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Jovens Redentoristas

Portugal

A pergunta da Catarina

Era uma vez uma Árvore de Natal muito bonita. Ouvi mesmo dizer que era a Árvore de Natal mais bonita que existia, mas isso não posso jurar porque não as conheço todas… De qualquer modo, esta era incrivelmente bonita. Encontrei-a na sala de uma família minha amiga, toda engalanada e cheia de “natalices”. Apontando para ela, disseram-me que a tinham escolhido por ser a mais bonita de todas, desde a delicadeza das suas agulhas à forma suave das suas ramadas.

Estava cheia de fios de luzinhas que a rodeavam como cachecóis, umas azuis, outras verdes, outras vermelhas, outras amarelas… Das agulhas pendiam imensas bolas de Natal que significam não sei o quê, mas que eram umas prateadas, outras douradas, umas grandes e outras pequenas… No topo, uma enorme e luminosa estrela amarela que quase lhe assentava como um chapéu. A base estava completamente rodeada de presentes, também eles enfeitados com lacinhos e papéis coloridos. Toda a gente que ia lá a casa parava um pouco para admirar uma Árvore de Natal tão bonita…

Na noite de Consoada, estavam já todos à volta da mesa quando a Catarina se lembrou de fazer umas perguntas muito estranhas… A Catarina era a mais pequenina na família, tinha apenas quatro anos. Perguntou ela: “Para quem são aqueles presentes todos da Árvore de Natal?” Responderam-lhe que a maior parte até eram para ela, e depois haviam alguns para as outras pessoas lá de casa. Então, ela chegou onde queria chegar e perguntou de novo: “E à Árvore de Natal, o que é que lhe oferecemos? Ela guarda os nossos presentes e nós não temos um presente para ela?!”

Olharam uns para os outros, e riram-se. Não entenderam, como na maior parte das vezes os adultos não entendem a importância das coisas importantes das crianças! Depois de umas boas gargalhadas, continuaram a comer o bacalhau, conversando entre cada garfada sobre o preço exagerado que ele custava nesta altura do ano que, por sinal, era a única em que o compravam. É que eu até sei que eles não gostam muito de bacalhau… Mas é Natal, e não há Natal sem bacalhau! A única que se recusava a comê-lo era mesmo a Catarina…

A Catarina era uma criança de olhos grandes e vivos. Como todas as crianças a quem ainda não apagaram a infância, nunca desistia de uma pergunta. Por isso, insistiu: “O que é que vamos oferecer à Árvore de Natal?”

Então, os adultos perceberam que tinham de lhe arranjar uma resposta. O pai da Catarina começou a falar-lhe, muito terno: “Catarina, a Árvore de Natal já não precisa de nenhum presente. Olha para ela: tem imensas luzinhas coloridas, bolinhas de muitos tamanhos, fitinhas de enfeitar, a estrela… É a Árvore de Natal mais bonita que existe e já não precisa de mais nada para ser a Árvore de Natal mais feliz do mundo! Tem tudo o que precisa para ser a mais bonita e feliz Árvore de Natal. Nada lhe falta, de nada precisa.”

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O pai deu-lhe um beijinho no alto da cabeça e voltou-se para a mesa, onde o tema de conversa já era o desequilíbrio entre a inflação dos preços e o aumento dos salários.

Mas a Catarina navegava noutras águas… Por um momento serenara, mas a sua pergunta não lhe saía da cabeça, e sentia que o pai tinha falado muito mas não lhe tinha dado uma resposta. Porque o que o pai tinha dito, tudo resumido, era que não havia nada para lhe oferecer! E pela terceira vez interrompeu a conversa banal e desinteressante dos adultos para os chamar às coisas verdadeiramente importantes e interessantes: “Papá, afinal o que é que vamos oferecer à Árvore de Natal?!”

O pai já não estava com a paciência de há uns minutos atrás, e com cara de poucos amigos disse à Catarina: “Olha, filha, não sei!!! Mas se estás assim tão interessada em saber, vai-lhe perguntar a ela!”

Os olhos da Catarina brilharam. Finalmente, uma resposta! Sim, perguntar à Árvore de Natal o que ela queria era a melhor coisa que se podia fazer. Enquanto virou as costas e correu para a Árvore de Natal, pensou: “Ena! O meu papá sabe tantas coisas!”

Abriu caminho entre os presentes, arredou umas caixas para um lado e outras para o outro, e deu de caras com a base do tronco, pousada na melhor carpete da sala. Tinha entrado noutro mundo, um mundo só seu, onde tudo era verdadeiramente importante e não uma perda de tempo como no mundo dos adultos… Deitou-se no chão, de barriga para baixo e apoiada nos cotovelos, e com os lábios quase encostados ao tronco, sussurrou: “Olá! Eu sou a Catarina. Moro aqui nesta casa como tu, só que eu há mais tempo. O meu papá disse-me para eu te perguntar o que é que queres que eu te ofereça neste Natal. Gostava de te dar um presente, mas não sei o que é que se dá a uma Árvore de Natal, principalmente quando já é tão bonita como tu. Diz-me, o que queres neste Natal?”

Depois, empurrou o seu corpito para a frente, encostou o ouvido ao tronco, fechou os olhos e, com toda a atenção, ficou à espera…

Passado um pouco, escutou uma voz, como a de alguém que diz um segredo:

“Quem me dera ter raiz…”

Rui Santiago cssr

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