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a Sete de Setembro, onde minha mãe ia, não era mais um lugar para ir, era um lugar para estar.

a praça ainda está lá, o lugar, mas é outra praça, outro território, a praça que foi o meu lugar não está hoje, senão em quem nela esteve.

Desconheci e me espantei. Reformaram-na. 19. A Porto Velho dos meus vinte anos era muito mais ampla, ia até o Candeias, eu andava de Cross, eu era um Cross, andava por todos os cantos da cidade, e até hoje, permanece a impressão de que a Zona Sul é outra cidade. Sempre vivi do lado de cá, habituei-me, portanto, ao modo geral que este lado da cidade ostenta, ando por essas ruas de cascalho há muito tempo, conheço-as, por isso, a Zona Sul é como outra cidade, lá, há ruas e vielas que se impingiram sinuosas sobre o mapa, como cobras que depois de se retorcerem, agônicas, pararam, mortas. Elas se cortam e entrecortam e em seus caminhos está evidente a mão de intento incerto, a mão do acaso do uso cotidiano, que as consolidou, como a via sobre a grama que a pisada frequente acaba por inaugurar. O terreno de lá, é muito mais acidentado, tem mais morros, mais altos e baixos, mais valas, as casas de lá foram levantadas por outra arquitetura, e as feições das gentes, modeladas por outros escultores, sempre vivi do lado de cá, por isso, quando estou lá, sinto um grande estranhamento, percebo o clima, que muda. Você não está num lugar se está de passagem, eu pedalava pela cidade inteira, por quase toda a cidade, pelo menos, e, contudo, o meu lugar era a Praça do Half,

Um lugar não é apenas o espaço sobre a Terra, o endereço na cidade, um lugar é também a gente que o frequenta e o chama seu, é também as convenções que são fixadas por essa gente, é também a história que fica dessa gente e de seu caminhar. Com a reforma da praça, a gente da praça se dispersou, assim como o que lá fora estabelecido, a Praça do Half, agora memória, e está para cada um, como cada um para ela esteve, cada coisa é uma coisa para cada um.

20. Engraçado, o clichê de que a visão de um objeto depende de onde se olha para o objeto é muito verdadeiro, apesar de batido. Se uma pessoa olha um lado de uma moeda e outra pessoa olha o outro lado, podemos apostar que elas concordarão: a moeda é circular, mas um dirá “cara”, o outro, “coroa”. Tem um conto hindu ainda mais foda, ele diz que havia alguns cegos apalpando um elefante, por mais que cada um descrevesse a parte apalpada para os outros, nenhum deles era capaz de conceber o elefante inteiro, senão como um todo desfeito nas partes em cada cego.

21. Quando nos reunimos, eu e o pessoal da bike, cada um de nós conta um tanto do que vive EXPRESSõES! Out de 2012 | 54

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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