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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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©2009

DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Ijuí – RS – Brasil Capa: Carga de cavalaria, de Litran (Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, RS)

Catalogação na Publicação FIORIN, José Augusto. Do gaúcho ao tradicionalista: imagem, identidade e representação. Ijuí: Sapiens Virtual, 2009. 1. História Cultural 2. Tradicionalismo 3. Gaúcho

José Augusto Fiorin, é professor e pesquisador. Trabalha na área das Ciências Humanas e Sociais. Graduado em História, Pós-graduado em Ciências Sociais: especialista em Sociologia, dedica-se a pesquisa no campo das identidades culturais e das representações.

Contatos: www.professorfiorin.rg3.net

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APRESENTAÇÃO O tema central dessa pesquisa é a construção da identidade do tradicionalista rio-grandense do século XX. Para isso verifica-se como ele apropria-se da identidade do gaúcho do século XIX, através de representações de um passado, exaltando, heroicizando e ressignifcando seu caráter histórico. A investigação ocorre tendo por base a história cultural, onde as noções de identidade, representação, imagem e apropriação propiciam a fundamentação teórica da pesquisa. Nesse contexto, é desenvolvida uma abordagem referente a imagem criada pelos cronistas que visitam e descrevem a Província do Rio Grande de São Pedro durante o século XIX e a imagem criada pelo pintor Jean Baptiste Debret. Trata-se dos elementos que conduzem a apropriação dessa identidade. Com isso, destaca-se a literatura platina, o romantismo brasileiro de José de Alencar e a expressão dos rio-grandenses Apolinário Porto Alegre e Simões Lopes Neto. Outro aspecto está na visão da historiografia rio-grandense, na polêmica discussão em torno da matriz do gaúcho rio-grandense x gaucho platino. Nesse contexto o discurso de Moysés Vellinho, o maior defensor de um gaúcho lusitano, sobressai. Verificamos como ocorre a representação do gaúcho idealizado que, posteriormente será exaltado constituindo o modelo do tradicionalista. No entanto, o caráter saudosista na tentativa de reviver o passado nos parece ser a premissa inicial na constituição desse movimento. Ocorrendo assim, um processo de apropriação de uma identidade cultural. O tradicionalista do século XX tenta reviver o gaúcho do século XIX em sua totalidade de manifestações através de um movimento saudosista, doutrinário e conservador.

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SUMÁRIO

Introdução..........................................................08 Capítulo I Noções de cultura na história cultural.................13 As Representações e a Apropriação......................14 A Identidade e a Tradição.....................................26 Capítulo II Narrativas: escritos e imagéticas ..........................33 Escritos: Arsène, Dreys e Hilaire..........................36 Imagética do Gaúcho: Debret e Molina.................45 Capítulo III

O processo de construção de uma identidade.......67 A Influência Literária: Platina e Brasileira...........71 Primeiras entidades nativistas e o Positivismo.....79 Visão dos historiadores.......................................83 Capítulo IV A construção da identidade do tradicionalista.......95 Processo histórico na formação............................99 O sentido e o valor do Tradicionalismo................107 A Carta de Princípios..........................................114 Conclusão...........................................................121 Referências.........................................................124 Anexos ...............................................................130

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INTRODUÇÃO

Na construção de um projeto de modernidade muitas sociedades visam espelhar-se em um passado representado como tradicional, cujo espelhamento possa lhe condicionar os

parâmetros

necessários

a

atuação

no

cotidiano. Embora hoje, alguns teóricos apontam um processo de desconstrução dessas identidades, por conta de uma instância maior, instituída por uma “mundialização da cultura”, há o antagônico papel desempenhado por aqueles que visam rememorar o passado, enaltecendo-o, cujo culto remete a um fator importante de análise. Com isso, podemos destacar que o Rio Grande do Sul, por se constituir historicamente em um estado de fronteira, aponta peculiaridades em suas manifestações culturais. A cultura possui um significado expressivo nas manifestações habitantes

do

da

sociedade estado

visam

rio-grandense. identificar-se

Alguns como

tradicionalistas e buscam no passado elementos que venham consolidar e justificar essa manifestação. Hoje, verificamos que houve uma construção daquilo que tornou-se um dos referenciais da identidade rioJOSÉ AUGUSTO FIORIN

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grandense, com a simbologia do gaúcho: seja na sua imagem ou na expressão gentílica. Esse trabalho visa analisar se houve a apropriação da identidade do gaúcho histórico do século XIX pelo tradicionalista do século XX. A reflexão

sobre

esse

assunto

surge

na

tentativa

de

caracterizar e demonstrar a que contexto histórico e modelo de sociedade gaúcho e tradicionalista pertencem. Para

enfatizar

o

pressuposto

levantado,

a

abordagem será constituída pela via da cultura, onde a ênfase e a discussão serão construídas com base na história cultural e nos estudos culturais. No entanto, analisar a construção do gaúcho histórico defrontando-o com o tradicionalista atual torna possível verificar pontos distintos entre ambos. E esse caráter de diferenciação é que nos faz compreender como o gaúcho é (re)inventado e (re)significado no transcorrer na história. Seja pelos discursos, seja pela prática política ou pela literatura. Ao desenvolver esse trabalho, tomou-se como preocupação

inicial

em

não

desenvolver

uma

crítica

contundente aos ditames e aos propósitos do movimento tradicionalista. Isso porque, entendemos que esse possui uma importante função social e por ser uma manifestação cultural merece ser respeitado e analisado. Porém, é justamente nesse contexto de análise que verificamos como ele se apropria de um passado inexistente condicionando uma representação da imagem passada, cujo significado será alterado na sociedade atual. A criação de uma nova imagem a esse tipo social está JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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correlacionada a necessidade da criação de um elemento mítico, que venha possuir um papel de significância. No primeiro capítulo são tratadas questões teóricas que

remete

abordados

a na

compreensão pesquisa.

de

As

que

noções

conceitos

serão

expressas

estão

direcionadas a perspectiva geral do trabalho. Com isso, tentou-se estabelecer determinadas noções de identidade, cultura, representação e apropriação. Essa conceituação possui um caráter significado. É a partir desses pressupostos teóricos, que a reflexão acerca da identidade, da imagem e da representação do gaúcho do século XIX se desenvolvem. Assim, dentro da perspectiva elementos

da

história

enfocando

o

cultural

buscou-se

discursos

tantos

construir

verbais

ou

imagéticos que visam representar o tipo social em questão. Para

caracterizar

a

imagem

e

a

conseqüente

identidade do gaúcho do século XIX, no segundo capítulo optou-se por realizar uma análise dos escritos que os viajantes europeus do século XIX desenvolveram sobre o tipo social do gaúcho, bem como a imagética representada por Jean Baptiste Debret. A discussão sobre os discursos de europeus que visitaram a Província do Rio Grande de São Pedro durante o século XIX, somado a visão que a pintura de Debret e Molina expressaram sobre o gaúcho rio-grandense e platino demonstram e caracterizam um tipo social com atribuições distintas daquilo que o movimento cultural da segunda metade do século XX tenta evocar. Assim, nesse capítulo temos uma dimensão sob a perspectiva dos europeus, sobre JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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o habitante deste território no período delimitado pela pesquisa. Para compreender o tipo de identidade criada pelo tradicionalista do século XX, e, por conseguinte, o próprio movimento que este irá idolatrar, fez-se necessário enfocar no capítulo terceiro alguns aspectos que conduzem a construção dessa identidade tradicional. Nesse contexto encontramos vários elementos e manifestações que dão indício e talvez, nos conduzam a uma compreensão dos condicionantes ao surgimento de um movimento que visa “preservar a cultura”. Assim tentou-se compreender aspectos de um processo de transformação do gaúcho na formulação de um mito romantizado pela literatura. A influência literária pode ser considerada um dos fatores que levam a construção de um outro significado ao gaúcho. Além disso, o positivismo tão presente na sociedade rio-grandense durante a República Velha também torna-se um dos fatores caracterizantes ao culto de uma tradição do passado. Além disso, há uma outra equivalência. Trata-se da construção da identidade regional. Partindo das condições geradas pela Revolução de 1930 onde sobressai a identidade do gaúcho, somada a visão que os intelectuais da Revista Província de São Pedro, principalmente na perspectiva de Moysés

Vellinho,

vamos

compreender

como

foi

se

construindo outra imagem, aos poucos edificando o sentido gentílico a expressão: gaúcho rio-grandense.

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E

por

fim,

buscou-se

a

constituição

de

uma

identidade do tradicionalista. No capitulo quarto, há a tentativa da reconstrução de aspectos importantes da história do tradicionalismo no Rio Grande do Sul, dando ênfase às principais linhas de ações, teses e princípios que norteiam o movimento tradicionalista. Nesse

contexto,

optou-se

por

discutir

aspectos

ligados a problemática em questão que se diz respeito a apropriação

ou

não

da

identidade

do

gaúcho

pelo

tradicionalista. Assim, o enfoque veio ao encontro à identidade do gaúcho histórico do século XIX, pontuando a representação e a apropriação de uma cultura do passado, bem como o saudosismo expresso nela.

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NOÇÕES DE CULTURA NA HISTÓRIA CULTURAL

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AS REPRESENTAÇÕES E A APROPRIAÇÃO A cultura pode ser entendida como uma mediação para o mundo. Ela representa as maneiras de sentir e pensar dos grupos presentes na sociedade. A noção de cultura é um tema interessante que merece discussão acentuada. Partindo de seus postulados percebemos a grande representação que ela possui perpassando pelos conceitos de unidade e diversidade. A noção de cultura é construída a partir de nossa diversidade e com isso, constrói a noção de identidade. A sociedade é então a base para a existência da cultura, e a cultura só se desenvolve pela interação social. A aquisição e a perpetuação da cultura, é uma processo

social,

resultante

da

aprendizagem.

Cada

sociedade transmite às novas gerações o patrimônio cultural que recebeu de seus antepassados. Cada sociedade, elabora a sua própria cultura ao longo da história e recebe influências de outras culturas. Ela pode também ser entendida como um estilo de vida particular que as sociedades desenvovlvem e que JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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caracterizam cada uma delas. Assim os individuos que compartilham da mesma cultura apresentam o que se chamamos de identidade cultural. É essa identidade que faz com que a pessoa se sinta pertencente ao grupo, é por meio dela que se desenvolve o sentimento de pertencimento. A antropologia no Brasil tem dificuldade em definir o que é cultura brasileira. Pensamos a cultura brasileira fragmentada, em uma unidade ou em várias culturas? Para entender como ocorre parte desse processo de constituição cultural,

examinaremos

a

contrução

de

uma

cultura

apresentada como gaúcha, predominante no estado do Rio Grande do Sul, cujas origens remetem à identidade platina. Para isso, fazer-se-á necessário destacar dois distintos momentos de manifestação cultural. O gaúcho – que configura na campanha do Rio Grande do Sul nos séculos XVII e XVIII, e o tradicionalista, criado pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho no transcorrer do século XX. Assim, é pertinente enfocar como o tradicionalista tenta apropriar-se da identidade do gaúcho e por conseguinte construir

um

movimento

de

preservação

da

cultura

passada. Para preservar a identidade de uma cultura frente à possível difusão de preceitos de outras culturas surge o etnocentrismo. E é com esse intuíto que o tradicionalista visa manter o entendimento e relação com outras culturas, servindo justamente no sentido de manutenção de sua identidade cultural. Então, a etnologia, por sua vez, vai tentar dar uma resposta objetiva à velha questão da diversidade humana.

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O etnocentrismo é o termo técnico para esta visão de coisas onde segundo a qual o nosso próprio grupo é centro de todas as coisas e todos os grupos são medidos e avaliados em relação à ele. Cada grupo apresenta seu próprio orgulho e vaidade, considera-se superior, exalta suas próprias divindades e olha com desprezo às estrangeiras. Cada grupo pensa que seus próprios costumes (folkways) são os únicos válidos e ele observa que os outros grupos têm outros costumes, encara-os com desdém 1 . (SIMON apud CUCHE, 2002, p.46)

Considerando que a cultura nas ciências sociais apresenta-se de uma forma bastante complexa, devemos nos remeter a noção de cultura no que refere-se à produção histórica. Para Balandier (1955) se a cultura não é um dado, uma herança que se transmite imutável de geração em geração, é porque ela é uma produção histórica, isto é, uma construção que se inscreve na história, e mais precisamente na história das relações dos grupos sociais entre si. 2 É importante perceber que o homem em relação ao social vai construindo essa perspectiva de cultura. O cultural não pode ser estudado separado do social, pois ambos possuem caráter de historicidade. Em relação ao gaúcho e ao tradicionalista, considerando os distintos momentos históricos que ambos situam-se, devemos partir da premissa de que nos apropriamos do que é pronto, ou

SIMON, Pierre-Jean. Ethnocentrisme. Pluriel-recherces, cachier n.1,p.5763. apud CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. 2 ed. Bauru: EDUSC, 2002.

1

BALANDIER, Georges. La nocion de “situation” cloniale. In: Sociologie actuelle de l’Afrique noire. Paris: PUF, 1955.

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construímos o que é nos dado? Será que absorvemos a cultura de geração em geração? Ou ela é imposta pelo grupo de convívio? Burke (2000) deixa evidente que a história cultural ainda não está estabelecida de maneira muito sólida, pelo menos no sentido institucional.

Segundo ele não é fácil

responder à pergunta: o que é cultura? Tudo isso porque a concepção de cultura para historiadores de meados do século XIX é de que ela era algo que as sociedades tinham (ou, mais exatamente, que alguns grupos em algumas sociedades tinham), embora faltasse a outros 3 . A concepção universalista de cultura nos remete ao pensamento de Tylor. Ele enfatiza que a cultura é a expressão da totalidade da vida social do homem. Ela se caracteriza por sua dimensão coletiva. Enfim, a cultura é adquirida e não depende da hereditariedade biológica 4 . Já Boas vai defender uma concepção particularista da cultura destacando que ela é uma tentativa de pensar a diferença. Para ele o fundamental entre os grupos humanos é de ordem cultural e não racial 5 . Segundo a afirmação de Peter Burke, de que há dificuldade ao definir o que é cultura, tentamos trazer aqui a análise

funcionalista

da

cultura,

desenvolvida

por

Malinovski. Segundo Cuche (2000), Malinovski se opôs a qualquer tentativa de escrever a história das culturas de

BURKE, Peter. Unidade e variedade na história cultural. In. Variedades de História Cultural. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 4 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. 2 ed.Bauru:EDUSC,2002. p.36 5 Idem. p.41. 3

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tradição oral. Para ele, é preciso se ater à observação direta das culturas em seu estado presente, sem buscar a volta de suas origens, o que representaria um ilusório, pois não suscetível de prova científica. Com isso, nos remetemos à funcionalidade

do

movimento

tradicionalista

que

visa

retornar ao passado para dar sustentabilidade à sua forma de manifestação cultural no presente. Para

entender

como

ocorre

esta

tentativa

de

apropriação da identidade do gaúcho pelo tradicionalista, neste contexto, é fundamental destacar os elementos que os aproximam. Para isso, partimos do postulado da Nova História Cultural. Peter Burke 6 (2005) explica a emergência, a partir da década de 1970, de um modo peculiar de compreender a história, tomando os aspectos culturais do comportamento

humano

como

centro

privilegiado

do

conhecimento histórico. Esta emergência vincula, segundo ele, ao que chama de “virada cultural”: uma guinada sofrida pelos estudos históricos, abandonando um esquema teórico generalizante e movendo-se em direção aos valores de grupos particulares, em locais e períodos específicos. A história cultural surge com uma proposta de pensar

novos

objetos

e

paradigmas.

Romper

determinadas postulações também faz parte

com

de suas

proposições, pois Chartier (1990) nos diz que durante esse período demasiado longo, a história da história foi habitada por “essas seqüências de conceitos saídos de inteligências desencarnadas”, denunciadas por Lucien Febvre como o pior defeito da antiga história das idéias. Não obstante, a

BURKE,Peter. O que é História Cultural?Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 2005, 192p.

6

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história cultural surge como “uma outra maneira de pensar as evoluções e oposições intelectuais”.

7

Então, a possibilidade de se opor ao pensamento estabelecido pelo Movimento Tradicionalista, principalmente no que concerne ao que é histórico e o que é tradicional, torna-se um objeto interessante de estudo. A história cultural tal como entendemos, tem como principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler 8 . É importante destacar o que Burke enfatiza. Segundo ele, as linhas teóricas defendidas pela Nova História Cultural não são apenas uma nova moda, mas respostas a fraquezas palpáveis de paradigmas anteriores 9 . Sobre essa mesma idéia, Chartier defende que: O que toda história cultural deve pensar é portanto, indissociavelmente, a diferença pela qual todas as sociedades, por meio de figuras variáveis, separaram. Do quotidiano um domínio particular da atividade humana, e as dependências que inscrevem de múltiplas maneiras a invenção estética e intelectual em suas condições de possibilidade 10 . (CHARTIER, 1994, p.8)

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand do Brasil, 1990. p.16. 8 Idem. p.17. 9 BURKE, Peter. Unidade e variedade na história cultural. In. Variedades de História Cultural. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p.251. 10 CHARTIER, Roger. A história hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 1994, p. 97-113. 7

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Outro

aspecto

importante

na

Nova

História

Cultural, que merece ser mencionado é reservado para o estudo das representações. Este por sua vez, torna-se um conceito central. Chartier desenvolve a idéia sobre o deslocamento da história social da cultura para a história cultural da sociedade, especialmente a partir da década de 1980. Assim, a idéia da Nova História Cultural, nos indica algumas indagações. Como são construídas as representações do gaúcho? Como a tradição é construída através das idéias e imagens? Certamente essas premissas nos condicionam a pensar a sociedade rio-grandense no momento da conquista/disputa do território pelos reinos Ibéricos. Momento esse em que consolida-se enquanto individuo social a imagem do gaúcho. No entanto, em meados do século XX, o movimento tradicionalista, busca a idéia

de

(re)construção,

com

base

em

um

passado,

construindo assim a representação desse gaúcho através do tradicionalista. Chartier (1990) deixa explicito que o objeto de uma história cultural levada a repensar completamente a relação tradicionalmente postulada entre o social, identificado com um

real

bem

representações

real,

existindo

supostas

como

por

si

próprio,

refletido-o

ou

e

as

dele

se

desviando. 11 Pensar qual seria a ideologia do grupo de jovens criadores do Movimento Tradicionalista na década de 1940 é

11 CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand do Brasil, 1990. p.27.

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refletir como se dá a representação do mundo social, pois Roger Chartier nos diz que essas representações são sempre determinadas pelos interesses do grupo que as forjam. Neste caso a representação do tradicionalismo atinge o interesse de criação e invenção de um grupo de jovens oriundos do meio rural que buscam na capital do estado, por puro saudosismo, reviver um passado que não existiu em sua totalidade. No Rio Grande do Sul do século XX ocorre o surgimento um movimento cuja tentativa é a reprodução de valores forjados pelos antepassados. Devido a isso, a identidade gaúcha apresenta-se de forma fragmentada, pois nunca se expressou como uma totalidade. Essa ocorrência é devido à forma de resgate cultural de um passado presente no imaginário, porque há a procura da formação de uma identidade

no

espaço

urbano,

cuja

construção

e

ideologização será de um movimento tradicionalista. Com isso, ocorrem alguns equívocos na construção desse

paradigma

de

preservação

do

passado.

A

característica dominante de uma identidade “tradicional” em uma sociedade moderna é a diluição da noção de tempo histórico e do espaço. Onde há a tentativa de viver no núcleo urbano, a vida ocorrida no campo em um momento onde há uma reelaboração do passado como o lugar de uma sociedade

tradicional.

Entretanto,

historicamente,

a

sociedade de tipo tradicional nunca existiu no Rio Grande do Sul. Na tentativa de construir um modelo tradicional de preservação

dos

valores

passados,

os

ideólogos

do

movimento buscam a invenção de um lugar - o pago. Isto JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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ocorre, porque visam formar um padrão cultural onde as bases do passado possam construir uma identidade no presente.

Um

paradigma

criado

pelo

Movimento

Tradicionalista. Assim, o tradicionalismo é a expressão de um dos segmentos da modernidade. A funcionalidade deste movimento tradicionalista está

enquadrada

em

determinações

que

vêm

exercer

dominação aos tradicionalistas filiados, onde a adequação do tradicionalista à um código de ética e princípios estabelecidos estão inteiramente ligados a uma tradição oral de respeitabilidade. Isso se dá devido ao discurso proferido e enaltecido dentro das entidades tradicionalistas, onde o gaúcho do passado – visto agora como herói – sempre representou estar dentro dos padrões de conduta da sociedade. Sobre isso, Chartier (1990) ressalta que esta investigação sobre as representações supõe como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e

dominação. 12

Segundo

ele,

para

compreender

os

mecanismos pelo qual um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção de um mundo social, os valores que são seus e o seu domínio 13 . Outro aspecto essencial, para compreender como ocorre

essa

tradicionalista

forma aos

de

seus

dominação simpatizantes,

do está

movimento ligado

à

simbologia. Vários são os ícones representativos dessa forma visionária de resgate do passado. Cassier define esta a função simbólica como:

12 CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand do Brasil, 1990. 13 Idem. p. 17.

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e

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...uma função mediadora que informa as diferentes modalidades de apreensão do real, quer opere por meio dos signos lingüísticos, das figuras mitológicas e da religião, ou dos conceitos do conhecimento cientifico.(...) forma simbólica todas as categorias e todos os processo que constroem o mundo como representação. (CASSIRER, apud CHARTIER p.19) 14 A idéia de representar um passado que nunca existiu –

funcionalidade

do

movimento

tradicionalista

é

justamente tentar fazer com que o tradicionalista tenha a imagem de um gaúcho. Mesmo equivocando-se com o tempo histórico e com o espaço pelo qual a tradição está sendo cultuada tal movimento expressa-se em uma ideologização cujo aparato é evocar a representação como algo ausente. Assim a idéia de representação fica evidente pois ... a representação como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado; por outro lado, a representação como exibição de uma presença, como apresentação publica de algo ou de alguém. A representação é um instrumento de um conhecimento mediato que faz por um objeto ausente através de sua substituição por uma imagem, capaz de reconstruir em memória e de o figurar tal como ele é. 15 (CHARTIER, 1990, p. 22)

14 CASSIRER, Ernst. La filosophie desenvolvimento formes symboliques. Paris: Minuit, 1972. apud. CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand do Brasil, 1990. p. 19. 15 CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand do Brasil, 1990. p.22.

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Assim, a representação é relacionamento de uma imagem presente e de um objeto ausente. Fato esse que pode se estender a representação dada ao Movimento Tradicionalista Gaúcho e ao gaúcho histórico, pois há uma grande

distinção

entre

representação

e

representado,

identificado por Chartier como sendo esta distinção algo fundamental, pois entre signo e significado é pervertida pelas formas de teatralização da vida social. (...) Todas elas têm em vista fazer com que a identidade do ser não seja outra coisa senão a aparência da representação. 16 O

Movimento

Tradicionalista

seria

um

condicionante às manifestações de representações coletivas? Sobre essa perspectiva, em importante artigo intitulado “A história

hoje:

dúvidas,

desafios,

propostas” 17

Chartier

ressaltará que as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e estruturam os esquemas de percepção e de apreciação a partir dos quais estes classificam, julgam e agem. Se por um lado há a evidência do tradicionalista representar o que o gaúcho constitui, por outro, há a tentativa de um processo que visa a apropriação da identidade desse gaúcho. É importante destacar como o tradicionalista orientam

suas

e

o

próprio

práticas

Movimento

sociais.

Tudo

Tradicionalista isso

porque

a

apropriação define o consumo cultural como uma operação de produção que embora não fabrique nenhum objeto,

Idem. p.21. CHARTIER, Roger. A história hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 1994, p. 97-113. 16 17

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assinala a sua presença a partir de maneiras de utilizar os produtos que lhe são impostos. Como

um

segmento

urbano,

constituído

pelos

tradicionalistas, se apropria da idéia e da imagem do gaúcho habitante da região da campanha, e cria outro significado? Conforme representação”

18 ,

Chartier

em

“O

mundo

como

o sentido que Michel Foucault dá ao

conceito, ao tomar "a apropriação social dos discursos" como um dos procedimentos maiores através dos quais os discursos são dominados e confiscados pelos indivíduos ou instituições. Com isso, há uma facilidade maior de um determinado controle. E o Movimento Tradicionalista, por suas vez, adotará essas formas de controle de maneira especifica aos seus filiados e simpatizantes. De acordo com essa idéia, podemos destacar a afirmação de Chartier 19 que a apropriação, a nosso ver, visa uma história social dos usos e das interpretações, referidas a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as produzem. Assim, a história que o Movimento Tradicionalista constrói é uma história voltada às interpretações dos ideólogos do movimento, que buscam representar, e, consequentemente apropriar-se somente daquilo que julgam como válido e significativo no resgate e preservação de uma identidade. Certamente, não concebem a história como uma construção coletiva e uma manifestação cultural muito mais

18 CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados, v.11, n.5,p.173-191,1991. 19 Idem. p. 6.

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ampla do que seus paradigmas de enaltecimentos heróicos e desvinculações temporais. A IDENTIDADE E A TRADIÇÃO A construção do movimento tradicionalista somente será possível no momento em que possibilita-se as bases para essa construção. Para isso, um conceito inicial é o de que

o

tradicionalista

elementos

cartesianos

tem e

uma

modelos

idéia

centrada,

com

pré-estabelecidos.

O

tradicionalismo tenta criar uma idéia de unidade para assim desenvolver um processo que visa construir uma identidade. Para

desenvolvermos

tais

idéias

referentes

à

identidade, buscamos em Stuart Hall alguns indicativos, pois

em

sua

modernidade” 20 ,

obra

“Identidades

Culturais

na

pós-

ele discute a questão da identidade cultural

na chamada modernidade tardia, buscando responder algumas perguntas como: se há ou não há uma “crise” de identidade, em que ela consiste e quais suas conseqüências. Para isso, o autor traz a mudança do conceito de sujeito e identidade no século XX. Qual seria a identidade do gaúcho? Os elementos que constituem a identidade desse habitante histórico do Rio Grande do Sul seriam os mesmos apresentados pelos tradicionalistas do século XX? E perante o contexto dessa modernidade tardia, ou pós-modernidade, qual o lugar da identidade do tradicionalista no século XXI? Conseguirá manter pura e genuinamente um conceito de tradição,

20 HALL, Stuart. A identidade cultural na pósmodernidade.Tradução:Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 4. ed. Rio de Janeiro:DP&A. 2000.

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apoiando-se no passado, sem absorver as manifestações culturais produzidas pela sociedade do presente? Tais indagações nos remetem a várias reflexões no que diz respeito às funções históricas e sociológicas desenvolvida pelo Movimento Tradicionalista no Rio Grande do Sul. Na

tentativa

de

compreender

esse

processo,

percebemos a complexidade que é tentar definir identidade. Para

Hall

(2001),

o

conceito

de

identidade

é

demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova 21 . Outro importante aspecto que merece destaque é o fato que ... a identidade é formada, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência do momento do nascimento. Existe sempre algo tão “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, esta sempre “em processo”, sempre “sendo formada” 22 . (HALL, 2001,p.38)

Apesar disso, deve-se destacar o alerta que Cuche faz. Segundo ele, não se pode, pura e simplesmente confundir as noções de cultura e de identidade cultural ainda que as duas tenham uma grande ligação 23 . O que

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A. 2000. p.8. 22 Idem p.38. 23 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais.Bauru:EDUSC,2002. p.176. 21

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ocorre no Rio Grande do Sul, na constituição e consolidação do Movimento Tradicionalista, é justamente essa confusão. Confundem

cultura

com

identidade.

É

imposto,

pelo

Movimento Tradicionalista Gaúcho, a construção de uma identidade, com base na cultura gaúcha, tomando como referência o passado, enaltecendo-o como heróico. A postura que o movimento tradicionalista adotará será

um

postura

de

dominação.

Esse

domínio

será

estabelecido por conta de seus manuais, teses, leis e códigos estabelecidos aos tradicionalistas. Ou seja, ao querer identificar-se como tradicionalista o individuo deverá aceitar as normas impostas pelo movimento. Para dessa forma, manter a identidade cultural do gaúcho. Sobre isso é importante destacar que há uma história das relações de força simbólicas, uma história da aceitação ou da rejeição pelos dominados dos princípios inculcados, das identidades impostas

que

visam

a

assegurar

e

perpetuar

sua

dominação 24 . A identidade permite que o indivíduo se localize dentro da sociedade. Parece que, para o movimento tradicionalista a identidade, apresenta-se de uma forma permanente. Assim, de acordo Cuche, esses tradicionalistas concebem a identidade como um dado que definiria de uma vez por todas o individuo e que o marcaria de maneira quase indelével 25 .

24CHARTIER, Roger. A história hoje, dúvidas, desafios, propostas. In: Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 1994, p. 9. 25 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais.Bauru:EDUSC,2002. p.178.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Se

a

identidade

define

o

individuo,

como

o

tradicionalista visa identificar-se como gaúcho? A identidade é vista como uma condição imanente do indivíduo, definindo-o de maneira estável e definitiva.(...) O individuo é levado a interiorizar os modelos culturais que lhe são impostos, até o ponto de se identificar com seu grupo de origem. (CUCHE, 2002, p.179) Talvez, seja importante enfatizar a representação do mito gaúcho, já que não se pode reivindicar uma identidade cultural autêntica. Para Stuart Hall, o mito fundacional tem funcionalidade em uma história que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles perdem nas brumas do tempo, não do tempo “real”, mas do tempo “mítico” 26 . Além disso, expõe com muita clareza e propriedade de que não tem qualquer nação que seja composta de apenas um único povo, uma única cultura ou etnia. As nações modernas são, todas, híbridas culturais. Com isso, percebemos como ocorre a diluição do tempo histórico. Os tradicionalistas tentam reviver um passado que não nunca existiu na forma como interpretam. Assim, ocorre uma série de equívocos na constituição da identidade do tradicionalista rio-grandense. Anthony Giddens 27 descreve que há uma expressiva a distinção entre sociedades tradicionais e modernas. Ou

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A. 2000. p.55. 27 GIDDENS, Anthony apud HALL, Stuart. A identidade cultural na pósmodernidade. Rio de Janeiro: DP&A. 2000. 26

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

seja, o gaúcho pertence a uma sociedade tradicional, enquanto que o tradicionalista pertence a uma sociedade moderna. Assim, nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e com o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes. No Rio Grande do Sul, com o surgimento do movimento tradicionalista, ocorre o processo de construção da tradição gaúcha. Essa tradição será exaltada no sentido de reviver o que já fora vivido. A transmissão de geração à geração é fator indispensável na construção da tradição. Burke em “Variedade de História Cultural” nos diz que a fachada da tradição talvez massacre a inovação e que é praticamente impossível escrever a história cultural sem tradição. Contudo está mais do que na hora de se abandonar o que se pode chamar de noção tradicional de tradição, modificando-a para levar em consideração à adaptação assim como o reconhecimento, e recorrendo às idéias de teoria da recepção 28 .

A idéia de construção da tradição é central para Hobsbawn e Ranger no livro “A Invenção das Tradições 29 ”. Livro que ajudou a renovar uma das mais tradicionais

BURKE, Peter. Unidade e variedade na história cultural. In. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p.240-1 29 HOBSBAWN, E. (org.). A Invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 1997. 28

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

formas de história cultural, a história da própria tradição. Provocou grande impacto ao afirmar na introdução que as tradições “ que parecem ou se apresentam como antigas são muitas vezes bastante recentes em suas origens, e algumas vezes são inventadas 30 .” Seria a tradição gaúcha uma tradição inventada? Sobre isso, Hobsbawn (1997) contextualiza que “por tradição inventada entende-se um conjunto de práticas normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição,

o

que

implica

continuidade em relação ao

automaticamente,

uma

passado” 31 .

30 HOBSBAWN, E. (org.). A Invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 1997.p. 8. 31 Ibidem. p.9.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

NARRATIVAS: ESCRITOS E IMAGÉTICAS SOBRE O GAÚCHO

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

NARRATIVAS:

ESCRITOS

E

IMAGÉTICAS

SOBRE O

GAÚCHO No transcurso do século XV, considerando uma crise que afetava várias instâncias da sociedade européia, incide a tentativa da superação desta, com a aventura da conquista de novos territórios. Nesse contexto ocorre a chegada dos europeus na América. Evidentemente que o choque

cultural

procede

de

uma

forma

expressiva,

considerando o antagonismo existente entre europeus e americanos. Os Reinos Ibéricos adotam, através de um processo de exploração das novas colônias, um pacto entre as colônias americanas e as metrópoles européias. A retirada das riquezas aqui existentes era fator predominante para dar sustentabilidade econômica a sociedade européia. Contudo, os elementos e os padrões culturais europeus são impostos aos colonizados, devido o fato dos europeus julgarse culturalmente superior. Neste contexto, a chegada dos portugueses ao Brasil e a conseqüente apropriação do território no início do século JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

XVI fez com que, uma nova dinâmica fosse impregnada. A atuação dos europeus ocorria quase que exclusivamente em regiões,

que

aos

seus

olhos,

fossem

atrativas

economicamente. O Rio Grande do Sul, por sua vez, situado em uma zona limítrofe, entre as colônias espanholas e a colônia portuguesa, sofrerá um processo diferenciado na sua constituição. O interesse pelas terras onde situa-se, decorre mais que um século após a chegada dos primeiros europeus no continente. As razões que levam a tal justificativa, está no fator de não existir madeira ou minérios de fácil extração, como em outras regiões da América ocorria. Após um longo período de desinteresse por não possuir

atrativos

aos

colonizadores,

viviam

os

povos

indígenas organizados em torno de seus elementos culturais e rituais. Com isso, o interesse pela ocupação do território onde hoje situa-se o Rio Grande do Sul, procede a partir da importância que a pecuária representará, junto ao processo de catequese desenvolvido pelos padres da Companhia de Jesus nas terras onde hoje é a Região das Missões. É a partir desse contexto e, considerando a importância que o rio da Prata possuía como escoadouro dos minérios retirados na região de Potosí, é que Portugal e Espanha passam a olhar com outros olhos o território do Rio Grande do Sul. O fato de localizar-se em uma região de constante disputa entre os reinos que ambicionavam seu território faz com que insurja um tipo social, produto dessa região de convergência. Esse tipo social por sua vez adotará uma

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

postura significativa na construção de uma identidade cultural. Para entendermos como ocorre a constituição do tipo social

do

gaúcho

predominante

no

século

XIX,

examinaremos que tipo de relato os viajantes, provenientes da Europa, desenvolvem acerca de sua imagem. Com isso, há a pertinência de se destacar aqui os depoimentos contidos nas viagens realizadas ao Rio Grande do Sul do século XIX, do naturalista Auguste de Saint Hilaire, de Arsène

Isabelle

e

Nicolau

Dreys.

Além

disso,

uma

abordagem da imagética sobre o gaúcho, representada na obra de Jean Baptiste Debret. É importante destacar que a leitura que esses viajantes fizeram, em relação ao que viam no Rio Grande do Sul, representa a construção de uma visão própria daquela realidade, resultado de um contexto histórico o qual viveram e viviam naquele momento. Trata-se, dessa forma, de um discurso não oficial, mas ainda é um discurso, portanto deve ser analisado pela historiografia como um depoimento legítimo de uma visão de mundo. Nesse sentido, entendemos os depoimentos dos viajantes como efeito de um contexto histórico e, sob esta ótica, se constituindo em fonte para a compreensão da sociedade de certo período histórico. Que visões esses viajantes terão do Rio Grande do Sul? E sobre o tipo social do gaúcho? Certamente o que é relatado possui dimensões opostas aquilo, que por meio da representação, tenta-se viver em meados no século XX no Rio Grande do Sul, que é um movimento tradicionalista e a expressão gentílica de gaúcho, ao habitante do estado.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ESCRITOS: ARSÈNE, DREYS E HILAIRE Durante o século XIX alguns viajantes provindos da Europa irão visitar as terras onde hoje situa-se o Rio Grande do Sul. Seus testemunhos tornam-se importantes na reconstrução do cenário rio-grandense durante este período. O olhar desses viajantes sob a perspectiva do homem que habitava essa região é marcado por uma descrição analítica sobre o tipo social e cultural que predominava na Província. Ao fazer a abordagem do tipo social do gaúcho sob o olhar dos viajantes, é importante destacar que tanto Hilaire, Isabelle e Dreys são apenas “homens de seu tempo”, cujas abstrações mentais e representações que fazem do mundo que os cerca estão relacionadas com o seu contexto histórico-social. Arsène

de

Isabelle

era

um

viajante

francês.

Naturalista, muito interessado ao estudo da fauna e da flora, veio para a América às suas próprias custas. Em 1830, viajou para a região do Prata com o desejo de descrever os aspectos geográficos, geológicos, zoológicos e botânicos desta região. Viagem essa, que possibilitou os primeiros escritos sobre o elemento social do gaúcho. Esteve primeiro no Uruguai e depois dirigiu-se para Buenos Aires. Nesta cidade, perdeu todo seu capital em maus negócios financeiros, sendo obrigado a abrir uma pequena indústria têxtil para depois seguir com sua expedição pelo interior. Sem alcançar a prosperidade almejada, deslocou-se para o Uruguai, cruzando pelas terras rio-grandenses em 1833 e 1834. Retornou à França em

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

1835, ocasião em que publicou seus relatos de viagem na obra Voyage à Buenos Ayres et à Porto Alegre. Em seu livro Voyage a Buenos-Ayres et a Porto-Alegre Arsène 32

relata a excursão que fez ao Rio Grande entre 1830

e 1834. Ali estão contidas suas impressões sobre a província do sul, retratando os costumes e as características do povo da

época, inclusive

numa

rápida

passagem

sobre

a

Revolução Farroupilha no Estado. Segundo seu relato, a visão que possui do gaúcho é algo peculiar. Para ele: ... os gaúchos ou habitantes do campo são, em relação a Buenos Aires, o que são os tártaros em relação à China ou os beduínos em relação a Argel. Foi um chefe gaúcho que triunfou do partido de Lavalle e serão os gaúchos que dominarão sempre a cidade, opondo-se a toda inovação útil ao país, até que se ponha em prática o plano de Rivadávia, que consistia em favorecer aos estrangeiros e induzí-los a formar colônias no interior (...) agora, percebo que estou mais próximo dos ´pampas` que da praça da Vitória 33 . (ARSÈNE, p. 94) Nicolau Dreys, também era francês, depois de prestar serviço militar deixa seu país e em 1817 aporta no Brasil. Percorreu várias Províncias do Império. Antes de falecer em 1843, nos deixou vários depoimentos sobre sua visão das províncias brasileiras. Destacamos aqui a Notícia

32 ISABELLE, A. A Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde S.A, 1979. 33 ISABELLE, A. A Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde S.A, 1979, p. 94.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, quando faz, sob seu olhar, uma exposição escrita daquilo que lhe chama atenção no Rio Grande do Sul, considerando aspectos geográficos, humanos e sociais. O

que

é

pertinente

ressaltar,

tomando

como

referência os viajantes já citados é que Dreys desenvolverá uma crítica a obra, e consequentemente à visão que Arsène terá da província. Segundo Dreys 34 não é assim que uma imaginação judiciosa recebe e transmite as impressões; infeliz do viajante que, depois de alguns anos de observação, não lacerou suas primeiras notas; arrisca-se a enganar-se a si mesmo e enganar os outros. No entanto, sobre o habitante da Província e mais especificadamente sobre o tipo social do gaúcho é no capitulo terceiro, onde discorre sobre a população, que Nicolau Dreys (1961) nos dá o melhor fruto das suas observações. Depois de descrever, aquilo nomeado por ele como população regular, seja o rio-grandense do meio rural ou das cidades, já nas últimas páginas da Notícia Descritiva, traça um retrato compreensivo dos famosos “gaúchos de vida sôlta, ainda não assimilados e em pleno viço de sua aventura histórica”. Segundo Augusto Meyer, na nota introdutória da edição da Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, de 1961, editado pelo Instituto Estadual do Livro, não escapou a Dreys o “traço aculturativo dessa aventura, e neste passo leva sem dúvida grande vantagem

34 DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1961.

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sôbre a intransigência preconceitual que podemos notar em tantos autores inclusive Saint Hilaire” 35 . Ao descrever sua visão sobre a província, Dreys 36 terá impressões não somente do território como também do elemento social que predomina no Rio Grande do Sul, nesse contexto. Para ele ...o homem do Rio Grande é geralmente alto, robusto, bem apessoado, e suas feições viris nada perdem por serem quase sempre acompanhadas de uma cor alva, que faz sobressair a preta capilária e o avermelhado das faces, assemelhando-se a primeira vista aos habitantes das regiões montuosas do centro da França. (DREYS, 1961, p.11) Com isso, Saint Hilaire confirmando as primeiras impressões, irá concordar plenamente com Dreys. Para Hilaire 37 les hommes étaient généralement très blancs et avaient des cheveuxet des yeux de la même couleur que les femmes ; ils étaient grands, bien faits ; ils avaient de l’aisance, et rien de cette molesse qui caractérise les Mineurs. Já Arséne, irá destacar em seu relato que os homens habitantes

dessa

região

tinham

uma

característica

significativa de ser apreciada. Na composição desse tipo social, segundo seu relato, a vestimenta dos homens da

35 MEYER, Augusto. In: Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1961.Nota introdutória. 36 DREYS, Nicolau. Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1961.p.11. 37 SAINT HILAIRE. Viagem ao Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Ariel Editora, 1936.

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campanha é mais rica que a dos gaúchos argentinos e orientais. Consiste de sólidas botas, largas bombachas de veludo azul-celeste, uma jaqueta de pano azul, um amplo manto de pano e um chapéu de abas muito largas levantadas dos lados, preso sob o queixo por um barbicacho que termina em duas borlas. 38 Em importante obra sobre a construção social do gaúcho, intitulada História de uma Palavra, Augusto Meyer irá dizer que: Sintomática, por exemplo, é sua reação diante dos gaúchos de vida livre que vagueavam pelos campos da fronteira. Eram na maioria índios ou mestiços e viviam à margem da sociedade organizada, sem moral e sem religião. Muitos brancos haviam adotado os seus costumes, e na Capela de Alegrete, o modo de vida dos proprietários pouco diferia da vida sôlta desses mesmos Garruchos, ou Garuchos, ou Gahuchos, conforme a sua grafia. Mas o seu testemunho parece muito vago, as observações são imprecisas, refletindo certa incompreensão preconceitual do homem histórico e do meio 39 . (MEYER, 1957, p. 55-57) O que levanta-se é que o surgimento do tipo social do gaúcho somente será possível, dentro de um processo de colonização americana. Os traços culturais predominantes nos nativos, reais habitantes do território, somando aos elementos

culturais

trazidos,

principalmente

pelos

38 ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul. Tradução de Teodomiro Tostes. Rio de Janeiro: Editora Zélio Valverde,1949. p. 279. 39 MEYER, Augusto. História de uma palavra. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1957. p. 55.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

espanhóis,

é

que

constitui

os

traços

culturais

predominantes no gaúcho. Nesse contexto, considerando o livre trânsito na fronteira, é que surge uma identidade cultural desse tipo social.

O

fato

de

existir

abundância

em

pastagens,

possibilitou que o gado, remanescente do período de destruição das missões, fosse proliferando em abundância. Na perspectiva de Nicolau Dreys, é importante destacar o que, sob seu ponto de vista, chama sua atenção, nesse caso na definição do habitante do território. ... os gaúchos aparecem geralmente sem mulheres e manifestam mesmo pouca atração para elas, felizmente para seus vizinhos, a quem sua multiplicação, acompanhada de desejos tumultuosos, poderia causar desassossêgo: formados origináriamente do contato com a raça branca com os indígenas, eles se recrutam incessantemente dos mesmos produtos, e ainda de todos os indivíduos que nessas imediações nascem, sem ordem e sem destino, com gôsto tão geral de uma fácil e de perfeita liberdade. 40 (DREYS, 1961, p.160) Com isso, Dreys trás presente o traço aculturativo na formação do gaúcho, a pouca atração para as mulheres e, principalmente, a idéia de liberdade. A imagem de gaúcho aqui representada por Dreys torna-se interessante. A vida desprendida e o pouco apego e interesse com as mulheres, vem confrontar com a concepção criada em torno do mito

40 DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1961.p.160.

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gaúcho. A literatura regionalista, por exemplo, promove a exaltação desse mito, colocando-se dentro da noção de uma sociedade patriarcal, que fora desenvolvida no Rio Grande do Sul, onde o gaúcho é apresentado como homem viril. Assim percebe-se o conflito que há entre a descrição de Dreys e aquilo com que o tradicionalista do século XX tenta demonstrar como padrão de masculinidade. Além disso, Dreys segue dizendo que sem chefes, sem leis, sem polícia, os gaúchos não têm da moral social, senão idéias vulgares e, sobretudo uma sorte da probidade condicional

que

os

leva

a

respeitar

a

propriedade

condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem os emprega, ou neles deposita confiança: entregues ao jogo com furor, êsse vício, que parecem praticar como um meio de encher o vácuo de seus dias, é a fonte dos roubos, e às vezes das mortes que cometem. Joga o gaúcho tudo que possui, dinheiro, cavalo, armas, vestidos, e sai do jogo inteiramente ou quase nu 41 . Nesse parâmetro fica evidente o arquétipo de liberdade vivido pelo gaúcho. A carência da instituição de normatizações que regulamente a vida na Província também deve ser enfatizada. Isso ocorre porque sem

lei

a moral social do

gaúcho é

relacionada à

vulgarização de suas idéias bem como a atração por roubos e constantes contrabandos na fronteira Brasil, Argentina e Uruguai. Auguste de Saint Hilaire, de 1816 a 1822, percorreu o centro e o sul do Brasil, registrando em seus relatos de viagens, publicados a partir de 1830, os costumes e as

41 DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1961.p.160.

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condições de vida no Brasil. Chega ao Rio Grande do Sul em meados de 1820 trazendo uma carta de apresentação da corte, dirigida às autoridades locais, que lhe conferia o posto de coronel, prerrogativa de que pouco se valeu, mas poderia, dada as circunstâncias da época, ter sido de muita utilidade ao longo roteiro que iria cumprir percorrendo 1.500 quilômetros, de carreta ou a cavalo durante nove meses. Ao chegar ao Rio Grande do Sul, em sua viagem pela Província, Hilaire irá dizer que “dada conhecida índole dos gaúchos,

é

possível

imaginar

que,

proclamada

a

independência, aproveitaram-se os primeiros momentos de desordem

para

a

pilhagem

do

gado

nas

estâncias

portuguesas, e os portugueses a seu turno promoviam arreadas nas estâncias espanholas” 42 . Muitos estudos surgiram em torno da presença de Saint Hilaire na Província. Sem dúvida, que seus relatos foram imprescindíveis não só para conhecer aspectos da flora rio-grandense, como para conhecer as configurações, que sob seu olhar, esse território possuía. Sobre o tipo social do gaúcho, ele desenvolverá um conceito interessante de ser analisado. Ao relatar o contato que teve com um habitante do território, e posteriormente sua impressão sobre o fato, Hilaire 43 descreveu: Talvez tenha ele julgado que esse seria o melhor meio de se ver livre de mim; talvez tenha sido leviandade, falta de reflexão, negligência, e sou tentado a acreditar que

42 SAINT HILAIRE. Auguste Viagem ao Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Ariel Editora, 1936, p.77. 43 Idem, p. 78.

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esse homem, apesar de ser branco, pertence aos habitantes dessa região que têm costumes semelhantes ao dos gaúchos. (HILAIRE, 1936, p. 78) Outro

depoimento,

onde

estão

expressas

as

primeiras impressões registradas sobre o tipo social do gaúcho, é do viajante europeu, Felix de Azara, que por volta de 1780 descreveu o tipo social platino. Madaline Nichols 44 , que estudou a obra de Azara, dirá que: Além do dito povo, há naquela região, e principalmente nas proximidades de Montevidéu e Maldonado, uma outra classe de gente, mui apropriadamente chamados gaúchos ou gaudérios. (...)Sua nudez, suas barbas crescidas, seu cabelo sempre despenteado, sua sujeira e brutalidade de sua aparência os tornam horríveis de ver. Por nenhum motivo ou interesse querem eles trabalhar para alguém, e além de serem ladrões, também raptam mulheres. E essas levam para os matos e vivem com elas em choças, abatendo gado bravio para seu sustento. (NICHOLS, 1953, p. 30). Partindo da visão que Félix Azara desenvolverá sobre o gaúcho, o que há de notoriedade é a representação de um outro modelo de imagem, com alguns elementos que aproximam o gaúcho platino do gaúcho rio-grandense. O caráter depreciativo , em torno do tipo social do gaúcho exposto por Nichols nos remonta a idéia de um elemento social incivilizado, cujos traços característicos de barbárie aparecem naturalmente. Porém, se considerarmos o relato

44 NICHOLS, Madaline Wallis. El Gaucho. Buenos Aires. Ediciones Peuser, 1953, p. 30.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

que

os

viajantes

fizeram

da

Província,

e

mais

detalhadamente, a forma como caracterizaram a imagem do tipo social do gaúcho, vamos perceber que o gaúcho aqui apresentado

como

histórico

é

diferente

do

gaúcho

representado como tradicionalista. IMAGÉTICA DO GAÚCHO: DEBRET E MOLINA A representação do gaúcho do século XIX está presente nos discursos escritos dos viajantes europeus, que estando na Província, retrataram o modo de organização e vida desse

habitante. Além disso, um outro

modelo

representativo, passando pela via da imagética, torna-se imprescindível e deve ser analisado. A imagem construída do gaúcho através da pintura nós dá outra dimensão simbólica e cultural da representação desse tipo social. Na perspectiva da História Cultural, Canabarro 45 (2004) ressaltará que esta trabalha com as diferentes formas de apropriação dos discursos de textos (verbais e não verbais) e da produção do sentido, sendo diferenciado pelas posições

que

os

atores

ocupam

socialmente.

Nesta

perspectiva, nos mostrando algumas dependências da vida cultural,

que

aparecem

nas

diferentes

formas

de

apropriação, mediadas pela representação. Assim torna-se claro o que os elementos descritos pelos viajantes do século XIX queriam retratar e representar sobre o Rio Grande do Sul.

45 CANABARRO, Ivo dos Santos. A construção da cultura fotográfica no sul do Brasil: imagens de uma sociedade de imigração. 2004, 314 f. tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004. p. 17.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Embora

constituindo um

texto não verbal, as

imagéticas sobre o gaúcho também são representadas nesse contexto. Um elemento que merece destaque, considerando essa noção, cujos escritos nos remetem a reconstruir a identidade e a imagem do gaúcho sob a perspectiva dos viajantes europeus, é justamente buscar qual a imagética que o gaúcho representa. Para isso, buscamos na vasta obra do pintor francês Jean Baptiste Debret, os pressupostos e elementos que permitem-nos aproximar de uma forma mais especifica e redirecionar o olhar sobre o gaúcho riograndense, e na obra de Florêncio Molina Campos sobre o gaucho platino. Porém, também se fará necessário investigar como ocorre a evolução da indumentária rio-grandense. Isso porque, a imagem e a conseqüente identidade do gaúcho, estão ligadas a esta construção histórica e imagética. A imagética que Debret nos dará sobre o gaúcho é expressiva. Foi um pintor que esteve no Brasil com a Missão Artística Francesa 46 . Chegou ao Rio de Janeiro em 1816, dedicando-se ao ensino das artes e à organização da Academia de Belas Artes, onde figura entre os alunos fundadores da classe de pintura. Voltou à França em 1831, onde pouco tempo depois publicou Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Contribuiu de modo decisivo para uma história pictórica do Brasil urbano e escravocrata do início do século XIX. As fontes imagéticas permitem ir muito além das meras descrições, porque trazem

46 Missão Artística Francesa, grupo de pintores, escultores e arquitetos que dom João VI trouxe da França, em 1816, com a finalidade de desenvolver as atividades artísticas no Brasil e fundar uma escola de ciências, artes e ofícios.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

expressões de realidades vividas em outros tempos. Da mesma forma, devido a diversidade de informações que as fotografias apresentam, uma vez que estas registram distintas situações de vivências dos atores individuais e coletivos, possibilitam o entendimento das diferenças sociais dos grupos, revelando questões que dizem respeito à sua atuação em um determinado contexto histórico 47 . (CANABARRO, 2004, pg. 17). Em suas telas, Debret retratou não apenas a paisagem,

mas

sobretudo,

a

sociedade

brasileira,

destacando a forte presença dos escravos. Ao regressar à França em 1831, logo publicou o álbum Voyage pittoresque et historique au Brésil, ou Séjour d’un artiste français au Brásil depuis 1816 jusqu’en 1831 (1834-1839). A seguir, algumas imagens coletadas da obra de Debret, que visam representar imageticamente o tipo social do gaúcho 48 .

ÍNDIO GUARANI CIVILIZADO

FIGURA 1 47 CANABARRO, Ivo dos Santos. A construção da cultura fotográfica no sul do Brasil: imagens de uma sociedade de imigração. 2004, 314 f. tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004. p. 17. 48 Obras disponíveis em DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, l989, v.2.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

45


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

CHARRUA CIVILIZADO

FIGURA 2

VIAJANTES DA PROVÍNCIA DO RIO

FIGURA 3

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

46


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ARMAZÉM DE CARNE SECA

FIGURA 4 As aquarelas de Debret, representadas aqui pela imagética que o mesmo constrói sobre o gaúcho, vêm de encontro

com

os

depoimentos

descritos

pelos

outros

viajantes europeus. Assim, a similaridade do gaucho platino e do gaúcho lusitano é nítida em virtude da indefinição fronteiriça e da semelhança do modelo econômico. Na figura 1, percebemos que no centro da cena se encontra um índio da tribo Guarani, que Debret, optou por designar a imagem de “Índio Guarani Civilizado”. A idéia de civilidade perpassa o fator aculturativo. Ou seja, o nativo estar trajando vestes seguindo o padrão europeu e o modelo imposto pelos colonizadores. Além disso, essa imagem também

representa,

de

como

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

o

cavalo

torna-se 47


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

indispensável às atividades cotidianas. Algo curioso que está nesta representação é o fato do índio estar com vestes de estancieiro. Não era comum um nativo estar vestindo-se dessa maneira durante o século XIX. O indicativo é que, o Guarani representado, seja uma espécie de peão de confiança

de

algum

estancieiro,

considerando

suas

habilidades e destreza com a montaria. O cavalo torna-se fundamental na constituição econômica da Província. Ele que havia se proliferado em abundância, fora trazido pelos espanhóis no processo de colonização. Assim, também na figura 2 vamos perceber que o cavalo se faz presente. Ainda é visível a quantidade de adereços junto aos índios charruas. Boleadeiras, laços, esporas, pala, etc. O detalhe está no chapéu de feltro que até

então

era

usado

somente

pelos

estancieiros

e

charqueadores. Percebe-se que em segundo plano, os aperos de montaria estão ao chão e o cavalo está pastando provavelmente cansado de mais um dia de serviço. Ao fundo outros índios peões levando o gado a algum lugar. Nessas imagens a percepção que temos sobre o tipo social do gaúcho rio-grandense é que sob a visão de Debret, esse elemento se constitui com base indígena. A imagem representada é de um individuo trabalhador, interessado com as atividades econômicas.

De acordo Leenhardt 49

(2006) enquanto documentarista Debret se revela ótimo, mas como pintor ele não consegue captar e representar a coerência do todo.

49 LEENHARDT, Jacques. Imagem e história em uma viagem pitoresca e histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret: o enterro de um filho de um rei negro. In: LOPES, Antônio Herculano. História e linguagens: texto imagem, oralidade e representações. Rio de Janeiro: 7 letras, 2006. p. 126.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

48


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

O que Debret vai enfocar na figura 3 é passagem de alguns viajantes pela Província. Aqui fica evidente a condição social como determinante. O tipo de chapéu usado pelos indivíduos que estão acompanhando a senhora, usando vestido longo à moda européia, é diferente dos chapéus representados nas figuras 1 e 2. Outro fator é a pessoa que vem logo atrás não estar montando um cavalo e sim uma mula, diferente daquelas que aparecem em primeiro plano. A precisão das estruturas que organizam o ambiente da figura 4 é interessante. À frente encontra-se um indivíduo de origem indígena. Porém o que é representado por Debret é uma espécie de venda. Pode-se perceber a presença

de

inúmeros

mantimentos

necessários

à

subsistência dos habitantes da Província, principalmente o produto impulsionador da economia rio-grandense durante o século XIX: o charque. Outro fator que merece destaque, diz respeito à indumentária do tipo social predominante no Rio Grande do Sul. Tendo a idéia da representação imagética de Debret sobre a Província, faz-se necessário destacar como o tipo social do gaúcho veste-se. Um dos elementos constituidores da imagem e conseqüentemente da identidade do tipo social do gaúcho, perpassa pelo seu modo de vestir. A história cultural por sua vez busca representar esse padrão de vestimenta como elemento

importante

de

investigação

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

e

interpretação

49


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

histórica. De acordo com Fagundes 50 (1985) na “evolução da Indumentária

Gaúcha”,

trajes

fundamentais

que

constroem uma identificação ao gaúcho, e, a cada um deles corresponde uma indumentária feminina. Na figura 5, vamos perceber o tipo de vestimenta que alguns índios após o primeiro contato com os europeus passaram a utilizar. Há clareza nos traços aculturativos dessa imagem. Ou seja, o índio já possui o laço e as boleadeiras como instrumento de trabalho. Já a índia, aparece nessa representação com roupas seguindo modelo europeu. Isso demonstra a proximidade com a cultura européia dominadora aos povos nativos na América. Outro aspecto

que

merece

destaque

está

no

elemento

do

cristianismo presente. A cruz ao peito representa a aceitação de um deus com moldes cristão/catolicista. Ainda é interessante verificar a utilização do chiripá pelo homem. Era uma espécie de saia, constituída por um retângulo de pano enrolado na cintura, até os joelhos. Isso ajudava na montaria. Assim,

podemos

ressaltar

que

de

peças

da

indumentária ibérica, de peças da indumentária indígena, o gaúcho

foi

constituindo

sua

própria

indumentária. E

inevitavelmente a construção de sua identidade cultural está diretamente ligada a construção de sua imagem. Segundo

Fagundes

(1985),

os

Missioneiros

se

vestiam, conforme severa moral jesuítica. Passaram a usar os calções europeus e em seguida a camisa, introduzida nas

50 FAGUNDES, Antônio Augusto. Indumentária Gaúcha. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1985.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

50


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

missões pelo Padre Antônio Sepp. Usavam, ainda, uma peça de indumentária não européia, proximamente indígena - "el poncho". Essa peça de indumentária não existia no Rio Grande do Sul antes da chegada do branco, pois os nossos índios pré-missioneiros não teciam e nem fiavam. A seguir apresentam-se imagens coletadas, que abordam a evolução das vestimentas no estado do Rio Grande do Sul, onde as mesmas aparecem em seqüência 51 .

TRAJE INDÍGENA

FIGURA 5

51 Iconografia disponível em FAGUNDES, Antônio Augusto. Indumentária Gaúcha. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor,1985.

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51


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

PATRÃO DAS VACARIAS E ESPOSA (1750-1820)

CHARQUEADOR E ESTANCIEIRA GAÚCHA (1750-1820)

FIGURA 7

FIGURA 6

PEÃO DAS VACARIAS E CHINA DAS VACARIAS (1750-1820)

FIGURA 8

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

GAÚCHO COM CHIRIPÁ FARROUPILHA E MULHER GAÚCHA (1820-1865)

FIGURA 9

52


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

A evolução da imagem do gaúcho varia de acordo com a adaptação das vestes. Considerando a influência européia e, posteriormente a condição econômica e social predominante no Rio Grande do Sul da época, é que vamos perceber algumas variáveis. A primeira variável está nas figuras 6 e 7. Possuímos nessas imagens a representação da elite estancieira do Rio Grande do Sul. Homens e mulheres com modelos europeus, adaptados socialmente ao clima e ao elemento econômico preponderante na Província. Compreendemos

que

evidentemente,

o

fator

econômico do Charqueador e do denominado Patrão das Vacarias

sobressai

no

que

concerne

à

imagética

representada. Trajava-se basicamente à européia, com a braga e as ceroulas de crivo. Segundo Fagundes 52 (1985), passou a usar também a bota de garrão de potro 53 , invenção gauchesca típica. Igualmente o cinturão-guaiaca, o lenço de pescoço, o pala indígena, a tira de pano prendendo os cabelos, o chapéu de pança de burro, etc. Em relação à figura feminina, Fagundes segue dizendo que a mulher desse rico estancieiro, usava botinhas fechadas, meias brancas ou de cor, longos vestidos de seda ou veludo, botinhas fechadas, mantilha, chale ou sobrepeliz, grande

52 FAGUNDES, Antônio Augusto. Indumentária Gaúcha. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor,1985. 53 As botas mais comuns eram as de garrão-de-potro, que eram retiradas de vacas, burros e éguas (raramente era usado o couro de potro, que lhe deu o nome). Essas botas eram lonqueadas ou perdiam o pêlo com o uso. Em uso, as botas não duravam mais de 2 meses. Normalmente, eram feitas com o couro das pernas traseiras do animal que dão botas maiores. As que eram tiradas das patas dianteiras, muitas vezes eram cortadas na ponta e no calcanhar, ficando o usuário com os dedos do pé e o calcanhar de fora. Acima da barriga da perna, era ajustada por meio de tranças ou tentos.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

53


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

travessa prendendo os cabelos enrolados e o infaltável leque. Ou seja, os padrões europeus preponderaram na construção dessa imagem de gaúcho. Porém ressalta-se que esse tipo de vestimenta e conseqüente imagem criada, é restringida a um número mínimo de rio-grandenses. Um elemento que vem em contraposição

a

condição

social

apresentada

é

a

representação do peão. O peão é o responsável pelo trabalho diário com o gado, dando fundamentação econômica à Província. Nesse contexto a figura 8 nos mostra que tipo de imagem esse peão representa. Segundo Fagundes, o traje do peão das vacarias destinava-se a proteger o usuário e a não atrapalhar a sua atividade - caçar o gado e cavalgar. Normalmente, este gaúcho só usava o chiripá primitivo 54 e um pala enfiado na cabeça. E segue descrevendo que o chiripá, em pouco tempo, assumiria uma cor indistinta de múgria - cor de esfregão. À cintura, faixa larga, negra, ou cinturão de bolsas, tipo guaiaca, adaptado para levar moedas, palhas e fumo e, mais tarde, cédulas, relógio e até pistola. Ainda à cintura, as infaltáveis armas desse homem: as boleadeiras, a faca flamenga ou a adaga e, mais raramente, o facão. E sempre à mão, a lança - de peleia ou de trabalho. Em relação à camisa, quando contava com uma, era de algodão branco ou riscado, sem botões, apenas com cadarços nos punhos, com gola

imensa

e

mangas

largas.

Pala 55 ,

não

faltava,

54 Pano enrolado como saia, até os joelhos, meio aberto na frente, para facilitar a equitação e mesmo o caminhar do homem. 55 Tem origem indígena. Pode ser de lã ou algodão, quando proteje contra o frio, ou de seda, quando proteje contra o calor. É sempre retangular com franjas nos quatro lados. A gola do pala é um simples talho, por onde o homem enfia o pescoço.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

54


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

comumente, o de lã - chamado "bichará" - em cores naturais, e mais raramente o de algodão e o de seda que aos poucos vão aparecendo. Logo, também surge o poncho 56 redondo, de cor azul e forrado de baeta vermelha. O peão das vacarias, representado na figura 8, não era de muito luxo. Só usava ceroulas de crivo nas aglomerações urbanas. Ademais, andava de pernas nuas como os índios. À cabeça, usava a fita dos índios, prendendo os cabelos - que os platinos chamam "vincha" - e também o lenço, como touca, atado à nuca. Como podemos perceber nessa mesma imagem, a mulher vestia-se pobremente: nada mais que uma saia comprida, rodada, de cor escura e blusa clara ou desbotada com o tempo. Pés e pernas descobertas, na maioria das vezes. Por baixo, apenas usava bombachinhas, que eram as calças femininas da época. De acordo com Antônio Augusto Fagundes há uma outra variante no século XIX, em relação à constituição da indumentária rio-grandense. Segundo ele, será abdicado os padrões de vestimentas já relatados e incorporado ao que ele chamará de “Traje Gaúcho”. Isso ocorrerá no contexto da Revolução Farroupilha. Ou seja, o homem utilizando Chiripá Farroupilha 57

e

a

mulher

Saia

e

Casaquinho

como

56 Tem origem inteiramente gauchesca. É feito, invariavelmente, de lã grossa. Quase sempre é azul escuro, forrado de baeta vermelha, mas também existem de outras combinações de cores. O poncho tem a forma circular ou ovalada. Só preteje contra o frio e a chuva. A gola é alta, abotoada e há um peitilho na frente do poncho. 57 Cabe ressaltar que as botas são, ainda, a bota forte, comum, a bota russilhona e a bota de garrão, inteira ou de meio pé. À cintura, faixa preta e guaiaca, de uma ou duas fivelas. Camisa sem botões, de gola, e mangas largas. Usavam jaleco, de lã ou mesmo veludo, e às vezes, a jaqueta, com

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

55


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

verificamos na figura 9. Este período é dominado por um chiripá que substituiu o anterior, que não é adequado à equitação, mas para o homem que anda a pé. O chiripá dessa nova fase é em forma de grande fralda, passada por entre as pernas. Este adapta-se bem ao ato de cavalgar e essa é certamente a explicação para o seu aparecimento. Com isso, fica claro que o Chiripá Primitivo era de origem indígena. A mulher, nesta época, usava saia e casaquinho com discretas rendas e enfeites. Tinham as pernas cobertas com meias. Usavam cabelo solto ou trançado, para as solteiras e em coque para as senhoras. Os sapatos eram fechados e discretos. Como jóias apenas um camafeu ou broche. Ao pescoço vinha muitas vezes o fichú. Assim, podemos perceber como ocorre a tentativa da construção de uma imagem de gaúcho, seja pela visão que Debret obtém do Rio Grande do Sul ou pela transformação que a indumentária gaúcha obteve através do tempo. Fica evidente que, os elementos que ajudarão na construção da imagem de gaúcho rio-grandense, perpassam pelo fator aculturativo de índios e europeus, ajudando a construir a sua identidade. Após analisado a visão que Debret possui da Província e, como evolui a imagem do gaúcho rio-grandense em relação a sua indumentária, dentro desse contexto torna-se interessante verificar brevemente como se constitui

gola e manga de casaco, terminando na cintura, fechado à frente por grandes botões ou moedas. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

56


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

o

tipo

social

do

gaucho

platino,

considerando

as

proximidades da fronteiras e a mesma matriz cultural. GAUCHO EM FINAIS DO SÉCULO

FIGURA 10

O

gaucho

platino

por

sua

vez

apresentará

semelhanças culturais ao gaúcho rio-grandense conforme a figura anterior 58 . Segundo Ibáñez, 59 (1964), gaucho fruto de la mezcla de sangres española e indígena, comenzó a forjar su original personalidad en las primitivas vaquerías de la colonia. Allí aprendió a desempeñar las tareas de ganadería con singular destreza y fundió su cuerpo con el de su inseparable compañero: el caballo. Pasaba la mayor parte de su vida sobre el lomo de su pingo, por eso siempre detestó la agricultura, que lo obligaba a estar de pie.

58 Iconografia disponível em IBAÑEZ, José C. Historia Argentina. Buenos Aires: Editorial Troquel, 1964 p. 59. 59IBAÑEZ, José C. Historia Argentina. Buenos Aires: Editorial Troquel, 1964. pg.48.

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57


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

A impressão desenvolvida em relação a sua conduta social complementa os depoimentos dos viajantes europeus no Rio Grande do Sul. La extensión de la llanura pampeana fue la que terminó de moldear su conducta. Es independiente, de vida errante y costumbres sencillas. Esa libertad con que enfrenta la vida le traería aparejados muchos disgustos. Por mucho tiempo se lo marginó, llegándole su reivindicación con el paso del tiempo, al punto de convertirse la palabra gaucho en sinónimo de rectitud de carácter y nobleza de corazón 60 . (IBANEZ, 1964,p.56)

A representação imagética sobre o gaúcho platino está presente na obra de Florencio Molina Campos 61 . Fue un dibujante y pintor conocido por sus típicos dibujos costumbristas de la pampa argentina. Sus dibujos y pinturas rememoran con un toque humorístico típicas viñetas gauchescas. De aire caricaturesco y, a menudo, "naif", su dibujo, inspirado principalmente en el mundo gauchesco, refleja a un observador agudo de la realidad nacional.

60 IBAÑEZ, José C. Historia Argentina. Buenos Aires: Editorial Troquel, 1964. pg.56. 61 Disponível em http://www.molinacampos.org

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58


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Na seqüência, algumas representações da obra de Florencio Molina Campos, onde constrói uma imagem do gaucho platino 62 . JINETEANDO

FIGURA 11

P'AL POBLAO

FIGURA 12

62Iconografia disponível em http://www.me.gov.ar/efeme/tradicion/lamela.html http://www.molinacamposzg.com.ar/obrasdispo.htm

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

YO TAMBIÉN FUÍ COMO ESE LOCO

FIGURA 13

HUAMPELEN

FIGURA 14

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

60


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

De acordo Vellinho 63 (1970) pontos de parecença entre tipos sociais do gaúcho rio-grandense e do gaúcho platino

existem,

sem

dúvida,

mas

se

restringem

às

peculiaridades decorrentes do mesmo sistema básico de atividades – o pastoreio, desenvolvido em um cenário físico semelhante e parcialmente fundado, em ambos os lados, na experiência e nas práticas do campeador nativo. Reverbel 64 ,

também

destaca

os

elementos

de

proximidade e disparidade entre o gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino. Para ele Não há identidade entre o gaúcho riograndense e o gaúcho platino. Trata-se de tipos sociais diferenciados, histórica, sociológica e culturalmente. Mas há pontos de aproximação, aspectos semelhantes, contatos, interpenetrações. Afinal, a família é a mesma. Ambos se formaram e dependem da sociedade pastoris, geograficamente contíguas. (REVERBEL, 1996, p.103)

Os depoimentos dos viajantes, com explicações e aparato crítico adequados, contribuem para uma melhor e mais enriquecida compreensão do passado. A representação imagética de Debret remete a forma, que ele, viu e interpretou. A imagem que Molina Campos representa do gaucho platino, nada mais é do que produto de sua perspectiva artística. Temos que cuidar, porém, para não

63 VELLINHO, Moysés. Capitania d’el Rei. Porto Alegre: globo, 1970, p. 144. 2 ed. 64 REVERBEL, Carlos. O gaúcho: aspectos de sua formação no Rio Grande e no Rio da Prata. Porto Alegre: L&PM,1996, p. 103.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

61


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

cairmos na armadilha de aceitarmos as suas descrições e informações como sendo a própria e única realidade. Elas se constituem de representações, reinvenções de realidades, produzidas a partir da visão de um sujeito. São imagens que se constituem em representações do real, elaboradas a partir de componentes ideológicos de pessoas dotadas de equipamentos culturais próprios e que trazem um patrimônio anterior que condiciona o modo de observar e entender o empírico. Na visão dos viajantes, no Rio Grande do Sul, como um todo, era motivo de estranhamento. As diferentes regiões eram vistas através do filtro de sua própria cultura, mas eles escreveram crônicas sobre os aspectos vistos ou vividos bastante significativos para pensar o contexto do período. Esses relatos foram muitas vezes desprezados pelos historiadores por não serem construídos cientificamente, por não apresentarem provas documentais. Entretanto, nos últimos anos, passou-se a valorizar estes depoimentos como testemunhos de época. Assim, os relatos dos viajantes, base desta discussão, foram escolhidos por apresentarem pontos de vista semelhantes, porém com significados claros com relação ao gaúcho. A imagética que Debret e Molina Campos constroem sobre o gaúcho e as crônicas escritas por Saint Hilaire, Arsène Isabelle e Nicolau Dreys mostram a visão de homens oriundos de uma outra realidade. Referendados por outros parâmetros de historicidade, que mostram no exterior certa imagem da região meridional da América do Sul e levam as discussões e debates sobre as condições de trabalho, de JOSÉ AUGUSTO FIORIN

62


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

cultura e do desenvolvimento do Rio Grande do Sul . Dessa forma o gaúcho constrói sua representação. Tal simbolismo se fortalecerá tornando-se ainda mais significativo, a partir da segunda metade do século XX, quando busca-se através de uma tentativa saudosista reviver o passado através de um movimento tradicionalista ocorrendo uma reinvenção do gaúcho.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE GAÚCHA

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

64 64


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE GAÚCHA

Dentre as perspectivas da história cultural, a noção de identidade possui um papel importante. A abrangência de seu significado, entre tantos aspectos, demonstra como ela define os indivíduos. determinado

povo

e,

A construção identitária de

por

conseguinte,

determinada

sociedade, vem representar elementos característicos de suas manifestações culturais. Então, cultura e identidade possuem

um

vínculo

específico

no

que

se

refere

à

construção de um modelo social. No caso do Rio Grande do Sul, ocorre de forma emblemática

a

tentativa

de

(re)

surgimento

de

uma

identificação com o passado. Essa edificação vem de encontro com os postulados que nos levam a refletir sobre a origem e essência do gaúcho histórico. Este, porém,

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

65


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

apresenta uma identidade que segundo Cuche 65 (2002), permite que o indivíduo se localize em um sistema social e seja localizado socialmente. Contudo, ocorrerá um processo que tende a transformar a identidade do tipo social do gaúcho já apresentado. No âmbito da construção de uma identidade gaúcha torna-se pertinente destacar a contribuição do estudo de Stuart

Hall

sobre

as

identidades

culturais

na

pós-

modernidade. Para ele a identidade é um conceito histórico e móvel. Seu caráter de historicidade e de mobilidade está presente na construção de uma importante configuração na tentativa de entender o sujeito moderno. A identidade, no entanto

pode

representação.

ser

classificada

Para

isso ele

como

uma

destaca

três

forma

de

noções de

identidade: a – sujeito do Iluminismo; b – sujeito sociológico; c - sujeito pós-moderno. A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com as outras pessoas importantes para ele, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava... O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o “eu-real”, mas este é formado e modificado num diálogo continuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que esses mundos oferecem. A identidade, nessa concepção sociológica,

65 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. 2 ed. Bauru: EDUSC,2002. p.177.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

66


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior” entre o mundo pessoal e o mundo privado. O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo, que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. 66 (HALL, 2001,p.10-12)

A partir da classificação que Hall estabelece à identidade, é que podemos compreender como a identidade do gaúcho processa sua construção. Esse valor do passado representado de forma simbólica prepondera por meio de um movimento saudosista a amplificação e a dimensão social da representação da imagem do gaúcho. Isso ocorre porque o sujeito se define por meio desta identidade e, através dela inicia um processo de criação desenvolvendo modelos

de

comportamentos.

Tudo

isso

decorre

na

constituição de um sujeito que cria a identidade em si e a identidade para si. Considerando

os

escritos

e

as

imagéticas

descritas, que criam uma imagem de gaúcho, torna-se útil verificar

como

ocorre

a

tentativa

de

consolidar

definitivamente uma identidade ao habitante do Rio Grande do Sul. Para efetuar a consolidação da identidade riograndense, far-se-á necessário compreender o processo que levará a essa construção.

66 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p.10-12.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

67


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Podemos caracterizar vários momentos e movimentos que

levam

a

edificação

da

identidade

gaúcha,

para

finalmente se constituir a identidade tradicionalista. A construção de uma identidade dentro desse contexto visa representar um modelo de sujeito e de vivência estabelecida em um contexto histórico, defendido como tradicional. Ao refletir sobre a condição do Rio Grande do Sul no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, verificamos a influência da literatura, tanto platina quanto a brasileira, que conduzem à construção romantizada do mito gaúcho. Essa concepção fornecerá moldes à constituição do movimento tradicionalista, e conseqüentemente, a exaltação de um passado que não existiu da forma como os tradicionalistas identificam. Aliado à influência da literatura, verificaremos o surgimento das primeiras entidades nativistas, que visavam à preservação e a conservação dos valores passados. A imagem de gaúcho reconstruída nesse contexto como veremos adiante, está intimamente ligada à construção do mito: o herói defensor das fronteiras, o homem de honra. Parecendo-nos que haverá uma ressignificação de sua identidade. Além disso, a organização política desenvolvida pelo estado do Rio Grande do Sul, é importante na construção de uma nova identidade regional. Pois alicerçado com ideais do positivismo comtiano e a política castilhista/borgista, nos dão a dimensão dos elementos de conservação cultural presentes

na

sociedade

rio-grandense.

Isso

tudo

impulsionará criando algumas condições para a eclosão do

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

68


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

movimento tradicionalista organizado que terá seu ponto inicial no pós Segunda Guerra Mundial. No entanto, considerando a imagem de gaúcho, também

será

pertinente

desenvolver

uma

análise

da

historiografia rio-grandense, onde Moysés Vellinho, ao dirigir a Revista Província de São Pedro, torna-se o intelectual mais influente na defesa de um gaúcho riograndense em contraposição do gaucho platino. A INFLUÊNCIA LITERÁRIA: PLATINA E BRASILEIRA Em relação ao tipo social do gaúcho já caracterizado, podemos partir da premissa básica de que o mesmo sofrerá alterações quanto à concepção de sua identidade. Entre tantos fatores que condicionam que o gaúcho histórico, já apresentado,

seja

gradualmente

“substituído”

ou,

reconstruído o seu sentido, está a literatura. No âmbito literário, enfoca-se tanto a influência que a literatura platina, principalmente com a obra de José Hernandez, intitulado “El Gaúcho”, quanto à literatura brasileira. Esta, através de um processo interessante de ser analisado, irá proporcionar as reais dimensões imaginárias, na construção mitológica de bravura e honradez ao gaúcho. A construção da imagem do gaúcho perpassa indiscutivelmente pela literatura. A romantização do gaúcho é um elemento fundamental, para compreender como essa imagem é reconstruída e refigurada. Sendo que, a partir dessas pressuposições é que o tradicionalista do século XX constituirá

sua

identidade.

Construindo

assim

uma

representação do gaúcho.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

69


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Dentro da fase romântica da literatura brasileira, vamos encontrar o escritor José de Alencar. Ele através de seus escritos, vai desenvolver uma visão do regionalismo brasileiro. Com isso, escreverá uma obra intitulada “O Gaúcho” 67 , tratando evidentemente, sobre o habitante da então Província do Rio Grande do Sul. Sua obra no final do século XIX, sofrerá críticas severas,

principalmente

ao

fato

de

desenvolver

uma

narrativa, sem ao menos conhecer o Rio Grande do Sul e fundamentalmente a figura do gaúcho. Tanto que, quando foi publicado, em 1870, o romance “regionalista” do autor cearense provocou indignação aos escritores nativistas gaúchos. Em contraposição a esta tentativa de caracterização do habitante do estado pelo escritor cearense, no Rio Grande do Sul, ocorrerá a indignação de alguns escritores e intelectuais. Dentre eles destaca-se a figura de Apolinário Porto-Alegre

e

Simões

Lopes

Neto,

que

também

na

literatura, elevarão a imagem de um gaúcho semelhante ao de José de Alencar, porém, a notória diferença será a exaltação dada. Esses elementos são importantes de destacar, pois a obra de Apolinário Porto-Alegre foi influenciada por José de Alencar. Apolinário, no entanto segue as mesmas linhas literárias de Alencar. Já em “O Vaqueano” 68 , ele pretende analisar o temperamento do gaúcho tradicional, cujos indícios identitários verificamos no capitulo anterior. Assim,

ALENCAR, José de. O gaúcho. São Paulo : Ática, 1998. PORTO-ALEGRE, Apolinário. O vaqueano. Editora Três. Rio de Janeiro, 1973. 67 68

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

70


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ele

coloca

em

cena

uma

nova

imagem

com

uma

representação ressignificada do vaqueano rio-grandense. Esse romance de Apolinário Porto-Alegre constitui-se com grande importância histórica, pois é considerado o marco inicial da literatura sul-rio-grandense. Devido a isso, surgiriam outros escritores seguindo a mesma linhagem, estilo e linguagem. Entre os quais destaca-se Simões Lopes Neto. Guilhermino César 69 , na sua História da Literatura do Rio Grande do Sul, conclui da seguinte maneira o capítulo dedicado a Apolinário Porto-Alegre: É de extraordinária simpatia esse professor e jornalista provinciano, empenhado em realizar algo de substancialmente nativo, aprofundando as ligações da arte com o meio e a experiência de vida do seu torrão. Raras vezes, na história do pensamento brasileiro, ter-se-á visto um homem tão bem dotado para tarefas tão diversas. Interessado por todos os aspectos da cultura, não chegou, é certo, a produzir obra harmoniosa. Nele, o que impressiona e domina é o conjunto. E pelo conjunto de seus trabalhos - que apontaram rumos à literatura regional talvez mais orgânica do Brasil - Apolinário Porto-Alegre há de ser lembrado como um dos grandes vultos nacionais. 70 (CÉSAR, 1956, p 56) A obra de José de Alencar sobre o gaúcho riograndense repercute e denota ampla repercussão nacional.

69 CÉSAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul. 1737-1902. Porto Alegre: Globo, 1956. 70 Idem, p. 56.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

71


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Logo após Apolinário Porto-Alegre, inspirado no modelo e no estilo literário, publicou O Vaqueano, mas acrescentou-lhe a observação direta do meio. Ou seja, o cotidiano da vida do gaúcho rio-grandense. Ele é, portanto, o legítimo fundador do regionalismo literário rio-grandense, que nesse momento deixa de ser mero sentimento coletivo e se expressa como simbologia expressiva na ressignificação do gaúcho. Com base em “O vaqueano”, chegamos a observação de que sua figura, descrita por Apolinário, se “fizera indispensável ao contexto social do pampa: funcionava como guia de viajantes e forasteiros por conhecer os caminhos e atalhos, possuidor de habilidade e destreza, ignorante do perigo” 71 . Assim,

o

regionalismo

gaúcho

muito

deve

a

Apolinário Porto Alegre. A construção de seu romance legou um tema e inaugurou uma tradição. Tradição essa que será enfatizada

de

forma

significativa

pelo

Movimento

Tradicionalista no transcurso da segunda metade do século XX. Porém as bases começam a se constituírem. Isso ocorre, porque o personagem do vaqueano sintetiza todos os atributos do “guasca”. Isso também, será enfatizado de forma interessante pelo sucessor dessa linhagem literária: Simões Lopes Neto. Se Apolinário lança as bases do regionalismo riograndense, é Simões Lopes Neto quem amplifica esse estado:

71 PORTO-ALEGRE, Apolinário. O vaqueano. Editora Três. Rio de Janeiro, 1973.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

É necessário reconhecer nos Contos gauchescos e nas Lendas do Sul uma característica documentária que vai da linguagem dialetal aí incorporada até a fixação de um código ético específico, passando pelo registro histórico e a fotografia duma tipologia social. Tudo isto concorre para a definição do texto dentro do regionalismo. Tal era a tendência predominante não só no Rio Grande do Sul, mas em grande parte da literatura brasileira neste período. O naturalismo de Euclides da Cunha, após a publicação de Os sertões, em 1902, abrira uma vertente (...) a literatura assumira programaticamente a documentação e a interpretação da realidade circundante. No caso de Simões Lopes Neto acrescentou-lhe ainda a ideologia que, desde o romantismo, propiciara ao gaúcho uma aura heróica. Na convergência desses elementos culturais surgiu Blau Nunes, o vaqueano, no pórtico dos Contos gauchescos. 72 (HEIDRICH, 2005, p. 215). Visto hoje, como um dos expoentes do Movimento Tradicionalista no Rio Grande do Sul, Simões Lopes Neto manteve no universo imaginário de sua ficção, o modelo deste gaúcho tradicional, idealizado no imaginário popular e por todos os escritores regionalistas que o precederam. Em sua obra faz uma minuciosa descrição de usos, costumes e hábitos

que

identificam

uma

região

culturalmente

demarcada, a campanha.

HEIDRICH, Álvaro Luiz. Aspectos culturais da construção da regionalidade gaúcha. In: Rio Grande do Sul – Paisagens e Territórios em Transformação. p. 215 – 232. Editora da UFRGS, Porto Alegre, 2005.

72

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

73


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Não é lícito, portanto, sonegar a literatura de Simões Lopes Neto à tradição do regionalismo. Essa tradição afirmou-se na própria formação de uma província insulada por muito tempo das grandes transformações ocorridas no centro do país durante o século XIX e envolvida quase sempre nas guerras em defesa da fronteira ou em revoluções internas que alcançaram o nosso século. Confirmou-se na produção literária, precedente à ficção simoniana, onde é possível localizar a herança de José de Alencar transmitida nas páginas d'O gaúcho para a geração romântica do Partenon Literário e mantida desde O vaqueano de Apolinário Porto Alegre até Ruínas vivas de Alcides Maya. Homem da cidade, portador de refinada cultura, o escritor pelotense conhecia muito bem estes antecedentes. A compilação do cancioneiro, em 1910, mergulhou-o, por outro lado, no folclore e na raiz popular. Vamos encontrá-lo agora na confluência destes fatores: ele é um caudatário do sentimento e da tradição instaurados pelo regionalismo. 73 ( CHAVES, 1982, p.12). Quanto à contribuição da literatura platina na construção do gaúcho, podemos considerar que a obra de José Hernandez, representa as bases da formação do tipo social do gaucho. No século XIX, escreve Martín Fierro, um poema narrativo da vida de um gaúcho. Foi publicado com o título “El gaucho Martín Fierro”, e continuação, “La Vuelta de Martín Fierro”. Constitui-se como uma importante obra literária de grande popularidade na Argentina, dando as bases para a construção da identidade do gaucho platino, onde

muitos

desses

aspectos

são

apropriados

pelos

73 CHAVES, Flávio Loureiro. Simões Lopes Neto: regionalismo & literatura. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p. 12

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

74


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

regionalistas

rio-grandenses

na

construção

de

sua

literatura. Ao longo de toda a obra “Martín Fierro” 74 de Hernándes, o que vemos acontecer é a apresentação em forma de testemunho por “el gaucho” que vive e revive a história real da Argentina. Colocando como evidência a memória nacional e a formação deste como conseqüência de um processo histórico, verificamos também a busca da construção da identidade nacional Argentina. Alguns trechos desse poema nos dão à dimensão caracterizante do gaucho platino.

(Trecho do Poema)

(Tradução)

No me hago al lao de la güeya

Não saio fora dos trilhos

aunque vengan degollando;

nem que venham degolando;

con los blandos yo soy blando

c'os brandos sou sempre brando,

y soy duro con los duros,

e sou duro com os duros,

y ninguno en un apuro

e ninguém, noutros apuros,

me ha visto andar tutubiando.

me viu andar titubeando.

En el peligro qué Cristo!

Ante o perigo — por Cristo! —,

El corazón se me enancha.

meu coração não remancha:

pues toda la tierra es cancha,

qualquer chão p 'ra mim é cancha;

y de esto naides se asombre:

e nisso senztido tomem:

el que si tiene por hombre

quem se tenha por bem homem

donde quiera hace pata hancha

faz pé firme e não se plancha.

74 Hernández, José. Martín Fierro. Tradução de J. O. Nogueira Leiria, Porto Alegre:Martíns Livreiro, 1991.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Soe gaucho, y entiéndanló

Sou gaúcho! — Entendam bem

Como mi lengua lo esplica:

como meu canto o explica:

para mi la tierra es chica

a terra ante mim se achica

y pudiera ser mayor;

e pudera ser maior;

ni la víbora me pica

nem a víbora me pica,

ni quema mi frente el sol.

nem me queima a fronte o sol.

Nací como nace el peje

Nasci como nasce o peixe

en el fundo de la mar:

nas profundezas do mar;

naides puede quitar aquello que

ninguém me pode tirar

Dios me dió:

aquilo que Deus me deu:

lo que al mundo truje yo del mundo lo he de

o que aqui tenho de meu,

llevar. 75

do mundo o hei de levar.

Nesse contexto ele é representado por Martín Fierro como um gaucho sofredor que vive entre a violência e a crueldade, onde possui autoridade própria sobre sua vida e seus interesses. Certamente o século XIX, que transformou o “el gaucho” em figura mítica do personagem não ocorreu por acaso. A inclusão de Martín Fierro no universo mítico da identidade Argentina, surge mais do que uma figura, como um símbolo épico, que retrata os sentimentos do herói gaúcho, a revolta contra a civilização dominante e a nostalgia do herói diante da Planície dos Pampas. É possível compreender esse fenômeno, justamente através do valioso instrumento cultural, representado pela

75 Hernández, José. Martín Fierro. Tradução de J. O. Nogueira Leiria, Porto Alegre: Martíns Livreiro, 1991.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

literatura. As obras narram o caráter independente, heróico e sacrificado dos habitantes dos pampas, e os situam como os verdadeiros representantes do caráter argentino. Para os escritores da época, o gaúcho deixava de ser um homem “fora da lei” para converter-se em herói nacional, buscando uma interpretação da história Argentina. E no Rio Grande do Sul, não tentarão fazer o mesmo com o gaúcho riograndense?

PRIMEIRAS ENTIDADES NATIVISTAS E O POSITIVISMO

Antes de examinarmos a constituição do Movimento Tradicionalista

organizado,

faz-se

necessário

investigar

como ocorrem as primeiras manifestações da exaltação da cultura rio-grandense, como o passado é tentado a ser reconstituído no âmbito presente. No final do século XIX e na primeira metade do século XX é que essas entidades surgirão com um propósito único: exaltar a imagem do gaúcho histórico ressignificando sua identidade. Isso tudo será possível, compreendendo a dimensão

da

política

positivista

impregnada

pelos

governantes do Rio Grande do Sul no princípio da República.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Esse ciclo de entidades,

76

segundo Ruben Oliven 77 ,

tanto o Partenon Literário como o Grêmio Gaúcho, tinham a preocupação com a questão da tradição e da modernidade. Ao mesmo tempo em que tinham como modelo o que se considerava mais avançado na Europa culta (o positivismo comtiano) 78 , o Partenon evocava a figura do tradicional gaúcho e louvava seus abalados valores. Mas o mesmo não se projetou como elemento de composição do nacional. Além de, a história gaúcha valorizar fatos não comuns às demais regiões brasileiras, como por exemplo, o contato fronteiriço, além de o estado sulino opor-se politicamente a duas importantes regiões, as outras formulações eram de cunho mais apropriados ao nacionalismo

no

âmbito

da

cultura.

Apresentavam

elementos de tradição comuns, antepunham-se como elo de preservação e entendimento, e projetavam a expansão do moderno, da cidade e do industrialismo.

A primeira tentativa de organização do tradicionalismo surge em 1898 com a criação do Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, por João Cezimbra Jacques. Alguns autores afirmam que Cezimbra Jacques agiu influenciado pelo Partenon Literário que reunia a elite cultural de sua época. Outros clubes gaúchos são fundados pelo interior do Estado. Segundo Hélio Mouro Mariante em História do Tradicionalismo Rio-grandense, foram a União Gaúcha de Pelotas, Centro Gaúcho de Bagé, Grêmio Gaúcho de Santa Maria, Sociedade Gaúcha de Lomba Grande de São Leopoldo (hoje pertencente ao município de Novo Hamburgo) e Clube Farroupilha de Ijuí. Segundo Moro Mariante este sentimento nativista impregnado na criação das entidades de preservação do regionalismo tem a influência do Uruguai que conta com sua entidade tradicionalista La Crioula, fundada por Elias Regules, em 1894. 77 OLIVEN, Ruben. O Rio Grande do Sul e o Brasil: uma relação controvertida. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo: Vértice: ANPOCS, 3(9): 3-14. fev. 1989 78 A idéia de conservar melhorando, estava presente nos discursos oficiais dos políticos rio-grandenses. Tudo isso faz com surja esse movimento embrionário do Movimento Tradicionalista. Tanto que ocorre a defesa, no jornal “A Federação” por parte do presidente do estado o Sr. Julio Prates de Castilhos de que 20 de setembro seria o dia do gaúcho. 76

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

O Rio Grande do Sul ofereceu a distinção cultural para compor a coexistência e em termos de contribuição para

o

futuro

firmou-se

nos

princípios

republicanos

positivistas. A construção das identidades próprias dos estados coexistiu com a produção do ideário nacional. No estado sulino ele é difuso num personagem que muitos podem assumí-lo: o gaúcho. Tal figura, na origem desprezada

por

seu

caráter

bandoleiro,

após

a

sua

assimilação como peão de estância, ou guerreiro nos enfrentamentos

como

as

Revoluções

Farroupilha,

Federalista, a Guerra do Paraguai, passou a ser cultuado como o tipo representativo do Pampa 79 . A implantação do mito completou sua vestimenta, incluindo-lhe adereços enobrecedores, bem como passou à descrição de seus hábitos e costumes, filtrando o estilo bárbaro e enobrecendo o rústico. Compondo assim, outra figura, diferente daquela inicial narrada pelos viajantes europeus na Província do Rio Grande de São Pedro e pintadas por Jean Baptiste Debret. Os atributos e peculiaridades que fazem parte do simbolismo ressaltam, por exemplo, a valentia, a bravura, a qualidade de defensor, de fidelidade a uma causa ou paixão, ser guerreiro e livre. Tal identidade cabe-lhe por sua condição inicial de trabalhador na estância, que vagueia por campos de horizonte aberto, pela necessidade da valentia para a defesa do “seu” território e do gado que é sua razão

79 GONZAGA, Sergius. As mentiras sobre o gaúcho: primeiras contribuições da Literatura. In: ___; DACANAL, José Hildebrando (orgs.). RS: Cultura e ideologia. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996. p. 113-132.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

de sustento, por ter paixão de sua condição e, por tudo isso, ser fiel ao estancieiro que lhe aparece como igual, posto que também é “gaúcho”. A personificação geográfica e histórica enaltece a condição fronteiriça, vinculada à idéia de defesa e do desejo de ser nacional. No Rio Grande do Sul a ênfase das peculiaridades e a simultânea afirmação de pertencimento ao Brasil constitui um dos principais suportes da construção social da identidade gaúcha que é constantemente evocada, atualizada e reposta. 80 (OLIVEN,1989, p. 3).

Tal ênfase deve ser considerada por seu aspecto contundente e pelo próprio regionalismo, na tentativa de uma inserção nacional. Não há contradição, mas apenas uma inerência capaz de distingui-lo do nacionalismo. A afirmação de pertencimento, ao emanar orgulho da sua condição

coloca-se

numa posição

diversa da

simples

subordinação. Constitui dessa forma, um tipo especial de identidade territorial, inserido noutra mais abrangente. A existência dessa identidade regional fundamenta-se quando as vantagens de pertencimento à nação. Faz parte de uma estratégia que visa, ao menos relativamente, a autonomia interna e a força no conjunto nacional. Mas nem por isso coloca-se a morte do regionalismo como sistema amplo. Além da literatura, o regionalismo de expressão popular e cancioneiro, bem como o culto de

80 OLIVEN, Ruben. O Rio Grande do Sul e o Brasil: uma relação controvertida. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo: Vértice: ANPOCS, 3(9): 3-14. fev. 1989.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

tradições permaneciam fortes. A identidade cultural de referência já há tempo ligara-se ao gauchismo. Apesar da sua decadência na literatura, o gaúcho, de personagem extraída do povo, retornava a ele com auxílio institucional. Aquilo que Simões Lopes Neto e os demais escritores regionalistas haviam registrado tornou-se o discurso e o hábito dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs). A partir de 1920 generalizou-se o “esforço para criar uma imagem do Rio Grande do Sul que se assemelhe à do Brasil”, juntamente com o de valorizar a sua originalidade. 81

VISÃO DOS HISTORIADORES: UMA IDENTIDADE RIOGRANDENSE As circunstâncias históricas levaram o Estado do Rio Grande do Sul a inserir-se culturalmente ao conjunto nacional? De um lado a existência do estigma da não brasilidade e a necessidade de acessar ao poder central, e de outro, o surgimento de novos segmentos sociais dominantes e

de

diversa

origem

cultural,

são

as

razões

que

fundamentam a necessidade de uma atuação mais efetiva no campo da afirmação da identidade regional? São essas as indagações que nos fazem refletir de forma análoga sobre a condição histórica do Rio Grande do Sul. Nesse paradigma é fundamental a análise em torno da historiografia rio-grandense, mais especificadamente sobre a

81 GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade UFRGS, 1992. p. 20.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

influência

da

Revista

Província

de

São

Pedro

e

da

representatividade que Moysés Vellinho possuiu nesse contexto na tentativa de construir um gaúcho rio-grandense diferenciado do gaucho platino. Ao analisar aspectos da historiografia rio-grandense, vamos perceber como os intelectuais do estado irão posicionar-se quanto ao lugar do gaúcho no cenário riograndense. Espaço esse que emerge uma discussão acirrada acerca de sua origem. Afinal, o gaúcho seria rio-grandense ou platino? Partindo desses pressupostos Ieda Gutfreind, irá desenvolver uma análise significativa sobre a designação do que é o gaúcho para os mais influentes historiadores e intelectuais do Rio Grande do Sul no contexto do conflito da matriz lusitana com a matriz platina. Para um melhor entendimento sobre sua análise, destacamos o seguinte quadro: De acordo Gutfreind 82 (1992): ALFREDO

Pampa

uma

unidade.

Gaúcho

VARELLA

uruguaio, argentino e rio-grandense com semelhanças. Gaúcho

JOÃO PINTO DA SILVA

rio-grandense

distinto

do

gaúcho platino, embora exista identidade do

meio

físico

e

moral.

Diferenças

raciais. Gaúcho platino “gaucho malo”. Não houve caudilhismo.

82 GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992.p. 12-13.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

RUBENS DE

Os hábitos e os costumes dos campeiros

BARCELLOS

do Rio Grande do Sul em nada se distinguem dos usos e práticas dos gaúchos orientais.

AURÉLIO

Filho sedentário do pampa

PORTO Gaúcho brasileiro é diferente do gaucho SOUZA DOCCA

platino. Semelhanças existentes vieram do indígena charrua e minuano. Gaúcho rio-grandense

mestiçagem

com

indígena foi pequena. Gaúcho OTHELO ROSA

rio-grandense

diferente

do

gaucho platino, desde a tessitura étnica, não era nômade, tinha senso de ordem, disciplina,

capacidade

de

sacrifício,

inexistia conflito campo e cidade.

MOYSÉS

Gaúcho rio-grandense era diferente do

VELLINHO

gaucho platino. Pouca mescla com o indígena.

Gaúcho

rio-grandense

era

descendente da massa dos pioneiros de Laguna e dos bandeirantes. O autor parte do pampa que engloba o MANOELITO

Brasil, parte do Rio Grande do Sul,

DE ORNELLAS

Argentina e Uruguai. Não nega influência árabe

espanhola

nos

trabalhos

e

costumes do gaúcho rio-grandense, mas não aceita ser integrado entre os povos castelhanos.

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83


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Com

isso

percebemos

as

diferentes

imagens

defendidas pelos historiadores citados. Porém, iremos notar que a maior influência será o discurso da matriz lusitana defendido forma enfática e eficaz por Moysés Vellinho. Segundo Gutfreind 83 historiográfica

de

(1991) a atuação e a produção

Moysés

Vellinho

dirá

que

elas

se

aprofundam na história sul rio-grandense a partir de 1920. Essa

conjuntura

histórica

é

fundamental

para

o

entendimento do lançamento e êxito de uma historiografia centrada na idéia de nacionalidade. A história está tão próxima dos desígnos políticos que se torna seu apêndice. É nessa época que se agrega aos vocábulos “gaúcho” e “Rio Grande” o vocábulo “brasileiro”. No entanto, decore dessas duas matrizes (platina e lusa), uma série de divergências, totais ou parciais, em torno da identidade cultural do gaúcho rio-grandense, diferenciando-o do uruguaio e do argentino. Segundo Ieda Gutfreind 84 (1991) são essas tendências se constituem em momentos

importantes,

pois

criam

e

destroem

representações acerca da história do Rio Grande do Sul. Um outro fator que já fora mencionado, que merece ser retomado é sobre a influência positivista. Isso recai sobre a atuação do IHGRS (Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul) na década de 1920. Ieda Gutfreind 85 , por sua vez, insiste em afirmar que a influência do

83 GUTFREIND, Ieda. Historiografia sul-rio-grandense contemporânea e a tese da lusitanidade de Moysés Vellinho. Porto Alegre: Caderno do Curso em Pós-Graduação em História.1991.p. 04. 84 Idem. p. 01. 85 Idem p. 06.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

positivismo comtiano foi flagrante entre os membros do IHGRS, porém, a caracterização mais correta que se pode dar à produção historiográfica de seus membros é a do ecletismo teórico, sem significativa discriminação filosófica. Assim, muitos historiadores tentaram um modelo de prática histórica inspirada na doutrina comtiana. Onde o modelo de preservar e conservar manifestava-se com clareza. E é sob este signo que irá emergir o movimento tradicionalista. Com isso, podemos constatar que as matrizes referidas anteriormente apresentaram polêmicas entre si, extrapolando o ambiente do Instituto e chegando ao grande público. No entanto, apesar dessas diferenças, ambas defenderam, no pós 1920, uma história político-ideológica de alto teor nacionalista. Nesse contexto, Ieda Gutfreind nos dirá que: Moysés Vellinho foi um representante à altura desta ideologia (liberal e nacionalista) e o extremado nacionalismo que defendia lhe permitiu rechaçar as idéias de opção histórica do Rio Grande do Sul em tornar-se brasileiro, defendia por alguns intelectuais sulinos como, por exemplo, Manoelito de Ornellas e Othelo Rosa. Para Vellinho, eram as condições histórico-políticas que faziam o Rio Grande do Sul brasileiro, daí não ser uma opção, mas uma vocação histórica 86 . (GUTFREIND, 1991, p.11)

86 GUTFREIND, Ieda. Historiografia sul-rio-grandense contemporânea e a tese da lusitanidade de Moysés Vellinho. Porto Alegre: Caderno do Curso em Pós-Graduação em História. 1991. p. 11.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Várias discussões emergiam dentro desse cenário. A tese da lusitanidade parecia ganhar força expressiva no discurso de Moysés Vellinho. Não seria, pois, o caso de submeter a uma cuidadosa revisão o conceito de gaúcho como expressão do tipo social rio-grandense, posto que o ‘gaúcho’

e

o

‘rio-grandense’,

são

hoje

designações

equivalentes. Moysés Vellinho por sua vez genereralizava o termo gaúcho em seu sentido gentílico, considerando todo sul rio-grandense um gaúcho. Para ele, existia um gaúcho que, se necessário fosse, trocaria “o colarinho pelo lenço”, passando a empunhar a lança de combate em prol da luta que lhe desse justiça. Assim, diametralmente oposto a Barcellos, Vellinho não diferenciava o tipo social rio-grandense na zona da campanha. 87 (GUTFREIND, 1992, p. 32-33) Ao desenvolver uma análise da obra do influente escritor Alcides Maya, Moysés Vellinho 88 deixa claro que gaúcho denominava, agora, o “homem representativo do brasileiro que vivia na extremadura meridional do país” e não o habitante da campanha, área extensa de produção pecuária. Vellinho via o gaúcho da obra literária de Maya como o tradicional, de capa e espada, daí o pessimismo do autor, que se contradizia com a evolução rio-grandense, vista em franco desenvolvimento.

87 GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992.p. 12-13. 88 VELLINHO, Moysés. Alcides Maya: a expressão literária e o sentido sociológico de sua obra. In: Letras da Província. Apud. GUTFREUD, Ieda. Historiografia sul-rio-grandense contemporânea e a tese da lusitanidade de Moysés Vellinho. Porto Alegre: Caderno do Curso em PósGraduação em História. 1991.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Assim, segundo Gutfreind, para Vellinho: O gaúcho tinha que ser brasileiro, daí porque, na sua evolução histórica, ele se transfigurara, desaparecendo o que possuía de ‘dispersivo’, de ‘circunstancial’, de ‘desintegrante’, vocábulos utilizados pelo autor para destacar a emergência de um novo, um outro gaúcho, resultante do ‘espírito de aventura dos pioneiros e do animo sereno e ordeiro do ilhéu açoriano’. (GUTFREIND, 1991, p.13)

A percepção que temos é que Vellinho insiste na utilização do vocábulo gaúcho no sentido gentílico. No entanto, deixou claro, no editorial da Revista Província de São Pedro 89 que reconhecia como gaúcho a figura da região da campanha, o ‘nosso tipo tradicional’. Segundo ele “dessangra em largas porções sua geografia humana à vista do imemorial abandono em que viveu suas populações, particularmente os que porvêm do ciclo heróico da ocupação e das velhas pugnas da fronteira...”. 90 E ainda, desenvolve uma crítica, nesse mesmo texto, à literatura ufanista que mitologizava o gaúcho. Tudo isso por querer, segundo

89 Através dessa revista, de 1945 à 1957, Moysés Vellinho veiculou seu discurso ideológico. Cada editorial era uma tomada de posição e uma afirmação de luta. Vellinho colocou sua concepção de nacionalidade através do desenvolvimento regional e reafirmava a necessidade de guardar ‘do perigo de um tradicionalismo estreito e das pieguices do saudosismo’. In: GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992, p. 82-83. 90 VELLINHO, Moysés. Revista Província de São Pedro. Editorial nº 5. Porto Alegre: 1945.

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Gutfreind 91

sobrepor

o

vocábulo

gentílico

ao

tipo

representativo da zona da pecuária... Já no editorial número XX da mesma Revista ele destaca que “o famigerado caudilhismo rio-grandense não passa de um fantasma” e longamente discorreu, refutando as “alusões ora frontais ou capciosas do uso do termo gaúcho sulino” 92 . Para Vellinho, como para os outros historiadores, as relações entre o Rio Grande do Sul e a área platina teriam sido sempre relações de antagonismo e de oposição, resultantes das lutas de dois Impérios, o espanhol e o português, que disputavam áreas afins. Outro

aspecto

que

merece

93

ser

enfatizado

na

construção da identidade rio-grandense, está ligado às condições do momento em que passa o Brasil e o próprio Rio Grande do Sul. Constituindo uma imagem de gaúcho, tornando o gaúcho universal e unificando-o em uma só identidade. Ieda Gutfreind 94 irá dizer que isso reflete tanto o interesse como as necessidades da classe dominante, onde os demais membros do corpo social sul-rio-grandense passaram a considerar também como seus tais interesses e necessidades e o Rio Grande do Sul iniciava sua marcha em

GUTFREIND, Ieda. Historiografia sul-rio-grandense contemporânea e a tese da lusitanidade de Moysés Vellinho. Porto Alegre: Caderno do Curso em Pós-Graduação em História. 1991.p. 20. 92 VELLINHO, Moysés. Revista Província de São Pedro. Editorial nº 20. Porto Alegre: s.d. 93GUTFREIND, Ieda. Historiografia sul-rio-grandense contemporânea e a tese da lusitanidade de Moysés Vellinho. Porto Alegre: Caderno do Curso em Pós-Graduação em História. 1991.p. 32. 94GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992, p. 36. 91

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

88


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

direção à liderança nacional. Caracterizado pela revolução de 1930 95 . Se há elementos similiares do tipo social do gaúcho do Rio Grande do Sul com o gaucho platino e, considerando todo o processo de rejeição por parte de alguns intelectuais, cabe agora verificarmos como ocorrerá a

construção do

discurso historiográfico lusitano. Ieda Gutfreind nos diz que: Aurélio Porto é posto como o lançador desta tendência historiográfica que se intensifica a partir dos anos 20. Souza Docca dá continuidade e desloca o discurso, tornando-o mais convincente. Othelo Rosa expande e aprofunda a matriz lusitana, cabendo a Moysés Vellinho seu aprimoramento lingüístico e literário. 96 (GUTFREIND, 1992 p.37) Desenvolvendo uma leitura da obra de Moysés Vellinho, iremos perceber que o mesmo permanece centrado no conceito de gaúcho e, sugere seu uso no sentido gentílico: “não seria, pois, o caso de submeter a uma cuidadosa revisão o conceito de gaúcho como expressão do tipo social rio-grandense, posto que o ‘gaúcho’ e ‘riograndense do sul’ são hoje distinções equivalentes”. Para Moysés Vellinho o tipo tradicional, inerte dentro de seus

95 Destaca-se que Moysés Vellinho participou dos preparativos da revolução de 1930, estando muito próximo de seu grande articulador, Oswaldo Aranha. Após a vitória da revolução, seguiu para o rio de janeiro, porém retornou ao sul um ano depois. In: GUTFREIND, Ieda. A historiografia riograndense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992, p. 80. 96 GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992, p. 37.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

hábitos em desuso e de seu esplendor de lenda, esse, pouco interessa à sociologia. Assim a impressão que ele nos dá é que a imagem de gaúcho é reconstruída nesse contexto, sem considerar o gaúcho histórico, primitivo habitante do território. Ou seja, tais afirmações nos levam à hipótese de que o gaúcho fora reinventado. Ieda Gutfreind 97

segue referendando essa idéia

apresentada, dizendo que para Vellinho o gaúcho tinha que ser brasileiro, daí porque, na sua evolução histórica, ele se transfigurara, desaparecendo o que possuía de ‘dispersivo’, de ‘circunstancial’, de ‘desintegrante’, vocábulos utilizados pelo autor para destacar a emergência de um novo, um outro gaúcho. Podemos considerar que ele fora, o critico literário, o político e o historiador que funde-se numa só pessoa, apregoou abertamente uma nova maneira de pensar e de agir no Rio Grande do Sul, alardeando otimismo e a crença nas capacidades e potencialidades do estado. A principal argumentação em torno da idéia de lusitanidade do gaúcho, afastando-se de vez com a matriz platina está no fato de que: Moysés Vellinho, seguindo a vertente historiográfica já percorrida por Souza Docca e Othelo Rosa e pela grande parcela de historiadores sulinos, identificava gaúchos distintos, peculiarizando o sul-riograndense. No entanto, nesse mesmo texto, demonstrou, em seu final, que o gaúcho do Rio Grande do

97 GUTFREIND, Ieda. A historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade,1992, p. 79.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

90


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Sul e a área da campanha teriam passado por uma evolução. (...) Via esse gaúcho libertando-se de seus ‘caracteres primitivos’ acabando por absorver todos os riograndenses, quer aqueles que se identificassem com a terra por ‘filiação histórica’, quer por ‘aculturação’, ou ‘adesão afetiva’. 98 (GUTFREIND, 1992, p.98). Com isso, uma das afirmações segundo a leitura de Ieda Gutfreind na obra de Moysés Vellinho, consiste em destacar que do Rio Grande do Sul sempre foi um pedaço, desde o berço, um pedaço do Brasil, o Brasil que cresceu de si mesmo. Para ela, em relação à produção historiográfica, Vellinho fora um ideólogo eficiente na construção da identidade lusitana para o Rio Grande do Sul. Assim, temos clareza de alguns aspectos que se tornaram evidentes. O primeiro deles é que noção de identidade configura-se a partir da noção de representação. Contudo, verificamos como ocorre a representação do gaúcho idealizado que, posteriormente verificaremos como será exaltado constituindo o modelo do tradicionalista. Além disso, é evidente a representação a partir da literatura como elemento de romantização do gaúcho na consolidação de um caráter de heroicidade. O positivismo também pode ser agrupado a esses fatores que dão uma dimensão da conservação

de

um

valor

passado.

E

por

fim,

a

representação a partir dos historiadores. Esse elemento nos deixou claro a opção da criação de um modelo rio-grandense do gaúcho em contraposição do modelo platino.

98

Idem p. 98. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

91


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO TRADICIONALISTA

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

92


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO TRADICIONALISTA

Se no século XIX houve o surgimento do tipo social do gaúcho, já caracterizado através da imagem representada por Jean Baptiste Debret e reconstruído através dos discursos e narrativas dos viajantes europeus do período, agora cabe-nos verificar como ocorre a construção da identidade do tradicionalista. Porém, entendemos que esta identidade somente emergirá devido a fatores apresentados no capitulo anterior. São esses fatores que nos dão a dimensão de como ocorre o deslocamento da identidade do gaúcho histórico, para ocorrer a consolidação da identidade do tradicionalista. A identidade do tradicionalista está atrelada ao surgimento de um movimento tradicionalista. É necessário partir da idéia de que esse movimento será constituído no meio urbano, justamente no transcurso de um processo de urbanização, provocado pelo êxodo rural. No entanto o caráter saudosista na tentativa de reviver o passado nos parece

ser

a

premissa

inicial

na

constituição

desse

movimento cultural. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

93


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Porém, se analisarmos como ocorrerá a evolução histórica do Movimento Tradicionalista no Rio Grande do Sul, iremos perceber distintos momentos. A verificação desses

vários

fundamentos

de

momentos sua

nos

história

e

possibilita

entender

conseqüentemente

o

transcurso de sua consolidação. O marco de construção do movimento será o pós Segunda Guerra Mundial. Segundo alguns ideólogos do movimento tradicionalista, é a preocupação com agentes externos, no sentido da imposição de elementos culturais e padrões norte-americanos, é que, emerge esse movimento no Rio Grande do Sul. Com vistas em valorizar e propor um resgate das manifestações culturais produzidas no Rio Grande do Sul, segundo a perspectiva dos tradicionalistas. Entre o meio tradicionalista há alguns conceitos, que merecem ser ressaltados por sua magnitude e por seu universo

ideológico

tentativa de reviver o passado e

implantar uma cultura denominada gaúcha e tradicional. Assim o conjunto de idéias, usos, memórias, recordações e símbolos conservados pelos tempos e pelas gerações. Se a tradição representa a memória cultural de um povo, e sua funcionalidade é transmitir os valores passados, cabe-nos questionar que valores essa tradição denominada gaúcha visa reviver. Até que ponto reviver um passado impondo caráter de heroicidade, moldando uma nova identidade ao habitante do território e recriando seu significado é válido?

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

94


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Antes

mesmo

do

processo

de

constituição

do

Movimento Tradicionalista, Augusto Meyer, em artigo no Correio do Povo de 2 de junho de 1927 assim manifestouse: Tradição é desejo de claridade. Chega um momento na vida em que o homem, ante as flutuações do seu espírito, quer chegar a uma "estrada real" no meio dos mil "sendeiros" que abrem aos seus olhos cobiçosos o fascínio da aventura. A Tradição é justamente essa força que nunca admite as imposições individuais. Ela obriga à humildade, como tudo o que está acima e além do homem. Quando muito, a Tradição quer ser adivinhada em suas formas e penetrada com a inteligência. E a inteligência, nesse caso, é o amor pela terra. O qual, nem procura justificar-se. Mas procura ser, afirmando. 99 (MEYER, 1927).

Barbosa Lessa 100 (1983), em seu trabalho Caráter Cíclico do Tradicionalismo, referindo-se a tradição exalta-a dizendo ser ela um culto que se renova. Assim, podemos afirmar ser a linguagem o veículo de transmissão da tradição, sendo ela o elemento fundamental de qualquer sociedade, de qualquer povo. Entre os ideólogos que ressignificam a identidade do gaúcho, agora com molde tradicionalista, temos a figura de Glaucus Saraiva como um dos expoentes. Este, junto com Paixão Cortes e Barbosa Lessa, irá constituir o fundamento

MEYER, Augusto. O que é tradição. Jornal Correio do Povo. 1927. LESSA, Barbosa. Caráter Cíclico do Tradicionalismo. Porto Alegre: Cadernos do IGTF, 1983.

99

100

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95


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

geral e a linha de constituição do movimento. Sobre o conceito de tradição, Saraiva 101 , em uma obra intitulada Manual do Tradicionalista, no dirá que tradição é o todo que reúne em seu bojo a história política, cultural, social e demais ciências e artes nativas, que nos caracterizam e definem como região e povo. Não é o passado, fixação e psicose dos saudosistas. É o presente como fruto sazonado de sementes escolhidas. É o futuro, como árvore frondosa que seguirá dando frutos e sombra amiga às gerações do porvir. Afora a designação “Manual” 102 , visando nos moldes positivistas exercem influências sobre o que é certo e o que é errado, condicionando os tradicionalista a exercerem a aceitação, o equívoco está justamente em elencar como aspectos tradicionais apenas determinadas estruturas da sociedade rio-grandense e rejeitando a totalidade das relações provindas da história do Rio Grande do Sul. Que

elemento

cultural

o

tradicionalista

visa

construir? Como iniciará e se consolidará esse processo? Qual o valor e o sentido desse movimento? Com que princípio emergirá essa manifestação cultural? Afinal, haverá a representação e a conseqüente apropriação da identidade do gaúcho pelo tradicionalista? Certamente, essas questões nos levam a refletir a funcionalidade e a estrutura desse movimento tanto no seu aspecto histórico

101 SARAIVA, Glaucus. Manual do tradicionalista. Porto Alegre: Martins Livreiro, s.d. 102 Em relação a esse aspecto, Paixão Cortes e Barbosa Lessa lançaram o Manual das danças gaúchas, estabelecendo quais eram as danças riograndenses, suas coreografias, partituras, etc. Condicionando todas as entidades filiadas ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, seguirem esse padrão como sendo o histórico, tradicional e correto.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

96


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

quanto no seu modelo de ressignificação de uma identidade cultural. PROCESSO HISTÓRICO NA FORMAÇÃO DO MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO Os primeiros momentos, na tentativa de construção de um movimento tradicionalista iniciam no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Essa fase embrionária que vai da fundação do Grêmio Gaúcho de Porto Alegre (1898) ao Clube Farroupilha de Ijuí (1943), já destacada anteriormente, possui conotações um pouco diferente daquelas levantadas pelos tradicionalistas após a Segunda Guerra Mundial. Com isso no ano de 1947 ocorre o início desse movimento através de jovens oriundos do interior do estado do Rio Grande do Sul, agora radicados em Porto Alegre, representantes do Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos: A partir de 1947, com a criação do Departamento de Tradições Gaúchas do Grêmio Estudantil Júlio de Castilhos de Porto Alegre, o tradicionalismo passou a organizarse. O galpão chegou a cidade, com a fundação em 1948, do primeiro Centro de Tradições Gaúchas – o 35 CTG. Apesar da resistência urbana, os usos e costumes campeiros autênticos, alicerçados em suas pilchas e cantigas sem requintes e corporificados na habilidade de seus peões, foram chegando. Era o inicio de uma jornada espontânea (...) o tradicionalismo nasceu com a criação de uma consciência regional e sacramentou-se no surgimento dos Centro de Tradições Gaúchas

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

97


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

(...) Era a busca para uma cultura própria. 103 (LAMBERTY, 1996, p. 9) A idéia expressa na obra de Lamberty nos deixa claro as

razões

que

levaram

o

surgimento

do

movimento

tradicionalista. A ambivalência entre campo e cidade estaria suprida revivendo na cidade, por meio dos Centros de Tradições Gaúchas, a vida do campo. Porém, ao identificar que o tradicionalismo nasce de uma consciência regional, há indícios da ocorrência de um grande equivoco: a instituição dos moldes da região da campanha como sendo os únicos aceitáveis por esse movimento. Ou seja, outras regiões do estado, outras manifestações culturais e outros tipos constituintes de identidades, ao menos a priori, nos indicam que são esquecidas ou não cultuadas dentro do propósito tradicionalista. Sendo assim, somente o gaúcho da região da campanha o elemento predominante desse movimento. A constituição do movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul, até se constituir em movimento organizado perpassa por distintos momentos. Em 24 de abril de 1948, marca o início da trajetória histórica do tradicionalismo organizado, ocasião em que um grupo de jovens, com espírito cívico aguçado, fundou o “35 Centro de Tradições Gaúchas”, em Porto Alegre, motivando a proliferação de inúmeros

outros

núcleos

de

preservação

da

tradição

gaúcha; 1º a 4 de julho de 1954, é arregimentado a partir do 1º

Congresso

Tradicionalista,

em

Santa

Maria,

onde

aconteceu a reflexão sobre a importância do tradicionalismo, com a aprovação da tese “O Sentido e o Valor do Tradicionalismo” de Luiz Carlos Barbosa Lessa; 17 a 20 de

LAMBERTY, Salvador F. ABC do tradicionalismo gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1996. 5ªed.

103

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

98


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

dezembro de1959, é institucionalizado em Cachoeira do Sul com a criação do Conselho Coordenador, durante o VI Congresso

Tradicionalista,

bem

como

João

Cezimbra

Jacques foi escolhido Patrono do Tradicionalismo; 28 de outubro de 1966, em Tramandaí, por ocasião do XII Congresso

tradicionalista,

foi

oficialmente

criado

o

Movimento Tradicionalista Gaúcho como entidade federativa e com personalidade jurídica. Nesta mesma data, foi adotado o “Brasão de Armas do Tradicionalismo”, que constitui-se

atualmente

Tradicionalista

na

logomarca

do

Movimento

Gaúcho 104 .

Cyro Dutra Ferreira em seu livro 35 CTG: o pioneiro 105 nos diz que no fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo ocidental, encontra-se com grande influência exercida pela posição dos Estados Unidos. Tornou-se, assim, o principal centro de irradiação da moda, da cultura e as elites urbanas, principalmente os jovens, começaram a imitar o americano "way of life". Com rapidez, a juventude voltava as costas para as suas raízes culturais, e os intelectuais rio-grandenses demonstravam sua insatisfação com aquele estado de coisas, e tinham a consciência de que as pressões do modismo americano sufocava a cultura local, o Rio Grande, de resto, o mundo todo. Nesse contexto, o Brasil que estava saindo da ditadura de Getúlio Vargas, nos indica da necessidade da afirmação de uma identidade regional. Segundo Ferreira,

Disponível em http://www.mtg.org.br/historia.html. FERREIRA, Cyro Dutra. 35 CTG: o pioneiro. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1992, 111 p. 104 105

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

99


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

perdia-se o sentimento de culto às tradições; nossas raízes estavam ao esquecimento, adormecidas, reflexo da proibição de demonstrações de amor ao regional. Bandeiras e Hinos dos

estados

foram,

simbolicamente,

queimados

em

cerimônia no Rio de Janeiro e, diante de tudo isso, os gaúchos estavam acomodados àquela situação, apáticos, sem iniciativa. Outro

aspecto

muito

exaltado

por

meio

dos

tradicionalistas é justamente em relação a aqueles que constituíram os primeiros passos do movimento. Ferreira 106 nos deixa exposto que em agosto de 1947, em Porto Alegre, eclodiu forte uma proposta de esperança, onde a liberdade e o amor à terra tinha vez e lugar. Jovens estudantes, oriundos no meio rural, de todas as classes sociais, liderados por Paixão Cortes, criam um Departamento de Tradições Gaúchas no Colégio Júlio de Castilhos, com a finalidade de preservar as tradições gaúchas, mas também desenvolver e proporcionar uma revitalização da cultura riograndense, interligando-se e valorizando-a no contexto da cultura brasileira. Dentro deste espírito é que surge a Ronda Crioula 107 , estendendo-se do dia 7 ao dia 20 de setembro, as

106 FERREIRA, Cyro Dutra. 35 CTG: o pioneiro. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1992, p. 58.

Como haviam decidido, no dia 7 de setembro, à meia noite, antes de extinto o "Fogo Simbólico da Pátria", Paixão Cortes, na companhia de Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira, retirou a hoje cinqüentenária "Chama Crioula", que ardeu em um candeeiro crioulo até a meia noite do dia 20 de setembro, quando foi extinta no Teresópolis Tênis Clube, onde se realizava o primeiro Baile Gaúcho, por eles organizado. Durante a Ronda Crioula, os jovens pioneiros realizaram intervenções em programas da Rádio Farroupilha, entraram em contato com o escritor Manoelito de Ornelas, o qual noticiou os acontecimentos da Ronda pelo Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Com a Ronda, outros jovens companheiros foram se agregando às comemorações: Barbosa Lessa,

107

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

100


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

datas mais significativas para os gaúchos. Coroando assim os propósitos do positivismo quanto a exaltação cívica de datas. Entusiasmados com a idéia procuraram a Liga de Defesa Nacional, e contataram o então Major Darcy Vignolli, responsável pela organização das festividades da "Semana da Pátria". Assim, lhe expressaram o desejo do grupo de se associarem aos festejos, propondo a possibilidade de ser retirada uma centelha do "Fogo Simbólico da Pátria" para transformá-la em "Chama Crioula", como símbolo da união indissolúvel entre Rio Grande do Sul e Brasil e simbolizar o 20 de setembro na mesma magnitude de 7 de setembro. Nessa oportunidade, Paixão Cortes recebeu o convite para montar uma guarda de gaúchos pilchados em honra ao “herói” farrapo. David Canabarro, que seria transladado de Santana do Livramento para Porto Alegre. Paixão Cortes, para atender o honroso convite, reuniu um piquete de oito gaúchos bem pilchados e, no dia 5 de setembro de 1947, prestaram a homenagem a Canabarro. Esse piquete é hoje conhecido como o Grupo dos Oito, ou Piquete da Tradição. Primeira semente que seria semeada no ano seguinte, na criação do "35" CTG. Antonio João de Sá Siqueira, Fernando Machado Vieira, João Machado Vieira, Cilso Araújo Campos, Ciro Dias da Costa, Orlando Jorge Degrazzia, Cyro Dutra Ferreira

Wilmar Santana, Glaucus Saraiva, Flávio Krebs, Ivo Sanguinetti e outros tantos. Após o sucesso da Ronda, mas principalmente pela decisão tomada em manterem-se unidos para matear e prosear, o que se realizava na casa de Paixão Cortes.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

101


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

e João Carlos Paixão Cortes, seu líder. Durante o cortejo, o "Grupo dos Oito", os jovens estudantes, conduziam as bandeiras do Brasil, do Rio Grande e do Colégio Júlio de Castilhos.

Figura 15 – Fotografia do Grupo dos oito cavalarianos

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

102


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Figuras 16 e 17 – Fotografia dos jovens integrantes da Ronda Crioula no culto ás tradições do Rio Grande do Sul

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

103


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Partindo do relato apresentado e das imagens expostas

percebemos

a

forma

que

o

movimento

tradicionalista inicia sua organização. As figura 15, 16 e 17 108 fazem referência a este importante momento histórico na construção do tradicionalista. Observamos que estas imagens, agora representadas pela fotografia, que visam demonstrar o tradicionalista, diferem-se em muitos aspectos da imagem pintada por Debret no século XIX, que visava representar o gaúcho habitante da Província. Assim, essas imagens nos dão a dimensão de como ocorre a construção de uma identidade com moldes e características um tanto diferenciadas do gaúcho histórico. Talvez isso ocorra porque a noção de tradição é semelhante, mas não exatamente idêntica à idéia de continuidade. Demonstrando assim que a análise da tradição possibilita que se entenda melhor a inovação cultural. Ou seja, o tradicionalista reinventa o gaúcho. Segundo Olivem 109 , os fundadores desse movimento eram jovens vindos do interior, descendentes de pequenos proprietários rurais, ou de estancieiros em processo de descenso social. E torna-se categórico ao afirmar que seu objetivo é preservar a identidade cultural do estado ameaçada pela introdução de costumes da

novos valores, usos e

modernização. 110

108 Fotografias disponíveis em folder comemorativo aos 50 Anos da ronda Crioula – Movimento Tradicionalista Gaúcho/RS. 109 OLIVEN, Rubens George . A criação do Gaúcho. In: Ciências Sociais Hoje. São Paulo: Cortez,1984, p.57. 110 Idem. p.59.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

104


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Em outro artigo “Em busca do tempo perdido”, 111 Olivem reafirma a idéia já exposta destacando que em 1948 surgiu em Porto Alegre o 35 CTG, primeiro centro de tradições

gaúchas,

cujo

nome

evocava

a

Revolução

Farroupilha deflagrada em 1835. Fundado principalmente por estudantes secundários oriundos das áreas pastoris, onde se praticava a pecuária em grandes latifúndios, ele serviu de modelo a centenas de centros semelhantes, que se espalharam pelo Rio Grande do Sul e por outros estados. Assim, edificação desse movimento construtor de uma identidade cultural ao gaúcho está consolidado. Porém, as

linhas

que

visam

afirmar

essa

identidade

serão

verificadas ao destacar quais as razões que o mesmo se fundamenta e, por conseguinte, qual a sua valoração como expoente de uma cultura e criador de uma nova identidade tradicional.

O SENTIDO E O VALOR DO TRADICIONALISMO Constituída a idéia de um determinado culto a tradição, vamos verificar se de fato corre a apropriação da identidade do gaúcho histórico pelo tradicionalista. Para isso, é interessante verificarmos o que é este movimento tradicionalista no que se refere a sua constituição cultural.

111OLIVEN. Rubens George. Em busca do tempo perdido. Disponível em http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_15/rbcs15_03.html

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

105


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

De

acordo

os

pressupostos

do

Movimento

Tradicionalista Gaúcho, podemos definir o tradicionalismo como um estado de consciência, que busca preservar as boas coisas do passado, sem conflitar com o progresso, através do cultuar, vivenciar e preservar o patrimônio sóciocultural do povo gaúcho. É a sociedade que defende, preserva, cultua e divulga a tradição gaúcha, que congrega defensores dos costumes, dos hábitos, da cultura, dos valores do gaúcho. O tradicionalismo tem uma filosofia de atuação, tem objetivos expressos nas teses “O sentido e o valor do tradicionalismo” de Luiz Carlos Barbosa Lessa e na “Carta de Princípios” de Glaucus Saraiva. Além disso, o tradicionalismo

é

um

movimento

planificado

e

regulamentado, com uma administração decentralizada, através das Regiões Tradicionalistas, que coordenam os pólos

sociais

e

culturais,

que

são

as

entidades

tradicionalistas, conhecidas como Centro de Tradições Gaúchas e entidades a fins filiadas ao MTG. Toda esta estrutura organizacional é administrativa, é orientada e coordenada pelo MTG, através do Conselho Diretor e Coordenadorias Regionais. Por ser uma sociedade, depende da atuação de cada tradicionalista., que é o grande soldado, o maior e imprescindível

responsável

tradição,

seja,

ou

a

pelo

gama

cultuar

e

patrimonial

divulgar

a

gaúcha.

O

tradicionalista é um “homo sapiens”, ou seja, é o ser que sabe que sabe, é o ser que está no mundo com ciência, com sabedoria, dotado de inteligência, é um ser pensante e eminentemente social. 112

112

Disponível em: http:// www.mtg.org.br. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

106


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Com o movimento da Ronda Crioula e com a fundação

do

35

Centro

de

Tradições

Gaúchas,

o

tradicionalismo ganha suas primeiras formas. A defesa de um gaúcho lusitano contrapondo a matriz platina é um dos principais discursos da historiografia rio-grandense, como já verificamos. Então se há a aceitação de um gaúcho riograndense até tornar-se expressão gentílica e se há a construção de um movimento cultural que visa construir uma identidade regional, o que nos resta é examinarmos qual linha filosófica e sociológica que esse movimento irá trilhar. Ao

reunirem-se

tradicionalistas

irão

anualmente

criar

as

em congressos,

principais

diretrizes

os do

movimento. Porém, é no primeiro Congresso realizado em 1954 na cidade de Santa Maria, que um dos mais respeitados ideólogos do movimento irá defender de forma inusitada qual o sentido e qual o valor do Tradicionalismo. Essa importante tese defendida por Barbosa Lessa, vem representar o ideal tradicionalista na construção de uma cultura gaúcha de valorização do passado. Logo nas primeiras linhas desse texto ele fará uma defesa excepcional do por que um movimento. Na vida humana, a sociedade - mais que o indivíduo - constitui a principal força na luta pela existência. Mas, para que o grupo social funcione como unidade, é necessário que os indivíduos que o compõem possuam modos de agir e de pensar coletivamente. Isto é conseguido através da "herança social" ou da "cultura". Graças à cultura comum, os membros de uma sociedade possuem a JOSÉ AUGUSTO FIORIN

107


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um mínimo de confusão. A cultura, assim, tem por finalidade adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural, mas também ao seu lugar na sociedade. Toda a cultura inclui uma série de técnicas que ensinam ao indivíduo, desde a infância, a maneira como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma geração a outra, capacitando sempre os novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade 113 . (LESSA, 1954)

A idéia de Barbosa Lessa, na perpetuação da cultura é um

marco

interessante

na

concepção

do

movimento

tradicionalista. Com isso, nos parece que os indivíduos somente adeptos a esse movimento, que nesse contexto surge, são dotados de cultura. O fica evidente que, segundo seu discurso, a integração da vida em sociedade perpassa pela cultura. Mas nesse caso, uma cultura denominada gaúcha, tradição referendada por um culto saudosista de exaltação do passado. Além

disso,

ele

justificará

que

analisando

tais

circunstâncias, mestres da moderna Sociologia chegaram à conclusão

de

que

problemas

sociais

cruciantes

da

atualidade são causados, ou incentivados, pelo relaxamento do controle dos costumes e noções tradicionais de cada cultura 114 . Ou seja, para Barbosa Lessa, a solução para os problemas da sociedade na década de 1950, perpassava diretamente

a

necessidade

da

retomada

dos

valores

LESSA, Barbosa. O sentido e o valor do tradicionalismo. Disponível em http://www.mtg.org.br. 114 Idem. 113

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

108


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

tradicionais. Certamente a influência de uma formação e de uma sociedade positivista que o Rio Grande do Sul vivera por décadas estava presente no seu discurso. Quais

seriam

os

elementos

atrativos

do

tradicionalismo? Porque a esse movimento ocorre adesão de milhões de pessoas procurando identificar-se com uma matriz de em passado tradicional em pleno transcurso da sociedade moderna? Barbosa Lessa, ainda em 1954 irá dizer que através da atividade artística, literária, recreativa ou esportiva, que o caracteriza - sempre realçando os motivos tradicionais do Rio Grande do Sul - o Tradicionalismo procura, mais que tudo, reforçar o núcleo da cultura riograndense, tendo em vista o indivíduo que tateia sem rumo e sem apoio dentro do caos de nossa época 115 . Além disso, ele segue comentando a importância da constituição

dos

Centros

de

Tradições

Gaúchas

por

representarem o núcleo dessa apropriação. Para Lessa 116 , através dos Centros de Tradições, o Tradicionalismo procura entregar ao indivíduo uma agremiação com as mesmas características do "grupo local" que ele perdeu ou teme perder: o " pago". Mais que o seu "pago", o pago das gerações que o precederam. O que seria um Centro de Tradições Gaúchas? Que tipo de função e responsabilidade social e cultural que uma entidade como essa possui? Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo "Grupo Local". E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio

LESSA, Barbosa. O sentido e o valor do tradicionalismo. Disponível em http://www.mtg.org.br. 116 Idem. 115

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

109


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica

da

sociedade

regional.

E

com

isso

o

Tradicionalismo pode se transformar na maior força política do Rio Grande do Sul. Para evitar confusão de "política" com "política

partidária",

expressemo-nos

assim:

O

Tradicionalismo pode constituir-se na maior força a auxiliar o

Estado

na

resolução

dos

problemas

cruciais

da

coletividade 117 . Outro aspecto que torna-se importante verificar, refere-se a identidade criada a partir desse movimento. No entanto, a identidade originada é uma identidade regional, cujos indicativos de tradicionalidade estão presentes de maneira simbólica e rituais. Assim, para justificar o sentido do tradicionalismo, Barbosa Lessa define que. O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa - por enquanto - pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de "retorno ao passado". A

LESSA, Barbosa. O sentido e o valor do tradicionalismo. Disponível em http://www.mtg.org.br.

117

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

110


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

realidade é justamente o Tradicionalismo constrói futuro.(LESSA, 1954)

oposto: para

o o

Outro ponto que Barbosa Lessa ressalta está exposto no fato de que o tradicionalismo é um movimento, cuja ação ocorre

dentro

da

psicologia

coletiva

e

seu

elemento

dinamizador realiza-se por intermédio dos Centros de Tradições Gaúchas, agremiações de cunho popular que têm por fim estudar, divulgar e fazer com que o povo “viva” as tradições rio-grandenses. Perceberemos então, que segundo sua idéia, o tradicionalismo deve ser um movimento nitidamente popular, não simplesmente intelectual. Além desses importantes fundamentos, que nos oportunizam uma dimensão desse tradicionalista, está no fato de pensarmos a simbologia desse movimento. Depois de explicitado que tipo de reviver os tradicionalistas impõe à sociedade, há outro aspecto que merece ser destacado. Esse aspecto

está

ligado

à

construção

da

simbologia

e

conseqüentemente a ligação da simbologia do gaúcho com o estado do Rio Grande do Sul. É justamente nesse período que será planejada e edificada a estátua do laçador.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

111


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Essa estátua 118 , além de ser um dos símbolos de Porto Alegre,

representa

grandense

um

vestindo

rio-

roupas

tradicionais. Essa indumentária retrata

as

histórico,

vestes

do

habitante

gaúcho do

Rio

Grande do Sul, em outro período histórico.

Medindo

4,45m

de

altura, todo em bronze, o Laçador foi inaugurado no dia 20 de setembro de 1958. O responsável pelo seu projeto e execução foi o escultor Antonio Caringi. No entanto, é pertinente Figura 18 Estatura do Laçador Porto Alegre-RS

refletir sobre essa obra e sobre seu momento de inauguração. Caringi adota

Paixão

Cortês

como

o

modelo da obra. Este, que por sua vez, é um dos ideólogos do Movimento Tradicionalista, precursor do movimento de 1947. Inaugurada em 1958, a Estátua dá uma dimensão maior a representação da identidade do rio-grandense. Em um primeiro instante, localizada próxima ao Aeroporto Salgado Filho, ela representa de forma clara, que o habitante do Rio Grande do Sul é o gaúcho. Sobreposta a idéia do rio-grandense, com esse elemento simbólico,

Fotografia disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1tua_do_La%C3%A7ador.

118

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

112


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

percebemos então, como ocorre a afirmação da identidade de um gaúcho vestindo botas e bombachas como o habitante característico do estado. Porém, o que se fortalece é a construção da identidade do tradicionalista, que através dessa simbologia, recria sua imagem e adere simpatizantes. A CARTA DE PRINCÍPIOS: MATRIZ DO MOVIMENTO TRADICIONALISTA No transcurso da história do tradicionalismo no Rio Grande do Sul, percebemos a influência de vários momento específicos. Até então, verificamos como ele se constitui historicamente, que tipo de influência ele exerce e quais os fundamentos que o norteiam. A tese do sentido e da expressão do valor desse segmento tradicional, é retomada em muitos pontos, quando que, por meio da tentativa de desenvolver

um

movimento

organizado,

desenvolve-se

princípios que devam nortear as ações de todos os tradicionalistas. Essa carta, que como o próprio nome ressalta, está expresso o sentido desse movimento de caráter tradicional, é a representação dos ideais dos tradicionalistas. Escrita por Glaucus

Saraiva,

considerado

pelos

tradicionalistas,

extremamente inteligente e com a mente de certa forma avançada para a época, se sensibilizou e, por ser muito reservado, fez de forma solitária um documento que, depois de concluído, foi apresentado como sugestão a ser seguido pelos tradicionalistas. Ela fora aprovada em 1961, e a partir deste momento ela se institucionaliza como sendo uma lei a ser cumprida pelas entidades e pelos tradicionalistas.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

113


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

As razões para seu surgimento, com forma de regular as ações dos tradicionalistas, está expresso dentro da perspectiva de que seus efeitos foram para nortear um rumo a ser seguido, pois na época o que prevalecia eram as contradições, onde cada CTG procurava inclinar-se para seu lado, fazendo com que não existisse unanimidade. Uma entidade tradicionalista pode ser descrita como uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros engendram códigos e comportamentos originais 119 . É importante ressaltar que entre seus aspectos filosóficos,

a

Carta

de

Princípios

do

Movimento

Tradicionalista Gaúcho busca fundamentar as razões da ação do movimento tradicionalista.

Entre vários artigos

ressaltamos os seguintes, para uma noção clara do que os tradicionalistas pretendem exaltar enquanto movimento cultural.

Art. 5º- Criar barreiras aos fatores e idéias, que nos vêm pelos veículos normais de propaganda e que sejam diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais do nosso povo.(...) Art. 7ºFazer de cada CTG um núcleo transmissor da herança social e através de reações emocionais etc.; criar, em nossos grupos sociais uma unidade psicológica, com modos

119 ELIAS, Norbert. A Sociedade de Corte. Trad. por Pedro Sussekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p 8.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

114


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

de agir e pensar coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns. (...) Art. 9º - Lutar pelos direitos humanos de liberdade, igualdade e humanidade. (...) Art. 10- Respeitar e fazer respeitar seus postulados iniciais, que têm como característica essencial absoluta independência de sectarismo político, religioso e racial. (...)Art. 18- Incentivar, todas formas de divulgação e propaganda, o uso sadio dos autênticos motivos regionais. (...)Art. 25- Pugnar pela independência psicológica e ideológica do nosso povo. 120 (SARAIVA, 2007)

Com isso, aos poucos os tradicionalistas foram aceitando-a e começaram a perceber que ela só ajudaria o movimento a crescer e que seu objetivo não era obrigar e sim orientar dentro de seu caráter doutrinador. Ou seja, estabelecer quais são os vínculos e as verdades que o movimento deveria seguir. Hoje, essa carta integra o Regulamento do Estatuto do MTG e é a primeira diretriz aprovada no tradicionalismo. Porém, continua sendo de conhecimento restrito dentro do movimento, tendo este prospecto sofrido sensíveis alterações nos

últimos

anos,

devido

a

importância

dada

pelo

Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Segundo Paixão Cortes, a Carta de Princípios do Tradicionalismo é resultado de um momento de inspiração e

SARAIVA, Galucus. Carta de Princípios do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Disponível em http://www.mtg.org.br.

120

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

115


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

qualquer modificação no seu conteúdo, seria destruir seu valor, como símbolo já aceitos a longos anos. É válida ainda hoje, a preocupação é viável a sua implantação no seio Tradicionalista. 121 Além da função doutrinadora expressa na carta de princípios, o Movimento Tradicionalista Gaúcho se regula através de um código de ética. Averiguar a importância e o significado desse instrumento também é importante, na tentativa de definir uma identidade ao tradicionalista. Porém o que percebemos é que há a tentativa de constituir uma identidade ao tradicionalista. No entanto, os métodos para que esse padrão identitário seja constituído perpassa pelo viés da doutrinação da Carta de Princípios. Segundo Cuche, a identidade cultural aparece como uma modalidade de categorização da distinção nós/eles, baseada na diferença cultural... Não há uma identidade em si, nem mesmo unicamente para si. A identidade existe sempre em relação a uma outra. Ou seja, identidade e alteridade são ligadas e

estão em

relação

dialética.

A

identificação

acompanha a diferenciação. Ainda afirma, que são os próprios

membros

de

um

grupo

que

atribuem

uma

significação a sua vinculação, em função da situação relacional

em

que

se

encontram. 122

Dessa

forma,

percebemos como se constitui, ao menos em parte, a identidade do tradicionalista.

CORTES, Paixão, Tradicionalismo gauchesco: nascer, causas & momentos. Caxias do Sul: Lorigraf 1995, p. 110 122 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas Ciências Sociais. Bauru:EDUSC, 1999, p. 183. 121

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

116


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Em

seu

Tradicionalista,

artigo que

se

terceiro,

o

constitui-se

Código num

de

Ética

regramento

orientador da conduta social dos tradicionalistas, deixa claro a idéia de que o tradicionalista prima pela observância de postura compatível com os princípios da dignidade, urbanidade, sociabilidade e moralidade, aplicando-se para sua observância, subsidiariamente, as diretrizes esculpidas no Estatuto e Regulamentos do Movimento Tradicionalista Gaúcho. 123 Além disso, expressa-se em relação aos deveres dos tradicionalista. No capitulo III, artigo quarto, ele ressalta:

Art. 4º. - São deveres dos Tradicionalistas: I observar e fazer observar a Carta de Princípios do Movimento Tradicionalista Gaúcho; II - cumprir e fazer cumprir o Estatuto, o Regulamento e demais regramentos existentes ou que venham a ser instituído; III - preservar, em sua conduta social, a honra, a nobreza, a dignidade, a retidão de caráter, próprias aos cidadãos conscientes das suas obrigações; IV - zelar e velar pela reputação pessoal e da sua condição de tradicionalista; V - primar pelo decoro, lealdade e boa-fé, quer no meio tradicionalista, quer no âmbito da sociedade; VI - zelar pelo bom nome do Movimento Tradicionalista Gaúcho; VII - desempenhar com honestidade, dedicação e isenção os cargos a que for guindado nas entidades filiadas, em comissões temporárias e/ou órgãos do Movimento Tradicionalista Gaúcho; VIII - não se valer da causa tradicionalista para promoção pessoal, em detrimento dos

123 Código de Ética http://www.mtg.org.br/etica.doc.

Tradicionalista:

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

disponível

em

117


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

princípios orientadores do tradicionalismo; IX - defender, valorizar e promover a tradição gaúcha. 124

Assim, há a notoridade do Movimento Tradicionalista no Rio Grande do Sul. Através de um rígido controle na manifestação

cultural,

o

que

pareceu

claro

é

uma

determinada imposição daquilo que é certo e errado. Ou seja,

através

tradicionalistas, regras.

Esse

de

elementos

são

de

obrigados

elemento

de

a

seleção seguir

normatização

cultural,

os

determinadas da

cultura,

expressa-se devido ao alto teor saudosista que o movimento se constitui. Um aspecto, que deve-se deixar explicito, diz respeito a importante função social que o Movimento Tradicionalista possui na atual conjuntura social. Porém, a problemática maior está inserida dentro de um contexto histórico alterado pelos ideais tradicionalista. A ressignificação de um passado histórico, dando caráter de heroicidade aos habitantes do território, enaltecer somente os elementos culturais da região da campanha do Rio Grande do Sul, são alguns aspectos que merecem uma reflexão amplificada em relação a esse movimento cultural.

124

Idem. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

118


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

CONCLUSÃO

Nessa pesquisa partimos da premissa em investigar se

ocorre

na

prática,

através

de

um

movimento,

a

apropriação de identidade do gaúcho do século XIX pelo tradicionalista do século XX. Com isso, verificamos vários pontos

específicos

antropológico

de

quanto

caráter a

histórico,

constituição

ou

sociológico não

e

dessa

identidade. Vários pressupostos foram ressaltados e vários paradigmas trazidos com a finalidade de compreensão da magnitude e do significado cultural que o movimento tradicionalista possui na sociedade atual. No entanto, pensar

os

elementos

culturais

revividos

pelos

tradicionalistas, com base nas condições históricas dos habitantes do Rio Grande do Sul tornou-se algo instigador e desafiador. A importância da cultura no conjunto das relações sociais entre os sujeitos constituintes dessa sociedade apresenta-se de forma amplificada. Tal aspecto vem ao encontro de um fenômeno mais amplo, caracterizado por JOSÉ AUGUSTO FIORIN

119


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

uma ordem global através dos ditames impostos pela globalização. No entanto, quando as fronteiras são rompidas culturalmente, quando há a ineficácia e a conseqüente desconstrução da concepção estado-nação, o conceito de nacionalismo entra em crise e na mesma proporcionalidade o conceito de tradição. Assim, buscar construir uma identidade

tradicional

em

pleno

contexto

de

uma

modernidade tardia ou pós-modernidade, como alguns se arriscam a teorizar, é algo que vem à contramão da lógica impregnada pela “mundialização da cultura”. Se o caráter histórico do gaúcho é reconstituído em outra sociedade, em outra época e em outro contexto, é porque

percebemos

que

houve

em

um

determinado

momento histórico, a necessidade da criação de uma identidade

regional.

O

mito

desse

gaúcho

histórico,

caudilho, aguerrido, defensor do território, dotado de honrarias,

perpetua

no

imaginário

rio-grandense.

No

entanto, o tradicionalista busca espelhar-se nos conflitos travados no território para constituir um dos pressupostos justificativos da sua cultura. Com isso, há a presença notória do sentido heróico com uma determinada projeção às gerações mais jovens de tradicionalistas. Para assim, o movimento aderir cada vez mais sujeitos e garantir sua vitalidade. Porém, no Rio Grande do Sul, percebemos que há uma forte influência daqueles que buscam exaltar o passado. Dentro de uma esfera global, o sentido tradicional entra em decadência. Esse conflito gera um determinado mal-estar até mesmo aos grupos tradicionais. Isso ocorre porque o Movimento Tradicionalista Gaúcho, através de sua doutrina impõe um controle rigoroso determinando que JOSÉ AUGUSTO FIORIN

120


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

elementos culturais do passado o tradicionalista deve aderir. Porém, nesse contexto de globalização, onde a influência de outras culturas são percebidas, sentidas e vivenciadas de forma expressiva, nos parece que o tradicionalismo cada vez mais renova seus mecanismos de controle, para impor e determinar o que deve ser cultuado, impossibilitando novas manifestações culturais que não vêm seguir os seus pressupostos ideológicos. Refletir acerca da história cultural e dos estudos culturais sobre a cultura e a identidade gaúcha, consolidouse como uma via interessante. Com base nos relatos e imagens de quem passou pelo Rio Grande do Sul durante o século XIX, podemos perceber e notar como caracterizava-se o tipo social do gaúcho. É nítida sua influência com o tipo social platino, porém o interessante é perceber como no século XX, o tradicionalista se apropria da identidade de um século anterior dando um caráter e uma significação diferente da histórica. Contudo,

através

dessa

pesquisa,

conseguiu-se

responder a hipótese levantada. De fato, há a apropriação da identidade do gaúcho pelo tradicionalista. Apropriação essa, que constitui um novo modelo de homem, totalmente diferenciado daquele histórico. Essa imagem é construída com significados distintos do significado histórico do gaúcho. Isso ocorre porque o Movimento Tradicionalista Gaúcho se edifica como um dos maiores segmentos culturais e tradicionais do planeta. Porém com um caráter saudosista, doutrinário e conservador.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

121


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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124


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN

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DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN

126


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN

127


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

______. Revista Província de São Pedro. Editorial nº 20. Porto Alegre: s.d. ______. Revista Província de São Pedro. Editorial nº 5. Porto Alegre: 1945.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

128


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ANEXO I

CARTA DE PRINCÍPIOS DO MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO A "Carta de Princípios" atualmente em vigor foi aprovada no VIII Congresso Tradicionalista, levado a efeito no período de 20 a 23 de julho de 1961, no CTG "O Fogão Gaúcho" em Taquara, e fixa os seguintes objetivos do Movimento Tradicionalista Gaúcho: I - Auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo. II - Cultuar e difundir nossa História, nossa formação social, nosso folclore, enfim, nossa Tradição, como substância basilar da nacionalidade. III - Promover, no meio do nosso povo, uma retomada de consciência dos valores morais do gaúcho. IV - Facilitar e cooperar com a evolução e o progresso,

buscando

consciência

do

a

harmonia

valor

coletivo,

social,

criando

combatendo

a o

enfraquecimento da cultura comum e a desagregação que daí resulta. V - Criar barreiras aos fatores e idéias que nos vem pelos

veículos

normais

de

propaganda

e

que

sejam

diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais do nosso povo. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

129


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

VI

-

Preservar

o

nosso

patrimônio

sociológico

representado, principalmente, pelo linguajar, vestimenta, arte culinária, forma de lides e artes populares. VII - Fazer de cada CTG um núcleo transmissor da herança social e através da prática e divulgação dos hábitos locais,

noção

de

valores,

príncipios

morais,

reações

emocionais, etc.; criar em nossos grupos sociais uma unidade

psicológica,

com

modos

de

agir

e

pensar

coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns. VIII - Estimular e incentivar o processo aculturativo do elemento imigrante e seus descendentes. IX - Lutar pelos direitos humanos de Liberdade, Igualdade e Humanidade. X - Respeitar e fazer respeitar seus postulados iniciais, que têm como característica essencial a absoluta independência de sectarismos político, religioso e racial. XI - Acatar e respeitar as leis e poderes públicos legalmente constituídos, enquanto se mantiverem dentro dos princípios do regime democrático vigente. XII

-

Evitar

todas

as

formas

de

vaidade

e

personalismo que buscam no Movimento Tradicionalista veículo para projeção em proveito próprio. XIII - Evitar toda e qualquer manifestação em proveito próprio. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

130


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

XIV - Evitar atitudes pessoais ou coletivas que deslustrem e venham em detrimento dos princípios da formação moral do gaúcho. XV - Evitar que núcleos tradicionalistas adotem nomes de pessoas vivas. XVI - Repudiar todas as manifestações e formas negativas de exploração direta ou indireta do Movimento Tradicionalista. XVII - Prestigiar e estimular quaisquer iniciativas que, sincera e honestamente, queiram perseguir objetivos correlatos com os do tradicionalismo. XVIII - Incentivar, em todas as formas de divulgação e propaganda, o uso sadio dos autênticos motivos regionais. XIX - Influir na literatura, artes clássicas e populares e outras formas de expressão espiritual de nossa gente, no sentido de que se voltem para os temas nativistas. XX - Zelar pela pureza e fidelidade dos nossos costumes autênticos, combatendo todas as manifestações individuais

ou

coletivas,

que

artificializem

ou

descaracterizem as nossas coisas tradicionais. XXI - Estimular e amparar as células que fazem parte de seu organismo social. XXII - Procurar penetrar a atuar nas instituições públicas e privadas, principalmente nos colégios e no seio JOSÉ AUGUSTO FIORIN

131


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

do

povo,

buscando

conquistar

para

o

Movimento

Tradicionalista Gaúcho a boa vontade e a participação dos representantes de todas as classes e profissões dignas. XXIII - Comemorar e respeitar as datas, efemérides e vultos nacionais e, particularmente o dia 20 de setembro, como data máxima do Rio Grande do Sul. XXIV - Lutar para que seja instituído, oficialmente, o Dia do Gaúcho, em paridade de condições com o Dia do Colono e outros "Dias" respeitados publicamente. XXV - Pugnar pela independência psicológica e ideológica do nosso povo. XXVI - Revalidar e reafirmar os valores fundamentais da nossa formação, apontando às novas gerações rumos definidos de cultura, civismo e nacionalidade. XXVII - Procurar o despertamento da consciência para o espírito cívico de unidade e amor à Pátria. XXVIII

-

Pugnar

pela

fraternidade

e

maior

aproximação dos povos americanos. XXIX - Buscar, finalmente, a conquista de um estágio de força social que lhe dê ressonância nos Poderes Públicos e nas Classes Rio-Grandenses para atuar real, poderosa e eficientemente, no levantamento dos padrões de moral e de vida do nosso Estado, rumando, fortalecido, para o campo e homem rural, suas raízes primordiais, cumprindo, assim, sua alta distinação histórica em nossa Pátria.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

132


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

ANEXO II

TESE O SENTIDO E O VALOR DO TRADICIONALISMO BARBOSA LESSA

Na vida humana, a sociedade - mais que o indivíduo - constitui a principal força na luta pela existência. Mas, para que o grupo social funcione como unidade, é necessário que os indivíduos que o compõem possuam modos de agir e de pensar coletivamente. Isto é conseguido através da "herança social" ou da "cultura". Graças à cultura comum, os membros de uma sociedade possuem a unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um mínimo de confusão. A cultura, assim, tem por finalidade adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural, mas também ao seu lugar na sociedade. Toda a cultura inclui uma série de técnicas que ensinam ao indivíduo, desde a infância, a maneira como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma geração a outra, capacitando sempre os novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade.

I - A DESINTEGRAÇÃO DE NOSSA SOCIEDADE A cultura e a sociedade ocidental estão sofrendo um assustador processo de desintegração. Incluídas nesse JOSÉ AUGUSTO FIORIN

133


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

panorama geral, a cultura e a sociedade de quaisquer dos povos ocidentais, necessariamente, apresentam, com maior ou menor intensidade, idêntica dissolução. É nos grandes centros urbanos que esse fenômeno se desenha mais nítido, através

das

estatísticas

sempre

crescentes

de

crime,

divórcio, suicídio, adultério, delinqüência juvenil e outros índices de desintegração social. Analisando

tais

circunstâncias,

mestres

da

moderna Sociologia chegaram à conclusão de que problemas sociais

cruciantes

da

atualidade

são

causados,

ou

incentivados, pelo relaxamento do controle dos costumes e noções tradicionais de cada cultura.

II - OS DOIS FATORES DE DESINTEGRAÇÃO Sociólogos de renome afirmam que a desintegração social, característica de nossa época, é devida a dois fatores: Primeiro: o enfraquecimento das culturas locais. Segundo: o desaparecimento gradativo dos "Grupos Locais" comunidades transmissoras de cultura. Analisemos, então, esses dois fatores.

a)

O

ENFRAQUECIMENTO

DO

NÚCLEO

CULTURAL

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

134


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

A cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes. Há um núcleo sólido, de certa forma estável, constituído pelo PATRIMÔNIO TRADICIONAL. Nesse núcleo se concentram aqueles inúmeros hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhados por TODOS os membros de determinada sociedade (como a linguagem,

a

indumentária

típica,

os

princípios

fundamentais de moral, etc. ou ainda, por TODOS os membros de certas categorias de indivíduos, dentro da sociedade (como as ocupações reservadas só às mulheres ou só aos homens, as reações emocionais típicas de todos os velhos ou de todas as crianças, bem como os conhecimentos técnicos

reservados

aos

ferreiros,

aos

médicos,

aos

agricultores, etc.). Tais elementos culturais contribuem para o bem-estar da coletividade, pois o indivíduo fica sabendo como comportar-se em grupo, e qual o comportamento que pode esperar dos outros("expectativas de comportamento"). Em suma: o cerne cultural dá, aos indivíduos, a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade. Mas, cercando o núcleo, existe uma zona fluída e instável, constituída por elementos culturais chamados, em sociologia, Alternativas, e que são traços partilhados apenas por ALGUNS indivíduos, representando diferentes reações às mesmas situações, ou diferentes técnicas para alcançar os mesmos fins. (Certa pessoa viaja a cavalo, fazendo o mesmo percurso que outra prefere realizar em carroça; certa pessoa sente-se tremendamente ofendida se alguém faz "crítica" a um defeito físico seu, enquanto outra se comporta resignadamente face a tais críticas; etc.) É esta zona de Alternativas que permite à cultura crescer e acomodar-se aos avanços de uma civilização. JOSÉ AUGUSTO FIORIN

135


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Evidentemente, quanto maior for o entrechoque

com

culturas diversas, maior será a possibilidade de adoção de novas Alternativas, por parte

dos membros de

uma

sociedade. Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer: se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade só tem a lucrar com o referido contato, pois sabe analisar, escolher e integrar em seio aqueles traços culturais novos que, dentre muitos, realmente sejam benéficos à coletividade; se , porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável: idéias e

hábitos

incoerentes

sufocam

o

núcleo

cultural,

desnorteando os indivíduos, e fazendo-os titubear entre as crença e valores mais antagônicos. Quem mais sofre com essa confusão social - acentua o sociólogo Donal Pierson são as crianças e os adolescentes, os responsáveis pela sociedade do porvir. Crescendo nessas circunstâncias, a criança não sabe como agir, não é capaz de assumir, em seu espírito, qualquer expectativa clara de comportamento. E assim se originam, entre outros, os problemas da delinqüência juvenil, resultados de uma desintegração social. Pois bem. Devido ao surto surpreendente do maquinismo em nossos dias, bem como da facilidade de intercâmbio cultural entre os mais diversos povos, observase que o núcleo das culturas locais ou regionais vai se reduzindo gradativamente, a ponto de se ver sufocado pela zona das Alternativas. E a fluidez naturalmente se acentua, à medida que as sociedades mantêm novos contatos com

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

136


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

traços culturais diferentes ou antagônicos, introduzidos por viajantes ou imigrantes, ou difundidos por livros, imprensa, cinema, etc. Nossa civilização, antes alicerçada num núcleo sólido e coerente, transformou-se numa variedades de Alternativas, entre as quais o indivíduo tem que escolher.. Sem ampla comunidade de hábitos e de idéias, porém, os indivíduos não reagem com unidade a certos estímulos, nem podem cooperar eficientemente. Daí os conflitos de ordem moral que afligem o indivíduo, fazendo atarantar-se sem saber

quais

as

opiniões

e

os

valores

que

merecem

acatamento. Essa

insegurança

reflete-se

imediatamente

na

sociedade como um todo e, consequentemente no Estado, pois, conforme ensina Ralph Linton "embora os problemas de organizar e governar Estados nunca tenham sido perfeitamente resolvidos, uma coisa parece certa: se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente; mas se isso não se verificar, nenhuma elaboração e padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos".

b)

O

DESAPARECIMENTO

DOS

"GRUPOS

LOCAIS" As duas unidades mais sociais mais importantes, como transmissoras de cultura, são a "família" e o "grupo local". Através dessas duas unidades, o indivíduo recebe, com maior intensidade, a sua "herança social".

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

137


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

São

exemplos

de

"grupo

local",

em

nossa

sociedade, o "vizindário" ou "pago" das populações rurais, bem como as pequenas vilas do interior, ou ainda (um exemplo do passado) os bairros com vida própria das cidades de há alguns anos atrás. Por "grupo local" entende-se o agregado de famílias e de indivíduos avulsos que vivem juntos em certa área, compartilhando hábitos e noções comuns. Embora não tenha organização formal (como o distrito ou o município), o "grupo local" é a unidade social autêntica. O "pago", por exemplo, influencia a vida dos seus membros, estabelece limites à vida social (quais as famílias que podem ser convidadas para as festas) , mantém elevado grau de cooperação entre os indivíduos, pois todos devem se auxiliar (antigos trabalhos de puxirão) e cada qual tem consciência desse dever de auxílio mútuo. O Indivíduo conhece perfeitamente os costumes e os princípios morais instituídos pelo seu "pago"; além disso, há um conhecimento íntimo entre os membros de um mesmo "pago" (conhecemse até os animais objetos pertencentes aos vizinhos). Todas essas circunstâncias influem para que o "grupo local" se constitua numa potente barragem para as transgressões à ordem pública ou à moral (furto, sedução, adultério, etc.). Ademais, embora não tenha um meio de reação formal(como a polícia), o "grupo local encerra grande força punitiva, através de medidas como a perda de prestígio, o ridículo, o ostracismo. Certamente já depreendemos, então, a grande importância de que se reveste o "grupo local" para assegurar a normalidade da vida comum, segundo os padrões culturais instituídos pelo grupo.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

138


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Acresce notar o seguinte: o integrar-se a um "grupo local" constitui verdadeira NECESSIDADE PSICOLÓGICA para o indivíduo normal. Este precisa de uma unidade social coesa, maior que a família, dentro da qual sinta que outros indivíduos são seus amigos, que compartilham suas idéias e hábitos. Tanto é verdade que o indivíduo se sente inseguro quando se vê só entre estranhos. Pois bem. O enfraquecimento da vida grupal conforme acentuou Ralph Linton - é outra característica de nossa

época.

As

unidades

sociais

pequenas

estão

gradativamente desaparecendo, e cedendo lugar às massas de indivíduos. Nas zonas rurais, os "grupos locais" ainda conservam um pouco de sua função como portadores de cultura; mas, em geral - devido ao afluxo de Alternativas os

jovens

discordam

dos

padrões

culturais

antigos;

acontece, porém, que a sociedade mais ampla - com a qual o jovem entra em contato por meio da imprensa, do rádio e cinema - ainda não têm padrões coerentes de vida para oferecer-lhes. Daí a insegurança que começa a notar-se em nossa sociedade rural. Se nas zonas rurais se percebe apenas uma insegurança incipiente, apenas o relaxamento das forças do "grupo local" , o que se percebe nas cidades é a desintegração total dessas forças. A mudança de padrões culturais, em nossos dias, tem sido tão rápida que, em geral, o adulto de hoje teve sua infância condicionada à vida segundo as bases do "grupo local". Ensinaram-lhe a esperar dos seus vizinhos encorajamento e apoio moral; e quando esses vizinhos se afastam, o indivíduo se sente perdido. Ele escolhe entre muitas Alternativas, mas não dispõe de meios

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

139


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

para estabelecer contato com outros que tenham feito, escolha semelhante. Sem o apoio de um grupo que pense do mesmo modo, é - lhe impossível sentir-se seguro a respeito de qualquer assunto. E assim o indivíduo torna-se presa fácil de qualquer propaganda insistente, (quer seja a má propaganda, quer seja a boa propaganda). Por isso, Ralph Linton escreveu "A cidade moderna, com sua multiplicidade de organizações de toda a espécie, dá a imagem de uma massa de indivíduos que perderam seus "grupos locais" e estão tentando, de maneira tateante, substituí-los por alguma outra coisa. De todos os lados surgem novos tipos de agrupamentos, mas até agora nada foi encontrado, que pareça capaz de assumir as principais funções do "grupo local". Ser membro do Rotary Club, por exemplo, não substitui adequadamente a posse de vizinhos e amigos tal como se verifica nos grupos locais".

O

MOVIMENTO

TRADICIONALISTA

RIO

-

GRANDENSE O movimento tradicionalista rio-grandense - que vem se desenvolvendo desde 1947, com características especialíssimas - visa precisamente combater os dois reconhecidos fatores de desintegração social. O fundamento científico

deste

movimento

encontra-se

na

seguinte

afirmação sociológica: "Qualquer sociedade poderá evitar a dissolução enquanto for capaz de manter a integridade de seu

núcleo

produzem

cultural.

conflitos

Desajustamentos,

entre

indivíduos

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

nesse

que

núcleo,

compõem

a 140


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

sociedade, pois esses vêm a preferir valores diferentes, resultando, então, a perda da unidade psicológica essencial ao funcionamento eficiente de qualquer sociedade". Através da atividade artística, literária, recreativa ou esportiva, que o caracteriza - sempre realçando os motivos

tradicionais

do

Rio

Grande

do

Sul

-

o

Tradicionalismo procura, mais que tudo, reforçar o núcleo da cultura rio-grandense, tendo em vista o indivíduo que tateia sem rumo e sem apoio dentro do caos de nossa época. E,

através

Tradicionalismo

dos

procura

Centros entregar

de ao

Tradições, indivíduo

o

uma

agremiação com as mesmas características do "grupo local" que ele perdeu ou teme perder: o " pago". Mais que o seu "pago", o pago das gerações que o precederam. Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo "Grupo Local". E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica da sociedade regional. E com isso o Tradicionalismo pode se transformar na maior força política do Rio Grande do Sul. Para evitar confusão de "política" com "política partidária", expressemonos assim: O Tradicionalismo pode constituir-se na maior força a auxiliar o Estado na resolução dos problemas cruciais da coletividade. Para compreendermos tal afirmativa, basta repetir a transcrição já feita: "Se os cidadãos tiverem interesses e

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

141


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

culturas comuns, com vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente. Mas, se isso não se verificar, nenhuma elaboração de padrões formais de governo, nenhuma

multiplicação

de

lei,

produzirá

um

Estado

eficiente ou cidadãos satisfeitos.

O SENTIDO DO TRADICIONALISMO O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa - por enquanto - pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando

o

Tradicionalismo passado".

A

erro

daqueles

que

uma

tentativa

estéril

realidade

é

acreditam

justamente

de o

ser

"retorno oposto:

o ao o

Tradicionalismo constrói para o futuro. Feitas estas considerações preliminares, podemos tentar um conceito do movimento tradicionalista. E então diremos: "Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura:

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

142


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

graças ao que a sociedade adquire maior tranqüilidade na vida comum".

CARACTERÍSTICAS DO TRADICIONALISMO Mais do que uma teoria, o Tradicionalismo é um movimento. Age dentro da psicologia coletiva. Sua dinâmica realiza-se por intermédio dos Centros de Tradições Gaúchas, agremiações de cunho popular que têm por fim estudar, divulgar e fazer com que o povo "viva" as tradições riograndenses. O

Tradicionalismo

deve

ser

um

movimento

nitidamente POPULAR, não simplesmente intelectual. É verdade

que

o

tradicionalismo

continuará

sendo

compreendido, em sua finalidade última, apenas por uma minoria intelectual. Mas, para vencer, é fundamental que seja sentido e desenvolvido no seio das camadas populares, isto é, nas canchas de carreiras, nos auditórios de radioemissoras, nos festivais e bailes populares, na "Festas do Divino" e de "Navegantes", etc. Para alcançar seus fins, o Tradicionalismo serve-se do Folclore, da Sociologia, da Arte, da Literatura, do Esporte,

da

Recreação,

etc.

Tradicionalismo

não

se

confunde, pois, com Folclore, Literatura, Teatro, etc. Tudo isso constitui MEIOS para que o Tradicionalismo alcance seus fins. Não se deve confundir o Tradicionalismo, que é um movimento,, com o Folclore, a História, a Sociologia, etc., que são ciências. Não se deve confundir o folclorista, por exemplo, com o tradicionalista: aquele é o estudioso de uma ciência, este é o soldado de um movimento. Os JOSÉ AUGUSTO FIORIN

143


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

Tradicionalistas não precisam tratar cientificamente o folclore; estarão agindo eficientemente se servirem dos estudos dos folcloristas, como base de ação, e assim reafirmarem as vivências folclóricas no próprio seio do povo.

AS

DUAS

GRANDES

QUESTÕES

DO

TRADICIONALISMO Existem duas questões importantíssimas, que de maneira

nenhuma

tradicionalistas,

podem

sob

pena

ser deste

descuidadas esforço

pelos

cultural

se

desenhar, de antemão, como uma experiência fracassada.

a) ATENÇÃO ESPECIAL ÀS NOVAS GERAÇÕES Deve, o Tradicionalismo, operar com intensidade no setor infantil ou educacional, para que o movimento tradicionalista não desapareça com a nossa geração. Porque nós - os tradicionalistas de primeira arrancada - entramos para os Centros de Tradições Gaúchas movidos pela necessidade psicológica de encontrar o "grupo local" que havíamos perdido ou que temíamos perder. Mas as gerações novas não chegaram a conhecer o grupo local como unidade social autêntica, e somente seguirão nossos passos por força de impulsos que a educação lhes ministrar. Por isso não temo afirmar que o dia mais glorioso para o movimento tradicionalista será aquele em que a classe de Professores Primários do Rio Grande do Sul consciente do sentido profundo desse gesto, e não por JOSÉ AUGUSTO FIORIN

144


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

simples atitude de simpatia - oferecer seu decisivo apoio a esta campanha cultural. Aliás, não se concebe que as Escolas Primárias continuem

por

mais

tempo

apartadas

do

movimento

tradicionalista. Pois a maneira mais segura de garantir à criança o seu ajustamento à sociedade é precisamente fazer com que ela receba, de modo intensivo, aquela massa de hábitos, valores, associações e reações emocionais - o patrimônio tradicional, em suma - imprescindíveis para que o indivíduo se integre eficientemente na cultura comum.

b) ASSISTÊNCIA AO HOMEM DO CAMPO A idéia nuclear das Tradições Gaúchas é a figura do campeiro das nossas estâncias. Por isso, é sumamente necessário

que

o

Tradicionalismo

ampare

social

e

moralmente o homem do campo, para que um dia não se chegue à situação paradoxal de manter-se uma Tradição de fantasia, em que se tecessem hinos de louvor ao "Monarca das Coxilhas", ao "Centauro dos Pampas", e esse gaúcho fosse um desajustado social, um pária lutando febrilmente pela própria subsistência. A nossa cultura somente poderá se

impor

sobre

as

outras

culturas,

no

entrechoque

inevitável, se for suficientemente prestigiosa. Daí a razão por que precisamos mostrar às novas gerações - bem como àqueles que, vindos de terras distantes, acorrerem à nossa querência - que as tradições gaúchas são REALMENTE belas, e que o gaúcho merece realmente a nossa admiração.

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

145


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

O

TRADICIONALISMO

COMO

FORÇA

ECONÔMICA Prestigiando as tradições gaúchas e prestando assistência

moral

e

social

ao

homem

do

campo,

o

Tradicionalismo estará contribuindo de maneira inestimável para a solução do problema que ora sufoca a nossa vida econômica: o êxodo rural, a crise agrícola. É que, dentre as principais causas do êxodo rural, encontramos uma que foge ao âmbito dos fenômenos econômicos. Para proteger o homem do campo, e fazer com que ele permaneça no meio rural, não basta que o Estado lhe forneça meios econômicos mais seguros. Se o campesino acaso julgar que o lugar que lhe está reservado na sociedade encontra-se nas cidades, ele será um desajustado enquanto não realizar seu sonho de transferir-se para a cidade. Este fenômeno prende-se ao conceito sociológico de "status", que é a posição social de uma pessoa em relação a todas as outras com quem está em contato. Se "os outros" demonstram que certo indivíduo ocupa um "status" digno, ele fica satisfeito; mas se "os outros" demonstram o contrário, ele é, inconscientemente, levado a demonstrar habilidade, e, nesse afã, sempre deseja competir com os indivíduos que considera superiores, jamais com aqueles que considera inferiores. Assim sendo, se o campesino se considera inferior ao citadino, mais cedo ou mais tarde tentará procurar a cidade, para ali competir com quem lhe rouba a posição social. Prestigiando as tradições gaúchas, e prestando assistência

moral

Tradicionalismo

e

social

estará

ao

homem

convencendo

o

do

campo,

campesino

o da

dignidade e importância do seu "status". Estará, em suma, pondo em prática aquilo que o sanitarista Belizário Penna JOSÉ AUGUSTO FIORIN

146


DO GAÚCHO AO TRADICIONALISTA: IMAGEM, IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO

um dia salientou, mais ou menos nestes termos: "O Brasil é o país onde mais se fala em valorização. Valorização do café brasileiro, do dinheiro brasileiro, do algodão brasileiro, do boi brasileiro. Somente não se pensa na mais urgente e importante valorização: a do Homem brasileiro, a qual, por si só, estaria conduzindo a todas as outras".

JOSÉ AUGUSTO FIORIN

147

Profile for José Augusto Fiorin

gaucho  

www.professorfiorin.com.br

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