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porto alegre março 2013

em cima das copas

#20

Igreja Católica

D A C AT E D R A L ÀS FAVELAS

mercadão • mulheres • míd ia


Chico Guazzelli, Felipe Martini, Frederico Stumpf Demin, Gabriel Jacobsen, Guilherme Dal Sasso, Jimmy Azevedo, Jonatan Tavares, Jonas Lunardon, Jessica Dachs, Juliana Loureiro, Leandro Hein Rodrigues, Luísa Santos, Luna Mendes, Marcus Pereira, Martino Piccinini, Natália Otto, Natascha Castro Projeto Gráfico / Diagramação: Martino Piccinini Capa: Paulo H. Lange Colaboradores: Clara Farret, Eduardo Amaral, Paulo H. Lange Tiragem: 2 mil exemplares Contatos: comercial@tabare.net tabare@tabare.net facebook.com/jtabare Distribuição: Fabico • Famecos • Instituto de Artes UFRGS Casa de Cultura Mario Quintana • Ocidente • Palavraria • DCE UFRGS StudioClio • Comitê Latino-americano • Nova Olaria

[Clara Farret]

Março 2013

tabare.net

P

roteger o “direito” das cri-anças de terem um pai e uma mãe foi o argumento usado por pessoas que se posicionaram contra o casamento civil e a adoção por casais homossexuais em uma recente manifestação na França. Faixas e cartazes que reproduziam crenças naturalizantes/biologizantes e religiosas sobre a sexualidade tomaram as ruas de Paris, em uma manifestação aberta do neoconservadorismo que reage ao amadurecimento da sociedade francesa. Uma sociedade que já não se convence diante dos dogmas religiosos e científicos que tentam a todo custo justificar as desigualdades e incutir nas crianças as “verdades” e anseios dos adultos. Mas, afinal, quem protege as crianças de uma socialização permeada de intolerância e incapacidade de compreensão do Outro? Ninguém as protege da família – nem do conceito político de família e de tudo que vem com ele, nem dos próprios pais. Pais que muitas vezes impõem a ideologia patriarcal e heteronormativa que tanto deve ferir seus filhos no futuro. Costuma ser com a melhor das intenções que eles colocam sobre os ombros dos filhos padrões inatingíveis – eles foram crianças um dia, e ninguém os protegeu. Quem protege as crianças da presunção de sua heterossexualidade? Quem garante a auto-estima da criança que crescerá homossexual em uma infância em que lhe foi negada qualquer espaço para expressar sua identidade, qualquer narrativa condizente com sua realidade para se inspirar? Quem abriga os meninos que brincam de casinha com outros meninos no recreio da escola? E as crianças cuja vida escapa à biologia e a genitália, quem fala por elas? Quem fala pelas meninas, criadas para serem consumidoras desde o momento em que saem do útero? Quem defende a menina de cinco anos levada pela mãe ao salão de beleza para fazer as unhas? E as que sonham em ser princesas – oprimidas por um padrão de beleza impossível de alcançar? Quem defende a menina com o cabelo afro que nunca se vê no rosto da boneca de olhos azuis? Quem luta contra a assimilação da violência de gênero por parte das crianças? A menina que aprende que o colega de classe puxa suas tranças porque gosta dela - quem vai estender a mão quando ela crescer e continuar acreditando que violência é amor fantasiado? E o menino que vê o pai levantando a voz para a mãe, exigindo o jantar pronto e a casa arrumada – quem roga por seu futuro caráter? Quem o impedirá de se tornar como os outros, de machucar a si mesmo e as mulheres ao seu redor? Quem defende as meninas, seus corpos e sua identidade erotizadas desde tão cedo, da caixinha onde prendem sua sexualidade? Da punição que as espera se ousarem usar seu corpo de maneira diferente a de um objeto em uma vitrine? Quem garante a elas o direito sobre sua própria sexualidade? Quem as ensina a não temer o próprio corpo, tal qual tão cedo ensinam aos meninos? Quem, enfim, protege as crianças das frustrações e idealizações dos adultos? Dos discursos permeados de certezas e carentes de dúvidas? Das vidas repletas de regras e vazias de outras possibilidades? Quem as protege de si mesmas e de seu destino de tornarem-se adultas? Elas - e todos nós, uma vez crianças - pagam o preço caro de serem colocadas em limitantes categorias de gênero, forçadas em uma sexualidade e identidade pré-determinada, para que instituições sociais como o patriarcado e a família nuclear heteroparental possam se manter. Mas quem nos salva das nossas próprias construções culturais? Quem nos salva de nós mesmos? Quem, se não nós, e apenas nós?


[Jessica Dachs]

Multinha básica A partir de 15 de março, professores e diretores de escolas públicas e particulares de três cidades baianas que não executarem o hino nacional terão que pagar multa. Arrã, isso mesmo. A decisão é da “Justiça”, que impôs o valor de um a quatro salários mínimos caso o hino não seja executado ao menos uma vez por semana em Olindina, Crisópolis e Itapicuru. A regra está em uma portaria do juiz dadaísta José Brandão Netto, da Vara de Infância, que atua nos três municípios. Ele quer que seja cumprida a lei federal que determina o canto da "Pátria amada, salve, salve!" nas escolas. A lei é de 1971(anos dourados do Médici), mas a obrigação semanal foi assinada em 2009 pelo então vicepresidente José Alencar, em um dia como presidente interino. Essa não é a primeira vez que o tal do seu Netto estabelece medidas para que escolas toquem o hino. Ele diz "Já cheguei a pedir para um delegado intimar quatro professores para ir à delegacia no ano passado”. A Polícia Civil confirma e diz que um inquérito foi aberto. O juiz diz que as medidas visam combater a evasão escolar e o analfabetismo.

professor confessou em 2010 que enforcou a mulher Mônica El Khouri com um fio, dentro de casa, em bairro de classe média na zona sul de São Paulo, um ano antes. Mesmo com a Ministro "indignado" O ministro da Previdência Social, confissão, Nogueira recebe mensalmente pensão do INSS Garibaldi Filho, afirmou estar pela morte da mulher, que "indignado" com a situação do ele assassinou. Só em 2010, professor Claudemir Nogueira, foram R$ 19 mil. Nogueira que confessou ter assassinado também continua recebendo os a mulher e, com isso, passou a vencimentos por ser professor receber pensão por morte do da rede estadual, no valor de INSS. O instituto é atrelado R$ 2.509 ao mês. Atualmente, à pasta de Garibaldi Filho. ele trabalha em atividades Em sua conta no Twitter, burocráticas da pasta, após ter ele afirmou: "Fiquei indignado sido afastado das salas de aula. com teor desta notícia”. Ainda Até o momento, Nogueira no microblog, ele afirmou ter não ficou nenhum dia preso, determinado à Procuradoria pois não possui antecedentes Jurídica do INSS "que examine e não oferece mais risco às a revisão ou suspensão do investigações, avalia a tal pagamento desse benefício". O Em tempo Seu Netto na tentativa de ultrapassar Marcel Duchamp e Tristan Tzara. Tem futuro...

[Jessica Dachs]

C A R T A S

SUPLEMENTINHO CULTURAL DE MEIA TIGELA, VOCÊS AINDA TEM A AUDÁCIA DE SE AUTO-DENOMINAR JORNAL! BANDO DE CRÁPULAS NEFASTOS, COMUNISTAS IMBERBES! João Fonseca, Inventor do Caps Lock Olha aqui ó, John! Tu qué fala mal do jornal, fala. Qué chamá a gente de mentiroso chama. Até essa dos comunista vai. Agora, chamá a gente de imberbe não, né, bem? Baixo astral... Transar com alguém 35 anos mais jovem é como chutar a bunda da morte; eu lhes proponho que transar com alguém 35 anos mais velho é como chutar a bunda de todos os seres vivos que vivem por detrás de suas máscaras. Larissa Dick, Filósofa Ai flor, muito complexo... Mas se tu diz deve sê, né? Olá, meu nome é Joana e gostaria de saber como faço para trabalhar no Tabaré. Sempre foi meu sonho participar do meio cultural ativamente, sendo uma jornalista março 2013 #20

da Justiça. O Ministério da Previdência Social, responsável pelo INSS, e o próprio instituto foram avisados pelos familiares da fisioterapeuta ao menos quatro vezes sobre a situação.O primeiro protocolo foi feito há mais de dois anos -sem resposta até hoje.

sua família. "A situação está tomando dimensões muito estranhas. É assustador, estou me sentindo perseguido como aquela cubana lá. Como é o nome? A Yoani Sánchez”. Acusado por movimentos sociais de homofobia e intolerância racial e religiosa, Feliciano foi alvo de uma Em tempo avalanche de críticas ao ser Imagino o nível eleito neste março presidente de indignação... de uma comissão que tem como uma de suas atribuições O pastor perseguido lidar com demandas de O recém-eleito presidente da homossexuais, prostitutas, Comissão de Direitos Humanos negros e outras minorias. "Não e Minorias da Câmara, o sou homofóbico, estou sendo pastor Marco Feliciano (PSCmal interpretado. Peço apenas SP) se comparou à blogueira que me deem uma chance", cubana Yoani Sánchez ao acrescentou Feliciano. afirmar que sofre perseguição de simpatizantes de uma Em tempo "ditadura da desinformação". Tsss, magina se alguém O pinta diz que sofre que fala que o amor entre duas ameaças de morte desde pessoas do mesmo sexo leva que foi indicado para a vaga ao “ódio, crime e rejeição” destinada ao seu partido vai sê homobóbico, né. Ta na comissão, e avalia pedir faltando aula de interpretação proteção policial para ele e textual nesse mundo mesmo.

underground, provocando o sistema, acho muito afuder! Imagino vocês trabalhando que nem os jornalistas dos anos 70, com máquina de escrever e tudo. Sou fã! Se não rolar tudo bem, beijos. Joana Lemos, Inocente Cara Joana, lamentamos te decepcionar, mas aqui só trabalhamos com alta tecnologia. Tablets, Iphones, Blackberrys, Pinkberrys e Jetskys com tela plana. Além do mais esse negócio de ser underground é to-tal-men-te overground. Contratamos apenas sob carta de recomendação do jornal Pasquim. Com amor supremo, A Direção. Sempre achei os guris da revista Bastião mais bonitos que os do Tabaré. Mais ajeitadinhos, sabe? Vó Aida, Exigente Também acho, Vó! Os nossos guri tão mais pra Jim Morrison com piolho. Estou oficialmente em Porto Alegre. E os drinks? Matheus Chaparini, Jornalista Alternativo Seu atrevido! Eu que te pergunto...

Oi. Tudo bem. Eu sei que quem responde é a mesma pessoa que escreve as cartas. Eu sei. Dá pra notar. Fiquei com pena. Leio muito vocês. Não consigo mais parar de pontuar. Mas tudo bem. Fiquei com pena, já disse. Vou fazer uma pergunta. Vocês poderiam me dizer as horas? Abraços Rafael Antunes, Lóqui Rafa, benzinho! Lembramos de ti dos tempos do São Pedro, e que tempos, ein? Ficamos felizes em saber que tu recebeu alta, abrazo! Tabaré: assim, bem clichê. Guilherme Dal Sasso, Marxista From UK Aham, flor. Olha só, ainda não abrimos as inscrições pro concurso de lemas do jornal, mas vâmo arquivá, tá? Beijo E não é que eu chego na praia do Maço e encontro uma banquinha de Tabarés. Pensei: que loucura! Esse jornal tá em todo lugar que eu vou! Ettore Sanfelice, músico-viajante. Que chá é esse que tu tá tomando, einhô, Ettore? Consegue três caixa pra nós, faz favor. 3


O Mercado que derrotou o governo por Pepe Martini Ilustração: Martino Piccinini

A

história construída vira pó. Árvores se convertem repentinamente em estorvo e lenha. Ruas se alargam espremendo e expulsando pedestres. Viadutos, monumentos faraônicos ao concreto e à fumaça, se levantam sobre o corpo da cidade. A Prefeitura Municipal redesenha com mão de ferro as feições de um porto não muito alegre. *

O cenário bem que parece contemporâneo, por que o é, mas estamos falando da Porto Alegre de 1970, quando severas intervenções urbanas eram impulsionadas pelo governo municipal, encabeçado pelo prefeito Telmo Thompson Flores, membro da ARENA e interventor nomeado pela Ditadura Civil-Militar brasileira. Nesse tempo de poucos votos e muitas botas, as transformações profundas por que passava a cidade poucas vezes eram questionadas publicamente. Essa espécie de apatia se justificava na hegemonia, então esmagadora, de uma visão retrógrada de progressismo, que desconsiderava danos sociais, arquitetônicos, históricos e ecológicos nos planos de modernização da cidade. Também pesava a censura e a repressão extrema impostas pelo governo militar, avesso a qualquer forma de contestação popular. Grandes estruturas e enormes problemas foram herdados dessa época. Os mártires do urbanismo que se arriscam a caminhar sob ou sobre o Elevado

da Conceição conhecem essas mazelas. Também os cidadãos condenados diariamente à lentidão do trânsito, orientado ontem e hoje para favorecer o transporte automotivo individual, conhecem parte do legado de Thompson Flores. A reorganização viária impulsada nos seus anos de gestão pôs abaixo quadras inteiras de arquitetura colonial, eclética e neoclássica, arrancando da vida da cidade grandes porções de memória e beleza. A Primeira Perimetral, menina dos olhos do governo da época, atorou a Cidade Baixa ao meio, destroçando quase que inteiramente a histórica rua Avaí e descaracterizando o traçado do bairro. O hediondo muro da Mauá, que em 40 anos não se mostrou útil sequer uma vez, apartou brutalmente o Centro do imenso Guaíba, transformando a antes nobre avenida costeira em um dos logradouros mais ermos da cidade. Amiga incondicional das empreiteiras, aquela prefeitura dos primeiros anos 70 nos legou uma cidade mais cinza e quadrada, mais veloz e distante, uma espécie de réplica mal-executada de Los Angeles. O velho Mercado Público, já naquela época centenário, também era visto por Thompson Flores como um empecilho ao progresso de Porto Alegre. Entre os planos apresentados para dar maior velocidade ao trânsito do Centro, estava a conexão entre a rua Siqueira Campos e a Avenida Júlio de Castilhos, parcialmente obstruída pelo então decadente Mercadão, estômago da cidade ou, nas palavras de Thompson Flores, velharia. O anúncio da futura demolição do edifício histórico foi feito em meados de 1971, um ano após a prefeitura extinguir

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um importante modal de transporte da cidade, o bonde, que tanta nostalgia desperta nos mais antigos porto alegrenses. A escolha convicta pelo automóvel como meio de transporte preferencial estava dada, e a cidade se adaptava rapidamente a esse novo modelo. Seis foram os anos de mandato do prefeito, e seis foram os viadutos construídos por sua gestão, responsáveis por exaurir as finanças públicas. A imprensa da época exaltava o prefeitoempreiteiro como homem de ação, responsável por despertar a cidade de sua sesta provinciana e por resolver supostos problemas históricos, como o “estrangulamento progressivo das entradas e saídas de veículos do Centro”. As ações do governo municipal eram amplamente divulgadas e defendidas pela publicidade oficial, generosa com os jornais amigos. Em meio a este ambiente de condescendência generalizada, levantaram-se algumas vozes dissonantes na imprensa, dispostas a evitar a destruição do velho Mercado Central, construído em área aterrada ao Guaíba entre os anos 1864 e 1869. Walter Galvani, então repórter do Correio do Povo, deu início a uma série de reportagens e artigos que seriam veiculados no jornal ao longo de 1972, tendo como tema principal o Mercado, sua história e seu cotidiano. “Cansado de ouvir falar em viadutos”, Galvani arregimentou nomes de peso para sua campanha, mobilizando figuras de destaque na cultura da cidade favoráveis à manutenção do Mercado ou, no mínimo, do histórico edifício. Notáveis como Mario Quintana, Carlos Reverbel, Maurício Rosemblat, Flávio Alcaraz Gomes e Vasco Prado declararam publicamente sua contrariedade ao projeto de demolição e trouxeram o debate à tona. Ney Gastal, outro jornalista do Correio do Povo que se dedicou a relatar a agonia do Mercado, recolheu interessantes opiniões em uma enquete realizada com artistas, políticos e populares em maio 1972. Para o escultor Vasco Prado, a ideia da demolição soava como absurda: “Sou total e completamente favorável à manutenção de uma das poucas coisas que restam da Porto Alegre antiga. Afinal, como diz o Mario Quintana, se demolirem o Mercado, onde vamos meter nossos fantasmas?”. Outra opinião convicta contra a derrubada do edifício foi emitida pelo livreiro Maurício Rosemblat, argentino “com a vantagem de ser porto-alegrense adotivo, por opção”, que defendia a importância da manuntenção “daquilo que é passado autêntico nas cidades, o que elas tem de mais característico, de mais bonito”. Outras personalidades da cultura porto-alegrense não manifestaram a mesma defesa intransigente do Mercado, como no caso do dramaturgo Dante Barone, para quem a demolição se justificaria “se fosse em benefício do futuro Teatro Municipal da Cidade”, que ocuparia a parcela do terreno não comprometida pelas novas vias. Barone considerava anacrônica a existência de um Mercado Central, justificando que “para isso existem os supermercados” dos bairros, e em seus planos para o local previa inclusive um “belíssimo estacionamento em espiral” sobre a Praça (hoje terminal de ônibus) Parobé. Também Alberto André, presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa, se mostrava favorável à demolição,


Aos poucos, a prefeitura se curva à opinião pública.

[Arquivo jornal Correio do Povo / Museus Hipólito José da Costa]

“em face dos projetos urbanísticos aprovados pelo Plano Diretor”, que previam inclusive um viaduto ao lado do Paço Municipal, o que segundo o jornalista comporia “um contraste bonito. O moderno a ser construído e a prefeitura tradicional”. Ainda mais empenhados em colocar o Mercadão abaixo estavam os políticos da cidade, fossem da ARENA ou do MDB. Destaca-se a opinião do arenista Solano Borges, então presidente da Assembleia Legislativa, que “respondendo a pergunta de seu amável interlocutor [o reportér]”, afirmava ser o Mercado há muitos anos “superado, para uma capital como Porto Alegre”. Na mesma enquete, os transeuntes do Centro instigados a opinar sobre o destino do Mercado manifestaram-se unanimamente favoráveis à sua preservação. A estudante Susana Machado se mostrava desesperançosa: “É claro que sou contra a demolição! Mas acho que é luta inglória... Não vejo muita esperança que ele continue lá”. Também carregada de melancolia foi a resposta do freguês Guilherme Pienizio, então frequentador do espaço há trinta anos, para quem o Mercado “até tem pinta daquele museu francês, aquele onde está a Monalisa [Louvre]”. Guilherme expressa o sentimento que carregava em relação ao local e termina com um apelo ao prefeito: “Sempre me senti bem, sempre me senti gente aqui dentro. Então eu queria pedir aqui no Correio, que o prefeito não deixasse demolir o Mercado. Ele é um pedaço da alma de Porto Alegre. Um pouco de todos nós morreria com ele”. A cobertura jornalística do então maior veículo do Rio Grande do Sul foi intensa, tornando evidente o descontentamento da maior parte da população e fazendo com que a prefeitura recuasse em sua ideia de destruir o edifício. Em fins de 1972, Telmo Thompson Flores declarou à imprensa que o projeto havia sido abortado. A solução encontrada pelos valorosos engenheiros da Secretaria Municipal de Obras e Viação para conectar a Siqueira Campos com a Júlio de Castilhos, após um ano de impasse, foi uma curva. Salvou-se o Mercado e com ele a esperança de que a sociedade civil é capaz de intervir na preservação do patrimônio público. Poucos anos depois de garantida a manutenção do edifício (assegurada definitivamente apenas em 1979, com seu tombamento), outro fato entraria para a história da cidade como símbolo desse embate entre a cidadania e o “desenvolvimentismo” promovido por numerosos governos. Em fevereiro de

A poética mensagem de ano novo do prefeito exalta o período de grandes transformações que vivia a cidade.

1975, repercutiu fortemente na imprensa brasileira o caso do estudante Carlos Alberto Dayrell, que ao subir em uma árvore localizada em frente à Faculdade de Direito da UFRGS impediu seu corte iminente. A derrubada da tipuana era, segundo o governo de Thompson Flores, uma exigência da obra do viaduto Imperatriz Leopoldina, uma das seis construções do gênero realizadas em seu mandato. Com a repercussão do caso a prefeitura viu-se obrigada a desistir do corte, o que não impediu a construção do elevado. Outros projetos viários foram abandonados à época, alguns de megalomania e inutilidade gritantes. Cogitou-se, por exemplo, a construção de um túnel na pacata rua General João Manoel, que cortaria a península central cinquenta metros abaixo do leito da rua Duque de Caxias. Extravagantes passarelas “turísticas” próximas à avenida Mauá (que também receberia uma via elevada) e um túnel para pedestres sob a hoje Esquina Democrática também foram deixados de lado. Mario Quintana, o mais reverenciado poeta da cidade, foi testemunha ocular dessas transformações

e converteu em versos seu espanto. Se pudesse andar por nossas ruas nestes tempos de novos viadutos tão milionários quanto duvidosos, de novos alargamentos e demolições, veria uma cidade que segue repetindo seus erros, uma cidade que segue sacrificando sua qualidade de vida no altar automobilístico. Também veria o poeta, se pudesse, um Mercado Público vivo e renovado, e uma cidade, a mesma, e outra, que resiste. - Pôrto Alegre, onde estão os teus verdes, os teus azuis, os teus crepúsculos? - O arranha-céu comeu! - Sei que de dia já não tens mais pássaros e que de noite já não tens mais estrelas. - Tenho os meus sonhos. - São sonhos de grandeza. Abandonaste os poetas pelos teus prefeitos. - Quero ser rica. - Ah...

Publicidade oficial evidencia as prioridades do governo da época.

março 2013 #20

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por Eduardo Amaral, Gabriel Jacobsen & Jimmy Azevedo

T

odo padre tem um pouco de papa. Sabese lá quem disse esta frase pela primeira vez, mas o fato é que a hierarquia é extremamente presente na Igreja Católica Apostólica Romana. Deve ser respeitada tanto quanto os seus dogmas. Mesmo assim, por trás das batinas e cruzes há homens e... mais homens a proferir discursos que ainda exercem grande influência sobre mulheres e homens de mais de um bilhão de cidadãos do mundo. Pois o Rio Grande do Sul ainda é, majoritariamente, católico. O Brasil e a América Latina também. Quase metade da população de diversos países da África Subsaariana, onde milhões morrem anualmente em decorrência da AIDS, é católica. No Oriente, ainda que menos, há católicos. Porto Alegre. Outono de 2013. Um papa recentemente pediu demissão para que outro, humildemente argentino, ocupasse seu posto. Na tevê e na internet, o papa é pop. Especula-se livremente sobre o quanto o novo CEO da Igreja Católica mudará o mundo. Entretanto, longe de Roma, sob o calor porto-alegrense, quem distribui as regras do jogo é Dom Dadeus Grings. O arcebispo da Cúria Metropolitana ocupa o cargo máximo da Igreja no Rio Grande do Sul. Já pediu sua aposentadoria há mais de ano, mas o antigo papa pendurou a batina sem assiná-la. Ali, a poucos metros do Palácio Piratini, do Palácio da Justiça e da Assembleia Legislativa, segue administrando a Cúria Metropolitana. Dom Dadeus, 76 anos, nascido em Nova Petrópolis e enviado à Roma aos 18 anos, nos recebe sem pressa em seu escritório. Não fosse o barulho de furadeiras e martelos que restauram o histórico prédio, teríamos conversado nos jardins da Cúria, um delicado espaço de botar inveja em qualquer Edward Mãos-de-Tesoura. Porto Alegre. Dias depois, ainda quente. Quanto mais o ônibus sobe o Jardim Carvalho, mais negra a cidade vai ficando. No caminho nos deparamos com uma fumaça escura de um carro que incendeia. A Capital vai se apresentando assim com suas mazelas diárias. Já a pé, morro acima, a classe média desaparece para dar lugar a vielas e becos maltratados. Não há perigo. No máximo, uma paróquia e um padre, que ali está há quase 30 anos. Andamos ao lado do padre Rubens dos Santos pelos becos e ele nos conta que sua foto está na casa de muitas das famílias que já batizou ou casou. Aos 74 anos, exfuncionário público, tem no curriculum vitae duas faculdades: filosofia e teologia, o que é, inclusive, pré-requisito para ser padre. Diferentemente de Dom Dadeus, não participa dos atos políticos e institucionais da Igreja, tampouco se encontra frequentemente com políticos. Sua atividade extraparóquia é colaborar em um lar para crianças da comunidade. Alto e baixo clero. Ambos reais e palpáveis. Dois lados de uma mesma e pesada moeda que, creem eles, voa nas mãos de Deus.

Um bispo um padre

&

ENTRE O CÉU E O INFERNO

fotos: Gabriel Jacobsen ilustrações: P. H. Lange


DOM DADEUS O que define se vai para o céu? O estado de graça. Tem que estar de acordo com o projeto de Deus. Nem o Papa necessariamente vai para o céu. Até Michelangelo colocou um Papa no Inferno, representando seu juízo final. O senhor retornou de Roma ao Brasil em 1964, um ano fatídico. Como a Igreja se relacionou com a ditadura? A Igreja tenta não interferir na questão política, mas também é uma grande política. Cristo foi um grande político. Sob o ponto de vista moral, democrático, todos os membros da Igreja também são cidadãos. Nós temos cristãos dos dois lados, é muito difícil. A Igreja não aprova que um padre ou bispo seja candidato à eleição. Mas durante o processo que o senhor chama de regime militar, de 1964 até 1985, houve diversos setores da Igreja que apoiaram os militares, mas também padres que esconderam perseguidos políticos... Quando houve esse fato, a Revolução, a situação do mundo estava muito crítica, o comunismo era um espantalho. O comunismo, em seus 70 anos de domínio,

matou 110 milhões de pessoas. Então, nós não queríamos no Brasil uma situação dessas. Seria um massacre. O comunismo estava para ser instaurado. Eles tinham um projeto, tentaram primeiro nos grandes países. Mas João Goulart foi eleito democraticamente. Por que a resposta foi um golpe? Sim, foi eleito democraticamente... É que o Brizola havia formado grupos de comunistas guerrilheiros prontos para matar. Por exemplo, quando deu a Revolução no Chile, Allende foi morto. O que houve? Quando a gente semeia ódio, colhe tempestade. Os comunistas já tinham uma lista de pessoas para serem mortas, como empresários e membros da Igreja. Não fosse o Pinochet tomar conta, ia ser um banho de sangue. Mas a ditadura de Pinochet não foi um banho de sangue? Mas muito menos. Iria haver uma guerra. Quando deu a Revolução, os jornais italianos diziam: “Estão se matando no Brasil”. Não tem sentido, o Brasil é muito mais cordial. Na Igreja Católica nós temos gente de direita, de esquerda e de centro. O senhor se coloca aonde nisso? A gente sempre se põe mais no centro. Existe corrupção dentro da Igreja? Existe, pois há a parte humana. A Igreja também tem defeitos porque é feita de homens.

A Igreja participou ativamente da fundação do MST. Como o senhor vê essa luta? Isso aí está fora de época. Todo mundo já quase saiu da terra, é o êxodo rural. Ir de enxada pra roça é um atraso. Por isso se colocava a reforma agrária como o grande pivô da questão. A reforma agrária não foi feita e não precisa mais ser. Dar terra para quem não sabe trabalhar na terra é um dinheiro jogado fora. Por que Deus não aceita que as mulheres atinjam os mesmos espaços que os homens na Igreja? Aqui é uma questão teológica. O padre representa Jesus Cristo que foi um homem. Fica muito difícil uma mulher representar Cristo, encarnar Cristo. Tem gente machista na Igreja, mas a Igreja não é machista. Como quando alguém fala contra os homosexuais, dizem que você é homofóbico. Mas então essa pessoa é heterofóbica? A sexualidade humana é muito rica e de uma gama enorme de variedades e de beleza. Por isso homofóbico e heterofóbico não tem sentido, porque cada um de nós tem um pai e uma mãe. E são importantes para nós os dois, até para formação. Como se forma uma família hoje em dia se nós estamos anormais? A sociedade é feita de homem e mulher. Uma criança criada por um casal homoafetivo vive em uma família anormal? Sem dúvida nenhuma. Nem é família. Nós somos mais filhos da cultura que da natureza. Então se cria um modo artificial. PrOx. PAG

Padre Rubens A Igreja teve um papel importante para a consolidação do Golpe de 64. Parte dela se posicionou a favor da ditadura militar? Não, muito pouco. A Igreja não esperava o golpe, porque até então era uma briga entre militares. E os padres que falavam em comunismo se ralavam. Comunismo aqui no Brasil nem tem jeito. As guerrinhas aqui não funcionaram. Os padres que falavam em comunismo se ralavam, porque eles nem estavam sabendo das coisas. Sabe que entraram muitos padres. Alguns padres prenderam. Quem tirava da cadeia era o Dom Vicente (Scherer), que era Cardeal. Ele entrava no Dops e tirava os padres pela orelha (risos). O Cardeal era fogo. Inclusive ele estava do lado do Brizola, não bombardearam o palácio (Piratini) porque ele estava do lado. No período das Cruzadas, a Igreja acabou destruindo muitas mecas. Sim, mas os muçulmanos são terríveis também, né? São mais comunistas que os comunistas.

PrOx. PAG Como ocorre a relação na comunidade entre os seguidores da igreja católica e os das pentecostais, ou evangélicas? Aqui no bairro, os pastores vão mais nos colégios. As professoras, inclusive, convidam a eles e a mim. Eles ignoram parte da Bíblia. Deus não ignora ninguém. Nos Conselhos Evangélicos têm três palavrinhas: fé, esperança e caridade. Mas o Evangelho de hoje é o contrário. Como se trabalha a sexualidade do jovem? O jovem está sendo vítima da televisão e do computador. Hoje se perdeu a formação. Tinha a formação para o seminário e para o casal. Os sete sacramentos são os sete presentes que Jesus conquistou na cruz. Começa com o batismo e fecha com o matrimônio. E olha as doenças que surgiram com a bagunça do casamento, com os divórcios. Antes não tinha a tal de Aids. O povo tá apavorado. Claro que a Igreja abandonou o povo, quando ela acabou com os Conselhos Evangélicos. A parte sagrada, o povo não recebe hoje. Eu aprendi a exorcizar sal e água. A Igreja está perdida, então? Por causa destas bobageiras de libertação (Teoria da Libertação, cuja maior referência é o teólogo Leonardo Boff). Libertou o quê? Jesus já nos libertou de tudo.

março 2013 #20

Nos anos 60, nós tivemos padres taxados de comunistas por pregarem o evangelho mais próximo aos pobres... A igreja não é lugar de fazer política, ela não tem partido. Então, os padres que faziam política se ralavam. Um dia no Centro de Pastoral, o pessoal da Juventude Católica estava fazendo um folhetinho e na capa botaram tampas de Coca-Cola represetando botons, no peito dos generais. Eu disse que isso não ia passar. Quando Dom Antônio viu, disse que assim não podia ser publicado. Quando se lê a passagem de Jesus Cristo se percebe ele muito ligado aos vários problemas sociais da época. A Igreja não tenta se desprender destas questões, ela não se perde por aí? Jesus já deixou tudo pronto. Tanto que ele continua vindo na Eucaristia. Fez um monte de milagres, mas não convenceu os judeus. Olha a tragédia de Santa Maria! Eu tinha falado na missa, olha as três palavrinhas: ter, poder e prazer. Eles morreram no prazer. O senhor acha que eles são culpados? Não, tem muita gente boa ali, que Jesus, por misericórdia, vai salvar.

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DOM DADEUS Como o senhor se sente ao ver dois homens se beijando? O problema é quando se faz em público. Aos poucos as resistências se quebram. Mini-saia quando surgiu foi um escândalo. Só que as mulheres honestas sabem aquilo que podem vestir. As não honestas, quando querem atrair, também sabem o que vestir.

índice de pedofilia, proporcionalmente. Tem muito mais médico, advogado e professor pedófilo. A Igreja já admitiu ter cometido erros. Qual o maior erro, o maior mal que ela fez? Difícil dizer, pois as pessoas julgam fora de época. Por exemplo, quando me falam da Inquisição como um grande mal. Não foi! A inquisição foi um

Qual é o salário de um padre? É dois salários mínimos. Ele tem ainda a casa e o veículo da paróquia. O vinho é parte da missa. Também sabemos que há padres que fumam cigarro. A Igreja também aceita, por exemplo, o consumo de maconha e cocaína? Toda droga tem efeito colateral, maior ou menor, até os remédios. Até hoje a gente chama de drogaria. A Igreja, nessas questões, não se pronuncia. Claro que a Igreja não é contra tomar um vinho, é bom. Mas todo o excesso faz mal. Por exemplo açúcar, diabético não pode, mas todos nós podemos um pouquinho. Sobre as denúncias de pedofilia na Igreja. O senhor acha que devem ser levadas à Justiça comum? Sim. Mas os padres são a categoria que tem o menor

i n q u f o

a i s i p r o g r e s s o

i ç ã o u m

aquilo que dava estabilidade. Atacar a fé, negar a fé, era como falsificar dinheiro. Quem percebesse, tomava as medidas, apedrejava a pessoa em público. Aí a Igreja decidiu fazer os inquéritos, a Inquisição. Como os nossos inquéritos parlamentares de hoje, só que estes normalmente terminam em pizza. E as inquisições, não terminavam na morte das pessoas? Não, não... Se alguém negasse, por exemplo, o limbo, tudo bem, porque não se trata de um dogma, mas sim de uma questão teológica. Negar a Trindade, aí sim, isso é grave. A pessoa era chamada e tinha duas hipóteses: abjurar e receber o perdão ou então sustentar e ser castigada. Normalmente eram queimados.

progresso. Só que os reis, considerados católicos, usaram a Inquisição para fins políticos, para perseguir adversários e matar muita gente. Isso não era Inquisição. Para a Igreja, era como quando alguém falsifica dinheiro, isto é, um crime muito grave. Se você falsifica dinheiro, estragou toda a sociedade. Porque isso prejudica a nação. Na sociedade da Idade Média, a fé era justamente

E sobre os equívocos e males, o senhor admite que a Igreja errou? Indiretamente. O caso de Galileu, por exemplo, foi uma questão popular, nem era da Igreja. Mas ele não foi condenado porque abjurou. A Igreja assumiu esta questão popular, mas é claro que Galileu também teve sua culpa, pois quis argumentar com a Bíblia, e a Bíblia não diz que o Sol é o centro do mundo. A Igreja errou em ter assumido as dores do povo e dos exêgeses quando não precisava.

salário mínimo sustenta uma família? Não.

os homossexuais são filhos de Deus.

A função da mulher, então, é cuidar da casa, do marido e dos filhos? No meu tempo era o homem que trazia o dinheiro para casa. Elas educavam os filhos, cuidavam dos filhos.

O senhor defende o uso da camisinha? Ela não resolve.

PADRE RUBENS Não entendemos, qual é a sua explicação para a tragédia na boate? Todos burgueses. Os pais das vítimas têm tudo fazenda em campo, até hoje. Tinha muita gente descendente (sic) da guerra dos Farrapos na boate. Era isso. Quem de nós não tem descendente lá atrás? Eu vim para Porto Alegre com 10 anos e ainda tinha charqueada lá em Santa Maria. O poder pode trazer muita corrupção, inclusive dentro da Igreja? A Igreja não é poderosa, mas está em tudo que é canto. Eu não recebo salário de padre, que seria dois salários mínimos e tem muito padre de periferia que também não ganha aposentadoria. Agora, tem político nadando em dinheiro, dinheiro destes miseráveis aqui da vila. Onde está o problema do povo? Na burguesia que está cheia de dinheiro. E, agora, precisou o negrão [ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal] meter o dedo na moleira do mensalão. Este mundo está perdido. O senhor havia dito que a igreja se perdeu... Sim, quando parou de investir na formação dos fiéis através dos Conselhos Evangélicos. E, também, porque botaram a mulher a trabalhar. O senhor é contra mulheres trabalhando? Não deveria, tem que cuidar da família. Mas este

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tem que cuidar da família E a Teoria da Libertação, é apenas teórica? Teóricos... O Boff é muito bom na escrita, no birô. Agora, passar aqui na vila ele não conseguiria. Como o senhor vê a relação entre pessoas do mesmo sexo? Elas vão para o Inferno? Não se pode dizer que alguém vai para o Inferno. A caridade salva, bastou o cara ter feito uma caridade e pronto. Não sou contra,

tabare.net

A culpa pelas mazelas é exclusivamente dos políticos? Quem vota nestes malditos projetos? São eles! Nenhum prefeito veio ver o projeto que eu faço com as crianças carentes aqui na vila. Nem o prefeito José Fortunati, que está no poder pela segunda vez. Padres em comunidades mais ricas têm vida mais confortável? Uma igreja como a do bairro São João arrecada 30 mil por mês. O senhor acha que uma igreja em um local nobre da cidade, como a São João, recebe tratamento especial? Não tem tratamento especial, mas, ao mesmo tempo, tem porque Dom Dadeus está coordenando ali. A São João dá 30 mil e a arquidiocese ainda aluga imóveis para terceiros naquela região. Claro, pois tem que dar dinheiro para sustentar o arcebispo. Lá na igreja eles não vão falar nada, porque senão perdem os fregueses. Aqui na minha paróquia, depois de 25 anos, ganhei um ar condicionado de um delegado federal que apreendeu esta porcaria na fronteira.


Regular não é Censurar O debate sobre os limites da mídia por Juliana Loureiro & Natascha Castro ilustrações: Frederico Stumpf Demin

O

gerador de caracteres de um canal de TV aberta anuncia uma passagem ao vivo: “Flagrante no Buzú! Jovens espancados após roubo”. O repórter, ao lado do ônibus vestindo o que parece ser um colete à prova de balas, explica a situação: “um flagrante da nossa equipe aqui. Esse homem tentou assaltar passageiros deste ônibus, tá todo ensanguentado, foi linchado”. Ele se dirige ao suposto assaltante, um jovem negro sem camisa, que está imobilizado por outro homem do lado de dentro do ônibus: “por acaso você tava assaltando o pessoal trabalhador?”. O homem só consegue responder “não”, enquanto outra voz surge por trás “pegou o celular da menina aqui ó”. E o repórter continua: “pegou o celular da menina? Não tem vergonha não, hein rapaz?”. Diante do silêncio do acusado, ele insiste, enfiando o microfone pra dentro do ônibus: “não tem vergonha não, hein?”. O rapaz, com um sangramento no meio da testa e ainda imobilizado, baixa a cabeça. Algumas vozes ao fundo dizem algo incompreensível. O repórter continua: “Tá mordendo, vai morder o rapaz, é?”, e diante do silêncio, pergunta “você não vai falar nada não, é?”. O acusado enfim decide reclamar: “o rapaz tá me batendo aqui, véio”. O repórter então responde “ô rapaz, cê tá achando que... cê ainda acha...”, mas não conclui a frase, interrompido por vozes que gritam “chama logo a polícia, chama logo”. Cenas como essa se repetem todos os dias na televisão aberta brasileira. Na faixa de horário que vai das duas às cinco horas da tarde, o “jornalismo” do tipo “espreme que sai sangue” toma conta das telas. Em algumas emissoras, esse modelo de programação policialesca se estende a outros horários. No rádio, a realidade não é muito diferente. Histórias sensacionalistas de crimes, o “mundo cão” da profissão policial e a urgência em clamar por uma suposta “justiça” - a justiça que só serve ao autodeclarado “cidadão de bem” - demonstra um lado perverso da sociedade. O jornalismo, assim como os espaços dedicados ao entretenimento, dão cada vez mais vazão a essa postura, ultrapassando limites éticos e contribuindo para a formação de uma sociedade bestializada. Evitar a naturalização desse tipo de discurso midiático punitivista é um dos motivos que levou alguns jornalistas, políticos e ativistas dos direitos humanos a se posicionarem a favor da regulamentação dos meios de comunicação social. No entanto, há uma resistência clara dos proprietários desses meios e de grande parte da classe jornalística em discutir o assunto. Para o jornalista e professor da Cátedra de Direitos Humanos do Centro Universitário

Metodista - IPA, Marcos Rolim, o debate acaba sempre caindo em uma simplificação. — O tema da regulamentação ou da liberdade de expressão no Brasil vem aparecendo numa moldura muito simplificadora e distorcida. Nós temos uma posição sustentada pelos donos dos meios de comunicação social que poderia ser resumida basicamente assim: para eles toda e qualquer proposição que envolva regulação de comunicação é o equivalente à censura e, portanto, um atentado à liberdade de expressão. De outro lado a gente tem posições críticas à mídia no Brasil que interpreta toda e qualquer postura

lucros, sem demonstrar maior interesse com a formação educacional e cultural das platéias, muito menos com sentimentos de pertencimento e valores que configuram identidades”. A lei que nunca saiu do papel Para Rolim, o Brasil está mais de meio século atrasado na discussão sobre regulamentação dos meios de comunicação. Ele cita um relatório, tornado público em 1947 por uma comissão constituída por intelectuais e jornalistas estadunidenses, que propunha pensar o jornalismo produzido na época. — O principal do relatório é o seguinte: a ideia de que uma imprensa livre deve ser uma imprensa responsável. A questão é: diante dos eventuais abusos praticados, vamos ou não ter mecanismos administrativos de responsabilização? Celso Shröder participou desde o começo da luta pela regulação da mídia no Brasil. O jornalista e professor da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS esteve presente com Daniel Herz - jornalista falecido em 2006 e autor do livro A História Secreta da Rede Globo - no debate sobre a criação do Conselho de Comunicação Social da Assembleia Nacional Constituinte. — O conselho levou 11 anos pra sair. Ele é aprovado em 1989, mas só vai ser implementado mesmo em 2001, quando as empresas vão negociar a abertura do capital estrangeiro. Ou seja, quando vão mexer na Constituição pra botar o capital estrangeiro nós aproveitamos e entramos com o Conselho. Agora se vai funcionar ou não é outro debate, mas a criação é importantíssima. Segundo Schröder, desde então não se avançou muito em relação à discussão sobre regulamentação.

que a mídia toma como uma maquinação, como alguma coisa preparada com objetivos políticos, ideológicos, o que é uma coisa que eu diria que também não se sustenta. A essência da atividade desses veículos de comunicação social é a busca do lucro, ou seja, eles são muito mais pragmáticos do que a esquerda imagina. Essa característica comercial das empresas de comunicação entrega a produção de conteúdo à lei de mercado. O professor de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense UFF, Dênis de Moraes, escreveu sobre a questão no livro Vozes Abertas da América Latina: “as conveniências corporativas frequentemente se fixam em estratégias de maximização de março 2013 #20

— As leis de comunicação no Brasil são poucas e desatualizadas. Porque o governo fazia leis atendendo aos interesses [privados]. Como aumentaram os interesses, porque agora tem radiodifusão, jornal, telefonia, digital, etc., então a situação piorou. É uma colcha de retalhos. O termo “comunicação social” que consta na Constituição Federal refere-se apenas a rádio e televisão. Segundo Rolim, esses dois meios se diferenciam dos outros, como o impresso ou o online, por dependerem de concessões públicas. De acordo com o jornalista, a Carta Magna é clara em relação ao assunto, estabelecendo uma missão constitucional que define que a programação de rádio e televisão deve ser prioritariamente educativa. 9


— Qualquer exame que a gente faça das programações de rádio e televisão no Brasil vai constatar que isso é uma ficção, na prática essas programações não têm caráter educativo. São programações que não só não educam, como elas deseducam, deformam, são preconceituosas, excludentes, estimulam a prática da violência, solicitam inclusive a violência. Então aí nós temos um problema seriíssimo que é: os meios de comunicação social não estão atuando em função do interesse público e estão em desacordo frontal ao que está estabelecido na Constituição. Pensar nos programas da TV aberta leva ao questionamento óbvio sobre como as atuais emissoras ainda seguem operando. Programas jornalísticos ou de entretenimento e anúncios publicitários (re) produzem e incitam, além dos discursos de violência, uma série de preconceitos e normatizações. A objetificação da mulher e a imposição de padrões de beleza e comportamento, o incentivo ao consumismo infantil e a naturalização de uma estrutura social extremamente hierarquizante são pontos chave

Essas mudanças provocadas pela nova lógica de trabalho transformaram não apenas o perfil do profissional da comunicação, mas também a relação deste com sua profissão e com a realidade política e social que o cerca. A formação do jornalista, que se afastou de uma base teórico-humanista para uma formação voltada prioritariamente para a técnica, contribuiu para a atuação de profissionais acomodados e pouco questionadores. A falta de contestação às práticas antiéticas abriu caminho para os abusos que vemos e ouvimos cotidianamente. As empresas de comunicação tornaram-se, cada vez mais, detentoras de um poder alicerçado na má formação dos jornalistas, no medo que estes sentem do desemprego e da perda de status e, principalmente, no medo que o governo sente de perder o seu apoio. Medo esse que se reflete na “não discussão” sobre a regulamentação. Para que todos tenham o direito de falar A existência dos “barões” da mídia e seu poder aparentemente inabalável não é apenas um problema

uma

— Desmanchar o monopólio é pouco. A concentração é um problema, o monopólio é um problema, mas não é o maior problema. Quando nós fizemos no Brasil um mapa da concentração da mídia, vimos que o número de concessões de rádio no Nordeste é muito maior que em São Paulo, mas isso não quer dizer que a comunicação no Nordeste é mais democrática que em SP. Isso demonstrou que mesmo a pluralidade, a propriedade diversificada da mídia, não democratiza se ela não for permeada pelo controle público. De que forma será feito o controle público é o que deve ser debatido no Brasil. Seguiremos o modelo da maior parte dos países europeus, onde existe um viés público-estatal, com conselhos e diferentes mecanismos para observar as empresas, como as Agências Nacionais? Ou o modelo estadunidense e canadense, mais comercial, mas que também possui um controle que evita o excessivo domínio dos meios de comunicação? Talvez nos inspiremos no exemplo mais próximo, recente e polêmico: o da Lei de Meios argentina.

adesão

muito gr ande de uma programação pautada pela vulgaridade e carente de qualquer aprofundamento crítico. Uma vez que os efeitos negativos dessa programação de baixa qualidade se estendem a toda a sociedade, é inviável reservar a discussão apenas aos profissionais de comunicação ou aos movimentos sociais. Apesar de estes atores estarem mais próximos do tema, o interesse no debate sobre regulamentação dos meios deveria ser de toda a sociedade. Segundo Schröder, é por esse motivo que a participação pública no debate sobre regulamentação é fundamental: — Democratizar a comunicação é uma tarefa do país. Ou a sociedade compreende isso ou não vai fazer. E ela não compreende isso. Embora seja necessária uma discussão coletiva, é difícil iniciá-la sem o interesse e a participação dos próprios profissionais de comunicação. A figura do jornalista, que até as décadas de 1970 e 1980 era de um profissional relativamente autônomo, independente do patrão, cedeu lugar a um jornalista mais próximo dos interesses organizacionais das empresas de comunicação, o que vem dificultando a discussão sobre o papel dos meios pela classe jornalística. — As redações dos jornais eram muito plurais, tinha da extrema esquerda a extrema direita, mas havia uma unanimidade em torno do jornalismo e certa reação à ideia de aderir completamente ao patrão. O patrão era o patrão, nós éramos os trabalhadores, e mesmo a direita tinha muito pudor em se manifestar. Com os anos 90, neoliberalismo impondo uma nova geração de trabalho, os jornalistas mudaram muito, principalmente dentro das redações. Não que os jornalistas viraram de direita, embora endireitou-se um pouco o perfil, mas há uma adesão muito grande nas redações ao projeto político do patrão. Há uma identidade quase, o olhar crítico é muito mais em relação ao sindicato, à própria categoria, do que ao patrão - explica Schröder.

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brasileiro. A maior parte dos países latino-americanos que sofreu com as ditaduras militares vive hoje com o peso da concentração da propriedade dos meios. A formação e permanência desses oligopólios é tão evidente que Dênis de Moraes conseguiu listar as famílias que, há décadas, possuem o direito de decidir o que será pautado e o que ficará oculto na maior parte dos países da América Latina. “Entre as famílias proprietárias de meios de comunicação, estão: Marinho, Civita, Frias, Mesquita, Sirotsky, Saad, Abravanel, Sarney, Magalhães e Collor (Brasil); Cisneros e Zuloaga (Venezuela); Noble, Saguier, Mitre, Fontevecchia e Vigil (Argentina); Slim e Azcárraga (México); Edwards, Claro e Mosciatti (Chile); Rivero, Monastérios, Daher, Carrasco, Dueri e Tapia (Bolívia); Ardila, Lulle, Santo Domingo e Santos (Colômbia); Verci e Zuccolillo (Paraguai)...[Entre outros]” O grande problema da propriedade concentrada é a falta de diversidade de vozes e de histórias, algo que contradiz a essência da maior parte dos Códigos de Ética dos jornalistas. Além disso, os monopólios midiáticos interferem na formação do imaginário social. É a forma como nos vemos ou como somos representados que fica limitada quando poucos são os que decidem quem pode falar e o que pode ser dito. É empobrecedor para toda a sociedade, além de excludente e potencialmente gerador e perpetuador de preconceitos. Regular a comunicação seria diversificar os discursos na tentativa de transformar a mídia em um reflexo da sociedade, com toda sua complexidade e contradições. Por esse motivo Schröder vai além da crítica ao monopólio:

tabare.net

O professor da Universidade de Buenos Aires, Santiago Marino, explica como nossos vizinhos conseguiram aprovar a nova lei. — Desde o advento da democracia, a Lei de Radiodifusão foi modificada para permitir a criação de conglomerados, permitir o ingresso de capital estrangeiro e reforçar o sistema baseado na busca do lucro. O resultado é essa concentração de propriedade. Por diversas razões (que ainda estão sendo discutidas em profundidade) desde 2008 o governo de Cristina Kirchner e os grandes grupos de comunicação (fundamentalmente o Grupo Clarín) sustentam um enfrentamento muito visível, cujo ápice se produziu a partir da aprovação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual 26522/09. Essa lei habilitou a transição a uma mudança de lógica no modo de discussão e sansão, estabelecendo limites à concentração da propriedade dos meios e colocando novas condições na produção de conteúdo audiovisual. O enfrentamento entre o grupo Clarín e o governo argentino intensificou o debate sobre a regulação dos meios de comunicação em todo continente. Entre todos os bons exemplos que podemos retirar da experiência argentina certamente a coragem dos políticos eleitos e do movimento social que sustentou, formulou e apoiou a Lei de Meios é o maior. Cabe à sociedade brasileira escolher de que forma será feita aqui a regulação da mídia, com quais mecanismos e sob quais condições. Se pelo Conselho de Comunicação, se criando um grupo que acompanhe e denuncie os programas de rádio e TV que violem os direitos humanos, ou formulando uma lei efetiva que impeça o monopólio e garanta uma maior diversidade de vozes nas ondas de rádio e canais de televisão. O que já não se pode negar é que o debate é urgente, fundamental para nossa democracia e para a liberdade de pensamento e expressão de todos os cidadãos.


texto e foto Martino Piccinini

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ão pensara antes ao contrário. Não poderia uma cidade cujo aeroporto se fez dessa maneira ser África. Lojas. Voo atrasado.Turistas em transferência para o avião rumo a Pemba, o menor que jamais estaria até então: dois lugares à direita, um à esquerda. Adentramos entre os cliques histéricos das digitais. Ao lado, um que fala inglês encontra-se com um livro nas mãos que no verso dizia: THE LEGEND OF… esqueci o resto. Caco (meu acompanhante de viagem) fica na janela. Preocupo-me em tirar fotos, mas não será agora. O voo decola, linhas geométricas extremamente trabalhadas vão ficando cada vez mais definidas até as nuvens acortinarem-nas. Ainda não é África. Durmo, tenho preguiça de avistar o pouso. Ao abrir os olhos inúmeros arbustos organizam-se quase que a me saudar. Chegamos. Aeroporto africano. De um lado o nada e para o outro ele repete-se. Observo as gramíneas beges e lembro da seca,

O incêndio que causou a morte de mais de 140 mulheres no dia 25 de março provou a trágica situação das mulheres operárias estadunidenses. Protestos e demonstrações de inconformidade seguiram a notícia pelo mundo. O Tabaré conseguiu uma entrevista exclusiva com Max Stuer, advogado de Max Blanck e Isaac Harris, os proprietários da fábrica incendiada.

do sol. Faz sol. É quente. Caco alerta em voz baixa: esse vermelho é de comunista. Compreendo. Aeroporto simpático, simples, concreto branco. África? Sentamos então na caçamba da caminhonete. Estrada de chão. Algo me diz que sou um estrangeiro. Todos olham. Lindo. África! África! Moçambique, Pemba. Sinto o dia pesar numa sensação que acalma e fomenta a alma. Chegamos na casa. Pego a máquina, fotografo. O sentimento de estrangeiro sacode-me. Eu. Eles. As crianças olham sem cessar, tenho a impressão de que irão me jogar uma pedra. Uma então violência presente em mim manifesta-se. Cai o dia. Comemos. Ao olhar, uma brisa que toca o escuro oceano. Uma voz me diz isso não é África. Adoro-a. Entendo. A noite aparece, mas a iluminação artificial se faz numa penumbra. Como. A cidade tem luz incessante, mas o que sentir quando a luz pouca se faz e ainda assim pessoas durante quilô-

metros aparecem a te olhar? A brisa da caçamba novamente carrega-me. Cena: Sentado. A mão segura a cabeça. O som de um rádio no fundo. Crianças gritam suave ao longe. Caco dorme, seu ressono conforta. A luz é rara e as quatro pessoas da reunião lá fora mal aparecem. Ela surge de trás delas numa casa à frente da nossa. Estamos no segundo piso. A casa ilumina Renato cuja sombra é projetada no vidro. Vejo seus movimentos pela sombra, lá fora nada enxergo. Fotográfico, vivo; é como se o mundo tivesse dado as costas a tudo isso e o Isso de uma forma esquisita reagido a tal rejeição, assim, constituindo-se único e vivo, em uma riqueza imensurável de fauna, flora e humano… Cansado. A pele arde do sol e o olhos caem de sono. Queria eu explicar o dia, mas foi ele quem me disse que serei falho se o tentar compreender.

Há 102 anos em Tabaré

Mas existia algum conflito entre as trabalhadoras e seus clientes? Bom, essas mulheres são radicais. Querem ser tratadas como homens! Gritam por bobagens como salários iguais. É ultrajante. Como se já não tivessem conquistado direitos, podem trabalhar, podem cuidar de seus lares. Propuseram a loucura de reduzir as horas de trabalho, provocam o ódio aos patrões, tem sido uma situação incômoda... Mas não há relação com o incêndio, foi um terrível acidente.

(27/03/1911)

Exclusivo: entrevista com o Advogado do diabo

Os acusados seguirão alegando completa inocência? Certamente! O que aconteceu foi um acidente, não é responsabilidade dos donos da indústria que as portas estivessem trancadas.

Não queremos acusar os proprietários da fábrica, mas se as portas estivessem abertas... Nunca saberíamos o que poderia ter acontecido “se”. Sabendo como são essas mulheres, é bem possível que tenham provocado o fogo para causar esta situação, ou até que não conseguissem sair do prédio, mulheres são lentas, não pensam rápido.

Mas trancafiar as operárias no trabalho é comum? Bom, é a maneira de fazer com que trabalhem. É o normal, elas não trabalhariam se não fosse assim, é como o gado. Um mal necessário para a produção. [Luísa Santos]

Existem boatos de que este incêndio teria relação com os protestos das operárias por melhores condições de trabalho... Isso é uma completa mentira! Meus clientes amam suas funcionárias, todas, até as feias. março 2013 #20

Em tempo Qualquer semelhança com discursos atuais não é mera coincidência.

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TABARÉ

Riu negro [Pepe Martini]


TABARÉ #20