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o espaço dentro tem muito mais que muito de fora, mas não falo de intersecção de elementos, nem das operações realizadas entre os conjuntos Dentro e Fora... falo do tempo num mesmo agindo no espaço de suas circunscrições. Dentro e fora, tudo envelhece se envelhecer é ganhar idade e se perder com o ganho, e mais se perder com o mais ganhar. Pode ser que isto resista mais que aquilo, mas tudo sofre sob o tiquetaquear, ou corre, ou anda, mas ruma à mesma dissolução, mas tudo que é vivo se renova, o que é vivo e morre se transforma, e como que passa a vez, mas tudo o que é invenção humana sem mãos humanas a dar cuidados, sofre o tempo e quando morre, morre e ponto, é assim, dentro e fora. Há outra diferença pra falar: talvez, uma diferença maior: embora o fora, destacados de nós, possa ser abandonado, ou trocado, não podemos viajar de nós mesmos, nem do fora que está dentro, podemos sobrepor ideias, sentimentos, partir de um modo a outro, mudando, mas não há como se afastar de si, deliberadamente, nem decidir o quão longe se deseja estar de si, em determinado momento, tirar férias de si mesmo, desgrudar os olhos de si mesmo. Talvez, exatamente por essa razão, seja divertido correr passado adentro, e digo adentro, porque as gravações mais antigas são as mais profundas, as mais recentes, mais superficiais, assim, quanto mais ao passado, mais fundo vamos, talvez daí decorra o divertimento de mergulhar em si e se buscar

em outras estações, buscar os outros que se alternaram até aqui, até agora. Talvez daí derive o bom de imaginar futuros e possibilidades, de frequentar sonhos elaborados pelas mãos dos anseios, de visitar o que é lembrança e o que seria perfeito lembrar, imaginar é se dar uma folga, é viajar de férias de si e do entorno que esse ser sustenta, talvez...

8. Se eu viajasse, não sei pra onde, fosse pra onde fosse, só pra ficar longe, pra passar um tempo longe, e passando um tempo longe, depois, voltasse para cá, como eu veria Porto Velho? Como eu veria essa Porto Velho que, hoje, mais vejo de passagem, da janela do ônibus? Seria diferente, ou não, vê-la? E o ônibus sempre lotado, Seria diferente, ou não, estar nele? Seria estranho? Estranharia o calor, as chuvas, as valas, os políticos, o açaí, a pupunha? Certamente, não seria como a primeira vez, não seria como nunca tivesse pisado por aqui, como seria, então? – eis a pergunta! Como seria? Andando por aí, percebo novidades, a Praça da Estrada de Ferro, reformada, agora outra, está bonita até e tem apresentações de teatro, fica cheia de vida e cores aos domingos. De lá, dá para ver a gigantesca construção, as usinas, agora parte do quadro geral, agora parte da paisagem, não estava ali, agora está. EXPRESSõES! Out de 2012 | 49

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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