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1. O homicĂ­dio


Um vento crespo flauteava através dos arcos do campanário da igreja que encimava a praça e empurrava-lhe teimosamente o cabelo para trás. Estava imóvel, o luar projectava a sua forte silhueta para lá do corpo que se debatia com a última réstia de vida. Durante vários minutos não faz nada. Observa o sofrimento daquele homem inerte, imerso numa imensa poça de sangue. O moribundo, quando a consciência lhe voltava e o cérebro se aclarava, sentia-se desconcertado pelas suas reacções à morte iminente. A dor era terrível, vagas cortantes de agonia culminavam em intensidade até o corpo se convulsionar. Nunca concebera uma morte violenta. Fisicamente não era corajoso – possuía uma imaginação demasiado elaborada para tal – portanto, procurara amordaçar o medo calejando essa imaginação. Forçara-se a imaginar a sua morte sossegadamente no decurso de um sonho tranquilo, na sua ainda mais tranquila cama, numa cama de hospital no percurso final da vida ou até num qualquer acidente em que não sofresse muito. De todas as vezes morrera como devia ser, com dignidade; jamais a lutar e nunca com a violência que hoje se abatera sobre si. Imaginara alguma dor, mas o fim chegara sempre depressa. Nenhuma das suas fantasias ansiosas o haviam preparado para a emoção que agora lhe dominava a mente delirante. Naqueles três ou quatro minutos, desde que o sino tocara num ritual secular que anunciava pesarosamente as horas, os seus olhos tinham-se ofuscado muitas vezes a cada nova crise de dor, que o transportava para a margem da inconsciência como se o seu interior se dilacerasse a conta gotas e os fragmentos de si viajassem como lâminas de gelo pelas suas veias esvaziadas de sangue que jorrava do seu corpo como um géiser. Há quanto tempo estava ali? Há quanto tempo contemplava a sua vítima? Dez minutos? Dez horas? Um terço da sua vida? A sua existência surgia-lhe dividida em duas secções: uma contendo vinte e sete anos activos e agitados, a outra, cinco minutos de que pareciam cinco séculos. Era a segunda metade que agora contava.


Lembrou-se do seu filhote Pejo, de o levar pela mão, naquele andar gingão de dois anos a contemplar o Sava1… da sua doce Sladjana que na inocência dos seus seis anos ainda só conseguia adormecer com as suas histórias, da mãe dos seus dois tesouros: a mulher da sua vida, a bela Slavica, por quem continuava a apaixonar-se todos os dias… Lembrou-se de que umas horas antes lhe bateram à porta, de deixar a sua Sladjana a meio da história, do que lhe custou retirar os braços de Slavica do seu corpo, que o agarrava como se agarrasse toda uma vida, perspectivando a desgraça que se adivinhava. De ver o olhar assustado de Pejo e de lhe passar com a mão direita no cabelo revolto tentando confortar o que não tem conforto. De deixar todos a chorar à porta da sua casa amarela. Lembrou-se de passar pela garagem e agarrar o primeiro instrumento que lhe veio à mão, de acompanhar os outros o mais rápido que pôde e de chegar ali, àquela mesma rua da igreja que, durante as manhãs, era percorrida por uma imensidão de gente precipitando-se para o trabalho ou estacando com visível obediência em bichas, esperando os autocarros, os corpos tocando-se, os olhos cuidadosamente desviados. Naquela noite a praça estava deserta, só o som das suas pesadas botas e de quem o acompanhava trovam no ar. Os jovens escriturários de olhos avermelhados, os operários de boné, mal-humorados e turvados por vidas monótonas e incipientes, os empregados de balcão e secretárias, de mini-saia e bota alta apesar dos rigores da estação, com mãos, rostos e pernas avermelhadas e gretadas pelo frio, as mulheres

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É um rio que atravessa a Eslovénia, a Croácia, a Bósnia e Herzegovina e a Sérvia. É um tributário da margem direita do rio Danúbio, desaguando neste último em Belgrado. Tem 940 km de extensão e 95.720 km² de área. Na época romana era chamado Savus. Costuma ser considerado o limite setentrional dos Balcãs


velhas procurando pechinchas, gingando através da multidão com objectos pesados balouçando nos sacos, todos eles foram substituídos apenas por um leve luar que projectava as silhuetas do grupo no pavimento granítico. De repente viu os dois, primeiro de relance apenas, depois, passados mais meia dúzia de passos e a esquina da pastelaria, com a nitidez que aquela lua enorme e gorda permitia. O seu irmão Ilija jazia no chão e um homem corpulento, na casa dos trinta, pontapeava-o enquanto lhe gritava algo que aquela distancia ainda lhes era imperceptível. Continuou a correr enquanto empunhava o velho machado de bombeiro que conservara na garagem desde os tempos em que servira como voluntário naquela instituição. Depois, bom depois só se lembra de ver aquele homem vestido com um velho camuflado cair. O camuflado apesar de velho e coçado estava limpo e engomado. O verde-garrafa da parte de cima não demorou a ficar envolto em vermelho vivo e os gritos que o homem proferia transformaram-se em murmúrios delirantes. Não se lembrava do som da crânio a ceder, nem da força que necessitou de empregar para desferir o golpe. Lembrava-se que tinha sido só um golpe, que durou um só segundo… certamente o segundo mais importante de toda a sua vida e aquele que faria terminar uma outra. Lembra-se de ver a parte de cima do crânio rebentar e evaporar-se numa fina chuva vermelha. Lembra-se de o ver tombado, com a cabeça desfeita a pender de maneira estranha, como se tivesse o pescoço de borracha, com uma mão estendida para si, fraca e suplicante.


O moribundo soluçou e sentiu-se uma convulsão que lhe estremeceu o corpo por inteiro. A dor cravara-se-lhe como unhas afiadas e a cabeça latejava-lhe. Não gritou por auxílio, não o conseguira, primeiro tentara mas a garganta já não respondera. A dor e a vida estavam agora de mãos dadas. Sabia que quando já não houvesse dor, também já não haveria vida. Estava cheio de frio e de medo. Num último esforço olhou para os sinos imóveis da igreja e foi a ultima coisa que viu. Mirko estava sozinho com um cadáver e a lua como testemunha. Todos os outros tinham fugido e levado consigo o seu irmão mal tratado mas vivo. Sentou-se ao lado daquele corpo vazio de vida. Não sabe o nome dele, não consegue imaginar o seu rosto antes de deformado pelo golpe. Não sabe rigorosamente nada sobre ele, a não ser que lhe ceifou a vida para poupar a do seu irmão mais novo. O irmão que sempre protegeu e que sempre deu dores de cabeça à família. Levantou-se e chegou-se junto do cadáver. As solas das botas colam-se ao sangue e escorregam. Baixa-se e agarra numa das mãos sem vida e ainda quente. É difícil agarrar na outra. Perde o equilíbrio e cai. Fica com o nariz a um centímetro do que resta da cabeça que desfez. Uma prega de pele cai do crânio esvaziado, como uma peruca barata e de má qualidade. Agarra por fim a outra mão e arrasta o corpo para o interior de uma arcada adjacente, depois agacha-se fecha-lhe os olhos, tira o seu casaco de lã azul que o protegera de tantos invernos e tapa o infeliz. Sabe que o mundo como existia até ai terminou, sabe que a sua Sladjana, o seu Pejo e a sua Slavica ficarão subitamente sozinhos, sabe que não tarda muito a que a polícia o venha buscar…

Capitulo I  

O livro começa na infância de Sladjana, que vai sobreviver à prisão do pai, ao afastamento da mãe, a uma guerra sangrenta e a um regresso a...

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