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porta fechada. Ouviu a chave dar a palavra final à separação. Movimento lento. Como o do cavalo que estanca e bate a perna e levanta o pescoço e balança a crina. E volta a trotar. Desceu a escada até a rua, naquele instante vazia, como se o mundo houvesse se retirado para que ele corresse até o pasto onde a grama seca não se dá à fome. Upa, cavalinho, não perca a trilha que começa no final do amor. Correr pelas ruas. Por esta, por outra que corte esta, por uma terceira e ainda por uma quarta. Não há limite, mesmo que seja limitado o número de ruas. Seu compromisso: percorrer caminhos; percorrer por percorrer. Inventá-los. A liberdade estava, nesse instante, fantasiada de desamparo. Os cavalos trotam para o riacho, mal lhes tiram a sela. O riacho dos homens é o bar. Ele não iria ao bar. O amor acaba porque falta óleo na dobradiça da porta. O amor acaba numa camisa manchada na lavagem da semana. O amor dá cambalhotas e cai de bunda onde não existe chão. O amor, essa brincadeira. A rua não está mais vazia, e ele pisa as calçadas distraidamente. Dentro dele, vão se acumulando cenas inacreditáveis. O amor é comédia escrita por um cômico inexperiente. Há um quê de pastelão, e isso não é o pior. O cômico pensa fazer rir com o terrível do comezinho. A porta range. A camisa acaba como pano de limpeza. Duas jovens passam a seu lado. Ele alcança as palavras de uma: “tô louca pelo Vini”. Se pudesse, diria a ela que um dia o Vini não cuidará das coisas práticas da casa. E que ela também não cuidará das coisas práticas da casa. E que isso ferirá de morte o desejo e a complacência, pilares do amor. Não. Não dirá, com certeza não dirá. Seria lançar palavras ao vento. O homem e a mulher foram feitos para cair em tentação e ser ludibriados pelo conto do vigário implícito na ideia do amor. Do amor miúdo, CRUVIANA

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Cruviana 6  

Revista Cruviana 6 - Caderno Virtual de Contos

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