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A poesia Mito, já antiga, de 2008, é de quando eu ainda desrespeitava sintaxe, semântica e tudo mais em prol da deusa serena de Bilac, a Forma. Ela trata exatamente do entendimento a que cheguei depois de ler o Mito da Caverna, de Platão, entendimento que só agora, depois de anos e anos, amadureceu e acabou por me incentivar a escrever o texto a seguir, junto com outras influências que a vicissitude de todas as coisas submetidas a minha subjetividade. Coloquei-a aqui, por achar que, apesar de muito falha, seus versos e, especialmente, as ideias contidas neles, têm tudo a ver com o que vem a seguir. 1. COISA DE QUEM LÊ Uma coisa que acho comum entre aqueles que leem, e que tomam o que leem por verdade, passando a tentar impingir como verdade o produto de suas leituras, é o fato de eles se tomarem como salvos da ignorância, da cegueira que dizem sofrer os amadores de Big Brothers, Tchu tchá tchá tchu, as fieis e os fieis telespectadores da TV, e ainda muitos outros grupos. Não é bem assim. Falo como quem já foi um daqueles a quem me reporto. Durante muito tempo, depois de ler muita filosofia e literatura em geral, assumi como minha própria, a realidade angariada nas compulsões cotidianas. Contribuiu para o equívoco, assim como para o perduro da postura por ele sustentada, um tanto considerável de idealismo e outro tanto, ainda maior, de obstinação. Minha sorte foi exatamente o fato de a minha obstinação ser maior que meu (antigo) idealismo, de tal modo que sempre fui menos dos que sonham e mais daqueles que ficam para ver o que acontece, que vão até onde dá, e foi ficando e indo que acabei conseguindo por fim, experimentar as grandes desilusões que, além de muita frustração, vergonha e outros e sentimentos autodepreciativos, trouxeramme a oportunidade de recomeçar, de tentar de novo. 2. O SALVADOR Imaginando o momento quando aquele personagem platônico deixa a caverna, não posso deixar de incluir certa dramaticidade: ele sai, e a primeira sensação que experimenta é uma terrível dor nos olhos, desconforto muscular, e sua insignicância perante o

que se estende bem a sua frente. Não é uma terrível descoberta, antes de ser boa, encontrar além da irrealidade do espetáculo das sombras toda a intimidante extensão de um mundo que se apresenta ainda inexplorado? Depois, sim, num segundo momento, quando ele esfrega os olhos e faz uns alongamentos, finalmente, entende e se maravilha com o que experimenta. Imaginar esta segunda parte, também é fácil. Depois do susto, do grande susto acompanhado pelo entendimento do erro, ele fica mais à vontade no vasto descampado onde sua inquietação o levou. Imaginemos, para o bem da metáfora um como e um porquê pra ele ter arrebentado as correntes e assim, ter conseguido atravessar a entrada

Não é uma terrível descoberta, antes de ser boa, encontrar além da irrealidade do espetáculo das sombras toda a intimidante extensão de um mundo que se apresenta ainda inexplorado? da caverna e ir lá fora. Vejamos a ele, inquieto, não porque desconfia de que haja algo lá fora, acontece, contudo, que o ângulo de onde vê as sombras passeando na parede não o favorece, assim, ele não vê o que todos veem, e se vê, não o faz como todos o fazem. Ele sente, então, que perde algo, que algo passa batido, então, esforça-se, não para se libertar, mas para aprumar os olhos ao modo como estão os olhos dos outros, para, enfim, ver como todos veem. Impaciente, considerando que não pode participar direito do grupo dos prisioneiros da caverna, já que a conversa é sobre as projeções na parede e, como ele sente não estar vendo direito, não pode fazer comentários sem que riam dele e de suas opiniões esquisitas, ele se debate mais, e mais ainda, até que um grilhão se rompe, ele se ajeita, mas ainda não consegue ver, debater-se mais parece uma boa ideia, ele o faz, e assim, até estar completamente livre. Contudo, mesmo regulando o ângulo, ele ainda não vê como todos veem, e daí para frente é fácil imaginá-lo EXPRESSõES! Out de 2012 | 17

EXPRESSõES!_15  

15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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