma entrevista para você. Tudo de bom, Doug Barton

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Miranda A. Washington, APT Oi, Emily! Eu não sabia que você conhecia a Ruth Wasserstein! Ela é minha heroína. Fui estagiária da Ruth logo que terminei a faculdade de direito, um milhão de anos atrás. É a mulher mais inteligente que já conheci. De qualquer forma, ela entrou em contato comigo e disse que você está procurando um trabalho de defensoria pública. Eu faço parte do quadro diretor da Legal Aid. Algum interesse em trabalhar lá? Eu sei que o salário é uma bosta, mas você teria a chance de fazer um trabalho ótimo, Parece o seu caminho. Eles podem te entrevistar dia 27 de dezembro, portanto, me fale se estiver disponível. Eles estão desesperados para arranjar gente. Boas Festas. Miranda Para: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Obrigada! OBRIGADA, RUTH! OBRIGADA!!! Você é minha fada madrinha! Agora, por acaso você saberia de algum apartamento barato disponível no Brooklyn? Se eu aceitar um emprego na defensoria pública não posso me manter em meu apartamento sem vender meus órgãos no mercado negro.

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Ruth Wasserstein, yourhonor24@yahoo.com Para isso que servem os classificados on-line, minha querida! Venda seus órgãos! Bem melhor do que vender a sua alma.

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Capítulo 33 Talvez esse seja um daqueles momentos na vida quando a gente simplesmente vai fundo. Colocamos nosso coração em jogo. Deixamos que sangre. Não tenho nada a perder. Por pior que seja, eu me encontro presa num redemoinho em meu sofá. Ao contrário do Meatloaf, eu estou acertando três em cada três - querer, precisar e amar - e não tenho como correr disso. Já chega. A Dra. Lerner simplesmente me diria para ir em frente: Emily, isso é viver. Portanto, eu finalmente mando um e-mail para Andrew, dizendo aquilo que quero dizer.

Para: Andrew T. Warner, warnerand@yahoo.com De: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com Assunto: Não pude evitar Oi, A. Sei que você não quer mais saber de mim, mas não pude evitar. Eu quero dizer algumas coisas: Eu te amo. Eu sinto a sua falta. Vamos tentar novamente.

Para: Emily M. Haxby, emilyhaxby@yahoo.com De: Andrew T. Warner, warnerand@yahoo.com Assunto: Re: Não pude evitar Você só pode estar brincando comigo. Um e-mail? Cresça, Emily. Simplesmente me deixe em paz.

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Capítulo 34 - Por que você acha que as coisas se desenrolaram da forma como foi com Andrew? pergunta a Dra. Lerner em nossa sessão seguinte. Nós já passamos por isso antes e, embora tenhamos feito alguns progressos, somente uma outra maneira de dizer que a boa médica me fez chorar, não sei se estou melhorando. Ela não consegue fazer o vovô Jack parar de morrer; ela não consegue fazer o Andrew voltar a me amar. No entanto, ela consegue me fazer falar. Pela zilionésima vez, eu faço o jogo: a Dra. Lerner pergunta por que as coisas são como são e eu digo que não sei. - Eu não sei. Olho para baixo, para o tapete persa. Concentro-me no desenho, mas não consigo entender a estampa. Há círculos dentro de círculos, e gotas dentro de gotas. A cor predominante é bordo, cor de sangue seco. - Você não sabe? - pergunta a Dra. Lerner. Ela também faz isso, de tempo em tempo, repete o que digo para me manter falando, para enfatizar que estou tentando evitar responder às suas perguntas. - Eu fiz besteira e estraguei tudo. Estava tentando consertar as coisas. Isso obviamente não deu certo. Fim de jogo. - Fim de jogo? - É, fim de jogo. Eu tentei. Parti a porra do meu próprio coração quantas vezes? Três com essa última? E hora de superar isso. Andrew não quer nada comigo. Não podia ser mais claro. - Certo. Não podia ser mais claro. Correto. Diga-me, por que você acha que seu pai não lhe disse que a sua pessoa preferida no mundo está morrendo? - Essa não é uma boa maneira de colocar as coisas. Eu achei que você deveria ser empática. - Não, eu devo ser honesta. Então, por que ele não lhe disse? - Acho que não fazemos isso em minha família. Claramente a comunicação não é um dos pontos fortes de meu pai. - Eu noto alguns pontos dourados no tapete, no formato de pequenos diamantes. - E quanto a você? Esse é seu ponto forte? Eu não chego a decifrar o tom dela. Hoje, a Dra. Lerner está vestindo uma túnica e um turbante brancos, com o cabelo preso num coque. O turbante dá um senso de moral, ou autoridade religiosa, um sentido que não é ambíguo. Portanto, presumo que ela não esteja sendo sarcástica. - Na verdade não, mas eu estou trabalhando nisso. - Com seu pai? - O que devo fazer? Ligar para ele e lhe dizer que, por favor, passe a me informar, daqui em diante, quando um dos meus avós vai morrer? De qualquer forma, isso não importa, pois não resta mais nenhum. Ligar para ele para dizer que embora eu simpatize inteiramente com o impulso, o cancelamento do Natal me faz sentir ainda mais solitária do que já sou? Ligar para ele Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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e dizer que pedi demissão de meu emprego e terminei com Andrew? Que agora o Andrew me odeia? Que eu me sinto como uma porra de uma órfã? - Quem é a Dra. Lerner para passar no julgamento? Com seu turbante falso e seu tapete sem nenhum padrão de estampa. Do que ela sabe? A Dra. Lerner deixa minhas perguntas no ar por alguns instantes e usa o ar parado para transmitir sua mensagem. Arrã, isso é exatamente o que você deve fazer. - É preciso duas pessoas para ter uma conversa. - Eu sei que sôo como uma criança mimada, mas estou exausta. A Dra. Lerner simplesmente sacode a cabeça para mim e pousa os punhos nos joelhos. Ela parece estar meditando. Eu fico tentada a lembrá-la que a estou pagando para me ajudar, não para chegar ao nirvana. - Ele não me ouve, é como falar com uma parede de tijolos. - Quem disse que ele tem que ouvi-la? Isso não é sobre ele, Emily. É sobre você. Você não pode mudar as outras pessoas. Somente a você mesma. Você precisa aprender a se comunicar diz ela, em itálico, como se estivesse dizendo a charge da New Yorker. - Ãrrã- digo, propositalmente desarticulada, intencionalmente a privando da satisfação de uma palavra real. Uma piada comigo mesma. - Arrã - repete ela, como um papagaio, e ri. Sua expressão diz tudo. Você não é mais esperta que eu. Eu gostaria de falar com os olhos da forma como a Dra. Lerner consegue. Aí, eu não teria qualquer problema de comunicação. - Está bem, eu entendi. Preciso me comunicar mais. Só que é mais fácil falar do que fazer. - Ela está certa, é claro. Ela é mais esperta do que eu. Por isso continuo voltando. - Eu tentei, com o Andrew. Realmente tentei. Pus todas as minhas cartas na mesa com aquele e-mail. E ele me detonou. Foi como ser atropelada por um trator. - Sei. Certamente parece que você tentou com afinco. Com aquele e-mail. Você tentou. - O que você quer dizer com isso? - Você já entendeu. Então, me diga o que acontece. O que sempre a impede de dizer o que quer? - pergunta a Dra. Lerner, revertendo o discurso médico-paciente. Eu volto a encarar o tapete, mas ele ainda parece um monte de tapetes costurados. - Por favor, olhe para mim, não para o chão. Eu quero saber o que acontece com você. O que a leva a se fechar. - Às vezes, quando quero dizer algo, as palavras simplesmente não saem. É como se houvesse um espaço que eu deveria preencher. Mas não consigo. A Dra. Lerner apenas balança a cabeça, sente que ainda não terminei meu raciocínio. - Mas acho que parte do problema está no fato de eu não saber o que dizer. Às vezes, nem consigo entender. Como foi com Andrew. Eu não conseguia dizer a ele o que queria, pois eu realmente não sabia. Entendo que devo ir mais fundo, sei lá. Mas sempre me sinto como se não houvesse de onde puxar as coisas. Não havia nada ali. — Eu recosto no sofá e fecho os olhos. A sala está em silêncio total. Percebo que é a partir daqui que começo, a partir daquela pausa. Você começa da quietude e constrói o barulho. Você se constrói do vazio. Cria aquele algo de onde puxar. É como comer. - Exatamente - concorda a Dra. Lerner, como se ela pudesse ouvir meus pensamentos. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Exatamente. Ficamos em silêncio mais um pouco, mas agora não é realmente silêncio. Minha cabeça está zunindo com palavras e frases, e eu me preencho com elas. Não é bem energia, mas é alguma coisa. E um começo. ***** Volto para casa caminhando, embora a temperatura tenha caído a um número de um dígito. As ruas estão vazias. Manhattan descarregou novamente, o espremeu por entre as pontes e túneis e lotou aviões e carros deixando para trás, no espelho retrovisor, uma linha do horizonte e um punhado de turistas usando mochilas engraçadas e alguns bartenders para servi-los. Isso é o que acontece todos os anos, na noite de Natal. A maioria das pessoas deixa Manhattan para ir para "casa", independentemente do que isso signifique, ou talvez para estar em qualquer outro lugar sem ser aqui. O efeito é um som, como se todos os ruídos de Nova York, suas sirenes, as buzinas dos táxis, os passos dos pedestres, estivessem suavizados por um imenso cobertor. Não chega a ser tranqüilo, somente abafado. Como meu pai resolveu pular o Natal esse ano, em nenhum momento pensei na possibilidade de ir até a casa onde cresci. De qualquer forma, eu realmente não acho que lá ainda seja minha casa, já que associo o lugar a uma onda de desorientação. Não é a mesma casa se o interior foi derrubado e reconstruído, o conteúdo dispersado pela vizinhança em um bazar na garagem. Estou bem certa de que aquela casa não é mais minha. Quando me sinto como estou me sentindo essa noite - sem peso e temendo que possa dissolver até virar nada —, refaço a lista mental de todas as pessoas no mundo que me amam. Hoje, isso inclui: Jess, Kate, Ruth, talvez o Mason (à sua maneira) e meu pai (também à sua maneira). O vovô Jack também está ali, é claro, mas quando ele viaja no tempo e volta uma geração, acho que estou roubando por incluí-lo. Ele não pode se sentir deixado para trás, não pode sentir minha falta, não pode me amar, se não sabe que eu existo. É como aquela foto de minha mãe, na praia, na qual sempre penso, uma fotografia de uma mulher cuja maior preocupação é um bronzeado uniforme. Não é a foto de uma mãe, foi tirada bem antes de mim. Não há nada que a prenda no lugar. Ela também parece que poderia sair flutuando. Agora sei que uma hora dessas o vovô Jack vai mudar de coluna, para aquela intitulada Gente morta que me amava. Essa é uma lista separada, por motivos evidentes. É possível notar que Andrew também não está na lista. Novamente, evidente. Faço isso com freqüência, essa contagem. Eu me conforto com a estatística, a habilidade de usar alguma linguagem. Será que todo mundo faz isso? Conta suas unidades — o peso — de seu amor? Eu me agarro aos meus cinco ou seis, dependendo de como eu conto, repetindo seus nomes em minha cabeça, conforme passo pelos quarteirões da cidade. Um mantra que me força a respirar fundo a cada palavra e trancar uma parte dela em meu abdômen. Cada uma delas me deixa mais pesada, mais inteira. Um lugar para começar. Décima Segunda, Jess, Jess, Jess. Décima Primeira, Kate, Kate, Kate. Décima, Ruth, Ruth, Ruth. Nona, Mason, Mason, Mason. Oitava, Pai, Pai, Pai. Sétima, Vovô Jack conta. Vovô Jack conta. Vovô Jack ainda conta. Quando chego ao meu prédio, não reconheço o homem que está de pé na porta. - Onde está Robert? - Há uma pessoa nova ali, vestindo o uniforme de Robert, usando o quepe de Robert.

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- Com a família, em Staten Island, para o Natal. Eu o estou substituindo pelos próximos dias. - O homem segura a porta aberta para mim. Ele aparenta ter uns cinqüenta anos, com um rosto de boxeador, empapuçado e com pequenas veias, um rosto que diz: Você não deveria ter saído com o outro cara. - Boa-noite, senhora. Nós não sabemos um o nome do outro, mas sua voz é a última que ouvirei essa noite. Sinto falta de Robert. - Boa-noite - respondo assim que as portas do elevador se fecham. Não importa se ele me ouve.

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Capítulo 35 Eu sei que não precisava estar sozinha hoje. Nesse momento eu poderia estar em Providcnce, Rhode Island, ou Short Hills, Nova Jersey, com as famílias de Jess ou Kate, bebendo gemada e abrindo presentes de último minuto escolhidos pelas mães delas ao descobrirem que eu não tinha nenhum lugar aonde ir. Ruth me convidou para ir a Washington ficar com seus filhos e netos, e passar o dia vendo filmes e comendo comida chinesa, e Mason sugeriu que eu voasse até o Texas para experimentar o meu primeiro peru frito. Embora estivesse tentada pela oferta de todos, acho que seria ainda mais solitário ser penetra na família alheia, fingir fazer parte de algo que não sou. Eu me sentiria como um estudante de intercâmbio. Em vez disso, tenho meu próprio plano. Acordo cedo, quando o primeiro raio de sol bate em minhas janelas e como uma tigela de cereal em pé, ao lado da pia. Eu não vou chafurdar. Não vou olhar para a direção do meu sofá e da minha televisão. Tomo banho, me visto, coloco um casaco de inverno, luvas, chapéu e cachecol; me agasalho bem. Isso é fácil. Há crianças sendo assassinadas em Darfur. Somos uma nação em guerra. Isso não é nada. Então, saio pela porta, dou Feliz Natal ao homem que não é Robert, e sigo na direção da parte alta da cidade. O ar frio entra pelas minhas mangas e queima meus punhos. Só uma pequena coisa que você tem afazer. E isso lhe dará força para fazer o restante. Ande logo. Eu ando mais rápido, seguindo o caminho do trem 6, porém, vou pela superfície, enquanto ele serpenteia, rumo ao East Side. Passo pela Union Square. Madison Square Park. O prédio da Met Life se mostra altivo sobre mim, medindo o meu progresso. Eu chego à Grand Central, que está cheirando a odores corporais e café, e parece um campo de refugiados de Miami. O aquecedor está no máximo e o ar é pesado e úmido. Famílias se aglomeram nos cantos, tentando, sem sucesso, cercar crianças fujonas, secando o suor de seus rostos com cachecóis desprezados. Há sacolas de compras por todo lado, embaixo dos braços, acomodadas entre pés, com papel vermelho e verde transbordando. De vez em quando, há um anúncio e os grupos desaparecem por trás de portas enormes, marcadas com números dos trens que rumam para casa. O painel preto rotativo empurra o dia adiante, nos levando mais para perto de nossos destinos. Aguardo pela mudança das letras anunciando o meu trem. Não penso no que estou fazendo, e nem no lugar para onde estou indo. Só sento ali, de olhos fixos no painel. Se você por acaso estivesse na estação Grand Central, nesse momento, nem notaria a minha presença. Eu sou uma das milhares de pessoas que esperam por um trem, igual às paredes. Dá uma sensação de desaparecimento. A viagem de trem transcorre tranqüila. A voz em minha cabeça dissolve com o rugir do vagão se movimentando ao longo dos trilhos. Descanso a cabeça junto à janela fria, olho para fora, mas não vejo nada. Só uma paisagem suave. Poderia ser qualquer lugar no mundo. Quando desço em minha parada, um motorista de táxi espera, diante de um carro estacionado a esmo. Parece que ele está esperando por mim. Sento no banco de trás e, embora eu não tenha o endereço exato, ele conhece o lugar. O motorista tem fotografias de seus filhos coladas na divisória plástica transparente e eu as examino para memorizá-las, como se Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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estivessem numa caixa de leite. Gêmeas idênticas, ambas com duas trancinhas e a da direita exibe a janelinha de um dente faltando. O motorista me deixa do lado de fora de uma entrada de pedras e percebo que estou a apenas algumas quadras do country clube de meu pai. Penso se ele estaria ali, dando tapinhas nas costas das pessoas, apertando mãos. Ou talvez esteja visitando a família de Anne, embora eu não consiga me lembrar de onde ela é, Maine, talvez? Ela usa jeans como se fosse de Maine. Dou ao motorista uma gorjeta gorda, duas vezes o valor da minha corrida. - Obrigada, senhora. A senhora precisa que eu espere? - Não, obrigada. Vá para casa ficar com sua família - digo. - Feliz Natal. - Feliz Natal - ele retribui, mas não parece ter tanta certeza. Eu aceno novamente e ele arranca com o carro, deixando para trás somente o cheiro da fumaça do escapamento. Eu fico de pé, diante do Cemitério Putnam e me forço a passar pelos portões de metal, e entro sob a cobertura arborizada. Não há um único som, nem mesmo o farfalhar das folhas. Por enquanto, estou sozinha. Eu desço pela aléia e entre as lápides. A grama verde é cuidadosamente delineada e contida por arbustos e uma cerca branca. Eu só estive aqui uma vez, naquela vez, em que enterramos minha mãe e não tenho certeza onde fica seu túmulo. Percebo que é horrível, que eu nunca tenha me dado ao trabalho de vir antes, para trazer umas flores. Mas eu não vim e não darei desculpas como falta de tempo, nem que os anos voaram, nem nada dessa merda. Como eu não acredito em vida depois da morte, e não tenho qualquer outra teoria coerente que transformaria o pedaço de chão onde minha mãe está enterrada em algo diferente de um pedaço de chão, parecia tolo entrar no trem. Vir teria sido somente um exercício. Outro lembrete de que apenas uma lápide de pedra é tudo que restou. Absolutamente nada. Porém, percebo que vir aqui hoje tem tudo a ver comigo. Isso tem muito pouco a ver com honrar a minha mãe. Eu caminho pelo cemitério, na esperança de alguma dica que me leve à direção certa. Leio todas as inscrições nos túmulos. Enquanto caminho, faço muita matemática, subtraio datas. Gosto de passar pelos túmulos daqueles que morreram velhos, principalmente de maridos e mulheres enterrados um ao lado do outro. Imagino seus corpos, no fundo do solo, de mãos dadas, uma compensação pelo peso da terra acima deles. Há bebês enterrados aqui. Passo por um túmulo escrito MacKinnon e penso que pode ser alguém da família de Carl. Há um de dezessete anos, outro de catorze. Muitos entes queridos. Um de setenta e seis. Não há qualquer padrão. Há lápides de todos os formatos e tamanhos. Algumas com entalhes elaborados. Algumas opacas, outras brilhosas. Algumas parecem bancos e, apesar de ficar tentada a me sentar, não estou certa para que servem. Não há uma distância estabelecida entre os túmulos. Nem linhas. Só uma distribuição leve, aqui e ali, por entre as árvores. Não há regras. Há mães, filhas, filhos e maridos, esposas e amigos. Não vejo uma única lápide escrita com Advogado, ou Banqueiro ou Farmacêutico. Reconheço alguns nomes famosos. Alguns Bush que, a julgar pela bandeira americana, presumo serem Os Bush. Vejo pelo menos um túmulo sem o primeiro nome. Apenas Bebezinha Davenport. Quero me deitar e afagar a grama congelada e fechar meus olhos. Quero ficar aqui para sempre. Hoje, eu não me importo com o silêncio. Por um tempo, esqueço que estou procurando Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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um local específico e simplesmente perambulo. Talvez aqui seja o meu lar. Entre as lápides, as árvores e os mortos. Talvez eu possa começar um pequeno negócio bem aqui, um pequeno estande que venda flores para gente como eu, que esquece de trazê-las. Eu diria aos meus clientes para não se sentirem mal, que isso acontece o tempo todo. E, à noite, eu poderia deitar num saco de dormir, ao lado da pequena Jenny Davis, que morreu aos catorze anos, em 1991. Penso se ela gostava de Madonna. Se usava aparelho e se o tiraram antes de enterrá-la. Como é que se morre aos catorze anos? Parece uma idade particularmente cruel para se morrer. Idade suficiente para saber que faz diferença o fato de nunca ter sido beijada. Eu encontro a minha mãe em meio a uma porção de túmulos do fim do século XIX. Ela está a uma pequena distância deles, mas eu me pergunto como minha mãe ficou nesse lote. De alguma forma, parece errado. Havia um lugar perfeito, ao lado de Jenny Davis. No entanto, fico contente por meu pai ter escolhido uma lápide simples para ela. Não há desenhos elaborados. Nada que possa sair de moda. Só um retângulo, com um gramado em volta, espaço para o vovô Jack, meu pai e, imagino, um dia, para mim.

Charlotte Haxby 1950 -1992

Eu gosto do fato de não dizer Amada, ou Mãe, ou Filha, ou Esposa. Nada a classifica. Eu ando em volta algumas vezes, fazendo um círculo. Decifro as letras e faço a matemática, embora ela contenha informações já conhecidas. Não estou bem certa do que fazer agora. Será que me levanto e olho? Esse olhar para baixo parece subestimar quem está ali. Será que sento diante da pedra, sobre o solo onde minha mãe está enterrada? Posso deitar aqui? É isso que quero fazer. Eu quero me deitar na pedra. Eu sento, mas não deito, caso chegue alguém. Fico alguns palmos à frente da lápide, de pernas cruzadas, pensando se estou sendo desrespeitosa, se ter escolhido esse ponto em especial é um sacrilégio, por fazer peso sobre o caixão. Calculo que não tem importância e, se tiver, minha mãe entenderia. Oi, mãe, digo. Não em voz alta. Se, de alguma maneira, ela pode me ouvir, eu imagino que não faça diferença se eu disser em voz alta. Pelo menos em minha cabeça, isso não soa como se eu estivesse falando com uma rocha retangular. Oi, mãe, tento novamente. Há quanto tempo. Você não ligou. Você não escreveu. Está certo. Deixe-me começar novamente. Eu não deveria estar fazendo piadas. Oi, mãe, sou eu, a Emily. Mas você provavelmente já sabe disso. Pare. Faça isso direito. Você já veio até aqui. Certo, certo, certo. Eu me levanto e circundo a pedra mais uma vez, para espairecer. Respiro fundo, como na ioga. Eu consigo fazer isso. Tomo novamente o meu lugar, atenta para sentar no mesmo exato local. Por algum motivo, agora vejo aquele pequeno pedaço de chão como meu.

Oi, mãe. Não sei se você pode me ouvir, ou se realmente importa que você ouça, e eu sinto muito por não ter trazido flores, por ter levado quinze anos para vir aqui e por ter passado um tempinho com Jenny Davis, em vez de vir direto até você. E não sei como tudo isso Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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funciona, mas, se você tiver uma chance de encontrar Jenny, diga a ela que mandei um oi, e que vou pensar nela. Mas ela não vai me conhecer. Não estou bem certa quanto ao que dizer. E errado lhe contar sobre mim? Eu poderia lhe contar sobre o quanto sinto sua falta, muito mais do que você jamais poderá imaginar. Eu poderia lhe dizer como penso em você todos os dias. Não exatamente sobre você, o que lamento, mas eu não me lembro de você, você, tão bem como deveria. Mas me agarro ao que me lembro. E depois vem uma idéia de você, e como você era tudo, e como era minha mãe, e o fato de você não estar mais aqui. Nisso, eu penso todos os dias. Se você puder me ouvir, eu não me importaria se, de vez em quando, me retribuísse com sua voz. Eu adoraria ouvi-la, só um pouquinho. Só um pouco de sua voz. Eu a perdi algumas semanas depois que você morreu e não consigo recuperar. Independentemente do quanto eu me esforce para ouvi-la. Eu a ouço parando de respirar. Aquele espaço horrível entre o som. E isso que ouço e eu preferiria não ouvir mais. Se você puder — me mandar um pouco de seu som — isso seria ótimo. Se não puder, eu vou entender. Também lamento por não ter lembrado de você quando tive a chance. Eu deveria ter feito muitas coisas que nunca fiz e gostaria de fazer todas elas novamente. Simplesmente apertar um botão para recomeçar. Agora acho que é melhor dizer coisas erradas do que não dizer nada. Eu deveria ter aprendido a andar de bicicleta. Deveria ter pedido ao papai para não cancelar o Natal, que devemos tentar ser uma família, que não é bom continuar fingindo. Eu deveria dizer, às vezes, em voz alta, "]á chega". Eu vou fazer isso. Estou fazendo agora. Eu gostaria de saber que precisava lembrar de tudo, pois isso facilitaria meu desprendimento de você. Então, você não teria realmente partido, partido, certo? Você estaria dentro de mim, em algum lugar, e eu não me sentiria tão vazia agora. Ás vezes, a noite, eu tento imaginar seu rosto, mas tudo que vejo são fotografias. Não é a mesma coisa. Você deve saber que está linda naquela, logo antes de ficar doente, em que você está toda arrumada para a minha festa de aniversário. Meu aniversário de treze anos. Lembro que você fez um estardalhaço sobre o fato de eu me tornar oficialmente uma adolescente, reclamando de que eu estava crescendo rápido demais, que me perderia logo. Na foto, você parece alguém que eu gostaria de ser. Seria maravilhoso se eu pudesse te dizer que eu e o papai estamos ótimos. Quer dizer, nós estamos, claro. É claro que estamos. Mas você provavelmente pode ver que nós dois estamos meio afastados e não fizemos um trabalho muito bom ao catar os pedaços. Mas estamos tentando. Acho que nós dois estamos tentando e vamos melhorar no sentido de sermos uma família. Uma família de duas pessoas ainda é uma família. E acho que chegou a hora de eu lutar por nós. O vovô Jack está morrendo, imagino que você já saiba, se estiver me ouvindo. Eu vou vêlo hoje, mais tarde, ficarei um tempo com ele. Quero me assegurar de estar lá quando ele partir. Se eu estiver errada e for verdade que ele realmente irá para algum lugar, você tomará conta dele, certo? Eu gosto de pensar em você, e na vovó Martha, e em seus pais também, embora eu não tivesse a chance de conhecê-los muito bem, todos vocês rindo e comendo peru ao redor da velha mesa de carvalho. Mas lamento não acreditar que todos vocês estejam Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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juntos, em algum lugar; eu penso essas coisas só para me consolar. Assim como penso que você pode me ouvir agora. Faz diferença? Eu posso me ouvir, o que já é alguma coisa, fá é hora de eu começar a me ouvir. Estou indo bem... Às vezes, eu me sinto cansada, mesmo quando não faço nada. Fiz umas cagadas brabas ultimamente, mas acho que estou começando a me decifrar. Eu vim aqui, já é mais que um começo. Fiz amizade com uma mulher chamada Ruth, a quem você nunca teve a chance de conhecer. Ela é amiga do vovô Jack e você a adoraria. Ela é inteligente e engraçada, e cuida de mim. Tem problema que eu ainda queira ser cuidada, mesmo já tendo quase trinta anos? Quando é que você se transforma em quem deveria ser? Ou, eu sou quem sou, quem sou eu? Sei que agora pareço uma garotinha. Na vida real, fora dos muros desse lugar, eu não pareço. Bem, só às vezes. Talvez a gente sempre seja criança perto de nossos pais? Deus sabe que ainda sou uma criança perto do papai; ele também é, perto do vovô Jack. Faz pouco tempo, eu menti para o papai sobre um monte de coisas, ele também andou mentindo para mim. É tudo besteira e agora nem vale a pena repetir. Coloque assim: nós precisamos trabalhar nossa comunicação. Às vezes, eu penso que, quando você morreu, alguém apertou um botão "mudo " dentro de mim, e prendeu o meu verdadeiro eu aqui dentro. Eu pedi demissão do meu emprego, o que acho ter sido uma boa coisa. E terminei com o Andrew, a quem você nunca conheceu, mas teria amado. Ele é especial pra cacete. Agora eu sei que você tem de se agarrar às pessoas a quem daria os seus rins. Você não vai simplesmente abrindo mão delas só por estar fodido demais da cabeça, para entender o que tem. Ou amedrontado demais. Porque a verdade é que eu estava com medo. Se nós continuássemos, eu sei que ele poderia ter picado meu coração em milhares de pedacinhos. Ele poderia ter me comido viva. Talvez, eu realmente os perca, porque quando se está tão fodida da cabeça como eu estava, dar o seu rim não significa tanto. Mas agora sim, e agora que entendo o que perdi, agora que entendo que estava fugindo. Agora que comecei a regenerar minhas partes perdidas. Agora que tenho rins para dar, isso significa coisa pra cacete. E se você puder fazer qualquer coisa em relação a isso, eu aceito qualquer ajuda, já que ele deixou claro que não quer ter nada a ver comigo. Eu vou lutar por ele, de qualquer forma. Dessa vez, é de verdade. Mesmo que seja tarde demais. Mesmo que isso signifique eu ser pulverizada ao longo do processo. Desculpe pelos palavrões. Agora faço muito isso e provavelmente deveria parar. Sou advogada e adulta, porra. Eu gostaria de saber se você pode me ver, ou me ouvir e, quando você pudesse me ver ou me ouvir, pois eu não tenho certeza se quero que você veja tudo. Mas acho que, se eu pudesse escolher, eu escolheria tudo em vez de nada, por mais constrangedor que fosse. Mas, obvia¬mente, isso não cabe a mim. Se fosse por minha conta, você estaria aqui, de pé, ao meu Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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lado, e nós estaríamos visitando os túmulos de outras pessoas, alguém que gostássemos, mas de quem não sentiríamos tanta falta assim. Se pudesse, eu rebobinaria pelo menos até essa manhã, e voltaria com algumas flores. Essa é apenas uma longa forma de dizer que te amo. Sinto sua falta. Vou tentar fazer as coisas de uma maneira melhor. Eu te devo isso — e a mim também — pelo menos preciso tentar. E eu te amo, mesmo você estando morta, e meu amor por você não tem nenhum lugar aonde ir agora. E eu te amo mesmo sem poder mais te ouvir. E te amo sem qualquer "porém ". Quero que você saiba que vou ficar bem. Tudo vai ficar bem. Certo? Ok. Vai ficar, porque tem de ser assim. Agora chega. Eu vou lutar por mim. Eu me levanto, talvez para dar ênfase às minhas palavras e me convencer de que terminei. Tchau, mãe. Circulo o retângulo de pedra mais uma vez. Coloco os dedos no relevo das letras e memorizo o tato. Fecho os olhos e guardo a sensação. Depois toco os lábios com as pontas dos dedos. Os beijo. Toco a pedra novamente. Não chega a ser flores, mas é alguma coisa. Saio do cemitério devagar. Passo ao lado de Jenny Davis mais uma vez, beijo os dedos novamente e toco sua lápide. Vou tentar com mais afinco, Jenny. Por nós duas. Na saída, percebo que há algumas pessoas ali. Mas ninguém me olha e eu não olho para elas. Esse é um lugar para se estar invisível. Esse é um lugar onde, só por um tempinho, a ausência de barulho é confortante, esperada. Passo outra vez pelas árvores e saio pela aléia principal. Passo pelo muro de pedras e o afago levemente com os dedos. Depois saio do Cemitério Putnam e deixo para trás o silêncio dos que partiram, de uma vez por todas.

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Capitulo 36 Feliz Natal, pai - digo, quando surge o número telefônico da casa do meu pai, em meu telefone celular. Estou a aproximadamente um quarteirão do country clube e a essa distância eu posso ver o desfile de Mercedes deixando a saída. Puxo meu chapéu para baixo, sobre as orelhas, em parte para mantê-las aquecidas, porém, é mais para evitar ser reconhecida. - Feliz Natal, querida - diz meu pai, depois há uma pausa silenciosa e estranha, nenhum de nós dois sabe o que dizer a partir daí. Ele ainda não me contou sobre o vovô Jack. - E aí, pai? Como vai indo? - Nada demais. - Eu me pergunto o que isso significa: "nada demais" como resolvendo o problema da crise do orçamento de Connecticut, ou "nada demais" como lutando contra um desejo por seu sofá. Estou falando com meu pai, que raramente se senta, nem para tomar café, e imagino que seja a primeira alternativa. - Só ouvindo um pouco de música. A estação das canções antigas. - Você está sozinho? - Sim. Anne foi visitar a família, no Maine. - Então, está confirmado que ele está saindo com ela. Eu sabia. Eu sabia que ela era do Maine. - Ouça, eu estou perto do clube. Por que você não me pega lá e podemos passar o resto do Natal com o vovô Jack? Meu pai não diz nada por um instante e eu ouço Frankie Valli me dizendo para "andar como homem", ao fundo. - Está bem. - Ele tosse. - Eu acho. É, acho que posso fazer isso. ****** Quando meu pai me pega, eu não comento o fato de que ele está com a barba por fazer e vestindo calças de moletom e ele não pergunta por que eu estou em Greenwich, ou como passei a manha. Nenhum de nós se habilita a explicações. Não dá para mudar hábitos de um dia para o outro. - Ouça, eu preciso lhe dizer algo - diz ele, depois que já não temos nada a dizer por um tempo, e imagino se ele esteve ensaiando as palavras em sua cabeça. Ele limpa a garganta de maneira ensaiada. - Eu já sei, pai. Sobre o vovô Jack. - Eu o poupo do esforço de dizer isso em voz alta. Quero tornar a coisa mais fácil. Para nós dois. - Ah. -Pai? - Hein? - Por que não me contou antes? - Eu não sei. Acho que não queria machucá-la. Você e meu pai sempre foram tão próximos. - Ele pára. - Eu sei que ele foi mais como um pai para você, e você já perdeu sua mãe. Não parecia justo.

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- É. - Percebo que nós dois sofremos de uma forma perversa por excesso de boas maneiras. Parece fútil continuar tentando proteger um ao outro da verdade. - Eu não queria que fosse verdade. - Ele esfrega o rosto com os dedos. Depois olha para a mão, como se não estivesse acostumado à sensação. Como se a barba crescida lhe causasse uma surpresa. — Já é o bastante. - Acho que sim. — Nós continuamos quietos e deixamos o rádio do carro preencher o silêncio, com nossas bocas se movimentando conforme a letra da música, pelo hábito. Só há a estrada vazia à nossa frente, um corredor entre as árvores infrutíferas. - Mesmo assim - recomeço. - Eu sei - diz ele. - Sinto muito. - Pai? - Hein? - Mas está tudo bem. Agora é a hora. Ele está pronto. - Você acha? - E, eu acho. Eu também estou. - Está? - Acho que sim. Estou tentando ficar. - Mas não é fácil, é? Sabe, a sua mãe ficaria muito orgulhosa de você. Ela ficaria muito zangada comigo, por eu não estar por perto da forma como deveria. Eu sei disso. Mas ela ficaria muito orgulhosa de você. - Mesmo? Você acha? - É claro. Embora tenha sido meio tolo de sua parte terminar com o Andrew. E, em algum outro momento, nós precisamos conversar sobre o que você pretende fazer com essa sua carreira. - Meu pai continua olhando diretamente em frente, mas o canto da boca se curva, só um pouquinho. - Eu tenho as minhas fontes. - Eu estava querendo lhe contar. Mas não fiz isso, não sei por quê. Ele acena com a mão, como se dissesse para eu não me preocupar com isso. Mas sua voz fica séria novamente. - Emi, eu não sei como fazer isso, ser uma família, sem Jack. Eu vou tentar, prometo. Mas não sei como. Preciso de sua ajuda. Isso... nós... isso não me vem com naturalidade. - Nem pra mim. - Mas podemos tentar, certo? - É claro que podemos tentar, pai. Não tenho certeza se temos escolha. Meu pai estica o braço até meu banco e aperta minha mão. Seu gesto é terno e estranho. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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****** Quando chegamos a Riverdale, o vovô Jack está sentado na cama, assistindo a um antigo episódio de The Young and the Restless, que alguém havia gravado para ele. É uma cena de casamento e o padre pergunta aos convidados, todos eles gente bonita, se alguém tem algo contra a união. - Oi, pap - diz meu pai, e dá um abraço em meu avô. Meu pai nunca abraça. Ele aperta a mão. Isso é um progresso. - Feliz Natal, vovô. - Eu lhe dou um beijinho no rosto. Meu avô pega o controle remoto e aperta o botão de pausa. A tela congela com um homem de cavanhaque com o dedo em riste, fazendo uma objeção. - Finalmente vocês dois apareceram - diz o vovô Jack, mas ele está sorrindo. - Como está se sentindo, pap? - meu pai pergunta, embora a resposta seja óbvia. Meu avô é uma miniatura do que era antes. Seus olhos amarelos parecem enormes e empapuçados, desproporcionais ao rosto encolhido. Eu me pergunto para onde ele foi. Ele não deve estar pesando mais do que quarenta quilos. Para onde foi tudo? Ele está no ar? Eu o estou respirando, nesse instante? - Tudo bem - diz o vovô Jack, confirmando que os Haxby não conseguem evitar mentir uns para os outros. Mas será que seria melhor se ele contasse a verdade e dissesse algo como "minhas vísceras estão apodrecendo e esse negócio de morrer dói como o inferno?". - Fico contente. - Meu pai balança a cabeça, como se fosse anotar a resposta num prontuário médico. O vovô Jack parece pequeno o suficiente para ser pego no colo. Talvez eu pudesse enfiá-lo em minha bolsa e levá-lo escondido para casa, comigo. Carregá-lo por aí, como um pequeno Yorkshire, em segurança, embaixo de minha axila. Embora eu saiba como se joga, não tenho certeza se posso continuar. Sinto-me como se fosse implodir a partir desse sorriso em meu rosto. O vovô Jack vai morrer. Eu sei disso. Ele sabe disso. Meu pai sabe disso. Não precisamos fingir. - Vovô Jack? - Sim, Emily. - Eu me pergunto se essa é a última vez que vou ouvi-lo dizer meu nome. Lembre-se disso, eu digo a mim mesma. Lembre de como soa. Isso é importante. - Eu vou sentir sua falta horrivelmente. - A água se acumula em minhas pálpebras e as lágrimas caem, uma de cada vez, uma após a outra. Meu pai desvia o olhar, olhando pela janela, para o estacionamento. Ele não quer tomar parte desse momento. - Também vou sentir sua falta, garota — diz o vovô Jack, com a voz rouca. - Venha sentar comigo. Quero você bem aqui. Eu pego sua mão e sento ao seu lado. Meu pai atravessa o quarto e fica com o rosto desviado de nós. Mas depois muda de idéia, dá a volta e vem se juntar a nós, na cama. Eu estou do lado direito, meu pai na esquerda, e esticamos as pernas. Tem espaço suficiente, porque o vovô Jack quase não ocupa espaço entre nós. Alguém aperta o play no controle remoto e nós acabamos pas¬sando o resto do Natal assim. Três gerações dos Haxby, o vovô Jack, meu pai e eu deitados numa cama. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Nós três assistindo a antigos episódios de The Young and the Restless. O volume da televisão está o mais alto possível.

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Capitulo 37 Quando apareço na porta do apartamento de Andrew, às seis da manhã, meu primeiro pensamento é que eu deveria ter ligado primeiro. Aparecer sem se fazer anunciar ao raiar do dia, depois do Natal, não é a melhor forma de provar minha sanidade, nem o meu amor. Eu não sei se ele está em casa e, se estiver, se está sozinho. Talvez esteja lá dentro com outra mulher, apenas alguns metros de distância, cantando alegremente uma canção natalina, uma bem vulgar, tipo "Santa Baby". Ou, pior, talvez eles estejam dormindo profundamente, ele descansando a boca sobre o ombro dela, seu corpo enroscado ao dela. Aposto que ela é loura e recentemente pagou uma mulher russa para fazer uma depilação à moda brasileira. Talvez eu deva dar meia-volta e ir para casa. Mandar um e-mail, ou escolher um cartão, ou ligar. Talvez eu deva dar meia-volta, ir para casa e desistir dele para sempre. Aceitar que tive minha chance, que estraguei tudo, e seguir em frente. Mas não consigo. Não vou fazer isso. Vou lutar por nós. Recomeçar do nada. No entanto, continuo paralisada no mesmo lugar, em pé sobre seu capacho escrito Bemvindo!, incapaz de apertar o botão e incapaz de ir embora. Não tenho certeza quanto tempo fiquei em pé aqui, mas já faz tempo suficiente, minhas pernas estão cansadas e sei que a tinta da moldura da porta está rachando em cento e trinta e dois lugares. Já fiz aquele negócio de "um, dois, três e já!" quinze vezes. Li a primeira página de seu New York Times. Tentei fazer respiração de ioga. Não consigo. Passo mais tempo pensando no que eu posso dizer, se um dia eu conseguir tocar a campainha e, se ele estiver em casa, duas possibilidades imensas, que me dão uma distância clínica da realidade do que estou tentando fazer. Se X e Y, então, Z. Eu não estou tomada por aquele frenesi apaixonado que se vê na televisão, quando você tem que dizer imediatamente a uma pessoa como se sente. Em vez disso, não sinto nada além de terror, sabendo que, a uma certa altura, no futuro próximo, vou ter que falar diretamente com Andrew. Que vou precisar falar. Que vou ter que explicar meu comportamento ao longo dos últimos meses. Que terei de pedir desculpas. Que terei que dizer coisas que não podem ser desditas e desfa¬zer coisas que não tenho certeza se podem ser desfeitas. Eu vou pedir um recomeço. Um fim de jogo, um tente novamente. As probabilidades estão contra mim. E muito mais provável que eu perca do que ganhe. Eu me sinto nauseada e penso na possibilidade de ficar aqui por muito mais tempo, talvez vomite na porta de Andrew. Meus órgãos dão a sensação de estarem comprimidos uns contra os outros, como se não houvesse espaço suficiente para todos caberem dentro de mim. Como se eu estivesse no Jogo da Operação e as pinças ficassem tocando minhas extremidades, mandando correntes elétricas direto ao meu âmago. Quando a sensação fica difícil de agüentar, coloco o dedo na campainha e aperto. Ponho meu corpo inteiro nela, então, ela toca alto e por um bom tempo. Depois eu espero. Eu não ouço nada do outro lado da porta. Toco novamente. É mais fácil da segunda vez. Depois espero mais um pouco. Acabo ouvindo um movimento lá dentro. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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- Quem é? - pergunta Andrew. - Sou eu - digo, depois percebo que já não estou no círculo do "sou eu". — É a Emily. - Que diabos? - o ouço dizer, depois ouço uma batida forte, seguida por outro "porra", depois, "mas que porra". - É a Emily - eu repito, embora esteja certa de que ele me ouviu da primeira vez. - Você tem cento e trinta e duas rachaduras na sua tinta. - O quê? — A porta se abre e Andrew está de pé, diante de mim. Ele está vestindo uma cueca samba-canção verde, de bolinhas, que eu comprei pra ele na liquidação da Gap, está sem camisa. Seus olhos estão meio fechados, apertados pelo sobressalto da manhã. Sua mão direita está massageando o cotovelo esquerdo. Andrew não está rindo. Ele me olha, mas não diz nada. Não me manda entrar, nem me diz para ir embora. Simplesmente fica ali, apertando os olhos e esfregando o cotovelo. - Oi - eu o cumprimento. - Emily? - ele diz, como se tivesse acabado de notar que sou eu. E bom ouvi-lo dizer meu nome, embora seu tom não seja amistoso. - Oi - repito. - Feliz Natal. Andrew entorta a cabeça e me encara. - Posso entrar? - Ele abre mais a porta e eu o sigo para dentro do apartamento. Não tenho certeza se devo sentar ou continuar em pé. Andrew não senta, então, eu permaneço de pé. Posso fazer isso de pé. Eu havia imaginado nós dois, tendo essa conversa no sofá dele, mas posso improvisar. Eu consigo fazer isso. "Sei que está cedo e lamento por ter te acordado. Eu queria falar com você, mesmo sabendo que você não quer falar comigo. - Respiro fundo e olho ao redor do apartamento. Não venho aqui desde o Dia do Trabalho. Está exatamente igual, como um mostruário da Ikea - sofácama bege, tapete marrom, fotografias em preto-e-branco emolduradas nas paredes. Isso me encoraja, de alguma forma. Como se os móveis estivessem no lugar, esperando que eu voltasse. "É uma hora ruim?" - E tarde para fazer essa pergunta, não acha? - É. - Eu olho para o chão. Percebo uma batata frita perdida e fico tentada a pegar e colocá-la na lata de lixo. Mas não faço, é muita presunção. -Você está sozinho? Quer dizer, eu preciso falar com você, mas preciso falar com você a sós. Posso ver que disse a coisa errada, pois Andrew parece zanga¬do, como se estivesse prestes a começar a gritar comigo. - Não, estou só eu. Ninguém mais. - Ele está berrando, sem gritar. - O dia ainda está raiando. O que você quer? - Só falar. Podemos sentar? - Minhas pernas estão bambas. Eu sento sem esperar pela resposta. Ele me segue e se empoleira no braço do sofá, o mais distante possível de mim. "Você sabe que não sou muito boa nisso - eu paro, esperando que ele me salve, mas Andrew olha para baixo e espera que eu fale. Ele não chegaria a lugar algum se fizesse terapia; Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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não tem medo algum do silêncio estranho. - Tem um monte de coisas que eu preciso te falar, e espero que você ouça. Na verdade, eu não mereço, mas espero, mesmo assim... Eu sei que deveria ter ligado, em vez de simplesmente aparecer. Sei que parece estranho, e não de uma forma agradável. Então, peço desculpas por isso. Desculpe por tudo. Eu claramente não sei fazer isso direito." - Emi, não é um crime terminar com alguém. Já superei. - Andrew dá de ombros, como se não fosse grande coisa. Ele já não parece zangado, apenas apático. O que, agora eu percebo, é muito, muito pior. - Eu fiz merda - digo. - Quer dizer, eu não me arrependo por ter terminado com você. - Certo. - Ele balança a cabeça, como se dissesse: Então, que porra você está fazendo aqui? - Eu tive que terminar. - Certo. - Porque eu não estava pronta para você. Quer dizer, minha cabeça estava uma bagunça e eu não sabia disso. Entende? - Não. - Eu estava fingindo que estava tudo bem, mas não estava. Eu estava usando um colete salva-vidas no meu coração. Entende? - Não. - Eu estava andando sem combustível, entende o que quero dizer? - Não. Preciso parar de fazer perguntas retóricas. - Mas agora estou diferente. E como se eu tivesse despertado. Eu tenho um rim para dar. Não consigo falar nada. - Mas eu não preciso de um rim. - Mas, se precisasse, eu te daria um dos meus. Sem pestanejar. - Obrigado. - De nada, é sério. - Certo. - Andrew se levanta, um sinal de que a conversa terminou. - Bem, obrigado pelo rim, se eu precisar. - Andrew. - Eu olho nos olhos dele pela primeira vez essa manhã. - Andrew - repito. - Por favor, apenas espere. Respiro fundo mais uma vez, para me acalmar, mas isso tem um efeito oposto, e eu começo a chorar. Lágrimas imensas, soluçantes, histéricas, do tipo que sinalizam que ele deve sair correndo, ou possivelmente olhar de longe, mas, sob circunstância alguma, se envolver. Para seu crédito, Andrew senta de volta no sofá e não olha para mim. Ele fica totalmente imóvel. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Após alguns minutos, Andrew levanta e volta com um copo d'água e uma caixa de lenços de papel. Ele coloca os dois na minha frente, na mesinha de centro. - Eu vou parar logo, prometo - eu digo. - Vai passar. - Eu sei. Eu vou esperar. Há algo em ouvir a voz de Andrew que irrompe e faz meu pulso desacelerar, contém minhas lágrimas. Enxugo os olhos com o lenço de papel e assôo o nariz. Vou até o banheiro e jogo água fria no rosto. Quando olho no espelho, uma versão inchada e dis¬torcida de mim me olha de volta. O que você está fazendo, Emily? Faça isso direito. Agora chega. - Certo. Desculpe por isso. Agora voltei. Andrew balança a cabeça, mas parece exausto. Cansado de mim. - Eu sei que caguei tudo. Mas eu te amo, Andrew. E eu amava no cinema, quando não retribuí, quando você disse primeiro. E te amava quando terminei com você, no Dia do Trabalho. Eu gostaria de poder te explicar tudo, te dizer por que saí correndo da melhor coisa que já me aconteceu, e vou tentar. Mas é complicado. Antes, eu precisava aprender sobre mim. Eu não estava pronta para retribuir naquela época. Não estava pronta para um Andrew. Mas agora? Agora estou. Não estou mais anestesiada, sabe? E eu gostaria que tudo fosse mais simples, e eu pudesse explicar isso como "Bem, Andrew, eu terminei com você porque estava com medo de te amar e te perder, e ter que passar por tudo isso", o que seria verdade, mas essa não é a história toda. Não é simples assim. Andrew se remexe para ficar de frente para mim. O movimento é sutil, mas é o suficiente para eu interpretar como um sinal para que eu continue falando. Ele está ouvindo. - Acho que o que estou tentando dizer é que caguei tudo, mas acho que fiz isso por um motivo. Você não ia querer ficar com a pessoa que eu era alguns meses atrás. Eu estava infeliz e vazia, e não sabia disso. E agora, bem, agora estou melhor, eu acho. Ao menos estou trabalhando nisso. - Certo, fico contente que as coisas estejam melhores para você. Realmente fico. Mas, Emily, eu não sei o que você quer de mim. Você me deixou, lembra? - Andrew olha para baixo e começa a desenhar círculos no sofá, com os dedos. Circulando, circulando, circulando. - Eu sei que não posso desfazer os últimos meses. Penso nisso como se eu tivesse nos estilhaçado. Eu nos estilhacei, assumo total responsabilidade por isso. Mas eu adoraria, adoraria, adoraria se pudéssemos tentar novamente. Se eu pudesse tentar de novo. Se eu pudesse tentar nos refazer. Refazer o mosaico. Colar novamente, algo assim. Eu respiro e espero. É agora. Nenhum de nós se mexe, nem respira, e eu me pergunto se nós podemos sair flutuando nesse nada. Essa ausência de som. Na verdade, não dói. É como o cessar do sentimento. Eu quase não quero que termine, porque, então, vou saber. Talvez seja por isso que fiquei muda por tanto tempo. Afinal, talvez, seja mais fácil não saber. Então, ao menos se tem esperança. - Emily - diz Andrew, depois pára. - Emily. - Hein? - digo, depois olho. Ele não me pegou nos braços. Não me beijou. Acabou. Fim de jogo.

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-Tudo bem, você não precisa dizer nada. Já entendi. - Fico me perguntando se dá pra ver meu coração partido. Será que Andrew consegue vê-lo, nesse momento, no chão, esmigalhado, em centenas de pedacinhos, espalhados no meio das migalhas de batata frita? - Não, você não entende - diz ele, baixinho. Quase sem fazer barulho. Eu fico sem ar. - Eu te amo e não sei que porra fazer quanto a isso. Não parei de me sentir assim no Dia do Trabalho, quando você arruinou tudo, embora Deus saiba que eu queria. Mas querer estar com você, me preocupar com você, e me importar com você não é uma boa sensação, ou, pelo menos, não foi, durante esses últimos meses. Você é como uma porra de uma maldição. Por que você acha que pedi que me deixasse em paz? - Andrew fica em pé e começa a caminhar em frente ao sofá, a cada palavra, a cada passo, sua voz fica mais alta. "Uma porra de uma doença. Você é como uma porra de um vírus comedor de carne. Mas você está aqui e eu não sei. Há tanto que não dissemos um ao outro e não é tudo culpa sua. Eu sei disso. - Ele aponta para mim, como se fosse uma acusação. - Não pense que não sei disso. Eu deveria ter forçado você, ou não deveria tê-la deixado se afastar sem enfrentá-la. Mas deixei. Eu pensei... não sei, que você acabaria vendo o que tínhamos. E acordaria. Mas você não viu e isso nos estilhaçou. Essa é a expressão certa. Engraçado, você encontrou as palavras certas para isso. Você nos estilhaçou. - Ele aponta para mim novamente, com o dedo indicador." - Eu nos estilhacei - digo. - E, agora, você está tentando nos consertar? Porra, eu não sei. Simplesmente não sei. Ele pára na minha frente e se curva, e fica de joelhos, então, nossos olhos ficam nivelados. Não há mais nada a ser dito, exceto por tudo, e percebo que é hora de ir à luta. Não posso mais segurar. Não é justo por nós dois. - Eu te amo, Andrew. Eu amo sua risada dormindo. Quem ri dormindo? E o som mais lindo que eu já ouvi. E é você. Há seis bilhões de pessoas nesse mundo, e certamente muitas delas são bebês, mulheres, estrangeiros e desconhecidos, mas essa não é a questão, é? É você. Essa é a questão. No fim do dia, eu não posso virar as costas para isso. Não tenho mais medo. Está bem, é mentira. Ainda me cago de medo, mas não vou deixar que o medo me impeça. Não vou digo isso como se fosse conclusivo, como se eu tivesse tomado uma decisão por nós dois, embora eu saiba que não é verdade. Isso não funciona com Andrew. - Eu rio durante o sono? - ele pergunta, e coloca as mãos nos dois lados do meu rosto. - É - confirmo. - Você não sabia disso? - Não sabia, não. - Ele chega o rosto mais perto, como se estivesse querendo me ver melhor. - Você ri. Muito. Isso não é normal. - Há seis bilhões de pessoas no mundo? - Talvez seja mais perto de sete bilhões. - Você chora dormindo - ele diz. - Isso também não é normal. - Eu choro?

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- É, chora. E o som mais triste que eu já ouvi. - Andrew se inclina para a frente mais um pouquinho. Suas mãos ainda estão levemente pousadas em minhas bochechas e ele me beija na testa. Eu fecho os olhos e memorizo o beijo. - Mas não vou mentir. Não é bonito quando você faz isso. Nem um pouco. É de partir o coração. Por favor, por favor, pare de fazer isso. — Ele beija meu rosto. Eu não quero olhar para ele. Não quero ver se esse é um jeito de dizer vamos ser amigos. Mas ele não pára. Ele beija a ponta do meu nariz. Minhas pálpebras. Novamente a minha testa. Ele se move em câmera lenta, propositadamente, como se cada beijo fosse uma decisão consciente. Uma palavra que ele quisesse articular direitinho. Andrew pega minhas mãos nas suas e beija as pontas dos meus dedos, fazendo cócegas, de leve. Beije-me para valer, eu quero gritar, mas não grito. Posso esperar o tempo que for. Em vez disso, eu recolho as minhas mãos, beijo novamente as pontas dos meus dedos e toco os cantinhos de seus olhos. Tracejo devagarzinho, notando as rugas, tentando decifrar se o desenho está diferente da última vez que estive tão perto delas. De alguma forma, parecem mais profundas, como se tivessem sido adquiridas recentemente. - Olhe para mim - Andrew pede, e eu o olho diretamente nos olhos. O mundo volta a ficar em silêncio. - Você tem certeza? - Eu tenho certeza. Eu tenho certeza - digo, bem alto, para fazê-lo me ouvir, para me fazer ouvir. Uma lágrima escapa do canto do meu olho e Andrew a pesca com um beijo. - Você tem certeza? Mas Andrew não me responde. Em vez disso, ele passa os lábios nos meus, um beijo sussurrado. Ele me beija novamente, dessa vez, com mais força, e eu retribuo, avidamente. O beijo é uma promessa. Um juramento. Uma afirmação. Mais tarde, quando estamos nus, na cama, ficamos deitados, um de frente para o outro. Nossos corpos estão entrelaçados, costurados juntos, como um zíper. É aqui, dentro da segurança do confinamento do edredom cinza, onde é quentinho e macio, que Andrew e eu começamos a falar. - Eu não quero voltar para onde estávamos. — Ele coloca uma mecha solta do meu cabelo para trás da minha orelha. - Nem eu. - Passo meus dedos pelos braços dele, subindo e descendo. Desenho balões, corações e círculos. - Estou falando sério. Nós não podemos simplesmente retomar de onde paramos. Não vou fazer isso. - Eu sei. Não é isso que quero. Eu quero refazer. Ainda podemos refazer as coisas como adultos? E possível, você acha? - pergunto. - Eu não sei. - Nem eu. - Dou de ombros. Andrew beija meu ombro nu. - Mas eu quero tentar. - Eu também. - Mesmo? - pergunto, embora nós já estejamos nus, e isso pareça ser uma decisão que já Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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foi tomada. Mas quero ouvi-lo repetir. - Mesmo. - Andrew saboreia a palavra. Eu me sinto como se pudesse fisgá-la no ar. Mesmo. - Preciso saber de sua opinião quanto ao Brookfyn. - Brooklyn? - É. Brooklyn. Talvez o Queens. - Aluguel mais barato. - Mais espaço. - Pode ser legal. - Mesmo? - Nós podemos ter um cachorro. - Mesmo? - É, eu sempre quis ter um cachorro. - Por quê? - Amor incondicional - ele diz. Um pouquinho mais tarde, nós mexemos nossas cabeças embaixo das cobertas. A cama de Andrew agora é como uma tenda, e nós cochichamos com a reverência de crianças de dez anos de idade no dormitório de um acampamento de férias. - O vovô Jack me disse para esperar você - diz ele. - Hã? - Quando eu fui visitá-lo. Eu não achei que ele tinha me reconhecido, mas, quando estávamos jogando pôquer, ele parou o jogo, do nada, e me disse para esperar você. Foi tudo que ele disse. "Espere por ela." E depois voltou a jogar. - Ele disse isso? O que você respondeu? - Eu não disse nada. Só continuei jogando. Mas realmente não tinha importância. Embora eu não quisesse, nem jamais fosse admitir, eu já estava esperando. - Eu tenho que te dizer uma coisa, mas, por favor, não diga nada de volta. Ainda não, está bem? - peço. - Tudo bem. - Eu te amo. Andrew não diz nada e fico contente que as palavras não tenham sido reduzidas a um eco. Eu não quero que elas batam na parede e voltem para mim. Em vez disso, quero esperar até que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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nós estejamos mais consistentes, mais enraizados. É minha vez de esperar. Eu me aconchego junto a Andrew e aperto meu corpo contra o dele, para apagar a linha que nos divide. Isso é o mais perto que consigo chegar daquilo que quero. Eu gostaria de poder comê-lo, talvez começar pelas pontinhas dos dedos, para que ele pudesse compartilhar minha pele e se tornar parte do meu interior. Quero misturar nosso sangue, me preencher com algumas hélices duplas de DNA, de nos transformar num todo. Um ser. Quero que nós tenhamos três rins sobrando. Quero que a gente tenha um coração a mais.

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Capítulo 38 Hoje eu sou uma super-heroína, vestida como uma advogada, vestida como uma superheroína. Pronta para salvar o mundo. Estou reconstruída. Estou melhor do que o Humpty Dumpty. Rearranjada. Lustrosa. Mas é melhor ir devagar, nada de chegar chutando a porta, com um dramático Chegou a ajuda!. Nada disso. Eu vou entrar, apertar a mão do entrevistador e surpreendê-lo com todas as minhas habilidades legais afiadas e minha mente analítica. Vou mencionar a Yale. Vou exagerar na minha experiência. Eu. Vou. Conseguir. O. Emprego. Eu armei minha psique. Bebi inúmeras xícaras de café na minha caneca da Mulher Maravilha. Usei um sabonete líquido esfoliante e caro. Raspei as pernas. Não arranhei os tornozelos. Não arranhei os joelhos. Esmiucei a website da Legal Aid e memorizei sua missão. Passou a ser a minha missão. Andrew ensaiou me entrevistando durante horas, me fez usar o meu terninho de "Suuuuperadvogada" para acumular confiança. Estou mais pronta do que nunca. E aqui está a minha chance. - Srta. Haxby, Barry irá vê-la - diz a recepcionista, e me conduz por um corredor estreito de carpete cinza barato diante de meia dúzia de cubículos de meia parede. Esse lugar é o oposto da APT. Nada de placas brilhantes com nomes, nem vidro jateado, nem mármore. Definitivamente, nada de lavadores externos de janelas. Em vez disso, tem fórmica e armários baratos de metal (etiquetados a mão) e portas provisórias. É perfeito. - Barry Stein, prazer — diz uma mulher de cabelo preto frizado e mechas postiças grossas. - Emily Haxby. - Tento esconder o susto por Barry Stein ser uma mulher, o que significa que, se eu trabalhar aqui, meu chefe será uma mulher que não irá encarar meu decote e de forma alguma lembraria Carl. Esse lugar é demais. - Então, conte-me sobre a sua experiência em defensoria pública. - Bem, eu não tenho muita. Passei os últimos cinco anos numa grande empresa, portanto... - E quanto aos casos defendidos sem remuneração? - Não, realmente não pegava esse tipo de caso. Havia metas financeiras a serem cumpridas e nunca havia tempo suficiente... — Emily, se aprume. Não estrague isso. - Mas você tem experiência em litígio, certo? - Sim, com toda certeza. Sou muito experiente. Sou uma advogada de litígio muito experiente. - Já atuou em julgamentos? - Sim. - Não. - Fez uma alegação de apresentação? - Sim. - Não. - Fez exame de acareação de testemunha? - Sim. - Não.

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- Atuou como advogada principal? - Sim. - Não. - Em que tipos de casos? - É... geralmente questões menores. Os sócios gostam de atuar nos casos grandes. Alguns casos de seguros, algumas coisas no setor imobiliário. Não quero entediá-la com os detalhes. - Não vai me entediar. - Não, realmente, é coisa bem trivial. Seguro, resseguro, subordinação de alegações, embargos colaterais, carpe diem, doutrinas de imunidade não-empresarial, previdência, juros de seguridade. - Carpe diem? - Perdão? - Você acabou de dizer carpe diem. O que quer dizer? - Eu não disse carpe diem. - Oh, eu achei que você tivesse falado carpe diem. - Rá-rá. Não, você deve ter me ouvido mal. Carpe diem! Isso é muito engraçado. - Acho que sim. - Aproveite o dia, e aqui estou eu, aproveitando o dia. - Emily, cale a boca. Simplesmente cale a boca. - Você está um pouquinho nervosa? - Sim, desculpe. E que essa é uma oportunidade ótima... - Então, não está usando drogas? - Drogas? Não. - Bom. Pareceu que você poderia estar. - Não. Absolutamente, não. Sou muito ansiosa para drogas. Mas acho que passei dos limites com o café essa manhã. - Isso explica a perna. - Hã? - Sua perna. Você não pára de balançar a perna. - Café demais. - Certo.

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- Certo. - Então, o negócio é o seguinte: você veio com ótimas referências, direito em Yale, trabalhou num dos mais respeitados escritórios de advocacia do país etc. etc. Você é meio esquisita, mas, para sua sorte, eu gosto de esquisitice. - Gosta? Quer dizer, obrigada. - Então, deixe-me falar sobre o trabalho. - Certo. - Basicamente, nós estamos buscando um membro para nossa equipe de direito civil, na área familiar. Portanto, você estaria trabalhando com questões de adoção, custódia, divórcio, esse tipo de coisa. Fazemos muito trabalho representando mulheres que sofrem abusos, mandados temporários restritivos e afins, aliás, isso é o que me faz estar aqui durante as festas. Nosso volume de casos geralmente vai às alturas durante o período natalino. Por alguma razão, mandos gostam de descer o cacete nas esposas durante as festas. Com o período da final do campeonato de futebol americano vindo em segundo lugar. - É mesmo? - É. Que doença, não é? Precisamos de gente que seja impetuosa, para falar em nome dos que não têm voz, uma plataforma aos desamparados. Precisamos de gente que não tenha receio de falar alto e bom som. - Isso tem tudo a ver comigo. Você acabou de me descrever. Eu sempre falo alto e bom som. - Certo. Eu tenho uma última pergunta para você. Por quê? Por que motivo você está aqui? Não de uma forma existencial. Por que quer o emprego? - Porque, se vou passar pelo menos setenta e cinco por cento das minhas horas acordadas fazendo algo, quero que esse algo tenha um significado. Estou cansada de perder meu tempo. Começo a perceber que quero que a minha vida tenha sentido em todas as formas possíveis. - Finalmente, uma resposta perfeita. Quando pode começar? - Você está me oferecendo o emprego? - É. Acho que estou. A verdade é que estamos desesperados por ajuda. Portanto, você quer? O emprego? - Sim. Sim, eu quero. Eu quero beijar Barry Stein bem na boca cor de morango e atirar meus braços ao redor de seu pescoço sensual. Quero dizer obrigada-você-não-vai-se-arrepender-por-isso, serei-a-melhorad-vogada-que-você-já-contratou, eu-já-disse-isso? Mas, em vez disso, aperto sua mão de maneira firme e profissional, combino de começar em duas semanas e saio pelo corredor acarpetado. Com um balanço confiante. Espero até estar a alguns quarteirões de distância e coloco as mãos juntas, em frente à cabeça. Para correr bem rápido, pela rua. Para simular um vôo. Para cantar as palavras "Suuuuuperadvogada".

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Capitulo 39 Aqui é onde termina. Bem aqui, no andar da unidade de tratamento intensivo da Casa de Repouso de Riverdale. Estamos prontos. Ou preparados, porque você nunca pode estar realmente pronto, não é? Você pode ouvir os médicos dizerem "chegou a hora", como se essas palavras significassem algo. Você pode ficar nervosa, ou firme, e ter ensaiado. Mas você não pode estar pronta. Se acha que pode, está enganando a si mesma. Porque mais tarde, quando você for ao cinema, vai pensar: o vovô Jack teria gostado desse filme. E, quando tiver um problema que não souber resolver, você pensará: o vovô Jack saberia o que fazer. E, quando estiver no altar, de vestido branco e jurar sua vida a outra pessoa, você pen¬sará: o vovô Jack deveria estar aqui para ver isso. Por muito, muito tempo, talvez até para sempre, isso irá doer como um inferno. Quando esse dia terminar, depois que alguém pegar a pá para desencavar meu interior, eu não terei alternativa senão tentar regenerar meus pedaços. E, porque ele é velho, e por estar pronto, e por ser esta a ordem natural das coisas, eu estou bem com isso. O vovô Jack está deitado no meio da cama. Meu pai e eu estamos um de cada lado, assumindo nossos lugares habituais. Temos vindo aqui quase todos os dias, desde o Natal, e a essa altura já temos uma rotina; eu sento do lado direito, meu pai senta à esquerda. Andrew dá uma passada, quando pode, pega o trem entre os plantões, e explica a função de todos aqueles equipamentos eletrônicos. O que está pingando nos tubos conectados aos ante-braços do meu avô, porque os médicos continuam tirando sangue quando parece não restar nem mais uma gota, quem são todos esses especialistas de jalecos brancos e pranchetas. Quando achamos que podemos ser confortados por fatos mais frios e duros, nós recorremos ao Andrew e ele nos atende, obedientemente. O vovô Jack continua encolhendo no espaço entre mim e meu pai, e me pergunto se essa será a forma como ele irá partir. Talvez suas moléculas se desintegrem diante de nossos olhos, até que ele seja um pequeno punhado de matéria, sobre os lençóis hospitalares manchados. Ou talvez ela irá implodir, num espiral rumo a um vórtice invisível. Talvez ele saia voando, como uma pilha de papel ao vento. Ao longo das últimas horas, desde que Andrew foi embora para o trabalho, o vovô Jack oscilou entre consciente e inconsciente. Ele não falou muito. Quando fala, parece que dói. - Eu lhe trouxe um presente, vovô Jack - digo, quando as enfermeiras param para vê-lo, como se ele tivesse morrido antes de morrer. Enfio a mão na bolsa e pego a minha tiara. Meu avô sorri e gesticula para que eu a coloque em sua cabeça. Eu ajeito a tiara sobre seus tufos de cabelo, e ele se transforma num príncipe infantil. Murcho, real e destemido. - Obrigada, garota. Adorei. - Cada palavra dá uma sensação de vitória. Sem pedir, pego seu boné de jornaleiro, que está no parapeito da janela e o coloco em minha cabeça. Agora é meu. Eu não preciso de algo tão tangível para me agarrar ao vovô Jack, mas, mesmo assim, me permito esse conforto. Eu puxo o boné bem para baixo sobre minha testa. Meu pai olha para o pai dele sobre a cama, de tiara e com o avental do hospital, e solta um barulho, um meio-termo entre uma risada e um choro. Aquilo soa como um clique de câmera e imagino nós dois mentalmente tirando fotos de vovô Jack, o mais rápido que podemos. Nós vamos nos lembrar de você. De tiara e avental, talvez, mas vamos nos lembrar. Agora é nossa vez de esperar pelo vovô Jack. Conversaremos com ele enquanto ele está Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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acordado, contando histórias do pequeno tesouro da família, tirados do baú de tempos em tempos. Nós tentamos incluir minha avó e minha mãe, para que o vovô Jack acredite que está indo até elas, ao contrário de estar nos deixando. Eu ainda não acredito que funcione assim, mas, em horas como essa, realmente não faz diferença no que você acredita. Nós afagamos a mão do vovô Jack, que parece exatamente como a nossa, exceto pelos sinais vermelhos e marrons. De vez em quando, damos um pequeno apertão, para lembrá-lo de que estamos ali. Que ele não está sozinho. - Lembra, vovô, quando quebrei meu braço na quinta série e você me levou para o hospital? Lembra? - pergunto, embora seja retórica. Agora já não é importante que ele lembre. Quero que ele ouça minha voz. Meu pai balança a cabeça ao ouvir a história, como se lembrasse também, embora ele não estivesse lá. As lágrimas escorrem de seus olhos, descendo uma a uma por seu rosto e ele as enxuga com a manga da camisa. - Eu deveria tê-lo ouvido mais, pap. Deveria ter vindo mais aqui. - Meu pai descansa a testa junto às mãos do vovô Jack. Seu corpo está curvado na forma de um pedido de desculpas. Meu pai e eu estamos falando do jeito que fazem as crianças, sem o vaivém do diálogo, em nossas trilhas paralelas. - Lembra quando você me visitou em Roma, durante o meu semestre no exterior? Você disse que foi porque minha voz pareceu muito solitária... - Não se preocupe, eu encontrei aquele testamento que você me pediu para procurar. Exatamente onde você disse que estaria, embaixo da pia, do lado esquerdo... - Nós fomos àquele restaurante que dizem ter a melhor massa do mundo inteiro. E comemos tanto que ficamos até meio enjoados depois, lembra... - E as providências vão ser todas do jeito que você pediu. Prometo... - Lembra quando você foi o guia naquela excursão do colégio ao Museu de História Natural e a minha professora ficou zangada porque você não usava uma "linguagem infantil e amistosa"? Depois, nós rimos tanto que quase fizemos xixi na calça, imaginando você escrevendo no quadro, cem vezes, Eu não vou dizer "maldito " na frente das crianças. E aquilo se tornou nossa piada. Eu não vou dizer maldito na frente das crianças... - Eu sei que nem sempre nos olhamos nos olhos, pap, mas... - Você cochichou isso no meu ouvido, pouco antes do enterro da mamãe. Eu não vou dizer maldito na frente das crianças. Você simplesmente sempre tinha exatamente o que eu precisava. Oh, Deus, isso ainda me faz rir. Até mesmo agora, sentada aqui, assim, com você... - Eu lamento, você não sabe o quanto lamento... De tempos em tempos, eu cochicho no ouvido do vovô Jack, para que ele possa me ouvir dizer as coisas que não tive a chance de lhe falar. - Obrigada por dizer ao Andrew para me esperar, vovô. – Eu ajeito a tiara para que fique reta em sua cabeça. - Obrigada por esperar até que eu estivesse pronta. Agora eu vou ficar bem. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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– Eu arrumo o cobertor para que ele fique aquecido e bem aconchegado. Para manter suas moléculas no lugar. "Eu estou pronta, se você estiver - eu digo, com minha voz alegre, como se estivéssemos prestes a fazer algo divertido, como pular de um trampolim." Eu levo a bandeja de comida intocada até o corredor. - Eu já sinto a sua falta - digo, quando o vovô Jack não responde e seus olhos já não focam. - Eu te amo - falo, repetidamente.

****** Mais tarde, quando meu avô cai novamente no sono, de alguma forma, nós sabemos que é pela última vez. O ar parece diferente. Mais pesado e com uma expectativa. Em silêncio, nós contamos a sua respiração. Um, dois. Um, dois. Um, dois. Será que estou pronta para que ele pare? Ele está pronto. Ele está pronto. Um, dois. Um, dois. Estou pronta. Quando o vovô Jack pára de respirar, quando o dois não vem, o quarto fica imóvel. Há uma suspensão do tempo e do som, como se o universo tirasse um momento para se ajustar à perda de outra alma. E o fim de uma sinfonia, tudo outra vez. E, embora meu pai e eu queiramos fazer qualquer outra coisa, qualquer coisa exceto esperar aqui - correr do quarto, gritar, berrar, talvez até bater palmas -, não o fazemos; em vez disso, nos forçamos a sentar e absorver o silêncio.

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Capítulo 40 São umas seis e meia da manhã e, apesar de estarmos no meio do inverno, o sol brilha pelas janelas, com uma luz cortante. Fatia o chão em longos filetes de triângulos pontudos. Se eu fosse atravessar o quarto, passaria da luz para a sombra, da luz para a sombra. Estou tentada a levantar e andar de um lado para o outro, para aquecer e esfriar as solas dos meus pés. Ficar em pé ao lado da cama e olhar o Andrew respirar. - Oi - diz Andrew, quando acorda e vê que também estou de olhos abertos. Eu estou aconchegada junto a ele, com as costas coladas à sua barriga e Andrew apoia a cabeça no cotovelo para poder ver meu rosto. Ele estica o outro braço e me puxa mais para perto. - Oi - digo, num sussurro, e sorrio para ele. - É cedo. A gente devia dormir de novo. - Você está bem? - ele pergunta, e me beija de leve, no pedacinho de pescoço logo abaixo do seu queixo. - Tô. - Eu fecho os olhos e depois abro de novo. - Eu tô. - Eu gostaria de ter estado com você, naquele dia. - Ele puxa as cobertas e cobre meu ombro. Um gesto protetor, que diz eu teria tentado fazer doer menos. - Eu sei, obrigada. Mas provavelmente foi melhor que fôssemos somente eu e meu pai. Só nós, para dizer tchau. - Eu ainda sussurro, por ser tão cedo, e porque "tchau" é áspera demais para ser dita com força. - Eu entendo. - Andrew põe o nariz no lugar onde beijou alguns instantes antes. O movimento me faz pensar se ele lembra do meu cheiro. Será que essa é uma forma de me memorizar? - Você está pronta para hoje? - Tão pronta quanto conseguirei ficar. - Pelo menos dessa vez a sua roupa vai servir. Sem ser espremida. - Não, nada de aperto. E dessa vez você vai estar comigo. Isso vai tornar as coisas mais fáceis. - Eu me debruço para beijar a barba por fazer. Depois fecho os olhos e volto a dormir, só mais um pouquinho. Mas não procuro ouvir a respiração de Andrew. Eu sei que ele está ali. ***** O enterro, ao contrário de todos os outros - e eu já fui a muitos —, tem uma vibração distintamente positiva. Sim, estamos numa igreja em Connecticut e estamos vestindo preto e ouvimos falar sobre Ressurreição e afins, mas o tom não é particularmente triste. Em vez disso, todos nós permanecemos cientes de que hoje deve ser uma celebração de arrasar, da vida do vovô Jack. Meu pai providenciou para que houvesse música ao longo de toda a cerimônia. Música dos anos quarenta, do tipo que dá vontade de dar um tapinha no joelho junto com a batida. A igreja é preenchida com os sons do trompete, trombone e piano. Com anseio, energia e otimismo. Ela prossegue suavemente, ao fundo, alta suficientemente para ser ouvida, mas não alta demais para distrair. É uma música que não teme o silêncio, nem o sentimentalismo do pesar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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O lugar está lotado. Tão cheio que tem gente obrigada a ficar de pé, atrás dos bancos, esfriando suas cabeças junto à parede da igreja. Eu reconheço algumas, mas não todas. A julgar pela predominância dos cabelos brancos, dá pra ver que a maioria é de amigos do vovô Jack, de Riverdale. Quando o padre termina o discurso, ele convida a quem quiser dizer algumas palavras sobre meu avô. Logo se forma uma fila até o púlpito. O primeiro a falar é um senhor mais velho, com um tufo de pêlos no nariz. Ele recita uma piada que o vovô Jack contava no show de talentos de Riverdale, recontando-a palavra por palavra. As piadas são infantis e simples, mas o riso e as palmas preenchem o ar ali dentro. Depois, ele caminha lentamente pelo corredor, até Maryann, que lhe dá um beijo nos lábios. Quando é minha vez de subir ao púlpito, fica claro que todo aquele ensaio foi pouco para me preparar para a coisa real. Eu digo algumas coisas sobre o vovô Jack, sobre o quanto ele era amado, e quanta falta fará, embora minhas palavras não tenham nada de originais ou poéticas. Não conto nada que já não tenha sido dito antes sobre alguém amado que se foi. Digo à platéia que ele foi ainda mais amado - mais, mais, mais —, mas soa injusto e insosso. Há coisas que eu gostaria de falar, mas não falo: que o vovô Jack foi tanto meu pai quanto minha mãe durante a época que eu tinha a sensação de não ter nenhum dos dois. Que, mesmo já adulta, eu acreditava que o vovô Jack era o meu super-herói particular. Que eu não falo maldito na frente de crianças. Mas não tem importância que eu não fale essas palavras em voz alta. Elas ainda são minhas, para guardar. - Eu conheci Jack já como uma mulher idosa, depois que meu marido morreu, quando também achei que uma grande parte de mim havia morrido - diz Ruth, quando é sua vez de subir ao púlpito. - Mas Jack modificou isso para mim. Ele me ensinou que há humor na perda, até mesmo na morte. Que aqueles que amamos permanecem conosco muito tempo depois que partem, numa forma além da lembrança e da consciência. Obrigada por me ensinar isso e me fazer rir todos os dias. Tchau, Jack, nós sabemos que você está aqui, agora, entre nós. - Toda a congregação abaixa a cabeça e repete essa última frase. Aquilo se torna um desejo coletivo, uma oração, um adeus. Um homem de bigode penteado e terno verde de poliéster sobe no púlpito depois de Ruth. Ele parece nervoso por estar diante da multidão e tira um lenço para secar as têmporas. - Eu trabalho no restaurante de Riverdale - diz ele, num inglês bem carregado de sotaque. Jack foi a pessoa mais generosa que conheci. Ele era sempre amistoso e sempre deixava uma gorjeta de vinte e cinco por cento. Sempre. Exceto quando entrava só para tomar café. Aí ele deixava o dobro do preço da xícara. Uma gorjeta de cem por cento. Mesmo depois que parou de me reconhecer, ele ainda lembrava de dar os vinte e cinco por cento. Deixe-me lhes dizer, há pouca gente no mundo que sempre deixa uma gorjeta de vinte e cinco por cento, mesmo quando está chovendo. Vocês sabiam que as pessoas dão menos gorjeta em dias chuvosos? Pois é. Uma vez, ele me deixou trinta dólares com uma conta de dois dólares. Estava nevando. Eu achei que era engano e saí correndo atrás dele, para devolver. Ele disse que não era engano. Ele me contou que tinha ganhado no jogo de pôquer e sabia que eu estava pagando a faculdade da minha Irena. Ele disse: "Aqui, fique com as trinta pratas. Gosto de passar as coisas à frente." Eu tenho orgulho por ter conhecido alguém que gosta de passar as coisas adiante. Vou sentir falta dele. Obrigado pelo seu tempo. Aí está. A homenagem perfeita. Melhor do que qualquer coisa que eu jamais poderia escrever em minha própria cabeça. A mão invisível por trás de todos aqueles picles, xícaras de café e milk-shakes de morango, alguém que eu encontrei mais de cem vezes e nunca conheci - é ele quem transmite a toda congregação quem o vovô Jack realmente era. Alguém que gostava de passar as coisas adiante. Alguém que todos nos orgulhamos por termos conhecido. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Quando chega a vez de meu pai falar, ele não sobe ao púlpito. Em vez disso, recorre à música para falar por ele e aumenta o volume ao máximo. Põe para tocar uma miscelânea das músicas favoritas de meu avô - Benny Goodman, Tommy Dorsey, os Ink Spots, um pouquinho de Duke Eliington. Nós todos fechamos os olhos para ouvir e, por um instante, parece que o lugar todo é um rádio. Juntos, somos todos jovens, amedrontados e esperançosos. Já estamos nostálgicos por hoje. ******* Após o funeral, meu pai convida Ruth, Andrew e eu para jantar. Não haverá recepção em casa. O funeral foi nossa despedida. Foi perfeito e agora acabou. Quando meu pai diz que está com vonta¬de de comer churrasco, Andrew o conduz até o restaurante engordurado na Terceira Avenida, aquele com os lápis de cera na mesa e as cascas de amendoim no chão. Aquele, onde eu nos estilhacei. Nós nos sentamos a uma mesa grande demais para quatro pes¬soas, mas perto dajukebox, que constantemente abastecemos com moedas. Não tenho certeza se está tocando as músicas que pedimos, mas ouvimos um pouco de Eliington, Radiohead, Beatles e Lynyrd Skynyrd. Eu componho uma lista de compras para o iTunes, em minha cabeça, para que possa recriar a trilha sonora, caso precise recorrer a ela, algum dia. - Foi um funeral divertido - comenta Ruth. - Posso falar isso? Eu espero que vocês não pensem que estou sendo desrespeitosa. - É claro que você pode falar isso. Você pode falar o que quiser nessa família. E a nova regra — diz meu pai. Nós somos uma família, eu penso. Ele sabe que somos uma família. - Você está absolutamente certa. Foi um funeral lindo. Exatamente o que o vovô Jack ia querer - concordo. - Definitivamente - diz Andrew e ergue o copo de cerveja para um brinde. - Ao vovô Jack. - Ao vovô Jack - nós repetimos e batemos nossos copos. - E a um Feliz Ano-Novo, pois ele ia querer isso também - diz meu pai. - A um Feliz Ano-Novo - repetimos e novamente tilintamos nossos copos. O garçom traz uma bandeja de asas apimentadas. Nós caímos de boca, lambuzamos nossas bocas de molho, queimamos os lábios até incharem, usamos babadores, como bebês, amarrados em nossos pescoços. Nós nos orgulhamos de nossos dedos tingidos de vermelho. Não sentimos qualquer intimidação quando o garçom traz uma segunda rodada, com molho extra. Embora não estejamos competindo para ver quem come mais, também não nos rendemos à refeição. Nós a conquistamos. Depois de entulharmos nossos estômagos e ficarmos sem moedas, depois de deixarmos para trás uma gorjeta de trinta dólares e uma pilha de ossos de galinha, depois de me sentir mais cheia do que posso me lembrar, nós saímos rumo à Terceira Avenida. Nos perfilamos, ombro a ombro: meu pai com os cabelos despenteados, ainda com marcas de beijos de condolências nas bochechas, Ruth, com suas rugas que captam os anos de expressões num único rosto, Andrew, com as pontas dos dedos circundando meus quadris e eu, também, olhando e esperando.

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Não há câmera, portanto, não há foto. Mas agora eu não me preocupo em esquecer. Disso eu hei de me lembrar, desses momentos envolventes, de nós quatro juntos, os quatro presos em algum lugar entre guardar e esquecer.

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Agradecimentos Obrigada, três vezes, à minha agente, a extraordinária Elaine Koster, que me conduz com honestidade, paciência e gentileza. Sou eternamente grata. E, é claro, muito obrigada à minha editora, Susan Kamil, que sempre me surpreende com sua perspicácia, sabedoria e senso de humor, conseguiu transformar em puro prazer cada passo deste processo. Sinto-me abençoada e inacreditavelmente afortunada por ter caído nas mãos capazes de Elaine e Susan. Francesca Liversidge e toda a equipe da Transworld, sou imensamente grata por seu apoio. Agradecimentos especiais a Chandler Crawford, David Gros-sman e Helen Heller. Sou muito grata aos meus primeiros leitores, que se dispuseram a passar por um primeiro rascunho ainda em estado tão bru¬to: Pamela Garas, Lena Greenberg e Mark Haskell Smith. MHS, obrigada por também ser um mentor tão fantástico. Agradecimentos especiais a Laurie Puhn por sua extrema generosidade, tempo, conselhos e orientação. E, embora minha lista seja infinita, muitos agradecimentos a: Megan Dempsey, Melissa Fien, Meredith Gaito, Marion Gol-dstein, Seth Greenland, Halee Hochman, Scott Korb, Liz McCuskey, Jenna Myers, Jonathan Pecarsky, John Schowengerdt (que cunhou o termo "felizdesempregada") e a Walt e David Zi-fkin. Obrigada à família Flore, e a Sunny, é claro, que recebe um grito especial - nunca diga que eu não cumpro promessas... Meu amor infinito e meu muito obrigada ao meu pai, Fred, e meu irmão, Josh, por não me dizerem que eu estava louca quando decidi pedir demissão de meu emprego para escrever. O apoio de vocês é tudo. E, embora qualquer um que conheça meu pai já saiba disso, que seja dito, de uma vez por todas, que de forma alguma ele lembra o pai ficcional desse livro. E, finalmente, não há palavras suficientes para expressar a minha gratidão ao meu marido, melhor amigo e parceiro de crime. Indy, eu te amo até a sua última molécula.

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Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Traduções e Digitalizações para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da leitura àqueles que não podem pagar, ou ler em outras línguas. Dessa forma, a venda deste e‐ book ou até mesmo a sua troca é totalmente condenável em qualquer circunstância. Você pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que não hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo público, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsável da Comunidade – tradu.digital@gmail.com Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Traduções e Digitalizações Orkut - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057 Blog – http://tradudigital.blogspot.com/ Fórum - http://tradudigital.forumeiros.com/portal.htm Twitter - http://twitter.com/tradu_digital

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O Oposto Do Amor.  
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