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ILHAVIRTUALPONTOCOM

SEGUNDO TRIMESTRE 2014

Abr-jun 2014


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EDITORIAL

Mais uma vez está na tela de seu computador uma nova edição de nosso informativo literário.

Neste número, temos uma entrevista com o engenheiro, acadêmico e escritor José Ewerton Neto, um dos mais significativos prosadores do final do século XX e início de século XXI no Maranhão. Temos também no aperitivo literário uma breve passagem do livro Ânsia do Prazer, de autoria de nosso entrevistado. A futura historiadora e membro da Comissão Maranhense de Folclore nos brinda com um artigo sobre a folclórica e hoje quase esquecida figura de José Negreiros, atleta e pai de santo que teve seus momentos áureos no Maranhão e no Brasil, chegando inclusive a inspirar composições do grande Ary Lobo. Temos, além do livro em destaque e de sugestões de leitura, também uma homenagem aos escritores falecidos neste ano de 2014, que tem sido extremamente cruel para as letras. Boa Leitura


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ENTREVISTA O Maranhão já teve uma série de bons romancistas. Muitos deles reconhecidos em todo o país e até mesmo no exterior, como é o caso de Aluísio Azevedo, Coelho Neto e Josué Montello. Nas últimas décadas, no entanto, parece que o interesse pelas narrativas mais longas vem diminuindo em nosso Estado. Mesmo assim alguns escritores ainda encontram fôlego para a produção de romances e novelas, sem descuidar dos demais gêneros narrativos. Esse é o caso do premiadíssimo escritor José Ewerton Neto, autor de livros como o Prazer de Matar (depois rebatizado como O Ofício de Matar), ânsia de Prazer, O Infinito em Minhas Mãos e O Menino que via o Além, entre outros. Nesta Edição do Ilhavirtualpontocom, teremos o prazer de conhecer um pouco mais desse homem que se dividiu entre os números e as letras e que soube conciliar uma trajetória de sucesso na engenharia e uma carreira no campo da ficção e nas crônicas que publica todos os sábados no jornal O Estado do Maranhão. Escritor diversas vezes agraciados em concursos literários, membro da Academia Maranhense de Letras e assíduo frequentador de eventos literários, José Ewerton Neto conversas nas páginas seguintes sobre diversos assuntos, sua carreira, seu estilo, sua obra e seus planos. Quem quiser acompanhar a carreira desse escritor pode acessar seu blog, cujo endereço é:

www.joseewertonneto.blogspot.com.br


ILHAVIRTUAL— Como a literatura ILHAVIRTUALPONTOCOM entrou em sua vida e quais foram suas influências literárias para começar a escrever? A literatura entrou em minha vida através das histórias em quadrinhos e, depois, da poesia. Cometi meus primeiros poemas, criança ou préadolescente, ao perceber que tinha algum domínio da escrita pelas boas notas nas redações que fazia no colégio e pelo prazer de ler poesias. Mas o primeiro romance não adaptado que li com prazer foi A Marca do Zorro que tirei uma vez da estante de minha tia. Era um livro, para a criança de então, muito volumoso o me fez, ao deparar com a ausência de figuras, ficar muito desconfiado. Foi então que descobri todo o deslumbramento que pode haver em uma sequencia de palavras, mesmo sem imagens.

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ILHAVIRTUAL—Poeta. Contista. Romancista. Cronista. Qual dessas atividades literárias é mais desafiante para você e qual dá mais prazer? Acho que a crônica e a poesia (quando surge a inspiração) dão mais prazer em serem executadas, porque o resultado tende a ser imediato e o seu desenvolvimento menos árduo. Já o conto e o romance, nem sempre são tão prazerosos, tem de haver o exercício da paciência e da dedicação, da luta com as palavras nos dias em que o resultado não é bom, e da luta também com os personagens quando estes parecem se rebelar e ficarem inconsistentes com aquilo que se pretende. Como se estivessem dizendo: “Você não está sabendo lidar comigo, ou minha história não é por aí.” Mas o prazer final de se conseguir chegar à conclusão de um romance, não se compara!


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Em seus livros as situações narradas fogem bastante ao convencional, chegando mesmo a beirar o inusitado. De onde vem a inspiração para a construção de seus histórias? Lembro um escritor famoso que quando perguntado sobre como fazia para escrever um romance respondeu que era muito simples: Uma letra maiúscula no começo , um ponto no final e no meio uma ideia. Anedotas à parte, acaba sendo mais ou menos isso, a inspiração surge sempre de uma ideia inicial que pode ser um acontecimento visto de jornal, uma pergunta ( como Ei, você conhece Alexander Guaracy?), ou um sentimento pessoal tendo necessidade de se expressar, a partir do qual, aos poucos surge a ideia. Quanto ao inusitado, acho que surge espontaneamente como maneira de recriar a realidade ( impossível evitar o clichê) , revesti-la talvez, mas sem perde-la vista. Não sendo intencional não se trata, a meu ver, do formato do realismo mágico, onde o mágico se socorre da realidade, ao invés de a realidade se socorrer do mágico, o que é bem diferente .

Qual de seus livros já publicados é o seu preferido? Por quê? Talvez seja o Prazer de Matar, por ter sido o que me sinalizou o rumo literário e o primeiro livro que publiquei. Comecei a escrever por impulso, sem saber que se tornaria um livro. E só o escrevi porque estava convalescendo de uma cirurgia, o que me permitiu ficar em casa, distante de tantas possibilidades da vida.

Dos livros que você já leu ao longo da vida há algum que você tinha vontade de haver escrito? Claro, vários. Todos os que me dão especial prazer na leitura e que são, ao mesmo tempo, muito bem escritos, o que nem sempre coincide. Já nem vou citar os clássicos, Don Quixote de la Mancha, o Morro dos Ventos Uivantes, ou o Apanhador no Campo de Centeio ( na área juvenil) etc. mas cito, de repente, dois romances pouco conhecidos, até mesmo no circuito literário brasileiro : O Quarto do Bispo de Piero Chiara e Tony@ Susan de um escritor americano quase que totalmente desconhecido no Brasil, Austin Wright.


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Na hora de escrever, você segue algum ritual específico? Tem alguma mania em particular durante a tarefa de escrever? Nada de especial. Sento-me diante do computador e só preciso que o computador esteja cooperando e de silêncio, muito silêncio. (Ausência de preocupação e de coisas para resolver, também ajuda muito). Mas poesia, claro, só consigo com caneta. Aliás, uma pergunta que me surge agora: será que alguém consegue escrever poesia sem auxílio de caneta, diretamente, no computador?

Você recebeu a tarefa de suceder a José Chagas na coluna Hoje é dia de... Quais são os critérios para você escolher o tema de sua crônica semanal? O tema sempre surge de um acontecimento do quotidiano, que tenha repercussão e seja de interesse geral, como, por exemplo, A Copa do Mundo, agora. Ou outro qualquer, de preferência bizarro a ponto de se tornar risível, mas nem sempre esse acontecimento aparece, ou consigo desenvolvêlo a tempo. Neste caso, recorro a algum tipo de informação passada que tenha essas características (para isso guardo em uma caixa de sapato recortes de jornal ou de revistas diversos com informações históricas, científicas, esportivas, ou relativos a celebridades, todos selecionados sob o critério “Isso pode dar uma crônica, vou guardar”).


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Você já recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira. Qual deles foi o mais significativo para sua carreira e qual o que tem mais valor sentimental? O mais significativo acho que foi o recebido pela novela infanto-juvenil O Menino que via o Além que, depois de premiado num concurso em São Luiz e reeditado em São Paulo, recebeu uma condecoração da FNLIJ (Fundação Nacional do livro Infanto-Juvenil) como Altamente Recomendável para leitura de estudantes em escolas. Isso ajudou que o livro tivesse sido republicado pela editora Escrituras, de São Paulo, em uma terceira edição com 15 mil exemplares que foram adquiridos pela Prefeitura de Belo Horizonte para distribuição em sua rede de escolas municipais. Lamento, porém, que isso nada tenha significado para diretores de escola e responsáveis pela seleção dos paradidáticos das escolas maranhenses, pois nunca foi escolhido aqui, em sua terra. Oferecido à Secretaria de Educação, há mais de três anos, nunca recebi resposta.

Dá para viver de literatura no Maranhão de hoje? Não dá nem para sobreviver, e uma razão é o que acaba de ser exposto acima. Repetindo o que disse um escritor norte-americano a respeito da atividade literária ( e olha que era um escritor norte-americano que em média ganha, no mínimo, vinte vezes mais que um escritor maranhense com equivalente prestígio): “A única vantagem de um sujeito ser escritor é que ninguém o chama de burro, por ganhar tão pouco!”.

Quais são os planos para os próximos lançamentos? Devo estar lançando, ainda este ano, provavelmente na Feira do Livro, a terceira edição do livro O oficio de matar suicidas, que sairá com o selo da Arte Pau Brasil , de São Paulo, um conglomerado editorial do qual fazem parte também a Escrituras e a Girafa. E, em edição local, o livro O A-B-C, bem –humorado de São Luís, contendo crônicas escritas no jornal o Estado do Maranhão, sobre São Luís e tendo como tema principal, brincadeiras sobre o linguajar local, inspiradas, entre outros, no livro Maranhão na Ponta da Língua do escritor e mestre José Neres e Lindalva Barros.

José Ewerton Neto, Wilson Marques e Geraldo Iensen—uma talentosa geração


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José Negreiros: “pulava e brincava, rufava o pandeiro”

Por Reinilda de Oliveira Santos (Aluna do Curso de História da Universidade Estadual do Maranhão - Membro da Comissão Maranhense de Folclore)

“Zé Negreiros na roda do coco Pulava e brincava rufava o pandeiro Juliana deu um nó na saia Desafiando Zé Negreiro” Ary Lobo

José Pio Coelho, cujo epíteto Zé Negreiros lhe acompanhou até o fim da vida, era um homem de muitas facetas e que ganhou fama nos jornais a partir da década de 1950, tendo sido um dos primeiros pais de santo a aparecer na imprensa de forma positiva, num tempo em que as campanhas de depreciação do conjunto material e humano da religião afro-brasileira eram intensas. Relatos constituintes através da memória oral sugerem que Negreiros seja o apelido que José Pio Coelho ganhou quando era jogador do Sampaio. Como seu nome era José, ficou Zé para diferenciá-lo de outros jogadores. Por ser negro, acrescentaram Negreiros. Sua figura, observa o historiador A. Evaldo A. Barros (2007, p. 240; 268), era construída, sobretudo, relacionada a acontecimentos inesperados. Nessa perspectiva, os títulos de reportagens de jornais dos anos 1950 que o tinham como figura central são exemplares: “governadores e parlamentares que se elegem por causa de Negreiros”, “pobres que enriquecem do dia para a noite”, “até o Moto - popular time de futebol do Estado -, teria sido campeão por causa de Negreiros”. O fato é que Negreiros ia conquistando projeção inclusive fora do Maranhão, e alguns diziam que ele seria “o maior macumbeiro do Maranhão”, “superior ao Joãozinho Dagoméia, do Rio de Janeiro”. Negreiros estava atrelado a múltiplas dinâmicas sociais que marcaram os meados do século XX.


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Negreiros se tornara um afamado pai de santo do tambor de mina no Maranhão, enfermeiro, maçom, circense, fundador do bloco de carnaval Cadete da Lua, ex-combatente do exército brasileiro, jogador do Sampaio Corrêa Futebol Clube e pai de 28 filhos, além de dar conta de várias esposas. Um dos seus filhos, Jose Itabajara Coelho, seu sucessor, ao se referir às diversas companheiras do seu genitor, destacou: “meu pai era um homem vaidoso”. Nasceu em 1897, vivenciou grande parte do Século XX, até ser vitimado por um acidente vascular cerebral no ano de 1983. Filho do carpinteiro José Alexandre Coelho e da lavadeira Maria Joana Coelho que, segundo seu filho, “lavava roupas, como se dizia na época, para casa de branco”. Negreiros nasceu e cresceu no Lira, um bairro ludovicense de operários que, no início do século XX, era considerado bairro periférico, longe do centro comercial da cidade. Seus poderes mediúnicos afloraram desde cedo, tendo em vista o contato com terreiros da vizinhança, como a Casa das Minas e Casa de Nagô. No início teve dificuldades para aceitar a sua espiritualidade, tendo por isso, em fins dos anos 1930, fugido com um circo para o Rio de Janeiro. Entretanto na sua volta descobriu ser inevitável, passando então a incorporar o caboclo Légua Bogi Bua e, a partir da proximidade com essa entidade, adentrou a vida espiritual, com terreiro funcionando inicialmente na rua da Palha e depois na rua da Cruz, centro de São Luís. Em meados do século XX, período marcado por constantes perseguições, sobretudo da polícia aos terreiros de mina da cidade, seu filho explica a permanência da casa de culto do pai no centro em razão das “boas relações”: “Meu pai era amigo de gente importante, existia um respeito com ele, a polícia era amiga dele e o sistema fazia parte do terreiro.” Depois se mudou para o bairro do Turu, onde fundou o terreiro destinado ao seu Légua, em 1945 com sua então cônjuge. Após o término dessa relação, em fins dos anos 1970, mudou-se, juntamente com seu terreiro, para o bairro da Jordoa, no qual dava sessão e consultas e fundou outro no bairro do Tirirical, destinado ao Índio Canela, outra entidade presentificada nas práticas do terreiro. Negreiros era devoto ferrenho de São Judas Tadeu e São Raimundo Nonato, típicas figuras do catolicismo romano, tanto que dedicou o seu terreiro do Turu a proteção do último. Carregava consigo somente entidades masculinas como seu Légua Bogi Bua, caboclo Itabajara, João de Una, Boço Jara, dentre outros. Entretanto, fazia obrigações para entidades femininas e também caboclas, que incorporavam apenas nos seus filhos de santo: como Jurema, Janaina, Iemanjá, Zé Pilintra, Exu caveira, Tranca rua, Pomba Gira e Pretos Velhos.

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NOTAS “Tambor de mina é a designação popular no Maranhão para a religião de origem africana que, em outras regiões do país, recebe denominações como candomblé, xangô, batuque, macumba e etc.; é o nome de uma religião afrobrasileira desenvolvida por antigos escravos africanos e seus descendentes” (FERRETI,2009)

FONTE DA LETRA DA COMPOSIÇÃO: J OSÉ NEGREIROS (vinil).[1979/1982?], São LuisMA.

FONTE DA IMAGEM: Jornal Pequeno: 03 de outubro de 1951. pág. 03. Este artigo foi publicado inicialmente no Boletim da Comissão Maranhense de Folclore nº 56—julho de 2014.


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“No terreiro do meu pai frequentavam todos os tipos de pessoas, do alto ao baixo escalão da sociedade, ele atendia todos de forma igual”, destaca seu filho José. E continua: “ele recebia muitas pessoas de fora, especialmente do Rio de Janeiro e Belém, (cidade para qual preparou muitos filhos de santo), desde políticos a figuras afamadas da TV, como a atriz global Elizabeth Savala, com quem manteve uma boa amizade”. Na verdade, é interessante perceber o papel dele na disseminação da religião na sociedade. A partir de análise de documentação de época, Barros (2007, p. 269) aponta que “pais-de-santo como Negreiros tiveram o mérito de difundir o tambor de mina a todos os níveis da sociedade maranhense.”

Este pai de santo manteve significativas relações de camaradagem com importantes políticos, donos de jornais, médicos e membros de outras esferas sociais, que lhe garantiram muitos benefícios, facilitando com isso, não só a tranquilidade nas suas casas de culto, como também sua projeção positiva no seio da alta sociedade. Sua fama foi crescendo a ponto de se tornar manchete de jornal, a exemplo do que apontava A Pacotilha (1954), jornal ludovicence do período: “gente da alta sociedade na casa de Zé negreiros”, destacando assim a sua importância. Em virtude da sua percepção como vidente vários delegados de polícia recorreram ao seu terreiro com o objetivo de desvendar casos de difícil solução. Segundo seu filho, “até o Vasco da Gama, quando veio jogar aqui na cidade, foi à casa dele para conhecê-lo, já que à época diziam que quem não o conhecesse não conhecia São Luis”. Através da leitura dos jornais da época e das interpretações dos relatos do seu filho é possível perceber o papel desse pai de santo no alargamento do universo religioso do cenário social ludovicense, principalmente quando este tira do ambiente tradicional elementos de sua religião e possibilita que outras pessoas o conheçam. Foi o caso da apresentação de um espetáculo de Negreiros e suas filhas de santo intitulado “Lamento de Xangô”, apresentado no final da década de 1970, no teatro Artur Azevedo. A montagem teatral fora considerada, naquele contexto, uma afronta para a sociedade, já que um negro, sobretudo membro de religião de matriz africana, se apresentava no principal teatro da cidade. Enquanto a Casa das Minas, naquele momento era objeto de estudo dos intelectuais, a Casa de Zé Negreiros tinha sobre si os olhares da imprensa, o que pode ser percebido através de reportagens de Masson e de Azoubel para os jornais Pacotilha e O Globo, em 1954. Estes cobriram três dias de festa em seu terreiro no mês de agosto, fazendo uma leitura diferente da que era feita até então por parte da imprensa, naquele momento. “Os tambores de mina outrora definidos somente como macumba ou feitiçaria, ou simplesmente bailes, passam a ser vistos como uma religião. ” (BARROS, 2007, p. 271)


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Outro ponto que marca a sua influência no período em destaque foi a gravação de um disco patrocinado pela rádio Difusora, em seu terreiro, que contava a vida do seu Légua, bem como vários casos ali ocorridos. Esta ação torna-o um dos primeiros pais de santo do Maranhão a gravar um vinil. Foi um homem de grandes amizades com importantes figuras do ramo da música como é o caso do cantor e compositor Ary Lobo, que fez algumas músicas dedicadas a ele, sendo a mais conhecida o “Coco da Juliana”: Coco da Juliana (Ary Lobo)

Formara a roda de coco/ Na casa de Juliana/ A coisa lá tava boa / Durou mais de uma semana/ As mulheres que tava animada / Dançava e brincava naquele salão/ Cantava o coco praiano/ Com grande animação / Zé negreiro na roda do coco / Pulava e brincava rufava o pandeiro/ Juliana deu um nó na saia/ Desafiando Zé Negreiro/ Surgiu um sujeito valente/ Cheio de aguardente/ Com a foice na Mao/ Dizendo aqui não tem homem/ Procurando confusão/ Juliana gritou para o povo/ Aqui ninguém briga porque eu não quero/ Passou a mão no trabuco/ Mandou o sujeito para o cemitério.

Dos muitos filhos de santo e dos 28 filhos biológicos, somente um seguiu os passos do pai, Itabajara Coelho, de sua esposa Dinair Alves de Souza Coelho. Este acompanhava o pai em viagens, inclusive para fora do Brasil, como Guiana Francesa e Espanha. Tendo assumido o terreiro com este ainda em vida e com certa resistência deu continuidade às obrigações. Embora por problemas internos não mantenha todas as festividades que ocorriam no tempo de seu pai, foi responsável pela preparação de muitos filhos de santo que, posteriormente, constituíram seus terreiros. Em 1968 Negreiros foi vitimado por um primeiro AVC, que o deixou com sequela, uma deficiência no braço e na perna direita. Contudo, mesmo com certa limitação, se manteve firme nas obrigações com o terreiro, passou os anos seguintes trabalhando sem descanso, recebendo “sermões” do seu médico, Gabriel Cunha. Porém, em 30 de outubro de 1983, com 86 anos, veio a falecer no Hospital Geral de São Luís, deixando um legado de história vivida, lembrada com alegria pelo filho José Itabajara, que está organizando um livro intitulado, contos de um terreiro, em que relata experiências vivenciadas por ele e pelo pai.

Referências BARROS, A. Evaldo A. O Pantheon: Culturas e Heranças Étnicas na Formação de Identidade Maranhense (1937-65). Salvador: PÓS-AFRO/FFCH-UFBA/CEAO, Dissertação de mestrado, 2007. FERRETI, Sergio, 1937. Querebentã de Zomadônu: etnografia da casa das minas do Maranhão3 ed- Rio de Janeiro: Pallas, 2009.


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PERDAS LITERÁRIAS Por José Neres (Professor, pesquisador e editor do Ilhavirtualpontocom)

O ano de 2014 vem sendo extremamente cruel para com as letras. Mal passamos da primeira metade do ano e já temos motivo para lamentar o passamento de diversos escritores. Como nem todos os autores falecidos faziam parte do chamado cânone literário, algumas mortes não tiveram cobertura da imprensa, mas mesmo assim tiveram a ausência sentida por parte dos admiradores de suas obras. Logo no início do ano, faleceu o poeta argentino Juan Gelman, homem que viveu na pele os horrores da ditadura e transformou o próprio sofrimento e a ausência dos entes queridos em versos de excelente qualidade. Outro nome de ressonância mundial que também fisicamente se calou foi o do colombiano Gabriel García Márquez, o criador do universo mágico de Macondo e ganhador do prêmio Nobel de Literatura. O sofrimento do autor de Cem Anos de Solidão foi amplamente divulgado e sua morte causou comoção entre seus leitores e o público em geral. A literatura nacional perdeu também alguns escritores de grande importância. De um dia para outro, perdemos o talento narrativo de João Ubaldo Ribeiro e o pensamento crítico de Rubem Alves e da poesia de Ivan Junqueira. O primeiro era conhecido por seus contos e romances extremamente bem elaborados e carregados de humor, de fina ironia e de densidade social. Livros como Viva o Povo Brasileiro, Sargento Getúlio e A Casa dos Budas Ditosos são bastante populares e inscreveram o autor na constelação dos grandes romancistas brasileiros. Rubem Alves por sua vez foi um dos mais marcantes educadores do Brasil. Um pensador na melhor acepção da palavra, sempre preocupado com os rumos da educação no Brasil e com as relações entre a aprendizagem e o bem-estar físico e mental. A obra desse educador, embora já seja bastante apreciada, ainda precisa ser mais estudada e analisada, para que sua essência seja posta em prática. Ivan Junqueira, poeta e crítico literário, dono de grande erudição e de uma verve poética inigualável, soube transformar tudo o que tocou em poesia, uma poesia viva e que transbordou as fronteiras do eu para banhar-se nas águas da universalidade. Junqueira partiu depois de prestar relevantes serviços à cultura brasileira, seja pelo talento poético, seja pelo senso crítico que lhe permitiu ser reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes das letras brasileiras modernas.


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Nem bem os amantes da literatura se recuperavam do choque causado pela morte dos escritores acima citados, os jornais anunciam o falecimento de Ariano Suassuna, um dos mais populares autores da literatura contemporânea brasileira. Reconhecido como um dos gênios das letras nacionais da metade do século XX e início do século XXI, Suassuna deixou-nos obras que acabaram imortalizadas no imaginário do povo, mesmo daquelas pessoas que não tiveram acesso a seus livros, pois muitos de seus trabalhos foram adaptados para a TV e para o cinema, como é o caso do Auto da Compadecida, um dos grandes sucessos da dramaturgia nacional. No Maranhão também diversas perdas foram sentidas neste ano. A começar pelo historiador, contista e cronista Wilson Pires Ferro, que logo no primeiro mês cumpriu sua jornada no mundo terreno, deixando-nos como herança livros como Quando eu era Pequenino e Depois que o Sol se Põe. Outro passamento bastante sentido foi o do cronista e porta José Chagas. Reconhecido ainda em vida como um dos maiores literatos do Maranhão e muito apreciado por seu público, seja por sua prosa, seja por seus versos magistralmente construídos, Chagas será eternamente lembrado por livros como MaréMemória e os Canhões do Silêncio, duas obras de extrema qualidade técnica e que demostram um escritor maduro e consciente de seu papel como formador de opinião, sem abrir mão da arrojada tessitura poética. Ubiratan Teixeira, jornalista, teatrólogo, cronista e ficcionista, foi outro nome que deixou um vazio em nossas letras. Dono de um estilo inconfundível que privilegiava as classes menos abastadas da sociedade, denunciando as mazelas sociais e dos descasos para com a cultura do Estado, o Velho Bira, como também era conhecido, imprimiu suas digitais nas letras não só do Maranhão, mas de todo o Brasil, ao produzir livros como Vela ao Crucificado e o Dicionário de Teatro, obra indispensável para quem aprecia as artes cênicas. Menos conhecido do grande público, mas admirado pelos amantes das letras, o prosador Ariel Vieira de Moraes também partiu neste 2014. Mesmo fisicamente distante do Maranhão há vários anos, a obra de Ariel deve ser considerada como uma das mais sólidas de nossa literatura. Livros como O Anjo Modernista, Na Hora de Deus – Amém e A Cobra Divina são verdadeiras obras-primas de um autor que ainda teria muito a oferecer para nossa cultura. Essas perdas são irreparáveis. Mas fica o consolo de saber que esses intelectuais em muito contribuíram para que nosso universo fosse mais belo, mais poético, mais suave e infinitamente mais cheio das ricas alegorias criadas por esses homens iluminados com o dom de transformar ideias em palavras, em magia e em vida. Nosso muito obrigado a todos eles.

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Ela me carregava de um lado para o outro. Acho que tinha receio de que a sua empregada ou qualquer outra pessoa descobrisse, e a modificação que se estampava no seu rosto era tão visível que eu escutava frequentemente: “Oh, Lídia, você parece tão bem! Que anda fazendo?”. Algumas chegavam a ser maliciosas: “Puxa vida, menina, você está divina! Arranjou namorado novo. Vamos, fala pra gente... Nunca mais vi você de mal humor... Quem é esse gato fantástico?” significativamente ou não, ela apertava a bolsa com força numa mensagem inconscientemente talvez, enquanto eu escutava com atenção redobrada entre escovas, pulseiras, batons, cartão de crédito, etc... Mas o etc não continha mais preservativos.

Quem quiser saber como se sente o narrador desse romance, que é um vibrador, deve ler A ânsia do Prazer, de José Ewerton Neto.


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SUGESTÃO DE LEITURA

Quem aprecia a estreita relação entre a História e a Literatura deve ler esse livro organizado pelos pesquisadores Yuri Costa e Marcelo Cheche Galves. Na segunda parte do volume, há diversos comentando o perfil intelectual de autores como Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Maria Firmina dos Reis, Clodoaldo Freitas, Frederico José Corrêa e Odorico Mendes.

O livro está disponível em diversas livrarias da nossa cidade.

COSTA, Yuri; GALVES, Marcelo Cheche. Ensaios de Biografia e História do Maranhão. São Luís: Café e Lápis, 2011. 424 pp.


CANTINHO DA POESIA FOLHAS RESPINGADAS DE ACASO Antônio Ailton

para as grandes chuvas a silhueta na distância traz antiguidades no imenso pátio só pra lua ouvir faz pipi nas calças ah, luas de lama duas poças para dormir fuça aqui fuça ali plantadas em casa as samambaias nos xaxins sonham primaveras

Ilhavirtualpontocom é uma publicação online trimestral que tom como objetivos divulgar e promover a cultura maranhense, seus autores e suas obras. O informativo é dirigido e editado por José Neres e sua equipe de colaboradores.

Ilhavirtual agosto  

23º número do informativo Ilhavirtualpontocom

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