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mas não falo apenas de observar de outro ponto, falo de quando nossas lentes se reajustam e, se reajustando o suficiente, acontece do mesmo derivar o outro, da sensação de mesmo derivar a sensação de outro. O objeto não mudou, é, portanto, idêntico ao que fora no ponto antes, praticamente idêntico, o objeto, o mesmo, mudamos, contudo, tendo algo em nós mudado, e a mudança nos faz ver diferente, como outro o que era hábito notar como o sempre visto. Parte de nós mudou e, mudando a parte, a parte que mudou, mudou o todo, nós mudamos tudo, por isso, para nós, tudo mudou, também a nós mudando, é que nós mudamos e tudo a nós, mudou. De repente, notamos, como nunca antes, tudo que era sempre o mesmo, agora outro, e mais: algo que estava ali, sempre esteve, sempre bem na cara, sempre bem à mostra, mas fora da visão, porque ali era o ponto cego, surge, como instantaneamente, e é como curar-se de cegueira. E são linhas e cores e texturas que apesar de evidentes, não víamos, mas passamos a ver, e tanto é outro, porque somos outros e é percebendo a mudança no que não mudou, que percebemos: a diferença vista fora vem de uma diferença dentro da vista.

6. Sou outro, e muitos outros fui, concebo perfeitamente, isso, buscando pontos diversos no tempo, passeando por passear, dentro, é da idade, eu acho, que pede um rever de tudo o que foi, para saber o que restou, o que sobrou, onde estão os erros e acertos, passear é bom, visitar lugares visitados, lá, que sempre estão aqui para visitação, enquanto, a memória, que os toma, teima em os conservar.

Nunca entramos no mesmo rio duas vezes, o rio flui, e as águas de agora são outras águas, distintas são as águas de um e de outro mergulho, nunca entramos na mesma memória duas vezes, sempre algo excede ou escapa de uma lembrança a outra, algo surge ou some, algo a mais, ou a menos. Nunca entramos no mesmo rio duas vezes, mesmo se o rio se repetisse, mantendo-se, porque não nos mantemos, também fluímos, e fomos um ao entrar num rio pela primeira vez e somos outros, ao entrar no mesmo rio pela segunda vez. É bom dar uma volta por dentro, dar um mergulho em si, de vez em quando, porque é como assistir um filme, se assistir filmes sempre e toda vez concedesse a sensação de protagonizá-los, dar uma volta por dentro e observar, e observando, perceber-se em movimento, ao perceber que as coisas viram outras coisas, e que num processo em constante andamento, há nascimento e morte e recomeço além do que se percebe nascer e morrer e recomeçar. Mudamos, e não direi como disse Heráclito, (muito menos prático que eu, muito mais filósofo) mudamos, ainda assim, também além da compreensão da mudança. Mudamos, e mudar é como um desgaste, as horas raspam a superfície e mais fundo do que somos, e a cada passada da lixa temporal, um pouco de nós se perde, mas mudar, é como um acumular, também, as horas vêm e depositam qualquer coisa sobre a superfície e mais fundo no que somos, e a cada novo depósito, um pouco de nós ganha, enfim, o tempo leva e traz, a gente perde e ganha, mudar talvez, seja isso, um leva e traz, um perde e ganha.

7. Dentro tem muito de fora, não só o que dele capta, e registra, não só nas inscrições que ele grava, no que dele imita e tem por base, EXPRESSõES! Out de 2012 | 48

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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