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REVISTA MOVIMENTE Uma doença chamada Copa do Mundo por Jota Terres Ao passo que os dias vão se aproximando da Copa do Mundo 2018, os noticiários ao redor do globo destacam que cada vez mais pessoas são acometidas inesperadamente por uma doença silenciosa. Até agora, é sabido que o vírus esteve encubado durante quatro anos nos hospedeiros e sem motivos aparentes ataca vorazmente o lóbulo pré-frontal, a parte do cérebro onde fica armazenado as memórias. Os enfermos simplesmente esquecem dos problemas atuais como: saúde, educação, economia, segurança, política interna etc. e passam a focar a atenção em seus televisores para contemplarem o mundo mágico da copa do mundo. Médicos do globo todo estudam o vírus através dos mais variados testes a fim de entender esta doença que, a cada evento, ganha mais enfermos, quer dizer, mais torcedores. No Brasil, o vírus é chamado de a doença Copa do Mundo. Além de ainda não ter cura, causa sérios riscos para a sociedade. Alguns sintomas são: como já mencionado, esquecimento agudo de problemas econômicos e políticos, euforia múltipla, patriotismo incoerente, fechamento de estabelecimentos comerciais e administrativos, feriado fora de data e entre outros sintomas. Mas talvez o que tenha deixado a equipe médica mais intrigada é o pseudoamor para com a Seleção Brasileira. Quando esta vai bem nos jogos, os corações se vestem de verde e amarelo e o povo grita o nome dos jogadores em alta voz como ídolos exaltados. Contudo, basta um deslize da equipe tupiniquim que as bandeiras são removidas das janelas, os gritos histéricos transfiguram-se em vaias e o apreço pelo time canarinho se esvai. Mil novecentos e setenta. É claro que mesmo a chuva de cassetetes e represálias da ditadura militar não barrariam a divulgação massiva dos mídia sobre a terceira conquista do time de Pelé, Jairzinho e Carlos Alberto Torres. 1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil em função do regime militar implantado em 1964. A vitória da Seleção Brasileira sobre a Seleção Italiana por 4 a 1, na final, veio a calhar para o governo ditatorial. O jornal Folha de S.Paulo estampava em letras garrafais no dia 22 de junho de 1970, PARA NÓS, UM MUNDO É UMA BOLA. Mesmo que nos dias de hoje, alguns tapados por aí pensem que a Terra é plana, a terra em que habitamos, chamada Brasil, é uma bola ou pelo menos é movida por ela. De quatro em quatro anos,


o povo brasileiro esquece dos problemas habituais que se estendem por tantos anos e se vestem de verde amarelo a fim de regatar um amor ufanista sobre a Seleção. E chegamos à metade de 2018. Mas cá entre nós, você lembra dos vinte centavos? Dos panelaços no meio da noite? Das manifestações contra a corrupção? Do pior PIB da história do país registrado em 2016? Das acusações contra o Temer? Dos recordes em assassinato? Lembra da greve dos caminhoneiros do mês passado, quando deixou o país parado? Não? Vou ajudá-lo. Lembra do 7X1? Ah, claro! Como esquecer deste triste dia. Bom, não tão triste para a doença Copa do Mundo que marca 1X0 com o nosso esquecimento.

Uma doença chamada Copa do Mundo  

Esta coluna foi escrita para a revista Movimente em junho de 2018. A minha proposta era provocar o leitor a sair do mesmo e refletir sobre a...

Uma doença chamada Copa do Mundo  

Esta coluna foi escrita para a revista Movimente em junho de 2018. A minha proposta era provocar o leitor a sair do mesmo e refletir sobre a...

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