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CONFISSÕES TEOLÓGICAS Um Ministro Unitarista (Re)pensando a fé no século XXI


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CONFISSÕES TEOLÓGICAS Um Ministro Unitarista (Re)pensando a fé no século XXI

Gibson da Costa


Copyright © Gibson da Costa, 2012. Todos os direitos reservados a Gibson da Costa. É proibida a reprodução ou transmissão desta obra, ou parte dela, por qualquer meio, sem a prévia autorização do autor. Impresso no Brasil. 1ª Edição: 2012

COSTA, Gibson da Confissões Teológicas: Um Ministro Unitarista (Re)pensando a fé no século XXI / Gibson da Costa. Recife, PE: GPress, 2012. 238p.

Contatos com o autor:

REV. GIBSON DA COSTA

http://cristianismoprogressista.blogspot.com gibson@gibsondacosta.info


Este livro ĂŠ dedicado Ă queles que buscam um Cristianismo extravagantemente gracioso, radicalmente inclusivo, e inflexivelmente compassivo.


SUMÁRIO

Compromisso Cristão Brasileiro...............................13 Introdução...............................................................15 1 – Sobre Deus.........................................................19 2 - Os portais do Unitarismo e a religião liberal.......23 3 - As características do Cristianismo Liberal..........39 4 - Tomando uma outra estrada rumo ao lar..........49 5 - Quem está “no comando” mesmo?...................55 6 - Unitaristas e a liberdade de consciência...........59 7 - O conservadorismo dum autoproclamado herege.................................................................... 65 8 - As crenças unitaristas e a linguagem litúrgica.. 69 9 - A eucaristia e os sacramentos para os unitaristas................................................................73 10 - Minha resposta à morte de Osama Bin Laden..79 11 - Lex orandi, lex credendi...................................83 12 - Meu cristianismo liberal unitarista-anglicanoluterano...................................................................87 13 - Sola caritas.......................................................91


14 - Palavras verdadeiras ou falsificadas?...............95 15 - O exílio da alma..............................................103 16 - A jornada de fé dum herege contemporâneo.107 17 - Politizando a fé ou cristianizando a política?..113 18 - Minha mensagem de páscoa..........................119 19 - Deus e minha ética espiritual: divagações teológicas..............................................................125 20 - Fé e ciência: realmente diferentes?................129 21 - Por que não ensinar o criacionismo na escola?...................................................................133 22 - Deus, questões cosmológicas e uma visão otimista da realidade.............................................137 23 - Minha duplicidade identitária e o espírito do Advento.................................................................141 24 - Deus e o sofrimento humano.........................145 25 - A necessidade da ecclesia..............................149 26 - Ser cristão hoje...............................................153 27 - Theoria: Visão de Deus...................................157 28 - Interpretações literais das Escrituras.............159 29 - Sair do armário: uma resposta à provocação dum amigo desconhecido......................................163 30 - Você é “O Milagre”!........................................167


31 - Um cristão “agnóstico”?.................................171 32 - Deus: A Mais Bela Metáfora............................175 33 - Verdade E Mito: Uma Resposta À Mensagem Dum Leitor.............................................................179 34 - Deus Falou Comigo Na Avenida Boa Viagem..183 35 - Não Acredito Em Deus....................................187 36 - Uma Conversa Com Uma Leitora....................193 37 - Morte E Ressurreição......................................203 38 - Identidade Cristã: Quem É Cristão, Afinal?.....209 39 - O Que Significa “Amar A Deus”?....................217 40 - O Meu Cristianismo.........................................221 41 - Salvação, Amor E Universalismo....................231


“Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição...”*

* Tiago 1:27

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COMPROMISSO CRISTÃO BRASILEIRO1

“Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.”2

Nós, cristãos livres brasileiros, declaramos nossa intenção de fortalecer nossos laços e dar uma voz comum ao nosso movimento. Para tanto, assumimos o compromisso de nos guiarmos pelos seguintes princípios: • Encontramos nos ensinamentos atribuídos a Jesus e nos relatos a respeito de sua vida nossa porta para o caminho que nos leva a Deus, sem, contudo, deixar de reconhecer que outras pessoas podem encontrar seu caminho para Deus por meio de outras portas e que, para elas, seu caminho é tão verdadeiro quanto o nosso é para nós; • Reconhecemos e afirmamos a dignidade e o 1 Este texto foi originalmente redigido e assinado em 1° de julho de 2009, em Recife, PE, por ministros e membros de diferentes grupos cristãos. O movimento que se organizou a partir de então e com a liderança dos ministros da Congregação Unitarista de Pernambuco passou a se chamar de "Cristãos Livres Brasileiros". 2 Miqueias 6:8.

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valor de TODOS os indivíduos, convidando todas as pessoas a fazerem parte de nossa comunidade sem insistir que se tornem como nós para que sejam aceitas; • A busca por compreensão através do questionamento é, para nós, mais valiosa e graciosa do que a certeza dogmática e, por esta razão, encontramos nossos laços de união no espírito das Boas Novas de Jesus e não em afirmações ou definições dogmáticas; • Reconhecemos que a maneira como nos tratamos e a maneira como tratamos outras pessoas e a criação como um todo é a expressão mais plena do que acreditamos; • Comprometemo-nos a trabalhar pela justiça e paz entre todas as pessoas, protegendo e restaurando a integridade de toda a criação de Deus, e levando esperança àqueles que Jesus chamou de os “menores” de suas irmãs e irmãos; • Reconhecemos que seguir Jesus exige amor altruísta, resistência consciente ao mal, e renúncia de privilégios.

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INTRODUÇÃO

Este livro é uma coletânea de sermões, palestras e mensagens proferidos/escritos nos últimos cinco anos que tenho trabalhado como Ministro da Palavra e Sacramento da Congregação Unitarista de Pernambuco. Nenhum deles, com exceção desta breve introdução, foram compostos especificamente para esta publicação, portanto, poderão ser lidos independentemente, sem prejuízo para seu sentido. Preparei este volume após pedidos de vários amigos e paroquianos, que desejavam ter acesso a alguns desses textos offline (já que todos os textos aqui inclusos estão publicados em meu blog pessoal3). Agradeço a todos eles por seu apoio, e insistência! Para aqueles leitores que não me conheçam, permitam-me uma breve apresentação: Sou um ministro cristão – ligado a diferentes denominações religiosas. Iniciei meu ministério nos Estados Unidos e, desde 2007, tenho sido Ministro da Palavra e Sacramento 4 da Congregação Unitarista de Pernambuco e da Igreja Cristã Livre de Recife. Além de meu ministério eclesiástico – que é não-estipendiário (ou seja, não 3 http://cristianismoprogressista.blogspot.com 4 Um ministro responsável pelo ensino, ministração dos sacramentos e cuidados pastorais.

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recebo pagamento por ele, e por isso mesmo tenho que ter uma vida profissional fora da igreja) –, também sou professor e tradutor. Tenho diferentes interesses, incluindo: música, cinema, literatura, as artes em geral, religião e espiritualidade, educação, história, política, e muitos outros temas. Sou religiosamente não-convencional e nãoortodoxo. Três tradições moldam minha compreensão e práticas cristãs – o Unitarismo, o Anglicanismo, e o Luteranismo (o que faz com que sempre brinque, identificando-me como um Unitarista Anglo-Luterano!). Minha fé, entretanto, apesar de ser cristã, também bebe da tradição liberal judaica que me nutriu – juntamente com o Cristianismo Liberal – em minha formação como homo religiosus; sou muito grato a essa tradição, assim como também sou grato por tudo aquilo que tenho aprendido com outras tradições de fé – especialmente o Budismo e o Islã 5. Considero-me, naquilo que acredito ser essencial ao Cristianismo, um católico, i.e., um adepto daquilo que é aceito e feito em toda a Cristandade em todas as eras. Como um Ministro da Palavra e Sacramento, tenho me dedicado a proclamar aquilo que acredito ser o Evangelho de Jesus: a justiça, a misericórdia, a compaixão, e a caridade, que resumo naquele princípio que chamo de sola caritas – e que acredito ser a essência da fé cristã. 5 1 Tessalonicenses 5:21.

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Em meu ministério e em minha vida, tenho buscado honrar, à minha maneira, aquelas três tradições que moldam minha fé cristã. Meu trabalho como Ministro da Palavra e Sacramento é exercido nos contextos das comunidades de fé na qual atuo, assim como também do trabalho de capelania exercido entre estudantes universitários e cristãos não filiados a quaisquer comunidades de fé. Esse trabalho, como afirmei anteriormente, é exclusivamente nãoestipendiário, isto é, não sou pago pelos serviços que presto à minha comunidade de fé ou aos indivíduos não-filiados que busquem serviços pastorais. Os serviços pastorais prestados a cristãos não filiados à minha comunidade de fé, o que inclui aqueles indivíduos ou grupos a quem presto serviços de capelania, incluem rituais/sacramentos cristãos tradicionais, além de instrução religiosa. Não há nenhuma exclusão para os que buscam tais serviços, no tocante a filiação ou não-filiação religiosa, compreensões teológicas, ou orientação emociono-sexual. Os princípios que guiam meu ministério entre não Unitaristas são os mesmos que guiam o ministério na própria comunidade Unitarista: compaixão, tolerância, hospitalidade, e abertura para com todos – absolutamente todos. Espero que essa apresentação de minhas intenções e de mim mesmo possa servir como a abertura dum círculo de confiança entre nós – 17


você que lê minhas palavras e eu. Nos textos que compõem este livro, faço questão de ser o mais aberto e honesto possível, quando discuto as ideias propostas aqui e minhas perspectivas acerca das mesmas. Minha esperança é que este livro possa contribuir para uma visão do Cristianismo como um caminho de esperança e liberdade, de reconciliação e de compaixão. Minha intenção primordial é compartilhar com todos aqueles que leem as páginas seguintes aquela jornada de fé na qual eu mesmo tenho me engajado. As possíveis falhas aqui encontradas são de minha inteira responsabilidade.

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1 SOBRE DEUS

Tenho certeza que muitas pessoas gostariam que eu fosse mais objetivo em minhas respostas a certas perguntas que me fazem, especialmente quando o assunto tratado diz respeito à fé, a Deus, a certezas etc. A conversa se inicia mais ou menos assim: Alguém: Você acredita em Deus? Eu: Isso depende! Alguém: Como assim? A resposta é simples: sim ou não! Eu: A resposta depende do que exatamente você queira dizer com a palavra “Deus”. Alguém: Não tente se esquivar da resposta. Você sabe o que quero dizer. Deus é Deus. Eu: Não. Não sei o que você quer dizer. Você se refere a um Deus pessoal ou impessoal; a Deus enquanto um indivíduo ou a uma ideia; a um Deus distinto da criação ou a um Deus que se confunde com a criação; a um Deus que pode ser plenamente compreendido por teorias humanas, como credos ou declarações teológicas, ou a Deus que está além de nossa compreensão plena. Não, eu realmente não sei o que você quer dizer exatamente com a palavra ou nome “Deus”, logo, não posso dizer se acredito em Deus ou não...

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E a conversa segue um caminho distinto, dependendo de com quem eu esteja conversando. Claro que esse tipo de diálogo pode funcionar com aqueles que tenham uma mente um pouco mais inquisitiva e que não se sintam ameaçados quando defrontados com um desafio teológico/semântico; também, é óbvio que esse tipo de brincadeira provavelmente não funcionaria com a maioria das pessoas. Esse é o tipo de jogo que faço com jovens Unitaristas, ou com meus alunos de Teologia, ou, ainda, com amigos mais próximos. Raramente costumo fazer joguinhos semânticos como esse com outras pessoas, por razões tão óbvias que não preciso explicar aqui. A verdade é que posso soar, para algumas pessoas, como alguém obcecado com o uso (ou não) de certos termos para falar acerca de minha fé. No exemplo acima, temos dois termos problemáticos (no sentido de poderem representar diferentes coisas para diferentes pessoas, a ponto de mudarem por completo a impressão final em nossa conversa): acreditar e Deus. O que exatamente as pessoas querem dizer quando me perguntam se acredito em Deus? Que sentido dão ao verbo acreditar, neste caso? O sentido é o de uma operação intelectual com a qual construiria ou abraçaria uma compreensão lógica do Divino? Ou se referem exclusivamente a minha própria experiência do Divino? E o que dizer sobre o uso que fazem do nome Deus? Esse termo, em nossa língua, tem

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tantos diferentes sentidos que preciso de uma pista mais clara sobre o que se quer dizer com ele. Não tentem me classificar como adepto desta ou daquela escola de pensamento simplesmente por dizer isso, mas – em se tratando do Divino – não acredito que tenhamos a capacidade de compreender plenamente uma Realidade que esteja além de nosso mundo objetivo. É óbvio que enquanto parte duma tradição que se define através de afirmações lógicas – como o Cristianismo –, faço uso das mesmas para articular minhas noções teológicas; isso é, em parte, o que estou tentando fazer agora. Entretanto, articular gnomas teológicas para discutir o Divino não é o mesmo que tentar definir a Deus em termos objetivos. Deus não é um objeto que possa ser colocado sob um microscópio, e que possa ser analisado como analisaríamos o interior duma célula. Deus é uma Realidade inesgotável dentro da qual somos 6. Na realidade, mesmo essa gnoma é problemática, pois se eu digo que Deus é, estou, na verdade, construindo limites existenciais para uma Realidade que supera minha capacidade de observação e, consequentemente, de compreensão. Aí reside o problema para se falar sobre Deus: nossos substantivos, nossos adjetivos e nossos verbos não são capazes de lidar com a abrangência de tal Realidade. Deus não é uma propriedade desta ou daquela tradição teológica, religiosa ou espiritual. 6 Atos 17:28.

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Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano; Deus não é teísta, nem liberal, nem conservador, nem fundamentalista; Deus não é tradicional, nem pós-modernista. Deus sequer é. Talvez a melhor maneira que posso pensar agora para falar sobre o Divino seja: Deus [ ] Real. Os colchetes substituem a incompletude do verbo ser. O nome “Deus” simplesmente representa aquela Realidade que está além de minha compreensão. O próprio nome “Deus” se tornou problemático, já que é incompleto e questionável. Por isso, prefiro utilizar “Realidade” – já reconhecendo sua limitação, enquanto substantivo. Não. Não posso acreditar em Deus. Não posso encarcerar o Divino a minhas concepções teológicas. Só posso confiar e ser leal. Acreditar, ou mesmo crer, é algo que está além de minha capacidade intelectual humana. Confiar me basta.

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2 OS PORTAIS DO UNITARISMO E A RELIGIÃO LIBERAL7

Tenho muitas vezes conversado com pessoas que se sentem desconfortáveis com o uso do adjetivo "liberal" que nós unitaristas fazemos em relação à nossa própria fé. Frequentemente, por causa disso, tenho tido que explicar o uso que fazemos desse adjetivo. Há inúmeras razões para o desconforto que essas pessoas têm. Muitas vezes, se elas são religiosas, sua visão tende a ser mais conservadora, e por isso mesmo, o uso do adjetivo "liberal" soa-lhes como algo que desafia sua compreensão teológica. Quando se trata de pessoas mais politizadas, e na maioria das vezes essa classe de pessoas no Brasil tende a pender para a chamada "esquerda" (mesmo eu discordando dessa nomeclatura um tanto desatualizada e fora da realidade), a ideia de "religião liberal" desperta a insegurança com respeito à sua oposição às políticas ditas "liberais". Ou seja, os unitaristas sempre darão bons motivos às críticas, mesmo que elas nasçam apenas de nossa escolha vocabular. Por outro lado, vejo o que ocorre com aqueles chamados de "novos unitaristas" - ou seja, pessoas que abraçaram uma visão influenciada pela maneira unitarista de ver a espiritualidade e a 7 Curso de preparação ao rito de Confirmação de jovens da Congregação Unitarista de Pernambuco.

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vida religiosa, mas que por inúmeras razões, não compreendem o que venha a ser o Unitarismo plenamente. Essas pessoas, na maioria das vezes, deixaram grupos cristãos em busca de algo que preenchesse suas necessidades religiosas ou sociais, e que ao mesmo tempo não lhes parecesse uma ditadura doutrinária. Essas pessoas têm a tendência de não reconhecer o Unitarismo como uma forma de Cristianismo, rejeitando todo o sistema Unitarista, toda a nossa tradição religiosa, e abraçando uma compreensão do que seja "religião liberal" que entra em conflito com nossa compreensão teológica Unitarista. Metaforicamente, há quatro portais pelos quais devem passar aqueles que desejam aprender a respeito da fé Unitarista. Tradicionalmente esses portais têm sido chamados pelos Unitaristas de O Portal Maravilhoso (ou Portal do Pensamento), O Portal Belo (ou Portal do Coração), o Portal do Dever (ou Portal da Ação), e o Portal da Lembrança.

O Portal do Pensamento Esse talvez seja o que mais nos distingue de outros seres vivos. Os animais, costumamos dizer, possuem "instintos", que podem ser chamados de um tipo de razão, um exercício da mente. Essa "razão", entretanto, parece ser limitada, já que os animais não conseguem estudar a si mesmos,

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como nós humanos o fazemos (ao menos é isso que sabemos até hoje). A entrada por esse Portal passa necessariamente pelo caminho da "curiosidade". Se não fôssemos curiosos não seríamos capazes de aprender nada. Desde o início a humanidade tem tido curiosidade a respeito do que ela tem visto. O sol, a lua, as estrelas, os trovões, os relâmpagos, o fogo, o vento, a água, etc - tudo isso estimulou a curiosidade dos primeiros de nós e tem estimulado nossa curiosidade até os dias atuais. Essa curiosidade tem feito a humanidade passar inúmeras vezes pelo Portal Maravilhoso, o Portal do Pensamento, e feito com que descubramos e aprendamos a respeito das coisas que nos cercam, a respeito de nosso planeta, sua história, seu clima, sua vida; a respeito do universo, das estrelas e planetas; a respeito da própria humanidade; mas também a respeito daquele Grande Mistério que chamamos de Deus, e que redescobrimos a cada novo dia de nossa história de uma forma diferente de como pensávamos anteriormente. Aqueles que adentraram esse Portal são chamados por nós de os "buscadores da verdade" ou de "buscadores de Deus", pois quando adentramos o Portal do Pensamento, em busca da verdade, estamos na verdade em busca de Deus. Essa foi uma das maneiras pelas quais nossa fé foi encontrada, pelo poder do pensamento humano.

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O Portal do Coração Além do citado anteriormente há um outro Portal pelo qual passamos para chegarmos à compreensão de nossa fé. Esse é o Portal Belo, ou o Portal do Coração. Ele é Belo porque através dele chegamos às coisas belas que criamos: música, poesia, pinturas, filmes, e nossas próprias amizades. Nossos sentimentos são muito fortes, e muitas vezes nos levam longe. Como acontece com o Portal do Pensamento, coisas boas e coisas ruins podem passar pelo Portal do Coração. Por essa razão devemos protegê-lo, selecionando aquilo que passa por ele. Da mesma forma como a passagem pelo Portal do Pensamento levou a humanidade a buscar respostas para suas perguntas a respeito do mundo e do universo, a passagem pelo Portal do Coração levou a humanidade a buscar o sagrado. Isso fez com que a humanidade construísse templos, altares, e formas de adorar a Deus, de celebrar o sagrado. Os humanos não apenas tiveram curiosidade a respeito do sagrado, mas também encontraram em seus corações o desejo de orar e cantar salmos, de falar daquele Grande Mistério que originou a vida. Isso os primeiros humanos fizeram de maneira diferente da que nós unitaristas fazemos hoje, já que muito medo e superstição adentrava o Portal do Coração. Hoje, entretanto, vemos Deus de uma outra maneira; não mais como um ditador nos 26


céus capaz de violência para favorecer um grupo de pessoas. Vemos Deus mais plenamente como um Amor capaz de conquistar nossas mentes e corações, e que nos leva a adentrar um outro Portal.

O Portal da Ação Pensar e sentir nos ajuda a compreender Deus e o mundo, mas há uma outra coisa igualmente importante: o agir. Primeiro pensamos, depois sentimos, e por fim, agimos. Através desse Portal passam nobres ações, grandes exemplos, e transformadoras reformas. O caráter é moldado pela vontade sendo transformada em boas ações. Jesus frequentemente falou a respeito do Portal da Ação: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor', entrará no reino do céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai que está no céu" 8. Ao cumprir nosso dever, pondo em ação aquilo que aprendemos e sentimos por meio dos Portais do Pensamento e do Coração, honramos a Deus, aquele Grande Mistério que não entendemos plenamente. A consciência se encontra neste Portal, assim como a boa vontade, a obediência e o heroísmo. Tudo isso tem um objetivo: a construção de um reino - o reino de Deus. É verdade que a religião é geralmente vista como uma crença, como uma oração, mas ela é 8 Mateus 7:21.

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também uma obra. Essa obra é tornar o mundo melhor. Se deixarmos de lado o Portal do Dever, o Portal da Ação, destruímos todo o restante. "Venha o teu reino!" é um pensamento, e com ele se abre o Portal do Pensamento. "Venha o teu reino!" é ouvido por nossas mentes e anima nossos corações, e assim o Portal do Coração é aberto. "Venha o teu reino!" nos leva à ação, nos leva a fazer o nobre e o belo; e assim, é aberto o Portal da Ação. O Portal da Lembrança Se não pudéssemos nos lembrar de nada, não poderíamos pensar, sentir, ou agir. Por meio da lembrança podemos revisitar o passado e adicionar a ele. É assim que a história cresce e a humanidade se eleva. Hoje sabemos muito mais do que aqueles que viveram há centenas de anos atrás, porque nos lembramos do que eles sabiam e nos lembramos de tudo o que foi dito e feito no passado. Passar pelo Portal da Lembrança é, então, essencial para a compreensão e continuação de nossa fé unitarista, nossa religião liberal. É esse Portal que nos leva aos pensamentos de muitos homens sábios que pensaram e escreveram a respeito do que sentiam ser a verdade a respeito de Deus e de todas as coisas. Por meio deste Portal chegamos aos escritos de um homem sábio e bom que foi e é muito importante para a nossa fé unitarista. Esse homem

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foi James Freeman Clarke9, um ministro unitarista muito amado e honrado. Ele foi o autor dos Cinco Pontos da Fé Unitarista, que ele disse ser o que "deveríamos aprender, lembrar, e amar": A Paternidade de Deus; A Irmandade dos Homens; A Liderança de Jesus; A Salvação Pelo Caráter; O Progresso da Humanidade. A Paternidade de Deus As palavras que usamos nem sempre conseguem expressar da melhor maneira aquilo que sentimos e entendemos. Falar a respeito de Deus cria um problema para nós, já que em nossa língua só podemos falar a respeito de Deus em termos que nos parecem limitadores. Em português, a palavra Deus é um termo masculino. Falamos em Deus como sendo nosso Pai, embora não pensemos em Deus necessariamente como sendo uma pessoa e muito menos como sendo um homem.

9 Um importante ministro Unitarista norte-americano (1810-1888).

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O uso da palavra “Pai”, e aqui “Paternidade”, exprime apenas a tradição cristã de se referir a Deus como sendo uma figura paterna, ou materna. Exprime a crença de que nossa relação com o divino possa ser tão próxima como a relação humana entre pais e filhos. É uma figura poética muito forte que tem sido parte da tradição cristã desde o início de sua história e que, consequentemente, é também parte da tradição unitarista.

A Irmandade dos Homens Por que os unitaristas creem na irmandade dos homens? Por duas razões básicas: Primeiro, se temos uma origem comum, origem da qual simbolicamente falamos como sendo Deus o Pai de todos os humanos, então todos os humanos são seus filhos e, consequentemente, nossos irmãos. A segunda razão é a de que irmandade dos homens significa justiça para todos, progresso para todos, e amor para com todos. A crença na irmandade dos homens nos leva a trabalhar para que todos nós, todos os seres humanos, vivam em liberdade. Essa crença nos leva a trabalhar para que as leis possam proteger todas as pessoas, independentemente das diferenças que existam entre nós. Cremos na igualdade de todas as pessoas diante das leis, mesmo sabendo que somos individualmente muito diferentes nos mais variados aspectos. 30


Cremos que todas as pessoas devam ser protegidas e honradas; e que todas as pessoas têm valor e dignidade inatas à sua própria natureza. Por esta razão, nós unitaristas honramos, respeitamos e recebemos pessoas das mais variadas cores, etnias, culturas, classes, orientações emociono-sexuais, etc. Trabalhamos para que haja paz e justiça entre toda a humanidade, e entre ela e a vida em nosso planeta.

A Liderança de Jesus Nós unitaristas sempre reconhecemos que pessoas de outras religiões possuem bons modelos a serem honrados. Os muçulmanos, os hindus, os budistas, os judeus, e pessoas das mais variadas tradições religiosas, seguem os ensinos de mestres religiosos que ensinaram muitas coisas semelhantes aos ensinos de Jesus. Os cristãos, muitas vezes, passaram uma imagem errônea do cristianismo aos povos de outras religiões. Fosse pela tentativa de converter outros povos por meio da guerra, fosse por meio de conquistas imperialistas, pelo desrespeito às crenças e tradições de outros povos, deram uma imagem errônea do que fosse a mensagem de Jesus. Nós unitaristas cremos na liderança de Jesus pois cremos que os ensinos que lhes foram atribuídos são capazes de nos transformar como 31


seres humanos e de nos aproximar do divino. Cremos que Jesus mostra um exemplo inspirador; que seus ensinos são verdadeiros; que o espírito de sua mensagem é divino; que seus preceitos nos levam ao caminho da paz, nos guiando por um caminho pelo qual podemos caminhar em segurança. Nossa crença na liderança de Jesus não se baseia no que pensamos doutrinariamente a respeito de Jesus. Não se baseia no que pensamos a respeito de sua natureza, ou outra questão doutrinária qualquer. Podemos diferir em nossas compreensões e assim mesmo termos todos fé em Jesus, o líder. Nossa fé depende de nossa lealdade e amor para com o espírito dos ensinamentos desse Grande Exemplo.

A Salvação Pelo Caráter Como ocorre com a palavra “Deus”, a palavra “salvação” pode parecer confusa para muitas pessoas por ela possuir muitos sentidos e ênfases diferentes. Para algumas pessoas, salvação significa escapar de um Deus furioso; para outras pessoas, uma dependência na bondade de outrem; para outros, uma profissão de fé; para outros, sacrifícios e formas de adoração; para outros, a aceitação de uma teologia. Eu não tenho nenhuma intenção de dar uma definição de Deus ou salvação do ponto de vista unitarista, já que não há apenas uma opinião entre 32


nós. De modo geral tendemos a ver salvação como algo a ocorrer nesta vida, e não numa suposta vida após a morte. Vemos a salvação como algo pessoal e social. Como algo divino e também humano. Salvação significa se tornar inteiro, completo, e curado. A salvação está na vida da comunidade. A salvação é paz e justiça dentro da comunidade e além da comunidade. A salvação é a paz interior que o indivíduo conhece por viver uma vida íntegra. Vemos a salvação como ser resgatado daquilo que é mal e como obediência ao certo, como amor ao bem e hostilidade para com o mal. Cremos que a salvação venha com a ajuda divina, de muitas maneiras, mas principalmente por meio da liderança de Jesus, ou seja, agindo-se da maneira como prescreve o ensino que lhe foi atribuído. Nossos próprios esforços, unidos à ajuda divina, fazem a salvação, moldam o caráter, tornam a alma vitoriosa na vida e na morte. E o que é o caráter? É o resultado pleno de nossos pensamentos e nossas ações. É o que realmente somos, e não simplesmente o que dizemos que somos, ou o que dizemos que acreditamos. É assim que cremos que alcançamos a salvação. Não somos salvos pelo que dizemos acreditar, ou pelas doutrinas que abraçamos. Somos salvos pelo que deixamos passar pelos Portais do Pensamento, do Coração e da Ação. Pensamos, aprendemos, sentimos, deixamos que 33


nosso aprendizado e nossas emoções modelem nossas ações, fazendo aquilo que nossa fé nos ensina, e assim alcançamos aquele estado de salvação diariamente. E como a salvação é algo individual e coletivo, alcançamos o shalom, aquele estado de paz e justiça, trazendo outros conosco. Não é possível fazer essa jornada sozinho. Na realidade pouco importa o que entendemos ser a salvação, se ela é algo referente a esta vida ou a uma vida futura. O que importa é o caminho que trilhamos em nosso aprendizado e na modelação de nossas ações, de nosso caráter. A salvação pelo caráter não é algo fácil. Somos admoestados a não confiarmos apenas nas “obras”. Somos obrigados a olhar para além de nós mesmos. Nossas vidas devem ser uma combinação de fé e obras: “Pelos seus frutos os conhecereis”. Caráter significa realidade; apoia a sinceridade; representa a consciência; tem profundas raízes na fé; e flui para um ideal. Por salvação pelo caráter queremos dizer que paz e alegria verdadeiras só podem vir quando fazemos o certo, esquecemos de nós mesmos, e nos aperfeiçoamos cada vez mais.

O Progresso da Humanidade O que significa “progresso”? Significa que podemos esperar conhecer mais. Muitas coisas 34


que parecem misteriosas se tornarão claras. Há algo maior do que seguir adiante, aprendendo, melhorando, cada vez mais? O nosso mais importante dever é estarmos prontos para viver, diariamente. Muitas pessoas se preocupam muito com a morte e com o que acontece após a mesma, principalmente por ela parecer tão estranha e solene, mas se vivermos nossas vidas com nobreza nosso encontro com a morte será triunfante. Viver com nobreza significa aproveitar nossa vida na terra da melhor e mais responsável maneira possível, seguindo os melhores exemplos, fazendo o bem, e tornando este mundo um lugar melhor para todos nós. E eu posso garantir que todos nós podemos fazer isso, independentemente de nossas próprias limitações. Devemos dar ouvidos à nossa consciência e obedecer a verdade como nós a entendemos. Nós unitaristas cremos que valor e dignidade sejam características inalienáveis do ser humano. Talvez seja difícil entender isso quando olhamos para o estado da humanidade, e todo o mal que temos produzido contra este planeta e sua vida, uns contra os outros, e contra nós mesmos, mas a crença no valor e dignidade humanas significa que cremos que os humanos podem se transformar, podem aprender, podem crescer. Significa que não cremos que os humanos em si mesmos sejam seres “caídos”, “pecadores” por natureza, incapazes de se erguerem a níveis maiores. Significa que cremos exatamente no 35


contrário disso. Cremos que o homem possa progredir rumo a Deus, nossa origem. Não há um fim para esse progresso. Temos a esperança de nos tornarmos mais sábios e melhores enquanto vivermos neste mundo; e muitos de nós também têm a esperança de encontrarmos novas oportunidades de crescimento numa próxima etapa de nossa existência.

Religião Liberal É assim que chegamos à compreensão unitarista do que seja “religião liberal”. Se todas as pessoas aceitassem a fé unitarista, isso não significaria necessariamente que todas elas pensariam da mesma forma. Nossa fé unitarista permite variadas aplicações e desdobramentos. Devemos sempre lembrar de duas palavras e do que elas significam para a religião: RAZÃO e REVERÊNCIA. A razão nos mostra a “verdade”, e a reverência é o amor e a admiração que temos pela verdade. As duas trabalham juntas, já que a razão nos dá a “verdade” e a reverência nos impele a sermos obedientes à verdade que conhecemos. Nós unitaristas sempre nos distinguimos de outros grupos religiosos por não vermos a razão como sendo algo oposto à fé. Na verdade, cremos que sem razão não pode haver fé, e que a fé sem razão não passa de superstição. Por outro lado, em

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se tratando de religião, também pensamos que a razão sem a fé não passa de algo pela metade. E, afinal de contas, o que é “religião liberal” para os unitaristas? Tradicionalmente temos usado quatro testes para identificar a “religião liberal”: 1 - Liberdade da razão e liberdade de consciência; 2 – Comunhão (=comunidade), o espírito; 3 – Serviço, o alvo; 4 – Caráter, o teste.

Ou seja, a religião liberal nasce onde há liberdade de consciência para o uso livre da razão, onde os indivíduos podem discordar, duvidar, pensar, questionar, responder, aceitar ou rejeitar. Essa liberdade só pode ser real onde haja um espírito de comunidade, onde haja uma comunhão real entre os indivíduos, onde todos cresçam juntos, mesmo que não pensem exatamente da mesma maneira. Essa comunhão de indivíduos que têm a liberdade para pensarem de maneira diferente são convencidos de que sua fé só tem valor se posta em prática para transformar o mundo do qual são parte, então o serviço aos demais é seu objetivo principal. E a avaliação dessa religião é feita pelos frutos que produz nos indivíduos, ou seja o caráter individual, os pensamentos e ações do indivíduo, é que são o 37


teste final dessa religião e o que decide se tal religião é “liberal” ou não.

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3 AS CARACTERÍSTICAS DO CRISTIANISMO LIBERAL10

"O olhar cristão liberal está dirigido a um Poder que está vivo, que está ativo em um amor que busca manifestação concreta, e isso encontra resposta decisiva na postura e gesto vivos de Jesus de Nazaré." 11 Como muitos já devem ter percebido, a expressão "Cristianismo Liberal" é muito importante para nós. Nossa fé religiosa é uma fé cristã liberal - liberal numa época na qual o rígido fundamentalismo e o conservadorismo dogmático parecem dominar o Cristianismo - aqui em nossa região, em nosso país, e em todo o mundo. A expressão "Cristianismo liberal" nos liga a um movimento crítico do Protestantismo que começou em fins do século XVIII e que incluiu pessoas como William Ellery Channing, Jabez T. Sunderland, Henry Ward Beecher, Harry Emerson Fosdick, John Arthur Thomas Robinson, Paul Tillich, Howard Thurman, e muitos outros. Afirmamos essa tradição toda vez que nos chamamos de "cristãos liberais". 10 Sermão proferido à Congregação Unitarista Pernambuco, em 10 de agosto de 2008.

de

11 James Luther Adams, teólogo Unitarista, em “Neither Mere Morality Nor Mere God” (1959).

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Mas, afinal de contas, o que é o Cristianismo Liberal? O dicionário dá várias definições à palavra liberal: generoso; dadivoso; franco; amigo da liberdade; que tem idéias avançadas sobre a vida social; tolerante, indulgente. Essas são boas palavras para definir nosso tipo de fé. Em sua coleção de três volumes a respeito da história da teologia liberal americana, Gary Dorian escreveu: "A teologia cristã liberal deriva da tentativa protestante de fins do século XVIII e começo do século XIX de reconceitualizar o significado do ensino tradicional cristão à luz do conhecimento moderno e de valores éticos modernos". E ainda escreveu: "A teologia liberal é definida por sua abertura à investigação intelectual moderna; seu comprometimento com a autoridade da razão e experiência individuais; sua concepção do Cristianismo como uma forma de vida ética; e seu compromisso em tornar o Cristianismo digno de confiança e socialmente relevante às pessoas modernas". Então, deixem-me expandir essa definição com uma lista do que chamo de as oito características fundamentais do Cristianismo liberal - características que nos diferenciam dos cristãos “tradicionais”, ortodoxos. Primeiro, o Cristianismo Liberal exige integridade intelectual. Respeitamos a mente humana e queremos usar nossas mentes na busca da verdade religiosa. O Bispo John Shelby Spong disse: "O coração nunca deve adorar o que a mente rejeita". Isso é teologia liberal! 40


Harry Emerson Fosdick, que foi um ministro batista e presbiteriano em Nova York em inícios do século XX, disse: "Todo o melhor sentido da religião pessoal pode ser meu sem a crucificação do intelecto". Isso é Cristianismo liberal! O Cristianismo liberal exige a coragem de testarmos nossas noções religiosas por meio de estudos rigorosos; nunca vê o aprendizado secular como um inimigo da fé. Segundo, o Cristianismo Liberal garante a liberdade de pensamento. Cristãos liberais são livres para acreditarem no que suas mentes, consciências, experiências e emoções os levam a afirmar. Cada um de nós é livre para moldar sua própria jornada de fé. O Cristianismo Liberal afirma: "Pensem sozinhos, o seu ministro pode estar errado". O Cristianismo Liberal diz aos alunos das aulas de religião: "Pensem sozinhos, seus professores podem estar errados". Aqui, em nossa comunidade, Peter e eu, os ministros, apenas compartilhamos nossa compreensão de fé, oferecendo a cada um de vocês a oportunidade de pensar a respeito dos mesmos assuntos, de fazerem as mesmas perguntas, independentemente de vocês concordarem conosco. O Cristianismo Liberal garante o livre pensamento. Terceiro, as igrejas cristãs liberais são comunidades de investigadores e, portanto, devem ser inovadoras. Quando os fundamentalistas primeiro desafiaram a teoria da evolução nos EUA em inícios do século XX, os 41


ministros liberais não só defenderam a ciência da evolução, como clamaram por uma teologia evolutiva. O Cristianismo Liberal vê cada uma de nossas jornadas de fé como parte de um processo evolutivo. Vemos nossas vidas como uma peregrinação que evolui, que se move, que muda. Não somos uma comunidade de crentes; somos uma comunidade de buscadores que estão sempre caminhando, que ainda não chegamos ao nosso destino final. Esta manhã usarei um texto que exemplifica o Cristianismo Liberal. Em vez de usar a Bíblia, farei uma leitura do fragmento de um papiro do século II da era cristã, encontrado onde antes era o depósito de lixo da antiga cidade egípcia de Oxirincus. Esse fragmento, número 840, possui apenas esta narrativa: "Levando os discípulos consigo, Jesus os levou ao interior do santuário e começou a andar pelo precinto do templo. Levi, um fariseu, um sacerdote, também entrou, correu até eles e disse ao Salvador: 'Quem te deu permissão de caminhar neste santuário e deitar teus olhos sobre esses objetos sagrados, quando não realizaste o banho ritual, e teus discípulos sequer lavaram seus pés? Invadiste este lugar sagrado, que é ritualmente limpo, em um estado impuro.' O Salvador imediatamente respondeu: 'Já que estás aqui no templo, suponho que estejas 42


limpo'. Levi respondeu: 'Estou limpo. Banhei-me na piscina de Davi. Ritualmente me vesti com roupas brancas e limpas. Só depois disso vim aqui, e pus meus olhos sobre esses objetos sagrados.' Em resposta, o Salvador disse a ele: 'Malditos os cegos que não veem. Vocês se banham nessas águas estagnadas onde os cães e porcos espojam-se dia e noite. Vocês lavam e esfregam a pele. Mas meus discípulos e eu nos banhamos em água viva e vivificante'." Tenha ou não esta narrativa qualquer validade histórica, é mais uma narrativa antiga que exibe a recusa de Jesus em ser aprisionado por costumes, hábitos e dogmas do passado. Ele ofereceu às pessoas uma nova água, uma nova forma de vida, uma que era livre, sem medo de mudança. Cristãos liberais devem estar abertos a novas ideias, novas formas de ver as coisas, novos símbolos, novas práticas religiosas. A teologia não é um acúmulo demonstrável como a ciência, nem é uma sucessão de momentos contínuos como a arte. A teologia deve sempre desfiar-se e ser recosturada. Seria mais fácil se esse não fosse o caso, e essa é uma das atrações do fundamentalismo você não precisa pensar e se esforçar, você simplesmente aceita o dogma. Mas o Cristianismo Liberal exige que nós buscadores constantemente desfiemos nossa fé e a recosturemos, de forma a dar-lhe um novo sentido para um novo tempo. 43


Cristãos liberais são chamados a pensar infinitamente e a explorar novas visões de quem somos e do que acreditamos. Quarto, o Cristianismo Liberal honra e respeita a sabedoria de outras religiões. Nas palavras desenvolvidas pelo Centro do Cristianismo Progressista: "Reconhecemos a fidelidade de outras pessoas que têm outros nomes para o caminho que as levam a Deus, e reconhecemos que seus caminhos são verdadeiros da mesma maneira como nossos caminhos são verdadeiros para nós". Podemos celebrar a vitalidade de nossa própria fé cristã sem precisar declarar a superioridade de nossas visões em relação às outras. Jesus se torna para nós uma janela para o amor de Deus, mas reconhecemos que para outros, Muhammad ou o Buda pode ser tal janela. O Cristianismo Liberal se vê como apenas um caminho para o divino. Quinto, a fé e a prática religiosas envolvem mais que apenas o intelecto. Isso é um desafio porque muitos liberais, como eu, tendem a ser cerebrais em nossa forma de ver a vida. Mas o Cristianismo Liberal reconhece que o papel da fé seja alimentar o coração e o espírito juntamente com a mente. Frequentemente isso significa que os cristãos liberais reivindicam e redefinem antigos ritos e rituais, tanto da tradição cristã como das tradições de outras religiões. Hoje, por exemplo, reivindicaremos o ritual da comunhão, mas para a 44


maioria de nós ele não tem nenhuma relação com o corpo e sangue de Jesus, a velha teologia da redenção. Nós batizamos crianças, não em nome do "Pai, Filho, e Espírito Santo", mas em nome do "mistério da vida, do mistério do amor, e do mistério do ser". Nós tomamos rituais cristãos tradicionais, como a unção com óleo ou os ofícios de cura, e damos um novo significado a esses rituais, redefinindo-os à luz da teologia evolutiva. Enriquecemos nosso cristianismo com práticas espirituais budistas e islâmicas, alimentando nossos corações e espíritos cristãos. Sexto, cristãos liberais afirmam o valor e a dignidade de cada ser humano - pessoas de todas as raças e religiões, de ambos os sexos e os transgêneros, de todas as orientações sexuais, de todas as classes, de todas as habilidades. E por afirmamos a unidade universal, devemos ser radicalmente receptivos a todas as pessoas fazendo com que ninguém sinta que devesse ficar fora de nosso círculo. Sétimo, para a maioria dos cristãos liberais a Bíblia é uma coleção de antigas e úteis reflexões a respeito de Deus, e o Jesus humano é um caminho para se entender o amor de Deus e o sentido da vida. Apesar de a Bíblia ser menos a Palavra de Deus e muito mais uma coleção de palavras humanas a respeito de Deus, ela continua a ser uma rica coleção de materiais que nos ajudam e inspiram em nossas próprias jornadas de fé.

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E apesar de a maioria dos cristãos liberais não ver Jesus como uma figura divina enviada por Deus para pagar pelos pecados de uma humanidade caída, o Jesus humano assume um novo sentido como o modelo mais elevado da vida religiosa. Jesus é visto, pela maioria de nós, como um ser humano exemplar. Jesus é nosso mestre, um guia em nossa jornada pela vida. Finalmente, o Cristianismo Liberal insiste que a maneira como tratamos toda a criação é mais importante do que o que acreditamos. Na maioria das chamadas igrejas tradicionais, a ênfase está na crença - crer nas palavras de um credo antigo ou crer que Jesus tenha morrido por nossos pecados. Mas o Cristianismo Liberal diz: "Mostre o que você acredita pela maneira como vive". O que você faz é mais importante do que o que você diz. E é por isso que para cristãos liberais é tão importante cuidar das pessoas menos privilegiadas, trabalhar para criar um mundo livre de guerra e tortura, abrir nossos braços e corações para recebermos todas as pessoas, para que todos possam ter um lugar em nossa mesa e em nossos corações. Jesus não deu um credo às pessoas. Ele ensinou como viver e se portar de novas maneiras justas e pacíficas, e ele modelou essas novas maneiras em sua própria vida. A forma como nos comportamos é mais importante que nossas crenças.

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Essas são as características do Cristianismo Liberal que tentamos passar para a próxima geração, além da nossa própria. O Cristianismo Liberal afirma a integridade intelectual, protege o livre pensamento, e constrói comunidades de buscadores inovadores. O Cristianismo Liberal respeita e aprende de outras religiões; presta atenção ao coração e à alma, assim como à mente; e afirma o valor e dignidade de cada ser humano. O Cristianismo Liberal respeita a Bíblia como uma coleção de antigas e úteis reflexões humanas, vê o Jesus humano como a janela de nossa comunidade para o amor de Deus, e sabe que a maneira como tratamos uns aos outros é mais importante que o que acreditamos. Esses são meus pensamentos a respeito do tipo de religião que praticamos aqui em nossa comunidade.

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4 TOMANDO UMA OUTRA ESTRADA RUMO AO LAR

Como um cristão progressista, ou um cristão liberal, ou um cristão não-ortodoxo (nenhuma dessas expressões funciona plenamente para mim), já me perguntaram incontáveis vezes se não me afastei tanto do perímetro cristão que o nome não se aplica mais a mim. Acredito que minha jornada não esteja distante da base da fé de Jesus, de forma alguma, mas que se direcione a ela. Como um cristão liberal, creio que esteja em minha jornada de retorno ao lar, não em virtude de voltar, mas em virtude de seguir adiante. E é um lar que deveria ser reconhecido, penso eu, ao menos em parte, mesmo pelo cristão mais tradicional e ortodoxo que também está em busca dele. É algo que temos em comum. Deixem-me descrevê-lo. Neste lar que busco, Deus é uma presença palpável que dá profundidade e sentido à vida. Por causa dessa profundidade e sentido, as pessoas nesse lar cuidam-se mutuamente, perdoam-se mutuamente, aceitam-se mutuamente, abraçam-se mutuamente. Dessa familiaridade, dessa comunidade, ganho coragem para fazer coisas que de outra forma não poderia fazer. Com essa coragem, juntamente com outros, sou chamado a buscar justiça, trabalhar pela paz, e proteger aqueles que estejam mais vulneráveis. E em meio 49


a essa busca, e em meio a esse trabalho, descubro uma fé que não é piedade religiosa, mas uma segurança profunda e firme de que todas as coisas estarão bem, uma calma lá no fundo, uma esperança além de meu merecimento. E uma coisa mais. Nesse lar, há espaço para todos. Todos. Como disse, é uma visão de lar que compartilho com a maioria dos cristãos... com, na verdade, a maioria das pessoas na Terra. Como a maioria das pessoas da Terra, anelo por isso. Esses são desejos humanos profundos, básicos e fundamentais. A busca pelo lar é minha jornada de vida. Vocês reconhecem isso? Mas há um problema. Creio que não possa chegar lá pela estrada que meus avós tomaram. Ou pela estrada que muitos outros, cristãos mais ortodoxos, tomaram. Não posso nem mesmo chegar em casa tomando a mesma estrada que tomei quando era mais jovem. Primeiro e mais importante, não posso chegar ao lar pela estrada que sugere que Jesus seja o único caminho ou que o Cristianismo seja a única religião verdadeira. Para mim, pelo menos, essa estrada está interditada, fechada para sempre. Mesmo se eu quisesse - e não quero - não poderia fazer meu coração, minha mente, minha alma, aceitar que Deus pudesse ser tão exclusivo e tão arbitrariamente egoísta a ponto de confinar a revelação, ou salvação, a uma tribo religiosa. Deus, para mim, é maior que isso, e menos convenientemente em meu controle do que se 50


concluiria ao dizer que a religião na qual nasci seja a única religião verdadeira. Eu quero chegar em casa, como todo mundo. Quero chegar em casa, à essência do que Jesus ensinou. Mas o caminho do exclusivismo cristão está interditado. Preciso chegar em casa por meio de outro caminho. Segundo, não posso chegar em casa pelo caminho que exige que eu subordine as revelações da ciência às revelações da religião. Se as placas da estrada dizem "Proibido evolucionistas nesta estrada", não posso tomar aquele caminho. Se, na velha estrada, ideias mais antigas a respeito de gênero e sexualidade não puderem incorporar fatos recentemente descobertos da biologia e psicologia e das ciências sociais, esse caminho estará interditado para mim. Se, nessa estrada, a voz da razão não puder estar em diálogo com os sussurros do coração ou com os murmúrios da fé, estarei perdido. Como todas as outras pessoas, desejo estar em casa, no lar que descrevi anteriormente. Mas o caminho da anticiência, anti-intelectual, não me leva a lugar nenhum. Preciso chegar em casa por outra estrada. Não posso chegar em casa pela estrada onde o significado da cruz é o de que Deus exige um sacrifício de sangue e que uma pessoa pague o preço pelos pecados de outra. Sei que o "sacrifício propiciatório", como essa doutrina é chamada por alguns, é uma estrada pela qual muitos caminham, e encontram Deus, e se sentem salvos. Respeito isso. Foi um caminho pelo qual eu 51


mesmo já trilhei em minha infância. Mas não posso tomar mais essa estrada. Aquele Deus parece-me ser agora abusivo e arbitrário, e mais um cobrador que amante da humanidade. Creio que a cruz ainda faça sentido como um símbolo de como o amor triunfa sobre a crueldade humana, e como um símbolo de incomensurável coragem. Desejo, profundamente, encontrar o lar onde aquele amor e coragem estejam presentes, e onde possa imitá-los. Mas não posso chegar lá por meio da velha estrada. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada. Não posso chegar em casa por meio da estrada que insinua que a salvação pessoal seja a meta mais importante da vida e que a moralidade pessoal seja o valor mais importante. Simplesmente não posso imaginar que toda a empreitada religiosa seja sobre se eu pessoalmente chegarei ao "céu" ou não, seja lá o que seja o tal "céu". As questões morais que me parecem urgentes, e a respeito das quais posso imaginar Deus preocupado, são as grandes questões da riqueza e pobreza, da guerra e paz, do poder e justiça, e a única salvação que faz qualquer sentido para mim é a salvação de toda a criação, não apenas a minha própria. Quero estar nesse lar onde a salvação é real, mas não posso chegar lá por meio do caminho que a vê como um teste ou um concurso ou um processo de eliminação. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada.

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Não posso chegar em casa por meio do literalismo bíblico ou do exclusivismo canônico. Em algum ponto da jornada, perfurei o solo da escritura com minha pá, e descobri que há muito mais lá em baixo do que pode ser visto na superfície. Em algum ponto de minha jornada, a escritura se abriu para mim como a casca de um ovo, e apesar de ter ficado muito mais bagunçada, mais difícil de segurar, percebi o quão rica e nutritiva ela era quando nela buscava não verdade inquestionável mas verdade vivificante. E mais, descobri que a "casca" ao redor da escritura, que definiu que escritos estariam na Bíblia e quais seriam rejeitados, não era tão firme quanto pensava que fosse. Encontrei passagens na Bíblia onde o espírito da voz de Deus parecia estar bem longe, deixando as palavras sem nenhum sentido... e descobri passagens além da Bíblia que pareciam vibrar com aquele espírito. Sei que a Escritura é um lar para mim. Amo muitos de seus ambientes, suas passagens ocultas, a forma como evoca contos e lembranças familiares. Quero ir lá. Mas não posso chegar lá por meio do literalismo. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada. Eu sei que há aqueles que dirão, mesmo que seja com gentileza e amor: “Olha, se você não puder chegar em casa por meio da velha estrada, você jamais conseguirá chegar em casa”. Mas Jesus disse, por outro lado: “Busque e acharás. Bata, e a porta será aberta para você. Peça e será dado a você”12. Creio que haja uma outra estrada, 12 Mateus 7:7.

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um outro caminho, que leva para casa. Não posso dizer que cada passo do caminho seja claro. A vida não é assim tão simples. Mas eu estou buscando, e confio que encontrarei. Estou batendo, e creio que a porta será aberta para mim. Estou pedindo, e tenho fé que me será dado13.

13 Mateus 7:8.

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5 QUEM ESTÁ “NO COMANDO” MESMO?

Esta semana, vi um adesivo num carro que me deixou teologicamente inquieto. O adesivo dizia o seguinte: “Deus está no comando!” E isso me fez lembrar de tudo o que ouço de tantas pessoas, das mais diferentes tradições de fé, e percebi que a maioria das pessoas que dizem frases como essa não a compreendem como metáforas, mas como afirmações factuais de sua compreensão do Divino, e da forma como Divino e humano interagem na vida real. Essa compreensão não poderia estar mais distante de nossa tradição Unitarista! Deus não pode estar “no comando”, já que isso violaria um dos “dogmas” – é, eu sei o quanto todos nós desapreciamos esta palavra, mas nós não deixamos de ter os nossos também! – mais importantes de nossa tradição, sem o qual o Unitarismo, enquanto tradição cristã, desabaria: o livre arbítrio – a liberdade que os humanos têm de escolher seu próprio caminho na vida! [Isso para não citar que essa noção de “Deus estar no comando” não faria muito sentido para a compreensão que a maioria de nós, talvez, tenhamos do próprio Divino!]

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Quando leio ou ouço “slogans” como esse, não posso evitar pensar em questões como: Se Deus realmente está “no comando”, como pode acontecer tantas catástrofes e desgraças no mundo? Se Deus realmente está “no comando”, como pode um homem entrar armado numa escola e atirar contra crianças indefesas? Ou como pode um grupo de homens sequestrar aviões e arremessá-los contra duas torres comerciais? Como pode uma mãe abandonar sua própria filha numa lata de lixo? Como pode um homem bater em sua própria esposa? Como pode um pai matar seu próprio filho? Como pode um jovem morrer num acidente de automóvel? Como pode um ônibus cair num desfiladeiro? Se Deus está realmente “no comando”, e todas essas coisas acontecem, consigo pensar em duas explicações: Deus é “um ser” extremamente cruel – mais cruel que qualquer ser humano psicologicamente sadio – que se alegra com o sofrimento da humanidade; ou Deus é “um ser” estúpido! Essas duas opções servem como resposta ao argumento utilizado por alguns de que o sofrimento é a maneira utilizado pelo Divino para nos ensinar! [Eu, como um ser humano imperfeito, jamais imporia morte, doença ou desgraças a um filho meu – se fosse um pai – para ensinar-lhe o que quer que fosse!] Não! Deus não está “no comando”! O Divino – seja lá o que esse termo signifique para cada um de nós – abençoou-nos com a liberdade para estarmos nós mesmos no comando! Nós somos os guias de nossas caravanas, e não um ser ou 56


poder, ou realidade, além de nós próprios. Frases como aquela podem servir de metáfora para a noção de que não estamos sozinhos, ou de que podemos encontrar alento e direção numa Realidade além de nossa experiência física – não vejo problema nocional algum com isso –, mas compreender que Deus controle tudo é trair a mensagem cristã (ao menos, a maneira como nós Unitaristas compreendemos essa mensagem!), é impor ao Divino a responsabilidade por nossos erros e crimes, é ignorar a maneira como o Universo funciona, é atribuir ao Deus da tradição judaico-cristã características deveras humanas e até menores que as humanas! Quando os homens cometem violências contra outros membros de sua espécie, ou membros de outras espécies, é porque estão utilizando sua liberdade da maneira errada (ao menos, para a ética que guia nossa compreensão de mundo). Quando desastres naturais nos atingem, e ceifam a vida de muitos dos seres que povoam este planeta, é porque há “razões naturais” para aqueles desastres, ou, novamente, porque utilizamos nossa liberdade para alterar o espaço geográfico de forma que contribuiu com aqueles desastres. Em outras palavras, para mim é claro que nós é que estamos “no comando”! Como diriam as duas últimas linhas do lindo poema de William Ernest Henley, "Invictus":

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"Eu sou o senhor de meu destino: Eu sou o capitão de minha alma." 14 Espero apenas que possamos ter sabedoria para saber comandar nossos próprios destinos e almas!

14 Tradução do original: “I am the master of my fate: I am the captain of my soul.”

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6 UNITARISTAS E A LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA15

Hoje, mais uma vez, iniciamos o curso preparatório para a recepção de novos membros em nossa Congregação. Sempre fico muito feliz quando tenho a oportunidade de facilitar esse curso. É a maior chance que tenho para conhecer mais proximamente aqueles que têm a intenção de se tornarem membros desta igreja. É a chance que tenho para lidar com questões sobre as quais, talvez, ainda não tenha pensado, e, assim, ter mais ideias a serem discutidas em momentos como este. Uma das coisas com as quais qualquer membro novo desta Congregação tem que lidar é nossa tradição de liberdade de consciência, que é o sentido básico do adjetivo “liberal” que utilizamos orgulhosamente como sinônimos de nossa tradição Unitarista. Essa liberdade pode ser assustadora para muitos que intentam juntarse a nós; e, é bom que reconheçamos, pode se tornar um problema para alguns deles também! Somos uma igreja cristã. Em muitos sentidos, somos, enquanto comunidade de fé, muito semelhantes a outras igrejas cristãs. Estudamos a Bíblia, e seguimos um lecionário cristão tradicional. Temos liturgias riquíssimas em 15

Sermão proferido à Congregação Unitarista de Pernambuco, em 11 de novembro de 2012.

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poesia e tradição. Usamos símbolos cristãos em nossa capela. Seguimos o calendário do Ano Cristão em nossa vida comunal. Celebramos sacramentos ou ritos cristãos tradicionais, como Batismo e Comunhão. Enfim, temos muitas semelhanças com outras comunidades cristãs, especialmente com aquelas mais tradicionalmente litúrgicas! O que, então, distingue-nos – nós Unitaristas – de outras tradições cristãs? A resposta que essa comunidade tem dado em seus 79 anos de história aqui em Pernambuco é ouvida em alto e bom som na canção que acabamos de ouvir de nosso coral: “Liberdade”! Essa é, na compreensão desta comunidade, a grande diferença. Essa resposta está também no lema desta Congregação: “Mentes abertas, mãos abertas, corações abertos”. Esse é o sentido primordial que esta comunidade atribui à sua tradição Unitarista. Essa liberdade, entretanto, não é algo fácil e simples. O liberalismo que essa comunidade celebra como seu não é sinônimo de “Faça o que quiser, contanto que não seja o mal” – que é o que muitos, erroneamente, interpretam ser o Unitarismo. Não. Nosso liberalismo é uma atitude consciente, racional, seletiva, fiel e íntegra para com nossa tradição cristã. Esta comunidade está ancorada numa tradição teológica que nasceu no século dezesseis no leste europeu, atravessou o continente, chegou à América do Norte no século dezoito, e se instalou no Brasil no século XX. Nosso liberalismo fala o idioma duma tradição 60


protestante litúrgica, cuja janela para a realidade é a linguagem metafórica da Bíblia, e cujo caminho para Deus está em Jesus. Nosso liberalismo prega uma união que não está ancorada numa concórdia imposta por credos ou confissões. Nesta comunidade de fé, não esperamos que todos acreditem exatamente na mesma coisa, que cheguem todos às mesmas conclusões; o que esperamos é que entre nós tenhamos um espírito de koinonia, de comunhão, de comunidade ampla; um espírito de inclusão, e de hospitalidade; um espírito cristão! Esse é o sentido que damos à nossa tradição! Quando pessoas vêm a nós de outras tradições de fé, se assustam um pouco com o fato de haver tantas compreensões diferentes aqui. Certa vez, por exemplo, alguém me disse que imaginava que ser um Unitarista fosse não acreditar no dogma da Trindade, mas que quando conversou com algumas pessoas aqui, percebeu que muitos entre nós eram trinitaristas! Tive, então, de explicar àquela jornalista que o Unitarismo não se distingue de outras tradições cristãs por causa de sua compreensão de Deus ou de Cristo; o que historicamente nos distingue de outras tradições é nossa ênfase na liberdade de consciência! Essa liberdade de consciência, entretanto, se movimenta dentro da tradição cristã. Assim, podemos chegar a diferentes conclusões acerca da natureza de Deus, mas – em nossa tradição –, nossas conclusões serão articuladas numa linguagem cristã. Para nós, essa 61


linguagem cristã inclui as Escrituras, a tradição da Igreja, a filosofia ocidental, as descobertas científicas, as artes modernas, e o Espírito que dá vida à busca humana por verdade. Nesta comunidade, encontramos pessoas dos mais diferentes tipos, dos mais diferentes backgrounds sociais e teológicos. Aqui há nãotrinitaristas e trinitaristas, teístas e não-teístas, crentes e agnósticos. Entre nós há aqueles que enxergam os elementos da Eucaristia que partilharemos em alguns minutos como apenas símbolos dum ofício realizado por Jesus há dois milênios atrás, e há outros que os veem como portadores da presença de Cristo entre nós. Alguns de nós falam em sacramentos, outros em ritos. Alguns estenderão suas mãos para partilhar do pão e do vinho, outros preferirão receber uma benção. Há até pessoas não-exclusivamente cristãs entre nós, já que alguns de nós mantemos laços com a tradição judaica – alargando nossa linguagem cristã para uma linguagem judaicocristã! Toda essa liberdade, que pode ser muito confusa para alguém que tem um primeiro contato com os Unitaristas, exige um grande senso de integridade intelectual de nossos membros! O Unitarismo não oferece respostas fáceis! Geralmente não falamos em milagres, em salvação, e em vida após a morte, com a mesma frequência ou o mesmo sentido que em outras comunidades. Daqui deste púlpito, geralmente não tratamos de temas dogmáticos, em grande parte, 62


em respeito pelas diferenças de opinião entre nós. Quando um Ministro desta igreja fala sobre algo deste púlpito, ela ou ele tem a responsabilidade de lembrar-se da diversidade teológica entre nós, e falar num tom de respeito para com aqueles que são parte de nossa família, ao mesmo tempo em que é íntegra e íntegro a suas próprias convicções pessoais. E isso pode ser muito assustador para alguém que vem de outra tradição. Mas esse é o espírito desta comunidade! Ser Ministro duma congregação tão diversa como esta nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, mas é o desafio mais surpreendentemente maravilhoso que qualquer Ministro cristão – especialmente um Unitarista Anglo-Luterano como eu – pode experienciar. E, até onde posso perceber, é uma experiência surpreendentemente maravilhosa para a maioria daqueles que fazem esta pequena família. Espero poder encontrá-los em nossa próxima aula, e poder conversar com alguns de você mais de perto!

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7 O CONSERVADORISMO DUM AUTOPROCLAMADO HEREGE

Enquanto conversava com um grupo de amigos ontem, alguém fez um comentário um tanto inesperado, no contexto do que discutíamos, mas, até certo ponto, verdadeiro. Fui chamado de “conservador” numa discussão teológica! Todos se entreolharam, alguns riram, alguém chegou a perguntar ao colega o sentido da palavra “conservador” para ele, e, em seguida, ele respondeu “Não falo teologicamente; acho que você seja um conservador socialmente!”. “Ufa! Que susto!” - brinquei. Brincadeiras à parte, é engraçado o limite que enfrentamos quando tentamos classificar ideias e atitudes. Como alguém que se ocupa de pensar sobre minha tradição religiosa – leia-se o “Cristianismo protestante” –, sou geralmente visto como qualquer coisa, menos ortodoxo. E essa é uma visão não apenas alheia, como a minha própria auto-classificação. Gosto de enfatizar que sou, teologicamente, um herege, já que enfatizá-lo é afirmar a herança teológica na qual emergi como homo religiosus. [Essa auto-classificação per se já é problemática, pois quase ninguém entende o que significa o adjetivo “herege” quando este é usado no contexto da fé. Isso inclui pessoas supostamente bem informadas em se tratando da

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Teologia e de outras “ciências humanas”, por exemplo.] Afirmar minha herança herética, entretanto, não é negar que a fé e a tradição religiosas exerçam um grande papel em minha vida. E não poderia ser diferente. Essa é a razão pela qual sou um Ministro religioso. Essa é a razão pela qual me engajo no estudo e discussão de minha tradição de fé. Nesse sentido, sou um conservador: alguém que busca manter viva a tradição de fé [herética] que me alimenta; alguém que se esforça para caminhar nos limites de minha própria tradição teológica, mesmo explorando caminhos paralelos que me ajudem a ampliar a dimensão do entendimento de minha própria tradição de fé. Conheço as objeções que muitos fazem a essa ideia, mas partilho, até certo ponto, das perspectivas clássicas de Christopher Dawson da religião – ou da “dinâmica espiritual” – como modeladora da cultura duma sociedade 16. Para ele, claro, essa “religião” não precisaria ser algo explicitamente religioso, poderia ser uma “religião disfarçada”. Marcelo Gleiser, inclusive, fala desse mesmo disfarce quando sugere que mesmo ateus podem transformar sua busca por um ideal de perfeição – nos esportes, na ciência etc – em um ritual sacro17. Então, quando meus amigos ateus 16 DAWSON, Christopher. Progresso e Religião: uma investigação histórica. Tradução Fábio Faria. São Paulo: É Realizações, 2012. 17 GLEISER, Marcelo. O fim da Terra e do céu: o Apocalipse na Ciência e na Religião. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 31.

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zombam de minha “religiosidade”, não posso fazer nada mais além de zombar da sua também! Alguns deles se ocupam tanto em desacreditar a fé, por exemplo, que chegam a soar ainda mais visceralmente dogmáticos do que aqueles que tentam desacreditar! Nesse sentido, sua suposta descrença é sua religião! Aqueles de fora de minha herança de fé têm um grande problema em compreender a relação entre minha fé e minha orientação emocionosexual, por exemplo. Para eles, especialmente os que não são religiosos (por mais inacreditável que isso possa parecer!), ser um Protestante (claro que eles não compreendem absolutamente nada sobre o Unitarismo, o Anglicanismo, ou o Luteranismo – minhas tradições pessoais) é irreconciliável com uma identificação “gay”. Para os religiosos, especialmente os protestantes evangelicais – que enfatizam uma visão do papel das Escrituras aparentemente irreconciliável com a minha –, simplesmente não sou cristão! Para aqueles que tornaram a homossexualidade (como odeio esta palavra!) sua religião – sim, porque não conseguem se enxergar como nada mais além de gays; tudo o que supostamente sofrem resume-se ao “fato”(?) de serem homossexuais! –, minha fé é uma ofensa descabida, já que sou parte da “instituição” (i.e., a religião) que os oprime!... E a ladainha se repete ininterruptamente em minhas interações sociais!

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Além disso, há ainda o fator político! Geralmente, só se consegue pensar em termos das posições diametralmente opostas do espectro político – as antigas “direita” e “esquerda” que, desculpe-me Norberto Bobbio, não sei se fazem tanto sentido no Brasil de hoje –, ignorando-se quaisquer perspectivas que não se encaixem perfeitamente a esse molde prefabricado. E essa monotonia ideológica que paira sobre nossos diálogos intermináveis é irritante! Esses supostos diálogos são, na verdade, um monólogo disfarçado – um monólogo de velhas ideias que temem ser desafiadas por novas fusões de ideias – que tenta acorrentar mentes jovens. Um verdadeiro enfado; um verdadeiro enfado que tenta acorrentar o próprio Deus! Por isso sou um autoproclamado herege. Se a heresia é, etimologicamente, uma questão de escolha, então sou um herege! Um cristão herege. Um judeu herege. Um ortodoxo herege. Um liberal herege. Um conservador herege. Um herege herético. Um ser humano fundamentalmente à beira duma fé permanentemente herética!

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8 AS CRENÇAS UNITARISTAS E A LINGUAGEM LITÚRGICA

Algumas perguntas me foram feitas acerca da liturgia na Congregação Unitarista de Pernambuco, e as respostas que dei àquelas perguntas me parecem apropriadas para uma discussão mais ampla acerca da compreensão litúrgica do Cristianismo Liberal como um todo. Expliquei à pessoa que me questionara que nossa liturgia – assim como a liturgia de toda comunidade de fé – baseia-se em nossas compreensões teológicas (e filosóficas). A compreensão mais amplamente aceita em nossa comunidade é a de integridade. Nossas palavras e ações litúrgicas devem ser um reflexo da integridade de nossas crenças – que, em nosso caso, como teologicamente liberais, não estão acorrentadas ao dogma nem à tradição; nossas crenças são abertas à mudança. Podemos pensar em, pelo menos, quatro princípios que nos guiam em nossas práticas litúrgicas: 1 – Nosso foco é um modus vivendi compassivo, e não crenças dogmáticas. A compaixão, que, para nós unitaristas, é a verdadeira religião (Miqueias 6:8; Tiago 1:27), faznos afirmar o valor e a dignidade de todos os seres humanos (Mateus 7:1-2; 25:37-40). A integridade 69


que afirmamos exige que essa compaixão – esse amor, essa caritas – se expresse em nossas palavras e ações não apenas em nosso dia a dia, mas também em nossa liturgia na igreja. Logo, linguagens sexistas, racistas, homofóbicas, tribalistas, nacionalistas, violentas etc, não podem ser parte de nossa liturgia. É por esta razão que recusamos ler em nossas liturgias mesmo trechos das Escrituras que entendamos como exibindo tal tipo de linguagem. 2 – A maioria de nós unitaristas não compreende Deus como um ser sobrenatural que intervem na história humana. Há alguns de nós que certamente entendem Deus da maneira dita “tradicional”, mas a maioria de nós entendemos a Divindade como uma metáfora para os mais profundos valores humanos. A integridade que buscamos exige que sejamos cuidadosos e inclusivos para com todos em nossa liturgia; logo, nossa linguagem litúrgica tem de ser sensível às compreensões de todos os que fazem parte desta comunidade e que oram conosco. 3 – Para a maioria de nós unitaristas, Jesus é um mestre e um exemplo, e não um salvador sobrenatural enviado por Deus. Jesus “salvanos” por meio de seus ensinamentos, e não por meio de uma morte para pagar por nossos “pecados”. Por causa disso, não fazemos uso dos tradicionais hinos cantados por outras igrejas cristãs – já que os mesmos estão moldados pela 70


teologia da redenção; somos forçados por nosso anseio pela integridade a encontrar outras vozes para a nossa fé. Essa é a razão para a grande diferença musical em nossa comunidade – quando comparada a outras igrejas cristãs. 4 – Para nós unitaristas, o cristianismo não é o único caminho aceitável e autêntico para se chegar ao Divino ou para encontrar sentido na vida. A integridade que buscamos força-nos a honrar os caminhos que para outras pessoas são tão verdadeiros quanto o nosso é para nós próprios. Isso, mais uma vez, faz-nos rejeitar hinos ou afirmações que insinuem uma superioridade cristã em relação a outras pessoas, por exemplo. O que nós unitaristas cremos, em essência, é que – mesmo fazendo uso de linguagem metafórica, muitas vezes – nossa linguagem litúrgica, que se expressa em palavras e atos, deve refletir nossas crenças; e essas crenças, em nosso caso, incluem a crença no valor e dignidade inerente de todos os seres humanos (homens, mulheres, de todos os gêneros e identidades de gênero, e de todas as orientações emocionosexuais), uma crença na paz, na liberdade de pensamento, no exemplo deixado pelas palavras e ações atribuídos a Jesus de Nazaré – nosso mestre e modelo.

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9 A EUCARISTIA E OS SACRAMENTOS PARA OS UNITARISTAS "[...]Façam isto em memória de mim.”

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Entre nós, unitaristas, geralmente usamos dois diferentes nomes para nos referirmos a esse ritual de partilha de pão e vinho: Eucaristia ou (Santa) Comunhão – e, algumas vezes, ouvimos pessoas que vieram de alguma tradição evangélica chamá-lo de (Santa) Ceia (título este não muito comum entre nós). Seja como for, todos esses títulos saíram do Novo Testamento e enfatizam diferentes sentidos deste sacramento cristão. Chamá-lo de Eucaristia – um termo tirado do Novo Testamento grego, e que significa ação de graças – lembra-nos que a gratidão à Providência é uma parte essencial tanto da espiritualidade cristã quanto da própria natureza deste ato sacramental. Chamá-lo de Santa Comunhão lembra-nos que esse é um ato dos mais sagrados e íntimos em nossa tradição, tornando-nos um com Jesus Cristo e parte de seu corpo, a igreja. Chamá-lo de Santa Ceia lembra-nos que este ato é uma refeição instituída pelo próprio Jesus e presidida por ele, em sua mesa, todas as vezes em que ela é celebrada.

18 Lucas 22:19.

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Usar esses diferentes nomes para esse ritual que aqui celebramos todas as vezes que nos encontramos, é um reconhecimento de que nenhum desses títulos pode conter a riqueza de sentidos desse ato sagrado. É importante que nos lembremos, antes de tudo, do sentido que damos ao termo que é usado para definir essa refeição sagrada: sacramento. Um sacramento tem sido definido, entre nós, como uma “encruzilhada” entre Deus e o homem – um ponto de encontro entre o humano e o sagrado. Um ato sacramental, como a Santa Comunhão ou o Batismo, por exemplo, distingue-se pelo seu uso de atos simbólicos, ou seja, de atos que expressam sentidos, e envolvem, além dos atos em si, palavras e (geralmente) objetos. Muitos pensam que nós unitaristas não acreditamos em sacramentos e não os celebremos. Enganam-se os que assim pensam. Historicamente, tem havida uma ampla interpretação do que seja um sacramento e de seu papel em nosso meio. É verdade que a maioria de nós tem compreendido a participação externa em tais sacramentos como sendo não necessária para o genuíno discipulado cristão – uma genuína relação com o Divino – ou para a admissão à comunidade cristã; mas, por outro lado, ainda que não enxerguemos os sacramentos como uma espécie de exigência para estarmos de bem com Deus, a maioria esmagadora de nós os celebra continuamente como, pelo menos, um memorial à nossa fé. A realidade da prática sacramental em 74


nossa congregação evidencia-se, por exemplo, quando pensamos no título recebido pelos ministros presbiterais em nossa comunidade: Ministro ou Ministra da Palavra e Sacramento. Eu, particularmente, compreendo o todo da vida como sendo um sacramento. Pessoalmente, não acredito que um ato ou um momento seja mais sagrado que outro. Assim, prefiro enxergar todos os momentos de minha vida – mesmo aqueles que outros veriam como sendo profanos – como momentos sagrados, e todas as minhas ações como atos sagrados. Obviamente, não espero que todos compreendam a vida como eu a compreendo, nem que moldem suas compreensões teológicas às minhas; mas, duma certa maneira, não há uma distinção tão grande assim entre minha compreensão pessoal e aquela abraçada por nossa comunidade de fé como um todo. Isso fica claro no momento em que novos membros são recebidos em nossa congregação. Aqui, na Congregação Unitarista de Pernambuco, apesar de o Batismo ser observado pela maioria de nossos membros, não há uma exigência de que alguém deva ser batizado para ser aceito como membro de nossa congregação. Esse tem sido um costume em nossa igreja desde sua fundação, já que, desde o início, tem havido pessoas com as mais diversas compreensões teológicas sobre o sentido dos sacramentos em nosso meio. O 75


mesmo se aplica à nossa compreensão da Santa Comunhão. Se observarem bem, verão que nem todos nós partilhamos do pão e do cálice em nossas celebrações. Os que não partilham desses elementos, não o fazem não por estarem em pecado. Não tomam desses símbolos simplesmente por não os verem como necessários à sua relação com a Providência. Esses cristãos unitaristas fieis compreendem cada momento, cada lugar, cada ato de suas vidas como sendo aquela encruzilhada – aquele ponto de encontro – com o Divino. E, para nós, não há nada de errado com isso. Nossa vida comunitária prova que é possível manter-se uma unidade convenial mesmo em meio a diferentes compreensões teológicas. Podemos enxergar nossa fé de diferentes maneiras e, mesmo assim, manter-nos unidos pelo que fazemos juntos, e não pela maneira como compreendemos cada aspecto de nossa fé e de nossa existência. O que nos unifica é nossa aliança – as promessas que fazemos uns aos outros diante de Deus – e não uma lista de crenças que nos mantenha artificialmente juntos. As palavras geralmente rezadas em nossa celebração eucarística são um testemunho de nossa compreensão do valor daquele ato simbólico. Alguns de nós podem entender aqueles símbolos como sendo a presença real de Jesus entre nós. Outros de nós podem entendê-los como sendo um símbolo da presença espiritual de Jesus entre nós. Outros, ainda, talvez a maioria de nós, os compreendem como um memorial da união que 76


Jesus espera entre seus discípulos e da unidade entre todos os seres humanos, representada por símbolos tão universais quanto o pão e o vinho. Essa compreensão de união é exibida em nossa recepção de absolutamente todas as pessoas aos símbolos eucarísticos: você não precisa ser um unitarista, não precisa ser membro desta congregação, nem membro de qualquer outra comunidade cristã para ter acesso à Santa Comunhão. Como esta é uma refeição presidida por Jesus, você é um convidado dele para participar dela. Se você recebe ou não a Comunhão, é entre você e Deus. Quando servimos esses elementos – o pão e o vinho –, o fazemos “em nome de todos aqueles e aquelas que, conhecidos ou desconhecidos, lembrados ou esquecidos, viveram e morreram como verdadeiros servos da humanidade”; em nome do espírito de amor ensinado por Jesus; e em nome da Providência, da Presença Eterna, de Deus. Assim, crianças e adultos, jovens e velhos, homens e mulheres, crentes ou descrentes, esquerdistas ou direitistas, heterossexuais ou gays, pobres ou ricos, nacionais ou estrangeiros, pretos ou brancos, afinal, todas as pessoas são aceitas à mesa cristã. Elas não precisam compreender aquele ato e aqueles símbolos da mesma maneira – só precisam ter o mesmo desejo de amarem e servirem a humanidade e, assim, estarão cumprindo o maior mandamento que Jesus nos deu. Sim, pois mesmo o que se diz ateu, ao amar e 77


servir a seu próximo, está, em verdade, amando e servindo ao Deus do universo. Que ao fim deste ato sacramental hoje, possamos repetir com toda força em nossos corações, mentes e almas as palavras que sempre rezamos: “Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”

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10 MINHA RESPOSTA À MORTE DE OSAMA BIN LADEN19

Como todos vocês, fui surpreendido pelo anúncio da morte de Osama Bin Laden, no último domingo; e, como alguns de vocês, fui tomado por um sentimento de reflexão quanto ao significado do acontecimento. Como alguém que teve uma relação muito próxima com pessoas atingidas pelo horror perpetrado por terroristas malucos, imagino o que muitas dessas pessoas possam estar sentindo agora. Como um cristão comprometido com o “espírito de Jesus” (o que chamo de “sola caritas”), seu ensinamento de amor e perdão, choco-me com as manifestações pseudopatrióticas de alguns de meus irmãos norte-americanos (apesar de compreender o que leva-lhes a agirem como agem). Como cristão, imagino a voz do rabino galileu ensinando seus seguidores a amarem seus inimigos, apesar de, como ser humano, saber o quão difícil é por isso em prática. É só pensar nas figuras vivas em nosso imaginário coletivo (Adolf Hitler, Wellington Menezes de Oliveira, o próprio Osama bin Laden, e tantos outros e outras), e tentar lembrar que Jesus se referia a pessoas como eles, a pessoas que fizeram o que eles fizeram – pois “amar”, na tradição dos evangelhos cristãos, não tem o 19 4 de maio de 2011.

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sentido novelesco ou hollywoodiano: amar era, e é, um exercício complexo e trabalhoso, uma missão. Como ser humano, e como cristão Unitarista, não celebro a morte (o assassinato) de nenhum outro ser humano. Não importa o quão horrendas tenham sido as ações perpetradas por essa pessoa. Como unitarista, acredito no valor e dignidade de cada um dos seres humanos sobre a terra, não importando se não vejam os outros seres humanos dessa mesma forma. Logo, o que foi feito a Osama Bin Laden é uma tragédia patética e uma sabotagem dos valores que nós ocidentais dizemos defender. É uma afronta aos valores liberais – em seu sentido político e religioso. É uma afronta ao Direito Internacional, e uma afronta aos ideais presentes na Constituição dos Estados Unidos. Os brasileiros e nacionais de outros países, que não os Estados Unidos, podem pensar que Osama Bin Laden não é seu problema. Estão enganados. Quando os Estados Unidos foram atacados, a lógica das ações dos terroristas era a de se manifestarem contra a ideia de mundo que o “Ocidente” (uma construção ideológica) representava. Obviamente, seu alvo principal era os Estados Unidos; mas as ideias que atacavam eram as ideias do mundo ocidental – liberdades política, ideológica, religiosa, financeira; diversidades sexual, cultural, religiosa, identitária, etc. Logo, todo o “Ocidente” foi juntamente atacado. Se não fora este o caso, por que não 80


atacaram apenas Washington? Por que Nova York, a chamada “capital do mundo” e sede das Nações Unidas? Na realidade, suas ações foram um ataque à humanidade (uma outra construção ideológica) – como conjuntamente a definimos em documentos aceitos pela maioria dos países membros das Nações Unidas. Pensando nas ações desses terroristas, somos impulsivamente levados a esquecer dos próprios princípios que levaram à sua repulsa pelo ideário ocidental e que nós dizemos defender. Um desses princípios é o de que os seres humanos têm direito a um julgamento justo (em termos do processo), têm o direito a se defenderem e mesmo o “direito” a pagarem por seus crimes de forma não arbitrária. Terroristas como Bin Laden e os membros de seu clube negam aos demais seres humanos esses direitos, mas, apesar disso, os princípios pelos quais dizemos viver afirmam que eles têm esses direitos (independentemente de suas ações). Quando agentes americanos invadem um país e matam a Bin Laden arbitrariamente, estão cuspindo nos princípios de nossas noções do que seja civilização e humanidade (princípios defendidos pela Constituição americana e que, supostamente, guiam as operações desses agentes), além de estarem zombando da memória das vítimas do 11 de setembro e de tantos outros episódios drásticos. A memória das vítimas de Bin Laden, assim como a memória da fundação de nossa noção de humanidade e civilização, seria(m) honrada(s) se ele tivesse sido levado a um tribunal 81


e julgado por seus crimes, e aí, então, tivesse pago o preço pelo que fez. É nisso que acredito, como humano e como um cristão unitarista.

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11 LEX ORANDI, LEX CREDENDI

Tenho aprendido com minhas três diferentes tradições cristãs – o anglicanismo, o luteranismo, e o unitarismo – a amar e a viver uma vida litúrgica que enriquece e alimenta minha fé. Como minha fé não está acorrentada a definições dogmáticas tão estritas como a de alguns outros cristãos, essa vida litúrgica tornou-se a declaração de fé mais audível que posso fazer aos céus, à terra, e a mim mesmo. Lex orandi lex credendi, como tem dito a Igreja historicamente, e como uma de minhas heranças cristãs (o anglicanismo) tem enfatizado – a lei da oração é a lei da crença, ou seja, aquilo que oramos/rezamos é nossa declaração de fé. Como um Ministro da Palavra e Sacramento, tenho a oportunidade de declarar minha fé todas as vezes que oficio uma celebração da Comunhão e todas as vezes que ensino do púlpito. Quando, na celebração da Comunhão, convido a todos os presentes a partilharem dos elementos eucarísticos – independentemente de quem sejam, do que creiam, de onde tenham estado, ou de serem membros de nossa congregação ou não – estou, na verdade, fazendo uma declaração explícita de minha fé no amor incondicional de Deus por absolutamente todos e na receptividade da comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré. Quando rezo a Oração de Despedida, ao 83


fim de nossas celebrações eucarísticas, estou fazendo uma declaração explícita de minha fé na vida e ressurreição de Cristo. Estou unindo minha voz à voz de outros cristãos unitaristas no mundo (sim, pouquíssimos, talvez) que compartilham com cristãos de outras famílias uma fé menos preocupada com definições dogmáticas muito claras, mas uma fé viva, preocupada em testificar o poder do amor transformador ensinado por Jesus em nossas ações do dia a dia (mesmo que, infelizmente, sejamos tão falhos em ser bons modelos de “amor cristão”). As palavras dessa Oração de Despedida formam um credo ao qual não tenho nenhuma objeção de juntar minha voz: “Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.” Além dessa oração, também sinto fazer uma declaração audível de minha fé quando pronuncio as palavras de nossa Aliança Batismal. Não deveria ser assim, mas essas são as palavras – a Oração de Despedida e a Aliança Batismal – que 84


mais amo rezar em toda a liturgia de nossa igreja, e esse amor surge porque me sinto desafiado por elas. Essas são orações que sempre me esbofeteiam, exigindo que me desperte do sono no qual permanentemente pareço cair. Essas são as palavras mais estremecedoras que rezo junto com a igreja. Os votos que fazemos, como membros desta comunidade cristã, dizem o seguinte: “Você continuará nos ensinamentos e comunhão dos apóstolos, na partilha do pão e nas orações? Sim, com a ajuda de Deus. Você perseverará na resistência ao mal, e, sempre que pecar, se arrependerá e retornará ao Senhor? Sim, com a ajuda de Deus. Você proclamará as boas novas por meio de palavras e ações, servindo a todas as pessoas? Sim, com a ajuda de Deus. Você defenderá a justiça e a paz dentre todas as pessoas, e respeitará a dignidade e o valor de todos os seres humanos? Sim, com a ajuda de Deus.” Essas palavras são um resumo esclarecedor da fé que abraço e partilho com outros cristãos. 85


Oxalá possamos transformá-las em ação nossas vidas diárias – é minha esperança.

em

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12 MEU CRISTIANISMO LIBERAL UNITARISTAANGLICANO-LUTERANO Como Peter Berger escreveu certa vez, perguntar a respeito das mudanças na mente dum indivíduo é “um convite ao narcisismo” 20. Não posso deixar de me entregar a essa perigosa atividade, mesmo correndo o risco de soar um tanto narcisista, porque creio que outras pessoas também passaram por processos semelhantes de transformação pessoal. Definir-me religiosamente tem sempre sido um desafio para mim. Sou um cristão liberal unitarista-anglicano-luterano. Quanta contradição há nessa auto descrição? Não sei. Sei que ela é um sumário de minha herança religiosa; uma tentativa de afirmação da vasta tradição que sempre foi parte de minha visão religiosa do mundo. Cresci com essas três heranças encrustadas em meu eu religioso. Do Unitarismo, que é a voz mais forte na linguagem teológica que uso para interpretar o universo, vem minha independência de pensamento e meu ímpeto para desafiar as representações da realidade que me tentam impor, além de minha tolerância e apreciação pelo diferente, enfim, vem meu não-conformismo. Do Luteranismo vem a lembrança de que, mesmo sendo um homem livre e inteligente, sou 20 BERGER, Peter. From Secularity to World Religions. In: Christian Century, 16 de Janeiro, 1980. p. 41.

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dependente daquela Realidade inexplicável que a tradição chama de “Deus”. Do Anglicanismo, vem meu amor pela tradição cristã, meu amor pela liturgia que me une aos cristãos de todas as eras. Das três tradições, ou de minha interpretação pessoal delas, vem minha compreensão do Cristianismo como sendo uma “ação”, muito mais do que apenas uma “concepção”. Sou um ministro ordenado de quatro diferentes denominações religiosas: uma Unitarista, uma Anglicana, uma Luterana, e uma Igreja Unida – que em seu seio, traz elementos de todas as já citadas. Sinto-me muito bem com essa aparente confusão de lealdades, pois, no fim das contas, sou fiel a apenas uma igreja: aquela comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré – aquele ser humano em quem reside minha compreensão de Deus e de meu relacionamento com a vida e com os demais humanos. Parece ser uma contradição que um sacerdote luterano-anglicano possa ser, ao mesmo tempo, um ministro Unitarista, ou vice-versa. Afinal de contas, onde ficam as compreensões de Deus, aparentemente contraditórias, dessas duas grandes tradições: os protestantes livres (Unitaristas) e os protestantes ortodoxos (Luteranos e Anglicanos)? Onde ficam as diferenças entre as duas tradições eclesiológicas: os congregacionais (Unitaristas e Igreja Unida) e os episcopais (Anglicanos e Luteranos)? E outras tantas aparentes contradições?... Bem, não tenho uma resposta simples para isso. Como não me 88


preocupo com respostas dogmáticas, com explicações que tenham validade permanente, essas diferenças são para mim supérfluas. Hoje não tenho mais ligações canônicas com a Igreja Episcopal ou com a Igreja Evangélica Luterana na América. Minhas ligações ministeriais se reservam à Igreja Unida e às várias associações ministeriais Unitaristas e Universalistas da qual sou membro. Foi uma decisão difícil, mas era necessária para que eu assumisse a liderança de minha comunidade religiosa. Essa não foi uma exigência da Associação Unitarista ou das outras duas igrejas (Anglicana e Luterana), mas era uma exigência de minha consciência. Ao mesmo tempo, essa foi uma decisão política e um manifesto teológico. Eu, pessoalmente, sou um cristão. Sou leal à minha compreensão de Deus e ao meu relacionamento com Jesus de Nazaré. Sou fiel à minha compreensão adogmática das Escrituras e da tradição cristã. Sou leal à voz do Espírito Divino entre nós Unitaristas, quando ela nos diz que devemos ter nossas mentes, nossos corações e nossos braços abertos para recebermos absolutamente todas as pessoas, independentemente de quem sejam ou do que acreditam ou desacreditam. Minha compreensão do Cristianismo tem passado por inúmeras transformações no decorrer de minha vida adulta, transformações essas que me fazem compreender minha fé como um processo e não com um fim. A fé religiosa é uma aventura, é uma jornada que 89


nos leva por caminhos sinuosos e que nos constrói e reconstrói continuamente. Esse caminho de variações, esse processo interminável, essa jornada sinuosa é o meu Cristianismo, é o Cristianismo que aprendi em meu confuso berço unitarista-anglicano-luterano, é o Cristianismo de minha comunidade Unitarista. Pode até parecer loucura aos ouvidos dos cristãos dogmáticos ou dos descrentes em religião, mas é assim que entendo meu Cristianismo Unitarista.

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13 SOLA CARITAS

A comunidade cristã se perde com muita facilidade em emaranhados teológicos inúteis. Ao menos, é o que acredito. Com isso não quero dizer que fazer teologia seja algo inútil. O que faço aqui é teologia – os visitantes mais “conservadores” podem entender essa como sendo “má teologia”, mas é teologia assim mesmo. Discutir nossas compreensões a respeito do sentido das questões mais elementares de nossa existência no mundo é fazer teologia. Para alguns, Deus é um elemento necessário a essa discussão – e é, ao menos para a maioria dos cristãos, não todos -, para outros, eu incluso, o elemento mais necessário nesta discussão é nossa relação com outros seres humanos e com a vida como um todo. Quando falo em “emaranhados teológicos inúteis”, me refiro às discussões dogmáticas que tiram de foco o espírito do ensinamento de Jesus. Muito do que ocorreu no universo teológico cristão durante as eras justifica-se pelas circunstâncias históricas: concílios, credos, reformas, confissões, etc. A Reforma Protestante alemã, por exemplo, trouxe-nos a sola fide (princípio material da Reforma) e a sola scriptura (o princípio formal da Reforma), que seriam complementadas por três outras no decorrer da construção do Protestantismo lutero-calvinista: solus Christus, sola gratia, soli Deo gloria. 91


Obviamente, como ocorreu com os textos dos credos surgidos nos primeiros séculos da igreja cristã, as confissões protestantes não falam nada sobre os ensinamentos de Jesus. Todos eles, os credos e as confissões, dos primeiros séculos até o século XIX, referem-se à morte de Cristo e a concepções sacrificiais para proclamarem a fé da igreja, mas deixam de fora todo o ensinamento de Jesus a respeito de amor, perdão, doação, caridade. O mais interessante é que a igreja teve de esperar pelos hereges para que declarações de fé fizessem menção aos ensinamentos de Jesus como sendo a base para um viver cristão autêntico: os unitaristas. Dessa ausência de menção explícita ao cerne da tradição cristã (=amor/caridade), foi de onde surgiu minha concepção pessoal de SOLA CARITAS. Ainda no Seminário passei a compreender que se tivesse de escolher uma noção capaz de sumariar os ensinamentos atribuídos a Jesus pelas Escrituras e pela tradição, essa deveria ser uma menção ao amor que ele proclamara em palavra e ação. Como unitarista, não acredito que Jesus tenha morrido para me salvar de meus pecados. O que me salva, em Jesus, é seu ensinamento. Jesus nos “salva” por nos mostrar o caminho para Deus. O caminho para Deus – que é amor – é a prática do amor, que é o próprio Deus (ou seja, o caminho de Jesus é um caminho infinito: para se chegar a Deus [=amor], você tem de “praticar” o próprio 92


Deus [=amor]). Esse amor, que os evangelhos chamam de “caridade”, é aquilo que foi espelhado na vida do próprio Jesus. Se Deus é amor, e se Jesus praticou o amor em sua vida e ministério, não é difícil chegar à conclusão de que Jesus realmente era uno com Deus. Por o amor ser parte integrante da vida do próprio Jesus, de acordo com os autores dos evangelhos, podemos afirmar, sem receio, que Jesus é divino, já que sua vida foi uma manifestação do próprio Deus [=amor]. É dessa justificativa, aparentemente confusa, e muito herética para alguns, que surge minha defesa da noção de SOLA CARITAS: o amor [=caridade] é o único caminho para Deus, é só através dele que somos “salvos”. Somente o amor / a caridade .

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14 PALAVRAS VERDADEIRAS OU FALSIFICADAS?21

(Leitura: João 6:56-69)

Para aqueles de vocês que têm participado da classe de adultos da Escola Dominical, onde agora estamos explorando um livro de Jack Miles, “Deus: uma biografia”, ou que tenham participado de outras discussões que tivemos anteriormente, isso não será novidade; para aqueles que não têm participado de nosso fórum de discussão, talvez esse seja um fato despercebido: a Bíblia é um clássico literário traduzido, conhecido em suas línguas originais apenas por um número limitadíssimo de pessoas. 22 Todos os que já foram meus alunos no seminário costumam brincar com a primeira pergunta que os faço quando começam a estudar comigo: “Alguém aqui já leu a Bíblia?”. Todos levantam as mãos. Alguns retrucam que não a leram completamente. Outros dizem que já a leram muitas vezes. Costumo, então, demonstrar minha alegria e perplexidade em saber que somos 21 Sermão proferido na Congregação Unitarista de Pernambuco, em 26 de agosto de 2012.

22 MILES, Jack. Deus: uma biografia. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. p. 124.

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um grupo de estudantes tão linguisticamente capacitados, e que isso facilitará em muito nosso trabalho durante o semestre – já que todos conhecem hebraico e grego tão bem! Os rostos mudam de expressão. “Mas além do hebraico e grego, também conseguem ler latim sem problemas?”... E o gelo é quebrado! A brincadeira que sempre faço com meus alunos tem a ver com o fato de a maioria das pessoas lerem traduções das Escrituras, e não os textos nas línguas originais das mesmas. Sei que aqui entre nós há outros tradutores além de mim. A Sílvia, por exemplo, é tradutora de alemão, e tem trabalhado conosco, no IRWEC23, traduzindo textos teológicos importantes. Semana passada, numa conversa, falávamos sobre a dificuldade em manter a inteligibilidade dum texto, ao mesmo tempo em que nos esforçamos para mantermonos fiéis à linguagem própria do autor do texto que estejamos traduzindo. Entretanto, independentemente do excelente trabalho de tradução efetuado por um tradutor ou um grupo de tradutores, quando lemos uma tradução, não estamos lendo o texto original – estamos lendo a interpretação daquele feita por um terceiro. Recentemente, ensinei um minicurso a um grupo de universitários não acostumado a questões como essas, e percebi o quão difícil foi, para alguns deles, entenderem que a “Bíblia” que discutíamos era uma construção histórica. Era uma construção, em primeiro lugar, por não ter 23 Instituto de Religião William Ellery Channing.

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“caído do céu” pronta – seus textos, independentemente da natureza que lhes atribuamos (i.e., se inspirados pelo Divino ou não), foram compostos e editados por humanos como nós durante um longo período de tempo; em segundo lugar, todos aqueles textos foram vertidos duma língua a outra, e (por muito tempo) dessa outra a uma terceira – e imaginem a dificuldade que se teria, antes de se ter acesso a tecnologias linguísticas tão sofisticadas (e, mesmo assim, limitadas) como as que temos hoje, para traduzir um texto do hebraico para o grego, e depois traduzir essa tradução para o latim: quantos “equívocos” linguísticos, e consequentemente, teológicos, não poderiam ter resultado disso?; em terceiro lugar, aquilo que chamamos de “Bíblia” não é um livro, mas, como indica seu próprio nome, que deriva do grego, é uma pluralidade, uma coleção de escritos – que não surgiram todos ao mesmo tempo e no mesmo lugar, nem foram compostos pelo mesmo autor, nem na mesma língua original! Imaginem o quão confuso e traumático isso pode ser para alguém que está acostumado a ler uma tradução que é tratada como uma obra única e original! A reação de muitas pessoas – seja um público mais geral, quando falo em ambientes fora de nossa comunidade de fé, ou seja em meio a um grupo de estudantes – tem sido a de surpresa e ofensa, quando falo de um tema tão natural como este: o fato de nossa Escritura Sagrada, em inglês e/ou português, no caso de nossa comunidade, ser 97


a tradução de uma construção histórica imperfeita. Como ouso tomar este tempo tão sagrado em nossa comunidade, no qual outros pregadores em outras comunidades cristãs estariam exaltando palavras extraídas de suas traduções da Bíblia, para chamá-la de construção histórica imperfeita, de criação humana, ou de uma simples tradução? Isso, em si, já seria evidência mais que suficiente de nossa heresia e não-cristandade, na visão de algumas pessoas. Mas, para aqueles que costumam se preocupar tanto em afirmar a biblicidade de sua fé, faço uma pergunta: onde, em sua tradução da Bíblia – ou em seu texto em hebraico e grego – está explícita e inequivocamente declarado que este volume que alguns costumam carregar em suas mãos com orgulho seja sinônimo de Evangelho? Onde está escrito que o centro da fé cristã é um volume de textos escritos e traduzidos por outros homens – e onde está listado que textos sejam esses, exatamente –, e não a vida, obra e ensinamentos daquele que todos os cristãos dizem seguir? Sempre penso que a questão por trás da insegurança que acompanha o enfrentamento da historicidade das bases teológicas de nossa fé seja, de fato, a questão da verdade. Pois se desafiarmos uma compreensão literal restritiva das narrativas bíblicas, por exemplo, estaríamos negando “a verdade”. O problema é que esse tipo de argumento só faz sentido se entendermos “verdade” como sinônimo necessário de 98


“factualidade” – um equívoco interpretativo cometido não apenas por cristãos fundamentalistas, mas também muito defendido por ateus militantes (quando se trata de suas críticas ao Cristianismo, em particular). A hermenêutica cristã fundamentalista – ou seja, a teoria que baseia sua interpretação dos textos sagrados – enxerga (quando lhe é conveniente, isto é) as narrativas bíblicas como relatos factuais. Assim, Jesus, de fato, caminhou sobre as águas; Moisés, de fato, abriu o Mar Vermelho; de fato houve um primeiro casal num Jardim do Éden etc. A leitura dessas tradições bíblicas não pode ser feita de maneira metafórica, pois a factualidade das narrativas é essencial para a veracidade da Escritura. A não-factualidade narrativa invalidaria a veracidade das palavras. Imaginem o efeito duma operação interpretativa como essa, se a mesma fosse aplicada à famosa pintura de John Trumbull representando a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos e à pintura de Pedro Américo que representa a declaração de Independência do Brasil por D. Pedro I: os eventos que representam não seriam verdadeiros, se os cenários não tivessem sido como representados naquelas obras de arte! Alguns poderiam argumentar que a narrativa cristã só é verdadeira se aquele suposto discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, que acabamos de ouvir na leitura do Evangelho de hoje, de fato aconteceu, ou aconteceu literalmente 99


como relatado. Não preciso reforçar que não compartilho dessa compreensão de “verdade”. Para mim, não importa se a tradição oral que deu origem àquela narrativa escrita tenha surgido apenas como resposta ao sentimento dos seguidores do rabino nazareno após o que veio a ser chamado posteriormente de “Ressurreição”, e que não tenha factualmente ocorrido como relatada ou que não tenha ocorrido de forma alguma. Para o espírito da tradição cristã, independentemente das peculiaridades de cada uma de nossas correntes teológicas, aquelas palavras são verdadeiras. Nós unitaristas, e outros cristãos e judeus liberais, diríamos que a “verdade” não se encontra nas palavras per se daquela narrativa, mas nos efeitos que as mesmas têm em transformar nossas mentes e ações; se elas ajudam-nos em nosso processo de Imitatio Dei (Imitação de Deus) e Imitatio Christi (Imitação de Cristo), elas nos levam à Verdade Eterna, então são verdadeiras – mesmo que sejam metafóricas. Na introdução de “Verdade e Método” (sim, estou usando uma tradução), o filósofo HansGeorg Gadamer, sugere algo interessante: em se tratando da investigação filosófica, seria uma fraqueza que alguém hoje não reconhecesse a verdade presente nos textos dos grandes filósofos do passado, como Platão, Aristóteles, Leibniz, Kant ou Hegel, achando que poderia construir sua própria filosofia sem beber da fonte desses

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pensadores24. Para mim, seu raciocínio pode ser aplicado ao universo teológico: como cristãos ou judeus, não podemos rejeitar a sabedoria e a verdade do passado, simplesmente por a linguagem dessa verdade ferir nossa sensibilidade moderna. O que podemos fazer é encarar as dificuldades interpretativas e buscar, por exemplo, na linguagem metafórica e simbólica a verdade que nos moverá para mais próximos à Verdade Eterna, o Divino que devemos imitar em nossas ações para com nossos vizinhos. O espírito das palavras das Escrituras, o espírito presente na tradição bíblica, e que molda a tradição cristã, é o que nos dá vida. O amor que Jesus exigiu daqueles que ousarem seguir-lhe para com Deus e o próximo é a verdade. Esse é o sentido misterioso e eterno que se esconde por baixo daquelas palavras antigas traduzidas e retraduzidas de nossos livros sagrados. Esse é o Evangelho!

24 GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 32-33.

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15 O EXÍLIO DA ALMA

(Leitura: Gênesis 28:10-15)

Para mim, uma palavra-chave resume toda a tradição judaico-cristã de forma mais plenamente metafórica que qualquer outra: exílio. As Escrituras, que enxergamos como testemunhas de nossa fé e tradição, estão imersas na ideia de exílio. Nossa relação com o Divino, o Nome que traz-nos e o todo da Criação à existência, é uma relação de exílio. A história de nossa espécie sobre este planeta é uma história de exílio. Exílio, êxodo, migração, errância e nomadismo são palavras que definem minha experiência humana e minha relação com a única verdade que continua ancorada em minha alma: Deus – o Mistério Eterno que aguça minha busca por uma permanência, em meio a todas as experiências de instabilidade identitária que têm modelado minha história até agora. Nas tradições judaicas e cristãs, encontramos uma complexa e contínua narrativa de exílio. O exílio das almas humanas neste planeta, afastadas da esfera do domínio divino. O êxodo do povo hebreu na terra dos egípcios. A migração pelo deserto físico. A errância do Filho do Homem na terra da dor e sofrimento. E o nomadismo espiritual que é parte da jornada 103


humana em sua busca pelo Divino. Nossa vida é uma existência de êxodo e exílio. Por que, em seu sonho, Jacó não pode também subir as escadas que levavam ao domínio divino, como os anjos o faziam? Por que foi a terra do exílio que o Divino ofereceu-lhe, quando poderia ter-lhe oferecido o destino final? 25 Aparentemente, o Deus de Jacó via o exílio como um privilégio, a possibilidade de ultrapassar o alcance das raízes identitárias que nos amarram e limitam; a oportunidade de ser divino também – no sentido de poder compreender a limitação da própria Criação. Por isso o sofrimento no deserto quente e seco do êxodo marca-nos a todos nós, mesmo aqueles que nunca deixaram os limites de seu próprio quintal. O filósofo Gilles Deleuze chamaria essa experiência exílica de “mobilidade”, e a compreenderia como sendo a essência do ser. Para ele, a mobilidade constituiria o instrumento da criatividade do ser. E eu não poderia discordar de Deleuze. Desenraizar-se, ou, talvez, como diria o apóstolo Paulo sobre Jesus26, esvaziar-se, é um ato revolucionário em si. É um ato corajoso de desafio àquilo que parece ser permanente em nós, mas que, ao nos tornarmos nômades, descobrimos ser transitório: nossa própria identidade. Qualquer um que tenha experienciado a migração, qualquer um que tenha enfrentado a distância, a solidão, a saudade, conhece a 25 Gênesis 28:10-15. 26 Filipenses 2:7.

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sensação de se agarrar ao que restou para permanecer sendo o mesmo. Mas à medida que o novo e desconhecido se abre e desnuda diante de nossos olhos, deixamos de temer, e passamos, talvez, a inserir pequenos fragmentos daquela novidade em nossa própria identidade. E nascemos de novo. Essa mobilidade, ou êxodo, ou exílio, é minha compreensão do “nascer de novo” da linguagem cristã. O exílio é o morrer e ressuscitar que devemos experienciar para que possamos nos tornar unos com Cristo. Sim, Deus acertou em não ter permitido que Jacó subisse a escada que levava aos céus. A terra do exílio ensina-nos muito mais.

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16 A JORNADA DE FÉ DUM HEREGE CONTEMPORÂNEO

Incontáveis vezes ouço aquelas mesmas provocações de ambos os lados do espectro: dos não religiosos, a provocação do como posso ser tão “estúpido” para acreditar em Deus e seguir uma religião – uma das razões para esse seu pensamento é que essas pessoas só conseguem enxergar a busca espiritual e religiosa como uma “necessidade de conforto” –; do outro lado, aqueles religiosos mais “tradicionais” (esse é um termo inapropriado para a ideia aqui, já que me considero muito tradicional, mas deixarei essa discussão semântica para depois!), que me provocam dizendo que não sou cristão por não entender a fé cristã da mesma forma que eles. Ambos os tipos de provocações já se tornaram uma rotina em minha vida ministerial e intelectual, a ponto de me cansarem de tédio! Honestamente, preferiria que alguém – fora de minha comunidade de fé, isto é – quisesse gastar seu tempo e o meu com uma discussão mais útil sobre fé, vida, e serviço cristãos. Um cristão como eu, que possui um background múltiplo – mergulhado nas tradições unitarista, anglicana, e luterana, além da tradição liberal judaica – está inserido demais num mundo teologicamente diverso para abraçar versões exclusivistas do Cristianismo. Estou muito 107


satisfeito com minha fé elástica, moldada por minha experiência do Divino e do mundo, com a qual minha compreensão daquele Mistério Eterno é moldada a cada novo instante. Minha fé não é uma fé de certezas e conforto. É, antes, uma jornada de descoberta, ao longo da qual abraço a plenitude do desconhecido e tento ouvir a voz daquele Mistério Tremendo, que chamo pelo nome de “Deus”. Minha fé não me garante que alcançarei um destino certeiro, pois a jornada é o que mais me importa. Quero a presença de Deus – paz, perdão, reconciliação, compaixão, amor, etc – aqui e agora, e não numa suposta glória pós-mortal. Acredito que o Divino se revela a cada momento da caminhada: quando nos acordamos e quando dormimos; quando choramos e quando sorrimos; quando sozinhos ou quando acompanhados; quando nos amamos e quando aborrecemos uns aos outros; quando nos abraçamos e mesmo quando nos ofendemos – em cada um desses momentos, podemos descobrir um aspecto novo da manifestação do Divino. Mais do que estar preocupado com a crença correta a ser abraçada pelo cristão (não que esta não seja importante, até certo ponto), preocupome com a ação correta daquele que se diz discípulo de Jesus. Para mim, é a prática correta – a ortopráxis – que define o verdadeiro cristão; e quando falo nesta “prática correta”, não me refiro à liturgia, mas à eticidade de nossas ações como cristãos para com todas as outras pessoas e para com o todo da Criação. 108


Todos que discordam de minhas ideias teológicas estão sempre muito dispostos a citar versos e mais versos das Escrituras para provarem que o que acredito é errado e não-cristão. É interessante como nossa prática cristã (especialmente no meio Protestante) tem sido a de tornar a Bíblia cúmplice de nossas concepções dogmáticas (religiosas ou políticas), com todos os lados fazendo uso da mesma coleção de escritos sagrados para legitimarem seus discursos. Não consigo deixar de pensar que a mesma Bíblia que era utilizada para legitimar a escravidão, até o século XIX, era também utilizada para denunciar essa prática como uma abominação diante de Deus; que a mesma Bíblia que era utilizada, por alguns, para legitimar a guerra, era também utilizada, por outros, para advocar o pacifismo; que a mesma Bíblia utilizada para justificar a submissão da mulher ao homem e de pessoas não-brancas a pessoas brancas, era (e ainda é) utilizada por outros para ensinar que o Evangelho proclama o fim dessas distinções diante de Deus. Apesar de não querer reforçar aqui a ideia de que Bíblia e Cristianismo sejam sinônimos – para mim, não são, pois ambos se complementam: a Escritura surge a partir da Igreja e a Igreja forma seu pensamento a partir do testemunho bíblico –, quero mostrar, nas Escrituras, exemplos (equivocadamente deixados de lado por alguns cristãos) de uma fé que sobrepuja nossa preocupação com dogma, verdade, certeza, exclusivismo; exemplos duma fé 109


extravagantemente graciosa, radicalmente inclusiva, e inflexivelmente compassiva. Exemplos bem diferentes daqueles tão frequente e convenientemente enfatizados pelos dois grupos de pessoas que costumam ter problemas com o pensamento de cristãos liberais como eu. Eis algumas dessas passagens das Escrituras que moldam minha fé cristã: Êxodo 22:20 Levítico 19:33-34 Isaías 58:6-10 Miqueias 6:8 Mateus 11:28-30 Romanos 10:12-13 Romanos 12:9-21 Romanos 13:8-10 Romanos 14:13 Tiago 1:26-27 Tiago 2:17 1 João 4:7-8 Essas passagens falam por si mesmas. Àqueles que costumam me acusar de politizar minha fé em excesso, só me resta usar esses poucos exemplos bíblicos como minha defesa e evidência de que as raízes bíblicas da tradição cristã é que tornam a fé uma questão “política” (isto é, uma questão de nossa inter-relação com o todo da Criação de Deus). E é justamente por isso que a fé cristã tem relevância em minha própria experiência – porque Jesus e, consequentemente, 110


o Cristianismo me chamam à ação, me convidam a participar na obra de reconciliação de Deus. Por isso posso acreditar em Jesus e ser seu seguidor!

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17 POLITIZANDO A FÉ OU CRISTIANIZANDO A POLÍTICA?27 Este é mais um ano de eleições em nosso paraíso utópico. Mais um daqueles períodos que se repetem a cada dois anos, no qual teremos de escolher nossos supostos representantes políticos – que, neste ano de 2012, limitam-se à esfera municipal. Este é um daqueles anos nos quais a face de “lobos” sociais – e sim, deem a essa expressão um sentido bem pejorativo! –, se revestirão duma áurea angelical, tentando fazer com que seus eleitores esqueçam-se da indiferença, incompetência, irrelevância, e mesmo traição, que caracterizaram seu tempo anterior na esfera pública (por eles “privatizada”!). Se isso não é verdade sobre todos aqueles que buscam reeleição, estou convencido de que seja verdade sobre a maioria deles. Mesmo em muitas igrejas cristãs, esta se torna uma época na qual os sanguessugas do povo se escondem por trás duma máscara de devoção e fé, recitando com seus lábios corruptos e imorais os nomes de Deus, de Jesus, e versículos bíblicos, na imoral esperança de arrancarem os votos dos crédulos desesperançados. Isso me enoja e me enfurece!

27 Sermão proferido à Congregação Unitarista Pernambuco, em 27 de julho de 2012.

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Para um unitarista como eu, devoto defensor da absoluta separação entre Estado e Igreja, é vergonhoso que a fé cristã seja maliciosa e imoralmente “politizada”, ao mesmo tempo em que a política é também maliciosa, imoral e corruptamente “cristianizada”. Se é verdade que, individualmente (enquanto cidadãos), os cristãos levarão suas convicções teológicas consigo para a esfera de suas decisões políticas (o que é perfeitamente natural!), isso não significa rebaixar os valores e a linguagem do Evangelho ao discurso do jogo político no tabuleiro de xadrez dos atores do poder. E o mesmo vale na direção oposta: não se pode cuspir nos princípios constitucionais, impondo-se uma falsa interpretação da Liberdade e da Democracia apenas para agradar ao paladar religioso duma certa plateia. Considero isso imoral, além de uma traição dupla – uma desgraça ao espírito da cidadania (se é que isso existe no Brasil!) e um escárnio do espírito cristão (se é que isso existe na Igreja!). Interessa-me, profundamente, a questão da politização da fé. O termo é problemático, já que a fé cristã per se é uma questão política, considerando-se que só se é cristão pleno em comunidade. Logo, argumentar contra a “politização” da fé cristã pode parecer uma grande contradição. Quando falo em “politização”, entretanto, utilizo esse termo com um sentido mais próximo daquele a ele dado em nossas conversas informais. Assim, politizar a fé seria

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transformá-la em instrumento para alcançar finalidades políticas (leia-se “politiqueiras”). A história recente do cenário político brasileiro nos mostra aonde isso nos leva. Os “pastores” tais, os “irmãos” tais, que se aproveitam da incapacidade crítica de seus eleitores – e crítica não apenas no que tange à esfera civil, como também no que concerne à esfera teológica! – para conseguirem sequestrar seu voto, e deleitarem-se na imoralidade que tornou-se sinônimo da política nacional! Os corruptos pseudo-cristãos que formaram uma bancada imoral no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas estaduais, e nas câmaras municipais Brasil afora para defenderem não as causas de seus eleitores, mas as causas de seus interesses pessoais por poder e fortuna. É a “política gospel” brasileira, e ela me enoja!!! Não pensem, contudo, que apenas cristãos fundamentalistas e conservadores, ou evangélicos semianalfabetos se engajam – mesmo que indiretamente – nesse tipo de empresa herética por meio de seus votos e/ou ativismo. Nós, cristãos liberais e moderados, constantemente cometemos erros semelhantes – mesmo que nossas intenções pareçam mais nobres (direitos iguais para cidadãos LGBTs e para mulheres, proteção do meio ambiente, etc). Lembro-me, por exemplo, das discussões que tivemos para decidir se nossa congregação – enquanto instituição – apoiaria uma tradicional passeata organizada por entidades que se 115


apresentam como representantes da comunidade LGBT em nossa cidade. Por eu ser abertamente gay para nossa comunidade de fé, alguns entre nós pensaram que me poria em favor de nossa participação. Aparentemente, não compreendiam o fato de eu apoiar a clássica compreensão unitarista de separação dos cenários religioso e político. No contexto desse exemplo da “Parada da Diversidade”, aquelas entidades não estavam lá para defender ou apoiar as mesmas coisas que nós, como comunidade de fé, defendemos e apoiamos. Sim, nós pregamos a igualdade de direitos para todos os cidadãos. Sim, nós pregamos a tolerância e a apreciação àqueles que diferem de nós. Sim, nossa comunidade tem há anos celebrado a presença e plena participação de indivíduos LGBTs entre nós – e eu, melhor que ninguém, posso testificar disso. Mas nós, enquanto comunidade cristã, assim o fazemos por compreendermos que nossa fé nos conclama a isso: Cristo nos chama a amar e receber a absolutamente todos – é assim que nós unitaristas e outros cristãos liberais interpretamos nossa fé cristã. O que motiva eventos como a tal Parada não é isso; sua bandeira política não se encaixa perfeitamente com a bandeira teológica desta comunidade de fé enquanto instituição. O mesmo se aplica a questões como movimentos de trabalhadores rurais, movimentos feministas, e movimentos ambientais. Mesmo que cada um desses pareça defender causas nobres – 116


que, em muito se assemelham a alguns de nossos princípios teológicos –, suas motivações residem em algumas visões e anseios políticos que contradizem a essência da teologia de nossa comunidade de fé (novamente, enquanto instituição, já que, individualmente, somos livres para defendermos as ideias que quisermos). Por essa razão, julgo como sábia a decisão desta congregação de não se envolver institucionalmente em atividades explicitamente políticas como essas, apesar de sempre incentiválos a, individualmente, serem cidadãos politicamente ativos e se engajarem nas causas políticas nas quais acreditam. Creio que a melhor coisa que esta igreja pode fazer para ajudar o Brasil é continuar a ensinar a mensagem cristã como a compreendemos. Enquanto instituição religiosa, essa é nossa missão e nosso dever. A mensagem do Evangelho, como a compreendemos, juntamente com toda instrução secular possível, ensinará nossos filhos a serem bons vizinhos, amantes da Liberdade e da Democracia, cidadãos honrados que defenderão os direitos constitucionais democráticos e que cumprirão suas obrigações civis de acordo com os ditames de sua consciência individual. Essa é a melhor contribuição política que podemos fazer a este país e ao mundo. Não precisamos politizar nosso cristianismo, nem cristianizar nossa política.

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Como o próprio Jesus supostamente ensinou: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”28.

28 Mateus 22:17-21.

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18 MINHA MENSAGEM DE PÁSCOA29

Frequentemente, quando falamos acerca das grandes tradições religiosas mundiais, tendemos a unificar cada uma delas, como se fossem grandes blocos maciços. Assim, nos referimos ao Cristianismo como se este fosse uma coisa única, como se pudéssemos listar características que definem o Cristianismo e que devem ser subscritas por todos aqueles que desejam ser reconhecidos como cristãos. Infelizmente, esse não é um equívoco cometido apenas por aqueles que olham para as tradições religiosas – e especificamente para o Cristianismo – a partir de fora, ou apenas em nossas conversas informais. Esse equívoco é cometido dentro do próprio corpo de fiéis cristãos que formam aquilo que chamamos de Igreja (num sentido bem largo e amplo para o termo, o sentido que geralmente dou a ele). Na história cristã encontraremos repetidos esforços para a definição do que vem a ser o “verdadeiro” Cristianismo e de quem são os “verdadeiros” cristãos; e, obviamente, todas as vezes que encontramos declarações do que seria a “verdadeira” fé cristã, necessariamente encontramos lá uma cerca de 29 Mensagem de Páscoa aos leitores de “A Voz Unitarista”, publicação da Congregação Unitarista de Pernambuco, e do blog “Cristianismo Unitarista”, em 2012.

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exclusão – um sistema de renúncia de fraternidade àqueles que pensam diferentemente de nós. Chamo essa atitude exclusivista para com aqueles cristãos fiéis que pensam de maneira diferente de “equívoco” porque acredito plenamente que isso fere o espírito do Evangelho. Para mim, não há um Cristianismo; há Cristianismos. É só pensar nas várias tradições que formam a Cristandade: a Ortodoxia Oriental, o Catolicismo Romano, o Luteranismo, o Anglicanismo, a tradição Reformada – em suas mais diversas formas –, o Anabaptismo, o Quaquerismo, o Unitarismo, o Restauracionismo, e tantas outras formas de Cristianismo. Cada uma dessas peças do grande tabuleiro que forma a tradição cristã tem sua própria compreensão do que é ser cristão e de qual seja a ênfase da mensagem cristã. Cada uma delas e, consequentemente, cada um dos indivíduos que delas são parte, é fiel ao chamado de Cristo de sua própria maneira, e moldados por suas próprias compreensões e convicções. Para algumas dessas tradições cristãs, é essencial crer que as palavras dos credos históricos da Igreja cristã representem uma verdade factual, objetiva. Assim, quando alcançamos essa época do Ano Cristão, quando celebramos a Páscoa – compreendida pela maioria dos cristãos como uma celebração da vitória de Cristo sobre a morte por meio de sua ressurreição dentre os mortos –, essas tradições enfatizam em suas liturgias o poder transformador da fé 120


intelectual, da fé enquanto assensus (assentimento, aceitação, crença). Considero esse aspecto da fé – o assensus – como muito importante, especialmente se o aliarmos ao seu lado prático (nossas ações), que a Carta de São Tiago, por exemplo, afirma ser condição essencial para a validade da mesma 30. Contudo, não compreendo esse aspecto intelectual da fé como sendo mais importante que o espírito de comunhão ensinado, de acordo com os registros dos autores dos Evangelhos, pelo próprio Jesus. Assim, para mim, minha fé só está viva se posso encontrar um assento para meu próximo em minha mesa; só é válida se for capaz de alargar meu círculo de irmandade também para aqueles que acreditam de forma diferente, ou que não acreditam de forma alguma. Não posso deixar de pensar em Martinho Lutero como uma de minhas primeiras inspirações para essa compreensão. Ele ensinou que a diferença entre a Lei e o Evangelho era a seguinte: a Lei nos diz o que fazer, e o Evangelho nos diz o que Cristo faz. Apesar de eu ter um problema com esse tipo de discurso que parece identificar a tradição hebraica (a Lei) – de onde saiu o “Evangelho”, devo enfatizar –, como uma forma de legalismo incompassivo (noção essa que considero, no mínimo, equivocada), ele esclarece muito aquilo que acredito ser o cerne da mensagem cristã: eu, enquanto ministro cristão, não posso (ou não devo) pregar o que os cristãos 30 Tiago 2:17.

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devem fazer ou acreditar, já que isso seria pregar a “Lei” – na compreensão de Lutero, sequer devo exigir que se acredite, mesmo no Evangelho; o que posso e devo fazer, é simplesmente proclamar aquilo que Jesus (supostamente) disse e fez, e esperar que essa narrativa se transforme em assensus no coração daquele que ouve. Como um Unitarista, não estou tão preocupado com se meus ouvintes acreditarão ou não em minhas palavras acerca de Jesus. Na verdade, é muito mais comum que, assim como eu, suas mentes sejam um tanto endurecidas para o aspecto assensus da fé. Mesmo assim, vos direi como entendo essa data tão importante para a tradição cristã – a Páscoa: Em minha compreensão da mensagem de Jesus e de seus discípulos, a morte e a ressurreição desempenham o papel mais importante da linguagem do Evangelho. Esses termos, quando combinados, possuem uma força metafórica inerente à narrativa cristã. Na narrativa sobre o próprio Jesus, ele morre e em seguida volta à vida (de forma gloriosa), e, assim, torna-se o modelo daquilo que acontecerá com os que ouvirem sua voz. Nós também podemos morrer e, em seguida, voltarmos a viver. Devemos morrer para tudo aquilo que nos separa do Divino – o ódio, a cobiça, a não-compaixão, a servidão, o temor, o descuido para com o próximo e para com a criação, a falta de integridade, o exclusivismo, a noção de superioridade espiritual ou seja lá qual for, etc –, e permitir que Jesus (ou qualquer outro 122


ou outra que possa nos ajudar a experienciar o Caminho) nos mostre o Caminho que nos levará de volta à vida – compaixão, caridade, misericórdia, justiça, amor, hospitalidade, etc. Essa nova vida é a Ressurreição que celebro nesta data. A Ressurreição de Cristo, que não posso garantir que tenha ocorrido enquanto evento histórico, é uma metáfora da ressurreição que Deus – aquele Mistério inominável e tremendo – opera em meu coração e mente todas as vezes que me abro para recebê-lo. E essa ressurreição, e a nova vida que ela traz, está aberta a absolutamente todas as pessoas: o que inclui crentes e descrentes, ateus e agnósticos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, ortodoxos e hereges (como eu)... essa, para mim, parece ser a mensagem de Cristo; esse, para mim, é o Evangelho; esse é o meu Cristianismo! Não se trata de apenas uma crença intelectual, é uma opção de vida, é um estado de espírito! Feliz Páscoa! Bençãos a todas e todos!

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19 DEUS E MINHA ÉTICA ESPIRITUAL: DIVAGAÇÕES TEOLÓGICAS

Frequentemente sou interpretado erroneamente por meus leitores ou ouvintes no que tange à minha compreensão do Divino e da fé religiosa. Compreendo que muito dessa confusão se deva ao meu (proposital) hábito de brincar com as palavras, às quais atribuo uma elasticidade que nem todos estão dispostos a atribuir; mas, por outro lado, também acredito que deva-se à falta de disposição que alguns têm de se esforçarem para entender o que penso. Deus, enquanto noção, é uma dessas palavras que compreendo como possuidora duma elasticidade que estou disposto a explorar o quanto posso. Como tenho repetido há alguns anos, “Deus”, em minha compreensão, é a mais bela metáfora já criada pela mente humana; uma metáfora tão real para a experiência humana que, infeliz e contraditoriamente, chegamos a nos matar para defendermos nossas interpretações particulares dela. Deus – o Divino, a Realidade, a Providência, o Eterno etc – é uma realidade inquestionavelmente presente em minha experiência pessoal. Não que eu compreenda esta realidade como sendo um Ser – Deus, para mim, não é um Ser. Deus também não tem uma natureza pessoal, apesar de eu não ter problema 125


nenhum em fazer uso duma linguagem metaforicamente pessoal para referir-me ao Divino. Compreendo essa realidade como se tratando mais dum Processo Transpessoal do que duma pessoa. Mas essa é apenas minha interpretação pessoal – bem, na verdade, não propriamente “minha interpretação”, mas a interpretação de muitos outros que adotei (com minhas próprias adaptações) como minha. Que diferença faz minha visão para a forma como escolho viver minha fé? Muita. As ideias ortodoxas sobre a relação entre Divino e humanidade, que se espelham, por exemplo, nas leis religiosas que regem o comportamento dos fieis, não fazem muito sentido para mim – isto é, se forem usadas como bases únicas para nossas escolhas comportamentais. Prefiro enxergar minha relação com a Criação – e, consequentemente, com Deus (não que eu equalize Deus à Criação; o que creio é que a Criação esteja no interior de Deus = “panenteísmo”) – como regida por uma “ética espiritual”. Essa “ética espiritual” consiste nas lentes através das quais interpreto minha relações com os demais seres e com o Divino. Escolho acreditar que a “ética espiritual” judaico-cristã-islâmica, ou “jordânica” para 31 abreviar , baseia-se na “regra de ouro”: fazer ao 31 Uso essa nomeclatura [tradição jordânica], em vez de “abraâmica”, como reconhecimento de que essas três fés irmãs se desenvolveram a partir das ideias teológicas desenvolvidas na região banhada pelo Rio Jordão.

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outro aquilo que esperamos para nós mesmos, demonstrando “amor” ao próximo como a nós mesmos, e assim, demonstrando que amamos a Deus. Chamo essa minha compreensão de “sola caritas” – novamente, esta não é “minha compreensão” no sentido de eu ser o originador da mesma, ela está enraizada na tradição jordânica. Consequentemente, é a maneira como me relaciono com os demais (incluindo aí o todo da Criação) o que realmente importa. Apesar de eu crer em (a realidade de) Deus, julgo ser possível abraçar uma “ética espiritual” sem factualizar uma metáfora como Deus – no que eu não estaria distante de minha própria tradição unitarista. Hoje, para evitar o teologuês, tenho preferido usar o termo COMPAIXÃO, em lugar da frase latina que resume minha compreensão teológica. Minha fé pode melhor ser resumida como compaixão. É essa a base de minha fé pessoal, o alvo que intento para minhas ações. Acredito ser esse o caminho apontado pelos profetas, por Jesus, e por aqueles que testificaram sobre seus ensinamentos.

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20 FÉ E CIÊNCIA: REALMENTE DIFERENTES?

Numa discussão amigável com colegas na noite passada, mais uma vez deparei-me com a recorrente questão das distinções entre “religião” e “ciência”. Para os dois colegas com quem conversava – pessoas muito instruídas e de vasta cultura, devo enfatizar –, a distinção mais marcante entre as duas (religião e ciência) é que enquanto a religião opera por meio da fé, a ciência o faz por meio da razão; sendo, então, a diferença de métodos sua principal distinção. Simples assim! Nem um pouco diferente do que tenho ouvido da maioria das pessoas durante a maior parte de minha vida; em minha visão, uma explicação deveras simplista, equivocada, e discriminatória. Aqueles meus dois amigos, um químico e uma bióloga, não se dão conta do quão falsa é sua ideia. Pensemos um pouco: a teologia cristã tradicional – que era o objeto de nossa discussão –, não opera apenas por meio de fé (com “fé” aqui tendo um sentido um tanto distinto do que habitualmente lhe atribuo, sendo, para eles, apenas um sinônimo de “assensus” → o que eles chamaram de “fé”, chamo de “teologia”), já que depende plenamente de argumentação, dedução e razão lógicas; um exemplo disso pode ser encontrado nas obras dos teólogos medievais, que eram obras-primas de análise lógica e argumentação racional. 129


Em nossa discussão ontem, nos centramos apenas no Cristianismo – já que foi algo que minha amiga ouvira que serviu para iniciar a conversa –, mas as maiores tradições religiosas do mundo, especialmente as que chamo de tradições jordânicas (Judaísmo, Cristianismo, e Islã, em suas mais variadas formas), são tradições intelectuais que envolvem a transmissão dum conhecimento específico e a crítica racional do mesmo (=Teologia → desta vez com “T” maiúsculo!). Para facilitar, deixem-me explicar isso doutra maneira: “tradição” aqui refere-se à transmissão dum conhecimento (seja ele prático ou teórico) duma geração à outra; nesse sentido, tanto a ciência quanto a religião são tradições. As duas – ciência e religião – são tradições intelectuais, já que o que transmitem é uma forma de conhecimento que requer uma crítica racional. Enquanto a ciência busca a descoberta de novos conhecimentos, a religião busca a compreensão e consequente fidelidade a (e, dependendo do caso, a proclamação de) uma mensagem ou revelação já recebida. Voltando ao exemplo dos teólogos medievais, poder-se-ia dizer que sua argumentação, apesar de racional, baseava-se ou estava limitada por certos aspectos da “fé” (assensus) religiosa. Entretanto, se pensarmos bem, veremos que a argumentação dita “científica” não se diferencia tanto assim daquela usada pela Teologia (mais uma vez, com “T” 130


maiúsculo!). A ciência, como a conhecemos, incorpora um grande número de “afirmações de fé” simplesmente para que continue a funcionar. Enquanto a ciência supostamente emerge da evidência empírica, que é uma das características que a definem, ela também lança mão de muitas suposições implícitas: por exemplo, muitos cientistas naturais abraçam a “fé” de que estão estudando algo real, de que o mundo físico que estudam realmente existe, de que tem uma existência independente fora deles mesmos; outra suposição é a de que o mundo seja uniforme, que siga uma “lei” regular; uma outra, ainda, é a de que se pode confiar em nossos sentidos – ou seja, de que podemos confiar que estamos recebendo informações confiáveis, seja por meio de contato direto com o objeto estudado ou por meio de informações recolhidas por instrumentos, e que podemos confiar em nossa capacidade de interpretar essas informações corretamente. Todas essas são suposições que não podem ser comprovadas como verdades factuais; entretanto, sem elas, a ciência seria impossível. Elas possuem a mesma natureza da “fé” como compreendida por meus dois amigos: assensus. O reconhecimento dessas suposições implícitas não diminui a importância ou sentido que atribuo à ciência, apenas demonstra que a base para nossas afirmações de conhecimento acerca de nossa realidade se encontra fora do domínio da razão. Isso, entretanto, não implica que seja irracional. Apenas demonstra que o 131


exercício da razão humana tem seus limites, e que é moldado por suposições/crenças (“fé”, na linguagem de meus dois amigos) sobre as quais construímos nossas próprias representações do mundo.

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21 POR QUE NÃO ENSINAR O CRIACIONISMO NA ESCOLA?

O cenário era a apresentação dum seminário que tratava, entre outras coisas, sobre o multiculturalismo e o relativismo cultural. A professora, uma doutora em sociologia, numa aparente provocação acerca do papel do conhecimento científico na escola, questionou os alunos (eu incluído entre esses) por que razão se podia ensinar na escola sobre a teoria do Big Bang como explicação das origens de nosso cosmos e não o Criacionismo, levando-se em consideração que “não podíamos provar nenhum dos dois”. Quando lançou aquela pergunta, alguns de meus colegas presentes na sala instintivamente olharam para mim, como se dissessem “ela te pegou!”. E eu, infelizmente, não pude responder sua “provocação” (?) na hora, já que estávamos no meio duma apresentação de seminário e darlhe uma resposta seria um desrespeito àqueles que apresentavam o seminário. Entretanto, gostaria de dizer a meus colegas: Não, ela não “me pegou”. Ela caiu numa armadilha muito perigosa, mesmo que sua intenção fora apenas fazer uma provocação – o que, honestamente, espero ter sido o caso, apesar de não haver soado como só isso; em suas observações, ela soou como se ela realmente

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acreditasse no que disse (de que não há diferença entre ciência e mitologia). Há uma grande diferença entre um mito religioso – que, devo esclarecer, não é sinônimo de mentira – e uma teoria científica. A teoria do Big Bang não é uma explicaçãozinha que nasceu como fruto duma política multiculturalista e relativista que diz que tudo é bom e válido (devo esclarecer que esta é minha provocação contra o que ouvi ontem!). Ela está baseada em leis que descrevem eficientemente os fenômenos naturais que podemos observar. Apesar de não podermos afirmar que nossas explicações científicas acerca de nossas origens estejam plenamente certas, elas são o melhor que temos até hoje. A questão aqui é: qual o papel da escola? Os estudantes religiosos podem ouvir explicações religiosas em suas comunidades religiosas, ou, podem escolher frequentar uma escola religiosa. Os alunos duma escola pública, laica, têm de estar expostos às explicações científicas e laicas, já que sua escola é mantida por dinheiro público. Além disso, vejo a escola como uma ligação entre os alunos e sua herança cultural, o que inclui a ciência. O sistema escolar não exclui a religião, e, além disso, a Constituição Federal garante o pleno direito religioso no país – logo, não se pode sugerir que os religiosos não tenham a liberdade legal de buscarem explicações religiosas fora da escola (o que não foi o caso daquela professora). Se um aluno aprende ciências, são as teorias científicas

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que deve aprender e não explicações baseadas em mitos religiosos. Outro problema causado pela (suposta) provocação da professora é a questão do uso do termo “teoria”. Em ciência, o termo teoria não tem o sentido dado-lhe em nossas conversas cotidianas – como quando alguém diz: “Teoricamente, você tinha de fazer isso” -; a teoria científica é um sistema explicativo da realidade, que envolve fatos que se correlacionam sob um mesmo modelo teórico, cujas predições se confirmam, dentro dos limites nos quais seus pressupostos podem ser aplicados. Apesar de, na ciência, não se supor ter uma explicação definitiva – já que as teorias estão sujeitas à revisão – é tolice querer equacionar os achados da ciência com as noções mitológicas que construímos como interpretação do mundo. Só alguém que não conhece o que faz a ciência, nem entende o que intenciona a religião, além de não compreender o que se pretende na escola, nem sabe o que significa “Criacionismo”, pensaria que tanto faz ensinar o Big Bang ou o Criacionismo (que não é a explicação bíblica, nem ortodoxa da Criação – é, antes, uma construção reacionária duma nova interpretação dos relatos bíblicos). Deus nos proteja dessas concepções!

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22 DEUS, QUESTÕES COSMOLÓGICAS E UMA VISÃO OTIMISTA DA REALIDADE

Ouvi certa vez de um amigo, enquanto conversávamos sobre Deus e a origem do Universo, que eu era muito pessimista. Ele entendia que por eu abraçar uma visão científica da origem da vida e por não enfatizar uma crença no sobrenatural ou numa existência espiritual, minha visão seria “pessimista”. Bem, tenho de discordar de meu amigo. Não tenho uma visão teísta sobrenaturalpersonalista, ou seja, não enxergo Deus necessariamente como um ser pessoal que controla o Universo e intervém de maneira “sobrenatural” na história. Creio em Deus. Com isso quero dizer, creio na Realidade de Deus. Creio firmemente que existo dentro de Deus, que minha realidade está contida na Realidade do Divino (Atos 17:28). Não vejo Deus necessariamente como uma pessoa, apesar de, algumas vezes, fazer uso dessa metáfora personalista tradicional. Penso que a metáfora dum Deus pessoal é útil para o desenvolvimento de certos aspectos de nossa espiritualidade (especialmente uma que esteja enraizada na tradição judaico-cristã). O problema, para alguns, reside no fato de eu alegremente abraçar uma visão científica da origem de nosso Universo – e, consequentemente, de nossa própria origem. Pessoalmente, não vejo 137


conflito entre as explicações e interpretações míticas oferecidas por nossas tradições religiosas e as outras explicações (também “míticas”?) oferecidas pela ciência moderna. Não vejo conflitos porque vejo nessas tradições narrativas o exercício de diferentes funções – funções essas que são moldadas pelas necessidades, compreensões e experiências de diferentes povos em diferentes tempos, lugares e circunstâncias. A história de nosso Universo, que ainda não foi contada em todos os seus detalhes – e que, talvez, nunca será -, é fascinante. Vivemos num Universo que se expande numa velocidade incrível, e não apenas porque ele de fato se expande, mas também porque a nossa própria compreensão dele está num processo de expansão interminável: todos os dias descobrimos mais e mais a respeito da realidade que nos cerca e da qual somos parte, e, assim, reescrevemos nossa história cósmica. Um Deus pessoal criou nosso Universo? Mas se esse Deus pessoal criador foi a origem de nosso Universo, onde ele estava antes de o Universo ser criado? Estava em outro Universo? Mas se estava em outro Universo, quem criou aquele outro Universo?... O Big Bang foi a origem de nosso Universo como o conhecemos? Mas o que originou essa fuga cósmica primordial? O que deu origem àquele Universo denso e quente?... Não é que não existam explicações científicas convincentes para a origem do Universo, é só que tudo é tão difícil de 138


entender para mentes tão limitadas temporal e espacialmente. As duas explicações, a religiosa e a científica, exigem um amplo exercício de criatividade imaginativa para que as compreendamos. E essa é a graça de tudo. Para alguém que acredita em Deus, e que busque uma resposta teológica, talvez a pergunta primordial seja: O quê é Deus, afinal de contas? E fazer-se esta pergunta, tentando ouvir as vozes de diferentes fontes (a tradição narrativa da religião e a da ciência), não torna alguém um “pessimista”, pelo contrário!

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23 MINHA DUPLICIDADE IDENTITÁRIA E O ESPÍRITO DO ADVENTO32 Esta é a época do ano na qual mais tenho de lidar com as dificuldades em minha multiplicidade de identidades religiosas. Vivo num terreno nem sempre muito confortável de contínuas escolhas que, para outras pessoas – alheias a meu universo cultural –, podem parecer problemáticas. Como explicar a essas pessoas que sou um judeu e um cristão ao mesmo tempo? Adentremos a confusão! Em primeiro lugar, devo enfatizar que não sou nem um judeu nem um cristão tradicionais. Também não sou um “messiânico”. Não sou um judeu que acredita que Jesus de Nazaré seja o Maschiah – o Messias de Israel. Também não sou um cristão judaizante! E, obviamente, não sou um trinitarista – ou seja, não acredito que o homem Jesus de Nazaré (se, de fato, foi um personagem histórico – o que acredito positivamente) fosse divino, no sentido de ser “um” em essência com Deus. Também não sou um teísta sobrenaturalista – não acredito num Deus pessoal que reja o Universo de algum ponto da realidade. Sou um judeu étnico, herdeiro da tradição Reconstrucionista, e que, como tal, enxerga o 32 Mensagem de Advento aos leitores de “A Voz Unitarista”, publicação da Congregação Unitarista de Pernambuco, e do blog Cristianismo Unitarista, em 2011.

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Judaísmo como uma civilização religiosa da qual sou parte – e da qual, até certo ponto, escolho ser parte. Essa civilização é, metaforicamente, meu “direito de nascença” e escolho abraçá-la de forma que faça sentido para mim. Logo, vejo o Judaísmo, primariamente, como a (principal?) janela intelectual através da qual vejo o mundo e dou sentido à minha existência. Ao mesmo tempo, também me considero um cristão, e pelas mesmas razões. Como filho duma família multireligiosa, vejo a tradição cristã que herdei – a tradição Unitarista Anglicana – como a janela religiosa através da qual enxergo representações do divino, filtradas por minha janela intelectual. É um casamento perfeito para mim. Essa duplicidade cultural – que a maioria dos judeus veriam como assimilação, e a maioria dos cristãos como heresia – é parte de quem sou, e é algo do qual não me envergonho. Essa é, até certo ponto, a experiência de muitos outros judeus e unitaristas no mundo ocidental. Diferentes famílias se juntam, trazendo para a nova que se forma duas diferentes tradições religiosas, e o que resulta disso?... Bem, em minha experiência, uma fidelidade àquilo que é comum a ambas tradições, e uma rejeição daquilo que as separa. Como o Reconstrucionismo (o meu lado judaico) e o Unitarismo (o meu lado cristão) têm tantos pontos comuns, essa ponte não é tão complicada assim de ser construída.

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A aparente confusão que se configura – especialmente para os brasileiros, que não estão acostumados a esse tipo de duplicidade identitária, tão comum na América do Norte – torna-se ainda mais escandalosa quando ouso dizer que gosto de pensar em mim mesmo como religiosamente cristão, cultural e intelectualmente judeu, eticamente humanista, e politicamente secularista, além de simpático às espiritualidades budista e muçulmana. Nada mais unitarista que isso! E agora, ao adentrarmos o Advento, uma dificuldade caracteristicamente minha se apresenta. O que faz um ministro unitarista, que se apoia sobre um território de dupla fidelidade cultural-religiosa, para proclamar o espírito do Advento? Minha resposta: proclama aquilo que, oxalá, caracteriza a todos nós... a humanidade. O espírito que o Advento traz à minha espiritualidade é a de reafirmar a condição de humanos de todos nós – mesmo que para isso, faça uso duma linguagem metafórica acerca da “encarnação” do divino em um homem de Nazaré há dois milênios atrás. Todos nós somos seres humanos – seja lá o que isso queira dizer – e partilhamos o mesmo mundo, devendo, assim, encontrarmos formas de vivermos juntos neste mundo, em paz. Deus – essa metáfora criada por nós para nos referirmos àquilo que não podemos compreender plenamente acerca de nós mesmos e dos mistérios do cosmo – torna-se durante esta época do calendário cristão o canal através do qual damos nome à nossa 143


esperança de convívio pacífico entre nós. Para mim, o nome mais apropriado deveria ser “humanidade”!

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24 DEUS E O SOFRIMENTO HUMANO

Sempre fico muito aborrecido quando ouço pessoas – pessoas que creio estarem sinceramente muito bem intencionadas – insinuarem ou dizerem a outras que há um propósito para o sofrimento pelo qual passam, que Deus faz uso da dor para ensinar-nos alguma lição cósmica. Para algumas dessas pessoas, tudo na vida acontece por uma razão espiritual. Para elas, Deus utiliza a dor e o sofrimento para tornar-nos pessoas melhores e mais elevadas espiritualmente. Elas acreditam que Deus faz uso das guerras, da violência, da tortura, da fome, dos desastres naturais para trazer-nos de volta aos “seus caminhos”. Minha resposta, obviamente, tem sempre sido a de que não posso acreditar num Deus que utilize violência, tortura, e assassinato de seres humanos para ensinar-nos qualquer lição que seja. Não posso aceitar um plano divino que inclua estupro, homicídio, e tragédias, por exemplo. Essas pessoas me dizem que todos nós aprendemos com essas experiências e, logo, não podemos negar que tenham um sentido. Minha resposta a isso é que algumas pessoas realmente conseguem extrair algum aprendizado de situações trágicas como essas, mas outras (talvez

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a maioria) são destruídas e definham por dentro, nunca se recuperando. Enquanto posso aceitar que crescemos e aprendemos com o sofrimento e com a dor, não posso aceitar uma religião que ensine que essa é a razão pela qual sofremos na vida. O grande problema com esse pensamento é que se tudo que ocorre tem uma razão de ser, então não há nada bom nem mau, e tudo é moralmente neutro. Não posso aceitar que a violência cometida contra uma pessoa ou contra um povo seja útil nem, especialmente, que seja o plano de um Deus inteligente e benevolente. A coisa mais patética a respeito dessa forma de pensar é que ela culpa a vítima pelo que lhe ocorreu. A vítima da tragédia é culpada porque se ela tivesse sido mais inteligente, teria aprendido a vontade divina antes, e não precisaria passar por aquilo! Às vezes, alguns aparecem com uma visão que parece ser mais sofisticada, dizendo que a razão para passarmos por sofrimento aqui é porque devemos ter feito algo errado numa vida passada. Esse pensamento os ajuda a manterem a ideia de que o mundo é justo e perfeito. Eu, entretanto, não acredito que o mundo seja justo nem perfeito. Desastres naturais acontecem. Pessoas boas adoecem e morrem. Desastres naturais acontecem, por exemplo, porque é desta forma que o universo físico está estruturado, e não porque as pessoas que morreram nesses desastres mereciam morrer 146


dessa forma, ou porque as pessoas que ficaram precisavam aprender uma lição. Pessoas morrem em decorrência de doenças porque nossos corpos físicos são mortais, limitados, e eventualmente desfalecerão, morrerão, e se desfarão em pó, e não porque seja um plano de Deus para ensinar aos sobreviventes uma lição. Eu não posso aceitar um Deus que ensine lições por meio do assassínio de crianças e adultos. Não posso apreciar uma religião que ensine ideias horríveis como essas. Ao conversar com pessoas que acreditam nessas coisas, tenho o desejo de ajudá-las a abrirem suas mentes e tentarem enxergar um metro à sua frente. E oro para que usem o intelecto e a liberdade com os quais foram abençoadas para sonharem, viverem, sofrerem e mesmo morrerem de maneira mais digna.

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25 A NECESSIDADE DA ECCLESIA

“Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles.” 33

Há algo que não podemos esquecer quando pensamos no Cristianismo: não existe a possibilidade de ser cristão isoladamente. Como cristãos, precisamos dum grupo que nos ajude a ouvir a voz de Deus. Essa comunidade é a igreja. Quando converso com pessoas que buscam uma forma de ser cristão que não inclua o dogmatismo, a intolerância, o conservadorismo social, e o exclusivismo e fundamentalismo teológicos característicos do cristianismo (especialmente protestante) praticado em nosso país, constantemente dizem-me que não precisam duma “igreja” para estarem em comunhão com Deus. Por conta de suas experiências desastrosas com a religião organizada, muitas dessas pessoas constroem uma forma de espiritualidade demasiadamente individualista e, inconscientemente, perdem um dos sensos mais importantes da tradição cristã: o senso de ecclesia. A tradição cristã afirma que para estarmos em comunhão com Deus, devemos estar em comunhão com nossos irmãos e irmãs em Cristo – 33 Mateus 18:20

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o que, para mim, inclui não apenas os demais cristãos, mas toda a família humana. Apesar de pessoalmente não compreender a Divindade como uma Trindade, no sentido dado a este termo pela ortodoxia cristã, creio que esta palavra indica o quanto a noção de comunidade é cara para a tradição cristã: até mesmo Deus é uma comunidade. É importante enfatizar que a igreja é um grupo de pessoas, e não prédios, doutrinas ou cerimônias. A igreja é aquele conjunto de pessoas que, em um tempo e lugar particulares, estão dispostas a servir de testemunhas do amor de Deus e dos ensinamentos e exemplos de Jesus. Negar-se a ser parte da igreja é abrir mão disso. A igreja precisa ser fortalecida por novas vozes, já que ela é uma encarnação da ideia cristã de sociedade. Como igreja, nós cristãos temos a oportunidade de pôr em prática aqueles ensinamentos de Jesus que nos moldam como seus seguidores. E só podemos fazer isso em comunidade. A comodidade do isolacionismo é um “luxo” (?) não disponível à vida cristã. Com isso, entretanto, não quero dizer que não possamos ser parte duma igreja não convencional. O que conta, em minha opinião, é a comunidade (a ecclesia). Minha igreja poderia ser uma visita a um orfanato, a uma residência de idosos, a um hospital. Minha oração e meus sacramentos poderiam ser (devem ser) o serviço ao meu próximo. Quando condeno o individualismo, refiro-me especialmente àquele 150


isolacionismo intelectualóide que se conforma com sentar-se em casa e criar interpretações religiosas pseudo-espirituais, não pondo em prática a religião de Jesus. Isso, para mim, não é cristianismo – é qualquer coisa que queira chamar, não cristianismo. Como um ministro cristão, obviamente vejo a comunidade da igreja – a comunidade de fé, a ecclesia – como necessária. O que rezamos, o que fazemos, o que aprendemos, o que criamos, o que ensinamos, em comunidade é parte de ser igreja. Estar distante disso, isolado dessa comunidade, é privar-se de ser moldado pelo espírito cristão. Confio na promessa atribuída a Jesus: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles”. Certamente podemos interpretar de diferentes maneiras o que Jesus quis dizer com “estiverem reunidos em meu nome”, mas seja lá qual for o sentido que dermos à expressão, ela certamente se refere a uma comunidade de pessoas, e não a um indivíduo que voluntariamente escolha o isolamento.

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26 SER CRISTÃO HOJE

Quando lemos as Escrituras, exercemos todos a função de intérpretes da grande e vasta tradição cristã. Isso ocorre no protestantismo, de forma mais ampla, mas isso também ocorre no catolicismo, já que mesmo que os oficiais da Igreja sejam os intérpretes da tradição (e as Escrituras estão inclusas aí), o indivíduo, em sua vida diária, interpreta seu mundo e sua tradição religiosa. Se o que escolhemos são aquelas linhas dogmáticas, preconceituosas, tribais, e violentas das Escrituras como sendo o cristianismo, essa é uma opção interpretativa individual (ou, em alguns casos, coletiva também), mas é apenas uma opção. As Escrituras estão repletas de afirmações satisfatoriamente convincentes de que o espírito do cristianismo, a essência de nossa vasta tradição, não se resume a dogmas doutrinários, mas a um caminho de vida: um caminho de amor, perdão, compreensão, compaixão, serviço; uma caminhada com Deus, que só é possivelmente materializável quando se torna uma caminhada ao lado de nosso próximo. Ser cristão hoje significa, em minha própria interpretação da tradição cristã, olhar para o mundo e trabalhar em seu processo de cura. Trabalhar para que as pessoas sejam livres: livres para pensarem o que quiserem, livres para serem quem são, livres para se tornarem melhores, livres 153


para produzirem e usufruírem do que produzem. Significa que eu, como cristão, devo proteger e cuidar dos mais fracos: e dentre os mais fracos não estão apenas os mais pobres e os doentes; estão também aqueles que sofrem discriminação por não se encaixarem em um perfil esperado – os que tenham alguma limitação física ou mental, os que tenham uma orientação emociono-sexual diferente, etc; estão aqueles que cometeram erros no passado e estão dispostos a viverem uma nova vida. Ser cristão hoje significa trabalhar para proteger o planeta no qual vivo – suas fontes de água, suas florestas, seus animais, seus oceanos, seu ar. Significa ser uma voz para os condenados por crimes que estão em cadeias onde não têm a chance de se regenerarem, onde não têm a mínima chance de alterar seu futuro, e de onde sairão, muitos deles, ou para voltar ao crime ou para enfrentar um mundo onde serão marginalizados e forçados às sombras. Ser cristão hoje significa trabalhar por uma transformação na educação e saúde, por melhores oportunidades de autonomia socioeconômica individual através do trabalho. Significa trabalhar para que as crianças e jovens de hoje tenham um futuro melhor, e para que os idosos tenham dignidade em sua vida hoje. Ser cristão hoje significa estar ao lado da paz justa, incondicionalmente, e por ela trabalhar incansavelmente.

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Essa é a única “verdade” religiosa a qual me submeto. Esse é o meu cristianismo. Esse é o meu credo. Miqueias 6:8 Isaías 58:6-10 Mateus 7:12 Mateus 25:31-46 Romanos 12:10-21 Romanos 13:8-10 Tiago 1:26, 27 Tiago 2:17

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27 THEORIA: VISÃO DE DEUS

Não tenho nenhuma reserva em afirmar que não tenho certeza de absolutamente nada. Não posso afirmar com plena segurança que tenha certeza infalível de nada. Isso inclui minha fé. Creio na realidade de Deus, mas não acredito que Deus exista da mesma forma que todas as outras coisas ou pessoas existem. Em minha compreensão, o Divino transcende a existência. Transcendendo a existência, Deus também transcende nossa compreensão e, consequentemente, nossa linguagem. Sendo assim, Deus transcende nossas fórmulas doutrinárias e nossas demais construções teológicas. Para mim, a forma menos limitada e limitadora de se falar acerca de Deus é a forma metafórica da linguagem poética. Não acredito num Deus que se assenta num trono governante em algum lugar objetivo do cosmo. Creio num Deus no qual nos movemos, somos e existimos. Num Deus no qual imaginamos, amamos, sussurramos, dançamos, criamos, crescemos, e deixamos de existir. Creio num Deus no qual vozes proféticas se elevam, vozes de todas as crenças, vozes iluminadas, e vozes equivocadas. Meu Deus não é um ser, mas é o próprio ser. Meu Deus é a existência, a vida e a origem deste Universo e de todos os outros universos. 157


Neste Deus ocorreu o Big Bang, e a consequente expansão cósmica. Dentro dele há matéria escura e partículas ínfimas, e há um espaço crescente. Meu Deus é real, mas ele não existe pois ele é a própria existência. Meu Deus é um Nome, mas ele é mais que palavras. Meu Deus é uma visão, é a theoria (θεωρία).

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28 INTERPRETAÇÕES LITERAIS DAS ESCRITURAS Esta é minha resposta à pergunta de um amigo em um fórum de discussões. Como muitas vezes respondo a perguntas semelhantes, resolvi incluir esta resposta aqui. “Gibson, Qual a interpretação que a sua igreja faz daquelas passagens do Novo Testamento onde Cristo expulsa demônios, anda por sobre as águas, cura enfermos, ressuscita mortos, etc? Qual o significado dessas passagens fora do contexto da interpretação literal?” (pergunta no fórum)

Em princípio, devo dizer que “minha igreja” não possui uma interpretação oficial dessas passagens. Posso interpretar essas passagens de uma maneira, e posso encontrar dentre outros membros de minha comunidade uma interpretação completamente diferente da minha. E isso não é um problema para nossa vida comunitária. O que nos une não é uma lista de crenças em comum, mas a aliança que temos entre nós e Deus. A compreensão que cada um de nós temos, você e eu e todos os outros, das Escrituras vem das lentes com as quais enxergamos o mundo. 159


Cada um de nós utiliza, mesmo que não tenha plena consciência disso, certas bases teóricas para filtrar nossa percepção das coisas, e isso inclui nossa percepção dos textos sagrados. Eu, por exemplo, abraço certa compreensão acerca da origem do universo que tornaria uma crença literal no relato da Criação, como no Gênesis, algo impossível para mim, pelo menos agora. Isso não torna o relato uma mentira. Trata-se apenas de uma outra maneira de falar a respeito do começo de tudo. Eu creio que as explicações dadas pela teoria do Big-Bang façam mais sentido para mim – a Criação como um processo que ainda não terminou, outra pessoa pode acreditar que uma Criação perfeita ocorrida em seis dias e executada por um Deus pessoal – uma Criação temporalmente localizada e executada – faça mais sentido. Considero isso até certo ponto indiferente para nossa busca espiritual. Tenho uma compreensão não muito dogmática do sentido da palavra “verdade”. Essa palavra é importante para essa nossa discussão aqui. O sentido que dermos a essa palavra é o que vai definir, em grande parte, nossa compreensão desses relatos bíblicos que você aponta. Para mim, a verdade é relativa. E quando digo “relativa”, estou me referindo à raiz latina desta palavra (relativus, a, um), ou seja, a verdade está sempre relacionada a um tempo, lugar, pessoa ou pessoas. Para as pessoas que viveram durante o início da igreja, provavelmente os relatos acerca de milagres 160


sobrenaturais eram verdadeiros, como o são para pessoas hoje que têm uma compreensão do mundo diferente da minha, e como são para mim (mesmo que para mim dizer que aqueles relatos sejam verdadeiros não equivale a dizer que são factuais, que tenham ocorrido como foi relatado). Eu não sinto a mínima necessidade de acreditar em eventos sobrenaturais para acreditar em Deus – em minha experiência, a realidade de Deus não exige a factualidade de relatos sobrenaturais. Mesmo não tendo a necessidade de factualizar a verdade – ou seja, torná-la algo objetivo e verificável, literalizá-la -, creio que seja válido fazê-lo, já que para algumas pessoas isso é uma necessidade. Essa factualização – tornar a verdade como algo necessária e literalmente verificável, objetiva – é uma necessidade construída pelo mundo moderno. Mas, se olharmos para a história do pensamento teológico cristão veremos que desde o início temos tido uma variedade de interpretações bíblicas. Duas escolas de pensamento se desenvolveram na interpretação bíblica pelos pais da igreja: a escola alexandrina (a escola de Clemente, Orígenes e Dídimo), que se baseou em antigas tradições interpretativas judaicas e nas ideias de Filo de Alexandria, e que permitia uma interpretação metafórica das Escrituras; e a escola antioquina (a escola de Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo), que enfatizava uma interpretação mais literal das Escrituras.

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Quando olhamos para o método de interpretação bíblica dominante na Idade Média, vemos uma diversidade ainda maior, encarnada na Quadriga (o senso quádruplo das Escrituras): o sentido literal, o sentido alegórico/metafórico, o sentido tropológico ou moral, e o sentido analógico. E então, depois do Iluminismo, surge uma ênfase exagerada na interpretação literal das Escrituras, especialmente entre protestantes mais conservadores. E o domínio dessa visão é tão difundido que as pessoas chegam a pensar que o literalismo seja a única opção interpretativa no mundo teológico cristão, o que não é. Por outro lado, entre liberais, pode-se também acreditar que a única saída seja correr para uma direção o mais distante possível da literalidade. Eu, entretanto, como um cristão unitarista, escolho permanecer dentro da própria tradição cristã: a tradição do equilíbrio. Assim, posso enxergar aqueles relatos como tendo algo de histórico (sentido literal), como servindo de símbolo para algo (sentido metafórico), como um ensinamento ético para a conduta cristã (sentido tropológico), ou como algo que aponta para a esperança cristã no fim da jornada (sentido analógico). Talvez tudo isso de uma vez só. Então, não, não posso indicar uma resposta. Mas posso afirmar que a própria tradição cristã oferece meios para alcançarmos uma resposta por nós mesmos.

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29 SAIR DO ARMÁRIO: UMA RESPOSTA À PROVOCAÇÃO DUM AMIGO DESCONHECIDO

Caro Amigo, Sou gay. Isso é algo sabido por todos, mas que preciso reafirmar aqui. E a razão para isso é simplesmente por questão de integridade pessoal. Quero que fique muito claro a partir de que lugar falo. Eu sou muito mais do que apenas minha orientação emociono-sexual. Sou um ser humano pleno, e minha emociono-sexualidade é apenas um aspecto de minha humanidade. Como um ser humano, é importante ter esse meu lado apreciado por outras pessoas de minha comunidade, da mesma maneira que ter todos os outros meus lados apreciados é importante. Quando digo “apreciado”, quero, em verdade, dizer “respeitado, reconhecido, afirmado, personalizado”. Não necessito que outras pessoas “aceitem” minha orientação emociono-sexual como algo belo e magnífico, quero apenas que aceitem o fato de essa orientação ser uma parte de minha identidade, da mesma forma que sua orientação emociono-sexual é parte de sua própria identidade. Vejo o “sair do armário”, assim, como um rito de passagem para o ser um humano mais pleno, e sou feliz por ser parte de uma tradição 163


religiosa que honra o “sair do armário” como um ritual sacramental. No Unitarismo, todos nós “saímos do armário” – heterossexuais, homossexuais, bissexuais ou transsexuais. Todos somos livres para, se quisermos, declarar à nossa comunidade o que descobrimos ser nossa orientação ou identidade sexual, já que a vemos como um dom divino. “Sair do armário”, para alguns no “mundo lá fora”, parece ser sair à rua com uma bandeira colorida na mão, ao som de música eletrônica, circundado de personagens caricatos. Ou, talvez, seja essencialmente uma questão política. “Sair do armário” para um unitarista é ter a oportunidade de estar diante de sua comunidade e poder dizer “é este ou esta que eu sou e peço a vocês que me abençoem e fiquem do meu lado”. Em uma comunidade unitarista, um jovem gay, por exemplo, pode conhecer um outro jovem e pode contar com o cuidado, apreciação e apoio que qualquer outro jovem teria. Ele não precisa se esconder, como se estivesse fazendo algo errado e inaceitável, algo horrendo e maldito. Não. E é exatamente por isso que ele, assim como um jovem heterossexual também, tem a oportunidade de “sair do armário”, se quiser. "Sair do armário" em minha visão política, religiosa, ideológica, não é forçar a minha verdade a outras pessoas. É simplesmente poder ser quem eu sou, e não ser discriminado legalmente nem agredido por isso. Não é ter direitos especiais, mas simplesmente ter os mesmos direitos, e estar sob 164


as mesmas obrigações, que todas as outras pessoas têm e estão. É bom que eu diga aqui que me oponho à criminalização de ideias homofóbicas. Apoio, sim, a criminalização da violência contra toda e qualquer pessoa - incluindo gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e heterossexuais -, mas, para isso, não precisamos duma nova lei, já que a Constituição Federal afirma que todos são iguais perante a Lei. Acredito na liberdade de expressão e opinião. Acredito que as comunidades religiosas possam, sim, discriminar entre aqueles que delas queiram ser parte. Elas podem decidir que determinados comportamentos ou perfis não sejam condizentes com suas ideias. Logo, discordo de sua perspectiva a respeito do que deveria ser feito legalmente para punir a discriminação. Creio que devamos sair, todos nós, de “nossos armários”. Nossos “armários” de medo. Nossos “armários” de dor. Nossos “armários” de receio. Nossos “armários” de solidão. Saiamos de nossos “casulos” de separação e nos afirmemos como membros de uma única família: a família humana – aquela família unida pelas mais diversas cores, línguas, nacionalidades, culturas, crenças, orientações emocionais e sexuais, idades, rendas financeiras, etc. Essas diferenças não deveriam nos separar, mas sim nos fortalecer. Elas são um dom divino. Bençãos, e tudo de bom!

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30 VOCÊ É “O MILAGRE”!34

“No princípio, Deus criou o céu e a terra.”

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Com essas palavras, os antigos escolheram iniciar uma história, um relato da criação. Não havia nada inicialmente, apenas Deus. Não havia espaço, não havia tempo. Deus então criou o cosmo. Todo o universo era do tamanho de um grão de areia. Pequeno e extremamente quente. E agora, olhem para tudo ao nosso redor! Não somos um milagre – somos o milagre! Quando olho para o céu à noite, desde muito pequeno, tento imaginar o que extraterrestres pensariam de nós e de nosso mundo. Olho para as estrelas no céu e me inquieto quando imagino que não estou vendo as estrelas, mas sim a luz enviada de algumas delas há milhares de anos atrás. Você está no presente, olhando para o passado, preocupado acerca do futuro. Pelo menos é isso que acontece comigo muitas vezes. Até alguns anos atrás, me sentia quase que esmagado quando pensava no Universo. Quando pensava no tempo e no espaço. Afinal, somos o produto de cerca de 13,7 bilhões de anos de 34 Discurso aos jovens da Congregação Unitarista de Pernambuco, 30 de outubro de 2010. 35 Gênesis 1:1.

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história. Já parou para imaginar esse tempo? Quase quatorze bilhões de anos! Eu só tenho trinta e dois, e às vezes já me sinto muito próximo do que chamam de velhice, agora imagine o Universo. A distância que separa nosso Sistema Solar do centro de nossa galáxia, a Via Láctea, é de 26 mil anos-luz. E a distância que separa o Sistema Solar da galáxia mais próxima de nós (Cão Maior) é de 25 mil anos-luz. Já imaginou esta distância? Teríamos que viajar com a mesma velocidade da luz no vácuo, isto é, 299.792.458 metros por segundo, durante vinte e cinco mil anos para alcançar Cão Maior, ou por vinte e seis mil anos para alcançar o centro da Via Láctea. É uma distância e tempo inconcebíveis para minha imaginação! E o Universo? É só pensar que até a década de 1920 pensávamos que a Via Láctea fosse o Universo inteiro. Dentro dela temos entre 200 e 400 bilhões de estrelas. E hoje calcula-se que o Universo seja composto por entre 30 e 50 bilhões de trilhões de estrelas, organizadas em 80 a 140 bilhões de galáxias. O objeto mais distante de nós que podemos ver hoje é um quasar (um buraco negro rotativo alimentado com matéria) que está a cerca de 13 bilhões de anos-luz de distância – ou melhor, que estava lá 13 bilhões de anos atrás. Só pensar nisso já é fascinante e desconcertante! Quando comparados a todo esse tempo e todo esse espaço, parecemos irrelevantes. Parecemos. Mas, na verdade, creio que temos uma importância incontestável. Afinal, não conhecemos 168


outros seres que possam pensar a respeito dessas coisas. Pelo menos, não até agora. Os antigos, que não tinham o conhecimento que hoje temos do Universo, encontraram formas poéticas para explicar seu lugar no tempo e espaço. Encontraram um espaço para o Mistério, e deram-lhe um nome: Deus. Hoje, muitos pensam que não há mais espaço para esse Mistério. Eu discordo. Não consigo explicar o que é a vida. Não consigo explicar o que é o amor. Não consigo explicar a alegria que sinto quando aprendo mais, quando escrevo uma música, ou quando abraço um amigo que não vejo há muito. Não consigo explicar a dor que sinto quando perco alguém próximo, quando vejo imagens de vítimas de guerras, ou quando vejo um amigo sofrer. Não consigo explicar a revolta que sinto quando ouço discursos que incitam a violência e a intolerância, quando vejo pessoas sendo tratadas como se não tivessem importância. Essas coisas são um mistério para mim, e as explicações que geralmente dão acerca disso não são suficientes para aliviar minha sede por uma resposta. Essas coisas tem uma relação com aquele Mistério inexplicável, com aquela Presença que chamo de Deus. Todos nós temos um valor incalculável. Absolutamente todos. Não importa os erros que tenhamos cometido. Não importa se não nos encaixamos naquilo que outros esperam de nós. Não importa se não temos o que outros têm. Não 169


importa se não nos parecemos com os famosos da TV. O que realmente importa é que somos humanos e, como humanos, compartilhamos um passado, um presente e um destino comum. Caminhamos juntos, rodopiando no mesmo planeta, na mesma galáxia, no mesmo cosmo. Você e eu temos um lugar garantido na história deste nosso Universo. Nossas alegrias, nossas dores, nossos amores, nossas confusões, nossas dúvidas, nossos encontros, nossos desencontros, nossa música, nossas palavras; a melodia que nos acompanha durante nossa curtíssima existência física, e a melodia que acompanhará a lembrança que terão de nós quando nossa existência chegar ao fim; tudo isso define nossa importância no Universo – no tempo e no espaço. Portanto, não se sinta menor, nem pequeno. Você não é pequeno. Você não é menor que nada. Você é o milagre – aquele milagre iniciado há mais de 13 bilhões de anos atrás, aquele milagre que continuará por mais tempo. Não importa quem você é, ou onde você está em sua jornada de vida. Não importa o que você fez, ou como você está agora. Você é o milagre. Você é o milagre.

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31 UM CRISTÃO “AGNÓSTICO”? Ontem vi um episódio de um de meus programas favoritos da tevê, que, talvez, muitos de vocês não conheçam: Cara & Coroa, na TV Brasil. Se não conhecem o programa, meu conselho é que tentem assisti-lo um desses dias. É um programa muito inteligente e inspirador, que desconstrói a barreira artificial existente entre gerações etárias, apresentado por João Rocha Lima (o cara) e Milton Coelho da Graça (o coroa). No episódio de ontem (exibido às 20h00), o tema tratado era a religiosidade, e numa conversa entre um dos apresentadores (Milton Graça) e um dos entrevistados (o profº Gilbraz Aragão, da Unicap), ouvi esta pérola:

Milton Graça: É possível ser religioso sem acreditar em Deus? Gilbraz – depois de pensar por algum tempo: Acho impossível ser profundamente religioso sem em algum momento desacreditar daquilo que se convencionou chamar Deus.

Com poucas palavras, muita maturidade, e muita sensibilidade, o Professor Gilbraz foi capaz de resumir tudo o que muitos cristãos liberais, tudo o que muitos unitaristas, têm dito há muito. É 171


impossível, em minha experiência, desenvolver uma fé pensada, equilibrada, profunda, sem que se passe por momentos de crise e escuridão, momentos de descrença e, talvez, de desconstrução. Muitas pessoas podem se confundir quando me ouvem falar a respeito de minha “descrença”. Muitas vezes, para provocar – o que é uma característica muito destacada em minha personalidade -, digo que não acredito em Deus, e alguns que me ouvem pensam que se trate de uma confissão aberta de ateísmo. Isso aconteceu recentemente depois de um sermão meu em minha comunidade religiosa. Entretanto, todas as vezes que faço provocações como essa, ao mesmo tempo reafirmo minha fé na realidade de Deus. Como acredito que as palavras tenham um peso muito grande no sentido que damos a afirmações teológicas, gosto de enfatizar minha fé na “Realidade de Deus” e não na “existência de Deus”. Em minha teologia pessoal, essas duas expressões têm um sentido completamente diferente. O que significaria dizer que “Deus existe”? A existência é uma qualidade que atribuímos a pessoas ou coisas; obviamente, podemos atribuí-la a ideias e sentimentos também – por exemplo, poderíamos dizer “existe um sentimento de irmandade entre nós”, e estaríamos nos referindo a algo subjetivo; mas, como tradicionalmente usamos este verbo para falar em Deus como 172


sendo uma “pessoa” separada de nós, com uma “existência objetiva” – ao menos, é a impressão que tenho quando ouço “Deus existe” -, prefiro usar uma expressão que não carregue em si o peso das concepções usuais e que não encerre em si noções muito ligadas a ideias de correção absoluta. É por isso que não digo “Deus existe”, mas “Deus é Real” ou “Deus é uma Realidade”. Sou um descrente nas concepções a respeito de Deus construídas pela ortodoxia cristã. Não acredito no Deus ensinado pelos grandes teólogos da igreja cristã, e, em alguns casos, não acredito nas concepções de Deus ensinadas por alguns antigos unitaristas. Naquele Deus pessoa, todo-poderoso, que controla a história do mundo, capaz de nos salvar do sofrimento, eu não acredito. Minhas experiências de vida, o que sei acerca do universo do qual sou uma partícula, e tudo o que ocorre no mundo ao meu redor, são uma forte evidência, de que aquele Deus “não existe”. Ou, se preferem que eu seja mais objetivo e menos metafórico, aquelas ideias “ortodoxas” sobre Deus não me tocam, não me movem, e não fazem isso por terem se tornado uma língua muda, uma linguagem usada para convencer. Apesar disso, entretanto, sou um crente na Realidade de Deus, que se faz presente das mais diferentes maneiras e mais diferentes momentos em minha vida. Não tento explicar Deus a ninguém, já que eu mesmo não tenho essa explicação. Deus deve ser experienciado e compreendido em nossa experiência, e não 173


tratado como se fora objeto de uma observação científica. Deus é Real. Deus é uma Presença em minha vida, uma Presença para a qual não encontro palavras para descrever e uma Presença que me recuso a definir, mas, assim mesmo, uma Presença Real.

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32 DEUS: A MAIS BELA METÁFORA

É quase inevitável. A maioria das pessoas fora de meu universo religioso unitarista pensam que sou ateu (não que isso seja problema para mim). E isso é compreensível, já que a maioria das pessoas pensam haver uma única forma cristã de se pensar a respeito do “sagrado”, e meu discurso não corresponde a esse padrão esperado pela maioria. Por outro lado, para pessoas não religiosas ou que abraçam um pensamento onde não há espaço para um “sagrado”, posso soar como um teísta, independentemente de eu não ser adepto de um teísmo sobrenaturalista. Devo reconhecer que “Deus” nunca é tema específico de meus textos ou de meus discursos públicos. E por muitas razões. Uma dessas razões é o fato de eu ser um ministro unitarista e, como tal, evitar (?) definir “Deus” para que, assim, o termo (que vejo como metafórico) possa servir de encarnação para diferentes visões acerca do “sagrado”. Se eu falasse acerca de Deus, definindo dogmaticamente o termo, estaria excluindo pessoas que compreendem “Deus” duma maneira diferente da minha. Uma segunda razão para evitar (?) falar especificamente a respeito de Deus é a forma como interpreto minha fé, o mundo ao meu redor (e do qual sou parte) e a relação entre minha fé e o mundo.

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É bom esclarecer que quando uso o termo “fé” aqui, me refiro à experiência religiosa – e não a crenças doutrinárias. A experiência religiosa, em minha concepção, é o processo de abraçar o mistério que nos cerca e envolve. É o processo de reconhecer que há algo “sagrado” (outro termo que prefiro deixar aberto a interpretações) nesta vida que vivemos – que há um Mais neste universo imperfeito, incompleto e acidental que nos leva a querer aperfeiçoá-lo (o universo) com nossas próprias criações (científicas, artísticas etc). Esse “sagrado” reconhecido por nossas experiências religiosas (o fenômeno religioso ou a religião, se preferir) e explicado das maneiras mais diversas possíveis, e chamado de “Deus” pela maioria de nós, é o que chamo de “essência da experiência humana”. Deus, em minha visão, não é uma pessoa; não é um criador ou um senhor; não é um pai ou um rei celestial que deva ser honrado. Deus é uma metáfora – a mais bela metáfora criada pela experiência humana. Como metáfora, não vejo nenhum problema em nos referirmos a essa Realidade como se fora uma pessoa, atribuindolhe características humanas – como amor, cuidado, paternidade, etc. Mas, para mim, tudo isso é apenas parte da bela metáfora criada por nossa experiência. Deus é um caminho “sagrado” de vida que nos faz mergulhar no interior de nós mesmos para que possamos descobrir o que é ser humano. 176


Em minha opinião, a humanidade criou a noção de “Deus” não apenas porque precisasse explicar a razão de ser das coisas numa era nãocientífica (isso também), mas porque precisava de um modelo ideal para o que os seres humanos poderiam ser (amorosos, misericordiosos, hospitaleiros etc), mesmo que com certos traços das distorções humanas (intolerância, violência, autoritarismo etc). Tudo o que sei a respeito do universo do qual sou parte exclui a perspectiva de um Ser que tenha criado tudo isso com propósito e plano definidos. Aparentemente, somos resultados acidentais de uma desordem cósmica – se você se interessa por física e cosmologia contemporâneas, saberá do que estou falando. Isso, entretanto, de maneira alguma diminui nossa importância e a importância da Metáfora que construímos para dar um sentido ao todo. O fato de eu não acreditar que esteja aqui por determinação de uma deidade suprema, de não acreditar que haja um Ser controlando nossos destinos, faz com que meu sentimento de reverência pelo desconhecido e meu senso de responsabilidade para com o mundo aumentem ainda mais. Deus pode não ser mais aquilo no que se acreditava antes de nossas descobertas científicas (que demoliram antigas concepções acerca do nosso universo, tornando, assim, antigas crenças religiosas insustentáveis, mas que também futuramente demolirão muitas crenças científicas 177


que abraçamos agora), mas ainda há espaço para o “mistério”. Alguém, por exemplo, consegue explicar o que é a vida, afinal de contas? Alguém consegue explicar para onde vai a matéria engolida por buracos negros no espaço?... Ainda há espaço para o mistério! Deus é, no fim de tudo, uma Realidade dentro da qual existimos e somos 36; é a própria Força de Vida que causa explosões estelares e as subsequentes criações que resultarão dessas explosões; é o processo de evolução da vida que tem estado presente há bilhões de anos neste planeta. Deus é uma Metáfora para o mistério da vida que ainda não desvendamos, e que, certamente, continuará a nos inquietar por muito tempo – talvez, quem sabe, pelo resto da existência dos seres humanos. Prefiro que continue assim, um tremendo mistério que envolva-nos e que nos lembre que não podemos conhecer tudo e ter todas as respostas.

36 Atos 17:28.

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33 VERDADE E MITO: UMA RESPOSTA À MENSAGEM DUM LEITOR

Recebi a seguinte mensagem dum leitor, e a mesma é respondida no texto que segue:

“Por favor me responda uma coisa: Quantos apóstolos Jesus teve? Você acredita que são doze? (depois Matias e depois Paulo) . Pois você não acredita no nascimento virginal de Jesus. Pois o mesmo evangelho que diz que Jesus nasceu de uma virgem, também fala que eram doze os apóstolos. E você acredita que Jesus era o filho de Deus? Jesus É Deus? Como você acredita em uma coisa que o evangelho diz, mas não acredita em outras? (qual o critério que você usa?) Jesus ressuscitou ao terceiro Dia? Lembre-se: "E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé..." Me diga, você acredita no Jesus que os evangelhos falam? Pois eles é que nos trazem as informações sobre seu nascimento e vida. Se você duvida das informações contidas nos evangelhos, então você não pode acreditar no evangelho por completo.

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Pois se eles mentem quando dizem que jesus nasceu de uma virgem, eles podem então estarem mentindo no resto.”

Caro amigo, Os questionamentos que você levanta são válidos e, aqui, são recorrentes. Por essas mesmas questões já haverem sido tratadas aqui muitas vezes, posso garantir que você encontrará minhas perspectivas a respeito desses temas em outras partes deste blog37. Prefiro que possamos alargar um pouco mais a discussão. Não sei a partir de qual base teológica cristã, ou de qual tradição, você molda a janela através da qual enxerga o mundo e interpreta o cristianismo. Seja ela qual for, parece-me que uma das palavras-chave nesta nossa discussão é “verdade”. O que é verdade? A religião e o conhecimento teológico podem oferecer verdade? E se podem, que tipo de verdade e até que ponto?... Compreender essas questões é essencial para compreender a razão pela qual entendemos o cristianismo de formas tão diferentes – assim como é essencial, também, para compreender a fé de pessoas que abraçam outras religiões. Não posso garantir, entretanto, que alguns não prefiram se esconder numa bolha protetora, não 37 www.cristianismoprogressista.blogspot.com

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tendo o desejo de pensar a respeito disso, de não encarar questões como essas sem se esconder atrás da muralha do dogmatismo defensivo. Para que minha posição fique muito clara, é importantíssimo que eu afirme meu ponto de partida: verdade, no que se refere a religião e teologia, não é sinônimo de factualidade. Factual é aquilo que se baseia em fatos que podem ser verificados, ou seja, é algo empiricamente objetivo. A verdade religiosa é majoritariamente subjetiva, ou, quando objetiva, é um tipo de objetividade que requer a presença da subjetividade, já que a grande maioria de suas afirmações não podem ser objetivamente verificadas. Entretanto, apesar de a verdade religiosa não ser factual (=empiricamente objetiva), ela não deixa de ser verdadeira. Falar sobre verdade religiosa é falar sobre mitos. E antes que você pense que esteja utilizando o termo da mesma forma que usualmente o empregamos (ou seja, para me referir a algo falso, que não mereça ser levado a sério), deixe-me explicá-lo: mitos são narrativas metafóricas a respeito da relação entre este mundo e o sagrado. Por serem metafóricos e por utilizarem uma linguagem não-literal, os mitos não podem ser vistos como se narrassem fatos. Apesar disso, em se tratando de religião, mito e verdade andam de mãos dadas, com o mito sendo a linguagem utilizada para se falar a respeito da verdade. Os mitos são verdadeiros, mesmo que

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não sejam factualmente (=literalmente) verdadeiros. Em minha visão, as narrativas bíblicas a respeito de Jesus, por exemplo, são mitos (compreendendo-se “mito” aqui da maneiro como expliquei anteriormente). Como cristão, é indiferente, para mim, a factualidade ou não do que se escreveu a respeito da vida de Jesus. Mesmo que tudo o que se escreveu a seu respeito fosse “mentira” (que não é o mesmo que “mito”), isso não afetaria minha fé, já que minha compreensão da Bíblia não é a de vê-la como um manual de História, mas a de compreendê-la como uma narrativa metafórica (=mitológica) da relação de duas comunidades – os antigos hebreus e os primeiros seguidores de Jesus e dos apóstolos – com seu Deus e com sua tradição religiosa. Por outro lado, compreender as mesmas narrativas bíblicas a respeito de Jesus como relatos factuais seria um desastre para qualquer cristão pensante contemporâneo, já que muitos daqueles relatos são contraditórios, inverificáveis, claramente falsificados e empiricamente impossíveis – tornando sua “veracidade” (se compreendida como sinônimo de factualidade) simplesmente impossível. Por essa razão, em minha visão cristã liberal, as narrativas bíblicas são relatos verdadeiros, mesmo sabendo que nem sempre são factuais e que sua veracidade não depende de sua factualidade. Leio a Bíblia como uma combinação de história e metáfora, fazendo uso da crítica histórico-textual para compreender 182


os antigos sentidos dos textos bíblicos, colocandoos em seu contexto histórico. Com isso em mente, você pode exercitar sua capacidade interpretativa e tentar imaginar uma possível resposta minha aos seus questionamentos. Paz!

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34 DEUS FALOU COMIGO NA AVENIDA BOA VIAGEM38

Hoje cedo ouvi a voz de Deus: Ela falou comigo na Avenida Boa Viagem. Quando me viu, me chamou de “gracinha”! Coitada de Deus, Ela parecia cansada, mas sequer pensei em oferecê-la água de coco! Deus usava saltos altos, e mini-saia colorida, e acho que quando nasceu chamaram-na de menino; mas era muito bela, duma maneira muito particular. Me arrependo tanto de não lhe ter oferecido um pouco de minha água de coco; o que ela pensará de mim, agora, quando rezar a ela e pedi-la que me ouça? Espero que sua graça feminina possa fechar os olhos para as grosserias e derrapagens dum cara como eu. Deus era tão grande, 38 Uma reflexão sobre Mateus 25:31-46. 184


fico pensando se ela tem problemas para encontrar um emprego durante o dia com aquela mini-saia! Queria perguntá-la tanta coisa! Espero que ela saiba que sou um cara tímido quando falo com alguém assim, de surpresa! Espero que ela esteja bem, que ninguém a tenha maltratado esta noite! Qualquer dia desses quero vê-la novamente, e, então, vou oferecê-la um pouco de minha água de coco e perguntá-la como foi sua noite de trabalho! Será que Deus estará na Avenida Boa Viagem novamente esta noite?

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35 NÃO ACREDITO EM DEUS39

(Leitura: João 20:24-31)

No último curso de preparação para confirmação que tivemos aqui, pelo menos um jovem disse claramente “Não acredito em Deus” e outros se declararam como sendo céticos ou agnósticos. E, mesmo assim, nós os confirmamos como membros desta congregação. Crença. Certeza. Dúvida. Fé. No Cristianismo ocidental contemporâneo, especialmente no meio protestante brasileiro, essas palavras passaram a significar certas coisas, passaram a carregar em si um certo peso. Mas há um grande problema com o uso dessas palavras, por causa das noções que vêm atreladas a elas. Quando alguém me diz “Não acredito em Deus”, como vários jovens já me disseram e como aquele jovem repetiu no curso de preparação para a confirmação, minha resposta tem sempre sido: “Me fale um pouco sobre esse Deus no qual você não acredita – eu provavelmente também não acredito nele”. O que geralmente se fala no meio cristão é que Deus é um ser sobrenatural onisciente e todopoderoso que age com intenção e intervém na 39 Sermão proferido à Congregação Unitarista Pernambuco, em 16 de maio de 2010.

de

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história humana. Muitas pessoas acreditam que Deus tem uma vontade, um plano para a humanidade, e que Deus manipula os eventos em nossas vidas, como se fôramos marionetes. As crenças que se tornaram padrão no Cristianismo incluem a aceitação de que a Bíblia seja de alguma forma uma comunicação da mensagem de Deus e plano para como devamos viver juntos como comunidade humana. A ortodoxia cristã inclui as crenças em Jesus como filho único de Deus, sendo divino e humano em sua natureza, e que ele foi o mensageiro da vontade de Deus e que morreu para reconciliar uma humanidade caída e corrupta com Deus. O problema que muitos de nós aqui nesta sala tivemos é que, em algum ponto, essas crenças não são mais críveis, não fazem mais sentido. Mas porque é assim que o Cristianismo é ensinado e compreendido na cultura brasileira, não acreditar naquelas doutrinas significa que se está pisando fora do território do Cristianismo. Um amigo meu está no meio dessa jornada de não mais acreditar na verdade literal da mitologia de nossa narrativa cristã, e me disse: “Acho que não posso continuar a ser cristão”. Como ele, um grande número de pessoas está abandonando a fé, ou ridicularizando-a, ou foi deixado com um senso de perda e desespero por causa do como identificamos a aceitação de doutrinas – algumas delas antigas e sem sentido – como sendo a verdade sobre a experiência religiosa cristã. 188


É exatamente aí que me afasto plenamente da ortodoxia cristã. Não creio que o Cristianismo possa ser definido como sendo o que acreditamos. Não em sua essência. Não em seu início. Penso que se tornou isso, mas não penso que seja isso que ele deva ser. A passagem que eu li do evangelho de João fala um pouco sobre isso. A narrativa sobre o duvidoso Tomé e como ele teve de tocar a ferida de Jesus antes de poder acreditar tem sido interpretada e usada através dos séculos para tentar incutir culpa nas pessoas, para forçá-las a abandonar suas dúvidas e fazê-las aceitar algo que é inacreditável – que Jesus apareceu em carne após ter sido executado. Tomé é ridicularizado e usado como um exemplo do que não deveríamos ser, como se para que nossa fé fosse vista como mais autêntica, não exigiríamos tais provas. Há vários níveis no livro de João, e ele, como um livro e como um documento teológico, tem um relacionamento único com o evangelho de Tomé – e não é por acaso que o discípulo duvidoso nesta narrativa é chamado de Tomé. E, tanto no evangelho de João como no de Tomé, o que é importante é que se acredite. Não em nome da própria crença, mas por causa de onde ela lhe levará. Em seu início, o Cristianismo era uma experiência que as pessoas tinham. Era um visão radical de comunidade inclusiva. Uma nova sociedade que praticava um amor transformador. Crer na possibilidade disso, comprometer sua vida 189


com isso, vivendo essa realidade, isso é que era o Cristianismo – e é isso que eu penso ser o Cristianismo agora. Há uma pista disso naquela passagem de João – mesmo estando pavimentada com a linguagem da crença. Os últimos dois versos dizem o seguinte: “Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida em seu nome”. Em outra parte do livro de João, lemos que Jesus tenha dito: “Eu vim para que vocês tenham vida, e a tenham de forma plena” - outras traduções dizem: “e a tenham em abundância”. O Cristianismo não é, creio eu, sinônimo de aceitação de noções não científicas a respeito da origem do universo, ou que Maria tenha sido uma virgem, ou que Jesus tenha andado sobre a água. Não é sinônimo de aceitar Deus como sendo um ser todo-poderoso que tenha um plano específico ou que tenha poder sobre a decisão dos brasileiros nas próximas eleições presidenciais, nos resultados da Copa ou sobre o tempo. Não é sinônimo de como pensamos que o mundo terminará ou se há ou não uma vida pós-mortal. Para mim, a experiência religiosa é abraçar o mistério que nos cerca. É reconhecer que há algo sagrado nesta vida que vivemos. Que há um ímpeto à criação que nos traz vida, e nos move em direção ao bem e eleva na humanidade uma resposta de admiração diante da vida. É a fonte de 190


nossa poesia, de nossa música, e da profunda ligação que sentimos com as pessoas que amamos e com a própria criação. É isso que nos move à gratidão e, às vezes, nos faz cair de joelhos. Escolho permanecer dentro da tradição cristã, porque ela é meu lar. Fui criado nela, eu a compreendo, sua linguagem e seus rituais me tocam. Mas não penso que o Cristianismo seja exclusivamente certo ou que seja melhor que qualquer outro caminho religioso que nos levará à essência da experiência humana – a essência que identifico como Deus. Essa essência, esse caminho sagrado de vida, é o que nos faz formar uma comunidade, é o que dá sentido a nossas vidas, e é o que nos convoca ao trabalho pelo bem-estar de toda a família humana e de nosso planeta. Isso é Deus para mim, isso é fé religiosa para mim, e é nisso que eu acredito. E como aqui em nossa comunidade não exercemos monólogos, convido todos vocês a participarem desse diálogo. Você acredita em Deus?

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36 UMA CONVERSA COM UMA LEITORA

Uma leitora fez o seguinte comentário a uma publicação minha: “Prezado amigo, eu não posso concordar contigo em sua visão teológica. Pois eu conheço que Jesus, pelo seu sacrifício na cruz do calvário, ali ele despojou os principados e potestades dos ares( Demônios agentes de Satanás) e nos garantiu a remissão dos pecados e a nossa justificação, tomando os nossos pecados sobre Ele... sendo ele como um meio de expiação dos nossos pecados? Como você diz que não pode levar em conta o sacrifício de Jesus por nós e levar em conta sim a sua vida, pois é na sua morte que também morremos para nossa velha natureza, nosso eu,c omo disse o apóstolo Paulo em suas cartas e epístolas? Amigo, que Deus vos abençoe.” Querida amiga, Seria impossível falar a respeito do tema “salvação”, sem citar o fato de nós dois termos visões bem distintas a respeito deste tema, assim como de outros, como, por exemplo, a missão do próprio Jesus. Na realidade, talvez possa dizer que representamos duas formas bem diferentes de entender a tradição cristã.

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Todos nós, e isso inclui você, utilizamos uma filosofia para construir nossas concepções teológicas (ou se preferir, religiosas). A teologia cristã toma muitas diferentes filosofias como molde para construir uma interpretação da vida e obra de Jesus. Você e eu interpretamos as Escrituras, por exemplo, com base num conjunto de concepções filosófico-teológicas que já existiam antes da leitura que fazemos e que usamos para servir de guia a nossas conclusões. Todos nós fazemos isso, independentemente de termos consciência disso ou não. Sei o quanto isso pode ser difícil para você compreender, já que em sua comunidade religiosa (a Assembleia de Deus) tradicionalmente condenam a Filosofia e utilizam o termo de forma pejorativa. Então, dizer-lhe que mesmo você faz uso de uma filosofia para interpretar a mensagem cristã, deve deixá-la na defensiva, se você não compreende o meu uso da palavra “filosofia”. Como membro da Assembleia de Deus, você lê a Bíblia a partir de uma perspectiva que a julga como sendo literalmente “palavra de Deus”, ou seja, sua compreensão (=filosofia) de “inspiração divina” é aquela que chamamos de “inspiração plenária” - a noção de que toda a Bíblia tenha sido literalmente ditada por Deus, e que, por isso, esteja livre de erros (“inerrância bíblica”). Talvez, ninguém tenha lhe dito que essa ideia (=filosofia) a respeito da autoridade da Bíblia só tenha surgido, nesses termos, no século XVII, tendo sido proclamada pelo luterano Johann Quenstedt. Nem 194


mesmo os mais dogmáticos dos primeiros reformadores haviam ido tão longe em sua noção de inspiração divina das Escrituras. Essa noção de “inspiração plenária” faz com que seus seguidores afirmem que acreditam em tudo o que está escrito na Bíblia, apesar de não perceberem que acreditam, na verdade, em sua interpretação da Bíblia (ou melhor, na interpretação que outras pessoas fazem dos textos sagrados!), e não no que diz os textos, com suas infindáveis e, muitas vezes, irreconciliáveis representações. Esquecem que muitas das coisas nas quais acreditam (doutrinariamente falando) não podem ser validadas apenas pela Bíblia – ao menos, não nos termos que utilizam para definir essas crenças. Eu poderia citar muitos exemplos, mas se o fizesse, me alargaria muito aqui. Cito o exemplo do dogma da Trindade. Você, como membro da Assembleia de Deus, (supostamente) acredita na doutrina/dogma da Trindade – palavra que não é bíblica e só foi inventada por Tertuliano, tendo sido ele o primeiro a utilizar também outros termos teológicos como “persona” (pessoa) e “substantia” (substância) para falar de Deus. A maneira como o cristianismo tradicionalmente define e explica a “Trindade” - sendo esta uma forma de explicar as referências neotestamentárias à “divindade” de Cristo e à sua relação com o Deus dos hebreus – não pode ser encontrada na Bíblia; tendo surgido de explicações dadas por teólogos cristãos que fizeram

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empréstimos de noções presentes no pensamento grego. Um outro grande exemplo de base não exclusivamente bíblica para uma doutrina, à qual você faz referência em seu comentário, é o da expiação redentora de Cristo. Explicarei para que os demais leitores possam entender: para você, a missão de Jesus era morrer pelos pecados daqueles que o aceitassem como “seu Salvador pessoal”; em sua teologia, a morte de Jesus na cruz foi uma transação por meio da qual ele pagou pelos pecados daqueles que acreditam nele, conseguindo, assim, para essas pessoas, a vida eterna; o objetivo fundamental da vida de Jesus, na teologia que você abraça, foi o de realizar o ato da expiação (ou sacrifício vicário, ou seja lá que outro termo prefira usar). Só que, muito provavelmente, não lhe explicaram que esta doutrina (da maneira como é apresentada) só foi ensinada a partir de Agostinho, no século V da nossa era. Não há absolutamente nada nas palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos que faça menção a esta doutrina. A ideia de que a única maneira possível de sermos salvos seria o sacrifício de Cristo por nós foi se desenvolvendo através dos primeiros séculos cristãos até culminar nos ensinos de Agostinho. Apesar de haver uma linguagem sacrificial presente no Novo Testamento, essa linguagem é, para mim, claramente metafórica. Tornar uma figura metafórica em verdade factual, em se tratando da execução de Jesus, é extremamente 196


ofensivo para minha noção de Deus. Especialmente por eu saber que o próprio Jesus não pensava que o propósito de sua vida fosse morrer pelos pecados de quem quer que seja. Ele morreu em decorrência do que ele mesmo estava dizendo e fazendo em seu ministério religioso e político. A interpretação sacrificial dada à vida e morte de Jesus é ofensiva para mim, e para outros cristãos de minha tradição liberal, por diversas razões. Uma dessas razões é o fato de esta visão teológica limitar o perdão de Deus, afirmando que Deus só pode perdoar se um sacrifício pertinaz for feito – sacrifício este que deveria ser feito por alguém sem culpa (que noção de justiça maravilhosa por parte de Deus: um inocente pagar pelos pecados/crimes/etc de todos os culpados!), sendo que esse alguém era curiosamente o próprio Deus, já que, para os seguidores dessa teologia, Deus é uma Trindade e Jesus é um membro desta mesma Trindade, ou seja, Jesus é Deus! Em outras palavras, Deus não pode perdoar os pecados da humanidade, a não ser que uma parte de si mesmo morra para pagar pelos erros que não cometeu. Ou seja, Deus não é capaz de demonstrar o mesmo tipo de amor que nós humanos somos capazes de demonstrar a outros humanos, como por exemplo, aos nossos filhos; e mais do que apenas não ser capaz de perdoar livremente, ele exige que sangue inocente seja derramado. Alguém de bom senso consegue realmente respeitar um Deus como esse? Eu não 197


consigo. Essa ideia de Deus soa como uma horripilante aberração aos meus ouvidos, e contradiz tudo aquilo que foi atribuído à voz de Jesus. A interpretação que nós unitaristas fazemos do “sacrifício de Cristo”, assim como a interpretação que fazemos de outras coisas nas Escrituras (Bíblia), é contextual. A linguagem que se refere à execução de Cristo como um sacrifício por nossos pecados surge no contexto da teologia sacrificial judaica, que se centrava no templo de Jerusalém. Essa teologia sacrificial afirmava que alguns tipos de pecados podiam ser perdoados apenas por meio de sacrifícios no templo, criando, assim, um monopólio institucional de perdão dos pecados e, como consequência, um monopólio institucional de acesso a Deus (já que uma pessoa tinha de ter seus pecados perdoados para que pudesse entrar na presença de Deus). Sendo assim, afirmar que Jesus seja um sacrifício pelos pecados era negar que o templo tivesse o monopólio de perdão e acesso a Deus, e não deixava de ser uma negação de qualquer monopólio institucional referente a Deus. Usar esta metáfora sacrificial para falar de Jesus era subverter o sistema sacrificial centrado no templo de Jerusalém, era negar que Deus necessitasse de uma instituição para prover perdão à humanidade, ou que necessitasse de uma instituição para que a humanidade tivesse acesso a Si. E é irônico que o mesmo movimento que afirmara isso no princípio, séculos depois construiria ao redor de si mesmo 198


um sistema sacrificial ainda mais monopólico que o antigo sistema sacrificial do templo de Jerusalém! Jesus não morreu pelos nossos pecados. Jesus morreu porque ele desafiou um sistema político/religioso que ele condenava. Jesus morreu porque ele disse e fez coisas que não deixaram líderes políticos e líderes religiosos felizes. Foi por isso que ele morreu. A comunidade cristã que se desenvolveu ao redor das lembranças que tinham de Jesus, e que surgiu em sociedades bem diferentes daquela da qual ele mesmo era parte, teve de construir novas interpretações a respeito de quem era e o que havia dito e feito Jesus. Eu não condeno essas comunidades ou indivíduos por terem desenvolvido as compreensões que desenvolveram. Mas eu não tenho a mínima obrigação de abraçar as crenças que eles abraçaram. Tenho o direito de julgar suas crenças e suas construções ideológicas como inválidas para mim. A vantagem que tenho (se é que posso chamá-la de vantagem) é a de saber onde, quando, por quem e por que essas ideias surgiram; assim, sou livre para construir minha própria interpretação daqueles textos sagrados que são, eles mesmos, nada mais além de interpretações dadas às antigas narrativas de várias comunidades cristãs (no caso do Novo Testamento). Vejo a morte de Jesus como o fim natural de seu ministério de amor a altruísmo, e como um símbolo do infinito amor de um Mestre por seus 199


amigos e discípulos (podendo também simbolizar o amor de Deus pela humanidade). Jesus viveu não para que pudesse sacrificar sua vida por nós, mas para ensinar-nos que Deus ama a todos, da mesma maneira que pais amam a seus filhos. A salvação, para mim, não representa uma vida num suposto “céu” no tempo e espaço, mas sim, uma união com Deus que supera o tempo e que pode ser experimentado aqui e agora, nesta vida, neste momento. Não acredito em coisas como Satanás e demônios; vejo-os apenas como metáforas para aquilo que identificamos como mal. Além disso, não acredito que, em nossa natureza, sejamos seres caídos e corruptos (isso entraria em contradição com as noções que possuo a respeito de Deus, e que nascem de minha leitura [=interpretação] das Escrituras cristãs), e, assim, também não acredito que precisemos de um suposto “sacrifício” para que sejamos “resgatados” por Deus – essa crença ridícula diminuiria a capacidade de Deus ser sábio, amoroso, e torná-lo-ia um “ser” incapaz, vingativo, e selvagem. Eu rejeito aberta e francamente tais ideias. Em se tratando de interpretação das Escrituras, creio que seja mais do que hora de os cristãos contemporâneos se darem conta de que os antigos teólogos da Igreja, e a própria igreja institucional – aquela que criou os credos e as declarações de fé, e que instituiu interpretações fixas dos textos sagrados -, não são donos do cristianismo. Nós, como seres humanos, e como 200


membros dessa grande comunidade de fé, que chamamos de igreja, somos parte desse “diálogo em construção” que é a teologia cristã, e temos o direito de nos envolvermos, individualmente, nessa construção e/ou ressignificação. É importante que eu enfatize minha noção de leitura aqui. Ler é interpretar. Interpretar é se envolver num texto, tomando-o como ponto de partida e recriando-o dentro de um contexto que nos seja próprio. Ninguém lê os textos bíblicos sem condicioná-los a um dado contexto – muito provavelmente, o seu próprio contexto. Quando eu leio as Escrituras, minha leitura [=interpretação] é guiada por minhas concepções de mundo, por minhas visões históricas, por meus princípios éticos, por minha teologia. Como sou um unitarista, pacifista, como tenho uma visão a respeito da dignidade humana, e como prestigio a riqueza de nossa diversidade (em todos os seus aspectos), além de possuir minha própria compreensão a respeito de Deus, as conclusões às quais chegarei, a partir de minha leitura das Escrituras, são bem diferentes das conclusões às quais você chegará. Eu posso desprezar muitas das crenças que você abraça, da mesma maneira como você faz com minhas crenças, mas isso não significa, em nenhum momento, que eu possa pensar que falo “em nome de Deus”. Quando falo, falo em nome de mim mesmo, ou, no máximo, em favor de outros cristãos que pensam como eu ou que sejam membros de minha comunidade de fé. Enfatizar isso é extremamente importante para 201


mim, já que isso é um ponto que distingue-me como um cristão liberal e como unitarista. Espero que minha posição tenha ficado um pouco mais clara a respeito deste tema.

Paz!

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37 MORTE E RESSURREIÇÃO

Um dos temas que mais aparecem nas mensagens que recebo de meus interlocutores virtuais é a questão da “vida pós-mortal”. Por inúmeras razões, esse é um tema central na teologia dessas pessoas. Na verdade, esse tema – a vida pós-mortal e o que acreditar e/ou fazer para ser salvo – é uma das bases da teologia cristã dita tradicional e ortodoxa. Como a maioria já sabe, ideias tão abstratas e dogmáticas como noções de “vida pós-mortal”, “céu”, “inferno”, “ressurreição”, e coisas semelhantes, não são interpretadas por mim como verdades factuais ou mesmo como elementos essenciais à minha fé (se entendidas de forma literal). Sempre prefiro enxergar essas ideias como verdades metafóricas – imagens que representam de forma acessível uma verdade maior que não pode ser esgotada pela linguagem verbal. Por essa razão, crer que a vida consciente do “espírito” humano continuará após a morte física é um supérfluo para minha fé pessoal. Na verdade, até mesmo crer que haja espacialmente um outro componente que constitua minha personalidade e que não pode ser espacialmente confirmado, e que geralmente chamam de “espírito” ou “alma” - o verdadeiro “eu”, é um supérfluo em minha teologia pessoal. Com “supérfluo”, refiro-me a algo completamente 203


irrelevante, algo que, se retirado, não altera muita coisa e não faz falta. Eu, obviamente, compreendo as razões que levam as pessoas, mesmo em nosso tempo, a se preocuparem com temas como esse. Também compreendo plenamente porque esse mesmo tema se torna tão essencial para a teologia dominante no meio cristão. Teologicamente falando, nossas noções a respeito da natureza de Deus, de Cristo, do homem e de seu destino, se entrelaçam e são interdependentes, tornando a crença numa vida após a morte física e as exigências para se assegurar a “salvação” (que variam de grupo para grupo) um ponto essencial. Resta-me reconhecer que essas noções estão bem enraizadas na tradição cristã. Tome o texto em I Coríntios 15:19 como exemplo. Lá o autor, discutindo a respeito da ressurreição, afirma que “se nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens”. Eu não poderia discordar do autor daquele texto da Primeira Carta aos Coríntios. Jesus simboliza, para nós cristãos, o caminho da vida eterna – é por meio dele, seguindo seus passos, que encontramos Deus; e se encontramos Deus, e Deus é a vida, logo, a esperança que nos é oferecida por Jesus é a de uma outra vida após a vida que agora vivemos (uma vida que é alcançada percorrendo-se o caminho da morte e da ressurreição, o caminho metaforicamente percorrido pelo próprio Jesus). 204


Morte e ressurreição são elementos essenciais na teologia cristã. Não se pode entender plenamente a mensagem cristã sem citar essas duas importantes metáforas tão repetidas em nossa tradição. O caminho para Deus, como ensinado e exemplificado por Jesus, é o caminho da “morte” e da “ressurreição”. A morte do eu interior – que não pode e não deve ser confundida com uma repressão ao “eu” e aos seus desejos legítimos – e o renascimento para uma nova forma de ser e para uma nova identidade centrada no Divino. Esse caminho de morte e de ressurreição não é apenas ensinado pelo cristianismo. Todas as grandes tradições espirituais da humanidade falam a respeito desse processo de morrer espiritualmente antes de morrer fisicamente, e de ressurgir para uma nova vida. A beleza dessa verdade metafórica é obscurecida pela (in)compreensão dogmática literalista, que interpreta esse processo de morrer e ressurgir como algo factual, como algo físico e espacial. Ou seja, o foco em uma morte e uma ressurreição que aconteceriam fisicamente no futuro subtrai de nossas vidas a experiência de morrer para nós mesmos e de ressurgir para uma nova maneira de ser, ver, e viver a vida aqui e agora. Morte e ressurreição tornam-se, assim, uma metáfora para um processo de profunda transformação pessoal. E essa metáfora está profundamente enraizada na tradição teológica e litúrgica cristã. O sacramento ou ritual do batismo, 205


por exemplo, personifica esse processo, quando simboliza a morte do antigo eu e o nascimento de uma nova identidade, usando elementos e movimentos físicos. Se pensarmos nas divisões presentes no mundo greco-romano e judaico do primeiro século de nossa era – as divisões nacionais, raciais, econômicas, sexuais, etc – e observarmos, por exemplo, a mensagem do autor da Carta aos Gálatas, alargaremos nossa visão de morte e ressurreição: “De fato, vocês todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo.” (Gálatas 3:26-28) Se nos “revestirmos de Cristo”, e pudermos afirmar como faz o autor (2:20) que Cristo vive em nós, então estaremos derrubando as paredes que nos separam, as paredes de discriminação que destroem esperanças e constroem o medo entre nós. Somos “filhos de Deus” quando reconhecemos que absolutamente todos o são, quando alargamos as entradas de nossos corações, quando escancaramos as portas para receber a absolutamente todos. E assim, nos revestindo de Cristo, ou seja, fazendo aquilo que nossa tradição ensina que Jesus ensinou por meio 206


de suas palavras e ações, demonstramos nossa fé nele, e demonstramos que entendemos a sua mensagem e desejamos segui-la. Na época na qual aquele texto foi escrito, aquele mundo social estava profundamente dividido entre livres e escravos, homens e mulheres, este ou aquele grupo nacional. Até certo ponto, essas mesmas divisões permanecem, e muitas vezes até se alargam. Em se tratando de morrer e ressuscitar hoje, o que poderia a comunidade cristã (a igreja) fazer? Pessoalmente, creio que além das propostas em Gálatas, poderíamos adicionar ainda mais, e por isso mesmo reescrevo em meu coração aquele trecho: “De fato, todos somos filhos de Deus em nossa própria natureza, pois ao nascermos, nos revestimos da presença divina. Não há absolutamente nenhuma diferença entre cristãos e não cristãos, entre ricos e pobres, entre os humanos das mais diferentes cores e origens, entre instruídos e não instruídos, entre homem e mulher, entre heterossexuais e homossexuais ou qualquer outra expressão emociono-sexual humana, entre crentes e descrentes, pois todos somos membros de uma grande família e temos nossa existência no mesmo Deus.” (Minha reconstrução de Gálatas 3:26-28) Como morrer e ressuscitar representam, metaforicamente falando, um processo, creio ser necessário morrer e ressuscitar muitas vezes. 207


Sempre haverá novas paredes a serem derrubadas para que possamos receber a Deus entre nós – já que toda vez que recebemos alguém, estamos, metaforicamente, recebendo o próprio Deus. Hoje reconheço que não apenas a maneira como cuido de outros seres humanos reflete um processo de morte e ressurreição. A maneira como cuido deste planeta também deve ser fruto de um alargamento de visão desse processo. Aproveitar o tempo que tenho neste mundo para aprender e apreciar mais deve ser um dos frutos disso. Desfrutar a beleza e profundidade da vida deve ser um dos frutos disso. Enriquecer minha vida com os sons, sabores, movimentos, imagens, aromas, etc, da vida deve ser um dos frutos disso. E ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo também deve ser um fruto desse alargamento de visão do processo de morrer e ressuscitar. Esse é o caminho que nos leva a Deus – independentemente da concepção individual que tenhamos a respeito de Deus e da espiritualidade.

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38 IDENTIDADE CRISTÃ: QUEM É CRISTÃO, AFINAL? Há alguns dias atrás 40 conversava com um missionário “evangélico” que veio a uma atividade que realizo mensalmente com jovens de minha comunidade. Ele se interessou em saber a razão de pessoas como eu, cristãos liberais, permanecerem ligados ao cristianismo em vez de simplesmente abandoná-lo (ele parecia ver-me, assim como aos membros de minha comunidade de fé, como um “herege” - no sentido geralmente atribuído à palavra, não tendo compreendido o uso metafórico que faço da mesma em alguns de meus discursos - , então vi-me obrigado a explicarlhe a diferença entre meu uso da palavra “herege” e o uso que os ditos cristãos tradicionais faziam da mesma). Sua pergunta não me surpreendeu nem um pouco, já que ela apenas refletia a perspectiva simplista dominante em nossa sociedade, na qual a visão do cristianismo (seja católico ou protestante) é monolítica, ou seja, ser cristão é simplesmente crer numa lista específica de afirmações e ser parte de uma determinada comunidade religiosa, e estar submetido às regras impostas por tal comunidade. Sua voz reproduzia simplesmente o discurso que já estou acostumado a ouvir de outros cristãos que afirmam que não sou digno de identificar-me 40 3 de novembro de 2009.

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como cristão por não crer nesta ou naquela doutrina apregoada por este ou aquele credo, este ou aquele texto bíblico, esta ou aquela confissão, este ou aquele consenso, esta ou aquela compreensão particular do que seja o cristianismo. Suas perguntas reproduziam a esquizofrenia dogmática dos evangelicais fundamentalistas e conservadores que apregoam que sou um “falso profeta” ou um “anticristo” por ensinar o que chamam de falsas doutrinas, e que serei punido com o “inferno” por “separar” pessoas de Deus como se qualquer pessoa tivesse o poder de “separar pessoas de Deus” (parecem não conhecer o texto de Romanos 8:38-39 – um belíssimo e poético texto, à propósito!). Essas pessoas, ou esses grupos de pessoas, abraçam uma visão bem diferente da identidade cristã, ou seja, do que é ser cristão, daquela abraçada por minha corrente teológica. Sua compreensão da identidade cristã poderia ser comparada com um estereótipo do que seja ser um brasileiro: um amante de samba, que come feijoada ou churrasco no almoço de domingo depois de ir à praia, que bebe aguardente, dorme numa rede, e que mal pode esperar pelo carnaval; alguém que tenha um sobrenome português, e que tenha o idioma português como língua materna, e que se enquadre num perfil “étnico” padrão; alguém semialfabetizado ou com um nível de instrução pouco elevado; alguém adepto do catolicismo, do evangelicalismo pentecostal, do espiritismo 210


kardecista ou de alguma tradição afro-brasileira; um adepto de alguma corrente política dita “esquerdista”, etc. Se abraçarmos essa visão da identidade brasileira, o que faremos com aqueles, também brasileiros, que têm sobrenomes alemães, italianos, japoneses ou árabes, por exemplo, e que não tenham o português como seu idioma materno? O que faremos com os brasileiros que não gostam de samba, que são vegetarianos ou simplesmente não comam feijoada? Com aqueles que não celebram o carnaval e que nunca viram o mar na vida? E sobre aqueles que não são católicos-romanos, evangélicos ou espíritas? Com aqueles que possuam um pós-doutorado? O que faremos com aqueles brasileiros que preferem vinho a aguardente? E com aqueles que não votaram em Lula da Silva nas últimas eleições presidenciais? Serão eles acusados de não serem brasileiros por simplesmente não se enquadrarem num perfil pré-determinado? Serão eles acusados de traição nacional, sendo banidos da pátria?... É muito semelhante às afirmações de que se pode ser cristão apenas de uma forma; que para ser digno da identidade cristã tenhamos que nos encaixar dentro de certos limites culturais ou ideológicos, doutrinários ou dogmáticos. A identidade cristã, ou seja, ser cristão, não decorre de apenas ser membro de uma comunidade ou de apenas crer em uma lista de doutrinas. A identidade cristã é construída a partir do sentido que socialmente damos à fé, e da constante revisão das tradições; ao mesmo tempo 211


em que também é construída a partir daqueles aspectos da tradição que continuam a ser significativos e relevantes para a igreja cristã e para o indivíduo. Muitos apostam na continuidade como sendo a base para a estabilidade da igreja cristã num mundo que se remodela a cada dia. Essas pessoas, ingenuamente, pensam que a fé cristã tem sido a mesma desde sua origem até hoje, e que continuará a mesma até “os fins dos tempos” (seja lá o que isso signifique!). Essa é uma visão deveras romântica e utópica da realidade, e ignora a maneira como a história humana é construída – sim, porque a história (e o cristianismo e todas as outras tradições religiosas, são parte da história humana) é uma construção humana e não um fato inato e determinado. O cristianismo, se visto como um sistema de crenças e práticas, foi sendo construído no decorrer de séculos de história, e, na verdade, ainda se encontra neste constante processo de construção e revisão, à medida que novas perguntas surgem, que deparamo-nos com novos problemas que nunca tiveram de ser enfrentados nos primeiros séculos da história cristã. E o que divide os cristãos, por exemplo, nós liberais daqueles mais conservadores, não é muito a lista de crenças que vemos como sendo essencial, mas, antes de tudo, é a maneira como vemos a história e sua origem. Essa visão da história dirige nosso entendimento da Divindade, de nossas relações com outros humanos e com a vida em si, e, 212


consequentemente, nossa visão do cristianismo e do que é ser cristão. Como um cristão liberal, entendo o cristianismo como sendo basicamente uma construção humana, mesmo que uma construção humana inspirada pela Presença Eterna. O cristianismo, incluindo aí nossas Escrituras, rituais, sacramentos, tradições, etc, é nossa tentativa de construir uma resposta ao que ou quem entendemos ser Deus. É nossa tentativa de encontrar e formular respostas às grandes questões que nos cercam e nos movem. É nossa tentativa de, juntos, construirmos uma comunidade baseada naquelas fontes que nos inspiram e moldam. Assim sendo, sei que não pode haver uma única compreensão válida do que é ser cristão, apenas uma explicação válida da identidade cristã. Há uma ampla diversidade de opiniões e compreensões no cristianismo, e apesar de muitas dessas compreensões e opiniões me fazerem sentir muito desconfortável e, por vezes, me chocarem, não posso descrever seus defensores como mais ou menos cristãos que eu próprio ou outros, pois se o fizesse, estaria negando minha compreensão de como a história humana é criada, estaria negando o que conheço a respeito da história cristã e, consequentemente, estaria abandonando minha visão de mundo mais básica. Como sempre, penso ser necessário afirmar que não tenho muito interesse por religião organizada, se o que se entende por isso for um 213


conjunto certo e indiscutível de doutrinas. Considero o dogmatismo uma “esquizofrenia social” (em um sentido teológico para a expressão), e por essa razão, distingo fé de dogma. A fé parece-me suficientemente segura para lidar com quaisquer tipos de questões. A fé nunca é ameaçada por perguntas ou dúvidas. O dogma, ao contrário, é sempre ameaçado pelas perguntas e dúvidas porque é duro, é rígido, é petrificado, é vigiado e controlado, e quebra-se sob a luz do questionamento, e, portanto, merece ser ameaçado pelas perguntas e dúvidas. Então, como resposta à pergunta daquele missionário, se ser cristão significa submeter-me a um sistema dogmático certo e indiscutível, onde não há espaço para dúvidas, para perguntas, para opiniões pessoais, então não quero ser contado como um cristão, pois não estou disposto a abraçar uma “esquizofrenia social”, não estou disposto a abandonar algo que considero ser parte integrante de minha identidade social: minha liberdade e integridade intelectuais. Se, entretanto, ser cristão for compreendido como ser seguidor dos ensinamentos e exemplos de vida atribuídos à figura de Jesus de Nazaré, e ser membro da grande e diversa comunidade de seus discípulos cujas compreensões estão num permanente processo de reflexão, reconstrução, e, por que não?, reafirmação, então, sim, eu sou um cristão devoto e fiel.

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Minha identidade cristã é moldada por minha maneira de ver a história, de entender a fé e tradição cristã, e por minhas ações, que, por sua vez, são moldadas e amparadas por minha maneira de crer e por minha maneira de interpretar a vida e minha relação com tudo o que é parte da vida. Outras pessoas compreenderão sua fé e o mundo ao seu redor de outra forma, e utilizarão outros instrumentos para ajudá-los nesse processo. As respostas encontradas por essas pessoas podem não ser muito adequadas para mim, mas elas não são mais ou menos importantes na vida dessas pessoas que as respostas que eu mesmo encontro são para mim, e é por essa razão que (mesmo discordando de e criticando essas ideias) sempre me disponho a apreciar o que essas pessoas têm a ensinar e oferecer de bom para o mundo. Temos (cristãos liberais e outros cristãos) muito mais em comum do que a maioria de nós consegue enxergar, e podemos aprender muitíssimo uns com os outros. É realmente uma pena que não possamos ver isso! Seja qual for a opinião pessoal de meus interlocutores, e a minha própria, a verdade é que há muitas diferentes maneiras de ser cristão. O cristianismo, tendo a história e a extensão que tem, possui variedades das mais impressionantemente belas às mais horrivelmente repugnantes (em minha visão). Todas as pessoas que, da sua forma, encontram na grande Tradição Cristã o seu caminho, são cristãos para mim – e ponto final. Não me sentarei na cadeira de juiz 215


para decidir a sinceridade ou correção das crenças de quem quer que seja, no que toca a serem cristãos ou não. E da mesma maneira, não permitirei que o julgamento de outras pessoas interfira na forma como enxergo a minha própria identidade religiosa. Eu sou um cristão, um cristão liberal.

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39 O QUE SIGNIFICA “AMAR A DEUS”?41

Querida Maria C., Você falou em duas de suas mensagens a respeito da obrigação que os cristãos têm de “amar a Deus”, e disse que isso se demonstra através de nossa obediência aos mandamentos do mesmo Deus. Você ainda deixou claro que fazia aqueles comentários por pensar que cristãos como eu, que reinterpretam a tradição cristã, rejeitam, de alguma maneira, os mandamentos de Deus e, dessa forma, demonstram que não o amam. “E ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força.” (Marcos 12:30) De acordo com o Evangelho, Jesus reafirmou isso aos seus compatriotas e seguidores. Ele reafirmou algo que era ensinado há séculos e séculos em sua tradição religiosa, o judaísmo. E a tradição cristã tem dado voz a esse ensinamento durante toda a sua história, apesar de nem sempre ser com os melhores exemplos práticos. A minha pergunta é: Afinal de contas, o que significa “amar a Deus”? Como você acha que demonstramos nosso amor a Deus?... 41 Uma resposta à mensagem de Maria C.

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Aparentemente, a sua resposta é simples: obedecer aos mandamentos de Deus. Mas que mandamentos são esses? Eu gosto da resposta dada por Jesus nessa mesma passagem de Marcos (leia Marcos 12:2831), quando ele reafirma que os dois maiores mandamentos são o amor a Deus e o amor ao próximo. Para mim, fica claro que “amar a Deus” é simplesmente amar aquilo que Deus ama, é se importar com aquilo com o qual Deus se importa, é cuidar daquilo que Deus criou e cultiva. Por que “amar ao próximo” é tão importante quanto “amar a Deus”? Porque é simplesmente impossível “amar a Deus” sem amar aquelas pessoas que são, isso é, que existem, por causa de Deus (independentemente de nossa compreensão do nome “Deus”), que carregam em seu próprio ser as marcas de Deus. Se a mensagem cristã afirma que “Deus é amor”, não se pode conhecer – e, consequentemente, amar a Deus, sem que se “pratique” Deus (isto é, sem exercer o amor!). No espírito da mensagem cristã encontro quatro afirmações básicas a respeito da humanidade: 1) ela foi criada por Deus; 2) os homens e mulheres são filhos e filhas de Deus; 3) a humanidade é amada por Deus; e 4) a humanidade é aceita por Deus. Como cristão, quando olho para as outras pessoas é isso que eu vejo. Eu vejo indivíduos que têm uma origem divina, já que sua origem está naquela mesma Realidade que é o centro de minha visão religiosa. Por esses indivíduos terem 218


sua origem em Deus, também reconheço o fato de Deus – essa Realidade que não me atrevo a tentar definir – ser o Pai ou a Mãe dessas pessoas, e que por essa razão, Deus os ama e os aceita plenamente. Só que a criação de Deus não é expressa apenas pela humanidade. Como cristão, afirmo que o próprio universo é criação de Deus. Se o universo é criação daquela Realidade, é também seu filho, e meu cuidado, atenção, e amor, deve se estender ele. Se eu destruo, desnecessariamente, uma parte da vida deste planeta para construir um parque aquático, eu estou demonstrado que não amo aquilo que Deus ama. Se eu saio para fazer caçadas, pelo simples prazer de me divertir com a morte de criaturinhas indefesas, não estou demonstrando amor para com o objeto do afeto de Deus. Se apoio a ideologia da violência e da guerra, da exploração de seres humanos, da destruição do meio ambiente, se viro as costas àqueles que são pisados e humilhados, se me calo quando deveria abrir minha boca contra os barões deste mundo, eu estou demonstrando minha falta de atenção, cuidado, e amor para com aquilo que representa o objeto do afeto de Deus (para usar uma linguagem um tanto poética). É muito simples falar em amor a Deus como sendo uma renúncia às coisas deste mundo, criando-se listas daquilo que representariam essas coisas. Você se junta a um grupo cristão, e de repente te dão uma lista de “pecados” aos quais se deve renunciar para que você seja capaz de 219


demonstrar seu amor a Deus. Mas amar alguém (ou alguma coisa) não é apenas um “não fazer”, constitui também “um fazer” - ao menos, em minha visão de “amor”. Nos preocupamos tanto com listas de “não fazer” por ser mais conveniente do que nos preocuparmos com a lista de “fazer” na realidade, quando se trata de relacionamentos, e não seria diferente com Deus, não há uma lista do “fazer”, mas uma lista do “se envolver”. É mais fácil abrir mão de um hábito social do que se engajar de corpo e alma no cuidado a alguém ou alguma coisa – e esse engajamento de corpo e alma com as coisas que são importantes para Deus (de acordo com o que foi proclamado pela tradição bíblica) é a maior e melhor demonstração do que seja “amar a Deus” em minha visão de mundo. Paz!

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40 O MEU CRISTIANISMO

Já me perguntaram, muitas vezes, o por quê de eu ainda ser cristão. Muitas das pessoas que continuamente me fazem essa pergunta enxergam o cristianismo como aquela tradição religiosa autoritária e opressiva, que já foi responsável por tantos males no mundo, e que se opõe às descobertas que a ciência tem feito, se tornando, assim, um obstáculo ao desenvolvimento da humanidade (ou, pelo menos àquela parte da humanidade que o segue). Como já é sabido por todos aqueles que me conhecem, eu me encontro numa posição ideológica contrária ao pensamento daqueles cristãos chamados de “fundamentalistas” (me refiro aqui ao sentido teológico dado a esse termo, ou seja, àquele movimento nascido em inícios do século XX nos Estados Unidos, como resposta às afirmações da ciência a respeito das origens da vida, e que parece ter um grande impacto no pensamento protestante brasileiro) e também) e também da maioria dos “conservadores”; mas também é sabido que ideologicamente me encontro bem distante daqueles que se opõem a toda forma de religião. Eu vejo a vida espiritual como sendo uma necessidade humana. Alimentar o “espírito” (ou seja, o interior do ser) é tão essencial quanto alimentar o corpo. O ateísmo ou o pseudo221


humanismo de alguns prega que a religião seja a causa dos problemas no mundo. Eu, como muitos outros, entretanto, creio que não seja a religião a causa desses males; a causa desses males está em nossa falta de compreensão de nossa religião, na falta de autenticidade e hospitalidade (em seu sentido mais amplo) na maneira como praticamos nossa religião. Para citar um exemplo claro disso, sempre me sinto irritado quando alguém insinua que o islã seja uma religião que pregue o terrorismo e a violência – porque sei que isso não é verdade. Alguns dizem, então, que muita violência é praticada em nome do islã. Os “islamitas” (aqueles envolvidos com movimentos que usam o nome do islã para cometerem atos de violência) matam, sequestram, e cometem todo tipo de violência em nome da religião islâmica. Os críticos não conseguem entender que esses radicais se prendem a uma visão muito estreita de um ponto e que acabam por violar toda a sua tradição religiosa como consequência. Eles não são portavozes do islã. Sempre penso em minha própria religião como sendo uma grande jornada, um eterno êxodo. Nesse sentido, já percorri as rotas mais sombrias do caminho que passam pelos campos mais perfumados, e que posteriormente me lançam em lugares solitários e sombrios, para que novamente possa alcançar mais luz e perfume. Vejo essa como sendo a perpétua jornada do viajante que busca aquele Mais, que chamo de 222


Deus. O cristianismo é minha jornada nessa busca pelo Mais. Mas, afinal de contas, por quê o cristianismo? Por quê alguém como eu continuaria a percorrer o caminho do cristianismo e se comprometeria em ensiná-lo a outras pessoas? Eu seria incapaz de oferecer uma resposta única a essa pergunta. Tenho certeza que outras pessoas que seguem outros caminhos espirituais também seriam incapazes de resumir suas motivações a apenas um ponto. Talvez possa começar dizendo que o caminho que sigo é um caminho simples. Meu cristianismo é um cristianismo não acorrentado a definições pré-estabelecidas; é um cristianismo não preso a explicações do passado que meu senso comum seja incapaz de aceitar, e que acabam virando um obstáculo à minha jornada. Creio que não sejam as explicações do sagrado que sejam eternas, mas sim nossa experiência do sagrado – e essa experiência do sagrado sempre ganhará explicações individuais diferentes, em todos os tempos e em todos os lugares. Me vejo como um seguidor de um rabino judeu que viveu na Palestina no primeiro século de nossa era. Esse mestre espiritual era Jesus de Nazaré, chamado por seus seguidores de “o Cristo”. Não. Se você pensa que eu perco meu tempo discutindo as explicações que os seguidores posteriores desse homem deram a respeito de sua natureza, de quem seria seu pai, 223


como se deu seu nascimento, ou se ele sempre existiu em algum lugar do universo antes de sair do ventre de sua mãe... Não. Essas coisas não me interessam. Para mim, Jesus foi um homem normal, como eu mesmo, nascido da mesma maneira que todos os outros humanos – e é por esta mesma razão que ele consegue ser relevante em minha vida espiritual. Se por um lado eu rejeito as explicações filosófico-religiosas que exaltaram Jesus ao nível divino e que criaram a imagem de um Cristo etéreo e não humano, por outro lado eu abraço as tradições que lhe atribuem palavras e ações que não podemos saber serem factuais ou não (levando em consideração o fato de eu não acreditar que os relatos dos Evangelhos sejam relatos históricos – no sentido que geralmente damos à palavra “história” -, mas que se tratam de testemunhos religiosos). Àqueles que pensam ser tolice acreditar que Jesus de Nazaré tenha sido um personagem factual (ou seja, que realmente tenha existido no tempo e espaço), respondo: Não faz diferença! Mesmo se Jesus de Nazaré tivesse sido apenas uma criação dos primeiros “cristãos”, o personagem criado e exibido nos Evangelhos ensina uma mensagem poderosa e que tem tido profundo impacto na vida de incontáveis pessoas no decorrer de dois milênios. Tem tido profundo impacto em minha própria vida desde minha infância.

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Um dos livros que compõem o Novo Testamento, o Evangelho de Marcos, narra um encontro entre Jesus e um líder religioso de seu tempo (Marcos 12:28-34). Esse líder pergunta-lhe qual seria o mais importante dever de um judeu. Jesus responde: “O primeiro mandamento é este... ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois”. AMOR é a palavra que Jesus supostamente utiliza para resumir a essência de seu ensinamento. Uma entrega total de si mesmo ao amor a Deus e ao próximo, criando um laço entre o indivíduo e aqueles que o cercam a uma Realidade desconhecida aos olhos mas perceptível ao coração. Essa é a mensagem de Jesus. Em outro episódio emblemático, Jesus é descrito como tendo ensinado o seguinte a seus seguidores (Mateus 5:3-12): “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus...” 225


Que diferença entre esse Jesus dos Evangelhos e aquele outro Jesus dos pregadores de rádio e televisão! É essa imagem do Jesus descrito nos Evangelhos que me faz um de seus seguidores. Alguém poderia me perguntar se não me sinto desconfortável em ouvir as palavras de uma coleção de livros (a Bíblia) que já foi usada como desculpa para a prática dos atos mais vergonhosos, como a escravidão, a violência contra outras comunidades de fé, guerras, exploração econômica, o sexismo etc. Bem, eu acredito que todos nós, incluindo aqueles que dizem acreditar ser a Bíblia literalmente “a palavra de Deus”, fazemos leituras seletivas dos “textos sagrados”, retendo aquilo que pensamos ser bom e descartando aquilo que não nos convém. Eu, como um cristão liberal, certamente faço isso. Renuncio as visões tribalistas, violentas e, para mim, sem sentido, enquanto abraço de mente e coração abertos aqueles ensinamentos que me fazem sentir mais próximo da Realidade Divina. Abro meus ouvidos para as vozes de Miqueias, Isaías, Jesus, Tiago, e Paulo, que nos ensinam a amar, servir, alimentar, vestir, e abrigar nosso próximo. Essa é minha maneira seletiva de ouvir a Bíblia.

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“Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8) “... acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente...” (Isaías 58:6-10) “...Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar... todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram...” (Mateus 25:31-46) “Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição...” (Tiago 1:27) “... no amor fraterno, sejam carinhosos uns com os outros... sejam solidários... se aperfeiçoem na prática da hospitalidade. Abençoem os que perseguem vocês e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que 227


choram. Vivam em harmonia uns com os outros... Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens... Vivam em paz com todos... se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber... Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:1021) Essas passagens da Bíblia indicam o cristianismo que considero minha jornada, o caminho que me leva ao Divino. Não é muito uma crença dogmática, mas uma fé que toma forma em um modo de vida. Outras pessoas talvez prefiram os credos, as declarações de fé, a crença na perfeição e infalibilidade de todas as palavras da Bíblia. Eu, entretanto, escolho um caminho mais simples e, para mim, mais objetivo. Escolho acreditar que exista um Mais além de tudo isso que meus olhos podem ver. Não tenho interesse algum em definir esse Mais, mas escolho chamá-lo de Deus ou Pai/Mãe. Jesus é, para mim, a porta para essa Realidade – mas reconheço que outras pessoas encontrem sua porta para esse Mais em outros lugares, e a porta que encontram pode ser tão verdadeira para elas como a minha é para mim. Minha religião, isto é, meu cristianismo, é a compaixão, o amor, a misericórdia, a hospitalidade, a paz entre eu e os outros – absolutamente TODOS os outros.

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Tenho muito a aprender, a praticar, a transformar para que possa tornar minha vida um reflexo dessa fé, uma expressão dessa religião, mas, como disse antes, minha religião é uma jornada, meu cristianismo é um contínuo êxodo.

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41 SALVAÇÃO, AMOR E UNIVERSALISMO

Há alguns dias atrás 42, eu conversava com um amigo meu, um cristão batista, sobre religião. Na verdade, conversávamos a respeito de uma doutrina muito importante para o cristianismo como um todo: a salvação. E, como vocês podem esperar, tivemos uma conversa apaixonada a respeito de nossas diferentes concepções – o que não poderia ser diferente quando dois teólogos, que abraçam visões religiosas tão diferentes, se trancam em uma sala para discutir religião. Meu amigo batista não compartilha de minha visão universalista de salvação, e, até aquela data, não conhecia muito bem as concepções e a história da tradição universalista no cristianismo. A primeira pergunta interessante que me fez meu amigo, a respeito do tema, não foi exatamente a respeito da concepção universalista da salvação per se. Ele me perguntou qual era a relação entre o unitarismo e o universalismo – já que sou um unitarista que sempre fala a respeito do universalismo. Expliquei-lhe que o unitarismo (como uma tradição cristã independente), apesar de ser diferente do universalismo em muitos pontos e ênfases, abraça uma visão soteriológica 42 Texto originalmente publicado em 10 de maio de 2009.

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universalista – traduzindo para bom português: o unitarismo ensina que todas as pessoas serão “salvas”, apesar de (talvez) o unitarismo e o universalismo – se vistos como diferentes tradições cristãs – oferecerem diferentes explicações do que seja essa “salvação” e de como ela ocorra. Para aqueles que estão mais familiarizados com a liturgia mais tradicional de nossa congregação, posso citar as palavras da oração de ação de graças, onde agradecemos a Deus pela “redenção do mundo por meio dos ensinamentos de Jesus Cristo”. Observem que não citamos a morte de Jesus, ou seu “sacrifício” - como diria a maioria dos outros cristãos – como sendo o instrumento de redenção ou salvação do mundo. Para nós é a vida de Cristo, e não sua morte, o que nos redime. São os ensinamentos de Jesus, a sua mensagem, que reconheço não ser exclusiva dele (já que outros mestres espirituais pregaram mensagens semelhantes em outras épocas e lugares), o que nos transforma e nos salva. O universalismo cristão, abraçado por esta congregação, ensina que Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Para aqueles que costumam nos criticar, dizendo que rejeitamos a tradição cristã, cito um nome da tradição cristã como um dos maiores exponentes dessa ideia universalista: Orígenes. Orígenes, que defendeu longamente o universalismo em sua obra De principiis 232


(“Primeiros Princípios”), suspeitava de toda forma de dualismo – ou seja, de qualquer sistema de crença que reconhecesse a existência de dois poderes supremos, um bom e outro mau. Essa crença era característica de muitas formas de gnosticismo, e foi muito influente no mundo Mediterrâneo oriental em fins do segundo século. Argumentando que o dualismo era fatalmente falho, Orígenes observou que isso tinha importantes implicações para a doutrina cristã da salvação. Rejeitar o dualismo é rejeitar a ideia de que Deus e satanás (um ser real para o pensamento da maioria dos cristãos) governem seus respectivos reinos por toda a eternidade. No fim, Deus vencerá o mal e restaurará a criação à sua forma original. Em sua forma original, a criação estava sujeita à vontade de Deus. Seguese, então, com base nesta soteriologia “restauracionista”, que a versão redimida final da criação não possa incluir nada semelhante a um “inferno” ou “reino de satanás”. Tudo “será restaurado à sua condição de felicidade... para que a raça humana... possa ser restaurada àquela unidade prometida pelo Senhor Jesus Cristo”. Levando em consideração as diferentes concepções e vocabulário entre unitaristas e outros cristãos universalistas, não poderia deixar de citar o grande John A. T. Robinson, o grande teólogo britânico que publicou em 1968 o livro “In The End God”. Neste livro, Robinson considera a natureza do amor de Deus:

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“Não podemos imaginar um amor tão poderoso que, no fim, ninguém será capaz de resistir à entrega livre e grata?” Essa noção de amor onipotente funciona como a ideia central do universalismo de Robinson. No fim, o amor conquistará tudo e todos, tornando a existência do inferno uma impossibilidade. “Em um universo de amor não pode haver um céu que tolere uma câmara de horrores”. Nossa concepção universalista de salvação não significa que pensemos que não faz diferença que crença uma pessoa abrace. Eu posso garantir que há muita diferença entre uma crença pacífica e outra violenta. Entre uma religião que ensina seus adeptos a amar a todos e aquela que ensina a discriminação, e consequentemente o ódio. O que a noção universalista ensina é que Deus, essa realidade infinitamente inexplicável, não perderá sua criação. Deus é um amor tão profundo que será capaz de transformar a tudo e a todos, e será capaz de redimir e salvar sua criação. Eu não poderia acreditar numa Realidade diferente disso. Não poderia chamar de Deus uma Realidade que não fosse capaz de transformar os corações humanos. Como o cristão que sou, afirmo que Jesus oferece um caminho que leva a Deus. Jesus é uma porta à “salvação de Deus”. Para mim, como 234


cristão, seguir o exemplo e os ensinamentos que lhe são atribuídos é seguir um caminho que leva a Deus, que me salva, que me redime. Para algumas outras pessoas, essa Realidade que chamo de Deus, ofereceu uma outra “porta” para a “salvação”. Essa porta se chama para alguns o Buda, para outros talvez seja a mensagem pregada pelo profeta Muhammad, para outros talvez seja a Torá revelada ao profeta Moisés. Eu creio que Deus seja maior que todas as concepções que temos a respeito dele(a) – para mim Deus não é uma pessoa, é uma Realidade, é a Base da Existência. Eu, obviamente, creio que Jesus também compreendia Deus dessa forma, e foi por essa razão que reafirmou (como fizeram outros grandes mestres hebreus) que os maiores mandamentos eram o amor a Deus e o amor a nosso próximo. O amor é a salvação pregada por Jesus de Nazaré. Jesus não disse que nosso amor deva se limitar àqueles que são como nós. Devemos amar como Deus o faz, e seu amor está sobre todos, absolutamente todos.

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Reverendo Gibson Da Costa - Confissoes Teológicas  

REV. GIBSON DA COSTA http://cristianismoprogressista.blogspot.com gibson@gibsondacosta.info

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