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como escrevem os outros homens, e pelo que me lembro, foi assim meu monólogo, que redigi em forma de carta e enviei para um endereço qualquer: mãe, eu te peço sinceras desculpas por ter nascido. Eu ouço você chorar alto todos os dias de madrugada porque eu não durmo. A dor não dorme. A fome não dorme. Mas eu quero que saiba que não sou o motivo de você ter fracassado enquanto mulher, enquanto qualquer coisa. Eu sei, desde o dia em que percebi os dias passar, que todo homem nasce fracassado porque a própria humanidade é um nojo, uma mentira. Você nem sabe o que é humanidade, estas questões não passam pela cabeça de uma descascadora de batatas, ou de um funcionário publico, ou de um artesão qualquer. Apenas homens sinceros sofrem desta doença e sinto ser sincero demais. Minha mãe levantou a cabeça e me disse as palavras que levo como minha única fé, disse que não poderia me salvar de mim mesmo. Abaixou a cabeça e pensei que eu não poderia fazer o mesmo por ela. Ninguém, salva, ninguém. Eu não tinha uma alma sequer a agradecer em minha última carta e por isso repensei se seria realmente necessário escrevê-la. Qual é afinal o sentido de uma última carta? Retratar a aqueles que se ama um último desejo, um último recado, abraço, dar conforto? Uma carta suicida é um verdadeiro engodo. O bom assassino de si mesmo não ama a ninguém, não possui desejos e não tem a necessidade ser eterno, ainda mais com uma ínfima carta. E por este motivo tudo que fora construído neste território até então deveria se destruído. Como todos os outros jovens, pensando em coisas inúteis, fui à universidade. Subi as escadas novamente, desta vez, sozinho e lentamente, me escorei nas colunas do prédio e por muitas vezes me cansei. Meu pai tentou me tornar um homem do Direito para me tornar um homem melhor. Perguntei pela turma em que me colocaram e fui direcionado por um funcionário abatido que arrastava os pés como se não quisesse se mover nem um

metro sequer. Eu poderia ter pedido que ficasse, mas fui cínico o suficiente para fingir ignorância e lhe provocar desconforto. Quem sabe, assim se sentiria vivo também. Mas, a cada minuto, ele olhava para trás e devia estar pensando na cadeira que estava sentado antes, que deveria estar lá e não acompanhando um estudante idiota. Arrastei-o até a porta e, chegando lá, pedi que ele me apresentasse ao professor e ele forçou um sorriso de forma tão desastrada que tive vontade de gargalhar. Me controlei e fiquei preocupado com todo aquele cinismo. O homem voltou rapidamente para sua cadeira, ligou uma pequena televisão e ali permaneceu até ser importunado por outro aluno idiota. Na sala de aula, nenhum aluno se encontrava. Só o professor, barba cheia, vestindo uma camisa de força aberta e uma calça suja me esperava. Não sabia como responder aquela situação, se me sentava ou se formalmente me apresentava ao professor como filho de fulano, neto de beltrano e tudo mais. Achei que isto seria desnecessário e permaneci calado e parado no mesmo lugar por alguns minutos. O professor lia e não parou de fazê-lo quando eu entrei na sala. Seu livro falava de muitas línguas, de homens em volta de fogueira, de forças e fraquezas, de homens de verdade, destas coisas que realmente importam e eu fiquei até um pouco feliz ao lembrar que já havia lido antes. Sem virar o rosto, falou que eu sentasse à sua frente. Retirou um papel imundo do bolso e me entregou. Era uma lista imensa de autores e era intitulada “para ler antes de morrer”. Sem me olhar falou que eu deveria ler todos os dias da manhã até o fim da noite na sala de aula, na frente dele e esgotar aquela lista antes de poder aprender algo de Direito. Sendo assim, me preparava para levantar e ir embora, pois não possuía o livro um da lista, quando ele puxou de sua bolsa o mesmo e ali fiquei até cair a noite, lendo. Descobri então que a mentira é algo saudável para a vida. Para continuarmos a caminhar por esta

Ninguém salva ninguém.

EXPRESSõES! Out de 2012 | 08

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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