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Universidade Federal de Juiz de Fora Pós-Graduação em Ciências da Religião

Jovanir Lage

AS RAÍZES DO FUNDAMENTALISMO NO PROTESTANTISMO DE MISSÃO E SUA RELAÇÃO COM OS TEXTOS SAGRADOS: ABORDAGEM CRÍTICA

Juiz de Fora 2013


Jovanir Lage

AS RAÍZES DO FUNDAMENTALISMO NO PROTESTANTISMO DE MISSÃO E SUA RELAÇÃO COM OS TEXTOS SAGRADOS: ABORDAGEM CRÍTICA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, área de concentração: Temas de Religião II, da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para aprovação em disciplina isolada.

Orientador: Prof. Dr. Wilmar do Valle Barbosa

Juiz de Fora 2013


Resumo

O fundamentalismo é uma figura da modernidade. Embora apresente paradoxalmente, uma aparente relação, tanto de reação, quanto de identidade, deixa transparecer seu constante apelo por um projeto coerente e unitário de sociedade. O fundamentalismo protestante, diante das variadas formas de fundamentalismo religioso como o islamismo, o hinduísmo e o judaísmo é certamente um tipo específico, que deve ser compreendido como integrante de um gênero mais abrangente no cristianismo. Como corrente teológica, ganhou forma no final do século XIX, nos Estados Unidos da América. Sua oposição à teologia liberal e ao método histórico-crítico de interpretação do texto bíblico, associada à “utopia religiosa” de espiritualizar a política, é fortalecida com a ideia da verdade absoluta do texto sagrado, tornando a Bíblia uma autoridade incontroversa para a transformação ideológica e política do mundo. Sob esta perspectiva, o presente trabalho pretende analisar, de forma crítica, esta relação do fundamentalismo protestante com o texto sagrado e o uso da intertextualidade nas raízes do protestantismo de missão para o desempenho de seu papel relevante como ideologia política, social e proselitista.

Palavras-chave: Fundamentalismo – Extremismo – Religião - Protestantismo


SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 5 1. O QUE É FUNDAMENTALISMO? ............................................................... 7 1.1

A questão do fundamentalismo em Bruce.............................................................. 7

1.2

Fundamentalismo religioso em Pace e Stefani ..................................................... 8

1.3

Os problemas do fundamentalismo religioso ......................................................... 9

2. AS RAÍZES HISTÓRICO-TEOLÓGICAS ................................................... 11 2.1

Niágara Falls ............................................................................................................. 11

2.2

The Fundamentals.................................................................................................... 12

3. AS RAÍZES DO FUNDAMENTALISMO NO ROTESTANTISMO DE MISSÃO ........................................................................................................... 13 4. ABORDAGEM CRÍTICA AO FUNDAMENTALISMO PROTESTANTE E O USO DA BÍBLIA ............................................................................................... 15 4.1

5.

A inerrância bíblica ................................................................................................... 16

4.1.1

Maniqueísmo e anti-intelectualismo .............................................................. 18

4.1.2

A expectativa pelo fim do mundo ................................................................... 19

CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 20

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 23


INTRODUÇÃO

Falar de fundamentalismo, torna-se sempre um exercício de reflexão. Principalmente sobre as questões que envolvem a cultura e vida em sociedade. O conceito de fundamentalismo tem sua origem na palavra fundamento, deste modo, não há casa que possa ser construída sem fundamento, não há argumento que possa ser formulado sem fundamentos, não há existência humana sem fundamento. O problema surge quando pessoas, grupos eu determinadas organizações tomam para si estes fundamentos com o caráter de verdade incontroversa e os vazem absolutos para expressar o seu ponto de vista. Segundo Leonardo Boff: “Fundamentalismo não é uma doutrina, mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. Fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista, que se sente portador de uma verdade absoluta e sendo assim, não pode tolerar outra verdade e o seu destino é a intolerância que gera o desprezo do outro.” 1 Para o senso comum, ser fundamentalista está associado, quase sempre, a uma atitude arcaica, impositiva e extremista, que invariavelmente nos remete ao modelo de estrutura de civilizações da Idade Média. Porém, ao aprofundarmos a compreensão deste tema temos a chance de perceber uma constante tensão entre reação e identidade, que os movimentos fundamentalistas têm com a modernidade e o desejo de construir sempre, uma nova sociedade. O presente trabalho, tem como objetivo pesquisar, a partir de uma abordagem crítica, as raízes do fundamentalismo no protestantismo de missão e sua relação com os textos sagrados. Em um primeiro momento estudaremos a questão do fundamentalismo, apoiados nas definições de Steve Bruce, no livro Fundamentalism, que nos mostra de forma mais abrangente a relação entre fundamentalismo e modernidade. Logo em seguida com os 1

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz: desafios para o século XXI. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p.9


autores Enzo Pace e Piero Stefani, estudaremos a questão do fundamentalismo religioso contemporâneo, que nos revelam traços da gênese deste movimento, construído como importante reserva de sentido. No segundo capítulo, pretendemos abordar as raízes histórico-teológicas deste movimento, bem como a origem do fundamentalismo religioso protestante, concentrado nos debates sobre as modalidades de interpretação da Bíblia a partir do século XIX nos Estados Unidos da América. O próximo passo será a abordagem introdutória sobre as raízes do fundamentalismo no protestantismo de missão, como resultado do desenvolvimento sócio-político e econômico dos Estados Unidos da América após o século XIX, conhecidos pela expressão “american way of life”. Também veremos o resultado da expansão missionária que se desenrolou a partir do conceito do “Destino Manifesto”. O capítulo quatro trará uma abordagem crítica quanto ao fundamentalismo protestante e o uso da Bíblia, dentro do conceito da inerrância do texto sagrado; do desenvolvimento da ideia do bem e do mal, conhecida como maniqueísmo e do anti-intelectualismo; da expectativa pelo fim do mundo, com as ideias do milenarismo e o apocalipsismo. Como considerações finais, fica-nos a impressão de que o fundamentalismo enfrenta um paradoxo, pois este movimento que deveria se tornar referencial para uma nova postura ética e moral, com o retorno da religião às esferas governamentais, acaba em fracasso por não conseguir levar em frente seu projeto.


1. O QUE É FUNDAMENTALISMO? Quando se pensa em fundamentalismo, cria-se no imaginário comum, a figura de um fanático extremista palestiniano ou então alguém com o pensamento arcaico e antimodernista. Contudo, o tempo presente nos coloca perante um fenômeno ambivalente, que apresenta simultaneamente sentimentos conflitantes que podem acontecer em diferentes contextos religiosos e sociais. Nosso aporte se fixa em dois momentos distintos: o primeiro busca a definição a partir de um sentido mais abrangente no campo da modernidade com base no livro Fundamentalism de Steve Bruce e o segundo com base no texto de Enzo Pace e Piero Stefani, com vias a precisarmos a questão do fundamentalismo religioso contemporâneo.

1.1 A questão do fundamentalismo em Bruce Sem ignorar as circunstâncias sociais que produzem os movimentos extremistas, Bruce considera que os elementos religiosos do fundamentalismo estão particularmente voltados para uma resposta reacional a fatores sociais, políticos e econômicos que reduzem o papel da religião na vida pública, produzindo alternativas para uma democracia liberal e secularizada. Para o autor, está claro que há uma diferenciação entre as principais religiões, no que diz respeito aos seus valores e procedimentos em relação ao contexto social, à modernização e fragmentação das instituições sociais. Dentre as principais religiões, as que se tornam mais proeminentes no contexto do fundamentalismo, são as que apresentam um padrão monoteísta com clara estrutura dogmática: Ele mesmo declara: “Parece indiscutível o caso de que as principais religiões diferem no seu potencial, no que diz respeito aos movimentos fundamentalistas. No primeiro capítulo, eu dei exemplos de todas as grandes religiões, mas não é por acaso, que o mais conhecido, porque eles são os mais floridos, vêm do Islam, e da vertente evangélica do Cristianismo Protestante. Estas religiões são monoteístas: elas acreditam que há apenas um Deus. Elas também são dogmáticos: elas acreditam que é possível expressar a natureza e a vontade de Deus em proposição específica para a qual devemos


concordar. Ambas as coisas parecem ser condições necessárias para o fundamentalismo”2 Outro fator importante para o desenvolvimento das propostas fundamentalistas, é o constante apelo contra o dano que os efeitos da modernidade e secularização podem causar na sociedade. A modernização se torna alvo de acusações de fragmentação da ordem moral e sobrenatural, pois a própria inovação religiosa desenvolvida pela “Reforma Protestante, desempenhou um papel particular na desmitificação do mundo”3 e influenciou a sua forma. A modernidade se torna a grande vilã. Bruce explora, no segundo capítulo, que tem como título “Modernidade: O grande Satã”, o foco geral da revolta fundamentalista a partir do desenvolvimento da cultura secular nas democracias industriais modernas do Ocidente, pois com a desmistificação em um conjunto de crenças, desenvolvido com os eventos da Reforma e posteriormente com a Revolução industrial, rompeu-se o poder a Igreja e abriu-se caminho para uma variedade de pensamentos e questionamentos da tradição. Por outro lado, os argumentos do século XIX entre Darwinistas e líderes da Igreja podem ter tomado as classes médias, mas dificilmente penetrado nas classes comuns. “De qualquer forma, insistir em um conjunto de crenças perdeu popularidade, pois provou-se que o errado é perder a diferenciação entre verdade e plausibilidade. Há várias formas de isolar nossas crenças contradizendo as provas. Podemos evitar ouvir evidências problemáticas, ou podemos rejeitá-las, pelo escurecimento do caráter daqueles que trazem a má notícia. Por exemplo, muitos fundamentalistas americanos acusam os evolucionistas de serem sexualmente promíscuos e de esquerda, como estratégia neutralizante de suas ideias, a fim de exigir o apoio social.”4

1.2 Fundamentalismo religioso em Pace e Stefani A questão do fundamentalismo religioso deve ser entendida de forma mais abrangente, pois ao contrário do que muitos pensam, o fundamentalismo é uma figura da

2

BRUCE, Steve. Fundamentalism. 2ª ed. Malden: Polity, 2008, p. 97 Idem, p. 18 4 Ibidem, p. 24 3


modernidade5, agindo porém com um viés de alta seletividade, que separa aquilo que é útil aos seus fins. Um bom exemplo está no fato de que, enquanto a política não consegue em sua prática traduzir o ideal de sociedade justa, o fundamentalismo se encarrega de realizar na terra uma sociedade perfeita onde a política torna-se um lugar de transcendência das virtudes morais. Cria-se deste modo uma utopia religiosa que se conjuga com a vontade de espiritualizar a política. O fundamentalismo religioso se distingue de outras formas de fundamentalismo não somente por seu discurso sobre a fé ou sobre a reivindicação da volta dos fundamentos e ou à fidelidade aos dogmas de determinada tradição religiosa. O elemento fundamental para este conjunto de reservas de sentido está na referência constante e insistente a um livro sagrado6. A relação direta que se cria entre o primado do livro e o ideal do movimento religioso, é o que caracteriza de forma clássica, o perfil do fundamentalismo religioso. É importante também ressaltar a relação complexa que os movimentos fundamentalistas têm com a tradição. O fundamentalismo não é nem tradicional e nem conservador de uma maneira simples7. A tradição é um elemento essencial para o fundamentalismo, mas os fundamentalistas deparam-se continuamente com cenários da vida presente que impõem o desafio de preservar a tradição e, ao mesmo tempo, buscar nela respostas para situações concretas. Neste sentido, não é incorreto afirmar que o fundamentalismo é também moderno, uma vez que depende da modernidade para existir. Torna-se assim uma espécie híbrida entre o novo e o arcaico.

1.3 Os problemas do fundamentalismo religioso O rótulo do Fundamentalismo é um termo de fácil utilização, quando se pretende classificar algum movimento, que geralmente se encontra fora do contexto ou do padrão já estabelecidos. Basta identificar algum movimento religioso que apresente sinais de regressão aos primados da religião, ou questões de fanatismo religioso, ou mesmo o discurso de apelo moral e retorno aos fundamentos da fé. Porém, o termo fica desgastado impossibilitando a identificação das características específicas que este fenômeno religioso manifesta na sociedade contemporânea.

5

PACE, E.; STEFANI, P. Fundamentalismo Religioso Contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2002, p.23. Idem. p. 20 7 BRUCE, Steve. Op. Cit. p. 27 6


Pace e Stefani8 advertem que o conceito de fundamentalismo não está fechado em si mesmo, como um padrão estabelecido de regras comum a todos os movimentos, grupos e organizações extremistas, mas conforme as diferentes expressões culturais e religiosas de cada grupo é que este fenômeno vem apresentando diversos contextos, identificando tipos de fundamentalismos. Outro problema é quando se tenta reduzir a complexidade termo às manifestações mais radicais que se desenvolvem em determinados contextos, como é o caso do extremismo religioso de algumas vertentes como o cristianismo e o islamismo. “Os movimentos fundamentalistas, com efeito, não são formas abstratas de fé religiosa ou slogans violentos. Pelo contrário, são pessoas de carne e osso que se identificam com uma doutrina religiosa ou tradição sagrada e a reinterpretam – nalguns casos, reinventam – dando vida a repertórios de ação coletiva que devem ser estudados como tal.”9 A forma de ação dos movimentos fundamentalistas são muito semelhantes a de outros movimentos políticos e sociais que apresentam uma estrutura de liderança e modalidade de gestão do relacionamento com as estruturas dominantes. Pace e Stefani ainda ressaltam que os movimentos fundamentalistas nascem no seio das grandes religiões mundiais, como o Cristianismo, o Islamismo e o Hebraísmo. Os autores identificam elementos que estão presentes em todas as formas de fundamentalismo religioso, como por exemplo, o fato de que, o fundamentalismo sempre propõe um retorno do discurso religioso à esfera das discussões políticas. Se, no ocidente, havia até recentemente uma forte percepção de que a religião já havia se distanciado das questões políticas, os movimentos fundamentalistas, em quaisquer das grandes religiões, trazem de volta o discurso religioso, impedindo seus interlocutores de ignorálo. Este retorno do discurso religioso à cena política pode ser relacionado com a reatividade típica do fundamentalismo, que ocorre diante de uma marginalização da religião. Um movimento fundamentalista pode almejar controlar o Estado no qual está presente, uma vez que o poder sobre o Estado é o instrumento ideal para seus propósitos de

8 9

PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, pp.15-16. Idem, p.16


combater a secularização. Assim, o discurso religioso na política é, pois, elemento que não se pode desassociar do aspecto reativo dos movimentos fundamentalistas.

2. AS RAÍZES HISTÓRICO-TEOLÓGICAS As origens do fundamentalismo religioso protestante, se posicionam ao final do século XIX, nos Estados Unidos da América, quando um debate teológico entre liberais e conservadores, que concentrava-se nas modalidades de interpretação da Bíblia, ultrapassou as fronteiras da teologia e ganhou notoriedade entre as igrejas protestantes, se transformando num conflito ideológico e político de interesse nacional, onde surgiram movimentos coletivos de fundamento religioso. O desenvolvimento deste conflito social e ideológico, ganhou força, principalmente, após a conferência de Niágara Falls e também a publicação de uma série de documentos intitulada “The Fundamentals”.

2.1 Niágara Falls Na conferência de Niagara Falls realizada em 1895, conservadores protestantes assumem uma posição oficial contra o modo histórico-crítico de interpretação da Bíblia, defendido pelos liberais. Através do documento redigido no final do encontro, afirmam de que a Bíblia era um corpo de doutrinas imutáveis, uma autoridade incontroversa onde sua interpretação não poderia se sujeitar às mudanças históricas e sim somente estariam sujeitas à sua absoluta inerrância Segundo Pace e Stefani,10 os pontos principais que foram solenemente reafirmados consistiam nos seguintes itens: a) a absoluta inerrância do texto sagrado; b) a reafirmação da divindade de Cristo; c) o fato de que Cristo nasceu de uma virgem; d) a redenção universal garantida pela morte e ressurreição de Cristo; e) ressurreição da carne e a certeza da segunda vinda de Cristo. Para o grupo fundamentalista do manifesto de Niágara Falls, a aplicação de método histórico-crítico na interpretação da Bíblia, implicava em graves riscos teológicos e a

10

PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.28


forma ideal de combater o desenvolvimento deste problema, se fixou na afirmação da autoridade incontroversa da Bíblia e na expectativa do retorno de Cristo para buscar aqueles que se mantinham fiéis. De acordo com Pace e Stefani, esta afirmação se transformou em ingredientes básicos para o fundamentalismo histórico: “Resumindo, os dois ingredientes de base do fundamentalismo histórico são a certeza da verdade integral e absoluta contida no texto sagrado e a certeza inquebrantável do iminente regresso de Cristo à terra”11.

2.2 The Fundamentals Mais tarde, por volta de 1925, dois pastores batistas publicaram uma coleção de volumes intitulada The Fundamentals, que reproduziam o manifesto de Niagara Falls12 e foram sistematicamente difundidas entre as igrejas protestantes, se tornando o movimento que deu nome ao termo fundamentalismo. George M. Marsden declara: “Os volumes editados por AC Dixon e mais tarde por Reuben Archer Torrey é um conjunto de 90 ensaios em 12 volumes publicados 1910-1915 pelo Instituto Bíblico de Los Angeles. Eles foram projetados para afirmar, entre outras coisas, as crenças da ortodoxia

protestante,

especialmente

aquelas

de

tradição

Reformada, e defender-se contra as ideias consideradas hostis a eles. Estes ensaios são amplamente considerados como o início do moderno fundamentalismo cristão. Os ensaios foram originalmente financiado pelo Lyman Stewart, em 1909 para definir o que eles acreditavam ser os fundamentos da fé cristã. Estes eram enviados gratuitamente aos ministros, missionários, superintendentes de escolas dominicais e outros ativos no ministério cristão.”13

11

PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.30 Idem, p.31 13 MARSDEN, George M. Fundamentalism and American Culture. New York: Oxford University Press, 2006, p. 118 . 12


3. AS RAÍZES DO FUNDAMENTALISMO NO ROTESTANTISMO DE MISSÃO Nossa consideração sobre este tema é introdutória, não pretendemos trabalhar neste contexto, toda o processo de implantação e desenvolvimento do protestantismo, bem como suas muitas vertentes no Brasil. Nosso foco será o desenvolvimento do que se intitulou como “Protestantismo de Missão”14. O tema: “evangelizar e educar”, caracterizou a estratégia missionária dos protestantes que se instalaram no Brasil durante o século XIX. Esta empreitada missionária, particularmente desenvolvida pelos missionários norte-americanos, tinha no seu escopo um sentido civilizador, com fortes traços culturais. Ao considerarmos esta matiz do fundamentalismo precisamos compreender, mesmo que sucintamente, o arcabouço sóciopolítico Norte Americano, dotado de conceitos civis modelados pela religião e vice-versa. Durante o tempo da Guerra Fria, a expressão “american way of life”, foi usada pela mídia para destacar as diferenças de padrões de vida das populações dos Estados Unidos e da União Soviética. Naquela época, a cultura popular americana amplamente abraçava a ideia de que qualquer pessoa, independentemente das circunstâncias do seu nascimento, poderia aumentar significativamente seu padrão de vida através da determinação, do trabalho duro e da habilidade natural. No setor do emprego, esse conceito foi expresso pela crença de que um mercado competitivo promoveria o talento individual e o interesse renovado no empreendedorismo. Politicamente, desenvolveu-se a forma de uma crença na superioridade de uma democracia livre, fundada em uma expansão produtiva e econômica sem limites. Associado ao conceito da american way of life, está a ideia do “Destino Manifesto”15 os quais Carla Simone Rodeghero classifica como americanismo. “Entendo o americanismo como uma espécie de "ideologia nacional" com traços de longa data, que foram reforçados no 14

Nos estudos sobre protestantismo no Brasil tem sido utilizada uma tipologia que subdivide o campo em dois grandes grupos: “protestantes de imigração” (os luteranos alemães são o grupo mais representativo) e “protestantes de missão” (metodistas, presbiterianos, batistas, etc.), que vieram com o objetivo de implantar suas respectivas igrejas e escolas. Cf. MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste porvir. A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1995, pp 76-78. 15 O expansionismo interno do século XIX e o processo de povoamento do oeste tiveram por fundamento as ideias conhecidas como “Destino Manifesto”. Enraizado no senso comum e na religião o Destino Manifesto resumia o sonho missionário de estender o princípio da União até o Pacífico, por meio da ocupação de todo o continente pelo povo americano. Cf. MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste porvir. A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1995, p.62.


período posterior à Segunda Guerra Mundial, especialmente na década de 1950. Estes traços são o individualismo, a crença na iniciativa privada, a defesa das liberdades políticas, um patriotismo acrítico, a valorização da religião, e a confiança nas autoridades e nas instituições. De acordo com Stephen Whitfield — que em The Culture of Cold War estudou a cultura da Guerra Fria na sociedade norte-americana, especialmente em veículos de comunicação de massa -, a defesa do americanismo era o outro lado da estigmatização do comunismo. O americanismo é descrito por este autor como sendo um sistema de crenças.”16 Eleição divina e conquistas são caracteres impressos na “alma” do povo norte americano desde muito tempo. Duncan A. Reily chama de “auto-imagem religiosa do povo americano”, assim ele descreve: “Como Deus, por Moisés, libertou os israelitas da escravidão no Egito, pela travessia maravilhosa do Mar Vermelho, os puritanos se libertaram da opressão dos soberanos ingleses Tiago I e Carlos I, atravessando o Atlântico no pequeno navio Mayflower. Deus estabelecera seu pacto com o povo liberto, no Sinai; paralelamente, os puritanos, antes de pôr os pés em terra seca na América, firmaram o Mayflower Pact. Explicitaram que haviam encetado sua viagem de colonização “para a glória de Deus, avanço da fé cristã e honra do nosso rei e país... solene e mutuamente, na presença de Deus, e cada um na presença dos demais, compactuamos e combinamos em um corpo político civil.” Finalmente, como Josué havia conquistado a terra da promissão, os americanos viam como seu “destino manifesto” conquistar o continente de Oceano a Oceano, espalhando os benefícios de uma civilização republicana e protestante por toda a parte.”17

16

RODEGHERO, Carla Simone. Religião e patriotismo: o anticomunismo católico nos Estados Unidos e no Brasil nos anos da Guerra Fria. Rev. Bras. Hist. vol.22 no.44 São Paulo, 2002. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882002000200010 17 REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1984, p. 19


O estilo de vida americano se torna uma “religião comum”, que influenciou consideravelmente o projeto missionário que guardava uma íntima relação com a ideologia expansionista norte americana, que carregava com a pregação religiosa e o ensino secular, os traços culturais do “american way of life”. Na perspectiva do transplante cultural Norte Americano para o Brasil, o oferecimento deste paradigma fundamentalista religioso protestante, evidente na prática educacional e missionária, com a formação de escolas confessionais, foi amplamente acolhido pela sociedade brasileira.

4. ABORDAGEM CRÍTICA AO FUNDAMENTALISMO PROTESTANTE E O USO DA BÍBLIA O problema dos fundamentalismos tem a ver com a interpretação do texto sagrado. O que distingue o fundamentalismo religioso de outras formas seculares de fundamentalismos, não é necessariamente o apelo moral e ético e muito menos o argumento da recuperação do nome de Deus como base para uma política social. Se assim fosse, o fundamentalismo religioso se confundiria com qualquer forma de integralismo religioso que defende a ligação do Estado com a família, princípios éticos, religiosos e morais a partir de uma fidelidade aos padrões de fé consolidada por ritos, dogmas, princípios e regras de conduta. Como já dissemos anteriormente, o grande fator de desenvolvimento do fundamentalismo religioso protestante está na defesa da inerência do texto sagrado e um dos maiores debates surgiram em oposição à modalidade de interpretação da Bíblia, diante de uma postura crítica histórica. “Os documentos bíblicos foram submetidos à crítica histórica pelos estudiosos modernos. Esta análise dos textos que permitiu discernir como é que estes textos foram produzidos, quem são seus autores, expressa esta atitude crítica. Foi à partir do século XVII que começou a crítica bíblica moderna. Os resultados destas investigações clarearam o pensamento de muitos que adotaram a cultura moderna. Sem dúvida, para outros esta atitude era um sacrilégio que colocava na tela do juízo a verdade das Escrituras e questionava o registro da revelação. Se a Bíblia não dá conta verdadeiramente de como ocorreram os atos do passado, então não pode


ser a palavra de Deus, argumentam os fundamentalistas. Para os fundamentalistas protestantes que se distinguem por crer desta maneira, o texto da Bíblia sempre diz a verdade. Consequentemente, se a crítica textual permite afirmar que um documento do Antigo ou do Novo Testamento, não é de Moisés ou do Apóstolo Paulo, tal como registrado pela tradição, não deve ser aceito. Deve ser rechaçada como algo que ataca a fonte da verdade.”18 Assim, os fundamentalistas protestantes defendiam a inerência do texto sagrado que assumia em seu todo, a validação de sentido e significados para a vida, promovendo a crença de que o livro está acima de qualquer forma de conduta social humana, pois a superioridade da lei divina é quem define o todo.

4.1 A inerrância bíblica A defesa do princípio da inerrância do texto bíblico, prevê a leitura deste, como um elemento de “totalidade de sentido e significado”19, mesmo que, em alguns casos, sejam eliminadas as partes mitológicas e aceitas as que representam simultaneamente uma validade histórica e universal. Alguns temas passaram a ser considerados fundamentais como: a inspiração verbal20, literal, da Bíblia; a afirmação da verdadeira divindade e do nascimento virginal de Jesus; seu sacrifício21 expiatório vicário por meio de seu sangue derramado e de sua ressurreição corporal; a segunda vinda de Cristo à terra, na época vista como iminente, com sinais apocalípticos ou com o retorno para um reino milenar, intermediário; não-aceitação dos resultados da ciência moderna, quando não correspondiam ao que designavam de “fé

18

Santa Ana, Julio de. Fundamentalismos, Integrismos y conservadorismos político-religiosos. In: AUGUSTO, Adailton Maciel. Ainda o sagrado selvagem. Estudos em homenagem a Antônio Gouvêa Mendonça. São Paulo: Fonte Editorial e Paulinas Editora, 2010, p.171. 19 PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.20 20 Desenvolve-se, entre muitos protestantes, contra a leitura histórica e crítica dos textos bíblicos, a convicção de que cada palavra, cada letra do texto bíblico foi “inspirada”, ditada pelo Espírito Santo a seus autores. Por isso, muitos afirmam a inerrância do texto bíblico: a Bíblia não ensina nada que seja cientificamente inexato. Se em Gênesis, por exemplo, a criação ocorreu em sete dias, estes sete dias são realmente compostos por sete dias de 24 horas e neste caso os fósseis encontrados não provam períodos maiores para a criação e muito menos a evolução das espécies. 21 A concepção de sacrifício expiatório e vicário, vem originalmente do judaísmo, em que o cordeiro era imolado a Deus em lugar do pecador e em seu favor, para o perdão, expiação, de sua culpa e pecado. No cristianismo, Jesus passa a ser visto como o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo em virtude de sua morte na cruz. Cf. DREHER, Martin N. Para entender fundamentalismo. São Leopoldo: Editora Sinodal. 2006.


bíblica”; exclusão do status de verdadeiro cristãos para todos aqueles que não aceitavam estes fundamentos. Neste contexto, Julio de Santa Ana afima: “Alguns fundamentalistas protestantes, reconhecem implicitamente, que alguns achados da crítica bíblica não podem ser contestados. Então, para afirmar a infalibilidade da Bíblia, não defendem todos os textos bíblicos, mas propõe uma harmonização de alguns deles com o objetivo de aceitação das afirmações bíblicas fundamentais. Buscam defender e preservar a autoridade absoluta da Bíblia como a palavra de Deus. Se Deus é verdadeiro, então, a Bíblia é fundamentalmente revelação verdadeira de Deus, não pode ser tocada de nenhuma maneira, não pode ser profanada. É sagrada.”22 Neste sentido, tudo que se opõe à ideia desta verdade absoluta, é considerado pelos fundamentalistas, um profanador da verdade, um inimigo em potencial que deve ser combatido como forma de protesto e não é por acaso que nascem nestes contextos uma recorrente síndrome do inimigo e o uso intensivo de símbolos religiosos como meio de propagação desta luta política-religiosa. Os movimentos fundamentalistas, se utilizam destas referências simbólicas, gestos e lugares, a fim de produzirem uma compreensão imediata do que se está por fazer. Pace e Stefani afirmam: “Quem estiver convencido da existência de uma verdade absoluta que deva ser válida em todas as circunstâncias e esferas da vida, incluindo a esfera social e política, esforçar-se-á por inventar ações de protesto e formas de luta política que deixem vislumbrar as referências simbólicas religiosas a que se refere.”23

22

Santa Ana, Julio de. Fundamentalismos, Integrismos y conservadorismos político-religiosos. In: AUGUSTO, Adailton Maciel. Ainda o sagrado selvagem. Estudos em homenagem a Antônio Gouvêa Mendonça. São Paulo: Fonte Editorial e Paulinas Editora, 2010, p.172. 23 PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.21


4.1.1 Maniqueísmo e anti-intelectualismo O Maniqueísmo24 é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Maniqueu que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal. É interessante comprovar que a ideia do bem e do mal, com forte presença no imaginário religioso da Idade Média, torna-se tão marcante no seio de grupos fundamentalistas, seja políticos e ou religiosos, como um fator simbólico, na defesa da verdade absoluta. Estes símbolos, em muitas ocasiões, ultrapassam a barreira do mundo físico e real para as questões metafísicas do universo mítico. Assim afirma Luigi Schiavo: “Quanto maior a opressão, tanto mais o outro é entendido como inimigo. E quanto mais ele é poderoso e distante, tanto mais fácil identificá-lo como um ser sobrenatural, o Demônio. O processo de demonização está relacionado à situação de conflito, de impotência e de opressão entre grupos sociais e povos.”25 A fim de manter sua estabilidade e coesão, os fundamentalistas protestantes se fecharam à crítica, opondo-se com veemência contra a ciência moderna e sua interferência no condicionamento histórico e crítico da Bíblia, pois defendiam que isto poderia alterar a verdade depositada no livro sagrado. Júlio Paulo Tavares Zabatiero reflete sobre a importância de se entregar à crítica: “Talvez fique menos chocante se lembrarmos que crítica é sinônimo de discernimento. Discernimento é a tradução de diferentes palavras gregas, entre as quais encontramos a palavra krisis, que está na base da nossa ideia de crítica. Ora, os primeiros reformadores ao criticarem a Cristandade católico-romana, julgavam estar sendo fiéis a Escritura que se tornou, para eles, o verdadeiro fundamento da crítica. Fundamentando sua crítica na Escritura, a Reforma se vale do duplo sentido de krisis na Bíblia – tanto 24

Cf. DREHER, Martin N. Para entender fundamentalismo. São Leopoldo: Editora Sinodal. 2006. pp 8-10. Schiavo, Luigi. O mal e suas representações simbólicas: O universo mítico e social das figuras de Satanás na Bíblia. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Apocalíptica e as origens cristãs. Estudos de religião, ano XIV, Nº 19 (2000) – São Bernardo do Campo: Umesp, 1985, p. 65. 25


criticar, avaliar, quanto crise, juízo. Devemos levar em consideração, também, que a crítica protestante não se fundamentava exclusivamente na Escritura, mas tinha também sua parcela no pensamento secular. (...). Em outras palavras o princípio da sola Scriptura, somente se sustenta em um ambiente intelectual que desconfie do abismo entre espiritual e material, revelado e racional, religioso e político, teológico e científico.”26 Neste contexto, preserva-se também em muitas tradições fundamentalistas protestantes, um certo grau de anti-intelectualismo, um combate ao conhecimento como instrumento de deterioração da fé, a fim de que a fé se mantenha “pura e simples” sem a interferência da ciência moderna. 4.1.2 A expectativa pelo fim do mundo Conhecida com milenarismo, a teoria do fim do mundo tem suas bases no texto bíblico, que analisados sem a devida contextualização histórica, servem como objeto de manipulação e ao mesmo tempo como estratégia de esperança e sobrevivência. A defesa desta esperança escatológica, produz no indivíduo uma espécie de recompensa ao seu esforço de manter a fé, se opondo a qualquer custo, contra as interferências que esta, venha a sofrer. Martinus de Boer em sua pesquisa sobre os movimentos apocalípticos no cristianismo primitivo declara: “O apocalipsismo é definido, em termos sociológicos, como um “movimento” de pessoas oprimidas, alienadas e excluídas, que adotam a perspectiva da escatologia apocalíptica como uma estratégia de esperança e de sobrevivência. Além do mais, esta estratégia mostra um pessimismo extremo acerca da habilidade dos oprimidos e alienados promoverem mudanças. A escatologia apocalíptica representa ‘uma abdicação da preocupação com este

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Zabatiero, Júlio Paulo Tavares. Fé e atitude crítica: teologia como renovação espiritual. In: AZEVEDO, Marcos Antônio Farias de. Reflexus, ano III, Nº 03 (2009.1) – Vitória: Editora Unida, 2009, p. 121.


mundo, em favor do mundo que está por vir’. É uma forma de escapismo da ‘realidade’ para a fantasia visionária.”27

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto, a análise que se faz do conceito de fundamentalismos que durante muito tempo marcam presença no desenvolvimento da política e religião, é que, para a modernidade este tema continua vivo, mas em constante desenvolvimento. É bem verdade que costumeiramente somos tendenciosos em taxar ou classificar conceitos e neste sentido, fundamentalista passa a ser uma etiqueta que define e delimita o modo de ser de um determinado grupo. O que percebemos é que os vários movimentos fundamentalistas, ainda que partam de pressupostos teológicos diferentes, propõem o mesmo fundamento, no qual se expressa o desejo de regresso da religião ao contexto político, com base nas acusações de degradação moral e ética, promovendo a desconfiança no sistema político. Pace e Stefani afirmam: “Nós procuramos mostrar que o fundamentalismo, na realidade, é o nome que utilizamos para designar um certo tipo de conflito cultural e político que emerge a diferentes níveis e graus, quer nas sociedades ultramodernas, quer nas sociedades em vias de modernização. Por isso, os fundamentalismos não são corpos estranhos à sociedade em que vivemos. São, isso sim, contradições e rompimentos do pacto ético-político que deveria, pelo contrário, unir, ligar (a palavra religião, de resto, evoca o conceito de religare) indivíduos que vivem numa mesma realidade social.”28 Por isso não há uma universalidade do fundamentalismo, no que diz respeito a sua padronização confessional ou religiosa. O fundamentalismo não é específico de uma

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Boer, Martinus. A influência da apocalíptica judaica sobre as origens cristãs: gênero, cosmovisão e movimento social. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Apocalíptica e as origens cristãs. Estudos de religião, ano XIV, Nº 19 (2000) – São Bernardo do Campo: Umesp, 1985, p. 18. 28 PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.147-148


religião que o monopoliza e sim uma forma fragmentada de procura espiritual com bases em verdades inegociáveis. Assim, no conceito geral do termo, todos somos fundamentalistas, pois, como já afirmamos, não há vida e não há existência humana sem fundamento. Também não há alguém que seja totalmente fundamentalista, pois a estrutura de modernidade não permite esta forma unificada e sim o fornecimento de uma percepção socialmente mediada por questões relativas ao mundo e a si mesmo. Novamente Pace e Stefani relatam: “É bom reafirmar que o fundamentalismo é uma forma de modernidade religiosa que se confronta dramaticamente com outras formas modernas de fé, que podemos reconhecer desde a época do iluminismo, até aos nossos dias: da indiferença ao agnosticismo, do ateísmo declarado ao deísmo, de formas de religiosidade popular a sincretismos velhos e novos(quer pertençam às grandes tradições afro americanas ou ao New Age). Esquematicamente podemos dizer que, perante a dificuldade crescente que denotam os grandes sistemas de fé religiosa em controlar as suas fronteiras simbólicas – pois os indivíduas tendem a ver a religião à medida das suas necessidades e das suas aspirações e desejos, superando barreiras e sem grandes escrúpulos, invadindo fronteiras de outros sistemas de fé (...)” Por fim, fica-nos a ideia de que estes movimentos radicais se encarregam de refletir sobre a crise da sociedade moderna e seu aparente descaso em relação a Deus e aos seus valores últimos. Neste contexto de dificuldade cultural e estratificação social, estes movimentos tornam-se verdadeiros referenciais, por se reafirmarem como a “solução” a partir do elemento sagrado unido à vida política. Não é por acaso que este projeto também não deu certo, pois os que chegaram ao poder não conseguiram imprimir uma prática integralmente ética, inspirada na religiosidade. Os autores que já citamos várias vezes, Pace e Stefani, finalizam: “O verdadeiro ponto fraco do fundamentalismo, paradoxalmente, é o seu ponto mais forte: a possibilidade de traduzir integralmente


um projeto religioso num projeto político concreto, sem qualquer tipo de mediação. Deste modo, a religião acaba inevitavelmente por ser banalizada, instrumentalizada, subordinada e reduzida à lógica interna da política. A persistência com que os monges guerreiros das várias religiões, procuram levar em frente seu projeto é uma virtude que se converte, bem depressa, em tirania. Em última análise, um verdadeiro fracasso.” 29

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PACE, E.; STEFANI, P. Op. cit, p.159-160


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOER, Martinus. A influência da apocalíptica judaica sobre as origens cristãs: gênero, cosmovisão e movimento social. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Apocalíptica e as origens cristãs. Estudos de religião, ano XIV, Nº 19 (2000) – São Bernardo do Campo: Umesp, 1985. BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz: desafios para o século XXI. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. BRUCE, Steve. Fundamentalism. 2ª ed. Malden: Polity, 2008. MARSDEN, George M. Fundamentalism and American Culture. New York: Oxford University Press, 2006. MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste porvir. A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1995. PACE, Enzo; STEFANI, Piero. Fundamentalismo Religioso Contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2002. REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1984. RODEGHERO, Carla Simone. Religião e patriotismo: o anticomunismo católico nos Estados Unidos e no Brasil nos anos da Guerra Fria. Rev. Bras. Hist. vol.22 no.44 São Paulo, 2002. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882002000200010 SANTA ANA, Julio de. Fundamentalismos, Integrismos y conservadorismos políticoreligiosos. In: AUGUSTO, Adailton Maciel. Ainda o sagrado selvagem. Estudos em homenagem a Antônio Gouvêa Mendonça. São Paulo: Fonte Editorial e Paulinas Editora, 2010. SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas: O universo mítico e social das figuras de Satanás na Bíblia. In: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Apocalíptica e as origens cristãs. Estudos de religião, ano XIV, Nº 19 (2000) – São Bernardo do Campo: Umesp, 1985. ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Fé e atitude crítica: teologia como renovação espiritual. In: AZEVEDO, Marcos Antônio Farias de. Reflexus, ano III, Nº 03 (2009.1) – Vitória: Editora Unida, 2009.


Universidade federal de juiz de fora resenha fundamentalismo