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Jovens Redentoristas

Portugal

As nossas Impaciências, os nossos Ouros e os nossos Bezerros…

As nossas Impaciências…

Moisés estava já há quarenta dias e quarenta noites no cimo do monte Sinai, o monte bíblico da Aliança de Deus com o Seu povo. Israel, no sopé do monte, desértico, começou a impacientar-se… Este é o grande pecado bíblico, que atravessa a história do princípio ao fim. É o contrário da atitude de Confiança que na bíblia quase sempre se diz com a expressão “Esperar em Deus”. Impacientar-se é não esperar em Deus, não esperar por Deus, e querer agir a partir de si próprio. Nos momentos em que o nosso coração se sente como o do povo, apertado, abandonado, atravessando o deserto, é muito difícil esperar em Deus e esperar por Deus… Parece que tudo nos empurra a fugir do aperto, a procurar quem nos cure do abandono, a correr para a linha do horizonte achando que é assim que vamos alcançar o fim do deserto. A impaciência como atitude contrária à confiança em Deus faz-nos sempre querer resolver, colocando à nossa frente duas ou três opções. “Ou fazer isto, ou fazer aquilo…” E, na maior parte das vezes, nem nos costuma passar pela cabeça que ainda pode haver uma outra hipótese que, muitas vezes, pode ser a mais sábia, a mais crente, a mais confiante, a mais fecunda: não fazer nada, esperar, confiar! Normalmente, é a mais difícil… porque esperar dói. Mas, atenção! Estamos a usar a linguagem da Confiança, não a linguagem da demissão. Esperar em Deus não significa cruzar os braços. Esperar por Deus não é esperar que Ele nos substitua. É – isso sim! – crescer em sabedoria e discernimento para não se antecipar a Deus. É aprender, dia-a-dia, a iluminar todas as situações, encontros e decisões com a luz da Palavra de Deus, é aprender a olhar com os olhos do Espírito Santo que perfuram a casca de todas as coisas, é aprender a colocar-se diante do mundo e dos outros com a atitude de Jesus de Nazaré…

Esperar em Deus é não fazer sempre tudo à minha maneira! Esperar por Deus é dar-lhe parte activa nas minhas opções quotidianas. Porque costumamos tê-lo “arrumado na prateleira da religião”, ausente do quotidiano em que nos construímos num entretecido permanente de opções, decisões e encontros.

Os nossos Ouros…

Ouro é, na bíblia, tudo o que nos enche os olhos mas não nos cabe no coração. Ouro é tudo o que temos e não somos. O ouro é a herança que deixamos ao nosso cadáver. Ás vezes, parece que gastamos dias inteiros a enriquecer o nosso cadáver… Conhecemos pessoas que se desgastam na construção de impérios de ouro, mas se relacionam e vivem com os outros como pessoas radicalmente desconstruídas. Se fossem metade do que têm… Às vezes entramos nalgumas casas em que os móveis estão cheios de bibelôs. Sabes o que são, não sabes? Então, também sabes que servem para pouco mais que nada… Por isso é que a experiência do deserto é importante, ao nível do coração, porque nos conduz a uma vida sem bibelôs, uma vida embelezada pelo essencial, nele centrada. No deserto, sentimos na carne a essencialidade de uma garrafa de água e a inutilidade dos bibelôs, a essencialidade dos outros e a inutilidade do ouro…

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Por isso é que o povo, impaciente no deserto, abandonando a confiança em Deus como segurança e a Sua promessa como tesouro, quis firmar-se noutra rocha que não Deus e noutros tesouros que não no Seu Amor. Deixou-se cegar pelo brilho do seu ouro, e julgou encontrar nele o segredo para a vida e o caminho que procurava. O número três, na bíblia, significa Perfeição, e quando aparece não é por acaso… Por três vezes seguidas ouvimos a palavra ouro, quando o povo juntava as suas jóias para fazer um deus. E a simbologia é esta: o povo procurou no ouro a sua perfeição. Como nós, tantas vezes… apostamos o melhor de nós nos nossos ouros, empenhamo-nos só neles e só para eles… Somos muito mais perfeccionistas das nossas coisas, do que pessoas perfeitas… Mas “Deus não vê as aparências dos nossos ouros. Deus vê o coração” (1Sam 16, 7). Por isso, eis o que Deus diz dos nossos ouros, aqueles cujo brilho nos encandeia o olhar mas não nos ilumina o coração: “Eles fizeram um bezerro de metal…” Metal???!!!! Mas, não é ouro?! Como pode Deus chamar-lhe metal?! Será que o nosso ouro, afinal…

Os nossos Bezerros…

Os nossos bezerros são tudo aquilo que nós endeusamos, os ídolos da nossa cegueira e da nossa servidão. Desde o princípio da marcha pelo deserto que “Deus caminhava diante deles, de dia numa coluna de nuvens para guiá-los, de noite numa coluna de fogo para iluminá-los; assim podiam caminhar de dia e de noite, e nunca se afastava deles nem a coluna de nuvens de dia, nem a coluna de fogo de noite” (Ex 13, 21-22). Como pode agora o povo querer construir um deus que “caminhe à sua frente”? Não o tem já desde o princípio? Aconteceu-lhe como às vezes nos acontece a nós… No meio do deserto, sentindo o medo e o abandono, desesperando por Moisés não voltar do monte Sinai, ficaram cegos. O sofrimento, quando é muito profundo, faz-nos passar por momentos de cegueira. Deixamos de ver a presença da nuvem e do fogo que até aí davam sentido à caminhada… Sentimo-nos cegos e procuramos desesperadamente setas, mapas e guias que nos façam caminhar, como o povo no deserto. E é quando deixamos de ver a presença de Deus na nossa vida que começamos a endeusar muitas outras coisas, começamos a construir bezerros…

Nós fazemos os nossos ídolos. Mas, o que fazem de nós os ídolos? Escravos! Deus liberta o povo de toda a servidão, e o povo constrói a meio da marcha um ídolo que o volta a tornar servo! Queriam “um deus que caminhasse à frente do povo” mas, quando Moisés finalmente desce do monte… ainda os encontra no mesmo sítio! Afinal, o bezerro não os fez caminhar… Porque os bezerros de ouro, os ídolos, nunca nos põem a caminhar. Deus chamou o Seu povo do Egipto, foi lá buscá-lo para o pôr a caminhar em direcção à Terra Prometida. Há um começo, um caminho e uma meta: eis um povo a caminho! Mas o bezerro pôs o povo a andar à roda à volta dele. Andar à roda… e o povo acaba cansado, desgastado, mas não saiu do sítio. Como isto nos soa familiar, não é?... É isto que nos fazem os ídolos; pôr-nos a andar à roda em torno deles em círculos intermináveis que não nos conduzem a lado nenhum, e nos fazem pisar permanentemente as pegadas anteriores. Deus pôs o povo a caminho; o bezerro pôs o povo a andar num círculo. Quando fazes um caminho, traças uma nova estrada com os teus passos; mas quando andas em círculo, apenas cavas uma vala sob os teus pés, a vala em que, volta após volta, te vais afundando, até começares a perder os horizontes e ficar cada vez mais difícil saltar fora dela. É preciso coragem para partir os nossos bezerros de ouro, sejam eles quais forem, porque é a única hipótese de saltar fora destas valas!

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Alem disso, Deus compadeceu-se do Seu povo porque o viu no Egipto “vergado, com a cabeça até ao chão, prostrado sob o peso do faraó” (Ex 6, 6-9). Libertou o Seu povo por Amor, libertou-o das prostrações, elevou-o e pô-lo a caminho! Mas o bezerro voltou a prostrar o povo, a atirá-lo por terra, a vergá-lo, a escravizálo. O bezerro de ontem, como todos os de hoje… põem-nos a fazer intermináveis círculos em volta do mesmo e vergam-nos sob o seu peso… E, como se tudo isto não chegasse, o povo trocou um Deus que dava por um ídolo que exigia. Desde o princípio Deus se manifestou como fonte de todos os dons, pura Graça, iniciativa gratuita e livre de eleger, preparar e oferecer. A única coisa que Deus pedia era: “Quando tiveres saboreado tudo o que Eu te dou, quando estiveres saciado e enfartado, não te esqueças de Mim, porque fui Eu que te libertei da casa da escravidão!” (Dt 6, 10-12). Deus só pede gratidão. Por é libertador… Mas o bezerro, além de ter exigido todo o ouro para a sua criação, ainda faz que lhe levem oferendas e bajulações…

Os nossos bezerros são as nossas pequenas escravidões a meio do caminho da liberdade, as nossas cegueiras, desesperos e impaciências a meio do deserto. São os endeusamentos do nosso coração quando procura fora de si o que só dentro pode descobrir. Mas Deus continua a ser Libertador e Amor recriador, Perdão sem medida e Graça sem condições. Acolhê-lo de novo é vermo-nos acompanhados de novo pela coluna de nuvens e de fogo que, afinal, sempre lá esteve mas que tínhamos esquecido; é ver reduzido a metal todos os nossos ouros, transformados em pó todos os nossos bezerros e alteadas todas as valas que os nossos passos em círculo fundearam. Acolher Deus Libertador de novo é sentir-se beijado na Ressurreição de Cristo com um beijo eterno que me diviniza, o beijo do Espírito Santo, e ressuscitar com ele na Boa Nova de cada amanhecer…

Rui Santiago cssr

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