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sempre de quem está prestes a fugir ou morder, era fácil entender o motivo da alcunha. Dentre todos os defeitos que ela tinha, um se destacava, elevava-a do nível chata “pacarai”, para o intolerável sem gelo e limão: ela não só estava completamente convencida de que servidores públicos são uma cambada de preguiçosos que investem mais esforço para enrolar no trabalho do que trabalhando, como tratava a todos os seus subordinados segundo o axioma. Crente de que todos estavam tentando enrolar, ela estava sempre à espreita, sempre desenvolvendo meios de manter os “preguiçosos” trabalhando. Bisbilhotava os computadores, que tinham, exceto o dela, os monitores voltados para o centro da sala. Controlava a saída e entrada de todos, o tempo que passavam conversando, o tempo que passavam fora da sala. Sempre que alguém saía, tinha que dizer onde ia e o que ia fazer, então, se ela não dizia nada, a pessoa podia sair. Se a saída demorasse mais que cinco minutos, ela mandava algum estagiário ir chamar de volta o passeante. Chegou ao cúmulo de regular o uso dos banheiros. Preciso dizer que ela era uma pessoa frequentemente alvo de hostilidade e seus atos prepotentes conteúdo de piadas internas? Geralmente, em repartições públicas, o primeiro momento da manhã é destinado ao café, no nosso caso esse momento inicial do turno durava exatamente o tempo de mastigar meio pão e beber um tanto de café. Só. Se alguém pegava um pão a mais, era pra enrolar. E como era fácil ela ver alguém enrolando. Tudo o que fosse diferente de estar trabalhando, fosse o que fosse, tomar café, beber água, ir ao banheiro, contar ou rir de uma piada, mexer no cabelo, bocejar, tudo, era considerado enrolação. Assim, não importava o quanto trabalhávamos, a despeito dos esforços dirigidos às atividades próprias das funções, sempre estávamos sendo tratados como quem não fazia nada. A esperança, para alguns, é uma coisa boa, porque mantém pessoas em caminhos, para outros, contudo, é algo mau, porque mantém pessoas nos mesmos e tristes caminhos. Deu para entender? Vou explicar melhor: a esperança até pode ser algo bom, quando você, acreditando em um resultado, permanece firme em um propósito, quando, contudo, todos os indícios mostram o contrário, a esperança é mais um tipo de estupidez derivada da credulidade do que qualquer outra coisa. No nosso setor, podia até demorar um tempo, mas todos acabavam entendendo que não havia meio de a chefe mudar, e quando se perdia a esperança de ela mudar e passar a reconhecer o trabalho executado, o que aconte-

cia? A gente passava a investir mais esforço para parecer que estava trabalhando do que em trabalhar. A lógica era simples, se por mais que eu faça muito, sempre sou tratado como fizesse pouco, e ainda sou avaliado segundo a perspectiva de uma paranoica, não há motivo para trabalhar. Quando, abandonando as esperanças, entendíamos e nos conformávamos com isso, desenvolvíamos meios de parecer estar sempre trabalhando, alguns viviam despenteados, outros só conversavam sobre os relatórios que deviam entregar. Era como se sempre estívessemos operando no máximo, quando, na verdade, fazíamos o mínimo possível. Isso, sem falar que só agíamos assim, na presença dela, mal saía a jararaca e fazíamos praticamente uma festa. Fácil supor que a demanda gerada para o nosso setor, que não era pequena, era apenas muito morosamente apreciada por nós, os subalternos, o que trazia muitos problemas para a chefe, porque ela respondia à diretoria, nós, os subalternos, não. Nós respondíamos a ela e estávamos ocupados demais fingindo trabalhar para trabalhar de fato. Ela, que ostentava como única qualidade perceptível a mesma obstinação que tinha mais como um defeito, não apenas desconfiando, mas tendo a plena certeza de que estava rodeada por uns incapazes, acabava assumindo para si o total das responsabilidades do setor. Assim, ela, que tratava para que trabalhássemos o mais que pudéssemos, era praticamente a única pessoa que realmente trabalhava num setor com mais de dez pessoas, os subalternos. E foi por esse motivo que ela organizou uma reunião geral do setor, reuniu desde o pessoal da limpeza, os oprimidos estagiários (que faziam de tudo, menos qualquer coisa que tivesse a ver com seus cursos), os assistentes administrativos, os assistentes técnicos, enfim, todos. Sentados, apenas ouvíamos os latidos. Ela falou de um, falou de outros, falou de todos, sempre o mesmo discurso, assim não dá, assim não pode, é muita preguiça num setor só, e blá blá blá. Estávamos todos sérios, acredito que a maioria, na verdade, estava prestando atenção a cada gesto para caricaturar e rir depois. Ela, então, voltou-se para um dos nossos colegas, famoso por suas brincadeiras em momentos inadequados, fitou-o com o seu olhar de pequenez raivoso e disse: - E você, fulano de tal, que não faz nada! Ao que ele respondeu com uma cara de “eu quero mais é que se foda”: - São seus olhos! ........................................................ EXPRESSõES! Out de 2012 | 15

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15º número da revista digital de literatura e outras artes mais feita no braço do mundo.

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