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JOSIENNE THOMAZ LIVRES COMO UM PÁSSARO

UM CONTO DE AMOR


Edição de autor – Julho de 2013 Autor – Josienne Thomaz (pseudónimo) Título – Livres como um pássaro Todos os Direitos de propriedade intelectual estão protegidos por Lei Não pode ser vendido sem autorização prévia


JOSIENNE THOMAZ LIVRES COMO UM PÁSSARO

EDIÇÃO DO AUTOR JULHO DE 2013

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Certo

dia, um lenhador que andava pela floresta viu um

passarinho no chão, que tremia de medo, pois estava ferido numa asa, assustado e sozinho. Aquele passarinho tinha acabado de aprender a voar e os seus olhos pediam ajuda porque sabia que não se poderia proteger dos perigos da floresta. O lenhador ficou tão sensibilizado com aquele passarinho, e de certa forma apaixonado por ele, que lhe pegou e o levou para casa. O Inverno aproximava-se e não o poderia deixar no meio da floresta. No seu quarto construiu uma gaiola de madeira e colocou lá o passarinho. Tratou-lhe da asa, deu-lhe de comida e bebida, falava com ele todos os dias, brincava e fazia-lhe festas. Acarinhava-o o melhor que sabia. O passarinho sentia-se feliz. O lenhador também. Ele gostaria de ser como o passarinho que era puro e verdadeiro. O passarinho gostaria de ser como o lenhador que era forte e livre! Ambos gostavam imenso um do outro. Ambos se amavam. Porém, o Inverno chegara ao fim e o lenhador teve que começar a sair para exercer a sua actividade. Saia de manhã cedo e chegava à noite. O passarinho ficava sozinho em casa, sem os carinhos do lenhador e começava a sentir-se triste por isso. Então um certo dia


de sol, começou a olhar pela janela. Via um mundo colorido à sua espera, onde outros passarinhos como ele esvoaçavam livremente. À noite, quando o lenhador chegava a casa, já nada era como fora. O passarinho já não gostava tanto de estar com o lenhador e apenas sonhava com a possibilidade de voar para fora da janela e sentir-se livre como os da sua espécie. O lenhador, que entretanto tinha desenvolvido uma afectividade muito grande pelo passarinho, conseguia quase instintivamente, sentir as emoções do passarinho. Passou a observá-lo mais atentamente e viu que o seu passarinho olhava mais tempo para a janela do que para ele. Apercebeu-se de uma triste realidade. O passarinho queria voar. Então o lenhador, que entretanto já se tornara ele puro e verdadeiro como o seu passarinho, não queria ser egoísta para com ele. Viu que o seu passarinho queria ser forte e livre. Confiou que o seu amor garantiria que apesar de tudo permaneceriam juntos e que nada os poderia separar. Confiou que ao libertar o passarinho, este seria ainda mais seu, do que se o tivesse mantido em cativeiro. E dessa forma, abriu a janela e a porta da gaiola. O passarinho não cabia em si de contente. As horas de brincadeira com o lenhador fizeram-no ágil a voar e assim estaria preparado para enfrentar o mundo. A comida que o lenhador lhe dera, tornaram-no forte. E dessa forma, tornava-se como o lenhador, forte e livre! O lenhador, por estranho que parecesse, também estava feliz. O passarinho era seu, não por posse, mas porque ele não quereria ser de mais ninguém! Sentou-se à janela e ficou a observá-lo feliz a esvoaçar pelo ar. O passarinho voava sem se parecer cansar e encontrou outros iguais a si. Estes acenavam de uma forma simpática. “Vem daí, nos te mostramos o mundo. Viverás imensas aventuras. Não te vais arrepender.” Parecia soar bem. Tomou o voo dos companheiros e foi embora. O lenhador ficou assustado.


Teria ele mesmo ido embora? Sentou-se e esperou até à noite. Deixou-se ficar. Dia após dia, noite após noite, ficava à espera. A sua tristeza ia aumentando, o seu desgosto também. Não se arrependia de ter aberto a gaiola ao seu passarinho, pois tinha a certeza de ter feito a coisa certa. Afinal, como se pode verdadeiramente amar algo que se prende. Como se pode ser verdadeiramente amado por algo que se sente preso? Esperou, esperou, dias após dias. Certo dia, o passarinho apareceu. Feliz e encantado. Num entusiasmo eufórico. Tinha aprendido a falar, aprendido a dançar, aprendido a divertir-se a valer. Entrou pela janela como quem visita apenas um velho amigo. Encontrou o lenhador magro e abatido. Os seus olhos revelavam porém uma réstia de esperança. Um raio de inspiração pela chegada o passarinho. Este, como já aprendera a falar, contava-lhe todas as suas aventuras, as suas viagens, os outros passarinhos que conhecera, os perigos por que passara, os romances que tivera com os da sua espécie. O lenhador, ao longo da conversa, começava a ficar triste. Não era por ciúmes, mas porque se apercebia que aquele passarinho já não era seu. Pertencia ao mundo. Sabia que já não poderia brincar com ele. Sabia que não o podia cuidar. Que não era seu. O passarinho estava tão entusiasmado que nem reparou o quanto o lenhador sofria. Não reparou no sacrifício que ele fizera por si. Apenas queria ir viver o resto da sua aventura para fora da janela. “Não te preocupes, velho lenhador. De vez em quando virei cá para te visitar.”, disse o passarinho ao se despedir, sem sequer perguntar ao lenhador como ele estava, e esvoaçando dali para fora ignorando o estado de sofrimento do seu antigo mentor. O lenhador não suportava tanta dor. Há muito tempo que não saía à floresta para exercer a sua actividade. Há muito tempo que não se alimentava como deve ser. Estava cada vez mais triste. Sentia a


falta do seu passarinho por quem se tinha apaixonado. Olhou para o espelho e via no seu reflexo o mesmo olhar do seu passarinho, no dia em que o encontrou na floresta. Ele tornara-se no passarinho ferido numa asa, inocente e assustado. Não suportou o desgosto e acabou por morrer sozinho no meio de um sofrimento e mágoa enorme! Depois de alguns dias, duas pessoas que estavam de passagem pela floresta, entraram na velha casa e deram com o lenhador morto, em frente a gaiola aberta. Como não o conheciam, nem sabiam o seu nome, enterraram-no em frente à casa, colocando na sua campa uma pequena lápide de pedra com um pequeno texto gravado. “O que significam essas palavras?”, perguntava um ao outro. “Não sei ao certo, mas fiquei com pena dele por ter morrido em frente àquela gaiola. Sinto que viveu uma história triste e que morreu com sofrimento.” Mais alguns dias passaram e o Inverno chegou. Os outros companheiros que tinham levado o passarinho a voar nas suas aventuras disseram-lhe que era hora de regressar aos seus ninhos. Despediram-se da mesma maneira como se tinham apresentado e recolheram-se a casa, quase sem avisar. O passarinho, sentia-se como há muito deixara de sentir. Novamente perdido e desamparado. O que iria fazer? Olhou em redor e todos tinham desaparecido. O Inverno a chegar e ele sem sítio onde ficar. Lembrou-se do lenhador. Afinal ele tinha casa. Sim, a sua casa era no quarto do lenhador. Regressaria a casa, satisfeito e alegre. Entrou pela janela, olhou em redor. A gaiola permanecia com a porta aberta. Via comida e bebida nos respectivos locais. O lenhador nunca deixara de ter esperança do seu regresso. Ficou alegre por saber que afinal ele nunca deixara de o amar. Mas ficou intrigado por não ver o seu lenhador. “Terá saído?”, pensou… esperou e esperou. Já era quase noite quando olhou para fora da


janela. Não tinha dado por ela quando entrou, mas uma sepultura permanecia em frente à casa. O passarinho que entretanto também aprendera a ler, voou para ver a quem pertencia e leu na pedra tumular: “Aqui jaz um lenhador sem nome, que teve a ousadia de um dai amar um passarinho sem dono.” Nessa mesma altura, o passarinho apercebera-se do que acontecera. Nessa altura, apercebeu-se que deixara de poder contar com o lenhador para o cuidar, amar e dar de comida durante o Inverno. Nessa altura apercebeu-se quanto o amava. Nessa altura, apercebeu-se que nem todas as aventuras, nem todos os romances com outros pássaros, nem todo o conhecimento do mundo, pagariam a perda do lenhador. Nessa altura, apercebeu-se que voltava a estar perdido e sozinho no meio da floresta, mas que desta vez, o seu lenhador não iria mais aparecer para pegar nele e o levar para casa… O passarinho dava tudo para voltar atrás e ter aproveitado a possibilidade de voar para fora da janela, mas regressar todos os dias para ao pé do seu lenhador. De o amar de uma forma livre. Mas agora era tarde. Pousou em cima da lápide do lenhador e esperou a chegada do Inverno. Com as primeiras neves e passarinho morreu e finalmente pode juntar-se para sempre ao seu lenhador que amava acima de todas as coisas…


Livres como um pássaro  

Um conto de amor