Page 1


02

opinião

Curitiba, novembro de 2009

SERÁ QUE OS RIOS TÊM LUGAR NA VIDA DO CIDADÃO DA CAPITAL ECOLÓGICA?

Parceria entre jornalismo cidadão e rios Qual a imagem que temos de um rio? Esta questão não deve se calar hoje. O normal é não vermos um rio como pertencendo naturalmente ao nosso meio urbano, mesmo que historicamente Curitiba tenha sido construída ribeirinha a dois rios, com o propósito de abastecimento de água e resolver o proble ma dos dejetos humanos. Os movimentos de um rio, seus ciclos naturais de cheias e secas, parecem não combinar com grandes aglomerados de pessoas e de construções imponentes. Então, ao longo dos tempos, procuramos domesticá-los da forma mais

Patrícia Fernanda

Rios de Curitiba estão escondidos, por isso a população lhes dá pouca atenção, causando prejuízos a todos e ao futuro da cidade

conveniente para nós: desviamos seu curso, canalizamos, construímos represas e usinas hidrelétricas, arquitetamos parques, que também não dão a noção de que ali circula um rio. Assim, nós não os vemos,

deixando de nos preocupar com eles, pois virtualmente deixam de exis tir. Mas e quando nós mesmos poluímos os rios sem saber, devido à ineficiência do sistema de esgoto? Será que não temos nada a ver

OMBUDSMAN - FIDELIDADE AO TEMA É FUNDAMENTAL

Algumas lições de um tempo bom para produzir jornalistas de boa qualidade Gostaria de mencionar que me senti honrada com o convite para atuar como ombudsman. Ao analisar o 166º Comunicare pude reviver todo o processo, tão fundamental em minha formação. A capa elaborada traduziu de maneira interessante o tema em questão – as influências estrangeiras como parte da formulação de nossa cultura – e serve de prelúdio a pautas densas e bem trabalhadas. No entanto, em determinado momento da leitura algumas matérias (como as principais de Tecnolo-

gia e de Moda) não revelam qualquer acordo com a temática proposta. Embora o Brasil seja citação constante, não há relação com o restante do jornal. Não vi influências forasteiras, hábitos incorporados à nossa rotina, valores advindos de outros países, nem mesmo um simples gentílico estrangeiro. Nenhuma fronteira foi transposta. Em outros momentos senti clara ausência de jornalismo. Percebi passagens puramente opinativas, até em títulos. Não deduzam, instiguem! Não reciclem releases, cor-

ram atrás de fontes. E por falar nelas, um grave erro: falta de referências de consulta nos boxes, o que pode parecer ou ser plágio. Por fim, cito argumentos superficiais, diagramação pouco ousada, ausência de espírito crítico na codução da entrevista. Por outro lado, reconheço que a turma explorou bem as possibilidades que o tema dá. Vão além e muito sucesso! Carolina Kirchner, analista de Comunicação da Mmcom Dirigida (Comunicare 2005).

com as favelas que se erguem à margem dos rios, sem outro espaço senão esse, sofrendo especialmente na época das cheias? Para falar sobre isso, nada melhor que usar uma arma jornalística relativamente nova: o jornalismo cidadão, presente nesta edição. É uma forma de noticiar sob o ponto de vista de quem vive a história, e não das autoridades para quem está tudo bem. A imparcialidade jornalística é abandonada pela causa do cidadão, edificando a democracia. Então, ótima leitura! Ana Superchinski

FALA PROFESSOR

“A edição Abrasileirado tem matérias de interesse público, bem objetivas.” Cícero Lira, professor de Jornalismo da PUCPR.

FALA LEITOR

“O Comunicare traz matérias atualíssimas numa linguagem clara.” Sandra Helena Schiavon, bibliotecária da PUCPR.

NOSSA CAPA

A capa é inspirada no modelo dos tablóides ingleses, chamando atenção para o problema dos rios. Arte: José Mário Dias. Fotos das editorias.

EXPEDIENTE Jornal Laboratório da Pontifícia Universidade Católica do Paraná Edição nº 173 - Turno Diurno Novembro/2009/ nº 173 PUCPR Rua Imaculada Conceição 1.155, Prado Velho, Curitiba/ PR Reitor Clemente Ivo Juliato Decano do CCJS Roberto Linhares da Costa Decano-Adjunto do CCJS Marilena Winters Diretora do Curso de Jornalismo Prof. Mônica Fort COMUNICARE Jornalista Responsável Prof. Zanei Barcellos DRT 1182-07-93 Coord. de Projeto Gráfico Prof. Queila Regina S. Matitz EDITORES Primeira página José Mário Dias Opinião Ana Superchinski Entrevista Emeline Hirafuji Geral Flávia Tomita Cidade Marília Dissenha Região Metropolitana Vinícius Gallon Política Lívia Cardoso Lazer Elis Paola Jacques Esporte Igor H. Castanho Cultura Gisele Eberspächer Educação Marília Dissenha


entrevista

03

Curitiba, novembro de 2009

PALESTRAS ALERTAM SOBRE NECESSIDADE DE PRESERVAÇÃO DOS RIOS DE CURITIBA E REGIÃO

Cinco olhares sobre os rios curitibanos Palestras organizadas no dia 14 de setembro pelos alunos da equipe do Comunicare da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) de Curitiba, com a orientação do professor Zanei Barcellos, trouxeram ao câmpus representantes do governo, comunidades e associações com diversos pontos de vista a respeito da atual situação dos rios da grande Curitiba. Em comum, os palestrantes apontaram que a integração entre governo e sociedade é fundamental para a

revitalização e preservação dos rios. O motivo da mobilização foi informar aos alunos de Jornalismo e Engenharia ambiental, que estavam presentes no local, sobre a qualidade das águas e outros problemas como ocupações irregulares, poluição e o descaso do governo e da sociedade. Essas diferentes opiniões contribuíram para a confecção do jornal Comunicare (Rios). Estavam presentes o presidente da AMA São Lourenço (Associação dos Moradores e Amigos

do São Lourenço) César Paes Leme, o vice-presidente da Associação de Moradores do bairro Liberdade de Colombo, Arivaldo da Silva Machado, a gerente da Secretaria do Meio Ambiente de Curitiba, Leny Mari Toniolo, o professor do curso de engenharia ambiental, Adalberto Egg Passos e o secretário de Habitação do Estado do Paraná, Rafael Greca.

Morador

Educação

Habitação

Arivaldo da Silva Machado

Arivaldo da Silva Machado, vice-presidente da Associação de moradores do bairro Liberdade, em Colombo, às margens do rio Palmital, chamou atenção para o desentendimento entre a Prefeitura e o Estado que acaba estagnando a resolução dos problemas enfrentados pelos rios da cidade. Destacou também a dificuldade que ocorre na tentativa de educar o povo do bairro quanto à poluição dos rios. Segundo Arivaldo, por mais que seja feito um trabalho de conscientização, não é raro que os moradores voltem a poluir mesmo sabendo dos efeitos nocivos à natureza e à população. Para o vice-presidente da associação, a falta de infra-estrutura e o descaso dos moradores e dos governantes impedem que o processo de revitalização dos rios seja realizado.

Leny Mari Toniolo

Leny Mari Toniolo, engenheira ambiental e gerente da Secretaria do Meio Ambiente de Curitiba, mostrou a necessidade de implantar a educação ambiental e a importância de ter uma referência histórica de cada rio. “É preciso trazer os rios para perto de nós, conhecer a sua história, só assim começaremos a prestar mais atenção e cuidaremos mais deles”. Na palestra, a engenheira também abordou o descaso da população em relação a alguns rios. “Há pessoas que chamam os rios de valetão, o tratam como se fossem esgotos e jogam os seus lixos caseiros” ressalta. Leny também é responsável pelo projeto Olho D´água, Preservação e Recuperação de Nascentes, Educação Ambiental nas Microbacias da Cidade de Curitiba. Mais sobre educação ambiental na página 16.

Emeline Hirafuji Geferson Barazetti Lidiane Tonon

Rafael Greca

O secretário de Habitação do Estado do Paraná e também presidente da Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), Rafael Greca falou sobre os projetos de reurbanização de áreas que tiveram ocupação irregular e a revitalização das margens de rios. A etapa do bairro Zumbi dos Palmares, em Colombo, já foi concluída. Segundo Greca, a população da região está recolocada e o rio Palmital está preservado. Em Piraquara, mil famílias do bairro Guarituba estão sendo remanejadas e as ruas sem saída junto ao rio foram extintas. Com um investimento de aproximadamente R$ 36 milhões, Pinhais deve ganhar 447 novas casas para famílias que habitam áreas de risco. De acordo o secretário, 40% dos paranaenses vivem na RMC e grande parte delas em situação de sub-habitação.

Fotos: Paulo José Mello

Segundo os palestrantes é fundamental que, junto ao governo, a população participe da revitalização dos rios e mananciais

Alunos questionam sobre a qualidade dos rios da capital

Poluição

Adalberto Egg Passos

Adalberto Egg Passsos, professor de Engenharia Ambiental da PUCPR, deixou claro seu ponto de vista ao apontar que o problema dos rios em Curitiba é pior que o divulgado. Revelou que todos os rios da capital paranaense encontram-se em situação caótica devido a agressões cometidas pela população e alertou que uma das soluções para o problema seria proteger os rios dos moradores, para Adalberto, os maiores agressores. Segundo o professor, o fato de Curitiba ser conhecida como a capital ecológica, certamente não é devido à qualidade dos rios e que por trás do interesse em apresentar a cidade como referência ambiental, existe um enorme descaso que parte tanto do governo como da população. Saiba mais sobre poluição dos rios nas páginas 4 e 5.

Voluntário

Cézar Paes Leme

Na palestra, o presidente da AMA São Lourenço (Associação dos Moradores e Amigos do São Lourenço), presidente do Lions Clube Mercês e assessor do Meio Ambiente do Distrito LD1 Lions Internacional, Cézar Paes Leme, enfatizou a importância do trabalho voluntário na preservação dos rios e suas margens, como no projeto Viva Belém e o Patrulha Ambiental. Cézar declara que o rio Belém é o rio mais poluído de Curitiba. “Ele possui todos os exemplos de agressões possíveis que o homem pode fazer contra um rio” e relata que não fosse a ação voluntária de muitos, o rio Belém estaria em uma situação muito pior do que está hoje. O presidente da associação ainda chama a atenção dos moradores próximos às margens, “a melhor pessoa para cuidar é quem mora no local”.


04

diagnóstico

Curitiba, novembro de 2009

LIXO DOMÉSTICO E ESGOTO URBANO SÃO OS PRINCIPAIS POLUENTES DOS RIOS DA RMC

Água: cada vez mais difícil de ser tratada A situação dos rios que passam pela capital é crítica e, segundo o especialista em Ecologia Adalberto Egg Passos, é provável que em até 30 anos não seja possível encontrar água tratada em Curitiba. Diariamente são encontrados objetos e resíduos boiando na água, presença de lixo ao redor dos rios, assoreamento e também precariedade no sistema de tratamento de esgotos urbanos. Em função dos aclives e declives no percurso das águas, a poluição sofre um processo de isolamento e se intensifica mais próximo às nascentes, pela urbanização e pelo grande número de indústrias serem mais ativos nessas regiões. A maioria dos rios já estão canalizados em pelo menos um ponto do seu trajeto para que a construção civil não encontre problemas e o mau cheiro não perturbe as pessoas que passam perto deles. Em regiões mais pobres, há muitas ocupações irregulares nas margens dos rios, são construídas moradias que

Fotos: Bruna Regatieri

Em algumas décadas, a população sofrerá para ter acesso à água tratada de rios da região metropolitana da capital paranaense

Morador utiliza kit para analisar qualidade da água

contribuem para que a poluição das águas cresça ainda mais. Segundo o biológo e especialista na área de Ecologia Adalberto Egg Passos, está cada vez mais complicado tratar água para o consumo humano porque não é possível captar a água dos rios com tanta sujeira. Há um grande risco de a água não ficar completamente limpa. “Acredito

Técnico da Sanepar analisando a amostra

que em 30 anos não tenha água tratada de rios da região metropolitana de Curitiba para toda a população, caso o crescimento urbano continue com essa mesma intensidade”, acrescentou o especialista. A Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) leva água tratada e faz serviços como coleta e tratamento da água e

esgoto para todo o estado do Paraná. Alisson Anginski, agente técnico da Sanepar, relata que “no laboratório, ao coletar a água bruta, são encontrados sólidos e suspensão, resíduos vindos de erosões, principalmente quando há enxurrada, pois a vegetação é transportada. As análises são feitas de hora em hora em um processo com uso

de produtos químicos para que a água chegue ao padrão para o consumo humano”. Testes para analisar a qualidade da água podem ser feitos por qualquer pessoa que possua um kit como o que é utilizado pela Sanepar para verificar os poluentes da água. É o caso do morador do bairro São Lourenço, Bruno Verdi. Ele coleta água de diversos pontos do Rio São Lourenço e faz a análise. “Como um estudante da área da saúde, me preocupo com a situação ambiental e tento fazer a minha parte. Se encontro substâncias perigosas para a nossa saúde, alerto meus vizinhos e aviso a Sanepar”, complementa Verdi. Curitiba possui três estações de tratamento de água e conta com a colaboração do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), que monitora a qualidade da água das bacias hidrográficas do estado. Mas, apesar dos esforços para manter a qualidade, os rios estão cada vez mais poluídos. Bruna Regatieri

ESPÉCIES MAIS RÚSTICAS TÊM MAIS FACILIDADE NA ADAPTAÇÃO AO NOVO AMBIENTE

Animais se adaptam para sobreviver à poluição mais rapidamente, como o peixe barrigudinho encontrado em rios curitibanos. A poluição, causada principalmente por produtos químicos, faz com que espécies de peixes se extinguam em poucos anos. Aranha fala que, além de contaminar os animais, a poluição é prejudicial ao ser humano que venha a consumir esse alimento. Em alguns rios é possível encontrar pessoas pescando. “Muitas delas não tem conhecimento de que esse alimento pode fazer mal. Pensam que, se da primeira vez que eles comem nada acontece, não tem com o que se preocupar. Porém esse mal, na maioria das vezes, só aparece a longo prazo”, disse o professor. Os guardas municipais não tem muito o que fazer a esse respeito. “Esse

ato não é proibido. O que podemos fazer é explicar os riscos a estas pessoas”, conta o guarda municipal Jaime da Costa. Além dos peixes, outros animais são suscetíveis a mudanças.

As aves, por exemplo, encontram nos rios as condições necessárias para a sua sobrevivência, como a garça-branca-grande e o biguá. Francielle Ciconetto

Francielle Ciconetto

Com a poluição cada vez mais presente nos rios curitibanos, os animais precisam se adaptar para sobreviver. Atualmente, algumas espécies convivem com ela mais facilmente, mostrando que ainda pode existir vida nos rios da capital. A região de Curitiba possui 317 espécies entre peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis, que dependem das áreas de rios e muitas vezes só podem ser encontradas nessa região. “Os animais com um maior potencial de sobrevivência são em geral espécies mais rústicas”, explica Marcelo Aranha, professor da Universidade Federal do Paraná, atuante em ecologia dos rios. Esses animais que têm alta adaptação à poluição são ciclídeos e espécies que se reproduzem

Animais mais resistentes têm mais facilidade para se adaptar

Desequilíbrio Quando matéria orgânica é lançada no rio, aumenta a oferta de comida, fazendo com que a população de peixes, microorganismos e insetos aquáticos também se multiplique. Após algum tempo, chega um ponto em que existe um número de peixes insuficiente para a grande oferta de comida. Quando essa matéria orgânica começa a se decompor, ocorre a fermentação, processo que consome o oxigênio da água. Esse processo faz com que os organismos morram por sua falta. F.C.


diagnóstico

05

Curitiba, novembro de 2009

ATERRO DA CAXIMBA, UM DOS RESPONSÁVEIS POR POLUIR O RIO IGUAÇU, DEVE SER FECHADO EM JANEIRO

Rio Iguaçu é o 2º mais poluído do Brasil Curitiba, que é conhecida como a capital ecológica do país, tem o segundo rio mais poluído do Brasil segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É o Rio Iguaçu, que perde apenas para o Tietê. Essa poluição deve-se, em grande parte, à quantidade de pessoas que moram em volta do rio. Mas o aterro da Caximba também é um dos responsáveis por parte da poluição, uma vez que o rio é atingido pelo chorume do aterro. Em abril deste ano ocorreu um impasse envolvendo o aterro da Caximba, e o IAP (Instituto Ambiental do Paraná) garantiu que o aterro seria desativado até julho, mês no qual a vida útil do local teria se esgotado. Porém, o aterro continua funcionando. Apesar do que afirma o IAP, a Secretaria do Meio Ambiente alega que Curitiba tem um parecer que permite a utilização do aterro até o começo de 2010.

“Se o aterro funcionar acima da capacidade limite prejudicaria muito o Rio Iguaçu”, afirma Vítor Hugo Burko, presidente do IAP, que também não cogita a ampliação do aterro, o que, segundo ele prejudicaria ainda mais o rio. Mas como medidas foram tomadas pela prefeitura, a capacidade se estendeu até dezembro deste ano, gerando protestos de ecologistas e moradores, que também reivindicam a participação de uma comissão para fiscalizar o material destinado ao aterro. Zoemir de Souza, criador de bois no bairro Caximba, reclama do mau cheiro e outros problemas gerados pelo aterro. “Tem dias que ninguém aguenta o cheiro aqui”, afirma Zoemir. Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o Plano de Encerramento, que prevê o fim do aterro até janeiro de 2010, só depende da aprovação do IAP para ser efetivado, deixando a

Larissa Dalitz

Esgoto doméstico, ocupações irregulares, depósito de lixo e desmatamento são principais motivos da poluição dos rios da capital

Rio Iguaçu, localizado ao lado do aterro da Caximba

população ainda sem saber se o fechamento é certo ou não. Outra preocupação dos moradores de Curitiba é para onde vai o lixo que antes era destinado à Caximba quando o aterro fechar. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente, esse lixo já tem destino. O Sistema de Processamento e Aproveitamento de Resíduos

(Sipar) irá tratar e aproveitar o lixo produzido pela população de Curitiba. A indústria vai transformar o lixo em matériaprima, como adubo. A proposta é eliminar o aterro sanitário. O Rio Iguaçu não é o único poluído na capital. “A situação dos rios de Curitiba é deprimente”, afirma Vítor Hugo

Burko, presidente do IAP. Não é nenhuma novidade que os rios como o Atuba, Barigüi e Belém também estão num estado crítico. Como principais motivos da poluição, temos o despejo de esgoto doméstico, ocupações irregulares e depósito de lixo. E apenas a conscientização da população não basta para revitalizar esses rios. Programas de revitalização devem ser feitos e efetivados para que haja uma melhora significativa. Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o programa Viva Barigui está sendo implantado para revitalizar a bacia hidrográfica do Rio Barigüi. O projeto prevê a realocação de famílias em áreas irregulares. Mas para os moradores de Curitiba ainda é pouco. “É uma vergonha a poluição dos rios da capital”, diz Maria Zornig, moradora do bairro Jardim Botânico. Larissa Dalitz

ÚNICO ESSENCIALMENTE CURITIBANO, RIO BELÉM SOFRE COM A FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO

Fiscalização deixa a desejar quando se trata de preservar os rios calização do IAP, diz que “para pessoas físicas serem multadas, é necessário o recebimento de denúncias (0800-6430304) ou ser feito o flagrante”. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) afirma que é muito difícil conter este problema, pois não depende completamente do seu trabalho. Porém, não soube

informar qual foi o último caso de multa aplicada a um cidadão comum ou empresa, e quais as respectivas penas. “Nós não podemos fornecer dados pessoais sobre os casos sem o consentimento da pessoa ou empresa”. Em contraponto, há projetos de revitalização como o AMA São Lourenço, que inserem a

comunidade em atividades pela preservação dos rios. Por exemplo o Viva Belém, que foi criado com o intuito de promover ações que ajudem a preservar o rio Belém e conscientizar sobre a importância das ligações corretas de esgoto. Analívia Ferreira da Costa

Analívia Ferreira da COsta

forme afirmou um funcionário do local: “A prefeitura não cuida mais. Para os lados de Almirante Tamandaré o rio é mais limpo”. Ao percorrer o caminho do rio pela cidade, nota-se a falta de preservação e cuidado imposta ao Belém, tanto pela população ribeirinha e cidadãos comuns quanto por fábricas. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP), afirma, em relação à legislação de preservação dos rios, que existem leis que proíbem o despejo de dejetos e multas aplicadas nos diferentes casos; Por exemplo quem causar poluição em níveis que resultem em danos à saúde humana ou que provoquem a morte de animais ou a destruição significativa da flora. Para uma empresa que lançar resíduos tóxicos, a pena aumenta para cinco anos. Claudemir Colerhans, técnico em fis-

Analívia Ferreira da COsta

A capital do Paraná sofre com a falta de preservação quando se trata dos rios da cidade. O Rio Belém, único essencialmente curitibano, é também o que se encontra em pior estado. Projetos de revitalização são feitos por todo seu percurso e dão resultado a longo prazo. Porém, a falta de controle dos órgãos responsáveis pela preservação do meio ambiente prejudica o andamento desse processo. Com sua nascente localizada no bairro Cachoeira, região norte da cidade limitando-se com o município de Almirante Tamandaré, o Rio Belém possui 17,13 km de extensão e tem sua fonte preservada pelo Parque das Nascentes, criado em 2001. Contudo, oito anos depois de sua fundação, o parque já não se encontra em condições boas de preservação como antes, con-

Lixo é encontrado na nascente do Rio Belém

Ponto poluído do Belém no bairro Uberaba


06

Curitiba, novembro de 2009

propaganda


cidade

07

Curitiba, novembro de 2009

MORADORA DE 67 ANOS CONTA QUE ENTROU EM BUEIRO PARA DIMINUIR ESTRAGOS

Manutenção de bueiros é falha em Curitiba

Patrícia Fernanda

Os rios e bueiros de Curitiba precisam de limpeza constante para evitar enchentes e prejuízos à população. Moradores de bairros da capital reclamam do descaso da prefeitura na manutenção dos bueiros, que a cada chuva forte alagam as ruas e levam sujeira e muitos transtornos para as casas da região. A aposentada Cacilda Pereira, de 67 anos, mora no Uberaba há 50 anos e diz que nunca viu a prefeitura limpar os bueiros da região. Ela explica que os alagamentos ocorrem porque o rio Belém enche, e os bueiros entupidos não escoam toda a água. Cacilda conta que para evitar maiores prejuízos, limpou os bueiros próximos a sua casa. “Eu já entrei duas vezes para limpar. Coloquei luva e bota e entrei. Tirei um monte de lixo”. As enchentes não ocorrem somente nos bairros mais afastados. Proprietários de comércio na Rua Desembargador Westphalen, no bairro Rebouças também sofrem com os constantes alagamentos. Maurício Kops, 45 anos, proprietário de uma

Patrícia Fernanda

População da cidade reclama que limpeza preventiva não é feita e a prefeitura não presta atendimento em dias de alagamento

Lixo em bueiro da R. José Hauer não permite escoamento da água

Cacilda não teme bueiros sujos

loja de veículos, disse que sempre houve enchentes próximo ao cruzamento da Desembargador Westphalen com a Brasílio Itiberê. Kops reclama que quando chama a prefeitura pelo telefone 156, nem sempre é atendido e, quando é, dificilmente alguém aparece para resolver o prolema.

20 cm e que em todas as vezes tem que fechar as portas da loja. “É muito prejuízo, o cliente que vê a loja alagada não compra o carro. O imóvel é desvalorizado, fora a sujeira e o mau cheiro. Também não posso trocar os móveis, porque tudo apodrece”, contou.

“Passam alguns dias e a prefeitura liga para dar satisfação. Dizem que foi feita a limpeza, que tiraram sete caçambas de lixo, mas eu questiono: ‘quando, por onde, como foi?’, porque eu nunca vejo”. Kops conta que nas enchentes mais graves a água chega a subir

Na mesma rua, a gerente da Globo Estofaria, Edlane Oliveira, 46 anos, também sofre com as enchentes constantes. Ela conta que precisou adaptar todos os móveis do estabelecimento para que os prejuízos fossem menores. “Nós fizemos tudo mais alto para não molhar”. Edlane calcula que em um dia de alagamento, chega a perder R$ 600. Ao contrário de Kops, ela diz que sempre é atendida no 156, mas que a prefeitura nunca chega a tempo. O outro lado O diretor do Departamento de Pontes e Drenagem - responsável pela manutenção dos bueiros -, Djalma Mendes dos Santos, diz que “a limpeza é feita durante todo o ano, até em época de estiagem”. Segundo ele, há cerca de 200 fiscais nas ruas que procuram por problemas nos bueiros, mas que esse número ainda é muito pequeno para uma cidade tão grande, e que a prefeitura precisa da população para direcionar o trabalho. Patrícia Fernanda

SEM CONTATO DIRETO COM OS RIOS CANALIZADOS, POPULAÇÃO SE DESINTERESSA PELO BEM PÚBLICO Em Curitiba, a Bacia do Rio Belém, que compreende uma grande parte central da cidade, foi considerada pelo Intituto Ambiental do Paraná (IAP), a mais prejudicada da capital. A bacia não atende aos parâmetros físico-químicos da análise que verifica a qualidade das águas dos rios curitibanos. A população, porém, se mostra passiva a isso e considera ações, como o confinamento de rios, necessárias para o crescimento do meio. Além disso, não se vê políticas públicas para criar uma relação mais próxima entre os rios e a população que vive cercada de concreto. “As canalizações são importantes, pois é uma forma de manter os rios limpos e evitar

inundações”, disse a estudante de medicina Pollyana Schnaider, 20 anos, que mora no Centro de Curitiba e não sabia que o Rio Belém passa próximo da sua casa, embaixo da Rua Tibagi. “É melhor ser canalizado do que virar um esgoto ao ar livre”, expôs a dona de casa do bairro Bigorrilho, Mareli de Fátima, 47 anos, que pouco sabia sobre o Rio Bi-gorrilho, que passa pela Rua Fernando Moreira. Segundo a coordenadora técnica de recursos hídricos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Cláudia Boscardin, não é mais autorizado a canalização de rios. Contudo, essa idéia persiste herdada do intenso crescimento urbano do século XX, quando não existiam as preocupações ambi-

Marília Dissenha

Rios canalizados perdem suas identidades no ambiente urbano

Abaixo de prédios e carros, o Rio Belém passa pela Rua Tibagi

entais que se tem hoje em dia. O engenheiro civil Carlos Eduardo Tucci conclui no livro “Águas Urbanas: Interfaces no Gerenciamento” que a canalização de cursos d’água é socialmente injusta e incorreta em relação ao meio ambiente.

Além de privar a sociedade de um bem público, que lhe oferece uma melhor qualidade de vida, esse processo impede que a própria população acompanhe as condições de suas águas. Perdendo totalmente o contato com os rios, as pessoas passam a não

valorizá-los e a acreditar que rios abertos e limpos e urbanização não combinam. Desta forma, os rios perdem suas principais características e acabam afastados e esquecidos pela população. Moradores de bairros de Curitiba afirmaram que não possuem contato com alguma campanha que vise construir uma maior valorização dos rios curitibanos. “Não há políticas públicas nem de despoluição nem de conscientização quanto à importância dos rios”, disse o estudante de design Ricardo Alves, 26 anos e a auxiliar de produção de vídeos, Flávia Silva, 20 anos, declarou não ter contato com algo sobre esse assunto. Marília Dissenha


08

região met

Curitiba, novembro de 2009

PREFEITURA DE COLOMBO E GOVERNO DO ESTADO NÃO ENTRAM EM ACORDO E PREJUDICAM A QUALIDADE

Bairro Vila Liberdade é símbolo do descas sai das residências e cai direto no rio Palmital. Quando chove e o nível do rio aumenta, este esgoto volta para os encanamentos através das pias e dos sanitários, causando muita sujeira. Esta tubulação chegou a ser construída pela prefeitura de Colombo no bairro vizinho, Vila Zumbi, mas para que essa tubulação chegue ao Liberdade, é necessário passar por baixo da BR-116. O problema é que esse trajeto deve ser construído pelo Governo do Estado. E neste impasse entre governo e prefeitura, são os moradores que sofrem. Em coletiva de imprensa realizada pelo presidente da Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), Rafael Greca, foi dito que essa obra começaria em setembro de 2009, mas até hoje nada foi feito, conforme constatou o Comunicare em loco. A família de Inês Ferreira

Vinícius Gallon

Rafael Peterson Félix, de 11 anos, é um morador do Bairro Liberdade de Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, e assim como milhares de famílias, mora em uma área de ocupação irregular. Aproximadamente 800 famílias residem no bairro e são obrigadas a conviver diariamente com os diversos problemas que esse tipo de habitação apresenta. Para conhecer essa realidade a fundo, os repórteres do Comunicare visitaram casas e percorreram o trecho do rio Palmital que corta a comunidade guiada por Rafael. Um dos principais problemas refere-se ao esgoto. A prefeitura de Colombo construiu as tubulações, mas não ligou os encanamentos das ruas às casas dos moradores. Uma solução encontrada pelas famílias foi construir com os próprios recursos, uma tubulação improvisada que

Vinícius Gallon

Mais de 800 famílias vivem em condições precárias, contraem doenças físicas e psicológicas devido á falta de saneamento básico

Quadras construídas para evitar ocupações irregulares

Lima convive ainda com outra dificuldade. A filha Ingrid Lima Cassiano, 12, sofre há dez anos com um câncer no maxilar e precisa de higiene para fazer o

Prefeitura de Colombo não ligou

tratamento. “Quando esse lixo volta pelo encanamento, a gente até limpa, mas parece que nunca é suficiente porque minha casa vive infestada de ratos e baratas.

Tenho medo que numa das crises da Ingrid, quando sua boca sangra por conta do câncer, ela acabe pegando uma infecção”. Ingrid também faz quimiotera-

MÃES DE GAROTOS NEGAM QUE SEUS FILHOS TENHAM CONTATO COM A ÁGUA, MAS A POPULAÇÃO LOCAL C

Crianças pescam traira no ‘‘Valetão da rua 28’’

para a mesma valeta onde os garotos pescam. Após as pescarias, os garotos voltam para casa, limpam os peixes e os comem. “O valetão

é podre, mas não tem problema, porque nós limpamos e fritamos os peixes direitinho”, afirmou GFL, de 8 anos. As mães dos garotos negam que seus filhos se

divirtam no Palmital e pesquem no riacho poluído, mas a população local confirma o fato. Os peixes mais encontrados na valeta são, segundo as crianças, cascudo, traíra e bagres, além de rãs, que eventualmente, são capturadas no Palmital. No Posto de Saúde de Mauá, responsável pela Vila Zumbi, 20% das crianças que chegam apresentam diarréia. “Essas crianças, muitas vezes não têm acesso a saneamento básico, a higiene é precária e a água ingerida é mal tratada. Quando o caso não é muito grave, tratamos com soro, senão encaminhamos para um hospital”, disse a técnica em enfermagem do Posto de Saúde de Mauá, Fabíola Souza Pereira. No verão esse problema aumenta, já que a quantidade de chuva é elevada e o contato com a água também. Fabíola acrescentou que não são só as

Lívia Pulchério

Crianças que moram no bairro Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), encontraram uma alternativa para se divertir nas horas de lazer: pescam em um córrego, denominado “Valetão da rua 28” pela população local, e nadam no rio Palmital, que de tão poluído já não tem mais peixes. É possível ver muito lixo pendurado nas margens do valetão, apesar da água ser aparentemente limpa. Subindo o seu curso, em direção à nascente, chega-se ao bairro Centro Industrial de Mauá. Segundo o vicepresidente da Associação de Moradores da Vila Zumbi, Adeneeldes Oliveira, nesse bairro não há rede de esgotos, assim as diversas fábricas do local, como de carvão, produtos de limpeza e tintas, não têm onde despejar seus resíduos, que acabam indo

Lívia Pulchério

Crianças da Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo, nadam no r pescam e comem peixes de valeta poluída por fábricas de regiã

Garotos caçam iscas

crianças prejudicadas pela falta de saneamento básico. Muitos adultos chegam ao posto com leptospirose, causada principalmente pela urina do rato de esgoto, e hepatite A, ocasionada


tropolitana

09

Curitiba, novembro de 2009

E DE VIDA DA POPULAÇÃO LOCAL. MORADORES RECLAMAM E PROMOVEM ABAIXO-ASSINADO

so com os moradores ribeirinhos da RMC

o no bairro Vila Liberdade, às margens do rio Palmital. Obras em benefício da comunidade ainda não têm prazo para começar

a rede de esgoto às casas

pia no hospital Erasto Gaertner, e durante cinco dias por mês a família tem de levá-la para fazer o tratamento. “Já tivemos que enfrentar muito lamaçal e

CONFIRMA O FATO

muita água do Palmital até a canela por amor a nossa filha”, desabafa José Carlos Cassiano, pai de Ingrid. O descaso do Governo não diz respeito apenas ao saneamento básico. A prefeitura de Colombo é responsável por disponibilizar à família de Ingrid o remédio Ipsilon, que custa R$ 25,00 e que controla as hemorragias da garota. Essa medicação não está sendo entregue à família que depende de doações. A população ribeirinha também espera o cumprimento das promessas do Governo. Moradores da região contam que as obras de regularização e relocação das famílias que estão em áreas de risco e irregulares foram prometidas para abril, adiadas para julho e depois setembro, mas até agora não foram iniciadas. Na casa de Ivanira Lima, mãe do guia Rafael, a família che-

gou a perder todos os móveis por conta dos alagamentos, por isso tiveram que subir o nível da casa em um metro. “É a terceira vez que fazemos uma reforma.

‘‘Não aguento mais sofrimento, preciso muito de ajuda’’ Precisamos de mais estabilidade para viver com dignidade”, relatou Ivanira. Rafael e o irmão Jean, também já levaram um grande susto. No fim de um dia chuvoso, a rua alagou, escondendo um buraco. “Os meninos estavam brincando quando caíram com a cabeça virada para baixo.

Se um vizinho que passava no momento não tivesse visto estaríamos sem eles agora”, conta a mãe dos meninos. Um caso de leptospirose traumatizou outra mãe. O filho de Naira dos Santos contraiu a doença enquanto limpava a casa alagada e teve contato com urina de rato. Depois de 18 dias internado no hospital, Claudinei dos Santos se curou, mas acabou morrendo vítima de assassinato. Desde então, dona Naira não consegue mais sair de casa quando chove, a lembrança do filho não a deixa esquecer do sofrimento causado pela doença. “Nem tirar a água que acumula dos alagamentos eu consigo. Estou enfrentando uma depressão profunda. Toda vez que vejo um rato minhas pernas incham e eu não consigo sair de casa. Não aguento mais sofrimento, preciso muito de ajuda”, desabafa.

Para melhorar essa situação, é preciso que haja políticas públicas voltadas para o saneamento básico dessa região. São medidas simples que poderiam prevenir que várias famílias convivessem com tantos riscos de contaminação decorrentes de uma higiene precária. A finalização das obras da rede de esgotos é uma dessas medidas. Abaixo-assinado Os moradores do Bairro Vila Liberdade promoveram um abaixo-assinado com as principais reclamações referentes ao rio Palmital e a falta de saneamento Básico. O documento que será levado até a prefeitura de Colombo, arrecadou até o momento 80 assinaturas. Ana Luiza de Lima Lívia Pulchério Nathália Pontes Vinícius Gallon

O MURO QUE DIVIDE A VILA LIBERDADE TEM PONTOS DE DROGAS E PROSTITUIÇÃO

pela contaminação das águas pelo vírus. Uma cancha esportiva deveria ser construída às margens do rio Palmital, como parte da estratégia para reduzir a criminalidade do bairro, segundo o presidente da Cohapar, Rafael Greca. Mas até agora o que se vê são somente entulhos de lixo, mato e um módulo da polícia militar que abriga o Projeto povo, sempre vazio. Além disso, o rio Palmital possui uma barragem, destinada à contenção de enchentes, que deveria estar recebendo tratamento de água, mas não está. “Essa cancha está prometida há tempos para as crianças brincarem, mas até hoje nada foi feito. Assim, a vila nunca vai deixar de ser favela”, constatou a dona de casa Ivonete Lucas, mãe de G. Lívia Pulchério

Dezenas de moradores do Bairro Liberdade e da Vila Zumbi dos Palmares de Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, trabalham e fazem compras fora dos dois bairros. E a principal via de acesso é um trecho murado de aproximadamente 1 km, que além de esburacado e lamacento, é violento, tendo diversos pontos com vendas de drogas e prostituição. Para atravessar para o outro lado a população construiu uma ponte com manilhas de esgoto e fez buracos no muro. Aí surge outro problema: quando chove, o córrego conhecido pelos moradores como “Valetão da Rua 28”, enche e encobre a ponte, impedindo a passagem. Ivani Lima é uma dessas moradoras que todos os dias atravessam este caminho e relata o drama que vem sofrendo. “Eu trabalho no condomínio

Vinícius Gallon

rio Palmital, Moradores da Vila Zumbi precisam escolher entre ão industrial passar por um trecho perigoso ou andar mais 4 km

Entrada aberta pelos moradores que dá acesso ao Alphaville

Alphaville e todos os dias vou para o meu emprego com muito medo. Várias vezes encontrei grupos de jovens usando drogas e dizendo obscenidades para quem passava, isso sem falar nos casos de assalto que já ouvi”. Ivani também já precisou

passar por outro local que aumenta o percurso até o seu emprego em 4km. “Quando chove, o valetão enche e cobre a ponte, aí não tem como passar, por isso a gente tem que dar a volta pelo trevo do Atuba”. Segundo Patrick Amorim,

tesoureiro da associação de moradores da Vila Zumbi, este trecho pertence ao residencial Alphaville, que pretende tapar todos os buracos do muro, para depois fazer um centro comercial. “Quando isso acontecer, os moradores terão que arranjar outra forma de chegar até o trabalho. O trajeto ficará mais longe e caro, já que terão que pegar ônibus”, afirma Patrick. Em outro ponto deste caminho os principais passantes são os carrinheiros, que enfrentam outra dificuldade. Moacir dos Anjos, faz este trajeto há 5 anos. “Toda vez que chove, as margens do rio Palmital desbarrancam e o caminho vira um lamaçal que nós mesmos temos que arrumar, já que as autoridades não fazem nada”, relata Moacir. Vinícius Gallon


10

região metropolitana

Curitiba, novembro de 2009

TANTO OS RICOS, QUANTO OS POBRES POLUEM PORQUE TEM OUTRAS PRIORIDADES PARA SE PREOCUPAR

Falta de conscientização prejudica rios

Pesquisa Comunicare

Uma pesquisa realizada pelo Comunicare comprova que em casas de distintas classes sociais, o consumo de água, alimento e energia – os três principais elementos que permitem uma comparação entre classes – são quase que igualmente gastos. Ao contrário do que se acredita, não são somente as pessoas mais favorecidas financeiramente que contribuem em maior volume para a poluição. Isso se deve ao fato de que há tanto pessoas de classe média baixa conscientes, como pessoas de classe média alta sem noção alguma de cidadania. Apesar disso, para o engenheiro ambiental, Carlos Garcia, há uma diferença de comportamento entre os dois grupos, “os menos favorecidos, que convivem com o problema da poluição diariamente, reclamam com mais frequência, enquanto

Pesquisa Comunicare

Pesquisa realizada pela equipe do jornal Comunicare revela que gastos básicos são muito próximos entre as classes alta e baixa

que as pessoas de classe alta se ausentam da preocupação, culpando o governo pela falta de comprometimento’’. Os moradores dos bairros de elite acham que pagando os impostos já estão fazendo sua parte. “Quando eu pago a conta de água, vem incluso uma taxa de esgoto. O

mínimo que eu espero, é que esse dinheiro seja investido nisso. Não tenho tempo para ficar cobrando o governo”, explicou a empresária Estefania Andretta, moradora de Quatro Barras. Além disso os rios e esgotos nesses locais estão canalizados, escondendo os reais problemas

pelos quais os rios de Curitiba e Região Metropolitana passam. Para as pessoas da classe média baixa que moram perto dos rios poluídos, essa é a menor das preocupações, uma vez que problemas como desemprego, educação e saúde os afetam mais diretamente. A faxineira Clarissa

Chagas, moradora do Atuba, em Pinhas, confessa: ‘‘Quando eu tiver dinheiro para dar uma vida melhor aos meus filhos e ao meu marido, talvez eu me preocupe com os rios’’. Nathália Pontes

LIXO ACUMULA NAS MARGENS DO DIQUE DO RIO PALMITAL, ÁREA DE PRESERVAÇÃO ESTÁ ABANDONADA

Cinco anos após a construção do dique de contenção do rio Palmital, no bairro Vila Zumbi, em Colombo e da criação de uma área de preservação permanente do manancial pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) em parceria com a prefeitura do município, pouco tem sido feito para a manutenção destes espaços. Resultado disso é que nas margens do dique continuam sendo despejados detritos, podendo ser encontrados desde produtos descartáveis até carcaças de veículos. Apesar do bairro ter uma unidade da Cohapar instalada próxima à barragem, ela não dispõe de funcionários suficientes, conta somente com um único responsável pela conservação do dique. De acordo com o presidente da associação de moradores da vila zumbi, Julio Piu,

Lívia Pulchério

Impasse entre a prefeitura e a Cohapar prejudica moradores ribeirinhos da Vila Zumbi, em Colombo

Área de proteção do manancial encontra-se em péssima condição

a Companhia não assume a manutenção da área de preservação como responsabilidade própria. “A Cohapar disse que o projeto na vila está encerrado, agora os problemas devem ser resolvidos com a prefeitura”, explica Piu. No entanto, a prefeitura contesta e insiste que a preservação deve ser feita pela companhia de habitação.

Enquanto esse desentendimento não é resolvido, alguns moradores tentam resolver estes problemas por conta própria, como o pintor Carlos Caduto, que junto com seus vizinhos, pagaram cerca de R$ 60 pela limpeza do espaço. Para a assistente social da Cohapar, Lorena Mylla, nem todos os moradores que receberam benefícios com o

projeto o valorizam, muitos continuam jogando lixo nas áreas de preservação. “É muito difícil conscientizar a população, muitos mantêm os mesmos hábitos que tinham quando viviam em casas com pouca infra-estrutura”, afirma Lorena. Um dos fatores responsáveis pelo desestímulo da população é o descumprimento das ações prometidas pela Cohapar. Segundo Piu, essa área de preservação deveria ser um espaço de lazer do bairro. “Mas até hoje, não foram feitas as calçadas nem a cancha que foram prometidas”. Além de tentar resolver esse problema do lixo, Caduto também vai ter que pagar para construir um cano que escoe o excesso da água para o dique para evitar que sua rua alague.

Ana Luiza de Lima

Projeto

O projeto “Direito de morar”, desenvolvido pela Cohapar e prefeitura de Colombo, entre outros orgãos públicos relocou 289 famílias que viviam em áreas de risco próximas ao rio Palmital e à BR-116 e regularizou terreno de 1.552 famílias. Foram construídos so- brados de 40 m² para essas famílias, com rede de esgoto e galerias de água fluviais, serviços que até então não existiam no local. O programa também incluiu obras de pavimentação além da área de preservação do manancial, já citado na reportagem ao lado. A falta de qualidade de algumas dessas obras é a principal reclamação dos moradores. Muitas ruas estão esburacadas, o que dificulta o tráfego de veículos.


política

11

Curitiba, novembro de 2009

O PROGRAMA ENFRENTA DIFICULDADES COMO A FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO

Agendas 21: falta de verba e informação

As propostas de preservação de rios das Agendas 21 curitibanas variam conforme a realidade e localização do grupo da Agenda entrevista, e respondeu email afirmando apenas que não tem “informação da existência de Agenda 21 em Curitiba”. Mesmo com a existência desses problemas, o projeto de implantação da Agenda 21 empresarial está de pé e as outras agendas continuam com as suas ações. Na OAB os resultados ainda não são muito perceptíveis pois o programa só começou na prática em junho desse ano. Na Vila Torres, Santos contou que alguns bons resultados podem ser notados, especialmente com relação a preservação do Belém. Na Agenda empresarial, está previsto para o fim de novembro um documento de referência. Carlos Garcias, membro do grupo de pesquisa da Agenda 21 empresarial, se diz otimista. “Existe interesse por parte das empresas. Mas também existem barreiras de algumas empresas que têm pensamento antigo. Essas empresas ainda não chegaram no século 21”.

Angela Laureanti P. Machado

Curitiba tem Agendas 21 formadas por diversos grupos (a cidade não tem Agenda 21 própria). Cada uma apresenta diferentes propostas. Existe a Agenda da OAB, da Vila Torres e também um projeto em andamento para a implantação de uma Agenda empresarial. Porém essas Agendas locais enfrentam dificuldades como falta de verba e falta de informação. Cada Agenda 21 tem as suas peculiaridades. As propostas mudam para se adequar com as características da região e do grupo. Na OAB não existe uma preocupação tão direta com a questão dos rios. Já na Vila Torres, onde um trecho do Rio Belém passa, existem ações voltadas especificamente para isso. “O rio já chega aqui degradado, e o nosso objetivo é fazer com que ele não piore daqui pra frente”, afirmou Marcos Erimberto dos Santos, coordenador da Agenda 21 local da Vila Torres. Apesar de apresentarem propostas diferentes, as dificuldades que os programas apresentam

Na Vila Torres, as árvores na margem do Belém foram degradadas

são similares. A conscientização é uma delas. “Existe dificuldade na mudança de comportamento das pessoas”, disse Leda Ramos May, presidente da comissão da Agenda 21 da OAB. Na Vila Torres, de acordo com Santos, “a conscientização das pessoas já melhorou. Quase ninguém mais joga lixo nas margens do rio”. Mas ainda existem casos que mostram o contrário. Ele contou que já foi feita uma arborização às margens do Belém, mas hoje as árvores foram destruídas por moradores da região. E o problema da Vila Torres

não pára por aí. Ainda existe outro alarmante: não existe verba. “O poder público poderia ajudar financeiramente com as ações e eventos da agenda 21 para atingirmos mais pessoas. Somos de uma comunidade carente. Não temos dinheiro pra isso”, reclamou Santos. Para piorar a situação, existe a desinformação de pessoas envolvidas com a Agenda 21. O Comunicare tentou durante 8 dias realizar entrevista com a coordenadora das ações da Agenda 21 Paraná, Schirle Margaret dos Reis Branco. Ela não cedeu

O que é A Agenda 21 é um programa de ações assinada por 178 países na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, conhecida como ECO-92, realizada em 1992 no Rio de Janeiro. Ela defende o desenvolvimento sustentável, buscando melhorar a qualidade de vida e realizando atividades em harmonia com a natureza. É subdividida em global, nacional e local. A nacional e a local, podem elaborar e implementar sua própria Agenda 21, baseandose na global e de acordo com a sua realidade sócio-econômica.

Angela Laureanti P. Machado

A PRESENÇA DA POPULAÇÃO ÀS MARGENS DOS RIOS IMPEDE O DESENVOLVIMENTO DA MATA CILIAR metros de largura devem ter no mínimo 30 metros de mata ciliar, rios de 10 a 50 metros de largura, uma mata ciliar de 50 metros. No caso de obras em Curitiba, há uma redução, permitindo assim, a mata ciliar de apenas 15 metros. “Isso é permitido em casos especiais como quando tratase de obras de interesse público como pontes, ruas e rodovias. Os demais casos são penalizados com multas, que variam conforme o caso”, comenta o superintendente de controle ambiental da Secretaria do Meio Ambiente, Mário Sérgio Razera. O principal fator de desmatamento dessa área são as moradias irregulares nas margens de vários rios em diversos pontos da cidade. Um dos rios mais atingidos é o Barigui, o qual é

atualmente o protagonista de vários projetos de revitalização Segundo o engenheiro florestal da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem), Flávio Kruger, “se fôssemos cumprir a lei em Curitiba não iria ter cidade e sim, somente mata ciliar.” Em Curitiba o problema é por causa da população que está cada vez mais próxima dos rios. Há um projeto que prevê mudança da lei de mata ciliar querendo a diminuição do tamanho mínimo de 30 para 15 metros em alguns estados. Flávio comenta que não é o caminho e ainda afirma: “a lei da mata ciliar é uma lei antiga, foi muito bem elaborada para a época e se enquadra bem para os dias atuais”. Evelin Schelbauer

Rio Barigui, CIC: Casas há menos de 30 metros do rio.

Evelin Schelbauer

Com o crescimento de Curitiba a população está cada vez mais próxima dos rios, impedindo, assim, que a mata ciliar cresça. Mata ciliar é vegetação que cerca os rios, formada por um conjunto de raízes, flores e árvores que se nutrem da umidade existente ali. Ela contribui para presença de animais como peixes e pássaros. Também melhora a qualidade da água, já que impede a presença do homem nas proximidades dos rios, o que diminui a poluição e também o impacto da chuva, pois absorve toda a água, reduzindo as inundações. Para a preservação da mata ciliar existe a lei nº 4.771/65, que prevê o tamanho ideal de mata para cada rio que pode variar de acordo com a dimensão dos rios, por exemplo rios 10

Evelin Schelbauer

Se cumpríssemos a lei, teríamos somente mata ciliar em Curitiba

Rio Barigui, Campina do Siqueira: Mata ciliar preservada.


12

Política

Curitiba, novembro de 2009

SITUAÇÃO DAS LIGAÇÕES DE ESGOTO NA REGIÃO CENTRAL DE CURITIBA É CRÍTICA

Ligações irregulares de esgoto poluem rios públicas, que possuem tubulações exclusivas para a entrada das águas das chuvas. O correto, seria interligá-lo a redes de tratamento da Companhia de Saneamento do Paraná, Sanepar, que é responsável pela coleta e tratamento do esgoto.Isso acontece por falta de informação ou descaso com o meio ambiente. Outro grande problema da capital, quando se trata de ligações de esgotos, é a região central. Pelo fato de serem muito antigas, as tubulações são cheias de infiltrações e a interligação de novas redes ou manutenção das já existentes é difícil de ser feita, pois os rios estão praticamente todos canalizados e as tubulações se encontram no meio da rua, impossibilitando ainda mais a realização de obras. É possível perceber a situação dos rios pelo cheiro dos bueiros ou observando a poluição no Rio Belém.

As ligações de esgotos direcionadas irregularmente nas ga lerias de águas pluviais são uma das maiores causas de poluição de nossos rios e do mau cheiro dos bueiros por toda cidade. Muitas pessoas, ao construírem suas casas ligam seu esgoto diretamente a essas galerias

Descaso • A Sanepar foi procurada inúmeras vezes para esclarecer porque algumas ligações de esgoto não passam por centrais de tratamento e vão diretamente aos rios. O jornal lamenta a falta de informações sobre um assunto que diz diretamente à saúde da população.

A fiscalização dessas ligações de esgoto é feita pela Sanepar e pela Prefeitura de Curitiba, que contam com ajuda de denúncias de moradores, pelo número 156, e através do Ministério Público. Mas o descaso não é apenas dos cidadãos. Em alguns pontos da cidade, até mesmo a Sanepar possui ligações irregulares. Na Rua Sérgio Pereira da Silva, no bairro Vista Alegre, por exemplo, até alguns dias era possível observar a presença das tampas de metal da Sanepar, ou seja, os imóveis eram atendidos pela Rede Coletora de Esgoto, mas durante muito tempo a Companhia de Saneamento não ligava a rede coletora em nenhuma central de tratamento, fazendo com que o córrego ali presente ficasse poluído com o esgoto que desembocava. Nos últimos dias a Companhia começou a realizar obras

Clarissa Herrig

Imóveis que são atendidos pela Rede Coletora de Esgoto (RCE) da Sanepar desembocam em córrego sem receber tratamento

Após anos de reclamações e irregularidades, começam as obras

para o encaminhar o esgoto até a central de tratamento. Segundo a estudante Monique Burda, 23 anos, que mora em frente ao córrego há 12 anos, o mau cheiro é frequente, principalmente em dias quentes. O técnico em telecomunicação, Cláudio Steller, 42 anos, morador da rua há mais de

14 anos, diz que o problema se intensificou há cerca de 6 anos, e que sempre entrava em contato com a prefeitura, no número 156, para fazer reclamações, mas nunca o problema era resolvido. Clarissa Herrig

O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DO VIVA BARIGUI POSSUI AÇÕES IMEDIATAS, DE MÉDIO E DE LONGO PRAZO

Lívia Marques

O Projeto Viva Barigui é uma iniciativa da Prefeitura Municipal de Curitiba que tem como objetivo a revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio Barigui. O projeto é constituído de uma série de medidas que visam mudar a história dos rios da cidade para que futuramente se tornem boas referências em ações ambientais. Porém para que isso aconteça problemas como a ocupação irregular das margens dos rios, as ligações irregulares de esgoto, o assoreamento e a destruição da mata ciliar precisam ser solucionados. O Projeto foi iniciado no dia 22 de março de 2007, dia Mundial da Água, e não possui data para terminar. Seu planejamento é baseado em ações imediatas, de médio e de longo prazo. O Viva Barigui funciona como um projeto piloto para a realização

Lívia Marques

Rio Barigui, o primeiro escolhido para projeto de revitalização de águas em Curitiba por atravessar um terço de seu território

Parque Cambuí pronto e ocupação nas margens do Ria Barigui

de outros projetos que abrangem os principais rios que passam pela cidade de Curitiba. Segundo Cláudia Regina Boscardin, Coordenadora do Planejamento Estratégico para a Revitalização da bacia do rio Barigui, esse foi o primeiro rio escolhido, pois

possui 60 km de céu aberto, o que facilita a visibilidade das ações que estão sendo realizadas. O rio Barigui abrange um terço do território da cidade de Curitiba e um terço de sua população. O projeto gira em torno de quatro componentes principais:

o da infra-estrutura, da fiscalização, da educação ambiental e das ações legais e institucionais. Entre as ações de infra-estrutura já realizadas estão o Parque Cambuí, inaugurado em 2008 e também o desassoreamento do lago Barigui. Essas ações abrangem também outros aspectos importantes como e realocação de moradores das margens dos rios em parceria com a Cohab (Companhia de Habitação de Curitiba). A fiscalização e as ações legais e institucionais irão analisar a melhoria da qualidade da água e condição das ligações de esgoto. A educação ambiental fica por conta do Projeto Olho D´Água que visa conscientizar a população sobre a importância dos rios. As condições de rede de esgoto da Bacia do Barigui são precárias. Segundo dados do Ippuc (Instituto de Pesquisa e

Planejamento Urbano de Curitiba)de 2005 dos 90.821 lotes, apenas 21.540 possuem coleta e tratamento de esgoto. As ocupações irregulares, divididas entre assentamentos espontâneos e loteamentos clandestinos, também apresentam dados preocupantes. O número de habitantes estimado para os assentamentos é de 82.787 e para os loteamentos clandestinos o número estimado é de 12.855 habitantes. O projeto foi apresentado na França e conseguiu parte de seu orçamento com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), banco público que tem como missão participar do desenvolvimento de países pobres financiando projetos econômicos e sociais. O valor de 47 milhões será dividido entre a AFD e a Prefeitura. Lívia Marques


lazer

13

Curitiba, novembro de 2009

MORADORES RECLAMAM TER PERDIDO A PRINCIPAL FORMA DE LAZER DA REGIÃO

Proibição da pesca esvazia o Passaúna O Parque Municipal do Passaúna já foi um lugar muito conhecido por quem gosta de pescar. Com a atividade proibida há quatro anos, o movimento do parque diminuiu e o interesse dos moradores das redondezas também. Porém, ele é bastante frequentado por aqueles que buscam relaxar durante a semana. No horário próximo ao meiodia, visitantes vão ao parque para descansar antes de voltar ao trabalho. “Venho aqui principalmente porque é um dos lugares mais tranquilos no horário de almoço”, comenta o recepcionista de 52 anos, Antonio César Vieira, que todos os dias vem ao parque entre os turnos de serviço. “Inclusive hoje é meu aniversário, e como minha mulher e eu trabalhamos juntos, viemos aqui descansar e comemorar”. Por outro lado, os moradores dos bairros mais próximos reclamam que foi retirado o principal meio de lazer da região. Morador do bairro Augusta, Sidnei Neves

Elis Paola Jacques

O Parque do Passaúna teve seu movimento reduzido à metade e agora é procurado por quem quer descansar durante a semana

Antônio Vieira descansa no parque durante o horário de almoço

Santos, 27 anos, lembra que frequenta o parque desde criança, quando ia pescar com seu pai. “A população que estava acostumada a ir ao parque sempre, que vivia cheio, agora tem mais receio de ir porque está perigoso e muito vazio. De quatro anos para cá o movimento ficou menor e agora temos que nos deslocar até os pesque-pagues”.

Ainda visitam o parque pessoas em busca da pesca como lazer, pois guias turísticos, sites e informativos a citam como um atrativo da região. O guarda municipal João Kukla conta que, apesar da proibição, muitos não sabem da lei. “Tem que ficar cuidando porque muita gente ainda vem aqui tentar pescar. Às vezes não sabem que foi proibi-

do mesmo, mas tem uns que vem e encostam o carro e vão tirando devagarzinho os equipamentos achando que não estamos vendo”, fala Kukla. Ele ainda afirma que o movimento do parque foi reduzido pela metade depois da pesca não ser mais permitida por sujar as margens do rio. Já nos finais de semana, o Parque Passaúna recebe mais frequentadores, principalmente famílias que fazem piqueniques e usam as churrasqueiras disponíveis. Segundo o assistente do departamento de parques e praças da secretaria municipal do meio ambiente, Denilson Mendes dos Santos, o rio do Parque Passaúna é uma reserva de água que abastece um terço de Curitiba. “Ele precisa ser preservado pois é um manancial, e a pesca poluía e degradava as margens do rio”, explica Santos. Daniela Mallmann Andrade Elis Paola Jacques Lorena Oliva

Elis Paola Jacques

COMO MELHORAR OS PARQUES?

“O Barigui não tem churrasqueiras suficientes no domingo.” Rubens Fernandes, 19, estudante

“No Bacacheri os aparelhos de ginástica e o bar deixam a desejar.” Vânia Carvalho, 41, doméstica

“No Atuba dá para jogar futebol americano, mas o rio é muito poluído.”

Ian Harbs, 17, estudante

“O Tanguá é para a família, é seguro e o mirante é bonito.” Pedro Rocha, 29, professor

“O São Lourenço é um pouco perigoso, não vou lá sozinha.” Celi Galliano, 77, funcionária pública


14

esporte

Curitiba, novembro de 2009

Fotos: Paulo Mello

ROUBOS, VANDALISMO E FALTA DE CONSERVAÇÃO DESESTIMULAM FREQUENTADORES

Decks estão abandonados e em más condições

Espaço para a piscicultura virou alvo de vândalos

Fiação de postes foi roubada para ser revendida

Descaso e abandono no Parque Náutico Cortado pelos Rios Belém e Iguaçu, parque possui estrutura precária, insegurança e poluição. Situação é de esquecimento Criado para aproveitar um trecho urbano por onde passam os Rios Belém e Iguaçu, o Parque Náutico encontra-se em estado de abandono. A área com mais de dois milhões de metros quadrados possui sérios problemas de segurança, poluição e infraestrutura. A falta de conservação tornou as águas do parque poluídas e o número de frequentadores caiu consideravelmente. Localizado na divisa de Curitiba com São José dos Pinhais, o local faz parte do Parque Iguaçu e era voltado para a prática de esportes aquáticos como o remo e a canoagem. Para isso os lagos contam com decks e torres utilizadas para cronometragem. Atualmente a maioria dessas estruturas estão em péssimas condições, dificultando a realização de competições e o treino de atletas. O espaço também contava com lanchonetes e até criadouros utilizados para a criação de peixes. Hoje não existe qualquer comércio dentro do parque e casa utilizada nos projetos de piscicultura encontra-se totalmente depredada, devido aos constantes atos de vandalismo

que ocorrem no local. Outro sério problema diz respeito à pista de corrida. O trajeto com mais de cinco quilômetros possui diversos buracos, que podem causar lesões nos corredores. Além disso, durante a semana o tráfego de automóveis é liberado na pista, fazendo com que as pessoas tenham que dividir espaço com os carros. Como agravante há o fato de que ao lado do parque existe uma estação de tratamento da Sanepar e os caminhões da companhia passam frequen-temente em alta velocidade pela pista. Além do risco de acidentes, a poeira levantada pelos veículos tem causado problemas de saúde nas pessoas que circulam pelo local. O supervisor de segurança Ednei da Silva, de 31 anos, já sofreu com esse tipo de problema. “Já tive problemas respiratórios devido à poeira dos caminhões, que passam correndo por aqui e levantam muito pó”. Quem ainda se arrisca a transitar pelo parque tem que lidar com a insegurança existente na região. A comunidade Iguape 2 faz divisa com os fundos do parque, em uma área pouco fre-

“A gente espera que realmente haja um interesse em melhorar”

quentada. Como esta parte do parque fica distante da entrada, acaba ficando mais vazia e os assaltos tornam-se comuns. A fiação elétrica dos postes que estão nos fundos foram roubadas para serem revendidas. Até um poste já foi derrubado para a retirada das barras de ferro, também destinadas à revenda. Muitas pessoas preferem praticar seus exercícios próximo à entrada do parque, já que lá fica situada a sede da Guarda Municipal. É o caso do metalúrgico Edinaldo Coutinho, de 28 anos. “Eu corro aqui na grama, perto dos guardas, já que é mais seguro”. Como o efetivo policial é pequeno, não há qualquer ação preventiva dos policiais, como a realização de rondas diárias. A insegurança é tamanha que, segundo relatos, até mesmo o tráfico de drogas já foi flagrado no local. A conservação básica do parque também enfrenta dificuldades. A administração do local conta com número reduzido de funcionários, o que dificulta até mesmo tarefas como o corte da grama. Em vários trechos do parque é possível visualizar o mato alto. Além disso, os rios e lagos presentes no parque estão em péssimas condições de conservação. O Rio Belém possui um forte mau cheiro e grande concentração de poluentes como

garrafas e plásticos. Em alguns lagos e cavas do parque também é possível observar o assoreamento, que reduz a qualidade da água e favorece o surgimento de plantas prejudiciais a água. Mesmo com todos os problemas, os frequentadores ainda torcem para que a situação no parque melhore. É o caso de

Kalil Boabaid, que coordena um projeto social de incentivo ao remo no local. “A gente espera que realmente haja um interesse e um empenho em melhorar o parque para o futuro”. Igor Castanho Paulo Mello Marina Miranda

ESPORTE E CONSCIENTIZAÇÃO

Competição estimula o cuidado com nascentes No final do mês de agosto ocorreu a quinta edição da Corrida de Revezamento das Nascentes do Iguaçu. O trajeto da corrida é de 91 km, e passa por Curitiba e mais seis municípios da Região Metropolitana. Nesse ano, a corrida contou com mais de 1.000 inscritos, divididos em 110 equipes. A corrida representa uma boa forma de integração dos municípios da Região Metropolitana, além de integrar os atletas com a natureza e incentivar a preservação das nascentes do Rio Iguaçu. Nos vários municípios do trajeto, os atletas se deparam com diversas nascentes, afluentes e rios que dão origem ao Rio Iguaçu. No município de Piraquara são mais de 1.100 nascentes, e

em Curitiba mais 280. A preocupação com a natureza não fica restrita a questão da preservação das nascentes, pois o regulamento da corrida proíbe que qualquer tipo de lixo fique pelo caminho. Se a equipe cometer essa infração é punida, perdendo tempo no percurso. O professor José Carlos Costa participou pela terceira vez da corrida das nascentes e destaca a importância dessa iniciativa para preservação da natureza: “A paisagem é muito bonita, e você acaba conhecendo lugares diferentes e preservando esses lugares. É um grande incentivo ao turismo na Região Metropolitana”. Marina Miranda


cultura

Curitiba, novembro de 2009

DESCASO COM PONTO TURÍSTICO E HISTÓRICO DA CIDADE

Vilinha está abandonada e poluída pelo Rio Atuba A Vilinha, parque montado no primeiro foco de ocupação de Curitiba, no Bairro Alto, está abandonada. O cheiro que vem do Rio Atuba é forte e suas margens estão poluídas. O portal, símbolo do parque, que deveria ser a entrada de um Centro Cultural, é apenas um muro com fundações e ferragens à mostra do lado de trás, oferecendo risco para as crianças que frequentam o local. O parque foi construído em homenagem aos portugueses que ocuparam o local durante o Século XVII. Eles fomaram o primeiro povoado a ocupar a região que viria a ser Curitiba. Os imigrantes saíram dali e foram para onde hoje é a Praça Tiradentes (acompanhe a história no box ao lado). Adriana Genovez de Oliveira tem três filhos e reclama do atual estado e da falta de segurança na Vilinha. “É ruim, às vezes tem gente usando drogas aqui. Eu que sou mãe fico preocupada. E o cheiro do rio fica ainda pior no verão”. Mas Adriana comenta que a pouco tempo o sistema de

Fotos: Gisele Eberspächer

Parque no Bairro Alto leva falta de saúde e insegurança para frequentadores

Rio Atuba e lixo nas margens

iluminação do parque foi ampliado. “Já ajudou bastante, principalmente de noite”. O parque não tem nenhum posto policial nem agentes de segurança. Natálio Ribeiro, de 71 anos, mora na frente do parque desde sua construção. Ele conta que quando chove muito, o rio enche e todo o lixo fica espalhado pelo local. Ele comenta ainda que o Rio Atuba, que nasce em Colombo e passa por Pinhais, já vem sujo. Outra reclamação de Natálio

é, assim como a de Adriana, a falta de segurança. Mas ele faz a sua parte e atua como um protetor do local. “Aqui tinha muito ma-conheiro, muita prostituta. Principalmente de noite. Quando eu vejo que eles estão aqui, eu venho e converso. Explico que o parque aqui é de todos, que tem criança que vem brincar aqui no outro dia. Eles sempre acabam indo embora, mas se precisar, vou chamar a polícia. Se eles não se comportarem bem, eu tiro”. José Neto, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, declarou que a maior parte da poluição do local é causada pelas moradias irregulares na margem do rio, e a solução é difícil e demorada – e começa com a desapropriação das famílias. Um projeto, previsto para começar em 2010, pretende recuperar toda a bacia do Rio Atuba, com uma maior fiscalização, conscientização de moradores e melhoria da infra-estrutura na margem do rio. Gisele Eberspächer Jéssica Kimy

Vilinha com poucos frequentadores: poluição e falta de segurança preocupam moradores

15


16

POPULAÇÃO DESCONHECE PROGRAMAS DA PREFEITURA

Programa de conscientização ambiental é falho em Curitiba Rafaela Sequeira

Informação sobre preservação dos rios se concentra em poucas áreas de Curitiba Moradores de áreas carentes de Curitiba muitas vezes não sabem o que é certo ou errado quando o assunto é educação ambiental. Jogar lixo no rio e ter esgoto irregular não é um erro tão evidente quando o cidadão não tem a orientação necessária. Projetos como o Olho D’Água da Secretaria do Meio Ambiente existem, mas não abrangem toda a população e, por isso, são insuficientes. O projeto Olho D’Água atua em escolas de ensino fundamental e médio, orientando as crianças na preservação e conservação dos rios da capital. O programa existe desde 1994, com a proposta de adotar uma metodologia simplificada de diagnóstico e análise da qualidade da água, mas ainda se concentra apenas nas escolas localizadas próximas ao Rio Barigui. A Escola Estadual Cecília Meireles, no Bairro Alto, deixou de ser beneficiada pelo projeto em 2007 e hoje professores e alunos trabalham sozinhos na conscientização da população que vive nos arredores do Rio Atuba. A professora Fátima Badaró lamenta. “Nós não podemos parar, é um trabalho que temos que dar segmento mesmo sem a ajuda da prefeitura”. Fátima conta que a educação ambiental já trouxe mudanças na vida dos alunos da escola. “Nós percebemos quando saímos com as crianças, elas respeitam a natureza e não jogam lixo nos rios”. Contudo, essa região continua bastante degradada. Muitas casas ao redor da escola possuem esgotos irregulares e o lixo que ainda é jogado no rio provoca constantes enchentes. Além das crianças, a educação ambiental para adultos também é necessária. O pintor Dirceu Taborda, 47 anos, mora às margens do Rio Bacacheri e

educação

Curitiba, novembro de 2009

Sem educação ambiental, população ainda joga lixo nos rios

conta que nunca teve qualquer orientação sobre o meio ambiente. “Eu moro aqui no bairro há mais de 10 anos e nunca vi a prefeitura passar ou dar alguma

informação para a comunidade. Nós aqui só servimos para votar. Eles só aparecem nas eleições”. Rafaela Sequeira

RECICLAR ÓLEO PRESERVA AMBIENTE

Em Curitiba, óleo usado ainda é pouco reciclado Uma das preocupações de Curitiba em relação aos rios é o destino do óleo de cozinha usado. Muitas vezes, esse óleo é despejado na pia da cozinha ou até mesmo em bueiros, reservados exclusivamente para águas pluviais, e através da rede de esgoto, acaba indo para os rios. A Prefeitura de Curitiba divulga que recolhe aproximadamente 3 mil litros de óleo de cozinha. O óleo é recolhido pela prefeitura nos 24 terminais de ônibus da capital e pelos caminhões do Câmbio Verde, que passam por 80 pontos da cidade. A coordenadora do projeto de reciclagem Eco Cidadão, Ana Flávia Souza, diz que a quantidade de óleo recolhido ainda é baixa e a prefeitura estuda formas de incentivo à reciclagem. “Uma forma de incentivo é entregar embalagens específicas para a coleta do produto aos carrinheiros, para que eles nos ajudem no

recolhimento porta a porta”. Há uma estimativa que um litro de óleo polua 10 mil litros de água. Além disso, o óleo entope as redes de esgoto, contribuindo para as enchentes e refluxo do esgoto nas casas e cria uma fina camada na superfície da água, prejudicando a oxigenação dos rios. Quando o óleo é reciclado, passa por um processo de limpeza que o transforma em matéria-prima para fabricação de óleo lubrificante biodegradável e biodiesel. Com os resíduos, ainda faz-se sabão, detergente e ração para animais. Muitas pessoas já se conscientizaram da importância de fazer sua parte, como a secretária Roseli Souza: “Sempre levo as garrafas PET com óleo ao Terminal do Capão da Imbuia. Devemos cobrar ação dos políticos, mas fazer nossa parte”, diz. Karyme Kaminski

Comunicare - Rios  

Ano 13 - Nº173 - 2º Ano de Jornalismo "B" - PUCPR

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you