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Perfil

Jeferson de Oliveira, que por anos tocou boiada no Pantanal, recorda-se dos tempos em que pousava nas redes entrelaçadas em árvores e comia caldo de piranha acompanhado de cachaça de alambique

Jeferson de vez em quando mata saudade com o berrante em sua casa na Vila Bosque

Um boiadeiro errante Texto Donizete Oliveira Fotos Arquivo pessoal e DO

“C

om 1800 bois/Eu saí de Rancharia/Na praça de Três Lagoas/Cheguei no morrer do dia”, diz trecho da moda Pretinho Aleijado, de Tião Carreiro e Pardinho. Era mais ou menos assim a vida de Jeferson de Oliveira, 72, boiadeiro aposentado, que mora na Vila Bosque, em Maringá. Ele nasceu em Mundo Novo, hoje Urupês SP. Desde menino tocava gado com o pai. Com 11 anos, fez sua primeira viagem. Eles levaram uma boiada de Catanduva, interior paulista, a Porecatu, no Paraná. Atraídos pela fama do café, a família mudou-se para o Paraná. Chegaram a Londrina, em 1951. Jeferson diz que se espantou com as ruas da cidade. Não havia asfalto. Só a avenida principal era calçada de paralelepípedo. Pelo Norte e Noroeste do Estado, ele trabalhou em hotel, mas buscava uma oportunidade melhor. Com o primário completo, esperava arrumar emprego

Nos tempos em que estava no Exército em Brasília

no Banco Nacional de Minas Gerais. Não conseguiu, o que o motivou a ingressar no Exército. Serviu em Brasília. Carregando saco De volta ao Paraná, esperava que o banco o chamasse, mas o gerente não lhe deu

esperanças. Para piorar as coisas, o fogo destruiu o hotel do pai. Jeferson passou a ajudá-lo num bar, mas o negócio estava ruim. Ele então arrumou emprego de carregador de sacos numa cafeeira. Até que se mudou para Nova Londrina, no Noroeste do Paraná, onde comprou outro bar. Em 1968, desfez do negócio e passou a mexer com bois. Solteiro, Jeferson tomou uma decisão. “Resolvi deixar tudo e ir pro Pantanal”, conta. Mas surgiu um convite para cuidar de uma boiada no Pará. Ele ia permanecer quatro meses, mas o bom salário o motivou a ficar dois anos. De lá, enfim, veio para Mato Grosso do Sul. “Eu pensava, o cara pra ser boiadeiro tem de conhecer o Pantanal, e então me meti naquele chão”, recorda-se. A primeira viagem pela planície pantaneira durou 57 dias. Jeferson ajudou a conduzir uma boiada de Corumbá a Ivinhema. As viagens conduziam em média 1200 bois e quase sempre cortavam as regiões do Pantanal conhecidas por Nabileque e Nhecolândia. “Chegamos a levar 1700 novilhas”, afirma, destacando que para ser boiadeiro no Pantanal o que vale é a


Nas estradas do Norte e Centro Oeste do Brasil só mesmo no lombo do burro ou cavalo para vencer o barro

Jeferson (primeiro à dir.) bebe cuba livre com amigos, na década de 60, em Nova Londrina

Arriar a tropa e pagar a estrada era uma das paixões de Jeferson

Boiadeiro Errante Interpretação: Liu & Léu Composição: Teddy Vieira Eu venho vindo de uma querência distante Sou um boiadeiro errante que nasceu naquela serra O meu cavalo corre mais que um pensamento Ele vem num passo lento porque ninguém me espera Tocando a boiada, uê, uê, uê, boi Eu vou cortando estrada Uê boi Tocando a boiada, uê, uê, uê, boi Eu vou cortando estrada

experiência. “Só mesmo a prática ensina”.

que sua comitiva não consumia bebida alcoólica em serviço. “A gente evitava pra não arrumar Estouro da boiada confusão”. Segundo Jeferson, a pior coisa Saudade para um peão é o estouro da Leitor de Guimarães Rosa, ele boiada. Uma vez ocorreu com ele acrescenta que cada tempo em Camapuã (MS). Passava de meia tem sua marca, como ocorre no noite, e os bois arrebentaram o couro do gado. Diz que não sente curral. Uma parte fugiu de um lado; saudade daquela época. Mas outra de outro. “Mas conseguimos dá uma pausa e complementa: alcançar antes que atingissem o “olhe, esse negócio de saudade descampado do cerrado”, diz. “Se não enche barriga, não paga chegassem lá, não tinha como conta, mas seu tivesse uns vinte e achar mais”. poucos anos, voltaria pro Pantanal”. As comitivas condutoras de “É bom demais conduzir boiada boiadas geralmente têm entre 20 de dia e, à noite, acampar, tomar banho no rio, comer um caldo de piranha acompanhado “Eu pensava, o cara de uma cachaça pura de pra ser boiadeiro tem de alambique”, afirma. conhecer o Pantanal, e então Aposentado, Jeferson se dedica a fazer traia de me meti naquele chão” montaria. Ofício que aprendeu no Pantanal. Faz chicote, e 30 burros e de cinco a dez peões. guasca, rabo de tatu, entre outros “Não sei hoje, mas naquele tempo componentes da sela de montaria. havia uma peonada boa”, afirma. Ele trabalha numa selaria na Avenida “Ninguém arrumava encrenca, Colombo, em Maringá. Continua embora andássemos com o solteiro e vai levando a vida, como revólver 38 na cintura”. Jeferson diz um boiadeiro errante.

Toque o berrante com capricho Zé Vicente Mostre para essa gente o clarim das alterosas Pegue no laço não se entregue companheiro Chame o cachorro campeiro que esta rês é perigosa Olhe na janela, uê, uê, uê, boi Que linda donzela Uê boi Olhe na janela, uê, uê, uê, boi Que linda donzela Sou boaideiro minha gente o que, que há Deixa o meu gado passar vou cumprir com a minha sina Lá na baixada quero ouvir a siriema Pra lembrar de uma pequena que eu deixei lá em Minas Ela é culpada, uê, uê, uê, boi De eu viver nas estradas Uê boi Ela é culpada, uê, uê, uê, boi De eu viver nas estradas O rio tá calmo, e a boiada vai nadando Veja aquele boi berrando Chico Bento corre lá Laçe o mestiço salve ele das piranhas Tira o gado da campanha pra viagem continuar Com destino a Goiás, uê, uê, uê, boi Deixei Minas Gerais Uê boi Com destino a Goiás, uê, uê, uê, boi Deixei Minas Gerais.


Um boiadeiro errante