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ao mesmo tempo, eu pensava em agradecer e esmurrar aquele doido. De tantos ônibus no mundo, tinha que ser o meu? O ônibus parou depois da Campo Sales, desce todo mundo, sobe todo mundo noutro ônibus, subi também - era o errado! Tive que andar uma porrada ainda antes de chegar em casa. É engraçado como as rotas são mudadas, de repente, e como se curva a linha que seria reta...

28. Às vezes, é bom andar de ônibus, no raro dia frio de Porto Velho, se há pouca gente e o motorista tem juízo, é bom sentar-se à janela e observar, quieto como quem se esconde, o enquanto que é possível observar, aquilo que vemos passar porque passamos. Melhor quando é voltando pra casa, a friagem ou o frescor de depois da chuva, borrifa um tanto de langor em tudo, em tudo e todos (não só em todos) as casas, os prédios, os carros, tão langorosos quanto as pessoas, não bocejam, nem se espreguiçam, nem desejam, mais que tudo, a cama, a coberta e que fosse feriado, mas se assemelham, os brutos, aos vivos, se assemelham tudo e todos, cheios de sono, num dia frio. Há dias felizes em que estamos tristes, há dias tristes que estamos felizes, há dias calmos em que estamos agitados, há dias agitados em que estamos calmos, há dias que não estamos nem aí, nem sempre o que se passa dentro encontra ajuste com o que se passa fora, no frio, contudo, é bem mais fácil que aconteça. O mundo não fica triste, fica quieto,

eu também não fico triste, fico quieto, recolho-me, adentro-me. 29. Era um dia frio, aquele dia, eu estava olhando para a janela do ônibus, e devia estar olhando doidamente, porque depois que desgrudei os olhos do vidro, muitos olhos se grudaram em mim, eu ri. No vidro empoeirado da janela, via dançarem reflexos, mais ou menos nítidos de acordo com a luz de fora. No fluxo dos reflexos da janela, passam rostos e pernas e narizes, passam grandes portas de loja, paredes coloridas, propagandas, mais intensa a luz lá fora, menos nítido é o retrato especular, e a retina reflete o que é já reflexo, mais uma vez refletido no vidro... Algo que se move, disse Einstein, a quem lhe pediu a definição da realidade, perfeito, mas nos falta e ao que nos faz, algo que se move e que nos move, algo que se move e que movemos, tudo é movimento, tudo, em andamento, tudo é transição, e transige, dentro e fora, numa troca: o homem faz o meio que faz o homem que faz a política que faz o homem que faz a moral que faz o homem que faz o trabalho que faz o homem que faz a tv que faz o homem que faz dinheiro que faz o homem que faz... E é a um incrível e movente amontoado dessas coisas, gentes, relações que chamamos Fora; e é a um incrível e movente amontoado dessas coisas, gentes, relações que chamamos Dentro.

30. Não conheço muito do deus Shiva, sei que é um deus hindu, um deus que dança, guardião da Vida e da Morte, em sua dança dançam Vida e Morte, mas não é que dancem, mas não é que eu contrarie a imagem, EXPRESSõES! Out de 2012 | 58

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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