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Para quem não lembra, ou não sabe, bistrôs são pequenos restaurantes ou bares, muito populares na França, onde são servidas comidas simples mas bem elaboradas; bebidas, como bons vinhos por exemplo; café e petiscos. Tudo por preços bem acessíveis. Popularizaram-se durante a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres francesas não tinham mais empregos. Nem perspectiva de tê-los. Situação difícil, vivida por um povo já conquistado e subjugado, naquelas alturas do conflito. Atualmente – os bistrôs - continuam espaços pequenos, com visual simples mas de muito bom


gosto, onde se pode degustar refeições leves e preparadas por chefes experientes, tomar um bom café, encontrar os amigos e ver pessoas interessantes. Assim é o bistrô: uma boa opção de lazer. Voilà. Dito isso, fica uma pequena questão filosófica: e daí? Possivelmente esta também será uma manifestação feita por algumas pessoas que conheço. Ou não, para quem o assunto não tem mais nenhum significado, nem razão. Assim: afinal, que importância tem um simples bistrô, ou de que adianta lembrarmos dos motivos que levaram o mundo a um guerra longa e sangrenta? Mas tem importância para mim. E muita. Pela lembrança e pelo o que ela que representa. Mas vamos adiantar um pouco o assunto para que eu possa contar como tudo se deu. Foi assim: chegamos em Paris - para dar início a nosso longo passeio pela Europa - em plena segunda-feira. Chuvosa. Bastante chuvosa.


Até então, nenhuma novidade a não ser pelo cansaço da longa viagem de trem e pela nossa ansiedade. Ufa, e que ansiedade! Eram 8 horas da noite, aproximadamente, e a chuva era agora, verdadeiramente torrencial. A sensação de estarmos solitários naquela cidade era estranha. E absurda, levando em conta o que na verdade esperávamos encontrar em Paris. Ou seja: gente, alegria, temperatura amena e muito mais. Mas vamos em frente porque os franceses, naquela segunda-feira, queriam mesmo era ficar em casa. Nós dois, não. Chegada ao hotel e banho rápido. Guardadas as coisas importantes e as de valor, passamos um perfuminho - ainda não françês - vestimos uma boa roupinha, como uma gentileza à cidade, transformamos os funcionários em um festival de informações, aceitamos todas as sugestões, inclusive as do porteiro, não muito convictas e... pronto! Saímos. Na chuva! Escapamos para dentro de um taxi dirigido por um motorista sonolento e que, através de um quase imperceptível balanço de cabeça, nos fez entender que, com má vontade, nos levaria ao local solicitado. O serviço de metrô, deixamos para o dia seguinte.


Sem chuva. E lá fomos nós. No táxi mesmo. Pouquissimas pessoas na rua, como já disse, e os que estavam fora de casa ainda, andavam afobados para chegar. Bastante esperança de bons passeios dos próximos dias. Mas devo dizer que chegamos bem rápido ao destino que nos foi traçado pelo táxi. Era um lugar com muito comércio, restaurantes e bares. Porém, a grande maioria, absolutamente vazia. Além de tudo, devo insistir, que estávamos em plena segunda-feira chuvosa. O que nos convenceu rapidamente a entrar no restaurante mais próximo da parada do táxi. E adivinhem: um bistrô. O primeiro, visitado por nós. Pequeno, bem arrumado, um certo ar caseiro e absolutamente perfumado e impregnado pelo odor de temperos misturados e impossíveis de serem identificados. E, claro por tudo o que já disse e repito: vazio. Absolutamente vazio! Nem um som, nenhuma pessoa, nenhuma música. Nada. Com exceção de nós dois. Que também


estávamos silenciosos respeitando a ausência, seja lá de quem quer que fosse. Tudo envolto numa espécie de suspense. Nada acontecia. Somente a varredura silenciosa de nosso olhar e a expectativa de encontrar alguém “vivo”. Cômico. Então aconteceu. Exatamente com um take dos antigos filmes, onde os sustos e as surpresas aconteciam concomitantemente. De ambos os lados. Do mocinho e do bandido. Incrivel! Enquanto isso, nós olhávamos curiosos para uma cortina que se abria lentamente e ia aos poucos revelando duas cabeças empilhadas. Vejam só: uma de um senhor e outra de uma senhora, ambas procurando nos ver e identificar melhor. Nós também íamos nos ajeitando em nossas cadeiras. E pelo mesmos motivos: ver melhor o senhor e a senhora. Parecia surpreendente nossa “insistência” em nos acomodarmos em um bistrô vazio, querendo fechar as portas. E para eles parecia incrível, receberem com paciência, uma dupla de famintos e estranhos,


numa segunda-feira chuvosa, próxima da “hora de fechar”. Estávamos – na melhor hipótese - adiando o descanso do casal. Mas... O fato é que lentamente o tal senhor se aproximou, nos cumprimentou, tentou esboçar um sorriso que logo sumiu assim que nossas vozes foram ouvidas e elas defitivamente, não eram faladas na lingua em que ele queria ouvir. E o que podemos imaginar: gestos, lingua francesa mal falada, português pior ainda. Não poderia dar certo mesmo. Mesmo assim, alguns sorrisos começaram a surgir, lentamente. Acreditem! No dia seguinte voltamos. No outro. E no outro também. E saibam que esses sorrisos, a amizade e a alegria crescente entre nós sobreviveram muito tempo. Mais fortes, mais amorosos, mais dedicados. Cada vez que voltávamos, conseguíamos ainda ver suas carinhas nos olhando por detrás das cortinas. Pois é...


Agora os proprietários já são outros. Mas nosso sentimento e amor ainda são os mesmos.

Zeca Madio zecamadio@gmail.com

JANTEI EM UM BISTRÔ VAZIO NUMA NOITE CHUVOSA.  

ZECA MADIO - JANTEI EM UM BISTRÔ VAZIO NUMA NOITE CHUVOSA.

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