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QUANDO O CINEMA VAI À FAVELA Manuela Moraes

O universo da favela é tema de uma série de filmes do cinema nacional desde a década de 1950. Dos mais variados tipos, eles vão da denúncia da situação social, ou do preconceito, até a visão que mostra a realidade local de forma romantizada. A estréia do tema foi com o filme ‘Rio 40 graus’, do cineasta Nelson Pereira dos Santos, que é considerado ainda hoje um clássico do cinema brasileiro. Foi inovador para a época por utilizar locações reais, atores da própria comunidade e diálogos naturalistas para retratar um típico domingo em um Rio de Janeiro sufocado pelo calor insuportável, usado como metáfora para a difícil situação vivida por meninos que vendem amendoim em pontos turísticos da cidade. Anos depois era lançado ‘Cinco Vezes Favela’ (1962), que traz cinco histórias diferentes sobre o desespero de um desempregado, a luta em defesa das ocupações de terra, o samba e a precariedade dos locais de

moradia. Cada filme foi produzido por um diretor, e dentre eles está Cacá Diegues, que em 2010, retoma a ideia do filme, mas agora usando diretores da própria comunidade. O novo ”Cinco vezes favela: agora por nós mesmos” traz uma visão diferente da versão de 1962, justamente por ser pensado por pessoas que sentem na pele a realidade retratada, que agora é mostrada de forma mais leve e com finais felizes. Durante o período da ditadura militar, as temáticas da favela e da miséria urbana foram proibidas e só voltaram ao cinema na década de 90. A partir de então novas formas de expressão ganham espaço e a realidade presente passa a ser mostrada a partir de novos personagens, como o traficante, o policial, o astro pop. São exemplos desta mudança os filmes ‘Orfeu’ (Cacá Diegues), ‘Cidade de Deus’ (Fernando Meirelles), ‘Cidade dos Homens’ (Paulo Morelli) e ‘Tropa de Elite’ (José Padilha).

A primeira versão de ‘5x favela’ foi censurada. O tema pouco “agradável”, a existência de negros como protagonistas da história, a ácida paródia aos políticos da época e o tom quase documental de algumas cenas não foram tolerados pelos governantes.

O curta ‘Deixa voar’ da segunda versão de ‘5x favela’ conta a história do garoto corajoso que resolve recuperar sua pipa indo até a favela dominada por um grupo inimigo de traficantes.

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A PERIFERIA CONTRA O MURO Roney Rodrigues

“Não filho, eu só via matinê e quando eu ainda era menina, depois nunca mais”, diz Fátima Rosário da Silva, com um pequeno vinco na testa. Estamos sentados no quintal de sua casa, no Jardim Nicéia, periferia de Bauru. Fátima olha em volta. “Eu falei que ‘tava dentro’, eles filmaram o meu quarto, a cozinha, a horta e o quartinho onde o Abel ficava. Foi muito bonito”. A casa de Fátima foi uma das locações escolhidas para o médiametragem ‘Abel Contra o Muro’, um projeto de João Guilherme Perussi e Alexandre Borges, estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A escolha do Jardim Nicéia, bairro localizado perto da universidade, como cenário para as gravações foi motivada pela participação de Alexandre no Observatório de Educação em Direitos Humanos (OEDH) da Unesp e da 1vivência com os moradores do bairro. O filme conta a história do adolescente Abel que é criado preso pela tia e apenas vê o

mundo através de um buraco no muro, sua única fonte de contato com o universo externo à sua casa. Um dia, o menino consegue escapar de sua tia, conhece outros jovens e vive novas experiências e problemas em busca de liberdade. O projeto tem coprodução da Neurônio Produtora e do Enxame Coletivo, além das parcerias de distribuição do filme com o Circuito Fora do Eixo, Clube de Cinema Fora do Eixo e da distribuidora on-line DF5. Também terá legendas em quatro idiomas, o que o permite competir em festivais nacionais e internacionais. “E o que muda no bairro com essa produção?”, pergunto. “O Jardim Nicéia tem vários problemas sociais, de descaso mesmo, tem esgoto a céu aberto, lixo espalhado pelas ruas, falta de recursos e tubulações, problemas com o tráfico de drogas... Queremos mostrar essa realidade, debater a exploração às crianças e, principalmente, discutir o conceito de liberdade”, conta Alexandre. Joana Miguel da Silva é presidenta da Associação de Moradores do bairro e diz que as gravações tiveram um impacto sobre a autoestima dos moradores. “O pessoal ficou animado em participar, sentindo-se importantes. ‘Ah, no seu bairro tá

rodando um filme da Unesp!’, ‘Ah na sua casa também?’ O filme vem dar dignidade para nós e acabar com a imagem da periferia de que só tem pobre que não trabalha e criança fora da escola”. Ela conta da empolgação das crianças em serem filmadas e que até pediu para a produção do média conseguir um grupo de teatros para as crianças. “Aqui as crianças só se ocupam com os campinhos de terra de futebol e com as ruas”. Alexandre Bueno tem 12 anos e participou das filmagens, jogando “betis”, um jogo de tacos muito comum no bairro. “Fiquei alegre”, diz, tímido, desviando o olhar par ao chão e deixando claro que gosta mais é de filme de “lutas”. “Você gosta de morar aqui, Alexandre?” “O ruim de morar aqui são os tiroteios na rua, toda vez tem um”, diz, ainda olhando tímido para o chão. “A única coisa boa aqui é o riozinho...”. Fátima conta que as filmagens em sua casa despertaram a curiosidade de sua neta, a pequena Paola, que agora sonha em atuar. “De ficar vendo e vendo eles, ela disse “Vó, em nome de Jesus, eu vou trabalhar no teatro”. E eles falaram que ela é boa mesmo, tem futuro!”. Sorri, também sonhando o sonho de sua neta.

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ENTREVISTA : ALEXANDRE BORGES Laís Modeli

O bate-papo começou ainda no Jardim Niceia. Estávamos na casa da Dona Fátima e Seu Josué, um dos locais das gravações do Abel Contra o Muro. João Guilherme Peressi de Jesus, produtor do filme, e Alexandre Branco Borges, roteirista e diretor, tinham ido pegar uns canos e madeiras que estavam na casa. Foi visível o carinho com que o casal recebeu os dois meninos metidos a cineastas. Ficou visível também o carinho que João e Alexandre têm pelo casal, várias vezes citados durante o nosso bate-papo. Dalí, cruzamos a cidade e fomos para outro local de gravação. Só depois disso é que conseguimos sentar com o Alexandre e conversar sobre o filme. O futuro cineasta contou com palavras e mostrou com os olhos que o Abel foi mais que um personagem, que ganhou vida, saiu do roteiro e lhe mostrou um mundo que fica logo ali, do lado da sua faculdade, mas que antes era invisível à sua caminhada. Como nasceu a ideia do Abel Contra o Muro? Alexandre: Nasceu quando eu passei a frequentar o Observatório de Estudos de Direitos Humanos, grupo de estudos do professor Clodoaldo. Na época, eu fazia um programa de televisão chamado Humanização, que era sobre direito a moradia. Fizemos matérias em vários lugares de Bauru e fizemos um lá no Niceia.

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Foi ai o meu primeiro contato. Naquele dia eu pensei “eu quero fazer um filme aqui”. O que você pensa sobre essa “cosmética da fome”, presente em muito filme brasileiro? Fazem muito filme no Brasil com teor do que dizem ser o “Latino Americano”: roubo, assalto, polícia, tiroteio. Para o meu filme, eu não queria que ficasse um estereótipo. É um assunto que acaba sendo terceiro mundiasta. Sim, é a nossa realidade, mas seria um problema ficar preso só a isso. Eu peguei um lugar favela, lugar característico brasileiro, e juntei com uma temática de ficção, sem ficar associado com temas como tráfico de drogas. No meu filme não tem tiro e a única droga lá é bebida alcoólica, que foi o que conhecemos no Niceia. Tanto histórias ruins como boas acontecem lá. A casa da Dona Fátima e do Seu Josué, onde foi feita muita gravação, é outro mundo. Ninguém da família deles tem contato com tráfico. Ou seja, dentro daquele bairro, tem muitas realidades. Tentamos ver outras partes, além da pobreza do local. Você, que foi criado por uma família de classe média, encontrou dificuldades na hora de observar e retratar essa realidade do Abel? Claro. Acho que quando você tenta se envolver com manifes-

tações culturais diferentes, é uma dificuldade sempre. Você tem que se basear em alguma coisa e se baseia por aquilo que você já sabe: o seu ponto de vista. Nós entramos no Niceia com um pé atrás, pensando “Pô, e ai, será que vão assaltar a gente? Será que vai acontecer alguma coisa?”. O desafio é você conseguir entrar ali e entender aquilo. Por isso, antes de começarmos a gravar, passamos um tempo lá, conhecia as pessoas, conversava, via quem eras os caras perigosos e quem poderia ajudar. Eu já tinha tido outro desafio antes do Abel. Tinha gravado O Homem do Buraco, que é a história real de um homem que mora em um buraco aqui na Nações Unidas. Eu tinha que tentar entender o mundo dele. As minhas perguntas para ele, às vezes, chegava a ser piada. Eram coisas do tipo, “O senhor não quer sair daqui?, Não quer uma vida melhor?”. E ele me respondia, “Não, eu gosto daqui”. Lá no Niceia, a nossa experiência foi muito maior do que a deles com a gente. Eles estavam no ambiente deles, para nós era um choque imenso. O que te faz crer que esse filme seja uma discussão para os Direitos Humanos? A ideia do roteiro nasceu no grupo de estudos, como eu falei. Surgiu ali e está sendo ministrado e acompanhado pelo grupo.


ENTREVISTA : ALEXANDRE BORGES Laís Modeli

Qual foi o retorno que os moradores no Niceia deram para vocês? Nós ficamos impressionados com a boa vontade das pessoas de ajudar. No começo, o pessoal ficou assustado, “O que vocês vão mostrar ai? Vão mostrar coisa ruim?”. A partir do momento que criamos o contato conversando, a coisa mudou. A troca que tivemos ali foi muito grande. A Dona Fátima fazia café para nós. Na casa da Dona Joana, minúscula, todos foram muito atenciosos quando gravamos lá. Os dias que gravávamos na rua, tinham umas 30 crianças gritando que queria participar. Teve um dia que precisávamos de uns caras para figuração de uma cena de briga de galo. Para atraí-los, tivemos que colocar uma garrafa de cachaça na gravação, ai choveu de homem lá! Isso não fez deles piores ou melhores. Em nenhum momento nos sentimos ameaçados ali dentro. Quando eles vêem que aquilo pode trazer algo bom para o local, eles te tratam muito bem. Por isso, nós temos vontade de continuar trabalhando lá, de montar um ponto de cultura no Niceia. Qual foi a participação da comunidade no filme? Nós ensinávamos coisas para os moradores poderem nos ajudar nos bastidores das gravações, ajudando a construir materiais,

a bater claquete. Teve a Paola, a neta da Dona Fátima. É uma criança, deve ter uns 9 anos, bonita e esperta. Ela nos ajudava o tempo todo. Teve um dia que ela me contou que a professora dela tinha perguntado para a classe o que eles queriam fazer quando crescesse. Ela contou que todos responderam que queriam ser professor, uma queria ser bombeira e que ela, a Paola, queria fazer Rádio e TV. Só da Paola saber que ela não precisa ser professora, que ela pode viver de arte, pode fazer um filme, que existem outras coisas, já é válido. Esse contato com a arte para os moradores foi muito saudável. Vocês perceberam em algum momento que os moradores queriam que vocês fossem porta-vozes dos problemas que acontecem ali? Sim! Lá tem o Baixinho, um homem de uns 50 anos. Sempre quando ele nos via, nos chamava para tirar foto da casa dele, pedia por ajuda. Na ideia dele, ele queria que levássemos essas fotos para alguém resolver o problema da sua casa. Teve um dia que estávamos indo embora da gravação e o João (produtor do filme) passou com o carro em cima de um cano de água que saía para fora da rua. O cano explodiu e começou a jorrar água. Chamamos uns moradores para nos ajudar. Eles sabiam que o

registro ficava em algum ponto daquela rua de terra. Pegamos enxadas e cavamos a rua. Gravamos tudo isso. Enquanto cavávamos, chegou um menino na frente da câmera e cantou um rap improvisado, tipo “Arruma o Niceia agora, nessa hora”. Até a molecada enxerga os problemas do local. Acho que os moradores pensaram que nós poderíamos fazer mais, só que temos a nossa limitação. Talvez no dia do lançamento do filme, no Sesc, eu consiga atenção da prefeitura para falar as coisas que acontecem lá.

O filme Abel Contra o Muro A produção é o projeto de Trabalho de Conclusão de Curso de Alexandre Branco Borges, 24 anos, e João Guilherme Peressi de Jesus, 22 anos, alunos de Rádio e TV da Unesp-Faac. Além do filme, também foi gravado um documentário com os moradores do Jardim Niceia. O lançamento deverá acontecer na última semana de Agosto, em apresentação no Sesc Bauru. Também ocorrerá nessa época um circuito de debates sobre Direitos Humanos na Unesp Bauru.

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SOBRE ESSA COISA DE ACREDITAR Thiago Teixeira

Sobre essa coisa de acreditar Acontece quase todos os dias. Vozes, passos, e o barulho dos equipamentos profissionais importados e improvisados que vão disputando o espaço com os passageiros no carro do produtor João Guilherme Perussi. O dia mal abriu os olhos, e o tempo já está comprometido. O turbilhão não toma muito tempo: 6h10 surge um pelotão que revira a casa; 6h45, a digestão do café nem foi feita, – às vezes nem o próprio café - deixam a casa, fugidos atrasados. É uma rotina pesada, tal qual a carga os acompanha em rota pendular pra mais de um mês. Estão fazendo um filme em uma favela. Jardim Nicéia, mais exatamente. Entrar lá com toda a parafernália técnica, só com autorização. E não é de se surpreender a possível resistência. Os “Jardins Nicéias” do país só são vistos através das câmeras que se pautam pelo infravermelho, pelo sangue baixo das páginas policiais. Não é isso que o roteirista e diretor Alexandre Branco Borges busca para o seu trabalho de conclusão do curso de Rádio e TV na Unesp. Tão pouco é isso que busca o co-orientador Clodoaldo Meneghuelo, filósofo es-

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tudioso dos Direitos Humanos. Há mais do que uma simples ficção ao se trabalhar em um lugar como o Jardim Nicéia, cujo cotidiano é tão absurdo quanto comum. Levar uma breve catarse a essa população pode ser o primeiro passo para alguém sair dessa realidade, como a Paola, uma menina que mora no bairro e descobriu o interesse pelo teatro durante as filmagens. É nessa capacidade transformadora da arte que acreditam João, Alexandre e Clodoaldo. Também acreditam nela os profissionais envolvidos no projeto, todos amigos de faculdade, e por essa fé que religiosamente se reúnem sala da república onde mora Alexandre incontáveis vezes para discutir as minúcias da direção de arte, da pós-produção, conversar com o elenco, e uma infinidade de outros motivos que a produção competente de um filme exige. É nesse poder que acreditam o Seu Josué e a Dona Fátima, que cederam sua casa e hospitalidade para as locações e falam com sorriso constante sobre o média-metragem. Seu Josué até fez uma ponta no filme. Quando se ouve o que eles tem pra dizer sobre o projeto, é impossível não passar a acreditar junto.

abel contra o muro  

trabalho para a disciplina Jornalismo Especializado, feito em 4h, com fotos de Vitor Garcia, sobre o média metragem Abel Contra o Muro.

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