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Apresentação

Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” as mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste. Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio. No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante. Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos, monstros e pervertidos”. No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu I convertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista do Comando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírus do HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estar também, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994, batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.” Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética e ecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida


real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários de crença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, uma guerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdição do espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas. Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeito chegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencer da importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar. Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também um pouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossa memória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, as trapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais. Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que não têm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não é um processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que esse missionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá a pena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima? Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicções do pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezes recorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução.” A sua ingenuidade pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, é capaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.” Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico, essa, sim, milionária, passa longe desses pés-de-chinelo cuja alma Caio Fábio tenta salvar, já que não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversa com Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas, conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso que não ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.

ZUENIR VENTURA

escritor, jornalista e editor especial do Jornal do Brasil


Aos muitos seres que me habitam a alma, os que conheci na Terra e aqueles que apenas encontrei em sonhos e pesadelos, e que são a matéria-prima de minha existência humana, dedico este livro de confissões.


Introdução

Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser, entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados. E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles relacionados foram inegavelmente públicos. Há um tempo para todo propósito e para a realização de cada coisa neste mundo. Esta é a minha estação de fazer confissões de morte e vida, de dúvida e fé, de desespero e esperança. E qual foi o start deste processo em minha alma? Sem dúvida ele vem de eras psicológicas tão longínquas, que certamente me precedem no tempo. Talvez eu esteja apenas trazendo à luz um desejo do meu coletivo familiar, e até de gente que já se foi há muito, mas que partiu sem ter feito o ato de confissão que aqui faço. No que me diz respeito, estas confissões nasceram como necessidade em mim desde a primeira vez que registrei a consciência do encoberto, quer tenha sido apenas um pensamento maligno, quer um sentimento sublime ou um ato velado e sutilmente imoral, mesmo que praticado na minha mais tenra infância. E lendo este livro, você encontrará razões sobejas para que ele exista na forma em que aqui está. Historicamente falando, no entanto, faço estas confissões fundamentado em três percepções da realidade. A primeira tem a ver com minha total consciência do poder terapêutico que este livro de strip-tease psicológico teve para mim e terá para você. Puxei um fiapo na minha alma e achei uma grossíssima corda de amarrar navio atada bem no cerne de meu ser. Desfazer esse nó foi exercício terapêutico e tarefa de cura para o meu interior, e poderá ser para você também. A segunda percepção tem a ver com meu desejo compulsivo de queimar algumas pontes. Após ler este livro, você certamente perceberá como estou encurralando minha vida numa única opção: ser apenas o que tenho sido até aqui, em Deus, pois quem conta as histórias que aqui narro, não pode ser candidato a mais nada na vida, a não ser a viver unicamente da graça e da bondade de Deus. Se um dia quis ser político, mesmo sem jamais me ter dado conta disto, aqui desisto. Se já


me passou pela cabeça tornar-me um grande figurão da política religiosa, aqui também me aposento antes da hora. E se, porventura, algum dia desejei ser um homem de reputação entre meus iguais, aqui também puxo a descarga desse dejeto e o expulso de meu ser, pois mediante estas confissões digo quem sou, ou quase isso. Mas saiba: andei bem perto de me entregar por completo. A última percepção que dá base a este livro de confissões é a de que hoje creio, muito mais do que ontem, que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana. Assim, mesmo perdendo força diante dos homens, espero sinceramente estar ganhando poder diante de meu Criador. Dessa forma, quanto mais vulnerável eu estiver diante de você, mais forte estarei aos olhos de Deus e mais ajudado serei por Seus anjos solidários e amigos. Espero que a leitura destas minhas Confissões leve você a fazer a confissão que mudará sua vida por completo, ou seja, que com seus próprios lábios você passe a chamar o Filho de Deus de Advogado na Terra e no Céu. Caio Fábio D’Araújo Filho Inverno, Boca Raton, Flórida, Estados Unidos da América — 1996


P ARTE I

Confiss천es de Morte e Vida


Capítulo 1 “Ao dizer que atos viciosos contrários aos costumes humanos devem ser evitados, nós levamos em conta a variação dos hábitos de comportamento, ou seja: a convenção mutuamente concordada de uma cidade ou nação, confirmada pelo costume ou pela lei. Nesse caso, qualquer pessoa que caia fora desse padrão torna-se completamente inaceitável para a sociedade.” Santo Agostinho, Confissões

Meu pai olhou-me deitado no pequeno berço e não resistiu. Colocou-me em seus braços, levou- me até o canto daquele amplo cômodo da casa da vovó Zezé e ficou sem saber o que fazer. Ele fora católico até os 26 anos, quando tomara uma decisão: seria agnóstico até que alguma coisa profundamente espiritual lhe trouxesse a certeza de que Deus era Deus, e não uma mera abstração. Por isso mesmo, ele não podia entender o que lhe estava acontecendo. Sua alma fora totalmente impregnada pela idéia do sagrado. Era como se o próprio Deus tivesse invadido os aposentos daquela casa e feito uma convocação irresistível a papai. Lá estava ele, um tanto desequilibrado, tentando manter-me no colo nos meus dois dias de vida neste planeta. A muleta sobre a qual se apoiava não lhe permitia ter certeza de que me carregaria sem me machucar. Mas a força que vinha de dentro de sua alma era mais forte. Era como uma ordem. Ele não tinha outra opção a não ser obedecê-la. Tomou-me nos braços, ergueu-me ao céu e disse: “Deus, se Tu existes e estás aqui neste quarto, ouve a minha voz. Eu Te dedico o meu filho, meu primogênito, e peço que faças dele um homem de Deus, um sacerdote, alguém que carregue a Tua marca em sua vida. Mas peço que Tu não o prives do privilégio de ter família, de criar filhos e de conhecer o amor por uma mulher. Por isso, mesmo sem saber por que Te peço, por favor, Deus, faze dele um pastor. Assim, ele poderá conhecer a alegria que eu estou sentindo neste momento, de levantar meu filho nos braços, e será também capaz de conhecer este estranho sentimento de proximidade da divindade, que, como nunca antes, me invade agora todo o ser.” Ninguém jamais ficou sabendo o que ele havia feito comigo naquele dia. Também nem ele e nem ninguém poderia imaginar que aquele gesto estava marcado com a força divina das profecias. Eu sei que minha existência encontrou seu sentido e sua explicação histórica naquela oferenda agnóstica de meu pai, dedicando-me a um Deus que ele não tinha certeza se existia. Somente 21 anos depois daquela oração ao pôr-do-sol é que eu viria a saber que minha vida nada mais era do que a materialização de um desejo sagrado, de uma duvidosa, porém apaixonada, oração paterna, e de uma vontade transcendente... de uma profecia do amor.


Meu pai é o ser humano que mais me influenciou neste mundo até o dia de hoje. Filho de uma estranha mistura de histórias e experiências humanas, tem vivido sob a marca do surpreendente, do radical, do intenso e do inusitado. Entretanto, sua vida e a minha própria vida, por extensão, explicam-se, obviamente, em contextos mais antigos do que nossa própria experiência histórica. Somos apenas os subprodutos de histórias de ancestrais fascinantes e quase mágicos em suas performances neste mundo. E na intenção de destrinçar as teias que tecem estes legados familiares tem-se de viajar ao século anterior ao nosso. É para essa viagem que eu convido você. Minha herança humana viaja em células e sonhos desde há muito. Mas no nível de minha consciência histórica, tudo começou com meu bisavô, um cearense de saúde férrea e de humor fino e provocativo, que tinha uma fraqueza especial por saias. Luís Antônio de Araújo saiu do nordeste para o Amazonas no século passado, quando ainda era bem jovem. Nascido no ano de 1821, em Camuci, Ceará, teve na longevidade e na força física suas mais marcantes características. Viveu 104 anos e, aos oitenta, era famoso por ainda ser capaz de carregar fardos de pirarucu pesando até 120 quilos. Meu pai não conheceu o seu Araujinho, como chamavam meu bisavô no interior do Amazonas. Com fama de namorador e de grande contador de histórias, o velho cearense casou-se com Maria Santana de Araújo já avançado em idade, aos 66 anos, ainda assim depois de um vastíssimo processo de seleção. Ele e Santaninha tiveram dois filhos: João Fábio e Joana, ambos nascidos em Nova Vista de Canutama, no alto Purus, coração do Amazonas. Meu avô, João Fábio, nasceu quando seu pai já tinha 68 anos e precisou lidar com a tragédia desde cedo. Em 1893, portanto apenas cinco anos após haver se casado, Santaninha veio a falecer, vítima de uma das muitas doenças que matavam bestamente as pessoas nas beiras dos rios do Amazonas: a febre negra. Naqueles dias, o tempo passava com a mesma preguiça com que as águas deslizavam, lentas e caudalosas, pelo rio Purus, na região do seringal Nova Vista, onde o velho Araujinho conseguira um emprego como extrativista de balata de borracha. Sua intenção era trabalhar duro a fim de fazer algum dinheiro com borracha, produto por excelência para quem quer que tivesse uma visão clara de como a vida se desenharia nos anos por vir. O Amazonas vivia um tempo em que a borracha era o chip de todas as possibilidades presentes e futuras. Apesar da pobreza do interior, havia algumas inigualáveis compensações. Os cheiros naturais da região eram um pagamento divino aos que insistiam em viver no lugar. Os aromas da floresta eram extraordinários, aromas que, em geral, ainda podemos perceber nas vilas e pequenas aldeias do interior do Amazonas. Era fragrância de mata viva, misturada com o odor de uma flora incomparavelmente diversificada, onde se podia perceber o cheiro de flores jamais transformadas em perfume em lugar nenhum do mundo. Os imensos volumes de água também contribuíam para acrescentar ao ar o estranho odor da vida subaquática, combinado ao das plantas que crescem à margem dos rios. Além disso, havia uma cheirosa sensação de frescor que vinha de toda parte. A areia amarelada à beira dos igarapés tinha em si o cheiro forte de algo que parecia uma mistura de enxofre com pó de café. Era um aroma quase primal, como se a terra ainda exalasse os cheiros de seu mais recente parto: o Amazonas. Na pequena vila do seringal Nova Vista podia-se também discernir o forte aroma que vinha das grandes chapas de ferro ou das imensas bases de barro queimado, onde mulheres de cabelos compridos, presos por prendedores feitos de caroço de tucumã, agitavam suas colheres de pau, fazendo a farinha de mandioca dançar incessantemente, enquanto não cansavam de contar casos


infindáveis, que não incluíam mais do que as aproximadamente 550 pessoas que viviam no lugar. Políticos, militares e intelectuais que ocupavam espaço nas conversas da maioria das pessoas, em qualquer cidade maior que uma vila no sudeste do Brasil eram completamente ignorados pelos moradores daquela região, onde as notícias já chegavam com tamanho atraso, que os que as recebiam acabavam pensando: “Se eu vivi dois anos sem saber que isto havia acontecido e nada mudou na minha vida, então é porque tanto faz como tanto fez; isso só importa num outro mundo, muito longe daqui. Pra gente aqui, saber ou não saber quem foi eleito, quem morreu ou quem foi preso e acusado de traição, não altera a vida em nada.” E assim eles seguiam, fazendo seus rituais simples na liturgia do cotidiano. Aqui e ali se fazia passar um pouco de café num coador de pano, o que promovia rápidas interrupções na fabricação de farinha. Em geral, essas breves paradas para o café também se faziam acompanhar de pedaços de beiju, alimento que naqueles dias ocupava o lugar do pão no interior do Amazonas. Foi naquele cantão do Brasil, que hoje o mundo conhece como The Amazon Rain Forest, que meu bisavô ficou famoso e quase mítico, tornando-se uma espécie de lenda cabocla das beiradas do Purus. As histórias sobre ele são muitas, mas as que mais me fascinam têm a ver com sua força. Havia por aquelas bandas um certo Sebastião Preto, conhecido por ter braços fortes e musculosos e por ser o louco da aldeia. No entanto, quando estava aliviado de seu estado de loucura, Sabá era um homem calmo, especialmente carinhoso com o menino João Fábio. Mas, quando a perturbação mental lhe revirava a razão, era capaz de qualquer coisa, inclusive de machucar aqueles de quem gostava. Um dia, o louco amanheceu atacado e partiu para um ato bestial. Ao perceber a presença de João Fábio na pequena praça do vilarejo, correu alucinado para cima da criança, demonstrando a clara intenção de estrangulá-la. Quando o velho Araujinho percebeu Sabá correndo na direção de seu filho, lançou-se de um salto entre o louco e o menino, atracou-se a Sabá como se fosse uma cobra jibóia, empurrou-o contra o muro de uma casa e tirou-lhe os pés do chão, mantendo-o no ar, imobilizado entre a parede e o seu próprio corpo. — Tragam as cordas — gritou o velho Araujinho entre estrebuchos e grunhidos. — Tragam as cordas. Não demorem — pediu mais uma vez. Depois que levaram o pobre louco amarrado, meu bisavô confessou que se tivessem demorado mais um minuto, ele não teria agüentado. Uns dizem que ele ficou ali, imóvel, segurando Sabá no ar por mais de cinco minutos. Outros falam que não durou tanto tempo assim. Mas ele não largou o negro até que trouxeram as cordas e amarraram Sebastião, vítima de uma insanidade para a qual os tempos não tinham ainda qualquer esperança de cura à vista. Quando as jovens de Nova Vista se referiam ao velho Araujinho como sendo alguém de idade avançada, ele sempre falava: “É, minha senhora, sou velhete, mas sou espertete. A senhora quer uma demonstração?” E, assim, cessavam as inconveniências, afinal, a mulherada sabia que aquele velhote marcado pelo tempo, mas de saúde invicta, era realmente espertete com o sexo feminino, dono de longa e diversificada experiência naquela área. E as mulheres tinham certeza de que não se tratava apenas de memória de um remoto passado. Todos sabiam, ou pelo menos ouviam falar, das façanhas contemporâneas daquele velho incorrigivelmente galanteador, às vezes discretamente assanhado, e que parecia estar sempre fisicamente bem-disposto. Araujinho viveu casado apenas cinco anos. Com a morte da esposa, resolveu pedir ajuda a um amigo para completar a educação dos filhos. Percebendo-se sem jeito para as atividades de natureza doméstica e avaliando a dificuldade que seria manter em casa o filho em idade escolar


tão crítica, enquanto se embrenhava dias na mata recolhendo o soro da borracha que escorria das veias rasgadas das seringueiras, preferiu fazer sacrifícios de natureza emocional a submeter João à privação do saber acadêmico, que ele próprio não possuía, mas cuja importância reconhecia. Por isto, entregou o filho a um tutor. O menino João Fábio foi enviado para Fortaleza no ano de 1901, aos 12 anos de idade, onde permaneceu três anos, para então retornar ao Purus, aos 15 anos, a fim de pegar a latinha de coleta de balata e tentar reunir seiva de borracha para vender e fazer dinheiro para ir estudar fora do Amazonas. Assim, durante três anos trabalhou incessantemente, juntando dinheiro para viajar para a Bahia, onde sonhava estudar farmácia. Para seu Araujinho, a volta do filho fez muito bem. Mesmo sendo um homem aparentemente independente, era sempre imensamente carinhoso com João Fábio e orgulhava-se de ver nele alguém forte o suficiente para trabalhar pesado, mas inteligente o bastante para perceber que o futuro não estaria definitivamente ali. A companhia do filho era-lhe especialmente estimulante porque a vida de um homem viúvo, com quase noventa anos, no interior do Amazonas, podia ser extremamente solitária. Naquelas bandas, um homem de paixão e fogo aceso pelas mulheres tinha muita dificuldade para dar “saidelas rápidas”. E quando se tratava de dar uma variada na companhia feminina, era muito mais difícil ainda, pois todas as localidades tinham população pequena. Assim, era difícil que alguém se escondesse da curiosidade maldosa dos filhos do vilarejo, sempre atentos a sinais de olhares apaixonados ou lascivos, que eventualmente se expressavam aqui e ali, naqueles longos e solitários dias, povoados por gente que, na maioria das vezes, nem percebia que estava doida para achar alguma coisa excitante para fazer. Nesse caso, a solução para quebrar o tédio, disfarçado em resignação existencial, era namorar escondido ou descobrir quem namorava, ou pulava a cerca, com a filha ou a mulher do vizinho. O álibi de gente fogosa, como seu Araujinho, era sempre o boto tucuxi. No Amazonas, quando uma menina aparecia grávida ou os pais percebiam que ela já não era “moça”, o boto preto era evocado como saída moral e honrada para a deflorada donzela, uma vez que se dizia que os botos tinham o poder de se transformar em belos e irresistíveis rapazes, que saíam dos rios para inebriar, seduzir e possuir as mais belas meninas das cidades ribeirinhas. Assim, a geração de bisavô Araujinho tinha no boto um importante aliado, funcionando sempre como cúmplice e álibi para escorregadelas noturnas e criando o necessário espaço para que a diversidade da experiência sexual fosse acobertada pelo mito do boto sedutor. O velho morreu pobre. Entretanto, ficou famoso dentro de seu pequeno mundo, plantado à beira do rio Purus. Partiu no ano de 1925, aos 104 anos de idade, com todos os dentes intactos, sem que chegasse a conhecer uma dor de cabeça ou qualquer forma de doença, e sem que jamais tivesse tido o privilégio de experimentar o significado da palavra “preguiça”. Aquele homem centenário parecia marcado pelo signo da longevidade, e muitos pensavam que ele ficaria ali, para bem ou para mal, até quando quisesse estar. Ele enterrou a muitos e viu suas façanhas serem contadas e recontadas em inúmeras tardes, quando possivelmente se sentia como os atores de Hollywood ao verem seus próprios filmes em matinês ou em vídeos. E ele ainda ajudava a aumentar a lenda em torno de si mesmo quando, num gesto de modéstia, dizia: “Parem com isso, seus rapazinhos canela-de-sebo. Vocês ficam aí mentindo a meu respeito. Todo mundo sabe que isso tudo foi inventado pelo exagero dos fracotes dos avós de vocês — que Deus os tenha em Sua presença. Eu nunca fui tão forte assim.” Depois de assim falar, descia até a beira do rio e pegava um cesto de farinha de sessenta quilos, que colocava naquelas costas de mais de cem anos de idade e carregava até o alto do


barranco. Assim, sua provocação, disfarçada de modéstia, apenas reforçava o mito de sua força junto às novas gerações. Dizem que Luís Antônio de Araújo morreu porque quis. Teria praticado uma espécie de eutanásia existencial. Tendo existido por mais de um século, cansara-se existencialmente de viver e, por isso, havia decidido que era tempo de botar a viola no saco e recolher-se à eternidade. Quando o velho estava com 104 anos, houve uma grande friagem no interior do Amazonas, com a temperatura caindo ao nível dos 13 graus centígrados. Ele saiu do quarto, deitou-se numa rede na varanda e disse que não se levantaria mais dali até morrer. Decidiu não se alimentar mais e nem se erguer novamente. Os pedidos eram insistentes no sentido de que ele se alimentasse. — O senhor está doente? Está sentindo alguma dor? — todos perguntavam. — Não, seus rapazinhos canela-de-sebo — dizia ele —, eu não estou sentindo nada. Apenas acho que já vivi demais e que tá na hora de deixar esse mundo para vocês. Portanto, me deixem em paz. Um homem de 104 anos tem que ter o direito de morrer quando quer. Foram aproximadamente trinta dias de friagem. A cerração cobria a floresta e tornava os dias longos e lúgubres. Os parentes e amigos faziam vigília na varanda, sempre tentando empurrar-lhe goela abaixo um pouquinho do famoso caldo de caridade, uma sopa de farinha de mandioca cozida, temperada com alho e cebola, tida como milagrosa e revitalizante. Mas ele se recusava a comer. Sua decisão estava tomada e ele não a negociaria com ninguém. Nem mesmo com seu filho, João Fábio, que, plantado ali, pedia reverente que o velho pai comesse alguma coisa. Não houve jeito. No ano de 1925, seu Araujinho deixou esse mundo da mesma forma que nele vivera: de modo obstinado e convicto. Nunca saiu do interior do Amazonas, mas virou lenda no coração de muitos, especialmente na casa de seu filho, João Fábio, onde sua memória era reverenciada como a do velho Matusalém, que viveu 965 anos, conforme o relato bíblico do livro do Gênesis. A importância histórica e espiritual de bisavô Araujinho na minha família é justamente a de cumprir o papel de uma figura lendária, que vem de onde não se pode muito bem traçar as origens, que vive sem trocar cartas com o passado, e que parece absolutamente contente com o hoje, com o aqui e o agora, imerso nas oportunidades que a vida abria de modo natural diante dele. Ele nunca escreveu nada e nem tentou deixar nenhum legado. Mas suas histórias — nem sempre reveladoras de princípios morais ou religiosos que pudessem ser usados para inspirar as gerações seguintes —, apesar de ambíguas, eram plenas de uma estranha e essencial virtude: uma imensa liberdade para existir intensamente debaixo do sol. Foi seu Araujinho quem introduziu a força das lendas pessoais em nossa família. Pobre da família que não tem lendas, sejam boas ou más. Uma família sem lendas é uma família sem alma. Seu Araujinho também foi aquele que nos ensinou que a vida é séria, mas que se não se fizer acompanhar por pitadas de irreverência e de controlada irresponsabilidade, torna-se mais tediosa do que a mesmice do rolar das inalteráveis águas barrentas do rio Purus. Foi dele, ainda, que os homens e mulheres da minha família aprenderam o gosto do namoro, da paixão e da delícia dos sentidos que se deixam estimular por cheiros e toques, fazendo a vida parar e dando a você o direito de saborear a existência como quem se atola nas doces carnes de uma manga-rosa. Não se fala muito da fé de seu Araujinho. Consta que era católico, mas não parece que para ele isso fosse coisa muito importante. Prova disso está o catolicismo de seu filho João Fábio, que,


conquanto tenha existido de modo bastante perceptível, era, entretanto, muito mais um humanismo generoso do que o fruto de beatices religiosas e com cheiro de vela. Talvez a maior de todas as demonstrações de que seu Araujinho viveu para além da tutela espiritual do organismo religioso esteja na estranha maneira como ele morreu: aparentemente sem sacerdote, sem rito, sem hóstia, sem extrema-unção e sem medo. Morreu quando achou bom morrer, porque viveu como achou bom viver.


Capítulo 2 “Honra, poder de dar ordens e estar em comando têm sua própria forma de dignidade, embora daí também se origine a ânsia da auto-afirmação. Ainda assim, na aquisição de todas estas fontes de status social não devemos nos afastar de ti, Senhor, nem nos desviar da Tua vontade.” Santo Agostinho, Confissões

Foi a morte da mãe o que certamente propiciou a João Fábio a bênção do estudo como caminho alternativo para fora da vida no seringal Nova Vista. Além disso, o fato de seu Araujinho tê-lo mandado para Fortaleza aos cuidados de um tutor abriu-lhe os horizontes e inoculou nele aquele estranho gostinho por novos espaços e relacionamentos. A orfandade, quando se faz acompanhar de uma boa atitude frente à vida, pode capacitar o órfão a se sentir livre para construir mundos para além dos condicionantes da consangüinidade imediata. Muitas vezes os órfãos têm movido este mundo. Os anos de trabalho no seringal não permitiram que João Fábio juntasse uma grande soma, mas renderam-lhe o suficiente para que, em meados de 1908, zarpasse para Salvador, a fim de ingressar no curso técnico de farmácia, profissão que para ele, que tinha fortes laços com a população pobre do interior do estado e que dizia querer ser útil à comunidade, parecia a mais prática. Durante aquele período de estudos na Bahia, João Fábio conheceu uma menina de cabelos loiros e profundos olhos azuis, filha de uma família de ancestrais franceses que se radicara no Brasil poucas décadas antes. Eram os Nascimento Lavigne, gente de atitude nobre e que prezava imensamente o valor da educação e da cultura. A paixão foi instantânea e profunda, mas o curso de João Fábio estava terminando e ele precisava ir ganhar a vida no Amazonas antes que pudesse se casar com Josefina Nascimento e levá-la para Manaus. Embora não tenha sido fácil, João Fábio teve de propor que ela o esperasse enquanto ele ia “fazer a vida”, prometendo voltar para buscá-la. Zezé, como a apelidara, aceitou de pronto. Durante seis anos eles trocaram cartas de amor e amizade, reafirmando a intenção de passarem o resto da vida juntos. As amigas de Zezé tentavam dissuadi-la todos os dias com relação à fidelidade daquela espera. Com tanto rapaz bonito e de boa família “dando sopa” em Salvador, o que Zezé estava fazendo investindo sua juventude num rapaz pobre, do Amazonas, que se formara em farmácia,


fora embora e nunca mais voltara? Mas lá no fundo Zezé sabia que havia encontrado o homem mais honrado que jamais conhecera, e que ele não a enganaria. Esperou seis anos, alimentando seu amor apenas com memórias e cartas, até que no fim do ano de 1917, pondo termo a um período de pura e insólita esperança, Zezé viu o navio aportar em Salvador e dele desembarcar um João Fábio seis anos mais velho, porém absolutamente intacto em seus motivos, sentimentos e compromissos. Casaram-se no fim daquele ano, foram juntos para Manaus e, de lá, acabaram dirigindo-se a Canutama, para o seringal Nova Vista, cuja propriedade vieram a adquirir no ano seguinte. A vida no seringal foi cheia de dor e dramaticamente marcada pela solidariedade aos habitantes do lugar. Lá lhes nasceram dez filhos, mas três deles morreram ainda na infância. José e Edgar partiram ainda em idades bem tenras, mas a dor da morte de Luís Ricardo foi profundíssima. Todas as histórias sobre Luís contam de um rapaz bonito, forte e extremamente sensível, que nascera de um parto gêmeo com Elvira. Eles eram os mais velhos dos dez filhos. Mas em 1931, quando estavam com 12 anos, Elvira e Luís acompanharam o pai numa viagem a Manaus, durante a qual o garoto foi atingido por uma horrível febre e morreu ao chegar à casa de uns amigos, deixando um imenso rombo emocional no coração de seus pais e irmãos. De volta ao interior, o magoado e abatido João Fábio não esmoreceu ante a perda do filho. Mesmo com muita dor na alma, entregou-se à atividade que ele iniciara quando chegara da Bahia, em 1912, formado em farmácia. Muito mais do que gerir o seringal, João Fábio dava-se inteira e gratuitamente ao cuidado dos pobres e miseráveis que viviam naquela região. Sua fama como homem solidário e generoso vive até hoje. Milhares foram aqueles que o procuraram vindo de lugares remotos, viajando dias sobre uma estreita canoa, a fim de buscar ajuda médica e alívio para suas dores, febres, feridas, angústias e medos. A força de sua vida foi tão significativa, que seu professor na faculdade de direito, na qual ele viria a se matricular em 1933 e a concluir em 1937, Ramayana de Chevalier, chegou a descrever com palavras míticas o seu curriculum social, texto transcrito no álbum de nossa família. Era o dia 4 de dezembro de 1926 quando nasceu meu pai, Caio Fábio D’Araújo, na cidade de Canutama, no interior do Amazonas. Vovô Fábio foi registrá-lo com o nome da família Araújo. Orgulhoso, falou o nome do menino, certo de ter evocado um grande significado latino para acompanhar aquele ser humano para o resto da vida: Caio, em latim, significa bordão, cajado ou alegria. Ele se apegou ao último significado e desejou, de todo o coração, que seu oitavo filho fosse um ser humano que trouxesse felicidade a este mundo. Enquanto ele se perdia em delírios de felicidade paterna, o escrivão cometia um engano ortográfico que acabaria criando uma cômica, porém interessante mudança na grafia do nome de minha família: trocou o “de Araújo” por um inexplicável “D’Araújo”. Apesar de ser um erro, vovô Fábio decidiu conservá-lo, como que profeticamente percebendo que aquele seu filho viera ao mundo marcado por estranhas intenções divinas que o fariam escolher caminhos de trajetórias intensas e radicais para percorrer. Cainho, como logo passaram a chamá-lo carinhosamente em família, viveu de modo mais que normal o primeiro ano de sua vida. João Fábio, sempre sério, porém muito meigo com os filhos, não hesitava em manifestar uma especial atração pelo menino. Filhos e filhas não lhe faltavam e ele devotava algum tipo de expressão diferenciada por todos, deixando, entretanto, que essas diferenças existissem como segredo entre ele e cada criança. Talvez seja por essa razão que, mesmo hoje, os filhos que ainda estão vivos falem do pai como se fossem filhos únicos. Do


pequeno Cainho, ele dizia que seria um menino forte como fora seu pai, o velho Araujinho. No entanto, logo após completar seu primeiro ano de vida, a saúde do menino foi subitamente abalada por uma estranha e inexplicável febre. Como João Fábio estava viajando, Zezé pediu ajuda a um farmacêutico local, a fim de enfrentar a febre com uma injeção. Seu Ernesto foi chamado às pressas e prontamente acorreu. Tirando do estojo sua seringa e agulhas, perfurou a borracha que vedava o vidro com o remédio, passou álcool nas nádegas da criança, dividiu mentalmente o bumbum em quatro partes, escolheu uma dele e sapecou a agulha. Tudo certo, exceto pelo fato de que a febre não cedeu e o menino continuou a definhar no seu bercinho. Quando João Fábio voltou, viu, chocado, que algo estava muito errado com seu pequeno Caio. Sua perninha direita não se movia. Os movimentos eram normais na outra perna, que podia ser erguida na hora do choro ou dos movimentos espontâneos, mas a perna direita não se movimentava, permanecendo sempre paralisada. — Zezé, o que fizeram com esse menino? Alguém esteve aqui cuidando dele? — perguntou o já experiente farmacêutico. — Fábio, você não estava aqui. A criança estava com uma febre que não cedia. Então eu chamei o seu Ernesto. Ele deu uma injeção no menino — respondeu vovó. João Fábio examinou cuidadosamente o bumbum do filho, constatou a marca da entrada da agulha e olhou sofrido e grave para esposa, mas sem nenhuma expressão de raiva na face. — Aleijaram nosso filho — disse com voz solene e cheia de pesar. Saiu dali andando pesadamente, foi até a varanda e olhou longa e perdidamente para o deslizar suave do rio Purus, que incansavelmente ondulava suas águas em frente à cidade de Canutama, naquela quente tarde de março de 1927. Embora nunca tenha tomado nenhuma providência legal contra seu Ernesto, pois conhecia bem o homem e sabia que se tratava de pessoa de bem, o Dr. João Fábio estava certo. Caio Fábio jamais andaria sem muleta, para o resto de sua vida. Caio, em latim, é também bordão, cajado. Apesar de pesaroso e frustrado com o que acontecera ao menino, vovô cuidou de iniciar um processo de ajuda a seu filho, sem saber que estava plantando as sementes que fariam dele um ser humano raro, tanto no seu caráter quanto nas suas percepções da vida. Não era a primeira vez que vovô experimentava o gosto amargo da dor que o atingia a partir de uma fatalidade ligada aos filhos, porém o caso de meu pai tornou-se muito forte para ele. Talvez isto se explique pelo fato de que as mortes de Luís Ricardo, Edgar e José tenham-no deixado com a violenta angústia da perda, mas sem o peso da responsabilidade de criar um filho deficiente. Os três meninos morreram, e ele chorou e sofreu suas mortes. Mas com Cainho era diferente. Ele estava ali, debilitado e irremediavelmente aleijado, tendo diante de si um mundo que meu avô percebia que seria cada vez mais competitivo e que não ofereceria ajuda a quem não pudesse se virar sozinho. Aquela foi a gota d’água final na decisão de mudar de Canutama para Manaus. Ele precisava oferecer aos filhos uma boa chance de se prepararem para os avanços deste século, que estava apenas começando. Em 1931 a mudança finalmente foi efetivada. Na capital, a família foi morar num sobrado na rua Sete de Setembro, bem no centro da cidade. No andar inferior da casa, o Dr. Fábio tinha a sua farmácia, aberta a quem pudesse e a quem não pudesse pagar o remédio de que necessitava. Pelo fato de estar sempre preocupado com o bem-estar dos muitos que dele se acercavam, vovô resolveu tentar ampliar seus horizontes. Assim, entrou para a faculdade de direito e


formou-se já bem maduro, decidindo, em seguida, enveredar pela carreira política. Tendo sido eleito deputado estadual mais de uma vez e também presidente da Assembléia Legislativa do Estado, além de prefeito de Manaus, acabou algumas vezes na posição de governador em exercício, situação que muito orgulhava a família, especialmente Zezé, que casara com um menino pobre e que agora o via alçado a posições dantes inimagináveis para os membros de sua “francesa família baiana”. Por ser homem inegavelmente honesto, o Dr. João Fábio passou pela política sem nenhuma alteração no modo como mantinha sua família e saiu da política vivendo com os mesmos limitados recursos com os quais gerira sua vida até então. A riqueza que ele escolheu não sofre inflação e nem pode ser roubada, pois é aquela que mais e mais cresce quanto mais e mais é compartilhada.


Capítulo 3 “A leitura mudou meus sentimentos. Alterou minhas preces, ó Senhor, para que fossem dirigidas a Ti mesmo. Os livros me deram valores e prioridades diferentes. De repente, toda a esperança vã se tornou vazia para mim e eu ansiava pela imortalidade da sabedoria com um ardor incrível em meu coração.” Santo Agostinho, Confissões

A vida na rua Sete de Setembro era divertida, porém muito apertada em seus espaços. A diversão dos meninos Renato, Carlos, Caio e Augusto, bem como dos filhos de criação que vovô sempre mantinha de quebra, era jogar bolinha de gude com esferas de aço arrancadas de rodinhas de rolimã, ou simplesmente acompanhar o movimento da rua, tentando tirar proveito de tudo o que de engraçado pudesse acontecer na calçada: um rosto excessivamente feio, um par de pernas femininas desmesuradamente bonitas, um corpo lindo de alguma garota que, quando vista de frente, assustava pelo rosto desencontrado, fazendo o antiqüíssimo gênero Raimunda, ou o escorregão de algum rapaz que, ao tentar passar na frente do bonde, tropeçava no trilho e espalhava-se sobre o paralelepípedo. Outras vezes, ainda, eles também davam gostosas gargalhadas diante de certos velhos assanhados, que não sossegavam ante a contemplação da juventude sedutora de alguma menina recém-entrada na idade adulta. Enfim, a televisão era a vida e suas múltiplas possibilidades de graça e desgraça. Mas esta interatividade entre o balcão do sobrado — onde os meninos ficavam fazendo suas gozações — e a calçada podia ser perigosa, pois vovô Fábio era rigorosíssimo quanto ao tratamento que esperava que seus filhos dispensassem aos que passavam em frente à sua casa. Ele não podia admitir gracinhas, gozações, galanteios, gargalhadas e outras expressões juvenis da garotada quando percebia que isso podia constranger os transeuntes. Não que ele mesmo não risse, tempos depois, das coisas que ali aconteciam. Mas no momento em que de fato ocorriam, ele sempre pensava que as brincadeiras de seus filhos poderiam causar incômodos irreparáveis para seus clientes ou gerar constrangimentos às pessoas, o que, para ele, era algo imperdoável. Por isto, não foram raras as vezes em que a meninada entrou no cinturão quando flagrada em algum desses atos de humorismo de calçada, em meio a risos ou simples expressões de um prazer que delatavam alguma armação recente. Foi duro criar todos aqueles filhos, cheios de energia, presos naquele sobrado. Além disso, havia as visitas constantes dos que vinham de Nova Vista, ainda procurando o filho de seu Araujinho, que nunca se furtava a hospedar quem quer que necessitasse e jamais se negava a tratar de graça a todo aquele que, com dor ou desconforto físico, o buscava solicitando alguma


ajuda. Por isto mesmo, Zezé convenceu o marido a procurar um lugar mais distante, ainda que dentro da área metropolitana da cidade de Manaus, onde eles pudessem arranjar uma casa com quintal e espaço suficiente para que os filhos pudessem se distrair sem criar embaraços para o pai. Foi assim que encontraram um lugar que havia sido um hospital no fim do século passado e que agora estava à venda. Era uma imensa propriedade no Alto de Nazaré. O bonde chegava lá e os primeiros ônibus em circulação também faziam ali a sua volta de retorno ao centro da cidade. O casarão ia de um quarteirão ao outro. Tinha frente para a rua Japurá e ia até a rua Apurinã. Era um prédio bonito, que crescia em estilo quase piramidal, iniciando com um térreo construído sobre grandes arcos, amarrados por longos e belos trilhos de ferro, formando um ambiente fascinante para quem quer que tivesse imaginação. Sobre aquele andar térreo, a casa se espalhava num segundo nível, formado por salas enormes e quartos do tamanho de enfermarias de hospital, com janelas longas das quais saíam varandas de ferro. A cozinha também ficava no segundo piso. Era imensa e ao final dela, subia mais uma torre, que também funcionava como chaminé. Havia dois acessos para os andares superiores, que se tornavam cada vez menores, à medida que a pirâmide ia afinando para o mirante, no quinto e minúsculo aposento, projetado para fora do telhado e com janelas para os quatro cantos da casa. A vista do mirante era soberba para a época, visto que Manaus é uma cidade plana e, naquele tempo, a altura daquela antiga casa-hospital era algo para ser levado em consideração. Nos fundos, havia uma escada de ferro que, estreita e espiralada, ia derramando acessos a todos os andares. Mas no meio do prédio, começando no porão térreo e arqueado, esgueirava-se, de modo artisticamente sinuoso, uma das mais encantadoras e bem torneadas escadas de madeira que alguém poderia desejar ter dentro de casa. No casarão da Japurá a moçada dos Araújos espalhou-se na vida. Ali, eles fizeram camaradagem com inúmeros meninos e meninas, que acabaram se tornando seus amigos na vida e na morte. Os garotos subiam nas árvores do quintal e comiam mangas, jenipapos, graviolas, pitombas, pitangas, abiu, ata, biribá e ainda derrubavam coco e bebiam sua água quando estavam com sede. Era o paraíso. Foi ali também que eles organizaram peladas de futebol em que colocavam Cainho no gol, defendendo a pequena área com sua muleta pesada. A disputa era saber quem o teria de seu lado, pois a vantagem de quem ficasse com seu passe era incomparável. O garoto da muleta ficava plantado na frente do gol, abanando sua perna de pau no ar e convidando os adversários para virem fazer gol dentro de sua área. — Venham, seus medrosos. Invadam minha área. Tentem meter a bola por debaixo de minhas pernas. Será que vocês não se garantem? — ele gritava com euforia. Sempre que alguém se irritava com suas impertinentes provocações e resolvia invadir a área driblando para fazer um gol em vez de chutar de longe, geralmente se afastava reclamando das muletadas que recebia nas canelas ou até mesmo na cabeça. — Deixem o Caio brincar. Não percam a paciência com ele e nem o deixem fora de qualquer competição — dizia vovô Fábio. Por esta razão, os irmãos mais velhos, especialmente Carlos Fábio, a quem Cainho era mais chegado, sempre o incluíam em todos os programas, até mesmo em algumas brigas de rua. Certa vez eles se estranharam com uns garotos que moravam na baixada da rua Apurinã, uma cavidade impressionante, na qual moravam várias famílias, pois como havia água em abundância ali, era muito fácil cavar uma cacimba e abastecer a casa com água fresca e gratuita. A “turma do buraco” se encrespou com os Araújos e eles saíram no tapa. No meio da briga,


papai, na época com dez anos de idade, estava tranqüilamente sentado na varanda de nossa casa quando viu chegando seu irmão Carlos Fábio com um menino na gravata, gritando: “Cainho, toca tua muleta na cabeça desse desgraçado antes que ele escape da minha gravata.” Papai pegou a muleta e sapecou-a com tanta força na cabeça do menino, que a briga acabou na hora. A infância para meu pai não foi exatamente fácil, mas não chegou a ser difícil. Ele fora abençoado não só com um pai humano e sensível, mas com uma mãe meiga e, ao mesmo tempo, enérgica. Dona Maria Josefina de Araújo não dava descanso aos filhos. O compromisso que ela e o marido tinham era o de dar a cada filho, incluindo as meninas, a possibilidade de concluírem um curso superior. Dinheiro eles não deixariam, mas cultura era um bem imprescindível, na visão deles. Por isto, aquela mulher franzina, de cabelos loiros e olhos azuis, não cansava de interromper os melhores momentos de diversão dos filhos para botar todo mundo para estudar. Talvez a marca mais expressiva da vida no casarão-hospital da rua Japurá tenha sido o espírito social e comunitário da vida em família. Tal como havia sido no interior, João Fábio não cessava de se solidarizar com as pessoas que agora o procuravam na cidade. Não apenas remédios, que ele tirava de seu negócio, enfraquecendo-o cada vez mais, mas também comida e moradia eram oferendas permanentes que fazia aos necessitados que o procuravam. A vida na casa era uma experiência absolutamente fascinante e, às vezes, constrangedora. A fascinação ficava por conta da multiformidade de relacionamentos e amizades que aquele rebuliço social propiciava a todos. Os constrangimentos tinham a ver com a escassez de tudo, especialmente de comida, pois quando a casa estava vazia, moravam ali cerca de quarenta pessoas. Nos momentos de pique, chegaram a residir com os Araújos cerca de cento e cinqüenta almas, todas mais pobres do que eles, vidas, aliás, para as quais sua existência era sombra, água, luz, pão, saúde e esperança. Não foram raras as vezes em que Zezé teve de cortar as bananas em dezenas de rodelas e oferecê-las com farinha. Cada um podia tirar apenas uma rodelinha. O trauma dessa experiência foi tão grande, que meu pai disse que quando ganhou seu primeiro salário, a coisa mais urgente que fez foi comprar uma penca de bananas e tentar comê-la sozinho. Entre as muitas histórias daquele período há uma que bem define a dificuldade dos membros da família em se sentirem totalmente à vontade em casa. Dizem que, numa certa tarde, o Dr. Fábio estava fazendo curativos nas feridas de um caboclo que estava em sua casa buscando alívio, quando, no meio do atendimento, sentiu uma irresistível vontade de soltar gases. Controlou-se o quanto pôde, mas percebendo que não dava mais para segurar, pediu licença e procurou a sala ao lado, não sem antes avisar ao paciente que não saísse da cama. O Dr. Fábio andou devagar, abriu as pernas e soltou um enorme pum. Subitamente, ouviu uma voz atrás de si, cheia de perplexidade, quase como se os anjos tivessem sido flagrados no toalete. — E dotô também peida? — indagou o irrequieto caboclo. Vovô virou-se para ele, tomado de estranho prazer ante a infantil pergunta do paciente. — Se peida? Ora, os doutores são os que mais peidam neste mundo — respondeu. Mas embora a vida dos Araújos fosse marcada sobretudo pelo estudo, Caio Fábio, meu pai, não pôde ir à escola como todos os outros. Até os oitos anos, arrastou-se pelo chão da casa. Naquele tempo, a muleta ainda não lhe estava disponível, pois era feita de madeira extremamente pesada e ele não tinha força nos braços para usá-la a contento e com segurança. Por isto, vovó Zezé tentava ajudá-lo o melhor que podia, fazendo-se de janela entre meu pai e o mundo, uma janela tão ampla que permitisse que as dores e alegrias que existiam fora dos portões do casarão da Japurá pudessem ser percebidas, avaliadas e sentidas. Aos 11 anos, finalmente a muleta deixou de ser pesada demais para ele, assim, o caminho para o Colégio Barão do Rio Branco foi aberto para o menino. Depois de um tempo, ele foi transferido para o Colégio Dom Bosco, o que o


forçava a fazer um percurso de seis quilômetros de ida e volta. Como papai chegou à escola um pouco fora da idade, sua maior dificuldade foi ter de lidar com a estupidez de certos mestres, que perdiam a paciência quando viam meninos mais novos sabendo mais que ele e, em vez de procurarem saber o que havia acontecido, simplesmente diziam: “Menino, é impressionante como você é burro. Será que não tem vergonha de saber menos do que esses outros colegas que são menores que você?” Ora, aquelas perversas observações poderiam ter tido um poder terrivelmente devastador para ele. Entretanto, o efeito foi o oposto. Caio decidiu que nunca mais na vida ouviria nada igual. Como ele não poderia ser o melhor nas aptidões físicas, seria o mais destacado na área intelectual. Assim que adquiriu um pouco mais de desenvoltura na leitura e nos básicos da aritmética, nunca mais deixou de ser o primeiro de qualquer turma, para o resto de sua vida. As marcas mais preponderantes da personalidade de papai foram perseverança e autoconfiança. Vovô sempre dizia a ele: “Meu filho, não há nada neste mundo que você não possa fazer. Nunca deixe que nenhum limite tire de você a ambição da auto-superação.” Foi por isto que papai se destacou em tudo o que pôde competir de igual para igual e se superou em tudo aquilo que os outros consideravam ser para ele uma impossibilidade. Aprendeu a nadar, a cavalgar, a subir em árvores, a lutar lutas de chão — especialmente se utilizando dos rudimentos do jiu-jítsu, recém-trazido para o Amazonas por alguns curiosos — e, sobretudo, aprendeu a dirigir qualquer coisa, mesmo sem a adaptação do veículo à sua condição de aleijado, o que era uma verdadeira façanha para um rapaz sem qualquer movimento na perna direita. Para ele, o desafio mais difícil talvez estivesse na área do relacionamento com o sexo oposto. A preocupação de seu pai era como Caio se relacionaria com as meninas. Desejoso que não se frustrasse, vovô Fábio dizia-lhe que quando o verdadeiro amor chega, as deficiências se transformam todas em virtudes. Mas o jovem Caio Fábio não parecia precisar desse condicionamento psicológico para se afirmar em relação às beldades de seus dias. Às vezes, quando ia da escola para casa, andando sob o sol causticante do eterno verão do Amazonas, arrastando-se ao embalo de sua pesada muleta, ele via as meninas se juntarem sobre o estreito espaço das janelas dos velhos casarões erguidos rente à rua, a fim de verem-no passar. Não foram poucas as ocasiões em que ele lembra de ter chegado perto da janela, e ouvir as meninas impiedosamente falarem alto, umas para as outras, alguma coisa como: “Puxa, que pena! Um garoto tão bonitinho, mas aleijado que nem um caranguejo.” Quando ele me contou isso pela primeira vez, eu perguntei: — E como é que você se sentia? Nunca esqueci sua resposta, que muitas vezes me volta à memória, especialmente nos momentos em que tenho precisado enfrentar a indiscrição ou mesmo a postura preconceituosa de muitos que passam pelo meu caminho. — É, menina, você só está dizendo isso porque você não sabe como caranguejo é gostoso. E foi assim que, de um modo ou outro, ele seguiu dando suas respostas às freqüentes tentativas que a vida lhe fazia de nele semear as sementes da inferioridade e, assim, roubar-lhe a chance de escrever sua própria história. Caio nunca se sentiu em desvantagem diante da vida. Ao contrário, no fundo, no fundo, achava que Deus dera a ele uma bênção extraordinária, fazendo-o nascer numa família feita de gente tão humana e intelectualmente perspicaz, como seu pai e sua mãe. Além disso, achava que sua perna morta era apenas um detalhe em alguém tão inteligente e forte como ele. Uma boa auto-imagem é a melhor auto-ajuda!


Capítulo 4 “Eu não sabia que o mal não tem existência própria, exceto como privação do bem, e isto no nível em que o ser não assume o seu papel.” Santo Agostinho, Confissões

A década de 1930 havia começado e logo cresceram os rumores de que as coisas estavam feias na Europa. Naquele tempo, a maioria das famílias de Manaus que tinha algum recurso financeiro enviava seus filhos para estudar na França, na Inglaterra ou em Portugal. Uma vez que Manaus ficava mesmo muito longe do Rio de Janeiro, os que podiam achavam que, já que de qualquer modo teriam grandes despesas com a educação dos filhos, era melhor dar a eles a charmosa chance de aprender outra língua e ainda carregar na bagagem o peso de um curso superior na Europa. Por muitos anos, a mentalidade dos manauenses foi profundamente marcada pela nostalgia da passada era áurea da borracha. Segundo a lenda, no tempo em que a exportação de borracha trouxera riqueza à região, alguns magnatas locais acendiam seus charutos cubanos com notas de alguns réis. A narrativas como esta somavam-se outras acerca de como o teatro Amazonas fora construído com material trazido de navio da Europa e de como prédios inteiros da cidade, como a Alfândega de Manaus, haviam sido pré-fabricados na Inglaterra e transportados de navio para aquela orgulhosa cidade cultural, erguida no centro da mais fascinante floresta do planeta. Os rumores da guerra eram, obviamente, mais que fofoca internacional. A Segunda Guerra Mundial explodiu, e o mundo inteiro, em maior ou menor escala, foi dramaticamente afetado por ela, inclusive a vida em Manaus. Uma das primeiras conseqüências foi que os pais que tinham filhos estudando na Europa mandaram ordens irrevogáveis no sentido de que a rapaziada — havia ainda poucas moças estudando fora do país — voltasse para casa. O efeito dessa ação foi que a maioria, em vez de fazer o caminho de volta à terrinha, preferiu parar no Rio ou, em segunda instância, em São Paulo, Salvador ou mesmo em Recife, pois as opções de estudo universitário no Amazonas ainda não eram muitas. Quem quisesse ficar em Manaus precisava se contentar em estudar odontologia, farmácia, ou direito, sendo a última opção considerada a melhor, uma vez que a Faculdade de Direito do Amazonas orgulhava-se de já ter formado profissionais que haviam se destacado fora do estado. Ora, foi justamente nesta época de guerra e de poucos recursos que vovô Fábio teve de enviar Renato Fábio e Carlos Fábio para faculdades fora do Amazonas. Renato foi direto para o Rio estudar química industrial, recém-inaugurada como curso superior no Brasil. Carlos Fábio foi


para Salvador, cidade onde sua mãe, dona Zezé, tinha parentes que poderiam ajudá-lo a enfrentar as dificuldades inerentes a um curso de medicina, sua mais forte paixão até encontrar Gildélia, baianinha mimosa, de corpinho mignon, por quem ele caiu de amores e com que veio a casar-se. As moças da família tinham ficado em Manaus e seus horizontes tinham de caber dentro das limitadas ofertas da cidade. Assim era a vida para as mulheres naqueles dias. A grande questão de Fábio e Zezé era decidir que oportunidades dariam aos filhos, já que com o perigo das viagens de navio naquele tempo de guerra e com as dificuldades financeiras da família, agravadas pela necessidade de sustentar os rapazes que estudavam fora, ficava difícil imaginar o envio de mais um dos filhos para longe de casa. O jovem Caio desejava estudar engenharia civil, curso que ainda não existia em Manaus. Dona Zezé e o marido ponderaram longamente sobre o que fariam com o filho. Apesar da deficiência física, Caio parecia ser ávido intelectualmente e com grandes chances de vir a realizar tudo aquilo que desejasse na vida. Mas como? Não havia dinheiro e eles não queriam sofrer as angústias de não saber se o filho estaria bem ou não vivendo longe do Amazonas. Além disso, um fato novo surgiu. Tão logo Renato e Carlos saíram de Manaus para estudar fora, a saúde de João Fábio começou a mostrar alguma deficiência. Havia claros sinais de que seu coração não fora fabricado na mesma fôrma na qual o coração centenário do velho Araujinho tinha sido produzido. João Fábio estava mal. Cansava-se à toa e não conseguia mais trabalhar com a mesma intensidade. Como conhecia muito bem os sintomas físicos de sua doença, não tinha a menor dúvida de que não duraria muito. Portanto, a coisa mais sensata a fazer era arrumar a casa e preparar-se para a morte. Assim sendo, chamou Caio. — Meu filho, você é forte, apesar de ser aquele entre nós que mais faz força para conseguir as coisas. Eu não estou bem de saúde e sei que não tenho muito tempo. Você está apenas com 18 anos, mas é com você que eu conto agora para ajudar sua mãe e aqueles que ainda estão sob nossa dependência. Restam-me apenas os proventos de minhas funções públicas. Fora isso, hoje, nosso único patrimônio é o seringal do Santo Antônio do Cainaã. Eu preciso que você assuma a administração de tudo. Mas, para isto, você terá que se sacrificar. Em vez de ir estudar engenharia civil fora de Manaus, você vai ficar e estudar direito. Você é muito inteligente e pode ser bom no que quiser. Fique aqui e tome conta dos nossos negócios — disse-lhe. Papai ainda não podia medir as implicações daquela decisão, mas não tinha a menor dúvida que alteraria completamente o seu futuro. Mas não havia escolha, e ele sabia disso. Não adiantava muito trazer o assunto para o plano da meditação ou sugerir a necessidade de mais tempo para pensar. A resposta tinha de ser imediata e ele sabia que era apenas uma questão de consentir com o prudente e dolorido veredicto paterno. Quanto ao mais, era torcer para que a existência conspirasse a seu favor, de algum modo. — É claro que sim, paizinho. O senhor sabe que pode contar comigo para o que o senhor ou mamãe vierem a precisar — meu pai respondeu. O cansado, mais cansado do que velho, João Fábio, foi logo passando tudo para ele: como funcionava o esquema; quem era de confiança e quem não era; quem pagava e quem jamais pagava; quem ele sempre atendia e quem eram aqueles para os quais o tratamento tinha de ser meramente comercial. Ao final daquele rápido curso de gerenciamento de seringal, o rapaz foi enviado na primeira embarcação disponível que saiu para o alto Purus. Começaram ali os mais fascinantes e profundos anos de sua juventude. Entregue à solidão dos rios e imerso em longas e intermináveis leituras e meditações, às vezes ele viajava dez dias para chegar ao porto, onde ainda precisava apanhar uma canoa para remar mais um dia inteiro até alcançar o lugar que tinha de visitar e ver como estavam os negócios. Foi ali, naquela paisagem bucólica, repleta de nostalgia e silêncio, que ele aprendeu o valor de se fazer acompanhar de si


mesmo e de pensamentos que interajam com a vida e com a natureza, sem jamais imaginar que a ausência de humanos possa significar a ausência de humanidade. Ele me dizia: “A solidão pode ser excelente companhia quando você gosta de si próprio.” Durante aqueles meses meu pai teve a chance de perceber como a vida no interior do estado era miserável. Havia gente morrendo por banalidades, por doenças para as quais já havia cura disponível na cidade. Além disso, ele ficava chocado com a resignação e passividade das pessoas daquela região. Era como se houvesse um carma amazônico, bastante parecido com o hindu, que silenciosamente afirmava para as pessoas que a morte era uma fatalidade contra a qual toda luta era bobagem, mesmo na juventude. Ali ele ouvia as mulheres contarem que haviam engravidado vinte vezes e perdido 13 filhos, como se estivessem apenas contabilizando as vezes em que o time de futebol de sua preferência tinha perdido a final do campeonato. E ali ele aprendeu como as grandes questões da existência são reduzidas ao nível da banalidade quando a vida é feita apenas de farinha de mandioca e água do rio Purus. Ao retornar à cidade, meu pai percebeu-se extremamente maduro diante das futilidades e expectativas vazias que norteavam as vidas de muitos de seus companheiros, preocupados apenas com as pernas de algumas meninas que se davam ao luxo de expor os joelhos ou as coxas roliças e belas sob as saias ainda não tão curtas, ou ainda com as histórias de alguns candidatos a garanhão que se jactavam de alguma façanha libidinosa. Ele, entretanto, não conseguia tirar da cabeça os rostos, as vozes e as histórias radicais, ainda que estranhamente desapaixonadas, que ouvira no Santo Antônio do Cainaã. O seringal teria salvado sua vida ou destruído o seu futuro? Mas se alguma coisa estivesse reservada para ele no amanhã, certamente isso teria relação com a nova maneira de ver a vida que ele aprendera ali, quase na fronteira do nada. Era o ano de 1946 e Caio viajava para o seringal nos períodos de férias, ou seja, de dezembro a março e em julho. Numa dessas viagens ao interior, observou um homem estranho, todo descascado, de pele avermelhada, que tentava encobrir o rosto quando percebia a aproximação das pessoas. Achando que o homem estava fugindo da vida, resolveu procurá-lo e indagar o que estava acontecendo. Para seu espanto, Caio descobriu que o homem estava com lepra, o que fizera com que a mulher e os filhos o expulsassem de casa. Mas o pobre doente soubera que o filho do Dr. Fábio estava no seringal e havia vindo perguntar se o jovem poderia levá-lo para o leprosário de Manaus. Conversaram longamente e viram que não havia a menor chance de que ele chegasse à capital pelas vias convencionais, pois nenhum transporte coletivo fluvial ousaria deixar que ele entrasse para fazer a viagem. Assim, chegaram à triste conclusão que o homem teria de remar sozinho até Manaus. Caio não tinha a menor idéia se o leproso resistiria à viagem, mas era a única chance. Caio prometeu que se o homem chegasse vivo, a remoção dele para uma instituição estaria garantida. Assim, comprou farinha em abundância e levou o pobre leproso até a beira do rio Purus, onde disse ao homem que com aquela farinha ele poderia fazer chibé e garantir sua sobrevivência até o porto de Manaus. Alguns dias depois Caio apanhou um barco para Manaus e em duas semanas estava em casa. Durante todos aqueles dias e noites havia uma angústia latejando dentro dele. A imagem daquele homem o perseguia como o fazem os fantasmas, que às vezes povoam nossa consciência em plena luz do dia. Dois meses depois, ele estava sentado na varanda da frente do casar��o da rua Japurá quando viu aparecer aquela figura toda coberta de trapos. Como não conseguia discernir a identidade da pessoa, resolveu descer para ver quem era. Ao atravessar o campinho que separava a larga fachada


arqueada da casa do portão de frente, foi identificando a presença descarnada e semimorta do leproso de Santo Antônio do Cainaã. Lágrimas vieram-lhe aos olhos aos borbotões. Seu sentimento de impotência frente ao drama daquele homem plantara nele as primeiras sementes da descrença religiosa. Se havia um Deus, como é que Ele consentia que os homens tivessem trajetórias tão desiguais? E que propósito poderia haver numa existência que acontecia marcada por tão pesados e incuráveis estigmas? Caio tomou o homem e o levou para os fundos da casa. Deu de comer a ele e providenciou sua remoção para o leprosário do Aleixo, às margens do rio Solimões, próximo ao ponto onde as águas dos rios Amazonas e Negro fazem seu majestoso encontro e casamento. A imagem daquele ser humano nunca mais lhe abandonou a memória. Quando o carro se afastou, levando o doente para uma lenta e repugnante morte, o jovem Caio ficou pensando que certamente nunca mais o veria nesta existência, mas que, ao mesmo tempo, nunca mais o esqueceria nesta vida. Daquele dia em diante, para ele, a dor humana neste planeta seria essa: não poder se apropriar de seus amores para sempre e nem conseguir esquecer suas dores, para sempre. O leproso mudou sua visão do mundo.


Capítulo 5 “Meus estudos, os quais eram considerados respeitáveis, tinham o objetivo de me levar à distinção como advogado nas cortes de justiça, onde a reputação de um homem é tão alta quanto seu sucesso na arte de enganar pessoas.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1948, aos 21 anos, meu pai entrou para a Faculdade de Direito do Amazonas, que funcionava em um prédio construído em estilo europeu. De lá se podia ver perfeitamente o movimento dos barcos que atracavam no porto. Aquele era um dos lugares mais movimentados da cidade de Manaus. Eram pessoas entrando aos montes nos “motores de linha”, nome dado aos barcos de madeira que carregavam um número de pessoas em geral bem superior ao que se esperaria que uma embarcação daquele tamanho pudesse suportar. O fato é que os motores saíam apinhados de gente porque a “rede de dormir” era o instrumento de descanso mais usado pela população. Assim, usando a rede, era possível “montar” até cinco “andares” de pessoas dormindo umas sobre as outras nos barcos, o que aumentava não apenas a capacidade de transporte das embarcações, mas principalmente o perigo da viagem. E não era raro que tragédias acontecessem, com a perda de um extraordinário número de vidas humanas. Ali de cima do prédio da faculdade de direito, o universitário Caio podia aprender leis e filosofia sem jamais esquecer suas obrigações familiares com a gerência do seringal dos Araújos. O ritual de estudar o ano todo e passar as férias no interior, cuidando dos negócios, permaneceu até mesmo depois de terminado o curso. E logo no início de sua experiência na faculdade, Caio viu-se diante de um acontecimento desastroso, que poderia ter servido de forte desestímulo à conquista de seu espaço no mundo universitário. Certo dia, ao deixar a classe e dirigir-se à saída principal do prédio, que dava para uma larga e íngreme escadaria, construída num modesto, porém claramente definido, estilo romano de fóruns, Caio percebeu que muita gente subia e descia simultaneamente as escadas. Ele parou, pensou se deveria esperar aliviar o fluxo e, por fim, decidiu correr o risco de descer sem apoio, vez que não havia qualquer adaptação do ambiente ao deficiente físico. Começou a descer e percebeu que não haveria nenhum problema. Quando já estava no meio das escadarias, alguém passou correndo e, sem qualquer cuidado com a fragilidade de seu equilíbrio, deu-lhe um forte esbarrão. Caio sentiu seu corpo precipitando-se para a frente e percebeu que não havia meios de impedir a queda. Restava-lhe, apenas, cair da melhor maneira possível.


— Se cair se tornar inevitável, então que se caia bem — ele viria a me dizer muitos anos depois, tirando do episódio uma lição prática para a vida. Largou da muleta e tratou de proteger a cabeça e as partes mais delicadas de seu corpo. Ele estava acostumado a cair. Caíra a vida toda. Mas não lhe era comum cair em situações que lhe trouxessem constrangimentos sociais. Nesses contextos, ele se arriscava o mínimo possível. De repente ele se achou estirado no final da escada, no patamar de pedra que conduzia à calçada da rua. O lugar estava cheio de rapazes e moças. E como nessas horas há sempre de tudo um pouco, uns logo correram para ajudar, outros assumiram aquela posição de assistentes de filme, vendo tudo, mas sem ação no mundo real, enquanto outros, ainda, deram-se ao luxo de um pequeno riso de sarcasmo e frieza, denotando uma estranha forma de inveja. Ali no chão, ele pôde perceber bem as fisionomias de seus colegas. Não ficou ressentido. Aceitou a ajuda que lhe deram e foi andando devagar, sentindo dores em diferentes partes do corpo, mas constatando que não lhe havia acontecido nada mais grave, além da vergonha de ter se esparramado em público, rebolando de alto a baixo das escadarias da faculdade. No entanto, aquele episódio surtiu um efeito muito positivo sobre ele. Ao invés de se encolher dentro de um mundo de complexos e inseguranças, sua atitude foi o oposto: decidiu que não falaria com tom de voz inferior, que jamais deixaria de descer as escadarias, mesmo quando estivessem eventualmente cheias de gente, e mostraria a todos que um homem pode correr na vida, apesar de suas próprias pernas. O tombo trouxe forte motivação ao seu coração e empurrou-o adiante: como sua afirmação pessoal não podia depender de sua desenvoltura física, ele haveria de se transformar no campeão de uma outra forma de competência. Nunca teve nota abaixo de nove e terminou o curso com a melhor média geral da faculdade até aquele ano de sua história. Aprovado em concurso para procurador de justiça, optou por ir trabalhar em Canutama, onde nascera. Para ele voltar para o interior era como voltar para casa. Afinal, desde os 18 anos ia pelo menos duas vezes por ano àquela região para cuidar dos interesses da família no seringal. Numa daquelas viagens ao interior, no ano de 1951, precisou estender seu caminho até Borba, a fim de comparecer ao casamento de um amigo, José Reis, que estava se casando com Raquel, moça de rosto marcadamente amazônico e sorriso aberto. Para o casamento também havia sido convidada Lacy Campos da Silva, professora recém-formada da escola pública de Coari. O casório aconteceu como de costume, com a bênção do sacerdote católico e um arrasta-pé após a cerimônia. Os Reis eram festeiros e não perdoavam qualquer chance de acender o candeeiro e deixar a sanfona tocar até o nascer do dia. Como Caio não se sentia à vontade dançando, pois dificilmente conseguiria manter uma mulher junto à sua pesada muleta sem correr o risco de machucá-la, resolveu ficar quieto, num dos cantos, trocando um prosa aqui outra ali, enquanto ria de uma ou outra façanha dos amigos pés-de-valsa, soltos no salão. Foi daquele ponto de observação que percebeu que havia uma outra pessoa igualmente afastada dos movimentos da festa. Ela era morena, tinha aproximadamente 24 anos, cabelos longos e ondulados, e dentes amplos, perceptíveis quando ela sorria — o que, aliás, fazia com muita graça. Depois de se observarem por um tempo, foram apresentados um ao outro pela noiva, amiga de ambos, e que sempre nutrira o desejo de vê-los aproximados. Não deu outra. A química da afinidade foi instantânea. Eles conversaram a noite toda e nunca mais puderam deixar de se ver. O namoro veio como coisa natural. Não muito tempo depois, Lacy foi apresentada ao Dr. Fábio, já bem doente, e a dona Zezé, que a acolheram com especial carinho. O velho farmacêutico, com inamovível vocação para a paternidade, pôde, então, chamar o


filho e dizer-lhe: “Minha última preocupação com você acabou hoje. Eu sempre tive receio de que você se tornasse tímido no amor em razão de seu defeito físico. Mas agora, vendo você amando um moça tão boa como essa, sinto-me à vontade para morrer. Deus ouviu minhas preces.” Do lado de Lacy, a alegria não era menor. Maria Campos da Silva, mãe da moça, não poderia estar mais contente, exceto por uma razão: o Dr. Caio Fábio era de família católica, e Lacy, a mãe e o irmão, Lucilo, eram protestantes. Presbiterianos, mais precisamente. Naquele tempo ainda havia muito preconceito, de ambos os grupos, um em relação ao outro. Os católicos chamavam os crentes de bodes e de hereges fanáticos, enquanto os protestantes, por seu turno, atacavam como podiam: não cessavam jamais de pregar e de fazer fortíssimas denúncias ao culto às imagens praticado pelos católicos e a muitas outras formas de desvios bíblicos, conforme a interpretação reformada da fé. Mas o amor era mais forte do que os dogmas da religião. Por isto, Caio e Lacy fizeram um pacto de respeito mútuo naquela área e prometeram que não tentariam converter um ao outro. A história de Lacy era totalmente diferente da de Caio. Ela nascera em uma família muito mais simples e não pudera ter acesso ao estudo de nível superior, chegando a concluir apenas o curso clássico, que formava professoras primárias. Sua mãe, Maria Campos da Silva, havia nascido no interior do Amazonas, em 1898. Do avô, Mariano, e da avó, Mariana, sabia-se muito pouco, além do fato de que Mariana falecera cedo, quando a filha tinha apenas quatro anos, sendo seguida pelo marido para a eternidade dois anos depois, o que transformou Maria em uma criança inteiramente órfã. Não fosse a bondade de uma tia que a criou, a menina certamente teria tido futuro muito melancólico. De Firmino, pai de Lacy, nascido em 1881, em Quixadá, Ceará, sabia-se ainda menos. Era filho de uma mulher que se casara aos 11 anos, chamada Isabel, com um homem bem mais velho, o seu Deodato. Naquele tempo, esse tipo de casamento de crianças com homens adultos, às vezes até avançados em idade, era muito freqüente. Como nem sempre era fácil arranjar uma esposa no interior, era comum que homens respeitáveis do lugar encomendassem o casamento com o pai de uma menina, às vezes ainda bebê. É possível que esse tenha sido o caso. Maria era uma mulher muito interessante. Não tendo nenhum antecedente protestante na família, sozinha e até contra a opinião de amigos e vizinhos, decidiu, aos 35 anos, converter-se à fé calvinista, tornando-se presbiteriana. Mesmo não tendo estudado além do terceiro ano primário, desenvolveu uma certa capacidade autodidata, especialmente depois que seu amor pela leitura da Bíblia se manifestou. Mas suas maiores sensibilidades eram-lhe absolutamente inerentes. As mais impressionantes eram o seu amor pela natureza e a sua fantástica capacidade olfativa. Para ilustrar seu fascínio pelas belezas da criação, basta dizer que ela acordava cedo todos os dias, por volta das quatro horas da manhã, lia a Bíblia, fazia orações e, depois, punha-se à janela da casa, quieta, meditativa, esperando o sol nascer. Para ela, aquele era o momento mais bonito do dia e quem quer que o perdesse havia desprezado a primavera da luz natural, o que lhe parecia incompreensível. Entretanto, o que mais impressionava em Maria era sua capacidade de discernir cheiros, aromas, fragrâncias e odores. Quando entrava num lugar, ela não apenas sentia o cheiro característico daquele ambiente, mas também sabia que odores, reunidos, resultavam naquele sentir olfativo específico. Não era raro ela dizer: “Hum! Essa moça que acabou de passar misturou talco com pomada Minâncora e, ainda por cima, colocou Leite de Rosas com um outro perfume no corpo. Tá cheirando a sovaco de rico.” Ela também podia entrar num quintal, inspirar os odores na entrada e, mesmo sem ver o que lá havia, simplesmente observar: “Que


maravilha! As mangas-rosa e os jenipapos estão maduros. Que delícia!” Maria tinha uma maneira quase litúrgica de se relacionar com os cheiros. Uma das coisas mais rotineiras que ela fazia era varrer as folhas secas do quintal e jogá-las num buraco que ela mantinha sempre aberto. Uma vez feito isso, tocava fogo nas folhas e sentava-se de longe para inspirar o cheiro que exalava da fogueira, dizendo: “Que coisa gostosa, cheiro de folha queimada. Tem cheiro do quintal de minha tia.” Para ela, aquele ato tinha dimensões espirituais. A fumaça era como um incenso de aroma suave, que subia às narinas divinas e dava a Deus um imenso prazer pela gratidão da memória de Maria, ao pôr-do-sol de mais um dia em sua vida. Essa mulher de hábitos fortes casou-se com Firmino em 1924. Mas naquela época, no interior do Amazonas, paixão e amor ainda eram coisas secundárias quando se tratava de decidir um vínculo conjugal. E a união de Maria e Firmino resultou em um relacionamento muito difícil. Firmino crescera órfão e vivera como homem livre de padrões morais definidos. Sendo foguista de embarcações a vapor, não parava em casa. Às vezes ficava cinco ou seis meses sem aparecer. E nos portos onde parava, sempre se agarrava a alguma saia. Dizem que ele tinha um apetite sexual medonho. As mulheres que se lhe mostravam disponíveis eram imediatamente usadas, e aquelas que não estavam assim tão “à mão” eram muitas vezes seduzidas por sua lábia cearense. O fato é que ele teve de arcar com as conseqüências de ações tão libertinas. Tendo conhecido tantas caboclas diferentes e se atolado em tantos seios, cabelos e corpos, cheio de tamanha avidez, acabou por encontrar ali não apenas o prazer, mas, sobretudo, a dor e a morte. Naquele tempo, a gonorréia matava, ou debilitava tanto, que levava lentamente à morte. Depois de muito se expor às doenças venéreas, acabou em casa e doente, tendo de conviver, dia a dia, com o poder dos prazeres amaldiçoados, que o tomaram pela mão até o silêncio da última e eterna viagem. Ainda hoje eu me lembro dela contando como havia cuidado do marido até o fim, embora tivesse avisado que ele jamais voltaria a tocá-la com aquelas “mãos sujas de pegar em tanta mulher”. Foi com esse pano de fundo que Lacy entrou na vida de Caio, e por mais que ela lutasse contra a idéia, sofria de um certo complexo de inferioridade em relação à família dele. Some-se, ainda, a isso tudo, a própria mentalidade protestante da época, tomada por profundo complexo de perseguição. Para Lacy, era difícil construir uma ponte para fora de seu pequeno mundo, uma ponte que a transportasse para um espaço, bem maior em suas ramificações, vínculos e oportunidades. Por fim, em 2 de maio de 1953, Caio e Lacy casaram-se em regime de comunhão de bens, mas sem a bênção religiosa, pois nenhum dos dois conseguiu convencer suas famílias a consentir com o casamento na igreja do outro. Após o casamento, arrumaram suas trouxas e partiram para Canutama, onde Caio exercia a função de promotor de justiça do estado, e onde Lacy passou a lecionar no grupo escolar. Em agosto daquele mesmo ano os dois começaram a se preparar para notícias de desalento. Em Manaus, os membros da família já começavam a reunir-se em torno do leito de Dr. João Fábio, que, irreversivelmente, começava a morrer.


Capítulo 6 “Hoje tenho mais pena de uma pessoa que se regozija no mau do que daquele que tem o sentimento de ter sofrido ao ser impedido de participar em prazer pernicioso ou como tendo perdido uma fonte de felicidade miserável.” Santo Agostinho, Confissões

João Fábio de Araújo morreu em profunda agonia. Não conseguindo mais respirar, atacado que estava há muitos anos por deficiências respiratórias gravíssimas resultantes de um mal cardíaco à época incurável, veio a falecer em grande ansiedade. Seu sofrimento foi bárbaro. O ar não lhe chegava ao peito, e ele pedia a Deus que o aliviasse das infernais sufocações que o desesperavam. Entre os filhos e amigos presentes o clima era de dor e perplexidade. Como Deus podia deixar sofrer tanto um ser humano que na vida não fizera nada além de dedicar-se, inteira e apaixonadamente, à causa dos pobres e órfãos? Que propósito teria Deus em tudo aquilo? Ou ainda — como era o caso das questões de Caio Fábio — que Deus era esse (se é que havia algum), que consentia com dor tão estúpida e sem sentido? Às nove horas da manhã, do dia 11 de setembro de 1953, João Fábio partiu para o eterno. O espírito daquele dia de luto foi expresso por Arthur Virgílio em seu artigo João Fábio de Araújo, bondosa figura de lidador, escrito em 18 de setembro e publicado em 27 do mesmo mês no maior periódico da época em Manaus, O Jornal do Comércio. O povo acompanhou a pé o enterro de vovô e levou-o até o cemitério, onde o sepultou na mesma cova em que, no ano de 1931, ele próprio enterrara seu filho Luís Ricardo. Ainda hoje João Fábio vive em todos nós, que dele descendemos, pois mesmo não chegando a conhecê-lo no chão deste planeta, nunca consegui me livrar da ética que ele praticou. De meus anos de criança, não me ficou a impressão de que meus tios e parentes fossem pessoas que dessem muita ênfase ao certo ou errado. O que minha memória registrou foram frases que se faziam constantes nos lábios de todos eles, frases que apontavam numa direção para muito além da moral. “Ele é um homem humano”; ou ainda: “Isto não é humano”, era o que diziam com freqüência quando emitiam seus “juízos de valores”. As histórias de vovô me ensinaram que “ser humano” é muito “mais certo” do que “ser correto” . Às vezes, ao contrário, para ser humano, é até preciso ser “incorreto” com relação aos chamados “conteúdos do comportamento preestabelecido”. Para ser humano, mais que freqüentemente é necessário viver onde o risco de não ser compreendido sempre se faz presente. A “ética do humano” tem como referência padrões que não se escrevem em códigos de conduta estudáveis, vez que são valores que brotam de intuições do amor e da solidariedade e,


nesse nível da existência, o que menos importa é a média dos comportamentos aceitáveis. Neste caso, o que prevalece é a disposição do coração de enfrentar o mundo inteiro somente para não negar um sentimento ou uma intuição, seja em favor de alguém ou de uma simples idéia. Caio e Lacy continuaram em Canutama por mais dois anos. O tempo passava calmo, porém tedioso, até que em julho de 1954 Lacy ficou grávida de seu primeiro filho, razão pela qual, no início de 1955, resolveram voltar a Manaus. Eu nasci em 15 de março de 1955, na Santa Casa de Misericórdia de Manaus, às cinco horas da tarde de uma terça-feira. No mesmo dia jorrou petróleo em Nova Olinda, no rio Madeira, quase na sua confluência com o rio Amazonas, o que fez com que meu pai saísse do hospital gabando-se de que na sua casa havia brotado algo igualmente precioso. Papai e mamãe já estavam decididos quanto ao nome que eu deveria ter. Tiveram dúvida, no início, se me chamariam Hugo ou Caio, mas como naquela época era comum dar o nome do pai ao primogênito, optaram por Caio mesmo. Além disso, eles gostavam do significado latino do nome: bordão, cajado ou alegria. E, assim, me registraram com esse nome, que na infância me trouxe inúmeros problemas e que se tornou a razão de vários complexos que tive de vencer no início da adolescência. Passado o resguardo de mamãe, fomos juntos para Canutama. Lá, além de dedicar-se ao trabalho como servidor da justiça, papai investiu tempo numa nova arte: a marcenaria. Começou a fazer com as próprias mãos o meu berço, bem como os demais móveis da casa. A mesmice e o tédio do lugar permitiam que meus pais se devotassem inteiramente a mim, o que eles precisariam fazer de qualquer forma, pois logo comecei a dar muito trabalho. Aos seis meses tive uma coqueluche tão forte, que eles pensaram que eu fosse morrer. Perdia o ar por longos minutos e ficava arroxeado a ponto de minha mãe, às vezes, pensar que eu não fosse voltar da crise. Por causa disso, e de uma nova posição que papai conquistara como subprocurador geral do estado, eles decidiram voltar para Manaus de vez. A coqueluche se foi, mas a mania de chorar ficou. Todos que me conheceram nos primeiros anos de vida dizem que fui um grande chorão. Além disso, sofria de uma fome insaciável e, enquanto não era atendido nos meus clamores por comida, não deixava ninguém em paz. E a gritaria começava muito cedo, às quatro da matina, quando desferia os primeiros berros, machucando os ouvidos de todos, até dos vizinhos, que às vezes vinham se oferecer para me segurar enquanto minha mãe fazia o mingau. — Gagau, gagau — eu gritava, desesperado, até me trazerem a papa das quatro da manhã. Em 1957, papai decidiu deixar o serviço público, abandonando, contra a opinião geral, a posição que conquistara no estado, a fim de abrir seu próprio escritório de advocacia em Manaus. Sua pequena iniciativa vingou e três anos depois ele já começava a ser visto como um dos mais promissores nomes da profissão. Mas ele era ambicioso e não se contentou apenas com os ganhos que o exercício do advocacia lhe rendiam. Em 1958, criou a Colimpa S.A., uma sociedade de sete pessoas, mínimo permitido pela lei para uma sociedade anônima naqueles dias. Ele e o político, que entraria para sempre para a história do Amazonas, Gilberto Mestrinho, eram os acionistas majoritários, ainda que, legalmente, o último fosse representado por Antônio Lindoso, cujo irmão, José Lindoso, anos depois, durante a ditadura militar, viria a ser governador do estado. A companhia explorava ouro na região de Parauari e seu Adriano, um negro de Barbados que descobrira a jazida, era quem entrava na mata para buscar a preciosidade. Dois anos depois, em companhia de alguns amigos, papai abriria a Compaina, que explorava borracha e castanha na região do rio Novo Aripuanã. No mesmo ano, o então governador Gilberto


Mestrinho nomeou-o diretor comercial da Papel Amazon, empresa de capital misto, estadual e federal. Enquanto isso, ele seguia usando sua crescente influência política para aumentar seu capital relacional como advogado, uma vez que, logo no início, percebeu que saber “quem é quem” constitui capital que poucos conseguem adquirir e menos ainda conseguem usar bem. E isso ele sabia fazer muito eficientemente e em proveito próprio, é claro.


Capítulo 7 “Eu estava sem qualquer desejo por alimento incorruptível, não porque eu estivesse repleto dele. Ao contrário, quanto mais vazio dele eu estava, mais desagradável ao paladar tal alimento se me tornava.” Santo Agostinho, Confissões

Papai e mamãe compraram um terreno nos fundos da casa de vovó Zezé e construíram ali a nossa primeira casa. Os dois quintais se encontravam e formavam um só. Para mim, as lembranças daquele tempo são repletas de imagens mágicas. O quintal era o mesmo do tempo da infância de meu pai e as mudanças no ambiente não tinham sido muitas. Naquele pedaço de chão havia tudo que as crianças pudessem desejar para mergulhar no mundo da imaginação. Além dos primos que viviam no casarão da vovó Zezé, havia ainda os filhos dos vizinhos, que pulavam o muro e se perdiam em aventuras que iam de Tarzan a Ivanhoé, do Zorro ao Fantasma e de Robin Hood a Hércules. Naquele mesmo período, manifestou-se o início da veneração que eu teria por meu pai. — Bambio, papai, tum-tum, bobó — era como eu pedia todos os fins de tarde para ele me fazer montar em sua costa (tum-tum) e me levar até a casa da vovó Zezé (bobó). A fascinação que ele exercia sobre mim tinha a ver com sua infindável paciência para brincar de luta comigo, sempre fazendo de conta que eu ganhava, ou com a repetição incansável de malabarismos, quando eu subia nele e me sentia um trapezista fazendo peripécias nas alturas. — Onde você pensa que vai, menino? — perguntava mamãe de propósito, sempre que me via com um monte de processos legais de papai embaixo do braço. — Vô pu tibunal levá os pocessos po papai — era como eu pagava a paciência que ele me devotava, com admiração. Nós, os “filhos do quintal”, éramos um monte de meninos com nomes comuns, mas marcados pelo segundo nome Fábio. Já as meninas tinham tido a sorte de não ser Fábias. Os garotos eram João, José, Paulo, eu e meu irmão Luiz. Todos Fábios. As garotas eram Sônia, Ana e minha irmã Suely. Tínhamos a sorte de viver naquela terra encantada. A presença de nossas avós também era forte em nossas vidas, e eu e meus irmãos éramos os únicos com duas de plantão e cheias de cafuné à nossa disposição. Quando eu queria leite condensado no meio da tarde, bastava ir ao casarão de dona Zezé. Ela sempre tinha umas latas guardadas para fazer os nossos gostos. Quando chegava a hora do banho, eu voltava para minha casa, onde Mãe Velhinha, como eu acabei chamando minha avó Maria, me aguardava para me lavar todinho. Depois do banho, no início da


noite, vinham as músicas e as histórias que ela nos contava. Mãe Velhinha nos marcou profundamente de modo bom e mau. A parte boa inclui suas histórias, suas lendas amazônicas, sua capacidade de fazer a gente sentir cheiros, sua insistência em nos fazer gostar de animais, plantas e cores, especialmente as do amanhecer e as do pôr-do-sol. A parte ruim tem a ver com sua insistência em nos tirar da cama no melhor do sono, às cinco da matina, para nos fazer ver o sol nascer. Além disso, havia também sua chatice de dividir o mundo entre católicos e protestantes, dizendo sempre que os primeiros estavam irremediavelmente perdidos e os últimos inevitavelmente salvos. Cansava. Lembro-me de às vezes ouvi-la dizer coisas do tipo: “Que pena que dona Zezé é católica. Tão boa, mas tão perdida.” Ou ainda: “É, que pena. Teu pai não vai para o céu. Enquanto ele for católico, não vai mesmo.” A coisa que mais espanta meus pais é a minha memória infantil. De fato, tenho recordações de períodos tão longínquos quanto os meus dois anos e meio de idade. Por exemplo, lembro-me, nitidamente, do primeiro castigo que recebi. Papai havia dito que eu não pegasse em algo, e eu o desobedeci sistematicamente. Ele, então, me colocou de castigo: eu não poderia sair da sala, do quarto e da alcova, onde o chão era de cerâmica amarela. Para fora desses limites, o chão era de cerâmica vermelha. Por isto, a partir daquele momento, eu me sentia em liberdade nos chãos amarelos e não nos vermelhos. Recordo-me que, aos cinco anos, senti uma fortíssima vontade de pegar a filha de um vizinho e sentá-la em meu colo, sem nem saber direito por que razão aquela estranha sensação de excitamento percorrendo meu corpo. Fiquei ali, na frente da casa deles, sentado, com a menina no meu colo, até que fomos flagrados. De repente, a mãe dela chegou, nos pegou, gritou, e me chamou de tarado. Afinal, a garotinha tinha a minha idade, mas a iniciativa tinha sido minha. Daí em diante, a coisa correu solta. Todos os dias, depois que chegávamos da escola, enquanto o pessoal da vizinhança fazia a sesta, vivíamos aqueles inocentes momentos de promiscuidade infantil, atrás das árvores, embaixo dos galinheiros, escondidos no porão da casa de vovó, ou em qualquer brecha em que coubessem duas crianças brincando de papai e mamãe ou de médico. Aquelas “brincadeiras” tomaram proporções enormes em minha mente. Aos sete anos, passava grande parte do tempo pensando no que poderia fazer para aproveitar novas oportunidades naquela área. Nossos pais, bem como toda a vizinhança, pareciam absolutamente inconscientes quanto ao que acontecia a alguns de nós. E mesmo a maioria dos “filhos do quintal” parecia estar alheia aos jogos de sexo infantil que ali aconteciam. E como eu me sentia irremediavelmente masculino, não podia nem me imaginar em qualquer papel, naquelas diversões precoces, em que não estivesse na condição de extremamente ativo e possuidor. Mas o quintal e as memórais dos primeiros anos não eram feitos só disso. Para a maioria das crianças ali, aquele era de fato um mundo inocente e mágico. E não faltavam os ingredientes necessários ao estímulo da fantasia naquele pedaço de chão. Doutor Américo era a figura mais exótica que nós todos conhecíamos naquele espaço mítico. Era alto, magro, costelas expostas a ponto de poderem ser contadas a distância, cabelos negros e longos, caídos sobre os ombros. O rosto era comprido e os olhos faiscantemente enlouquecidos. O homem era poeta. Declamava versos de sua própria autoria e não parava de andar nu, exibindo naturalmente seu longo pênis, à semelhança dos grandes cavalos que pastavam no campinho em frente ao casarão de vovó Zezé, que também tinham seus membros sexuais pendurados à vista de todos. Doutor Américo era o humano mais selvagem que nós todos conhecíamos. Ele era o ponto de


contato entre o animal e a alma. Andava nu, como um bicho, mas caminhava cheio de poesia, como poucos humanos o faziam. Não me chocava ver a nudez do poeta mais do que a dos cavalos. Ele também era um ser livre e vivia sua animalidade com melodia insana. A esposa do doutor era uma mulher de traços notadamente indígenas. Ora, ele nos falava das virtudes femininas dela com grande poesia. — Alexandre, o Magno da Macedônia, Sidney Galtama e Iléia Amazônica são os nomes dos meus filhos. Mas os senhores podem chamar a menina de Mococa — dizia o nosso vizinho diferente, sempre fazendo alusões gratuitas aos seus três filhos, que viviam entre nós e eram nossos amigos de fantasia no quintal. O poeta louco marcou a mente infantil de todos nós. Além do poeta, havia uma jibóia que era mantida no porão da vovó por um dos muitos “filhos de criação”. Era a cobra do Xico Sobe e Desce, como a gente chamava aquele menino que mancava de uma perna. Ela cresceu tanto, que um dia, enquanto Xico dormia numa rede, a bicha enroscou-se nele. O acocho foi tão forte que o Sobe e Desce teve de sair pelo punho da rede. Xico quase morreu de susto. Então matamos a danada num ritual dramático, cortando-lhe a cabeça e pondo-a num vidro com álcool. Lá em casa, no outro extremo do terreno, nós chegamos a ter cavalos, ovelhas, um jacaré e um macaco, além de araras, periquitos, galinhas e outros bichos, pois papai adorava satisfazer nossas fantasias selváticas e Mãe Velhinha, mesmo que a contragosto, acabava cuidando da bicharada. Nossas noites eram absolutamente extraordinárias. Naquele tempo, não havia televisão em Manaus. Entretanto, tio Carlos Fábio, o médico, que também residia no casarão, resolveu dedicar-se ao hobby das filmagens. Assim, comprou uma câmera de cinema amador, um projetor e montou um estúdio de revelação em preto-e-branco. Ele filmava brincando, brigando, correndo ou mesmo representando algum papel, e exibia os filmes em noites concorridíssimas, onde nós e a garotada da vizinhança nos amontoávamos para assistir nossas versões artísticas da vida. Era o máximo. Foi ali que fiz meus primeiros discursos. — Esses tal de Plínio Coelhos são uns, uns, uns,... (ra,ra,ra), uns cabra. Esses tal de Gilberto é que são bom — dizia eu, imitando os discursos dos comícios que Mãe Velhinha me levava para ver na praça Quatorze. O processo de produção e revelação do filme também nos empolgava, especialmente porque o lugar onde tio Carlos revelava o material era o porão do casarão, onde tinha seu laboratório, sempre trancado e sob muitas recomendações de que não deveria ser violado. Lembro-me que na primeira vez que nos foi dado acesso à “sala escura”, entramos nas pontas dos pés, como se entra num santuário que, em vez de carregar em si o sabor do sagrado, escondia consigo o mistério do proibido. Todos estávamos calados quando tio Carlos resolveu contar o segredo da revelação dos filmes, guardado num produto que ficava num vidro largo e barrigudo. Ele disse solenemente: “Aqui está o líquido da mágica do filme.” E parou olhando para todos nós. Nossos olhos estavam arregalados de prazer e encanto. E prosseguiu: “Agora se preparem. Eu vou abrir.” E aí então saiu de dentro daquele vidro o mais terrível cheiro que eu jamais sentira em todos os meus sete anos de vida. Titio então gritou: “É o peido alemão.” Todo mundo correu. Alemão, para nós, era símbolo de algo que matava. Nunca me esquecerei do cheiro. Nossa fantasia infantil passava, sobretudo, por dentro do grande casarão. Ali, de acordo com Xico Sobe e Desce e outros mestres da fascinação, moravam visagens, fantasmas e almas penadas, que haviam morrido no antigo hospital e que voltavam à noite para passear pela casa. Assim é que nós ouvíamos histórias sem fim de como havia um cômodo no porão que não


deveríamos visitar jamais — coisas do Xico — e de como morava uma velha monstruosa e feia no mirante do último andar da casa. A escada de madeira que serpenteava de alto a baixo da casa era o ponto de contato preferido pelas visagens. Entre o terceiro e o quarto andares, Xico jurava, poderíamos sentir a mão fria de um fantasma e as correrias incontroláveis das assombrações que por ali se divertiam. E, nesse ponto, os ratos e o processo de dilatação noturno das madeiras da casa ajudavam a manter os mitos vivos e próximos de nossa imaginação, intensamente colorida por tons fantasmagóricos. Viver ali até os dez anos de minha vida foi a maior desgraça e a maior bênção de minha infância. A desgraça fica por conta da promiscuidade infantil; a bênção, da magia e da fantasia que semearam em mim o poder da imaginação.


Capítulo 8 “Comida imaginada em sonhos é extremamente parecida com a comida recebida quando se está acordado; ainda assim, aqueles que dormem, mesmo quando sonham com deliciosos manjares, não se alimentam, pois estão dormindo.” Santo Agostinho, Confissões

A vida profissional de meu pai continuava progredindo. Ouvia-se sempre que ele era um dos homens mais ricos da cidade. Pelo menos essa era a fama. Talvez porque, sendo de família bastante conhecida no estado por outras razões que não o dinheiro, ele aliava esse legado aos primeiros sinais de influência e poder. Era jovem, estava em torno dos 34 anos, mas as evidências de prosperidade e sucesso o acompanhavam. Seus carros importados, luxuosos e únicos na cidade, faziam com que sua presença fosse notada onde quer que ele estivesse. Além disso, seu escritório de advocacia crescera e se tornara um dos mais lucrativos. Tudo isso, aliado aos empreendimentos nos quais ele já estava envolvido, dava a ele essa aura de homem da hora. Apesar de sua ascensão social, meu pai ainda não parecia ter mudado muito, exceto numa coisa: na religiosidade. Vivendo conflitos quanto a questões de natureza filosófica e já um tanto convencido acerca de sua privilegiada inteligência, ele começou a se confessar agnóstico. Tornar-se ateu era demais para um filho do Dr. Fábio, mas o charme da aparente honestidade filosófica da confissão agnóstica o seduzia e dava-lhe a sensação de estar no compasso dos tempos. Quanto ao mais, não apresentava mudanças significativas. Continuava meigo com sua mãe, amigo da esposa, dedicado e carinhosíssimo com os três filhos, companheiro leal dos irmãos e crítico contumaz dos métodos de persuasão religiosa de Mãe Velhinha. Numa coisa, mais do que em qualquer outra, ele continuava absolutamente inalterável: no seu amor pelas florestas e pelo selvagismo do Amazonas. Eu me recordo claramente que, mesmo estando cheio de incumbências na capital, papai sempre conseguia arranjar um pretexto para ir pessoalmente resolver alguns negócios no interior. Nessas ocasiões, ele me colocava a tiracolo, entrava num “motor” e passava até duas semanas longe da vida urbana. Para mim, aquelas saídas eram como ter a chance de visitar outro planeta. Talvez as principais marcas que eu traga na memória daqueles tempos de incursão nos intestinos do Amazonas tenha a ver com coisas muito simples. O encontro da águas. Foi ali, na proa daqueles barcos, que eu vi, muitas vezes, as águas do Negro e do Solimões assumirem seu concubinato natural: não se casam e nem se separam; não são um e nem conseguem viver sem o outro; não se misturam, mas também não se descolam. E lá ficava eu, quase sempre ouvindo meu pai declamar de um tamborete, encostado contra a parede


frontal que protegia o comando do barco, a poesia de Quintino Cunha (1875-1943): “Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este é o Rio Negro, aquele é o Solimões. Vê bem como este contra aquele investe como as saudades com as recordações. Vê como se separam as águas que se querem reunir, mas visualmente; é um coração de quem quer reunir as mágoas de um passado às aventuras de um presente. É um simulacro só, que as águas donas desta terra não seguem curso adverso; Todos convergem para o Amazonas, o real rei dos rios do universo. Para o velho Amazonas, soberano, que no solo basilio tem o Paço; Para o Amazonas, que nasceu humano, porque, afinal, é filho de um abraço! Olha esta água, que é negra como tinta; posta na mão, é alva que dá gosto. Dá por visto o nanquim com que se pinta nos olhos a paisagem de um desgosto. Aquela outra parece amarelada muito, no entanto, é também limpa, engana. É direito a virtude quando passa pela flexível porta da Choupana. Que profundeza, extraordinária, imensa, que profundeza, mas que desconforme! Este navio é uma estrela suspensa neste céu d’água brutalmente enorme. Se estes dois rios fôssemos, Maria, Todas as vezes que nos encontrássemos, Que Amazonas de amor não sairia de mim, de ti, de nós que nos amamos? As viagens prosseguiam, aprofundando-se para dentro dos rios e para dentro da alma. Eram cheiros e encantos que nos seduziam à noite, quando encostávamos na beira do rio e ouvíamos milhares de grilos e outros insetos com seus ruídos fantásticos e seus odores incríveis, quase de outra ordem de existência. Os aromas da floresta eram trazidos pelo ar úmido e denso que às vezes soprava do rio para a mata e, outras vezes, num estranho e breve retorno de vento, da mata para o rio. Os cheiros me excitavam de um modo todo especial. Eu não podia dormir quando os odores variavam muito. Eu os sentia todos. Não raro esse show de variedade de fragrâncias fazia-se acompanhar por longas e ricas histórias sobre as lendas da região. Eram cobras grandes e mamíferos cabeludos — a piraíba era o nome mais forte — capazes de engolir um homem, e espíritos da mata e suas visagens; enfim, era o paraíso para a imaginação.


O que mais me impressionava naquelas viagens era a sensação de encontro com a morte que eu de vez em quando experimentava, o que acontecia sempre que alguém tinha de se lançar, no meio da noite, nas águas densamente pretas do Negro ou nas agitadas, povoadíssimas e barrentas águas do Solimões. — Dun, dun, dun, dun, trannnnnn. Pun, pô — era como quase sempre a máquina começava a cantar sua desgraça, dando sinas de que iria parar. Na maioria das vezes, era capim aquático, descendo o rio como uma ilha flutuante, que se enrolava à hélice. E nem adiantava jogar âncora. Quase sempre a profundidade do rio era tamanha, que a corda da âncora não chegava ao fundo. A solução era “voluntariar” alguém para pular e ver do que se tratava. O duro era que, em geral, essas coisas aconteciam à noite, sempre depois daquela longa sessão lendária de terror amazônico, quando não faltavam histórias de gente que havia desaparecido no rio, tragada pelas águas e suas bestas, ou vítimas da conspiração dos espíritos da mata. Obviamente, o agnóstico do meu pai não acreditava na última parte, mas amava e reverenciava tudo aquilo como legado cultural. O certo é que alguém tinha de pular nas águas. Não me esqueço de que, às vezes, enquanto o voluntário se preparava, alguém contava como aquela ação era perigosa, lembrando a memória de um “cumpade macho” que sempre fizera aquilo, até o dia em que, pulando, nunca mais voltara das águas. Eu ficava pensando por que se dizia aquilo justamente na hora em que o pobre desgraçado do voluntário ia pular na água, no meio do breu. Depois, só bem depois, foi que percebi que aquilo era parte de um ritual dos homens de coragem que se submetiam a tarefas como aquela. Todos os que vi pular voltaram, graças a Deus. Mas, para a minha mente de menino de sete anos, tudo aquilo parecia uma visita à alcova da morte, um flerte com ela, o sentir do seu cheiro. De volta a Manaus, eu me sentia como um rei que retornava de conquistas em terras tão distantes, que nem a melhor imaginação conseguiria descrever. Eu voltava alterado, de peito estufado, checando meus músculos a todo momento e com a sensação de que os outros meninos eram uns pobres seres, presos à rotina da rua e do grupo escolar. Meu pai, percebendo isto, insuflou em minha alma a semente da aventura. Começou a me provocar como podia. Dizia que eu podia ir aonde eu soubesse chegar e, por isso, com certeza, desse lugar eu saberia voltar. E dava aulas práticas. Estimulava-me a ir empinar pipa nas ruas e nos quarteirões distantes, aonde os demais garotos da rua jamais sonhavam em ir. — Se você souber aonde está indo, saberá sempre o caminho de volta para casa. Quem sabe aonde a sua casa fica, não tem medo de ir a lugar nenhum na vida — ele dizia. Eu nunca pensei que ele estivesse plantando em mim uma semente que haveria de me dar uma indescritível sensação de independência no futuro. Ele também me dizia, freqüentemente, que eu precisava aprender a lutar contra aquilo que era maior do que eu. Por isto, nunca me deixava praticar os rudimentos do jiu-jítsu — que tio Carlos aprendera na Bahia e nos ensinara lá no fundo do quintal — com meninos da minha idade. — Ganhar de um menino da sua idade e do seu tamanho não é façanha. Quero ver você bater no Zé Maria, que é bem maior que você — ele sempre dizia. E ele nos punha para sair no braço, rolar pelo chão, levantar, mandar a mão na cara do outro, até que um golpe final liquidasse a parada. Em geral, eu apanhava do meu oponente maior por um mês ou dois, todos os fins de semana, até que, de repente, e sem que eu sequer entendesse como, dava no cara, e daí em diante, nunca mais apanhava dele. Naquelas ocasiões, papai parecia estar tomando da pedagogia de sua deficiência física e aplicando-a num outro contexto, que, no entanto, apontava na mesma direção: a auto-superação.


Possivelmente, dentre as lições de pedagogia mais marcantes, a que teve maior influência sobre mim foi a da casinha de compensado. Papai percebeu que Suely e eu estávamos tentando construir uma casa sob a carroceria de um velho caminhão que estava abandonado num dos cantos do nosso imenso quintal. Então, aproveitando uma folga na agenda, resolveu revitalizar suas virtudes de carpinteiro autodidata e construiu para nós uma casinha de sala e quarto, com uma porta e uma janela na fachada. Quando a obra ficou pronta ele nos apresentou a ela com as seguintes palavras: “Podem entrar. A casa é de vocês.” Depois me disse: “Entre aí, ame uma mulher e ame seus filhos.” O eco de suas palavras reboam na minha alma até hoje, e, somente muitos anos depois, eu fui discernir o peso e o impacto que elas haviam deixado sobre a minha existência. Papai comprou um sítio e decidiu que o transformaria no melhor balneário da cidade. Daquele tempo em diante, nossa opção de lazer era pegar o carro e fazer a longérrima viagem de 15 quilômetros até ao lugar dos igarapés, dos pés de buriti que cresciam nos chavascais e alagadiços, onde os bichos, de tão inocentes, desfilavam faceiros diante de nós e onde caçar passou a ser um dos shows do fim de semana não só para os adultos, mas também para alguns meninos, especialmente para meu primo José Fábio e eu. Uma das primeiras coisas que papai fez lá foi uma piscina maravilhosa, cavada na areia branca e fina e forrada nas laterais de madeiras de lei, que nada mais era do que a passagem natural de uma nascente de água que ele resolvera dar o charme de fazer derramar-se artificialmente de uma cascata de pedras que ele construíra. Quando o sábado chegava e nós nos arrumávamos para ir para o sítio, a adrenalina viajava a mil pelo meu corpo. A primeira coisa que fazíamos era mergulhar na piscina para pegar os sapos com a mão e jogá-los no igarapé ao lado. Depois, podíamos iniciar a festa. Uma vez ou outra, tio Carlos gritava lá de cima, da varanda da casa — que, aliás, fora construída sobre um aterro no estilo de uma pirâmide escalonada em cujo topo a casa ficava. “Ninguém na piscina. Tem cobra.” E, então, pegava seu rifle e demonstrava a exatidão de sua pontaria, não raras vezes matando a cobra no primeiro tiro. Depois de tudo arrumado, saíamos para caçar. Tio Carlos colocava-me no ombro e entravámos na mata. No início, o meu temor da experiência era visível. Eles diziam que havia onça, cobra sucuri, porco-do-mato, capivara, anta, quati etc. Para mim, todos eram tão ferozes como a onça. Portanto, eu experimentava o medo na sua forma mais pura e sedutora. Um dia, quando eu estava nas costas de tio Carlos para poder atravessar uma zona alagada, ele ouviu um ruído diferente e pensou que fosse um bicho. Deixando-me sobre um tronco, disse: “Caiozinho, fica aqui e não se mexe. Não sai daqui. Num tem perigo nenhum. Fica aí.” E foi, na pontinha dos pés — xhuaá, xhuaá, xuhaá... — era o barulho de suas botas andando bem devagar, mas cheias de água —, sumindo no alagado. Xhaaaá, longe. E eu ali, sozinho. Comecei a olhar em volta e a me lembrar das histórias de que a onça era sabida: atraía o caçador para longe, fazia a volta e atacava pelas costas. Nesse caso, seriam as minhas costas. Comecei a somatizar o ataque, o dilaceramento de meu braço, meu estômago. Por fim, minha cabeça sendo arrancada e a bicha me levando para dentro da mata, meu corpo pendendo de sua boca como um coelho que balançava nos dentes de uma fera. Não agüentei. Saí pela mata na maior carreira, na mesma direção que tio Carlos tinha entrado. Xhuá, xhuá, xhuá — era a barulheira de meus movimentos desesperados, no meio do alagado. Só ouvi quando houve um ruído de agitação animal em debandada. Os bichos do chão corriam no alagadiço e as aves voavam nervosas de seus abrigos. Tio Carlos veio com ódio e vontade de fazer comigo exatamente o que eu pensei que a onça faria, pois eu tinha espantado um belo veado que lhe estava quase na mira. Mas, com o passar do tempo, fui me tornando mais frio. Já não me assustava com tanta


facilidade. No entanto, o receio estava sempre lá, escondido em algum lugar. Uma vez fomos caçar em outra direção. Era um lugar em que um amigo da família havia dito ter visto mais tucano do que em qualquer outro em toda a sua vida. Fomos lá. Nunca tinha visto espetáculo mais fascinante: eram centenas de tucanos, com seus bicos longos e quase surrealistas. O ruído era incrível. A cena indescritível. — Mas por que matar tucano? — era minha questão. — Quem comeria isso? — O lugar deles parecia ser ali, na decoração da mata. Mas Afonso, o amigo que descobrira o paraíso dos tucanos, pensava diferente: — Isso é bom de comer que vocês nem sabem! — dizia ele. Daí a começar o tiroteio foi simples. E foi uma chacina. Mais de trinta caíram no chão. Uns mortos, outros se debatendo, feridos. Meu estômago embrulhou. Vi o sangue dos bichinhos e disse para mim mesmo: “Desse bicho eu não como nem morto.” Aos sete anos, o que eu estava sentindo era o que de mais próximo eu poderia ter experimentado sobre a idéia de homicídio. Voltei para a casa do sítio carregando uma nostalgia parecida com uma depressão. Aliás, não apenas eu. Na verdade, parecia que aquilo não fizera a felicidade de nenhum de nós, e não acrescentara aos caçadores a idéia da conquista, mas a certeza da estupidez e do despropósito. Mas, para mim, as idas ao sítio também tinham outra motivação. Um homem do lugar tinha umas filhas caboclas, e eu, com a malícia do quintal, ensinada pelo Zé Maria, não deixava passar nenhuma oportunidade que me propiciasse algum tipo de distração com as meninas, desde “brincadeiras rápidas” até algumas bem mais profundas, sempre vividas na minha matreirice de levá-las sozinhas para ver “algo maravilhoso” que elas ainda não conheciam. Criança também sabe fazer o que é mau e, a seu modo, vive suas próprias ambigüidades. Eu tinha pena dos tucanos, mas não poupava as filhas do caboclo. As idas ao sítio começaram, entretanto, a ficar marcadas por outro sentimento: a distância de papai e o silêncio de mamãe.


Capítulo 9 “Para mim era doce amar e ser amado, tanto mais se eu também podia desfrutar do corpo da amada. Assim, eu poluí a água da primavera da amizade com a podridão da concupiscência. Em minha excessiva vaidade, eu continuei andando da mesma forma elegante pela cidade. Corri para o amor, pois era por ele que eu desejava ser capturado.” Santo Agostinho, Confissões

Ninguém sabia que o sucesso profissional tinha alterado meu pai mais profundamente que se poderia imaginar. Já havia sinais de uma certa arrogância nas suas ações. Ele podia variar do carinho e do afago à brutalidade na correção dos filhos. Mamãe, ele já não tratava do mesmo modo. Percebia-se um tom sempre muito crítico da parte dele em relação a ela. Também era possível vê-lo com freqüência perder a paciência com Adriano, o sócio na exploração de ouro na mina de Parauari. Ele tratava o homem com brutalidade cada vez maior. — Seu preto burro, estúpido, tacanho. Eu mato você, seu idiota. Como é que você fez uma cavalice dessas, seu velhaco? — ele dizia brandindo a muleta no ar, com vontade de descê-la na cabeça do assustado barbadiano, que se defendia e tentava acalmá-lo com seu sotaque arrastado e português malfalado, trocando sempre o masculino pelo feminino e, por isso mesmo, quase assinando sua própria sentença de morte sem perceber. — Caia, não fica zangada, não. Eu não tem culpa, não. Você, Caia, sabe disso. Tem paciência, Caia — falava Adriano, enquanto papai corria para cima dele, aos berros. — Seu desgraçado, você fica aí se fazendo de quem não sabe falar português só para ter o pretexto de me chamar de Caia, seu safado. Não fale português comigo. Eu falo inglês e não cometo essas barbaridades que você comete, seu burro. Na hora, dava muito medo. Mas depois, quando eu ficava sozinho, caía na risada. Era cômico. O que ninguém poderia imaginar era que o Dr. Caio estava apaixonado, e não era por minha mãe. Mesmo já tendo “pulado a cerca” antes, aquela era a primeira vez que ele resolvia construir uma casa do outro lado. Nos primeiros meses — e até durante o primeiro ano —, ninguém sabia, oficialmente. Mas numa cidade como aquela, e com ele dirigindo aqueles carros tão extravagantes, era impossível “dar pulinhos de lado”, como ele dizia, sem se auto-incriminar. Mas havia sempre muitos álibis, desculpas e cúmplices para disfarçar a situação. No entanto, daquela vez era diferente. A mulher era um pedaço de fêmea, completamente dentro dos padrões de beleza da época: loira, seios generosos à la Marilyn Monroe, vestidos


apertadíssimos na cinturinha fina, boca larga e lábios carnudos; enfim, bem dentro do modelo sedutor do fim da década de 50 e início dos anos 60. O nome dela era Simone. Eles se conheceram através de amigos comuns. A vivência amorosa dela já era profunda. Tinha duas filhas, de pais diferentes, Silvia, morena e mais calma, e Alma, loira e esfuziante como a mãe. Dizia-se que Simone já tivera vários outros namorados, o que mamãe, depois que descobriu tudo, jurava ser verdade, dizendo que se baseava em fatos e em fofocas que vinham de muitas direções. O relacionamento deles logo passou do fortuito e descomprometido para o aberto e apaixonado. Um homem como ele tinha uma dificuldade adicional para ser amante, o que, com certeza, não estava relacionado à perna defeituosa ou à muleta, mas ao caráter. Isto porque, por mais que ele quisesse, não conseguia imaginar a si próprio indo à casa daquele pedaço de mulher somente para possuí-la. Ele se sentia muito mal fazendo assim. Meu pai achava que, já que aquilo estava acontecendo, embora fosse errado, tinha que ser, então, o fruto do amor, não apenas da carne. E desesperar-se de amores por aquela mulher, com seus encantos, charmes, experiências e habilidades na arte da paixão, era tão natural quanto alguém dizer que comeu ambrosia e gostou. No princípio, tudo o que havia era desconfiança. Mamãe começou a querer saber por que ele estava se atrasando sistematicamente para o jantar. Depois, passou a ficar intrigada com o ar de desconforto que ele demonstrava quando ela ia ao seu escritório sem avisar. Por fim, concluiu que alguma coisa estava para lá de errada. Quando o telefone tocava e ela atendia, ninguém falava do outro lado e desligava, para em seguida tocar de novo, papai atender, e então mudar o semblante para uma expressão inchada, especialmente nos lábios, onde ele jamais conseguira deixar de revelar alguma coisa que lhe era desconfortável, mediante a “criação” de um biquinho. — Sim, sim, hum-hum, tá. Vou sim. Espere. Não. É. Então tá. Certo. Até logo — era mais ou menos como a coisa se mostrava para quem estava do lado de cá, ouvindo aquelas conversas dele com “ninguém”. A confirmação veio apenas quando ele não tinha mais como e nem por que deixar de admitir a verdade. Havia dor em seu olhar quando reconheceu que já estava tendo uma “amante” — era assim que se dizia naqueles dias — há algum tempo. Mamãe queria saber o que toda mulher quer saber: “Por quê?” E mais: “É coisa do coração ou é só desejo carnal?” Ele respondeu com objetividade, como sempre. Era coisa da alma e da carne, era forte, e ele não tinha como parar. Entretanto, a razão de ter estado aberto àquela situação, ele mesmo não sabia responder. Não sabia e achava que coisas assim não aconteciam, necessariamente, porque o relacionamento estivesse fracassado com o cônjuge. Às vezes, eram apenas armadilhas do coração, sempre absolutamente ignorante de si mesmo e freqüentemente ansioso por amar de modo enlouquecido. Mas para minha mãe, aquilo era apenas conversa fiada e, mesmo que ela não conseguisse dizer dessa forma, achava que aquilo era pura sem-vergonhice. — Ainda bem que o Doutor Fábio já morreu para não ter que ver você desonrar o nome dele desse jeito! Mas a dona Zezé vai sofrer muito quando souber — disse mamãe, acreditando, no fundo, que a imagem quase onipresente do falecido João Fábio ainda poderia funcionar como consciência familiar. Não adiantou, como jamais adiantaria. Papai estava disposto a tudo por aquele sentimento, ou melhor, quase tudo. Disse que dava a ela o direito de não querer mais ser sua mulher, mas que abrir mão dos filhos era algo que ele jamais negociaria. A saída do chamado “desquite” estava, nesse caso, completamente descartada. Mamãe pediu para pensar. Conversou muito com Mãe Velhinha e ouviu suas ponderações.


Afinal, para quem havia tido um marido como seu Firmino, as aventuras de Caio ainda eram o paraíso. — Olha, eu sei o que é isso. Vivi a vida toda com a certeza de que compartilhava meu marido com outras mulheres. Mas o que fazer? Os homens são todos iguais: uns rabos-de-saia. Só não esperava que Caio fosse dar nisso. Parecia tão sério. Mas não entregue seu marido a esse jaburu. Ele é seu e de seus filhos. Lute por ele — ela disse. Mamãe tentou explicar-lhe que a sua geração já não pensava daquele jeito. Compartilhar o marido era algo que a maioria até desconfiava que fazia, mas preferia fingir que não sabia. No entanto, no seu caso não havia o escape honroso da ignorância. A cidade inteira falava. Sua vergonha era pública. O fato é que mamãe decidiu tocar para a frente. Mas a que custo! Como era de se esperar, ela jamais voltou a tratar papai com normalidade. A humilhação gerara nela um sentimento de raiva que se alternava, ora produzindo falações amarguradas, ora profundo silêncio. Acabou qualquer tipo de vida íntima ou amizade que pudesse haver entre eles. Os cinemas noturnos, antes comuns na vivência dos dois, acabaram completamente. As idas ao sítio, antes animadas, cheias de expectativas, passaram a ser mera condução das crianças para um ambiente que elas amavam; apenas isso. As refeições, que eventualmente faziam juntos, passaram a ser torturas à mesa. Não se falavam. O clima era pesado, carregado de angústia, e ainda piorado pelos olhares de Mãe Velhinha, que, morando conosco desde a nossa volta de Canutama, não conseguia se distanciar da situação. E ainda havia o pior: as nossas conversas infantis, tratando os dois como se nada estivesse acontecendo, tentando encontrar neles o casal de amantes e amigos que um dia haviam sido e que a chegada de Simone transformara, no máximo, em sócios formais. Quando dona Zezé ficou sabendo, chamou o filho para conversar. Lembrou os ensinamentos de João Fábio e sua conduta. Disse que a família era sagrada e recordou que entre eles jamais houvera uma separação; desquite, então, era nome estranho, que ela não admitiria fosse incluído no vocabulário dos Araújos. Até mesmo Carlos Fábio, melhor amigo de papai, discreto e calmo, foi estimulado a conversar com ele. Em casa eu comecei a perceber o zum, zum, zum de que algo iria acontecer. — Dona Zezé falou com ele. Agora é o Carlos. Não é possível. Ele tem que ouvir — contava mamãe à minha avó, bem baixinho, entre dentes, sussurrando na cozinha. — O que é que o tio Calos vai falar com papai? — eu perguntava. — Nada, menino — era a resposta de sempre. Mas com o passar dos meses, o tom mudou para: “Você ainda está muito pequeno para entender.” E ao final do segundo ano de dor, depois que eu insistentemente perguntei a razão dela chorar tanto sozinha e de papai ficar com aquele biquinho chato pendurado no rosto o dia todo, mamãe me contou tudo. — Teu pai tem uma amante — foi como ela me disse. Ora, eu era menino precoce em muitas áreas. Mas aquele negócio de “amante” era algo que eu não sabia do que se tratava. A princípio, pareceu-me algo bom. Amante vinha de amor, e amor era bom. Mas como, então, aquilo mudara tão dramaticamente as nossas vidas para pior? — O que é ter uma amante, mamãe? — indaguei. — O Caio não gosta mais da Lacy e arranjou um jaburu — respondeu Mãe Velhinha, curta e grossa, que estava ao lado de mamãe. Eu conhecia bem os jaburus. No centro da cidade, na frente da igreja Matriz de Manaus, existia um pequeno zoológico, onde havia aquelas aves altas e de pernas finas, da família das garças, embora bem maiores, que todo mundo dizia ser o jaburu. Nunca entendi por que vovó chamava Simone daquele jeito. Afinal, para mim, os jaburus eram feios, e quando conheci a tal da


amante de papai, pensei tudo, menos que ela fosse feia. Papai, percebendo que eu já sabia de tudo, resolveu abrir o jogo comigo. Disse que nos amava, que jamais nos deixaria e que tinha respeito por mamãe. — Ela é uma mulher muito boa e uma excelente mãe — disse ele. — Por que então você não gosta só dela? — resposta que eu não pude entender aos oito anos de idade. — É por que eu amo mais a outra. Ele foi logo dizendo que Simone tinha duas filhas, mas que nós não nos preocupássemos, pois os herdeiros de tudo o que ele tinha éramos nós e que, independente do que acontecesse, ele jamais sairia de casa. Nunca mais me esquecerei daquela conversa. Foi no banheiro de nossa casa; e eu estava em pé e ele sentado sobre o tampo do vaso sanitário. Quando a porta se abriu e nós saímos, eu me senti como se meus ombros pesassem muito mais do que eu podia carregar. Olhei para Suely e Luiz Fábio como se o pai deles fosse eu e percebi que, se mamãe não tinha marido, eu precisava ser para ela mais do que filho. Dali em diante, vi a relação dos dois se deteriorar a cada dia. Mamãe não chorava mais, apenas odiava. Parou de falar com ele e ambos me institucionalizaram “pombo-correio”. Eu levava pedidos de dinheiro e trazia cash. Perguntava se ele precisava de alguma coisa e voltava com a demanda. Informava a ela que ele não voltaria para o fim de semana ou que passaria a noite fora. Não satisfeita com a coisa, mamãe, em desespero de causa, mesmo sem falar mal dele para a gente, passou a me levar com ela para passear pela cidade, a fim de ver se encontrava os dois juntos. Era fácil. Bastava ir até Adrianópolis, perto da antiga caixa-d’água, que, no mínimo, ela veria o carro dele estacionado ao lado do carro e da casa que ele dera ao jaburu. Houve umas poucas vezes em que vimos até mesmo os dois abraçados no portão, olhando as meninas Silvia e Alma brincarem na calçada. Percebi, então, que eles também formavam uma família, o que me feriu até onde era possível machucar e me fez entender um pouco da dor de mamãe. Ela não conseguia compartilhá-lo com a amante, e nem eu. Em mim não havia recursos interiores para aceitar dividir meu pai com aquelas estranhas, que agora também o tratavam como pai. Eu já não sabia mais se o amava ou se simplesmente o desprezava. Tudo perdeu o encanto. O quintal da vovó ficou cinza, as brincadeiras tornaram-se tristes, as idas ao sítio encheram-se de melancolia e as caçadas acabaram. Viagens para o interior, nunca mais, exceto por duas rápidas, que fizemos num avião Catalina, anfíbio. O que ficou foi um desejo imenso de chorar e uma saudade enorme de alguém maior. Eu não sabia viver sem pai e, por mais que ele ainda andasse entre nós, seu caminho emocional tornara-se estelarmente distante da gente. E, para completar, comecei a sentir medo que mamãe viesse a buscar algum outro homem. Então, passei a vigiá-la. Eu percebia que, mesmo sentindo muita dor, mamãe às vezes ria descontraída quando conversava com um rapaz que trabalhava para papai e que de vez em quando aparecia lá por casa. Minha malícia me dizia que uma mulher no estado dela era presa fácil para qualquer homem, mesmo que fosse um empregado de apenas 21 anos. Fiquei obcecadamente de olho aberto. Assim que o rapaz chegava lá em casa, eu parava tudo e fica ao lado, ou de longe, espreitando. Eu não a vigiava para papai, mas para mim mesmo. Jamais a dividiria com um outro homem. Para mim, como menino, era inconcebível que qualquer outro homem, que não fosse papai, pudesse ter acesso à intimidade de minha mãe. Ela nunca ficou sabendo disso, até hoje, enquanto escrevo estas páginas. O que salvava minha mãe de um mergulho total na amargura e no ódio era a fé. Ela não era


profunda no seu compromisso existencial com Deus, mas se servia de alguns recursos espirituais para aliviar a sufocação do peito. Toda terça-feira à tarde ela ia à Igreja Presbiteriana para unir-se a outras mulheres que oravam. Meu pai era objeto constante das intercessões espirituais daquelas mulheres. Jardim de Oração era o nome dado ao encontro. Foi ali, naquele jardim de preces, que mamãe conseguiu diminuir a sensação de solidão que sobre ela se abatera. Eu, entretanto, não sabia recorrer a tais recursos. O que me possuiu foi uma saudade espiritual de alguém. Lembro-me que passei a me postar na varanda lateral de nossa casa e olhar o pôr-do-sol, que acontecia por trás de uma alta e frondosíssima mangueira, que virava Sarça Ardente quando as luzes multimatizadas do ocaso pintavam-na de tons quase psicodélicos e davam-lhe o poder místico dos sacramentos. Para minha mente de oito anos, as maiores impressões ficavam por conta do fato de que as folhas se doiravam com o reflexo do sol e aquela silhueta imensa da árvore me enchia de uma estranha sensação: era como se aquela mangueira fosse o símbolo de algo espiritual para a minha alma, de alguma coisa na qual um dia minha existência encontraria seu sentido. Algo saudoso, porém vivo. Era como se a pessoa que mais me amasse estivesse escondida ali, atrás daquela árvore mágica, sagrada, reluzente e cheia de uma estranha sombra colorida. Eu ficava lá. Em pé. Sozinho. Pensando. Olhando a mangueira. Uma vez Mãe Velhinha chegou perto de mim e perguntou o que eu estava sentindo. “É como se eu ainda não conhecesse a pessoa que eu mais amo. É como sentir saudade de alguém que você não sabe quem é”, foi mais ou menos o que eu respondi. Ela apenas ouviu. As conseqüências do que estava acontecendo a papai e mamãe ganharam manifestações no soma, na carne da gente. Luiz Fábio começou a engordar sem parar. Suely foi ficando retraída e um tanto complexada. Eu, que dificilmente engordaria ou me voltaria completamente “para dentro”, fui tomado de uma gagueira horrível. Era uma gagueira diferente. Não era do tipo que fazia patinar nas palavras o tempo todo. Às vezes eu falava normal. Mas, de repente, ficava engatado numa sílaba e, a menos que eu parasse de falar, respirasse fundo e pronunciasse a palavra quase cantando, não saía mais nada. Mãe Velhinha assumiu o papel de fonoaudióloga e resolveu que me curaria rapidinho. Como alguém havia dito a ela que bom para curar gagueira era paulada de colher de pau na cabeça, dada por trás, na hora em que a pessoa estivesse engatada na palavra, andava o tempo todo com uma colher pendurada à cintura. E sempre que me via encalhado em algo como Lu, lu, lu, lu-iz, você vai brin, brin, brin, brin-car na vovó, vinha por trás e sapecava a colher de pau na minha cabeça. Eu odiava aquilo. Humilhava, deixava um galo na cabeça e, obviamente, não curava nada. Na intenção de diminuir o peso do problema, mamãe foi algumas vezes a Belém, para a praia de Mosqueiros, aliviar a cabeça. De nossa parte, em Manaus, a opção era ficar mais perto da figura paterna de tio Carlos, que, apesar de tudo o que estava acontecendo com papai, não deixou jamais de nos levar ao sítio, aos sábados, mesmo que papai já não fosse tão assíduo nas suas idas ao antigo paraíso. Foi também no desejo de desviar a cabeça do luto familiar que passei a tentar arranjar coisas fora e longe de casa para fazer. E foi então que minha paixão pelo Rio Negro Futebol Clube se desenvolveu. Onde havia jogo, lá estava eu, tentando de tudo para me sentir parte daquele mundo de muitas alegrias, nas vitórias, e de dores, bem mais leves que as de casa, quando o Nacional às vezes nos mandava para casa de cabeça baixa. Mas a minha grande paixão daqueles dias foi uma menina dois ou três anos mais velha do que eu. Margarida tinha uns 11 anos e morava na casa vizinha à nossa. Sua família era pobre e todos


nos olhavam como se fôssemos realezas. Margarida, entretanto, tinha outra atitude. Ela me encantava com aquele cabelão longo e com as corridas que dava fazendo questão de balançar a cabeça para me mostrar a ginga de seu corpo. Eu ficava deslumbrado e achando que uma menina do tamanho dela não estaria tentando se mostrar para um fedelho como eu. Mas enquanto eu me dedicava àquelas reflexões do amor precoce, esquecia o drama familiar. Foi assim até o dia em que Margarida deu uma bandeira tão grande, que eu decidi deixar as reflexões de lado e ir à luta. Mandei um bilhete para ela marcando um encontro à uma hora da tarde, embaixo de um coqueiro que havia na frente de minha casa. Ela foi sozinha e nervosa. Olhei trêmulo para ela e me confessei apaixonado. Depois cantei Quem eu quero não me quer e pedi que ela me namorasse. Não deu outra: ela aceitou. Mas tinha de ser segredo. Daquele dia em diante, nos encontrávamos ali, sempre à mesma hora. Ficávamos nos olhando e nos curtindo. Não havia muitas palavras. Entretanto, havia beijinhos e rápidos abraços, especialmente na despedida. Fiquei tão perdidamente apaixonado, que cheguei a dizer para o Boi, meu amigo, que ela tinha uma boca com gosto de sapoti. Daí em diante, o Boi sempre me perguntava: “Como é que é, garanhão? E a tua menina com boca de sapoti, vai bem?” Durante meses Margarida foi minha musa e deu cor ao fundo do quintal de vovó, onde ela morava. Até que os irmãos dela descobriram e forçaram a mãe da menina a nos separar. E eu fiquei chorando na varanda enquanto a mãe dela mandava-lhe o cinturão nas pernas. Dava para ouvir tudo. Chorei até babar de raiva. Depois, ela foi até a janela da casa e me deu adeus. Nunca mais a vi. Aquela ficou sendo a minha referência de desenlace afetivo e, naquele contexto, tudo de que eu não estava precisando era de mais uma dor de separação. Por volta do quarto ano de desquite emocional entre meus pais, o clima tornara-se insustentável. Até mesmo papai já começava a admitir que talvez a separação fosse uma solução melhor do que a existência sob o mesmo teto, se energizada com tamanha carga de amargura, ressentimento e silêncio. E ele acabou por ir até mamãe e pedir que ela assinasse o termo de separação. Sendo homem da lei, achava que, se ia fazer aquilo, não podia ser jamais sem o amparo total do sistema. Mamãe disse que assinaria os documentos de separação e, para mim, foi como se o mundo estivesse entrando numa era apocalíptica de lamúrias, pragas e destruições. Nosso mundo de fantasias tinha sido esmagado pela mais ambígua de todas as realidades: o amor não correspondido, de mamãe, e o amor direcionado para fora do permitido, de papai. Parecia ser o fim. E era também a minha mais séria lição sobre as complicações do coração.


Capítulo 10 “Tu me ajuntaste do estado de desintegração no qual eu tinha sido esterilmente dividido. Isto porque eu havia abandonado a unidade de ser que eu tinha em Ti e havia me dado a perder em profunda multiplicidade.” Santo Agostinho, Confissões

O ano de 1964 começou como o ano da separação. Eu fiz nove anos no dia 15 de março, na mais mirrada de todas as celebrações de aniversário até ali. Mas, no fim daquele mês, aconteceria algo à nação brasileira que teria efeitos devastadores: o golpe militar de 31 de março. Lá em casa, entretanto, o golpe não chegou com o poder de matar, mas de mudar. Isso porque papai foi profundamente atingido pelos efeitos da revolução militar e as conseqüências disso haveriam de mexer com nossas vidas para sempre. Naquele tempo, além dos demais negócios, papai já tinha entrado no ramo das telecomunicações. Junto com um amigo, ele se candidatara à obtenção da primeira concessão de televisão do estado do Amazonas. Os equipamentos já estavam todos comprados, e o projeto de construção dos estúdios estava dentro do cronograma. Eles estavam se antecipando à concessão porque os contatos políticos davam como certo que os papéis seriam apenas detalhes, não havendo nada a temer quanto ao resultado do pleito junto ao governo federal. O que ninguém na capital da república previra era que haveria um golpe cujas implicações abalariam dramaticamente todas as forças do poder constituído. O golpe atingiu meu pai de frente. Sua posição como presidente nomeado da Papel Amazon foi para o espaço. E nas outras empresas o choque foi ainda mais profundo: todos os negócios das demais companhias dependiam de licença do governo federal, pois eram concessões para exploração de madeira e, sobretudo, ouro e minerais preciosos. Para complicar, muitos de seus mais importantes clientes no escritório de advocacia foram também alcançados pelos longos e gelados braços dos militares. Mas o pior ainda estava por vir. Alguns de seus sócios, pressentindo o clima fúnebre que a revolução criara, trataram de se arrumar com os “milicos” assim que puderam, e como papai era o mais visível de todos eles nos negócios, trataram de lançá-lo às piranhas, sentando-se junto aos líderes do golpe para assistir ao espetáculo público de seu sangramento. O mais terrível de todos os resultados foi a acusação de que a mina de Parauari estava sendo usada para que grandes quantidades de ouro fossem enviadas para fora do país. Papai negou veementemente que aquilo estivesse acontecendo, pelo menos sob seu conhecimento. Mas já era tarde. Àquela altura, seu nome já estava nos jornais, e por motivos que nem ele e nem nenhum


dos Araújos jamais haviam esperado que a família viesse a ser conhecida publicamente. A vergonha de ver seu nome sendo enxovalhado nas primeiras páginas dos jornais era demais para ele. Primeiro, ele foi tomado de perplexidade com a velocidade dos eventos e a loucura dos processos da revolução. Depois foi percebendo a grande armação que havia por trás daqueles atos. E, por último, encheu-se de ódio e começou a falar em morte. Achava que matar aqueles que o haviam traído era a coisa mais honrada a fazer. Mas o mundo que estava desmoronando do lado de fora acabou por fazer ruir tudo o que ainda havia restado do lado de dentro, na família. Suely, minha irmã, caiu de um muro e fraturou em muitos pedacinhos o cotovelo esquerdo, ficando sob a ameaça de não dobrar mais o braço. Luiz Fábio inchou de tanto comer de nervoso. E, para piorar, papai e mamãe, que não se tocavam há muito tempo, no meio da tempestade — ele culpado diante dela, e ela com pena dele —, acabaram dando um ao outro uma trégua, e mamãe engravidou. Foi tudo junto. Percebendo que as coisas se tornariam insuportáveis em Manaus, papai propôs à mamãe que eles suspendessem a conversa sobre separação e dessem um ao outro, e aos filhos, mais uma chance. Uma mudança para o Rio de Janeiro poderia ser essa oportunidade buscada. Mamãe não queria ir. Eu abominei a idéia, disse que não iria de jeito nenhum, que eu não estava fugindo de nada nem de ninguém e que Manaus era meu lugar. Mas papai olhou para mim com um olhar fuzilante e disse: “Enquanto você comer do meu pirão, vai aonde eu for.” Fim de conversa. Mamãe levou o assunto para o Jardim de Oração numa daquelas terças-feiras à tarde. As amigas oraram com ela e estimularam-na a se dedicar a “ouvir a voz de Deus”. Ela não sabia bem o que era aquilo, mas imaginou que devia ser alguma coisa que tivesse relação com a leitura da Bíblia. Ajoelhada, ela abriu a Bíblia a esmo. O texto sobre o qual seus olhos pousaram dizia: “O que eu faço tu não sabes agora, compreendê-lo-ás depois”, que está no evangelho de João e conta sobre a resposta de Jesus a Pedro quando este quis saber por que o Mestre estava lavando os seus pés. O contexto não tinha nada a ver com a situação de mamãe, mas a passagem foi completamente iluminada diante dos seus olhos. Era como se o texto tivesse sido escrito para ela. Assim, minha mãe procurou papai e disse que iria, embora não por ele, mas porque Deus mandara que ela fizesse isso. Papai não entendeu nada e nem estava com cabeça para tentar discutir o assunto. O problema é que nós não iríamos sozinhos. Simone, Silvia e Alma também iriam. Papai, mamãe e Suely foram na frente, em regime de urgência. O braço de Suely precisava de intervenção cirúrgica imediata ou ficaria perdido. Mamãe, grávida, estava começando a sangrar, pois sofrera muito nos partos anteriores e já não tinha o útero sadio. Aliás, seu médico queria fazer um aborto, certo que estava que suas chances de morrer com o neném eram muito grandes. Eles foram juntos, feridos por dentro e por fora; ainda eram família, mas se tratavam como estranhos. O vazio da saída deles foi horrível. Luiz, Mãe Velhinha e eu nos mudamos para um dos cômodos da casa de vovó Zezé, que, pesarosa, estava sempre enxugando as lágrimas que lhe rolavam dos claros e profundos alhos azuis e escorriam por sua face tão encarquilhada quanto pele de um jenipapo. Foi ali que, pela primeira vez na vida, eu senti desejo de morrer. Tudo parecia enorme e distante. Eu olhava as coisas à minha volta e me sentia esmagado por elas. Às vezes, eu escapava até o fundo quintal de nossa casa, já completamente vazia, e tentava ver se Margarida ainda estava por lá ou se, quem sabe, por mero acidente, eu conseguia vê-la e alegrar meu coração. Mas ela jamais apareceu. Eu voltava andando cabisbaixo pela extensão arborizada daquele terreno que antes era a própria fantasia feita metro quadrado e agora era o


lugar de nossa solidão e de nossa perdição. Depois de alguns meses, veio a ordem de papai para que fôssemos encontrá-los no Rio de Janeiro. A despedida dos amigos, dos primos, dos tios e dos espaços sagrados e profanos de minha infância foi uma das experiências mais fortes em minha memória emocional infantil. Mãe Velhinha, Luiz e eu entramos num avião da Panair do Brasil em dezembro de 1964 e fomos para o Rio. O vôo não terminava mais. Eram oito horas de viagem. Quando estávamos quase pousando no aeroporto Santos Dumont, Luiz virou para mim, pálido, tentando dizer algo que não conseguiu. Só vi aquela quantidade enorme de vômito sendo despejada em cima de mim. Foi horrível. Eu estava deprimido e todo vomitado. Descemos por último, levados por uma aeromoça que nos ajudara. Pelas janelas redondas de dentro do avião tentei ver papai lá fora, mas não foi possível. Quando pisei no chão do Rio, fui tomado por uma avalanche de cheiros que eu não sabia que existiam. O aroma de maresia da baía de Guanabara, ainda não tão poluída, entrou-me pelas narinas, dizendo-me que aquele lugar era absolutamente estranho. Além disso, fiquei impressionado com a altura dos cariocas, bem mais altos que a média dos amazonenses. Concentrei-me na busca de papai no saguão do aeroporto. Ficamos ali, olhando para um lado e outro, e nada dele. “Será que não viria? E se tivesse morrido?” — eram questões que me passavam pela cabeça. De súbito, olhei para o lado e vi um estranho que se aproximava de nós, gargalhando alto. — Então, seu cabrinha danado, você é o famoso Caiozinho, e você é o Luiz? — perguntou, enquanto nos beijava, abraçava e sacudia, num modo agressivo de expressar carinho, embora fosse carinho de fato. Era o tio Ari, casado com Isa, uma irmã de meu pai que eu jamais conhecera. — E meu pai? — indaguei do recém-apresentado titio. Ele fez que não entendeu bem e disse que tínhamos de ir para a casa dele. Então eu fui mais enfático. — Eu quero ver meu pai e saber como vai a minha mãe. E Suely? Foi quando ele disse que Suely estava na mesa de operação e que por isto papai não viera nos buscar. O que ele não disse foi que minha mãe estava muito mal e que havia o temor de que ela pudesse sangrar até morrer. Em vez de nos levar para algum lugar no Rio, ele nos conduziu à praça Quinze, onde pegamos uma barca para Niterói. Aquela primeira travessia de barca teve um efeito positivo sobre mim, acostumado que estava a ver muita água e sempre extasiado com o poder das fragrâncias. Fomos para a parte superior da embarcação e ficamos ali, olhando aquela topografia linda, com montanhas que saíam de dentro do mar, e aquelas águas de cor azul onde golfinhos brincavam, dançando que nem botos e pulando adiante dos barcos. Em Niterói, fomos muito bem-recebidos por tia Isa e pelos novos primos, Maria do Perpétuo Socorro — que foi logo dizendo que era minha madrinha —, Antônio Fernando, Terezinha e Arlindo. Como eles tinham se mudado havia apenas um ano para a cidade, vindos de São Paulo, eram vistos na vizinhança da rua Justina Bulhões, no Ingá, não como amazonenses que eram, mas como paulistões. Ficamos uma semana com eles até que papai pôde vir nos buscar. O reencontro com papai foi feliz e dolorido. A felicidade era pelo reencontro. A dor era do medo de que não sobrevivêssemos, como família, naquele lugar estranho e longe das florestas e rios de nossa terra. Fomos para Copacabana e entramos, perplexos, naquele bairro-cidade, de prédios imensos e odores estranhos para mim. Na rua Anita Garibaldi, fomos apresentados a novos tios e primos. Já começava a virar ritual.


Renato e Bernadete, os tios; Cláudia e Renata, as primas. O sangue era o mesmo, mas éramos muito diferentes. As meninas faziam questão de nos deixar perceber que nosso sotaque era forte demais e estranho. Além disso, a família de tia Bernadete estava toda ali, em volta dela, e era um montão de gente que eu não conhecia e que falava de tudo de um modo totalmente novo aos meus ouvidos. Mas o que mais me incomodava era o cheiro do edifício. Eu nunca tinha entrado num lugar fechado como Copacabana, onde os odores ficam trancados dentro dos corredores dos edifícios e dos poços dos elevadores. Era cheiro de tudo, mas principalmente de gás de cozinha e de comida de temperos diferentes, condensados como extrato de desejos gastronômicos, presos naquelas câmaras verticais, totalmente estranhas para mim. Hoje, eu talvez dissesse que eram os cheiros dos intestinos da urbanidade. Mas naquele tempo pude apenas constatar os odores e impressionar-me com o fato dos moradores do lugar não perceberem aqueles cheiros que um amazonense com nariz de Mãe Velhinha não poderia deixar passar despercebidos. Na casa de tia Bernadete ficamos sabendo mais sobre mamãe e Suely. Estavam sob cuidados médicos, mas se sentindo melhor. Foi somente no dia seguinte que pudemos reencontrá-las, abraçá-las e chorar a alegria de vê-las. No mesmo dia, à tarde, papai nos levou à praia. E diante da visão da imensidão do mar, senti-me esmagado de terror. Os estranhos aromas da areia e das águas supersalgadas remeteram-me a um sentimento de saudade de Manaus e dos cheiros da vida que eu deixara para trás. Andei sozinho pela areia até perto da arrebentação, e fiquei ali parado, vendo os tatuís correrem, ocasionalmente olhando perdido para o fim daquela visão aterradora do oceano Atlântico. Depois me recompus e tentei correr pela areia. Voltei para a calçada, onde papai nos aguardava, e pedi que voltássemos para a casa da tia Bernadete. Acabamos encontrando um apartamento na rua Sá Ferreira, no posto seis, e lá, mais uma vez, nos reunimos como família. Mamãe e Suely continuavam doentes. Luiz Fábio gostou muito da mudança e começou a dar sinais de recuperação emocional. Eu estava sempre variando entre alguns prazeres — como jogar bola na praia e ir ao Maracanã ver o Botafogo de Mané Garrincha — e um terrível sentimento de depressão. E tudo ficava ainda pior porque eu percebia que papai não estava nada bem. Ele se empanzinara de ódio daqueles que o haviam traído e, ao saber que dois deles andavam pelo Rio, botou uma arma no bolso da calça e vivia pedindo ao destino que o fizesse cruzar com eles. O destino — ou talvez o próprio diabo — atendeu ao seu pedido. Nós estudávamos no Colégio São Tomás de Aquino, no Leme, a seis quilômetros de nossa casa. Na minha classe havia um garoto, loirinho, gente boa, que era um dos únicos que não fazia gozação quando a professora lia meu nome durante a chamada. Todos os outros aguardavam aquela hora para cair no chão, de modo que, em seguida ao “Caio”, se ouvia um brum-brum-brum da meninada caindo no chão e dizendo: “Eu caio, fessora.” O garoto loirinho era também o único que não caía na minha pele quando a professora perguntava coisas do tipo: — Caio, como se vende farinha? — Em litro, professora — eu respondia confiante. — Esse amazonense é idiota, quer aparecer — ouvia o pessoal dizer, embora fosse assim que se medisse farinha para venda na minha terra. Pois bem, um dia houve uma festa na escola e papai e mamãe foram obrigados a ir. Mamãe se movia com muita lentidão por causa da gravidez. Papai chegou, viu que eu fui direto brincar com o alemãozinho, e ficou por ali, quieto. De repente, percebi que havia algo errado. Olhei e vi


mamãe desesperada. — Pelo amor de Deus, não. Não faz isso. Pensa nas crianças — ela gritava. O que vi foi papai, que graças a Deus estava desarmado naquele dia, com a muleta no ar, brandindo-a sobre a cabeça de um homem loiro, que cobria o rosto com os braços, pálido e acovardado. — E agora, seu safado? Você num disse que não me dava uma surra porque eu era aleijado e porque você estava numa corte de lei? E agora, seu frouxo? Vem bater no aleijado? Vou te arrebentar na frente da tua mulher, seu otário! — Mas o homem, inerte, não esboçava qualquer reação. As demais pessoas presentes não deixaram que os dois se atracassem. Não entendi nada. Apenas percebi que papai odiava o pai de meu melhor amigo na escola. Mamãe nos reuniu nervosa, entramos no carro e fomos embora. Papai dirigia cheio de ódio. Queria matar o homem. Somente em casa é que fiquei sabendo que o pai de meu amigo era o major do Exército que havia sido incumbido de conduzir o inquérito que investigara o possível envolvimento de papai com o contrabando de ouro quase dois anos antes, em Manaus. Na hora final, em pleno tribunal, com a imprensa presente, o major teria dito que não havia como legalmente “pegá-lo”, mas que se papai não fosse deficiente físico, ele, o militar, iria esquecer a lei e dar-lhe uma boa surra fora da audiência. Pois bem, a hora havia chegado. Anos depois, questionando-me sobre o que teria levado um major, em pleno regime militar, a aceitar ser humilhado publicamente, diante da esposa e dos filhos, sem reagir, concluí que pouca coisa é mais forte, paralisante e autodestrutiva que uma consciência pesada, mesmo quando se tem o poder nas mãos. Não demorou muito até descobrirmos que Simone e suas filhas estavam morando a dois quilômetros de nós e que papai passava longas tardes com elas. Mas àquela altura dos fatos, o “caso dele com o jaburu” passou a ter importância bem menor para mim. Nós, como família, tínhamos encontrado uma solidariedade mais profunda do que a dor da traição que papai provocara. Tínhamos de algum modo descoberto que as verdadeiras ligações de uma família acabam sendo maiores do que os detalhes de natureza pessoal ligados ao devaneio apaixonado de um de seus membros. Viver na fronteira da vergonha, da perda e da morte, permitiu que víssemos de forma mais clara que a fraqueza moral de papai era menos importante que sua sobrevivência como ser humano, e que a dor de mamãe era insignificantemente menor do que a consciência que ela adquirira acerca da importância de tudo aquilo que nos fazia ser uma família, apesar de tudo. Mas a presença de Simone não ajudava a aliviar a dor de meu pai. Ele saía e voltava sempre com a mesma cara de depressão. Seus olhos andavam profundos, pois suas noites eram longas e insones. Um dia ele voltou diferente para casa. Chorou sozinho e ficou calado por muito tempo. Havia nele uma enorme vontade de falar, de explodir numa confissão, num despir-se radical, total e verdadeiro. Mas ele não sabia como. No entanto, sua atitude em relação à mamãe começou a mostrar mudanças significativas. Devagar, ele conseguiu nos fazer perceber que tudo acabara entre ele e Simone. Foi apenas o que ficamos sabendo, sem maiores detalhes. Somente algum tempo depois é que as notícias de Manaus nos deram conta de que ela já tinha outro no Rio. Foi então que soubemos que Simone o traíra, e que ele mergulhara em profunda desilusão. Sem o jaburu em nossas vidas, pudemos ter papai em tempo integral outra vez. Mas sua volta não nos trouxe tranqüilidade de alma. Alguma coisa ruim tinha entrado em nossas vidas. Suely encaramujou-se como pôde, a fim de fugir dos complexos relacionados ao fato de não conseguir esticar o braço. Mamãe falava no risco de morrer no parto, que estava às portas. Papai perdera o


ânimo pela profissão e pela existência, mas como tinha muito dinheiro guardado, dizia que podia se dar o luxo de passar alguns anos meditando sobre a vida. E foi o que fez. Eu, mesmo sem saber por que, fui invadido por um horrível sentimento suicida. Às vezes ia para o tanque de água que havia no alto de nosso edifício e ficava imaginando o que aconteceria comigo se pulasse de lá, do décimo andar. E para piorar a história, o pai de um amigo meu pulou da janela do apartamento, angustiado que estava por viver uma vida sem sentido. O único que parecia estar melhorando lá em casa era o Luiz Fábio. Aliás, naqueles dias lúgubres, ele foi nossa salvação. Estava com sete anos, era branquinho, gordinho, de rosto redondo, cara de pintinho e uma mente muito franca. Amava máquinas e música. Ainda em Manaus, seus dons musicais haviam se manifestado. Tocava piano de ouvido, com muita desenvoltura e com elevado nível de complexidade. No mesmo período, trouxera à luz outro talento. Tinha enorme capacidade de entender os mecanismos dos carros e deleitava-se em vê-los sendo consertados na oficina particular que meu pai mantinha com tio Carlos no fundo de nosso quintal. Luiz sabia tudo o que uma criança de sua idade podia saber sobre as máquinas. Reconhecia o ronco dos carros a distância e ousava até dizer o que estava errado. Além disso, aos seis anos já sabia tirar da garagem os carros menores de papai. Luiz também se tornou muito engraçado durante o nosso primeiro ano em Copacabana. Ele ia comigo e Suely a pé do posto seis ao Leme, para o Colégio São Tomás de Aquino. No trajeto, ia e vinha falando com todo mundo. A gente às vezes morria de rir, às vezes morria de vergonha. Dependia de como ele resolvia botar sua verve humorística para fora. Conquanto Luiz fizesse a festa, nós todos precisávamos de muito mais do que ele podia nos oferecer. Minhas angústias estranhas não me largavam. Eu jogava bola com Caruso e Nino na calçada, via o Lá Vai Bola jogar na praia, mas não adiantava. A coisa ficou pior quando papai levantou numa noite quente do verão de 1966 e me viu em pé na janela do décimo andar, dormindo, sonhando, porém postado em posição de salto e dizendo, já com o corpo projetado para o lado de fora: “Agora é minha vez. Vou pular.” Papai sabia que eu era um sonâmbulo do tipo executivo. Eu sonhava e fazia. Uma vez eu interrompi um jantar lá em casa porque, tendo dormido e sonhado que estava dançando nu, tirei a roupa e bailei pelado pela casa, para deleite da assembléia de amigos. Agora, entretanto, eu não me preparava para dançar, mas para pular do décimo andar de nosso prédio. Papai só teve tempo de me puxar para dentro do quarto. Os dois caímos na cama juntos. O coração dele palpitava como eu nunca sentira antes. Apenas mais dois segundos e o desfecho poderia ter sido trágico. Para completar o clima de depressão, vieram as chuvas de 1966. Quem morava no Rio na época lembra da devastação total que provocaram. Nosso prédio, na Sá Ferreira, olhava direto para a favela do Pavão-Pavãozinho. E lá ficava eu na janela, vendo casas rolarem morro abaixo, com gente dentro gritando e sumindo na lama. Foram centenas de mortes. Víamos apenas os cadáveres serem retirados do meio dos escombros. Papai tentava nos proibir de olhar, mas era impossível. A cena era brutal e o fascínio mórbido que ela exercia sobre mim era algo que eu desconhecia. Odiava ver, mas não conseguia parar de ver. Repúdio e sedução mórbida moravam ali, naquele episódio marcado pela morte, fruto da negligência que se acumulava há anos. Eu não sabia o que era aquilo, mas sabia que não era justo. E mais ainda: sabia que do quintal de minha vó a gente jamais veria aquelas coisas. Então, chorava com saudades de Manaus.


Capítulo 11 “Eu, portanto, decidi dar atenção às Escrituras e ver o que elas continham. Eis o que encontrei: algo nem aberto ao soberbo nem imperscrutável às crianças; um texto básico para o iniciante, mas, ao mesmo tempo, de dificuldades montanhosas e envolvido em mistério para aquele que resolve estudá-lo.” Santo Agostinho, Confissões

Foi pensando em nossa saúde emocional que papai e mamãe decidiram sair de Copacabana e ir para Niterói. Mamãe tinha dado à luz uma menina, chamada Ana Lúcia, e papai dizia que um apartamento não era lugar para se criar uma criança. Ele queria dar a ela, e também a nós, algum tipo de sentimento que nos remetesse a emoções próximas daquelas que tínhamos experimentado no quintal da vovó. Como Ari e Isa moravam do outro lado da baía de Guanabara e não se queixavam de nada — pelo contrário, elogiavam o lugar —, fomos direto para um apartamento que vagou no mesmo edifício em que eles moravam. Mesmo sendo um apartamento, papai considerou que o lugar era amplo, o prédio baixo, e que havia muito espaço para brincar na vizinhança, que incluía até um morro cheio de capim e ótimo para aventuras infantis. O clima do lugar era festivo e íntimo. Todo mundo se conhecia e havia uma enorme interatividade social. Nossa rua, a Justina Bulhões, ainda tinha um monstro sagrado do futebol brasileiro de todos os tempos residindo lá. O Canhotinha de Ouro do Botafogo, Gerson, morava a poucos metros de nosso edifício, e era um delírio diário vê-lo passar dirigindo seu Camaro preto, fazendo as curvas bem devagar, na ponta dos dedos. Justamente por causa de Gerson, nossa rua era obcecada pela idéia de formar craques de futebol. Os rachas de bola que aconteciam todas as tardes ali eram concorridíssimos. Como meus dons futebolísticos haviam se manifestado desde Manaus, aos 11 anos eu já jogava uma bola bem redondinha e, assim, me envolvi até o talo na vida esportiva daquela pequena comunidade. Um pouco antes de nossa saída de Copacabana, papai resolvera voltar à advocacia e abrira um escritório no centro do Rio com seu amigo e compadre Bernardo Cabral — que posteriormente viria a se tornar figura pública no cenário nacional — e outro em Niterói, no início sozinho. Como as travessias para o Rio eram muito problemáticas naquela época — especialmente para um homem que tinha de lutar para não cair quando as multidões atrasadas precipitavam-se umas sobre as outras na corrida por um lugar nas barcas Rio—Niterói —, papai acabou ficando cada vez mais na terra de Araribóia, evitando aquele desconforto. Sua capacidade para ganhar dinheiro rapidamente se manifestou. Não demorou muito e ele


estava com grandes clientes e fazendo excelentes negócios. Foi num daqueles dias que mamãe ouviu falar de um pastor a cuja pregação ela assistira em Manaus quando era ainda bem jovem, e soube que ele estava abrindo uma pequena igreja no bairro de São Francisco, em Niterói. Decidiu ir até lá e tentar ouvir o reverendo Antônio Elias. Amou o lugar, o povo que ali se reunia e, sobretudo, ficou encantada com a esposa do pastor, Maria José, uma mineira recatada, mas de sorriso franco de amizade quando se identificava com a pessoa. No domingo seguinte, todos nós fomos à igreja. Até eu gostei. No outro domingo, já fui decidido a passar a tarde com o filho mais novo do pastor, um garoto tímido, um ano mais novo que eu, chamado Teófanes, e que aos 11 anos acabara de ganhar um prêmio nacional de escultura em areia de praia e estava se preparando para ir representar o Brasil na França. A tarde com Teófanes foi maravilhosa. Jogamos bola e nos atolamos num pé de jamelão carregadíssimo. Comi tanto, que tive uma alergia que me deixou quase dois dias inchado. O entusiasmo com a experiência comunitário-religiosa contagiou a todos nós. Eu mesmo, até aquela data absolutamente desinteressado pelas coisas da religião, passei a ficar empolgado com a chegada do domingo. O impacto da fé em mim era muito relativo. Eu gostava das pessoas do lugar, mas não havia nada que fosse muito além disso. Lá na rua Justina Bulhões, entretanto, a molecagem corria solta. Aquele morro cheio de capim era o lugar onde os meninos mais velhos aproveitavam-se sexualmente dos garotos mais novinhos e onde as meninas mais levadas passavam por longos exames ginecológicos. Eu era um dos ginecologistas mais ativos do pedaço, pois minha precocidade fez com que eu me tornasse um dos mais bem-posicionados naqueles jogos de promiscuidade infantil. Às vezes eu ouvia coisas na igreja que me colocavam contra a parede em relação àquelas “práticas sexuais” vividas no meio do capim. Mas logo percebi que, conquanto eu fosse muito mais envolvido com tudo aquilo que a maioria dos garotos da igreja, eles também tinham suas experiências naquela área. No fundo, eu pensava que, com exceção de Téo — filho mais novo do reverendo —, nós todos éramos farinha do mesmo saco. Até aquele ponto, papai estava completamente alienado dos processos espirituais que começavam a rondar nossa casa. Ele estava bem, mas estava só. A relação com mamãe melhorara muito, mas estava longe de estar curada. Num daqueles domingos, no entanto, papai foi nos levar à igreja. À porta, eu insisti que ele entrasse. — Não, vou ficar aqui fora atualizando meu vocabulário de inglês — disse ele, sem deixar qualquer espaço para uma eventual insistência. Entramos e sumimos por entre os corredores e salas da pequena Igreja Presbiteriana Betânia. Quando voltamos ao carro, ao meio-dia, ele simplesmente nos levou de volta para casa, sem nenhum comentário. Após o almoço, no entanto, ele se virou para minha mãe e disse: — Lacy, me abra a Bíblia em Hebreus, capítulo 11, verso 1. Quase caímos da cadeira. Ninguém ousou perguntar por que ou de onde ele tirara aquela referência bíblica. Afinal, desde a morte de vovô João Fábio ele fora assumindo cada vez mais suas posições agnósticas e, nos últimos anos, evoluíra para o nível de uma descrença quase atéia. Passara a discutir religião com alguns amigos católicos e dizia-lhes que a Bíblia nada mais era do que um livro de lendas criadas pela mente imaginativa dos hebreus. Agora, entretanto, ironicamente, lá estava ele, pedindo para ler um livro que tinha justamente o nome do pessoal que ele acusava de supremo “excesso de criatividade religiosa”: os hebreus.


Mamãe abriu o texto que papai havia solicitado, e ele leu o capítulo todo como alguém que já conhecesse a passagem. — Que coisa linda. Foi escrito em estilo enfático. Tudo se calça na fé. Parece um texto poético. Eu não sabia que a Bíblia tinha passagens como esta — disse ao final. Mamãe, então, se atreveu a perguntar onde ele tivera sua curiosidade estimulada para a leitura da Bíblia, e sua resposta foi inesquecível. — Hoje, enquanto vocês estavam lá dentro da igreja, eu ouvi uma voz masculina belíssima cantando um hino. Achei tão bonito, que saí do carro e fui ver quem estava cantando. Quando cheguei lá dentro, o homem já estava acabando. Fiquei só um pouquinho mais para ver o que estava acontecendo ali. Então, uma mulher começou a perguntar a um grupo de senhoras o que era a “fé”. Fiquei somente porque gosto de ouvir estupidez feminina. Mas que nada. As mulheres pensavam. Veio cada resposta sobre o tema da fé que me deixou admirado. Por fim, a tal da professora veio dizer que as respostas eram fracas. Achei que ela devia ser uma anta. Naquele momento, pensei que a burrice religiosa fosse finalmente se manifestar. Ela mandou ler Hebreus 11:1. Quando eu ouvi aquilo, fiquei mais impressionado ainda. Era isso aqui: “A fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem.” Pode haver definição de fé mais concisa e objetiva do que esta? — ele perguntou a uma platéia de quatro perplexos assistentes, mamãe, eu, Suely e Luiz. Aninha ainda era pequena demais para saber que estava viva. Na seqüência, ele disse que iria ler a Bíblia toda e foi para o Gênesis. Mamãe, entretanto, razoavelmente acostumada à leitura bíblica, pensou que se papai fosse para o começo do livro, ele perderia a motivação logo de saída. Ela temia aquelas longas genealogias judaicas ou aqueles textos cheios de leis cerimoniais e de recomendações litúrgicas completamente desinteressantes para o leitor leigo. — Por que você não começa do Novo Testamento? Este livro é diferente. Para que se possa entender bem o começo, precisa-se compreender o fim — falou mamãe. Na verdade, o que ela queria era que ele lesse logo sobre a vida de Jesus e seus feitos maravilhosos, pois sabia que, se ele realmente tivesse uma introdução livre e sem preconceitos à leitura dos evangelhos, Jesus certamente exerceria sobre papai uma profunda fascinação. Tão logo seus olhos caíram sobre as páginas dos evangelhos, algo estranho começou a acontecer a ele. A história de Jesus, conforme Mateus, encantou-o, especialmente pelo fato de que ali Jesus aparece fortemente judaico e como a resposta de Deus às questões do povo de Israel. Papai não podia entender como a vida de Jesus cumprira propósitos proféticos tão minuciosamente detalhados pelos profetas da Antiguidade. Era incrível, mas era verdade. Estava escrito ali. Leu Marcos, foi a Lucas e mergulhou de cabeça em João. Ele não conseguia parar. O fato é que quando ele chegou a João, capítulo 19, na narrativa da Crucificação, já era madrugada, aí pelas duas da manhã. Ele estava só, sentado na cozinha. Seu coração ardia com um calor que ele jamais experimentara em toda a sua existência. Sua alma estava enternecida por um amor que ele não sabia que existia neste mundo. Subitamente, caiu sobre ele uma profundíssima convicção de culpa. Começou a chorar e ajoelhou-se diante daquele amor que o vencia. Ainda mais profundamente, veio-lhe à mente uma outra percepção: a morte de Jesus não fora uma ocorrência de amplitude somente histórica e sociológica, ou seja, não tinham sido apenas os judeus e os romanos que haviam matado Jesus. De alguma forma que não podia explicar, veio-lhe a certeza de que ele, Caio Fábio D’Araújo, filho do Dr. João Fábio de Araújo e neto de seu Araujinho, também era responsável pela morte de Cristo. E não somente ele, mas cada pessoa neste mundo. Naquela hora, papai compreendeu que havia algo irremediavelmente errado com a natureza humana, sendo essa a razão pela qual, mesmo desejando o bem, freqüentemente nos metemos


naquilo que nos destrói a vida. — Jesus, perdoa os meus pecados — disse ele, certo de que aquele com quem falava estava ali, na cozinha do apartamento da rua Justina Bulhões, em Niterói. Depois de fazer aquele pedido de perdão, ele se assustou com uma voz que estrondeou dentro em seu íntimo. — E tu, perdoas os teus inimigos? E compreendeu que a resposta à sua oração não vinha de Deus, mas dele mesmo, como indivíduo, cheio de ódio que estava por vários inimigos. De alguma forma aquilo fazia sentido com as orações que ele repetira tantas vezes lá no Colégio Dom Bosco: “Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Ele se levantou da oração, andou sozinho, chorando pela casa, até que viu cartões de Natal espalhados sobre o bufê da sala de estar. O Natal seria dali a dois meses. Pegou oito cartões, sentou-se e escreveu uma mensagem: “Aquele que disse ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’, ordenou-me hoje a vir à Tua presença rogar que Tu me perdoes por qualquer mal que eu possa ter feito a Ti. Feliz Natal para Ti e para a Tua família.” Ele sentiu uma paz celestial invadir seu coração e chorou de gozo no espírito até que o dia amanheceu. Discretamente, prosseguiu seu caminho no cotidiano. Não disse nada a ninguém. Apenas mostrava no rosto um sinal de transcendência. Havia uma luz nele. Seu olhar clareou e ele não conseguia esconder que seus valores estavam passando por um processo rápido e profundo de total transformação. A leitura da Bíblia encheu as noites de papai. Chegava em casa o mais cedo que podia e, em silêncio, mergulhava no livro. Era como se ali houvesse um túnel, aberto no tempo e na eternidade, pelo qual os mortais ávidos por Deus recebiam um acesso especial para entrar. E ele entrava sem hesitação. Até ali a experiência era religiosa, mas não havia nada de religião, igreja, pastor ou grupo específico em questão. Papai queria Deus, mas tinha pavor de ser domesticado pela religião. Por isto mesmo, mamãe não lhe disse para ir procurar um pastor para conversar. Vendia o peixe evangélico dela, mas muito cautelosamente. O fato é que no Natal de 1967 papai aceitou ir à igreja. Sentou-se lá atrás e ouviu o reverendo Antônio Elias pregar com paixão, unção e muita simpatia. Ao fim da mensagem, o pastor perguntou se havia alguém ali que desejasse fazer uma decisão pública, confessando Jesus como seu Senhor e Salvador. Mamãe abaixou a cabeça e ficou ali, pedindo a Deus que papai fosse à frente, manifestando assim sua “decisão” de se tornar um crente. Eu, Suely e Luiz ficamos com o rabo do olho posto nele, torcendo para ele ir. Mas que nada. Ele ficou imóvel em seu banco. No entanto, quando o culto acabou, percebemos que havia lágrimas em seus olhos. Ele chorara muito, sozinho, de modo discreto. Um homem com suas posturas dificilmente iria aceitar Cristo indo à frente de uma igreja — ainda que pudesse ter decidido fazer assim —, pois aquele gesto, para ele, significava muito pouco. Sua grande decisão já havia sido tomada e ele sabia que Deus não era burocrático e nem legitimava as coisas apenas porque os homens as validavam. Com o pé na igreja, seu progresso espiritual foi rápido. Logo ele estava à testa de vários trabalhos e tomando posições de liderança entre os cristãos de seu convívio. Além da Bíblia, ele enveredou por várias outras leituras espirituais. Era como se tivesse sido transportado para um mundo onde a cada dia ele fosse introduzido a dimensões da vida absolutamente novas. E não cabia em si de tanta alegria. Andava pelas ruas arrebatado de gozo. Mostrava um sentimento de


solidariedade para com a trajetória coletiva, e especialmente para com os desfavorecidos, que era algo mais forte do que ele jamais experimentara nos melhores dias de sua generosa alma juvenil. A advocacia perdeu completamente o encanto para ele. Não conseguia mais mentir. Por isto, passou a dizer que não podia advogar. “Um bom advogado é especialista na arte de mentir. Por isto, eu era tão bom. Agora, sou medíocre. Esqueci como é que se mente”, dizia ele sem amargura, mas preocupado com o futuro. Seus companheiros de escritório assistiam aturdidos às mudanças radicais que aconteciam à sua vida. Não conseguiam entender como a leitura de um livro poderia ter causado tamanha revolução na vida do colega. Dizia-se que ele se tornara generoso, mas meio bobo. Para ele, passou a haver uma única preocupação: voltar a Manaus e comunicar à mãe e aos irmãos que se convertera à fé de Lacy. Temia que dona Zezé não compreendesse. Seria uma traição à família e aos anos de prática católica. Quando ele foi a Manaus, o boato já andava por lá. Papai chegou e tentou mostrar que não mordia e nem andava como “bode”, o que fez com competência. Mas quando o domingo chegou e ele se aprontou, pegou a Bíblia e saiu para a Igreja Presbiteriana, sentiu nas costas o olhar gelado, mortal e amargurado de sua mãe. Não trocaram palavras, mas a força do olhar foi tão penetrante, que ele diz ter vivido ali seu pior conflito em relação à sua conversão. Mas não tinha volta. Era uma questão de vida e encontro com a essência de si próprio. Desse no que desse, não negociaria os valores que o haviam transformado num outro ser humano. E isso não tinha nada a ver com ele ser católico ou protestante, mas com o fato de ter encontrado Cristo.


Capítulo 12 “Eu desejo me recordar de minha maldade passada e de toda a minha corrupção carnal não porque eu ame ou me orgulhe de tais memórias, mas exclusivamente para que eu possa amar mais a Ti, meu Deus. É, portanto, por amor a Ti que eu realizo este ato de lembrança.” Santo Agostinho, Confissões

No início foi muito bom, mas logo comecei a achar que a conversão de papai estava indo longe demais. Ele estava ficando fanático. Não parava de ler a Bíblia e parecia ter esquecido dos problemas que tivera com o sexo oposto, pois mesmo nos anos de seu relacionamento com Simone, tentava se mostrar rigoroso comigo em questões como namoro e coisas do gênero. Fingia que não sabia o que eu andava fazendo com as meninas: beijando uma aqui, amassando outra ali, namorando rapidamente uma outra acolá, mas quando ficava sabendo, sempre dava uma de moralista, tipo: “Você só namorará com a minha autorização.” Obviamente, não funcionava. Entre os 12 e os 14 anos de idade eu brinquei ativa e precocemente de namoradinho com as garotinhas que apareciam disponíveis na rua, na escola e até na igreja. Ele também era muito rigoroso com outras questões, como cigarro e bebida. Mas eu pensava de modo diferente. Achava cigarro algo lindo, profundamente decorativo e que dava à pessoa um tremendo ar de maturidade. Aos 12 anos, dei minha primeira tragada num Continental sem filtro e quase morri. Fiquei tonto, meu corpo começou a formigar e caí na calçada da casa de um amigo gritando desesperado que eu estava morrendo. Sobrevivi ao susto. Um mês depois, refeito das más lembranças da experiência e seduzido pelo status que o cigarro dava entre as meninas, resolvi tentar domar aquele bicho. Não foi difícil. Um mês depois eu já não me sentia mal fumando. Mas papai dizia que, se soubesse de qualquer coisa, me daria uma surra de cinturão. Na igreja conheci uma menina dois anos mais nova que eu, chamada Fernandinha, e me apaixonei por ela. Era o retorno emocional da Margarida. A coisa veio com uma força enorme e quase me nocauteou. Mas aquele sentimento juvenil não era forte o suficiente para me afastar de outras aventuras. Eu dizia: “Não procuro outras, mas também não fujo da raia se aparecer dando sopa.” E foi assim que um dia papai chegou em casa com um compadre de Manaus e sua filha, uma morena de rosto extremamente delicado e cabelos de índia, eu botei os olhos na garota e me alucinei, especialmente porque seus lábios eram um irresistível convite ao beijo saboroso. Aquele foi meu primeiro conflito explícito sobre a força da traição que existe dentro dos seres humanos. Eu gostava da Fernandinha e não desejava fazer qualquer coisa que a magoasse. Mas olhando aquela garota, sua faceirice, o mover sedutor de seu corpo de 16 anos de idade e aqueles


lábios, cheguei à conclusão que não a deixaria passar incólume pela minha casa. O que eu não sabia era que ela já chegara decidida a viver muito bem aquele fim de semana. Sendo quase três anos mais velha do que eu e conhecendo-me de fotografia, achou que não faria mal se ela desse uns abraços pedagógicos naquela criança antes de voltar a Manaus, onde o namorado, um rapaz de vinte anos de idade, a esperava. E ela me atacou com tal poder e domínio, que não precisei fazer outra coisa, a não ser me entregar à avidez da garota. Ela foi embora e me deixou perplexo. No fundo, fiquei pensando que o compadre de papai estava tendo um problemão com a filha e não sabia. Fiz tudo para não me apaixonar, apesar de não conseguir esquecer seu cheiro e o doce gosto de seus lábios. Seis meses depois ficamos sabendo que ela estava grávida do namorado de Manaus e que os dois se casariam. De qualquer forma, a doce experiência com uma menina mais velha e tão bela, que já estava até casando, levantou imensamente a minha autoconfiança. Papai, entretanto, mesmo não sabendo das minhas aventuras com as meninas, fazia colocações pesadíssimas sobre aspectos de natureza moral relacionados ao namoro. Eu não estava gostando nada daquilo. Achava que ele havia esquecido rápido demais as dores que a sua própria falta de moral havia causado a todos nós. Além disso, também não me agradava que, depois de crente, a única coisa que ele quisesse fazer fosse falar de Cristo, onde quer que parasse para conversar. Eu me constrangia com aquilo. E para completar, ele se afastou completamente do meu mundo. No início, ainda ia ao Maracanã comigo e dirigia o time Ingá Futebol Clube que eu e uns garotos do bairro havíamos fundado. Mas depois de dois anos de igreja, ele não tinha mais tempo para nada disso. E comecei a achar chato tê-lo por perto. Vendo televisão, ele sempre fazia comentários sobre como o mundo estava perdido e como os homens eram cegos e sem Deus. Eu ficava quicando de raiva e pensava: “Pô, tudo bem que ele não goste. Mas não precisa ficar fazendo sermão sobre tudo. Ele tá é muito chato.” Para completar, ainda havia um pessoal esquisito em volta dele. Um ex-cangaceiro, sempre cheio de histórias de milagres do Nordeste; um ex-suicida, seu Edésio, sempre duro de grana e falando de como a graça de Deus o salvara de pular de um prédio na avenida Amaral Peixoto, em Niterói, e um monte de gente pobre e simples que o procurava na esperança de que aquele “irmão próspero” tivesse uma pequena ajuda para lhes dar. Eu achava o fim da picada. Ali, de alguma forma, começou a crescer dentro de mim um profundo repúdio por papai, mamãe e aquela fé que eles haviam abraçado de modo tão fanático.


Capítulo 13 “Durante a celebração de Teus ritos solenes, dentro das paredes de Tua igreja, eu ousei cobiçar uma menina e iniciar um caso que me faria, mais adiante, experimentar os frutos da morte.” Santo Agostinho, Confissões

Enquanto meus pais se dedicavam cada vez mais à fé, eu experimentava uma vida cada vez mais ambígua. Na igreja, eu era visto como bom de bola, bom de papo, bom garoto e bem-entrosado. Fora da igreja, entretanto, todo mundo sabia que, na verdade, eu era apenas um “dublê de crente”, pois as estripulias que eu fazia falavam de uma outra pessoa, que apenas uns poucos, e igualmente sonsos, da igreja conheciam. O problema era que meus heróis eram todos malucos e nenhum deles era cristão. Atum, um cara magro, esquisito, bom de bola, maconheiro e cômico, era a figura que eu mais admirava por sua inteligência irreverente, seu anarquismo e sua tendência suicida. Depois, vinha o Zé Bumbum, meio desequilibrado, com uma vocação terrível para a criminalidade, amigo de prostitutas e vagabundos, sempre de cabeça feita de maconha e sem medo de morrer. Ele também era meu herói. Havia ainda o Marcinho, pernas tortas conforme a moda, nariz bonitinho, rosto bem-formado, cabelo longo, cara de malandro rico, bom de papo e bom de mulher. Ele era tudo o que eu queria ser. E, por último, havia os filhos do governador do estado do Rio, Jeremias Fontes. Eu não os conhecia, mas estudávamos juntos no Colégio Batista de Niterói. O mais velho era muito louco e eu o achava o máximo. Admirava a “caminhada torta” de todos os dias do rapaz, quando andava uns quinhentos metros da escola até o portão do palácio, por onde passava completamente alucinado de tanta droga. Enfim, minhas admirações já indicavam a direção que eu queria tomar. O mundo fervia sob o impacto da revolução de valores promovida na Europa e nos Estados Unidos e explodia sob o som dos Beatles, Rolling Stones e Cia. No Brasil, havia uma angústia sufocada, que fora gerada pela falsa liberdade que o golpe militar institucionalizara. Todos os ventos sopravam na direção de algo novo. E num mundo cuja ordem era mantida pelo tacão do autoritarismo, a loucura das drogas parecia ser o passaporte mais fácil para a fantasia. Possuído por ansiedades existenciais que latejavam em mim desde a infância, percebi que a via para encontrar aquele algo que a mangueira sagrada da casa da vovó instituíra como meu referencial espiritual na vida talvez fosse o caminho das drogas. Existencialmente, eu já vinha entorpecido, mesmo sem jamais ter colocado um baseado na boca. Minha mente já era de maluco. Havia deixado de ser careta e vivia como louco fazia tempo. Passei quase um ano vendo a vida como um ser desarvorado antes de decidir tomar a primeira


droga. Foi só num entardecer de julho de 1969 que um amigo me serviu um baseado. Eu estava na praia de São Francisco e fiquei com medo de fumar ali. Por isso, convidei-o para ir comigo à casa de Fernandinha, ali mesmo no bairro. Eu sabia que não havia ninguém lá. Sentamos num tronco que havia no jardim e fumamos a maconha. Depois, andamos a esmo pelo bairro. Não deu onda nenhuma. Foi uma decepção. No dia seguinte, novo baseado. Que onda! Andei sem parar, sentindo o mundo passar sob meus pés como uma esteira rolante de aeroporto americano. Não consegui mais parar de fumar maconha. Não que aquilo viciasse, como diziam os caretas, mas é que eu já estava “psicologicamente viciado” antes mesmo de usar aquilo. Vícios daquele tipo são, antes de tudo, necessidades existenciais de almas carentes e sedentas. Têm a ver com o desejo do eu de se projetar para outro mundo. Daí os drogados serem quase sempre, também, pessoas com fortíssima tendência religiosa e artística. Em meu caso, a maconha e as drogas que a ela se seguiram eram apenas uma demonstração de como minha alma ansiava por transcendência. Logo estava fumando quatro ou cinco baseados por dia. Para me levantar da morgação que a maconha causava, os amigos começaram a aconselhar que eu tomasse umas anfetaminas argentinas. Aí era excitação o tempo todo. Junto com as drogas vieram também os coquetéis de álcool. Valia tudo. “O negócio é não perder a lucidez da loucura”, pensava. Na igreja, ninguém sabia que eu estava doido daquele jeito. Dava uma bandeira aqui, outra ali, mas nada tão grave assim. Seis meses depois de estar usando drogas direto, tive uma profunda crise de culpa e angústia. Achei que estava me destruindo e fiquei com medo quando um dia vi o Atum babando de doido no banco da praça. Será que eu também ficaria daquele jeito? Nessa ocasião, o reverendo Antônio Elias chamou para pregar na igreja um jovem de Goiânia, de uns 23 anos, e que diziam já ter sido um grande “micróbio”, viciado em todo tipo de droga possível, mas que tivera um encontro de fé com Jesus e deixara de vez todas aquelas loucuras. A propaganda foi tão grande, que fomos todos ouvir o Zé Berto. Ele falava com uma voz rouca, que dizia ser conseqüência do uso de drogas pesadas por muito tempo, e fazia descrições incríveis. “O cara era da pesada”, dizíamos uns aos outros no jardim da igreja após os cultos. Noite após noite ele contou a mesma história. Obviamente, deixava episódios diferentes para cada noite, a fim de manter a nossa atenção. No fim de tudo, fazia um “apelo à conversão e à salvação”, pedindo que largássemos aquele mundo mau e nojento no qual estávamos crescendo. Certa noite um garoto bom de bola, filho de um líder leigo da igreja, foi à frente no “apelo” e, ao fim do culto, confessou que estava usando drogas e fazendo muitas outras coisas erradas. Foi um choque para todo mundo. A notícia caiu sobre mim como uma bomba não por ele estar fazendo aquilo, mas por ter tido a coragem de confessar. Em 1969 dizer aquilo era quase como ter coragem de admitir que você tinha contraído o vírus da AIDS num convento. Era aquele bafafá. Achei que talvez fosse a minha chance de falar também, mas pensei melhor e preferi ficar calado. “Vou pegar carona na confissão dele e largar a droga. Mas prefiro ficar na minha para ver o que acontece”, pensei. Passamos aproximadamente cinco meses de arrebatamento espiritual. Fazíamos vigílias de orações noturnas, pregávamos na praça das barcas em Niterói, cantávamos nos cultos da igreja, visitávamos outras comunidades, dávamos testemunho de nossa conversão e empolgávamos aonde íamos. Foi naquele mesmo período que descobri que minha gagueira, renitente desde os meus sete anos de idade, ia e vinha, alternando-se conforme meu estado emocional. Mas quando eu falava em público, como naqueles cultos juvenis em que eu lia um texto bíblico e exortava a moçada a seguir o caminho de Deus, a gagueira desaparecia completamente. E mais: o pessoal vinha a mim e dizia que eu tinha “o dom da palavra”. Eu não sabia muito bem o que era aquilo, mas percebia


que quando eu falava, todo mundo parava para ouvir. E aquela era uma relação estranha, profundamente sedutora. Angustiava-me pela responsabilidade de estar falando em nome de Deus, mas fascinava-me por perceber o embevecimento das pessoas frente ao discurso. O fogo daquela experiência não era profundo e muito menos duradouro. Aliás, eu diria que era “avivamento espiritual de fogo de palha”. Como a atitude do grupo era muito pentecostal — concentrada na possibilidade de que dons sobrenaturais, como o falar em outras línguas e as profecias, se manifestassem em nosso meio — e como nós todos éramos muito imaturos, não demorou muito para que aparecessem uns espertalhões se fazendo de profetas, dando mensagens espirituais para as gatinhas e falando em nome de Deus sobre quem deveria namorar quem. “Meus servos, hoje estou aqui para revelar para a minha serva que aquele que se declarou a ela é o jovem puro e crente que eu tenho reservado para ela. Portanto, minha serva, assim diz o Senhor: Não tenha medo”, falava o cara em nome do Altíssimo. Declarações como essa começaram a acontecer com freqüência, e eu via que era pura armação. Ora, esse tipo de coisa era inconcebível mesmo para mim, que não era nenhum exemplo de pureza. Eu podia admitir qualquer molecagem ou safadeza fora daquele contexto. Mas esse negócio de dar cantada nas meninas em nome de Deus me enojava. Eu achava os caras frouxos, sem peito para ir à luta em nome deles mesmos, e que por isso evocavam um desígnio divino que obrigava as meninas a os aceitarem. Não dava. O Atum, Zé Bumbum, Marcinho e os outros eram muito mais honestos. Botavam a cara para fora e assumiam quem eram e o que faziam. Dei o fora dali. Como Jesus já havia predito, uma casa vazia e ornamentada é um atrativo mais que especial para seus antigos moradores. Por isto, com meu abandono interior da fé, cresceram dentro de mim diversos sentimentos estranhos. Eram desejos de toda sorte, que provocavam em mim paixões incontroláveis. Eu queria comer a vida por onde quer que ela pudesse ser experimentada, provada e saboreada. As drogas voltaram com força nova e minhas resistências em relação a tentar evitar o uso sistemático delas desapareceram completamente. Naqueles dias, o único amigo careta que eu tinha era o Téo, filho mais novo do reverendo. “É careta, mas é gente boa”, eu justificava a minha amizade com ele para um grupo cada vez maior de amigos malucões. Além de ser gente boa, Téo e os irmãos — Cecé, Lucilia e Lúcio — tinham em casa uma tremenda coleção de discos importados. Nós ficávamos ali no quarto de Téo ouvindo Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Joe Coker, The Beatles, The Rolling Stones, Crosby, Still, Nash & Young e muitos outros até que nossas almas ficassem carregadas com a loucura dos tempos. Depois eu saía dali, dava uma namoradinha, e me entregava à loucura até não haver mais ninguém para falar bobeira comigo na rua. Os dias passavam sem alterações maiores que as loucuras de cada esquina e o frenético papo com os amigos de viagem e fantasia. Entretanto, o que meus pais não podiam avaliar em profundidade é que eu já não era quem eles supunham que eu ainda fosse. O garoto do quintal da vovó tinha mergulhado em águas de profunda angústia. Somente alguns anos mais tarde eu aprenderia que aquelas experiências de adolescente um dia haveriam de me colocar no vale da sombra da morte e semeariam em mim uma dor que não escolhe idade para machucar.


Capítulo 14 “Para quem eu conto estas coisas? Não para Ti, meu Deus. Porém, perante Ti eu faço confissões à minha raça, à raça humana, de cujo grupo apenas uma minúscula parte poderá discernir a razão de minhas declarações. Nada está mais próximo de Ti do que um coração disposto à confissão e a uma vida fundada na fé.” Santo Agostinho, Confissões

Para mim, papai estava insuportável. Mas para muita gente, ele se tornara o ser mais incrível que haviam conhecido. Com sua testa larga e profunda, seus braços grossos, musculosos e fortes, seus cabelos castanho-avermelhados, seu olhar profundo e seu rosto calmo, cheio de paz, movendo-se na estranha cadência e nos balanços característicos de uma incrível afinidade com sua muleta, ele marcava a imaginação das pessoas aonde quer que chegasse. Havia algo estranho pousado sobre ele. Sua presença era marcante, por vezes desconcertante, e essa força carismática manifestava-se de diferentes formas e impactava as pessoas de modo indelével. A maior demonstração disso estava no fato de que quase todos que passavam por seu caminho sempre se apaixonavam por Deus ou diziam ter sentido uma misteriosa presença espiritual sobre ele. Aquela luz que dele refulgia não era, entretanto, própria. Era o fruto de atividades, exercícios e buscas espirituais absolutamente novas, às quais ele se dedicara com amor e entrega. Após ler o livro Apóstolo dos pés sangrentos, ele decidira que gostaria de poder viver a beleza e a espiritualidade daquele místico indiano, presbiteriano, que praticara jejuns, orações, êxtases e meditações com profundidade raramente encontrada entre cristãos neste século. Assim foi que ele passou a jejuar três vezes por semana e a dedicar algumas horas de seus dias ao silêncio, à leitura e à oração. De alguma forma, aqueles exercícios espirituais deram a papai novas dimensões sobre o sagrado e sobre ele mesmo em relação à vida. Não demorou muito e aquela graça que sobre ele pousara começou a dar evidências de que chegara para ficar. No seu escritório de advocacia, os episódios mais esquisitos não paravam de acontecer. Eram casais que chegavam para discutir as bases do desquite e que, após ouvirem papai falar sobre como seu lar fora salvo pelo amor de Deus, desistiam de seu intento e acabavam tendo nele não um profissional das negociações de separação, mas um amigo, um pastor, uma ponte para a reconciliação. Além disso, ninguém que chegasse no escritório em desespero saíra sem uma palavra de conforto ou uma oração. O lugar transformou-se num centro de irradiação de amor e perdão. Dentre as muitas histórias está a de uma senhora que o procurou para se separar de um


marido machão, violento e iracundo. Após ouvir a história de agressões e brutalidades da parte do marido, papai sugeriu a ela que deixasse que ele conversasse com o homem antes de iniciar o processo de separação. Mandou-lhe um convite por escrito e aguardou o bicho. Um dia, na hora do almoço, depois que todos tinham saído, ele estava sozinho no escritório lendo a Bíblia e jejuando quando, de repente, percebeu o movimento agitado de alguém do outro lado da parede de vidro fosco que dividia seu gabinete da sala da secretária. — Pode entrar que eu estou aqui dentro — ele disse sem saber quem era. Entrou um homem suado, ofegante e fuzilando de ódio. Papai pediu que ele se sentasse e disse: — O senhor parece aflito. O que eu posso fazer para ajudá-lo? O homem respondeu apenas que era o marido de Selma e que queria saber que ousadia era aquela dele de tentar interferir em decisões que já estavam tomadas e que macho nenhum no mundo poderia mudar. Papai explicou que não estava tentando mudar nada, mas apenas pedindo que eles considerassem se aquela era a melhor decisão. Disse, ainda, que ele mesmo sabia o que era aquilo, pois já estivera na mesma situação. Depois de conversar com calma e respeito para com as angústias do homem, papai viu a fera tirar da barriga um revólver carregado e colocá-lo sobre a mesa. — O senhor sabe, eu não vim aqui conversar. Eu vim aqui matar o senhor. Eu sou um homem que não admite ninguém dizendo o que eu devo fazer de minha vida. Vim para encher seu peito de chumbo. Eu sabia que a essa hora o senhor estaria sozinho. Já havia estudado os seus costumes. O problema é que eu cheguei aqui e vi o senhor lendo a Bíblia, com essa cara de santo. Quem é que pode matar um homem que está cheio de uma coisa como essa que está saindo pelos seus olhos? — disse ele e, em seguida, caiu de joelhos, chorando e pedindo que papai orasse por sua vida. Depois da oração, o homem foi embora e no domingo seguinte estava com a esposa na igreja que papai freqüentava. Mas naquela época papai também conheceu a presença dos demônios e a força do nome de Jesus quanto a expulsá-los de suas vítimas. Num certo sábado à tarde, ele estava orando na igreja quando foi chamado para uma sala onde o reverendo Daniel Bonfim lutava, há horas, tentando expulsar um espírito maligno. O tal espírito possuíra uma moça, que fora levada ao pastor já atacada por aquela entidade. Lá em cima, na sala, o pastor ouvia o demônio dizer que ali no lugar só havia uma pessoa respeitada no mundo espiritual. — Quem é essa pessoa? — perguntou o reverendo. — É aquele homem que está orando sozinho, lá dentro do templo — responderam os espíritos. Era papai. Imediatamente foram chamá-lo, e ele subiu até o lugar do exorcismo, embora nunca tivesse estado numa situação como aquela. — Ele ora. Ele conhece a Deus. Não gostamos de sua presença — papai ouviu uma voz masculina gritar em desespero quando entrou. — Espíritos maus, saiam dela em nome de Jesus — disse ele simplesmente, estendendo a mão. Os espíritos imediatamente saíram da jovem e entraram em seu noivo, que estava na mesma sala. Ao perceber que tinha havido uma transferência, papai insistiu na ordem. O rapaz foi agitado ao chão e estrebuchou em convulsões incontroláveis. Em seguida, gritou e respirou aliviado. Papai o ergueu e, juntamente com o reverendo Daniel, aconselhou o casal a seguir a Cristo e a se afastar dos rituais de culto escuso onde eles haviam contraído aquela espiritualidade tirana. E assim as coisas prosseguiam. Entre os anos de 1967 e 1969 ele foi tudo, menos advogado, e seu escritório nada mais era do que um centro de irradiaç��o de graças e preces. Dentre os que se beneficiaram de seu ministério espiritual houve um homem chamado


Barros. Seu Barros era cliente de papai e lhe devia alguns honorários por um trabalho já executado. Como àquela altura papai já tinha mais quatro colegas advogando com ele, ficava difícil simplesmente perdoar as dívidas dos clientes negligentes no pagamento. Quando dependia só dele, em geral dispensava os que não pagavam. Mas quando envolvia os outros companheiros, ele tinha de insistir no pagamento. Seu Barros era um desses cujo dinheiro seria repartido entre os advogados. Mas o homem não pagava, não atendia aos telefonemas e não dava notícias. Um dia, depois de muito esperar, papai resolveu ir à loja do homem, no bairro de Santa Rosa, em Niterói. Ao chegar lá, assistiu a uma cena chocante. Seu Barros, traspassado de dor e agonia, chorava desconsolado em sua sala de trabalho. — O que está acontecendo, meu amigo? — perguntou meu pai quando entrou. O homem apenas exclamava que era uma tragédia. — Mas que tragédia? Conte-me — pediu ao homem descontrolado. — É meu filho, doutor, meu único filho — foi só o que pôde dizer antes de mergulhar no pranto outra vez. Após alguns minutos, seu Barros conseguiu contar que seu filho tinha acabado de ter um dos olhos perfurados por uma bala de ar comprimido e que em duas horas o seu globo ocular seria removido. E caiu no choro outra vez. Papai ficou ali, calado, ouvindo o homem derramar a sua dor e frustração. Foi só depois de algum silêncio que ousou falar. — Seu Barros, eu creio em Deus. Eu O conheço e sei que Ele me conhece. Eu não sei o que Deus tem a dizer sobre a sua situação. Mas uma coisa eu sei: Ele é solidário. Também não sei se Ele vai curar o seu filho. Mas uma coisa eu sei: Ele pode curar o seu filho. O senhor me permitiria falar com Deus agora mesmo sobre essa situação? — perguntou. Seu Barros apenas sacudiu a cabeça em aprovação, não esboçando nada além de um resignado consentimento. “Jesus, sei que Tu podes tudo. Tu fizeste os olhos, por isso Tu podes curá-los. Por isso, se Tu queres alguém com fé para que Tu operes um milagre, então conta com a minha fé. Eu não duvido que Tu podes fazer isto — disse meu pai ajoelhado. Em seguida, levantou-se e saiu. Alguns dias depois, papai voltou à loja do cliente. Ao chegar, encontrou um clima de celebração. Seu Barros não parava de rir. — Não contaram ao senhor o que aconteceu? — foi logo perguntando. Como papai não soubesse de nada, ele prosseguiu dizendo que naquele dia saíra dali e fora para o hospital, onde viu o filho passando para a sala de operações. O médico, na intenção de consolá-lo, disse que existiam próteses muito boas, quase perfeitas, e que o olho do garoto seria esteticamente recomposto. Seu Barros ficou chorando no corredor, quando, subitamente, viu o médico sair pálido da sala de operações, gritando: “Eu não sei quem é o seu Deus meu senhor, mas o nome dele deve ser ‘O Todo-poderoso’. O olho de seu filho está normal. Eu tirei o tampão e não havia nada. Não pode ser. Eu mesmo tinha examinado o rapaz. Tem de ser milagre.” E o médico sacudia seu Barros, assustando todo mundo dentro do hospital. — Foi isso, doutor Caio. Seu Deus é vivo e faz milagres. Que maravilha! Naqueles dias, entretanto, um sentimento de desconforto começou a tomar conta de meu pai. Havia uma voz sussurrando em sua alma uma ordem que ele não sabia qual era. Chamou mamãe e pediu para ser deixado sozinho em casa durante um fim de semana. Precisava orar e jejuar a fim de discernir “o que a voz tentava lhe dizer”. Trancou-se em casa e dedicou-se à leitura bíblica e às preces. À noite teve uma visão. O céu se abria e ele via o horizonte tomado pela Glória de Deus. Eram cores, matizes e formas inimagináveis. Miríades de seres espalhavam-se entre o céu e a terra. Jesus parecia ser a pessoa


no centro de tudo. Enquanto isso, papai tremia de gozo e alegria. Era um sentimento de outra dimensão. Ele jamais provara nada igual. De súbito, ouviu uma voz estrondeando sobre ele: “Caio, Caio. Eis que te dou dois ministérios neste mundo: tu curarás enfermos e expelirás demônios.” Papai ficou ali, imóvel, na cama, possuído pelas percepções de camadas da existência que transcendiam a tudo o que ele jamais pudera sentir, pensar, desejar ou imaginar. No dia seguinte, levantou-se cedo e ficou andando pela casa, sozinho. O gozo dera lugar a um enorme peso. Um senso de dever o esmagava. Mas ele não sabia onde, como e nem para quem se dirigir. Começou a dizer: “Jesus, se Tu estás me chamando para trabalhar para Ti, diz-me como e onde. Eu já não sou mais jovem e tenho família para criar. Mas se Tu me chamas, eu largo tudo. O que eu quero é provar sempre essa alegria de conhecer a Ti.” Enquanto ele andava pela sala, seu olhar pousou sobre um quadro amazônico que mamãe pendurara numa das paredes da casa. Mas seus olhos, entretanto, não viram o quadro, mas um indiozinho que, nostalgicamente, remava uma canoa feita de um tronco de árvore, que deslizava suave por entre as árvores de um igapó. Igapós são alagações do rio na floresta, na estação das chuvas, no Amazonas. O cenário era o mesmo ao qual ele se acostumara quando viajava para o seringal do Santo Antônio do Cainaã. Tudo estava de volta. As vozes e os clamores da floresta estavam ainda presentes e faziam apelos de força irresistível à sua alma. Quando a família voltou para casa, ele comunicou à mamãe que Deus tinha falado com ele e que o estava compelindo a voltar à sua terra natal, a fim de evangelizar seus conterrâneos desesperançados. Mamãe ouviu com um misto de alegria e preocupação. Como é que isso aconteceria sem profundos traumas para as crianças, especialmente para mim? Tinha sido horrível sair de lá. Mas agora, quem queria voltar? Aos 45 anos, como ele iria sustentar a família, sempre acostumada ao conforto? E como ele viabilizaria esse seu chamado junto à igreja? Iria para o seminário? Mas como? Já não era tarde para largar tudo e ir para uma escola de teologia por quatro anos? Contar isso para nós é que seria o problema. Suely e Luiz, entretanto, eram pessoas bem mais cordatas do que eu e aceitaram — não sem alguns choramingos — que a volta para Manaus poderia ser boa. Eu fui o último a saber e, quando soube, fiquei com vontade de matar papai. “Que desgraçado! Ferra a gente para sair de lá e agora, em nome de Deus, ferra a gente pra voltar. Eu não. Num vou nem morto”, foi o que pensei e falei para a mamãe, a infeliz portadora da mensagem.


Capítulo 15 “Que podridão! Que vida monstruosa e que morte abissal! Será possível ter prazer no ato ilícito por nenhuma outra razão a não ser por ser ele proibido?” Santo Agostinho, Confissões

Papai procurou o reverendo Antônio Elias e comunicou sua intenção de voltar ao Amazonas como missionário. No início o amigo e pastor ainda tentou demovê-lo da idéia por duas razões: achava que o Dr. Caio tinha potencial demais para ser enterrado no meio da floresta e, confessou, preocupava-se com a família dele, especialmente com o filho mais velho, que já dava claras indicações de incontrolável rebeldia. Além disso, Antônio Elias não sabia se a burocracia denominacional não acabaria “burramente” forçando papai a ir ao seminário, desperdiçando, assim, mais quatro anos de sua vida, os quais precisavam ser bem usados no trabalho de Deus. Papai, entretanto, foi logo dizendo que, se aquela fosse a condição para que pudesse ser enviado como missionário da Igreja Presbiteriana, ele já havia decidido ir por conta própria. “Afinal”, dizia ele, “não foi a Igreja quem me salvou, foi Jesus. E foi lendo a Bíblia sozinho que a luz me iluminou. Não preciso ser um teólogo para anunciar às pessoas o mesmo amor livre e simples de Deus que me alcançou.” Esse era o seu veredicto. Afinal, ele não chegara até aquele ponto da vida tutelado por ninguém, e não seria agora, quando sua alma estava mais livre do que nunca, que ele aceitaria o cabresto de uma instituição religiosa. De algum modo os pastores da cidade sabiam disso e decidiram enquadrá-lo num artigo da constituição da Igreja Presbiteriana que autorizava o presbitério — a instância local da hierarquia da igreja — a ordenar ministros de vocação tardia, mesmo que esses não tivessem o curso formal do seminário. Além do mais, pouquíssimos ministros evangélicos no Brasil dispunham da formação acadêmica e da bagagem cultural de papai. Por isso, ofereceram-lhe um curso breve, designaram-lhe o reverendo Antônio Elias como supervisor teológico e pediram que ele escrevesse uma tese teológica até o fim de 1970, quando então eles o ordenariam pastor. E foi o que aconteceu. Quando eu percebi que não havia nada que demovesse papai da idéia de retornar ao Amazonas, enlouqueci com todas as minhas forças. Um ódio estranho, cheio de desprezo, começou a crescer em mim em relação a todos eles: papai, mamãe e a gente da igreja — orgulhosos que estavam de terem apanhado um peixe grande, que agora se candidatava a São Francisco, querendo viver de modo monástico no meio da floresta. “Ele podia fazer o que quisesse”, eu pensava, “mas que fosse sozinho. Podia viver como pobre, mas que nos deixasse


numa boa.” O sentimento de hostilidade cresceu tanto em mim, que eu não podia nem ouvir a voz de meu pai. Mas ele e minha mãe não pareciam perceber a profundidade de meus sentimentos e nem a enorme amargura que em mim crescia. Tratavam-me como se nada estivesse acontecendo e não admitiam conversar sobre a possibilidade de que eu não fosse com eles. Sendo homem extremamente gregário na sua idéia de família, papai não podia nem sequer imaginar a possibilidade de deixar um garoto de 15 anos sozinho no Rio de Janeiro, especialmente porque, lá no fundo, ele intuía que eu estava envolvido com alguma coisa ruim ou, pelo menos, desenvolvendo uma terrível propensão em direção a algo mau. Imaginei todas as possibilidades que poderiam me tirar daquele laço. Mas não havia saída. Talvez se eu simplesmente fugisse, desaparecesse, eles fossem sem mim. Mas faltava peito para fazer aquilo. Ambiguamente, eu não queria machucá-los ou tornar a vida deles miserável de angústia e tormento, o que certamente aconteceria com o meu desaparecimento. Foi quando me surgiu uma perversa idéia, enquanto eu conversava com um amigo, a quem chamávamos de Pingüim. — Ei, cara, o que você acha que poderia forçar teu pai a deixar você aqui? Se você quiser ficar, tem que ser porque ele fez você ficar — disse Pingüim. Fiquei ali, pensando na declaração dele, com a cabeça rodando de maconha, até que tive um estalo. — Já sei. Vou engravidar a filha de um grande amigo dele. Assim, ele vai me forçar a ficar. Aquele papo dele de responsabilidade vai ser minha saída. Se a Fernandinha ficar grávida, ele vai até me pagar para ficar, mesmo que eu queira ir — gritei. O problema era que, conquanto eu tivesse uma vida bem desregrada em muitas áreas e nunca perdesse a chance de faturar as garotinhas que passassem pelo meu caminho dando sopa, com Fernandinha não era assim. Ela era apaixonada por mim e eu por ela, mas seus princípios familiares, morais e religiosos nunca haviam permitido que ela fosse longe demais no namoro. Achei, entretanto, que conversar com ela e propor aquela solução não seria mal. Como ela também não queria que eu fosse e estava sofrendo com a decisão de meus pais, talvez a coisa pudesse dar certo. Encontrei com ela muito louco, fiz uma grande introdução, chorei, sofri, falei de como aquela separação poderia nos afastar para sempre e outras coisas. Ela chorou, me abraçou com carinho e me olhou com imensa ternura. Os sinais exteriores eram animadores. Expus meu plano todo. Fernandinha era ainda uma criança. Tinha acabado de completar 14 anos. Apesar de já ter corpo de mulher, muito bonito e desejado por todos os meus amigos e inimigos, por dentro ela ainda era uma menininha. Tanto que meus amigos me acusavam de ter virado um “papa-anjo” por causa de meu namoro com aquela garotinha. Mas eu não estava nem aí. Gostava dela e sabia que todo mundo a achava linda. Era só uma questão de tempo e eles veriam o meu anjinho se mostrar com a força incontrolável de uma amazona. Eu pagava para ver e, enquanto esperava, curtia. Ela me ouviu com mais seriedade do que eu havia imaginado. Ficou agitada com minha proposta, mas não a rejeitou de saída. Pediu tempo para pensar, e eu fiquei dando a decisão dela de participar do plano como certa. Por isso, mergulhei num mundo de fantasias e imaginei a seqüência dos fatos. Ela ficaria grávida, a barriguinha iria crescer, seus pais ficariam sabendo, meus pais — muito amigos deles — seriam comunicados e decidiriam casar-nos em nome da honra. Assim é que nos casaríamos e iríamos morar na casa dos pais dela. O resto, eu imaginava, seria o paraíso: comendo na casa dela, indo à praia com a gatinha e o neném, fumando maconha sem maiores riscos e continuando os estudos no Colégio Batista, onde eu sabia que passar de ano


era fácil. O que eu não poderia imaginar era que ela iria se aconselhar com uma de suas irmãs mais velhas. E, como era óbvio, a moça explodiu com ela: — Você está louca? Vai acabar com sua vida. Nem pense nisso O assunto acabou chegando ao conhecimento da mãe dela, de repente, vi-me sentado na sala da casa dela, levando um sermão muito meigo e amoroso, mas que desfazia completamente os meus planos. — Meu filho, o que você está planejando vai destruir a sua vida e a de minha filha. Ninguém resolve um problema como o seu trazendo um filho ao mundo. Eu sei que você tem um sentimento forte pela minha filha, mas vocês ainda são duas crianças. Por que você não entrega a Deus esse problema? Se Ele tem vocês um para o outro, então nem a distância vai afastar vocês. Mas se não é assim, logo, logo, vocês vão esquecer tudo isso e continuar a vida de vocês. Ela foi gentil, mas firme, e eu fui para casa chutando pedra. Com raiva de Deus e da vida. Parecia que não me sobraria outra alternativa, a não ser ir com meus pais para Manaus. Os meses que se seguiram àquele episódio foram marcados por milagres na vida de meus pais, e por muita raiva e loucura na minha ansiosa e perdida existência de adolescente. No que dizia respeito a eles, os sinais todos pareciam confirmar a intenção divina de levá-los para o campo missionário. As passagens apareceram, papai recebeu uma grande doação em dinheiro — feita por um cliente grato pela competência profissional com a qual fora tratado — que o capacitaria a iniciar a vida na sua cidade natal, e os estudos teológicos transcorreram sem qualquer problema. Sua tese foi aceita e ele foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1971. Logo após a ordenação, mamãe, Suely, Luiz e Aninha foram para Manaus. Ele ficou comigo até março, dando-me a chance de chorar meu luto por Niterói, pelos amigos e por Fernandinha. Mas minha dor ficou ainda maior quando percebi que, de um modo muito sutil, Fernandinha estava sendo tirada de mim antes da hora. Os pais dela resolveram ir para Torres, no Rio Grande do Sul, passar as férias. E, assim, os meus últimos trinta dias no Rio já foram extremamente sofridos pela ausência dela. Justamente por isso, caí na gandaia, nas drogas e na angústia. Quando chegou o dia de partir, despedi-me de todos, menos dela. No entanto, de repente fiquei sabendo que ela acabara de voltar das férias e tive de me despedir dela às pressas, na presença de toda a família, o que fez com que eu levasse no coração uma mágoa profunda de Fernandinha e de todos aqueles que tinham me tratado daquele jeito, tirando-a de mim antes da hora. Entramos no avião e voamos em silêncio. Papai tentou conversar algumas vezes, mas eu fui apenas monossilábico em minhas respostas. Chegamos a Manaus às quatro e meia da tarde de uma terça-feira, em março de 1971. O mero entrar no ambiente de minha infância despertou em mim sentimentos e percepções que eu já nem sabia que ainda existiam em minha alma. Respirei fundo e senti cheiro de mata, de ar tão úmido que era quase vapor e de árvores selváticas, e vi o colorido completamente diferente do pôr-de-sol, tinturado com os reflexos surrealistas que as águas barrentas do Solimões e pretas do Negro fazem misturar nos céus. Minha alma ficou confusa. Uma enorme nostalgia dos amigos e vínculos que eu deixara em Niterói me atormentava o íntimo. Mas uma sensação de pertencimento, de inclusão e de continuidade tomou conta de mim. Era como se eu tivesse vivido os últimos anos num outro mundo, mas ainda alimentado pelas energias que se originavam da floresta. Uma estranha euforia me dominou. Abracei os primos e amigos que estavam no aeroporto, a maioria dos quais eu não via desde 1964. Todos tinham crescido, mas ainda eram os mesmos. E eu não sabia que gostaria tanto de reencontrá-los. No aeroporto mesmo, pulei na garupa da motocicleta que José Fábio pedira emprestada a um amigo seu, o Gato, e corremos livres pelas estradas que circundavam Manaus.


Comeรงava ali uma fase completamente nova de minha vida!


Capítulo 16 “A alma pratica fornicação quando ela se vira para longe de Ti e procura fora de Ti as boas e limpas intenções que não se encontram exceto na reconciliação dela Contigo. Assim é que no mundo, de certo modo às vezes até pervertido, toda a humanidade busca a Ti.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1971, Manaus era uma cidade de aproximadamente quinhentos mil habitantes. A Zona Franca fora estabelecida na região com o objetivo de desenvolver uma área que o governo federal julgava ter importância estratégica. Por isso, andava-se pelas ruas vendo carros importados, aparelhos de som sofisticados, motocicletas com roncos poderosos, roupas de grifes do mundo inteiro, todos expostos ali como bens tão banais, que os meus amigos do Rio jamais sonhariam ser possível. Entretanto, uma das marcas mais características da cidade era o seu provincianismo. Modernidade e tecnologia não tinham tido o poder de alterar o sentir interiorano dos manauenses. Para a gente do lugar — de forma diferente do que acontecia nos dias da infância de meu pai, quando a Europa era a referência dos amazonenses — o Rio de Janeiro era o máximo. Era o lugar onde tudo de novo e revolucionário acontecia. Por isso, quem quer que chegasse de lá já trazia consigo a vantagem de estar vindo do centro no qual todas as modas, novidades e loucuras invejáveis se materializavam. Para mim, foi facílimo faturar em cima daquilo. Meu primo João Fábio era entrosadíssimo nos ambientes sociais e colunáveis, e não hesitou em plantar notícias que faziam de mim uma figura muito especial, chegando de volta à terra, depois de muito curtir no Rio. No primeiro fim de semana fui levado ao baile do Ideal Clube, que ficava na parte mais badalada da cidade. O ambiente era pequeno-burguês, com aquele monte de garotinhas entre 13 e vinte anos dançando de rosto colado, sob os olhares saudosos e cobiçosos de suas mães, para quem aquelas experiências eram apenas lembranças. Quando eu entrei ali pela primeira vez, já era famoso entre os colunáveis da cidade. Algumas colunas sociais tinham noticiado minha chegada e eu achei delicioso sentir-me objeto da curiosidade social da burguesia. O bom de tudo aquilo era saber que eu estava sendo desejado por gente que eu nem conhecia. Portanto, eu saía caçando gatinhas no salão sem ter medo de ser rejeitado. Para elas, naquelas circunstâncias, era uma honra dançar com aquele “menino do Rio”, como elas se referiam a mim. Ainda havia a minha aparência extravagantemente diferente. O cabelo estava comprido,


aloirado de praia e todo encaracolado. O corpo magro, já a milímetros de um metro e oitenta, me destacava da maioria dos amazonenses, em geral bem mais baixos. As calças eram coloridas, tipo “carne-seca”, de tecido franzido e sem zíper, deixando os pêlos púbicos expostos. Os sapatos eram do “Souza”, no Rio, e o jeito de andar era provocativo, com a cabeça erguida, como se tentasse sentir um cheiro que passava acima de mim. Os braços alternavam-se de modo cadenciado, mas sacudidos de modo reto, indo da altura da perna até quase o nível da cabeça, e as pernas davam passos largos, como que desejando engolir o chão. Mais do que roupas extravagantes, eu tinha uma vontade íntima de chocar as pessoas e suas formas conservadoras de interpretar a vida. Assim era que eu saía de casa, na rua Sete de Dezembro, e andava de cueca Zazá, completamente cavada dentro das nádegas, apenas com aquela fitinha preta aparecendo nas laterais e cobrindo os órgãos genitais. Nada mais. Eu desfilava três quilômetros pela cidade cheia de gente, percebendo os arrepios que as senhoras sentiam nas janelas, os olhares irritados dos maridos, os sorrisos maldosos das garotas e as piadas odiosas dos garotos que não tinham coragem de fazer o que eu estava fazendo. Mais de uma vez policiais me pararam e me deram voz de prisão por atentado ao pudor. Eu pedia que me prendessem, mas sempre aparecia alguém para dizer: “Eu conheço esse rapaz, é filho do Dr. Caio. Não faz nada com ele não.” E eu continuava meu caminho de escândalo e provocação. À porta dos bancos, eu parava e plantava bananeira, mostrando meu traseiro para os gerentes e dizendo que eles não sabiam o que era viver com aquela liberdade. Enfim, minha presença em Manaus passou a ser desconcertante, provocativa e impossível de não ser percebida. E aqui e ali eu ouvia os mais velhos dizerem: “Coitado do Dr. Fábio. Como é que um homem tão bom como ele foi ter um neto tão desavergonhado como esse? Se estivesse vivo, morreria de vergonha.” Quando cheguei ao Ideal Clube naquele primeiro dia, já entrei disposto a marcar minha presença entre os meus conterrâneos como um caçador de meninas bonitas. Meu primo José Fábio havia me informado, logo na entrada, que a menina mais cobiçada do lugar naqueles dias era uma tal de Regininha, e mesmo sob a “luz negra” foi possível identificá-la no salão. Depois de dançar com garotas diferentes, mirei minha presa e parti pra cima. Tirei-a para dançar, rocei meu corpo no dela como pude, inebriei-me com o perfume importado que ela usava e senti o cheiro doce do seu hálito. No dia seguinte, eu estava à porta de sua casa, em frente à praça da Saudade, e já saí dali na condição de namorado da garota mais desejada no círculo das vaidades. O namoro com Regina foi insosso e cansativo. Mas como ela era mais velha do que eu e cortejada por rapazes também mais velhos, nós dois percebemos que éramos úteis um ao outro. Eu aproveitava o status que o namoro com ela me dava junto aos rapazes — que morriam de inveja de minha súbita e ousada conquista —, e ela se servia do fato de que namorar um cara novo no pedaço não a comprometia com a política local de conquistas, ao mesmo tempo em que elevava seu padrão. Em outras palavras, o que ela estava dizendo era: “Meu negócio é gente diferente, capaz de romper com os padrões da terrinha.” Nosso namoro terminou em dois meses, no máximo, mas os trunfos da conquista tiveram repercussões extraordinárias. Nos meses seguintes eu não fiz outra coisa a não ser namorar pelo menos uma nova garota a cada semana, fora os amassos que aconteciam de modo fortuito em cada festa a que eu ia. Às vezes eu me via namorando duas ou três meninas ao mesmo tempo, e achava o máximo a ginástica de ter de enganar e satisfazer a todas elas. Tudo aquilo acontecia em razão do charme e da propaganda. De outra forma, nada se materializaria. Afinal, eu era o garoto mais “duro” em circulação, pois a situação em casa estava péssima. Dinheiro já era lembrança de um tempo que eu sabia que não voltaria nunca mais. Além disso, papai e mamãe estavam preocupadíssimos com o caminho que minha vida estava tomando e, portanto, mesmo quando tinham algum trocado, não me davam, temendo que eu usasse o


dinheiro para fazer besteira. Os primeiros três meses em Manaus foram completamente caretas de maconha e drogas afins. O que rolava era cachaça, cerveja e whisky. Também os rapazes com os quais eu saía não eram do tipo hippie. O negócio deles era namorar até às dez horas da noite, apertar a menina como podiam e tentar botar a mão em todos os lugares proibidos da geografia moral de seus corpos. Depois, encontravam-se na praça do Congresso e saíam dali em bandos, dirigindo alucinadamente seus carros, direto para um prostíbulo limpo, a fim de escolher a prostituta de estimação e descontar nela os desejos reprimidos e acumulados nas três horas de namoro. Eu entrei nessa como pude. Até aquele ponto, eu jamais tinha estado com uma mulher bem mais velha do que eu na cama. Mesmo as prostitutas com as quais eu saía eram sempre novinhas. Uma quarta-feira à noite, entretanto, meu amigo Viriato me convidou para “conhecer uma mulher maravilhosa”. Era um lugar escuro, pobre, em frente a uma igreja católica no bairro da Cachoeirinha. Perguntei se ele tinha certeza de que valeria a pena, e ele respondeu que era “uma coroa divina”. Chegamos lá e ele foi logo me apresentando a uma mulher de aproximadamente quarenta anos, loira, ombros largos, quase da minha altura e que me olhou com uma expressão maternal. Viriato pegou uma menina mais jovem e foi para o quarto com ela. Eu fiquei ali, angustiado, com medo que ela me convidasse para entrar no quarto. Meu corpo prontamente respondeu cheio de desejo a ela, mas minha alma sentia algo estranho: era como ir para a cama com minha mãe ou com uma das minhas tias. E o problema não era a idade dela. Ao contrário, a idade me excitava. Era o seu olhar, meigo, carinhoso e maternal, o que me incomodava. Entramos no quarto, ela se despiu e veio sobre mim. Então, eu senti a coisa mais estranha que já havia sentido na vida, naquela área de experiência: era um fortíssimo desejo proibido. Era desejo forte o suficiente para me excitar por dentro, mas proibido demais para me permitir ter qualquer performance sexual. Ela ficou ali, fazendo tudo o que podia para me estimular, mas não conseguiu. Depois, frustrada, disse-me que não custaria nada, que ela faria por amor, porque gostara de mim. Mas eu respondi que não conseguiria. Ela ficou chocada. — Você acha que eu sou feia? — indagou ela. — Não, você é uma mulher bonita e eu quero você, mas hoje não dá — respondi. — Por quê? — era uma questão óbvia. Menti, dizendo que naquele dia eu já havia estado com duas mulheres diferentes e que elas haviam tirado todas as minhas energias. — Seu safadinho! Tão jovem e tão ativo. Vem aqui descansado que você vai ver o que vou fazer com você — foi o que ela declarou, virando-se na cama ao meu lado e iniciando uma longa conversa comigo. Eu voltei à casa dela em muitas outras ocasiões depois daquele dia. Obviamente, das outras vezes não a vi como uma parenta chegada e tive com ela relações de outra natureza, que não apenas de diálogo. Mas de alguma forma ela se transformou numa amiga. Dava-me conselhos e pedia para eu não fazer tantas loucuras quanto eu fazia. Seu instinto maternal estava lá, embutido na profissão de prostituta. E como fiquei seu amigo, ela nunca me cobrou pelas conversas e pelos outros serviços que me prestava. “Juízo, hem, menino”, era o que ela dizia sempre que eu atravessava a prancha de madeira que ligava a casa dela à escada íngreme que conduzia para cima, ao nível da rua. Seis meses depois de ter chegado a Manaus, conheci dois garotos que mudariam a minha vida. Alipinho era moreno, espadaúdo, bom de caratê, campeão de natação e sempre muito bem vestido. Dono de um rosto perfeito, sabia usar de modo extraordinário o charme e a beleza de que era dotado. As meninas eram loucas por ele, e ele era louco pelas meninas. Celsinho era diferente. Obcecado por questões de aparência, cuidava de seus cabelos longos, finos e loiros,


com cuidados que eu nem imaginava que alguém pudesse dispensar ao trato dos pêlos, e todas as suas roupas eram importadas. Celsinho amava o inglês, língua que falava com desenvoltura, e cantava todos os grandes sucessos americanos, traduzindo para a gente as letras de todas as músicas. Além disso, ninguém na cidade dançava melhor do que ele. Soltava seu corpo ao ritmo das músicas com uma beleza, harmonia e leveza que faziam dele o mais cobiçado dançarino da cidade, cortejado pelas meninas e desejado pelos homossexuais da alta sociedade. Minha alma casou-se com as daqueles dois rapazes. Eles me completavam como ninguém jamais conseguira no nível fraternal. Nós “colamos” e não fazíamos mais nada separados. Alipinho era o mais experiente e Celsinho o mais inocente. Eu estava no meio. Compartilhava as experiências sexuais de Pinho — como as vezes nós o chamávamos —, e as ansiedades filosóficas e psicológicas de Celsinho, sempre angustiado, sempre deprimido e sempre em busca de algo que ele não sabia o que era. Alipinho conhecia tudo em relação ao sexo oposto. Já tinha tido affairs com mulheres casadas, já desvirginara algumas garotinhas e, na ocasião, tinha um caso com uma aeromoça do Rio, dez anos mais velha que ele, que o visitava a cada 15 dias em Manaus. Ele se gabava de que o bom daquela relação era que Vera não se ressentia de que ele namorasse outras garotas, e as namoradas se sentiam orgulhosas de dividi-lo com uma mulher tão madura e bonita. Nos dois anos seguintes, eu vivi com aqueles amigos o período que eu considerava o mais belo de minha vida até ali. Pensava que nada poderia ser melhor. Com eles eu esquecia a pobreza e a caretice de papai e mamãe, e me sentia amado, aceito e estimulado. Nós só andávamos juntos, e juntos fazíamos coisas que provocavam inveja nos demais rapazes de nossa geração. Eram passeios de lancha, corridas de carro, banhos de cachoeira e muita música. Além disso, apesar de Celsinho não ser nem um pouco chegado à maconha, eu e Pinho apertávamos baseados quase todos os dias e corríamos de moto doidões pelas estradas de Manaus, gritando sozinhos e sentindo o vento frio da noite gelar nossos rostos pelas madrugadas. Em casa, os vínculos inexistiam. Meus pais estavam cada vez mais apavorados com as notícias que circulavam a meu respeito. Os meses corriam e a angústia deles em relação a mim aumentava. Um dia papai tentou me conter. Disse que não podia mais agüentar tanta loucura e que iria me punir com uma surra de cinturão. Puxou o bicho da cintura e veio para cima de mim. Eu olhei para ele, fuzilando de ódio, e disse: “Pode vir, mas venha preparado para apanhar. O senhor acha que eu vou deixar o senhor levantar a mão pra me bater? Se quiser vir, venha, mas vai entrar no cacete.” Vi papai sentar na cadeira mais próxima, tonto com a minha declaração e com o olhar cheio de tanta dor. Saí correndo e prometi nunca mais voltar. Somente 15 dias depois meu primo João Fábio me encontrou na rua e me implorou para voltar. “Seu louco. Tu tá pirado? Caio Fábio, isso é safadeza. Ninguém faz o que cê tá fazendo com seus pais e fica sem punição. Teu pai morreu muitos anos nesses 15 dias. Ele é louco por você e tá morrendo todo dia com as suas loucuras. Qué fazê loucura? Tudo bem. Mas faz numa boa”, ele disse, zangado e preocupado. Quando entrei em casa, mamãe correu para me abraçar, junto com Aninha, Suely e Luiz. Papai ficou onde estava, sentado na cabeceira da mesa da pequenina sala. Lá fora chovia. Eram seis da tarde e já estava escuro. Ele apenas levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou-me com ternura e misericórdia. Mas havia dor, muita dor no semblante dele. Não dissemos nada. Subi, peguei roupas limpas, tomei banho e saí. Foi a última vez que ele tentou barrar o meu caminho pela força. Daí em diante, ele e mamãe apenas se dedicariam à oração e ao jejum a meu favor. Andando por toda parte, um dia eu vi umas garotas diferentes. Elas ficavam batendo papo na esquina da rua Visconde com a Duque de Caxias, perto da Escola Técnica. Uma era mais madura e mais calma. A outra, completamente agitada. A mais calminha, com cara de mais velha, era


morena, tinha uma cintura bem-feita e longos e lisos cabelos negros. Não havia nela nada particularmente especial, mas o todo era muito agradável. Já a outra era um vulcão. Com cabelos loiros, pernas longas e grossas, seios grandes, amplos, projetados e provocativos, ela ainda dava a si mesma o direito de usar uns shortinhos cavadinhos e de colocar tudo aquilo a serviço de um fantástico par de olhos verdes e de uma boca que parecia estar em permanente estado de sedução, enquanto lambia os próprios lábios, como quem se deliciava nas carnes de um apetitoso e irresistível sapoti, minha fruta predileta. Elas me chamaram para conversar, e eu, é claro, fui. Sentamos na calçada e jogamos conversa fora uns trinta minutos, enquanto preparava o meu melhor bote sobre a loira gulosa. — Você sabia que nós quase fomos maninhos? — ela perguntou. — Num tô entendendo! Como, maninhos? — perguntei de brincadeira. — Uma gata como você não ficava junto de mim impune nem se fosse minha maninha — acrescentei com veneno. — Você num é filho do Caio? — ela provocou, como quem sabia de mim muito mais do que eu poderia imaginar. — Sou. E daí? Você conhece meu pai? — joguei de volta. — Teu pai me amava como amava a você. Quando ele foi embora, eu chorei muito. Ele foi o melhor pai que eu já tive. O que mamãe fez com ele não se faz com ninguém. Ele amava a ela, e ela fez safadeza com ele. É por isso que eu tenho raiva dela — disse com lágrimas nos olhos, mudando completamente do clima de sedução para o da confissão. — Quem é tua mãe? Você é filha da Simone? — perguntei, embora já soubesse a resposta. — Eu sou Alma. Você brincou comigo uma vez. Você não sabia quem eu era, mas eu sabia quem você era — completou, como quem realmente sabia o que estava falando. Daquele dia em diante, começamos a sair juntos. Tivemos todos os amassos físicos que pudemos e nos beijamos de modo semi-incestuoso da forma mais intensa possível. De súbito, quando nossa relação caminhava célere para a consumação do ato sexual, eu me vi totalmente nauseado dela. Ela me beijava com sede, e eu sentia vontade de vomitar. “Mas por quê?”, eu me indagava. Ela era atraente e profundamente sensual. Então, de onde vinha minha incapacidade de tê-la e de saboreá-la como mulher? Foi aí, em meio a tais sentimentos, que minha mente voltou no tempo para o momento de uma jura: “Mãe Velhinha, eu juro que um dia eu ainda vou me vingar da Simone, dessa jaburu”, eu declarara com ódio aos sete anos de idade. “Será que eu não consigo mais tocá-la por causa daquela jura? Será que agora é minha chance de me vingar?” eu me perguntava. “Mas vingar de quê e por quê? Ela não me fez nada e eu não sou nada dela”, tentava me convencer, na esperança de ‘des-incestuá-la’, a fim de possuí-la. Mas o fato é que eu precisava fazer alguma coisa rapidamente. Não podia dar um vacilo daqueles. Já havia duas opções: traçar a menina ou deixá-la em paz. Naquele chove e não molha é que eu não podia ficar. Achava que já estava prejudicando a minha reputação. E como eu já não podia nem ver Alma, resolvi fugir dela. No entanto, com esta atitude infligi sobre ela a minha mais terrível vingança. Se eu tivesse tentado machucá-la de propósito, talvez jamais tivesse conseguido tamanho efeito. Ela chorava pelos cantos das boates, separava-me das meninas com quem eu dançava, implorava para que eu a beijasse e até suplicou para que eu a possuísse como mulher. — Por favor, deixe eu ser mulher com você. Não faça eu me entregar a um homem que eu não queira. Me toma, por favor — ela implorava. Mas eu não conseguia e não sabia explicar aos meus amigos o motivo daquilo. — Cara, você castiga meninas que não são a metade dessa e deixa essa loira doida de desejo passar sem ser devidamente machucada? — perguntava Paulo Gato.


O desarvoramento de Alma cresceu tanto, que ela embarcou numa onda pesadíssima de drogas. Depois, começou a sair com todo mundo. Aí, então, disse ter se apaixonado por um maluco chamado César. Mas muitas vezes, em plena boate, quando ele ia ao banheiro, ela ficava chorando e olhando para mim fixamente. E não raras vezes ela passou por mim doida de maconha e whisky e disse: “Ele tá provando a comida que é tua.” Mas eu fingia que não entendia. A vida de Alma nunca mais se equilibrou. Nos anos seguintes, ela haveria de mergulhar em profunda insanidade. Somente muito tempo depois eu a encontraria em circunstâncias completamente diferentes. Mas sem dúvida, naquela época, ela foi o símbolo de meu mais forte desejo e de meu mais intenso repúdio. Vivendo aquilo, comecei a me aproximar dos mistérios de minha própria interioridade e dos complexos caminhos de meu próprio coração.


Capítulo 17 “O único desejo que dominava a minha busca por deleite era simplesmente amar e ser amado. Porém, nenhuma restrição foi imposta pela troca de mente com mente, que marca a caminhada brilhantemente iluminada da amizade. Nuvens de enlameada concupiscência carnal encharcavam o ar. Os impulsos borbulhantes da puberdade desceram numa névoa sobre os meus olhos e obscureceram os meus sentidos, de tal forma que eu perdi a capacidade de distinguir entre a serenidade do amor e a escuridão da luxúria.” Santo Agostinho, Confissões

A

lipinho, Celsinho e eu estávamos em permanente busca e transformação. Pinho começou a se interessar por meditação transcendental e nos convenceu a fazer com ele alguns exercícios de respiração e tentativa de sair do corpo. Celsinho era mais acadêmico na busca de valores espirituais. Gostava de psicologia e amava os livros de Hermann Hesse. Eu, de minha parte, era um filósofo da esquina, das sensações, das emoções e das experiências. Eu queria tudo aquilo que pudesse ser provado pelos meus sentidos. Por isso, gostava muito das conversas filosóficas às quais nos permitíamos nos fins de noite, mas o que me empolgava mesmo era viajar por alguma via mental diferente, em geral produzida pelas drogas e vivida em situações de excitamento, fosse o perigo ou o sexo. Foi nessa época que um cara muito louco, alguns anos mais velho do que nós três, entrou em nossas vidas. Nós o chamávamos de Carioca porque ele era do Rio e fazia questão de falar carregando no sotaque preguiçoso e arrastado da moçada da zona sul da Cidade Maravilhosa. Carioca era um arquiteto que deixara tudo para viver como hippie. Fazia permanentemente a rota Rio—Venezuela—Panamá—Estados Unidos e, na volta, sempre passava por Manaus. Ele era a pessoa mais maluca que já havíamos encontrado. Quando o conhecemos, ele estava passando uma temporada maior em nossa cidade, dizia estar procurando novas formas de viagens psicodélicas e falou-nos sobre as maravilhas do ayahuasca, suco de raízes indígenas de poder alucinógeno. Carioca tinha belos olhos azuis, mas de bonito era só o que tinha. No mais, era feio, torto, tinha uma voz estranha e ria com ar de ratinho. Ele era uma figura. Com aquela cara, ele não poderia entrar em lugar nenhum da alta sociedade. Mas como tínhamos cacife, impúnhamos a presença dele onde quer que fôssemos. Naqueles dias, nós três havíamos sido convidados a desfilar como modelos de algumas lojas da Zona Franca. O pagamento era feito em roupas. Para nós, estava ótimo. Afinal, além das


roupas serem maravilhosas, nós ainda ficávamos ali na plataforma, expostos, dançando para meninas delirantes e suas mamães ainda bonitas e atraentes. Aqueles desfiles sempre rendiam conquistas e aventuras proibidas, às vezes durante a semana, às vezes ali mesmo, atrás de biombos e tapumes que separavam o palco dos bastidores. Carioca sempre era levado para tudo. Não “pegava” ninguém, mas ria de nossas façanhas. Aos poucos, ele começou a se transformar no nosso guru. Sempre filosofando, ele não cansava de nos doutrinar sobre o absurdo da vida e a náusea da existência. Nos seus 26 anos, Carioca era um ser angustiado, perdido, revoltado e profundamente suicida. Foi ele quem nos incitou a usar drogas mais pesadas e a provar o ayahuasca. No primeiro dia que ele tomou o caldo de raízes, eu fiquei incumbido de tomar conta dele. Ele dizia que o negócio era tão forte, que se alguém não ficasse de plantão, vigiando, o maluco corria o risco de fazer algo suicida. Fiquei lá com ele. Não deu outra. Ele babou, correu, falou com o diabo, descreveu o inferno, disse que ia morrer e ficou como morto vários minutos. Depois, ressuscitou alucinado, tirou a roupa, correu nu pela praça, duelou com bandidos imaginários, parou carros na rua e fez amor com a Lua. E eu lá, segurando o cara como podia, com medo que ele fizesse uma loucura suicida qualquer. Vinte e quatro horas depois ele ainda estava amalucado. Quando a rebordosa dele passasse, seria a minha vez. Como eu vi que ele tinha tomado muito e como eu jamais me submeteria a um tormento daquele de graça, tomei muito menos do que ele. Foi o suficiente apenas para ver coisas multicoloridas e para liberar as produções de meu inconsciente. Gostei das sensações, mas decidi que ayahuasca não era a minha onda. Carioca sumiu do mesmo modo que apareceu, sem dar notícias e sem deixar paradeiro. Nunca mais o vimos. Carioca foi embora, mas a fome de espiritualidade que ele tinha ficou em mim. Não só a ansiedade espiritual ficou presente, mas também um canal de sensibilidade espiritual desenvolveu-se em mim. Inicialmente, eram angústias terríveis que me acometiam ao pôr-do-sol. A mesma saudade de alguém, que me possuíra na infância, quando eu contemplava a mangueira sagrada da casa da vovó, estava de volta, só que muitas vezes pior. Eu respirava ofegante. Fumava um cigarro atrás do outro, fumava maconha e tentava tirar a cabeça do pôr-do-sol. Mas não conseguia. Doía muito, no nervo da alma, e eu não sabia por quê. Outra manifestação de sensibilidade espiritual passou a acontecer à noite, quando eu voltava para a pequenina casa de madeira às margens do igarapé de Manaus, na rua Sete de Dezembro. Todos as noites, quando virava a esquina, eu ouvia nas minhas costas um zumbido, como se alguém tivesse pegado um grande cinturão de couro e o estivesse batendo contra o poste de luz. Era um zumbido pavoroso. Eu corria de volta na direção da esquina na tentativa de ver quem fazia aquilo, mas nunca havia ninguém lá. Eu me afastava e a coisa acontecia de novo. Eu voltava correndo, e ninguém. Todas as noites aquilo acontecia. Eu entrava em casa e a coisa continuava lá, espancando o poste, fazendo um ruído terrível. Às vezes, as batidas se faziam acompanhar de gemidos, como se alguém estivesse apanhando. Fosse o que fosse, aquilo era estranho, bizarro e maligno. Era tão forte e ao mesmo tempo tão pessoal, que eu não tinha coragem de falar com ninguém sobre o assunto. Nenhuma daquelas coisas de natureza espiritual interrompia, entretanto, o ritmo frenético de minha vida. Eu não tinha carro, mas Bete Raposo, filha de um armador muito rico, tinha sempre um novinho. Às vezes eu pegava o carro dela para correr pela cidade. Uma noite, a aventura quase terminou mal. Peguei o carro de Bete e fui na direção do aeroporto de Ponta Pelada, no caminho para fora da cidade. Quando vi uma batida da polícia e uma tábua cheia de pregos estendida de ponta a ponta da


estrada, pensei: “É, vai sujar. Eu não tenho carteira.” Manobrei e voltei. Mas eles me viram e saíram no meu encalço. Eu estava dirigindo um TC novinho em folha e o carro da polícia era um camburão bom de corrida. Saí alucinado. Foram dez minutos de “pega” infernal. A impressão que eu tinha era de que a cada curva o carro iria capotar. Os “homens”, no entanto, não se perdiam nunca. Estavam lá, no meu pé. “Tô perdido. Se esses caras me pegarem, vão me matar”, pensei. Consegui alcançar a rua Sete de Dezembro, onde morava. Cheguei cerca de trinta segundos antes deles, tempo suficiente para parar o carro e entrar correndo em minha cama. Ouvi os gritos lá fora. — É aqui. O carro está quente ainda. O filha da... deve ter entrado aqui. Vai devagar. Cerca a casa. Cuidado. Ele pode estar armado — eram as vozes que vinham da rua. Papai e mamãe, coitados, dormiam sem saber que a casa estava cercada. Eu imagino que os policiais ouviram o ressonar forte de mamãe e perceberam que ali havia uma família dormindo. Bateram palmas. Mamãe acordou. Os policiais perguntaram se aquele carro era da casa. — Não senhor. Nosso carro é aquela Hondinha ali na frente — respondeu mamãe com a inocência de uma santa. — Então de quem é esse TC parado aqui na frente de sua casa? — indagou um policial. — Não sei. Daqui de casa é que não é — respondeu mamãe. — A senhora tem um filho cabeludão? — um deles perguntou. — Sim. Mas acho que ainda não chegou — disse ela. — A senhora podia ir dar uma olhada pra nós? Ver se ele ainda não chegou? — insistiram. Quando eu ouvi a história, decidi aparecer e poupar mamãe de passar por aquela vergonha. — Tá ali o cabeludo — falou um soldado mais exaltado assim que me viu. — Caiozinho! É você? — indagou o comandante da operação. — João da Mangueira? — perguntei fazendo força para vê-lo na escuridão, mas reconhecendo-lhe a voz. — Sim, sou eu, Caiozinho. — Seu cara! Que loucura é essa? A gente podia ter matado você. Se você não tivesse parado aqui, nós já íamos abrir fogo. A gente primeiro ia matar, depois ver quem era. A situação tá perigosa. Você escapou por pouco — disse João da Mangueira, vários anos mais velho do que eu, mas meu amigo de pelada na rua Apurinã, aos sábados. Por pura coincidência o nome dele tinha uma mangueira no meio. As mangueiras sempre me perseguiram para o bem. — Olha, pessoal. Esse aqui eu conheço. É gente boa. E não vai nunca mais fazer isso, num é, Caiozinho? — perguntou. — Claro, João. Nunca mais. Eu prometo — falei aliviado. Mamãe ficou ali parada, sem entender nada. No dia seguinte, vi que o carro de Bete Raposo estava todo estourado, com empenos estruturais terríveis, mas fiz de conta que não vi nada e devolvi o carro a ela. Bete quis dirigir para casa, mas o pobre TC tremia e sambava para todos os lados. — Que foi isso, Caio? — perguntou Bete. — Num sei não. Hoje de manhã não tinha nada. Você tem que dirigir com mais cuidado. Cê corre muito, Bete — falei com cinismo, enquanto me preparava para deixar a vida seguir seu curso e Bete consertar o carro. Num daqueles dias, no entanto, eu vim a conhecer uma pessoa que seria muito importante na aceleração de meu processo de degradação social e no aprofundamento de minha desgraça interior. Eu sempre via pelas ruas da cidade um cara de uns 25 anos, que pilotava uma Honda 450


cilindradas. Nós só nos cumprimentávamos: “Como é que é, bicho?”, era o que ele dizia quando passava por mim. Amigos mais comportados sempre diziam que Alipinho, Celsinho e eu devíamos ficar longe de Zé Curió, que tinha fama de ser bandido, traficante de muambas, de remédio para impotência, de filmes pornográficos, de maconha e, segundo diziam, até de cocaína, quando dava. Com uma apresentação daquela, o cara ficou irresistível. Eu decidi que queria ficar amigo dele. Um dia nos encontramos na porta de uma boate e conversamos longa e gostosamente. O sujeito era bem-humorado, gozadíssimo, inteligente, autodidata, cheio de prosopopéias e bon vivant. Gostava de tudo o que era bom. Tinha gosto sofisticado para lanchas, carros e mulheres. E, além de ser considerado o melhor motociclista da cidade, ainda tinha um jipinho Citroën igual ao que Jean-Paul Belmondo usara num de seus filmes. Era um sucesso. Zé Curió era de origem humilde, mas aparentemente não tinha nenhum complexo de inferioridade. Era considerado de confiança por homens ricos da cidade, para quem conseguia filmes pornográficos e meninas novinhas, que ele primeiro experimentava e depois servia aos amigos ricos, fazendo assim um jogo político e diplomático que sempre lhe auferia resultados extraordinários nos negócios. Quando comecei a andar com ele, muita gente na cidade afastou-se de mim. Digo de mim porque, ainda que Pinho e Celsinho também andassem junto, era eu que, pela total liberdade de que dispunha, passava muito mais tempo com Curió. Alipinho e Celsinho, por mais que tivessem uma vida fora dos padrões da ortodoxia social, eram ainda pessoas normais: iam à escola, faziam cursos à tarde, comiam com os pais e estavam se preparando para o vestibular. Eu, entretanto, havia parado de estudar em 1971 e dizia que jamais voltaria a uma classe de escola. Por isso, minha vagabundagem encontrou em Zé Curió o exemplo mais prático da maturidade e da realização. Eu queria viver como ele vivia. Sem hora para nada. Capaz de dormir até às duas da tarde e depois ir vivendo conforme as oportunidades fossem aparecendo. Com Curió, minha vida enlouqueceu de vez. Todas as tardes saíamos com meninas de programa e passávamos horas fazendo sexo e tomando drogas. Ao pôr-do-sol, enquanto eu fugia da “árvore de minhas angústias”, ele ganhava algum dinheiro, fazia algumas entregas e depois me levava para comer uma caldeirada de tucunaré. Usávamos mais drogas e, então, vinha a hora de dançar. No fim da noite, quase sempre dávamos carona para algumas meninas na boate e acabávamos em algum motel de beira de estrada ou no apartamento dele, no centro da cidade. Provavelmente, nenhum outro garoto de 17 anos da cidade tinha aquela vida de orgias e desarvoramento. Por isso, passei, gradativamente, a fazer amizade com gente cada vez mais velha do que eu. As mulheres de Zé Curió eram de todo tipo. Algumas eram prostitutas de trinta a 35 anos. Outras eram meninas que tinham perdido a virgindade recentemente, e que o procuravam como alguém generoso e engraçado, sempre disposto a tratar o sexo feminino com o melhor que estivesse ao seu alcance. Além disso, ele gostava da boa vida, e as meninas sabiam disso. As vantagens que minha companhia trazia para Zé era que, comigo, o nível das conquistas femininas subia de piso, quase sempre variando entre a classe média e a alta. E àquele “outro mundo” ele servia, mas em geral não usava. Por isso, quando via meninas que ele desejava e não conseguia, às vezes me dizia: “Pega aquela ali, usa, e depois passa para mim.” Mas, foi na condição de usuário das meninas do Curió que eu acabei pegando três horríveis gonorréias, que foram devidamente tratadas com muito Benzetacil pelo Dr. Joede Cavalcanti de Oliveira. Joede era evangélico e amigo de minha família. Mas o que mais me chamava a atenção era que ele tinha prazer em me encostar contra a parede de sua casa, aplicar aquela seringa cheia daquele líquido torturantemente doloroso e espesso como óleo em mim, para então dizer com ar


profético: “É! Deus tá te deixando pegar essas desgraçadas pra ver se você acorda, Caio. Não esqueça que os prazeres não valem essa dor, valem?” Eu dizia que não, mas não parava de transar nem doente. Usava preservativos, mas não dava descanso às meninas. Minhas experiências também foram ficando cada vez mais marginais. Às vezes, Zé Curió tinha de entregar uns embrulhos proibidos para pessoas importantes da cidade e me levava junto. Outras vezes, precisávamos pegar encomendas ilegais. Dentre as ocasiões em que fomos buscar algo ilícito houve uma noite escura, chuvosa e deprimente que nunca mais esquecerei na vida. Eu e Curió tínhamos passado a noite anterior acordados. Vimos filmes pornográficos até o dia nascer e depois dormimos até o entardecer. Acordamos e nos drogamos. Depois comemos e fomos para o Rodeo — o porto flutuante de Manaus. Quando chegamos lá, ele me disse que iríamos nos esconder da vigilância até podermos descer para baixo do cais, onde haveria alguém nos esperando com uma canoa. Tudo aconteceu conforme o plano. Burlamos a segurança e encontramos um caboclo numa canoa nos esperando na escuridão das águas do rio Negro, sob o porto. O movimento das águas produzia um gemido apavorante para quem estava doido de drogas, ali no meio das trevas. Fomos remando devagar até que chegamos ao navio. Era um navio sueco, enorme e de casco preto. Parecia um monstro visto ali debaixo, de dentro da minúscula canoa. Zé Curió deu um assobio especial e alguém desceu uma caixa amarrada a uma corda. Pegamos a muamba e subimos pelos troncos grossos de madeira, presos à estrutura flutuante do Rodeo. Quando pusemos a cabeça no nível do piso de cimento, vimos um guarda armado andando na nossa direção. Ficamos ali, pendurados, segurando o pacote e pedindo a Deus que o vigilante se afastasse. Aqueles dez minutos pareceram durar para sempre. Quando o guarda virou de costas, nós corremos para trás de uma cabine. Continuamos ali e vimos o canoeiro desaparecer, remando na escuridão das águas misteriosas do Negro. Não demorou e começou a chover. Caiu um pé d’água tão forte, que pudemos sair correndo pelo canto do porto, já que a visão ficou dificultada para quem quer que ali estivesse com a intenção de vigiar ou de passar chumbo na gente. No dia seguinte, o impacto daquela noite tinha sido tão forte em mim, que eu não sabia se tinha realmente acontecido ou se tinha sido um pesadelo regado a drogas. Mas não! Tinha sido tudo verdade. Assim, as loucuras se sucederam, todos os dias e sem outro objetivo a não ser a loucura pela loucura. O processo de deterioração moral, emocional e espiritual era tal, que meus amigos começaram dizer que eu devia sair daquela enquanto podia. Mas eu estava disposto a tudo, até mesmo a morrer. Só não queria era viver de modo que não pusesse a mim mesmo, todos os dias, em situações que me fizessem beber adrenalina até me embriagar. Era isso que eu chamava de vida.


Capítulo 18 “No décimo sexto ano de minha vida, o ócio reinou sobre mim devido à falta de recursos financeiros de minha família. Assim, eu fiquei de férias de todo e qualquer estudo. Vivendo assim, vazio, os caminhos da luxúria me dominaram e se elevaram acima de minha cabeça.” Santo Agostinho, Confissões

Quando iniciou o ano de 1972, eu havia vivido dez anos em um. A sensação que eu tinha era de que eu fora jogado numa câmara de compressão de tempo na qual, no espaço de apenas 12 meses, eu havia experimentado emoções, desejos, angústias, prazeres e atitudes que a maioria dos adultos que eu conhecia não tinha jamais sonhado provar em toda a vida. Agora, iniciava-se uma nova fase de minha existência. Eu queria apenas experimentar coisas que somente quem não amava a vida poderia ter coragem de provar. Comecei a dizer a mim mesmo que morreria logo e que, portanto, precisava curtir a vida com toda a intensidade possível. Nessa época, resolvi que minha existência seria cada vez mais uma demonstração de escândalo. Queria chocar o mundo e não tinha a menor razão para o não fazer. Por isso, decidi que não namoraria mais, apenas me dedicaria às mais esfuziantes experiências de natureza sexual, de preferência com “mulheres feitas”. Embora meu convívio com Pinho e Celsinho estivesse diminuindo, nós ainda fazíamos programas juntos. Um dia, num dos intervalos raríssimos de loucura com Curió, meus dois amigos me convenceram a ir com eles assistir ao grupo Teatro Oficina, que estava em Manaus, apresentando O rei da vela. Entrei no teatro Amazonas, luxuoso e apinhado de mulheres de longos e de homens alinhados, vestindo uma camisa de quatro bandas de cores, calça de cetim roxa e um tamanco alto, com um corte no meio da sola, que fazia placo, placo, placo quando eu andava. Sentamos na última fileira do último andar do teatro. O espetáculo era contestador e os atores eram os profetas daquela geração. Todos estavam atentos, concentrados nos diálogos e absolutamente ligados no roteiro da peça. De repente me veio um irresistível impulso de acabar com tudo aquilo. Não dava para controlar. Era um desejo compulsivo. Aí, então, gritei, com a voz mais alta e lancinante que eu podia, a primeira coisa que me veio à cabeça: “Ai, meu Deus! Um morcego enorme está chupando meu sangue. Ai, ai, ai. Socorro!” Foi o grito mais idiota que eu pude desferir no ar silencioso do ambiente cultural mais sofisticado do norte do país. Todos caíram numa interminável gargalhada. Os atores esperaram para ver se a casa voltaria à ordem. Mas que nada. A algazarra continuou indefinidamente. Como


já não houvesse clima, um dos atores passou um sabão no auditório, disse que éramos todos uns alienados e encerrou o show pelo dia. Mas meu ambiente não era o dos teatros, e sim o das boates. A que eu mais gostava era a boate dos Ingleses. Situada na parte mais antiga da cidade, próxima ao Rodeo, era o lugar que eu freqüentava todas as noites para dançar e caçar mulheres. A “espera” ali era frutuosíssima. Numa das noites em que eu estava lá, vi uma mulher maravilhosa, de uns 23 anos, dançando de modo mágico no salão. Ela era branca, de cabelos negros, magra e de rosto fino. O corpo era perfeito e seus movimentos pareciam encantados. Como eu conhecia todo mundo ali, fiquei intrigado sobre quem seria aquela musa e de onde ela viera. Foi aí que meu amigo Kuriak, comissário de bordo da Cruzeiro do Sul, malucão há muitos anos, me disse que ela era a Narinha, comissária da mesma companhia. — Mas como é que eu não conheci ela antes? — quis saber. — Ela está começando a voar para Manaus agora. Esta é a segunda viagem dela — respondeu. Como Narinha estava dançando sozinha, corri para a pista antes que algum gavião se adiantasse, e fui logo mostrando minhas habilidades na arte da dança solta. Afinal, meu convívio com Celsinho tinha me transformado em um excelente dançarino de música agitada. Ela ficou admirada com a minha performance e começou a sorrir para mim. Saímos dali direto para o bar, onde Zé Curió já tinha deixado ordens que eu poderia “beber o que quisesse com a gatinha”. No fim da noite, fumamos maconha e fomos para um motel. Ali, com aquela mulher, eu vivi as mais alucinantes sensações sexuais que eu jamais havia provado nesta vida. Foi uma experiência quase religiosa, de tão irreal e arrebatadora. Nossa busca de prazer foi até o meio-dia, quando a deixei no hotel Amazonas, onde ela estava hospedada. Na semana seguinte, ela estava de volta e nossa perdição no corpo um do outro continuou sem fronteiras e sem leis. Foram oito meses de êxtases todas as vezes que ela chegava. Enquanto isso, os homens mais ricos e poderosos da cidade voavam em cima dela como gaviões. Mas minha selvaticidade e avidez sexual davam a ela a certeza de que era melhor andar com um rapaz sempre duro de grana, mas insaciável como eu, do que comer e beber bem com algum coroa e depois ter que fazer força para suportar o hálito de whisky do sujeito. No fim daqueles meses, eu me sentia o homem sexualmente mais respeitado de toda a cidade. Não era verdade, mas era assim que eu me via na minha fantasia. Em agosto de 1972, chegaram a Manaus três rapazes do Rio: Claudinho, Ricardinho e Neto. Eles eram faixa preta de jiu-jítsu da academia Gracie, em Copacabana. Foram a Manaus passar uns meses na esperança de poderem dar umas aulas de luta por lá. Além disso, Ricardinho e Neto eram “nativos”, ainda que tivessem se mudado para o Rio no início da década de 60, com o pai, político conhecido no estado. O pai deles tinha sido figura importante no governo de Jango. Eles eram filhos do senador Arthur Virgílio Filho. Foi fácil perceber aquelas três figuras andando pela cidade, sempre sem camisa, com cabelos longos e pose de guerreiros. No dia seguinte, meu amigo André Gimenis nos chamou para ver as feras treinando na academia dele. Fomos lá: Zé Curió e eu. Os caras eram incríveis. Vimos os homens mais fortes e bem-treinados da cidade serem virados do avesso por aqueles rapazes. No chão eles eram imbatíveis, não importava quão forte e bem-preparado fosse o adversário. Pareciam invencíveis. Os três nos atraíram pelas artes marciais, e Curió e eu os fascinamos pelo nosso modo sem caráter de viver. Eles não queriam ser como nós, mas gostavam de nos ver em ação. Três dias depois de os havermos conhecido, já sentíamos uma intimidade entre nós que era como se nunca tivéssemos vivido separados. Claudinho voltou para o Rio depois de alguns dias,


mas Ricardo e Neto continuaram lá. Como eles não tinham “escola” em Manaus, elegeram Pedro, primo deles, Curió e eu como aqueles em quem eles investiriam seus conhecimentos de artes marciais. Em troca, nós seríamos seus garotos-propaganda. Estávamos fascinados por eles. Concentramo-nos de manhã, de tarde e de noite nos treinamentos. Queríamos nos tornar tão invulneráveis quanto eles. Não demorou e começamos a perceber que nosso progresso já se manifestava. O problema é que duas coisas paralelas estavam acontecendo. A primeira é que havia um bocado de homem na cidade com muita dor-de-cotovelo de Neto. Ele não era bonito, mas fazia um gênero muito interessante, além de ter um papo de derrubar poste. Por isso, já havia faturado algumas mulheres casadas e também estava saindo com as garotinhas mais cobiçadas de Manaus. A segunda dificuldade tinha a ver com a rivalidade que começou a surgir entre ele e o pessoal do caratê. O agravante é que Alipinho, meu amigo, era do pessoal do caratê, e eles formavam a elite dominante da cidade, inclusive economicamente falando. Não demorou muito e eu percebi que teria de tomar um partido. As coisas estavam esquentando e não se falava em outro assunto nos círculos sociais de Manaus a não ser no possível “confronto das artes marciais”. Foram três meses de disputa, treinos, fofocas e definições de fidelidades. Acontece que Neto era brilhante e um tremendo estrategista. Já sendo formado em advocacia e jornalismo, via a vida com um olhar duplo. De um lado, era um homem de 24 anos, capaz de falar mais duas línguas além do português e dono de uma vasta memória histórica, pois tanto seu avô quanto seu pai eram figuras eminentes da história do Amazonas e até da vida nacional. Mas, de um outro lado, Neto ainda era um rapaz confuso, desencontrado, buscando um sentido para a sua existência. Vestia-se como hippie e se fazia de louco, mas odiava drogas; falava como comunista e se confessava marxista-leninista, mas não podia viver sem mordomias; condoía-se com a dor do pobre, mas não tinha misericórdia de ninguém quando se tratava de arrebentar quem quer que fosse no tatame ou na calçada, às vezes por quase nada; discursava sobre as causas sociais e econômicas que existiam por trás da prostituição, mas não poupava as caboclinhas jeitosas que passavam na sua frente. Enfim, ele era profundamente contraditório e, ao mesmo tempo, apaixonante e sedutor justamente por isso. Portanto, tomar o partido de Neto foi natural. Com exceção do fato de não usar drogas, ele era tudo aquilo que eu queria ser aos 24 anos de idade, se eu vivesse tanto. Sendo extremamente inteligente, Neto logo percebeu que a sua cruzada Gracie para desbancar todas as outras formas de luta não iria a lugar nenhum, se ele mesmo batesse nos caras. Ele era um deus no tatame, e todos os demais adversários eram mortais fáceis de serem abatidos por ele. Portanto, precisava ser mais sutil. Para ele, o que estava em jogo era mais do que uma luta, era pura ideologia, pois sabia que todos os caratecas e judocas da cidade eram filhos da aristocracia local e, como ele dizia, “tinha prazer em ferrar com aqueles caras”. Neto tinha a mesma história deles, mas odiava ser como eles eram: “alienados e sem nenhuma consciência política”. E Alipinho, para ele, era o símbolo bonito e bem vestido de todo aquele sistema que ele odiava e que resolvera vencer não mediante golpes políticos ou ações guerrilheiras, mas no pau, no braço, na pancada, no chão, na baiana, no armlock e na chave de perna. Assim foi que Neto começou a dizer para mim e Curió que Alipinho era o ser mais fútil, frívolo, burguês e vazio que ele já conhecera. Quando ele falou isso pela primeira vez, eu reagi e disse que não, pois imaginei que ele estava dizendo aquilo apenas porque não conhecia Pinho tão bem quanto eu. A estratégia continuou. O próximo passo foi conquistar Liliane, uma norte-americana-amazonense, mulher linda, de olhos negros profundos e pele tão branca quanto


o branco pode ser sem perder o poder de ser atraente numa pele feminina. Até a chegada de Neto, Liliane saía com Pinho. Mas o guerreiro jogou charme, conversas com ela em inglês, escreveu poesias e, assim, empurrou Pinho para fora do “tatame da menina”. Enquanto isso, ele treinava Curió, Pedro e eu para sermos seus soldados. Celsinho percebeu o que estava acontecendo e se afastou. Alipinho escondia bem a dor-de-cotovelo e continuava se fazendo de desentendido, mas começou logo a notar que eu já não era o mesmo com ele. O olhar dele passou a ficar triste e depois ressentido e magoado quando pousava sobre mim. Sofri um pouco, mas já tinha feito a minha escolha. Era ao lado de Neto que eu marcharia quando chegasse a hora da batalha.


Capítulo 19 “Assim eram os meus companheiros, com os quais eu andava pelas ruas. Com eles eu rolava em esterco como se rolasse em especiarias e ungüentos preciosos. Para me amarrar mais tenazmente à barriga da corrupção, o inimigo invisível me dominou e me seduziu, apenas porque eu estava com desejo de ser seduzido.” Santo Agostinho, Confissões

Em novembro de 1972, havia energia elétrica sendo liberada dos corpos das pessoas na praça do Congresso em Manaus. Os duzentos ou às vezes trezentos rapazes que se reuniam ali não falavam em outra coisa: havia uma grande luta sendo armada. As armas estavam sendo afiadas e os guerreiros treinavam para a hora e o lugar do combate. A praça parecia uma arena de gladiadores. Uns jogavam capoeira, outros faziam katas de caratê, e havia os que saltavam como boxeadores. Bill e seu irmão Adriano eram incrédulos. Acostumados a brigar na rua desde a infância, dançavam protegendo o rosto e diziam: “Eu lá quero saber de estilo. Se cair dentro, leva na cara e sai com o rabo roxo.” E assim as demonstrações de valentia eram constantes. Mas quando Neto e Ricardo apareciam de peito nu e cabelos longos escorrendo pelas costas largas e musculosas, subindo como guerreiros vikings pela avenida Eduardo Ribeiro, em direção à praça, todo mundo disfarçava a valentia e dava lugar a outra atitude: “Comé qui é seu Neto? Comé qui é, seu Ricardinho?”, eram as saudações que se faziam ouvir pela calçada. O confronto, entretanto, não tinha mais como ser evitado. Neto percebeu que Zé Curió poderia representar seus interesses melhor do que eu no confronto físico com os inimigos. Era mais velho, mais forte e socialmente mais amargurado do que eu. Minha amargura era existencial, mas eu não me via como vítima da vida. Não achava que havia nascido em meio a circunstâncias que haviam conspirado contra mim. Para Curió, entretanto, a história tinha sido outra. De vez em quando ele reclamava de suas origens sociais. Portanto, ele era mais recrutável do que eu para aquela missão de desmoralização da burguesia. Eu seria útil, mas de outra forma: minha missão seria ouvir e trazer as informações. Deveria manter-me dentro do outro ambiente, a fim de repercutir as coisas que meu general me pedisse para enfatizar. E assim foi. Quando Neto julgou que tudo estava pronto e que Zé Curió já era imbatível no jiu-jítsu adaptado à guerrilha de rua, ele nos chamou e disse que partiríamos para o confronto. Eu deveria provocar Alipinho e atraí-lo para uma briga em frente ao Ideal Clube, logo depois que a festa do Mingau — o point mais quente de todos os fins de semana — tivesse acabado. Zé Curió chegaria


na hora. Os desabafos aconteceriam. Neto então chegaria e diria que não faria nada porque não era covarde, mas que Curió estava autorizado a representá-lo em qualquer enfrentamento. Aí seria fácil. Ninguém jamais vira Zé lutando — ou melhor, todo mundo sabia que ele não era de sair no pau. Era do tipo baixinho, entroncadinho, de cabelos encaracolados e se gabava de só se “atracar com mulher”, e bonita. “Se você me encontrar agarrado a uma mulher feia, desaparta que é briga”, era o que ele sempre dizia. O grande pulo do gato era que quase ninguém sabia que Zé estava sendo exaustivamente treinado, assim como eu, várias horas por dia, por mais de três meses. Enfim, havíamos ficado bons naquilo, e nem nós sabíamos o quanto. Cheguei cedo ao Mingau. Naquele tempo eu vestia sempre um macacão italiano, todo bordado de flores. Além disso, já fazia alguns meses que eu andava sempre com um chapéu preto, tipo cone, que me dava um toque de bruxo. Como estava nervoso, já cheguei de cabeça feita. Mas a ansiedade era tanta, que resolvi intensificar a loucura. Por isso, tomei também umas e outras e tentei aparentar frieza. Alipinho apareceu na esquina com uma loira linda, chamada Diná, por quem ele era eternamente enamorado. Conversaram um pouco e ela saiu. Ele ergueu o braço, fez o sinal hippie do V de paz e amor e atravessou a rua até a ilha de cimento que havia no meio da avenida Eduardo Ribeiro, onde eu estava encostado num carro. Logo muitos outros chegaram. Quando o ambiente já estava carregado de gente e o papo já era “quem era quem na hora do vamos ver”, eu provoquei. — Não há nesse mundo nada e nem ninguém que agüente enfrentar um lutador como o Neto. O problema é que ele não aceita brigar com gente que não seja do nível dele — disse com veneno, olhando para Alipinho. — Num sei não, bicho, acho o Neto muito bom no chão. O problema vai ser ele chegar perto dum cara como eu. Se me pegar, ferrou pra mim. Mas se eu chutar a cara dele antes, arrebento com ele — gabou-se Pinho, confiando no fato de que seu professor de caratê dizia que o chute dele era um dos mais fortes da cidade. Nesse momento, Neto apareceu sem camisa. Andou pausadamente e entrou pelo meio do grupo, que se abriu num corredor humano, como que ensaiado para a hora. Alipinho ficou pálido e seus lábios tremeram. Então Zé Curió veio subindo e fazendo suas acrobacias na moto 450 Honda. Ninguém falava nada. — E aí, o que qui vocês tavam conversando? Seu Caião, qual era o papo? — indagou como quem já sabia o que iria ouvir. Com a bola quicando na minha área, foi fácil chutar. Entreguei Pinho sem piedade. Todos estavam gelados. Alguns amigos de infância de Alipinho, como Muchacho, tinham dito que se Neto fizesse alguma covardia contra o rapaz, todo mundo iria entrar na briga, mesmo que fosse para apanhar. Quando eu entreguei meu antes-melhor-amigo, Neto continuou: — Eu não preciso provar nada a ninguém. Mas posso provar o que estou falando por meio de seu Zé. Cês todos sabem que ele num é de briga. Mas seu Zé tá aí, pronto pra mostrar quem é homem e quem num é aqui nessa joça. Mal ele falou isso, Zé pulou da moto e andou na direção do corredor humano. Pinho estava lá no fundo, em posição de defesa. Vestia uma calça de cetim preta e uma camisa metade amarela, metade preta. Estava pronto, porém morrendo de medo. No entanto, quando ouviu que era o Zé que estava sendo oferecido para a peleja, deu uma risadinha cínica que ele sempre usava para gozar das pessoas com alguma provocação, mas que quem o conhecia sabia que ali não havia


maldade. A risada começava com um hum, hum, virava há, há, há, e então crescia para uma gargalhada estridente, enquanto ele tomava ar ao mesmo tempo, o que dava ao som um zunido tanto metálico quanto animal. Eu sempre gostara daquela gargalhada dele. Mas, naquele dia, foi o sinal de convocação para a guerra. Ele nem acabou de rir e já estava no chão. Zé Curió partiu para cima dele com tanta gana e força, que Pinho não conseguiu nem pular para trás a fim de esboçar seu famoso e poderoso chute de frente. — Pára com isso, Zé. Sou eu, teu amigo. Lembra? Esse cara nos dividiu. Ele não é nosso amigo — exclamava meu ex-melhor-amigo, enquanto era mantido imóvel por Curió, imprensado contra um carro, sofrendo a pior humilhação pública de sua vida. Nós saímos dali com um esquisito sentimento de vitória, mas o único aparentemente feliz era Neto. Curió e eu estávamos nos sentindo estranhos, pois percebemos que havíamos acabado de assinar uma confissão pública de cafajestagem do pior tipo. Não era exatamente culpa o que eu sentia, pois minha mente andava bastante cauterizada. Havia, entretanto, um sentimento de desconforto, de descolagem interior. Era como se algo tivesse ficado solto dentro de mim. Por isso, tive de afogar aquilo sob muita maconha e cachaça, para ver se minha mente encontrava outro cenário que não fosse aquele de centenas de pessoas paradas, vendo alguém a quem eu havia amado como amigo, ser humilhado por mim e Zé, enquanto nós nem bem sabíamos exatamente por que estávamos agindo daquele modo. Neto continuou conosco mais alguns dias. Durante o período curtimos todas as glórias daquele perverso triunfo. Assim, tomamos posse dos despojos de guerra: eram loiras, morenas, solteiras e até casadas. Era a festa dos vikings em meio à floresta. Nós sabíamos que, quando Neto fosse embora para o Rio, teríamos de assumir nossa valentia contra tudo e todos. Por isso, quando ficávamos sozinhos, Zé sempre me dizia: “Poderoso Caião, temos de treinar, bicho. Pára de fumar tanta maconha assim. Se os caras nos pegam doidões, a gente dança.” Além disso onde quer que fôssemos Curió queria que eu estivesse sempre em guarda. “Prepara pra baiana!”, gritava ele de vez em quando, referindo-se à entrada do jiu-jítsu nas pernas do adversário para levá-lo ao chão e esmagá-lo como uma jibóia faz com suas vítimas, matando no acocho. Neto voltou para o Rio e nos deixou órfãos contra a cidade toda. A polícia andava atrás da gente por causa dos negócios do Zé. Os pais de família estavam cheios de ódio de nós porque havia o zunzunzum de que algumas das senhoras suas esposas estavam sendo traçadas pelo grupo de guerreiros. Além disso, os garotões da cidade também queriam a nossa cabeça, especialmente a de dois traidores como eu e Zé, que havíamos trocado nosso direito de primogenitura pelo aprendizado de uns golpes de jiu-jítsu, “a luta dos demônios”, alguns diziam. Andávamos olhando por sobre os ombros. Zé tinha um revólver e disse que ia mantê-lo próximo. “Se os caras quiserem pau, tem pau. Mas se quiserem fazer covardia, passo chumbo”, dizia ele, realmente decidido a fazer o que fosse necessário. Em razão de tudo aquilo, nossas amizades e círculos mudaram completamente na cidade. Onde quer que eu chegasse, todo mundo se retirava. Havia um ódio generalizado contra nós. Mas contra mim, por razões óbvias, a bronca era maior. No primeiro fim de semana de nossa orfandade, Zé e eu saímos no jipinho Citroën dele e paramos para conversar com umas meninas na praça do Congresso. Era domingo à noite. Estávamos ali, com “um olho no padre outro na missa”, quando, de repente, começamos a ver um monte de carros e motos irem parando à nossa volta. Ficamos ilhados. A burguesia inteira estava


lá. Creio que pelo menos 65% do PIB do Amazonas estava ali representado nos filhos dos homens mais poderosos do estado, todos nos cercando, raivosos. Percebi que era a hora da vingança. Iríamos ser descarnados vivos por eles. Mas como Manaus era uma cidade de muitos pobres, e Zé era homem da beira do rio Negro, devagar começaram a chegar motoqueiros pobres e suburbanos de todos os lugares. Em vinte minutos, o circo estava montado e tudo indicava que o pau ia cantar, a menos que a questão fosse resolvida com a “diplomacia de Davi e Golias”, ou seja, dois brigariam, os outros assistiriam. Foi quando apareceu Armandão, com seus braços musculosíssimos, andando como um troglodita, cheio de maconha na cara, vindo na nossa direção. — Olha aqui, bicho, o que cês fizeram com o seu Alipinho não se faz com ninguém. Hoje nós vamos tirar isso a limpo — ele foi logo dizendo, enquanto jogava o sapato para longe e começava a rodar com suas posições de lutador de caratê experiente. A comparação física entre Zé e Armandão era ridícula. Havia pelo menos uns trinta centímetros de diferença de altura entre eles, a favor do grandalhão. O peso, nem falar. Armandão devia ser uns 35 quilos mais pesado que Curió, ia ser um massacre. Para completar, sem a força moral de Neto, nós éramos a metade dos guerreiros de uma semana antes. A minha surpresa foi ver o Zé pular do seu canto como um galinho de briga, valente e suicida. — Armandão, bicho, num tenho nada contra você. Cê é meu brother de viagem e de transação. Mas se tu quer caí dentro, eu tô aqui cara. É só tu aparecer — e foi logo correndo igual a um alucinado para dentro das pernas de Armandão. A distância que os separava era de uns dez metros. O imenso Armandão mandou um petardo no meio da cara do Zé, mas a velocidade da baiana do Zé foi tão grande, que o chute entrou de resvalo, arrancou sangue, mas já era tarde. Nas pernas de Armandão, Zé continuou com a velocidade que vinha e saiu carregando o bicho mais uns três metros, antes de fazê-lo despencar no chão com as costas contra o meio-fio. Daí em diante, foi só subir nele e amassar a cara do rapaz. Bateu como quis, enquanto eu, Bill, Aires e mais alguns amigos nos juntamos para garantir que a luta seria justa, ou seja, só dos dois. Três minutos depois de começar a bater em Armandão, Curió levantou-se sozinho, deixando o outro estirado no meio da rua. Andou ofegante, resfolegante, quase sem ar. Parou, respirou fundo e fez um discurso de filme: “Sou eu, Zé das Candongas. Sou invencível e sou gostoso. Quem não me respeitar, apanha, bicho.” Rimos e gargalhamos, pulamos no carro e fomos comemorar nossa glória na Ponta Negra com umas meninas que pegamos ali mesmo, na arena da vitória. Enquanto isso, papai e mamãe não faziam outra coisa por mim a não ser orar. Decidiram que, acontecesse o que acontecesse, eles haveriam de ganhar a guerra do jeito deles, ou seja, de acordo com a Bíblia: “nem por força, nem por violência, mas pelo poder do Espírito de Deus”. Em relação a mim, estavam calados, mas falavam com Deus sobre mim de dia e de noite. Aquela sim, era uma batalha da qual eu não tinha nenhuma chance de sair vencedor.


Capítulo 20 “Não havia disciplina para me conter, o que me levou à dissolução sem rédeas, em muitas e diferentes direções. Em tudo havia uma densa névoa me cegando os olhos, assim eu não conseguia ver o brilho deTua face, meu Deus, e minha iniqüidade era como se fosse ‘saída de minha própria gordura’.” Santo Agostinho, Confissões

Novembro corria pelo meio e, portanto, 1972 estava chegando ao fim. Com o clima de hostilidade que se criara na cidade, Zé e eu evitávamos os lugares badalados demais. Um dia eu estava com ele na casa de uma de suas mulheres quando entrou um homem pela sala, com uma pistola na mão. Ele parecia que tinha muita moral sobre o Curió. Não disse nada, mas os dois obviamente se conheciam muito bem. — Desliga essa porcaria — gritou apontando para o som ligado altíssimo num canto da casa. — Zé, tu num toma jeito. Os home tão pondo pressão in mim pra ti pegá. Vê se toma juízo. Tu dá bandêra demais, cara. Agora vive in coluna social. Tá brigando cun gente grande e vai dançá. Os cara ti matun, bicho. Num dá essa moleza, não — disse com professoral vulgaridade. Zé estava ali, parado, calado, ouvindo como se o homem da pistola fosse um padre, um pastor, um sacerdote de Deus. Eu é que não entendi nada do que estava acontecendo. Quis perguntar quem era o cidadão, mas ele não deixou. Antecipando-se, olhou para mim, depois para o Zé. — Quem piorô a tua vida foi esse mau-elemento. Tem cara de bom garoto, mas ti botou nessa fria. Larga esse cara. Ele vai dançar — ele disse e saiu do jeito que entrou. Curió ouviu aquilo, esperou o homem se afastar, e caiu no chão dando gargalhada. — Ai, ai, eu num agüento. Cê viu, seu Caião? Os cara acham que eu sou o bom garoto e que tu é o mau-elemento. Eu nasci de bumbum pra lua, bicho. — Quem é esse cara, Zé? Comé que ele entra aqui e diz esses negócios? Quem são os “home” que querem ti fechar? — perguntei, nervoso e amedrontado. — Ele é da Federal e é quem me garante lá. O cara é gente boa. Eu lavo a mão dele de vez em quando, aí ele fica calmo. O problema é que o cara ti cunhece, bicho. Melô. É melhor tu caí fora da cidade. Também cum esse cabelão, essa cara de doido e essas roupa extravagante, o que qui tu queria? — e caiu na gargalhada mais uma vez. Eu fiquei preocupado. Naquela noite fomos à boate dos Ingleses. Chegamos devagar e ficamos quietos. Todo mundo estava lá. O clima estava horrível, pesado. Eu podia sentir hostilidade no olhar de quase todos. Vi uma garotinha atraente num canto, fui em cima e comecei a dançar com ela. Ficou bom pra mim e convidei-a a ir lá fora.


Quando ia passando com ela pelo corredor escuro, cheio de gente, senti a primeira cadeirada nas minhas costas. Depois foi uma sucessão de socos, pontapés, murros e copadas, todas pelas costas. Rápido, eu pulei sobre as mesas e atropelei quem estava na minha frente. Uns amigos que ainda restavam correram para me ajudar. Outros que não eram amigos correram também, apenas movidos por um estranho senso de justiça muitas vezes presente nas pessoas e nos lugares mais improváveis. Quando eu me achei, já estava do lado de fora da boate. Dezenas, talvez centenas de pessoas estavam gritando lá fora. Vi Zé Curió, percebi a presença de Bill, Nego Aires e de alguns outros que pareciam estar do meu lado. Eu estava muito doido de maconha e outras coisas, incluindo whisky. Apesar de tudo, entretanto, eu estava lúcido e vendo tudo no lugar. Respirei fundo e percebi que quatro rapazes estavam destacados do grupo. — Quem foram os bichas que me atacaram? — comecei a gritar com ódio. — Foram aqueles cocôs que estão ali — Zé foi logo dizendo e apontando para Luís Carlos Areosa, o filho do governador do estado, e três outros riquinhos da cidade. — Quem vai cair dentro? Com os quatro de uma vez eu num dô conta. Mas se vier de um por um, eu bato nos quatro — eu disse sem saber se tinha energia para brigar tanto tempo. O filho do governador ficou na dele, quieto. Os dois outros também ficaram calados. Mas um moço grande, branco, com entradas precoces de calvície, rico e conhecido biritador, chamado Carlinhos, disse que ele tinha mandado as cadeiradas nas minhas costas e que teria prazer em me trucidar. Correu para cima de mim. Sendo mais velho uns quatro anos, mais forte e mais alto, saiu me cobrindo de braçadas e de chutes. Eu fiquei frio e fiz tudo o que Neto tinha me ensinado. Usei a força dele contra ele próprio, derrubei-o, machuquei-o muito já na queda no chão de paralelepípedos, passei a guarda das pernas dele, sentei sobre aquela barriga cheia de whisky, e bati forte, cadente e impiedosamente. Como a briga aconteceu no meio da rua e o chão era de pedras lisas e duras, além de castigar o rosto dele, comecei a bater a cabeça do rapaz contra o paralelepípedo. Carlinhos perdeu os sentidos e pensei que estivesse morto. — Ele tá morto. Bicho, tu matô o cara. Corre daqui — era o vozerio que eu ouvia. Zé Curió arrancou-me de cima dele, gritou que nós estávamos às ordens para quem tivesse alguma pendência, pôs-me no jipinho, e saiu em disparada, antes que a polícia chegasse. Eu estava cansadíssimo. O ar quase não me entrava pelas narinas, tamanha era minha ansiedade de respirar. Então, ouvi um sermão. — Cara, você tem um jeitão maravilhoso para brigar. Tem pose, tem ginga e é frio. É uma pena que cê se cuide tão pouco. Se tu malhá um pouquinho só e fumar menos maconha, tu vai ficar um guerreiro da pesada — disse Zé como candidato a ser meu técnico de jiu-jítsu. No dia seguinte o jornal estava uma comédia, segundo o ponto de vista de meus irreverentes amigos. Na página policial havia a história da briga que quase acabara em morte, tendo a vítima sido internada para tratamento médico, enquanto o agressor, um candidato a marginal chamado Caio Fábio, fugira escoltado pelo seu mentor, Curió. Na segunda página, entretanto, a notícia era outra: Inaugurada a fábrica de compensado três pinheiros. E a notícia contava que o reverendo Caio Fábio havia abençoado a inauguração daquela iniciativa e pregara uma mensagem que havia feito muito bem a todos os presentes, incluindo várias autoridades. A gozação sobre mim foi inevitável. — Um pai cun um filho como tu, nun precisa crê no diabo, bicho. Basta falar cuntigo — diziam.


Eu, entretanto, sentia uma horrível depressão e não sabia por que minha alma estava tão infeliz. No dia seguinte, vi que minha situação na cidade estava realmente feia. Estava sentado na praça do Congresso por volta das dez da noite, sozinho, depois de ter passado o dia dentro d’água, num igarapé, com o Zé e umas meninas. Também estava cansado e com muita vontade de ir para casa dormir. Naquele dia o que eu queria era ficar longe de tudo aquilo, mas o vício de certos ambientes e geografias é, por vezes, mais forte que o vício da cachaça. Era perigoso ir à praça do Congresso naquela noite, mas foi para lá que eu fui. De súbito, vi três carros pararem e deles saíram cinco homens de uns 25 a trinta anos. Um deles eu conhecia; era irmão do rapaz que eu tinha mandado para o hospital na noite anterior. Ele veio andando, parou a uns cinco metros de distância, e disparou: — Seu safado! Você pensa que pode sair batendo em gente de bem e que as coisas ficam assim? Olha, não dá pra sair no tapa contigo, mas dá pra ti meter uma bala no meio da cara e ninguém fica nem sabendo. Sai da cidade, senão a gente manda te executar. Entraram nos carros e foram-se dali, cantando pneu para todo lado. Quando Zé voltou do passeio com uma das meninas, eu contei o que havia acontecido. Para piorar a situação eu fiz mais uma besteira imperdoável. No dia seguinte à noite, eu e Curió estávamos andando de jipinho quando vimos duas meninas em pé, dando mole. Paramos, convidamos as duas para um passeio, e elas toparam. No caminho para a praia de Ponta Negra elas já estavam muito à vontade. Pareciam garotas experientes naquele tipo de programa. Quando chegamos lá, Zé e eu nos separamos, cada um com uma garota. Ficamos a cerca de trezentos metros um do outro, na escuridão da areia. Meia hora depois nos encontramos no carro e, assim que entramos, a menina que estava comigo começou a chorar. — Esse desgraçado me desvirginou. Eu disse que era virgem, mas ele fez assim mesmo. Eu disse que não queria, mas ele não me ouviu. Vou contar para o meu irmão que ele me estuprou. Ele vai matar você, seu desgraçado — ela gritava. Eu reagi dizendo que ela realmente tinha dito “não”, mas que, ao mesmo tempo, parecia me puxar para cima dela. Em momento algum, expliquei, julguei que a estivesse violentando. Parecera-me um típico “jogo de dificuldade”, apenas para fazer tudo mais sedutor ainda. Mas que nada. Ela continuou a gritar, histérica, e a fazer promessas de morte. Foi quando Curió interrompeu. — Seu maluco, você só me apronta. A menina era virgem sim. Eu “brinco” com ela, mas nunca consumo. E o irmão dela é mau. É um policial dos mais violentos da cidade. Se ela falar, ele ti mata. Cê tem que dá o fora daqui. Uma semana depois daquilo meu pai me chamou em casa e disse que havia um crente da igreja dele que tinha um assunto muito importante a me falar. Perguntei o que era, mas ele disse que não sabia. Procurei Antônio, o tal “irmão”. Conversamos e ele me disse que não dissera a meu pai o teor do assunto porque não queria preocupá-lo, mas achava que eu precisava saber. — É que eu tenho um amigo na Federal e ele me disse que você está numa lista negra. Você é o terceiro. O teu amigo Zé é o segundo. O primeiro, eu não sei quem é. Eu não sei o que você anda fazendo da vida, mas é melhor você sair de Manaus — disse com sincera preocupação. Expliquei a ele que eu não fazia nada que merecesse cuidados da Federal. Entretanto, como eu andava metido em coisas que estavam fazendo gente grande ficar com raiva, talvez fosse por isso que eu estivesse naquela lista. De qualquer modo, agradeci e comecei a me preparar para sair de Manaus. Liguei para o Neto e decidi ir para o Rio de Janeiro, e morar com meu mestre e guru.


Capítulo 21 “Eu vim para Cartago e tudo ao meu redor emanava um aroma de amores ilícitos... Eu procurei um objeto para o meu amor e me apaixonei. Apaixonei-me não por alguém, mas pelo amor. Eu odiava a segurança que caminhos livres de serpentes venenosas pudessem me dar.” Santo Agostinho, Confissões

Em apenas dois anos eu havia mudado tanto, que era como se dez anos tivessem se interposto entre meus pais e mim. E pior: era como se naquela década que se interpusera entre nós não nos tivéssemos visto ou falado. Eu não sabia quem eles eram, mas eles também não tinham a menor idéia de quem eu havia me tornado. É quase sempre isso o que acontece com os pais. Assim, o que reinava entre nós era a lei do silêncio e da distância, pois desde o dia que eu dissera a papai que se quisesse me disciplinar viesse preparado para apanhar, ele resolvera que, se eu ainda fosse “educável, redimível e alcançável”, isso, certamente, não seria por nenhum outro poder que não o do amor e o da amizade. Portanto, eles se mantiveram discretos e cordatos, limitando-se a diminuir ao máximo a tensão que vazava de mim para eles todas as vezes que nos víamos. Chegar até papai e comunicar que eu estava indo para o Rio, sozinho, morar com amigos foi tão fácil quanto avisar que eu ficaria alguns dias sem dar as caras em casa. Ele ouviu, abaixou a cabeça, tentou ponderar alguma coisa, mas percebeu que seria absoluta perda de tempo, com o agravante de que poderia romper os últimos fiapos de vínculo que ainda me prendiam a eles. Perguntou apenas como eu iria, e eu respondi que o Zé estava me dando a passagem, o que foi ótimo porque eu o poupei de precisar me dizer que ele não teria como financiar meu afastamento de casa e da cidade. No dia da viagem eu saí cedo com o Curió e fomos a um cabeleireiro. Meu cabelo estava comprido, abaixo do ombro, mas caía encaracolado sobre as minhas costas. Eu queria chegar no Rio com algo digno da loucura que estava acontecendo lá. Por isso, mandei fazer black power no pêlo. Quando voltei para casa a fim de pegar uns poucos objetos que eu estava levando — uma malinha e uma bolsa a tiracolo de couro cru —, mamãe olhou para mim e seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela não disse nada, mas era como se perguntasse: “Como é que aquele garotinho do gagau, da coqueluche, do amor pelo Tarzan, da casinha no quintal e da paixão pelos rachas de futebol, pôde ficar assim, tão distante e tão indiferente?” Eu apenas beijei Aninha, de sete anos, abracei Suely e Luiz, beijei mamãe na testa e disse:


“Fica firme, poderoso Caião”, referindo-me a papai, que, meigo que era, não podia conceber que uma despedida daquela acontecesse sem um beijo e um abraço. Ele me olhou com lágrimas nos olhos, andou calmamente no compasso de sua muleta mágica, e pediu autorização para me dar um beijo. Sem graça, eu tive que deixar. Zé Curió estava ali e eu fiquei com medo da gozação que ele pudesse fazer depois. Mas quando entramos no carro, o Zé me disse: “Bicho, teu pai é o maior barato. Com um pai desse eu não seria como você de jeito nenhum, nem em cem anos. Tu é muito ruim, bicho.” Fiquei ali, sentado no jipinho, perplexo com o que estava ouvindo. As pedras estavam clamando e eu era o último a discernir a sua voz. Mas não havia tempo para sentimentalismos. Em Manaus não dava mais para ficar, e eu iria para o Rio fazer o que a vida pedia de mim. Cheguei à Cidade Maravilhosa de madrugada. Como não havia ninguém me esperando, preferi pegar um táxi e ir direto para Niterói. Gritei na porta da casa do reverendo Antônio Elias. Eles acordaram sem saber o que era, reconheceram-me com alguma dificuldade debaixo daquele cabelo enorme, chamaram-me de filho, deram-me um lanche e fizeram-me dormir numa sleeping-bag que tinham em casa. Não dormi a noite inteira, lutando contra os mosquitos, que naquele tempo inundavam como enxames o bairro de São Francisco. Somente lá pelas cinco da manhã eu consegui adormecer. Passei alguns dias com eles, mas meu coração estava nas fantasias que me aguardavam em Copacabana, no próximo fim de semana. Quando o sábado chegou, atravessei a baía de Guanabara e às quatro horas da tarde encontrei Ricardinho na porta da casa deles, na rua Aires Saldanha. Depois de um longo abraço, ele me levou direto para a esquina da rua Bolívar com a avenida Atlântica. O cheiro de maresia inundou-me a alma, respirei fundo e disse: “É aqui que meu coração vai sentir todas as emoções dessa vida.” Neto chegou e me apresentou às figuras mais interessantes que eu já havia conhecido até então. Onde íamos passando as pessoas falavam com o “meu guru” com reverência. Era como se um general andasse pelas ruas, passando as tropas em revista. De repente, ouvi um zunzunzum. — Oba, o pau vai cantar, bicho. O Reison vai lá dentro da Senzala — disse Ricardinho. Eu não sabia o que era, mas me candidatei a ir junto. Lotamos vários ônibus na rua Barata Ribeiro e chegamos a um lugar próximo ao Canecão. Corremos pelas ruas e invadimos um lugar onde havia um monte de capoeiristas jogando capoeira. Reison era considerado um deus. Sendo um dos gênios do jiu-jítsu dos Gracie, luta que seus pais haviam desenvolvido e aperfeiçoado, ele era invencível no tatame e esmagador na briga de rua. Diziam que havia mais de vinte processos legais contra ele apenas nos últimos dois anos. Eram braços quebrados, pernas fraturadas, narizes arrebentados, clavículas despedaçadas — enfim, era a máquina de quebrar ossos Reison, funcionando contra garotões de praia que o haviam provocado inadvertidamente, porteiros de edifícios que tinham feito pouco de seu loiríssimo cabelo longo e cacheado, ou jovens empresários, bonitos e atléticos, que, não tendo gostado de um beijinho ou de uma piscada que o loiro louco dera para suas mulheres, haviam resolvido enfrentá-lo, sem saber que aquele pequeno homem era letal. Mas “o pau não cantou” na Senzala. O capoeirista-mor do lugar aproximou-se de Reison com humildade e pediu que ele entrasse na roda para “jogar” capoeira com eles, amistosamente. Ricardinho, sentando ao meu lado, disse que Reison costumava dizer que capoeira não era luta, era dança, e como ele não dançava bem, não gostava de capoeira. A moçada delirou quando ele entrou na roda e, desajeitadamente, tentou jogar com os baianos De Mola, Mestre Angola e outros. Duas horas depois a festa acabou entre beijos e


abraços, e nós voltamos para a esquina da Bolívar com a Atlântica. Tarde da noite eu fui para a casa dos pais de Neto e dormi no quarto dele. No dia seguinte, fui apresentado à família. Os pais dele me receberam muito bem em consideração aos meus avós e pais, antigos amigos da família do senador Arthur Virgílio. A irmã, Aninha, tratou-me com especial carinho. Mas uma tia que morava com eles me olhou e me odiou. Eu senti que, se eu fosse ficar ali, a minha vida seria miserável por causa daquela mulher. Ela me fuzilava com um olhar gelado e cheio de desprezo. As primeiras duas semanas em Copacabana foram quase totalmente caretas. Neto e Ricardinho detestavam drogas e me doutrinavam contra elas o dia todo. Entupiram-me de suco de melancia, forçaram-me a correr na praia todas as manhãs e obrigaram-me a mergulhar no Arpoador e nadar até ao píer com eles todos os dias. Não fosse por um conhecido de Manaus que já estava morando no pedaço havia alguns anos, e eu teria “encaretado”. Carlos Alberto, entretanto, sempre que me encontrava me dizia: — Esses caras são doidos sem droga. Mas você não é como eles. O teu barato é outro. Você gosta é de viajar — e aí me colocava na mão um ou dois baseados e desaparecia. Os treinos na academia também eram diários e, em geral, iam das cinco da tarde às oito da noite. Depois, era suco de melancia, Zepelim, Le Bateau e New Jirau até uma da manhã. No fim de três semanas, eu estava meio cansado de tanta ginástica e pouca droga e mulher. Assim, pensei em ir a Niterói ver se por lá as coisas estavam mais loucas Em Niterói reencontrei a maconheirada toda que eu conhecia no Ingá, em Icaraí e São Francisco, e fiz festa. Também pude verificar que Fernandinha tinha se recuperado completamente de mim e que estava namorando um garoto que eu conhecia. Quando a vi e não senti nada, fiquei chocado. Nunca pensei que o coração fosse capaz de se desligar de um antigo sentimento com tanta certeza. A minha estada em Niterói naquele período teve duas marcas distintas. A primeira é que as lembranças da fé ali estavam muito mais fortes dentro de mim do que eu podia imaginar. Tanto é, que no primeiro domingo que estive na cidade aconteceu-me algo que, naquele tempo, só poderia ser explicado como sendo o poder da fé me impedindo de fazer algo que poderia magoar gente que me amava. O episódio tem a ver com uma visita que fiz a uma família de gente amiga de meus pais. Quando cheguei, não havia ninguém em casa, exceto a filha deles, de uns vinte anos, sozinha. Ela estava com um shortinho curto e provocativo. Conversamos sobre o namorado dela e fiquei sabendo que ele lhe havia tirado a virgindade alguns meses antes. — Agora, que não tenho mais o que proteger, tô aberta pra te conhecer. Vem que eu não digo pra ninguém, mas você também tem que ficar calado, tá? — disse a menina, virando-se para mim. Em circunstâncias normais, eu não teria nem deixado que ela chegasse ao ponto de me convidar. Com certeza eu a teria abordado tão logo percebesse o fogo nos seus olhos. Mas naquele momento, e naquele lugar, algo estranho aconteceu comigo. Lembrei-me de mamãe dizendo que aquela menina era muito especial para seus pais, que colocavam muita expectativa sobre ela. — Olha, meus pais são amigos dos teus. Eu já desgracei a minha vida. Não quero fazer mal a ninguém próximo a mim — eu simplesmente disse, embora estivesse louco de desejo, e fui embora. A outra situação que me atingiu ali foi a de uma angustiante percepção de que não havia qualquer perspectiva de vida para gente que vivia como eu. Procurei por Atum, Zé Bumbum e outros, e vi que estavam em meio a um processo de alucinação e loucura. Estavam mal, e era algo feio de ver. O romantismo das drogas começava a desaparecer dentro de mim.


Retornei a Copacabana sem saber o que fazer. Mas tão logo voltei, Neto me disse que Zé Curió estava chegando de Manaus. Fui ao aeroporto buscá-lo e vi meu amigo entrar em Copacabana com o ar de reverência com o qual os iniciados adentram os santuários mais sagrados do mundo. Para nós, amazonenses, aquele era o santo dos santos da alucinação e das vaidades. Zé dançou na calçada, saltou e correu como louco pelas ruas, gritando: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Com a chegada de Zé, minha vocação para a galinhagem retornou imediatamente. Logo descobrimos que Ipanema e Copa estavam cheios de garotinhas do Sul, perdidas, querendo qualquer tipo de aventura. Fizemos nossa cama ali. E como o dinheiro estava curto, começamos não só a usá-las para nosso consumo pessoal, mas passamos também a “alugá-las”, na esquina da Aires Saldanha com a Bolívar, para os coroas que passavam de carrão. A nossa vida não podia ser mais contraditória. Vivíamos como loucos — nas drogas e na cama com as meninas —, mas não deixávamos de lado as disciplinas físicas impostas por nosso guru, Neto. Na praia conhecemos as figuras mais folclóricas e extravagantes que poderiam existir. Aquilo tudo, para nós, era como um curso de antropologia aplicada às esquisitices da urbanidade. Era fascinante mergulhar na multiplicidade de experiências e percepções do mundo que ali havia. Naquele mês de dezembro de 1972 aprendi, em Copacabana, por que garotões como eu entravam para a academia dos Gracie. Havia gente de todos os níveis por lá: médicos, advogados, policiais, porteiros de edifício e empresários. Mas a moçada mais jovem entrava para a academia para aprender a quebrar a cara dos outros em briga de rua. Naquele período, em apenas quatro meses participamos em mais de 15 brigas de rua. Em duas delas, até um grupo de choque do Exército foi chamado. A primeira vez foi quando quebramos todo o New Jirau, no dia de sua reinauguração, após um incêndio que lá havia acontecido. No meio do quebra-quebra, ouviu-se o grito: “Um batalhão de choque chegou.” Aí nos espalhamos pelas ruas de Copacabana, fugindo dos militares. Na outra ocasião, fui eu o objeto do conflito. Tendo sido convidado por um certo Batata para uma festa na rua Toneleros, fui e entrei, sem querer saber onde estava e quem eram os donos do luxuoso apartamento. Todos usavam roupas elegantes e a coisa parecia ser de altíssimo nível. Eu, entretanto, estava de macacão francês, colado ao corpo magro e musculoso, sem camisa por baixo, fazendo questão de expor minha sensualidade o mais que pudesse. Como vi uma mulher loira, de uns 28 anos, sozinha no meio da sala, fui lá e comecei a dizer o quão linda era ela, que sorriu com um ar de contentamento diante de um galanteio tão imediato e descarado. Foi quando seu marido chegou, pegou-me pelo braço e começou a querer me expulsar da sala. Eles eram muitos e eu estava sozinho naquele ambiente estranho. Peitei o homem e depois me retirei fazendo ameaças. Quando cheguei ao Cabral 1500, nosso ponto de encontro, contei o episódio para Curió e Ricardinho. Em poucos minutos uns quarenta rapazes da academia já estavam mobilizados para a guerra. Fomos lá e cercamos o prédio. Até às duas da manhã ninguém saiu da festa. Ficaram sabendo e recolheram-se lá dentro. Mas como um dos presentes era do serviço de segurança do exército, chamou um choque da PE. Não demorou e estávamos cercados de soldados armados. Corremos pelas ruas escuras e desaparecemos pelo bairro Peixoto.


Capítulo 22 “Numa ocasião, na adolescência, eu ardia por encontrar satisfação nos prazeres animais. Assim, eu corri selvagem pela floresta sombria das aventuras eróticas. Dessa forma, minha beleza se foi e eu apodreci ante os Teus olhos, ó Deus. Mas ao tentar me dar prazer, o que eu realmente buscava era obter aprovação humana.” Santo Agostinho, Confissões

No nosso caminho aparecia de tudo: artistas de televisão e cinema, músicos de renome, prostitutas da elite, cafetões de empresários e políticos, meninas virgens pela frente e marias-batalhão por trás, homossexuais musculosos e bons de briga, homens casados com mulheres lindas, mas que na moita não resistiam ao charme de um surfista etc. Enfim, era um circo de vaidades, perversões e doenças da alma. Para Zé e para mim aquilo tudo era parte do jogo da sobrevivência, e nós nos relacionávamos com todos aqueles segmentos de modo a tirar deles o máximo de vantagem possível. Mas como a situação financeira apertou, decidi ver se uma certa maneira de fazer dinheiro poderia funcionar. Ora, eu tinha ouvido na academia que alguém de lá havia encontrado com Pedrinho Aguinaga — considerado na época o homem mais bonito do Brasil —, que o vira com um mulherão e lhe dissera: “Olha aqui, cara, você tá tirando essa onda toda porque é bonito. Cê sabia que eu tenho o poder de ti fazer o cara mais feio do Brasil em dois minutos?” A lógica do negócio era a seguinte: homens bonitos demais não gostariam de se arriscar a levar uma surra na frente de suas mulheres. Saí dali e comecei a procurar homens bonitos pelas ruas do bairro. Não deu outra. Veio o primeiro, com uma mulher linda. Tinha uns 21 anos e cara de quem carregava dinheiro no bolso. Parei na frente dele, olhando para a mulher que o acompanhava e dando soco de uma mão contra a palma da outra. — Cara, você é bonito à beça. É uma pena que eu seja muito bom de briga e consiga te fraturar a cara rapidinho — disse. A resposta foi súbita. O moço arregalou os olhos, olhou para a mulher, viu que podia ser verdade, e disse: — Pára com isso, bicho. Eu sou de paz. O que qui cê quer? Aí, então, eu disse que precisava de grana, e ele me deu tudo o que tinha. Agradeci, elogiei a mulher dele, e saí andando na direção oposta. Passei o resto do tempo fazendo aquilo. Sempre funcionou, exceto uma vez. Naquele dia, resolvi abordar um homem com cara de militar. O problema é que eu já estava tão cara-de-pau que havia perdido completamente o receio. Nas cinqüenta vezes anteriores, eu


havia ficado na situação de um assaltante desarmado e gostara do negócio. Daquela vez, entretanto, pisei na bola. O homem estava com a família, comendo numa lanchonete que havia na rua Bolívar, em frente ao Cabral 1500, do outro lado da rua. Cheguei devagar, braços inchados de exercício, cara queimada de praia, cabelos longos, bem abaixo do ombro, e olhos de maluco disposto a qualquer coisa. O homem era alto e forte, mas estava acompanhado da mulher e dos dois filhinhos. Achei que sozinho ele era do tipo que brigaria. Mas com a família, talvez preferisse pagar para ficar livre da chateação. Minha abordagem daquela vez foi diferente. — Senhor, eu sei que um homem do seu tipo é generoso. Eu estou voluntariando o senhor a dar um bom exemplo para a sua mulher e filhos. Passe-me grana suficiente para matar minha fome e a de meu amigo. Ele olhou para mim com um ar de segurança. — Por que é que você acha que eu vou fazer isso? — perguntou. — Porque você é gente boa, mas também porque você sabe que, se num passar a grana, apanha — respondi. Ele ficou vermelho de raiva. Pensei que fosse explodir. Depois, olhou para a esposa e os filhos, que àquela altura já estavam agarrados às pernas dele. — Seu moleque, vá ali fora, olhe a placa daquele carro e depois venha cá — disse. Era um carrão preto, com chapa branca. Vi, ainda, que do outro lado da rua havia um outro carro preto, também com chapa branca. — Eu sou coronel do Exército e tô com uma vontade danada de ferrar você. Mas eu não sei por que não vou fazer isso. Alguma coisa me diz que você não é ruim, só está perdido. Saia daqui e nunca mais faça isso. Se fizer, vai dançar — ele me avisou. Virou-se de costa para mim e recomeçou a comer seu lanche, na maior moral. Eu andei pela rua com um monte de gente me olhando pelas costas, sentindo-me um rato. Ali, todo dia acontecia de tudo. Era como se o mundo todo, com suas inúmeras complexidades, coubesse inteiro no espaço daquela geografia e dentro de nossas horas e alucinações. Entretanto, algo estranho começou a me acontecer. Uma noite, eu estava andando pela praia com uns amigos para fazer hora para ir a uma festa na Lagoa quando, de súbito, vi uma mulher negra, de olhos arregalados, correr na minha direção. Ela começou a tremer e a dar demonstrações que um espírito estava se apossando dela. Minha cabeça rodou e eu comecei a sair de mim. Era como se outro ser estivesse me dando um chega pra lá interior e eu não tivesse forças para impedi-lo. Tudo rodou e escureceu. Eu parei, desesperado. A sensação era horrível. Parecia que a morte estava dizendo que faria morada em mim. Pedi socorro a Deus e recitei o Salmo 23, lembrança da Mãe Velhinha e da Escola Dominical. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo”, gritei para dentro de minha própria mente. A coisa fugiu. Sentei num banco do calçadão e não consegui falar. Meus maxilares haviam enrijecido de tensão. Não quis mais ir à festa. Fui para a esquina da Figueiredo de Magalhães com a avenida Copacabana e fiquei ali, sentado, sozinho, cheio de angústia, com medo das sombras e com vontade de sumir. Não demorou, entretanto, e apareceu uma garota de uns 18 anos que começou a conversar comigo. Trinta minutos depois, estávamos num apartamento muito bem mobiliado, nus e fumando maconha em companhia de um garotão forte, de uns vinte anos, que me dissera ser filho de um fazendeiro de Goiás. Havia algo esquisito no ar. Era como se o diabo estivesse ali. Comecei a sentir uma estranha presença espiritual. Senti um cheiro esquisito de cobra. O mesmo pitiú que me ensinaram a discernir no Amazonas quando as cobras estavam próximas. — Sou discípulo de Satanás. Não há nada melhor do que segui-lo — disse o tal rapaz em tom


de voz macabro, confirmando minhas suspeitas. Tremi de cima a baixo. O lugar era demoníaco e com o “bicho”, em pessoa, eu não queria nada. Fazia coisas que eu sabia serem dele, mas nada de tratos pessoais. Saí dali o mais rápido possível, mas a coisa foi comigo. Daquele dia em diante, comecei a sentir aquela presença insistentemente. Foi também na mesma ocasião que Curió foi morar com Dadá, conhecido como traficante de cocaína e adepto de macumba e bruxaria. Na casa do homem havia sempre despachos e muita cachaça consagrada aos espíritos. Ele vendia cocaína, fazia orgias e dormia ali, naquela kitchenette. Zé dormia num colchão posto ao pé da cama. Ali acontecia de tudo, e ninguém jamais imaginaria o nível das pessoas que freqüentavam o lugar: riquinhos, mulheres casadas, meninas de até 14 aninhos, velhas prostitutas e homossexuais enrustidos. Zé Curió adorava o lugar. Eu, entretanto, apesar de ter participado de algumas orgias ali, sentia-me deprimido e com a sensação de que estava na iminência de ser possuído por algo muito maligno toda vez que entrava no “apê” do Dadá. Mas o cerco da morte estava apenas começando. Um dia conheci uma menina na Universidade do Fundão, na Ilha do Governador. Neto tinha ido inscrever-se para o vestibular de sociologia e me levou junto, no Bugre dele, para dar um passeio e paquerar umas gatinhas. Quando ele subiu as escadas para fazer a inscrição, eu vi uma menina de uns vinte anos sentada sozinha, perto das grandes colunas do prédio principal. Senti que era hora de caçar. Cheguei, pedi para sentar ao seu lado e disse que estava cansando de fazer ginástica. Então, pedi licença para deitar a cabeça no seu colo. Ela ficou tão surpresa com minha ousadia, que deixou. Trinta minutos depois Neto voltou e já nos encontrou no meio de um beijo. Marquei de ir à casa dela naquela mesma noite. A mãe de Ana era uma psicóloga louca, cheia de maconha na cabeça, e estava de viagem para a Argentina. Ela e o irmão não tinham nenhuma razão para ser melhores que a mãe. Fui entrando e ela me levou imediatamente para o quarto. Só depois de alguns minutos de sexo é que fiquei sabendo quem ela era. — Olha, eu não costumo fazer o que fiz com você. Mas é que nunca conheci um cara tão doido e ousado quanto você. Sou noiva de um membro dos The Fevers. Estamos brigados, mas gosto dele — ela me disse com ar de profunda respeitabilidade. Fiquei com Ana uns três dias, viajando pelas loucuras do prazer e da droga. Mas no fim aconselhei-a a voltar para o músico da famosa banda. Dias depois eu os encontrei na casa de Dadá, onde eles tinham ido comprar cocaína, e o rapaz me agradeceu o conselho que havia dado à sua menina. — O prazer foi todo meu. Disponha sempre — disse eu, cínico e grato. O problema é que Ana me dera o telefone de uma amiga dela, Mariana, que tinha uns ácidos alucinógenos chamados de microfilme. A droga era trazida para ela todos os meses por um americano. Liguei para a tal Mariana e fui encontrá-la. Ela era loira, usava óculos de intelectual, falava com classe e me disse que seu pai era o chefe da segurança de Copacabana. — Beleza, assim num tem sujeira — foi o que falei ante aquela informação. Coincidentemente, o americano também estava na cidade. Pegamos o gringo num hotel no Flamengo e fomos para o Arpoador tomar o tal do microfilme. Tomamos juntos. Em mim a onda não foi das maiores, mas o americano começou a babar e a falar coisas que eu não entendia. Meu inglês era quase nenhum naquele tempo. De repente, eu ouvi Mariana — que falava inglês fluentemente — começar a dizer: — Aleluia! Aleluia! O anticristo nasceu. Ele está vivo e vai governar este mundo. Senti o arrepio da morte passar pela minha coluna. — O que cê tá dizendo? — perguntei nervoso e assustado.


— O Richard acabou de receber uma revelação de Satanás dizendo que o filho dele já está neste mundo — foi a resposta assombrosa. Eu saí do carro e corri alucinado pela praia. Era como se o inferno inteiro estivesse marchando atrás de mim. Eu gritei, chorei e pedi a Deus que jamais me deixasse viver como um filho do demônio. Eu não vivia como gente de Deus, mas eu sabia o que era viver com Ele. Daquele dia em diante, mergulhei em agonias cada vez mais intensas. Mas, infelizmente, aquilo era só o princípio das dores.


Capítulo 23 “A tua mão pesava sobre mim e eu não me dava conta disto. Havia me ensurdecido pelo fluxo barulhento de minha agitação mortal. Assim, eu viajei para muito, muito longe de Ti, e Tu não me impediste. Eu fui lançado em volta, por toda parte, cuspido na vida, cozido seco no caldo de minhas fornicações. Óh, meu Deus, quão lento eu fui em encontrar minha alegria. Sim, eu andava cheio de orgulho e ao mesmo tempo completamente incapaz de achar descanso na minha terrível exaustão.” Santo Agostinho, Confissões

A

pressão espiritual estava pesada demais. A sensação que eu tinha era a de que estava ficando louco. Ouvia meu nome sendo chamado por ninguém na rua e lutava contra uma terrível sensação de morte que borboleteava dentro do meu peito. Por vezes, eu subia à laje do dúplex onde eu morava com Neto e ficava olhando de cima para baixo, com quase metade dos pés para fora do 14o andar, imaginando — do mesmo modo que eu fizera aos dez anos na rua Sá Ferreira — o que aconteceria se eu pulasse. O significado da morte era a minha questão. E minha sensação de desgraça interior cresceu ainda mais com um episódio isolado que aconteceu numa tarde, mas que posteriormente me devastou a alma. No meio das “guerras de Manaus”, no fim de 1972, Neto tinha ficado devendo uma surra a um rapaz que havia enganado Liliane, a americana-amazonense que ele tomara de Alipinho. Era um sujeito grandão, chamado Adri. A mãe de Liliane havia dito que Adri tinha se “apropriado indevidamente” de uma prataria dela e Neto respondera que a prataria “iria voltar por bem ou por mal”. Em Manaus não tinha dado para acertar com Adri, pois o caso seria visto como covardia do mestre de jiu-jítsu. Mas, em Copacabana, ninguém queria saber quem era quem. Adri estava no Rio passando o verão e eu encontrei com ele no píer de Ipanema. Aproveitando a oportunidade, disse para ele me visitar na rua Aires Saldanha e dei o endereço do Neto. Depois, fui para o faixa preta de jiu-jítsu e perguntei: “Cê ainda qué pegá o Adri?”, e entreguei o grandalhão de quase dois metros de altura de mão-beijada para Neto. À hora marcada, eu sentei na frente do edifício, em cima de um carro. Neto estava escondido na garagem. Seu Adri, como o chamávamos, apareceu, ergueu o braço fazendo o V de paz e amor com os dedos da mão e sorriu para mim. — Fica aqui que tem uma gatinha querendo te dar uns beijinhos — eu disse quando ele


chegou bem pertinho. Aí o Neto correu da garagem, deu uma baiana no grandalhão, sentou em cima dele e bateu só “um pouquinho”, mas o suficiente para conseguir o seu objetivo de intimidação. Não arrebentou o rapaz, porém o humilhou em público. — Você vai voltar pra Manaus e vai devolver tudo o que cê pegou da minha mulher. Tem um mês pra fazer isso. Se ela me disser que cê num fez nada, mando alguém de lá mesmo te finalizar — ameaçou. Adri foi embora, chorando de vergonha, do alto de seus 24 anos e do seu metro e noventa de altura. Então Neto olhou para mim e disse algo que me perturbou imensamente. — Cê sabe, o Dadá é mau-caráter. O Zé Curió é bom-caráter, apesar de tudo. Mas você, bicho, você é sem caráter. Vejo você parar pra dar tua fruta pras mães que pedem comida para os filhos na esquina. Mas vejo você fazer uma safadeza dessas. Eu tenho medo de você, bicho. Cê tá ficando perigoso, seu Macunaíma — ele falou com voz suave, mas em tom agressivo. Vindas de Neto — meu guru e mentor —, aquelas palavras me arrebentaram. Será mesmo que alguma coisa muito ruim tinha me mudado de vez? Será que eu havia perdido a minha alma? Não fosse uma outra tarde daquele verão, acho que teria enlouquecido. Estava em pé na esquina da Bolívar, por volta das duas da tarde, quando vi um conhecido da praia passar com uma mulher que me arrebatou os sentidos. Ele era conhecido por ser louco e por ter sido acusado de envolvimento na morte de Aída Cúri, vítima de um crime famosíssimo uma década antes. O pessoal dizia que ele era capaz de tudo, pois quando bebia ficava completamente fora de controle. Mesmo tendo medo do Barão — como o chamavam —, decidi que aquela mulher valia qualquer risco. Aproximei-me como quem não quer nada e comecei a conversar com ele, propositadamente ignorando a mulher. Fui tão desinteressado por ela, que ele acabou me convidando para tomar uma cerveja com os dois no Cabral 1500. Quando sentei à mesa, já sabia que a mulher não seria mais dele daquela tarde em diante. Mira era paulista e tinha uns 22 anos. Portanto, era uns quatro anos mais velha do que eu. Morena clara, tinha olhos iluminadamente castanhos e cabelos finos, leves, que se agitavam ao vento. O corpo da mulher era grande, cheio, generoso de espaços, extravagantemente sedutor. Uma vez sentados, comecei logo a jogar charme para ela. Eram olhadas rapidíssimas que diziam tudo. Então Barão levantou e foi ao banheiro. Era tudo o que eu queria. Toquei nela por debaixo da mesa e disse que não sabia o que faria se ela não me encontrasse naquela noite. Ela apenas me devolveu o toque no mesmo lugar e escreveu o telefone num pedaço de guardanapo. Ficamos quase a noite toda juntos, no apartamento de um amigo de Manaus, o Renatinho Fradera. No dia seguinte, fiquei sabendo que ela era sobrinha de um cara que tinha fama de ser o político civil mais forte do regime militar. E mais: ela estava morando numa cobertura que um famoso diretor de cinema havia emprestado ao tio dela. Fui direto para lá. Estava com medo do Barão, mas certo de que queria pagar o preço da aventura. Fomos a todos os bailes da cidade de graça. Bastava dizer quem era o tio dela e as portas se abriam. A mãe de Mira, por sua vez, parecia estar perfeitamente confortável com a situação. Veio de São Paulo e foi apresentada a mim. Conversei sobre família, como bom garoto, e ela me disse que era presbiteriana. — Eu também — afirmei cheio de moral. — É mesmo? Qual é a sua igreja? — perguntou. — Bem, no momento ando meio distante, mas meu pai é um bom pastor. Um cara da pesada com Deus — afirmei com certo orgulho. Ela foi à praia e nos deixou à vontade, e nós nos entregamos aos prazeres que cabem nas


camas das melhores famílias, especialmente de dois crentes distantes de Deus e dos princípios da fé. Eu me apaixonei por Mira e não queria nem pensar na idéia de que no fim de fevereiro de 1973 ela voltaria para casa. A relação foi se tornando intensa, obsessiva, dependente, meio sádica, mergulhando na doença. Quando chegou a hora da despedida, choramos juntos. Ela foi, e eu me desarvorei de dor. Mas uma semana depois ela voltou, desesperada. Disse que não podia viver sem mim, que tinha falado com a mãe e que queria casar comigo. Eu aceitei. Para mim, tanto fazia. Casar ou não casar não significava nada, afinal. Disse para ela que eu iria a Manaus resolver umas coisas e então a encontraria em São Paulo, no máximo até abril. Naquele fim de semana fui a Niterói ver Téo, Cecé e os amigos. Quando voltei, na segunda-feira, ninguém estava lá no Cabral 1500, na Aires Saldanha ou na Miguel Lemos. Todos haviam desaparecido. E Neto tinha ido para a Bahia sem me levar com ele. Quis saber o que havia acontecido, mas as pessoas estavam esquivas, não queriam conversar comigo. Até que um amigo me disse: “Sai daqui que os homens tão aí. Dançou todo mundo: Dadá, Zé Curió, a turma da Miguel Lemos, os meninos do Cabral, todo mundo, bicho. Trinta e seis caras. Tu num foi porque num tava aqui. Mas eles tão vindo passar o pente fino. Corre, cara.” Eu fiquei completamente desorientado com a notícia da prisão de Curió. Não tinha para onde ir, pois soube depois que Neto havia ido para a Bahia com muita raiva de mim porque uma menina com quem ele saía de vez em quando tinha dito a ele que eu tentara cantá-la, o que, naquele caso, não era verdade. Ele nunca falou comigo sobre o assunto, mas ficou magoado. Ainda fiquei na área uma semana, dormindo nas areias de Copacabana e Ipanema e acordando com o ardor do sol no meu rosto todas as manhãs. Comia o que me davam ou roubava tomates e frutas na feira para encher a barriga, e tomava banho nas garagens dos edifícios. Comecei a me sentir um mendigo. E três dentes meus começaram a dar sinal de apodrecimento. Ora, aquilo eu não podia admitir. Eu sempre me orgulhara imensamente da saúde de minha dentição. Nesse meio-tempo, chegou o carnaval. Não tendo para onde ir e faminto, aceitei o convite de um certo Zé Roberto, moço alto e rico, para ir passar o carnaval na casa de uns amigos dele em Búzios. Eram seis da tarde do sábado de carnaval quando saímos. No caminho, resolvemos tomar uma anfetamina argentina. Tomei 17 e comecei a morrer. Meu coração disparou como nunca antes. Parecia que o peito ia estourar. A vista escureceu, eu caí para trás no banco do carro do rapaz e não me mexi até meia-noite. Não sabia se estava vivo ou morto. Minha alma estava morta. Levantei aos poucos, feito um zumbi. Quando Zé Roberto percebeu que eu não morreria, tomou a estrada e foi para a casa de Paulinho Imperial, na praia de Búzios. Ficamos naquela região até quarta-feira, sem mulher, mas com muita droga. Tomei trinta anfetaminas nos três dias que estive ali e não dormi uma única noite. Voltei de Búzios com o gosto da morte na boca. Depois de tudo isso, cheguei à conclusão de que, se ficasse no Rio, seria preso ou viraria mendigo. Portanto, mesmo extremamente acanhado, fui direto para a casa da tia Bernadete, na rua Anita Garibaldi. De lá, liguei para papai e pedi para voltar para casa. Ele me mandou ir para a casa do reverendo Antônio Elias, em Niterói, para esperar que conseguisse o dinheiro e pudesse mandar a passagem. Em Niterói, eu continuei o processo de angústia de alma, mas agregou-se à minha dor um elemento de natureza moral. Ficar na casa do reverendo Antônio Elias fazia-me mal, pois lá todo mundo estudava, lia jornal e podia ler Mad em inglês, menos eu. Mesmo os mais doidos, como Cecé e Lucilia, tinham rotina de vida, mas eu não. As únicas coisas que eu fiz naquele período de espera, que veio a durar 45 dias, foi ir à academia do Carson Gracie, em Niterói, para treinar com ele e Serginho; correr na praia de São Francisco, fumar um baseado no fim do dia, fazer uns


quinhentos apoios antes de ir para a cama e passar a noite toda em claro, absolutamente insone, pulando fora do leito com raiva e fazendo abdominais até a exaustão. Tudo o que eu queria era que a tal da passagem chegasse logo e que eu pudesse ir para Manaus. Aí eu me perguntava: “Que qui cê vai fazer em Manaus, bicho? Cê já tá aqui, por que num vai logo vê a mina em São Paulo?” O fato é que eu não tinha resposta para a minha necessidade de voltar a Manaus. Eu não tinha nada lá. A família era um detalhe emocional na minha vida e história, por que então voltar? Eu não sabia responder. Quando tio Renato Fábio me telefonou dizendo que a passagem estava disponível, juntei meus trapos e fui para a casa dele em Copacabana. Fiquei no mesmo quarto em eu havia dormido oito anos antes, quando chegara de Manaus no meio da depressão que nossa família vivera. As recordações daqueles sentimentos não me deixaram dormir, além do que os odores concentrados nos porões dos elevadores eram ainda os mesmos. Por isso, com mais força ainda, a minha desgraçada olfatividade remeteu-me a uma viagem onde muitos personagens e emoções reavivaram-se com extrema força, inclusive meus pais. Às cinco da manhã tio Renato me acordou de minha insônia e me levou no seu DKV até o Galeão. Viajei oito horas e cheguei a Manaus às quatro horas da tarde. Fui o último a sair do avião. Minhas mãos estavam geladas e eu me sentia como se tivesse de brigar uma “briga contratada”, com hora e lugar marcados. Só não sabia quem seriam os adversários. Aliás, se eles estivessem lá, não saberia como enfrentá-los e, se não estivessem, não saberia como enfrentar-me. Sentia medo de que estivessem e pavor de que não estivessem. Eles estavam enfileirados. Aninha, Luiz, Suely, mamãe e papai. Do mais novo ao mais velho. Era uma interessante escada de emoções. Ia de alguém por quem não tinha nenhum ressentimento, a Aninha; até aquele por quem eu não sabia mais o que sentia, papai. As mulheres choravam. Luiz estava pálido e calado, seu modo discreto de dizer que estava abaladíssimo. E papai se mostrava estranho. De um lado estava feliz, transparecia isso nos olhos; mas de outro lado se revelava nervoso, com as mãos suadas e os lábios um tanto sem cor. Parecia que ele não conseguia ficar sem se encher de esperança com minha volta, mas ao mesmo tempo estava apavorado de que eu tivesse voltado apenas para viver novas loucuras e assim morrer precocemente.


P ARTE II

Confissões de Dúvida e Fé


Capítulo 24 “Tu estavas comigo, misericordiosamente me punindo, tocando sempre com um gosto amargo todos os meus prazeres ilícitos. Tua intenção, ao assim fazeres, era que eu encontrasse prazer não nos deleites poluídos pelo desgosto e que, na minha busca por alcançar alegria, eu descobrisse que é só em Ti, Senhor, que está a fonte de tudo. Desse modo, Tu me designaste a dor como lição; Tu me feriste para poderes me curar; e tu me trouxeste ao portão da morte a fim de que na presença dela eu me convertesse, e assim não morresse longe de tua face.” Santo Agostinho, Confissões

Voltei para casa querendo encontrar o caminho da normalidade de comportamento e conduta. Mesmo que dizendo aos amigos que até o fim de abril estaria de volta ao sudeste, mais precisamente a São Paulo, no fundo, sabia que estava tentando me enganar com aquela história. Foi logo nas primeiras semanas de volta a Manaus que recebi o primeiro telegrama de Mira: “Meu amor, quando é que você vem para São Paulo? Me escreva.” Não consegui responder. E veio o segundo: “O que está acontecendo? Você não me responde. Estou ansiosa.” Não respondi, e ela nunca mais escreveu nada. De fato, nós éramos apenas dois jovens confusos e perdidos existencialmente, nutrindo esperança de “encontro” um no outro. Mas não havia entre nós nada mais profundo do que lembranças de sexo arrebatador. A vida em Manaus havia mudado. A cidade não era mais a mesma. As turmas haviam se desmantelado e os grupos de relacionamento viviam agora um novo processo de busca de identificação e confiança. Os eventos do final de 1972 haviam tido um poder devastador na mente de muitos daqueles garotos e garotas dos círculos da alta sociedade. Os primeiros dias depois de minha volta tiveram, contudo, uma marca espiritual perturbadora na minha mente, pois numa daquelas noites sonhei com algo que me possuía. A impressão que me ficou foi a de que, no meu inconsciente, um filme tinha sido rodado com uma “malha amarela em frente à lente da câmara”. Era como se o sonho-filme estivesse artisticamente envelhecido e a luz ali presente fosse de “um amarelo urbano”, cheio de melancolia, como o das ruas de Manchester, na Inglaterra. Uma cobra deslizava, leve e sutil, sobre o chão do ambiente, que, em si mesmo, era completamente indefinido. De súbito, a cobra deu o bote sobre mim, se enroscou em meu braço esquerdo e me mordeu. Ao receber o seu veneno, imediatamente minha visão ficou amarela, o que me deu a certeza de que eu começava a morrer. No dia seguinte, contei o sonho à minha mãe. — Meu filho, na Bíblia, o amarelo, relacionado a animais, é símbolo de morte. O cavalo


amarelo do Apocalipse é a morte — ela disse. — Caio Fábio, sei que você não gosta de ouvir, mas Deus está tentando falar com você sobre o caminho de morte no qual você está andando — concluiu. Estranhamente, daquela vez eu não disse nada. Dei as costas a ela, pulei na moto e fui embora, porém com a mente impregnada com as imagens aterrorizantes daquele cinema do inconsciente. Minha busca de inserção social acentuou-se. Ser como todo mundo tornou-se um alvo para mim. Mas meu desejo de normalidade resumia-se em alcançar algumas coisas básicas: voltaria a estudar, conseguiria um emprego, arranjaria uma namoradinha de portão e usaria drogas de modo muito controlado, sendo que durante a semana fumaria apenas maconha, e somente à noite, antes de dormir. Não foi difícil conseguir voltar à escola — havia incentivo e ajuda de todos os lados. O emprego, entretanto, não apareceu. Aliás, eu nem procurei. Já as namoradinhas de portão surgiram com extrema facilidade e, naquela época, visitei pelo menos dois portões a cada semana. O problema eram as drogas, pois havia um latejante desespero crescendo dentro de mim. Era um sentimento de perdição, de total inadequação à sociedade e ao mundo. E mais que isto: sentia um esmagamento espiritual achatando a minha alma. Era como se estivesse privado de todo prazer. Não havia nada que me desse satisfação. O gosto do desgosto era marcante e permanente, além do que era como se aquelas experiências espirituais vividas no Rio continuassem a reboar com seus sons e angústias dentro de mim, de modo ininterrupto. Como os únicos amigos de compromisso incondicional estavam no Rio — Zé Curió, preso na Ilha Grande, e Nego Aires, curtindo nas praias —, sobrou-me muito pouca gente na cidade em quem eu podia confiar e ter certeza que não me entregaria para aqueles que desejavam acertar contas comigo. De fato, dentre os homens de meu relacionamento, os únicos que eu sabia que não me fariam mal eram os meus primos João Fábio e José Fábio, com quem passei a andar. As saídas com eles muitas vezes tomavam o caminho do interior, para longe de Manaus, na direção de Itacoatiara, a cerca de trezentos quilômetros da capital. Foi numa daquelas viagens para lá que me deparei com um espetáculo único no planeta. José Fábio dirigia um Fusca com cerca de dez anos de uso, porém bem conservado. Nós éramos cinco pessoas ao todo. Chovia fino, embora com extrema insistência. Uma neblina baixa caíra sobre a estrada de piçarra pedregosa, que, de tanta água, já se transformara em pura lama. Por isso, o carro deslizava de um lado para o outro da pista, enquanto nós ríamos como se estivéssemos brincando num parque de diversões. A noite já se avizinhava, de tal modo que os faróis do carro estavam acesos. — Meu Deus, é um tronco? Não! É uma cobra — foi o que ouvimos de repente, bem no meio de uma curva, enquanto José, perplexo, nos fitava com os olhos arregalados. — Nããããooo! Não passa por cima dessa bicha — gritei apavorado e, num reflexo, puxei os pés para cima do banco dentro do carro, como se entre nós e a estrada não houvesse a lâmina blindada do Fusca. Brum, brum, foi o que ouvimos quando o veículo bateu duas vezes contra uma lombada de músculos que se revolvia de uma extremidade à outra da estrada. Paramos uns trinta metros adiante. Manobramos o carro e ficamos de frente, vendo aquela enormidade de réptil mover-se lenta e soberanamente, no meio do caminho. Vun, vun, vun, Zé Fábio aqueceu o acelerador do carro outra vez. — Não vai, bicho, porque se a gente num passar, essa cobra estrangula esse Fusca. Ela é descomunal — eu disse, tentando dissuadi-lo do desejo de dirigir por cima dela mais uma vez. — Na primeira vez a gente rolou por cima porque a gente vinha no embalo. Agora, é


perigoso, Zé. A gente num tem velocidade — disse um dos rapazes no banco de trás. — Que nada. Eu vou atropelar essa bicha — disse nosso destemido motorista, partindo para o ataque. Dessa segunda vez, já nos foi possível sentir o balanço da subida e da descida de cada roda. — Hum! Que nojo, cara — eu disse, agora com mais repugnância do que medo. Depois de manobrar o carro mais uma vez, nós ficamos ali, dentro do carro, vendo aquele animal imenso descer o barranco no sentido do nível mais íngreme na lateral da estrada. — Vamos ver que tamanho ela tinha — disse Zé Fábio. — Ela raspou no fundo do carro — ele prosseguiu — e ficou com o rabo de um lado e a cabeça do outro lado do caminho. — Então, medimos a altura entre o Fusca e o chão, bem como a largura da estrada de um lado ao outro. — Cara, que monstro. Um palmo e meio de altura e onze metros de comprimento — meu primo concluiu. — Num vamos falar sobre isso lá em Itacoatiara pra ninguém dizer que nós estamos loucos. Tô falando sério. Vai pegar mal — ele disse com seriedade. Concordamos todos, mas, quando chegamos lá, eu não resisti. Vendo um monte de meninas numa das praças, fui logo até lá vendendo aventura e contando aquela história de pescador. — Cê tá é muito doido, bicho. Que foi que tu tomou, cara — me disse Tibério, um maluco da cidade que eu conhecia de outros carnavais. — Eu disse que num ia dá certo, num disse? — perguntou com um tom crítico o careta e ponderado José Fábio. A tentativa de “bom-mocismo” continuou. Mas como tinha feito muitos inimigos e também por causa do medo permanente de ser traído por algum amigo de araque, mantinha o jiu-jítsu “em cima”, treinando o máximo que podia com um lutador conhecido na cidade, chamado Espartacus. “Assim”, pensava, “quando eles caírem dentro, eu vou estar preparado pra arrebentar.” A minha decepção comigo mesmo aconteceu logo no final do primeiro mês. Era abril e eu concluía que não dava para ser normal. Os estudos eram maçantes. Entrava na Escola Técnica Federal apenas para dormir das 13 às 17 horas. As meninas de portão eram tediosas, chatas, insuportáveis. E as drogas eram irresistíveis, sedutoras e me faziam esquecer minha falta de sentido para viver. De repente, me vi jogando tudo para o alto e partindo para aquela desgraçada forma de existência. Parecia um carma. Era como se não houvesse nenhum caminho para fora daquilo. Estava encurralado. Até que numa noite, no início de maio, eu estava andando de moto solitariamente, aí por volta das 22 horas, quando vi uma mulher morena, de corpo grande e bem-feito, olhos negros profundos e cabelos nanquim, de tão pretos que eram, desfilando na penumbra, sem medo, provocativa e segura. Ela parecia ser adulta e madura, e eu jamais a vira antes. Percebi que houve uma certa faísca quando nossos olhares se cruzaram. Parei imediatamente, fiz a volta e encostei na calçada, a um metro do ponto em que ela estava. — Cê é linda demais pra tá andando sozinha aqui na Getúlio Vargas uma hora dessas. Deixa eu te levar pra casa. Eu prometo que cê vai gostar — disse com a certeza de quem sabia que, apesar dela parecer tão séria, o papo iria colar. Estava apostando na faísca que vira nos olhos dela. Ela não disse nada. Não fez qualquer comentário positivo ou negativo. Andou solenemente na direção da moto, prendeu a saia e montou. — Me leva pra onde você quiser — disse. Fiquei abobalhado com sua resposta e, ao mesmo tempo, incendiado de desejo. Fomos para um motel recém-inaugurado nas proximidades do aeroporto Internacional de Manaus e só quando chegamos ao quarto ela falou. — Sou noiva, vou casar no mês que vem e não quero arruinar meu futuro. Tô aqui só porque


queria te experimentar. Sou amiga de umas meninas que já saíram contigo e sempre quis sair também. Mas quando a gente sair daqui, você me deixa onde me pegou e não vai jamais saber meu nome, quem sou ou onde moro, OK? — declarou quase como se fosse um roteiro de filme. — OK! Se é assim que cê quer, que seja assim — respondi guloso e disposto a viver aqueles momentos com intensidade, a fim de “beijar daquela vez como se fosse a última”, diria Chico Buarque. Ficamos ali apenas umas duas horas. O suficiente para que o mistério da situação iniciasse em mim o prelúdio de uma paixão. Queria saber quem ela era. Mesmo nos clímax das emoções vividas naquelas duas horas, eu haveria de pedir, de implorar. — Me diz teu nome. Me diz teu nome! — eu suplicava, quase em preces. Ela ficava agitada de tentação para falar, mas não dizia, o que me seduzia ainda mais. Ao fim daquelas duas horas, deixei-a na mesma calçada da rua Getúlio Vargas. Ela saiu da garupa, me beijou, sorriu para sempre, atravessou a rua, parou um táxi e desapareceu para toda a vida. Chocado, fiquei pensando que a existência estava me pregando uma peça e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Nunca a vira antes e, talvez, jamais a visse depois. No entanto, ela plantara em mim uma estranha semente. Não era paixão, nem sequer um broto do amor. Era a sedução do mistério, do inacessível, do proibido e daquilo que se cobre de véu e se recusa a fazer apocalipse, “revelação”. Nunca mais a vi, até hoje. Fiquei com raiva. Virei a moto contra o fluxo de carros, acelerei, fechei os olhos e pedi para morrer. Corri uns vinte segundos de olhos fechados. Senti alguns automóveis se desviarem de mim. “Seu idiota, seu maluco, seu....”, eram as expressões que eu ouvia. Depois que achei que tinha dado tempo suficiente ao destino para me liquidar, reassumi o controle e fui procurar o Zé Fábio, meu primo. Disse a ele apenas que tinha saído com uma mulher estranha e extraordinária. Zé Fábio não era de muitas palavras. Apenas deu um sorriso e disse: “Tu num toma jeito cara, só vive apaixonado.” A experiência com a mulher sem nome, sem endereço, sem passado e sem futuro fez muito mal a mim. Para a maioria dos homens que ouvisse a história, eu tinha saído no lucro. Possuí sem precisar pagar a conta, e o noivo dela não a conhecia como eu, um estranho, a conhecera. Que vantagem! Mas para mim a interpretação já não era aquela. De algum modo, mesmo sem saber por que ou quando começara, meu interior estava em profunda mudança. Já não me satisfazia dizer como coisas tão incríveis aconteciam comigo, de graça. Lá no fundo, já não era isso que eu desejava. De fato, queria conhecer alguém e mergulhar nas águas de um relacionamento que tivesse começo, meio e, se possível, não tivesse fim. Portanto, a “mulher da rua Getúlio Vargas” apenas acentuou aquele sentimento de que a vida não estava me oferecendo nada consistente e duradouro. Já não me sentia como um garanhão, aproveitador de mulheres. Estava começando a me sentir usado e não como aquele que usufruía dos prazeres. E o sentimento era confuso para mim, pois gritava por profundidade, embora eu amasse os vínculos passageiros. Essa era minha perdição: desejar aquilo que mais me fazia mal. E foi na tentativa banal de usar sem ser usado, que peguei duas garotinhas de programa numa noite de domingo. Naquele tempo, papai estava iniciando o pastoreio na Igreja Presbiteriana Central de Manaus e havia um lugar nos fundos do templo, onde tudo poderia acontecer sem que ninguém notasse. No tal lugar havia cama e banheiro, e isso era mais do que eu precisava. Sabia que depois das dez da noite ninguém aparecia por lá. E mais: sabia como entrar “na igreja” e não hesitei em levar as meninas para aquele lugar de culto. Assim, fiz sexo com elas num lugar que eu considerava sagrado. Quando as levei de volta à praça onde as havia encontrado, meu coração


estava pesado e minha consciência descarnada, tomada por uma culpa que eu até então desconhecia. Era a culpa da profanação e do sacrilégio, e suas raízes estavam plantadas nos porões de minha alma e se ancoravam em todos os ensinos sobre a santidade de lugares dedicados a Deus que ouvira desde a infância. Aquela experiência meteu em mim um ferrão aceso com as brasas de uma culpa para a qual eu não conhecia alívio nem expiação. Assim, introduziu-me em profundos questionamentos sobre o valor de minha busca de prazer a qualquer custo, especialmente porque agora eu estava pagando a aventura até mesmo com o devastador preço da profanação. Foi nesse ponto que concluí que há um limite radical para que as pessoas possam sentir prazer. E este limite é o do “valor pessoal”. Na hora em que o prazer vem junto com o desvalor, ele paga apenas com a reação química que nasce na animalidade, no corpo. É a certeza do valor de ser o que remete a experiência do prazer para a alma, para o espírito e para a dimensão semi-religiosa, onde prazer e sentido se confundem. E, definitivamente, não era esse o meu caso. Estava constrangido com minha excessiva animalidade e começando a desejar ser homem e viver para além da química orgânica uma experiência de encontro com minha alma. Mas foi justamente aí que me poluí com as manchas da profanação do lugar santo. Naquele mês de maio de 1973 eu me desarvorei. Comecei a fumar até quatorze baseados por dia. Passei a maior parte do tempo dormindo na casa de tio Carlos, onde era sempre recebido com extremo amor pelos meus tios, primos e primas. Chegava lá todos os dias em torno de meia-noite, deitava num colchonete que Zé Fábio deixava ao lado da cama dele, e só sentia sono quando meus primos estavam levantando para ir à escola. Depois disso, dormia até às onze da manhã, levantava e logo apertava e fumava um baseado na varanda da casa. Em seguida, descia, ia até o bar de seu Raimundo e pedia uma talagada de cachaça, bem branca, fazendo o sinal dos dois dedos de marinheiro: o indicador e o mínimo espaçadamente abertos, mantendo os dedos maior-de-todos e anelar presos para trás. E lá vinha a bicha, queimando. Com o estômago vazio, aquilo parecia soda cáustica e tentativa de suicídio. Depois de uma ou duas doses, eu atravessava a rua doidão, entrava na cozinha de tia Délia e pedia para comer um pão e tomar um cafezinho. Acendia uns três Continentais sem filtro e fumava um atrás do outro. Aí sim, devidamente acordado, saía para mais um dia de loucura e busca ansiosa da morte. Mas a morte fugia de mim. Foi no final de maio que passei na porta do Colégio Cristus, na rua Joaquim Nabuco, a fim de encontrar um amigo doidão, chamado Brum, depois da aula. Ele era mais novo que eu, mas vivia em permanente estado de alucinação. Complicadíssimo de alma, Brum odiava o planeta, o sistema, a sociedade e a vida. Tudo era idiota e nauseante para ele. Assim, passava o dia inteiro afogado em Pink Floyd e maconha. Estranhamente, os estudos, para ele, eram parte do barato das drogas. — Cara, eu me amarro em ir muito doido para a escola e ficar curtindo com a cara dos professores e rindo da maluquice das fórmulas de química, física e matemática. Aula de história, quando cê tá doido, é o maior barato. Geografia, num dá nem pra falar. Doidão cê vai nos lugares. É demais, bicho — dizia ele com um ar delirante. Mas naquele dia, quando cheguei em frente à escola, notei um rostinho de menina que jamais vira no pedaço. — Quem é aquela mina ali, Brum? Aquelazinha, de blusa bege com uns elefantinhos estampados? — perguntei curioso. — Fica longe dela, bicho. O pai dela é fera. É o capitão dos portos. A mina é do Rio e num gosta de maluco, não. Aliás, ela só anda com os caretas do vôlei lá do Rio Negro. E dizem que tá


saindo com uns caras que te odeiam. Lembra do Renato Oliveira? Saiu com ela. E o Michileno, lembra? Saiu com ela também. Então, dá pra ver qual é o tipo de cara que ela gosta: só burguesinho careta, bicho — falou com ar professoral e, ao mesmo tempo, sempre cínico, puxando o canto da boca para baixo, como se fosse cair na gargalhada a qualquer momento. — Que nada, Brum. Essa gatinha é igual a todas as outras: sai com os caretas pra agradar papai e mamãe, mas gosta mesmo é de cara doido como eu. Quer valer como eu faturo rapidinho e num tem pra ninguém se eu partir pra dentro? — apostei com ele. — Essa aí num dá. Quero valer qualquer coisa como cê quebra a cara. Tô mais que positivo. Vai que vou ficar aqui pra rir gostoso, bicho — disse. Brum não sabia como eu funcionava ao contrário. Tudo o que era difícil me seduzia, e as coisas fáceis enfastiavam-me antes mesmo de prová-las. Além do mais, havia uma meiguice na gatinha que me chamou a atenção. Ela não era arrebatadora, mas era suave e parecia sensível e boa de cabeça. Eu não sabia o que era, mas senti um forte desejo de ir conferir quem era ela. Ela estava cercada de burguesinhas das classes sociais mais elevadas e badaladas de Manaus. Atravessei a rua, fingindo que não percebia a mulherada agitar-se com minha aproximação, e ouvi alguém dizer: “Ai meu Deus! Ele tá vindo. O que a gente faz, Alda?” — Meu amigo ali, o Brum, diz que você não gosta de caras como eu. Mas eu não acreditei. Vim aqui conferir. Escuta, cê num quer sair comigo uma hora dessas? — falei seguro, sem cinismo e com muita seriedade, mas com uma franqueza desconcertante e objetivíssima. As meninas em volta ficaram excitadíssimas. Uma ex-namoradinha minha, Virgínia, ficou torcendo contra. Umas outras fizeram cara de raiva, mas eu sabia que era só fachada. Lá no fundo, tinha certeza de que meu banditismo light dava a elas um sentimento ambíguo: falavam mal de mim, mas sonhavam comigo sempre que o inconsciente queria se liberar em algum encontro com o animal e o selvagem. Se era realmente isso que acontecia, não posso afirmar, mas era assim que eu me sentia. E quase sempre dava certo. Alda não disse quase nada. Falou apenas que estava dando uma festa na casa dela no dia seguinte, no sábado à noite. Voltei para o Brum já cantando vitória. — Pô, bicho, inacreditável. Quê qui cê falô pra ela? Impressionante! — ele falou. Não disse nada, apenas o coloquei na garupa da moto e saí agitando a frente da escola em alta velocidade. No dia seguinte, vesti-me de hippie de butique e fui à festa do capitão dos portos. Era a apresentação de Alda às famílias de Manaus. Um acontecimento absolutamente idiota e sem propósito, na minha maneira de ver. Mas era minha hora de fazer o que mais gostava: chocar. Parei minha moto na calçada da casa e entrei na fila de acesso ao portão. — Aí, gente boa. Boa noite — gritei quando chegou a minha vez e fui entrando. De repente, ouvi uma voz fina, estridente, com sotaque baiano, gritando nas minhas costas. — Péra aí, meu filho! Tá pensando que isso aqui é a casa da sogra? — era uma mulher bem vestida, magra, de uns 38 anos, segura de si e que parecia estar querendo fazer um showzinho particular, curtindo com a minha cara. Olhei para ela sem alteração. Mas os meninos do vôlei e dos outros esportes — os “caretas do Rio Negro Clube”, como os chamava — estavam ali, se deliciando, contentes com o episódio e seu possível desfecho: minha expulsão do lugar. O que não faltava eram marinheiros e seguranças para me “botar para fora”. Continuei olhando fixo para a senhora do portão. — Como é o seu nome, seu cabeludo indecente? — ela perguntou provocativa, enquanto o pessoal do vôlei dava uma estrondosa gargalhada em volta de mim. — Caio, minha senhora. Meu nome é Caio — disse com o olhar preso ao dela, começando a


ficar com raiva. — Caio de Bossa? É esse o seu nome, cabeludo? — nova gargalhada. — Não, minha senhora. Não é Caio de Bossa, não. É Caio de Boca; pergunte às meninas aqui. Elas sabem que meu nome é Caio de Boca — respondi lambendo os lábios, curtindo o gosto de minha vingança. Ninguém riu. Houve silêncio. A mulher maluca ficou me fitando com surpresa durante uns três a cinco longos segundos, e caiu na gargalhada. Foi só então que os demais bobos da corte riram também, sem graça. — Gostei de você seu Caio de Boca. Pode entrar. Mas num me apronta, tá? Cê é doidão, mas é sincero — ela completou, para perplexidade de todos. Mas a surpresa maior é que a baiana era dona Rose, mãe de Alda. Então, entrei. Não conhecia a todos, mas era conhecido pela maioria dos rapazes e moças que estavam ali. Entretanto, ninguém falava comigo. Todos me admiravam e me odiavam. E eu ignorava o ódio deles, mostrando minha total independência de movimentos, e, ao mesmo tempo, tirava proveito da admiração que sabia que eles tinham por mim. Gargalhava sozinho, como se estivesse bem-acompanhado, dançava ao som das músicas que me arrebatavam a alma, mesmo que não estivessem sendo tocadas, e via a minha solidão autônoma ser dona do ambiente daquelas pessoas inseguras e incapazes de acreditar em sua própria liberdade de ser. Foi só depois de alguns minutos que vi a menina da casa conversando com um atleta de plantão. Aproximei-me e peguei seu braço. — Meu irmão, cê já conversou às pampas. Deixa eu bater papo com ela só um pouquinho! — disse eu ao rapaz, que nada respondeu. Apenas olhou para Alda e percebeu um consentimento no olhar da garota. Então perguntei a ela a que horas aquele circo estaria terminado. — Aí pela meia-noite — respondeu. — Então, à meia-noite fica na varanda que eu volto para te ver — disse eu, largando-a no meio do salão e indo embora. À meia-noite eu voltei. Ela estava lá, em pé, ansiosamente me esperando. Falamos cinco minutos e ela me disse que no dia seguinte iria a uma festa na casa de uma amiga. No domingo eu estava na mesma festa. Dançamos e nos beijamos. Na segunda-feira, peguei-a na escola no meio da tarde e levei-a para a floresta, para as margens sedutoras de um igarapé. Choveu copiosamente sobre nós enquanto nos deliciávamos na liberdade da solidão que as matas amazônicas emprestam a qualquer um que as visite. Levei-a de volta um pouco antes de seu chofer chegar para buscá-la na escola. Ela estava toda ensopada, mas feliz e apaixonada. Eu, entretanto, sentia por ela algo estranho. Não era nada avassalador, mas era forte, e me dava a sensação de ser algo amigo, constante e sincero. Nas semanas seguintes saí com ela todos os dias. Íamos juntos para a floresta. Ela não fumava maconha com regularidade, mas não rejeitava um tapa ou outro sempre que eu oferecia. Piano, desenho e poesia eram as suas paixões. Amava arte e falar de coisas místicas. Dizia que sentia as vibrações do mundo espiritual e não se constrangia em dizer que sabia ler mãos. Afirmava que uma cigana a ensinara e que se tratava de uma “ciência precisa”. Eu não acreditava em nada daquilo, mas curtia a inocência dos seus 16 aninhos. Estava a caminho dos 19 anos, mas me sentia como se fosse muitos, muitos anos mais velho do que ela. Estar com Alda era diferente e eu me sentia bem. Passaram-se dois meses e nós continuamos a sair juntos. Entretanto, eu a tratava com um carinho e um respeito que eu jamais dispensara a nenhuma outra menina ou mulher antes, em minha curta, porém intensiva vida amorosa. Mas apesar de tudo, eu não estava feliz. O problema, no entanto, não estava nela, mas em mim, pois minhas angústias interiores não cessavam.


Para complicar ainda mais as coisas, nós conhecemos um hippie que posava de mestre oriental e estava sempre atrás da gente. Ele era alto, branco e calvo na frente, embora tivesse um longo cabelo liso, que se esparramava sobre suas costas. Sua barba era do tipo sacerdotal antigo: longa, espessa e totalmente desencontrada, com fiapos isolados que vinham até a altura da barriga. Carlos falava de coisas místicas o tempo todo e nos prometia o encontro com o sagrado pelas drogas, pela ecologia e pela meditação. Aldinha estava empolgada. Eu, entretanto, não agüentava mais aquele papo. Havia dias em que a voz dele me irritava tanto, que eu sentia vontade de amassar a cara do guru. O céu foi ficando blindado. O ar faltava. Minha respiração começou a ficar difícil. A atmosfera parecia estar baixando e colocando uma pressão insuportável sobre a minha cabeça. O mundo se descoloria bem diante de meus olhos. A experiência do riso tornou-se um tormento doloridíssimo e a gargalhada me rasgava a alma, como se nela houvesse uma adaga que golpeasse meu interior. Assim, desejei a morte com força e profundidade. Aos dezoito anos e alguns meses eu estava existencialmente velho e cansado. À semelhança de meu bisavô Araujinho, decidi que era tempo de partir. Só que ele vivera até os 104 anos para poder tomar aquela decisão, e eu, aos 18, já não agüentava mais existir. Quando chegamos ao fim de julho, Alda e eu estávamos na iminência de terminar nossa relação. Ela me amava, mas não agüentava mais tanta loucura. E eu, de minha parte, sentia profunda ternura por ela, mas não conseguia ficar ao lado de ninguém. Queria a estabilidade amiga e serena que ela, apesar de tão menina, me oferecia, mas me apavorava com minha quase total incapacidade de aceitar os termos da normalidade de qualquer projeto de vida. Havia uma jibóia dentro de mim, faminta, insaciável, comendo todos os elementos de minha alma. Um de nós tinha de morrer: era ela, a jibóia, ou eu. Nós dois juntos não podíamos dividir o mesmo espaço: minha alma. Nos dias que se seguiram voltei a ser perseguido pela árvore sagrada da casa da vovó. Voltei ao lugar da infância, ao pôr-do-sol. Olhei a velha mangueira e chorei. “O que é isso, meu Deus? Que saudade é essa que me mata, que me atormenta?”, perguntei a ninguém. Mas a presença de ninguém me atormentava. Ninguém estava ali, sem dúvida. A certeza da presença de ninguém me confundia, me desesperava. Saí alucinado, com a alma tomada por prantos de morte. Eu estava de luto por mim mesmo. Fui até à casa de Aldinha, chamei-a ao portão, abracei-a, beijei-a, despedi-me dela. — Adeus, te cuida — disse enquanto sentava na moto. — Que é isso? Que qui cê tá fazendo? — perguntou com lágrimas nos olhos. — Eu estou indo encontrar a morte. Hoje é certo. Nem ela vai fugir de mim e nem eu vou fugir dela — arranquei com a moto e sumi atrás do posto de gasolina que impedia sua visão da rua que tomei.


Capítulo 25 “Atribuo à Tua graça e indizível misericórdia o fato de teres derretido meus pecados como gelo. Além disso, também atribuo à Tua graça todos os atos piores ainda que os aqui narrados e que não cometi. E por que não os pratiquei, se naquele tempo amava o erro gratuitamente? Sim, foi pelo Teu amor e pela Tua graça que fui perdoado das torpezas que cometi e foi também por Tua bondade infinita que fui poupado de ter feito coisas ainda piores.” Santo Agostinho, Confissões

Os pensamentos que se digladiavam em minha mente eram mais fortes do que quaisquer outros que jamais me haviam visitado. Eu pensei no inferno. Imaginei que talvez existisse realmente um lugar de punição e dor para aqueles que viviam e morriam dando as costas ao Criador. Entretanto, as reflexões sobre o inferno eram menos fortes do que aquele movimento de borboletas espirituais revoando loucas dentro de mim. Fazê-las parar era a única coisa que me interessava. Somente muitos anos depois foi que pude entender melhor o que estava acontecendo comigo naquela noite de quarta-feira, em julho de 1973. Muito depois daquele dia foi que aprendi que quando a pior realidade que um ser humano conhece na existência é a morte, então ele quer viver; mas quando, de súbito, ele reconhece a vida como sendo a pior experiência de seu existir humano, então, nesse dia, ele deseja ardentemente morrer. Era isso o que acontecia. Minha vida se tornara insuportável aos 18 anos de sua jornada, e eu achei que a morte era a minha mais acolhedora companhia. Dirigi a motocicleta numa velocidade média, angustiadamente reflexiva. Peguei a rua Sete de Setembro e fui até a esquina da rua Duque de Caxias, onde morava alguém que eu julgava que teria uma arma para me emprestar. Pela primeira vez eu não estava disposto a fazer testes ou jogos suicidas. Eu queria entrar em campo vestindo preto e desejava sair dali nos braços gelados da morte. De súbito, entretanto, eu vi uma grande multidão parada à porta de um templo que havia do lado direito da rua. O lugar religioso era arquitetonicamente feio. Eu passara ali muitas vezes e sempre fizera questão de afirmar o mau gosto das cores daquele templo da Assembléia de Deus. Além disso, eu conhecia algumas pessoas que freqüentavam o lugar, e todas me pareciam muito esquisitas. Eram moças de cabelos longos, sem corte; rostos sem cor, sem batom ou quaisquer outros enfeites, e as pernas, muitas vezes, não eram depiladas. Os olhos, sobretudo, pareciam-me muito opacos, sem brilho, sem insinuação. Os homens eram do mesmo tipo, com o agravante de serem


desinteressantemente masculinos. Com suas calças de tergal e suas camisas brancas tipo “volta ao mundo”, em geral me davam ojeriza. Em outras palavras, aquele seria o último lugar no mundo onde eu decidiria parar a fim de realizar qualquer tipo de busca espiritual. Entretanto, enquanto eu dirigia tomado de perturbação, pousei os olhos na igreja e não pude retirá-los de lá. O que me chamou a atenção foi a quantidade de gente que se esparramava porta afora. Eram pessoas que não tinham conseguido entrar no lugar de culto por causa da multidão que já estava lá dentro. Olhei e, sem perceber, fui parando minha motocicleta ali. Não havia nada extraordinário me atraindo, mas alguma coisa sutil, suave, leve e irresistível me puxava na direção daquele chocante prédio azul. Quando me dei conta, estava estacionado a um metro da calçada, com o descanso já puxado e a moto repousando sobre ele. Foi quando um rapazinho moreno, de nariz grosso e largo e lábios excessivamente projetados para fora da boca veio e me pegou pelo braço. — Ei, cê lembra de mim? — perguntou. Como eu olhei para ele de modo inexpressivo, ele acrescentou: — A gente estudou na Escola Técnica, lembra? — e apontou para o outro lado da rua, pois a escola era ali, a menos de duzentos metros de distância. — Não, bicho, num lembro, não — completei. — Meu irmão, cê tá cuma cara horrível — disse ele com convicção. — Cara ruim? Que nada! Eu deixei de ter cara ruim faz tempo. Eu tô mermo é cum cara de morte, bicho. Eu quero é morrer. Quero metê uma bala na cabeça. Ele olhou para mim com imensa ternura. — Num faz assim, não. Por que qui cê num dá uma chance pra Deus? Ó, entra aqui e ouve uma mensagem que vai transformar a tua vida. Cê vai vê — afirmou com tamanha certeza, que me fez esquecer tudo o mais. Ele foi logo me puxando pela mão e me conduzindo para dentro da igreja. Minha entrada ali foi um escândalo. Com aquele cabelão abaixo do ombro, usando gargantilhas e braceletes de couro, com uma calça cavada e sem zíper, completamente aberta, camisa multicolorida e um tamancão que fazia um barulho infernal, foi impossível entrar com discrição. Além disso, eu também fiquei chocado com a emoção do ambiente. Todo mundo estava gritando junto. Para mim, eram pessoas que pareciam de outro planeta e conectadas a outro mundo. O meu anjo moreno e sem nome me levou à galeria do templo e falou alguma coisa ao ouvido de um homem forte. O gigante chegou para o lado e eu entrei ali, apertadinho. — Ô glóriaaa! Aleluuiia, Jesusss! Siiii! Ó Deus glorioso! Derrama, Senhor! — eram gritos que eu ouvia em volta de mim. O homem grande, por sua vez, tinha um bebê no colo. — Glória Deus. Oh! Fogo, desce. Queima, Senhor! — gritava ele e fazia o neném chorar sem parar. Para acalmar a criança, ele a sacudia com tamanha força, que o bichinho chorava mais ainda. Era um ciclo vicioso: o menino chorava porque ele gritava; para fazer a criança parar de chorar ele a sacudia, e porque o homem assim o fazia, o bebê chorava mais ainda. Comecei a ficar com raiva de ter entrado ali. “Meu Deus, eu tô doidão, mas esses caras aqui são mais doidos que eu”, pensei indignado. — Vocês sabem por que no alto da Cruz de Jesus havia uma epígrafe escrita em hebraico, latim e grego Este é Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus? — perguntou o pastor, interrompendo assim o fluxo de minhas invencíveis distrações. Eu estava completamente louco de drogas. Entretanto, a pergunta do pregador, deixada no ar retoricamente, sem resposta por alguns segundos, capturou minha atenção. — Porque o hebraico era a língua da religião, o latim, a língua da política e o grego, a língua da filosofia. Sabem por que então ele deixou que escrevessem nas três línguas a mensagem? Já sabem? Não? Ora, porque Deus queria que os religiosos, os


ambiciosos e os que querem saber as coisas da vida ficassem todos sabendo que Jesus é o centro desse Universo. Jesus é o Rei da Vida — ele afirmou aos gritos, cheio de paixão, saltando e dando murros no ar. Parecia que ele estava falando com o planeta todo naquela hora e, ao mesmo tempo, eu senti como se fosse só para mim. “Meu Deus, eu já sei por que eu estou perdido! É porque não tenho esse centro na minha vida. Eu sou como um astro vagando sem órbita pela escuridão da noite. É assim que eu me sinto, Deus”, exclamei de mim para mim mesmo, iniciando um choro solitário, convulsivo e dolorido. Fiquei aproximadamente 15 minutos entregue àquele pranto. Quando me recompus, percebi que o garoto sem nome estava lá, a uns cinco metros de mim, chorando muito também. Quando levantei, o pastor estava convocando os “arrependidos” para ir à frente e confessar a Cristo, publicamente, como Senhor e Salvador. Mas eu não tinha condições de ir à frente. Mesmo agora — naqueles súbitos e eletrizantes minutos de arrependimento — queria Jesus, mas continuava a ter fortíssimos preconceitos contra toda forma de religião organizada. Dei um abraço no rapaz. — Valeu, bicho. Valeu, mermo — disse, enquanto batia no ombro dele e me retirava. Fui direto à casa de Alda. Ela estava angustiada. Já havia telefonado para as delegacias, hospitais e até para o necrotério. Ouvi o desabafo aliviado dela e contei o que havia acontecido. — Olha, agora eu sei por que eu sou tão doido — disse. — É porque eu tenho fome de Deus. Só vou me encontrar se for nele. Fora dele, eu estou perdido. Ela me olhou e falou como se estivesse com aquela resposta na ponta da língua desde a infância. — Eu também sou Dele. Sei que Ele me ama e quero conhecê-Lo. Se você está indo, eu vou junto — afirmou com estranha convicção. Despedi-me dela e vaguei pela cidade deixando o ar fresco da noite me gelar a face. Senti os aromas das estradas da periferia me invadirem a alma com a força de coisas novas que estavam prestes a acontecer. Quando entrei na garagem da casa de meus pais, já eram umas duas da manhã. Vi a cama-de-campanha na qual eu dormia armada embaixo da janela. A lua estava absolutamente cheia. Era uma bola prateada, quase irreal de tão linda. Dali de minha pequena cama percebi que a lua estava desenhando uma silhueta parecida com aquela que o pôr-do-sol pintava atrás da mangueira sagrada do quintal da vovó. Agora, entretanto, era uma grande jaqueira que deixava o luar pintá-la de prateado, enquanto resplandecia de modo mágico ante meus olhos. Era como se uma antiga e obsessiva visão tivesse voltado, com toda a sua força e sedução. Dessa vez, todavia, aquela árvore iluminada não me falava de um ser distante, de alguém para se sentir saudade. Não! O sentimento que me invadia ali — olhando para aquele espetáculo da natureza, pintado que estava pelas projeções de minha alma e pelos sonhos secretos de meu espírito — era o de que minha jornada de angústias, desejos, seduções, ansiedades, insônias, loucuras e coragens suicidas estava chegando ao fim. De alguma forma, instalara-se dentro de mim a convicção de que naquela noite, naquela igreja de gente estranha, eu havia encontrado o Alguém de quem sentira saudade consciente desde os sete anos de idade. Fora na busca Dele que eu me pervertera, me desqualificara, me equivocara e quase me auto-aniquilara. Mas agora Ele estava ali, presente não na jaqueira, mas no meu quarto, e andando para dentro de mim. “Jesus, mamãe me disse outro dia que Tu vieste a este mundo buscar e salvar gente perdida. Então, se o Teu negócio é com gente perdida, eu acho que sou o sujeito ideal para ser achado. Acha-me, por favor, Jesus”, eu orei, posto de joelhos, olhando na direção da Sarça Ardente que me acompanhara desde há muito. Deitei de lado, voltado para a jaqueira iluminada, e não percebi quando adormeci. Às seis e quarenta e cinco da manhã a vizinhança toda ouviu um grito lancinante de pavor e desespero.


Meu tio Lucilo, que morava num pequeno quarto nos fundos de nosso quintal e que já estava a uns quatrocentos metros de distância, voltou correndo em direção à casa ao ouvir aquele urro pavoroso. Meu pai pulou da cama, pegou automaticamente sua muleta e correu pela casa, tentando saber de onde aquele esturro estava vindo. Quando ele entrou no meu quarto, a cena que viu foi chocante. Eu estava lá, num dos cantos do quarto, todo enrolado, com os olhos esbugalhados, como quem via um espetáculo de performance demoníaca. Mas do lado de dentro de meu ser, o que estava acontecendo era ainda pior do que o que os olhos de papai percebiam do lado de fora. Eu fora acordado com uma cobra grande como uma sucuri me arrochando, enquanto também mordia meu braço esquerdo e inoculava em mim um veneno mortal. De súbito, percebi que não era algo material. Na verdade, não havia uma cobra para ser vista. Fui me dando conta de que seres diferentes habitavam dentro de mim. Não era mais o dono de mim mesmo e não estava no comando. E aqueles seres que me possuíam eram maus, perversos e meus piores inimigos. Eles estavam ali para me matar. Não sei quanto tempo aquilo durou. Papai diz que foram apenas uns cinco minutos. Para mim, no entanto, parecia ter durado uma eternidade. A repugnância da experiência era indescritível. Papai me olhou por algum tempo, orou a Deus e gritou com autoridade: “Eu não gerei filhos para serem morada de demônios. Eu gerei filhos para serem o santuário do Espírito Santo.” E acrescentou: “Saiam de meu filho, demônios, em nome de Jesus.” Eles — papai, mamãe e tio Lucilo — me carregaram dali para a cama de meus pais, onde dormi até o meio-dia. Parecia que eu havia sido anestesiado. Quando acordei, dei-me conta de que estava em posição fetal. Era como se em meu inconsciente eu estivesse buscando uma maneira de nascer de novo. Botar os pés para fora da cama naquela quinta-feira foi um dos maiores desafios que já enfrentei na vida. Que eu não podia mais viver como vinha vivendo, não havia a menor dúvida. Existir daquele jeito tanto não valia a pena como era já a própria morte. A questão, no entanto, era: Meu Deus, o que é que está acontecendo comigo e como é que eu faço para viver como alguém que conheceu a Jesus? Quando saí da cama, percebi que a casa toda estava em suspense. Suely e Luiz estavam por ali, fazendo tudo para parecerem normais. Aninha, com seus oito anos de diferença, correu para mim, me abraçou e me beijou. Mamãe veio com jeito preocupado, suada que estava das tarefas domésticas, e me beijou. — Caio Fábio, teu pai disse para você não sair daqui que ele quer falar com você. Mas se você for sair, ele pediu pra você voltar aí pelas seis da tarde. Ele disse que é muito importante — disse em seguida, com lágrimas nos olhos. — Olha, mamãe, quem quer falar com ele sou eu. Diga isso a ele. Às seis da tarde eu vou estar aqui. E não se preocupe. Eu não sei o que é, mas tem alguma coisa boa acontecendo comigo — disse sereno como nunca tinha estado antes. Comi qualquer coisa, acendi um cigarro, montei na moto e fui para uma estrada de barro que havia na periferia da cidade. Fazia aquilo com alguma regularidade. Ali, deixava a moto dentro do mato e corria até não agüentar mais de cansaço. Naquele dia, no entanto, foi diferente. Quando comecei a correr, não senti mais aquela angústia estranha me impulsionando. Havia uma coisa leve em mim. Olhei em volta e vi a graça e a beleza daquele pedaço do mundo, tão verde, tão cheio de aromas, tão encantado. Chorei enquanto corria. Era como se eu estivesse me reconciliando com a criação. O ambiente todo parecia estar recolorido e minha capacidade de perceber a respiração da floresta parecia estar mais aguçada do que nunca. A trilha de barro se estendia até um igarapé, a uns três quilômetros dentro da mata. Ao ver o riacho de águas marrons, transparentes, eu chorei outra vez.


Caí dentro d’água de joelhos e orei. Falei com meu Criador e me batizei sozinho nas águas da floresta. Derramei o líquido sagrado sobre minha cabeça. Em seguida, mergulhei e fiquei sob a água o máximo que pude. Quando tomei ar, de volta à superfície, senti como se algo novo tivesse sido plantado no terreno mais fértil de meu ser. Virei de frente para o céu azul e afoguei meus ouvidos dentro da água. Fez-se um silêncio total à minha volta e uma paz indescritível me inundou a alma. Naquele momento, pedi a Deus para morrer ali, nos portões do Paraíso. Quando corri de volta para o início da trilha, havia um sentimento de novidade de vida dentro de mim. No caminho percebi a aproximação de uma ex-namoradinha minha e seu atual namorado. Eles vinham montando lindos cavalos de raça e se aproximavam num belo galope. Quando me viram, pararam ao meu lado. — Ei, seu Caio, a gente tem uma mutuca de maconha aqui. Tá a fim dum baseado? — disse Sérgio, enquanto Dê me olhava com a surpresa de quem não me encontrava desde o dia em que fui à casa dela pela última vez, dois anos antes. Não sabia o que responder. De alguma forma, entretanto, eu sabia que nunca mais na vida apertaria um baseado. Afinal, de algum modo, aquela erva perdera, milagrosamente, todo o seu encanto para mim. Aliás, foi só ali que me apercebi que aquele era o primeiro dia, em pelo menos quatro anos, que eu não havia sentido nenhuma fissura pela maconha ou qualquer outra forma de entorpecente. — Seu Serjão, aquele Caio que fumava maconha, cheirava pó e outras coisas morreu ontem e eu acabei de sepultá-lo num igarapezinho a uns três quilômetros daqui. Esse cara que tá aqui, na tua frente, num fuma maconha e nem toma drogas. E mais: ele também num qué mais saber de maluquice. E quem num respeitar a ele, vai entrar no pau — concluí do modo “mais cristão” que eu sabia. Sérgio me olhou assustado, como se tivesse visto um ghost no meio da floresta. — É, bicho, agora é qui tu tá doido mermo, cara. Que barato é esse qui tu tá tomando? — perguntou sem ficar para ouvir a resposta. Dê, a ex-namoradinha, olhou-me com estranheza, quase com desprezo, manobrou o animal e disparou. Sérgio fez o mesmo, galopando atrás dela. Eu, de minha parte, montei na máquina e voltei para casa, celebrando a minha primeira “vitória cristã”.


Capítulo 26 “A nova vontade, que começara a nascer em mim, de Te servir sem interesse, de me alegrar em Ti, ó meu Deus, única alegria verdadeira, ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. Deste modo, minhas duas vontades, a velha e a nova, a carnal e a espiritual, lutavam entre si, e, discordando, dilaceravam-me a alma.” Santo Agostinho, Confissões

Quando entrei pela garagem em alta velocidade e parei a moto com uma derrapada de lado, um observador externo diria que nada de novo havia em mim. A diferença, contudo, é que ao invés de entrar com ar agressivo e hostil, eu sorri para o pessoal da casa e fui logo perguntando por papai. — Tá esperando você lá em cima — disse Suely. Subi as escadas e fui à varanda do segundo andar da casa. Papai estava lá, sério e preocupado, com aquele biquinho na boca que revelava que ele estava um pouco nervoso. — Meu filho, eu pensei muito, e tenho que falar com você. Sua situação espiritual é gravíssima. Eu não sei se você ainda acredita na existência de espíritos maus, de demônios. Mas crendo ou não, eles existem e odeiam você. Deus tem um propósito muito especial para sua vida e os demônios querem destruir você. O que aconteceu hoje cedo foi uma demonstração dessa vontade assassina do diabo contra você. Caiozinho, é Cristo ou é a morte. Hoje você tem que decidir o que você quer. O mundo espiritual é real. E há forças nele que são muito más — ele afirmou com um tom pastoral e paternal. Aquela era a primeira vez em algum tempo — talvez em quatro anos — que eu e meu pai conseguíamos conversar sem que eu o interrompesse com irreverências. — Eu sei, pai, que o que está acontecendo comigo é espiritual. Sei que preciso tomar uma decisão e já o fiz. Ontem à noite eu assumi que vou viver com Jesus e vou ser um homem de Deus para o resto da minha vida. Eu só não sei é como — disse com lágrimas nos olhos e um medo enorme de não ter forças para bancar aquela decisão, como acontecera com tudo o mais de bom que tentara fazer nos últimos anos e não conseguira. Foi ali, naquele ponto, que me passou um medo horrível pela mente. Gelei. Olhei para o sol que se punha atrás de um enorme pé de pitomba que havia na frente de nossa casa, do outro lado da rua Urucará. Tinha vivido, possivelmente, uns vinte anos em cinco, mas, cronologicamente, eu ainda era um menino de pouco mais de 18 anos. A vida toda ainda estava diante de mim e, naquela hora,


tudo o que eu queria era seguir a Cristo, ser discípulo Dele. Mas como é que eu estaria daí a alguns meses ou uns poucos anos? Será que aquilo não era apenas o fruto do medo de ficar possuído por forças do inferno? Era fuga? Ou quem sabe apenas uma resposta de minha memória religiosa, infantil, aos dramas do momento. E as drogas? E os amigos? Como é que eu viveria essa vida de crente? Será que teria que encaretar de vez? E as gatinhas? Eu gostava alucinadamente de mulheres. Será que depois de alguns meses eu não entraria em crise e jogaria tudo para o alto apenas para não me privar dos prazeres sexuais e da promiscuidade da qual tanto me orgulhara? Enfim, foi um sentimento terrível e que se comprimiu em mim como se tudo isso tivesse estado ali, perturbando-me, por muito tempo. Mas foram, de fato, apenas alguns segundos de questionamento. — Caio Fábio, meu filho, não vai ser nada fácil. Mas em Cristo você vai conseguir — disse papai, como se adivinhasse o tufão de questões que se alvoroçavam dentro de meu peito. — O que você acha que vai ser difícil, filho? — mamãe perguntou, tendo ouvido a palavra de papai desde o início. — A mulherada, mãe. As mulheres serão, sem dúvida, a pior luta que terei. Eu estou acostumado demais a sair com muitas mulheres diferentes. Eu não consigo ficar sem sexo. Eu não sei como é que vai ser — eu respondi com toda sinceridade. — Olha filho, a tentação é como um animal. Se você der comida pra ele, ele cresce. Se não der, ele definha. Nunca morre, mas enfraquece muito dentro da gente — papai afirmou, como se eu soubesse como é que a gente não alimenta a fera que vive em nós. Eu não sabia nem como conseguir vontade para enfrentar aquilo, quanto mais força suficiente para desenvolver resistência interior para não alimentar minhas tentações. — Mas comé que a gente não alimenta o bicho que vive dentro da gente, pai? — era o que eu mais queria saber. — Eu não quero mais viver do jeito que tenho vivido, mas também não quero deixar de fazer essas coisas só porque eu me acorrentei a esse pé de castanhola que tem aqui na frente de casa. Se for assim, vai ser um inferno. Eu quero parar numa boa. Sem desespero. Papai me olhou com um ar inesquecível de amizade e compromisso com a minha vida. — Se você quer vencer, você vai vencer. Deus nunca nos dá tentações maiores que as forças que ele também nos dá para resistir. Para matar a carne, a gente deixa de dar comida a ela. E para alimentar o espírito, a gente dá de comer a ele. Por isso, se você quiser, nós vamos começar a jejuar, você e eu, juntos. Assim nós vamos enfraquecer a carne. E com a leitura disciplinada da Palavra de Deus e com as orações, meditações e preces, nós vamos alimentar o espírito — ele concluiu e ficou aguardando a minha reação. Completamente distante do convívio emocional de minha casa por mais de quatro anos, eu não sabia mais quem meus pais eram, como seres humanos. Entre outras coisas, eu não sabia que papai se tornara uma espécie de monge cristão do asfalto. Alguns anos após sua conversão evangélica, ele havia desenvolvido disciplinas espirituais incríveis. Dentre elas, o jejum. Entregue ao prazer de jejuar, ele ficava longos períodos semanais de abstenção alimentar radical. Às vezes, ficava até cinco dias sem comer nem beber nada. Apenas se isolava e orava com paixão e intensidade. — Eu quero aprender tudo isso. O senhor me conhece e sabe que eu não faço nada pela metade. Se é pra ir com Deus, então vamos até o fim. Eu gosto de ir pra valer. Me ajude, por favor — foi minha resposta e meu pedido de socorro. Após aquela conversa, papai orou e pediu a Jesus que não deixasse mais aquelas forças do inferno se apoderarem de mim. Em seguida, nos abraçamos e nos beijamos. Toda a família veio me beijar. Chorei como se estivesse voltando de uma longa e perversa viagem, retornando a um lar que eu achava que já não era meu, mas que, estranhamente, continuava a me pertencer.


O sol se pôs. A árvore que estava à nossa frente escureceu e tornou-se ninho para as aves cansadas do dia e em busca de pouso para a noite. Entretanto, estranhamente, eu não estava mais com aquele banzo do sagrado. O sol estava se pondo, mas eu estava em paz. De alguma forma que eu não sabia explicar, minha busca havia acabado. Não propriamente minha ansiedade de viver, conhecer, mergulhar, descobrir, provar e sentir, mas a busca pelo Alguém de quem eu sentia saudades chegara ao fim. Agora sabia quem Ele era e também sabia que Ele me amava. E aquele era o sentir mais doce e envolvente que eu jamais experimentara. Era como ser abraçado pela vida e descobrir que a vida, em essência, é uma pessoa. A única pessoa. É o ser em quem todo amor nasce. Na sexta-feira cedo, quando estava saindo de casa para correr na trilha da floresta, vi um homem moreno, de ar obstinado, dono de um bigode cheio e já meio esbranquiçado, aproximar-se de minha moto. Ele vinha rindo, como se me conhecesse há muito tempo. — Ei, no domingo à noite nós vamos ter uma programação para jovens na minha igreja e você não vai perder, vai? Percebendo que eu não havia gostado do modo tão íntimo com o qual ele se aproximara, mudou a estratégia e falou com mais cuidado. — Olha, eu sou da Igreja Batista Redenção e gostaria muito que você fosse ao nosso culto no próximo domingo — afirmou com mais serenidade, pegando-me carinhosamente no braço. — Traga a sua namorada — disse ele, enquanto me dava um sorriso e entrava pela garagem de nossa casa para falar com meu pai. No domingo à noite, Alda e eu estávamos lá. Ao nosso lado sentou um rapaz vestido de modo conservador, mas muito alinhado. Cantava alto, porém de modo afinado. Ria para nós sempre que o culto permitia uma interação. Eu me limitava a mover um pouquinho a musculatura da face para deixar que ele percebesse que nós não estávamos “ausentes”. Depois um outro jovem pregou a Palavra. Gritou, esmurrou a mesa, contou histórias que mais pareciam ficção, fez drama e tudo o mais. Eu, pessoalmente, não estava gostando. Tudo aquilo me parecia muito estereotipado. O fato de eu ter tido uma criação na qual a presença evangélica tinha estado presente fazia-me ver tudo com um sentido muito mais crítico do que a maioria das pessoas que simplesmente estavam se aproximando da fé. Meu desconforto era claro. Estava quase arrependido de ter ido lá. — Cristo veio ao mundo para buscar o perdido — dizia o pregador entre gritos e pequenos saltos na ponta dos pés. — Hoje ele está aqui para encontrar você — dizia ele. Ora, Alda fora criada como católica, fizera primeira comunhão, mas não sabia quase nada sobre Jesus. Ou melhor: ela sabia que não queria nada com a idéia de Cristo que havia sido passada a ela. Aquele Jesus lânguido, fraco, pendurado na Cruz, indefeso, pálido, ausente e despretensioso causava-lhe repugnância. Além do mais, na casa de sua avó havia uma imagem enorme de Jesus, num canto do quarto, que desde a infância tinha funcionado para ela muito mais como uma presença mal-assombrada do que como algo que lhe inspirasse a conhecer e amar a Deus. — O único meio de alguém encontrar a Deus é através de Cristo. Quem quer encontrar com Cristo hoje, aqui? — era uma pergunta retórica, e ele realmente não esperava nenhuma resposta audível em retorno. — Eu quero! Sim, eu quero encontrar com ele — disse Alda, como se não pudesse mais suportar ir até o fim do discurso do pastor. Mas sem se dar conta de que seu sermão já havia chegado ao fim — pois um pregador deve sempre encerrar o seu discurso quando percebe que sua mensagem já foi entendida, mesmo que tenha sido antes do planejado —, ele continuou pregando por mais dez minutos. E todas as vezes


que ele perguntava: “Quem quer receber a Jesus como seu salvador”, Alda respondia baixinho: “Eu quero”, mas o homem não se tocava. No fim de tudo, perguntou se alguém queria ir à frente do púlpito fazer uma confissão de fé em Cristo. Alda foi e, até onde eu me lembro, só ela foi. Havia também algumas crianças ali na frente. — Amém! Aleluia! — era a exclamação do rapaz que estava ao nosso lado. Se eu não me garantisse muito em relação a ela, acharia que ele tinha ficado a fim de Alda. Olhei para ele quase irritado. — Parabéns, sua namorada agora é de Jesus. Parabéns — disse-me ele estendendo a mão. — Eu disse a você que esse culto tinha sido feito para você, num disse? — exclamou Neemias, o homem do bigode que me convidara para ir à igreja. Meio sem graça, eu não dizia nada. — Caio, o homem ali na frente está pedindo meu nome e endereço — Alda veio ofegante e falando alto até o último banco, onde eu estava em pé, cercado por Neemias e Adilson, o rapaz alegre. — Será que ele vai querer me batizar na marra? Meu pai num vai gostar disso. Ele é muito católico — ela concluiu. Então o rapaz alegre tomou a palavra e explicou que não era nada de batismo. Eles apenas gostariam de mandar um material pelo correio para ela ler. No caminho para casa, Alda me disse que não havia gostado do jeito estereotipado do pregador, que não havia prestado atenção a nada, mas que, de repente, a afirmação dele sobre Jesus como o caminho para o Pai havia dominado completamente a sua mente. Disse que, de algum modo, ela tinha percebido que não estava sendo chamada ao Cristo lúgubre do quarto da vó Celina, mas para uma experiência de luz e libertação, completamente diferente das imagens escuras e derrotadas da religião. Com Alda crendo nas mesmas bases de fé que eu queria crer, as coisas começaram a ficar melhores. Agora, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha uma amiga que me convidava para coisas boas. Não demorou e ela começou a se tornar mais comprometida com as coisas da fé que eu mesmo, pois nos primeiros trinta dias eu sentia temores periódicos de não conseguir me manter no caminho e, em vez de me entregar completamente, ainda dava algumas vaciladas interiores. Entretanto, sabia que aquele era o único meio de vida espiritual que eu tinha diante de mim. Somente em Cristo eu conseguiria domar as feras selvagens que corriam insaciáveis pela floresta de minha alma. Foi nesse período que percebi como papai se tornara uma pessoa espiritualmente disciplinada. Ele acordava todos os dias às três da madrugada para ler a Bíblia por uma hora. “Na solidão da noite é mais natural ouvir a voz de Deus”, dizia ele. Eu tentei fazer o mesmo mas não deu. Caía em cima da Bíblia, babando de tanto sono. Papai também se entregava aos jejuns com extrema avidez. Era como se ele tivesse se tornado um glutão de jejum. Ele tinha fome de não comer comida, a fim de poder participar de um outro banquete, aquele que os anjos servem aos que têm desejo de Deus. Lá ficava ele, entregue à leitura bíblica e ao jejum. Às vezes, ele passava até cinco dias sem comer nem beber coisa alguma. Seus olhos ficavam cada vez mais claros, iluminados e puros. De minha parte, achava tudo aquilo fantástico, quase inalcançável para uma pessoa que tivera vícios carnais tão intensos quanto os que eu cultivara até pouco tempo atrás. Não mudei meu guarda-roupa para ser crente, mas mudei dramaticamente minha atitude. Por isso, logo correu pela cidade que eu tinha enlouquecido de vez. — Tá doidão, hem bicho? Que barato é esse que cê anda tomando? — perguntavam-me onde quer que eu fosse. — O barato é Jesus, bicho! — eu respondia, aparentando alguma coragem, mas por dentro ainda um tanto tímido em relação a afirmar a minha fé, pois, embora estivesse aprendendo a amar a Deus, tinha pavor de ser visto como mais um fanático produzido pela religião. Essa era uma


visão de mim mesmo que eu jamais aceitaria. Estava me convertendo ao evangelho, mas não queria me esquecer de boa parte de minha percepção anterior da vida, que jamais julgara estar equivocada. Não demorou e fui convidado para ir dar meu testemunho de fé em uma igreja de um bairro da periferia. Falei com paixão e não pude terminar. Chorei com muita dor na alma pelos meus pecados do coração. Ao mesmo tempo, dominava-me uma imensa gratidão para com esse Deus que me amava e me aceitava como eu era e que acreditava em mim, no potencial de minha vida, nas mãos dele. Eu estava convicto de que queria viver para Deus, mas não sabia como é que conseguiria conciliar meu desejo de pregar o evangelho de Cristo com as breguices da religião, aparentemente incuráveis. Esta era a questão que me atormentava, visto que as coisas da igreja me pareciam muito esquisitas. Às vezes, ficava muito mal-humorado com aquelas conversas caretas dos crentes. Tudo era pecado. O feio e o sem estética eram valorizados como virtude. O pequeno e o mirrado pareciam ser sinais da graça divina. Alguns jovens falavam de como tinham parado de estudar por amor a Deus. Eu não podia entender aquilo. Afinal, mesmo não sendo um amante do ensino acadêmico até aquela época, sabia do valor que o saber trazia para a vida. Essa, na minha opinião, era a diferença entre meu pai e a maioria dos pastores que eu conhecia: ele sabia das coisas. Por tudo isso, a cada dia mergulhava mais apaixonadamente no estudo da Palavra de Deus, mas mantinha uma postura crítica e defensiva em relação à igreja. Além disso, não gostei muito do que vi em algumas igrejas em que fui. Mesmo por baixo daquelas saias longas, daqueles cabelos escorridos e rostos quase sem pintura, percebia-se um fogo enorme aceso nas meninas e, às vezes, até nas mulheres casadas. A coisa era toda muito discreta, mas estava lá. Aí, então, ficava furioso. “Meu Deus, por que esse pessoal num vai pro mundão saber com quantos paus se faz uma cangalha ao invés de ficar aqui com essa cara de santo e esse desejo de égua no cio?”, eu me perguntava sozinho, chateado por nem sempre encontrar na igreja um ambiente devidamente seguro para mim mesmo. No fim do terceiro mês, chegou a Manaus um pregador armênio, que sempre andava vestido de preto e pregava com a simplicidade de uma criança. Sua mensagem era sem muita elaboração e baseava-se nas experiências espirituais que ele dizia ter com Deus. Ouvi-o com muito interesse na Igreja Batista de Renovação Espiritual. No dia seguinte, Samuel Doctorian foi almoçar com meu pai. Alda e eu também participamos do almoço e, ao final da conversa, aproveitei para dizer a ele como eu me sentia: queria servir a Deus, mas não gostava do que via na igreja, gostaria de ser espiritualmente culto, mas não queria ir ao seminário teológico, gostaria de ser pastor, mas não gostaria de ser dependente da igreja. Ele me aconselhou, falou-me de suas lutas contra os demônios, os homens, as mulheres e Deus e, a seguir, orou por mim. Naquela noite fomos ouvi-lo numa outra igreja. No meio da pregação, numa igrejinha de madeira da Assembléia de Deus do bairro de São Raimundo, ele parou de repente e disse: — Deus está me dizendo que Ele vai usar aquele jovem de cabelos longos sentado ali no final, e que esse rapaz vai ser conhecido em todo este país como mensageiro do evangelho. — E acrescentou: — Não tenha medo de ser usado por Ele. Deus vai honrar você — concluiu, enquanto eu me derretia em um pranto quente e cheio de fogo. Era como se estivessem derramando uma cachoeira de amor sobre mim. A sensação que me dominava era a de que o Sublime me conhecia e me chamava pelo nome. Era demais para mim. Parecia que minha carne se liquefaria. A chama que ardia sobre minha cabeça e em meu peito não tinha precedentes em minha experiência humana. E, de algum modo que eu não podia explicar, surgiu dentro de mim uma estranha intrepidez espiritual.


Saí dali com coragem para enfrentar o ridículo, os preconceitos, os olhares de desprezo e a ação maldosa de quem quer que aparecesse. Tudo o que importava agora era viver para cumprir a profecia divina que pousara sobre a minha vida. Apenas muitos anos depois perceberia com clareza o poder e a influência que aquele episódio teve sobre minha trajetória como cristão. Daquele dia em diante, comecei a pensar na vida de fé com um sentido estratégico que antes eu não possuía. Passei a ver a mim mesmo como alguém que participava de uma grande e sutil conspiração divina para conquistar o coração de todos os seres humanos com o Seu amor. E eu queria ser um dos Seus agentes espiritualmente mais sedutores e revolucionários. “Oh!, Deus, que Tu me uses para conduzir muitos ao conhecimento de Teu amor”, era a minha oração quase obsessiva. Ao me sentir assim tão especialmente desafiado por Deus a ser um de Seus agentes de amor, surgiu imediatamente em mim a mesma motivação para a oração e para o jejum que havia em meu pai. Iniciei os mesmos exercícios de devoção que eu o via fazer. No início, eram apenas 24 horas de jejum. Mas depois de três meses, já conseguia ficar até quatro dias sem comer nem beber nada, enquanto minha alma flutuava com um prazer de existir que não sabia estar disponível aos mortais.


Capítulo 27 “Sentira-me atraído pelo estudo da sabedoria, mas ia adiando sempre a hora de me entregar à sua investigação. A busca da sabedoria deveria ser preferida a qualquer felicidade terrena, pois não somente sua investigação, mas sobretudo sua descoberta, me daria acesso a riquezas maiores que os melhores tesouros do mundo e mais excelentes que os maiores prazeres corporais, que, a um aceno, ainda estavam ao meu inteiro dispor.” Santo Agostinho, Confissões

Aquele ano de 1973, que havia começado sob o signo da morte, estava terminando como a estação de minha maior alegria e encontro na vida. Entretanto, eu me sentia na obrigação de dar rumos normais à minha existência. Talvez porque tenha ouvido desde a infância que papai queria ter estudado engenharia e nunca pôde, surgiu-me a idéia de que talvez meus pendores fossem naquela área. Matriculei-me no curso de edificações, da Escola Técnica Federal, e fui à luta, em busca de um lugar ao sol. O problema é que dentro de mim havia um permanente desassossego. Dia e noite eu me via pregando para multidões. Ia para a escola em jejum e mantinha a mente em oração e meditação o tempo todo. De súbito, comecei a me apanhar em lágrimas ante uma fórmula química ou uma equação de física. Tudo me falava das essências da existência e me remetia para meu Criador, com quem cochichava segredos de amor essencial. Estava irremediavelmente apaixonado por Deus, e todo o resto, ainda que tendo sua importância reconhecida, tornava-se inapelavelmente secundário. A essa altura, lá pelo mês de março de 1974, minha mente começou a ficar definitivamente dominada pela idéia de que a pregação do evangelho era minha grande vocação. Isto porque, nas poucas vezes em que eu falara em público, duas coisas haviam acontecido: meu interior fora tomado por uma alegria tão forte, que minha alma parecera estar experimentando fortíssimas formas de prazer existencial. Além disso, eu havia percebido que as pessoas paravam, como que incontrolavelmente ligadas ao que eu estava dizendo. E esses dois sinais me pareciam divinos. Foi nesse ponto que conheci um chileno, chamado Flávio Provoste, que havia sido apresentado à mensagem de Cristo enquanto tomava drogas na fronteira do Brasil com a Venezuela. Depois de passar um ano na casa de um pastor batista em Roraima, fora para Manaus. Flávio parecia um hippie. Com seus longos e lisos cabelos negros, queixo projetado, rosto largo e não mais do que um metro e setenta de altura, ele era o tipo da figura cristã que me animava. Ali


estava, bem diante dos meus olhos, um crente doido. Livre das drogas, mas devidamente mantido em estado de liberdade em relação a usos, costumes e jargões evangélicos. Eu gostei dele de saída. “Irmano, os caras estão morrendo. O que eles sientem é sede de Dios”, falava ele em seu portunhol. Os caras que estavam morrendo eram os milhares de hippies que andavam pela Amazônia naqueles dias, fazendo o circuito da ayahuasca que ia da Venezuela ao Pará. Em Manaus, as praças andavam cheias deles. “Por que qui usted non prega para elhos?”, indagava-me o crente hippie. Eu dizia que não me negava a fazê-lo, mas que não forçaria a barra. “Mas se nosotros não hablarmos, quiem va hablar?”, empurrava-me contra a parede. Um dia ele me apareceu com outro cara doido. Era um tipo lindo, de cabelos escorridos pelas costas e um aspecto imponente de índio apache de filme americano. Quando vi Oswaldo Parangues se aproximar, minha mente sofreu um impacto com a beleza indígena do rapaz. Ele estava no Amazonas querendo explorar as ondas alucinógenas dos chás de cogumelos, que eram amplamente servidos à comunidade de malucos no interior do estado. No entanto, os braços e as costas de Oswaldo, em conseqüência da profunda intoxicação causada pelos cogumelos, estavam cheios de feridas purulentas, e ele estava começando a viver com uma febre permanente em razão das infecções. Quando vi o estado do rapaz, levei-o para a casa de meus pais e comecei a cuidar dele. Diariamente eu o levava ao hospital de doenças tropicais para que suas ataduras e curativos fossem trocados. Durante aquele período de aproximadamente duas semanas, enquanto ele recebia tratamento, eu lhe falava do amor apaixonado e louco de Deus pelos seres humanos. Um dia, quando voltávamos do hospital, ele me olhou com lágrimas nos olhos e disse: “Iô creo que Dios me ama porque usted me ama com uno amor que solomente Dios poderia ter ponido dentro de tu corazion.” Eu achava o portunhol dele bonito e cheio de ternura humana. Parei o carro, dei-lhe um abraço fraterno e pedi em voz alta a Deus que viesse encher o coração de Oswaldo com o poder do Espírito Santo. Ele nunca mais foi a mesma pessoa até o dia de hoje. A conversão de Oswaldo deflagrou um processo maravilhoso. Ele e Flávio passaram a ir às praças convidar todos os malucos para virem à minha casa fazer bijuterias. Eu comprava todo o material: couro, cola, ácido, metal, correntinhas etc. Enfim, tudo o que pudesse entretê-los trabalhando nos fundos do quintal da casa de meus pais, enquanto eu abria a Bíblia e falava de Jesus com eles. Foram meses fantásticos. Nossa casa virou uma comunidade hippie. De repente, comecei a ver a força renovadora e libertadora do amor de Cristo iniciar processos de iluminação espiritual na mente daquela moçada louca. Muitos deles largaram as drogas ali, bem diante de nossos olhos, e passaram a ser anjos da graça de Deus, levando a mesma mensagem para seus amigos ou mesmo de volta às suas casas e famílias. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. E mais: o assunto já se tornara tema de conversa em escolas e até em faculdades. Foi nesse ponto que comecei a ser convidado para ir falar em algumas escolas. O processo foi mais ou menos assim: motivados pelo trabalho com os hippies, Alda, eu, Júnior e Artunilza — amigos que também haviam acabado de se converter à fé — iniciamos uma reunião somente para jovens, aos sábados à noite. A iniciativa foi absolutamente bem-sucedida. Em dois meses, a velha e morta Igreja Presbiteriana Central de Manaus estava completamente lotada de moços de todos os tipos e classes sociais. Até mesmo meu amigo Alipinho foi lá ver o que estava acontecendo e ficou por uns três meses. Depois me disse que não sabia como é que eu podia ficar sem mulher e disse que para ele não dava. Três meses sem faturar as gatas era demais. “Eu admiro você, Caio, mas eu num consigo ficar sem sexo”, disse-me com emoção, mas nunca mais voltou. A fórmula da reunião era simples: muita música cristã ao embalo de guitarras, baterias e tudo


o que fizesse barulho, seguida de uma mensagem minha ou de alguém que eu convidasse e que conseguisse se comunicar informalmente com a garotada. Era uma maravilha. Dezenas se entregavam a Cristo todos os meses, e a coisa explodiu. Ora, essa moçada apaixonada por Deus ia de volta para a escola e contava o que estava acontecendo. Foi assim que as orientadoras educacionais começaram a me convidar para ir dar aula de moral e cívica. — Mas eu não tenho nada a dizer sobre moral e muito menos sobre cívica, minha senhora. Eu só sei dizer o que Jesus fez na minha vida, serve? — eu perguntava. — Nós não podemos convidá-lo para a aula de educação religiosa porque o padre não vai gostar. Mas na aula de moral e cívica não há o que reclamar. O problema é que a gente num sabe mais o que fazer com esses moços. Estão rebeldes e não sabemos como falar com eles. Mas você sabe — diziam. Assim, um ano depois de ser um dos mais rebeldes e desordeiros jovens de minha cidade, vi-me alçado à posição de professor de moral e cívica, recrutado por diretores e professores desesperados. Foi uma revolução. Eu começava de um texto bíblico sobre conduta e partia para a alma. — Nosso problema não é de moral e cívica. Nosso problema é esse vazio desgraçado que come a gente por dentro. É isso aí que leva você para a boca do inferno tentando encontrar uma resposta. Foi isso que aconteceu comigo e é contra essa morte que Deus oferece o antídoto Dele, que é Jesus — eu pregava. A mensagem era simples, mas sincera, apaixonada e cheia de fé. Nunca falhava. Na maioria das vezes, via os meninos e meninas desabarem no choro bem diante dos meus olhos, enquanto eu falava. Não raramente a aula acabava e eu tinha que ficar mais duas horas no auditório ouvindo as angústias juvenis dos alunos. A maioria deles me conhecia de antes e não podia acreditar no que havia acontecido. Entretanto, não havia como negar as evidências de minha conversão. As devoções espirituais, no entanto, seguiam inalteradamente o seu curso. E mais: como eu havia acabado de ler o Apóstolo dos pés sangrentos, o mesmo livro que estimulara a vida espiritual de meu pai cinco anos antes, decidira dedicar-me ainda mais à oração e à busca de êxtase para o espírito. Assim é que, mesmo sendo extremamente solicitado, freqüentemente parava tudo e me fechava no quarto por três dias sem comer nem beber, buscando uma consagração especial de meu ser diante do Criador. Naquelas ocasiões, não raramente meu espírito se enchia de uma luz indescritível. No primeiro dia geralmente sentia fome, mas depois todo o desconforto desaparecia e eu mergulhava em indizível estado de comunhão com a divindade. Essa conexão era tão fantástica, que me dava a sensação de estar profundamente ligado a Deus e à Sua criação. Olhava o movimento das nuvens e derretia-me de amor ante sua dança celestial. O cântico dos pássaros arrebatava-me. Os cheiros da vida ao redor vinham aos meus sentidos cheios de valor sacramental. Enfim, minha alma se tornava maior e mais sensível, e o mundo espiritual se convertia em meu vizinho mais próximo. Minha sensibilidade para a presença de anjos e demônios também crescia bastante. Naquele estado de oração, eu sentia um cheiro estranho, sempre o mesmo, quando entrava em lugares carregados de espíritos malignos. “Aqui tem alguém com forças malignas”, eu dizia sem ostentação, mas com certeza do que estava falando. E não dava outra. Começávamos a investigar e logo aparecia alguém se dizendo amarrado à bruxaria e às forças das trevas. Mas os anjos também estavam lá. Às vezes, sentia uma alegria súbita imensa quando discernia a presença das milícias de Deus ao meu redor. Vivendo naquela dimensão de arrebatamento espiritual, o curso de edificações tornou-se insuportável para mim. Não agüentava mais ficar sentado no banco da escola enquanto havia


tanta gente para ser ganha do lado de fora e de dentro. Entretanto, eu perseverava o quanto podia. Contudo, sempre que ouvia falar de algum grupo que estava se reunindo para orar, largava a classe e ia me juntar a esses intercessores espirituais. Porém, minha decisão de não freqüentar mais o curso só veio a acontecer depois de um episódio inusitado. A aula de física estava acontecendo. O relógio marcava aproximadamente nove e meia da noite. — Meu Deus, o que é aquilo ali no céu? — perguntou em tom de total estupefação um rapaz sentado próximo à janela da sala. Todos nós, inclusive o professor, corremos para uma das janelas, de onde vimos que no pátio em frente à escola já havia uma pequena multidão, olhando para o céu, em silêncio e perplexidade. — O que é aquilo Jesus? Será um sinal de Tua vinda? Como é que eu posso entender esse espetáculo à luz de Tua existência como Senhor de tudo e todos? — perguntei a Deus em choque com aquilo que estava ali, bem em frente a todos nós e para cuja realidade não tínhamos nenhuma explicação plausível. — Não é avião, nem helicóptero, e muito menos balão meteorológico — disse o professor. A coisa que pairava no céu, como se fosse uma imensa rocha cheia de luz, não era lisa nem uniforme em sua aparência. Na verdade, parecia uma imensa traça de parede, só que porosa e com irregularidades em seu corpo, como se fosse o dorso de um animal pré-histórico. A luz saía de dentro da coisa como se vazasse de seus poros. O movimento era lento, porém visivelmente determinado. O objeto passou bem devagar no céu em frente à escola. Sua distância em relação a nós parecia ser de uns três mil metros, mas a sensação de tamanho que aquilo passava era esmagadora. Lembrava alguns dos aparelhos estranhos dos filmes Star Trek. Era como se uma enorme base interplanetária, do tamanho de uns três Jumbos colados um ao outro, estivesse cruzando lentamente o céu de Manaus. O espetáculo durou cerca de dois longos minutos. Depois, o objeto fez a curva, ganhou velocidade com uma propulsão extraordinária e desapareceu na direção do horizonte escuro como breu do rio Negro. Fiquei completamente chocado com o episódio. — Professor, o que era aquilo? — perguntei. — Não tenho a menor idéia. Mas que não era qualquer coisa que a gente conheça neste planeta, isso eu sei que não era — ele respondeu com humildade, consciente de suas limitações humanas. Pedi licença e saí da sala. No pátio não se falava em outra coisa. — Era disco voador, cara! — diziam uns. — Que nada, era algum supermeteoro — afirmava outro. — Tá maluco, bicho, meteoro num cai assim, passeando e fazendo manobras lentas na frente da gente. Aquilo ali tinha movimento inteligente — dizia um outro com olhos cheios de mistério. Fosse o que fosse, causou-nos um imenso impacto. Montei na moto e corri para a casa de Alda, na Capitania dos Portos, bem às margens do Negro. Quando cheguei lá, encontrei-a com os irmãos, os pais e os marinheiros, enfim, com todo mundo, do lado de fora, olhando para o céu. — Cê viu a coisa? Que incrível! — disse Rose, irmã mais nova de Alda. Conversando com eles é que vim a saber que aquela aparição demorara muito mais do que eu havia imaginado, e que as evoluções daquele objeto tinham sido mais longas e sofisticadas do que tínhamos percebido lá da janela da escola. Na verdade, parece que o que vimos foi apenas o final daquelas demonstrações misteriosas. Para Alda e para muitas outras pessoas na cidade, o espetáculo


durara pelo menos uns seis ou oito minutos, e houve idas e vindas daquela manifestação, ora desaparecendo no horizonte, ora reaparecendo suave e majestosamente, exibindo-se ante os olhos estupefatos de milhares de amazonenses. No dia seguinte, os jornais amanheceram cheios de histórias sobre as visões coletivas da noite anterior. Estranhamente, não havia fotografias ou filmes de nada. Apenas o testemunho de milhares de pessoas é que permitia à própria cidade falar daquilo sem que ninguém se sentisse ridículo. As aparições deixaram-me com duas claras percepções na mente. A primeira era a de que, num mundo tão aberto para as manifestações do estranho e do inusitado, não havia mais espaço para eu viver de modo normal. As portas do extraordinário estavam abertas e eu queria entrar por elas. A segunda idéia era a de que aquilo poderia ser um dos sinais bíblicos da vinda de Jesus e que, portanto, eu não queria mais desperdiçar meus dias com qualquer coisa que não apontasse e contribuísse para a preparação da humanidade para aquele dia e hora. Nunca mais voltei à escola. Daquele ponto em diante, dediquei-me completamente ao estudo da Bíblia, à oração e à pregação da Palavra. Estávamos em julho de 1974. Fazia um ano que minha vida virara do avesso. Agora, entretanto, eu me deparava com uma oportunidade completamente nova. Um velho amigo de meu pai, Dr. Filipe Dau, dono da Rede Amazônica de Televisão, ofereceu-nos a possibilidade de termos um programa semanal na sua emissora. Seria ao vivo, aos domingos à noite, com trinta minutos de duração. De repente, vi-me diante das câmeras e com um moço chamado Rosinaldo, diretor da estação, dizendo-me que eu estaria no ar em um minuto.“Olha, num pode errar. Se gaguejar, não pare. Vá adiante”, informou-me ele. Ao final do primeiro programa, o próprio Rosinaldo parabenizou-me, dizendo: “Meu amigo, você tem jeito para esse negócio. Tô impressionado. Cê num errou nem uma vez. Muito bom.” Com tudo isso se desdobrando como num turbilhão, eu não tinha tempo suficiente para perceber o que estava acontecendo comigo, mas muita gente falava no assunto o tempo todo na cidade. E, mesmo sem me dar conta, eu havia me transformado na atração espiritual de Manaus. — Meu filho, sempre assisto ao seu programa na televisão. Você é muito jovem, mas fala com a alma e eu gosto de ouvi-lo. Não pare de fazer o que você está fazendo. Há muita gente impressionada — disse-me o governador José Lindoso num dia em que o encontrei por acaso numa das salas do palácio do governo, onde eu fora acompanhando meu pai. Depois, comecei a ver gente que não falava comigo por causa de minhas loucuras anteriores começar a balançar a cabeça em saudação quando me encontrava na rua ou quando eu passava pilotando minha motocicleta. Minha imagem estava sendo restaurada com rapidez impressionante, e eu apenas assistia ao desenrolar daqueles eventos nos quais eu era muito mais espectador do que agente. Deus estava em ação e Seu propósito parecia ser muito mais definido do que eu jamais conseguiria perceber naquele momento. Fosse como fosse, minha alma vivia em permanente estado de prazer espiritual. E eu sabia exatamente por que aquilo estava acontecendo.


Capítulo 28 “Naqueles dias não me fartava de considerar a profundidade de Teus desígnios para a salvação do gênero humano, pela doçura admirável que sentia. Quanto chorei ao ouvir, profundamente comovido, Teus hinos e cânticos, que ressoavam suavemente em Tua Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos, e destilavam verdade em meu coração. Acendia-se em mim um afeto piedoso, corriam-me lágrimas dos olhos, e me fazia bem chorar.” Santo Agostinho, Confissões

No segundo semestre de 1974, Alda e eu começamos a falar em casamento. Ela ainda era uma menina, com seus 17 anos, assim como eu não era mais que um garoto bem-rodado, embora, aos 19 anos, eu me sentisse maduro e cheio de fé. Obviamente, eu não era nenhuma das duas coisas, mas normalmente, aos 19 anos, é assim que você se sente, especialmente quando tem histórias para contar que a grande maioria dos anciãos nem sonha em ter vivido. No mesmo período comecei a ser chamado de pastor pelas pessoas da cidade. Mas como eu poderia carregar aquele título, se os presbiterianos, grupo ao qual estava ligado por causa de meus pais, não ordenavam ministros que não fossem cursar os quatro anos de seminário teológico? Na verdade, eu desejava que as duas coisas me acontecessem o quanto antes: queria casar e sonhava ser ordenado pastor. O primeiro desejo, contudo, parecia estar muito mais à mão que o segundo. — Papai, vamos enfrentar aquela fera? — indaguei fazendo referência ao capitão dos portos, o capitão-de-mar-e-guerra Manoel José dos Passos Fernandes, pai de Alda. Fomos até lá, e quase matei o pobre homem do coração quando lhe falei que ele teria de voltar para o Rio sem a sua filha primogênita, pois ela iria se casar comigo em janeiro do ano seguinte, 1975. — Pela madrugada! — ele exclamou. — Vocês são todos malucos — continuou. — Como é que vocês vão viver? Alda é menina e é mimada, acostumada a tudo do bom e do melhor. Você, Caio, era um doidão da pesada até um dia desses. Agora diz que está mudado. Deus te ouça. Mas e aí? A vida é dura, gente. E eu me admiro é do senhor, reverendo — e olhou para meu pai — de dar força para uma loucura dessas! — disse agitadíssimo, trocando as pernas no sofá, enquanto mostrava grande constrangimento com a situação. Era fácil para ele, entretanto, perceber nos meus olhos e nos de Alda que aquela era uma situação sem volta. Resmungou, balbuciou pequenos impropérios, sacudiu a cabeça, mas acabou cedendo.


— Quando é mesmo que vocês estão pensando em casar? — perguntou. Alda entrou em ação e já foi fazendo planos em vez de responder a pergunta. — Em janeiro, capitão — disse meu pai sem alteração na voz. — E como é que vocês vão viver? Onde vão morar? Amor não paga a conta de luz e não põe pão na mesa, meninos! — falou de modo soberano. — Além disso, esse aí — olhou para mim — não tem emprego e não me parece estar querendo ganhar a vida como todo mundo. Desculpe-me, reverendo, o senhor era um advogado brilhante, mas seu filho não era nada e agora quer ganhar a vida no bico, pregando. Eu não entendo isso, não. O senhor me desculpe — disse meu futuro sogro. Papai respondeu calmamente que ele sabia o que estava fazendo e que acreditava em mim. — O senhor ainda vai agradecer a Deus por ter consentido com a união do Caio Fábio e da Aldinha. O senhor vai ver — afirmou papai com total confiança. O segundo desejo, no entanto, era muito mais difícil de ser realizado, pois embora eu desejasse viver para o ministério da pregação do evangelho, não podia me ver quatro anos dentro das paredes de um seminário. Achava que aquilo me afastaria das ruas, das escolas, do rádio e da televisão, e que eu, provavelmente, não sobreviveria ao tédio da experiência. Como sabia que os presbiterianos jamais consentiriam com minha ordenação sem o curso teológico, comecei a me imaginar para o resto da vida como um pregador leigo do evangelho. — Vejo esses teólogos de seminário pregando em templos vazios e falando o que ninguém quer ouvir, enquanto eu prego e as pessoas se convertem. Por que eu vou ficar com inveja deles? — às vezes confidenciava a meu pai. — Eu vou é dar toda a minha vida para o evangelho de Cristo. Se me quiserem ordenado, que me ordenem; caso contrário, vou servir a Deus e não aos homens — prosseguia. O segundo semestre de 1974 foi também o tempo de algumas das minhas primeiras experiências cristãs com as forças espirituais do mal. Meu pai já era um combativo guerreiro espiritual desde sua primeira experiência com um possesso de demônios logo após sua conversão. Eu, todavia, só havia vivenciado aquela dimensão, até então, como vítima. Agora, entretanto, o cenário era completamente outro. Temor de ficar cara a cara com o bicho, sem a menor dúvida eu tinha, e muito. Mas, ao mesmo tempo, recusava-me a fugir da luta, se ela aparecesse. Dentre os amigos de oração de meu pai havia o irmão Israel. Os dois liam a Bíblia juntos, faziam visitas aos hospitais também juntos e expulsavam demônios juntos. Eu nunca ia com eles. — Vamos conosco, meu filho — convidava papai. — Obrigado, vou ficar aqui em oração por vocês — respondia com ar compenetrado, mas amedrontado por dentro. Meu temor era que aquelas forças, que já haviam me rondado tão de perto, ainda tivessem o poder de me perturbar a alma. Um dia, contudo, eu estava conversando com papai e Israel na garagem de nossa casa quando chegou alguém correndo, pedindo que os dois fossem ao bairro de São Francisco, a fim de expulsar um demônio que se apoderara de uma moça de 18 anos. Quando ouvi a história, fiquei gelado. No fundo, sabia que não dava mais para fugir da luta. Eu jejuava e orava como pouca gente fazia, no nível daquelas disciplinas pessoais. Mas não me sentia preparado para o confronto. — Vem com a gente, meu filho — papai convocou daquela vez, sem deixar margem para minha hesitação. Tremi como nunca havia tremido diante de uma briga. Meus pêlos se arrepiaram e meu estômago embrulhou. Uma leve tonteira apoderou-se de mim. Eram os poderosos sintomas do medo. Mas não havia retorno. Quando chegamos ao lugar, vimos que a casa ficava numa depressão profunda, talvez uns vinte metros abaixo do nível da rua. Papai desceu devagar e Israel ficou ao seu lado. Sem


perceber, deixei meu nervosismo me empurrar para a linha de frente. Quando me dei conta, já estava entrando na casa sozinho. — Seu desgraçado. Seu desgraçado. Eu te conheço, seu desgraçado. Eu te vi no Rio de Janeiro. Você era meu e eu te perdi, desgraçado — falou a menina, com voz masculina, enquanto cinco ou seis homens tentavam segurá-la. Seus olhos estavam esbugalhados, o branco do globo ocular parecendo quase saltar da órbita. Ela era do tipo caboclo, atarracada, de compleição gorda e cabelos desgrenhados. Babava de raiva, enquanto olhava para mim e repetia aquelas palavras. De repente, vi-me em cima dela. Quando papai e Israel entraram na casa, eu já estava em pleno combate. — É, eu sei que eu fui teu. Eu fui teu, mas tu me perdeste para sempre. Eu também me lembro de ti lá na praia de Copacabana. Tu quiseste me possuir. Mas eu não fui feito para ser teu. E agora eu sei de quem eu sou. Eu sou de Jesus. Sai dela, demônio — eu gritei todo arrepiado, mas tomado de profunda intrepidez. — Pára de falar assim, seu desgraçado. Você parece aqueles cristãos dos dias da Cruz. Eu estava lá quando ele me venceu na Cruz — exclamaram os espíritos que possuíam a jovem. Por aproximadamente dez minutos nós ouvimos aquelas confissões de derrota por parte dos demônios até que, de súbito, eles se foram, e a garota caiu desmaiada no sofá de napa vermelha, onde era mantida presa pelo peso dos homens que tentavam dominá-la. — Irmão Caio, você viu como as regiões celestiais o reconhecem como homem de Deus, coberto pelo Sangue de Cristo? — disse-me Israel, no fundo tentando transformar aquilo tudo numa confissão sobre a validade de meu vínculo com Jesus. — Olha, o diabo não sabe como me edificou espiritualmente hoje, aqui. Nunca mais na vida eu vou vacilar na luta contra eles. Hoje eu vi, com meus olhos, o que a Cruz de Jesus significa no mundo espiritual — falei, sentindo-me extremamente fortalecido na fé. Não demorou muito e outra história fantástica aconteceu. Todas as sextas-feiras João Chrisóstomo, Artunilza, Alda e eu — sempre acompanhados de meus irmãos Suely e Luiz Fábio, além de vários outros companheiros de fé — íamos orar a noite toda em lugares solitários. Na primeira sexta-feira após o episódio da moça de São Francisco, fomos fazer nossa vigília de oração nas imediações das cachoeiras de Tarumã, nos arredores de Manaus. Em 1974, o lugar ainda era quase completamente deserto. Ficamos instalados numa pequena casa de madeira construída sobre troncos enfiados na areia branca, habitação comum nas beiras de alguns igarapés amazônicos. Fizemos preces a noite toda. Naquele dia, especialmente, Alda e eu oramos e choramos muito, pedindo a Deus que nos desse filhos que fossem seres humanos bons e capazes de viver para Deus e para o próximo. Nunca me esquecerei da força que aquela noite teve sobre minha consciência paterna. Pela manhã, bem cedinho, ouvimos um grito. — Jacaré! Peguei um jacaré — era a voz do caseiro que tomava conta daquele pequeno sítio, que pertencia a uma amiga da igreja. Corremos e vimos o homem puxando um jacaré de quase dois metros, pela cauda. — Por que o senhor matou o bicho? — perguntei um pouco incomodado com o ato predatório, a meu ver totalmente desnecessário. — Ora, por quê? Pra gente cumê, moço — falou o caboclo com um ar de riso irônico nos lábios. — E o senhor come jacaré? — perguntou uma das meninas do grupo, já quase sentindo náuseas. — Se como? Num tem coisa milhó — afirmou ele, passando a língua de uma extremidade à


outra da boca. Uma hora depois, estávamos sendo convidados a comer o jacaré. Quase todos recusaram. Eu fui e provei o bicho. — Que delícia. Tem gosto de galinha com peixe — eu me lembro de ter exclamado, enquanto as meninas torciam o rosto fazendo o charme de um nojo previamente ensaiado. Depois daquilo, fomos jogar vôlei no campinho de areia que ficava em frente à casa. De repente, vimos um grupo de cerca de sessenta pessoas se aproximando. Estavam vestindo roupas esquisitas, uns roupões em branco e vermelho, e traziam nas mãos galinhas vivas e outros alimentos. Pararam a alguns metros de nós e começaram a cantar aos deuses da floresta. Como apenas uma pequena cerca de estacas pintadas de branco nos separava deles, nós interrompemos o jogo e nos recolhemos à varanda da casa, de onde ficamos vendo o ritual que eles começavam a oferecer. — Vem, espírito da floresta. Vem, caboclo. Vem, índio. Vem, bate-bate. Venham, espíritos da floresta — gritavam juntos. Depois, uma mulher com ar de sacerdotisa destacou-se do grupo e começou a cantar um cântico de invocação dos espíritos de mortos. Em seguida, ela deu um grito lancinante e começou a rodopiar sobre os próprios calcanhares. Todos se agitaram e gritaram com vozes de estranha alegria. Então as galinhas passaram a ser imoladas. O sangue era derramado ao redor da mata, num círculo desenhado como que para marcar uma clareira espiritual para a chegada daqueles seres invisíveis. Foi exatamente naquele momento que fui tomado de uma profunda repulsa espiritual, pois embora reconhecesse o direito cidadão que qualquer pessoa tem de cultuar a quem quer que pretenda identificar como divindade, minha convicção cristã já não me permitia assistir a um rito daquele com tranqüilidade. Sabia que a Bíblia proibia a invocação de mortos e também tinha consciência de que os deuses das florestas nada mais eram do que anjos caídos, demônios enganadores e perversos, ansiosos por determinarem seu domínio escravizante sobre aqueles que a eles se submetiam. — Nós não vamos ficar assistindo a isso calados. Vamos nos ajoelhar aqui e orar a Deus contra esse negócio. Isso é demais. A gente invoca o Deus único e vivo a noite toda, e de manhã, no mesmo lugar, espíritos da escuridão são cultuados? Assim não dá — falei revoltado. Pusemos nossos joelhos no chão e clamamos a Deus. Uma batalha de forças do mundo dos espíritos estabeleceu-se ali. Era possível sentir a densidade conflituosa do clima que se formou no lugar. Deu medo. Durante uns 15 minutos a arena estava composta por dois grupos humanos que se digladiavam espiritualmente pela posse do espaço invisível que ali existia, enquanto inúmeros seres angelicais disputavam o controle daquela arena de culto. — Senhor, nós sabemos que só Tu és Deus e que os deuses dos povos não passam de ídolos. Senhor, faz com que toda a natureza se una a nós na confissão de que só Tu és Deus. Manda uma tempestade poderosa. Faz Teus trovões retumbarem e os Teus relâmpagos cortarem os céus com as luzes de Tua majestade. Ouve a nossa voz, Senhor Jesus — clamei com meu rosto posto no pó do assoalho de madeira que nos mantinha a cerca de um metro de altura do chão de areia branca. Ora, naquele dia, aquela oração parecia não ter a menor chance de ser ouvida. O sol estava a pino e o céu completamente azul, sem nuvens. Cinco minutos depois, no entanto, ouvimos algo. Era o rugir monstruoso de um trovão leonino. Outro gemido dos céus e mais outro. Aí a coisa toda estalou. Parecia que a floresta estava vindo abaixo. Quando as árvores da floresta são agitadas pelo vento, em geral ouvem-se sons semelhantes a gemidos e grunhidos fantasmagóricos. São os troncos gigantescos roçando uns nos outros. É aterrorizante. Naquele dia, contudo, aqueles


gemidos transformaram-se em sons da voz de Deus. Os trovões tremeram a terra e os relâmpagos acenderam luzes súbitas e aterradoras em volta de nós. A água que caiu do céu era monstruosa em sua força. Algo anormal estava acontecendo. Demo-nos as mãos e cantamos em júbilo. O gozo do divino nos invadiu e nos sentimos tomados pela força das coisas eternas de um mundo invisível, que a maioria dos humanos não percebe e nem discerne a importância essencial. “Não há Deus tão grande como Tu. Não, não há. Não, não há. Não há Deus que faça as mesmas obras como as que fazes Tu”, esse era o cântico que nos embalava no nosso devaneio do divino e do sublime. Então vimos que a tempestade que nos trazia o sentido da adoração do Deus único, paradoxalmente, causava nos nossos oponentes espirituais efeito completamente oposto. Eles gritavam de raiva. Derramaram o que faltava do sangue dos animais e começaram a se retirar. Seus olhos nos fuzilavam com ódio, pois em suas mentes não havia a menor dúvida de que os deuses haviam sido invocados, mas o único que se apresentara fora Aquele que, aparentemente, eles não conheciam. À medida que eles se retiravam nos fitando com fogo e hostilidade, nós mantínhamos nossas mãos erguidas, abençoando-os e pedindo a Deus que os olhos do coração daquelas pessoas se abrissem para que elas percebessem que em Cristo estão todas as provisões para a alma humana. Daquele dia em diante, comecei a expulsar demônios quase todos os dias. Depois de alguns meses, filas formavam-se para que nós fizéssemos orações de libertação espiritual sobre os atormentados de alma, que vinham de todos os lugares na cidade. De fato, nos anos seguintes eu haveria de lidar diariamente com situações tão incríveis naquela dimensão espiritual, que, se contadas, muita gente teria dificuldade de acreditar. Mas porque nós jejuávamos, orávamos e libertávamos as pessoas de seus tormentos, nossa fama corria a cidade e as pessoas vinham a nós buscar socorro, o que sempre recebiam, de graça e sem qualquer compromisso com coisa alguma. Ao contrário, quando alguém desejava deixar uma oferta em dinheiro por ter sido atendido, nós repreendíamos essa pessoa veementemente. Meu pai sempre dizia: “Nós recebemos de graça, nós damos de graça”, o que eu repetia sem vacilação. Naquelas sessões de exorcismo, havia de tudo: pessoas que expeliam longos e pretos espinhos de tucumã de dentro de seus corpos; gente que tinha letras percorrendo a pele e mudando de posição no corpo duas ou três vezes a cada hora; mulheres que derramavam sangue pelos olhos e pelos poros todas as noites e que eram possuídas por espíritos de prostituição; homens desarvorados de loucura e mantidos em cativeiro por anos, mas que eram “subitamente libertados” durante a nossa visita. Além disso, havia ainda mulheres que andavam pelo chão da casa serpenteando e fazendo na cauda imaginária o ruído de uma cascavel; às vezes, copos de vidro eram comidos bem diante de nossos olhos ou éramos agredidos com facões imensos por possessos que corriam em nossa direção para nos matar. “Sai dele em nome de Jesus”, gritávamos, e víamos as pessoas se espatifarem na corrida, como se tivessem se chocado contra uma muralha invisível. Enfim, todos os dias nós visitávamos o inferno e saíamos de lá vitoriosos em nome de Jesus. Fazer aquilo, todavia, não nos dava prazer e não nos induzia ao hábito. Sempre sofríamos juntos, papai e eu, ao vermos um ser humano posto naquelas condições abissais. Era horripilante ver o que as forças do mal podiam fazer com as pessoas que inadvertidamente se envolviam com elas. Apesar de toda aquela guerrilha espiritual, Alda e eu prosseguimos em nossos planos de casamento. Marcamos a data para 20 de janeiro de 1975. Enquanto isso, fui separado para ser evangelista — designação dada ao obreiro leigo da Igreja Presbiteriana —, servindo junto com meu pai no templo central da cidade e ganhando um salário mínimo por mês. Não me importando muito com o título de evangelista, continuei as pregações na televisão,


nas escolas e nas praças. E, sobretudo, prossegui no trabalho de exorcismo de aflitos, oprimidos e possessos. Entretanto, algo novo iria acontecer. Havia na cidade um radialista famoso, que detinha 60% da audiência do rádio das sete ao meio-dia, todos os dias. Esse homem, filho de pais evangélicos, porém vivendo distante da fé por mais de trinta anos, veio subitamente a ter uma experiência com Cristo no natal de 1973, enquanto ouvia um hino evangélico na vitrola de sua casa. O choque da graça de Deus nele foi tão intenso, que não conseguia mais ficar sem comunicar, aonde quer que estivesse, a existência daquele mar de Deus que o inundara. Na rádio, contudo, ele tinha embaraços de natureza contratual para fazer isso. Assim, resolveu desenvolver uma estratégia diferente. Passou a divulgar, dentro de seu programa, todas as manhãs, uma questão que suscitasse algum tipo de resposta bíblica ou espiritual. Nos intervalos, ele dizia: “Ao final do programa, o jovem Caio Fábio vai responder a essa questão. Mas antes, ligue e dê a sua opinião.” Ele conversava no ar com as pessoas e levantava a bola na área para eu chutar sozinho e correr para o abraço. Na primeira vez que isso aconteceu, o telefone não parou de tocar o resto do dia. O fluxo passou a ser tão intenso, que nossa casa começou a se tornar o pior lugar do mundo para que pudéssemos descansar. Agora era tudo de uma vez: os hippies ainda andavam por lá, os moços das escolas e faculdades também nos solicitavam, a televisão gerava uma exposição enorme de minha imagem na cidade e tirava completamente a minha privacidade, e aquele mundo de possessos e aflitos não nos dava descanso. Para completar, quanto mais trabalhava, mais eu jejuava. Assim, no início de 1975 eu estava pesando 59 quilos, contra os 85 que pesava no tempo de minha conversão, um ano e meio antes. Quando dezembro de 1974 começou, fui pintar um barco no qual viagens missionárias eram feitas para o interior do Amazonas. Ali, na beira do rio Negro, encostado junto às casas flutuantes, peguei uma hepatite fortíssima. Possivelmente foram as águas sujas com fezes e outros dejetos o que me contaminou. O fato é que comecei a me sentir muito mal e não sabia o que era. Como lidava freqüentemente com coisas espirituais ruins, logo pensei que fossem ataques demoníacos. Lutei no espírito e resisti pela fé ao mal-estar, repreendi as forças do mal, mas não adiantou. Ondas estranhas percorriam meu corpo. Minha sensação de distância alterou-se e à noite eu via menos, como se tudo estivesse meio amarelado. Meu estômago doía e meu fígado parecia estar grande. Até que amanheci completamente ictérico e me trouxeram um médico, que diagnosticou hepatite. Trinta dias na cama, comendo leite condensado e goiabada, era o remédio. Obviamente, considerando o “tratamento”, não achei ruim. Mas ficar doente justo naquele momento, com tanto demônio para expulsar e ainda por estar tão perto do meu casamento, não era o que eu queria. Quando o dia 20 de janeiro chegou, Alda estava arrebatada de alegria e eu angustiado. Eu a amava, mas estava com muito medo de mim mesmo. “Será que eu vou conseguir ser fiel a ela e só a ela o resto de minha vida? Será que eu dou conta do recado de ser um bom marido? Como é que eu vou fazer para dar atenção a ela no meio de tantas outras coisas? Será que ela agüenta essa vida louca que eu levo e vou levar pro resto da vida?”; eram as questões de meu pânico, especialmente na tarde do dia 20, quando caí de costa na cama, de braços abertos, e pedi a Deus que não me deixasse fazer qualquer coisa que a magoasse e que fizesse mal ao testemunho de minha fé. Casamos tendo uma multidão de desconhecidos como nossas testemunhas. Eram quase todos amigos dos pais de Alda e o evento virou acontecimento político, com a presença do governador do estado e demais autoridades. Eu queria era sair logo dali. Para mim, aquilo era um circo. Tive de tirar a barba para casar, pois meu futuro sogro me ameaçou de não nos deixar


contrair núpcias caso eu fosse para lá com aquela cara de Che Guevara. E, imitando Zé Curió, enquanto eu raspava a barba, repetia: “Eu não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar.” Mas a força de meus contatos com a dimensão espiritual não me permitiu relaxar nem mesmo no casamento, vez que Alda e eu havíamos planejado passar a lua-de-mel num barco, do outro lado do rio Negro, e em vez de fazermos uma lua-de-mel com sexo, iríamos jejuar e orar. Ela havia concordado com a minha proposta; mas eu, entretanto, fora o pai da idéia maluca. — Eu já fui tão doido nessa área, que o melhor é não fazermos sexo por uma semana depois de casados. Será um exercício de domínio próprio e um ato de consagração de nossa sexualidade a Deus — dizia eu cheio de convicção, enquanto ela apenas consentia com a idéia. — Cê tem certeza? Pra mim o que você quiser tá bom — falava ela com aquele sotaque carioca dengoso e pesado. Quando uma semana antes do casamento dissemos na casa de Alda, que iríamos pegar um pequeno barco com motor de centro e zarpar para o outro lado do rio, a mãe dela não se conteve. — Que nada. Vocês não são loucos de pensar que Manelzinho e eu vamos consentir com uma maluquice dessas. Pode tirar o cavalinho da chuva que isso não vai acontecer de jeito nenhum — falou dona Rose. Lutaram contra a idéia, mas não nos apresentaram nenhuma alternativa. Pensamos em outro programa de índio: ir para um pequeno sítio de amigos, para nos internarmos numa cabana no meio do mato. — Melhorou um pouco — disseram eles. Mas como nosso negócio era casar, estávamos aceitando qualquer imposição deles, desde que não mudassem nossos planos básicos. Na véspera do casório, o pai dela chegou com duas passagens para o hotel Tropical de Santarém. Casamos e fomos para lá. Alda se encantou. Apreciou as flores do lugar, brincou com as crianças na piscina, nadou e pegou muito sol com um casal paulista que também estava em lua-de-mel. Eu participei de tudo, mas com muito menos ímpeto do que a situação demandava de mim. Fizemos tudo para manter nosso voto de abstinência intacto, e conseguimos. No sábado à tarde, entretanto, fomos visitados por um missionário americano que trabalhava na cidade, que nos fez um pedido insólito: “Será que dá para o irmão ir pregar na nossa igreja amanhã, domingo, à tarde e à noite?” Alda achou um absurdo que alguém tivesse a cara-de-pau de convidar um casal em lua-de-mel para uma atividade como aquela, mas não disse nada. Como eu iria pregar no domingo à tarde, jejuei pela manhã, literalmente me abstendo de toda e qualquer comida. O missionário nos pegou no hotel e nos levou a uma pequenina igreja nos arredores da cidade. O local era extremamente pobre, e as ruas que davam acesso à igreja eram bastante enlameadas. O templo era ínfimo, porém devidamente cuidado pelo trato meticuloso das mãos do casal de americanos. Preguei uma mensagem sobre o amor de Deus como sendo o único poder capaz de nos fazer amar os homens e mulheres desse mundo. Meu texto foi o do apóstolo Paulo, em I Coríntios 13: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor serei como o bronze que soa e como címbalo que retine.” Falei com muita paixão. Toda a minha ternura e emoção contidas pelo voto de abstinência vazaram ali, na projeção de uma outra forma de amor. Depois, ao final do culto, em vez de nos levar para o hotel, o pastor, de quase dois metros de altura, ainda teve o santo desplante de pedir que eu ficasse no lugar, orando individualmente por aproximadamente trinta pessoas que se enfileiraram esperando que eu impusesse as mãos sobre elas em prece intercessória. E o pior de tudo é que fui insensível o suficiente para com Alda e aceitei o convite. Às onze horas da noite ele nos devolveu ao hotel, esbagaçados e com a promessa de que às 13


horas da segunda-feira nos buscaria para visitar as congregações de sua igreja e algumas outras atividades. E o trágico foi que eu aceitei. Na manhã seguinte, demos de cara com cinqüenta missionários americanos reunidos num congresso que iniciara naquela manhã num dos salões de convenção do hotel. — Que bom que o irmão está aqui. O Frank, nosso amigo de ministério, gosta muito de você. Será que não quer assistir às nossas reuniões? — perguntou-me um deles, com um sorriso muito amigável. “Se você aceitar, eu vou embora daqui”, foi o que li no olhar frustrado de minha recém-quase-esposa, já antevendo o que seria sua vida comigo, a menos que algo tão forte quanto a conversão que me livrara de minhas perdições anteriores salvasse-me agora de uma vida ao mesmo tempo monástica e religiosamente guerrilheira. — Muito obrigado pelo convite, mas hoje não vai dar. Nós estamos em lua-de-mel aqui — eu disse. — É, nós sabemos. Mas venha assim mesmo — reafirmou o irmão. Foi ali que comecei a perceber como privacidade e coisas do coração, na maioria das vezes, recebem tão pouca importância em alguns ambientes religiosos. A tarde transcorreu tediosa para quem deveria estar ali para curtir o amor, a pele, os gostos da paixão e a liberdade dos amantes. Alda foi paciente e generosa comigo e com os missionários, mas já era possível perceber o início de um certo cansaço em seu olhar. Passados os sete dias de abstinência, nossa lua-de-mel enfim começou. E ali também se iniciou a luta de minha esposa para criar fronteiras entre meu ministério cristão e nossa vida privada, combate esse que jamais cessaria, até o dia de hoje, sendo que, alguns anos depois, eu também me aliaria a ela na tentativa de erguer esses muros de proteção.


Capítulo 29 “Ali, sozinhos, conversamos com grande doçura, esquecendo o passado, ocupados apenas no porvir, e indagávamos juntos, na presença da Verdade, que és Tu, qual seria a vida eterna dos santos, que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, e nem o coração do homem pode conceber.” Santo Agostinho, Confissões

O carro começou a puxar para a direita e percebi que o pneu estava furado. Nós havíamos acabado de chegar de Santarém e era a nossa primeira visita à casa dos pais de Alda depois de casados. Saí para trocar o pneu e pensei que iria desmaiar quando me levantei para tirar os parafusos da roda. Trocado o pneu, o carro — um Hondinha do tamanho de uma Romiseta — não queria pegar. — Fica aí na direção que eu vou empurrar até ali a frente — falei, enquanto Alda assumia o volante. Então empurrei uns dez metros. — Alda, tô vendo tudo escuro. Eu vou desmaiar — falei encostando a cabeça contra o carro e tomando todo o ar que podia com a boca e as narinas. Uma coisa muito ruim estava dentro do meu corpo. Pareciam os mesmos sintomas dos demônios contra os quais eu havia lutado dois meses antes, quando o médico diagnosticara a hepatite. Meu médico era o Dr. Antônio Nogueira de Farias. Ele já havia tratado de mim na primeira hepatite, e eu pedi seu socorro para cuidar da segunda. Ele vinha todos os dias supervisionar as aplicações de soro que eu recebia e ver como estava meu estado geral. Batia no fígado e no baço para ver que repercussão sonora haveria. “Ainda está muito grande”, dizia ele apalpando o tamanho do fígado. Até que um dia ele não apareceu. Fiquei preocupado com o que poderia ter acontecido. Passaram-se três dias. Uma semana. E, então, sua esposa apareceu lá por casa. Joedisa chegou a pretexto de visitar-me. Depois de alguns minutos de conversa, disse-me que ela e Antônio estavam em situação conjugal muito difícil, prestes à separação, e que os dois estavam envolvidos com doutrinas de natureza mediúnica. No fim de tudo, ela me contou que Antônio estava muito doente em casa. Oramos juntos, e ela se foi. Alguns dias depois, ela me visitou outra vez e me solicitou que, se possível, fosse visitar seu marido, meu médico. Embora estivesse sob rigoroso repouso, aliás prescrito pelo próprio marido dela, disse-lhe que no domingo seguinte eu pediria a meu pai que me levasse até a casa dela. No entanto, antes do domingo chegar fomos até lá, onde ele nos explicou que sua doença era de natureza pré-leucêmica, e que o tipo do mal que sobre ele se abatera era chamado de mononucleose. Disse também que, em certos casos, a doença evoluía para leucemia. No sábado, ficamos sabendo por Joedisa que os médicos, colegas de Antônio, haviam trazido


más notícias sobre o seu quadro clínico. A informação era a de que, de fato, o quadro transformara-se em leucemia. Joedisa estava em pânico. Papai e eu decidimos que no domingo iríamos lá para orar com ele. No domingo, no fim da tarde, nós fomos à casa deles. Ao chegarmos, encontramos uns amigos da família fazendo uma visitinha. Aguardamos cerca de uma hora na esperança de que pudéssemos orar a sós com Antônio e Joedisa, mas os amigos não saíam. Cansados da espera, resolvemos orar independentemente do público ser adequado ou não. Perguntamos ao Antônio se ele cria que Jesus podia curá-lo. — Sim, eu creio — respondeu com fé. — Você gostaria que nós derramássemos o óleo da unção, em nome de Cristo, sobre a sua cabeça, como ordena a Bíblia? — perguntamos. — Sim, eu quero, eu preciso — afirmou ele com emoção e carência. Papai pegou o vidrinho de óleo de unção que ele sempre carregava e nós ungimos o médico. — Senhor Jesus, Tu tens todo o poder no céu e na Terra. Tu criaste o corpo do Antônio. Tu podes curá-lo. Não estamos Te dizendo o que fazer, porque Tu és Deus. Tu sabes o que fazer e quando. Mas nós estamos aqui, Jesus, para dizer que cremos no Teu poder de curar milagrosamente. Assim, Senhor, pedimos: cura o Antônio e Te exaltaremos — oramos de modo calmo, cheios de fé de que tínhamos sido ouvidos. Oramos e saímos. No dia seguinte, Antônio nos contou que nada aconteceu até que ele nos ouviu dando partida no carro. No entanto, quando ele escutou aquele rum, rum, rum do motor do carro, olhou para o teto da casa e teve a impressão de que haviam aberto o telhado e derramado um caldeirão de amor liquefeito sobre ele. — Aí, meu fígado, que estava enorme, cavalgou aos saltos para debaixo da costela, onde era o seu lugar. O baço também veio aos pinotes de volta ao seu lugar de origem, desinchando imediatamente. Senti o sangue ferver e correr aceleradamente pelo meu corpo. Uma energia extraordinária me envolveu. Saltei e comecei a gritar: Jesus me curou, Jesus me curou — contou-nos Antônio. A essa altura, seus amigos, que ainda estavam lá, ficaram embasbacados, sem entender nada. Ele correu, saltou o muro da frente de sua casa e gritou: “Eu estou curado!” No dia seguinte, foi trabalhar. Quando os colegas o viram entrando no hospital, correram para segurá-lo. — Qui é isso, cara? Cê tá maluco? Vai pra casa. Cê vai morrer aqui — vaticinaram os médicos. Antônio contou-lhes o que havia acontecido e pediu para fazer todos os exames. O resultado foi alarmante para os médicos. Tudo normal. Eles não podiam acreditar. O quadro leucêmico revertera-se instantaneamente. Jesus operara um milagre em Antônio. E mais: ele usara alguém como eu para curar, enquanto eu mesmo pedia cura para a minha doença, mas Ele me deixava ir até o fim, sem nenhuma intervenção sobrenatural. E isso eu não entendia. Ter crido que o Deus que curava aqueles por quem nós orávamos certamente também me curaria quando viesse a precisar e ter tido experiência diferente, tendo precisado da cura e não a tendo encontrado, fez-me um mal enorme e abalou a minha fé. Além disso, a hepatite colocou-me fora de circulação por seis meses. Mas, na verdade, aquela foi minha primeira parada para pensar desde a minha conversão, pois, mesmo investindo tanto tempo em oração e jejum, eu fazia aquilo de modo muito objetivo, ou seja, eu praticava aquelas disciplinas espirituais porque estava convencido de que aquele era o caminho para fortalecer o meu espírito e para adquirir poder espiritual na luta contra as forças invisíveis do mal. Quanto ao


mais, no entanto, minha vida continuava agitada e trepidante: televisão ao vivo todos os domingos, rádio todos os dias, debates na mídia sobre assuntos do momento, pregação nas escolas, universidades e ao ar livre, aconselhamento de jovens na igreja, visitas aos hospitais, além daquela legião de oprimidos e perturbados que nunca nos deixavam. A hepatite, entretanto, me fez parar e pensar. Ali, rolando na cama o dia todo, cansado de não fazer nada, entreguei-me à leitura não só da Bíblia, mas de outros textos. Foi naquele período que fui introduzido a pensadores cristãos não-ortodoxos, que questionavam tudo: a Bíblia como Palavra de Deus, o nascimento virginal de Cristo, os milagres, a ressurreição física de Jesus e, sobretudo, a segunda vinda dele, um dia no futuro, de volta ao planeta Terra, conforme as Escrituras afirmam que acontecerá. De súbito, em meio àquelas leituras, vi-me tomado de profundas dúvidas. — Mas como é que eu posso duvidar, se tenho visto milagres e atos sobrenaturais de Deus? — eu me indagava, enquanto minha mente sempre encontrava uma nova base para manter o questionamento. — Mas isto tudo pode ser apenas o resultado de fenômenos psíquicos e todos os milagres da Bíblia podem ser explicados pela parapsicologia ou como sendo grandes mal-entendidos históricos — eu respondia a mim mesmo, dando assim chance a que minha alma se revolvesse em agonia cada vez maior. Era horrível. Meus pés ficavam gelados. À noite, uma angústia tão grande me invadia, que era como se ondas de desespero se alternassem sobre minhas costas. — Jesus, não deixa eu me tornar um descrente. Ajuda-me na minha falta de fé. Não deixa eu desistir de crer. Se eu perder a fé, eu me mato. Me segura Jesus — eu orava com intensidade e pavor. — Mas e se você estiver dando a sua vida a uma balela? E se tudo isso for apenas o resultado do nervosismo religioso dos primeiros discípulos? E se você morrer e não houver nada? — algo em mim me indagava e me punha contra a parede. — Ora, se for assim, eu nunca vou ficar sabendo. Vou morrer e vou cair no nada. Mas e se houver tudo o que a Bíblia diz? Como é que eu fico? — eu mesmo contra-atacava. Então lia os livros dos apologetas, os defensores racionais da fé. Li tudo e todos que pude encontrar na época. E quanto mais lia, pior ficava. Então, concentrava a mente nas imagens da Ressurreição. Pensava com força, como que querendo materializar aquela visão, como se tivesse voltado no tempo dois mil anos. Mas que nada. Quanto mais pensava na coisa, mais distante de mim ela se tornava e cada vez mais fantasiosa parecia ficar. E mais: a impressão que eu tinha era a de que minhas dúvidas cresciam à medida que eu orava e jejuava. Pensei que fosse enlouquecer. Pelas madrugadas eu acordava e buscava a sintonia da rádio Transmundial, cujas transmissões eram feitas das Antilhas Holandesas. Ouvia os pastores e cristãos falarem com simplicidade e fé, e os invejava. “Meu Deus, por que o Senhor me fez inteligente? Eu queria ser burro e simples. Meu Deus, tudo o que eu queria era ter a mesma capacidade de crer da Mãe Velhinha”, dizia em desespero e lágrimas, lembrando que minha avó materna estava ali, vivendo conosco na parte térrea da casa de meus pais, sempre fazendo fortes confissões de fé. Aqueles seis meses foram infernais. Evitei pregar, mas não era possível. Consegui ficar longe da pregação apenas durante os primeiros sessenta dias. Depois daquele período, entretanto, aos sábados à noite eu saía da cama e ia à igreja falar aos jovens. Meus programas de TV foram repetidos e apenas nos últimos meses é que pude voltar a gravá-los. Mas o caminho de volta era sempre para a cama. Quando recebi alta, seis meses depois, havia mudado enormemente por dentro. Decidi que não haveria mais de buscar nas emoções fundamento para a minha fé e que iria viver em Cristo


exclusivamente baseado nas evidências de sua divindade, conforme a Bíblia. Passei a ser muito mais elaborado nas minhas pregações e busquei apoio para a fé na filosofia e na teologia. Às vezes, eu me desesperava, achando que nunca mais na vida voltaria a viver com a paixão confiante que me incendiara nos dois anos anteriores. Voltar atrás, todavia, jamais. Jesus era real demais para que eu me afastasse Dele, mas o fato não me ter curado da hepatite quando cri com tanta certeza, abalou-me profundamente e me deixou com uma ponta de raiva de Deus no coração. Os que comigo conviviam não podiam jamais imaginar que eu estava vivendo aquelas angústias, pois quanto mais eu me sentia em conflito, mais convincente e bem-elaborada minha pregação se tornava. “Como você está pregando bem. Continue assim, cheio de fé”, diziam-me com extrema freqüência, o que me fazia viver sentimentos ainda mais ambíguos. Eu ficava grato a Deus e, ao mesmo tempo, sentia-me horrível. “Meu Deus, eles não sabem como eu estou tão confuso”, eu segredava a mim mesmo. Com o passar do tempo, o ministério absorveu-me de tal maneira, que meu luxo filosófico foi se tornando ridículo. Era tanta gente necessitada, doente, carente, drogada e oprimida, que acabei esquecendo de mim mesmo. Além disso, curas milagrosas começaram a acontecer espontaneamente quando eu orava por pessoas necessitadas e não me foi difícil, a partir daí, concluir que o fato de Jesus não me haver curado quando eu pedira tinha tido uma finalidade pedagógica para mim. “Já pensou se você tivesse sido curado? Orando pelos outros e vendo Deus responder; pedindo a Ele por você mesmo e ainda obtendo resposta, seria terrível. Você ficaria vaidoso e presunçoso”, dizia de mim para mim, enquanto tentava silenciar as recaídas de meus questionamentos. No fim de 1975 eu já estava a todo vapor outra vez. Voltei a pregar com toda paixão e entreguei-me alucinadamente às pessoas. Além disso, depois de ler a Morte da razão, do filósofo cristão Francis Schaeffer, decidi que viveria o cristianismo com radicalidade social. Passei a pegar pessoas na rua e a levar para casa. Cheguei mesmo a colocar duas moças dormindo em nossa cama, enquanto Alda e eu passávamos a noite no chão. Abrigamos até gente suspeita de crimes, como um rapaz de Brasília, sobre quem pairava a dúvida de ter estuprado e matado a irmã. Mas minha convicção de que o evangelho tinha poder para mudar bichos, monstros e pervertidos, tornando-os capazes do arrependimento e de uma existência nova, era tão forte, que eu corria qualquer risco para provar este poder. E Alda embarcava comigo nas aventuras. Entretanto, meus pais também se tornaram meus sócios naqueles empreendimentos arriscadíssimos, pois, afinal, o quarto era meu e de Alda, mas a casa era deles; e, sem dúvida, sobrava-lhes um quinhão bem elevado, especialmente para minha mãe, que tinha de providenciar comida para aquela gente que ela não sabia de onde vinha e nem para onde ia. Foi também no início daquele ano que o concílio presbiteriano da cidade de Manaus decidiu me dar uma chance de pleitear a ordenação pastoral sem a formação de seminário. — Nós vamos dar a você três anos de prazo para que demonstre sua vocação pastoral e, ao fim desse tempo, você nos apresentará uma tese teológica. Você também deve ler os livros do currículo do seminário. Se for aprovado no teste, nós o ordenaremos, mesmo contra os regulamentos da Igreja. O problema é que esse tipo de concessão só é feita a gente de vocação tardia, o que não é o seu caso — disse o presidente do presbitério. — Meu Deus, eu não entendo esses irmãos — disse papai. — Você está mais envolvido no ministério pastoral do que todos eles juntos, e eles têm a coragem de dizer que querem ver se você tem vocação pastoral? Eu, contudo, não fiquei magoado com aquilo. Na verdade, nunca tivera qualquer tipo de fé na instituição religiosa. Sabia que ela era útil apenas para manter a tradição da fé, mas que era completamente inútil quanto a produzir amor e paixão no coração das pessoas sofridas deste


mundo. — Vou fazer o que estão pedindo. Mas não quero jamais ser um cara da política religiosa e de todos esses regulamentos. Se fosse para viver assim, eu jamais teria me convertido — eu desabafava com alguns amigos mais chegados. Quando peguei a lista de livros básicos do seminário, percebi que já havia lido a maior parte deles. Mergulhei na pesquisa e no estudo teológico, filosófico e doutrinário. Fiz isso, todavia, sem abandonar meus compromissos para com o mundo real e para com aqueles que haviam crido em Deus por meu intermédio. No final do ano, o concílio se reuniu e mudou sua orientação. — Três anos é muito tempo. Nós não temos mais dúvidas de sua vocação. Escreva uma tese e apresente-a em janeiro de 1977 — foi o veredicto. Vibrei com a mudança nos prazos. Já não agüentava mais evangelizar, cuidar, instruir e preparar centenas de pessoas para o batismo sem que eu mesmo pudesse ser oficialmente o ministrante do sacramento sobre elas. Contudo, apesar da euforia, não me dediquei exclusivamente àquela tarefa. Ao contrário, imergi radicalmente nas outras atividades, as únicas que realmente me desafiavam e davam prazer. Em maio de 1976 Alda deu à luz nosso primogênito, Ciro, na cidade do Rio de Janeiro, uma vez que seus pais não quiseram que ela tivesse o primeiro bebê longe deles e nos levaram para o Méier, onde moravam. No dia 12, às seis e meia da manhã, a bolsa d’água estourou. O trânsito estava pesadíssimo e ela quase deu à luz dentro do carro. Subi calçadas, cruzei ilhas de isolamento no meio das ruas, buzinei, orei, corri enlouquecido, mas cheguei com ela e dona Rose ao hospital. O menino veio em seguida. Quando vi meu filho nos braços de uma enfermeira, dancei pelo corredor do hospital. Era a realização de meu mais enraizado sonho humano: ser pai. Esse desejo se enrolara em minha alma, com força inarredável desde que papai construíra aquela casinha de compensado lá no fundo de nosso quintal na rua Apurinã. “Entre aí, ame uma mulher e ame seus filhos”, era o som que muitas vezes voltava à minha memória desde então. E mais: o impacto daquelas palavras fora tão profundo em minha alma, que mesmo quando eu vivia de loucura em loucura e de mulher em mulher, ainda assim eu dizia que poderia até não chegar a casar, mas que filhos eu com certeza teria. A volta a Manaus com o bebê foi uma festa em nossa casa e na igreja. Ciro ia de mão em mão naquela comunidade de centenas de jovens. Nossa dificuldade era ficar com ele. Todo mundo queria o garoto. No início gostamos, mas depois nos enchemos daquilo. — Desse jeito eu não vou ser mãe desse garoto nunca — disse-me Alda, já bastante frustrada. Mas ela não teve nem tempo de se frustrar com maior profundidade. — Caio, você não vai acreditar, mas estou grávida outra vez — ela me confidenciou. Beijei sua barriga e fiquei feliz. Ela, entretanto, mostrava-se claramente preocupada. “O Ciro só tem três meses e eu já estou esperando outro neném. É demais, cê num acha? — ela me indagava. — Que nada, meu amor, “a herança do Senhor são os filhos e o fruto do ventre é o galardão do homem. Os filhos são como flechas na mão do guerreiro. Bendito é aquele que enche sua aljava com essas flechas de Deus”. Não se preocupe — respondi, citando o Salmo 127. Alda, contudo, parecia não concordar com tamanho fatalismo bíblico-biológico. Mas não dizia nada. Durante aquele ano organizei vários eventos musicais com a finalidade de evangelizar jovens. Eram os Reflex-sons. Depois tive a idéia de fazer uma coisa bem artística no teatro Amazonas. Seria algo com muita música, coreografia, danças e uma pregação objetiva, que eu faria. O desejo era o de alcançar um público que jamais iria à igreja. À Cruz Urgente, era o nome do evento. Trabalhamos intensamente para aquele projeto. Eu mesmo me dediquei à supervisão de cada


detalhe da programação. A data já estava agendada. Seria o dia 6 de novembro daquele ano. Quando amanhecemos o dia 2 de novembro, eu saí da cama com o coração estranhamente angustiado. Fui para a igreja e atendi as pessoas para aconselhamento e oração, como fazia todas as manhãs. Naquele dia, todavia, era diferente. Por ser Dia de Finados, todo mundo que veio me procurar perguntou sobre a morte. “A gente vai direto para o céu quando morre crendo em Cristo?” Ou então: “Por que é que a Bíblia proíbe a consulta aos mortos?” Assim, as questões sobre a morte se sucediam. Às 13 horas fui almoçar. — Lacy, sabe quem faleceu ontem no Rio e o corpo está sendo trazido de avião para Manaus? — papai perguntou a minha mãe. Alda, eu, Aninha, Suely e o marido estávamos à mesa. — A mãe do Bernardo Cabral — concluiu papai, lembrando a amizade de seu compadre. — Não diga isso, Caio. Poxa, que pena! — acrescentou mamãe. Durante o almoço o assunto continuou em torno da morte. — Olha, se eu morrer não precisa gastar dinheiro comigo. Pode mandar abrir uma vala e jogar o corpo lá. O corpo foi meu, mas não sou eu. Eu estarei com Jesus, na Glória — disse papai, arrancando protestos de todos nós. — O Caio é radical demais. Eu não aceito isso. Para mim isso é fanatismo — contestou mamãe. — Eu também penso diferente. Não temos que cultuar o corpo, mas reverenciá-lo é sadio — falei e citei inúmeros exemplos bíblicos daquela prática. — Ei, gente. Vamos parar com isso. Nós estamos almoçando e vocês só falam em morte — disse Alda com timidez, mas com bom senso. Logo após o almoço subi a rua Urucará, que passava ao lado de nossa casa, e fui com Alda à casa de Nalia e Liana, amigas da igreja em cuja residência um dos conjuntos musicais ensaiava para a apresentação do dia 6. Eram duas da tarde. — Amor, que coisa estranha. Estou com a sensação de que alguém nosso está morrendo agora. Estou possuída por uma agonia de morte — Aldinha falou, parando de caminhar. — Que é isso. Você só está impressionada com tanta conversa sobre morte. Não se preocupe com isso. Vai passar — refutei o sentimento dela. Chegamos ao lugar do ensaio e iniciamos. Às três horas da tarde vi o carro de meu pai parado em frente à casa. — Caiozinho, alguém telefonou dizendo que os filhos de Dr. Agnelo Balbi, o Camilo e o Agnelo Jr., sofreram um acidente horrível na estrada. Eles estavam no sítio e vinham para o ensaio. Vou ver o que aconteceu — ele me falou com o rosto preocupado. — Papai, e o Luiz Fábio? O mano estava com eles, não estava? — indaguei, embora estivesse certo que sim. — Não sei, filho. Ninguém falou nada do Luiz. Vou ver — rebateu imediatamente. Pedi para acompanhá-lo, mas ele insistiu que seria importante a minha presença ali, visto que Hilda, irmã dos dois garotos, estava entre nós e talvez precisasse de minha ajuda, caso as notícias não fossem boas. — Lacy, Lacy, meu Deus, Lacy! Teu filho está morto, Lacy. Ai! Lacy, por quê? — dona Conceição entrou em nossa casa gritando e foi logo apanhando mamãe sozinha no tanque de lavar roupa. — O que é isso, Conceição? — perguntou mamãe. E a resposta foi massacrante. — O Luizinho está morto. Foi um acidente de carro na estrada — falou nossa amiga, perturbada pela notícia que a ela chegara primeiro do que a nós.


Olhei pela janela da casa de Nalia e vi papai subindo a rampa com o olhar roxo de angústia. Seu rosto estava macerado de tanta dor. — Papai, e o Luiz? — corri e perguntei. — Ele já está onde nós ainda vamos ter de lutar muito para chegar. O Luiz já está com Cristo — ele disse com força e dor, mas sem desespero e sem lágrimas. Eu o abracei e chorei em silêncio. Uma lâmina fina e fria percorria meu ser de ponta a ponta. Um carrossel de lembranças rodou intenso à minha volta. — Papai, deixa eu tocar Dominique-nique-nique no piano? — ele pedira aos seis anos, antes de nós sabermos que ele tinha a música dentro de si. — Eu sei tirar o carro da garagem sozinho, qué vê? — quando ele nos assustou, aos sete anos, mostrando perícia ao volante. E mais: vi aquele rosto nervoso me esperando no aeroporto, feliz e aflito com minha volta para casa em março de 1973. Também o vi bonachão, sempre dando carona às velhinhas da igreja após os cultos, e tocando belos hinos no órgão com aquelas mãos enormes e tão contraditórias, que ora alisavam a música, ora desapertavam parafusos de máquinas de carro com a mesma paixão, como se ambas fossem extensão uma da outra. E, por último, eu vi a cena de Ciro urinando na boca de Luiz. Ele, todo orgulhoso, levantou o neném e disse: “Olha o titio, olha Cirinho.” De repente o esguicho. Era pipi para todo lado. Luiz caiu na gargalhada, aparentemente orgulhosíssimo com aquele batismo. “Meu Deus, por quê? Por que, meu Deus?”, mamãe indagava ao Eterno. Deixou Conceição sozinha e subiu angustiada a escada de nossa casa, indo em direção à sua Bíblia, velha e manuseada, posta à cabeceira de sua cama. Caiu de joelhos no chão do quarto. Abriu as páginas da Escritura a esmo, enquanto perguntava: “Por que, meu Deus?” Seus olhos pousaram sobre as páginas de Isaías 57: 2 e 3. “Por que o justo é levado antes que venha o mal; e entra na paz.” De repente, ela sentiu a força da mesma voz que falara com ela em 1964: “O que eu faço não o sabes agora, compreendê-lo-ás depois.” Uma paz enorme invadiu sua alma. “Senhor, obrigada. Agora entendo que a morte já não é o pior mal. O verdadeiro mal não é morrer, é viver sem Deus. Obrigada porque Tu estás poupando o meu Luiz de um mal maior. Eu confio em Ti e vou chorar sem amargura”, ela anunciou a Deus, com doçura de coração. Aquela foi a primeira vez que tive de lidar com a morte naquele nível de proximidade emocional. Saí dali e fui ao necrotério. Por ser Finados, o lugar estava apinhado de gente. Foi lá que fiquei sabendo que os três rapazes — Luiz, Agnelo e Camilo — haviam apanhado uma carona com um amigo do pai deles, que se oferecera para levá-los de volta à cidade. O problema é que o homem estava completamente embriagado. Seis quilômetros adiante, perdeu o controle do carro e mergulhou num precipício de uns trinta metros. O carro voou, rodou no ar e ficou preso de cabeça para baixo entre dois barrancos. Todos caíram. O motorista fraturou as pernas e os braços. Agnelo teve fissura de fígado e baço, além de fraturar a clavícula e abrir um rombo entre o crânio e o couro cabeludo tão profundo, que a área ficou toda cheia de terra. Camilo não sofreu nada, mas o óleo quente do motor do carro derramou todo sobre ele. A dor foi tão grande, que fez com que subisse os trinta metros de barranco íngreme com as unhas. E Luiz Fábio, meu irmão, caiu com a cabeça sobre uma haste de lenha, fraturou a base do crânio e morreu instantaneamente. Luiz estava com 19 anos quando morreu. Media um metro e oitenta e sete e pesava 96 quilos. Não gostava de esportes, mas amava a música e os carros. Tudo o que ele queria era ter uma oficina mecânica e tocar órgão na igreja até o fim de sua vida. Ele conseguiu viver e morrer como


desejou. Olhando-o ali, sobre aquele azulejo branco da mesa do necrotério, no entanto, parecia que tudo era absolutamente irreal. Foi somente quando toquei em sua coxa que me dei conta da irreversibilidade daquele estado. Minha mão afundou em sua perna, como se os músculos se abrissem ao peso dela. Tentei ajeitar sua cabeça, e um jorro de sangue se derramou abundantemente sobre seu peito. Chorei. Depois de lavá-lo, cumpri o desejo de minha mãe, que era vesti-lo com um terno azul xadrez que ele mandara fazer recentemente e que não tivera chance de vestir tanto quanto desejara. Em seguida, removemos seu corpo para o templo da Igreja Presbiteriana. A dor era enorme, mas descobri ali que mamãe e eu tínhamos algo muito nosso e que até aquele momento eu não havia percebido. Às 11 da noite, nós dois estávamos com fome, e comemos. Às duas da manhã, estávamos com sono, e dormimos. Todos os demais não fizeram nenhuma das duas coisas. Dali em diante, descobri que dor e perda não têm o poder de nos roubar nem a fome e nem o sono. Diminuem a sua intensidade e regularidade, mas jamais os excluem completamente; falo de mim e minha mãe. Quando o dia 3 de novembro amanheceu, a frente da igreja estava completamente tomada. O templo já estava abarrotado com centenas de pessoas que ali se comprimiam. O problema é que no final da tarde do dia 2 havia chegado à TV Amazonas, emissora onde eu tinha o meu programa, a notícia de que eu havia morrido, e não o meu irmão. Daquele momento em diante, a emissora começou a colocar um crédito — letras correndo na barra inferior da tela — dizendo que eu estava morto e que o enterro seria no dia seguinte. Assim que soubemos entramos em contato e esclarecemos os fatos, mas muita gente não ficou sabendo. Quando cheguei, vi ainda várias pessoas me olhando como se estivessem vendo uma visagem. Outras me abraçavam, choravam por meu irmão, mas diziam que tinham pensado que havia sido eu. Foi estranho ter uma idéia do que seria o meu próprio funeral. Papai pediu para eu oficiar o ato fúnebre, o que fiz junto com muitos outros pastores que ali estavam. Ao final, ele mesmo tomou a palavra e falou de modo arrebatador sobre a força do consolo de Deus nas horas das perdas mais radicais. Todos choravam muito não apenas por causa da morte de meu irmão, mas estranhamente, também, pelo conforto espiritual que a cerimônia lhes trouxe ao coração. No dia 6 de novembro nós estávamos no teatro Amazonas, realizando a programação de À Cruz Urgente. Apesar de tudo, houve profunda graça e consolo de Deus sobre todos nós. Alda disse que preguei como nunca antes. Eu mesmo sentia que havia luz sobre minha alma em intensidade que eu até ali não conhecera. Centenas de pessoas tomaram a decisão de andar com Jesus. Voltamos para casa cheios de imensa e indizível paz. Uma semana depois, eu estava andando pela avenida Eduardo Ribeiro, no centro da cidade. Eram aproximadamente duas horas da tarde, e meu coração carregava uma saudade sem cura. Olhei e vi Chiquilito Erse, amigo de outros tempos, em pé na esquina, de costas para mim. Chiquilito tivera por anos o apelido de Peter Fonda, tamanha era a semelhança que havia entre ele e o artista do filme Sem destino. Fui até lá, por trás, e peguei no ombro dele. — Meu Deus. Meus Deus. Que é isso, meu Deus?! — foi a exclamação de Chiquilito, cujo rosto ficou pálido e os olhos esbugalhados. — Sou eu Chico, sou eu! Caio! O que está acontecendo? Tá com medo de quê? — indaguei. — Cara, cê tá morto! — disse-me ele como se quisesse convencer uma assombração que ela deveria voltar para o lugar de onde saíra. — Todo mundo pensou que havia sido eu, Chico, mas foi meu irmão, Luiz, quem morreu. Eu tô aqui, é só me pegar — insisti tocando nele. — Bicho, cê quase me mata — disse aquele que, anos mais tarde, se tornaria prefeito de


Porto Velho, capital de Rondônia. Assim, o susto de Chiquilito fez com que a morte de meu irmão ficasse gravada em minha memória como uma lembrança mista. A ambigüidade da vida ficou mais que presente naquela recordação, fazendo com que lágrimas e risos, gemidos e gargalhadas se misturassem de modo inconveniente, porém inevitável. Afinal, quem pode dominar as fontes da vida? E quem pode garantir que choro e risada não caibam na mesma boca, no mesmo dia, mesmo que seja o dia da morte?


Capítulo 30 “Se te agradam as almas, ama-as em Deus, porque, embora mutáveis, fixas Nele, permanecerão; de outro modo, passariam e pereceriam. Ama-as, pois, Nele, e arrasta contigo até Ele quantas almas puderes, dizendo-lhes: ‘Amemo-Lo’— porque Ele criou estas coisas, e não está longe daqui. Porque não as fez e se foi, mas Dele procedem e Nele estão. Mas eis que Ele está onde se aprecia a verdade: no íntimo do coração.” Santo Agostinho, Confissões

Quinze dias após a morte de Luiz iniciei a tarefa de escrever minha tese de ordenação. O concílio se reuniria no dia 6 de janeiro de 1977 e a idéia era a de me ordenar no dia 10, caso fosse aprovado. O problema é que não se escreve uma tese teológica em um mês. O trabalho demanda muita pesquisa e consulta, para não falar na produção do texto em si. Até aquele dia eu nunca precisara escrever nada que excedesse algo em torno de oito laudas datilografadas. Assim, quando percebi que não poderia trabalhar nenhum assunto que demandasse pesquisa, resolvi produzir algo sobre o que jamais havia encontrado sequer uma única linha escrita. Perguntei a vários pastores se eles tinham bibliografia para uma tese que versasse sobre a salvação dos pagãos fora da religião. Ninguém jamais lera nada objetivo a respeito. Apenas o reverendo José Mattos Filho me disse ter lido, na Teologia dogmática de Strong, uma alusão à eventual salvação espiritual de Sócrates, o filósofo grego. Para mim, tudo aquilo era ao mesmo tempo fascinante e odioso, pois se de um lado a Bíblia diz que a salvação é uma obra da graça divina que decorre de nossa resposta de fé à revelação de Deus em Cristo, de outro lado a própria Bíblia afirma, contundentemente, que nenhum mortal pode pretender saber ou fazer afirmações sobre quem foi salvo ou perdido, espiritualmente, além dos portões da morte. O fato de Strong haver mencionado uma eventual salvação de Sócrates deixou-me com raiva. — Quem é esse cara para se sentir com autoridade para falar da eternidade humana como se estivesse fazendo um simples comentário sobre quem passou ou não no vestibular? — comentei com meu pai. Como não havia nada escrito que me tivesse chegado ao conhecimento sobre o assunto, resolvi fazer do tema a minha dissertação. “Assim, ninguém me pede bibliografia além da Bíblia, e vai ser muito mais fácil discorrer sobre o assunto livremente”, imaginei. O desenvolvimento do tema já estava todo alinhavado dentro de mim desde aqueles seis meses de angústia teológica que me acometeram durante a segunda hepatite. Naqueles dias, enquanto rolava na cama, vinham-me à mente questões sobre o que teria acontecido a bilhões de seres humanos que


nasceram e morreram longe do ambiente histórico e geográfico da pregação do evangelho. Ou seja: eu queria saber por que somente quem teve a oportunidade de ouvir uma determinada informação, como é o caso do evangelho, poderia ter a chance da salvação, de acordo com os ensinamentos da Igreja (e aqui neste ponto, católicos e protestantes pareciam estar quase em absoluta harmonia). Eu, entretanto, achava que aquela redução era pagã. Como é que nós podemos imaginar que um Deus como o nosso haveria de reduzir a possibilidade da salvação a coisas tão humanas, condicionadas por elementos de natureza econômica, social, política e religiosa? E se eu tivesse nascido índio? E se meu chão de vida fosse a China, o Japão ou a Índia? E se minha existência histórica tivesse acontecido há três mil anos, numa tribo pagã da Europa Nórdica? Enfim, até que ponto nós temos o direito de pretender determinar que a salvação de Deus acontece apenas quando um missionário apaixonado atravessa os mares para levar a informação da redenção até os confins do planeta? Ou seja: na minha mente, não havia dúvida quanto ao fato de que o evangelho tinha de ser pregado a todas as criaturas humanas e eu estava comprometido com isso até o âmago de meu ser. Meu conflito, entretanto, era sobre se Deus não poderia ser Deus para fora dessa ação missionária da Igreja e salvar a quem ele bem entendesse simplesmente por causa de sua liberdade para ser Deus. “Se for diferente”, eu pensava, “mesmo que nós digamos que a salvação é possível só por meio de Cristo, estamos condicionando esse caminho a um outro meramente humano: a vontade da Igreja de ir falar de Deus aos homens. Nesse caso, quem deveria ir para o inferno não era o pagão alienado, mas a Igreja desobediente, que não cumpriu sua missão no mundo.” Escrevi cerca de cem páginas e submeti-as à apreciação de papai. — É assim que eu creio. Cristo é o centro da salvação, não a Igreja — falou com os olhos cheios de lágrimas. Sem perceber, contudo, eu havia entrado num terreno muito sensível. A implicação de meus pensamentos naquela área era que a Igreja é agente de Deus neste mundo para pregar a salvação, mas não é a detentora da administração da graça divina por meio algum. Assim, inocentemente, eu estava arranhando o assunto mais delicado da experiência eclesiástica: a ação divina fora da instituição religiosa, o que me tornava extremamente vulnerável. — Pera aí, Caio. Cê já pensou nas conseqüências? Os irmãos vão dizer que você é universalista na aplicação da salvação e teologicamente liberal. Cê tem certeza que quer correr o risco? — indagou meu amigo Ivan Moreira. Mas eu queria correr o risco. Afinal, eu jamais seria cristão exclusivamente por causa da Igreja. E quando a graça de Cristo me encontrou, o que mais me estimulou foi o fato de tudo ser tão livre e tão divino, sem tutelas humanas. O couro cantou quando minha tese foi examinada. Eu não tinha a menor idéia de que os meus irmãos pastores iriam enroscar-se tanto naquela temática. — Isso tem cheiro de liberalismo. Crendo assim, quem precisa evangelizar? — indagou Cláudio. — O problema é que pensando assim, você diminui o peso da pecaminosidade universal dos homens — falou Alfonso. — É por essa razão que não devemos ordenar quem não foi ao seminário. Falta teologia e doutrina à tese dele — concluiu Felipino. Foram dois dias inteiros de discussão. Durante aquele período fui defendendo cada uma das acusações levantadas. Em suma: insisti na afirmação de que só há salvação em Cristo, e que a Cruz de Jesus é o centro espiritual do universo. Todavia, a administração da graça divina, que


aplica a salvação, é prerrogativa de Deus. A Igreja tem a missão de pregar a todos os homens e deve fazer isso porque Cristo ordenou. Mas a Igreja não limita o amor salvador de Deus, ou seja, Deus também age — às vezes, ou até mesmo sobretudo — fora das instituições religiosas. — Eu entendo a preocupação de vocês, irmãos. Sei que todos aqui querem que os ministros presbiterianos sejam doutrinariamente sãos. Eu também. Mas nós não estamos aqui legislando nada para a Igreja. Estamos apenas discutindo uma tese teológica. E o que o Caio Filho está defendendo pode ser um problema para mim e para você, pois parece que as nossas motivações para evangelizar dependem desse sentimento de que se nós não o fizermos o mundo se perderá. Ele diz que crê assim, mas diz também que isso não impede a Deus de aplicar a graça de Cristo, mesmo sem a presença da Igreja. Se isso fosse um problema para o Caio, ele não evangelizaria como tem feito e nem com a dedicação que todos percebemos nele. Quem de nós aqui está evangelizando mais do que ele, mesmo tendo convicções mais ortodoxas do que as dele? — perguntou o reverendo Frank Arnold, missionário americano servindo em Manaus. Ninguém respondeu, e o assunto foi encerrado ali. Devidamente introduzido ao espírito complicado dos concílios da religião, aceitei a ordenação. Mas quando o dia 10 chegou, senti a mesma tremedeira que me acometeu no dia de meu casamento. Jejuei o dia todo, mas à medida que a noite chegava, eu gelava. “Senhor, será que eu serei um bom pastor? E se eu fraquejar? E se eu cometer algum ato pecaminoso e vier a desonrar o nome de Jesus? E se eu não agüentar a vida eclesiástica e suas veredas estranhas e, muitas vezes, completamente ilógicas para mim? E se algumas de minhas convicções me levarem a ficar sozinho dentro da Igreja?”, eram as questões que me aterrorizavam. — Caiozinho, eu preciso dizer algo a você. Ninguém sabe, mas dias depois de seu nascimento eu vi você no bercinho, ao pôr-de-sol, e fui tomado por um profundo e irresistível desejo de oferecer você à divindade. Mesmo sendo agnóstico naquele tempo, eu entreguei você a Deus, numa prece. Pedi para você ser pastor, mesmo não sendo protestante. Queria que você servisse a Deus, mas também tivesse esposa e filhos. Ele ouviu minha voz, mesmo quando eu não o conhecia — papai falou, enquanto lágrimas grossas rolavam pela sua face. Ficamos abraçados, chorando juntos. Quando nossos rostos se separaram do abraço, minhas dúvidas tinham desaparecido. Era como se o próprio Deus tivesse vindo me abraçar e dizer: “Não foi você que me escolheu. Fui eu quem escolheu você. E eu sei o risco que eu corro colocando o meu nome sobre a sua vida. Mas eu quero correr esse risco. Vá sem medo.” Chorei todo o tempo em que a cerimônia durou. O reverendo José Mattos Filho, que me batizara na Igreja Protestante na infância e que oficiara meu casamento, agora fora também incumbido de dirigir o ato de ordenação. Meu pai, entretanto, disse que a exortação ao novo ministro, chamada Parenesis, ele mesmo fazia questão de pronunciar. Foi um dos momentos mais tocantes e comoventes de toda a minha existência, até hoje. À porta do templo, após a cerimônia, senti-me realizado quando as pessoas me diziam: “Deus o abençoe, pastor.” Embora simples, eu não trocaria aquele título por nenhum outro. E, para mim, aquilo era bem mais que um título, era uma relação com a vida e com o próximo. Eu queria ser pastor de homens, e isso era tudo. Mas a ordenação ao pastorado tornou-se uma grande tentação para mim. O meu desejo de ser chamado de pastor ou reverendo misturou-se com uma outra impressão, falsa: a de que quem quer que não me chamasse de pastor não estava reconhecendo o significado de minha vida. — Ei, Caião. Dá uma chegada aqui — alguns jovens da igreja me chamavam com espontaneidade. De súbito, me percebi andando no caminho da formalidade e da distância de todos aqueles que não me chamavam de pastor. Lutei como pude contra aquilo, mas a coisa parecia ser mais


forte do que eu. Era como se não estivesse sendo reconhecido justamente na única área da vida que eu considerava de valor essencial para mim. Cheguei a ser grosseiro com aqueles que escolhiam o caminho da informalidade no trato para comigo. Num daqueles dias, Nalia, uma amiga de outros tempos e que agora estava na igreja conosco, veio apressada até a minha casa para nos dizer que Zé Curió, a quem eu não via desde 1975, após seu retorno da prisão na Ilha Grande, no Rio, estava baleado num dos hospitais da cidade, morrendo. — É um quadro de infecção generalizada. Ele vai morrer. Só um milagre. Olha Caio, ele quer que você vá vê-lo — disse-me Nalia com a consciência profissional da boa médica que ela se tornara, mas ao mesmo tempo deixando espaço para uma intervenção de Deus na situação. — Ei, Caião! Cê tá numa boa, bicho, e eu tô aqui, morrendo. Cê fez a melhor escolha — disse Zé Curió assim que me viu entrar no quarto em companhia de meu pai. Ficamos ali com ele, ouvindo-o falar como a vida lhe estava sendo difícil, constatação tardia, porém esperançosa. — Os home tão querendo me pegar. O que me aconteceu foi isso. A polícia me pegou. Veio um cara, olhou pra mim e, sem mais nem menos — pô eu tava sentado no carro, bicho — despejou um monte de tiro na minha barriga. Tão querendo acabar comigo, cara — continuou Zé Curió. O corpo dele ardia em febre. — Tô cum medo de morrê, bicho. Faz uma oração por mim. Papai e eu impusemos as mãos sobre ele, pegamos óleo de um vidrinho que sempre tínhamos conosco e, conforme a instrução do Apóstolo Tiago, derramamos o líquido sobre a sua cabeça, em nome de Cristo. — Zé, nós te ungimos com óleo para a cura de teu corpo, em nome de Jesus — dissemos. Em seguida, meu pai orou por ele, enquanto nossas mãos se mantinham sobre a cabeça de meu ex-melhor amigo. Agora eu tinha enorme piedade dele, mas nossas vidas não tinham mais nada em comum, a não ser as lembranças. — Pô, valeu mermo, Caião. Valeu, bicho — disse Zé, enquanto nos retirávamos. — Cê num vai acreditar — disse Nalia —, o Zé já saiu do hospital. A febre cedeu milagrosamente — completou. Ao saber do resultado procurei o Curió para estimulá-lo a ir à igreja a fim de iniciar uma vida de fé. — Pô, cara, valeu. Mas pra mim esse negócio de crente num dá. Tua esperteza foi essa. Agora tu tá numa boa. Bem casado, carro, casa, e gente que te respeita. Foi uma tremenda sacada. Mas pra mim a esperteza tem que ser outra. Obrigado por me convidar, mas esse negócio de ficar cantando Foi na Cruz, foi na Cruz que um dia eu vi meu Jesus morrendo por mim pecador num é pra mim não, bicho. Obrigado, mas tô fora — disse Zé com uma ponta de gozação. Foi a última vez que me lembro de tê-lo visto. Fiquei muito triste com a reação dele ao toque do amor de Deus em sua vida. Mas respeito gente que não faz trocas com Deus. Ou ele viria por amor e gratidão, ou jamais viria apenas por medo. Aquilo era típico do Curió.


Capítulo 31 “Senhor, Deus da verdade, acaso, para Te agradar, basta ter conhecimento? Infeliz do homem que, tendo conhecimento de todas as coisas, Te ignora; mas feliz de quem Te conhece, mesmo que ignore todas as demais coisas. Quanto ao que é cheio de conhecimento e ainda também Te conhece, não é mais feliz por causa de sua ciência, mas só é feliz por Ti, se, conhecendo-Te, Te glorificar como Deus, e Te der graças, e não se desvanecer em seus pensamentos.” Santo Agostinho, Confissões

Dois meses depois da ordenação, eu estava em casa uma manhã, quando vi um homem grandalhão entrando pelo portão. — Irmão Caio. Eu tenho um convite a lhe fazer em nome do Instituto Lingüístico. O irmão aceita ir pregar para a tribo dos yscarianas na fronteira do Amazonas com o Pará, no rio Nhamundá? — foi logo falando com objetividade o missionário americano Pedro Peter, assim chamado na intimidade pelos jovens de nossa igreja. Fiquei tão entusiasmado com a idéia, que nem pedi tempo para pensar. — Vou sim! Quando é? — foi só o que perguntei. — Na semana que vem. E você vai ter que ficar lá uma semana. Tá bom? — ele indagou. O problema é que Alda estava no final do sétimo mês de gravidez. Com os pais longe do Brasil, o pai da Alda estava servindo como adido naval e aeronáutico em Portugal e na Espanha, a minha ausência de casa a abalava profundamente. Assim mesmo eu disse ao missionário que iria. — Mas logo agora, Caio! E se o menino nascer? Eu não estou me sentindo bem. Há uma pressão muito forte na minha barriga — ela ponderou, enquanto eu simplificava tudo de um jeito clássico e bem masculino. — Não se preocupe, querida. Vai dar tudo certo. Quando pousamos naquele aviãozinho Lake anfíbio bem no meio das águas do rio Nhamundá, não fizemos isso sem risco. A clareira de árvores que dava acesso à flor d’água do rio não era larga e, por isso, não permitia nenhuma margem de erro por parte do piloto. Mas Daniel, o piloto adventista que nos levou até lá, parecia saber muito bem o que estava fazendo, e conseguimos pousar sem problemas. Uma canoa de casco de tronco de árvore veio nos buscar. A visão que tive, já desde o interior do casquinho, vendo a multidão de índios na beira do rio, foi completamente única. Não sabia que a somente duas horas e meia de avião de minha casa havia uma comunidade tão primitiva como


aquela. Minha sensação era a de que eu havia voltado no tempo ou mergulhado numa outra dimensão da experiência humana. Homens baixinhos, cuja nudez se disfarçava apenas atrás de pequenos panos de cor vermelha, de cabelos muito escorridos e entrelaçados por longos caniços, saudavam-me numa língua gutural, completamente estranha aos meus ouvidos. Crianças barrigudas e absolutamente nuas, destemidamente se enroscavam em minhas pernas, que para elas eram extremamente longas. Mulheres e mocinhas seminuas — com seus grandes e caídos seios, no caso das mães; ou com seios fortes, firmes e bem-feitos, no caso das mais jovens — riam para mim, como se tivessem acabado de ver um homem de outro planeta. — Bem-vindo ao nosso meio, irmão Caio — disse Pedro Peter, que já havia morado na aldeia mais de dois anos e agora estava de volta. — Esse aqui é Desmundo e essa dona Mary, sua esposa — falou apontando na direção de um gringo com cara de inglês e sua esposa, baixinha, de rosto bem redondo, porém bem europeu. Já era meio-dia e a fome estava grande. Levaram-me para a maloca, onde eu dormiria em companhia de pelo menos umas dez outras pessoas, e perguntaram se eu queria comer. — O que vai ser? Uma galinhazinha piroca? — perguntei, apontando para uma ave de pescoço pelado que comia farelos ali ao lado. — Não! Galinha aqui é apenas para decoração de cabelos e roupas. O que nós temos para comer é só beiju e vinho de açaí — falou a esposa de Pedro Peter. Como eu gostava muito de ambas as coisas, comi até não poder mais. Depois, parei para ouvir Desmundo contar a história daquela comunidade. — Quando eu cheguei aqui, não sabia nada sobre os yscarianas. Vim apenas porque queria aprender a língua deles e traduzir a Bíblia para o idioma. Quando chegamos, eles nos receberam com tranqüilidade. Não sabíamos como nos comunicar, mas percebemos que eles eram diferentes, nos traziam comida e riam muito para nós. Um dia, quando eu estava escovando os dentes na beira do rio, um indiozinho veio e ficou bem ao meu lado, olhando-me enfiar aquela escova na boca e mexer de um lado para o outro. Fiquei sem graça. Levantei, olhei para o rio e decidi assobiar um hino. Aprontei o bico e soprei os sons de Santo, Santo, Santo, Deus onipotente. De repente, percebi que o rapazinho estava assobiando comigo. Parei e olhei para ele, mas ele continuou a assobiar sozinho. O índio sabia o hino todo e assobiou-o com um riso maroto no canto da boca, enquanto eu arregalava os olhos. — Mas como? Quem já tinha pregado o evangelho pra eles? Onde é que eles aprenderam Santo, Santo, Santo? — perguntei curiosíssimo. — Há uma tribo chamada uai-uai. Eles são das matas venezuelanas. Lá nas florestas onde viviam, chegaram uns missionários e falaram sobre o evangelho com eles. A tribo inteira se tornou cristã e eles decidiram que seriam os porta-vozes de Deus na floresta. Eles estão percorrendo as matas pregando para outros índios — informou-me Desmundo, enquanto eu quase não acreditava na beleza daquilo que ouvia. — E a conversão dos yscarianas, como aconteceu? — indaguei com profunda ansiedade. — Os uai-uai chegaram aqui perto, abriram uma clareira, acamparam e mandaram uma comitiva até aqui. “Mandem alguns homens porque temos boas novas para vocês”, eles mandaram dizer. Então, os yscarianas mandaram uma comitiva. Liderando o grupo foi o feiticeiro da tribo, o sacerdote, o pajé. O nome dele é Araca. Lembra do homem de cabelo cortado redondo em forma de cuia? Aquele que eu apresentei a você em primeiro lugar? Ele é o Araca. Eles foram até lá e se sentaram com os líderes dos uai-uai. Ouviram sobre a visita do Filho de Deus ao mundo. Disseram não saber que KorinKumam tinha um filho. Mas os uai-uai disseram que Jesus era o filho de KorinKumam. Ouviram várias histórias de milagres do evangelho, todas


guardadas na memória dos uai-uai. Eles voltaram para casa e reuniram a tribo toda. Araca disse que daquele dia em diante ele só faria orações a Jesus, o filho de KurinKumam. Muitos fizeram a mesma coisa e a maioria da tribo se tornou cristã. Foi assim que tudo aconteceu — contou Desmundo com um olhar puro, limpo, cheio de amor, o que fazia seus olhos crescerem enquanto falava. — Mas e você e sua esposa? Qual foi o papel que vocês tiveram nisso tudo? — perguntei, querendo saber no que consistia a vida e a missão deles no lugar. — Bem, eu não sou pastor e nem pregador. Sou antropólogo e lingüista. Mas antes de tudo, eu sou cristão. Minha missão aqui foi aprender a língua deles, criar um alfabeto e ensiná-los a ler. Fiquei quase sete anos fazendo isso. Enquanto esse trabalho era feito, eu traduzia trechos da Bíblia para eles. Com a ajuda de Araca, traduzi o evangelho de Marcos, que é bem simples, o evangelho de João, as cartas de São Paulo aos Romanos e a Timóteo, e as epístolas de São Pedro. Eu dou o texto a eles e deixo que decidam que tipo de cristãos querem ser. Não estou tentando impor nada — ele me disse com muita certeza de seus objetivos naquele particular. — E que tipo de cristãos eles se tornaram? — indaguei com ansiedade e doido para ouvir alguma coisa que reforçasse as minhas teses sobre o obsoletismo das formas de culto e prática da Igreja atual, pois estava convicto de que muito do que a igreja pratica hoje não tem nada a ver com a Bíblia. São apenas tradições, feitas sagradas. Só isso. — Mas sim, em que tipo de crentes eles se tornaram? — insisti. — Cristãos primitivos, quase como os do Novo Testamento. Só que são mais puros, pois nunca foram judeus — disse brincando. — Como assim? Na prática, como é isso? Por exemplo, como é que eles batizam, a quem eles batizam e como é que eles dirigem a igreja? Eles têm pastor? Qual é a hierarquia que eles têm, se é que têm alguma? E os líderes da tribo? São os mesmos da igreja? Há separação de casais? E a vida sexual? Um homem pode ter mais de uma mulher? E os espíritos, eles ainda têm algum vínculo com eles? — foram todas as questões que eu despejei sobre ele, excitado de tanta curiosidade. — Eles batizam dos dois modos: tanto por aspersão, jogando a água na cabeça, como fazem os católicos, anglicanos e presbiterianos; como também batizam por imersão, mergulhando a pessoa no rio Nhamundá. Depende do tempo. Quanto está frio, vai de um jeito, quando está quente, vai do outro. Eles batizam os que se convertem. Mas às vezes, quando os pais pedem, eles também batizam crianças. Eles também têm pastores; são oito. O Araca é o líder maior, mas eles decidem tudo juntos. Quanto a casamento, não há separação aqui. Quando um homem não quer mais sua mulher, ele não a deixa. Apenas não toca mais nela, mas cuida dela. Quem já tinha mais de uma mulher quando se converteu, manteve todas. Os que estão se casando agora, depois que se tornaram cristãos, estão sendo aconselhados a ter uma só. Mas quem quer, pode ter mais de uma, só não pode é ser líder da igreja. Os pastores têm que ser maridos de uma só mulher, como eles leram na carta de São Paulo. Mas não pode haver adultério. Se um homem quer ter outra mulher, não deve nunca ser uma já casada. Tem que ser solteira, e a esposa dele tem que consentir. Eu fiquei perplexo com tudo aquilo. De fato, jamais pensara que na vida eu fosse ser apresentado a um quadro tão fantasticamente original quanto aquele. — Mas e você, Desmundo, você não tenta passar para eles coisas que você pratica e crê? — perguntei, achando quase impossível que pudesse ser diferente. — Não. Eu não digo nada, a menos que me perguntem. Mas quando eles me perguntam algo, eu sempre respondo que aquilo é apenas a minha opinião — afirmou. — Mas e se você vê na Bíblia um mandamento claro a respeito daquilo? O que você diz? Você


diz o que consta na Bíblia? — questionei com a decisão de quem estava acostumado a dizer como as pessoas deviam viver. — Não, eu não os mando fazer nada, mesmo quando tenho opiniões bem claras sobre o assunto. Eu apenas mostro o que está escrito na Bíblia e digo para eles irem pensar e orar juntos. Às vezes eles voltam com a mesma opinião que eu tenho. Outras vezes, não — concluiu com um certo orgulho de seu método cientificamente tão “isento e democrático”. — Mas Desmundo, por que é que você faz assim? Se você sabe a verdade, você tem que passar para eles! — falei um pouco impaciente. — Mas o que é a verdade? O que eu vejo como verdade, outro pode ver de modo diferente. Uma coisa que eu aprendi nos estudos, mas muito mais no convívio com os índios, é como eu estou completamente condicionado a ver a vida como inglês. Por mais que eu queira ser isento na minha leitura da Bíblia, eu não consigo. Eu sempre leio a Bíblia com o olhar de minha família, criação e cultura nacional e religiosa. Então, como eu vou saber se eu estou lendo de fato a Bíblia ou apenas vendo coisas com meus olhos europeus? — falou, dando-me de graça uma fantástica aula de antropologia missionária. — Voltando ao assunto. E os poderes? Igreja e tribo são a mesma coisa? — indaguei, desejoso de saber mais sobre aqueles fascinantes seres humanos, que também eram meus irmãos na fé. — Deixa eu dar um exemplo de como as coisas funcionam aqui. O cacique, o líder político da nação yscariana, fez algo errado. Em vez de pedir para desposar uma outra esposa, ele foi lá e simplesmente pegou a menina e levou-a. Os pais dela eram da igreja. O cacique também. Então, o assunto foi levado ao Araca e aos outros pastores. Eles decidiram afastar o cacique da comunhão da igreja por má conduta. Passaram a ordem no domingo de culto e informaram ao chefe que ele estava excluído até se arrepender. No momento, o cacique está fora da igreja há mais de um ano. Mas do lado de fora da igreja, todos o tratam como chefe. Até os pastores. Mas ele também trata os pastores como autoridades espirituais da igreja. As coisas estão bem separadas aqui. Às vezes eu acho que os líderes da Igreja da Inglaterra deviam vir aqui ver como as coisas têm de ser entre Igreja e Estado — encerrou Desmundo, dando-me de graça mais uma aula preciosa. Os dias transcorreram como num sonho entre os yscarianas. De manhã cedo eu andava pela tribo com as crianças. Almoçava com os missionários e andava de canoa à tarde, conhecendo as corredeiras do rio Nhamundá. Ao fim da tarde, ia para a praça de chão batido, no meio da aldeia, onde os líderes liam as Escrituras e discutiam teologia ao modo deles. À noite nós comíamos juntos e depois líamos a Bíblia, cantávamos e orávamos. Aí então, ouvíamos histórias da mata e da vida entre eles; todas me eram traduzidas por um índio que sabia português e que evocara um nome brasileiro para si pelo fato de saber falar a língua do Brasil. “Meu nome é Manoel”, dizia ele de modo bem explicado, quase soletrando as palavras. Em algumas daquelas tardes, ajudei Pedro Peter a tratar dos dentes e a dar óculos para os índios que não enxergavam quase nada. Era uma festa. Com uma multidão esperando à porta da maloca, quando alguém saía lá de dentro com óculos na cara a moçada rolava no chão de tanto rir. O bom humor deles me impressionou imensamente. Na sexta-feira à tarde, fui passear de canoa com um indiozinho de uns doze anos. O moleque era esperto e gostava de me provocar. Às vezes ele balançava a canoa no meio do rio e ameaçava fazê-la virar comigo. “Pára com isso. Num faz isso, não”, eu gritava, enquanto ele morria de dar risada. Ao longe, na beira do rio, a cerca de 150 metros de distância de onde estávamos, os líderes da igreja riam de mim. Era uma delícia. Mas foi naquele mesmo dia, depois que o garoto curtiu com a minha cara o quanto quis, que eu aprendi dele algo que marcou minha vida para sempre. Eu comecei a cantar um hino cristão enquanto remávamos e, quando parei, o garoto começou:


O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam Nairamam KorinKomam! O xim xam xam, Korikorinramam! Obviamente o que acabei de fazer foi uma transliteração fonética da música. Eu não sei escrever em yscariana, mas sei como a canção soou em minha alma desde aquele dia. Fiz o garoto repetir umas vinte vezes o hino até que eu conseguisse gravá-lo em minha péssima memória para música. Quando voltamos à aldeia, fui logo cantando o hino. Onde eu passava cantarolando a música, as pessoas riam orgulhosas, como se no seu indigenismo tivessem me conquistado tão rapidamente. Cantei também para Pedro Peter e perguntei pelo significado daquelas palavras. Deus é bom, Deus é bom! Desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol! Deus é bom e cheio de misericórdia! A canção inundou minha alma para sempre. Ainda hoje, quando preciso de paz e serenidade, muitas vezes ouço a voz doce daquele garoto, embalando esta canção na proa de uma canoa imaginária, na cadência de seu remar melódico, enquanto a brisa, com cheiro de mato e de vida, embrenha-se em meu interior. No sábado à tarde eu estava na beira do rio com Desmundo quando ele me mostrou duas canoas que remavam contra a correnteza, subindo o rio. — São os uai-uai. Eles mandaram uma comitiva para representá-los na grande festa de amanhã — disse. No dia seguinte, a tribo toda se reuniria para receber formalmente o Novo Testamento completo, escrito em yscariana. Seria o coroamento dos 14 anos de trabalho de Desmundo e dona Mary ali entre eles. As pessoas da primeira canoa saíram e foram logo pondo o rosto em terra e chorando. A seguir, todos estavam chorando, muitos com a cara no chão. — O que é isso Desmundo? O que aconteceu? É alguma coisa ruim? — perguntei meio assustado com a cena. Parecia algo oriental, dos tempos bíblicos. Era como se ali, bem diante de meus olhos, estivesse acontecendo uma sessão de pranto comunitário, conforme as melhores descrições do Velho Testamento. — O que eles estão dizendo é que uma irmã dos uai-uai que viria à festa de amanhã pisou num poraquê, o peixe elétrico, tomando banho na beira do rio e morreu. Ela estava grávida, por isso também estava muito pesada. Quando recebeu a carga elétrica, caiu desmaiada e se afogou. Foi isso que aconteceu — ele explicou num inglês meticuloso, mas com profundo pesar. O resto do dia o assunto foi aquele. Naquela noite a tribo silenciou muito cedo. Logo todos estavam dormindo, exceto eu, que saí da maloca e fiquei olhando a imensidão daquele céu, chocado com minha insignificância humana. “Meu Deus, como é possível que eu tenha vivido o tempo todo no mesmo mundo que esses irmãos, sem ter a menor idéia de que eles existiam e de que se tornariam, tão rapidamente, tão especiais para mim?”, falei com Deus e não esperei ouvir nenhuma resposta. Quando o domingo chegou, ouvi chifres sendo tocados pouco antes das sete da manhã. Saltei da rede onde dormia e corri para fora. As malocas estavam sendo abertas e delas saíam mulheres


vestidas de saia vermelha e usando penas de galinha na cabeça, com seus filhos pendurados em suportes de palha na parte lateral de suas costas. Elas andavam rápido, balançando os seios nus. As crianças corriam euforicamente, como se estivessem indo ao melhor lugar deste planeta. E os homens pareciam lordes ingleses. Com a cabeça completamente branca de penas de pintinhos coladas ao cabelo com óleo de madeira, ostentavam algum tipo de aparato especial. Podia ser uma sandália de borracha que a FUNAI lhes dera, uma camisa branca ou um prendedor especial de cabelo. Calças, só alguns deles tinham. A maioria vestia tanga ou pequenos calções. E o som do chifre não parava de convocá-los ao lugar central da aldeia. O templo para o qual todos nós nos dirigimos era uma obra de arte indígena. Todo feito de troncos e galhos de árvores, era redondo e mantinha-se solidamente construído, uma vez que todas as suas intercessões eram amarradas com cipó. Os bancos eram de madeira roliça, amarradas umas às outras nas extremidades, também com cipó. Ali não havia um único prego. Na direção para a qual todos os bancos estavam arrumados e bem fincados no chão, havia uma mesa de troncos. Atrás dela também havia bancos para cerca de dez pessoas se sentarem. O culto começou sem nenhum sinal especial. O Araca leu um texto bíblico e alguém iniciou espontaneamente o hino. Depois outra pessoa leu mais uma passagem das Escrituras. E mais hinos puxados ao sabor da poesia das almas que ali se reuniam. Eles fizeram isso por quase duas horas, sem direção e sem interrupção. Depois o Araca perguntou quem tinha alguma palavra de testemunho de fé a dar. Vários levantaram as mãos e todos falaram, um de cada vez. Por fim, o cacique pediu a palavra. Araca chamou-o e perguntou do que se tratava. Ouviu a explicação e só depois disso passou a palavra ao governador local. — É que eu pequei e quero pedir perdão à Igreja. Eu dei mal exemplo como crente de KorinKomam e como cacique. Quero saber se posso ser perdoado? — ele falou, enquanto Manoel traduzia para mim. Os oito pastores conversaram rapidamente, e então Araca se levantou. — Você é nosso líder e nós respeitamos você. Mas o que você fez foi errado. Se você está arrependido, nós perdoamos. Agora, não pode mais fazer assim. Pode voltar à Igreja. Hoje também pode tomar a comida de Cristo — disse o pastor com meiguice e autoridade. Ao meio-dia eles introduziram os elementos da Eucaristia: beiju de mandioca com castanha-do-pará e vinho de bacaba. Era o mais fascinante serviço eucarístico que eu já vira na vida. Os cálices nos quais o vinho era servido, feitos da casca seca de uma fruta local que os amazonenses chamam de cuia, não eram mais do que uns seis. Nós, entretanto, éramos quase quatrocentos. Assim, fiquei feliz por ser o oitavo a receber o cálice, pois ainda deu para achar uma ponta que não tivesse sido bicada. Olhei para trás e imaginei como aquele caldo estaria quando a cuia chegasse lá atrás. Somente às 13 horas eles me passaram a palavra. Abri o livro do Apocalipse e li: “Digno és de tomar o Livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão para sempre.” Meu intérprete estava vestindo uma camisa branca de babados, novinha, que eu lhe dera. Eu jamais vestira aquela camisa, mas quando ele a viu, seus olhos brilharam. “Você quer?”, perguntei. Ele nem respondeu, foi logo estendendo a mão e pegando. E quando eu o vi de peito inchado ali ao meu lado, percebi que, para ele, aquele momento era história pura. Talvez aquilo fosse o equivalente à posse de um presidente da República, para nós. O fato é que Manoel não se continha de felicidade por estar me interpretando justamente na hora em que o Livro iria ser aberto. Peguei o Livro Vermelho, que era o Novo Testamento em yscariana, e disse: — O filho de KurinKumam veio a este mundo para nos livrar de todas as coisas que nos


prendiam. Especialmente as forças espirituais que nos amedrontavam. Essa visita de Jesus beneficiou gente de todas as terras. Alcançou a mim, que vivia correndo por causa do pecado e da morte que me perseguiam. E alcançou vocês aqui, que antes viviam com medo de tudo: da noite, dos espíritos e das forças da natureza. Agora, todos nós estamos livres para amar uns aos outros e amar a Deus e a Sua criação. Agora nós somos propriedade exclusiva de Deus e somos os seus sacerdotes neste mundo. Todos nós somos Aracas de Jesus. Todos nós podemos falar com Ele e ser ouvidos — e prossegui por cerca de vinte minutos. Como a tradução era demorada — pois o yscariana é uma língua de palavras longas, bem maiores que o português — às vezes eu falava dez segundos e ficava esperando vinte até Manoel chegar ao fim da tradução. E como tinha — e tenho — pavor de ser inconveniente e cansativo, reduzi minha fala ao mínimo. Quando terminei, pedi para orar e ofereci aquele Livro Vermelho a Deus, pedindo que ele fosse sempre a estrela dos yscarianas. Pedi ainda que, à semelhança dos uai-uai, eles também se tornassem anjos da floresta. Araca encerrou o culto e todos voltaram para suas malocas, cada um com um exemplar do Novo Testamento Vermelho nas mãos. Ele, então, me convidou para almoçar com os anciãos da igreja. Atravessamos toda a aldeia e chegamos a um lugar espaçoso, de chão batido, coberto de palha seca e à volta do qual havia muitos cascos de tartaruga. O lugar parecia uma sala de convenções, uma espécie de Salão Oval ou coisa do tipo. Araca me indicou um dos cascos de tartaruga e eu sentei. O ambiente era solene, porém alegre. A seguir, vi que as mulheres começaram a trazer umas bacias naturais cheias de carne e outras cheias de beiju. — Irmão Pedro Peter, o que é aquilo? Que carne é aquela? — perguntei a ele, que estava sentado num casco grande de tartaruga, do outro lado da sala, bem na minha frente. — É carne de cuatá! — falou com simplicidade. — Carne de quê? — insisti. — Carne de macaco cuatá. Sabe o cuatá? Aquele macaco grande, assim do tamanho de um menino de uns seis ou sete anos? — disse Pedro Peter, e eu quase vomitei. — Ih, meu Deus, o negócio aqui num tá fácil. Como é que eu vou comer carne de macaco que parece menino de seis anos? Assim num dá — falei mais comigo mesmo que com Deus, é claro. Araca levantou e me chamou para acompanhá-lo na direção do cuatá. Pedro Peter fez sinal com os olhos para eu ir. Ergui-me vacilantemente e andei até lá. Meu estômago embrulhou. Araca pegou um pedaço mais escuro de carne e me deu. Vi que ali ao lado havia uma cuia com sal. Peguei a carne e taquei sal nela. Depois, mais que relutantemente, coloquei um pedaço na boca, enquanto Araca esperava eu provar. — Hum! Que bom! Maravilha! — exclamei. Meu rosto mudou e minha atitude também. O tal do cuatá era uma delícia. Comi até não poder mais. Além disso, aquele era o primeiro pedaço de carne que eu comia aquela semana. Só parei de comer quando percebi que o sal da cuia já estava úmido de saliva, pois todos os que se serviam ficavam voltando à cuia para salgar um pouco mais a sua carne. Para mim já era demais. Naquele mesmo dia eu voltaria para Manaus. Pedi para ser o último a sair dali. Dois pilotos se alternaram pegando os que iriam para Manaus. Ao todo, éramos sete: Desmundo, dona Rosa, Pedro Peter e esposa, um outro casal de missionários e eu. Deixar os yscarianas foi um parto para a alma. Meu medo era o de não voltar mais a vê-los neste mundo.


Capítulo 32 “A tempestade cai sobre os navegantes e ameaça tragá-los. Todos empalidecem diante da morte que os espera. O céu e o mar se acalmam, e o excesso da alegria que nasce em seus corações é exatamente proporcional ao excesso de seu medo na hora da tormenta.” Santo Agostinho, Confissões

Conforme havia solicitado, fui o último a ser retirado da aldeia. A tribo toda foi para a beira do rio para se despedir de mim. Chorei muito, beijei a todos os que pude e disse que jamais me esqueceria de seus rostos para o resto de minha existência. Enquanto Manoel remava o casquinho até ao fragilíssimo monomotor que viera me buscar, mantive meus olhos fixos na paisagem que ficava para trás. Tinha a esperança de um dia voltar ali, mas também tinha a suspeita de que talvez jamais conseguisse retornar. Acenei uma última vez e entrei no apertadíssimo avião. — Boa tarde, pastor. Meu nome é George — disse o piloto, homem de uns sessenta anos e com um pesadíssimo sotaque de americano que não se esforça o suficiente para falar português. — Quanto tempo vai levar daqui a Manaus? — perguntei, pois sabia que num avião daquele o tempo e o vento têm importância fundamental. — Ah, umas duas horas e meia, no máximo — ele respondeu. A decolagem de dentro do rio Nhamundá foi um susto, pois pegamos um vento de proa e a velocidade do aparelho diminuiu. Subimos, mas passamos raspando na copa de uma enorme castanheira. — Ê, ê! Esse negócio sempre sobe assim mesmo, George? — indaguei assustado. — Não. Foi porque a gente quase não conseguiu — ele respondeu friamente, como se a possibilidade de nós não termos conseguido fosse significar qualquer coisa menos banal que a morte. “Esse George é esquisito”, pensei. Dez minutos depois de estarmos voando, entramos numa nuvem escura. O avião subiu, desceu, sacudiu e começou a tremer sem parar. Em seguida, caiu um pé d’água sobre nós como eu jamais vira antes. Foi esquentando. Comecei a suar. Alaguei meu tênis e encharquei a calça. Foi quando vi que na janela havia uma tampinha de vidro, bem redonda, que estava ali para casos como aquele: permitir a entrada de vento quando uma tempestade impedisse o piloto de abrir mais as entradas de ar. Rodei aquela tampinha e enfiei o nariz ali. Que alívio. A tempestade, entretanto, não aliviava. Os balanços e as trepidações pareciam se agravar.


Olhei para George e vi que estava completamente pálido. Nós, àquela altura, já estávamos voando a uns 25 minutos. — George, está tudo bem? — perguntei querendo ouvir alguma coisa boa. — Bem? Como é que pode estar bem? Não vejo nada, não sei para onde estamos indo e não tenho como saber. A melhor coisa que você faz é pedir a Deus para salvar a gente! — ele falou com um misto de raiva e medo. — Mas como? Que negócio é esse de “não sei para onde estamos indo”? Você tem que saber! — cobrei irritado. — Mas não sei. Conheço essa floresta como a palma de minha mão direita. Mas eu tenho que ver para onde estamos indo. Sem ver, não dá — repetiu. — E os aparelhos, bússola e as outras coisas? — indaguei. — Que bússola, que nada! Aqui num tem nada disso. É tudo no olho — falou, olhando-me com extrema seriedade. — Mas então como é que você saiu de lá? Eu vi que o tempo estava fechando. Se eu soubesse que você voava no olho, não teria saído de lá de jeito nenhum — afirmei, começando a sentir uma angústia fina gelar meu estômago. — E agora, George? — Agora, meu amigo, só Deus pra nos tirar daqui. Eu nunca vi uma cena como essa, nem quando bombardeei Berlim — ele respondeu. Quando eu ouvi aquele negócio dele ter sentido menos medo bombardeando Berlim que ali na floresta, eu realmente me apavorei. — Meu Deus, a gente vai morrer aqui! — falei baixinho. Enquanto isso, a tormenta piorava. O pobre aparelho parecia uma pena soprada por um ventilador superpotente. Nós não tínhamos a menor chance. Depois de voarmos cerca de vinte minutos no escuro, o céu abriu por não mais do que um minuto, mas por tempo suficiente para o danado do George descobrir onde estávamos. — Sei onde estamos. Manaus está para aquela direção — disse ele. Aí, então, entramos em outra interminável nuvem negra, carregada de eletricidade. Os trovões estouravam na cara da gente e os relâmpagos pareciam ser acesos bem nos nossos olhos. Além disso, o barulho de tanta água caindo sobre nós era apavorante. Eu encostei a cabeça no vidro e orei incessantemente. “Senhor, eu só tenho 23 anos. Tenho esposa, um filhinho e outro a caminho. Por favor, não me deixa morrer sem conhecer meu segundo filho. Também, eu Te peço: deixa-me viver mais, pois ainda tenho muito para fazer. Fica com a gente aqui, Jesus”, pedi com fervor e pavor. A viagem durou mais de três horas. Durante todo o tempo sofremos aquele pânico horroroso. Graças a Deus, entretanto, George era muito bom de ar. Conhecia tudo na região. O que nos salvou foi que as nuvens se abriram rapidamente três vezes, embora nunca por períodos mais longos do que dois minutos, mas por tempo suficiente para o americano encontrar o rumo de Manaus. — A cidade está a vinte minutos daqui. Aquele ali já é o rio Urubu — falou George subitamente, enquanto me olhava com mais esperança. Quando o céu se abriu outra vez, já estávamos sobre o rio Negro, bem em frente a Manaus. George deu um tapa no painel e disse algo que não entendi. Pousamos e apertamos a mão um do outro. — Olha, eu já vi coisa preta nesse mundo. Mas nunca vi nada tão feio como a tempestade de hoje. Escapamos por pouco, graças Deus — disse George ainda nervoso e com lágrimas nos olhos. — É, tudo o que eu quero agora é voltar para casa. E pensar que a gente quase não volta.


Obrigado, Jesus — falei, olhando para George. — Eu já estava que não agüentava mais — disse Alda. — Estou sentindo um peso horrível. Meu medo era que o menino nascesse e você não estivesse aqui. Deixei que ela falasse tudo o que estava sentindo e depois contei minhas experiências mágicas entre os yscarianas. Papai e mamãe também se deleitaram ouvindo as minhas histórias sobre a tribo. — Que coisa, meu filho, do jeito que você está falando parece até que você ficou muitos anos com eles — disse mamãe. O que eles não sabiam, e àquela altura eu também não, é que aquela semana alteraria dramaticamente minha visão daquilo que é essencial e genuíno no evangelho em relação a inúmeras imposições da religião e que não têm nada a ver com a fé. — É, sim, mãe. Eu me sinto como se, de alguma forma, eu tivesse vivido muito tempo entre eles. De algum modo eu sei que não sou mais o mesmo em muitas áreas da minha vida. Aqueles índios vão viver em mim para sempre — falei com uma certa emoção. — Caio, me ajuda. A bolsa d’água estourou. O que eu faço? — Alda exclamou, assustada, às quatro da manhã do dia seguinte à minha chegada da tribo. Saí de casa correndo e fui acordar uma parteira que morava a uns quinhentos metros de nossa residência. Quando ela examinou Alda, foi logo mandando ir buscar uma bacia, toalhas, gaze e outras coisas. Aí me apavorei. Eu queria apenas que ela me dissesse se dava tempo de correr para o hospital, não que Alda tivesse o filho em casa. Era muito arriscado. — Joede, a Aldinha está em trabalho de parto. Estou com dona Maria, a parteira lá da igreja, aqui com a gente. O que devo fazer? Deixo nascer aqui ou levo para o hospital? — perguntei nervoso ao telefone, acordando nosso médico às quatro e meia da manhã. — Saia daí correndo agora mesmo. Encontro vocês no hospital em 15 minutos — disse ele, já batendo o telefone. Quando chegamos, uma maca já esperava por Alda e levaram-na imediatamente. Cinco minutos depois, vi uma enfermeira saindo da mesma sala com uma coisinha branquinha e pequenininha como um bonequinho. — De quem é esse neném? É homem ou mulher? — indaguei. Mas a mulher não me deu resposta. Olhou-me com aquele estranho ar de reprimenda que às vezes as enfermeiras possuem, e entrou no berçário. — Joede, nasceu? — perguntei tão logo ele meteu o rosto para fora da sala. — Você não viu? Acabou de passar aqui. É homem. Todo ruivo. É comprido, mas bem magrinho. Também, prematuro de oito meses! — disse contente. Quando vi o menino já devidamente lavado, eu me assustei. Ele era tão ruivo e branco, que pensei tivessem trocado meu filho por outro ali no hospital. Depois, com calma, é que fui vendo como ele reunira as duas linhas européias de nossa ascendência. O lado de vovó Zezé, com seus ancestrais franceses, e a linhagem absolutamente européia de Alda, com avós alemães e portugueses, todos muito brancos e loiros. No dia seguinte, quando saí do hospital carregando o ruivinho, já havíamos decidido que ele seria Davi, como o da Bíblia, pois a semelhança no biótipo dos dois era óbvia. — Pega esse menino que ele vai explodir de vermelho — gritei para Alda. Assim que os primeiros raios de sol caíram sobre ele, a impressão que tive foi a de que ele estouraria. Foi ficando vermelho com tamanha rapidez, que parecia que algo estava errado. — Fica calmo, é que gente branca demais é assim mesmo — disse Alda do alto de sua vasta


experiência com sua própria brancura. Davi era um santo. Não dava trabalho e dormia o tempo todo. Diferentemente de Ciro, que com apenas 11 meses me dava uma canseira profunda. Não parava e mostrava-se tão irrequieto, que às vezes eu pensava que ele tinha alguma coisa fora do lugar. Até ali, entretanto, nossa família, já de quatro pessoas, vivia socada no mesmo quartinho que abrigara Alda e eu desde o início. Só que agora, além de nós quatro, ainda havia minha biblioteca, de quase mil livros, e mais berços, cama de casal, aparelho de som, uma mesa para escrever, penteadeira e um monte de outras bugigangas. Tudo isso em, no máximo, vinte metros quadrados de área. No início de maio de 1977 recebemos um telegrama dos pais de Alda nos convidando para irmos à Europa visitá-los. “Não agüentamos mais ficar sem nossos netos”, dizia a mensagem. Em seguida, eles nos mandaram o dinheiro das passagens. Partimos para Portugal. Na chegada ficamos surpresos com as mordomias que o governo brasileiro concedia aos seus representantes no exterior. Sabíamos que existiam vantagens, mas não imaginávamos que fossem tantas. Só que em Portugal, em 1977, as facilidades eram ainda maiores, pois com a revolução socialista em Angola e Moçambique, milhares de “retornados” africanos de língua portuguesa invadiram a terrinha. E uma das conseqüências dessa situação foi que muitos deles, no desespero de encontrar onde morar e não achando pousada, emprego ou vínculos, acabavam invadindo casarões ou castelos que serviam como segunda ou terceira residência para a aristocracia lusitana, tomando-os e, muitas vezes, vilipendiando-os. Meus sogros estavam vivendo em Sintra, paraíso histórico nas montanhas, a apenas trinta minutos de Lisboa. A residência onde se instalaram era a Casa dos Penedos, uma mansão de uma senhora riquíssima, que, tendo moradia fixa numa casa maravilhosa na capital, se dava ao luxo de possuir uma outra igualmente extraordinária entre a serra da Estrela, ao norte, e a maravilha de Sintra, a qual usava como residência de verão. Ficamos estupefatos com o luxo, a arte, a grandeza e o bom gosto que definiam a casa, bem como com a paisagem lindíssima de toda aquela região. Dos janelões da Casa dos Penedos via-se o Palácio da Vila, com suas torres em forma de grandes Fantas. Ao redor deste, havia uma quantidade enorme de casas e pequenos palácios, todos plenos de detalhes artísticos. Olhando-se à esquerda dos mesmos janelões, era possível avistar as torres do Palácio da Pena Verde, lugar belíssimo e considerado mal-assombrado pelos moradores da região, vez que, inexplicavelmente, sobre ele caíam pedras abrasadas, vindas do céu. De lá também se via a torre dos Sete Ais e o horizonte infindável do oceano Atlântico. Nos fundos da casa, erguia-se uma montanha de aparência medieval, cheia de árvores antigas, de cujos galhos derramavam-se teias vegetais finas e bem decoradas. A tonalidade das folhas era belíssima. Tantos eram os tons, que para um amazonense acostumado apenas a variações do verde, aquilo parecia uma experiência alucinógena, de matizes surrealistas. No topo da montanha, dois castelos erguiam-se imponentíssimos. As ruínas dos Mouros, com seus muros de pedras brutas, desenhavam os contornos da montanha, prosseguindo ondulantemente à medida que a topografia subia e descia. E um pouco à direita, acima dos Mouros, projetava-se, de modo sobranceiro e cheio de realeza, o Palácio Nacional da Pena. Este sim, era algo deslumbrante e capaz de fazer a alma apaixonada pela história viajar para dias em que os mares ainda eram habitados por dragões, a terra era plana, o horizonte terminava num abismo e o nosso planeta era o centro do universo, exceto para uns poucos seres humanos que ousaram enfrentar o papa, a Igreja, a ciência e os bons costumes, a fim de crer e viver de outro modo. Os primeiros 15 dias ali foram de total deslumbramento para nós. Visitamos todos aqueles castelos e nos metemos em cada lugarzinho pitoresco da vila. À tarde, descíamos dos penedos pelas vielas de chão de paralelepípedo liso, que serpenteavam românticas entre casas estreitinhas


e coladas umas às outras, quase todas pintadas de cor-de-rosa, e íamos até a Periquita, uma casa de chás e doces que se espremia, quase na parte plana da vila, entre outras pequenas lojinhas. Que doces saborosos e que gente fina e boa encontrávamos ali, naquele tempo bem anterior à invasão de brasileiros que saturou os portugueses em relação a nós. Naqueles dias, entretanto, os brasucas, como nos chamavam, eram vistos como primos prósperos e bem-sucedidos, olhados com orgulho pela nostálgica e deprimida alma portuguesa. Com a novela Gabriela cravo e canela sendo exibida por lá, os encantos do Brasil estavam exercendo seus dias de mais profunda e fascinante sedução sobre os lusitanos. Ao fim da primeira quinzena, disse aos meus sogros que iríamos deixar as crianças com eles para irmos a Israel, visitar a terra da Bíblia e conhecer in loco a geografia e a história do livro que me dominara o ser com sua mensagem. O pai de Alda contestou nossa opção, disse que nunca perderia seu tempo numa terra daquelas, cheia de deserto, guerra e pobreza, e nos ofereceu uma viagem para Paris. Mas como visse que nós estávamos irredutíveis, calou, e no dia seguinte nos trouxe duas passagens Lisboa—Tel Aviv, no vôo inaugural da ElLal, companhia israelense. Era setembro de 1977 quando nossos pés tocaram o chão da Palestina pela primeira vez. Enchi o peito de ar e cheirei a Terra Santa. Havia um forte odor de óleo e combustível de avião, pois, afinal, ainda estávamos na pista do aeroporto Ben Gurion. Mas meu olfato discerniu cheiros que eu nunca havia sentido antes. Como não estávamos numa excursão turística, tivemos de nos virar, às duas da madrugada, para encontrar onde dormir ou, pelo menos, passar a noite. — Já que estamos aqui, vamos direto para Jerusalém — disse para Alda. Pegamos um táxi Mercedes, de três fileiras de assentos, e dividimos a corrida com dois árabes e duas freirinhas, vestidas de hábito branco, que estavam indo para um mosteiro no Monte Sião. Para mim, que crera em Cristo lá no meio da floresta do Amazonas, a mera menção de que elas iriam passar a noite naquele monte de tantas menções na Bíblia e de simbolismo espiritual tão forte arrepiou-me todo. Fiz questão de sair do carro quando elas desceram do táxi no Monte Sião. Parei em silêncio e inspirei aquele cheiro de ciprestes e pinhais. O aroma da terra, do chão, também era diferente. Havia um certo cheiro de poeira do deserto em volta de nós. Depois desse culto olfativo, continuamos nossa busca de um hotel. Estavam todos cheios. Rodamos até às quatro da manhã, até que encontramos uma espelunca que nos acolheu. No dia seguinte pulamos da cama cedo e saímos como loucos e famintos, tentando comer as páginas da Bíblia como se elas fossem pão e estivessem derramadas pelo chão de Jerusalém. Que viagem! Que sensação! Passamos quinze dias em Israel, nos misturamos ao povo e fomos de ônibus para todos os lugares. Na nossa inocência e sem assistência turística de qualquer espécie, abríamos a Bíblia e o mapa de manhã cedo e decidíamos o que iríamos visitar naquele dia. Sendo assim, íamos aonde o coração mandasse, mesmo que a área fosse considerada perigosa. E como não falávamos quase nenhum inglês naquele tempo, nós simplesmente íamos, e pronto. Pegávamos um ônibus cheio de palestinos e agüentávamos o sufoco, especialmente quando o lugar em questão não era permitido para turistas comuns. Só fomos perceber a extensão de nossa aventura quando encontramos com grupos de brasileiros que tinham guias israelenses, lhes contamos onde havíamos estado e percebemos seu ar de profunda preocupação. Mas não fazia mal. Nós estávamos nos sentindo em casa com os palestinos. Nunca nos molestaram e nem tentaram nos intimidar. Fizeram apenas o possível para nos roubar numa boa, oferecendo-nos negócios por preços altíssimos e depois barganhando conosco até o nível do irrisório. Era a melhor parte da viagem, no seu aspecto não-religioso. Naquela viagem eu não me dei tão bem com os judeus. Como bom evangélico, eu tinha sido


doutrinado a venerar judeu. Eles eram a raça eleita, o povo escolhido, os descendentes dos patriarcas, os escritores da Bíblia, os irmãos raciais de Jesus e os gênios do mundo. Pensei assim até que, numa certa manhã em Jerusalém, um desses filhos de Abraão acabou com minha poesia. Ora, Alda e eu estávamos indo da Cidade Velha para a Cidade Nova e pegamos um ônibus de judeus. O veículo estava completamente lotado. Vagou um assento, e Alda sentou. Quando vagou o próximo, foi a minha vez. Pedi licença em inglês e me espremi ao lado de uma figura religiosa masculina, toda vestida com um fraque preto. Sobre a cabeça, uma cartola e, debaixo desta, cachinhos de cabelo loiro, que escorriam por suas têmporas. A barba era imensa e tinha as extremidades esfiapadas, parecendo que não eram aparadas havia tempo. Percebendo que ele queria ficar no corredor, estiquei as pernas e consegui passar, sentando-me à janela, ao lado do religioso. Sorri para ele umas três vezes, mas nada. O judeu me olhava fixamente, quase me fuzilando com os olhos. “Ele deve estar pensando: ‘o que esse gentio esquisito está fazendo sentado aqui ao lado de um legítimo filho de Abraão’, afinal, esta é a terra deles”, falei comigo mesmo, me sentindo quase na obrigação de achar explicação para a atitude mal-encarada daquele fariseu. Bum, bum, traack, pruuu, foi o que ouvi, enquanto o homem me olhava fixamente e mantinha a banda esquerda de sua nádega erguida uns quatro centímetros do assento, a fim de poder disparar melhor os seus mais letais puns contra a minha pessoa. Não acreditei. De repente, o gás subiu com todo o seu veneno e corruptibilidade. Fedia como jamais imaginara que um filho de Abraão fosse capaz de fazê-lo feder. Tentei abrir a janela, mas estava emperrada. — Alda — falei entre os dentes sem olhar para ela —, esse cara aqui está podre e quer me humilhar. Tá soltando pum aqui e fica olhando pra mim. Dá pra acreditar? — e ela, ao ouvir a história, ficou roxa de tanto rir ante o insólito da situação. Bem ali, no meio do bairro judeu de Jerusalém, a mística dos filhos de Jacó acabou para mim. Daquele dia em diante, eu veria Israel como uma nação única na hist��ria, mas o judeu, enquanto indivíduo, apenas como um ser capaz de soltar os piores puns do mundo, como qualquer outro mortal. A minha decepção foi muito maior do que a daquele caboclo que flagrou meu avô João Fábio soltando aquele monumental pum no porão de sua casa. “E judeu também peida?”, era minha questão existencial mais profunda naquele momento. A partir daquele dia, passei a assistir ao Woody Allen, procurando uma resposta. Mas aquela viagem mudou a minha vida espiritual e, sobretudo, a minha visão da Bíblia. Sendo uma pessoa tão olfativa e visual, a peregrinação pela palestina capacitou-me a, daí em diante, fazer uma leitura multidimensional das Escrituras, pois, além de todo o enriquecimento geográfico, histórico e até mesmo arqueológico que a viagem nos propiciou, as grandes contribuições aconteceram mesmo foi no nível da subjetividade. As páginas da Bíblia ganharam cor, cheiro, ondulação, abóbada celeste e dimensão para mim. Além disso, a visita à Galiléia enterneceu-me a alma a tal ponto, que era como se eu tivesse ido lá para namorar Deus. Fiquei apaixonado e romantizado pelo divino, e Jesus dava a Ele um rosto meigo e amigo. No fim da viagem, fomos para Tel Aviv curtir um pouco de praia mediterrânea. Entramos na água às oito da manhã e às seis da tarde ainda estávamos lá, nos deliciando naquela praia de ondas mansas e de águas tépidas. Naquela noite, entretanto, após o jantar num dos restaurantes à beira-mar, resolvemos caminhar pela calçada. Não sei por que cargas-d’água perguntei a Alda se ela era feliz. — Não. Não sou! — foi sua resposta. Eu quase caí para trás. — O quê? Você não é feliz? Mas como? Você tem tudo! Eu vivo para você, temos dois filhos lindos, conhecemos o amor de Deus, e estamos aqui, num lugar onde jamais imaginamos estar em nossas vidas. Como não ser feliz? Não acredito no que estou ouvindo — falei oscilando entre


uma leve angústia e uma pontinha de raiva. Ela não falou mais nada. Voltamos ao hotel e fomos para a cama. Rolei de um lado para outro e não consegui dormir. Minha alma estava angustiada, frustrada, zangada e perplexa. Aí então percebi que ela também não dormira. Sentei na cama e disse que gostaria de entender o que ela dissera lá na praia. — Não é que eu não seja feliz. Eu sou. Eu amo você e seria capaz de dar minha vida por você e por nossos filhos. Amo a Deus e quero ser Dele até o fim da vida e para sempre. Mas se pudesse voltar no tempo para antes de julho de 1973, eu voltaria. Então eu aceitaria a fé em Cristo, seria sua amiga ou mesmo sua ovelha, mas não sua esposa. Eu divido você com tudo e com todos, e não há limites e nem folgas. Quando penso em viver do jeito que a gente vive até o fim da vida, eu me desespero. Eu não quero viver assim, entende? Seus pais também são maravilhosos. São gente de Deus como eu não pensei que existissem. Mas não agüento mais morar com eles e viver de favor naquele quartinho. Eu estou assim tão infeliz justamente porque eu estou tão feliz aqui e sei que tudo isso vai acabar. É por isso que eu estou sofrendo — disse-me ela, chorando. No início, não entendi. Fiquei pensando que havia amarrado meu burrinho no lugar errado. Depois, convidei-a para orarmos juntos. Aí então ela dormiu e pude ficar sozinho para pensar em tudo o que ela dissera. Não dormi a noite toda. Fiquei imaginando o que aconteceria se ela não agüentasse o tranco e resolvesse jogar tudo para o alto. Pensei no fracasso de meu ministério se isso acontecesse. Imaginei-me divorciado e vivendo longe dos filhos. A idéia para mim era muitas vezes pior que a morte. Por fim, perguntei-me o que poderia fazer para tirar aqueles obstáculos do caminho. Afinal, amava minha esposa e queria vê-la feliz. — Quando a gente voltar, vou arrumar as coisas. Vamos comprar um terreno e construir uma casa. Vou separar as segundas-feiras apenas para nós. Também não atenderei mais ninguém em casa e vou abrir um escritório público que nos ajude a manter as coisas bem separadas de nossa vida. Vou tirar férias todos os anos e não vou mais dar o número do nosso telefone pra todo mundo. Certo? — afirmei e perguntei ao mesmo tempo. — E você vai conseguir? — foi a pergunta dela. — Não adianta ficar falando. Você me conhece e sabe que eu prefiro provar as coisas com fatos. Espere pra ver. Mas, enquanto isso, relaxe e curta o que Deus está dando pra gente agora — respondi. O retorno a Portugal foi tranqüilo. As crianças estavam bem. Ciro já falava tudo e mostrava profunda acuidade intelectual. Davi, entretanto, continuava dormindo. De vez em quando acordava, comia, sorria, balançava a cabeça, e dormia outra vez. Era impressionante. Logo percebi que as pessoas que nos cercavam estavam muito mal ali. A solidão delas era impressionante. Aquela gente da corte, que andava pelas festas que meu sogro organizava profissionalmente, era muito vazia e vivia numa infelicidade desgraçada: era a dor de ter tudo, mas não ter sentido para a vida. Não me contive. Vendo tanta gente triste, mesmo que sorrindo, comecei a falar-lhes de Jesus. Foi incrível. Às vezes, no meio de uma festa ou banquete, alguém se encostava ao meu lado e começava a conversar. De repente a pessoa abria o coração. Então chorava. Depois eu falava o que Deus fizera por mim. Não raro terminávamos a noite numa sala mais reservada, buscando a Deus em prece. — Puxa, obrigado. Eu não podia ter perdido esta festa. Que maravilha! — era o que a pessoa dizia aos meus sogros à porta, enquanto eles ficavam orgulhosos sem saber que o seu convidado não estava fazendo referência à qualidade do whisky ou da comida, mas da água viva que bebera em algum lugar na Casa dos Penedos. Ficamos quatro meses na Europa. Visitamos 17 países e nos divertimos muito. Mas no final do período, eu já estava cansado de não fazer nada. Estava louco para voltar para Manaus. Foi


então que, numa viagem pela Alemanha, Alda falou-me que estava grávida outra vez. Só que dessa vez, além de tê-la deprimido, a gravidez produziu o mesmo impacto em mim. — Mas como? Você não faz tabela? É muito filho em tão pouco tempo. O Ciro só tem um ano e meio e o Davi tá com sete meses. Como é que isso foi acontecer? — perguntei num ataque de idiotice, como se não soubesse como aquelas coisas aconteciam. — O problema é que você só me permite evitar filhos pela tabela. É muito arriscado. Eu precisava tomar pílula — ela disse, lembrando-me de meu radicalismo evangélico, comum nos anos setenta, de afirmar que a pílula não era de Deus. — Pílula não! É artificial. Eu não concordo. Além disso, temos de confiar que Deus sabe tudo e, se Ele quer nos dar mais um filho, sabe o que está fazendo — falei, contradizendo meu discurso anterior, e assumindo minha postura pastoral. — Mas se a gente fosse deixar tudo pra natureza e pra providência de Deus, a gente tava lascado. A gente não faz assim com relação às outras coisas, como trabalho, estudo, profissão e muitas outras coisas. Por que no sexo e na procriação a gente tem de ser naturalista e cheio desse calvinismo do qual você tanto fala? — ela me provocou de modo inteligente. — É que filhos são vida. E esse assunto Deus cuida de modo diferente — falei sem muita convicção, uma vez que no fundo do coração concordava com ela. Só não estava era com disposição de ter de enfrentar meu pai com uma teologia de procriação diferente da dele e dos demais pastores de Manaus, naquele tempo. — Filhos são vida, mas as outras coisas são essenciais pra vida da gente também. Olha, você pode me dizer um milhão de vezes que as coisas são diferentes, mas meu coração não aceita. Eu sei que estou certa — ela concluiu, dando a entender que não queria discutir mais o assunto. Fazia muito frio em Hamburgo naquela noite. Dormimos mal. Ouvi ela dar umas choradinhas bem discretas e senti borboletas voarem dentro de mim a noite toda. De volta a Portugal, algo ruim começou a acontecer. Todas as noites comecei a sentir uma presença espiritual maligna rondando o nosso quarto. Podia sentir aquele cheiro característico de inhaca de demônio. Ciro foi o primeiro a sofrer os resultados daquela opressão. Começou a se agitar durante o sono, sempre na mesma hora em que eu sentia aquela presença no quarto. Ele se contorcia, gemia, chorava de angústia, abria os olhos, apontava na direção do canto do quarto e gritava. Eu o pegava no colo e orava com ele, mas sua agitação não cessava. Então eu o colocava no meu lado da cama, ajoelhava-me, impunha as mãos sobre ele e repreendia em voz alta toda e qualquer presença demoníaca naquela Casa dos Penedos. Depois de alguns dias é que fiquei sabendo pelo caseiro que havia dois quartos fechados no porão da mansão porque eles ouviam e viam vultos assustadores sempre que abriam aqueles aposentos. Andei pela casa orando e repreendendo aquelas sombras espirituais. Jejuei e orei com intensidade até que tudo aquilo cessou. Foi somente depois daqueles dias de escuridão que conseguimos relaxar outra vez e tentar aproveitar os últimos dias na Europa. Então, voltamos ao Amazonas. — A Aldinha vai ter neném, não vai, Caiozinho? — papai me perguntou. — Hum? — indaguei constrangido, pois Alda e eu havíamos combinado, ainda na Europa, que não diríamos a ninguém que ela estava grávida até que a barriga o dissesse. Não agüentávamos ouvir as pessoas dizendo: “Coitadinha, tão novinha e já com três filhos. Que pena!” — Tá sim, mas como é que o senhor sabe? — indaguei. — É que Deus me falou em sonhos. Eu estava dormindo no mês passado quando vi você de joelhos num quarto grande, antigo e bem-decorado, o Cirinho chorando muito e Alda deitada na cama, deprimida e angustiada. Você chorava e orava. Então ouvi uma voz que dizia: “Ore por eles, pois Alda está grávida e não está aceitando.” Acordei sua mãe e oramos até de madrugada. Depois


senti que vocês já estavam em paz. Então dormimos — contou-me quase como se tivesse visto um filme, no caminho do aeroporto para casa. Ouvindo tudo aquilo fiquei fortalecido na certeza de que Deus estava no controle de nossas vidas e também feliz em perceber a ternura divina para conosco.


Capítulo 33 “Tuas palavras, Senhor, tinha gravadas em minhas entranhas, e me via cercado de Ti por todas as partes. Tinha certeza de Tua vida eterna, embora não a visse mais que em enigma e como em espelho. Assim, o que eu desejava não era tanto estar mais junto de Ti, mas mais firme em Ti.” Santo Agostinho, Confissões

Aproximava-se o Natal de 1977. A ida a Belém da Judéia havia acendido em mim dimensões novas da celebração da visita de Deus ao nosso planeta, quando Ele se vestiu de gente e assumiu a condição humana no menino Jesus. Além disso, apareceu no meu coração uma enorme ansiedade de reconciliação com pessoas que eu havia magoado ou que haviam me machucado. Visitei várias pessoas, pedindo e oferecendo perdão. Mas havia duas pessoas que não me saíam da alma: Simone e Alma. Numa daquelas quentíssimas tardes de Manaus, eu ia dirigindo meu carro pelo Boulevard Amazonas, quando, de súbito, vi um salão de beleza. “Alguém me disse que a Simone tem um salão de beleza aqui. Deixa eu ver se é esse!”, falei alto, ainda que estivesse sozinho no carro. Parei em frente e fui entrando no lugar. Ainda à porta, vi aquele monte de mulheres com suas cabeças enfiadas naqueles aparelhos, quase astronáuticos, de secar cabelos. Era um corredor de madames e o tititi não cessava. Foi quando vi uma mulher loira, toda vestida de branco, bem-conservada, trilhando o caminho do paradoxo: de um lado parecia ser insinuante; mas de outro, mostrava-se absolutamente tímida e desconcertada. — Você é filho do Caio, não é? — ela me perguntou baixinho. Assim mesmo, muitas mulheres ouviram e escorregaram em seus assentos para ver melhor a cena. — Sou sim. E vim aqui por causa disso — declarei, sem graça com a situação. — Então, você deve me odiar — disse ela. — Olhe, eu não queria falar desse assunto aqui. Tem outro lugar? — perguntei, já segurando seu braço e conduzindo-a para o fundo do salão, onde parecia haver uma porta de acesso a um pequeno pátio. — Eu vim aqui pra me reconciliar com você. Isto é parte de minha cura como homem. Sou pastor e não quero passar este Natal sem estar bem com você. Na infância, eu chamava você de jaburu. Hoje, quero respeitar você como se respeita a uma mãe — disse eu, olhando firme dentro dos olhos castanhos cor de mel daquela mulher que havia sido amante de meu pai e o maior motivo contínuo de dor e vergonha para a vida de minha mãe


durante seis anos. — Eu não acredito no que estou ouvindo. Eu fiz vocês sofrerem muito. Como é que você pode dizer que me respeita? — falou, desabando em lágrimas copiosas e convulsivas, enquanto eu a puxava para cima de meu peito e dava-lhe um abraço terno e filial. Ela ficou ali, com a cabeça no meu ombro, por uns cinco minutos. Alguém foi até a janela e viu-a abraçada comigo. Em razão de minha fama passada, apesar de já ser pastor, achei que a situação poderia ser mal interpretada. Por isso, tratei de recompô-la a fim de sair dali. Afinal, não seria a primeira vez que o filho se serviria da amante do pai. — Olhe, eu quero que você vá à igreja comigo. Você iria? — perguntei. — Você num sabe o que está fazendo. Sabe, teu pai me amou muito. O que houve entre nós foi muito forte. Hoje ele é pastor, mas ainda é homem. Se eu for lá, pode ser que tudo aquilo nasça outra vez. Seria terrível e um mal muito maior — disse ela com sinceridade. — Eu virei pegar você no próximo sábado à noite. Tem muita gente lá. Cê entra comigo, pelos fundos. Eles nem vão ficar sabendo. Aí então você vê meu pai. Se você achar que ele ainda é vulnerável a você, a gente deixa como está. Se não, eu vou continuar levando você pra igreja, certo? — falei com ar final, de quem combina um tanto unilateralmente. No sábado seguinte fizemos conforme o combinado. Ela tremia de nervosa. Entramos depois da reunião ter começado. Ela se sentou no meio da multidão e eu fui lá para a frente. Preguei minha mensagem e meu pai fez uma oração. Encerramos o culto. — Eu não acredito. Meu Deus, aquele não é o Caio que eu conheci tão bem. O que aconteceu com ele? Tá com cara de profeta com aquela barba branca, grande, e aquele ar de paz! Que coisa! — foi o que ela disse tão logo entrou no carro. Voltei para casa e fui direto falar com papai e mamãe. Contei tudo e fiz um pedido. — Gostaria que nos encontrássemos com ela como família. Isso vai nos libertar do passado e nos fará muito mais livres como pessoas. Vocês aceitam? — provoquei. — Por mim, não há problema. Eu já havia desejado fazer algo assim, mas nunca tive coragem. Temia que me interpretassem mal, a começar por sua mãe. Mas meu pensamento sempre foi o seguinte: “Se eu, que tive o caso com ela, pude mudar de vida, por que ela não pode?” O problema é que eu sei que eu jamais deveria ser a pessoa para pregar para ela. Certamente poderia dar uma “aparência de mal”, e isso eu não quero — concluiu citando uma exortação de São Paulo sobre não criar aparências desnecessárias que possam se tornar escândalo para os outros. — Desculpe-me, meu filho, mas eu não tenho sangue de barata. É muito fácil pra você e seu pai ficarem aí dando uma de bons cristãos. Mas fui eu que fui humilhada por ela. Não, não dá não. Quero que ela se converta e que seja perdoada dos pecados dela, mas bem longe de mim. Aqui perto, jamais — disse mamãe sem titubeio e com clara revolta no olhar. A impressão que me deu foi a de que ela havia se sentido traída por mim. Então ela abaixou a cabeça, fixou o olhar no chão e chorou um pranto ambíguo. Parecia que, de um lado, ela gostaria de vencer aquilo, deixar o passado ser passado e perdoar a mulher. Mas de outro, todos os seus brios femininos levantaram-se e prenderam-na numa teia de sentimentos que nem nós nem ela imaginávamos que ainda estivessem tão vivos. — Vai ver que a Simone tá certa. Essa coisa foi profunda demais pra acabar assim, sem marcas e conseqüências incuráveis. Vai ver que eu tô pedindo de mamãe o que ninguém pediria de sua mãe. Mas e se isso for uma oportunidade divina pra gente ficar maior que o passado? Mas eu também sei que ninguém é maior que seu passado, quando este define a conduta no presente — pensei alto, enquanto caminhava em direção ao meu quarto. Apesar de tudo, continuei visitando Simone. Evitei ao máximo falar sobre meus pais.


Conversamos muito sobre outros assuntos, especialmente sobre as filhas delas. Foi quando fiquei sabendo que Silvia, a mais velha, casara-se e já lhe dera netos. Mas a situação de Alma era desalentadora. Na ocasião, ela estava internada há meses numa clínica psiquiátrica em razão de mais um de seus surtos psicóticos. Contei para Simone o que acontecera entre nós dois. — Eu sei de tudo. Mas não fique preocupado. Seu caso contribuiu pra ela ficar assim, mas não foi a única causa. Eu e meus “amores” fomos a principal razão. Especialmente quando eu deixei seu pai. Naquela época, eu a feri muito. Alma era louca por ele. Nunca pensei que fosse afetar tanto a menina — disse-me ela, derramando-se em lágrimas. — Eu entendo. Conheço perfeitamente o poder que papai tem de ser pai e impressionar filhos. Comigo, os meus desencontros também tinham a ver com ele. Demorou muito pra eu equilibrar as coisas dentro de mim em relação a ele — falei, tentando igualar nossos males e dores. A noite de Natal foi maravilhosa. Tivemos um culto cheio de música e devoção. Fiz uma mensagem impregnada de gratidão a Deus pela sua solidariedade para conosco, fazendo-se gente. Depois do culto, abraçamos muita gente e, em seguida, nos encontramos como família. — Vamos lá, gente, que eu estou morrendo de fome. Quero comer aquele peru gostoso que me aguarda lá em casa — falei, tentando apressar a família. — Meu filho, acho que a gente vai ter que esperar pra comer a ceia de Natal — mamãe falou. — Eu não vou conseguir comer mais nenhuma ceia de Natal se não fizer uma coisa hoje que está me sufocando. Eu não agüento mais ficar sem perdoar a Simone. Eu quero ir lá e dizer que estou livre de todo o ódio, de toda a amargura ou qualquer coisa. Eu quero ficar limpa — disse mamãe com a alma já lavada pela graça de Deus. — Então por que não vamos todos juntos? Vamos lá cantar uns hinos de Natal — propus. Éramos dez pessoas. Meus pais e Aninha, minha irmã caçula; eu, Alda, Ciro e Davi; minha irmã Suely, seu esposo, e Anelise, a filhinha deles. “No Natal a gente sempre agradece Por Jesus ter nascido em Belém Mas nem sempre se lembra na prece Que ele nasce na gente também.” Cantamos suavemente. Estávamos na calçada. À nossa frente, havia um portão de ferro que dava acesso à casa de Simone. O salão de beleza ficava ao lado, e a casa nos fundos, a uns trinta metros de onde estávamos. Entre nós e a casa, portanto, havia um corredor estreito e longo. Seguimos cantando outros hinos. “Nas estrelas vejo Sua mão No vento ouço Sua voz Deus domina sobre céu e mar Tudo Ele é pra mim Eu sei o sentido do Natal Pois na história teve o seu lugar Cristo veio para nos salvar Tudo Ele é pra mim.” Quando estávamos no meio da canção, vimos que a porta da casa ao fundo se entreabrira.


Dava para ver somente a metade do rosto de Simone, sozinha, chorando. Foi quando não pude acreditar no que vi. Mamãe abriu o portão, andou firme pelo corredor, sozinha, na direção de Simone. Era como se ela andasse no tempo para abraçar o passado, libertar seus fantasmas e ver nos olhos quem um dia a havia magoado. Quando mamãe já estava a uns dez metros da porta, Simone correu de lá na direção dela, jogou-se sobre o ombro de minha mãe e chorou com urros de dor e angústia. — Eu vim aqui te dizer que Jesus me libertou de minhas amarguras e que eu estou livre pra amar você. Você não me deve mais nada. Tudo o que eu quero é que você seja feliz — mamãe falou, enquanto Simone se derretia de tanto chorar. Todos nós a abraçamos, inclusive papai, e antes de sairmos fiz uma oração abençoando o Natal dela. Daquele dia em diante, muita coisa mudou em nossas vidas. Surgiu uma liberdade enorme para confessar, para ser, para viajar em busca do passado a fim de poder caminhar com paixão em busca do futuro, que só existe para quem quer que o ame com força. Mamãe passou a dar atenção espiritual a Simone. Eu, sempre que podia, visitava Alma na clínica. Mas depois de um tempo, percebi que minhas visitas não faziam bem a ela. Confusa como estava, ela sempre imaginava que eu estava ali por outras razões. Nossas vidas prosseguiram em paz, até que em março de 1978, grávida de seis meses e meio, Alda acordou em trabalho de parto. Corremos para o hospital. Nasceu um menino. Era lindo, branquinho, de nariz afilado e cabeça bem-feitinha. Viveu cinco horas e morreu. Alda e eu choramos baixinho. Resolvemos chamá-lo Luiz. Estranhamente, só percebemos depois, era o terceiro Luiz em minha família que morria, um em cada geração. Sepultamos nosso filho e voltamos à vida, sem perguntas e sem mágoas. O episódio da morte de Luizinho teve, entretanto, um aspecto hilário, pois nos lábios das crianças, mesmo a mais estranha declaração, com potencial para soar perversa, reveste-se de outro tom. Quando minha irmã Suely, que estivera conosco no hospital fazendo vigília à porta da sala onde Luiz estava numa incubadora, ouviu de seu passamento, resolveu ir até a nossa casa para a dar a notícia aos que lá estavam. Ao chegar, deu de cara com Ciro e Davi em pé, juntos, à porta. — Tia, cadê o Luizinho? — perguntou Ciro. — Cirinho, Davizinho, o neném nasceu e uma coisa muito boa aconteceu com ele. Olha, ele já foi morar no céu, com Jesus. O neném está lá, vendo anjos e um monte de coisas lindas — ela disse com voz de quem contava uma historinha de Walt Disney. — Tia, o céu é lindo? É mais bonito que aqui? — perguntou o curioso Ciro, enquanto Davi, loiríssimo, olhava em volta sem nem bem saber o que estava acontecendo. — Ah! É lindo, sim. É tão bom morar no céu — concluiu Suely, achando que a conversa estava encerrada. Então Ciro ficou olhando para as nuvens azuis sobre sua cabeça, suspirou profundo, botou um dos braços em volta do pescocinho de Davi, e disse: — Jesus. O céu é lindo. Leva o Davizinho pra morar no céu contigo também. Assim, a morte de Luizinho não é lembrada por nós como um momento de dor, mas como uma ocasião na qual a inocência de um menino de três anos, inquieto com a chegada de irmãos que vinham sem pedir licença, desejou o melhor para eles, promovendo-os ao céu, e deixando assim a terra livre para o exercício de seus banais privilégios. Aqueles dias, entretanto, tiveram também componentes de natureza profundamente espiritual. Duas são as histórias que podem muito bem caracterizá-los. O fascinante dessas histórias é que ambas têm a ver com anjos e aconteceram exatamente no mesmo lugar: um grande prédio cheio de apartamentos e lojas, no centro comercial de Manaus.


Antes da minha conversão à fé, dentre os meus amigos havia dois irmãos conhecidos na cidade por serem bons de briga. Fazia anos que eu não os via. De repente, aí pelo final de 1978, um deles me procurou. — Caio, preciso de ajuda. Um anjo mandou eu vir falar com você — disse ele, e eu achei que tudo não passava de uma gozação. — Ah, é? Que anjo foi esse? — indaguei também brincando. — Não tô brincando não. Foi um anjo mesmo — repetiu ele com o rosto mais que sério. — Olha, meu irmão e eu temos uma loja aqui no edifício Cidade de Manaus. Os negócios tavam indo bem, mas de repente começou a ficar tudo ruim. A gente tava quebrando. Então resolvemos fazer uma loucura. Como a gente tem um seguro contra incêndio, revolvemos tocar fogo na loja. Com a grana dava pra salvar o negócio — disse ele, mostrando-me o braço —, não posso nem lembrar que fico todo arrepiado. — Mas e aí, o que foi que aconteceu? — eu já estava ficando bastante curioso. — A gente preparou tudo. A idéia era que fosse um fogo brando e que queimasse só a loja da gente. Na noite da véspera, eu estava muito ansioso e meu irmão parecia estar calmo. Fomos pra casa. Eu saí e ele ficou sozinho. Olha, bicho, o que ele contou é incrível. Só acreditei porque você conhece o cara. Ele não tem medo de nada e num tá nem aí pra esse negócio de religião e Deus e o escambau — afirmou, deixando-me cada vez mais em suspense. — Ele disse que tava tomando um wisquinho sentado na sala quando viu um ser cheio de luz entrar pela sala, cara. O ser não tocava no chão, flutuava e se movia como se estivesse sendo empurrado suavemente de um lado para o outro — falou, mostrando-me outra vez o braço todo arrepiado. — E como era esse ser? — Era como um homem, só que cheio de luz e muito bonito. — Mas e aí? O que foi que ele disse pro teu irmão? — Ele disse que tinha sido mandado por Deus pra nos impedir de matar muita gente. Disse que o que íamos fazer teria conseqüências desastrosas. Botou a mão nos olhos de meu irmão e fez ele ver — disse com os olhos cheios de lágrimas. — Ver o que, mano? — perguntei, já antevendo o desfecho de tudo aquilo. — Ele viu o fogo pegando na loja ao lado e incendiando todo o edifício, com centenas de moradores. Era de noite. Então todo mundo tava em casa. Era gente morrendo pra todo lado — ele já não conseguia continuar de tanta emoção. — Mas o que é que isso tem a ver comigo? — perguntei, querendo juntar as pontas da história. — É que depois que o ser mostrou isso a ele, meu irmão ficou congelado. Parecia que estava morto. Não se movia do lugar. Foi quando o ser me mandou procurar você — falou ele me olhando com um ar de quem havia chegado mais perto dos mistérios da vida do que jamais imaginara. — Mas como é que foi que o anjo mandou vocês me procurarem? — perguntei, já esclarecendo que o ser era, na verdade, um anjo do Senhor. — Ele disse: “Aqui nesta cidade tem um amigo de vocês que conhece a Deus. Procurem o Caio Fábio e ele vai ajudar vocês.” Foi só isso cara, o anjo te conhece — completou. Parti daquele ponto e falei de Cristo a ele e, depois, ao seu irmão, que, no entanto, era um homem muito duro de coração. Ficou uns 15 dias chocado, mas logo esqueceu tudo e mergulhou nas águas escuras das paixões que vivia. O portador da mensagem angelical, entretanto, ficou tocado por muito tempo. Passou a ir à igreja e nunca mais foi o mesmo. Casou-se com a moça que namorava naquele tempo e jamais deixou de ler a Bíblia. Não se tornou um crentão evangélico, mas jamais conseguiu deixar de ser um cristão. Aquele contato imediato de primeiro grau com as


forças do mundo espiritual mudou sua vida para sempre. Outro evento conectado com as forças invisíveis do mundo espiritual que me aconteceu naqueles dias teve a ver com a conversão de um jovem. Marcílio era um moço de cerca de vinte anos que vivia no alto do edifício Cidade de Manaus, o mesmo lugar do episódio anterior. Sendo politicamente consciente e socialmente sensível, sofria muito ao perceber o estado de injustiças sociais no qual o Amazonas vivia. Ele queria ver uma revolução acontecer. Por isso, candidatou-se a fazer parte da guerrilha urbana e foi receber treinamento no interior da Bahia. O problema é que Marcílio não tinha sossego de alma. Havia dentro dele um desassossego profundamente suicida. Um dia ele me ouviu pregar no câmpus universitário, achou tudo ridículo e foi embora fazendo gozação. Mas o desespero do rapaz cresceu tanto, que numa determinada noite ele decidiu se suicidar. Foi para o alto do prédio e ficou de lá, olhando para baixo. De súbito, foi puxado para dentro do apartamento, onde caiu no chão, chorando. Então, ouviu uma voz. — Vai e procura o Caio, que ele vai ajudar você. — Caio? Caio? Quem é esse cara? — respondeu meio sem rumo. Então ele se lembrou que me ouvira pregar e também que tinha umas vizinhas que me conheciam bem. Mas o atordoamento do rapaz era tão grande, que nem pensou em ir à casa das moças para saber onde eu morava. Apenas pegou o elevador, desceu correndo para o seu fusquinha vermelho e caiu na estrada atrás de mim. Manaus já tinha cerca de oitocentos mil habitantes naquela época, uma população que crescia de forma larga e bastante espalhada. Marcílio seguiu suas intuições. Botou o carro na direção do endereço emocional que lhe surgiu no coração e seguiu em frente. Chegou ao bairro da Cachoeirinha e parou numa esquina. O bairro era amplo e bastante ramificado, com muitas ruas e avenidas. — Ei, moço! Estou procurando um tal de Caio Fábio. Você sabe onde ele mora? Já ouviu falar nele? — indagou Marcílio ao primeiro ser humano que passou por seu caminho naquela esquina escura das ruas Urucará com Tefé. — Se conheço? É claro. E você também conhece, né? Parou o carro bem na garagem dele! — respondeu o homem, apontando na direção da porta de minha casa, a não mais do que dez metros de distância. Marcílio derreteu-se de tanto chorar. Havia uma conspiração invisível de amor querendo preservar sua vida a todo custo, e aquela era uma percepção maravilhosa demais para ele. — Ô de casa! Eu vim me entregar pra Deus. Tem alguém aí pra me receber? — foi a voz que ouvi, gritando no portão de minha casa. Eu estava sozinho na cozinha, fritando um ovo. Eram nove e meia da noite, quando ouvi aquela voz cheia de choro. Saí e fui ver quem era. O rapaz pulou nos meus braços, sem dar explicação, e chorou. Depois me contou sua história. Está lá, entre os irmãos de fé que ele passou a conhecer depois daquilo, até o dia de hoje. Aprendi com aqueles fatos que os anjos nos conheciam e trabalhavam a nosso favor. E mais: pude perceber que quando se ama o próximo de verdade e quando se entrega a vida como instrumento de realização de desejos divinos, até os anjos se tornam empregados, trabalhando a favor da realização de nossos sonhos e missões.


Capítulo 34 “Tampouco podes ser obrigado, contra a Tua vontade, seja ao que for, porque tua vontade não é maior do que Teu poder. Seria maior caso pudesses ser maior do que és, pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. E que pode haver de imprevisto para Ti, se conheces todas as coisas, e se todas elas existem por que as conheces?” Santo Agostinho, Confissões

A vida já estava tomando os seus contornos de sempre. O tufão estava lá e eu amava viver dentro dele. Alda, entretanto, olhou para mim com aqueles olhos de tela de cinema e me fez ver o filme de nossa noite da verdade em Tel Aviv, como que dizendo: “Eu sabia que tudo iria voltar ao que sempre foi.” Estava bem com os anjos, mas corria o risco de ficar mal com minha mulher. Com vergonha de minha lentidão em assumir mudanças tão fundamentais, comuniquei primeiro a meu pai, que também era meu colega de trabalho pastoral na mesma igreja, as alterações de vida que estavam em processo. Depois, fiz o mesmo para toda a igreja. E o mais difícil: tive de dizer a mesma coisa, pessoa a pessoa, pois muita gente, mesmo recebendo a informação geral, não aceitava que, na prática, as mudanças fossem acontecer. Por isto, insistiam em que eu as recebesse às 23 horas, ou até mesmo às duas da madrugada, quando tinham diarréia espiritual no meio da noite. Foi difícil convencer algumas pessoas que eu não estava mais de plantão na vida. Mas persisti, às vezes com muita culpa, até que as coisas se acomodaram e Alda e eu pudemos preservar nossa família de males maiores. Fiz tudo o que havia prometido em Israel. Compramos um terreno — só que ao lado da casa de meus pais —, e com a ajuda de papai construímos uma casa engraçadinha, de dois andares, toda em madeira de lei, com troncos de Aquariquara como colunas e uma graciosa escada espiral de ferro fazendo a conexão dos dois pisos. Foi um alívio enorme para Alda, e pela primeira vez, já três anos após nosso casamento, nos sentimos de fato um casal e um núcleo familiar. Mas para tirar definitivamente as coisas de dentro de nossa casa, decidi montar um escritório de assistência espiritual, que também não fosse uma igreja. Seis meses depois disso, entretanto, as filas de gente começaram a se acumular por lá. Além disso, Clodoaldo Guerra, o radialista, continuava me pondo no ar ao vivo todas as manhãs e os telefones não paravam de tocar. Por isto fui à companhia telefônica e propus uma parceria. “Vocês querem vender serviço e ganhar dinheiro. Eu quero oferecer serviço e ganhar corações. Por que não nos unimos? Vocês me instalam de oito a dez linhas seqüenciadas e receptoras, e eu divulgo o serviço. Assim vocês me ajudam e eu ajudo vocês”, eu disse ao diretor comercial da Telamazon. Ele topou.


Passamos a receber até mil e oitocentas chamadas por dia, das oito da manhã à meia-noite. Tive de pedir ajuda a todos os pastores da cidade. E a maioria veio nos ajudar fazendo aconselhamento ao vivo, via telefone, inclusive o decano evangélico local, pastor Alcebiades Vasconcelos, líder das Assembléias de Deus. Em conseqüência daquela ação de evangelização e genuíno marketing cristão, milhares de pessoas passaram a se converter por mês e dezenas de igrejas cresceram. Naqueles dias, contudo, apareceu em Manaus um missionário que mantinha um estranho estilo de pregação e se utilizava de métodos que nos pareciam completamente mercenários. Nós estávamos ali, trabalhando de graça de dia e de noite, servindo às pessoas com o coração e sem outros interesses a não ser agradar a Deus. Mas aquele missionário, Ivonildo, parecia ter outras motivações. O negócio dele era grana. No rádio, a auto-apresentação que fazia era esta: “Chegou aquele que já curou milhões. Seu nome é Ivonildo. O homem a quem o diabo obedece. Venha conhecer o poderoso missionário Ivonildo. O homem do poder.” Ele usava voz grossa, empostada, cavernosa, imitando Deus, e se apresentava como ninguém na Bíblia jamais se auto-apresentara. Aliás, na minha percepção, as Escrituras não apresentavam nem mesmo a Jesus daquela forma tão artificial e exaltada. Conquistávamos o respeito das pessoas de um lado, e ele punha tudo a perder de outro. Fazíamos o possível para que a cidade percebesse nosso total desinteresse por dinheiro e nossa paixão por pessoas. Ele, todavia, cobrava para fazer visitas e até mesmo estipulava o preço de certas orações. Além disso, depois de explorar as pessoas com todas as formas de misticismos e superstições pretensamente associadas ao evangelho, ele pedia dinheiro por períodos de até quarenta minutos seguidos. “Se vocês não derem a Deus, Deus não dará nada a vocês”, decretava ele, estabelecendo o sistema monetário como a moeda de troca na compra e venda de bênçãos, as quais o genuíno cristianismo afirma serem gratuitas. Do alto apenas de meus seis anos de experiência cristã, resolvi que alguém tinha de peitar aquele homem, e se ninguém mais experiente e autorizado tivesse coragem para fazê-lo, eu mesmo o faria. — Irmãos, não dá. Esse homem está destruindo tudo o que nós estamos construindo com lágrimas e amor. Alguém tem que falar — eu dizia em reuniões de pastores. — Mas, irmão, tá certo que o que ele diz e faz não está de acordo com o ensino bíblico. Mas ele fala em nome de Jesus e muitos aceitam a Cristo. Não podemos impedir — era o que sempre ouvia da maioria dos meus colegas pastores. — Tá certo que não podemos impedir. Mas podemos advertir. Só porque ele usa o nome de Jesus, o que ele faz não fica certo. O nome de Jesus cabe em qualquer lugar. Esse homem ganha uns e afugenta milhares — eu falava, inamovível na minha disposição de não permitir que o evangelho virasse mercadoria para camelôs religiosos. Como ninguém quis ir, fui à luta sozinho. Comecei a falar em público que as práticas de Ivonildo não eram cristãs. Mas ao final, sempre orava por ele e pedia a Deus que o ajudasse a pregar o evangelho com genuinidade. A mídia de Manaus soube e começou a me procurar para discutir o assunto. — Esse missionário é ou não é de Deus? — era a hipersimplificação a que chegavam. — Eu não sou Deus e nem secretário de Deus — dizia eu. — Além disso, não estou julgando o homem Ivonildo, mas suas práticas. O homem, só Deus pode julgar. Mas as práticas, cabe a nós discernir. E o que ele está fazendo não é cristão. Leia os evangelhos e veja se você encontra espaço para as coisas que ele está fazendo em nome de Cristo? — respondi inúmeras vezes no rádio e especialmente nos jornais. Até que um dia encontrei Ivonildo num banco. O gerente era membro de nossa igreja e o


missionário depositava semanalmente seus milhares de dólares numa conta pessoal que ele tinha naquela instituição bancária. — Pastor, tem alguém olhando para você quase a ponto de lhe comer — falou-me discretamente Luís, o gerente. — Quem é? — indaguei baixinho. — É o Ivonildo. Está nas suas costas — respondeu entre os dentes. Despedi-me de Luís e fui saindo. — Irmão Caio. Como vai você? — alguém perguntou em voz mais que audível. Virei-me e vi o missionário andando na minha direção. — Bem, graças a Deus — respondi. — Montei uma igreja aqui e já temos milhares. É uma igreja poderosa — ele foi falando alto, como que desejando mostrar a todos no banco que nós éramos amigos ou pelo menos amistosos, pois embora sua voz fosse muito conhecida do rádio, sua imagem não era. Eu, entretanto, por causa da televisão, tornara-me bastante conhecido. — Até onde eu sei, o senhor não tem uma igreja, mas uma miscelânea, ou uma rodoviária — afirmei. — O senhor cuida das ovelhas? Visita-as de graça? Chora com elas e por elas? Vive suas alegrias e sofre suas dores? — perguntei, embora já soubesse as respostas. — Assim você está me julgando. Só Deus pode me julgar. Você não — exclamou exaltado, falando em voz mais alta ainda. — E vai! Não tenha dúvida disso. Deus vai julgar você. Eu não estou julgando você, mas as suas obras. Jesus disse que a gente conhece a árvore pelos frutos — completei de modo firme. — Então eu estou melhor que você. Minha igreja já é maior que a sua. Quantas pessoas você tem? — perguntou como se fôssemos mafiosos, traficantes ou bicheiros, disputando o tamanho dos negócios. — Fruto de ministério cristão não se mede em números, pois nesse caso os profetas, João Batista, Jesus e os apóstolos teriam sido grandes fracassados, uma vez que foram abandonados e muitas vezes morreram sozinhos — eu disse e fui saindo. O gerente me disse que ele ficou branco, começou a andar pelos cantos, pediu água e se sentou. “Ele não podia dizer essas coisas para mim. Ele não podia”, repetiu várias vezes. Dias depois, Luís contou-me que a polícia federal pegara Ivonildo para um interrogatório. Deram-lhe um aperto tão grande por causa de estelionato, exploração da boa-fé, sonegação de imposto e outras coisas, que o tal missionário teve de abandonar a cidade na carreira. Mas antes de sair, tomou providências no sentido de leiloar a igreja. Um “grupo religioso do sul do país” comprou aquelas duas mil almas, mais cinco galpões e suas mobílias, por alguns milhares de dólares. Quando ouvi o que tinha acontecido, eu me desesperei. Meu medo era de que coisas daquele tipo viessem a se multiplicar por todo o país, pois nesse caso o prejuízo seria irreparável. Se os cristãos se acomodassem àquele tipo de coisa, voltaríamos à idade das trevas. Contudo, apesar de perceber que charlatães gostam muito de veículos de comunicação, não perdi a fé no fato de que a mídia poderia ser usada de modo legítimo. Eu mesmo usava a mídia e via os resultados positivos. Dessa forma, animado com o sucesso dos meios de comunicação, parti para um projeto de saturar Manaus com o evangelho. Unimo-nos à Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo, bem como com à Mocidade Para Cristo (MPC) e à Aliança Bíblica Universitária (ABU), e partimos para o ataque. Pensava de modo estratégico e queria ver as ações cristãs serem feitas de forma objetiva e bem estudada. Mas o volume de coisas era tão grande, que às vezes me enrolava todo pelo caminho. Foi aí nesse ponto, já em julho de 1978, que eu decidi que, definitivamente, nós tínhamos de nos organizar. Aquelas ações não podiam ser vinculadas a uma igreja, especialmente


à minha. Precisava haver uma estrutura que pairasse acima das bandeiras evangélicas, de modo que pudesse servir a todos. Pensamos e criamos aquilo que no meio evangélico se chama de Missão, e que do lado de fora se convencionou chamar de ONG cristã. Assim nasceu a Vinde, sigla de Visão Nacional de Evangelização. A questão é que eu pensei que aquilo que nós estávamos fazendo ali no meio do mato era lugar-comum. Minha admiração foi enorme quando ouvi Marcos Gilson, da ABU, e Abraão, da MPC, dizerem que o que estava acontecendo ali não tinha paralelos no resto do Brasil. “Vocês estão anos à frente do resto da Igreja. Não há nenhuma outra cidade no Brasil com o nível de impacto estratégico na sociedade que vocês conseguiram alcançar aqui”, disseram-nos, de comum acordo, em ocasiões distintas. Daí em diante, comecei a desejar expandir meu programa de televisão, Jesus, esperança das gerações, para toda a nação. De repente, já estávamos alcançando todo o nordeste e já tínhamos patrocinadores locais. Aí então vieram convites para conferências e grandes ajuntamentos em estádios, praças e ginásios de esportes por todo o Brasil. No início de 1979 eu já não parava em Manaus. E para piorar as coisas, fui convidado a falar naquele que seria o maior evento evangélico interdenominacional da história do Brasil, o Geração 79. Meu papel naquele congresso era secundário, mas duas coisas fundamentais aconteceram-me ali. A primeira foi que pude conhecer os principais líderes evangélicos do Brasil, ali no Centro de Convenções do Anhembi, onde ficamos reunidos por uma semana. A outra foi que preguei para grupos menores, de quinhentas pessoas — ao todo havia quatro mil jovens reunidos ali —, o que fez correr pelo lugar a informação de que eu me comunicava com facilidade. Logo, ali mesmo comecei a receber convites de todo o Brasil para pregar. O primeiro que aceitei foi para uma Igreja Presbiteriana em Taguatinga, Distrito Federal. Cheguei numa quarta-feira à tarde e deveria ficar até domingo à noite. Mas durante aqueles dias houve um impacto tão grande da mensagem que eu pregava sobre o povo, que a programação precisou ser estendida. Naqueles dias, cheguei a iniciar cultos às cinco da manhã, enquanto a multidão se comprimia no templo de mil lugares para ouvir a Palavra. Houve de tudo ali. Quando o arrocho da convicção do Espírito Santo caiu sobre a turma, os tumores da igreja foram espremidos. Era gente casada que cantava baixo no coral levando para a cama a soprano; era líder leigo confessando que estava transando com as gatinhas da comunidade, eram pastores revelando suas frustrações ministeriais e, sobretudo, eram milhares os que vinham orar comigo carregados de dores e culpas sem fim. Fiquei ali todas as noites até uma e meia da madrugada atendendo gente numa fila que não acabava nunca. E como o meu sentido de inadequação ante às responsabilidades que sobre mim começavam a avolumar-se era grande demais, jejuava o tempo todo. Somente às duas da manhã é que comia alguma coisa, de prefêrencia uma sopinha, em companhia do reverendo Adail Sandoval, pastor da igreja. O domingo foi adrenalina pura. Comecei às cinco da madrugada e fui até às seis da tarde sem parar. Haveria um intervalo de uma hora para eu tomar um banho e me deitar na cama de costas por alguns minutos, para então voltar para a reunião das 19 horas. Triste ilusão. Quando íamos entrando em casa o telefone tocou. Era uma mãe em desespero, pedindo para que eu fosse até a casa dela com urgência, pois seu filho estava possesso de demônios, quebrando tudo. Relutei quanto a ir, tão grande era o meu cansaço. Mas não houve jeito, e tive de ir até lá. Quando chegamos, vi que a coisa era muito pior do que pensara. Afrânio era um rapaz de uns 24 anos, alto, espadaúdo, forte, de cabeleira cheia e olhos profundos. A força que ele demonstrava possuir era enorme. E pior: a situação já saíra do âmbito da casa e fora para o meio da rua. Uma multidão estava olhando o moço quebrar coisas e falar com voz alterada palavras que eram ditadas pelos demônios. Ao me ver foi logo partindo para cima de mim a fim de me agredir. “Senhor, me ajuda. Dá-me poder espiritual e também permite que ele fique livre, logo”, orei em minha mente.


— Seu desgraçado. Tá pensando que me domina? — falaram os seres que habitavam Afrânio, que correu para me esmurrar. — Sai dele, diabo, em nome de Jesus — gritei, iniciando um duelo espiritual que as cem pessoas que estavam por ali possivelmente jamais haviam presenciado antes. Como ele continuou correndo para me atingir, fiquei na posição de guarda que Neto me ensinara no jiu-jítsu. Não deu outra. Ele pulou em cima e eu o girei no ar, coloquei-o no chão de asfalto e montei nele, prendendo-lhe a respiração com o peso de meu corpo sobre o seu estômago. Ali de cima, então, eu o exorcizei em nome de Cristo. Dois minutos depois ele estava livre, cercado por uma pequena multidão e querendo saber o que havia acontecido a ele. Expliquei e convidei-o para ir à igreja. À noite ele estava lá e ao final da reunião fez uma oração de invocação, pedindo a Jesus que viesse morar nele, fazendo assim com que as forças espirituais da maldade ficassem sem chance de invadi-lo outra vez. A reunião de domingo acabou depois da meia-noite. E quando pensei que iria enfim poder dormir, percebi que a noite só estava começando, pois um empresário desesperado veio me dizer que naqueles dias, não suportando mais a culpa de trair sua esposa com uma senhora da igreja, decidiu contar tudo a ela. Agora, entretanto, a mulher o estava expulsando de casa. — Mas o que é que eu posso fazer para impedir isso? — perguntei. — Ela disse que minha única chance está em conseguir levar você até lá. Disse que com você ela conversa — ele me implorou em lágrimas. Eu tinha apenas 24 anos e eles eram um casal de aproximadamente cinqüenta anos. Fui e ouvi as dores e mágoas deles até às cinco da manhã. Eu já estava para desmaiar de sono. Era a quinta noite que eu praticamente não dormia nada. Minhas pernas estavam bambas e os pensamentos turvos. Mas no fim de tudo eles decidiram dar uma chance um ao outro e estão juntos até hoje. Na segunda-feira, preguei o dia quase todo. Começamos numa escola e fomos de reunião em reunião até o fim da tarde. À noite fui ao templo para o que imaginei que fosse ser uma pequena reunião, mas centenas de casais estavam lá, querendo ouvir algo que melhorasse seus casamentos. Como não era um expert no assunto, apenas falei do que sabia: “Cristo pode pegar a água insípida de seu casamento e transformá-la num vinho gostoso.” De volta a Manaus, meu pai foi me buscar no aeroporto. — Meu filho, o Rosinaldo, seu amigo, tentou o suicídio. Está vivendo uma crise conjugal e não agüentou. Tentou envenenar-se. Está mal no hospital. Ele quer ver você. Vamos lá? Quando vi Rosinaldo, fiquei extremamente triste com a sua situação. Ele não era da igreja, mas isso não fazia a menor diferença em relação ao que eu sentia por ele. Eu aprendera a amá-lo com muita ternura, enquanto ele dirigia meus programas de TV. Rosinaldo estava estudando inglês e por isso gostava de me chamar de Shepard: pastor de ovelhas. Orei com ele e fui para casa. À noite não consegui dormir. O fato de Rosinaldo ser tão cheio de vida e de repente estar seduzido pela morte deixou-me aterrado. Aí por volta da meia-noite eu continuava a rolar na cama. Então me pus de joelhos e orei incessantemente por ele. Às cinco da manhã eu ainda estava acordado. Então fui até meu escritório, no cômodo ao lado, abri a janela, olhei na direção da casa dele e tive uma visão fantástica. Era a árvore. A mesma jaqueira que eu vira pintada de prata seis anos antes, na noite em que decidi me tornar um discípulo de Cristo, estava lá. Só que agora eu a via da janela de minha casa, construída ao seu lado, no terreno vizinho à casa de meus pais, de onde eu a percebera naquela noite de julho de 1973.


A jaqueira estava matizada pelo nascer do sol. Estava linda. Divina. Minha alma se encheu de alegria. Ajoelhei-me ali e falei com o Criador. Pedi que Ele enviasse um anjo até a casa de Rosinaldo, pois sabia que ele saíra do hospital na noite anterior. Foi a mais extraordinária oração que já fiz na vida. Fechei os olhos e vi o rapaz deitado em sua cama, dormindo. Então, como que em minha imaginação, entrei nos sonhos dele. Pedi a Jesus para fazê-lo sonhar com o texto de Mateus 7: os dois caminhos — o largo que conduz à morte e o estreito que conduz à vida. Depois, pedi ao Senhor que lhe mostrasse os obstáculos que ele enfrentaria se quisesse andar com Cristo e que desafiasse meu amigo a continuar, apesar de tudo. A seguir, roguei ao Espírito de Jesus que fizesse Rosinaldo perceber o conforto e a paz de repousar nas águas de descanso que estão à nossa disposição em Deus. Fiquei sobre os meus joelhos até às sete horas da manhã. Quando Alda acordou, eu já estava me preparando para sair. — Onde você vai? — perguntou-me ela. — Vou ver o que Deus fez na vida do Rosinaldo — respondi. Quando cheguei à casa dele, para minha surpresa, fui informado que ele saíra de casa às sete da manhã e que fora para a TV Educativa, onde, agora, trabalhava como diretor de programação e arte. Corri até lá. — Shepard, bom dia. Algo inacreditável aconteceu comigo — falou assim que me viu. — Foi um sonho, não foi? — perguntei. — Como é que você sabe? — indagou surpreso. — Quer que eu conte ou você conta? — devolvi com absoluta certeza. — Você sonhou com dois caminhos, com obstáculos, com um convite de Cristo e com águas de descanso, não foi? — perguntei como se estivesse contando um filme. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Nós dois sabíamos que havíamos estado dentro de uma conspiração divina de amor e que nossas vidas mudariam depois disso. Não que daí para a frente algo sobrenatural viesse a nos fazer viver numa outra dimensão, suspensa sobre as ambigüidades de nossas existências eivadas de relatividade. Mas acontecesse o que acontecesse conosco no futuro, nós poderíamos saber que o divino nos tocara e nos conectara de um modo especial. O Espírito Santo fizera-me visitar os sonhos dele e me deixara, naquela madrugada, assumir um papel de condutor de seus desejos na direção de Cristo. Rosinaldo jamais se tornou um evangélico, porém nunca mais, depois daquela madrugada, conseguiu ser o mesmo. Eu também, dali para a frente, aprendi a força conspiratória que existe na oração objetiva e apaixonada. “Graças a Deus esse poder não está à disposição de gente mal-intencionada. Há outros poderes que agem em gente má. Este aqui só está disponível em Cristo e para o bem do próximo”, pensei muitas vezes, chocado com o que acontecera. A vida continuou e minhas viagens também. Era tanta viagem, que Alda e eu começamos a achar que não dava mais para continuar morando no Amazonas. O duro, entretanto, era deixar o convívio dos pais, da igreja, da cidade e dos cheiros do Amazonas. A reflexão era sobre que decisão haveríamos de tomar: se ficaríamos em Manaus ou mudaríamos para o Rio de Janeiro. Em meio a isso, aconteceu algo que me assentou o sentimento de que nossa eventual saída de terra natal poderia estar tendo repercussões no mundo espiritual. Naquelas bandas do Brasil, era comum quem tinha carro ir almoçar em casa com a família. Assim, eu sempre saía da Vinde aí pelo meio-dia e só retornava às duas da tarde, depois de uma gostosa refeição e uma sonequinha de 15 minutos. Num daqueles dias, voltava para o escritório em companhia de Heraldo Rocha, um funcionário de nossa organização que me ajudava na


produção do programa de televisão, quando algo inusitado aconteceu. Meu carro era uma Brasília vermelha, caindo aos pedaços. Sob meus pés era possível ver o asfalto passando, tamanho era o rombo no chão do carro. Vínhamos descendo a rua Tefé, que, de tão íngreme, dá vontade de deixar o carro descer livre. Quando cruzamos a avenida Castelo Branco, já estávamos a uns oitenta quilômetros de velocidade. De repente, percebi que um jipe vinha em alta velocidade na mão oposta à nossa. Subitamente ele saiu de seu lado e veio sobre nós. A velocidade com a qual tudo aconteceu foi tão grande, que não pude esboçar nenhuma reação, a não ser fechar os olhos, proteger a face e preparar-me para a batida: — Jesus! — gritamos juntos. Bum, foi o estrondo. O choque havia acontecido. Fomos jogados para o outro lado da rua. Quando abrimos os olhos, estávamos sobre a calçada. Olhei para mim e constatei que estava intacto. Heraldo também. Estávamos apenas completamente brancos de susto. Do outro lado da rua estava o jipe. O motorista nos olhava com os olhos estatelados. Tentei abrir a porta do carro e sair na sua direção, mas ele ligou o carro e partiu cantando pneu, virando à direita na primeira rua e sumindo. Heraldo e eu saímos do carro e ficamos procurando o lugar da batida. Naquela lata velha, até um vento mais forte poderia deixar a marca. Nada. Não encontramos nada. — Pastor, que bateu, bateu. Eu senti. A gente foi jogado de lá pra cá. Como é que pode não ter acontecido nada nem com o carro, nem com a gente e nem com o outro cara? — perguntou-me Heraldo perplexo, fazendo a mesma pergunta que eu não cessava de fazer a mim mesmo desde que saíra do carro e constatara aquela coisa estranha. — Meu irmão, acho que Deus mandou Seu anjo. Acho que o barulho que a gente ouviu foi o dos carros se chocando com a mão do anjo do Senhor — falei, fazendo uma confissão de fé que para a maioria das pessoas modernas pareceria um delírio alucinado. Para mim, entretanto, não havia dúvida. As forças do mal haviam tentado barrar o meu caminho, mas o Senhor estendera a mão para nos proteger e nos fazer chegar a um outro chão, onde Seus propósitos teriam continuidade nas nossas existências. Isto porque, quando se anda na presença de Deus, pode-se contar com a conspiração dos anjos e isso não só pára os carros, mas nos capacita a passar sobre o dia da morte na direção de novas fronteiras de vida e possibilidades.


Capítulo 35 “Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu, ó Deus, o sabias, mas não o indicaste nem a mim nem à minha mãe, que chorou atrozmente minha partida, seguindo-me até ao mar.” Santo Agostinho, Confissões

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— apai, não sei como lhe dizer, mas estou pensando seriamente em sair de Manaus e voltar para o Rio. Estou viajando muito e acho que não está certo ficar tanto tempo longe de casa e da igreja. Não posso criar meus filhos longe de mim e Alda não vai suportar a situação por muito tempo. As distâncias são longas, por isso em cada viagem eu me ausento por muitos dias. Acho que Deus está me dizendo que devo sair daqui — disse a ele, enquanto aquele velho biquinho de constrangimento se formava em sua boca. — O que o senhor acha? — perguntei. — Eu acho ridículo. Acho um absurdo. Mas que autoridade eu tenho para falar de atitudes e decisões ridículas e absurdas? Eu também tomei decisões ridículas um monte de vezes. Mesmo o fato de ter voltado para o Amazonas como pastor, a fim de viver como eu vivo, foi uma loucura. Então, filho, eu não quero que você vá. Mas se você for, que Deus abençoe a sua decisão — disse-me com duas grossas lágrimas rolando pelo seu rosto. A decisão de sair de lá era, todavia, dificílima. Alda e eu oramos muito buscando ouvir a voz de Deus. — Eu só saio daqui se Deus me falar de modo audível — foi o que eu disse a Alda. — Vou pedir a papai para não falar com ninguém sobre o assunto. Vou pedir a Deus que fale com as pessoas e diga a elas que nós devemos ir daqui — combinei com minha esposa. — Quero três sinais. O primeiro é o de ir ao Rio e conseguir dinheiro, em apenas trinta telefonemas, para botar nosso programa de TV no ar. O outro é o nosso sustento financeiro como família, já que eu não ganho nada da Vinde. E o último é a comunicação de Deus com nossos amigos, falando-lhes sobre nossa saída. Os dois primeiros sinais foram rápidos. Vim ao Rio, fiz as trinta ligações telefônicas para velhos amigos, e na vigésima sétima já tinha o dinheiro todo para pagar ao SBT pelo espaço de domingo, às oito da manhã, que eles nos venderam. Conversei com meu amigo, o reverendo Antônio Elias, e ele me chamou para vir sucedê-lo à frente da igreja de minha adolescência, a Igreja Betânia, em São Francisco, Niterói. Mas e o último sinal? Esse não dependia de mim, mas de Deus falar ao inconsciente coletivo. Dei duas semanas de prazo para o Espírito Santo fazer aquele comunicado. Caso contrário, eu não sairia do Amazonas. Nas duas semanas seguintes, eu ouviria uma sucessão de narrativas de sonhos, visões,


revelações, impressões e de certezas indubitáveis. — Sonhei que você estava indo do nosso meio — um disse. — Fechei os olhos para orar e vi você de mudança para o Rio — falou um outro. — Li um livro que falava de um rapaz que se converteu aos 18 anos, foi ordenado aos 21 e mudou para uma cidade grande aos 26 para expandir seu ministério. Você está com 26 anos agora, não está? — perguntou-me o pastor Alcebiades Vasconcelos, da Assembléia de Deus. Enfim, foram exatamente duas semanas de histórias assim. Treze narrativas, ao todo. Então, os comunicados cessaram de uma vez. Após aquela sucessão de coisas, Alda e eu viemos ao Rio ver onde iríamos morar. Ela desejava ficar perto da família, no Méier. Eu preferia ficar perto da igreja, do outro lado da baía de Guanabara. No fim, decidimos juntos por Niterói. Mas no processo de decisão, algo estranho aconteceu. Havia um pastor presbiteriano muito conhecido no Rio àquela altura. E quando eu morava em Manaus, sempre que vinha para as bandas do sudeste eu pregava na igreja dele, em Copacabana. Ele, o pastor, era um homem estranho. Parecia místico, mas ao mesmo tempo mostrava-se completamente cético em relação a quase tudo. Só andava vestido com aparatos religiosos, mas ao mesmo tempo era um ferrenho crítico da religião. “Eu não sei qual é a desse cara”, Alda dizia. Num daqueles dias, ele nos convidou para ir até o seu encontro para um almoço e, em seguida, para uma reunião na qual eu falaria. Tudo aconteceu conforme o previsto. Quando já estávamos saindo, ele nos levou até a porta dos fundos da igreja, que dava para uma rua lateral. Ele estava vestindo um paletó preto sobre uma camisa de colarinho clerical de tom azul-claro. Seus olhos castanho-amarelados, expostos à claridade, brilhavam de modo sedutor e penetrante. Enquanto ele falava, fixei-me no movimento do vasto bigode que ele usava. — Meu irmão, você poderia vir trabalhar aqui comigo. Você tem coisas que eu não tenho e eu tenho coisas que você não tem. Juntos, você e eu, podemos balançar esta cidade. Pense nisso e veja se quer vir se juntar a mim aqui em Copacabana — falou-me com aquela voz de sotaque diferente e tom nitidamente sacerdotal. Saí dali e fui pregar em São Paulo. Falei quatro noites na quadra da Associação Cristã de Moços. No domingo à tarde, fomos almoçar com o pastor Valter Rodrigues, organizador do evento. Após o almoço, ele me chamou num canto e disse que queria me contar um sonho que ele tivera na noite anterior e que o deixara muito angustiado. — Eu vi você e Alda em pé na frente de uma casa com cara de igreja. Falando com vocês, estava um homem moreno, de olhos claros e de bigode, que usava uma roupa preta de religioso. Ele estava com a mão no seu ombro, dizendo: “Venha trabalhar comigo. Nós podemos nos ajudar muito. Juntos nós vamos fazer coisas grandes.” Olha, irmão, no meu sonho uma voz dizia pra você ficar longe dele, pois ele está envolvido com coisas estranhas que logo virão à tona, e se você estiver perto, elas vão destruir você e seu futuro. Houve alguma coisa assim com você, ultimamente? — perguntou ele, enquanto eu não acreditava no nível de detalhamento daquela revelação. — É, houve sim. Há poucos dias — falei assustado, e contei a história toda para ele. Oramos juntos e agradecemos a Deus por ter me livrado daquela cilada espiritual. Eu e Alda retornamos e começamos a fazer as malas. Um pouco antes de sair de Manaus, vi meu amigo de outros tempos, Neto. Agora, sete anos depois de nossas aventuras, ele também havia passado por processos de conversão. Mesmo que ainda praticasse jiu-jítsu, estava inteiramente dedicado à política. Após concluir brilhantemente o curso para diplomata, havia decidido ingressar no Itamarati. Entretanto, não demorou a descobrir que o germe da política habitava seu sangue.


— Sabe quem está aí? — perguntou-me um dos membros de nossa igreja. — É o Artur Neto — respondeu sem nem me deixar perguntar quem era. Mencionei o nome dele à igreja, abracei-o à porta e nunca mais o vi. Apenas acompanhei sua carreira política à distância, como faço até hoje. Conforme se aproximava o momento da partida, nossa saudade antecipada crescia, sem cura ou remédio. Choramos seis meses nos despedindo dos amigos e partimos para o Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro de 1981. A vida em Niterói era infinitamente mais tranqüila que em Manaus, espiritualmente falando. Perto de dois grandes aeroportos, eu podia me movimentar com desenvoltura, ainda que nos primeiros seis meses eu tenha ficado mais concentrado no crescimento da minha igreja local, que, ao final daquele período, já estava pequena para o público que afluía, razão pela qual começamos a pensar em fazer três cultos por domingo: um de manhã e dois à noite. Minha ênfase, naquele período, era no aconselhamento psicoterapêutico das ovelhas. Estava lendo muitos livros sobre a alma humana e descobri um profundo e doloroso prazer em ouvir pessoas e suas dores. Quando alguém saía de um buraco escuro, eu me alegrava imensamente, mas, enquanto isso não acontecia, muitas vezes eu mergulhava junto. No segundo semestre de 1981, as viagens reiniciaram. Eu viajava duas vezes por semana. Corria o Brasil pregando em todos os lugares. Multidões reuniam-se para ouvir a mensagem. A sensação que eu tinha era a de que estávamos fazendo história de fé onde quer que fôssemos. Em meio a tudo isso, Alda ficou grávida pela quarta vez. No dia 10 de janeiro de 1983, nasceu Lukas, nosso quarto filho. Entretanto, com o seu nascimento, possivelmente associado ao excitamento de nosso estilo de vida — bem mais equilibrado do que em Manaus, mas ainda intenso demais —, Alda entrou num processo de depressão. Não conseguia sair da cama. Pendurava Lukas em seu seio e os dois dormiam de dia e de noite. Graças a Deus o menino era quietíssimo, pois do contrário Alda teria sofrido muito mais. Não é fácil precisar cuidar de uma criança quando se está vivendo em depressão. O problema foi que não somente ela experimentou aquele quadro de mergulho abissal na alma, mas eu, inexplicavelmente, sofri algo semelhante. Temor e tremor, Conceito de angústia e O desespero humano era a trilogia existencial de Sören Kierkegaard que eu estava lendo naquele início de ano. Aquele mergulho na condição existencial do ser humano que me foi induzida pelo filósofo dinamarquês puxou-me para uma região de tamanha escuridão e angústia, que eu quis morrer. Tanta foi a dor daquele encontro com os enervamentos de minha alma, que numa noite quentíssima, naquele mês de janeiro, achei que a morte estava ao meu lado. Nosso apartamento dava de frente para a praia das Flechas e de lá se tinha o que os cariocas dizem ser a melhor coisa de Niterói: a vista do Rio. Mas naquela madrugada tudo estava sem cor e beleza. Minha angústia de ser um humano assentou-se tanto, que fiquei com medo de ser puxado pelo vácuo que me seduzia para além da janela. Pulei de costa no sofá macio e marrom que havia ali e me agarrei a ele. “Jesus, eu não sei o que está acontecendo comigo. Mas seja o que for, eu repreendo em Teu nome. Se for coisa da minha alma, cura-me. Se for ataque satânico, livra-me disso agora, pois não agüento mais”, orei em agonia. Depois daquela noite, aproveitando o sentimento que me havia visitado e imaginando a quantidade enorme de cristãos que possivelmente estavam passando por coisas semelhantes, decidi publicar um livro que eu havia iniciado em Manaus, mas que havia deixado na gaveta. Enchi o livro de respostas à angústia humana e lancei-o. Viver: desespero ou esperança? foi o título que escolhi. Aquela angústia, entretanto, saiu de mim na semana seguinte. A de Alda, no entanto, prolongou-se por cerca de três meses e foi diminuindo aos poucos, até que desapareceu completamente. Refeitos de alma, começamos a correr outra vez. E a agitação foi tão grande, que


em 1982 falei durante o ano para aproximadamente meio milhão de pessoas, de norte a sul do Brasil, nos eventos onde pregava. Contudo, isso começou a me causar problemas na igreja Betânia. Uns por excesso de amor, outros por mero egoísmo de não dividir o pastor com mais ninguém, e outros ainda por razões de puro tradicionalismo — o fato é que comecei a ser pressionado a não viajar tanto. “Se me pressionarem, eu jogo tudo para o alto”, dizia a Alda. “Gosto de ser pastor de uma comunidade, mas sempre disse a eles como é que eu vivo e como as coisas seriam entre nós. Não enganei ninguém. Agora, não podem querer mudar as regras do jogo”, eu insistia. Nunca havia viajado e pregado tanto em toda a minha vida como o fiz em 1983. Foram centenas de viagens, cerca de três por semana, e mais de seiscentas pregações, quase todas diferentes, o que demandava enorme variedade de sermões e muito estudo. Além disso, houve a doença de Elisa. Filha de amigos meus, ela adoeceu aos 15 anos de idade, vítima de um câncer que provocou sua morte aos 18. Eu a acompanhei durante os três anos e sofri muito a dor de sua partida. Em razão de tudo isso, quando entramos em 1984, minha saúde começou a ficar abalada. Tive uma sucessão de arritmias que, à medida que se repetiam, ficavam cada vez mais longas. Até que tive uma tão forte, que me levou para um CTI. Passei o ano todo tendo fibrilações atriais, conforme me foi explicado, que pioraram tanto, que precisei fazer uma pesquisa profunda, a fim de que sua causa pudesse ser identificada. O estresse contribuía, mas a causa podia ser outra. Depois de uma peregrinação por muitos médicos, a origem foi diagnosticada como congênita. Eu tinha mais condutos elétricos no coração do que precisava. E agora, sob permanente tensão, aquilo se manifestara. Dava curto-circuito, o coração fibrilava, e eu me sentia como se estivesse morrendo cada vez que a coisa chegava. No meio daquele ano, o médico me disse que, se eu continuasse a viver daquele jeito, poderia morrer a qualquer momento. — Os candidatos a governo fazem isso de quatro em quatro anos e, ainda assim, só no estado onde vivem. Você parece que é candidato à presidência da República, viajando o país todo, só que com o agravante de que a campanha parece não acabar nunca — disse-me o Dr. Ivan. Os amigos me telefonavam e pediam para eu cortar alguma coisa. “Mas o quê?”, eu queria saber. Depois de muito ponderar, discutir e orar, decidi que deixaria de ser pastor local e me dedicaria exclusivamente às atividades nacionais da Vinde, pois as viagens me cansavam, mas era na igreja local que eu tinha de lidar com a beleza e a complexidade da condição humana, e como eu não tinha o tempo todo para dar, sofria imensamente por não poder dar continuidade de atendimento às pessoas. Em janeiro de 1985 eu deixei de ser pároco comunitário e disse para alguns amigos, parafraseando o pregador inglês John Wesley: “O mundo é minha única paróquia.” Naquele mesmo ano, numa ida de manhã cedo ao aeroporto do Galeão, olhei para o lado e levei um susto. Era meu amigo Pinho, aquele a quem eu havia traído 12 anos antes, ainda em Manaus, nos dias de minhas grandes loucuras. Conversamos rapidamente. A aparência dele era a mesma, mas dava a sensação de que ele ficara lá, fincado no passado, sem conseguir construir um caminho para fora daquelas lembranças da juventude. — É, bicho, tô aí. Parei de exercer a engenharia e tô aí. Só isso — disse-me ele. Abraçamo-nos e despedimo-nos. Nunca mais o vi até hoje.


Capítulo 36 “A alma manda na proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas, porque é a vontade que dá a ordem de ser uma vontade que nada mais é que ela própria. Logo, não manda plenamente, e esta é a razão por que não faz o que manda. Porque, se estivesse em sua plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria.” Santo Agostinho, Confissões

Em maio de 1984, em meio a fibrilações e muitas dúvidas sobre o caminho a seguir, eu ia entrando no escritório da Vinde, no centro de Niterói, quando vi uma senhora que conosco trabalhava em pé na fila do elevador. — Bom dia, dona Mariana — saudei-a. — O dia num tá bom não pastor — respondeu ela, fugindo à sua característica de pessoa sempre muito positiva. — Mas o que houve, dona Mariana? — quis saber de pronto. — É que tem uma nenenzinha de três meses lá pertinho de casa que está morrendo. Elazinha é linda pastor. Se eu já num tivesse criado oito, eu ia pegá elazinha pra mim. Mas num dá. Tô velha e muito cansada. Mas dói o coração. Dói mais ainda porque tem uma macumbeira lá perto que disse que cria a menina, se ela for consagrada prus espírito — esclareceu a mulher de Deus. — Não entendi. Por que elazinha tá assim, abandonada? — perguntei. — É que a mãe sumiu e o pai num quer criar. Diz que ele num sabe se é o pai. Entregaram pruma mulhé que tá criando. Mas é pobre, coitada. Sai de manhã, dá araruta pra bichinha, e só volta de noite. À tarde tem uma menina que vai lá, dá mais comida. Mas a bichinha tá morrendo — falou com lágrimas nos olhos. Subimos juntos no elevador, absolutamente calados. Ela chorava. Eu me angustiava. Eu sabia que havia crianças abandonadas por toda parte. Nós mesmos, lá na Vinde, já tínhamos um trabalho social na favela do Sabão, que Silvia e Cintia, nossas filhas-adultas do coração, tocavam com toda paixão. E eu conhecia o estado daquelas crianças de favela. Mas é diferente quando alguém vem, mostra uma criança com endereço e diz que ela está morrendo. “Ela não tem nada e já criou oito. Eu não tenho muito, mas tenho bem mais que ela, e só me arrisquei a ter meus próprios filhos”, pensei entristecido. Entrei na minha sala, ajoelhei-me, orei e levantei com uma decisão. “Se a Alda topar, a gente pega ela agora mesmo”, pensei sem avaliar que eram nove horas da manhã e que havíamos


amanhecido com três filhos e estávamos correndo o risco de, na hora do almoço, já termos um quarto, agora uma filha. Seria uma gravidez de três horas. “Mas e os outros filhos? Será que aceitarão? E Lukinhas, será que ele vai assimilar uma maninha que chegue tão de repente?”, foram questões que me visitaram com intensidade, mas que descartei de imediato. — Aldinha, tem uma menina morrendo lá no Rio. Uma macumbeira quer criá-la dedicada aos espíritos. O que você acha da gente adotá-la? — perguntei assim, de chofre. Alda e eu já havíamos falado em adoção muitas vezes. Três meses antes eu havia até mesmo dito a um casal de amigos, Dr. Benjamim e dona Nelci, para nos avisar, caso encontrassem no Hospital Evangélico alguma criança órfã. Mas jamais pensei que a coisa fosse acontecer de fato, principalmente assim, de supetão. — Se você quiser adotar, eu estou totalmente aberta — Alda falou com extrema segurança. — Então, olha, seu Manelzinho tá indo aí te pegar pra levar lá na favela onde ela está. Dona Mariana e ele passarão aí dentro de uma hora. Fica pronta — falei sem medo de que estivéssemos tomando uma decisão errada. Ao contrário, aquela era uma decisão para a qual, naquela hora, eu não sentia nenhuma necessidade de orar ou de pedir sinais a Deus. O sinal era o fato em si. Quando eles chegaram lá, encontraram uma garotinha inchada e com fortíssima dificuldade de respiração. Ela tinha uma hérnia umbilical muito grande, seu umbigo estava completamente para fora, e algumas feridas na cabeça. E a pobre menina estava enrolada numa camisa do Flamengo, se pelo menos fosse do Botafogo, já seria bem melhor. A senhora que tomava conta dela mostrou a neném e depois perguntou: — Gostou? — Olhe, minha senhora, eu quero essa criança pra mim. Mas eu só vou levar se a senhora me disser que ela vai ser minha pra sempre. Eu vou amá-la como amo os filhos que saíram de mim. O futuro deles será o dela. O que eles tiverem, ela também terá. Mas não tem volta. A senhora tem certeza que a mãe e o pai não a querem? — perguntou Alda nervosa. — A mãe sumiu. O pai disse pra eu nem dizê pra ele o que aconteceu. Então pode levá. Se ficá aqui, morre — ela respondeu em cima da bucha. — Meu marido é uma pessoa fácil de ser identificada, mas a senhora vai me prometer que nunca vai tentar ir atrás de nós. Certo? — insistiu Alda. — Pode levá, minha senhora. Esta criança precisa de um lar e nós não temos condições de cuidar dela — falou. Silvia e Cintia eram duas jovens que Alda e eu havíamos conhecido em São Paulo, em 1979, quando ainda eram adolescentes. Com a nossa mudança para o Rio, elas vieram trabalhar no projeto social da Vinde na favela. Como nosso amor por elas era muito forte e os cuidados que lhes dispensávamos eram paternais, elas acabaram nos chamando de “papai e mamãe”, ainda que muita gente achasse aquilo sem cabimento. Nós e elas, contudo, não dávamos a menor importância. — Papai, você não vem conhecer sua filha caçula — Silvia brincou comigo ao telefone, mas somente às quatro da tarde consegui correr para casa para ver o bebê. O estado físico da criança era dramático. Ciro e Davi vibraram com a chegada de Juliana, como a chamamos. Lukas, entretanto, com seus dois aninhos, ficou morto de ciúmes. Ela chegou e levou o quarto e o bercinho dele, que foram pintados de rosa. Além disso, tomou-lhe o privilégio de ser o caçula da família. Três dias depois de estar conosco, Juliana começou a morrer. A respiração foi cessando e o quadro se agravou. Nós a internamos com urgência. — É bronquiolite aguda — decretou Ângelo, nosso médico e amigo.


Durante dez dias ela ficou entre a vida e a morte. Alda esteve os dez dias ao pé de sua cama. Silvia e Cintia também se revezavam durante a noite, enquanto eu cuidava dos três meninos. Enfim, nossa princesa sobreviveu. Demos graças a Deus e entendemos que havia um lindo propósito divino na existência dela. Lukinhas, entretanto, começou a aprontar tudo que podia. Pegava os peixinhos vermelhos do aquário, jogava no vaso sanitário e fazia caquinha em cima dos bichinhos. Às vezes os deixava lá, atolados naqueles icebergs marrons, outras vezes, dava a descarga. Apanhava o coelhinho dele, colocava dentro da geladeira e depois perguntava: “Cadê o coelhinho?”, até que alguém o encontrasse quase morto de frio. Uma vez Alda o viu entrando pela casa com um gatinho recém-nascido todo enfiado na boca. Freqüentemente ele pulava de cima de lugares altos, quebrava a cabeça, o queixo, rasgava-se todo. Até desaparecer de casa por quase duas horas ele conseguiu, deixando Alda desarvorada de angústia. Tudo aquilo tinha a ver com a chegada súbita de Juju, e nós sabíamos disso. Assim, investimos tempo nele e nos concentramos na intenção de demonstrar o compromisso de nosso amor para com ele. Eu mesmo, como demonstração disso, cancelei 50% de minha agenda de 1985 para dar atenção a Luke-Luke, como o chamava. Aproveitei a necessidade que estava tendo de ficar mais na cidade em função de meu filho e parti para tentar organizar a Vinde como instituição. Até o ano anterior, como eu dividia meu tempo com a igreja, não me havia sobrado uma folga para me concentrar efetivamente na intenção de fazer a Vinde crescer. Agora, entretanto, chegara a hora. Sabendo que eu estava procurando gente para trabalhar conosco, muitos se apresentaram como voluntários ou como pessoas que me garantiam já ter seu próprio sustento e que queriam apenas trabalhar ao meu lado. Poucas vezes me arrependi tanto na vida. A maioria dos voluntários eram pessoas loucas, desequilibradas, escondidas atrás da religião para disfarçar sua doença de piedade e justificar suas esquisitices com o álibi de que eram guiadas pelo Espírito Santo, daí serem tão imprevisíveis e estranhas. Agüentei aquilo uns dois anos e então dispensei aquele tipo de ajuda para sempre. No início de 1986, voltei a viajar com mais intensidade. O problema é que, como eu já era bastante conhecido no meio evangélico, acabei me tornando peru de festa cristã. Não parava de correr, mas meu universo foi se tornando cada vez mais “religioso”. Falava para pastores e líderes umas cem vezes por ano e pregava em igrejas ou cidades, mas sempre com maioria evangélica nos eventos. Em 1988 eu estava muito frustrado. De ponta a ponta do Brasil meu nome era conhecido, fosse pelos livros cristãos que escrevia em grande quantidade e que eram muito lidos, fosse pelo fato de que minha presença era obrigatória em qualquer coisa de peso que fosse acontecer no meio evangélico. Eu, entretanto, sentia saudade da vida de aventuras e desafios que vivera no início de meu ministério no Amazonas, pois, sem querer e de modo imperceptível, a igreja havia me domesticado. Eu corria muito, mas era uma movimentação entre os mesmos e sempre para dentro das paredes da instituição. — Você é uma unanimidade nacional — diziam-me dezenas de pessoas. — Você não pode comprar idéias e causas controvertidas — diziam-me outros. — Você tem que ser o grande conciliador evangélico do Brasil — afirmavam, com claras intenções de me transformar em ponte política, alguns outros. Minha dor, contudo, tinha a ver com o fato de que eu não crera no evangelho por causa de nenhuma promessa de estabilidade, mas justamente em razão de seu apelo livre e revolucionário. Essas idéias todas estavam dentro de mim e eu ainda as ensinava. Na prática, entretanto, tornara-me animal de estimação da Igreja Evangélica Brasileira. E naquela condição, eu não estava disposto a viver e muito menos morrer.


O único chão onde me dava prazer viver era naquele lugar em que se anda sobre algo real e sólido, porém de onde se pode ver o perigo. E era para longe desse chão, que existe apenas na beira do caos, que sutilmente eu tinha sido levado. E distante dali, o único prazer que me fora deixado era o de ensinar que esse lugar existe. Entretanto, o sentimento de afastamento de sua fronteira me frustrava e me adoecia. Assim, apesar de tanto sucesso religioso, eu andava triste.


Capítulo 37 “Não houve, pois, tempo algum em que nada fizeste, pois o próprio tempo é obra Tua. E nenhum tempo Te pode ser coeterno, porque és imutável; se o tempo também o fosse, não seria tempo.” Santo Agostinho, Confissões

Eu estava recebendo centenas de convite por ano para viajar. Saía de manhã e voltava à noite. Muitas vezes os filhos nem ficavam sabendo que durante o dia eu tinha ido a Belém do Pará e voltado ainda a tempo de colocá-los na cama. E assim o ritmo se acelerava, inclusive com viagens freqüentes para outros países. Convites para ser paraninfo de turmas de seminário e para dar aulas de abertura em cursos teológicos amontoavam-se na mesa de minha secretária. Mas alguma coisa em mim se sentia profundamente desconfortável com tudo aquilo. A sensação que me dava era que o melhor de minha vida ficara no meio da floresta. No Rio de Janeiro, eu me tornara filosoficamente mais profundo, mais equilibrado, mais politizado, mais crítico e mais refinado. E era só. Mas isso apenas me colocava na vitrine da igreja, não no campo minado de batalhas pelas quais vale a pena viver e morrer. Eu me sentia como um ser desenhado para existir entre a estabilidade e o caos. No chão do estável eu me angustiava, com medo de perder a criatividade. Na beirada do caos eu me continha, temendo uma ação de natureza suicida. Mas se eu tivesse de escolher entre um dos dois cenários, sem dúvida eu diria que preferiria a proximidade criativa e lúcida do caos que a necrosante estabilidade dos terrenos planos e estáveis. Eu estava daquele jeito não por falta do que fazer. Projetos sempre havia. Tinha criado uma editora para publicar meus livros e estávamos lançando um curso pioneiro, o VindeSat, por meio do qual instalaríamos centenas de antenas parabólicas nos telhados das igrejas e passaríamos a transmitir uma aula semanal de duas horas de duração, ao vivo, e com direito a interatividade, via telefone. — Alda, não dá pra gente continuar aqui do jeito que as coisas estão. Sinto que estou desperdiçando minha vida. Se for pra viver assim, é melhor voltar pra Manaus — falei com angústia no peito. — Acho que a gente tem de sair do Brasil por um tempo. Vamos estudar nos Estados Unidos. Eu preciso ficar fluente em inglês a ponto de poder pregar na língua — disse decidido, como quem já ia sair dali para comprar passagens de avião e visitar os possíveis lugares de pouso para nossa família. Naquela época, eu já podia pensar em fazer isso sem susto, pois desde janeiro do ano anterior eu havia conseguido reunir um time base de assistentes que me dava a certeza de que poderia ir e voltar sem que tudo estivesse arruinado.


Henrique Ziller era o diretor executivo. Sério, coerente e comprometido, ele me passava a idéia de continuidade e honestidade. Tissiani Cavalcante era o homem do marketing. E Cristina Christiano a mais dedicada secretária que eu já tivera e que poucos poderiam almejar ter igual. Além disso, eu tinha três amigos que estavam dispostos a financiar parte dos meus estudos e pagar as despesas da folha de pagamento dos vinte funcionários que tínhamos na época, os custos de satélite e a conta da televisão, visto que as demais atividades eram auto-sustentáveis. Daniel Vera e Alípio Gusmão eram empresários bem-sucedidos. Baltazar, o artilheiro de Deus, não era rico, mas extremamente generoso, e também fazia parte daquele trio que criou as possibilidades que me puseram fora do país. Avaliando as circunstâncias, Alda e eu decidimos que não haveria outra chance melhor para realizarmos aquele projeto. Assim, depois de visitar amigos em diversos estados americanos, escolhemos a cidade de Claremont, na Califórnia. Nos primeiros quatro meses não fiz outra coisa a não ser estudar inglês 17 horas por dia. Nos fins de semana gravava meus programas de televisão, as aulas do curso via satélite, escrevia os artigos de jornais e revistas cristãos e fazia outras pequenas coisas. Ao término do curso de inglês, decidimos ficar pelo menos mais dois anos, mantendo tudo no Brasil do jeito que estávamos fazendo, sendo que eu voltaria a cada cinco meses. Deu certo. A vida na América era confortável, porém tediosa. No Fuller Theological Seminary, em Pasadena, o ambiente acadêmico era intelectualmente sofisticado, mas muito lento para o meu gosto. Os cursos que fiz não me motivavam o suficiente para me manter com a adrenalina no nível ideal. Estava sempre querendo mais excitment. O que quebrava a mesmice do ambiente supercontrolado da vida em Claremont eram os terremotos que aconteciam de vez em quando para a suprema excitação das crianças e para embalar as conversas na vizinhança. A falta de mais desafio foi o que me levou a decidir fazer um curso paralelo, autodidata, sobre a obra do filósofo, mestre em direito romano e história, o francês Jaques Ellul. Eram 45 livros grossos e densos. Mergulhei neles e nos seus mais diversos temas. Eram trabalhos sobre urbanidade, ideologia, sociologia, política, dinheiro, modernidade, tecnologia, angústia, perversão do cristianismo e um leque imenso de outros atrativos. Ellul encheu minha vida naquele período. Enquanto isso, os quatro filhos, perfeitamente integrados na escola e se sentindo confortáveis na língua inglesa, já não queriam mais voltar. Alda, como sempre, dizia que queria fazer a vontade de Deus. Eu, mesmo que dividido por causa das crianças, estava começando a ficar desesperado para retornar. Minha decisão, entretanto, era a de que, se voltássemos, não seria mais para ser patinador de elite na arena da Igreja Evangélica. Caso contrário, era melhor ficar lá e fazer uma carreira como conferencista internacional. Convites do mundo todo é que não me faltavam. Cheguei a receber mais de cinqüenta convites de diferentes países naquele período. Aceitei apenas cinco, sendo um deles para a antiga União Soviética. Os dias que passei pregando em Moscou acentuaram meu desejo de fazer algo realmente importante no Brasil. Lá, tive a oportunidade de constatar, como anos e anos de doutrinação ideológica não tiveram o poder de realizar nada dramaticamente significativo nas vidas das pessoas. E eu me sentia exatamente envolto pelas mesmas teias ideológicas que lá não haviam gerado nada, além de paralisia econômica e social. — Se a gente voltar, eu quero fazer algo forte na área social. Não agüento mais ver tanta miséria, enquanto ficamos filosofando sobre mudanças políticas e reestruturação do sistema. Uma coisa eu sei: político eu jamais serei. O que eu quero é integrar a fé aos temas de natureza social. Sem teologia da libertação — eu já vinha dizendo há algum tempo a Lácio Pontes e Antonio Carlos Barros, meus melhores amigos naquele período americano.


A tentação quanto a não voltar tinha a ver com o fato de que alguns amigos prudentes me diziam que se eu pusesse minha base na América, teria todas as condições de me tornar um dos dez cristãos neste século a falar para mais gente no mundo inteiro. Afinal, no fim de 1989, cerca de sete milhões de pessoas já tinham vindo participar das pregações que eu fazia em estádios, praças e outros lugares públicos. De acordo com o raciocínio daqueles amigos, se apenas no Brasil eu já tinha alcançado aquele sucesso, o que não aconteceria se eu me atirasse ao mundo todo? Alguma coisa, entretanto, deep inside, dizia-me que aquele não era o caminho de Deus para mim. De fato, preferia alcançar menos gente, mas ser capaz de “fazer diferença” nas vidas de tais pessoas, do que ser mundialmente conhecido no meio cristão, mas não afetar dramaticamente a vida de ninguém. — Reverendo, tem uns negócios esquisitos acontecendo por aqui — dizia-me Cristina Christiano. — Tem um tal de Edir Macedo botando pra quebrar. O senhor precisa ver. Não sei, não. Acho que a coisa ainda acaba mal — ela me falou mais de uma vez, para depois me dizer que havia mandado uns recortes de jornal para eu saber o que era. Em março de 1990, entretanto, o recém-eleito presidente Collor de Mello determinou, pessoalmente, a minha volta ao Brasil. Confiscando a poupança de todos, deixou a Vinde em estado crítico. — Ou você volta, ou a gente quebra — disse-me Tissiani, aflito, ao telefone. Fizemos as malas e retornamos.


P ARTE III

Confissões de Desespero e Esperança


Capítulo 38 “Falo em memória e sei do que falo; mas de onde o sei, senão da própria memória? Acaso também ela está presente a si própria por meio de sua imagem, e não por si mesma?” Santo Agostinho, Confissões

Para mim, até aquele momento, o Rio de Janeiro era apenas a cidade do outro lado da baía de Guanabara, onde eu pegava os aviões e para onde eu ia obrigado. Os traumas da adolescência fizeram o lugar tornar-se para mim a Cidade Tenebrosa. “Eu não quero criar meus filhos no Rio de jeito nenhum”, dizia repetidas vezes, sempre que alguém perguntava por que eu morava em Niterói. Mas havia algo mais profundo que os meus traumas da infância para me afastar da cidade de São Sebastião. Eram alguns cristãos evangélicos do Rio. Em 1981, quando cheguei de Manaus, tive vontade de me enturmar com os líderes evangélicos da cidade. E foi fácil. Conheci muita gente boa e choveram convites de todas as igrejas, tanto das chamadas históricas, como das pentecostais e, sobretudo, das independentes, para pregações e conferências. O problema é que eu vinha de uma experiência de fé muito singela e calcada em valores bíblicos tidos como inegociáveis. Mas quando comecei a conhecer alguns líderes do Rio, percebi que não era em todos que havia o mesmo espírito que meu pai me ensinara, conforme a Bíblia. — Dinheiro pra ajudar seu programa de televisão? Claro que dou. Mas você tem que me dar um recibo com o valor três vezes maior. Topa, irmão? — perguntou-me um grande empresário local, famoso por sua caridade cristã dedutível no imposto de renda. — De um outro líder a gente nunca fala nada. Nunca. Ele pode estar completamente errado. Se levantar a voz, a gente se queima e eles continuam intocáveis — ensinou-me outro cacique, tentando conter uma opinião que eu emitira sobre a conduta pública de uma certa celebridade evangélica. — Ele é um homem de caráter ruim, mas é um excelente comunicador da mensagem. Então a gente deixa ele ir. Se fosse ruim de fala, é claro, já tinha sido tirado de ação — informou-me um executivo de uma instituição religiosa, para minha perplexidade. Além disso, no mesmo período, comecei também a ver quão estreito era o atrelamento que havia, especialmente no Rio, entre certos pastores e o regime militar. Alguns dos figurões evangélicos locais se orgulhavam de ser amigos de generais e ditadores. “Se fosse para evangelizá-los, que deles se aproximassem — eu pensava —, tudo bem.” Mas não. Era, sobretudo, para estar perto do poder que os salvara da ameaça comunista ou lhes garantia alguns


favores especiais, símbolo de importância e legitimidade religiosa. Enfim, foi por tudo isso que de 1981 a 1990 eu rodava o Brasil todo pregando em praças, estádios, ginásios de esportes, escolas, universidades e falando para pastores, exceto no Rio de Janeiro. “O quê? Convite? Do Rio, não! Pode responder que não dá”, eu dizia sistematicamente à minha secretária até 1988, quando fui estudar nos Estados Unidos. Mas depois de quase dois anos na América do Norte, voltei decidido a plantar uma base forte de ações na capital cultural do Brasil. Além disso, estava certo de que aquela experiência de dez anos antes fora ruim porque eu ainda era muito inexperiente, daí o meu excesso de pudor e pouco jogo de cintura. Os planos que eu trazia comigo eram três, todos bem objetivos: 1. Incrementar as ações da Vinde e fazê-la crescer para ser a maior organização paraeclesiástica e não-governamental do país, no meio evangélico. Sobretudo, queria transformá-la em uma grande geradora de informação entre os cristãos do Brasil. 2. Usar o capital relacional que eu tinha desenvolvido em toda a nação para promover a criação de uma entidade que representasse os evangélicos preocupados com a ética e, se possível, envolver o máximo possível de líderes e igrejas, tentando ser maioria. 3. Envolver-me o máximo possível com iniciativas de natureza social e assim demonstrar a séria preocupação dos cristãos com a coletividade. O primeiro objetivo foi fácil de alcançar. Precisei apenas começar a investir pesado e estrategicamente em televisão, rádio, muito mailing e eventos. O segundo objetivo também não foi difícil de atingir no que dizia respeito à deflagração do processo. Devia ser uma ação muito mais sutil, mas foi implementada com rapidez. Assim, no dia 17 de maio de 1991 a Associação Evangélica Brasileira foi criada em São Paulo, com a presença de representantes dos setenta principais grupos evangélicos nacionais, e eu fui eleito seu primeiro presidente. Atingir o terceiro objetivo, entretanto, era muito mais difícil. A razão era simples: o imenso preconceito da mídia e dos formadores de opinião pública quanto a quem eram os evangélicos, pois o estereótipo relacionado aos pastores nos colocava a todos no plano dos aproveitadores, picaretas, estelionatários, fanáticos, alienados, truculentos, intolerantes e oportunistas. Entre 1990 e 1991 era difícil você se apresentar como pastor. A sensação que dava era a de que a categoria estava em pé de igualdade com bicheiros, traficantes e os piores políticos e policiais. E quanto mais próximo da classe média se andasse, mais forte era o clima de rejeição que se experimentava. Não havia apedrejamento, nem qualquer violência, como houve quando da chegada protestante ao Brasil. Entretanto, levei muita pedrada de olhares e sofri muito enforcamento psicológico em lugares sofisticados. Nunca botei a culpa daquilo no diabo ou em qualquer tipo de conspiração católica contra nós. Desde cedo percebi que nosso problema tinha a ver, sobretudo, com as coisas erradas que alguns ditos evangélicos faziam e que se tornavam a referência a partir da qual todo o grupo era julgado. E a única forma possível de enfrentar a situação exigia uma ação com duas faces: alguém ou alguns teriam de correr o risco de denunciar aquele modelo pseudo-evangélico e, ao mesmo tempo, perder a discrição e deixar a sociedade ver as coisas boas que os evangélicos faziam. Mas como eu na prática não sabia o modo de iniciar aquela guerrilha de redenção da nossa imagem, resolvi apenas orar e pedir que Deus levantasse alguém para fazer aquilo. Conheci Rubem César Fernandes em 1970 quando o vi sentado na sala da casa de seus pais, na estrada Froes, em Niterói. Os pais de Rubem freqüentavam a mesma igreja que os meus e eram muito amigos. Eu apenas ouvia falar do “filho de dona Idalete” que estava fora do país


fugido dos militares, acusado de ser comunista. Naqueles dias, ele era o herói revolucionário da garotada de nossa igreja. Rubem tinha voltado da Polônia e estava no Brasil discretamente, apenas por alguns dias. Daí aquela reunião de fim de tarde com o nosso mito. Estavam todos ali, capitaneados por Lucilia Elias, filha do pastor, ouvindo embevecidos os relatos daquele moço moreno, de cabelos longos penteados para trás, que davam a ele uma pinta de apache urbanizado. Fiquei sentado, ouvindo-o em silêncio. Contentei-me, ao fim da reunião, em apertar-lhe a mão, enquanto me recolhia à minha total alienação política. Em 1982 Rubem já estava de volta ao Brasil há sete anos e começou a me procurar para conversarmos sobre religião, antropologicamente falando, é claro. Daquelas conversas de natureza investigativa, nasceu uma amizade que se remontava aos vínculos fortes entre os nossos pais, mas que também encontrava raízes no presente, na crescente afinidade de nossas almas. — O Rubem se diz ateu, mas é emocionalmente crente — eu dizia a muitos evangélicos que perguntavam como eu me relacionava tão bem com um ateu confesso. O fato é que eu via nele muito mais cristianismo do que em alguns líderes de igreja, que às vezes se mostravam pessoas ruins de coração. Foi aquele antropólogo de berço presbiteriano quem começou a me dar umas dicas de como furar aquele bloqueio de preconceito contra os evangélicos. — Você tem que levantar a bandeira da ética e associar isso a questões de hoje. Senão vira moralismo, e tá todo mundo de saco cheio disso — ele me falou ainda em 1990. O problema é que o nosso telhado era de vidro. “Como é que a gente vai falar de ética, se todo mundo pensa que nossa postura ética é aquela representada pela imagem pública do Edir Macedo?”, perguntei a mim mesmo inúmeras vezes. — Cristina, acha o telefone do Edir Macedo e diz que eu quero conhecê-lo — pedi à minha secretária. O problema é que Macedo não queria nem ver evangélico. Tendo saído da Igreja de Nova Vida — denominação criada pelo missionário canadense Roberto MacLister —, Edir tinha criado a Igreja Universal do Reino de Deus — IURD, que era uma espécie de síntese entre várias químicas religiosas. Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!), que eram genuinamente evangélicos; combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça, sem sacrifício, e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia, com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares, tais como sal grosso, ramo de arruda, óleo sagrado, caminhos físicos pavimentados com sal, que abençoam aqueles que por eles caminham, e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos, que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia. Todas essas coisas eram consideradas por eles como pontos de contato entre a pregação da Universal e a necessidade mística dos brasileiros. Do ponto de vista meramente marketeiro, era fantástico, mas visto sob o ponto de vista dos conteúdos da fé evangélica, era um escândalo de promiscuidade doutrinária. E para aumentar a hostilidade de Macedo com os evangélicos, houve ainda dois episódios. Conta-se que quando da inauguração da TV Rio, o pastor Nilson Fanini, um dos maiores nomes dos batistas no Brasil e no mundo, pediu a ajuda do então já controvertidíssimo Macedo, a fim de encher o Maracanã para uma festa da emissora. Edir teria dito que iria, mas sob a condição de que ele pudesse dar uma rosa ungida para cada pessoa e também dizer uma palavra no evento. O Maracanã ficou quase totalmente lotado com o povo da Universal. Todos falaram durante a programação, menos Macedo. Ao fim de tudo, o locutor anunciou que o culto estava encerrado e que, dali para frente, eles “não assumiriam mais nenhuma responsabilidade pelo que acontecesse”.


— Com a palavra o bispo Edir Macedo — teria, então, dito o apresentador. Macedo tomou a palavra e disse que estava muito triste. Esculachou todo mundo e pediu ao povo que o ajudasse a expulsar os demônios dali. — Xô, xô, xô, sai daqui, sai, Satanás — era mais ou menos o cântico que os milhares de universais, comandados por seu líder, entoaram no estádio. E não pararam de cantar até que todos os convidados de Fanini tivessem se retirado da plataforma. Quando saiu o último deles, o povo explodiu em delírio. O Maracanã estava exorcizado, conforme a visão de Edir. Injuriado com a humilhação sofrida no Maracanã e zangado com a briga entre a Universal e a umbanda, que estava acirradíssima naqueles dias, o pastor Nilson Fanini convocou a imprensa para dar uma declaração sobre aquela guerra religiosa. Os jornais declararam que Evangélicos dão apoio à umbanda contra a Igreja Universal. Foi um escândalo. Mesmo o evangélico mais ferreamente contrário a Macedo jamais admitiria que para os evangélicos aquilo pudesse ser verdade. “Macedo, não! Umbanda, nunca!”, era o que se ouvia em muitos círculos. Naquele período que antecedeu meu primeiro encontro com Macedo, estive falando em Brasília num grande encontro carismático. — Cê vai encontrar com o Macedo? — perguntou-me Robson Rodovalho, líder do encontro. — Eu e o César estivemos lá com ele. O cara é meio louco. Ele disse pra gente que, por Jesus, ele faz qualquer coisa: dá cheque sem fundo, emite duplicata fria, enfim, qualquer coisa, até gol de mão. A gente saiu de lá escandalizado. — Eu preciso saber quem é ele, e não pode ser por terceiros. Vou lá sim! Quero senti-lo — argumentei. Minha secretária me informou que ele iria me receber ainda em abril, portanto, alguns dias antes da criação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Fiquei preocupado que alguém pensasse que eu estava indo vê-lo em busca de apoio para a formação da AEVB. O encontro seria no escritório de Edir, na recém-adquirida TV Record, agora de propriedade da Igreja Universal, dirigida por Macedo. Esperei 15 minutos e fui recebido numa ampla sala, com tapetes cheirando a novo e os móveis ainda com o odor do plástico que os embrulhara até bem pouco. A mobília era cara, e embora o lugar não fosse de extremo bom gosto, também não era brega. Para um gabinete de bispo, contudo, o ambiente era excelente e longe dos padrões escuros da religiosidade. Uma senhora de uns sessenta anos estava passando pano nos móveis. Quando o bispo entrou, ela olhou para ele como se São Pedro tivesse irrompido porta adentro. — Posso continuar a limpar os móveis, bispo? — ela indagou reverente. Ele deu com a mão, dizendo que ela podia sair. Em seguida, entretanto, falou com voz de anjo. — Vai, minha filha! Pode ir, minha filha! E a velhinha foi, como se instruída por um profeta da Bíblia. — Você deve estar pensando o que eu estou fazendo aqui, não é? — perguntei. — É que eu tenho ouvido falar de você pela mídia e vim conferir. — Pela mídia? Então você só deve ter ouvido coisas ruins. Pra mídia eu sou ladrão! — interrompeu ele. — O que me impressiona não é o que a mídia diz, mas o que você faz para só aparecer negativamente — afirmei. — Mas eu não quero pensar que sei quem você é pelo que a mídia diz. Eu quero conhecer você — disse. — Dá pra você me dizer como você chegou a se converter e se tornar evangélico? — Eu não sei se eu quero ser visto como evangélico. Eu prefiro ser visto como outra coisa. Fiquei muitos anos com os evangélicos e só perdi tempo — ele iniciou num tom rabugento,


amargurado, quase agressivo. — Os evangélicos são todos como aquele tal de Fanini. Que cara ignorante! Foi dizer que preferia a Umbanda a mim. Com gente como ele eu não quero nada — confessou ressentidíssimo. — Francamente, eu entendo o seu ressentimento. Mas me fale de sua conversão? — insisti. — Eu vim da bruxaria e me converti na Igreja de Nova Vida. Fiquei muito tempo lá. Depois, a Nova Vida perdeu a visão. Virou quase uma Igreja Católica, fria, sem briga, sem vontade de crescer. Então procurei os líderes de lá e falei que estava saindo. “Vocês ainda vão ouvir falar de mim”, foi o que eu disse pra eles. Aí comecei o meu trabalho e cresci. Não sou uma igreja. Sou uma cruzada, um movimento de guerra contra o diabo. Mas não me dou bem com os evangélicos. Só me perseguem. Não me entendem — desabafou. Depois dele, foi minha vez. Contei como me tornara um cristão e quais eram os meus compromissos de vida. — Mas por que você faz coisas tão estranhas? E por que tanto misticismo e tanta ênfase em coisas controvertidas? — perguntei a Macedo. — Olha, cada um pesca com o que tem e como sabe. Você pesca com camarão. Fala bem, é preparado e ganha gente preparada. Outro pesca com pão. Outro com minhoca. E tem peixe que só gosta de minhoca. E tem outros que pescam como eu, com fezes. Tem gente que só gosta do que eu ofereço. O povo que eu quero não vai te ouvir. É gente que ninguém quer. Eu quero. É o pessoal que eu consigo pescar do meu jeito, com as coisas que eu ofereço — ele falou quase como se estivesse filosofando sobre algo absolutamente novo. — Mas você não acha que dizendo que cada um dá o que tem e o que as pessoas querem, você está dizendo que o evangelho não tem conteúdo? E que a gente pode adulterar a mensagem como quiser pra atender aos gostos deste mundo? É isso que você tá dizendo? — indaguei sem querer ser rude, mas achando crucial a resposta dele. Afinal, era a primeira vez que eu ouvia um líder religioso ocidental confessar com sinceridade e honestidade que os fins justificavam os meios. Muitos agiam segundo a mesma filosofia, mas maquiavam muito bem suas ações. Macedo, entretanto, era honesto em suas convicções e não tentava me iludir a respeito. — Eu não tenho paciência pra filosofia. Aqui a gente não tá querendo pensar muito nessas coisas. A Nova Vida parou porque ficou com essas perguntas todas. O negócio é ganhar gente. Também não gosto desse negócio de Escola Bíblica Dominical e nem de seminário. Teologia tira a garra do obreiro. Eu não tenho essas coisas na Universal — declarou e já foi logo pegando o telefone e dizendo que “o pessoal” poderia entrar. — Eu queria que vocês conhecessem o Caio Fábio — disse para Renato Suhett, Didini e Gonçalves, que acabavam de entrar. Conversamos generalidades por mais uns trinta minutos. — Olha, no dia 17 de maio nós vamos estar criando uma associação de igrejas evangélicas. Por que vocês não mandam um observador pra ver como é? — disse. — Eu já pensei em fazer uma coisa dessas pra mim. Depois desisti. Com evangélico não dá, é tudo muito difícil. Só quero é que me deixem em paz — ele falou já me estendendo a mão para a despedida. — Como foi o encontro? — foi a pergunta que eu ouvi de todo mundo, a começar por minha esposa. — O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo. É sincero e é perigoso porque há um sentimento messiânico nele. Ele não é um picareta em busca de dinheiro. Acha que dinheiro é parte essencial da vida espiritual, e que Deus dá valor muito especial ao dinheiro como elemento de sacrifício para a aquisição de bênçãos, mas não quer dinheiro por dinheiro. O que ele quer é o poder que o dinheiro dá. Eu estou impressionado com o homem. Não sei o que pensar dele além disso —


afirmei com excitação e perplexidade, certo de que jamais havia encontrado ninguém como Macedo. No dia 17 de maio estávamos reunidos no Centro do Professorado Paulista, criando a AEVB. — Estão aí fora dois pastores da Universal dizendo que você mandou eles virem — falou-me um dos introdutores do evento. Eram Laprovita Vieira e Didini que lá estavam. — O bispo mandou a gente aqui pra entrar pra Associação e pra gente dizer lá na frente que toda a estrutura da Universal é de vocês. Mas eu tenho que falar isso agora, no microfone — informou-me Laprovita, o presidente legal da Igreja Universal. Expliquei que estava honrado com a presença deles, mas que não podia interromper a ordem das coisas. — Não existe ainda a AEVB. Estamos criando. Como é que eu posso dar a palavra a vocês, se nós ainda estamos votando os estatutos? Fiquem e participem. Quem sabe à tarde já dá pra vocês falarem alguma coisa? — afirmei. O problema é que a mera menção da presença deles lá já havia alterado os ânimos de muitos. Pedi a Deus que nos iluminasse no caso deles virem à tarde, pois naquele contexto, se eles falassem alguma coisa, seria um desastre. Nesse caso, como quase toda boa “associação” de evangélicos, a AEVB já nasceria dividida. Eles não voltaram à tarde, mas também não se ofenderam. O problema foram as entrevistas à imprensa de São Paulo que eu tive que conceder naquela mesma tarde, já como presidente eleito. Quase todas as perguntas tinham a ver com Macedo. — A AEVB vai regular o levantamento de dinheiro nas seitas evangélicas? — perguntaram sem saber que nos ofendiam duplamente, primeiro nos chamando de seitas e depois pela ignorância de pensar que no meio evangélico as coisas pudessem ser normatizadas, “reguladas”. — O bispo Macedo vai poder entrar na entidade? — outros indagaram. — É verdade que o senhor já iniciou conversações a fim de obter o apoio da TV Record? — perguntaram ainda. — Não estamos criando esta entidade para nenhum dos fins apresentados por vocês. Também não é para lutarmos contra o Macedo e nem para nos aliarmos a ele. Nós estamos criando a AEVB para termos uma referência ética para os evangélicos. Chega de tanto escândalo feito em nosso nome — afirmei. — Mas se é pra combater escândalos, então vocês vão ter que enfrentar o Edir Macedo! — provocou-me uma repórter. — Olha, eu não tenho nada a declarar sobre Macedo e a igreja dele. Nem bom, nem mau. Estou tentando conhecê-los — disse com contundência. Os meses seguintes foram de articulação político-eclesiástica para fortalecer a AEVB. Tive dezenas de encontros e expliquei nossos objetivos para líderes de igrejas em inúmeras ocasiões. — Veja se você me arranja um encontro com dom Luciano Mendes — pedi à minha secretária. — Ele disse que vem aqui no escritório e que o senhor não precisa mandar buscá-lo — respondeu-me Cristina sobre o encontro já marcado com o presidente da CNBB. Admirou-me imensamente ver dom Luciano entrando no meu escritório absolutamente sozinho e mostrando total abertura de mente e incrível simplicidade em sua atitude. Fiquei perplexo olhando para ele e imaginando se algum líder evangélico que eu conhecia, estando na posição dele, exporia a si mesmo daquele modo, indo a um território desconhecido com tamanha tranqüilidade e boa vontade. À minha mente vieram apenas uns poucos nomes de gente que agiria daquela forma no meio da liderança evangélica. Por isto, concluí que havia algo estranho com a espiritualidade de nossos líderes, visto que, entre nós, quanto mais influente uma pessoa


se tornava mais parecida com um chefe de Estado ela se mostrava, na maioria das vezes mediante acessos de importância pessoal completamente desproporcionais à realidade do que sua vida e posição representavam, às vezes exagerando, inclusive, na segurança pessoal. Expus a dom Luciano os objetivos da AEVB. Disse também que não tínhamos nenhuma intenção de promover qualquer tipo de ação ecumênica em relação à Igreja Católica, mas que gostaríamos de estabelecer uma relação cristã de diálogo, especialmente em questões de natureza social e de cidadania, onde pudéssemos trabalhar juntos para o bem do Brasil. Dom Luciano me ouviu, agradeceu o convite para o encontro, desejou-me felicidades, falou um pouco sobre sua postura de abertura para o diálogo e partiu quarenta e cinco minutos depois. — Este homem me deixou pensando sobre os pressupostos da espiritualidade de muitos de nós, líderes evangélicos. Os católicos têm um papa, mas os evangélicos têm centenas de papas e candidatos a papa. Dom Luciano, entretanto, é maior que o papa em sua simplicidade e maior que a maioria de nós, seduzidos pelo sonho de sermos papas ao nosso próprio modo, incapazes de nos entregarmos a uma vida mais simples — disse aos líderes da AEVB numa reunião em São Paulo, relatando meu primeiro encontro com o então presidente da CNBB. No dia 22 de novembro de 1991, em Brasília, capital da República, eu estava sentado ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, tomando café da manhã no hotel Nacional. Conversei cerca de uma hora com Collor, enquanto passávamos manteiga em torradinhas e ouvíamos cantores evangélicos se exibirem para o presidente da República. Em seguida, preguei uma mensagem sobre a reconstrução de nações em caos, baseado no salmo 126. Collor ficou me olhando com extrema atenção. Depois me disse que havia ficado impressionado com a mensagem. — Quando estiver em Brasília, visite-me, reverendo! — disse ele. Terminado o encontro, Laprovita Vieira, também presente ao evento, me procurou. — Olha, precisamos unir forças. Você tem coisas que não temos, e nós temos coisas que você não tem — ele me disse, enquanto dava uma meia rodada sobre o calcanhar e causava em mim uma dupla sensação de tontura: pelo movimento brusco e, sobretudo, por proferir as mesmas palavras que eu ouvira em 1981, quando Deus me salvara de ir trabalhar com aquele pastor de Copacabana. — A Rede Record está às ordens. Temos que nos unir! — repetiu. Voltei ao Rio pensando em tudo aquilo. Então decidi que a AEVB não deveria aceitar nada de graça da Universal até que nós soubéssemos muito bem quem eles eram e quais os seus objetivos. A Vinde, entretanto, imaginei, poderia comprar espaço da emissora, assim como fazia em várias outras redes de televisão. Imaginei que fazendo assim, duas coisas estariam garantidas: nossa independência na relação com eles e, ao mesmo tempo, nossa disposição de conhecê-los melhor, sem preconceitos quanto ao diálogo. Marquei outro encontro e fui a São Paulo comprar horário na televisão de Macedo. Polícia descobre placa fria em carro de “bispo” Macedo — dizia a manchete dos principais jornais oferecidos dentro do avião da ponte aérea. — Que qui eu tô fazendo aqui, meu Deus? — falei comigo mesmo e com Deus dentro de um táxi na porta da TV Record. Havia vários repórteres de plantão no lugar. — Volte para o aeroporto — disse ao chofer do táxi que me conduzia, que ficou sem entender nada. Esperei a coisa acalmar e fui de novo ao encontro de Macedo no dia 19 de maio de 1992.


Capítulo 39 “Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Santo Agostinho, Confissões

Macedo me deu um chá de cadeira de quase uma hora. Achei estranho. Naquele meio-tempo, Renato Suhett, que ainda era o muso da Universal, e Mariléia, secretária de Edir, me fizeram sala, meio sem graça, não entendendo a razão de tamanha demora. — O bispo está dizendo pro senhor entrar — disse Mariléia. — Oi, que é que você está fazendo aqui? — foi logo me perguntando o reverendo Isaias de Souza Maciel, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, que estava lá dentro com Macedo e Washington de Souza. — Ó, Ó, esse aí é outro traidor. Veio aqui pedir apoio, e eu dei. Depois, disse no jornal que não tem nada nem de bom nem de mau pra falar sobre mim. É assim que me tratam. E o senhor ainda quer me levar pra essa arapuca? Já disse que com o Fanini eu não vou pra nada — falou Macedo com os lábios brancos, o queixo trêmulo e o dedo em riste apontando para mim. — Olha bem pros meus olhos! Vê aqui no meu rosto se há algum movimento de agitação ou nervosismo. Eu estou em paz com a minha consciência. Nunca enganei você. Disse desde o início que estou tentando conhecer você. Não pedi nada e só estou aqui hoje porque vocês disseram que tinham horário na TV pra vender pra mim. É melhor você se acalmar, pois essa sua atitude faz a coisa aqui dentro ficar cheia de espíritos maus — falei sério, fazendo alusão à permanente preocupação de Macedo na luta contra os demônios. — Tá bom. Tá bom. A gente conversa depois. — E, dirigindo-se a um homem que havia sido chamado, pediu: — Gonçalves, conversa com o Caio sobre a venda do horário pra ele. — Eu e Gonçalves nos retiramos para uma sala ao lado e em 15 minutos acertamos tudo. Seria um programa de uma hora, aos sábados, das nove às dez da manhã, e eu pagaria 20 mil dólares por mês. Quando estava voltando à sala de Macedo, ouvi o reverendo Isaias conversando, nervoso, com Macedo. — Pelo amor de Deus, bispo. Agora o senhor está me ofendendo. Vim aqui a convite do Washington dar ao senhor a chance de participar de um evento de todos os evangélicos. Mas o senhor está o tempo todo fazendo acusações a pessoas que eu respeito. Eu já não tenho idade pra ouvir ofensas como essas. O pastor Túlio é um homem bom e inatacável, e o pastor Fanini não


iria fazer isso que o senhor está dizendo — ele dizia. — Desculpa, gente, mas ainda estão na mesma? O que é que está acontecendo aqui? Pensei que a coisa aqui já estivesse resolvida? — perguntei intrigado. — É que o bispo disse que não vai e nem deixa a Universal ir ao evento do dia 6 de junho na Cinelândia porque o Fanini vai pregar e vai colocá-lo numa arapuca. Mas eu disse a ele que o Fanini jamais faria isso e também que você vai pregar lá e que nada disso vai acontecer. Mas ele continua batendo nessa tecla — explicou o reverendo Isaias. — Ele disse que vamos usá-lo e depois humilhá-lo, como fizeram no Maracanã — concluiu. — Então, pronto. Por que é que ele tem que ir? Se não quer ir, que não vá! — falei. O Celebrando Deus com o Planeta Terra era o evento que os evangélicos do Rio estavam organizando por ocasião da Eco 92 (Earth Summit, para o resto do planeta), a fim de mostrar ao mundo a nossa força. A expectativa era reunir cerca de um milhão de evangélicos nas ruas do centro da cidade. — Não vou, de jeito nenhum. A Universal também não vai. Estou apenas considerando se mando nossos quatro mil obreiros. Eles têm fé pra ser humilhados e agüentar — falou com um misto de raiva e consentimento, revelando uma lógica que eu não consegui entender. Os ânimos se exaltaram mais uma vez. — Em nome de Jesus, vamos parar com isto, irmãos — eu disse. — A gente fala que conhece o diabo e que o expulsa. Mas eu acho que ninguém aqui conhece o diabo bem, não. Só conhecemos aqueles demônios óbvios, que se manifestam nas pessoas em reuniões de exorcismo coletivo. Mas o diabo está aqui, nessa briga, e parece que ninguém aqui consegue discernir — disse eu, olhando para todos. Estranhamente, Macedo nada me respondeu. Pareceu ter me dado ouvidos. Mas continuei esperando uma resposta forte, do tipo “eu sei o que estou falando”, ou ainda algo como “deixe o diabo fora disto”. — Vamos dar as mãos e orar. Depois, vamos embora. Olha Macedo, se você quiser ir ao evento, vá. Se não, não vá — arrematei, aproveitando o clima menos tenso. Comecei a fazer uma oração espontânea, em voz alta, enquanto todos nós na sala dávamos as mãos. Vista de fora, por gente que não tem familiaridade com as coisas da Igreja Evangélica, aquela seria uma cena cômica. Alguns homens brigam, se ofendem, se insultam, levantam suspeições, tremem de raiva e depois dão as mãos e oram. “Coisa de loucos!”, alguém diria. Mas para pastores, aquela era a única maneira de voltar à civilidade antes de nos despedirmos. No dia 24 de maio Macedo foi preso por charlatanismo, estelionato e curandeirismo. — Caio, vê se ajuda a gente. O Macedo tá na cadeia. Isso é coisa da Igreja Católica. Dá pra ajudar? — perguntou-me Laprovita ao telefone no mesmo dia da prisão. Pedi que ele me enviasse as acusações via fax. Li-as e orei muito, perguntando a Deus o que fazer. “Meu Deus, eu acho que isso só está acontecendo porque eles estão abusando do direito que têm de professar a fé. Tornaram-se agressivos e obcecados pela idéia de ter poder. Não concordo com o que eles fazem, mas a natureza da acusação é muito subjetiva. Dá-me discernimento quanto ao que fazer”, falei com Deus. Dois dias depois a AEVB iria se engajar na campanha pela Ética na Política e, coincidentemente, naquele mesmo dia iniciaram-se as discussões sobre a abertura da CPI da corrupção, que veio a ser conhecida como a CPI do PC. O debate seria sobre ética na gestão pública, no auditório Petrônio Portela, no Senado, em Brasília. Convidamos para falar no evento os líderes dos principais partidos. A maioria se fez representar, inclusive Lula, bicho-papão entre os evangélicos. Muitos se manifestaram. Lula foi o penúltimo e, depois de falar, preparou-se para sair. Eu


seria o último. “Por favor não vá embora. Fique para ouvir o pastor”, dizia uma nota enviada da audiência às mãos de Lula. Ele atendeu. Falei sobre o tema da corrupção durante uns quinze minutos. Depois de concluir minha fala, pedi licença ao grupo e mudei de assunto. Puxei do bolso do paletó umas quatro páginas e li um discurso impensável para uma pessoa como eu, com os escrúpulos que até então eu manifestara. Eis aqui parte do que eu disse naquela manhã: “Qual é a diferença entre o misticismo dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e o daqueles que vão às procissões de Aparecida ou do Círio de Nazaré? Qual é a diferença entre as empresas do Vaticano (compradas também com dinheiro do povo) e as empresas da Igreja Universal do Reino de Deus? Qual é a diferença entre uma santa de gesso que chora e os alegados milagres de cura da IURD? Qual é a diferença entre os milhões de dólares da Igreja Católica e os milhões de dólares da IURD? Por acaso não são ambos dinheiro do povo? Por acaso não é também dinheiro que resulta de doações movidas pela crença? Por acaso não é também, muitas vezes, dinheiro usado para adquirir propriedades cuja administração nem sempre está aberta a auditorias públicas e nem ao gerenciamento dos fiéis?” Depois de dizer que a prisão de Macedo evocava também outras questões, mostrei as preocupações que tínhamos com a possibilidade de que aqueles critérios subjetivos de julgamento prevalecessem. E prossegui: “Ora, tudo o que tenho dito até aqui não tem a finalidade de defender a IURD, que nem é associada à AEVB. Nossa intenção é mostrar apenas três aspectos básicos da atual situação de perseguição que sofre a Igreja Universal: 1. A prevalecerem tais critérios, o princípio de liberdade religiosa no Brasil sofrerá ameaças terríveis. Especialmente quando se sabe que quem deflagrou a acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato contra a IURD foi uma outra entidade religiosa (A Associação dos Umbandistas). 2. A prevalecerem tais critérios de julgamento, a fim de que houvesse justiça prática e objetiva, todos os grupos religiosos do Brasil, incluindo a Igreja Católica e todas as denominações evangélicas, deveriam ser processadas e seus líderes levados às barras do tribunal, porque o que para uns é fé, para outros é balela e charlatanismo. 3. Se a IURD e seu líder espiritual, Edir Macedo, são passíveis de alguma punição da lei, tal punição deve acontecer nos níveis da justiça, e de acordo com a Constituição, em áreas mensuráveis de modo prático: sua contabilidade, seu patrimônio e seus impostos, e não nas áreas subjetivas, nas quais só Deus pode fazer diferença entre o charlatão e o homem de Deus, entre o curandeiro e o homem de fé ousada, entre o salafrário e o profeta.” Até aí estava tudo bem e Macedo e seus comandados estariam satisfeitos. O problema, no entanto, foi a proposta que eu fiz a seguir: “A Associação Evangélica Brasileira se propõe a intervir neste caso, pedindo à IURD que abra sua contabilidade a uma auditoria independente, contratada pela AEVB, e que posteriormente venha a público trazer os resultados de tal auditoria. Com isso se pretende que o caso da IURD e o bispo Edir Macedo sejam julgados com os mesmos critérios


objetivos com os quais a justiça brasileira venha a julgar os muitos corruptos que encontram guarida à sombra do poder.” As seiscentas pessoas presentes ao evento, para minha surpresa, puseram-se em pé e explodiram num interminável aplauso. Olhei em volta e vi que todos estavam aplaudindo, inclusive o supostamente renitente Lula. Terminado o evento, Lula veio falar comigo. “Olha, eu quero me encontrar com você. Liga pra minha casa. Temos coisas muito sérias pra tratar”, disse-me e desapareceu cercado por vários repórteres. Dei várias entrevistas sobre a prisão de Macedo e sempre fiz questão de repetir: “Não estou defendendo um homem chamado Macedo. Estou defendendo um princípio chamado liberdade de fé.” Macedo ficou agradecido, mas não completamente satisfeito. Afinal, eu o estava defendendo, porém minha defesa não era incondicional. E para ele, aparentemente, todo e qualquer relacionamento tinha de ser incondicional. E incondicionalidade era algo que eu tinha sido ensinado a dar apenas a Deus. No dia 6 de junho de 1992, cerca de 12 dias após a prisão de Macedo, pelo menos meio milhão de pessoas estavam nas ruas do Rio e caminharam até a Cinelândia, que não agasalhou nem mesmo 15% dos presentes ao ato. Foi uma festa fantástica, cuja preparação já vinha sendo feita há mais de dois anos sob a presidência do pastor Túlio Barros e com a direção executiva do reverendo Guilhermino Cunha. Mas como o bispo Edir Macedo, posto em liberdade no dia anterior, também foi ao evento fazer uma oração de intercessão, a mídia entendeu que aquilo tudo tinha acontecido como ato de desagravo pela prisão do líder da Universal. E não deixou de haver elementos de ligação entre as duas coisas. — Nunca mais vão prender pastor no Brasil. Nunca mais — gritou o pastor Fanini de cima de um trio elétrico no meio da avenida Presidente Vargas, fazendo meu estômago gelar. — Isso não vai dar certo. A mídia vai pensar que estamos aqui em desagravo à prisão de Macedo — falei ao reverendo Guilhermino enquanto andávamos apressados, tentando passar pela multidão em direção ao palanque. — Só a TV Record tem o direito de gravar este evento. A TV Globo não — disse, desautorizadamente, o pastor Washington de Souza, iniciando uma polarização entre redes de televisão que a ninguém interessava. Era grande o constrangimento de toda a comissão organizadora com tudo o que estava acontecendo. — Eu nunca pensei que depois de tudo o que eu disse sobre os evangélicos, eles ainda fossem se solidarizar comigo assim — disse o próprio Macedo para um documentário que a Rede Record colocou no ar três dias após a concentração da Cinelândia, dizendo que aquele havia sido um ato de desagravo pela prisão de seu dono. Os pregadores daquela tarde fomos Fanini, Gesiel Gomes e eu. Cada um falou vinte minutos. Hinos tradicionais foram entoados e o povo evangélico cantou a uma só voz suas convicções básicas: — Castelo forte é o nosso Deus; Os guerreiros se preparam para a grande luta; Vencendo vem Jesus. Macedo ficou em pé ao meu lado, no máximo a um metro de distância, durante todo o evento, mas não falou comigo. Achei estranho. Afinal, eu havia puxado o coro pela libertação dele. — Macedo, estamos felizes que você esteja em liberdade. Quero reafirmar meu desejo de conhecer você melhor. Não esqueça disso — disse a ele, que mudou de expressão, deixando de lado o sorriso e franzindo gravemente o rosto tão logo viu que não tinha como me evitar na saída do palanque.


Edir apenas abanou a cabeça e foi passando. Enquanto isso, eu via seu namoro com Silas Malafaia, Fanini, Washington, pastor Manoel Ferreira e outros. — O que será que está acontecendo? Não quero ser amigo dele, mas quero honestamente conhecê-lo melhor. O que será que eu causo nele? — perguntei a um irmão que também conhecia o bispo Macedo. — É que ele sabe que os outros o tratam olhando para cima, para o bispo. Mas você o olha no mesmo nível. Ele lhe chama de Caio, e você o chama de Edir. Você o defende hoje, mas não faz pacto de defender sempre. Para o bispo, isso é muito inseguro. Quem tá com ele tem que estar sempre. Com você não é assim, é? — informou-me aquele irmão que tinha acesso à mesa de Edir e que pediu para não ser identificado. Insatisfeito com o tratamento que me fora dispensado, liguei para a casa de Macedo em São Paulo ainda naquela mesma noite. — Estou ligando apenas para saber se está tudo bem com você? Estou achando você distante! — falei. — Tudo bem, não faltará oportunidade pra nos encontrarmos — disse de modo frio, calando-se em seguida. Não havendo mais nada a tratar, desliguei. Alguns dias depois, Laprovita ligou-me da casa de seu filho, dizendo que ele e Didi, apelido de Macedo na intimidade, estavam criando uma entidade para defesa de pastores. — Mas já existe a AEVB. Pra que outra? — perguntei. — É que a AEVB é muito elitista. Vamos criar uma coisa nossa, com o pastor Manoel Ferreira, da Assembléia de Deus de Madureira. Mas não fique preocupado que não vamos competir com a AEVB. Quer falar com o Didi? — perguntou. — Quero sim — respondi. — Alô, Macedo? Vocês vão criar uma entidade nova? — perguntei. — Não sei se vamos. Estamos aqui conversando com o pastor Manoel — parecia sem vontade de continuar a conversa. — Espero que Deus abençoe vocês — falei com tristeza. — Obrigado — disse Edir Macedo com firmeza. Desde então orei por ele com regularidade, visto que, mesmo não concordando com seus métodos, mantinha no coração a forte esperança de que ele reconhecesse um dia que para ganhar o mundo para Cristo ele não precisava tentar recriar o evangelho de Jesus, adaptando-o a algo que é, em muitos aspectos, a antítese de tudo aquilo que foi o ideal de Jesus de Nazaré.


Capítulo 40 “Bastava-me, pois, este argumento contra aqueles homens para lançá-los completamente de meu peito angustiado, porque, sentindo e dizendo de Ti tais coisas, não tinham outra saída que um horrível sacrilégio de coração e de língua.” Santo Agostinho, Confissões

No final de 1992, a campanha pelo impeachment do presidente Collor agitava as ruas e os meios de comunicação. Como contribuição ao debate no meio evangélico, e na intenção de dar base teológica para aqueles que gostariam de subverter um governo acusado de corrupção, mas que não tinham coragem de se insurgir contra a autoridade constituída por temor de que isso fosse contrário à Bíblia, escrevi em seis dias — e publiquei em 15 — o livro A Bíblia e o impeachment. Vendemos duas edições em menos de um mês. Desde o início a AEVB havia tomado posição clara pelo impeachment de Collor, caso as acusações fossem comprovadas ou mesmo se o presidente não conseguisse se explicar à nação. Nossa tese era que ele não poderia governar sob tão terrível suspeição, independentemente de ser ou não culpado. — Ei, Caio. Olha, você precisa me ajudar. Você tem que parar de falar sobre impeachment — disse-me Laprovita ao telefone, a propósito de um comercial de meu livro que havia sido censurado dentro de meu próprio horário comprado na TV Record. — Por que foi que vocês cortaram o comercial de meu livro, Laprovita? — perguntei. — Olha, nós estamos numa situação difícil. Todo mundo quer pegar a gente. E se a gente falar em impeachment pode ficar ruim pra nós — respondeu o deputado da Universal. — Mas Laprovita, o horário é comprado. Basta vocês dizerem que não assumem responsabilidade pelo que é dito naquele horário, como acontece no mundo todo — respondi. — Não dá. A gente fez um acerto com o Collor. Olha, num dá nem pra acreditar. Ele mandou chamar “aquela pessoa”, sabe? O Didi veio de Nova York e ele mandou nos pegar num jatinho. Depois, fomos de helicóptero encontrar o homem. É um macumbeiro. Tá cheio de demônio. Mas tem poder. Falou pra “aquela pessoa” que se nós puséssemos o povo na rua contra o impeachment, se não falássemos no assunto na Record e se fizéssemos os evangélicos ficarem calados, incluindo a Associação Evangélica e os deputados crentes no Congresso, teríamos tudo o que pedíssemos — disse-me Laprovita com um tom de voz ofegante. — Escuta, você não tem medo que essa conversa esteja sendo gravada? — perguntei. — Que se dane. Se estiverem gravando, que gravem. Se quiser contar, pode contar também — respondeu ele com irritação.


— Mas o que o “homem que tem poder” ofereceu a vocês? — perguntei. — Disse que passa a TV pro nosso nome, valida a compra de nossas rádios todas, facilita crédito bancário e outras coisas — falou sem hesitação. — Mas que outras coisas são essas? — indaguei. — Olha, “te darei tudo”, foi o que o homem disse. “Te darei tudo”, ouviu? — ele repetiu, sem nenhuma preocupação entre a semelhança daquela frase e uma outra que havia sido dita para Jesus dois mil anos antes por um príncipe cheio de poder. — E você nunca ouviu essa frase antes? — perguntei a Laprovita. — Qual? — ele indagou. — Essa última. “Te darei tudo”; nunca ouviu isso antes? — Não, onde? — Lá no deserto da Judéia. Jesus havia jejuado quarenta dias e noites e o diabo veio tentá-lo, lembra? Na terceira tentação, a do poder, Satanás disse isso a Ele: “Tudo eu te darei, se prostrado me adorares”, lembra? — perguntei com provocação. — Olha, pra Jesus vale gol até de mão. Eu sei que o cara é mau. Tenho provas de que ele é tudo o que falam dele. E até pior. Mas nós precisamos dele agora. Depois tem a Record e as rádios. Nós precisamos disso tudo pra Jesus. Então eu faço qualquer coisa. Só não dá é pra botar o povo na rua. Eu já falei pro Macedo: “Não toma compromisso de botar o povo na rua porque o povo não vai.” Mas o resto a gente faz por amor ao reino de Deus — disse-me com convicção. Eu nunca achei que Laprovita e Macedo fossem pessoas mal-intencionadas. Ao contrário, a julgar pela maioria dos objetivos espirituais, eu poderia me aliar ao empreendimento deles sem susto. O problema eram os meios. O messianismo religioso de Macedo dava a ele e a seus liderados a sensação de que valia tudo, desde que fosse para Jesus. E com isso eu não podia concordar jamais. Não que eu fosse melhor do que eles ou de quem quer que fosse. Essa auto-exaltação jamais me atingira. Entretanto, algo mais profundo, dentro de mim, dizia-me que se aceitássemos os pressupostos éticos de Macedo, estaríamos colocando a igreja de vez dentro da escuridão na qual ela se colocou a maior parte do tempo nesses últimos dois mil anos de história. E, para mim, aqueles desvios eram muito mais sérios do que se fossem apenas de natureza individual, eticamente falando. Mas como eram práticas de natureza coletiva, meu temor crescia muitíssimo. — Olha, eu entendo a angústia de vocês. Com toda sinceridade. Mas pra Jesus não vale gol de mão, não. Gol de mão nunca é pra Jesus, é sempre contra Ele, mesmo que a gente diga que tá fazendo isso pra Ele. Desculpa, mas não dá pra aceitar essa coisa. Tenho pena da situação de vocês, mas não posso concordar. No que me diz respeito, você aumentou minha convicção pra continuar falando a favor do impeachment. Além disso, o evangelho chegou até os nossos dias sem rede de televisão e rádios. A TV Record e as rádios são importantes, mas por elas não vale vender a alma. Vale? — perguntei angustiado. O clima ficou pesado. Laprovita fez silêncio por uns dez longos segundos, então recomeçou. — Eu tô preocupado com essa votação. Cê já pensou se eu tiver que ir lá no microfone dizer pra toda a nação que sou contra o impeachment? Sabe, o que eu queria era que o voto fosse secreto. Pede a Deus pro voto ser secreto — confessou-me o deputado federal do PMDB, também solicitando minhas preces. — Laprovita, se você quiser a minha oração, vou pedir a Deus que revele a verdade. Serve? — indaguei. Ele não disse nada. Então orei ao telefone, pedindo a Deus que não deixasse que uma causa que se dizia ser do interesse do reino de Deus se tornasse mais importante do que os princípios do evangelho, e que o deputado tivesse coragem de agir conforme a sua consciência. Alguns dias


depois ouvi ao vivo pela TV o nome de Laprovita ser chamado para o microfone do Congresso a fim de votar. “Sim”, foi o voto dele, ajudando a selar a sorte do ex-caçador de marajás. Percebi, naquele momento, que depois de ter conseguido que Collor assinasse o documento de transferência da concessão da TV Record para o nome dos representantes legais de Macedo, o deputado estava fazendo algo ainda mais complexo: dando uma volta no próprio presidente que os havia beneficiado. Fiquei gelado. Se tinham feito aquilo com o Collor, o que não fariam com quem quer que fosse? Percebi ali quão obstinadamente comprometidos com seus objetivos eles estavam, e que para atingi-los, realmente, valia tudo, ou quase tudo. Aquele episódio afetou-me profundamente. Mesmo não tendo nada a ver com o que acontecera e tendo aconselhado Laprovita a tomar outro caminho, minha consciência não me deixou em paz. Sabia que aquilo estava sendo feito em nome dos evangélicos e me sentia numa relação de concubinato pelo mero fato de saber o que estava acontecendo. Saí com minha família para uma fazenda nas montanhas. Não falei com ninguém o que estava se passando dentro de mim. Fiquei horas a fio em profunda solidão. Andava sozinho pelas trilhas do lugar, sentindo um estranho desassossego me dominar. Nem o maravilhoso cheiro de eucalipto eu conseguia saborear como de costume. O delicioso odor de capim com estrume de gado, aromas que me fazem bem à alma, não puderam ser sentidos por mim. Estava em grande agonia de coração. Iniciava-se ali uma viagem extremamente dolorosa para dentro de minha alma. Quando me apercebi, já estava mergulhado nas regiões abissais de meu ser, e aquele era para mim um lugar de profunda depressão. Durante duas semanas fiquei com a sensação de que estava caindo dentro de um poço escuro, no fundo de mim mesmo. Perdi completamente a vontade de continuar. A sensação que me deu foi a de que estavam malhando em ferro frio. Afinal, a história inteira da humanidade tinha sido a de vitoriosos que usavam quaisquer meios para atingir seus fins, e aqueles que se opuseram a isso sempre foram os esmagados de cuja memória a história veio a lembrar-se apenas quando suas idéias já não ameaçavam os interesses pessoais daqueles que um dia os haviam eliminado. E mais: a própria Igreja, enquanto instituição, jamais fora melhor em seus métodos do que os sistemas pagãos mais perversos, que ela, presunçosamente, havia tentado dominar para Deus. “Senhor, me ajuda a não perder meu ser, minha alma. Estou com medo de ficar próximo de tanta coisa estranha. Estou com medo de perder a esperança. Ajuda-me a descobrir o que vale a pena no meio de tudo isso. Sei que Tu não estás em muitas dessas coisas que são feitas em Teu nome. Tu não me salvaste das angústias da juventude pra eu cair no chão lodacento de um caminho onde Teu nome aparece a todo instante, mas onde Tu quase nunca Te fazes presente”, orei muitas vezes, em profunda angústia de espírito. Foi só quando reconheci que a grande maioria de meus irmãos de caminhada eram pessoas de fé genuína e simples, e também só depois de ter prometido a mim mesmo que aquele caminho de conquista a qualquer preço jamais seria o meu, que tive paz na mente para voltar a trabalhar. Aprendi ali que o mundo político, seja ele secular ou religioso, chamava de esperteza e visão estratégica exatamente aquilo que tinha o poder de secar a minha alma, e que Jesus chamara de tentação. Nunca mais falei com Laprovita. Apenas orei por ele com muita freqüência, o que ainda faço. E continuo a pensar dele o que sempre pensei: ele tem boas intenções. Apenas recorre a meios nem sempre recomendáveis na sua ânsia por fazer a vontade de Deus.


Capítulo 41 “Meus bens já não os buscava mais à luz deste sol, com olhos carnais, porque os que querem gozar externamente, facilmente se dissipam e se derramam pelas coisas visíveis e temporais, lambendo com o pensamento faminto apenas as aparências.” Santo Agostinho, Confissões

Comecei 1993 na lagoa de Uruaú, no Ceará, escrevendo um livro sobre oração, enquanto descansava com a família. Tão logo voltei de lá, fui encontrar Lula em seu escritório, em São Paulo. Conversamos cerca de seis horas com a porta fechada. Fomos interrompidos apenas para comer um frango à cubana. Nosso assunto girou em torno de tudo, menos de política. Falei sobre a conversão de meu pai e sobre meu encontro com Cristo. Contei minha história até aquele dia, e ele me contou a dele. Falamos de como os evangélicos estavam crescendo e por que aquele crescimento estava acontecendo. Depois ele me disse que não sabia por que havia tanta hostilidade da parte dos evangélicos em relação a ele. — Quer anotar as razões? — perguntei brincando. — Olha, as causas são muitas, mas a maioria tem a ver com a ignorância de vocês em relação aos evangélicos e dos evangélicos em relação a vocês — respondi. — Os evangélicos ouvem dizer que, se eleito presidente do Brasil, você vai perseguir as igrejas, vai caçar suas concessões de rádio, vai favorecer a Igreja Católica acima de tudo e de todos e vai botar fiscalização sobre o crescimento das igrejas — essas são apenas algumas das acusações. — Deus me livre — disse Lula. — Eu jamais faria isso. Olha, no sindicato tá cheio de evangélico. Tenho até um irmão pastor. Como é que eu faria uma coisa dessa?! — O problema é que realmente há petistas que dizem coisas assim em alguns lugares, e essas declarações radicais são espalhadas por toda a igreja, como se fossem políticas nacionais de seu partido. Tá cheio de gente radical no PT, não está? — falei. Aí, então, Lula me deu uma aula de como seu partido era democrático, mas disse que, possivelmente, havia gente por lá que ousava fazer declarações daquele teor. — Com relação à Igreja Católica, a gente não tem nenhuma relação institucional. Temos apenas muitos companheiros católicos que são militantes do PT. Mas é só — disse. — Pra mim você não precisa explicar. Eu não sou petista e não sou ligado a nenhum partido, mas sei como as coisas acontecem dentro de seu partido. Meu conselho, entretanto, é que se você deseja aumentar sua relação com os evangélicos, você deve saber exatamente como você é visto e


deve saber por que a sua imagem é tão distorcida. Por que você não começa a chamar os evangélicos pra conversar com você? — sugeri. — Você não pode fazer isso pra mim? — perguntou. — Se eu fizer isso, vão pensar que estou fazendo campanha política. E não é o caso. Mas posso passar pra você o nome dos líderes evangélicos mais estratégicos em todo o Brasil, e você pessoalmente pode abordá-los. — Olha, sabe o que foi que me atraiu em você? Quando eu vi você falar naquele dia e depois fazer aquela prece a Deus, eu fiquei pensando: “Quando ele falou sobre o Brasil, falou como quem conhece esse país, mas quando fechou os olhos e falou com Deus, falou como quem conhece a Deus.” Olha, eu conheço muita gente que conhece o Brasil, mas que não fala com Deus daquele jeito. E conheço um monte de gente que me diz que conhece a Deus, mas que não entende o Brasil daquele jeito. Foi isso que me chamou a atenção em você. Acho uma pena que você seja conhecido só entre os evangélicos. Você tinha que ser uma figura nacional — ele me falou com muito carinho. — Você se importaria se eu recomendasse você pra falar sobre cidadania fora da igreja? — indagou. Respondi que seria um prazer, mas que eu já corria muito por todo o Brasil. Pouco depois daquilo, Rubem César Fernandes estava ao telefone para me dizer que Herbert de Souza, o Betinho, em franco processo de canonização social, estava me convidando para uma reunião por causa de uma recomendação de Lula. Não demorou, e eu estava no Palácio do Planalto, junto com uma fantástica constelação de celebridades, guindado à posição de membro do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da República. Na volta para casa, vim conversando com Betinho, a quem alguns chamavam de o santo ateu. Falamos de tudo e também de Deus. Descobri então que o ateísmo de Betinho não era filosófico, mas apenas psicológico, como o da maioria das pessoas que assim se assumem. Tinha a ver apenas com seus traumas infantis e fora o conselho de um analista que fizera Betinho sossegar sua atormentada alma católica, esquecendo-se do Deus e do Jesus que ele aprendera dentro das paredes da religião. Voltei com a corda toda. Criei imediatamente uma organização chamada Atitude & Solidariedade. Conversei com Eduardo Mendonça, dono de uma empresa de ônibus, e ele colocou à minha disposição um de seus 32 ônibus, para que nele servíssemos sopa todas as noites para cerca de mil mendigos que dormiam nas marquises do centro de Niterói. Dei um monte de entrevistas para jornais, revistas, rádios e televisões e senti que minha vida estava enfim saindo do terreno da religião e entrando no mundo mais amplo, que em Manaus eu conhecera muito bem, mas que desde a minha mudança para o Rio, em 1981, havia ficado para trás. Naquele agosto de 1993 algo horrível aconteceria em Vigário Geral, uma das mais de seiscentas áreas faveladas da Cidade Maravilhosa: 21 pessoas foram mortas, entre elas oito membros de uma família de evangélicos. Eu estava no meio de uma reunião de negócios quando os jornais foram postos na minha frente, com aquela terrível foto dos corpos enfileirados em seus caixões no chão de terra da favela. Tão logo fiquei sabendo da história da família de evangélicos, peguei uma câmera de nosso estúdio e corri para lá. Gravei um programa em Vigário Geral e coloquei-o no ar no sábado seguinte. Foi uma hora de documento apaixonado sobre a situação de insegurança dos que vivem na favela, entre o poder arbitrário, perverso e esmagador dos traficantes de drogas e as ações violentas, desrespeitosas e, muitas vezes, homicidas de certos policiais. — Tem um repórter do jornal O Globo, chamado Otávio Guedes, que quer fazer uma entrevista com o senhor. Marco ou não? — indagou Cristina. Otávio chegou com uma carinha de menino, mas no meio da entrevista percebi sua


sagacidade e sua imensa capacidade de provocar. Ágil, ferino e delicado; foi assim que vim a perceber o estilo do repórter. — Pô, legal. Gostei de conhecer o senhor. É difícil a gente encontrar líderes religiosos que falem abertamente sobre as coisas. Gostei — falou Otávio ao final da entrevista. Foi só quando li O Globo do domingo seguinte que entendi o que ele queria dizer. Minhas declarações sobre o papel da polícia e a presença evangélica nas favelas estavam dentro de um contexto bem amplo, onde havia a suspeita do envolvimento de igrejas evangélicas acobertando criminosos. A matéria de Otávio era, entretanto, completamente favorável, e a única coisa que pegava era a manchete de primeira página com uma alusão ao fato de que O presidente da Associação Evangélica diz que policiais são bandidos fardados. — Esse negócio vai pegar. Dentro está ótimo, mas a manchete tá ruim pra você. Generalizaram algo que você relativizou. A polícia vai ficar zangada — disse Gerson Pacheco, um amigo bem chegado. Eu sabia que aquilo acontece sempre. Às vezes o editor pega uma declaração e joga como manchete. Falei com Otávio e ele disse para eu mandar uma reparação que eles publicariam. Mandei, e eles publicaram. O resultado daquilo foi que se iniciou ali uma boa relação de amizade com o repórter, mas começou também um relacionamento tenso com a polícia. Recebi grupos de PMs evangélicos indignados, cartas, e até dois telefonemas com ameaças. Um deles dizia que se eu fosse fazer o casamento de Benedita da Silva e Antônio Pitanga na catedral Presbiteriana, seria alvo de alguma violência. Fui, e nada aconteceu. Apenas bem mais tarde perceberia as implicações daquelas declarações à luz de uma sucessão de outros incidentes. Houve, entretanto, dois episódios, separados por cerca de um ano, que se encadearam quase como numa conspiração e mudaram completamente a minha vida em razão de seus muitos desdobramentos: o incêndio de uma fábrica e uma visita a um secretário de Justiça. Um ano antes, no dia 30 de outubro de 1992, a Formiplac, fábrica de laminado técnico, conhecido como fórmica, pegou fogo. Meu amigo, Alípio Gusmão me telefonou e perguntou: “O senhor viu uma fábrica pegando fogo no Jornal Nacional da TV Globo? É Minha. Comprei há alguns meses. Dá pro senhor ir até lá ver o que aconteceu?”, pediu-me com objetiva simplicidade empresarial. Em setembro de 1993 o pastor Washington de Souza, da Assembléia de Deus, me convidou para ir visitar o vice-governador Nilo Batista, também secretário de Justiça e de Polícia, a fim de propor uma parceria com o estado para incrementar o trabalho de capelanias nos presídios do Rio. Em 1992 , a visita ao prédio da Formiplac tinha sido rápida. Nem sequer entrei. Fiquei em pé à porta da fábrica e de lá fui à Delegacia de Polícia na Pavuna, acompanhado de um policial federal evangélico, e fiquei sabendo da história do incêndio: um rapaz de Acari, envolvido com o tráfico de drogas local, transformara-se na chamada bola da vez. Temendo a execução, fugiu para o prédio central da fábrica e conseguiu chegar despercebido ao terceiro andar, onde ateou fogo no que encontrou, na intenção de chamar a atenção da polícia ou do corpo de bombeiros e ser salvo dos seus executores. A sala onde ele iniciou o fogo ficava ao lado do laboratório químico, e o prédio foi pelos ares daquele andar para cima. Um ano depois, já em setembro de 1993, Alípio me chamaria outra vez, a fim de dizer que “Deus lhe falara ao coração” que aquela propriedade seria uma “obra para a Glória de Deus, uma coisa social”. — O senhor quer ficar com a fábrica pra fazer algo pro benefício daquela população? — perguntou-me Alípio. Como eu o conhecia havia anos, e como ele nunca brincara comigo, especialmente usando o


nome de Deus, imediatamente levei suas palavras a sério. — Mas do que você está falando? De entregar aquilo tudo pra gente ajudar as pessoas do lugar? É isso? — perguntei apenas para me certificar de que havia entendido bem o que ele dissera. — Olhe, vá lá com olhos de dono. Veja o lugar como se aquilo tudo estivesse ao seu inteiro dispor daqui pra frente. Depois me ligue de volta — disse ele com a objetividade empresarial que fez com que se transformasse em um dos maiores fabricantes de fórmica do Brasil. Reuni Alda, minha esposa; João Bezerra, meu companheiro de muitos anos de trabalho; Cristina, minha secretária executiva; Sônia, nossa diretora financeira, e Edivaldo, nosso curinga tecnológico. Andamos por ali, nos desviando de ferros e colonas retorcidos pelo fogo, pulando fora de águas que escorriam pelo teto e subindo e descendo pelo chão sob nossos pés, completamente ondulado, com desníveis de até cinqüenta centímetros, tamanha fora a ação do fogo sobre a estrutura. Os 17 galpões dos fundos estavam intactos. Lá o fogo não chegara. — Pastor, sinceramente acho que isso aqui é presente de grego — disse-me Cristina. — Se eu fosse o senhor, não pegava isso aqui não — concluiu, contrariando o estilo positivo e esperançoso que sempre a caracterizara. — Não sei, não. Só pra manter isso aqui, a gente iria precisar de uma grana. Acho que temos que considerar muito bem até que ponto vale a pena — disse João, confirmando seu gênero prudente. — Eu gostei. Dava pra trazer a Vinde todinha pra cá — falou Sônia, contrariando seu estilo de economista sempre preocupada com mudanças e despesas. Edivaldo andou calado. Pensou e olhou em silêncio para tudo. — É grande à beça. Dá pra pôr tudo aqui. Vai dar um trabalhão, mas dá — disse finalmente. Alda, minha esposa, em geral é muito cautelosa. De temperamento melancólico, ela sempre tende a fazer julgamentos mais tímidos a priori. Só depois de sentir e racionalizar os processos é que ela parte pra dentro. Naquele dia, entretanto, ela agiu diferente. — Olha, isso aqui é coisa de Deus. Eu estou com medo é das conseqüências. Se a gente puser a mão aqui, não tem mais volta. Não dá pra dizer que estava enganado. Mas eu vejo coisa de Deus aqui — ela falou com muita convicção. — Eu não perguntei o que vocês pensavam pra saber se devo ou não aceitar esse desafio. Queria apenas saber o que vocês pensavam. Mas eu já decidi aceitar essa guerra — falei com um ar de doce tirania. — A gente tá junto pro que der e vier — disseram todos. Naquele mesmo dia, telefonei para Alípio e comuniquei minha decisão. — Alípio, eu aceito o desafio. E agora? O que a gente faz? — Bem, agora eu tenho que falar com meus sócios. Eles são socialmente sensíveis, mas ninguém se acostuma a fazer uma doação dessas. São quase 55 mil metros quadrados de área construída. Mas se Deus está nisso, eles vão aceitar fazer a doação. Mas ore muito. Eles são judeus e o senhor é evangélico. Não sei como eles vão reagir. Durante cerca de três meses nós apenas oramos sobre o assunto. Enquanto isso, eu ia à Formiplac de vez em quando. Andava em volta, conforme Moisés ordenou que Josué fizesse antes de tomar posse da Terra Prometida. “Onde as plantas de teus pés pousarem, esse chão será teu”, era a mesma promessa que eu reivindicava quase três mil e quinhentos anos depois. Num daqueles dias, quando estacionava meu carro em frente ao prédio da Vinde em Niterói, veio um homem na minha direção. — Irmão, eu tive um sonho profético com você — disse ele. — Eu vi você numa reunião com uns judeus. E nessa reunião você vai ter uma surpresa. Os judeus vão lhe dar um presente que vai


mudar sua vida. Não passa de fevereiro. É daqui até lá. Espere. Deus tá falando — disse o desconhecido e foi embora. Fiquei embasbacado com o sonho do homem. Guardei no coração e me calei, como tinha feito a Virgem Maria, mãe de Jesus, ajuntando os pedaços das profecias que ouvia. Em setembro de 1993, quando entrei no gabinete de Nilo Batista, fiquei surpreso com amistosidade com a qual ele nos recebeu. Embora houvesse outras pessoas no lugar, ele foi claro, direto e aberto. Falou do interesse dele em estreitar a parceria do estado com os evangélicos, mencionou uma pesquisa interna que apontava a conversão religiosa como sendo o fator mais eficaz na regeneração de detentos e disse que dentre tais conversões a evangélica era a mais freqüente. — Eles sabem como falar com o pessoal. Os evangélicos sacam muito melhor que os outros como se comunicar — falou, olhando para a Dra. Julita Lemgruber, então coordenadora geral do Desipe, também presente ao encontro. Depois de todas as amenidades, o reverendo Washington mencionou um assunto que no sistema carcerário era ainda totalmente fechado: o presídio de segurança máxima Bangu I, onde os 48 criminosos mais temidos do estado estavam presos. — E essa parceria se estenderia a Bangu I? Será que daria pra gente evangelizar lá? É lá que estão os presos mais inteligentes do sistema. Ganhá-los pode fazer diferença — disse ele, pensando estrategicamente. — É claro que sim! Vamos providenciar um credenciamento imediato para o senhor e para o reverendo Caio, certo? — afirmou Nilo. Aproveitando a deixa, falei um pouco porque eu cria que evangelizar aqueles homens não era perda de tempo. Contei minha história, que nem de longe se comparava à deles, mas que, existencialmente, fora tão complicada quanto a de qualquer um daqueles homens. — Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, mas especialmente os mais perdidos — falei com paixão. — Reverendo, o senhor sabe, eu não entendo o que acontece comigo. Não consigo me entregar à fé e nem deixá-la de vez. Fora uns poucos momentos de ateísmo, tenho sido sempre um ser perseguido pela fé. Não gosto de coisas da instituição, mas não consigo me livrar da religiosidade. Quem sabe uma hora dessas a gente conversa — falou Nilo, tragando gostosamente seu cigarro, talvez já o terceiro em pouco mais de quarenta minutos de conversa. Como sentisse que era hora de terminar nosso encontro, pedi então licença para fazer uma oração. Aproximamo-nos uns dos outros e orei por todos os presentes, pela nossa parceria, pelos detentos e pelo estado do Rio de Janeiro. — Puxa, a Verinha tinha que conhecer você — disse Nilo depois da oração, já com mais intimidade. — Diz pra ela que você esteve com o Caio e que eu mandei um beijão pra ela — falei. — O quê? Você conhece a Vera? — perguntou surpreso. — Sim, há uns vinte anos, talvez. Desde o tempo que ela namorava o João Paulo, com quem se casou. O João era meu conhecido desde a adolescência — completei. Senti que ele ficou emocionado com o fato de eu saber que ele era divorciado e que estava vivendo com uma mulher também separada e, mesmo assim, não ter mudado minha postura espiritual em relação a ele. — O cardeal não me serviu a eucaristia na última vez que fui à missa. Depois me deu um cartão vermelho. Estou “excomungado”. Já pensou? Cartão vermelho pra sempre — disse com um certo ar de dor e decepção no olhar. — É por isso que eu detesto a frieza da religião. Tentam ser mais santos que Deus. Jesus foi


diferente disso tudo. Olha, Jesus não cabe na instituição religiosa. Se estivesse aqui hoje, teria que pregar na rua porque dentro das igrejas não deixariam — falei. — As companhias dele eram ruins demais pros santos da igreja. — A gente tem que se encontrar — disse Nilo muito sério. Quinze dias depois, Nilo, Verinha e os filhos estavam lá em casa para um churrasco. Conversamos sobre as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e outros casos. Depois falamos de fé e de mudança de vida. E para terminar, a filha de Nilo me perguntou sobre o assunto do momento nas telenovelas: espíritos e possessão de demônios. Contei um monte de histórias, enquanto as crianças, os adolescentes e os adultos ouviam com atenção. Depois demos as mãos e oramos juntos. Ali, sem nenhuma liturgia, eu orei abençoando a união de Nilo e Verinha, em nome de Jesus. No fim de tudo, eles foram para casa felizes. Daquele dia em diante, Nilo e eu nos encontramos pelo menos duas vezes por semana e conversamos muito sobre Jesus e os evangelhos. Falei-lhe bastante sobre os pressupostos teológicos da reforma protestante e a centralidade da salvação pela Graça exclusiva de Cristo. Ou seja: não é o que fazemos ou somos o que nos salva, mas a nossa fé no que Jesus fez por nós o que faz a diferença. — Era só isso que faltava pra minha conversão — disse Nilo a uma amiga comum, Lucilia, após me ver tomando gostosamente um copo de vinho. — Só um pastor capaz de apreciar um bom Porto teria autoridade pra me batizar — afirmou brincando, mas talvez falando mais sério do que nunca na vida. — Quando você quiser, meu irmão — respondi ao ouvir sua declaração. — Deixa passar só um pouquinho mais pra gente encontrar uma hora mais calma — disse ele. A hora mais calma jamais chegaria. O Natal de 1993 foi muito especial para mim. Celsinho, meu amigo de primeira juventude, a quem eu não via desde 1973, estava no Rio fazendo uma especialização em oftalmologia. — Celso, é Caio. Quero ver você. Cê num quer vir passar o Natal com minha família? — perguntei ao telefone, vinte anos depois, para alguém que no passado me fora muito importante. Quando nos vimos em frente ao Niterói Plaza Shopping, na tarde do dia 24 de dezembro, instintivamente levantamos o braço direito e fizemos com os dedos da mão o V de paz e amor com o qual nos saudáramos centenas de vezes na juventude. Só que agora eu era pastor, estava casado, tinha quatro filhos e pesava cerca de cem quilos. Ele, por sua vez, estava calvo, se vestia com discrição inconcebível no passado e mostrava um ar de profunda circunspecção. Passamos o Natal nos reapresentando um ao outro e às nossas famílias. E a pergunta que mais nos fizemos foi: “Lembra de...?” Sim, nós nos lembrávamos de tudo e de todos.


Capítulo 42 “Sem dúvida o permitiste Senhor apenas para que... começasse já a aprender que ao julgar outro homem, ninguém deve condenar ninguém levianamente, e com temerária crueldade.” Santo Agostinho, Confissões

O dia 16 de dezembro de 1993 amanheceu com sabor de adrenalina. — Quem é que o senhor vai batizar? — O senhor tem certeza de que eles mudaram de vida? — Mas esses homens são bandidos. Como é que o senhor pode querer convertê-los? Eram essas as perguntas que choviam sobre mim de toda parte à porta de Bangu I. — No fim de tudo eu falo, gente. Agora vamos nos preparar para os batismos — respondi com um medo danado de que aquele ato fosse virar escândalo nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte. — Eles vão entrar pelos fundos — disse o administrador do presídio. Gregório, o Gordo, veio na frente de todos, com um sorriso estampado no rosto, de orelha a orelha, carregando uma Bíblia no peito. Atrás dele vinham outros detentos famosos na cidade. Tudo o que eu sabia sobre Gregório era o que a mídia dizia. Ele era inteligente, fora o maior ladrão de carros da história do Brasil e um dos principais estrategistas do Comando Vermelho, considerado o mais organizado cartel do crime no Brasil. Além disso, Gordo era também o gênio que fugira do presídio da Ilha Grande e voltara de helicóptero para pegar o lendário Escadinha, na época encarcerado na ilha e agora preso em Bangu I, na galeria D. — Washington, cê tem certeza que esse pessoal sabe o que está fazendo? — perguntei ao capelão que estava encarregado daquele ato, referindo-me à conscientização dos batizandos quanto à seriedade do sacramento do batismo. — Eles sabem sim! — respondeu Washington. Quando tomei a palavra para pregar naquela manhã em Bangu I, a primeira passagem que me veio à mente foi a de Jesus morrendo entre dois ladrões. — A Cruz se ergueu em Bangu I. O monte Calvário era o Bangu I de Jerusalém. Era o lugar da morte, da execução. Lá era uma morte rápida, mais misericordiosa. Aqui é lenta, disfarçada de civilidade, mas é morte ainda — falei sem saber que aquelas palavras estavam sendo interpretadas por dezenas de policiais como denúncias de natureza política. — Jesus morreu entre ladrões, mas não os livrou da execução. Ele ofereceu salvação e perdão ao homicida que se arrependeu ao lado dele. Mas, ainda assim, o homem sofreu a execução. Assim, aprende-se que a


conversão nos salva espiritualmente, mas não nos livra de pagar o que devemos aos homens — afirmei, já percebendo as perguntas que me fariam depois. Após a cerimônia, os repórteres voaram em cima de mim. — Não. Não estamos endossando o crime. Estamos, sim, é denunciando o crime. Batismo é ato de arrependimento. O que estamos fazendo é ajudar esse pessoal a dizer que a vida anterior deles foi um grande equívoco — respondi. — Não. Não estamos dizendo que agora a sociedade tem que perdoá-los. Só Deus perdoa pecados. Quem cometeu crimes contra a sociedade deve pagá-los até o fim. As leis sociais não se baseiam em perdão, mas em justiça. Só as leis de Deus é que se baseiam em Graça, em perdão. E isso só Deus tem pra dar, pois só Ele conhece o coração — respondi outra vez. — Mas não fica fácil demais ficar convertido aí dentro? — perguntou-me um repórter. — Você quer trocar de posição com eles? Tá com inveja deles? — perguntei com ironia, começando a ficar meio cansado do simplismo de algumas perguntas. Depois que todos haviam saído, eu entrei na galeria C para batizar o Isaías do Borel, traficante temido na cidade, que estava preso e doente, contaminado pelo vírus HIV. — Na frente da mídia, não. Eles vão me sacanear! — dizia ele. Peguei água de um balde e pedi a ele que se ajoelhasse e confessasse a Deus que era pecador e que estava arrependido. — Isaías, eu te batizo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo para arrependimento e para perdão de pecados — pronunciei sobre ele. Levantei-o e vi que seus olhos estavam marejados. — Leia a Bíblia. Nela você vai aprender a viver — falei a ele, lembrando o conselho que meu pai me dera muitos anos antes e que eu repetira para milhares de pessoas desde então. Naquela noite, as imagens do batismo estavam em todas as redes de televisão. E, no dia seguinte, os jornais de todo o Brasil estampavam aquele ato sacramental. Para minha surpresa, as matérias beiravam o irônico, mas ao mesmo tempo sempre mostravam o lado sério daquele ato. Ora, uns dois meses antes daquilo tudo acontecer, Rubem César havia me telefonado dizendo que a casa da família evangélica da chacina de Vigário Geral estava à venda. — Eu compro, Rubem. Eu compro — falei excitado. — Eu sei. É isso que eu quero falar. Tem um rapaz lá, teu xará, Caio Ferraz, que fala à beça, mas é um cara superinteressante. É sociólogo, mas nasceu e foi criado na favela. Ele tá trabalhando lá com os adolescentes do lugar. Foi ele que me falou da casa. Eu acho que vocês podiam se conhecer — falou Rubem com calma, mas achando engraçado que eu tivesse logo pulado do assento dizendo que comprava a casa. — Diz pra ele que tenho total interesse naquela casa. A Vinde compra, e a gente faz lá a Casa da Paz — falei pro Rubem assim de chofre. Dias depois, recebi um telefonema do próprio Caio Ferraz. — Pastor, eu sou o Caio. A gente precisa conversar — disse-me ele pelo celular, pegando-me na avenida Brasil, perto de Vigário Geral, quando eu estava voltando de uma pregação numa igreja evangélica de Bangu. — Olha, vem ao meu escritório amanhã. Mas traz logo tudo sobre a casa. A gente compra e você faz lá a Casa da Paz — falei com excesso de objetividade. — É, o Rubem me falou do nome. Gostei. Amanhã estarei em Niterói. Conversamos muito, Caio, Rubem e eu. Depois de muito assunto, cheguei à conclusão de que minha participação na Casa da Paz seria apenas formal. — Olha, eu compro a propriedade, a casa, o bar da frente etc., mas a Vinde não pode ficar na administração da casa. Não precisa. Eu fico apenas no conselho. O Caio toca sozinho — falei muito seguro. — Mas por quê? Vocês podem fazer uma parceria no gerenciamento — sugeriu Rubem.


— Aqui, ó, não me levem a mal, mas é que eu detesto confusão. Onde eu estou com a mão, ou eu mando ou eu só ajudo. Mas onde eu mando, eu mando. Esse negócio de ficar sem saber o que é de quem num negócio não é comigo, não. O Caio é uma bombinha de energia social. Ele é agitado e é do tipo que vai fazendo as coisas. Se ele trabalhasse comigo e agisse assim, não daria certo. Ele é inadministrável. É melhor ele tocar a coisa e a gente só aconselhar, se der tempo — falei, enquanto Rubem e Caio Ferraz caíam na gargalhada. Daquele dia em diante, foi assim que aconteceu. Percebendo o desconforto de Caio Ferraz com a idéia de que a Casa da Paz pudesse ser vista como um projeto social evangélico, mantive-me presente, financeiramente falando, mas à distância. Eu queria que ele se sentisse bem à vontade. O plano, entretanto, era que no dia 24 de dezembro nós iríamos inaugurar a Casa da Paz do jeito que desse. Corremos como pudemos. Pusemos dinheiro lá e também recebemos ajuda da Caixa Econômica Federal. No dia combinado estaríamos prontos para a celebração-denúncia que ali haveria. Eu disse a Nilo que a casa da chacina se transformaria em casa da paz. E como ele tinha tido ação mais que firme na tentativa de resolver logo aquele crime pavoroso e no processo, pôde também ajudar bem de perto a alguns dos sobreviventes da matança que eram membros da família ali sacrificada, e não hesitou em afirmar que no dia 24 ele e Verinha estariam lá. — Vem pra rua da Relação, na Polícia Civil, que a gente vai de helicóptero pra lá. E de lá vamos juntos a Bangu I — falou Nilo. Não durou mais do que cinco minutos a viagem do heliporto da Polícia Civil até uma pracinha próxima de Vigário. De lá fomos de carro. Quando íamos iniciando a subida da passarela Verde que dá acesso à favela, vi Caio Ferraz correndo agitado em nossa direção e percebi que havia problema no lugar. — Assim não dá. Vou declarar Nilo Batista persona non grata em Vigário Geral — foi logo dizendo Caio, muito nervoso, sem explicar por que estava falando aquilo. — Calma. O que está acontecendo? — perguntei. — Ele encheu a favela de ninjas do Bope, com metralhadoras. Hoje é dia de paz e ele está estragando a nossa celebração. Se quer participar com a gente, ele tem que tirar essa humilhação daqui — falou, metralhando em todas as direções mais uma vez. — Olha, eu vou ver o que está acontecendo. Pode ficar tranqüilo que eu não quero prejudicar a celebração de ninguém. Estou aqui com o pastor e a convite dele. Mas constrangimentos eu não quero causar — disse Nilo em resposta à pergunta de Zuenir Ventura, muito presente na localidade em razão de estar fazendo pesquisa para escrever seu livro Cidade partida, que indagara se Nilo tinha ciência daquela operação policial tão ostensiva. Nilo chamou o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e pediu que se retirassem da favela. — Mas é pra sua proteção que nós estamos aqui — disse o oficial. — Eu assumo a responsabilidade. Podem ficar de longe. Mas assim desse jeito, tá muito ostensivo — disse Nilo. Fomos com aquele batalhão de repórteres até a entrada da Casa da Paz. Preocupado com o que poderia acontecer e com eventuais constrangimentos que Verinha e Nilo pudessem sofrer, e já me sentindo culpado por tê-los convidado para um ambiente que poderia se tornar pesado para eles, tratei logo de iniciar a celebração. Josué Rodrigues, Graça e Paz e Vanda Sá cantaram músicas cristãs. Caio Ferraz falou e desceu a lenha em Nilo, que ouviu tudo calado. Depois foi a vez do presidente da Associação de Moradores descascar. E mais outro, e mais outro. Cada um tirava uma casquinha da presença do


vice-governador. Alguns dizendo coisas interessantes; outros, nem tanto. Perguntei a Nilo se ele desejava falar alguma coisa. Ele disse que não. Foi aí que tomei a palavra e falei que aquela guarda estava ali não para proteger Nilo da favela, mas para protegê-lo de alguns maus policiais, dos mesmos que estavam com raiva dele por ter colocado seus companheiros tão rapidamente na cadeia. Aí o povo aplaudiu e percebi que era a hora de passar por sobre aquele assunto e entrar na verdadeira mensagem que ali nos reunira: esperança. Como era Natal, lembrei que no advento de Cristo também houvera uma chacina: a morte dos inocentes. — Aqui, neste Natal, nós estamos próximos de um dos muitos aspectos do Natal: a tragédia. No primeiro Natal, sangue inocente também foi derramado. Mas mesmo assim, a vida continuou. Aqui em Vigário Geral, apesar de tudo, a vida se manifestará vitoriosa. Nós estamos aqui pra dizer que Herodes pode até matar inocentes, mas nós somos daqueles que sobrevivem ao seu ódio e encontram o caminho da vida desarmada, e que realizam a paz — eu disse em meio a muitas outras coisas. Acabada a cerimônia, saí logo com Alda, Verinha e Nilo. As duas foram de carro para casa. Nilo e eu fomos de helicóptero para Bangu I. Chegando lá, examinamos juntos todos os sistemas da prisão: as câmeras de vigilância, as escutas e os fundos falsos de onde cada detento é visto e ouvido. — Teoricamente falando, é impossível fugir daqui — comentei com Nilo. — Isso aqui é uma vergonha. É uma prisão nazista. É coisa do Moreira — disse Nilo, aludindo à construção do presídio, realizada durante o governo linha-dura de Moreira Franco, no fim da década de 80. Entramos e fomos direto para a galeria A. Depois visitamos a B. E então chegamos à C. Cantávamos com os presos e depois eu pregava uma mensagem de Natal de no máximo dez minutos. Orávamos juntos e íamos adiante. O problema era que ao final eles se amontoavam sobre Nilo com toda sorte de reivindicações e queixas sobre o sistema. Todos foram ouvidos com extrema paciência. Na galeria C, entretanto, o clima foi diferente. — Olha gente, não é todo dia que nós temos um Natal como esse. O Dr. Nilo aqui com a gente e o nosso reverendo Caio. Vamos aproveitar bem o tempo. Por isso, antes de tudo eu quero passar às mãos de Dr. Nilo as reivindicações do nosso grupo. Ele lê em casa, depois. Aqui nós vamos nos congratular — disse Gregório, o Gordo, passando um envelope às mãos do vice-governador e secretário de Justiça. Como não perdemos tempo, pude me alongar bem mais em minha pregação na galeria C. — Vocês já ouviram a fábula do elefante e do escorpião? Pois bem, havia um elefante que estava atravessando para o outro lado de um rio, quando chegou um escorpião e pediu carona. “Tá louco? Dou nada”, disse o elefante. “Cê pode me enfiar esse ferrão nas costas.”— Mas o escorpião perguntou se o elefante não percebia que ele jamais faria aquilo. Afinal, se ele ferrasse o elefante, morreria afogado junto com ele. Convencido de que o amor à sobrevivência era maior que o amor ao crime, o elefante deixou o venenoso escorpião subir pelo seu rabo e acomodar-se em seu lombo. No meio do rio, no entanto, o elefante sentiu aquela dor aguda lhe penetrar a carne. “Que foi que você fez, escorpião? Assim eu morro e você morre também”, falou o agonizante elefante. “Desculpe, eu não resisti. Ferrar é minha natureza”, falou o escorpião, afundando junto com o elefante — contei-lhes. — Muitos de vocês têm dito a mesma coisa: que vocês estão aqui porque essa é a natureza de vocês. E é mesmo. A natureza humana, de um modo geral, é cheia de perversidade e de autodestruição. Eu sou assim. A diferença é que vocês foram pegos, e eu não. É assim porque muitas vezes a gente faz aquilo que nos mata. Mas Jesus veio ao


mundo pra tirar essa natureza de escorpião da gente e nos dar uma natureza de paz e vida. Mas esse milagre só o Espírito Santo opera. Isso não existe em nós. Tem que vir de Deus, e só vem quando deixamos o Espírito de Cristo crescer em nós — falei com a certeza de quem conhecia tanto a natureza humana quanto a graça regeneradora do evangelho. Enquanto pregava, vi claramente que todas aquelas mensagens caíam fundo no coração de Nilo. Ele se emocionou várias vezes na medida em que caminhávamos de galeria em galeria. Ali, bem diante dos meus olhos, o homem estrategicamente mais importante do governo de Leonel Brizola estava amolecendo seu coração para Deus. — Aqui, Dr. Nilo, de homem pra homem. Me tira daqui que eu num vou nunca voltar pro crime — disse Gregório, vividamente emocionado, apontando para sua filhinha que se enroscava entre as pernas dele. “Senti que ele nunca falou tão sério na vida. Creio que o Gordo não está brincando. Quando eu deixar a minha posição atual, vou dar uma força a ele como advogado”, disse Nilo, promessa que cumpriu em março de 1995, três meses depois de deixar o governo, quando, em minha companhia, visitou o juiz da Vara de Execuções, Dr. Leomil, a fim de se inteirar da situação do Gregório e sugerir caminhos legais que pudessem ajudá-lo. Passamos o resto do dia 25 em presídios. Ainda de helicóptero, voamos de Bangu I para o complexo penitenciário da rua Frei Caneca, onde nossas famílias já nos aguardavam para um almoço com os detentos. No dia seguinte, alguns jornais fizeram pouco-caso do vice-governador ter decidido passar o dia entre os presos. Eu, entretanto, achei que aquele era um dos lugares onde todos os governantes deveriam passar o Natal, pois numa cidade como o Rio de Janeiro a penitenciária é um lugar de muito poder e, portanto, precisa ser estrategicamente entendido. Não que lá haja a força do chamado crime organizado. O poder que opera ali é o de inspirar milhares de pessoas do lado de fora, nas favelas, a pensarem em muitos daqueles prisioneiros não como criminosos atrás das grades, mas como exilados políticos. É daí que vem o poder de muitos deles. Para mim, foi chocante descobrir, à medida que conversava com os detentos de Bangu I, que a tal organização chamada de Comando Vermelho nada mais era que uma grife, uma espécie de fraternidade criminal, que funcionava muito mais como uma filosofia de gerenciamento de presídio do que como uma estrutura criminosa em operação do lado de fora. Para terminar aquele estranho ano, ainda me aventurei à criação de mais um evento: A Guerra da Paz, uma vez que o recém-criado movimento Viva Rio queria terminar o ano com uma grande celebração fraterna no Aterro do Flamengo. Como parte de tudo aquilo, nos mobilizamos como pudemos, mesmo sem tempo. O show foi lindo, mas foi um fiasco de público. Na concentração dos evangélicos havia apenas umas oito mil pessoas e ao evento do Viva Rio não compareceram mais do que umas cinco mil pessoas. Eu, entretanto, estava mais que feliz. Enfim, pela Graça de Deus, nós, os evangélicos, estávamos deixando de ser vistos como um bando de reacionários religiosos e estávamos passando a ser percebidos como um segmento que participava da vida da cidade. E isso, para mim, era um sonho de muitos anos. O que eu não sabia era que haveria um altíssimo preço a pagar. Isso, entretanto, era parte de minha ingenuidade pastoral e de minha ignorância em relação às forças que se movem perversamente nos intestinos das elites enciumadas.


Capítulo 43 “Encontrei Alípio em Roma, onde se uniu a mim com estreito vínculo de amizade... Também ficou provada sua integridade não só contra os atrativos da cobiça, mas também contra o aguilhão do medo.” Santo Agostinho, Confissões

O movimento Viva Rio foi criado no segundo semestre de 1993 com a finalidade declarada de ser um agente social aberto, suprapartidário e cidadão. No início, ajudei a iniciativa apenas porque me pareceu interessante e, sobretudo, por causa de minha amizade com Rubem César Fernandes, um dos idealizadores do projeto, mas foi somente em 1994 que me tornei mais próximo da coordenação do movimento. Como de costume, passei o mês de janeiro fora do Brasil, nas montanhas de Connecticut, nos Estados Unidos, onde Rose, irmã de Alda, mora com o marido. Quando retornei em fevereiro, Alípio Gusmão informou-me que poderíamos nos encontrar com seus sócios judeus e a diretoria da empresa nos próximos dias, a fim de conversarmos sobre a fábrica de Acari. O sonho — profecia do homem desconhecido — estava se cumprindo. Afinal, ele dissera: “Antes de fevereiro o senhor vai estar em volta de uma mesa com alguns judeus.” Assim, fui a São Paulo para a reunião da esperança! Além de Alípio e eu, estavam presentes à reunião dois dos sócios judeus, Salo Seibel e seu irmão Hélio; além de João, irmão de Alípio; Kalil, o advogado, e outras pessoas que eu não conhecia. — Bom gente, eu convidei o pastor aqui porque ele tem uma proposta a nos fazer — disse Alípio, passando-me a palavra. — Eu conheci a fábrica que vocês têm em Acari e constatei que está situada num lugar ideal para se transformar no maior projeto social não-governamental do Brasil — falei e fui distribuindo cópias do projeto que minha amiga Dilma D’Avila havia preparado, com gráficos da população, faixas etárias, necessidades, oferta de escolas, déficit educacional, número de empresas na região, e quantidade de desempregados etc. — São 18 favelas em volta e um dos tráficos de drogas mais bem armados do Rio. Dá para transformar a fábrica numa cidade de refúgio. Já ouviram falar em cidade de refúgio? — perguntei olhando para o Dr. Salo. — Não, o que é isso? — ele indagou. — É uma idéia social que um dos patrícios do senhor desenvolveu. É um lugar para onde fogem todos os que derramaram sangue involuntariamente, os que estão sob a ameaça do vingador, e todos os que praticaram pequenos crimes, mas que querem uma chance de


recomeçar na vida — falei como se aquilo tudo fosse óbvio. — Quem foi o judeu que desenvolveu esse conceito? — perguntou mais uma vez Dr. Salo. — Moisés. O Moisés do Êxodo. Foi ele. Está num dos livros do Pentateuco, no Velho Testamento — mencionei a referência bíblica. Eles riram gostosamente e me motivaram a continuar. Expliquei tudo. Seria um projeto com muitas facetas. Ao todo, cerca de setenta programas sociais existiriam ali. — O senhor quer o prédio que pegou fogo? — indagou Salo outra vez. — Não senhor. Aquele ali é bom, mas ainda é pequeno — respondi. — Mas são cerca de sete mil metros quadrados — ele esclareceu. — Eu sei, por isso mesmo é que digo que é pequeno. Se o senhor não se ofender, eu quero mesmo é a coisa toda, com os 17 galpões — falei como quem estava pedindo um pirulito. — O senhor é engraçado, pastor. Vem aqui e nos pede uma fortuna como se fosse nada — falou Hélio Seibel. Todos rimos muito. Então contei a história de quatro leprosos judeus que tinham vivido nos dias do profeta Eliseu, há cerca de três mil anos. — Eles estavam morrendo de fome. A cidade em que viviam estava sitiada pelos inimigos. Como não tinham comida, pensaram: “Vamos pedir comida ao inimigo. Se nos matarem, nós morreremos. Afinal, aqui sentados é que nós vamos morrer de qualquer jeito. Mas se nos derem alguma coisa, nós viveremos.” E foram. Quando chegaram lá, encontraram o acampamento abandonado, pois um anjo do Senhor assustara os inimigos, que haviam fugido. Assim, os quatro leprosos comeram até se fartar e depois foram chamar a cidade para se alimentar. Aqui, eu sou como aqueles quatro leprosos. Pior do que está, não pode ficar. Eu só tenho uma chance aqui: ganhar. Estou encurralado na possibilidade de ser bem-sucedido. Perder eu não posso. Perder o quê? O que eu não tenho? — finalizei. Rimos de novo. — E como é que o senhor pensa em manter aquela fábrica? Olha, o senhor sabe quanto custa manter a porta aberta lá? — perguntou-me Salo. — Bem, o Alípio me disse que custa uns trinta mil dólares só pro básico. Mas se o senhor quiser nos ajudar financeiramente, eu também aceito — disse brincando, mas no fundo falando sério. — Olha aqui, pastor, com todo respeito. O senhor é o maior cara-de-pau que já conheci. O senhor vem aqui me pedir uma fábrica que vale milhões de dólares e ainda me pede dinheiro? — disse ele, também se divertindo. — Agora, falando sério. Como é que o senhor pensa em sustentar a fábrica e depois o projeto todo? Serão milhões de dólares. Eu vi a parede envidraçada que corria paralela a boa parte da sala de reuniões e fiquei olhando a linha do horizonte. Então meus olhos se encheram de lágrimas e o peito de fogo. — O senhor vê a linha do horizonte e tudo o que está aí embaixo, para além do vidro? Onde seus olhos alcançarem, podem olhar. É tudo propriedade de meu Parceiro. Ele cuida de mim há muito tempo. Eu só estou aqui porque Ele está prometendo que vai caminhar comigo pelo caminho. É Nele que eu confio. Tenho muitos amigos, contatos, relacionamentos e sei vender idéias. Mas é no meu Parceiro que eu confio — disse com fé. O ambiente ficou silencioso! Convidaram-me para almoçar, mas declinei, visto que tinha de sair dali para o aeroporto, pois ainda ia pregar numa outra cidade naquela noite. — É nossa. É nossa. Aleluia! — vibrava Alípio, no dia seguinte, do outro lado da linha, como se a fábrica jamais tivesse sido dele. — Vamos preparar os documentos agora. Como é que faremos isso? — disse com extrema felicidade.


— Pode mandar preparar o contrato de comodato que eu assino. As condições, seu advogado pode estabelecer que eu aceito — falei. Alípio e os irmãos Seibel não apenas nos entregaram a propriedade num comodato sem custo para nós, como ainda se dispuseram a reconstruir o prédio central, que fora todo destruído pelo fogo. Puseram todo o seguro do incêndio na reconstrução da estrutura, e Alípio ainda tirou do próprio bolso e investiu na complementação da obra. Ao todo, foram gastos um milhão e oitocentos mil dólares. Um milagre! Para aquele primeiro momento de assentamento das bases da cidade de refúgio, eu precisava de uma pessoa de confiança. Por isso, chamei Lídia Mello, que já trabalhara comigo durante cerca de oito anos e agora estava de volta à Vinde. A notícia de que eu havia ganhado a Formiplac de presente espalhou-se como um incêndio em depósito de pólvora. A mídia correu em cima. Todos queriam saber o que faríamos ali. “Cidade de refúgio é um bom conceito, mas não é um bom nome. Isso aqui não é uma cidade. É uma fábrica, pensei.” Fui para a esquina lateral da fábrica, de onde ainda se podia ver as letras de aço escovado com o nome Formiplac, e fiquei contando as letras. “Qualquer que seja o nome, é bom que se utilizem letras já existentes. Nessa dureza que nós estamos não podemos gastar dinheiro à toa”, ponderei outra vez. “Como isso aqui é uma fábrica e nós vamos criar melhores condições de vida para as pessoas, e considerando as letras de aço de Formiplac, podemos chamar o empreendimento de Fábrica de Esperança” — concluí sozinho, em pé na esquina da favela de Acari. — Olha, o nome que vamos usar é Fábrica de Esperança — falei aos que trabalhavam comigo. — Mas não era bom a gente fazer um brainstorm — sugeriu alguém. — Desculpem, mas agora é a hora de meu doce despotismo se manifestar. O assunto não está mais aberto para discussão. Já registrei o nome no banco de logos e patentes de meu coração. Não tem mais volta — falei e tomei todas as providências para que nosso empreendimento social fosse conhecido com aquele nome. Os meses seguintes foram de muitas visitas a presidentes de multinacionais, a fim de convencê-los a entrar no projeto da Fábrica de Esperança conosco. A Xerox foi a primeira a aderir, e com o capital moral que ela nos “emprestou”, ajudou-nos imensamente a atrair outros parceiros. Minha agenda pessoal, no entanto, estava mais louca do que nunca. Continuava viajando para pregar em todo o Brasil semanalmente, dirigia empreendimentos que cresciam, presidia entidades que demandavam tempo para articulações diversas, estava mais que envolvido nos assuntos de natureza social da cidade, despendia tempo com as várias situações que a amizade pastoral com Nilo foram também criando e, ainda, de quebra, me comprometera a visitar Bangu I pelo menos uma vez a cada 15 dias.


Capítulo 44 “Quando Deus manda algo contra os costumes ou pactos, sejam eles quais forem, deve ser obedecido, embora o que mande nunca tenha sido feito antes; e se se deixou de fazer, deve ser restaurado, e se não estava estabelecido, deve ser estabelecido.” Santo Agostinho, Confissões

Parazão não conversa. Parazão mata, era o que dizia a placa que o Jornal Nacional mostrou pendurada na frente de uma grade de ferro. Parazão era um traficante que lutava pelo domínio da favela de Acari, então sob o controle de Jorge Luís. E pior: a placa estava sobre treze corpos abandonados em frente à Fábrica de Esperança. — Você viu? É lá na frente da fábrica — disse Alda, desviando o olhar da televisão e me olhando assustada. — Meu Deus, onde é que nós fomos nos meter? Mas como você disse, não tem mais volta — falei para minha esposa. Como estava profundamente dedicado à evangelização dos presos de Bangu I, e como lá dentro conhecera pessoas que do lado de fora tinham fama pior do que o tal Parazão, preferi pensar que talvez por trás daquele bicho houvesse um homem, e assim prossegui sem medo. As idas ao presídio de segurança máxima eram incríveis sob todos os aspectos. Primeiro, porque ali cheguei mais perto do que nunca da ambigüidade humana; tanto a minha quanto a dos outros. Conhecer um criminoso temido por todos e de repente perceber a humanidade dele mais que viva foi algo esmagador para mim. Não podia mais tratar aquelas pessoas, e ninguém mais dali para a frente, apenas como caricaturas de jornal. No início, eu achava que lá havia apenas bandidos mantidos atrás das grades. Depois é que vi que havia gente nas celas de Bangu I. E tais pessoas, antes de estarem presas dentro dos cárceres de cimento, estavam confinadas dentro de seus próprios corpos, os quais, às vezes, estavam dominados por monstros ou apenas por fantasmas de um momento, que fizeram vítimas de tempos e circunstâncias históricas, feitas crônicas. Mas foi só depois de constatar a prisão dos corpos que percebi a prisão nos corpos. E isso me liberou para visitar não apenas o presídio, mas a prisão mais profunda, onde aqueles espíritos humanos se encontravam. A experiência ali também me revelou o poder enorme que a mídia tem de estabelecer a existência referencial de certos monstros, cuja existência passa a ser uma necessidade social. O Rio não tem como viver sem a presença histórica daqueles bichos. Eles são fundamentais quanto


a afirmarem a bondade do carioca, cuja sociedade estaria como está, não por causa de milhares de desencontros coletivos, mas em razão da existência de apenas alguns seres perversos, que destroem as esperanças coletivas e a boa intenção dos governantes e das elites. As elites soltas precisam criar elites presas, a fim de maquiarem a realidade coletiva. É mais simples e mais barato. Por isso, passei a ver Bangu I como um lugar que ocupava um papel de natureza psicopolítico-religiosa. Não tinha o poder de redimir a sociedade dos seus pecados, mas dava a ela certeza de onde poder encontrá-los e explicá-los. Ali também pude perceber que o poder que aqueles homens presos exercem do lado de fora é exatamente proporcional ao poder que aqueles que, estando fora, com força para governar legitimamente, deixam de exercer para o bem comum. Ou seja: eles não tinham poder. Eles eram ungidos pela omissão das forças constituídas e pela sua incapacidade de agir consistentemente a favor dos desgraçados deste mundo. Além disso, constatei a conexão que havia entre aquelas criaturas e o poder constituído. Ali dentro podiam-se ouvir histórias incríveis de como, em outros tempos, governantes se serviram politicamente da ajuda de alguns deles e do quanto seus vínculos do lado de fora atingiam pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita. Havia quem afirmasse ter tido até caso com grandes mandatários do mundo político. Algumas das histórias que ouvi eram claramente fantasiosas. Outras, todavia, tinham todos os contornos e detalhes da verdade. Depois de ouvi-las, às vezes não podia dormir à noite. Até março de 1994 eu pregava em todas as galerias de Bangu I, menos na D, onde estavam Escadinha, Japonês, Paulo Maluco, Adão de Vigário e outros. — Hoje eu vou lá — disse assim que botei os pés no presídio naquela tarde. — Cuidado, que a barra aí é pesada — disse o agente carcerário que estava abrindo as três portas de barras de ferro que dão acesso ao interior de cada galeria. Bati palmas e pedi um pouquinho de atenção. Paulo Maluco, irmão de Escadinha, gritava num dos cantos. — Eu quero é o diabo. Eu odeio Deus — dizia aos berros. Pastor Washington e outro rapaz iniciaram os cânticos. Apenas uns seis dos doze homens que ali estavam vieram para junto de nós. — Gente, quero contar uma história sobre um homem que dava pinote de todas as prisões. É sobre um cara que abria todas as cadeias e fugia — eu disse com um sorriso sério na face. — Essa história eu tô precisando ouvir — disse Escadinha, enquanto os outros davam uma gargalhada coletiva. O grupo aumentou substancialmente. Apenas Paulo Maluco continuou distante, gritando suas provocativas invocações ao diabo. — Havia um homem que morava numa cidade chamada Geresa. Ele era o Geraseno. Um dia, aquele homem se percebeu cheio de vontades ruins dentro dele. No início, ele apenas notava aqueles desejos. Depois, os desejos cresceram tanto, que o dominaram. Então, ele ficou possuído pelos desejos. Eram mais de dois mil desejos que possuíam o homem a só um tempo. Cada um o impulsionava numa direção. A força do homem era tão grande, que ele quebrava as correntes que nele eram postas, arrebentava todas a grades das prisões e fugia de qualquer cadeia — falei. — Iiiii cara! O bicho era muito doido — alguém falou rindo. — Traz um desses pra cá, reverendo! — falou outro. Outra gargalhada. — Jesus atravessou o mar da Galiléia e foi até Geresa libertar o homem da tirania dos desejos do mal. “Saiam dele, espíritos imundos”, disse Jesus quando viu o homem dos dois mil desejos ruins. “Não mande a gente pro abismo”, disseram os desejos do inferno. “Como é o nome de vocês”, indagou Jesus. “Nosso nome é Legião”, falaram os espíritos.


— Eu não quero Deus. Eu quero é o diabo. Meu Deus é dólar no bolso — gritou mais uma vez Paulo Maluco, interrompendo minha história. Escadinha e Japonês olharam para ele com firmeza. Escadinha fez um gesto com a mão mandando ele se calar, e Maluco sossegou na hora. — Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos que estavam ali. Então, os dois mil porcos se jogaram de um abismo e morreram afogados no lago de Genezaré — falei, enquanto eles e o carcereiro, que mostrava apenas a metade do rosto atrás da porta, me fitavam sem piscar. — Os demônios saíram do homem e ele ficou sentado aos pés de Jesus, em perfeita paz — concluí. — É, cara, tem muita coisa ruim no ar — falou um deles. — Mas o que quero falar aqui é o seguinte, gente. Jesus libertou esse homem de dois poderes. O primeiro foi o poder dos demônios, dos desejos invisíveis do mal. Esse poder é fácil de sair. “Sai dele”, a gente diz, e ele sai, porque o nome de Cristo tem poder sobre as forças invisíveis da maldade. O difícil é a libertação de um outro poder — falei. — E que outro poder é esse? — perguntou Japonês, saindo do silêncio e entrando na conversa como quem não quer nada. — Ora, o nome da cidade do homem era Geresa. Esse nome vem de uma palavra hebraica que significa “o expulso” ou “o possuído”. Então, até a cidade estava possuída pela “idéia da possessão”. Durante mais de trezentos anos eles tinham sido possuídos por exércitos de inimigos. Naquela época, os romanos e suas legiões estavam lá. Por isso os demônios disseram a Jesus que o nome deles era Legião — falei fazendo uma pausa para me certificar de que estavam me entendendo. — Que barato, cara. Que barato! — disse Escadinha. — Mas olha, alguém aqui acredita que seja possível construir uma corrente que nenhum ser humano possa quebrar ou fazer uma cadeia que ninguém possa arrebentar? — indaguei. — É claro. Tem corrente tão forte que nem com o diabo no couro a gente consegue quebrar — alguém comentou e os outros riam. — É isso aí. O limite de um demônio num corpo é o próprio corpo. Se eu fizer mais força com meu braço do que o meu osso agüenta, o braço quebra — falei. — Mas e daí? O que o senhor tá querendo dizer? — indagou Adão. — O que eu estou dizendo é que se aquele homem quebrava tudo e fugia sempre, era porque o pessoal da cidade queria que ele fizesse aquilo. Caso contrário, fariam uma prisão da qual o homem jamais fugiria — afirmei. — E como é que o senhor sabe que eles não queriam que o cara ficasse preso? — indagaram. — Quando Jesus libertou o homem, os moradores da cidade foram ver o que estava acontecendo e não gostaram de ver o homem livre, são. Então, pediram a Jesus pra ir embora de lá. Dá pra entender um negócio desses? — perguntei. — Que é isso, bicho? Que negócio maluco — falaram entreolhando-se. — Pois é, mas aconteceu. E sabem por quê? Porque a cidade precisa de seus malucos. Ela precisa do Escadinha para se sentir melhor. Precisa do Japonês pra se sentir mais humana. O Rio precisa dos “desencontros” de vocês pra ficar com a sensação de ser um lugar de gente equilibrada. Vocês são tão malucos e fazem coisas tão incríveis, que acabam sendo úteis aos demais. Perto de vocês, todos os loucos se sentem sãos e todos os malandros se sentem honestos — falei sem certeza de que estava sendo entendido. — E mais: como os crimes de vocês são crimes dos pobres, vocês servem para fazer com que o banditismo do rico se torne civilizado, entenderam? — acrescentei. — É isso aí. Os caras não querem que a gente se recupere, não. Quando a gente fala em regeneração, eles brincam com a gente. Num dá pra entender. O que eles querem? Que a gente


morra bandido? — perguntou Escadinha, chegando exatamente onde eu queria que todos chegassem. — Das forças dos desejos malignos, Jesus liberta vocês. Mas das forças dos desejos loucos da sociedade, só vocês mesmos podem se libertar. E vocês se libertarão disso quando, em vez de fugirem de cadeias e quebrarem correntes, vocês se assentarem aos pés de Jesus. Se vocês começarem a buscar sanidade andando com Jesus, o Rio vai entrar em crise. E essa crise será boa, pois obrigará os cariocas a ficarem cara a cara com suas próprias loucuras e culpas. Afinal, vocês já não estarão aí pra carregar as sombras, as loucuras e as feiúras de todos — acrescentei com força. — É, a culpa é dos caras e eles querem jogar na gente — disse um deles. — Não! A culpa é de vocês. Ou vocês estão aqui de graça? Ninguém aqui aprontou à beça pra estar aqui? É claro que sim. O que eu estou dizendo é que, além da culpa de vocês, que existe e é real, vocês também estão carregando uma culpa coletiva, que é de muitos — afirmei com medo que alguém ali achasse que eu estava alisando a cabeça deles. Afinal, eu sabia que estava sendo ouvido e gravado. — Tá na hora, reverendo — falou o carcereiro mostrando-me o relógio. — Tá cedo, gente boa — eles responderam quase em coro. — O senhor volta quando? — indagou Escadinha. — Semana que vem — respondi. — Aí ó, posso dá um abraço no senhor, reverendo? — indagou o famoso José Carlos dos Reis Encina. — Claro — consenti. Ele me abraçou com extrema ternura. Depois veio o Japonês. Não pediu para abraçar. Apenas abraçou com os músculos do peito retesados como uma tábua. Em seguida, olhou-me profundamente os olhos. — O senhor é gente boa. Vem aqui com a gente sempre, certo? — disse. Um a um, todos fizeram questão de me abraçar. — Reverendo, num leva a mal o meu irmão, não. Ele é ruim da cabeça — falou Escadinha, se desculpando pelas provocações de Paulo Maluco. — Fica tranqüilo. Eu tô acostumado — falei e desapareci no labirinto de corredores, enquanto ouvia o bater forte das portas de ferro que iam sendo irremediavelmente trancadas atrás de mim. Durante todo o ano de 1994 visitei aqueles homens quase todas as semanas. Ouvi suas histórias e contei-lhes histórias do evangelho. Orei com eles e ouvi sobre suas memórias de arrependimento. Para mim, eles deixaram de ser apenas bandidos e passaram também a ter nome e humanidade. Alguns, eu sabia, estavam buscando cura para a vida. Outros me recebiam bem apenas porque não havia razão para me receber mal. Eu, entretanto, perdi completamente qualquer temor deles. Depois de muitas visitas e muitas orações, tive a suprema declaração de sua simpatia para comigo. — Reverendo, eu não tenho nada além de muita coragem. Se alguma vez na vida o senhor precisar de um homem pra oferecer o peito pra levar uma bala pelo senhor, é só me chamar. Pelo senhor, eu morreria com prazer — disse Japonês numa das muitas vezes em que me despedi deles naquelas tardes de quinta-feira.


Capítulo 45 “Não obstante isto, o menor de Teus Apóstolos, por cuja boca pronunciaste essas palavras, quando suas armas venceram o orgulho do procônsul Sérgio Paulo, quando, sujeitando-o ao leve jugo de Teu Cristo, elas fizeram dele um súdito do grande Rei.” Santo Agostinho, Confissões

Na véspera da posse de Nilo Batista como governador do estado do Rio de Janeiro, o jornal O Globo amanheceu com uma matéria devastadora. A fortaleza do banqueiro do bicho Castor de Andrade havia sido estourada, e lá haviam encontrado uma lista com nomes de pessoas importantes do cenário político carioca. Na tal lista havia as iniciais N.B., que foram imediatamente interpretadas como sendo as de Nilo Batista. No mesmo caderno de anotações havia valores que, presumivelmente, corresponderiam a investimentos do banqueiro em campanhas políticas. — Verinha, tá tudo bem? — perguntei à esposa de Nilo ao telefone. — Que nada. Que barra-pesada, Caio. Esse pessoal é mau. Querem destruir a gente. Você quer falar com o Nilo? Ele tá no telefone vermelho com o governador. Ele te liga em cinco minutos — falou Verinha com a voz agitada, como era de se esperar. Não demorou nem cinco minutos e Nilo me ligou de volta. — Olha, eu te conto tudo depois. Mas é suficiente apenas dizer que não é nada disso. Estão querendo me incriminar e sujar meu nome. Faço questão de lhe contar tudo com calma — Nilo falou com sinceridade na voz. — Olha, eu não preciso saber de nada. Eu acredito em você. E mesmo que tivesse acontecido alguma coisa, e daí? Todos cometemos equívocos. Não haveria nada de extraordinário nisso, não fosse sua posse amanhã — falei com carinho pastoral. — Eu sei. Mas o fato é que eu não estou nessa lista. Não do jeito que eles querem me fazer aparecer. Se estivesse, eu falaria. Quero ser tudo, menos hipócrita — reafirmou Nilo sem qualquer titubeio. Pedi para fazer uma oração por ele ao telefone e depois subi ao escritório de minha casa para escrever um fax com uma palavra pastoral para Nilo, Verinha e as crianças. E daquele dia em diante, eu lhes enviaria dezenas de outros fax com textos bíblicos e palavras de conforto e estímulo. No dia seguinte, Lucilia, amiga de Verinha e minha amiga desde a infância, foi comigo à posse de Nilo. O corredor polonês estava montado. Ele teria de passar por dentro dele, com


políticos e repórteres para todos os lados. Eu e Lucilia ficamos de longe. — Que massacre, Caio. Que horror será essa posse! — disse Lucilia preocupada com o clima. Nilo veio entrando sob as luzes e os microfones. Eram perguntas de todos os lados. As vozes se misturavam de tal modo, que nem dava para entender direito o que a multidão dizia. — Nilão, meu irmão — falei sem esperança de ser ouvido quando ele passou a uns cinco metros de nós. Nilo parou e me procurou no meio da multidão. Saiu de seu caminho e veio em minha direção. Abraçamo-nos com fraternidade e compromisso afetivo ali no meio de todos. — Vai firme, irmão. Vai firme porque Jesus tá contigo — falei discretamente, mas sem sussurrar. A posse aconteceu e o massacre continuou. Depois fiquei sabendo que a história do nome de Nilo na lista do bicho poderia ter relação com uma doação feita por um banqueiro à ABIA, instituição de apoio a aidéticos da qual Nilo era conselheiro e Betinho o fundador. Mas como a explicação envolvia Herbert de Souza, uma das figuras mais inatacáveis da nação, em vez de esclarecer os fatos, apenas os turvou ainda mais. — Nilo, deixa esse pessoal provar o que está dizendo. Você sabe que não recebeu nada. Não fica se defendendo. Olha, o prefeito César Maia e o ex-prefeito Marcello Alencar também têm seus nomes na tal da lista. Mas como estão calados, vão ser esquecidos. Não fica aí se defendendo por que isso atrapalha você — falei muitas vezes. Mas o problema era que Nilo sabia que aquilo era uma tremenda injustiça que estavam fazendo com ele e não podia admitir que o nome que ele construíra com tanto esforço fosse enlameado tão perversamente. Se Nilo fosse um político de carreira, aquilo não o teria machucado tanto. Mas como ele tinha outra história, tendo ganhado a vida como um dos mais brilhantes criminalistas do Brasil e como intelectual, aquela controvérsia o feriu com um poder devastador. Um grupo de amigos fiéis esteve sempre presente, dando a ele e a Verinha a certeza de que não estavam sós. Com pressões de todos os lados, Nilo encontrou na leitura da Bíblia e nas orações seu refúgio pessoal. Começou a ir aos cultos da Catedral Presbiteriana do Rio e decidiu instituir um culto semanal no palácio, todas as segundas-feiras. Além disso, achou que não era justo que o cardeal dom Eugênio Salles fosse o único líder religioso com acesso à rede do telefone vermelho pelo qual ele podia chamar o governador e todos os secretários de estado a hora que quisesse. “Vou instalar telefones vermelhos na AEVB e no Rabinato também”, disse ele e fez o que prometeu alguns dias depois. Em maio de 1994 batizei o governador do estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista, na sala de sua casa, no morro de Santa Teresa. Foi uma cerimônia simples, presenciada apenas por uns poucos amigos de fé. Depois conversamos até de madrugada e fizemos votos de felicidade uns aos outros. Enquanto isso, a luta continuava em todas as frentes. A campanha presidencial se acirrava, a violência no Rio era maximizada e já se falava em intervenção militar no estado. Quanto a mim, estava tão “tomado de coisas”, que a sensação que me dava era a de que eu estava vivendo dentro de uma câmara de lapso de tempo. A cada dia acontecia de tudo. Eram repórteres querendo ver se chegavam ao governador por meu intermédio; outros queriam que eu os ajudasse a entrevistar Gregório, o Gordo, ou Escadinha; outros, ainda, desejavam saber se eu era aliado político de Lula ou Brizola. E ainda havia o contingente que desejava me entrevistar em razão de temas diversos, com os quais me envolvi sem nem bem perceber: arbitrariedade da polícia, direitos dos favelados, situação da população carcerária, crescimento da violência urbana, liberação ou não das drogas e, de quebra, o tema do crescimento vertiginoso dos evangélicos. Naqueles dias, lançamos também a Cartilha evangélica do voto ético. A tal cartilha gerou mais


um monte de entrevistas. E a Fábrica de Esperança, que começava a se desenhar como um megaprojeto social, também atraía imensa curiosidade. Em meio a tudo aquilo, Edir Macedo e a Universal eram temas que estavam sempre presentes em todas aquelas entrevistas diárias tanto da mídia nacional quanto da internacional. Eu falava de tudo, mas fugia como podia dos assuntos relacionados a Macedo e sua igreja. A grande questão para a mídia a partir de julho de 1994 eram as eleições para presidente e governador. Assim, de repente eu me vi no meio de uma briga que não era minha. A Universal dizia que apoiava Orestes Quércia, mas fazia pactos com Fernando Henrique Cardoso. E para ficar mais à vontade, dizia que eu e a AEVB estávamos comprometidos com o PT de Lula. Assim, a fofoca política corria solta no meio evangélico. No Rio, a briga pelo governo do estado era entre Marcello Alencar e Garotinho, o candidato de Brizola. — É verdade que nas eleições nacionais o senhor é Lula e nas estaduais é Garotinho? — foi a pergunta que ouvi até não agüentar mais naqueles dias, o que me fez desejar ardentemente que as eleições acabassem logo. Até ali, contudo, minhas relações com Macedo e a Universal mantinham-se controladamente distantes, porém sem confrontação. Como Nilo e Verinha levaram Brizola lá em casa para comermos um gostoso tambaqui amazônico e passamos a tarde numa saborosa conversa sobre a história política do Brasil neste século, com direito a viagens íntimas pelas nossas percepções espirituais e leituras de fé sobre a realidade que nos cercava, correu também que eu estava costurando uma possível aliança entre os evangélicos e o PDT ou, quem sabe, um acordo entre Brizola e Lula para um eventual segundo turno das eleições presidenciais. Tudo invenção! — Meu nome é Sérgio Rodrigues e eu queria fazer uma entrevista com o senhor para a capa da Vejinha desta semana — disse-me o repórter naquela terça-feira. Três dias nos encontrando para conversar. No domingo, dia 7 de agosto, passei na banca de revista da entrada do condomínio onde moro em Itaipu e vi minha foto na capa. — O senhor saiu na capa da Vejinha — disse o jornaleiro. A capa era singela. O bom pastor. Subtítulo: Líder evangélico acusa bispo Macedo de mercantilismo e prega ação social. As palavras que introduziam a matéria diziam o seguinte: “O homem que converteu o governador Nilo Batista e o presidiário Gordo ao protestantismo não é famoso como o vilanizado bispo Macedo, mas está a caminho disso. E pelo lado bom. Líder dos evangélicos éticos, o pastor Caio Fábio, da Igreja Presbiteriana, luta para erguer numa antiga fábrica em Acari a maior obra social do país.” No texto havia uma referência a mim como sendo o anti-Macedo, e a afirmação de que eu o acusara de fetichismo e mercantilismo religioso me fizeram gelar o estômago. — Mas você disse isso? — perguntou-me Alda com desconforto, como quem dizia: “você está procurando sarna pra se coçar”. — Falei e não falei — disse. — Descrevi os métodos deles e disse que eram mercantilistas e fetichistas. Mas não fiquei falando deles. Foi mais dos conceitos. Mas se saiu na capa que falei, tá falado. É isso que eu penso mesmo — disse como quem estava cansado de fugir do assunto. — Mas o repórter não podia ter escrito isso se pra você não era importante — disse Alda com uma certa ingenuidade jornalística e com seu habitual senso de justiça. — Mas eu falei. Só não falei como a coisa mais importante da entrevista e nem fiquei pisando nessa tecla. Mas falei sim. Em três dias de papo, mencionei o assunto uma vez e de passagem. O editor lá deve ter achado que a chamada estava aí. O que eu posso fazer? Com a mídia a gente só tem uma opção se não quiser correr nenhum risco: não dar a entrevista. Mas se der, tem que arcar com as conseqüências — falei sem ressentimento. Afinal, eu havia falado algo sobre


Macedo, sem dúvida. De fato, o trabalho jornalístico de Sérgio Rodrigues havia sido limpo, sensível e até poético. No encontro das contas, eu estava feliz com a matéria, e não somente eu, mas dezenas de líderes evangélicos, que me telegrafaram ou telefonaram dizendo-me orgulhosos de que enfim nós estivéssemos sendo vistos como gente séria pela imprensa. A matéria da Vejinha foi a gota d’água para deflagrar meu confronto com Macedo e seus liderados. Dali em diante, a Universal entrou na briga para valer, e eu iria sentir o poder de sua fúria. — O Quércia e o FHC não virão ao debate da AEVB com os presidenciáveis — foi o que o reverendo Luís Wesley, secretário executivo da Associação Evangélica, me disse com um tom de angústia na voz, e eu corri para o escritório de Quércia em São Paulo. — Desculpa, reverendo. Houve uma confusão na agenda. Não poderei ir ao Rio amanhã — disse-me o candidato do PMDB. Expliquei que a ausência dele seria desastrosa. Tiraria o equilíbrio do evento e daria a impressão de ser um debate tendencioso. — Farei o possível para comparecer — disse-me. Eu, entretanto, sabia que ele não iria ao hotel Glória, onde aconteceria o debate evangélico brasileiro com os presidenciáveis. — Reverendo, lamento muito, mas não será possível que o senador esteja aí para o debate de amanhã — disse-me Pimenta da Veiga, coordenador da campanha de FHC. Botei todo mundo em cima dele: deputados, senadores e assessores, mas ninguém conseguiu recolocar Fernando Henrique em nossa agenda. — Reverendo, o senador Fernando Henrique está na linha — disse-me Cristina. — Senador, sua presença aqui é imprescindível — falei em tom de súplica. — Reverendo, houve uma confusão aqui na agenda e não poderei ir. Lamento muito. Não quero que a AEVB me entenda mal. Estou mandando uma carta para o senhor. Espero encontrá-lo em breve — disse aquele que viria a ser o próximo presidente do Brasil. A carta veio. Mas FHC não apareceu! Quércia mandou um preposto. Foi um fiasco. Lula veio e roubou a cena toda. Brizola foi singelo e acabou participando de uma sessão de nostalgia metodista, falando dos tempos em que foi evangélico e freqüentou aquela igreja em Porto Alegre. Foi só depois que fiquei sabendo o que aconteceu. Amigos de São Paulo, bem próximos à liderança da Universal, disseram-me que “os bispos” puseram pressão nos coordenadores políticos dos dois candidatos ameaçando retirar o apoio da igreja, caso eles fossem ao debate. E como demonstração da validade de seu pedido, teriam mandado uma cópia da Vejinha daquela semana. — A questão era: quem fosse estaria trocando o certo pelo duvidoso. Vocês são muitos também, mas não dão apoio formal a ninguém. Os candidatos teriam que conquistar o voto de vocês. A IURD não. Eles podiam dizer pra eles: “Nós apoiamos mesmo e vestimos a camisa.” FHC e Quércia escolheram o certo ao invés do duvidoso — foi o que me disse um irmão de São Paulo. À medida que chegávamos à reta final das eleições, eu pedia a Deus que o ano acabasse logo. A pressão de candidatos era imensa e o assédio da mídia era muitíssimo intenso não só em relação àquele assunto, mas no que se referia a todos os outros temas também. Eu já não podia trabalhar de tanto dar entrevista. — Você precisa decidir o que vai fazer da vida Caio. Esses repórteres não deixam você em


paz o dia inteiro. Assim seu ministério vai passar a ser o de “entrevistado de Deus”, não o de ministro do evangelho — disse-me Alda, irritando-me de início, mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido.


ministro do evangelho — disse-me Alda, irritando-me de início, mas depois me fazendo perceber onde eu havia me metido

Capítulo 46 “Mas longe de mim pensar que na Tua casa são mais aceitas as pessoas dos ricos que a dos pobres, e as dos nobres mais que as dos plebeus, porque preferiste escolher os fracos segundo o mundo para confundires os fortes; o que é vil e desprezível segundo o mundo, o que nada é, para aniquilar o que é.” Santo Agostinho, Confissões

C

— aio, estou nomeando você para uma comissão de investigação desse episódio de Nova Brasília — disse-me o governador Nilo Batista pelo telefone vermelho que estava instalado em meu escritório em Niterói. Ele se referia a uma operação legítima das polícias civil e militar naquela favela do chamado Complexo do Alemão, mas que acabara sendo prejudicada pela ação livre e exterminadora de alguns policiais. No final da noite, havia mais de dez jovens mortos, alguns deles com clara indicação de terem sido executados sumariamente com tiros nos dois olhos e em outras áreas do corpo que indicavam uma ação meticulosamente estudada pelo executor. — O que a gente vai fazer com essas meninas? — perguntou-me Arthur Lavigne, secretário de Justiça, fazendo referência às três garotas que tinham sido usadas sexualmente por alguns dos exterminadores e que haviam testemunhado algumas das execuções. Acompanhavam as três jovens dois advogados da favela. Um deles era magro e bastante articulado no modo de se expressar. Disse que era advogado de bandido porque encontrava mais humanidade neles que nos policiais. Contou-nos histórias bárbaras sobre suas negociações com alguns policiais, para os quais havia passado dinheiro dos bandidos nas famosas maneiras, a fim de que seus clientes pudessem ser liberados após o resgate. — Eu choro de amargura quando meu filho diz que quer ser policial. “Pelo amor de Deus, menino, vai ser qualquer outra coisa”, é o que eu digo pra ele. “Polícia, não” — contou Dr. Paulo com lágrimas nos olhos, mostrando um sentimento que até ali eu não sabia que existia em profissionais que ganham a vida como ele. O outro advogado era uma figura inconfundível. Falava através de um aparelho especial que ele posicionava num pequeno orifício existente em seu pescoço, o que dava à sua voz um tom metálico, como se um computador multimídia estivesse conversando com você. Esse outro falava pouco, mas parecia saber muito. Depois de longa sessão de depoimentos tomados pela Dra. Marta Rocha e outro profissional


da Corregedoria de Polícia, chegamos de novo à questão crucial. — Onde é que a gente vai colocar essas meninas? — perguntou Lavigne olhando para mim. — O estado não tem como protegê-las? — indaguei. — Onde?, se os acusados são policiais? É muito perigoso. O caso é sério. Elas podem morrer — concluiu. — Então deixe-as comigo. Vou guardá-las — disse. — Ninguém aqui precisa saber. Pode levá-las. Eu aviso quando a gente vai ouvi-las outra vez — falou o secretário de Justiça que, por acaso, era meu primo de quinto grau, vindo do mesmo tronco dos Lavigne do qual procedera minha avó Zezé. Alda, minha esposa, estava viajando. Tentei colocar as garotas numa casa evangélica em São Gonçalo, mas não deu certo. — É quieto demais lá, tio — disse uma delas. O jeito foi levá-las para minha casa. Cilene, morena, magra, de rosto fino, tinha 18 anos e era uma mulher já de certa experiência. Aninha, entretanto, era uma adolescente de apenas 16 anos, falante, alegre, charmosa em sua pobreza e dona de uma apuradíssima inteligência. Tinha resposta para tudo e estava sempre à frente de todos durante as entrevistas. Martinha, no entanto, não passava de uma criança. Grande, meio gordinha, tinha todas as formas de uma mulher bem desenvolvida, mas idade e coração de uma menina. Apenas treze anos. Sendo a mais nova, foi, no entanto, a mais traumatizada de todas na chacina de Nova Brasília. — Eles me abusaram. Enfiaram tudo que quiseram em mim. Puseram até faca dentro das minhas partes. Fizeram tudo do jeito que quiseram. Me arrombaram. O negão ficava rindo enquanto o outro derramava o gozo dele na minha cara — disse ela entre muitas outras declarações chocantes. As três tinham “enviuvado”. Seus homens, todos rapazes de idades variando entre 17 e 19 anos, haviam sido executados na mesma noite e praticamente do mesmo jeito. Os “meninos” eram do tráfico e andavam armados. Apenas um deles tinha envolvimento secundário no “movimento”. — Eles levaram o Biriba para o fundo do quintal algemado e depois eu vi o corpo dele sem algemas e com dois tiros nos olhos — disse Aninha acerca de seu “homem”, como elas os definiam. Fui e voltei daquelas sessões de interrogatório com elas algumas vezes, talvez três ao todo. No fim do processo, percebi que minha chegada ao local dos interrogatórios causava agitação. Era como se o inimigo tivesse chegado. Depois de alguns dias, as meninas desapareceram. Cheguei a pensar que tivessem sido mortas. Apenas dois meses depois foi que as encontrei vivas na favela de Nova Brasília, numa das “invasões noturnas de paz” que fazia na cidade, e fiquei sabendo que elas haviam fugido porque preferiam o risco da morte na favela do que a confortável reclusão de minha casa. — Aquele seu loirinho é um gato. Mas tá amarrado, né? Se tivesse livre, eu pegava pra mim. Mas homem dos outros a gente tem que respeitar — disse Aninha, fazendo alusão ao fato de meu filho Davi ter namorada. O episódio de Nova Brasília foi seguido de um outro em Vigário Geral. A denúncia foi feita por Caio Ferraz, mas eu fui outra vez o mediador da situação. O clima ficou pesado, pois, numa incursão legal na favela, os policiais pegaram um rapaz. O moço tinha carteira de trabalho e a multidão dizia que ele era “trabalhador”, palavra mágica naqueles contextos, só superada pelo elogio “otário”, especialmente quando pronunciado por um bandido em favor de uma pessoa honesta. Mesmo assim, o moço foi levado pela polícia para a beira do rio que passa atrás da favela


e encapuzado com um saco plástico, após o que foi virado de cabeça para baixo e enfiado dentro d’água. A intenção alegada era fazer o rapaz falar onde estavam as armas que os policiais estavam procurando. Repetiram tantas vezes essa “ação de convencimento”, que o moço faleceu dentro do rio. O corpo foi então posto num puçá e guindado pelo helicóptero da polícia. A multidão correu pela favela olhando para cima, na direção onde o corpo estava sendo levado pelo meio do céu. O helicóptero, então, parou em cima do CIEP local e, de uma altura de cerca de cinco metros, abriu a rede e deixou o corpo cair na quadra da escola. — Chegou a quicar no chão. O som foi horrível. Nunca vou esquecer — disse-me a mãe do rapaz. Falei com Nilo e ele disse para eu levar as testemunhas ao palácio. Depois de ouvi-las, encaminhou-as para a Corregedoria de Polícia, onde a Dra. Marta Rocha iria interrogá-las. Eu havia aprendido na prática, desde o outro episódio, que Marta era gente com quem nós podíamos contar. Mas quando deixei Caio Ferraz e as testemunhas na porta da Polícia Civil, deu para ver os olhares incendiados de ódio que recebi dos guardas do portão. Fiquei ali apenas um pouco e tive de me ausentar para o aeroporto, a fim de viajar. No dia seguinte eu estava de volta ao Rio. — Nós não ficamos lá não, pastor! — disse-me Caio Ferraz. — Os caras começaram a ameaçar a gente. Até a mulher do cafezinho disse que a gente tava fazendo besteira, que o garoto que foi afogado pela polícia era traficante e que nós estávamos prejudicando a carreira de policiais pra defender bandido — continuou. — Depois disso e de muitas outras ameaças, até a mãe do garoto estava querendo ir embora e retirar a queixa — terminou Caio com seu estilo nervoso de quem fala mais palavras ao mesmo tempo que a maioria dos mortais que conheço. Não deu em nada. Aqueles dois episódios me ensinaram duas lições. Tínhamos tudo para ver as coisas andarem. Um governador humano e disposto ao sacrifício para fazer a Justiça prevalecer, um secretário de Justiça socialmente comprometido com causas justas, uma corregedora de Justiça amiga e bem-intencionada, mas nem assim conseguíamos ir a lugar algum. Por quê? Primeiramente porque o corporativismo da instituição policial só funciona eficientemente quando se trata de proteger os maus-elementos dentro da corporação, mas é completamente incapaz de agir para proteger a corporação dos maus-elementos. Além disso, também ficou claro para mim que qualquer tentativa de se exercer uma política de direitos humanos que eventualmente aconteça contra membros da instituição policial, estando esta instituição no Rio de Janeiro, será sempre entendida como ação a favor de criminosos. O clima de enfrentamento entre policiais e bandidos ganhou tal grau de rivalidade marginal, que o espírito que prevalece já não é mais o da cidadania fardada contra a criminalidade perversa. O que se tem é apenas a guerra do nós contra eles. E quem quer que pleiteie que a nossa ação seja feita de modo diferenciado da ação deles, vai ser julgado como alguém que está do lado de lá. Meu compromisso com os direitos humanos colocaram-me na pior lista em que estive em toda a minha vida: a lista negra de alguns maus policiais do Rio.


Capítulo 47 “Tinhas ferido nosso coração com Teu amor, e lá levávamos Tuas palavras cravadas em nossas entranhas; reuniam-se no fundo de nosso ser numa espécie de fogueira, que inflamava e consumia nosso torpor, para que o vento da contradição das línguas dolosas não apagasse a chama em nós, antes nos incendiasse mais ardentemente.” Santo Agostinho, Confissões

Em setembro de 1994 a mídia começou a falar mais explicitamente em “intervenção federal no Rio”. O assunto era, no mínimo, confuso e profundamente controverso. Para uns, soava como a grande chance de desmoralizar o governo do PDT, de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro. Para outros, era apenas uma questão de simplismo pragmático, calçado na idéia de que o Exército tinha conseguido acalmar o Rio durante a conferência internacional Eco 92, razão pela qual poderia voltar a fazê-lo. Tolice. — Gregório, o que você acha disso? — perguntei ao Gordo, agora preso no complexo da rua Frei Caneca. — Reverendo, eles estão loucos. Fazendo assim eles correm o risco de desmoralizar as forças armadas e ainda sofisticar o crime. Os “meninos” vão ficar mais espertos, os soldados vão ser corrompidos, os “grupos” que estão organizados em uma ou duas favelas numa região vão acabar ficando unidos a outros grupos espalhados pela cidade. Não sei, não. Vai ser pior — disse o Gordo. Rubem César não queria a intervenção, mas apenas uma ação coordenada das várias polícias trabalhando juntas, especialmente nas divisas, coibindo a entrada de drogas e armas. Entretanto, no Viva Rio havia também visões pessoais diferentes da dele. E alguns dos que pensavam com outros interesses emitiam suas opiniões na mídia não em nome do Viva Rio, mas a partir de suas bases de operação, fossem políticas, comerciais ou empresariais. Assim, ficava a impressão de que a intervenção era uma bandeira do movimento. Conversas freqüentes com Artur Lavigne deixaram Rubem César completamente convencido de que a interpretação que Nilo tinha dos fatos estava correta. Desde o início daquele ano Rubem vinha conversando regularmente com o então secretário de Justiça, de quem ouvira coisas que estavam totalmente de acordo com a ordem dos fatos, ou seja: ações meramente repressivas nas favelas não passavam de um cansativo, humilhante e custoso modo de enxugar gelo. Era preciso reprimir o crime, mas era mais imperativo ainda fazê-lo nas suas causas geradoras e no seu modus operandi, e não apenas na ponta pobre do processo: a favela.


O problema, contudo, era que certas ações e declarações de alguns membros do movimento suprapartidário Viva Rio muitas vezes se manifestavam de modo bastante ideológico e partidário ou, então, posicionavam-se justamente na direção das forças que tendiam a favor de uma possível intervenção federal gerando, assim, um terrível mal-estar no palácio das Laranjeiras, onde Nilo agonizava ao ver, “gente de tradição democrática se aliando à causa da remilitarização do Rio”. Não é preciso dizer o quanto tais fatos e predisposições magoaram Nilo. E some-se a isso o episódio da lista do bicho que, para além de todo o desconforto público que havia causado na vida do governador, tivera ainda o poder de afastá-lo de Betinho, que também era membro do Viva Rio. Eu estava no meio da briga. Nilo era meu amigo e, além disso, eu também tinha com ele um vínculo pastoral. Era tudo e era só. Não havia de minha parte qualquer tipo de engajamento político partidário com o PDT, como também jamais houvera com qualquer outra agremiação política. Rubem César, por seu turno, era meu amigo de outras jornadas. E ambos mantiveram uma boa amizade entre si até que o Viva Rio começou a ser identificado com um movimento intervencionista. Então Nilo e Rubem passaram a ser vistos como estando em lados separados. O clima ficou tão difícil, que cheguei a pensar que minha posição de “neutralidade fraterna e cristã” poderia ser interpretada por gente mais radical como sendo acomodação interesseira e conveniente. Minha interpretação dos fatos e fenômenos sociais, no que dizia respeito à violência no Rio, estava em total sintonia com a leitura que Nilo e Lavigne faziam da situação. Além do que, minha ação pastoral nos presídios deixara-me muito bem-informado sobre os grandes esquemas de “fabricação política de violências artificiais”. Gregório me dissera muitas vezes como no passado ele fora convidado por representantes dos interesses de alguns candidatos a “infernizar a cidade”, a fim de que o poder em exercício fosse prejudicado no ano das eleições. — Olha, reverendo, tem uma violência aí que é real. Mas tá havendo muito duelo de São Pedro também. Muito tiro pro céu — contara-me ele. No auge da tensão, Rubem estava muito angustiado. Às vezes me telefonava depois de meia-noite e eu podia ouvir o som pesado de sua respiração. Falava-se cada vez mais em intervenção federal ou em operação militar. Rubem queria uma ação conjunta coordenada pelas forças estaduais, mas envolvendo todos os recursos do nível federal. Para Nilo, entretanto, a posição que Rubem assumira se confundia com os interesses daqueles que desejavam ver seu governo naufragando nas vésperas das eleições, favorecendo outras candidaturas. Aí pelo final de setembro, nas vésperas da decisão de se haveria ou não o tal golpe, Rubem me pediu para marcar um encontro dele com Nilo. — Não vejo necessidade. Nós estamos em times diferentes. Mas em consideração ao seu pedido e ouvindo-o como meu pastor, vou atendê-lo — disse o governador. Eles se encontraram e conversaram. O resultado imediato da conversa foi bom e acabou num clima fraterno. No dia seguinte, entretanto, o rolo compressor dos acontecimentos, envolvendo a própria interpretação da mídia sobre o tal encontro, não permitiu que aquele clima de amistosidade pudesse tê-los reaproximado de vez. As forças armadas foram para as ruas, e o melhor que Nilo conseguiu negociar foi que o governo do estado estivesse incumbido da gestão das operações, pelo menos no nível da hierarquia confessada pelos responsáveis pelo golpe. Para quem quer que tenha lido os jornais e acompanhado os meus passos naqueles dias, apesar de toda confusão, uma coisa estava clara: eu era completamente contrário à Operação Rio, pois achava que aquilo era apenas um show de malabarismo militar fadado ao ridículo. A minha façanha, contudo, foi ter ficado numa posição que coincidia com a interpretação de Nilo, mas que entendia também a situação na qual Rubem César se pusera em relação às percepções mais magoadas daqueles que se sentiam atingidos pelo clima de humilhação para as instituições do


estado. Ao mesmo tempo, pude separar as ações mais radicais de membros do Viva Rio mais à direita das verdadeiras motivações da maioria dos que ali estavam, que, se eventualmente se mostravam equivocados, não estavam, entretanto, mal-intencionados. Dias difíceis foram aqueles. Pedia a Deus todos os dias que me fizesse um pacificador de irmãos ao perceber o profundo desencontro de pessoas a quem eu amava fraternalmente, mas que estavam ficando cada vez mais distantes umas das outras. Não adiantava chorar mais sobre os fatos e suas conseqüências. Na minha maneira de viver, sempre que o inexorável e o irreversível se estabelecem com a força dos carmas, tento usar sua própria força contra eles mesmos. É um princípio de jiu-jítsu que aplico freqüentemente à vida. — Nilo, você já imaginou se em vez de simplesmente promover o enfrentamento do tráfico com a polícia fosse possível estimular a própria favela a convencer o tráfico a se desarmar? Porque do jeito que eles estão, armados até os dentes, quem paga o preço é a comunidade. A polícia invade atirando, e inocentes morrem numa guerra que não é deles. E agora com o Exército a coisa pode ficar feia — falei ao governador depois de um dos nossos cultos de segunda-feira no palácio. Nilo tragou profundamente a fumaça do cigarro e me disse que estava cansado de enxugar gelo. — Quanto vale cada gota de sangue derramado? Como é que devemos calcular? Em relação aos salários dos policiais ou em relação ao preço do grama da cocaína? — disse Nilo, começando a mostrar lágrimas nos olhos. — Eu recebo todos os dias o relatório das mortes. Não tem fim. E as peças de reposição são infindáveis. Morre um, vem outro. São cada vez mais jovens e não pára de se apresentar gente pra morrer. Quanto vale cada vida? — falou, já com grossas lágrimas rolando pela face. Eu não disse mais nada. Não tinha o que dizer. Então, saí dali e fui ao Nordeste para uma rápida conferência. Na noite daquele mesmo dia, no hotel em Recife, não pude dormir. Minha mente viajava a mil por hora. Eram imagens de gente morrendo e de crianças chorando. A intervenção militar já tinha data marcada para começar. “Senhor, eu não sei o que está acontecendo comigo. Mas minha mente está cheia dessas imagens de morte. O que é que podemos fazer para impedir que haja uma grande chacina nas favelas do Rio? Fala comigo, Senhor”, orei sozinho no quarto do hotel. Na manhã seguinte, voltei bem cedo para o Rio e fui direto ao palácio falar com o governador. — Nilo, tive uma idéia. Vou lançar uma campanha pelo desarmamento do Rio. Muita gente não vai acreditar, mas, ainda assim, pode criar um clima mais consciente na cidade. O que você acha? — perguntei. — Pensando com categorias humanas, eu diria que é loucura. Esse pessoal não quer paz. É guerra o que as elites querem. Além disso, não há meios de se operacionalizar uma campanha de desarmamento. Pensando assim, é um devaneio e uma insanidade. Mas estou falando como um homem de justiça e como governador. Se você me pergunta como homem de fé, eu digo: “Vá em frente e que Deus o abençoe.” Conte comigo pro que precisar — disse-me ele já me conduzindo para a porta a fim de voltar para uma reunião que eu havia interrompido. — Caio, corre aqui. Tem algo acontecendo — disse Verinha no celular no dia seguinte. Como eu estava mesmo a caminho do palácio, não demorei mais de dez minutos para chegar. — O helicóptero está esperando. Vamos lá. Te conto no caminho — disse-me Nilo assim que cheguei. Enquanto voávamos para a favela de Parada de Lucas, fiquei sabendo que dona Santusa, presidente da Associação de Moradores da localidade, havia telefonado dizendo que os “meninos” estavam querendo entregar umas armas. Quando chegamos, a multidão já estava presente. A mídia também já se aglomerava, esperando a comitiva descer do helicóptero.


— Governador, o que o senhor acha que está acontecendo? É estratégia de provocação? — perguntavam uns. — O senhor acredita nisso? Não acha que é brincadeira? — questionou outro. — Por que o senhor veio pessoalmente? Não é se expor demais? — indagavam outros ainda. Nilo foi cauteloso. Disse que saudava com bom coração a iniciativa, mencionou a conversa comigo e falou que era preciso dar uma chance à paz. A mídia ridicularizou o gesto como um todo. “As armas eram poucas e velhas.” “O governador não deveria ter ido.” “Os bandidos estão ficando mais ousados.” Essas foram as interpretações divulgadas nos meios de comunicação. — Nilo, agora é que estou mais animado. Vou tocar pra frente a idéia de desarmamento — disse a ele. — Você viu o que acontece? Esses caras só querem é sacanear a gente. Até da paz eles fazem gozação. Mas se você quer ir, vá. Estou contigo — ele me disse outra vez. Quando eu estava no processo de instalação da Fábrica de Esperança em Acari, havia conhecido um “gerente do movimento” na localidade. — O Gerê quer falar com o senhor — dissera-me um funcionário da Fábrica. Marcamos o encontro e eu fui. — Qual é a sua, seu reverendo? — perguntara-me Gerê, naquela ocasião. Expliquei quais eram os nossos objetivos no lugar e disse que éramos pessoas de paz, mas que, entretanto, não fazíamos acordos com coisas ilícitas. — A Fábrica de Esperança vai ser tudo isso que o senhor tá falando? Quantas pessoas cês vão atender aí? — indagou com os olhos bem postos em mim. — Cem mil por mês daqui a três anos. A maioria será de jovens e adolescentes — falei como quem fazia uma declaração religiosa. — Então o senhor é meu pior inimigo, sabia? — Sim, sabia. — Mas num faz mal, não. Se eu perder essa guerra pro senhor, fico feliz. Eu perco, mas graças a Deus que meus filhos vão tá ganhando — concluíra Gerê para minha total perplexidade. Pois bem, naquele dia, depois da entrega de armas em Parada de Lucas, fui para Acari e pedi para alguém localizar Gerê e dizer que eu precisava falar com ele. — O que o senhor quer, reverendo? — foi logo perguntando, superdesconfiado. Expliquei que havia fortes indícios de que o Exército iria ocupar as favelas do Rio e que, a menos que a atitude dos traficantes mudasse, haveria um banho de sangue, numa guerra na qual poucos bandidos morreriam, mas que poderia atingir centenas de inocentes. — Mas e daí? O que o senhor quer que a gente faça? A gente tá aqui pro que der e vier. Num temos nada a perder — disse Gerê. — Eu acho que vocês poderiam ser só um pouquinho menos egoístas e ajudar esse povo daqui a não sofrer por algo que eles não fizeram. Vocês poderiam entregar as armas para as autoridades e poderiam tirar todo o armamento de vocês de circulação. Do jeito que está, vocês provocam a polícia o tempo todo — falei como um bobo para ver qual seria o resultado. Afinal, eu havia aprendido com Jesus que a melhor maneira de enfrentar o lobo é indo como ovelha. “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos”, disse Jesus. — Qui é isso, reverendo? A gente se desarmar? O senhor tá brincando — replicou o gerente. — Não estou falando em entregar todas as armas. Estou apenas falando em dar um sinal de boa vontade. A atitude de vocês tem que mudar, senão inocentes vão pagar a conta — falei. Ele saiu na carreira. Dois dias depois, no dia 9 de novembro de 1994, recebi o recado de que


nos fundos da favela de Acari, na praça Roberto Carlos, iria haver uma entrega de armas. Quando cheguei lá, a mídia já estava presente. Foram 29 armas. Entre elas uma AR 15. — Caio, a gente precisa conversar urgente — disse Rubem César. No dia seguinte, sexta-feira à noite, nos encontramos na casa do primo de Rubem, Ernan Caldeira, que também trabalha como meu assessor jurídico. — Essa ação do Exército não vai dar certo. Tínhamos sugerido ao ministro da Justiça uma ação de inteligência das forças armadas e das polícias no sentido de controlar fronteiras. Mas eles estão partindo para uma ação de invasão de favelas. Pode ser trágico. Mas agora não tem mais volta. Esse negócio de desarmamento pode ser a única coisa a impedir enfrentamentos sangrentos — disse Rubem. — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. O problema é que ninguém acredita nisso. A mídia nos trata como imbecis quando a questão é levantada. Não creio que possamos desarmar o Rio, mas podemos ajudar a impedir um banho de sangue — respondi. — Só gente de Deus pode ter coragem para fazer isso. Ninguém mais. Como é que você manda um traficante entregar armas? Com que autoridade? Só se for coisa da fé — falou o meu amigo e coordenador do Viva Rio, arrancando do fundo da alma suas reminiscências de neto de pastor e filho de presbítero. — A minha idéia é uma invasão de paz. A gente tem que fazer uma operação por terra, mar e ar. Cercar o Rio com a idéia do desarmamento. Enquanto isso, vamos subir as favelas e pedir que as comunidades pressionem os que usam armas a fazerem, pelo menos, “gestos de desarmamento”. Pode ser pouco, mas pode ajudar — concluí. Na segunda-feira, reuni os principais líderes da Associação Evangélica no Rio no meu escritório e expus o plano. A adesão foi total. Dividimos o grupo em diversas comissões e criamos um contingente especial de inteligência formado por oficiais evangélicos da Aeronáutica, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, além de pastores que trabalhavam em zonas de extrema violência. Dez ao todo. Solicitamos autorização ao Ministério do Exército para receber armas, entregá-las à polícia e depois reavê-las, a fim de usá-las na construção de um monumento à paz. Conseguimos permissão escrita. Uma tenda de oração foi armada no centro do Rio, onde pessoas se revezavam dia e noite fazendo preces pela cidade. Mandamos imprimir cerca de cinqüenta mil adesivos de carro com a frase Rio, Desarme-se. Gravamos uma fita de TV com Gregório, o Gordo, chamando o Rio à paz, fizemos com que circulasse ao máximo nos meios de comunicação e convocamos uma coletiva com a imprensa para a Fábrica de Esperança. Naquele dia, às nove da manhã, Nilo inaugurou o primeiro projeto social instalado nas dependências da Fábrica: o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania, idéia dele, que presta serviços de documentação e assistência jurídica básica à população. Às onze horas a mídia estava toda lá. Rubem apresentou a campanha e depois eu expliquei como cada coisa iria acontecer e apresentei os responsáveis por cada área. — Nosso objetivo é tríplice: criar um espírito de desarmamento na cidade, estimular os moradores de favela a usarem seu capital moral para pedir aos que entre eles promovem a violência armada para que façam gestos de desarmamento e, por último, construir, com a eventual coleta de armas, um monumento à paz, no Rio — esclareci. Choveram perguntas de todos os tipos e respondi ao maior número possível. Ali, entretanto, já era possível perceber que a maioria das pessoas não acreditava no que estávamos propondo. Quase todas as questões apontavam para uma indisposição em aceitar a operacionalidade daquele tipo de ação. — Mas os senhores pensam em desarmar a cidade? — era o que mais se ouvia.


— Não. Somos idealistas, mas não chegamos a ser estúpidos. Desarmar o Rio é tarefa para Deus, e eu não sou Ele e nem secretário Dele. Apenas achamos que é possível fazer gestos de desarmamento que afetem a atitude mental das pessoas na sociedade — repeti inúmeras vezes. Organizamo-nos em grupos de invasão de paz e partimos para o ataque. Em cerca de 45 dias visitamos mais de trinta favelas. A primeira subida foi ao morro Dona Marta e quase não aconteceu, pois na hora de subir chegaram três pessoas dizendo que alguns irmãos tinham tido visões de que eu morreria naquela favela. — Reverendo, ligaram de São Paulo dizendo que alguém teve uma visão do senhor coberto de sangue. O senhor acha que deve subir aí hoje? — perguntou-me minha secretária às 17 horas pelo celular. — Se hoje for dia, será — respondi. Mas os que estavam comigo não estavam tão certos de que deveríamos subir. — Olha, eu acredito em profecias, mas não dirijo minha vida por elas. Se eu aceitar a tirania das profecias, estou perdido, não faço mais nada na vida. Profecia é pra se cumprir, não para impedir o caminho da gente. Mas essa profecia vai ser mudada. Vamos orar e vamos subir. Nós servimos a Deus, não aos profetas — falei. — A gente vai contigo até o fim — disse o pastor Ezequiel Teixeira. Subimos e foi uma bênção. Descemos exaustos e felizes por volta da meia-noite. O medo desapareceu e as invasões passaram a ser uma grande festa. Eram grupos que iam de 12 até mil pessoas, como foi o caso da Rocinha. Sempre fomos recebidos com extremo carinho. Íamos de casa em casa, cantávamos nas ruelas e becos, orávamos com os doentes, ensinávamos canções às crianças, dávamos as mãos aos bêbados em bares e nos confraternizávamos com eles, parávamos em lugares marcados por crimes, mortes, chacinas e sombras e pedíamos a Deus que libertasse as pessoas de suas lembranças dolorosas e de seus fantasmas. Houve de tudo naquelas invasões. No morro Dona Marta, encontrei uma moça encostada a um poste, às dez horas da noite, chorando, com o rosto inchado, quase a ponto de explodir, tanto era o pus que havia sob a pele dela. — Meu Deus! Que é isso menina? — perguntei. Ela só gemia. Quis levá-la ao médico. — Tô vindo de lá. Ele não sabe o que fazer — ela me respondeu entre gemidos. — Então, deixa eu botar a mão na tua cabeça e pedir a Jesus pra curar você. Posso? — perguntei, movido de compaixão por ela. Ela apenas confirmou com os olhos. — Senhor Jesus. Sei que Tu estás aqui no Dona Marta. Vê a dor desta moça e tira dela esse mau. Cura esta garota, Jesus — orei rapidamente, mas com fé e intensidade. Havia umas quarenta pessoas olhando o que estava acontecendo. Prosseguimos no nosso caminho. No dia seguinte, André Fernandes, nosso companheiro de aventura, me contou que a moça estava totalmente curada. O pus desaparecera de sua face. Demos glória ao nome de Deus e nos animamos em relação à nossa missão. O chocante era constatar como, à medida que a mídia divulgava nossas incursões, duas coisas aconteciam mais e mais freqüentemente. A primeira era que nossa popularidade e respeito nas favelas alcançava níveis inimagináveis. — Pára de beber. O pastor tá passando — eu ouvia. — Fecha a boca. Tem gente de Deus no pedaço — falavam outros. — Reverendo, o senhor é sangue bom — gritavam “os meninos”. — Tira tudo que é bebida com álcool daqui. O reverendo vai entrar pra tomar um guaraná — disse um certo rapaz que só depois fiquei sabendo que era o segundo na hierarquia do tráfico de uma importante favela. A segunda percepção era a de que nossas intenções não estavam sendo bem entendidas.


Onde íamos, o Exército chegava junto. — Que negócio é esse, gente? — comecei a perguntar. — É que nossa agenda está sendo divulgada pelos jornais, rádios e pela TV Globo, no Bom dia Rio, todas as manhãs — disse-me André Fernandes. — Então, de hoje em diante, a gente não divulga mais. Vamos ver o que acontece — falei. Melhorou. Não encontramos mais o Exército com a freqüência anterior. — Pode ser apenas coincidência, mas vamos deixar assim. Caso contrário, vai ter gente pensando que nós trabalhamos para as forças armadas. — Nós estamos sendo vigiados — diziam-me os membros do nosso “serviço de inteligência”. Continuamos as invasões assim mesmo. Como não estava acostumado a tanto sacrifício físico, as subidas levavam até seis horas. Muitas vezes subimos às cinco da tarde e descemos por volta da meia-noite. Em muitas daquelas subidas, levei comigo minha filha, Juliana, naquele tempo com apenas dez anos. — Papai, eu nasci num lugar assim? — ela me perguntou mais de uma vez. — Foi, amor. Você nasceu num lugar como este — eu respondia. Depois de já ter ido comigo a mais de cinco favelas, numa noite, por volta de uma da madrugada, ela veio até o meu quarto com o cabelo molhado de um bom banho que acabara de tomar. — Move over, Dad. Let me be here with you just a bit — ela me disse. Cheguei para o lado, e ela deitou. Fitou-me profundamente os olhos e depois disse ainda em inglês: — Papai, obrigada por me deixar ir às favelas com você, porque agora eu sei como a minha vida seria se Deus não tivesse me amado tanto que mandou você e mamãe pra me darem a vida maravilhosa que eu tenho. Eu não consegui nem responder. Ela foi embora para o quarto dela. Eu fiquei na cama e chorei até às três da manhã. Era a maior recompensa paterna que eu poderia almejar da parte dela.


Capítulo 48 “Sou uma criança, mas meu Pai vive eternamente, e é o tutor que me convém; Ele é ao mesmo tempo o que me gerou e o que me protege.” Santo Agostinho, Confissões

No início de dezembro de 1994, eu estava no morro Dona Marta, numa tarde ensolarada, trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz. O lugar já me era muito familiar desde a primeira vez que havia subido a favela, seis meses antes, para orar com um grupo de setenta pastores que atenderam ao meu convite para abençoar o Rio desde o cume daquela montanha. Depois daquele dia, eu voltei várias vezes ao Dona Marta. Naquela tarde, entretanto, era diferente. Estávamos no meio da campanha Rio, Desarme-se, e onde íamos havia repórteres de jornais, rádios e televisões. A garotada ficava agitada, os adultos, perplexos, e os traficantes, de plantão. — Ei, moçada. Nós estamos aqui para trocar armas de brinquedo por brinquedos de Natal. Quem quiser é só chegar junto — eu gritava no alto-falante que levávamos e o lugar ficava inflamado de crianças. De repente, André Fernandes, o jovem guerreiro do evangelho que havia largado o conforto de sua casa de classe média para ir viver naquela favela a fim de melhor pregar o evangelho, me disse: — Há três traficantes nos olhando, sentados ali embaixo naquela casa, e eles mandaram dizer que querem conversar com o senhor. — Então vamos lá — eu falei. Aproximamo-nos do lugar e vimos dois rapazes sentados no chão e um outro numa mesa, com as pernas balançando irrequietamente. Os três pareciam ter a mesma idade. Eu daria, no máximo, uns 22 anos. O rapaz sobre a mesa perguntou se eu queria beber um pouco do refrigerante dele. Aceitei e dei uma golada. — Escuta aqui, qual é a tua de ficar trocando armas de brinquedo por brinquedos de paz? Cê acha que vai acabar com a violência fazendo isso? — perguntou-me o rapaz agitado, assentado sobre a mesa. — Sou pastor, mas não sou idiota — respondi. Então mostrei que aquela “troca” era apenas um mecanismo através do qual se pretendia mexer com a fantasia das crianças e com a sociedade como um todo, levantando a questão de como nossos brinquedos são violentos. — É, grande sacada. Sua campanha é mais profunda do que pensei — falou, dando um risinho maroto, o rapaz sentado sobre a mesa. — Mas me disseram que a sua ousadia vai mais


longe. É verdade que cê quer desarmar a gente, os traficantes? — perguntou com um tom provocativo. Respondi que não era tão ingênuo assim e que sabia que os traficantes jamais entregariam todas as suas armas. — Então, qual é a tua? U quê qui cê qué? — perguntou um rapazinho negro que estava sentado no chão, intrigado com minha aparente firmeza e frieza. — Os traficantes podem iniciar um processo de diálogo com a sociedade se começarem entregando algumas armas — disse como quem não queria nada. Aí olhei direto para ele e demonstrei que o fato dele ser traficante não me dizia nada. — A vida de vocês é burra. Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre, vai pra Bangu I, o que é morte também. Por que vocês não se perguntam a quem é que a vida de vocês está sendo útil? Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoal que nunca é apanhado e que mantém essa porcaria sempre funcionando — disse com raiva. Foi quando ele me fez confissões seriíssimas de como o Exército era ineficaz no combate às drogas e de como a polícia estava nas mãos deles. — O Exército, a gente passa batido, não sabem de nada. E a polícia a gente compra. Eu ando com cem mil real pra dar pros homem. Não adianta. Eles prende a gente e a gente dá grana pra eles. Aí a gente sai da cana ainda na rua. É tudo podre. Os cara são pior que a gente. Também, ganhando aquele salário miserável. Eu tenho até pena dos cara — falou o garoto da mesa, com um ar misto, onde o bandido e o cidadão frustrado se encontravam numa síntese perversa. — Cê já ouviu falar no Nem Maluco? — perguntou em seguida. — Já, várias vezes. Ele tá sempre nos jornais. Dizem que é um rapaz bem jovem e até bonito. Mas é uma pena, pois vai morrer a qualquer momento — falei como um mensageiro de Deus. A essa altura da conversa, já desconfiava a identidade do traficante sentado na mesa, que monopolizara quase inteiramente a conversa. — Vira essa boca pra lá. Qui morrê nada — disse. — Muito prazer, Nem Maluco — complementou, estendendo-me a mão. Aí então eu fui fundo. Vendo que a máscara fora tirada, entrei com vontade. Disse que vinha acompanhando os movimentos dele no Complexo do Alemão e que, pra mim, estava claro que, se a polícia ou o Exército não o pegassem, os rivais o pegariam. — É, podem até pegá, mas vão cumê muita bala — disse com uma gargalhada. — Que idade você tem, filho? — indaguei. — Dezenove. Parece? — ele devolveu bem-humorado. Fiquei surpreso. Tinha a idade de meu filho mais velho. Dentes lindos. Sorriso aberto. Desinibido. Desgraçadamente cheio de vida. Nossa conversa prosseguiu. Contei-lhes de minha conversão e falei que Jesus dava a chance de uma vida nova. Eles ouviram atentos. A seguir, disse a Nem Maluco que desejava fazer uma prece por eles. Fiz uma oração com meus olhos abertos na direção deles. Apenas estendi minha mão e liguei a conversa com eles à fala de uma oração, pedindo que Deus desse luz para que eles (especialmente Nem), não fossem apanhados pelas “trevas totais”. Saí dali deixando-os no mesmo lugar. Alguns repórteres chegaram nesse ínterim e ficaram querendo saber com quem eu estivera conversando. A alma de evangelizar figuras públicas (sejam homens de bem ou bandidos) é a total discrição. Por isto, disse apenas que eram uns “meninos da favela”. — Pastor, os outros dois são o Raimundinho e o Ronaldinho. Eles são os donos do tráfico aqui no Dona Marta — informou-me André. Alguns poucos dias depois desse episódio, um repórter telefonou-me bem cedo para dizer que o Nem Maluco tinha sido brutalmente assassinado pelos homens do Uê naquela madrugada.


O corpo foi esfolado e arrastado pelas ruas do Complexo do Alemão. Nem Maluco foi decapitado. Que desperdício! Dias depois, Ronaldinho e Raimundinho se desentenderam. Eram irmãos. Mas Ronaldinho mandou dar um tiro na cabeça de Raimundinho. Ronaldinho está preso em Bangu I: a última parada antes da sepultura. Nós continuamos nossas incursões nas favelas. Mangueira, Rocinha e Borel foram as mais marcantes das mais de 45 que visitamos. No Borel, Rubem César Fernandes subiu conosco. O Exército tinha acabado de realizar duas ações ali: tiraram a cruz que havia no alto do monte, alegando que o Comando Vermelho era o dono do símbolo, e tomou uma Igreja Católica que fica no alto da favela, já na outra comunidade fronteiriça ao Borel, chamada Chácara do Céu, e transformou-a em sala de interrogatório de suspeitos. Encontraram sangue dentro do templo. As “irmãs católicas” disseram que haviam torturado pessoas no lugar de culto. Foi um escândalo. Nós fomos subindo o Borel entre canções e preces. Às cinco da tarde, quando iniciamos, éramos no máximo trinta pessoas. À meia-noite, quando chegamos à igreja, que fica quase no topo do monte, já éramos mais de trezentas. À nossa frente, como guia local, ia o tempo todo Pedro do Borel, missionário de não mais que trinta anos de idade, com cara de garotão de praia e que, à semelhança de André Fernandes, compõe o grupo cada vez mais apaixonado de jovens cristãos de classe média que saem de suas casas, alugam barracos, e vão servir a Deus na favela. Pedro estava todo remendado. Sua canela tinha sido severamente ferida por chutes e botinadas que recebera de soldados do Exército, quando da recente invasão da favela. — Qui é isso, moço? Num faz isso não, moço! Sou missionário. Trabalho aqui e tenho carteira de trabalho — dizia Pedro, enquanto o pau cantava na canela dele. — Que missionário que nada, seu safado! Tu tem cara de bandido. Tá é disfarçado. Vai apanhar sim — respondiam os soldadinhos, enquanto descascavam o osso da canela de Pedro, que apanhou até que o povo do local chegou para socorrê-lo. — Ele é pastor sim. Ele é da Jocum. Num faz isso, não. O Pedro ajuda a gente — disseram muitas vozes em seu favor, fazendo os militares pararem de bater no irmão. As estações da subida eram tantas quantas a vida nos oferecesse: um doente numa casa, um velho chorando numa cadeira de rodas, crianças se agarrando às nossas pernas, jovens na esquina sorrindo para nós e nos chamando de sangue bom, uma “mãe de santo” local que estava doente e queria receber uma oração do “pastor Caio”. Enfim, tudo era pretexto para nós pararmos. Entretanto, o mais significativo de todos os momentos foi uma parada no lugar que tinha sido a casa de invocação de espíritos de Isaías do Borel, preso em Bangu I. — Aqui é o lugar mais temido do morro — disse-me uma pessoa do local. — Por quê? — indaguei. — É que o Isaías “chamava” os espírito aí. Pra nós, é um lugar mal-assombrado — explicou. — O Isaías agora não invoca mais espíritos malignos. Eu o batizei na prisão e ele agora lê a Bíblia e deseja mudar seus caminhos — falei, enquanto uma multidão do lugar se juntava ao nosso grupo aumentando bastante a audiência. Os olhos da maioria estavam arregalados. Havia temor no ar. Então constatei a profundidade do poder de Isaías sobre os moradores do Borel. Além de ser considerado pelos habitantes o bandido mais temido e justo que entre eles já vivera, Isaías também tinha sobre si a mística dos bruxos e dos feiticeiros. Ele carregava sobre sua imagem duas grandes forças: a militar e a religiosa, e ambas eram, no seu caso, combinações de poder incomparável: o traficante-militarizado e o bandido-sacerdotalizado. Naquele lugar, a força da presença de Isaías, mesmo estando preso, era incomparável. Ele tinha muito mais força no


Borel do que qualquer outra autoridade do país. Tornara-se religião e estado para o inconsciente coletivo. — Gente, vamos nos reunir aqui nas proximidades da laje do lugar de “invocação de mortos” do Isaías, porque nós vamos desmanchar isso agora, em nome de Jesus Cristo — disse eu diante de um público perplexo. — O senhor tem certeza? — foi a pergunta assustada que ouvi de alguém atrás de mim. — O Isaías não vai ficar com raiva. Se ele se tornou cristão pra valer, ele vai aceitar o que nós vamos fazer. Além disso, a autoridade de Jesus é maior que a de Isaías. E eu sou ministro de Cristo. Vamos desfazer a consagração desse lugar aos espíritos e vamos dedicá-lo ao Espírito de Jesus — falei com autoridade. Cantamos hinos de vitória, que afirmavam a soberania de Cristo sobre todos os principados e potestades espirituais, e fizemos uma oração intrépida. — Jesus, nós desfazemos todos os vínculos desse lugar com forças negativas de espiritualidade e ligamos esse espaço a Ti. Tira daqui as forças da morte e do medo. Põe Tua luz aqui, Senhor Jesus — eu orei em companhia dos que ali estavam. Continuamos a viagem para o topo da montanha. No alto do Borel há uma fronteira. Quem mora do lado de cá da linha nunca passa para o outro lado e vice-versa. Os traficantes do Borel vivem em pé de guerra com os da Chácara do Céu. Por isso, todo mundo do Borel parou a alguns poucos metros da linha imaginária. — O que foi gente? — perguntei. — Daqui a gente não passa — falaram. — Por quê? — insisti como quem não sabia de nada. — É que quem passou, morreu. A Chácara do Céu começa ali — disse-me uma garotinha de uns 11 anos, agarrando-se às minhas pernas e apontando para um lugar no chão escuro a não mais que três metros adiante de nós. — Hoje pode. Nós estamos aqui em paz e essa caravana traz amor — gritei em voz bem alta, quase discursando, na certeza de que por trás dos capins e muretas arruinadas havia um pequeno exército nos vigiando. — Não tenham medo. Venham todos. Em nome de Jesus, eu assumo a responsabilidade — gritei fazendo sinal de avançar com a mão e iniciando imediatamente a caminhada para cruzar a “fronteira”. — Ai, ai, ai — diziam as crianças esfregando as mãos com excitação e medo. Era como se estivessem entrando em Marte ou num outro planeta. Então, os habitantes do Borel que conosco estavam ficaram bem juntinhos, fazendo exatamente o que não deveria ser feito. Fui entrando à frente com Pedro. — O senhor tá vendo a moçada aí do lado, com as AR 15 e as máscaras na cara? — perguntou-me Pedro, num sussurro. — Tô sim. Vamos em frente — falei, vendo umas silhuetas humanas e as pontas das armas de porte viradas para o alto. Era meia-noite quando cruzamos a fronteira. Chegamos, enfim, ao lugar onde as freiras católicas moravam. Cantamos hinos evangélicos e acordamos as irmãs. Elas saíram e nos abraçaram. Oramos juntos e celebramos algo que tínhamos em comum muito mais forte que nossas diferenças religiosas: nosso amor à paz e nosso desejo sagrado de pacificar o Rio. À uma da manhã estávamos no cruzeiro, sob a nova cruz que o Exército havia posto no mesmo lugar, em reparação ao erro anterior. Afinal, frei Olinto, sacerdote sério, lúcido e plantado missionariamente há anos no chão do Borel, viera a público dizer que a igreja, e não o CV, é que havia fincado o símbolo cristão naquelas alturas. Aquela noite será inesquecível para todos os que se sentaram no chão, em volta da cruz, e se deixaram abandonar em canções e preces pela Cidade Maravilhosa. Lá de cima, o Rio é ainda mais lindo.


— Eu não sou evangélica, mas se tivesse que ser, eu queria ser uma cristã como você. Assim vale a pena ser de Cristo — disse-me, em inglês, a repórter do Miami Herald que estava andando comigo há uma semana, preparando uma matéria para o jornal americano.


Capítulo 49 “Em todas essas coisas que percorro não encontro segurança para minha alma senão em Ti: Tu és o lugar onde se reúnem meus sentimentos esparsos, sem que nada se parta em mim.” Santo Agostinho, Confissões

R

— everendo, o Caco gostaria de conhecer o senhor. Quando é que a gente pode ir encontrá-lo? — perguntou Cadu, da produção do Fantástico. — Amanhã de manhã na Fábrica de Esperança — falei, sem nem entender direito do que se tratava, pois o barulho do trânsito na avenida Rio Branco estava insuportável. No dia seguinte, Caco Barcelos chegou com extrema pontualidade. Conversamos sobre a Operação Rio que o Exército estava realizando e o ouvi dizer que desejava fazer exatamente o que nenhum repórter que eu havia conhecido até então, naquele contexto, tivera peito para fazer. — Eu quero ficar dentro da favela de Acari, escondido, com uma câmera. Quando eles entrarem, eu não quero entrar com eles. Eu quero estar lá dentro. Quando a gente vai com eles, acaba só vendo o que eles deixam. Eu quero vê-los em ação antes deles saberem que tem mídia lá — disse-me aquele que para muitos, se não para a maioria, é o melhor e mais sensível repórter social do Brasil. Arranjamos uma casa de uma evangélica para ele ficar dentro da favela e fizemos contatos com a Associação de Moradores para ninguém pensar que ele era X-9: olheiro da polícia. Caco, Cadu e o cameraman, entretanto, preferiram ficar dormindo na laje do sexto andar do prédio central da Fábrica de Esperança. — Daqui a gente tem uma visão melhor. E ainda dá tempo de entrar antes deles na favela, se eles vierem — disseram. Como o Exército não invadia Acari e a Globo cobrava resultados rápidos para a matéria de Caco, eles ficaram desanimados. — Acho que a gente não vai conseguir nada. Os rumores é de que vão invadir Acari a qualquer momento. Mas quando? O Caco tá cheio de outras pautas. Acho que não vai dar pra esperar mais — disse Cadu. — Quando é que o senhor vai subir outro morro, reverendo? — indagou Caco Barcelos. — Hoje eu vou subir o Juramento, a favela que fica na região onde Escadinha foi criado — falei sem maiores excitamentos. Afinal, naquele mês de dezembro, “subir favela” era meu middle name, como diriam os americanos. — A gente pode ir com o senhor? — perguntou Caco.


— Olha, a Globo anda meio queimada nas favelas. A maioria das matérias são muito “chapa branca” e os moradores ficam magoados. Cê viu aquela menina da Globo na frente da Mangueira, apontando para a favela e dizendo: “Agora o Exército está cercando os bandidos?” Meu Deus, Caco, ela estava apontando pra favela e lá há milhares de cidadãos honestos, vivendo sob o terror de apenas alguns bandidos. Ela não podia falar assim — comentei com tom de discurso. — É, infelizmente isso às vezes acontece — disse Cadu. — Mas dá pra gente ir com o senhor? — insistiu Caco com perseverança jornalística. — Vamos sim, e seja o que Deus quiser — falei. Naquele fim de tarde caiu um pé d’água de assustar. Não pudemos reunir quase ninguém para ir conosco. Os que apareceram foram apenas os do time base que andava comigo naquele dia: Marcos Batista, pastor Samuel Brum e Edinaldo, um evangelista da Assembléia de Deus local que nos acompanhava. Os demais eram membros das duas equipes de televisão que vieram conosco: o Fantástico e o Pare & Pense. Municiamo-nos de folhetos com mensagens de desarmamento e fomos entrando. Não havia ninguém nas ruas. Todos estavam em casa ou socados nos ínfimos bares que havia no caminho. E a água não parava de cair em profusão. Batíamos nas portas dos barracos e entrávamos. Falávamos de paz, perguntávamos se havia alguma necessidade espiritual na casa que nós pudéssemos atender, fazíamos preces e depois íamos adiante. — Paz seja nesta casa — gritei com os braços abertos para um grupo de mulheres que estava no fundo de uma viela. Eu vestia branco de alto a baixo. Atrás de mim, estavam as luzes da televisão e a chuva caía forte, dando ao ambiente um clima de filme Blade runner. — Meu Deus, meu Deus, não meu Deus! — gritaram as mulheres, para em seguida pararem congeladas, umas com as mãos na boca, outras ainda tentando sair na carreira para dentro de casa. — Calma gente, calma gente! — gritei percebendo que algo muito estranho estava acontecendo. — Ai, meu Deus, que susto. Assim o senhor mata a gente. Eu pensei que fosse o anjo da morte que tinha vindo buscar a gente — falou com a respiração ofegante e a mão na frente na testa uma senhora gordinha de uns quarenta anos. Foi então que eu percebi que a cena fora de fato apavorante. Com o Exército nas ruas, as quadrilhas do Juramento em guerra contra as de outras regiões, a chuva torrencial com seus trovões e relâmpagos apavorantes e as conversas sobre possíveis conflitos armados, a atmosfera psicológica dos habitantes era de total suspense. E lá estava eu: falando de paz, com os braços abertos, na escuridão, no meio da chuva e com minha silhueta desenhada de maneira surrealista pelas luzes dos refletores que estavam nas minhas costas. Eu era, naquela noite, a visagem perfeita para aquelas apavoradas senhoras da favela. — Perdão. Eu não quis assustar vocês. Será que dá pra gente conversar um pouco? — perguntei. Não deu para conversar. As mulheres riam tanto e nós também, que não houve clima para reflexões de natureza espiritual. Rimos, rimos e rimos. Depois partimos, na escuridão, morro acima, pela lama. A favela do Juramento é maior no imaginário dos cariocas do que no chão de sua geografia. Na verdade, trata-se de um morro não tão alto, onde se abrigam alguns milhares de pessoas, mas que está longe de ser grande. Grande é a sua fama. É o morro do Escadinha, do bandido herói que protagonizou cenas criminosas que entraram para a história marginal do Brasil. A mãe de José Carlos dos Reis Encina ainda hoje mora numa rua que dá acesso à favela, lá embaixo, no asfalto. — A senhora está com medo da intervenção do Exército? — perguntava Caco às mulheres que cruzavam nosso caminho. — O senhor crê que as coisas vão melhorar? — indagava de outros.


“O que vocês acham da visita do pastor aqui na comunidade? — perguntava ainda. — Vira essa luz pra lá. A Globo num entra aqui — falou um moço que vestia uma jaqueta preta de couro, parado na chuva, no alto de um platô que dava acesso a mais um lance de casas da favela. — Ele é da Globo, mas não vai prejudicar você! — falei. — Eu falei pra não me filmar — disse o homem, começando a engrossar. — Meu senhor, nós estamos aqui para orar, e eles estão filmando a gente. Eles não estão fazendo nada que prejudique a vocês — falei, colocando a mão no ombro do homem. — Vem cá! Deixa eu te dar um abraço — prossegui. — Güenta aí que eu tenho que proteger o trabuco aqui debaixo da capa — falou o soldado do tráfico comandado por Uê. Então, abraçou o rifle de um lado e me abraçou do outro. — Fique tranqüilo que a gente não mostra o seu rosto. Eu vou cobrir você com aqueles xadrezinhos, sabe? Não aparece nada — disse Caco Barcelos. — Mas os homens podem ir lá e ver a cara da gente — falou o “soldado”, olhando para o outro lado, mas já sem oferecer resistência. — A gente está te dando a palavra de que ninguém vai pegar esse material. Certo? — falou Cadu. O homem não respondeu nada e nós prosseguimos subindo. Naquela noite eu caí na lama, me atolei em cocô de porco, me cortei em pedaços de alumínio, rasguei as calças, molhei minha Bíblia. Nós todos nos encharcamos até a alma. Enfim, chegamos à caixa-d’água, no topo do Juramento. A chuva havia diminuído. Apenas uma garoa nos mantinha úmidos. As luzes do Rio piscavam aos milhares. A visão da Zona Norte da Cidade Maravilhosa era fantástica. — Senhor, abençoa esta cidade — começou a orar em voz alta o pastor Samuel Brum. Então, todos nós estendemos os braços sobre aquela vista exuberante e clamamos a Deus, pedindo que tivesse piedade de lugar tão lindo. Ficamos ali em cima fazendo orações pela cidade, suas autoridades, seus habitantes e seus conflitos por uns quarenta minutos. Enquanto isso, Caco e Danille Franco gravavam suas “cabeças” para as matérias que estavam preparando para seus respectivos programas. Obviamente descemos o morro bem mais rapidamente que subimos. — Pastor, o senhor não sabe como me fez bem ter vindo aqui hoje — falou-me Caco Barcelos quando nos despedimos lá embaixo, no asfalto. Assim findava a sexta-feira. No domingo, o Fantástico mostrou uma linda matéria sobre nossa invasão noturna ao Juramento. Mas na segunda-feira, duas coisas totalmente opostas aconteceram em relação à matéria do Fantástico. — O Zuenir, o Walter de Matos e eu vamos visitar o general Mei e o general Câmara Sena. Eu queria que você fosse com a gente — disse Rubem César, bem cedinho, chamando-me em casa. Corri para o Comando Militar do Leste, na Central do Brasil, a tempo de encontrá-los. O lugar estava apinhado de repórteres. Entrei pelos fundos, mas eles me viram e me chamaram pelo celular. Queriam uma declaração. — Agora não. Depois — falei e corri para o elevador. Logo chegaram Rubem e Zuenir Ventura. Esperamos uns 15 minutos. Os generais estavam numa outra reunião. — Tá vendo ali embaixo? — perguntou-me Zuenir, apontando para o pátio imenso do fundo daquele imponente prédio. — Em 1968, eu fiquei aqui, sendo interrogado. Foi uma coisa — falou o repórter, jornalista e autor dos livros 1968: o ano que não terminou e Cidade partida. — Veja você como a história é irônica. Você esteve aqui sendo interrogado e hoje está aqui


para aconselhar as forças armadas — brinquei. — O general vai receber os senhores — disse o ordenança. Rubem entrou na frente, seguido de Zuenir. — Eu estou acompanhando o senhor — foi logo dizendo o general Mei e apontando para mim, que vinha atrás dos dois amigos. — Ele sobe os morros de noite, sem segurança. Não tem medo. Estou impressionado — prosseguiu Mei. — Ontem eu vi o senhor no Fantástico. Escute, aquele homem que parou vocês e não queria ser filmado. Ele estava armado, não? É um deles, não é? — indagou o general sem nem nos deixar sentar. — Estava sim, mas não nos ofereceu maiores resistências — falei. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Será que o senhor não poderia usar a sua rede de igrejas para mapear essas favelas pra nós? Vocês entram, olham tudo e depois contam pra gente — disse o general de modo tão direto, franco, simples e ingênuo, que me assustou. Fiquei mudo uns dez segundos. Quem me conhece bem sabe que, para mim, tal fração de tempo é uma eternidade quando significa prazo para responder qualquer coisa. — Não daria não, general. O pastor perderia completamente a isenção e o respeito se ele fizesse isso. São ações diferentes. A do senhor tem um objetivo, a dele tem outro — disse Rubem César, livrando-me pessoalmente do embaraço de ter de dizer ao general a mesma coisa. — Não daria certo, com certeza — disse o general Sena, comandante da Operação Rio. Daí em diante, entramos no assunto que ali nos levara. — General, invadir as favelas não dá nenhum resultado. É só festa pra mídia. O que poderia ajudar seria uma operação de reforço de policiamento nas ruas, mas, sobretudo, se as forças armadas pudessem exercer um papel de articulação entre as diversas polícias do estado e do nível federal. Tá tudo aberto. As drogas e as armas entram pelos imensos buracos que existem nas divisas, e o aeroporto do Rio é um queijo suíço — disparou Rubem. — Eu também não acredito nessa pirotecnia. Isso é apenas parte de uma estratégia. Mas sei que não dá resultados em si — disse o general Sena. — O problema, general, é que essas ações são tão enfatizadas pelos senhores, que dá a impressão de que são as únicas coisas que os senhores têm pra fazer em relação ao combate ao tráfico de drogas e armas — falei com igual intensidade. — O agravante é que a mídia está gostando disso no início, mas logo vai começar a cobrar resultados mais objetivos. E a operação, até aqui, não tem muito a mostrar — disse Zuenir do alto de sua vastíssima experiência como repórter. — Os senhores estão bem com a mídia. Poderiam pedir para que fossem mais pacientes com a gente — pediu com um tom impositivo o general. — Eles estão aí embaixo e esperam que na saída a gente diga alguma coisa. O que é que a gente pode dizer, general? — perguntou Rubem César. Daquele ponto em diante, a conversa ficou mais objetiva. Conversamos por mais de uma hora e fizemos inúmeras sugestões no sentido de tirar a Operação Rio do nível do humilhante show militar para algo mais prático e inteligente. Depois, descemos ao pátio e conversamos com os repórteres, mas não havia muito a dizer. — O general vai estudar a possibilidade de impedir a entrada de armas compradas em Miami, que chegam aqui sem controle — disse Rubem. — Ah! Anotem. Ele prometeu que não vai haver o dia D. Não vai haver dia de confronto, que era o que nós todos temíamos — concluiu. Quanto ao mais, os repórteres queriam saber de mim como as favelas estavam reagindo e se nós já tínhamos recebido armas dos bandidos. Desconversei, pois não podia dizer o que estava acontecendo naquele particular. Então, voltei para o meu escritório em Niterói. — Reverendo, tem um homem na linha que quer falar com o senhor e não quer se


identificar. Tá com a voz estranha. O senhor vai atender? — perguntou-me Cristina. — Sim, estou às suas ordens — falei ao tal homem. — Olha aqui, seu reverendo. Ninguém deu autorização pro senhor subir o Juramento. Num aparece mais lá, senão a gente te mata. O senhor pensa que pode ir lá filmá pros homens e ficá assim mermo? Num fica não. Se der mole, a gente mata. Num abusa de ser homem de Deus. A gente tá avisando — falou o homem, com voz agressiva, mas nitidamente nervosa. — Olha aqui. Nós não fomos lá pros homens. Eu não sei quem são os homens. Eu só trabalho pra Jesus. Pra mais ninguém. Minha consciência tá tranqüila — falei. — Bom, eu avisei — falou outra vez e bateu o telefone. No fim da tarde do dia seguinte, encontrei com o pastor Marcos Batista na Vinde, que estava perplexo. — Pastor Caio, o senhor não pode imaginar o que aconteceu com aquele irmão da Assembléia de Deus que estava com a gente no morro do Juramento — foi logo me dizendo. — Não me diga que aconteceu algo ruim com ele? — indaguei, já me sentindo culpado. — Os caras do Uê o pegaram e levaram para a beira de um riacho que tem por lá. Puseram o irmão de cara pro chão, a cabeça quase dentro d’água, o pé no pescoço dele e uma AR 15 na cabeça. Então, começaram a mandar que ele confessasse que estava ali com o senhor trabalhando pro Exército. “A gente vai te matar’’, eles gritavam. O moço pediu pelo amor de Deus pra eles não fazerem aquilo. Disse que nós estávamos ali pra orar e que era só. Mas eles não se convenciam. Iam apagar o rapaz. Então chegou um outro correndo e falou: “Parem com isso. Ele é de Deus sim. Os cara são de Deus sim” — contou Marcos, enquanto eu ouvia com extrema ansiedade. — E o que mais, Marcos? — perguntei. — O cara disse que quando a gente subiu, ele tinha ordens pra executar a gente se fosse preciso — disse Marcos. — Mas ordens de quem? — perguntei. — Ordens superiores, foi o que ele disse. Mas parece que eles não querem falar o nome da pessoa — respondeu. — Bom, o cara que veio correndo disse que eles foram nos acompanhando pelos becos paralelos até lá em cima. Quando nós chegamos na caixa-d’água, ele estava escondido dentro do tanque, com a arma na mão para matar todo mundo. A ordem era para acabar conosco. Eles achavam que lá em cima, sem ninguém por perto, nós íamos abrir e falar o que estávamos fazendo lá. No entanto, nada disso tinha acontecido. Nós tínhamos ficado só rezando por eles e tinha gente até chorando. Enfim, o cara disse que nós não éramos X-9, mas homens de Deus, e mandou eles soltarem o irmão. — Marcos contou o que ouvira do jovem e assustado evangelista da Assembléia de Deus. — Faz sentido. Ontem eu recebi uma ligação de alguém que se dizia de lá me ameaçando de morte — disse eu. — Veja só onde a gente tá metido, pastor. Acho que o senhor precisava ir mais devagar — aconselhou-me Marcos Batista. Eu, no entanto, estava anestesiado. Naqueles meses, tudo o que eu não conseguia sentir era medo.


Capítulo 50 “De onde veio este sonho, senão porque tinha os ouvidos atentos a Teu coração, ó Deus bom e onipotente, que cuidas de cada um de nós como se não tiveras mais nada que cuidar, cuidando de todos como de cada um!” Santo Agostinho, Confissões

D

ezembro de 1994 deve ter sido o mês mais intenso de minha vida até hoje. Subia morros três vezes por semana, pregava todas as noites, passava o dia dando entrevistas para repórteres do Brasil e de outros países, participava de dezenas de reuniões, visitava Bangu I e o presídio Milton Dias Moreira todas as semanas, articulava campanhas com o pessoal do Viva Rio, buscava dinheiro para um monte de projetos novos, e corria com os preparativos para a inauguração da Fábrica de Esperança. Naquele mês, aconteceu de tudo. — Amor, tive uma visão espiritual estranha. Eu estava orando em casa quando tive uma visão da Fábrica. Era como se eu estivesse num ponto no espaço, sobre ela. De lá, eu via uma luz dourada, um luz líquida, circundando e penetrando na Fábrica. Mas dentro dela, havia umas manchas negras nas quais a luz não conseguia penetrar. Não sei o que é, mas acho que Deus está falando que tem coisa ruim enterrada lá — disse-me Alda numa daquelas manhãs. Alda convidou umas amigas e foi até a Fábrica de Esperança. Para quem visse de longe, poderia parecer que aquelas três mulheres estavam ali usando algum tipo de aparelho detector. Andavam de um lado para o outro, “sentindo” as “impressões do lugar”. Depois de passarem um dia inteiro em oração, elas se sentiram satisfeitas. — Deus vai mostrar o que está acontecendo aqui. Mas é bom você mandar vasculhar este lugar. Tem algo ruim aqui — Alda me falou no fim daquele dia. Em muitas ocasiões ela tinha tido aquele tipo de premonição espiritual, e todas as vezes que eu não lhe dera ouvidos, de algum modo eu havia sofrido as conseqüências. Assim, depois de muito penar, aprendi a levar a sério as intuições espirituais de Alda. — Lidinha, mande passar um pente fino aqui na Fábrica. Alda acha que podem ter posto alguma coisa ruim aqui. Pode ser desde macumba até drogas. Veja isso — pedi à administradora. O problema é que são 55 mil metros quadrados de área, e 45 mil metros quadrados de espaço construído. Conseguir varrer aquela propriedade toda, com seus múltiplos esconderijos, seria uma tarefa quase impossível da noite para o dia. — Pastor, o senhor não vai acreditar. Achamos armas enterradas numa área baldia nos fundos da Fábrica, bem perto da fronteira com a favela — disse-me Lídia, com voz notadamente nervosa, no fim da tarde do dia seguinte. — O que a gente faz? — perguntou. Eu chamei Ernan Mafra, assessor jurídico da Fábrica, e contei a história.


— O que a gente faz, Ernan? — perguntei. — Olha, se você chamar a polícia, eles vão ficar contentes, mas você nunca mais vai ter sossego ali. Os traficantes vão infernizar a sua vida. Se você fingir que não sabe, é um perigo pois alguém pode vazar essa história e você vai ficar de cúmplice de uma coisa que você odeia — falou o advogado. — Não, nem pensar. Essa segunda opção eu não consideraria nem morto. É contra tudo o que eu creio — falei com contundência. — Eu sei. Estou apenas colocando as alternativas. O que eu acho que devemos fazer é dar algumas horas de prazo para o dono desse material tirar isso de lá e mandar dizer pra ele que se isso acontecer outra vez você não vai mais mandar tirar. Você vai chamar a polícia. Mas fazendo assim, você dá a eles a chance de nunca mais colocarem esse tipo de coisa aqui — completou Ernan. — Tô de acordo. Pode mandar fazer exatamente assim. Naquela mesma noite as armas foram retiradas. A “visão” de Alda estava certa. — Por que você não entregou direto pra polícia? — perguntou-me Rubem César, único amigo para quem contei o episódio, enquanto comíamos um sanduíche no Bob’s da avenida Brasil alguns dias depois. A pergunta de Rubem apontava numa direção legalmente correta, mas absolutamente suicida para nós, que estávamos lá, na frente de batalha. — Olha, não existe hoje situação mais complicada que aquela. A gente tem que andar no fio da navalha. Tem que deixar claro que não aceita intimidação de bandido, mas que não se torna, de outro lado, sócio da polícia. Só Deus pode nos dar sabedoria ali pra fazermos a nossa própria guerra, sem nos envolvermos na guerra deles — falei, repetindo para ele o que eu dizia quase diariamente àqueles que me faziam perguntas sobre nossa existência em fronteira tão complexa. A descoberta das armas aconteceu numa sexta-feira, só Deus sabia do que Ele estava nos livrando. — Pastor Caio, o Exército invadiu a Fábrica de Esperança — disse-me Lídia Mello, às seis da manhã, no domingo imediatamente posterior à sexta-feira da nossa varredura. — Ernan, invadiram a Fábrica — falei ao meu advogado, que nem me deixou terminar a frase. — Estou pronto. Me apanha aqui — respondeu ele, quase se enfiando pela linha do telefone até a minha casa. — Deus é muito bom, pastor. Já imaginou se aquelas porcarias ainda estivessem lá? Se eles descobrissem, poderiam até pensar que nós tínhamos alguma coisa a ver com aquilo. Deus é muito bom — disse Ernan. Quando chegamos ao portão lateral da Fábrica, vimos uma multidão. As duas bandas do portão estavam abertas e havia militar armado para todos os lados. Parecia um Vietnã. Helicópteros voavam sobre nós, caminhões enormes, jipes e motocicletas entravam e saíam; enfim, havia uma tremenda agitação no local. — Quem é o comandante da operação? — perguntei a um soldado que usava uma máscara preta. — É o coronel. Ele está lá na laje do prédio. Como a casa era nossa e não deles, fomos subindo. Os seis andares tinham sido transformados em central de interrogatório. Eram mesas, cadernos e outros materiais postos nos mais diferentes lugares. — Bom dia, reverendo! Que bom vê-lo nesta manhã. Muito obrigado por nos deixar fazer nossa base de operações aqui na Fábrica. É o lugar ideal — foi logo dizendo o simpático coronel. — Coronel, é uma grande alegria encontrar o senhor também. Só tem uma coisa: eu nunca autorizei ninguém a usar a Fábrica de Esperança para nada. O que está havendo aqui não é uma


utilização, mas sim uma invasão de propriedade particular. O senhor tem alguma autorização escrita? — perguntei com educação, porém com firmeza. — Não é possível. Ninguém falou com senhor? — indagou visivelmente constrangido. — Não, senhor — respondi, e ele imediatamente se dirigiu para o rádio. — Alô, quem foi que deu a autorização para a utilização da Fábrica? — perguntou a alguém do outro lado da linha. — O quê? Não, não é não. O reverendo está aqui e não sabe de nada — falou o comandante. — Pergunte a ele quem deu a autorização, coronel — insisti. — Quem? Hã! — resmungou. — Foi um tal de Reginaldo. O senhor conhece? — perguntou, dirigindo-se novamente a mim. — É esse moço aqui. E ele diz que o único pedido que lhe fizeram foi para subirem aqui, a fim de tirarem umas fotos, com o que ele concordou na sexta-feira passada. Só isso. Quanto ao mais, ele não deu a autorização porque ele não tem autoridade para isso — falei. Então, o coronel desligou o rádio com raiva, e sua fisionomia mostrara a raiva que estava sentindo de quem armara aquela confusão. — Esses caras pensam que estão brincando. Eu não trabalho assim. Agora, estamos aqui, humilhando o senhor, e forçando o senhor a nos humilhar. O que o senhor quer que eu faça? — indagou o oficial. — Bom, o senhor só tem duas opções: ou o senhor fica aqui, assume conosco o projeto da Fábrica de Esperança e implanta todos os programas sociais que nós vamos realizar aqui, pro resto da vida; ou então o senhor sai em dez minutos. O que eu não posso é deixar o senhor ficar aqui e continuar a contar com a simpatia do povo. Se o senhor ficar, a Fábrica de Esperança vai virar o Quartel da Esperança, e perderá a sua vocação. O senhor é que sabe, coronel — disse com um sorriso no rosto, mas falando seriíssimo. — O senhor tem razão. Eu também trabalho com atividade social e sei que a autoridade de quem faz essas coisas vem da isenção da pessoa. A gente vai sair — respondeu-me de modo humilhado e digno aquele oficial tão diferente. Àquela altura, olhando lá de cima, vi que o povo estava aglomerado em frente à Fábrica para ver o que aconteceria. Desci e fiquei em pé ao lado do portão. Dez minutos depois, os caminhões começaram a sair. O povo aplaudia com a pontinha dos dedos. Por último, veio o coronel. Parou o jipe ao meu lado, olhou-me sem ressentimento e bateu continência para mim. Respondi pondo-me em posição de sentido, como o militar que nunca fui. Então o povo delirou. Ernan e eu voltamos para casa aliviados. Chegou o sábado, dia 17 de dezembro. Cerca de setecentas pessoas enchiam o sexto andar da Fábrica. Alípio e Marli Gusmão, Salo Seibel e Clarice Pechman eram os casais de honra daquela manhã. Os primeiros, por serem os grandes incentivadores daquele empreendimento social. Os dois últimos, por terem se encontrado acidentalmente, descoberto seus vínculos com a Fábrica (Clarice por ser fundadora do Viva Rio e minha companheira no movimento de cidadania, e Salo por ser um dos doadores da propriedade) e, em seguida, caído em paixão tão profunda, que os levou ao casamento. Declaramos a Fábrica de Esperança inaugurada. Para minha alegria, havia gente de todos os níveis sociais. A mídia foi extremamente generosa na cobertura do evento. Na semana seguinte veio o Natal, o que nos infiltrou de indizível força espiritual. Subimos favelas e trocamos mais de dez mil armas de brinquedo por brinquedos de paz. No dia 25 nossa campanha de desarmamento fazia a primeira página de seis dos maiores jornais do Rio e dos três maiores de São Paulo, e ganhou repercussão em todo o Brasil. Assim, a marca do Natal de 1994 foi a loucura cristã de convidar o leão e a ovelha para comerem juntos a refeição do amor. E, em


certa medida, aquele milagre aconteceu. Havia muita gente feliz. Outro grupo, contudo, imaginava que por trás de tanto sucesso existiam outras intenções escondidas. E 1995 traria à luz tais suspeitas.


Capítulo 51 “Não quero estar onde posso e não posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!” Santo Agostinho, Confissões

Nos últimos dias de 1994 eu fui a Bangu I visitar os mais estranhos amigos que eu já fizera na vida. No verão, aquele lugar é o inferno. É mosca para todos os lados e a vida humana se torna um acontecimento inconcebível naquele calor e com todos aqueles insetos voando incansavelmente sobre você e se agarrando ao seu corpo, como se sentissem saudade e fome de sua pele. É insuportável. Comprei ventiladores, alguns presentes, Bíblias e livros, e fui visitar aqueles que eram considerados os mais perigosos bandidos do Rio. — O reverendo chegou — eles gritaram, como de costume. Eu, entretanto, sabia que, provavelmente, aquela era a última vez, em muito tempo, que aquele ritual seria realizado. — Caio, até o dia 31 de dezembro a gente garante essa política de direitos humanos do estado. De primeiro de janeiro em diante, eu não posso dizer nada. O seu trabalho nos presídios pode sofrer mudanças daí em diante. Quer dizer, espero que eles não façam nada, mas não dá pra garantir — dissera-me Arthur Lavigne cinco dias antes do Natal. O clima na administração já estava diferente. Antes, eu chegava lá como o pastor do governador. Agora, eu seria apenas o amigo do Nilo. Levei Alda, meu filho Davi e uma amiga conosco. Queria que os detentos vissem que eu valorizava tanto aquela experiência no meio deles, que até levava parte de minha família àquele estranho encontro de humanidade e nudez moral. — Davi, me dá um abraço. Eu sempre quis conhecer você — disse o educadíssimo Carlão, do alto de seu metro e noventa. — É, reverendo, o menino parece o Davi da Bíblia: ruivo e de boa aparência — disse Eucanã, por muitos considerado irrecuperável, demonstrando que estava lendo a Bíblia toda, de cabo a rabo. Passamos a tarde toda com eles. — Dá pro senhor batizar uns meninos aqui? — perguntou-me um dos presos. Batizei seis deles, inclusive o jovem e famoso Polegar, líder do tráfico no morro da Mangueira, recentemente preso em Araruama, quando se divertia num jet-ski. — Eu encontrei tua mãe quando eu estava subindo a Mangueira outro dia. Ela está pedindo a Deus que você mude de vida — falei ao rapaz. Depois de alguma conversa, ele pediu para ser batizado com os outros. Vacilei. Afinal ele não


tinha sido preparado. Mas como eu compreendia que talvez não voltasse mais, estava decidido a não negar o batismo a ninguém. Além disso, a cada dia mais me convencia que só Deus pode avaliar o que acontece entre Ele e um ser humano, e eu não queria ficar no meio do caminho. Então, batizei Polegar e os outros rapazes. — Gente, o governo mudou. Vocês sabem que a minha vinda aqui tinha a ver também com uma política de governo. O Dr. Nilo acreditava na nossa ação pastoral e nos deu acesso a vocês. Agora não sei o que vai acontecer. Pode ser que nos fechem essa porta. Eu apareci muito na mídia nos últimos dois anos, e o atual governador pode pensar que isso esconde algum projeto político. Então, tudo pode acontecer. Mas mesmo que eu não venha nunca mais ver vocês, eu vou orar por vocês para o resto da minha vida. Vocês fizeram muito mal à sociedade, e a sociedade fez muito mal a vocês. Chega de ficar magoado com a vida. Aproveitem a chance e mudem de vida. A porta está aberta. Jesus já mostrou isto a vocês — repeti em cada uma das quatro galerias. Quando as portas de ferro se cerraram atrás de nós naquele fim de tarde, eu sabia que era a última visita. Nilo passou o governo para Marcello Alencar no início de 1995. A primeira coisa que o novo governador fez em relação a mim foi mandar tirar imediatamente o telefone vermelho que a administração anterior tinha concedido à Associação Evangélica e que ficava em meu gabinete. Besteira? Não! Aquilo apenas confirmava que, naquele governo, eu teria que comprar ficha na esquina para poder telefonar. Para completar as minhas suspeitas, o que não me faltou foi repórter e amigo para me dizer que a Universal estava forte no governo do Marcello. — O secretário do bem-estar social é pastor da Universal. A tua vida vai ficar difícil — disseram-me várias pessoas que freqüentavam o palácio. — Eu estou em paz. Não precisam nos ajudar. Basta não nos perseguirem — repeti até cansar. De 1994 para 1995 as coisas estavam mudando profundamente não apenas fora de mim, mas sobretudo em meu coração, onde as principais transformações estavam sendo operadas.


Capítulo 52 “Fazes com que eu conheça uma extraordinária plenitude de vida interior, na qual experimento misteriosa doçura, que, se chegasse à perfeição, não sei o que seria, porque nesta vida não poderia suportar.” Santo Agostinho, Confissões

Amanheci o dia 6 de janeiro de 1995 com um estranho pressentimento. A sensação era de que naquele dia minha vida seria tocada por algo inusitado, como se um anjo fosse me encontrar na rua ou me beijar o rosto. Cheguei ao meu escritório às oito e meia da manhã e pouco mais de quarenta minutos depois comecei a sentir algo estranho. Era um calor que eu nunca experimentara. Meus lábios, peito e alma ardiam com um fogo que jamais me queimara antes. Eu estava a ponto de desmaiar. Minha cabeça rodava e meu coração galopava. Era como se eu estivesse completamente seduzido por um amor divino que fora sempre meu, mas que até aquele dia eu não sabia que existia com aquela intensidade. No entanto, a mera percepção daquela forma de amar o sagrado me deprimia, ao mesmo tempo em que me possuía. Aquilo iria passar. Não era meu privilégio manter aquele fogo vivo dentro de mim. Ele estava ali, mas não era meu. “Oh, Deus! Por que Tu me deixas sentir isto e não me dás garantia de que isto viverá pra sempre em mim?”, orei em doce aflição. A síntese daquele momento era de pura mística e cheia de indizível complexidade. O que de mais próximo posso chegar ao tentar descrever aquela hora é da experiência do nascimento e da morte, acontecendo ao mesmo tempo. Ou talvez seja como ter o dedo cortado por uma afiadíssima lâmina, ver o sangue escorrer em profusão, instintivamente levar a língua ao golpe para lambê-lo, e então sentir que o líquido que de você se derrama tem o doce sabor de sapoti. Assim me foi aquele momento. Divino e mortal. Eterno e frugal. Experimentei o encontro com o destampar de meu ser, em profunda reclusão. Tranquei a porta. Somente eu e a projeção de quem sempre tive saudade poderíamos estar ali. Queria abraçar o ser para quem eu fora criado e em quem minha existência na Terra encontrava sua própria explicação. Derramei-me no sofá preto de minha sala. A vida saiu e entrou em mim duas vezes. Deus estava ali, e minha mais ambígua condição mortal também ali estava. Tive medo de nunca mais ser o mesmo, mas tive mais medo ainda de nunca mais deixar de poder viver aquilo. — O senhor está bem? — perguntou Cristina pelo interfone.


— Nunca estive melhor e nunca estive pior — respondi. Pedi para não ser interrompido. Às onze e meia da manhã vi que não podia mais fazer de conta que o mundo não continuava o mesmo em volta de mim. Era hora de voltar ao inexorável caminho da vida-morte-vida. Eu desejava morrer ali. Estava satisfeito e, paradoxalmente, desgraçado. Abençoado e ferido. A graça me tocara como nunca antes, mas com ela me veio a mais profunda revelação que eu já tivera a respeito de minha total relatividade e de minha mais humana complexidade. — Você está bem? — perguntou Alda quando me encontrou meio pálido por volta do meio-dia. — Muito bem! Aliás, não, não estou bem! Estou indo para casa. Preciso ficar sozinho — respondi de modo estranho. Ela ficou preocupada. Aquele era, entretanto, um momento que eu não podia compartilhar com mais ninguém nesta vida. E mesmo agora, nesse imenso esforço que faço para abri-lo, sei que não estou sendo bem-sucedido. Afinal, até o dia de hoje, eu não tenho palavras para descrever o que me aconteceu. Como é que no passado os antigos descreveram seus encontros com o mistério na sua forma mais divina e mais esmagadora? “E Abraão enxotava os abutres até que passou uma tocha de fogo no meio da noite.” Ou: “E Jacó lutava com o anjo, no meio da noite.” E ainda: “Eis que dois viajantes se aproximaram de Abraão e falou Abraão aos anjos.” Homens e anjos se confundem à noite ou nas esquinas da alma. A experiência que tive foi, sem dúvida, religiosa e profana, ao mesmo tempo. Talvez tenha comido do fruto da mangueira mágica da casa de minha avó e tenha sentido gostos deste mundo e do outro, mas não tenha sabido nem conseguido processá-los. Também pode ser que tenha sido o saborear de um cacho de uvas encantadas que existiam dentro de mim e eu não conhecia, mas que naquele dia derramaram seu caldo doce na minha boca. Sentirei seu gosto para o resto da vida. Os judeus falam de sabra: uma fruta cheia de espinhos por fora, mas doce ao extremo por dentro. Parece com a vida e seus mais fascinantes encontros: espinhosos e, ao mesmo tempo, irresistivelmente sedutores. Só sei é que eu mudei. Provavelmente para sempre. Passei a ter um imenso pavor de pensar de mim mesmo qualquer coisa que não me pusesse na condição do mais carente de todos os humanos e, ao mesmo tempo, do mais abençoado de todos os pecadores. A Graça de Deus me tocou de uma forma diferente. Revelou minha mais trágica perdição e minha mais feliz salvação. Mostrou-me o poder e o fogo da paixão que nasce na alma de um homem e me fez ver a força imorredoura do amor de Deus, quando enternece o coração de um mortal. Decidi ali que, fosse o que fosse, e acontecesse o que acontecesse, eu seria de Jesus até o fim da vida, e até a vida sem fim. Amém!


Capítulo 53 “As palavras de nossa boca ou as de nossos atos que são conhecidas em público nos expõem a uma tentação muito perigosa, filha desse amor aos louvores, que, para nos fazer valer, recolhe e mendiga os pareceres alheios. Essa paixão ainda me tenta quando eu a critico em mim, e por isso mesmo eu a critico.” Santo Agostinho, Confissões

C

— aio, o Fernando Henrique Cardoso está vindo ao Rio e a gente está pedindo a ele para ir conhecer a Fábrica de Esperança. Vai ser no dia 20 de janeiro — disse-me Rubem. — Ih, rapaz! Eu não vou estar no Brasil — falei. — Não, Caio. Não faz isso, irmão. — É que não dá. Estou com uma viagem agendada com mais de duzentas pessoas que vão comigo fazer uma peregrinação pelo deserto do Sinai. Vamos subir o monte Horebe. Eu os convidei, e eles aceitaram. Como é que eu posso dizer que não vou? Não tem jeito — expliquei. — Mas a Fábrica tá aí. Eu não tenho que estar. Você será o cicerone no dia. Mandamos fazer os preparativos. Quando chegou o dia 15 de janeiro, eu estava em Vigário Geral. André Fernandes e um grupo de voluntários estavam me acompanhando numa outra invasão de paz. Meu xará, Caio Ferraz, também estava conosco, nos ciceroneando em sua comunidade. Depois de passarmos um tempo na Casa da Paz numa reunião de orações e preces, Caio Ferraz disse que recebera um recado do dono da favela, o traficante Flávio Negão, dizendo que queria um encontro comigo. Eu já vinha orando por Flávio Negão desde que lera sua entrevista no livro Cidade partida. — Manda dizer que eu encontro com ele na hora que ele quiser — falei. Recebemos ordens de andar pela favela para que desse tempo de irem acordá-lo. — Gente como ele dorme de dia e trabalha de noite — nos informou o rapaz que foi acordar o Negão na casa de uma de suas esposas. Depois de quase uma hora de caminhada, dando tempo, paramos num bar para tomar um refrigerante. — O Negão chegou — falou Caio Ferraz. Saudou-nos com o cumprimento clássico, tocando a palma da mão na sua, girando a mão sobre seu polegar e voltando para o aperto final. Perguntei se não havia um lugar mais discreto, menos exposto que aquele bar, onde pudéssemos sentar e conversar. Ele sugeriu o andar de cima do mesmo bar. Subimos os quatro — ele, Caio Ferraz, André Fernandes e eu —, acompanhados


de um cachorro amigo do Negão, que não parava de lamber-lhe os pés. A conversa foi interessantíssima. Ele iniciou dizendo que acompanhava meu trabalho ministerial e, especificamente, meu esforço pela pacificação da cidade. — Essa campanha Rio Desarme-se foi a melhor coisa que já vi acontecer nessa cidade. Lá em casa eu dei ordens para que meus filhos entregassem as armas de brinquedo e que só brincassem com brinquedos de paz — disse com um tom calmo de voz. — Eu vivo assim, pastor, mas não quero que ninguém viva essa vida. É um inferno! — acrescentou o traficante de 24 anos, idade de ancião para quem vive daquele tipo de negócio. Eu peguei dali e levei a conversa adiante, dizendo que lera sua entrevista no livro do Zuenir e percebera como sua humanidade ainda estava lá, explorável, potencialmente presente. Disse-lhe, também, o que Jesus ainda poderia fazer por ele e como poderia transformá-lo, se ele quisesse. O Negão sacudiu a cabeça. Depois, começou a nos contar como a Operação Rio já estava corrompida. — Aí, ó. Os “meninos do Exército” estão encontrando muito mais armas do que eles dizem, cara. Tão achando muita droga escondida também. Mas eles num dizem nada. Escondem e depois revendem pra gente. Vê se pode. Tá tudo corrompido — disse o Negão. Falou também da corrupção de alguns elementos da polícia e de como agora, com a saída dos traficantes de peso da cidade, havia policiais seqüestrando até mulher de bandido para forçar a mineira, ou seja, a extorsão, como pagamento de resgate. Falou ainda de torturas e extermínios. — É, reverendo, a coisa tá feia, muito feia — repetiu, olhando para o chão. Eu juntei a conversa daquele ponto e tentei, mais uma vez, trazer o assunto para Jesus. Disse que o Adão, ex-companheiro dele de tráfico, preso em Bangu I, havia me pedido para batizá-lo. — É, o cara é maneiro. Batiza sim, pastor — falou. Insisti no fato de que, se ele largasse aquela vida marginal, fosse para um lugar distante e buscasse socorro em Jesus, a igreja seria, ainda, um “último recurso”. Negão prometeu pensar no caso. Mas para gente como Flávio Negão, a marginalidade é muito mais que uma maneira ilegal e bandida de ganhar a vida. É, na maioria das vezes, um caminho sem volta, pois trata-se de um enraizamento num chão abandonado pelo estado, no qual eles ganharam usucapião. Por isso, Negão não sabia pensar na vida sem se ver como aquele sultão favelado no qual ele se tornara. A conversa toda durou uma hora e vinte minutos, mais ou menos. No fim, ele disse que tinha armas para doar à campanha Rio, Desarme-se. — Em alguns dias vou fazer contato dizendo quantas armas serão doadas. Mas vai ser um montão. Finalizei dizendo que queria orar com ele, pois tinha o terrível pressentimento de que ele iria morrer logo. Então Negão pegou uma de minhas mãos entre as suas, enquanto eu colocava a outra mão sobre sua cabeça. — Jesus, dá luz à alma do Flávio. Ele tá vivendo nesse caminho de morte. Abre sua mente pra ele ver como esse caminho é perverso. Jesus, salva a alma do Flávio antes que ele morra na escuridão. Tem misericórdia dele, Senhor — orei com emoção. O cachorro ficou ali o tempo todo, lambendo o pé do segundo traficante mais famoso do Rio como se ele fosse um rei ou um mendigo. — Valeu, pastor — foi o que ele disse quando me levantei para sair. Descemos as escadas até a rua ao lado do bar. — É bandido, mas é gente boa, não é, pastor? Tem um bom coração — afirmou Djalma, o irmão dele, assim que me viu. — É, sim. Ele é gente. Mas tem que largar essa vida, senão vai morrer — falei de passagem. Voltei para minha casa, e Flávio Negão voltou para o caminho da morte.


Capítulo 54 “Que me retire em mim mesmo, que levante a Ti cantos de amor, que gema indizivelmente, durante minha peregrinação terrestre, lembrando-me de Jerusalém, levantando a ela meu coração — Jerusalém, minha pátria, Jerusalém, minha mãe — e para Ti, que reinas sobre ela, seu pai, sua luz, seu tutor, seu esposo, suas castas e grandes delícias, sua sólida alegria, seu conjunto de todos os bens inefáveis, porque és o soberano Bem e o Bem verdadeiro.” Santo Agostinho, Confissões

No dia 17 de janeiro embarquei com um grupo de 210 peregrinos para a minha décima nona viagem à Terra Santa desde aquela primeira vez, em 1977. Atrás de mim, deixei um grupo de diretores da Vinde a serviço de Lídia Mello, na Fábrica de Esperança, a fim de que nada saísse errado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso chegasse ali para sua primeira visita oficial ao Rio de Janeiro depois de empossado. — Pastor Caio, fica ruim uma visita do presidente à Fábrica sem que o senhor esteja lá! — disse-me o doutor Salo Seibel na sede da Formitex, durante uma visita que fiz aos meus principais parceiros de obra social antes de minha viagem. — Deus proverá um modo de que tudo saia bem, mesmo que eu não possa estar presente — falei em consideração ao cuidado de Salo com minha pessoa, mas sempre soube que, na prática, minha presença ou ausência importaria muito pouco ao processo. A Fábrica era apenas o lugar do encontro, mas o verdadeiro objetivo era apresentar ao presidente uma lista de demandas que o movimento Viva Rio desejava ver realizadas na cidade com a ajuda de FHC, visto por todos como aberto e não-traumatizado com ONGs e nem com ações de parceria com a iniciativa privada. Deixei um vídeo para FHC e fui para o deserto do Sinai. Era uma gravação de três minutos de saudação, na qual pedia desculpas pela minha ausência, explicava o conceito de funcionamento da Fábrica de Esperança e passava a palavra a Rubem César Fernandes e Betinho, os anfitriões daquela tarde. — Você está se vingando por ele não ter ido à sua reunião antes das eleições, não está? — perguntou-me um amigo. — Olha, eu jamais faria isso, por duas razões. Primeiro, porque sou cristão, e nesse caso, sou chamado a perdoar. Depois, porque não sou burro. Você acha que eu teria meios de me vingar do presidente? Quem se vinga de presidente é burro, é otário — falei com prazer. Chegou o dia 20 de janeiro. O governador Marcello Alencar estava lá, ao lado do presidente.


Eu, entretanto, estava na companhia de Moisés e dos anjos do monte Horebe. A viagem pelo deserto é sempre fascinante para mim. São sons, cores, formas e cheiros que os cidadãos da urbanidade ocidental desconhecem completamente. Estava muito frio no Sinai: dez graus de dia e menos de dez à noite. Mas a mística do lugar dava um sentir especial ao nosso culto noturno, a céu aberto, em volta da fogueira, na estreladíssima noite mágica da mesma abóbada celeste que inspirou Moisés e Elias nas suas falas com o Eterno. No dia 24 de janeiro já havíamos chegado em Eilat, às margens do mar Vermelho, quando recebi no hotel um fax com recortes de jornal do Brasil. Não havia nenhuma revelação divina naquela mensagem. Apenas o óbvio sobre a vida de bandidos: Polícia mata Flávio Negão, era a manchete. Triste, pois era uma vida. Entretanto, tratava-se de algo totalmente previsível. A criminalidade carrega em si mesma uma carga profética de cumprimento autônomo. Self-fulling prophecy — dizem os americanos. Vida de bandido termina muito cedo. E o estranho é que termina sem nunca ter começado. Estava aprendendo todo dia que bandido apenas existe; nunca vive. Mostrei o fax para Marcos Batista, capelão em Bangu I, que estava fazendo a viagem em minha companhia. Tentei esquecer a imagem de Flávio Negão. Afinal, minha viagem continuava no deserto e na vida. Negão tinha sido apenas mais uma estação. Aquele período pelo deserto e depois em Israel foi de grande impacto. Ali pude ver que algumas coisas tinham mudado profundamente em mim, mais do que jamais poderia imaginar. A mais forte de todas as percepções foi a de que fora muito mais abalado pela experiência do dia 6 de janeiro, na solidão de meu escritório, do que supusera. Sentimento idêntico me atingiu outra vez na noite de 29 de janeiro, no hotel Jordan River, na Galiléia. Subi para o terraço de visão panorâmica, de onde se vê o lago da Galiléia em toda a sua extensão. Do outro lado estão as colinas de Golã. Ao norte, as luzes das cidades que fazem fronteira com o Líbano. E nas costas de quem olha para o mar dos milagres de Jesus estão as montanhas da Alta Galiléia. A solidão era total. Estava frio. Talvez dez graus. Eram dez e meia da noite. De repente, a mesma presença se fez perceber. Senti-me tocado no mais íntimo de meu ser. Foi como beijar a morte e a vida, outra vez. Quase morri com a força daquela visitação de amor e medo, conforme ela se me mostrou em céu aberto, no mesmo cenário bíblico no qual Jesus acolhera a pecadores tão controvertidos quanto eu. Era como a história bíblica de Abraão expulsando os abutres que vieram comer a carne do sacrifício que ele oferecera a Deus, no mais importante pôr-do-sol de sua vida, horas antes de receber a promessa de possuir a Terra Prometida. Trevas o acometiam, aves de rapina o ameaçavam, ele expulsava os abutres, sentia sono e temores, mas desejava a vida com ardor. Então, Deus selou um pacto de amor e graça com ele. Um anjo tomou uma tocha de fogo, passou-a entre os pedaços das carnes do holocausto que Abraão pusera umas adiante das outras na presença do Eterno, e o Patriarca da Bíblia percebeu naquele símbolo uma aliança de amor entre o Criador e a criatura. Comigo o sentir foi o mesmo. Aquela foi a noite da realização de meu mais íntimo desejo humano e também a hora da mais profunda agonia. Luz e treva estiveram presentes. Ofertas de amor e abutres da culpa voaram por ali. Eu enxotei a uns e acolhi a outros. Foram cerca de 45 minutos de profunda ambigüidade. Mas era eu quem estava lá, na companhia de quem em mim eu mais amo e mais aborreço. Foi ali, mais do que em qualquer outro lugar, que entendi que a árvore do conhecimento do bem e do mal continua a dar seus frutos, bons e maus, e que é somente quando nossa alma se


abre que descobre que o éden da queda ainda existe entre os rios Tigre e Eufrates, na esquina do coração de cada ser humano. Cheguei mais perto do que nunca da árvore. Apesar de ter revelação de quem eu era, pude ainda me sentir amado e acolhido por Deus. A despeito das trevas e das lutas que me visitavam invisivelmente o éden da alma, pude ver que o caminho da Árvore da Vida continua proibido para aquele que dela quer comer apenas para viver como eternamente caído. Estamos forçados a ser perdoados. “E colocou o Senhor um anjo com uma espada de fogo na mão a fim de proibir o caminho da Árvore da Vida, porque disse: a fim de que o homem dela não coma a vida eternamente”, diz a Bíblia. Que doce revelação. O homem estava impedido de viver para sempre perdido em sua culpa. A morte seria uma porta para fora de sua dor de existir longe do Criador. Continuei ali para um segundo turno de amor e angústia. Olhei para o outro lado do mar da Galiléia e me lembrei de outro encontro noturno. A cerca de 15 quilômetros dali, em linha reta, três mil e quinhentos anos antes, um outro ser ambíguo lutara contra suas próprias sombras e luzes. Jacó enfrentara o anjo do Senhor. Não quisera ser vencido, e por isso lutara. Mas também não quisera ser abandonado pelo anjo, e por isso o segurara e não o deixara fugir. — Não te deixarei se não me abençoares — dissera Jacó ao anjo em fuga. — Qual é o teu nome? — perguntara-lhe o anjo. Certos encontros mudam tanto a gente, que depois de tê-los vivido é melhor mudar de nome. — Jacó — que significa o competidor, o dissimulador, o enganador — é o meu nome — dissera o homem em sua doce agonia. — Já não te chamarás Jacó, mas Israel, pois com Deus e os homens lutaste e prevaleceste — dissera o Ser que se atracara ao Patriarca. Deus gosta dos seres que ousam combatê-lo. Os que lutam com Deus são sempre os que querem amá-lo mais. Por isso o enfrentam. Ficam cara a cara com o divino. Com sede de amor, luta-se contra Ele e por Ele. Luta-se contra Ele porque se O quer mais, e luta-se por Ele, pois fora Dele nossa vida perde o ânimo para existir. Aquela foi minha guerra e meu vau de Jaboque, como o de Jacó não tão distante dali. Ninguém ficou sabendo o que me aconteceu no alto daquele hotel. Mas o resultado foi que, daquela noite em diante, minha mensagem mudou. Era possível ver-me chorando quase todas as vezes que abria a boca para falar do amor de Deus. Fiquei mais do que nunca tomado pela consciência profunda de como a graça divina era a única fonte de minha existência. Minhas presunções pessoais de natureza moral haviam terminado misteriosamente, e eu estava percorrendo o mais solitário de todos os caminhos: aquele no qual só Deus pode andar com você, pois somente passeia por esse chão quem tem coragem de andar nu com o Criador, e quem conhece a Deus de modo tal que pode crer que o Senhor é aquele que “conheceu a minha alma e não me desprezou”, como diz a canção. Trata-se do caminho da graça divina, onde você sabe quem é, e justamente por isso chega diante do Criador sem roupa, pois sabe que somente Ele tem vestimentas para vestir sua nudez. Somente a graça divina pode cobrir as ambigüidades da existência terrena de cada um de nós. Assim, minha espiritualidade mergulhava numa nova forma de sentir. Jamais desejaria, dali para a frente, ser o juiz existencial de quem quer que fosse. Minha vida não ficaria destituída de valores que me permitissem discernir o certo do errado, mas eu mesmo não queria estar nunca mais na posição de juiz dos homens, lugar onde até então me encontrara com extrema regularidade em razão de freqüentes solicitações que me eram feitas, todos os dias, pela religião. Aquela experiência remeteu-me para o sentir dos evangelhos e para a prática da ética do


humano, que fora minha herança familiar, conforme o melhor legado de vovô João Fábio, e que havia sido corrompida pelo moralismo superficial de invasões religiosas das quais, mesmo combatendo, não havia conseguido me livrar. Tossi até não poder mais quando retornei ao meu quarto naquela noite. Eu havia apanhado a pior de todas as tosses que eu já tivera na vida. — Você deve ter pegado isso nas favelas — disse Alda. Era estranho. Tossia uma vez, tentava tomar ar e não conseguia. Então ficava cerca de 45 segundos sem tragar oxigênio. Por três ou quatro vezes a sensação foi tão ruim, que pensei que fosse morrer na Terra Santa. Parecia que estava levando uma gravata invisível, um estrangulamento de braços espirituais. Foram 21 dias de tormenta. Era como se três vezes ao dia eu fosse enforcado. Sabia, entretanto, que minha luta era contra forças invisíveis. Por isso me entreguei Àquele que me amava mais do que ninguém e pedi que Ele me deixasse lutar apenas com o Seu anjo, mas que o enfrentamento das outras forças invisíveis de malignidade Ele mesmo fizesse por mim. Dessa forma, o enforcamento acabou. Fiquei livre e em silêncio. Aquele era um caminho só meu e eu tinha que andar por ele em profunda solidão. De Israel fomos para Nova York. Fizemos então outra peregrinação anual: pela Time Square e pelos musicais da Broadway. Encontrei Nelsinho Motta e conversei longamente com ele sobre Cristo e música. Na Big Apple, recebi dois fax: um perfil de seis páginas que saíra sobre mim no jornal da Flórida The Miami Herald, e uma entrevista que eu dera para as páginas vermelhas da revista IstoÉ entre o Natal e o Ano-Novo. — Isso não vai ficar bom. O bispo Edir Macedo vai chegar pesado em você. Você tem certeza de que precisava falar as coisas que falou? Você é franco demais, Caio. Eu temo que isso ainda lhe traga problemas — disse-me Alda, após ler a entrevista da IstoÉ, da qual transcrevo as duas perguntas mais significativas sobre a “questão Macedo”. — O que o horroriza nas ações da Igreja Universal do Reino de Deus? — perguntaram Daniel Stycer e Domingos Fraga. — Em primeiro lugar, esses pedidos ostensivos e esse saqueamento psicológico e espiritual feito ao bolso das pessoas. É um saqueamento dizer “se você não contribuir, a maldição vai continuar sobre a sua vida e a única maneira que você tem para prosperar é dando, e dando aqui”. A maioria das pessoas que está debaixo dessa chantagem é de pessoas miseráveis, algumas desempregadas, passando por uma situação social pavorosa e que estão se agarrando ali como última tábua de salvação. — Qual é a sua opinião sobre o bispo Edir Macedo? — continuaram. — Acredito que o Macedo está disposto a morrer por aquilo em que ele acredita. Há um simplismo enorme da mídia em achar que ele é um grande picareta que talvez nem creia em Deus. Ele crê em Deus. Agora, o Deus no qual ele crê é diferente da maneira que eu vejo Deus, o Evangelho e Jesus. Ele acredita ser um enviado de Deus com uma missão messiânica. Ele está disposto a morrer em praça pública por isso aí. Ele acredita que o que ele prega é uma mensagem enviada por Deus a ele, para ele fazer conhecida no mundo. E aí, meu amigo, quando você tem uma finalidade messiânica absurdamente definida na sua mente, os meios tornam-se relativos. — A gente tem que orar muito. Eles vão querer nos pegar — repetiu Alda, após ler e reler as quatro páginas da entrevista. — Mas o que você quer que eu responda? Eu não sou o juiz de ninguém e não estou tentando julgar indivíduos. A prova disso é que eu fugi da questão sobre o caráter dele. Eu falei foi


sobre as ações de natureza social, coletivas; sobre as coisas que eles fazem que não têm nada a ver com o evangelho e que se tornam públicas. São ações que tocam a muitos. Se eles quiserem fazer o que fazem, é problema deles. Mas têm que parar de dizer que são evangélicos. O que eles fazem não é evangélico, e se ser evangélico é ser como eles estão fazendo todo mundo pensar que eles são, então quem não é evangélico sou eu. Eu não quero ser parte de uma igreja que acha que essa ação de camelô da fé é algo natural — respondi com certa irritação, mas com muita angústia de alma. Afinal, tudo que eu havia dito sobre eles fora antes de eu lutar com o anjo de meu ser. Agora, não queria mais me envolver com aquela polêmica, mas não era mais possível recuar. Além disso, não estava julgando indivíduos e suas motivações, mas apenas externando uma opinião sobre ações de natureza social, com implicações profundamente coletivas. E se a luta com o anjo me tirara o desejo de julgar pessoas, não arrancara de mim, entretanto, a consciência ética sobre o que era humano ou não era humano. E, para mim, era desumano o que eles estavam fazendo em nome da fé. Depois de alguns dias em Nova York, voltamos ao Brasil. — Eu sinto que esse vai ser um dos anos mais difíceis de nossas vidas — falei para minha família e para alguns amigos. — O que é isso! Tá tudo dando certo pra você — era o que ouvia como resposta da maioria das pessoas. A impressão era tão forte, que escrevi no boletim Vinde Informa, que nós enviamos para nossa assembléia de cinqüenta mil pessoas, algo que acabaria tendo caráter profético para mim: 1995: Ano das grandes lutas e tentações. Em meu artigo, dizia que havia estado travando grandes lutas espirituais e experimentado certa depressão, e sabia que isso era porque 1995 seria um ano de imensas tentações para mim. Sobretudo a tentação de entrar em coisas que Deus não nos mandara e lutas contra a perversidade humana. Entretanto, quando março começou, as atividades esquentaram e veio-me a sensação de que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo acordado, um sentir equivocado que me acometera em razão de no ano anterior eu ter vivido dez anos em um, emocionalmente falando. “Não foi um anjo. Foi apenas um estresse”, falei a mim mesmo. Anjos e angústias se parecem muito em dias de escuridade ou de muita luz. Os fatos, entretanto, mostrariam que eu estava enganado.


Capítulo 55 “O que me mantinha cativo e como que sufocado eram as tais grandes massas, que pareciam oprimir-me, debaixo de cujo peso, arquejante, me era impossível respirar a aura pura e simples de tua verdade.” Santo Agostinho, Confissões

No início de 1995, havíamos lançado uma nova campanha para as favelas. Ponha esta idéia no ar: cerol nem de brincadeira. A idéia nascera num dia em que eu estava andando pela Fábrica de Esperança e percebera como alguns garotos da favela se arriscavam correndo sobre telhados frágeis, simplesmente porque estavam fascinados por suas pipas. Passar o cerol é uma expressão usada na favela quando se trata de definir a morte de alguém. E “cerol” é aquela goma de cola e vidro que os garotos passam nas linhas das pipas para que possam “guerrear nos ares” contra seus “inimigos”. A linguagem do cerol era perfeita para falar de nossa luta contra a violência nas comunidades faveladas. A campanha consistia em um concurso da pipa da paz mais criativa. Quem ganhasse, levaria trezentas pipas com o símbolo do desarmamento, que o cartunista Ziraldo havia feito e nos ofertado. Lançamos a campanha, e muitas comunidades compraram a idéia. Mas como aquele início de ano foi agitadíssimo, tivemos de adiar o concurso para o início de março. No dia anterior ao concurso, o cabo Flávio, da Polícia Militar, matou um criminoso a sangue-frio em frente ao Shopping Rio Sul. A Globo estava lá e registrou tudo. Foi um escândalo. No dia seguinte, nós estávamos no Aterro do Flamengo, no meio do concurso de pipas, quando as repercussões começaram. — Reverendo, a mídia toda está atrás do senhor. Querem falar sobre a morte de alguém na frente do Rio Sul. O que é que eu digo? — perguntou-me Cristina pelo celular. — Pode mandar todo mundo pra cá — falei. Nem todos foram, mas meu celular não parou mais. — O que o senhor acha disso? O governador disse que foi errado, mas que a sociedade precisa entender. O que o senhor pensa? — era a questão comum a quase todos os que me procuravam. — A maior arma que a polícia tem contra os bandidos é a sua diferença cidadã. A polícia tem que ser a cidadania fardada. Quando a polícia age com os mesmos critérios de crueldade dos bandidos, ela fica pior do que eles. Nada é mais perverso do que a crueldade feita em nome da lei. Isso acaba com as instituições. E o governador sabe disso. Por isso, numa hora dessas, acho que ele não poderia dizer nenhum mas. Ele não pode desculpar uma ação assim. Falando desse modo,


ele está tentando falar para agradar os dois lados: a sociedade (dizendo que tá errado), e a polícia (dizendo que a gente precisa entender o cabo). Isto é perigoso — respondi, esquecendo que 1994 havia acabado e que já estávamos em 1995, tempo no qual já não se podia mais falar à vontade. Daquele dia em diante, passei a ser um dos repercutidores de matéria sobre o governador e o prefeito. Falava muitas vezes com tom crítico, mas também elogiava todas as ações que me pareciam boas. E para provar isto, tenho inúmeros recortes de jornal que evidenciam tanto uma coisa quanto a outra. Fazendo assim, achei que estava apenas sendo cidadão. E como não era partidariamente político, mas apenas um pastor, imaginava que não seria jamais visto como inimigo do indivíduo circunstancialmente elevado à posição de autoridade, fosse o governador ou o prefeito. — Sou apenas um cidadão com voz e com capacidade crítica construtiva — disse mais de uma vez quando me perguntavam acerca de minhas “participações políticas”. Então começaram a vir os sinais de que eu estava equivocado. O convênio do estado com a AEVB para a capelania nos presídios foi cancelado e nossas carteiras para visitação em penitenciárias foram invalidadas. — Caio, a gente tem que conversar. E não dá pra ser por telefone. Dá pra ser hoje no almoço? — perguntou Rubem César em meados de março. Encontramo-nos num restaurante próximo à ladeira da Glória. — Eu tenho uma pessoa amiga, que trabalha no palácio do governo, que me disse que os assessores chegados ao Marcello andam dizendo que vão pegar você — disse-me Rubem com ar de muita preocupação. — Não pode ser. Junto dele também tem gente que me conhece. É o caso do coronel Ferraz e do comandante Dorazil, da Polícia Militar, ambos evangélicos. Eles não deixariam o governador ficar enganado a meu respeito — falei, tentando me convencer de que aquilo tudo não passava de fofoca palaciana. — Olha, tem mais. O Alfredo me telefonou pedindo pra eu te dar um recado. — Ah, é! O quê? — O César Maia disse a ele que, num papo com o cardeal e o presidente do Tribunal, o governador Marcello Alencar falou muito mal de você e da Fábrica de Esperança. Disse que você é um picareta, oportunista, que defende bandidos como parte de uma estratégia política do Comando Vermelho e que a Fábrica é uma fachada. — Diz pro Alfredo que eu quero falar com ele. — Liga pra ele. Foi ele que me pediu pra te falar isso. Eu acho que ele não vai ligar de você perguntar sobre o assunto. Dois dias depois, Alfredo e eu estávamos almoçado no restaurante Alcaparras, no Aterro do Flamengo. — Eu conheço você e sei quais são as suas motivações. Mas fiquei preocupado que num papo entre o governador, o prefeito, o cardeal e o presidente do Tribunal você tenha sido jantado de uma vez. São homens de muito poder e você deveria tentar saber o que está acontecendo. Se eu fosse você, iria falar com o Marcello — disse meu amigo de dentro da Prefeitura. Eu tinha estado com Marcello Alencar no início do ano. Havia encontrado com ele na companhia de meu amigo Eduardo Mascarenhas, psicanalista e deputado federal pelo PSDB. Naquela ocasião, minha visita tivera duplo objetivo: mostrar para ele que eu não mordia e saber se o estado tinha qualquer interesse em fazer parcerias sociais com a Fábrica. A idéia era que empresas vinculadas à Fábrica pudessem receber incentivos fiscais especiais do governo. Fui bem-recebido, mas não deu em nada. — Bom, eu já estive com ele uma vez. Vou tentar marcar outra audiência. Só que agora o assunto será este — falei a Alfredo.


Poucos dias depois, recebi um telefonema de uma amiga que ocupa uma posição superestratégica num dos principais veículos de comunicação do país, dizendo que precisava falar comigo com urgência. Eu a encontrei para almoçar no 14 Bis, restaurante do aeroporto Santos Dumont. — Olha, isso aqui é um tremendo off. Meu nome não pode aparecer, OK? — perguntou. — Claro! Não fique preocupada — garanti. — Semana passada, eu e dois outros profissionais lá da empresa almoçamos com o Marcello Alencar. No meio da conversa, ele começou a falar mal de você, de graça, sem mais nem menos — disse a jornalista. — Ah, é? E o que ele falou? — perguntei como se ainda não soubesse de nada. — Ele disse que você é o mentor de toda a política de direitos humanos de bandidos no estado, que o Comando Vermelho e você trabalham juntos, e que a mídia ainda não percebeu como você é importante no esquema dos bandidos. Disse também que a Fábrica é uma fachada do tráfico de drogas e que era uma questão de tempo até tudo estar provado. — Cê tá brincando. Esse negócio é sério, mesmo. Olha, você é a terceira pessoa em uma semana que me diz a mesma coisa. Agora estou preocupado. — Reverendo, se eu fosse você, eu iria falar com o governador o quanto antes. Ele está muito cheio de sentimentos ruins. Ninguém puxou o assunto, mas ele ficou falando insistentemente. Para ele, isso parece ter se tornado algo importante. Naquela mesma semana, recebi cinco outras mensagens idênticas de amigos que me disseram ter ouvido a mesma conversa. — Olha, lá na igreja há um irmão que trabalha com o governador. Ele me disse que o Marcello anda dizendo que você é um espertalhão, que ganha dinheiro do exterior para a Fábrica e põe tudo no bolso. Disse que você recebeu vinte milhões de dólares da Alemanha e embolsou tudo. Acho que você deveria ir saber o que está acontecendo — disse-me por aqueles dias, com ar de extrema preocupação, o pastor Ezequiel Teixeira. — Reverendo Caio, meu irmão, o Aldir Cabral está doido. Sabe que eu encontrei com ele na ante-sala do gabinete do governador e ele me disse que, depois de muito pensar, o Macedo e os bispos da Universal concluíram que o irmão é um “infiltrado católico” no meio evangélico? Ele me disse isso sério. No início, pensei que fosse gozação. Mas não, o cara tava falando sério — contou-me um importante político da cidade, que também é evangélico. — Que coisa louca. Mas que é engraçado, é. O cardeal participa de conversas onde eu sou estraçalhado, e vem o Aldir Cabral e diz que sou espião católico. Só pode ser piada. Mas o que você acha que ele está conseguindo com isso? — perguntei. — Eu acho que ele tá envenenando o Marcello contra o senhor — concluiu. Pensei, orei e decidi ir ao encontro de Marcello Alencar o quanto antes. Assim, recorri a alguém que eu sabia que não teria dificuldade em marcar a entrevista.


Capítulo 56 “Com efeito: quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Contudo, a espera do futuro já está no espírito. E quem poderá contestar que o passado já não existe? Contudo, a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o presente carece de duração, porque é um instante que passa? Contudo, perdura a atenção, pela qual o que vai ser seu objeto tende a deixar de existir. O futuro, portanto, não é longo, porque não existe.” Santo Agostinho, Confissões

Em 1995, percebi que minha maior vulnerabilidade social estava na Fábrica de Esperança, daí ter resolvido colocar lá alguém que ocupasse a função de supervisão geral. A pessoa naquela posição precisaria possuir grande habilidade política e diplomática, pois, naquele momento, mais do que de dinheiro, nós precisávamos de articulação e de vínculos. Havia ainda uma outra preocupação por trás daquela mudança. Sentia que existia algo estranho acontecendo nos bastidores da cidade e, para mim, estava claro que, o que quer que fosse acontecer, iria tocar naquele que era o meu calcanhar-de-aquiles: a Fábrica de Esperança. Se alguma coisa desse errado ali, estaria de canela quebrada. Portanto, precisava ter lá uma pessoa de minha mais absoluta confiança. — Cris, eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você quer assumir a supervisão geral da Fábrica? Serão quase quatro horas por dia dentro do carro só pra ir e voltar, e os maiores abacaxis do mundo pra descascar. Você quer? — perguntei àquela que me dissera, quando de nossa primeira visita ao prédio da Fábrica, que “aquilo era presente de grego”, e não dei tempo para a resposta. — Vá pra casa. Fale com seu marido e com seus filhos e me dê uma resposta amanhã. Cristina já trabalhava como minha secretária há dez anos e sabia que eu não preciso falar muito tempo para expressar o desejo de uma decisão profunda. E, depois de chorar de medo da nova função e saudades da última, ela aceitou o desafio. — Eu não me sinto saindo, mas apenas continuando. Se o senhor precisa de mim lá, eu vou — disse com emoção. E foi para ficar. No dia 8 de junho de 1995, uma fagulha quase pôs nosso sonho a perder. Um funcionário que soldava uma placa de ferro nas proximidades de um dos galpões da Fábrica de Esperança teve a infelicidade de ver uma pequena faísca desprender-se de seu maçarico e passar por entre as frestas do portão de ferro e a parede do galpão. A fagulha caiu sobre um lote de mil e seiscentas máquinas Xerox embaladas em caixas de isopor. As chamas gulosas por pouco não engoliram


aquilo que estávamos construindo a duras penas. Mas aquele incêndio era inevitável. Fazia parte de um desígnio divino. E como todo plano de Deus, a gente só entende bem depois. — Caio, eu sonhei com a Fábrica. Era uma coisa ruim, um acidente, mas eu não tenho detalhes — contou-me Alda. Não disse nada, mas fiquei preocupado. A sensação que eu tinha era a de que um anjo de trevas, com imensa fúria, estava grunhindo contra nós. — Nós estamos mexendo em coisas cruciais: a miséria, a perversidade, a violência, o banditismo, a polícia, os políticos, a mídia e as vaidades humanas. Além disso, também temos tocado em alguns nervos expostos desta cidade. Então, é de se esperar que os principados espirituais do Rio estejam revoltados conosco — eu dizia a algumas pessoas mais íntimas. Dizendo isso, estava ecoando uma importantíssima convicção cristã: as cidades, nações e toda sorte de relações humanas comunitárias são marcadas por forte presença dos anjos. A Bíblia dá margem para que se creia que em cada povoado humano haja anjos que protegem especificamente aquele grupo. Mas a mesma doutrina tem o seu outro lado. Anjos da escuridão também disputam o controle psicossocial daquele ajuntamento. Aquilo que Jung chamou de “inconsciente coletivo”, a Bíblia chama de “principados e potestades”, e existem não apenas como subprodutos da fabricação cultural da sociedade, mas também como seres autônomos, que tanto se alimentam da cultura social como a influenciam decisivamente. E como nós estávamos tocando nos nervos sociais daqueles poderes invisíveis, eu achava possível esperar represálias. — Pastor, estou muito incomodada com a Fábrica — disse-me uma pessoa amiga. — Estou com o pressentimento de que algo está para acontecer por lá. — Brother Caio. I am calling you because I have been concerned with you. God gave me a text from the Bible. It is for you. Read it, Brother — disse-me o reverendo Samuel Doctorian, chamando-me de Los Angeles. A passagem bíblica que ele me mandara ler dizia que Deus haveria de proteger seus servos com um muro de fogo. — Dona Cristina, vem cá que eu quero lhe contar uma coisa. Eu tava aqui na cozinha da Fábrica quando vi uma coisa feia. Era uma grande sombra. Tive certeza que era coisa do Maligno. Peguei o garoto da cozinha e fomos orar. Pusemos os joelhos no chão e clamamos ao Senhor. Pedimos a Sua proteção. Os Seus anjos. Mas eu queria que a senhora soubesse. Tem luta aqui — disse tia Biga, cozinheira da Fábrica. — Hum. Estou sentindo cheiro de fogo aqui. Vai ver se tem alguma coisa queimando. Estou com esse cheiro de fogo no nariz — disse Cristina para o encarregado da segurança às dez horas daquela manhã. — Num é nada, dona Cristina — disse o homem. — É melhor ficar de olho aberto. Eu estou sentindo esse cheiro — repetiu Cristina sem saber que estava tendo uma premonição olfativa. — Fooogo. Fooogo. Fooogo! — eram os gritos que se ouviam por todos os lados às 11h45 min da manhã, gritos que se misturavam ao som ensurdecedor da sirene da Fábrica. O pânico foi geral. Logo a mídia estava lá. O helicóptero da Globo voava sobre o incêndio. Transmissões ao vivo foram feitas simultaneamente para todo o Brasil. Centenas de pessoas começaram a telefonar e a orar a Deus por nós. Um multidão correu para a frente da Fábrica. Eu estava na sede da Vinde, em Niterói. — Reverendo, o Robin está no telefone dizendo que a Fábrica está em chamas — disse Elisa,


minha secretária à época, com os olhos arregalados. Não esperei nem que ela terminasse a frase. Corri para o carro e disparei para Acari em companhia do pastor Ariovaldo Ramos. — Caio, fica tranqüilo. Parece que é um incêndio setorizado e que já está sob controle. Não fica angustiado — dizia Alda, enquanto os meus olhos me provavam que a informação estava incorreta, pois ainda estávamos na avenida Brasil, na altura de Parada de Lucas, a uns seis quilômetros de distância, e já era possível ver as nuvens negras cobrindo toda a região da Fábrica. Fomos orando em silêncio. Não gritamos e nem nos agitamos. Silêncio e o pensamento em Deus era o que eu conseguia fazer. Quando chegamos, já havia centenas de pessoas se espremendo em frente à Fábrica. Muita gritaria e muito desespero. Tive de entrar no peito e na raça, pois a mídia queria uma “declaração” minha já ali fora. — Se eu declarar, eu perco a Fábrica. Depois. Agora é hora de apagar o incêndio — falei e entrei pelo portão lateral. A cena era caótica. O Galpão 17, o primeiro da lateral direita da propriedade, já tinha acabado. Dois outros ao lado ameaçavam ter o mesmo fim. As chamas corriam pelo telhadão único de amianto, que cobre pelo menos 15 mil metros quadrados de área e onde havia vários outros galpões. Tudo aquilo poderia virar cinzas. Quando me dei conta, havia um espetáculo fascinante acontecendo paralelamente à catástrofe. Funcionários da Parmalat, nossa vizinha, estavam correndo por todos os lados com suas empilhadeiras, tentando tirar as máquinas da Xerox de dentro dos outros galpões. Bombeiros recebiam ajuda heróica dos funcionários da fábrica. Policiais militares que por ali iam passando pararam e entraram na luta contra as chamas, ajudados por um monte de rapazes suspeitos, que, vendo as chamas invadirem o lugar, pularam o muro e levaram sua colaboração. — Corre gente. Anda gente. Aqui está nossa esperança. Ela não pode virar cinzas. Vamos apagar esse fogo — eram os gritos que se faziam ouvir durante todo o tempo. Não fosse tamanha solidariedade, o desfecho poderia ter sido outro. No meio de tudo aquilo, subi correndo para o topo do prédio central, de onde vi que as chamas corriam sobre o telhado, animadas que estavam pelo vento produzido pela hélice do helicóptero de reportagem da Globo. — Mande o pessoal passar um rádio pro helicóptero levantar e filmar de longe. Ele tá abanando o fogo. E mande um grupo quebrar uma linha de uns três a quatro metros de largura em toda extensão do telhado para as chamas não passarem — falei para Egnaldo Júnior e Reginaldo. As duas providências foram tomadas e com a ajuda informal do grupo da solidariedade antiincêndio conseguimos extinguir as chamas depois de três horas de combate. Aquele incêndio queimou mais de mil máquinas Xerox, mas gerou três coisas. Primeiro, a consciência da importância da Fábrica para os habitantes do lugar. Além da solidariedade dos adultos, recebemos depois centenas de trabalhos infantis das escolas da região mostrando o impacto do incêndio na produção dos alunos. Eram declarações lindas de amor à Fábrica. Segundo, a enorme mídia que o episódio nos deu em todo o Brasil. Até aquele dia, a Fábrica era um projeto social do Rio, conhecido na cidade e cuja existência era de alguma forma percebida em outros lugares. Mas as transmissões ao vivo, bem como nos telejornais e demais veículos de comunicação, nos tornaram conhecidos em todo o país. Terceiro, a constatação de nossa fragilidade contra aquele tipo de coisa e contra qualquer outra situação na área de segurança física da Fábrica. Numa área tão grande como aquela, não havia meios humanos que nos dessem garantias totais de que coisas daquele tipo não pudessem acontecer outra vez.


— O que foi que o senhor sentiu quando viu a Fábrica em chamas? — perguntaram os repórteres. — Olha, eu fui lá pra cima e disse: “Deus, mesmo que isso tudo pegue fogo, a gente vai começar tudo das cinzas, outra vez.” Sabe, gente, o fogo que nos arde aqui dentro é mais forte do que aquele que nos ameaçou. Mesmo que tivéssemos que recomeçar das cinzas, nós recomeçaríamos. Não tem mais volta — falei para um batalhão de jornalistas que, àquela altura, já tinham deixado o profissionalismo de lado e expressavam claramente seu alívio com o desfecho da situação.


Capítulo 57 “Também a estes odiava meu coração, porém não com ódio perfeito, porque, na realidade, mais os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de seu comportamento. Naquele tempo — confesso — preferia que não fossem maus para meu interesse do que bons por Teu amor.” Santo Agostinho, Confissões

V

— eloso, dá pra você marcar um encontro meu com o governador? — perguntei ao então vice-líder do partido de Marcello na Assembléia Legislativa. — Tá marcado para o dia 12 de julho. Eu disse que vou junto, tá bom? — informou-me o pastor Veloso, deputado pelo PSDB, algum tempo depois. No dia marcado, já à porta do palácio, o pastor Veloso me perguntou o motivo do encontro. — Para ser franco, é uma coisa pessoal. Quero conversar com ele sobre a Fábrica e também sobre mim — respondi sem esclarecer muita coisa. — Ei, reverendo! Dá pro senhor fazer uma oração pela multidão que está ali à porta do palácio? — pediram uns repórteres que estavam no lugar. É que um grupo de pessoas amigas da jornalista Vera Dias, mulher do executivo David Kogan, seqüestrado há sessenta dias, tinha ido até lá protestar contra a ineficiência da polícia quanto a solucionar o caso. Fui até lá e orei com a multidão. Depois, entrei no palácio e encontrei-me com o governador. A conversa foi cordial. Falamos sobre o valor do voluntariado cristão em obras sociais e de como o estado não conseguia fazer coisas tão baratas quanto as igrejas e organizações baseadas no serviço voluntário. A seguir, Marcello falou do quanto a situação do estado estava difícil. Depois, passou para a mídia, que, segundo ele, o estava poupando de críticas mais sérias, apesar de tudo. E fomos adiante. Eu já estava ansioso. Já tínhamos conversado quase uma hora e não tinha conseguido trazer à tona o assunto que me levara até lá. Então decidi que, se ele não me desse nenhuma deixa, criaria uma, por minha própria conta. — Governador, eu pedi ao Veloso para me trazer aqui hoje porque eu tenho um assunto pessoal para tratar com o senhor — falei interrompendo as amenidades que haviam marcado nossa conversa até ali. — Claro. Pode ficar à vontade — disse Marcello Alencar amavelmente. — É que nos últimos dias eu tenho recebido informações, vindas de pessoas distintas, umas afirmando que souberam de primeira mão, outras dizendo que ouviram de terceiros, mas todas falando que o senhor está muito magoado comigo. Eu queria saber o que houve. Se eu fiz algo que


o machucou, por favor, tire isso do coração. Eu não quero criar situações que venham a amargurá-lo — falei, enquanto ele se ajeitava na cadeira mais de uma vez. Eu pensei que ele iria mudar o tom e julgar minha palavra impertinente. Achei que talvez ele fosse me confrontar. E até preferia que fosse assim, pois me daria a chance de esclarecer as coisas e botar um ponto final naquilo tudo. — Olhe, nós estamos vivendo dias difíceis. A imprensa entra no processo para cumprir um papel muito negativo. No primeiro semestre, até que me pouparam, embora o tom seja sempre contra as instituições do estado. Mas eu acredito na democracia. Se antes eu já acreditava, agora acredito mais. Críticas fazem parte do processo. Agora, devo dizer, todo mundo quer que o estado seja o paizão que dá tudo. Não funciona. Temos é que ajudar as pessoas a gerarem renda por elas mesmas — disse o governador com um ar filosófico. — Certo, governador. Certo — disse eu, enquanto ele prosseguia. — Agora, jornalista, repórter, não, eles não têm acesso às minhas intimidades sobre as instituições e a respeito das pessoas — completou o governador. Naquele momento, eu entendi que ele estava achando que aquelas informações haviam sido passadas a mim especificamente por algum jornalista. — Aqui no estado, é tudo muito difícil. Até para reequipar a polícia é difícil. Você tenta, mas pode vir um tribunal e botar a sua intenção por terra. Lá na sua Fábrica de Esperança é diferente. Você aperta o botão, determina e tudo acontece. Aqui eu aperto o botão, mas não funciona. Caio, pra fazer funcionar, tem que se dar por inteiro. Eu tenho muita preocupação com a parte institucional. É por isso que eu me preocupo com alguns movimentos de vocês. Às vezes o teor é muito radical, às vezes cometem muitos equívocos — naquele ponto, eu estava tentando entender onde o governador Marcello Alencar queria chegar, mas ainda não estava claro para mim. — Olha só o Betinho. Sou amigo dileto dele. Mas quando ele trabalhou como “ouvidor” da prefeitura, foi para Brasília com o (ex-prefeito) Saturnino para abraçar o Congresso de mãos dadas, para pressionar a votação de uma lei. Bonito, mas não dá. Estou falando do Betinho como exemplo clássico. Agora ele está numa boa, amadureceu. Já quer que todos os cidadãos façam alguma coisa. Antes ele jogava muito só. Ele melhorou. Eu não quero magoar o Betinho, eu o adoro. O que eu acho é que, às vezes, esses movimentos de vocês são um pouco maniqueístas: o governo não presta, e nós é que temos que fazer as mudanças — disse o governador. Naquele momento, entendi um pouco melhor. De alguma forma, ele nos percebia como inimigos da ineficácia do estado. Reconhecê-la era muito fácil para ele. Afinal, ele mesmo dissera que “apertava os botões e não funcionava”. Mas gostaria que ele mesmo fosse aquele que tivesse sempre o direito de criticar a máquina do estado. Quem quer que o fizesse de fora do sistema corria o risco de ser visto como um radical maniqueísta. Ele prosseguiu falando de como a reputação dos políticos andava baixa e do quanto isso atrapalhava as ações do governo. Então entrou mais objetivamente na questão das chamadas ONGs. — Eu acompanho, respeito, estimulo e acolho esses movimentos. Mas faço isso confiante de que esses movimentos não deixem de dar ao estado as responsabilidades que lhe são inerentes. O estado não pode se dar ao luxo de dar satisfação para uma ONG. Elas não têm a legitimidade que o estado tem. Eu tive experiências muito ruins com as ONGs na Eco 92. Mas o movimento de vocês eu respeito, tem caráter religioso e eu aprendi a respeitar os evangélicos na campanha política. Foi quando eu tive a idéia de terceirizar a ação social do estado para as instituições religiosas. O governo não tem como competir com o voluntariado das igrejas, tem? — concluiu Marcello Alencar, indiretamente dizendo por que ele havia entregado toda a Secretaria de Bem-Estar Social do estado para a Igreja Universal. — Na Fábrica de Esperança você tem algum


serviço para tratar de drogados? — perguntou. — Não. Lá nós só tratamos preventivamente ou psicologicamente. Mas não internamos ninguém. Internação não fazemos lá — eu respondi. A conversa prosseguiu extremamente cordial. Falamos um pouco mais da Fábrica de Esperança e terminamos conversando sobre um hospital dirigido por umas freiras. Ele estava impressionado com o que tinha visto lá. — Aquilo funciona, ouviu, é uma coisa incrível — disse o governador. Depois de ouvi-lo falar, acreditei que ele estava realmente dizendo coisas de seu coração e que tudo o que me tinha sido dito antes não passava de um grande mal-entendido. — Não se esqueça de mim em suas orações — disse-me ele quando nos preparávamos para sair. — O senhor nos permitiria orar agora mesmo, governador? — perguntei. — Claro — consentiu ele. Então demos as mãos e oramos juntos. Pedi a Deus que abençoasse o estado e que desse ao governador sabedoria para governar. Pedi por sua vida e saúde. Roguei ao Senhor que ele sempre tivesse todos os recursos para realizar um bom governo para o povo. Enfim, orei aquilo que se ora por um governante. — Caio, você aceitaria ser convidado de vez em quando para vir até aqui conversar um pouco? Eu sou um homem experiente, mas conselho é sempre bem-vindo. Você viria aqui de vez em quando? — perguntou-me Marcello Alencar para minha total surpresa quando nós já estávamos na ante-sala de seu gabinete. — Se o senhor achar que eu tenho qualquer coisa útil para lhe oferecer, por favor, não hesite em me chamar. Eu estarei sempre às ordens — falei e me retirei. — Rapaz, essa conversa foi maravilhosa, Caio. Eu nunca tinha visto o governador tão tranqüilo quanto hoje — disse Veloso. — Tomara que sim. Espero que esteja tudo resolvido — eu disse quase com um suspiro de alívio. No dia seguinte, minha visita ao governador tinha virado notícia exatamente pelo lado contrário à minha intenção ao ir ao seu encontro: — Pastor Caio Fábio faz prece pela multidão que foi protestar contra Marcello, dizia a chamada da matéria de um dos principais jornais do Rio. Fiquei preocupado e tratei de me certificar se aquilo não tinha modificado os humores do governador. — Fica tranqüilo. Tá tudo bem — disse-me o pastor Veloso dias depois. Por alguma razão, entretanto, tudo o que eu não conseguia era ficar tranqüilo. Alguma coisa daquela “profecia” do início do ano voltou a me garantir que aquele seria ainda o ano das grandes tentações e das grandes tribulações.


Capítulo 58 “Se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra Ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou sedições, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta, ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.” Santo Agostinho, Confissões

Até junho de 1995, meus conflitos com o bispo Edir Macedo eram claros e perceptíveis, mas jamais tínhamos nos enfrentado. A mecânica dos nossos desencontros era alimentada pela maneira como eles apareciam perante a sociedade, as cobranças que nos eram feitas em razão disso, as freqüentes misturas de imagem (Vocês são crentes do tipo “Macedo”?), as posturas de arrogância deles em relação aos evangélicos quando estavam por cima e as tentativas de se esconderem atrás da bandeira dos outros evangélicos quando estavam mal. Estas eram as questões sobre as quais eu respondia, dizendo que eles eram eles, e nós éramos nós. Como resultado, às vezes dava entrevistas que os desagradavam, e eles partiam para o ataque não no plano das idéias, mas sempre baixando o nível. De janeiro de 1995 em diante, começaram a aparecer cartoons com caricaturas minhas na Folha Universal, bem como alguns artigos atacando-me e alcunhando-me de Balaão Evangélico. Para quem não sabe, Balaão foi um bruxo da Mesopotâmia que recebeu dinheiro para amaldiçoar o povo de Deus. Macedo começou a dizer desde uma reunião no hotel Caesar Park, no final do ano anterior, que eu era como Balaão: um infiltrado dos jesuítas católicos no meio evangélico, a fim de desmoralizar gente como ele. Tudo piorou com o anúncio da estréia da telenovela Decadência. O escritor Dias Gomes possivelmente nunca imaginou que fosse entrar para a história da Igreja Evangélica Brasileira. O personagem do pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari na novela, apresentava um rapaz pobre, complicado e extremamente confuso, porém dono de um grande carisma e de uma fantástica presença, que teve um encontro com a luz. O problema é que a conversão de Mariel tirou-o do estado anterior e projetou-o num mundo de ambições, manipulações e mercantilismo da fé. Tendo começado de modo simples, logo ele percebeu que a fé é o mais caro e o mais vendável de todos os produtos, pois é dentro de seu embrulho que se pode encontrar um milagre. Fé produz milagre. Para quem vende, é ótimo. Não custa quase nada para produzir e é facílimo de vender. Se não funciona, a culpa é sempre do comprador, que não soube ligar o


produto, tendo lhe faltado a energia: a fé. Se o fabricante precisa subir o preço, é só pedir mais pelo produto. Ele pode valer tudo, pois a demanda é ditada pela necessidade do coração, e este não mede sacrifícios para encontrar coisas que o introduzam à possibilidade do amor, da alegria, da prosperidade, da saúde ou do fim de alguma crise que lhe tire o sono, roube-lhe uma paixão ou o afaste de um sonho obsessivo. A fé, todavia, abre portas para tudo isto. E quem não dá tudo o que tem para comprar tais tesouros? Num país como o Brasil, e muitos outros do chamado Terceiro Mundo, especialmente, a oferta da fé, como coisa a ser comprada, tem um apelo extraordinário. Muito mais eficiente do que para os revolucionários marxistas do passado, quanto mais miséria, pobreza, crise, angústia e medo, melhor — mas muito melhor mesmo. Isto porque se paga pela fé exatamente o preço que o desejo de se livrar da dor impõe. Em tempos de calamidade, dá-se o que se tem por um recurso que move montanhas, seca rios, pára o sol, faz pão cair do céu e cura toda enfermidade. E nesse sentido, o Brasil tem sido um paraíso nos últimos trinta anos. O pastor Mariel, de Dias Gomes, foi um iluminado espertalhão. Religioso e velhaco, ele combinou carisma e tortuosidade de caráter a fim de criar uma religião quase evangélica, porém marcada por uma teologia de aparência pentecostal, ainda que cheia de conteúdos de natureza pagã extremamente perversa. Para Mariel, a vontade de Cristo se confundia com a sua própria vontade, e a Bíblia era apenas um livro que ele usava ao seu bel-prazer, ainda que seus conteúdos não fossem jamais objeto de reflexão ou apreciação. Mariel tinha sido feito para aquela hora, e a hora fora criada para Mariel. Com o anúncio na mídia de que a Rede Globo lançaria uma novela que seria uma caracterização de Edir Macedo e sua igreja, a Universal iniciou imediatamente uma ação no sentido de estabelecer um enfrentamento. O problema é que assim fazendo eles vestiram a carapuça. Quando espernearam, o Brasil inteiro disse: “Serviu.” Ao perceberem o erro de marketing que haviam cometido, mudaram brilhantemente a estratégia. — Esta novela é uma agressão a toda a Igreja Evangélica. Temos que nos unir e lutar contra a Globo porque esse é o início da perseguição contra o povo de Deus — disseram eles no programa 25ª Hora e em suas mídias, especialmente o rádio. Eu já havia me posicionado contra a inclusão dos pastores evangélicos no estereótipo do tal pastor Mariel, de Decadência. Que há muitos Mariéis disfarçados de pastores, não há dúvida. Somente um ser muito estúpido ou radicalmente fanatizado poderia ter a coragem de negar esse fato. Entretanto, os Mariéis estão longe de ser maioria. Ao contrário, aqueles que vivem com dignidade e honram o evangelho mediante uma vida limpa e sóbria são tantos, que seria ridículo pretender que a figura do pastor de Decadência pudesse caber como definição de um típico pastor evangélico. A virada na ênfase de que Decadência fosse um ataque à liderança da Universal, mas, ao contrário, revelasse uma tentativa de desmoralização de todas as igrejas e todos os pastores evangélicos do Brasil por parte da Globo, foi brilhante e rápida. Assim agindo, a Universal fez com que a maioria dos pastores que fazem o gênero Mariel procurassem imediatamente abrigo à sombra dos bispos de Edir Macedo ou de sua Rede Record de televisão. E mais que isto: muitos outros pastores, que não tinham nenhuma identificação com as práticas da Universal, foram para lá, atraídos pelo medo da falada “perseguição contra os pastores”. A mania de perseguição que existe entre os evangélicos é o fenômeno mais forte a unir o grupo todo. Durante todos esses anos de circulação no meio cristão, verifico, aturdido, que mesmo a centralidade de Cristo e a referência máxima da Bíblia não têm tanta capacidade de unir os diferentes no nosso meio quanto uma boa “onda de perseguição”. Quando isso acontece, mesmo os hereges se unem, e aqueles que se acusam de práticas completamente inaceitáveis


descobrem a necessidade de se protegerem para lutar contra adversários supostamente comuns. Nesse caso, o pensamento é que o pior herege é ainda melhor do que o mais verdadeiro dos homens que não esteja do lado de cá do muro. E tudo o que se diga sobre nós e contra nós só pode ser dito por nós mesmos e dentro de nossas paredes; do contrário, nos unimos contra a suposta perseguição, mesmo que na verdade saibamos que merecemos ser tratados com tal atitude. “Roupa suja se lava em casa” não está escrito na Bíblia, mas é, sem dúvida, o mais obedecido de todos os mandamentos evangélicos. O problema era que, mesmo os mais surtados pela fobia persecutória, tinham ainda imensa dificuldade de ficar ao lado da Universal. O que eles esperavam era que eu me levantasse e pegasse a bandeira da luta contra a mídia, a Globo e as elites intelectuais e formadores de opinião do país. Entretanto, mesmo não tendo nenhum temor de assim ter de proceder um dia, não me via em condições de fazê-lo naquele momento por três razões: a primeira, era que eu sabia que aquele estereótipo encontrava muitos representantes legítimos em nosso meio; a segunda, era que eu tinha consciência de que para os líderes da Universal aquela defesa da fé não era nada além de uma estratégia de marketing e que, da parte deles, não haveria nenhum compromisso com os demais evangélicos uma vez que tudo passasse e eles se sentissem fortalecidos; e a terceira e última razão tinha a ver com o fato de que, mesmo que a tal caricatura pastoral criada por Dias Gomes fosse verdadeira no todo de sua descrição — e não o era nem de longe —, eu jamais acharia que a melhor maneira de enfrentar a situação fosse mediante a declaração de uma guerra contra a mídia. O silêncio e a indiferença, nesse caso, teriam poderes muito maiores no confronto de tais ataques. Quando comecei a dizer que não me via incluído no personagem dom Mariel, a Universal percebeu que aquilo enfraqueceria a campanha deles quanto a serem a cara pública dos evangélicos. Afinal, eles tinham sua própria mídia na mão e não havia a menor razão para que eles não falassem pelos demais evangélicos. No dia em que a minissérie estreou, a Igreja Evangélica se dividiu profundamente no Brasil. Os Mariéis e aqueles que sofriam de fobia persecutória ficaram com os bispos de Macedo. Os que desejavam uma diferenciação radical daquele estereótipo perceberam que, mesmo não gostando de ver aquele assunto tratado em rede nacional de televisão, ainda assim, era melhor ficar do lado que eu representava no conflito. Ou seja: as posições de natureza ética apregoadas pela Associação Evangélica Brasileira. No entanto, naquele momento as frentes de combate e as motivações para o enfrentamento eram muitas e diferentes. A Globo trazia o assunto ao palco da mídia por verificar o crescimento estrondoso da Universal e do império de comunicação das Organizações Macedo. Por seu turno, Macedo enfrentava a Globo por se julgar forte o suficiente para fazê-lo, sobretudo no papel de injustiçado, o que lhe renderia, sem dúvida, bons pontos de audiência. A grande mídia, por seu lado, divulgava o assunto com prioridade por ser preconceituosa e, ao mesmo tempo, por ter ainda, mesmo que de modo ateu, uma alma com memória católica. E a Veja, nitidamente comprometida com a Universal naquele episódio, assumiu o papel da revista isenta, a fim de bater na Globo, inimiga dos Civitta, donos do Grupo Abril, pois, na percepção deles, quem quer que ajude a diminuir o poderio da Globo está trabalhando ao lado das intenções igualmente hegemônicas e expansionistas que eles nutrem no coração e em suas ações. E quem não as tem? Já do lado de dentro da igreja, as razões para a defesa ou o ataque encontravam motivações diferentes. Muitos dos que aderiram à Universal naquele momento o fizeram pelo medo da perseguição. Alguns outros líderes que a eles se aliaram o fizeram, entretanto, por outras formas de interesse ou obrigação. Os tais interesses iam desde uma participação societária numa das televisões da Universal, como era o caso do pastor Fanini; no canal 13, Rio, até o desejo de poder


também manter a cota de 20% da conta de Macedo na compra de horário na CNT-Rio, no valor de aproximadamente duzentos mil reais mensais, à época, como diziam ser o caso do pastor Silas Malafaia. Os demais defensores eram caracterizados por três motivações básicas: uns eram pastores do bispo e tinham mesmo a obrigação de entrar na luta pela sobrevivência ou pela conquista de mais poder interno; outros eram pastores candidatos a cargos políticos, que viam na Universal e na chance de estarem na televisão uma excelente estratégia de autopromoção e de conquista de votos, como era o caso dos pastores Glaico e Ciro Terra Pinto, pai e filho, que tinham postulações políticas nas eleições em Belo Horizonte. Os últimos eram ilustres desconhecidos entre os evangélicos, em busca de alguma notoriedade, como um certo João Campos, cujo único grau de familiaridade nacional com a Igreja Evangélica vinha-lhe por carregar o nome de um outro João Campos, de Recife, esse sim, conhecido em quase todo o país. Meia hora de luzes de estúdio e o encantamento de lentes de câmeras de televisão têm mais poder de sedução no meio evangélico que mulher pelada ou que o próprio diabo. O único que, a meu ver, estava lá não apenas por causa de interesses de natureza política ou comercial era o pastor Silas Malafaia. Segundo soube, o negócio publicitário no agenciamento da CNT era uma de suas motivações, mas não a única. Ele estava lá também porque é uma pessoa de temperamento colérico, e com seu temperamento colérico, dificilmente perderia a oportunidade de se apresentar ao país como grande defensor da fé. No caso dele, entretanto, tal defesa tem aspectos genuínos. Ele é fervoroso em suas convicções e lutaria até mesmo contra Macedo se seus princípios o induzissem a isso. O problema é que, apesar de jovem, o pastor Silas possui uma mente sempre disposta à defesa corporativista e ao sentimento sindicalista e dinossauriano de proteção da categoria. Este livro, certamente, lhe provocará intenso desejo de partir para o ataque outra vez, e o argumento será corporativista: roupa suja se lava em casa. A análise que aqui faço da presença de tais pessoas ao lado de Macedo naquele episódio não é especulação minha, pois conversei com várias delas antes de que suas posições fossem definidas. O conflito começou entre a Rede Globo e a Rede Record, mas acabou se concentrando num enfrentamento pessoal entre Macedo, supostamente o defensor dos evangélicos perseguidos, e Caio Fábio, o amigo da mídia e sócio de Dr. Roberto Marinho, conforme a versão que eles divulgavam. — Ele é consultor informal da Rede Globo. Não sou eu quem tá falando não. É ele mesmo. Tá aqui nesse jornalzinho da Vinde. Ó, Ó. Tá vendo — dizia Malafaia, agitadíssimo, na telinha da Record, enquanto sacudia diante das câmeras o Vinde Informa. — Amigos, eu conheço o homem. Ele é íntegro e sério, mas tá aqui. O órgão de informação dele mesmo é que diz isso. Que pena! — falava Silas repetidamente, fazendo alusão ao fato de que em 1994 e 1995 a Globo, bem como a maioria dos outros meios de comunicação, quase sempre me procurava antes de lançar ao grande público coisas sobre os evangélicos. — A gente tá só querendo saber com o senhor se as coisas são assim mesmo — indagavam os repórteres. E muitas vezes eu disse que eles estavam completamente equivocados em suas intenções, o que fez com que não raramente seus trabalhos jornalísticos fossem substancialmente alterados após a consulta. Fiz isto, muitas vezes, até mesmo a favor da Universal. Minhas motivações naquela batalha não tinham a ver com nenhuma das razões mencionadas até aqui. Não tinha e não tenho nada pessoal contra o bispo Macedo, não ganho nada de nenhum de seus inimigos, não sou candidato a nada e não me vejo na obrigação de defender os evangélicos apenas por uma questão de fidelidade a uma ética corporativista, mafiosa. Além disso, não tenho e nunca tive nenhum vínculo societário ou empregatício com nenhum grupo de comunicação. E os


que possa ter tido foram todos definidos por prestação de serviço deles para comigo, na compra de horário. Para mim, aqueles dias foram o inferno. Não fora para aquilo que eu me tornara cristão. Em meio a tudo, às vezes eu me lembrava dos tempos em Manaus, das vigílias de oração, das reuniões nas escolas e faculdades, onde dava pura e simplesmente o testemunho de minha fé e amor, e me perguntava: “O que me trouxe até aqui?” Também me vinha ao coração a convicção de que não estava fazendo nada que tivesse a ver com as coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. Aquela briga era necessária, talvez; mas era perversa, com certeza. Era preciso esclarecer ao Brasil que Macedo e sua igreja tinham e têm o direito de existir, mas eles precisavam assumir que suas práticas eram suas, e não podiam tentar fazer a nação crer que todos nós fazíamos as mesmas coisas. Na minha mente, não havia como evitar fazer tais esclarecimentos. Por outro lado, estava com raiva de precisar assumir aquele papel ingrato. Entretanto, naquele contexto, não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar aquele confronto, a menos que um outro assumisse o meu lugar. Durante e depois da novela, as notícias sobre “a briga entre o bispo Macedo e o pastor Caio” passaram a ser diárias. Meu sossego acabou completamente. As matérias saíram das páginas de miolo dos jornais e começaram a ser chamadas na primeira página. Eram repórteres todos os dias, e o telefone não parava de tocar um só momento. A mídia internacional também nos achou. A história corria o mundo. Era a BBC de Londres, a TV Alemã, os canais da América Latina e de Portugal. Eu tinha a sensação de que estava sendo esmagado por um rolo compressor, e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar aquele atropelamento. Aquela foi a primeira vez que pude realmente sentir a força avassaladora da mídia, pois mais do que com fatos importantes, estávamos lidando com a construção de um espírito coletivo. E o processo de sua formação era o seguinte: os repórteres vinham e tiravam de mim tudo o que eu pensava sobre as ações dos líderes da Universal. Então publicavam. No dia seguinte, era a vez deles reagirem. Também era publicado. E assim íamos, andando não sobre fatos que espontaneamente brotassem do chão, mas sobre a pavimentação de uma idéia, de um espírito, de uma entidade quase autônoma, que se alimentava de nossas energias mentais. Aquilo não afetou apenas a mim, mas a eles também. Nos cultos da Universal, o clima de guerra cresceu para níveis quase islâmico-xiitas. Era ódio para todo lado. Repórteres foram ameaçados, o Dr. Roberto Marinho teve sua morte “decretada” no programa 25ª Hora para no máximo até o fim de 1996, e eu fui declarado como sendo “o Golias que seria derrubado” pelas pedras deles. E mais do que isso: disseram-me que eu tinha um Exu na boca e que a maldição divina estava sobre a minha cabeça. — Quem é o reverendo Caio Fábio? — perguntou uma amiga que ligou para o templo central da Universal no Brás, em São Paulo, fazendo de conta que não me conhecia. — Esse é o Golias que a gente vai derrubar. Ele é aquele que casa homossexuais e que é nosso inimigo. Nós vamos derrubá-lo — disse a pessoa do outro lado da linha. — Pastor Caio, estou chocado. Nunca vi nada igual. Eles vão enlouquecer. Há brilho de ódio nos olhos deles — disse-me João Bezerra, que trabalha comigo desde 1984 e que fora a uma Igreja Universal ver como o clima estava. — Eles pediram dinheiro 45 minutos. Depois, começaram a pedir provas de fé. O pastor perguntou quem tinha coragem de levar uma garrafada na cabeça até o sangue jorrar. Insistiu. Ele dizia que queria ver sangue no chão. Ninguém foi. Até que veio um rapaz e ofereceu a cabeça para levar uma garrafada por amor a Cristo. Já pensou? Mas o pastor não deu. Então disse: “Você só está oferecendo a cabeça porque já conhece o esquema. Volta pro teu lugar.” E continuou: “Se você quer qualquer coisa de Deus, tem que ser louco. Tem que oferecer a cabeça para levar a garrafada.” Foi aí que ele começou a pedir para as


pessoas fazerem loucuras, darem o que não tinham e oferecerem todos os bens que possuíam. Ele limpou até a moedinha de uma velhinha. Levou vale-transporte, ticket refeição e o dinheiro do ônibus. Não deixou nada. Limpou tudo. Aí, então, ele percebeu que eu estava chocado. Acho que foi por causa da minha cara de angústia. O homem então começou a ameaçar colocar câncer na garganta de quem estivesse olhando para ele com ar de incredulidade. Disse também que quem assistir à Globo vai ficar com AIDS, câncer e outras maldições. Era muito ódio. Nunca vi nada igual — falou João, sem conseguir nem parar para respirar de tão agitado que estava. A pressão vinha de todos os lados. Eram líderes ligados à AEVB que queriam uma tomada de posição. Eram outros que queriam que silenciássemos. E havia também os que exigiam um esclarecimento público e final sobre as razões de nós sermos tão contrários às práticas e posturas da IURD. — Só se fizermos um manifesto e o divulgarmos em nome da AEVB, botando um ponto final nesse bate-boca — disse para várias pessoas. A idéia do documento prevaleceu. Assim, nos reunimos da noite para o dia e elaboramos o texto. A idéia era afirmar o direito constitucional da Universal existir do modo que bem entendesse, dentro das fronteiras da legalidade, mas mostrar as imensas diferenças de natureza ética, doutrinária, prática e de conteúdos que nos separavam. Por isto, solicitaríamos que eles falassem em seu próprio nome e parassem com aquela estratégia de se esconderem atrás dos evangélicos sempre que aprontavam e não queriam ficar para pagar a conta sozinhos. O texto foi aprovado, e cerca de cento e dez líderes de expressão o subscreveram em menos de 24 horas. A legitimidade do documento estava garantida do ponto de vista da AEVB, visto que nós mesmos não ousávamos falar em nome de todos os evangélicos, pois nossa associação não representava mais do que 45% do total. Entretanto, mesmo sem representatividade absoluta, ainda assim, refletíamos o pensamento da maioria esmagadora e silenciosa, possuída de um pudor religioso extremamente covarde. Na véspera de entregar o documento, recebi um telefonema de um conhecido líder evangélico de São Paulo. — Alô, pastor Caio? Olha, irmão, eu estou implorando para você não apresentar o manifesto amanhã. Eles são tudo o que você está dizendo e muito mais. Eu vivo com eles e sei que tem gente ali que é capaz de tudo. Eles não têm escrúpulos. Sabe aquele negócio do dom Mariel botar uma mulher para seduzir o empresário? Eles são capazes de criar uma situação para envolver você com alguém. Não corra o risco. Você é a nossa liderança legítima. Eles são artificiais. Mas olha, irmão, se você entregar o documento, eu vou ter que ficar com eles por razões comerciais. Eu não posso perder meu programa na Record. — Obrigado pelo telefonema e pelo incentivo que você está me dando para convocar a imprensa amanhã e entregar o nosso manifesto. Se eu ainda tinha dúvidas, você acabou de me tirá-las agora — falei com profunda dor no coração, enquanto caminhava do restaurante 14 Bis no aeroporto Santos Dumont e ia ao estacionamento pegar o meu carro. Durante o resto do dia que antecedeu a coletiva à imprensa recebi inúmeros telefonemas. A maioria deles, entretanto, era de gente preocupada se eu iria me queimar. — Olha, está tudo certo. Mas eles são poderosos. As armas deles não são idéias. Eles jogam pesado. Vão destruir você. Será que vale a pena o sacrifício? — foi a pergunta que ouvi naquele fim de tarde de vários pastores de todo o Brasil. Ouvindo aquele desfile de declarações que revelavam apenas um profundo instinto de sobrevivência por parte dos pastores que me telefonavam, percebi como o nosso país, e nele a própria igreja, está dramaticamente destituído de princípios que, eventualmente, nos conduzam ao espírito de sacrifício, entrega, idealismo e até de martírio. A fé chegara até nós porque muita


gente de fibra tinha tido a coragem de brigar contra coisas e pessoas maiores e mais fortes. Agora, entretanto, esse espírito de compromisso was gone with the winds. Eu, contudo, aprendera com papai e com a Bíblia que, por princípios, fica-se e luta-se contra os adversários, mesmo que eles sejam até mais fortes do que você. — Olha, eu vou. Não tenho medo de combate desde que tenha certeza de que a verdade está do meu lado. Se eu morasse lá em Israel nos dias de Davi, quando ele lutou contra o gigante Golias, não teria sido tão fácil para Davi como foi. Eu e ele iríamos disputar no “palitinho” o privilégio de ir enfrentar o gigante. Se vocês me disserem que eu estou errado, eu não vou. Mas se tudo o que vocês tiverem para me dizer for esse blablablá de sobrevivência e de não se queimar, me perdoem: eu vou morrer algum dia e prefiro que seja por uma boa causa do que por uma que não exalte a verdadeira fé — declarei para muita gente naquele dia. A coletiva à imprensa aconteceu e a maior parte da mídia do país estava lá naquela tarde de inverno de 1995. — O senhor não tem medo de estar lutando contra gente muito mais forte que o senhor? Eles têm poder para infernizar sua vida se quiserem. O senhor está com medo? — indagou o repórter do jornal da Bandeirantes. Respondi que não e fui para casa aliviado. Agora, o Brasil todo, e não somente o Rio de Janeiro, saberia que a posição dos evangélicos não era a de Macedo. Triste ilusão a minha. Vendo que não poderiam nos enfrentar à altura da cabeça, partiram para o golpe baixo. Começaram os ataques cada vez mais pessoais contra a minha pessoa. O que me espantava era a incapacidade que tinham de responder numa boa, sem partir para a ignorância. Além disso, alguns fanáticos de lá começaram a me fazer ameaças por telefone. — Nós vamos te pegar, seu desgraçado — dizia um aviso. — Quem avisa amigo é. Diz pra ele que a gente ainda vai destruí-lo — falou um outro. — Ou ele se cala ou a gente cala ele — ouvimos ainda. Diante de tudo aquilo, minha esposa perdeu completamente a paz. A situação ficou tão grave, que num daqueles dias ela me disse, em meio a muita angústia, que desejava apressar sua temporada com nossos filhos mais novos fora do Brasil. — Olha, Caio. Eu sou fiel a você até a morte, mas não quero viver assim. — Por que a gente não passa um tempo nos Estados Unidos? Você fica lá direto, se restaura, enquanto eu posso ficar lá e aqui: sete dias lá e 12 aqui no Brasil. O que você acha? — sugeri. Alda aceitou. Uma semana depois do Manifesto da AEVB, veio a carta aberta da Universal. Dizem os entendidos que a tal carta teria sido redigida pelo pastor Silas Malafaia e autenticada pelos bispos de Macedo. Não posso afirmar, mas foi o que correu pelo meio evangélico, ainda que isto não seja importante para o desfecho dos fatos. Eu estava em Foz do Iguaçu, no congresso Vinde para pastores, quando Fernando Molica, então repórter da Folha de São Paulo, me telefonou perguntando o que eu tinha a declarar. — Eu não sei do que você está falando — afirmei com ar de perplexidade. — Bem, há uma carta assinada pelos principais líderes da Universal e alguns pastores do Rio e de Minas Gerais. A surpresa é o nome do Fanini. O que deu nele? Ele é batista e assinou o documento. O que o senhor tem a dizer? Pedi tempo para ler a tal carta aberta e então dar uma resposta. Mal acabei de falar com Molica e já havia várias cópias da carta chegando ao fax do hotel. Além disso, amigos de todo o Brasil começaram a telefonar empenhando solidariedade. Li o texto e fiquei sem saber o que sentir. Primeiro deu raiva. Afinal, nós havíamos sempre tratado o assunto no nível da reflexão, e eles o haviam trazido para um plano absolutamente pessoal. Mas depois que li o texto pela segunda vez, me deu vontade de rir. O material era tão


pobre e sem construção de idéias, tão simplista nos seus argumentos e, ao mesmo tempo, tão cheio de tolices, que achei que eles todos, os que assinaram aquela carta, estavam me fazendo um favor. Respondi à mídia com uma “nota” na qual lamentava que as questões levantadas pelo nosso manifesto continuassem sem resposta — com certeza devido à impossibilidade de negar as evidências de tudo o que disséramos — e que, ao invés de partirem para o nível das idéias, “eles” estivessem gastando tanto dinheiro — a matéria era paga — para tentar enlamear o meu nome. Continuei em Foz e não mudei a rotina de minhas pregações naquela região do Brasil até o fim de meus compromissos. Na semana seguinte, a situação tinha ganhado outro contorno, do ponto de vista interno. A diretoria da Associação Evangélica em São Paulo queria tomar medidas imediatas para afastar o pastor Jabes Alencar, membro da entidade naquele estado, que, por razões de interesse pessoal, havia decidido assinar a carta da Universal. — Na minha opinião, como se tratou de um texto dirigido a mim e não à AEVB, não há nada a ser feito. Não foi ético o que o pastor Jabes fez, mas não foi ilegal do ponto de vista de seu vínculo para conosco — eu disse mais de uma vez, com medo de que o episódio gerasse um tempo de caça às bruxas dentro de nosso grupo espalhado por todo o Brasil. — Mas por que o pastor Fanini também assinou a carta? — era, entretanto, a pergunta que eu mais ouvia. Tendo sido eleito para uma função diplomática de representação dos batistas mundiais, Fanini estava cumprindo uma formalidade da política daquela igreja, que faz rodízios democráticos, indicando presidentes de continentes diferentes a cada período. — O que fez o pastor Fanini mudar tanto? Não foi ele quem disse que preferia a Umbanda à Igreja Universal? — indagou de mim um evangélico que é repórter de um grande jornal. — Olha, você é repórter, então investigue para ver se descobre o que fez com que ele mudasse de um extremo para outro tão radicalmente — disse de modo vago, ainda que soubesse qual era a razão daquela mudança. Mas como ouvira a verdadeira história de pessoas de “dentro”, o que incluía informações que o próprio pastor Fanini me passara num almoço que tivera comigo cerca de dois meses antes do episódio da carta aberta, julguei que não cabia a mim desvendar o mistério, embora as razões existissem e fossem bem objetivas. Não sou e nunca fui uma pessoa amargurada. Mas aqueles fatos estavam fazendo mal à minha alma. Meu coração estava começando a ficar malicioso outra vez, depois de 22 anos. Às vezes, me apanhava construindo um plano sofisticado para trazer tudo aquilo à luz de modo irrefutável. Então, me recolhia na solidão de mim mesmo e buscava a Deus em oração. “Jesus, não foi para isto que a Tua Graça me alcançou um dia. Salva-me da amargura e da iniqüidade de pensamento. Eu me entrego a Ti, que és o único que conheces a verdade. Vem e traz Tua luz”, era minha prece constante. Foi naquele período, mais do que em qualquer outro, que pude perceber a bênção da criação que tivera, apesar de todos os percalços. Se papai não tivesse me estimulado a ir empinar a minha pipa longe de casa, sem medo de andar sozinho, e se ele não me tivesse forçado a lutar contra adversários sempre maiores do que eu, certamente estaria esbagaçado pela força daqueles acontecimentos. Ainda que sendo traído por pessoas até então tão próximas a mim, e mesmo tendo de andar por aquele caminho em profunda solidão, jamais me senti sozinho na estrada. Podia ver onde o vento estava soprando e para onde a minha pipa estava indo. “Para longe de casa?”, você perguntaria. É, talvez eu estivesse indo away from home. Mas as vozes do Pai e de papai estavam sempre comigo. “Caiozinho, pode ir até lá soltar o seu papagaio. Se você sabe onde está saindo e


para onde está indo, então não há perigo. Você sempre vai saber o caminho de volta para casa”, dizia ele me mostrando the long and winding road, ensinando-me, assim, que não importa por onde passe a estrada, pois ela sempre leads me to your door, como ensinaram os meninos de Liverpool. E, no meu caso, the door era Cristo. Sabia que aquele caminho estava me levando para longe de casa, especialmente se pensasse que a igreja e suas instituições tinham sido minha casa nas últimas duas décadas. Entretanto, havia em mim a certeza de que aquela estrada me conduziria cada vez mais para perto de mim mesmo e de meu Deus. Mas nem tudo foi triste naqueles dias. Houve também coisas com um tom engraçado. — Ó, pastor Marcos, diz pro reverendo Caio que tem um tal de Mala-qualquer-coisa falando muito mal dele na TV Record — disse um dos mais temidos prisioneiros de Bangu I. — Malafaia. Esse é o nome. É um pastor — disse Marcos Batista. — Pois é. Diz pro reverendo que a gente tá ouvindo esse cara falar mal dele e que tem gente aqui perdendo a paciência. Se esse cara continuar a falar mal do nosso reverendo, a gente acaba mandando dar um esfrega nele. O que ele pensa? Que pode falar mal de gente que só faz o bem e ficar assim mesmo? Num fica assim não, pastor. A gente tá aqui, mas nossos amigos tão lá fora. Esse cara leva um aperto e não sabe nem por quê. Diz pro reverendo que a gente tá às ordens — disse o detento. — Olha aqui. O reverendo Caio é um homem de Deus. Ele é cristão. E um cristão não paga o mal com o mal. Um cristão paga o mal com o bem. Então, se vocês puderem, orem pelo pastor Silas Malafaia e assim vocês vão cumprir a lei de Cristo. Eu não vou dizer um negócio desses pro reverendo Caio de jeito nenhum. Ele iria ficar muito angustiado. E tem mais: ele está triste com o pastor Silas, mas gosta dele. Orem pelo pastor Silas. Só isso — explicou Marcos Batista numa de suas últimas visitas a Bangu I. — Desculpa o mau jeito, pastor. Mas esse é o nosso modo de ser amigo. Aqui com a gente, amizade é amizade, parceria é parceria, e ninguém trai. Se trair, dança — disse o bandido, muito mais consciente do valor de certos princípios que alguns de meus companheiros de ministério cristão. No dia 12 de outubro, o bispo von Helder, da Igreja Universal, chutou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, vista pelos católicos como a Padroeira espiritual do Brasil. Foi um escândalo. Ele agrediu, provocou, chutou e esmurrou a imagem da santa, ao vivo, na televisão. — Olha essa coisa feia, desgraçada, miserável. Isso aqui num tem poder nenhum — disse ele em meio a muitas outras coisas. O país parou, e eu fui outra vez “guindado” para dentro do conflito com a Universal. — Tá certo chutar a santa? — era a questão que repórteres do Brasil e do exterior me faziam o dia todo. — Nós, evangélicos, vemos o culto aos ídolos ou santos como idolatria inaceitável, de acordo com a Bíblia. Mas entendemos que num país pluralista como o Brasil, ninguém tem o direito de fazer enfrentamentos físicos e públicos contra objetos de culto, sejam eles quais forem. Portanto, mesmo condenando a idolatria, temos também que condenar o modo pagão como von Helder brigou com o ídolo — foi o que respondi inúmeras vezes. Foram mais duas semanas de confrontos, opiniões e debates. Parecia que o disco não mudava. Eu já estava cansado e começando a evitar dar entrevistas sobre o assunto.


Capítulo 59 “E conheci por experiência que não é de admirar que o pão seja um tormento para o paladar do enfermo, embora seja agradável para o paladar do sadio, e que olhos enfermos considerem odiosa a luz, que para os puros é amável.” Santo Agostinho, Confissões

No ano de 1995 houve muitos seqüestros no Rio, o que era muito ruim para o governo do estado, pois o governador Marcello Alencar havia sido eleito com forte apoio da classe média e com a promessa de reduzir a situação de pânico a níveis de razoabilidade em um ano. No entanto, o ano correra carregado de confusão e crescente perplexidade na questão da violência. E, para piorar, vários atos isolados de barbarismo haviam acontecido a pessoas vinculadas à chamada alta sociedade carioca, fazendo com que um clima de histeria tomasse conta da mídia. A gota d’água foi o seqüestro de Eduardo Eugênio, filho de um industrial de renome, que acabara de ser eleito para o cargo de presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Os poderosos da sociedade carioca estavam se sentindo extremamente inseguros, o que poderia deixar o governador numa situação difícil, politicamente falando. E aqui é bom lembrar que, no Rio, os governantes ganham ou perdem eleições dependendo de como o termômetro da violência se mostra. E na definição desses níveis, a mídia tem papel preponderante, uma vez que há a violência real e a violência psicossocial. A primeira, aqueles que nós convencionamos chamar de bandidos realizam; já a segunda, é basicamente uma produção da mídia, e afeta o inconsciente da sociedade. O processo é o seguinte: os órgãos de comunicação constatam a violência real e divulgam-na a tal ponto, que fazem com que algo de dimensão particular se torne um fenômeno de proporções coletivas incomparavelmente mais abrangentes do que o fato noticiado. Então, todos comentam o assunto e um espírito comunitário é criado. E é essa entidade psicossocial que alimenta a marginalidade potencial que existe no coração humano, a qual resulta tanto de perversões de natureza intrinsecamente individual quanto de contribuições feitas pela miséria, pelas desigualdades e pelas injustiças instituídas em microssociedades, onde inúmeros seres humanos são forçados a existir. E as favelas são o mais trágico exemplo dessa forma de existência. — Reverendo, o publicitário Roberto Medina está sugerindo que a cidade do Rio pare para um ato contra tanta violência. O que o senhor acha? — perguntou-me uma repórter. — Não acredito em atos contra a violência. Acredito em ações contra a violência. Atos desse tipo só fazem sentido se forem seguidos de ações práticas, tipo: intervenção econômico-social nas favelas, uma política de geração de renda para áreas empobrecidas e um trabalho de saneamento


moral das polícias, com uma melhor remuneração para os policiais — respondi, já cansando de dizer a mesma coisa. — Mas se houver o ato contra a violência, o senhor vai? — perguntou. Respondi que sim, desde que o propósito do ato não fosse o ato em si. — Caio, há uma mobilização sendo preparada. Preciso de você nesse negócio. Dá pra você mobilizar o pessoal do Rio Desarme-se e os evangélicos? — indagou Rubem César. Reunimo-nos e conversamos sobre a marcha Reage Rio, como o ato começou a ser chamado. Levei ao Rubem César as impressões de alguns grupos de favela, que achavam que a coisa estava mais para Reage Rico do que para qualquer outra coisa. Combinamos que a Fábrica de Esperança e a Casa da Paz puxariam o movimento dos lados Norte e Oeste da cidade, e que eu tentaria também envolver os evangélicos no processo. No dia 18 de novembro os jornais noticiaram amplamente o relançamento da campanha Rio Desarme-se como mais uma contribuição de peso ao Reage Rio. Naqueles dias, entretanto, aconteceu algo que me deixou muito preocupado. Os jornais publicaram um cartaz feito por Caio Ferraz, André Fernandes e Cristina Leonardo, convidando a população para telefonar para a Fábrica de Esperança ou para a Casa da Paz em casos de denúncias contra bandidos ou policiais. Gelei quando vi o anúncio estampado nos jornais O Dia e O Globo. — André, que negócio é esse? Isso aqui acaba com a gente. Já pensou na situação em que esse anúncio nos colocou? A polícia nos verá como “aliados do tráfico”, e os traficantes nos verão como X-9 da polícia. Assim não dá, André. A Cristina Leonardo pode fazer isso porque ela não está aqui, em Acari. Nós estamos aqui, completamente vulneráveis aos dois lados da guerra. Nunca mais deixe essas coisas que têm o nome da Fábrica saírem sem minha ordem escrita — disse a André Fernandes, assessor comunitário da Fábrica, já percebendo o risco gratuito no qual estávamos sendo colocados. No dia seguinte, esclareci o assunto nos jornais, mas fiquei com a desconfiança de que o estrago já estava feito. O assunto “Universal” ficou esquecido por um tempo, e a mídia passou a me procurar apenas pela temática do Reage Rio. Enquanto isso, as reuniões de organização da caminhada continuavam seu curso, com adesões de todos os tipos e engrossando aquele que se queria que fosse um ato tão cheio de significado, que pusesse nas mãos da população da cidade do Rio de Janeiro um capital cidadão grande o suficiente para permitir que fosse solicitado ao governo federal investimentos na cidade na ordem de um bilhão de dólares. Para isto, esperava-se que um milhão de pessoas viessem às ruas. A idéia era de Betinho: Um milhão por um bilhão. Esse era o desafio que o Viva Rio, organizador do ato, tinha pela frente. E a julgar pelo número de adesões e pelo apoio da mídia, aquele seria um evento pleno de sucesso. De minha parte, estava disposto a contribuir. Entretanto, nem de longe eu era um dos maiores incentivadores do ato. Achava que todas as ações de cidadania eram bem-vindas, mas precisávamos de mais objetividade. Mas fosse qual fosse o resultado da marcha, comecei a perceber que a mobilização em si carregava um objetivo bem prático: aproximar segmentos da cidade até então completamente distantes. E se alcançasse apenas aquele resultado, já julgava que o evento teria valido a pena. No entanto, o governador entendeu que aquele ato era algo que acontecia contra os poderes constituídos ou com a intenção de enfraquecer as forças institucionais para que alguém se beneficiasse politicamente com o resultado do evento. Assim, daquele momento em diante, nosso evento saiu de seu fluxo de ação cidadã e passou a ser tratado pelas autoridades como uma mobilização subversiva e marginal. Todavia, considerando os que se sentam à mesa da coordenação do Viva Rio, aquele julgamento dos objetivos do evento eram hilários. Desde quando


os que ali estavam tinham jamais participado de ações contra governos instituídos? Com exceção de uns dois ou três que militavam na esquerda, e de outros dois que haviam sido mais afoitos long ago, os demais eram apenas empresários e executivos cansados de se sentirem impotentes em relação à única dimensão da vida social sobre a qual eles não tinham muito como se proteger: o enlouquecimento de seres humanos tomados por imensa desesperança e animados por profundo ódio. Somente o desespero político do governador Marcello Alencar, incentivado pela angústia militar do secretário de Segurança, general Nilton Cerqueira, poderia ter visto nos membros do Viva Rio algum tipo de potencial subversivo. Mas de qualquer forma, foi assim que alguns de nós fomos tratados, especialmente aqueles que estavam mais próximos da população. E neste aspecto, creio que mais do que qualquer outra pessoa ali eu me tornara o mais vulnerável de todos: pastor evangélico, agente social em zona de guerra, capelão de presos perigosos, Don Quixote de favelas, proponente de desarmamento, comunicador de TV e rádio, recebendo muita atenção da mídia e capaz de se expressar de modo razoavelmente articulado e carismático — eu era a figura ideal para ser o nervo pelo qual a dor de um ataque se fizesse sentir naqueles dias. — Gente assim como “o irmão” pode ser a parte mais fraca de um movimento, mas também pode ser a mais forte. Tudo depende do dia e da hora — disse o pastor Ariovaldo Ramos. — Tudo depende da Graça de Deus e do momento histórico em que se está vivendo — eu acrescentaria.


Capítulo 60 “Se Tua justiça desagrada aos maus, muito mais desagradam a víbora e o caruncho, que criaste convenientes para a parte inferior de Tua criação; como também os injustos que tanto mais se assemelham ao mau quanto mais diferem de Ti, assim como outros se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a Ti.” Santo Agostinho, Confissões

No dia 23 de novembro de 1995, o plano para o meu seqüestro moral foi executado de modo habilidosíssimo. Eles não capturaram meu corpo, mas conseguiram botar a mão nas únicas coisas que poderiam significar bem público para mim: minha integridade como cristão e minha honra como cidadão. Aquele dia tinha amanhecido como todos os outros naquela semana, uma vez que após a troca de chumbo no episódio com os líderes da Universal e alguns de seus sócios, a vida parecia ter voltado ao normal. Fui mais cedo para o aeroporto do Galeão, comi uma deliciosa picanha com pimenta, ainda me aventurei numa rabada, e aguardei a hora do embarque. Eu tinha de ir até Caruaru, em Pernambuco, a fim de encerrar o Primeiro Congresso Sertanejo de Evangelização. O vôo era pingado: Rio, Salvador, Aracaju, Maceió, para só então chegar ao Recife, aí por volta das 18 horas. — Caio, olha! Tenho notícias ruins. Acharam cocaína na Fábrica de Esperança — me disse Alda na primeira ligação que entrou no meu celular tão logo liguei o aparelho após o pouso em Salvador. — Mas e daí? Naquele lugar, com aquele tráfico de drogas ali do lado, com a polícia invadindo a favela todos os dias e fazendo o pessoal tentar pular o nosso muro, e com uma área do tamanho da que temos, como seria possível garantir que isso jamais aconteceria? — perguntei a ela como quem questiona o óbvio. — O problema é que a mídia tá toda lá. Parece que querem fazer um escândalo — respondeu ela. — Chamem o Ariovaldo Ramos, redijam um texto e mandem para os jornais. Amanhã, quando eu chegar, dou uma coletiva para esclarecer o assunto — disse sem ver por que aquela situação pudesse ter maiores repercussões. Para mim, era como alguém dizer que havia achado uma estopa nas proximidades de uma oficina mecânica ou que nas imediações de um campeonato de surfe haviam encontrado um vidro com parafina. Afinal, nós não estávamos em Acari para as férias, mas para correr o risco de tentar


ajudar a quem vivia na região da sombra da morte. — Reverendo, que bom que eu achei você. Já tá sabendo que acharam uma sacola com papelotes de cocaína na Fábrica? — perguntou Eliane Azevedo, que trabalhava na chefia de reportagem de O Globo. — Já sim. A Vinde está soltando uma nota sobre o assunto. Não vejo nada demais nisso — falei, crendo realmente que aquilo tudo era natural naquelas circunstâncias. — Mas, olha, a coisa não é tão simples assim. O comandante da operação, tenente-coronel Marcos Paes, disse que foi lá guiado por uma denúncia feita ao Disque Denúncia e que não achou apenas a droga, mas também encontrou evidências de que a direção da Fábrica era conivente com aquilo, pois havia até mesmo um colchão ao lado para o pessoal tomar conta à noite — disse-me ela com um tom nervoso. Afinal, além de repórter, ela também era minha amiga. — Olha, tem algo errado aí. Nós vamos investigar. Amanhã eu vejo isso — falei, ainda tentando diminuir o impacto da situação. — Reverendo, não dá pra esperar até amanhã. Agora estou falando como repórter e não como sua amiga. A coisa tá feia e o senhor tem que esclarecer. Além disso, o governador já se manifestou sobre o assunto. Falta o senhor — falou Eliane. — E o que foi que ele falou? — perguntei, começando a ficar nervoso. — Vou lhe dizer, porque o assunto vai estar no jornal de amanhã e ele não pediu segredo. A questão é que havia um repórter de O Globo ao lado dele quando ele recebeu um telefonema no celular. O governador estava em Brasília. O repórter disse que ele ouviu, e depois disse: “Que bom. Quer dizer então que chegou a hora de pipocar esse negócio? Vai cair tudo.” Então, virou pros outros que estavam com ele e disse: “Acharam droga lá na Fábrica de Esperança. A coisa vai começar a pipocar”, e aí, reverendo, deu uma gargalhada. O repórter ficou chocado. Ele disse que esperava que o governador lamentasse. Mas que nada. Ele chamou a imprensa e deu uma entrevista dizendo que sempre soube que a Fábrica era um paiol de drogas e outras coisas. Como o senhor vê, a coisa tá feia. Meu Deus, ele é o governador do estado! — Olha, Eliane, tudo o que eu tenho a dizer é que uma coisa dessas acontecer lá em Acari é mais que possível, é provável. A gente está numa zona de risco. É como ser ferido em guerra. O perigo vem com o trabalho, e todo mundo sabe disso. E mais: acontece todos os dias em lugares diferentes do Rio. Ele só está dando valor a isso por causa do movimento Reage Rio — falei com muita angústia. O desassossego de meu coração foi profundo daí para a frente. Meus pés gelaram como todas as vezes que, na adolescência, tinha uma briga marcada para o dia seguinte. Meu desejo era pegar o avião de volta ao Rio e partir para o confronto. Fiquei com raiva. Imaginei a irresponsabilidade e maldade daquelas declarações. No meu coração, fiquei tomado de ira. Minha vontade era não ser um pastor e nunca ter comprometido a minha vida com os princípios do amor e da não-violência dos evangelhos. “Ai, meu Deus. Esse ímpio só tá dizendo isso porque ele sabe que nós não vamos reagir. Eu Te confesso, Senhor, se eu não fosse cristão, esse cara iria conhecer o poder da língua irada de um homem que não deve nada a ele. Ajuda-me, Jesus. Eu não quero odiar esse homem. Dá-me a chance de fazer o que Tu mandaste, quando disseste que devemos amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. Dá-me forças, Senhor. Eu não quero ser vencido pelo ódio e pela amargura”, orei insistentemente e em lágrimas durante o resto do vôo até Recife. Quando cheguei lá, todo mundo já sabia. Algumas redes de televisão haviam mostrado a ação policial quase ao vivo e a coisa se transformara num assunto de repercussão nacional. Fiquei com mais raiva ainda. O celular não parava de tocar. Além da imprensa, as rádios e TVs estavam querendo informações. Nas rádios eu entrava ao vivo. O duro era não perder o controle. Tudo o


que não queria era “ventar” minha ira e baixar o nível. Mas quanto mais entrevistas eu dava pelo celular, mais “notícias” tinha de tudo e mais indignado ficava. Fui direto para o hotel tomar um banho e tentar orar um pouco. Tomei o banho, mas não consegui me concentrar na oração. O mundo inteiro girava na minha cabeça. — Cristina, você está bem? — perguntei à supervisora geral da Fábrica, que naquele dia, em razão de minha ausência, tivera de lidar com toda aquela pressão. — Reverendo, foi o pior dia de toda a minha vida. Tem muita maldade no ar. Eles querem é fazer mal à gente, não importa como. Eles odeiam a gente e a Fábrica. Volte logo, por favor. Amanhã a coisa vai ser pior. O governador não pára de fazer declarações cheias de ódio. Parece coisa do diabo — ela respondeu ainda dentro do carro, às sete e meia da noite, tentando voltar para seu esposo e filhos naquele dia de angústia e injúria. O assunto da cocaína na Fábrica estava em todos os telejornais. Mas bastava estar no Jornal Nacional para já ser um estrago. Assisti às notícias e saí para o lugar do culto. — Caio, meu irmão. Acho que eu posso te ajudar. Não faz nada sozinho. Nós temos de agir juntos. O que o governador quer é atingir o Reage Rio. Ele meteu na cabeça que é uma passeata contra ele. E como você é parte disso e também é o nome por trás da questão do desarmamento, ele pensa que, usando o episódio da Fábrica, ele vai quebrar com a gente e desmobilizar a marcha — disse-me Rubem César na hora em que eu ia entrando no auditório superlotado, com mais de quatro mil pessoas, onde eu iria pregar em trinta minutos. Agradeci ao Rubem e disse que falaria com ele depois do culto. Só Deus sabe como eu estava por dentro. Pela misericórdia divina, os cânticos espirituais acalmaram a minha alma e eu tive paz. Preguei uma mensagem sobre o amor como único motivador legítimo da ação missionária dos cristãos. “Se você se entregar à vida missionária motivado por qualquer outra coisa que não o amor, você vai se amargurar. Não há recompensas lógicas para a prática do bem. Não espere que paguem a você. Por isto, pague a você mesmo com a alegria de servir a Deus e ao próximo por nada, só pela bênção de poder amar”, disse muito mais para mim do que para a multidão que ali estava. Finalizada a reunião, falei com Alda para saber como ela estava; chamei Rubem para ouvi-lo sobre os desdobramentos dos fatos, e liguei para Cristina pedindo que ela chamasse a mídia toda para a Fábrica às 11 horas do dia seguinte. Não dormi a noite toda. No meu coração não havia medo do governador nem de suas declarações. Eu tinha medo era de mim mesmo. Meu pavor era perder a linha e falar o que não devia. Marcello Alencar já perdera a compostura de governante e eu não queria perder a postura e a conduta de um pastor, ainda que tivesse de falar de modo enérgico, se fosse necessário. Graças a Deus o avião que me levou de volta não tinha os jornais do Rio e de São Paulo, pois se eu tivesse lido o que o governador havia dito sobre nós, certamente minha reação não teria sido de tanto controle. Quando botei o pé na esteira da porta automática da saída do aeroporto do Galeão, um batalhão de flashes espocou sobre mim e uma multidão de microfones cercou meu rosto. — O senhor vai processar o governador? — O governador disse que desde janeiro sabia que a Fábrica era depósito de drogas. — Ele disse que vai fechar a sua obra social. Estas eram algumas das muitas perguntas que vinham juntas. — Olha, o que eu tenho a dizer é que ele está sendo precipitado, leviano e irresponsável. Ele não pode sair por aí tentando julgar quem ele não recebeu mandato para julgar. Ele é o governador. Não é investigador, delegado, promotor público, juiz nem Deus. Ele tem que se acalmar em vez de tentar destruir obras que não conhece — falei com energia, mas,


estranhamente, já sem ódio no meu coração. Eu orara tanto na viagem, que meu coração ficara livre daqueles sentimentos de hostilidade que haviam habitado em mim desde o pôr-do-sol do dia anterior. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira e nem deis lugar ao diabo”, era o texto de Paulo que eu lembrava a mim mesmo nas horas de recaída. Na viagem do Galeão a Acari, Jorge Antônio Barros, editor-chefe da Revista Vinde, e o pastor Ariovaldo Ramos atualizaram-me sobre as notícias dos jornais do Rio e de São Paulo e me fizeram uma avaliação da situação. — Apesar de chamadas ambíguas ou mesmo ruins, os textos dos jornais estão com a gente. Tá todo mundo percebendo que há algo pessoal da parte do governador contra o senhor e contra o Reage Rio. Já as rádios estão todas descaradamente a nosso favor. O povo também. Hoje de manhã, o Aroldo de Andrade, da Rádio Globo, fez uma pesquisa de opinião a respeito do assunto e ninguém foi contra nós. Todo mundo desceu a lenha no governador. É um assunto constrangedor, mas fique calmo que a coisa vai ficar bem — disse-me Jorge Antônio. O carro parou à porta da Fábrica. Outro grupo de repórteres correu para cima de mim. Estranhamente, entretanto, minha mente se desconectou completamente de tudo aquilo. Não foi nada mais longo do que um intervalo de uns vinte a trinta segundos. Para mim, no entanto, foi uma viagem existencial intensa e de profundo significado psicológico. Olhei a fachada enorme da Fábrica e fui transportado até a primeira “fábrica de esperança” que eu criara na minha vida, aos cinco anos de idade, no quintal da vovó, no paraíso, em Manaus. Era aquela casinha de compensado que papai me dera e que tivera um papel psicológico importantíssimo para mim. “Meu filho, entre aí. Ame seus filhos...”, era a lembrança da voz de papai, mais viva do que nunca, que me vinha à mente, apontando-me a porta de entrada da pequena casa. “Meu Deus, a vida toda eu tenho construído casas simbólicas. Esta aqui é mais uma das casas que construí. Aqui é mais um lugar mágico, onde eu encontro meus filhos espirituais. Senhor, ajuda-me a proteger a minha casa, a casa que meu pai me deu”, orei, gritando para dentro de mim mesmo, enquanto olhava para a fachada da Fábrica. Depois, fiz algumas declarações à imprensa, mas insisti que só falaria tudo uma hora mais tarde. Lá em cima, no sexto andar, encontrei Alda, em companhia de Cristina Christiano, Henrique Calado, Egnaldo Júnior, Ernan e Rubem César. Então nos reunimos para ouvir o que realmente havia acontecido na tarde do dia anterior. A versão oficial dizia que, estando em Acari para uma operação de rotina, o tenente-coronel Marcos Paes, comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar, teria recebido um informe do serviço Disque Denúncia, avisando que dentro da Fábrica haveria o tal “volume”. Assim instruídos, os PMs teriam tentado entrar na Fábrica, recebendo resistência por parte da vigilância da propriedade, e só conseguindo fazê-lo após ameaça de enfrentamento. Em lá chegando, os policiais não só teriam trocado tiros com bandidos escondidos no interior da Fábrica, mas também teriam achado a droga dentro de uma caldeira abandonada, conforme a dica recebida. A versão dos funcionários da Fábrica, bem como de Cristina, Henrique e Júnior, todos trabalhando lá em cargos de minha confiança, era completamente diferente. 1) Os primeiros guardas não entraram pelo portão da frente, mas pulando o muro, pela lateral, em perseguição a três rapazes que fugiram para dentro da Fábrica. 2) O segundo grupo de policiais não foi “detido” à porta da Fábrica, pois o portão estava aberto para que Fernando Moça, funcionário da Xerox, pudesse sair. Assim, os guardas entraram atirando em perseguição aos rapazes, que já haviam pulado para dentro da propriedade. 3) Os vigilantes da Fábrica não tentaram deter ninguém, apenas disseram que iriam


informar à diretoria o que estava acontecendo. Deviam esta informação a um guarda que havia ficado para trás, enquanto os demais invadiram a propriedade em perseguição aos invasores do tráf