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porto alegre novembro 2011

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pintando o sete

achutti • feijão 5.1 • cruzadas • fotonovela


TABARÉ

V

inte de novembro é a data que relembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência à escravidão. Passados 123 anos desde a abolição, essa data hoje nos lembra a cumplicidade do Estado brasileiro com a desigualdade racial. Estado que, além de ignorar todo suor e sangue negro dedicados à construção do país durante mais de três séculos de escravidão, virou as costas para essa parcela da população depois da Lei Áurea. Desde então, alguns mitos impedem que a discriminação racial seja desvelada: a ideia de que somos uma nação mestiça aberta à diversidade, que as diferenças de classe se sobressaem às de cor e que todos temos os mesmos direitos garantidos. Esse imaginário mascara a perversidade de uma estrutura hierárquica em que brancos estão no topo, ocupando posições privilegiadas, e negros estão na base, sendo muitas vezes impedidos de obter ascensão social. A prova concreta disso é que a carne mais barata do mercado segue sendo a carne negra: a diferença entre o salário médio pago para brancos e negros é de 46,4% segundo o Ministério do Trabalho. No entanto, o mito da democracia racial naturaliza essa desigualdade e inspira discursos que buscam negar o racismo. O Estado foi conivente com o sistema escravista e nunca se responsabilizou pela reparação dessa desigualdade histórica que segue perpetuando injustiças. A discriminação permanece em atitudes que segregam, subjugam e impedem negros de ocupar certos espaços e posições de poder. Em 2005, no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil estava em 70º lugar. Mas, se fossem separadas as populações branca e negra, a primeira ficaria na 51ª posição no ranking mundial e a segunda no 95º lugar. Não bastasse, a omissão do Estado é também política: está em votação na Câmara dos Deputados a PEC 215/2000, proposta de emenda à Constituição Federal que transfere a decisão sobre os territórios quilombolas e indígenas do Poder Executivo para o Congresso Nacional, palco-mor das disputas político-partidárias. Zumbi ainda sangra em cada um de nós; Mãe Menininha e o candomblé retumbam nas conquistas pelos direitos do negro. E a luta do povo da Serra da Barriga avança construindo Palmares por todo o Brasil.

[Martino Piccinini]

Ariel Fagundes, Chico Guazzelli, Dani Botelho, Felipe Martini, Gabriel Jacobsen, Guilherme Dal Sasso, Iván Marrom, Jessica Dachs, Júlia Schwarz, Juliana Loureiro, Leandro Hein Rodrigues, Luciana Bênia, Luísa Hervé, Luna Mendes, Maíra Oliveira, Matheus Chaparini, Marcus Pereira, Martino Piccinini, Michele Oliveira, Natascha Castro Diagramação: Luísa Hervé e Martino Piccinini Capa: Luis Flavio “Trampo” [designup.pro.br/pro/trampo] Colaboradores: Bernardo Ribeiro, Frederico Stumpf Demin, Luísa Freitas dos Santos Tiragem: 2 mil exemplares Contatos: comercial@tabare.net tabare@tabare.net facebook.com/jtabare @jornaltabare Faculdades • Fabico • Famecos • Instituto de Artes UFRGS • Xerox da Clê • Lojas • Palavraria • Espaço Contraponto Bares • Ocidente • Tutti Giorni • Centros culturais • Alumiar • Casa de Cultura Mario Quintana • Comitê Latino-americano • Nova Olaria

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Era caguete, sim Documentos revelados pelo WikiLeaks apontam o jornalista da Rede Globo Willian Waack como informante do governo dos Estados Unidos. Além do dedo de veludo, Willian se encarregaria de fazer propaganda dos interesses yankees em seus comentários naquilo que chamam de telejornal. Em um documento de 2010, Waack passa a ficha dos pré-candidatos a Presidência da República: Ciro, o mais forte, Aécio, o mais carismático, Serra, deslocado mas competente, e Dilma, a menos coerente. E, além de X-9, é cascateiro. Em 2009, seu dedo teria apontado que José Serra e Aécio Neves haviam feito as pazes e selado acordo para concorrerem juntos na disputa presidencial. Bueno, a gente viu que não foi nem perto disso. Em tempo O caso demonstra, acima de tudo, uma grande coerência por parte da emissora que continua fiel aos seus princípios e aos interesses que a criaram: os do Tio Sam. Nadando morto na Redenção Esses dias, um corpo amanheceu boiando na Redenção. Sim, mais um. Em outubro passado, já havia aparecido um cadáver no lago, desta vez, foi no chafariz. A polícia identificou o homem como Paulo Júlio Tavares da Silva dos Santos, 22 anos, morador de rua. O corpo não apresentava sinais de violência. Suspeita-se que ele tenha se afogado no chafariz, que tinha pouco mais de um metro d’água. Testemunhas afirmam que o homem foi dormir e já acordou morto.

Sou assinante do Tabaré - todo uruguaio deveria ser. O jornal é entregue, às vezes, por um estafeta gremista e embriagado. Gustavo de Mello, uruguaxo. Estafeta? Não sabemo que que é isso. Mas se é borracho deve ser cosa nossa mesmo. Saludos pampeanos. Um amigo me apresentou o Tabaré! Fodástico! A ideia é genial! Faço jornalismo e na minha cidade não existe esse tipo de iniciativa, algo que chama a atenção do público assim,

[Frederico Stumpf Demin]

Prometeu e não cumpriu Uma colombiana escondeu o cadáver de seu marido por um mês pra ver se ele levantava. Após denúncias de vizinhos, a polícia localizou o presunto descansando – eternamente – na cama do casal. As causas da morte são desconhecidas. Alba Yacue disse que o marido havia prometido, antes de morrer, que voltaria, mas não dissera quando. Vai acreditar em promessa de homem! A viúva desistiu de esperar a ressurreição do esposo, mas, por via das dúvidas, enterrou o corpo no quintal. Em tempo Já vi fazer isso com a linguiça, mas com o porco todo... Cerveja gelada S/A A Polícia Militar do Rio de Janeiro apreendeu 2.600 latas de cerveja que seriam entregues a detentos do Batalhão Especial Prisional. No BEP, ficam presos policiais e ex-policias militares. Ao menos, em teoria. Em setembro, o ex-cabo da PM Carlos Ari Ribeiro fugiu. Carlão fora expulso da corporação em janeiro, acusado de ser o principal matador de uma milícia da Zona Oeste do Rio. No

tanto na questão não-capitalista quanto no sentido de quebrar o “sistema”. Samy Ghidini, jornalista catarina Fodástico? Hmmmmm. Tá... falando do capetalismo: nem precisamo brigar com ele, ele que briga com a gente!

CARTAS @tabare.net

Vocês fizeram um trabalho exemplar. Gostaria até de ter o texto de alguma maneira para poder mandar para alguns jornalistas que solicitam entrevista. Vocês tocaram em coisas que são importantes (pelo menos para mim). E gostei de ver o nível do

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início de outubro, o tenente Daniel Benitez Lopes, envolvido na morte da juíza Patrícia Acioli, foi flagrado encomendando suas cevas pelo celular. O presídio é policial, o detento é policial, o juíz é policial: faz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Quer pagar quanto? A gigante varejista Casas Bahia foi condenada a indenizar uma funcionária por danos morais pelos bottons usados durante as promoções da loja. A alegação é de que “broches com dizeres que dão margens a comentários desrespeitosos (...) configura violação do patrimônio imaterial do empregado”. Os acessórios traziam frases como “olhou, levou” e “quer pagar quanto?”. Depois de ouvir muita piadinha sem graça sobre seu “patrimônio imaterial”, a moça se emputeceu e decidiu ir pra justiça. O patrão foi condenado a desembolsar 5 contos de réis, o equivalente a cinco meses de salário, mas as sugestivas frases seguem estampando o peito das funcionárias das Casas Bahia. E estimulando a criatividade dos clientes engraçadinhos. Em tempo Como é que eu nunca pensei nessa piada?!

alguém com o tal. Engraçado, não sei o que deixava as pessoas mais surpresas: se a gratuidade do jornal ou a gentileza de uma quase desconhecida - coisa raras hoje em dia... Enfim, quando consegui terminar de ler vi que estava mesmo exemplar. Acho que a melhor até hoje. Parabéns e vamo arriba! Só senti falta de algumas seções como o Meio a Meio e o Vagamundo. Demorei pra ler a última edição. Marinina, jornaleira A última edição tava realmente Sempre que conseguia um exemplar, ou melhor, 2 mil exemexemplar, no meio de alguma conversa acabava presenteando plares. Valeu, nêga. jornal, saber que em Porto vocês estão fazendo esse belo trabalho. Ainda agora uma repórter me pediu uma entrevista e sugeri que lesse vocês primeiro. Padrão de qualidade é isso. Abraço. Affonso Romano de Santana, capa Tocamos no ponto importante?! Epa, epa! Cuidado com esses jornalista, não dá muita trela!

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O Infinito no Instante por Jessica Dachs e Maíra Oliveira

E

Tabaré: Tu citas a Coojornal como uma referência na tua relação com o Jornalismo. Como foi essa experiência? Achutti: Foi o jeito que eu comecei a vida profissional. Isso em 1978, no primeiro ano da faculdade, eu tinha 21 anos recém feitos. Lembro que encontrei um conhecido na rua que disse: “Vai ter uns freelancers lá da Coojornal, não quer ir junto?” Passei o dia todo com medo: vou, não vou? Uma amiga disse: “Tu não quer ser fotógrafo? Vai!”. Daí eu me apresentei, comecei a fazer freela e deu no que deu. Eu sabia um pouco de foto, mas

[Bernardo Ribeiro] flickr.com/bernardoseixas

m uma dessas tardes de vento, sol, sombra e jacarandás - que a primavera portoalegrense costuma oferecer - atravessamos uma rota cotidiana, lar histórico desta cidade, também conhecida como Rua da Praia, a caminho de uma conversa com o poeta da imagem Luiz Eduardo Robinson Achutti. O artista, fotógrafo, antropólogo e professor compartilhou conosco sua história de vida, seu percurso no mundo. Ele, que colaborou com vários jornais, comenta sua relação com o Jornalismo, a criação da Fotoetnografia e o difícil trabalho de encantar a matéria ordinária. Há 40 anos, no interior do Rio Grande do Sul, uma criança brindava a infância de uma maneira diferente. Havia uma transmissão entre neto e avô, Luiz e Bortolo, na arte de aprender a dar voz à alma através do olhar. Submerso na magia alquímica do laboratório fotográfico do avô, os negativos da pequena câmera Leica lhe revelaram um mundo fascinante do qual ele não se desprenderia tão cedo: “Meu avô era fotógrafo em Santa Maria e pelos 12 anos eu entrava no laboratório de fotografia com ele. Lá pelos 15, fiquei sabendo do Foto Cine Clube Gaúcho e me inscrevi”. Filho de um casal de médicos, quando Achutti se aproximou do momento de decidir seu futuro profissional, ficou claro que não seguiria os passos de seus pais. Cabeludo, no auge da ditadura militar, queria ser fotógrafo e fazia teatro. Optou pelas Ciências Sociais como formação acadêmica. Foi neste período de escolhas e incertezas que a fotografia surgiu como profissão através da cooperativa Coojornal, que editava um jornal com o mesmo nome.

de Jornalismo, Fotojornalismo, não sabia nada. Era um ambiente bem legal, os caras não eram meus chefes, eram meus amigos. Fim de tarde a gente ia pra um barzinho que tinha ali – quase na Farrapos - e era pra falar da vida, tomar cerveja e discutir pauta. Na real tava trabalhando o tempo todo. Tudo era jornal e eu convivia com tudo isso. A informalidade ia até na questão do horário, de dez da noite se reunir num buteco, e dali saía uma matéria, uma ideia, um aprendizado de gurizada.

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Tu tem a mesma relação com o Jornalismo hoje? Quando fotografava pra jornal eu tinha uma relação, que acho que perdi. Eu gostava do Coojornal porque ele era meu, entende? Eu gostava do JB [Jornal do Brasil] pela tradição, pela importância de estar, mal ou bem, no JB. A sucursal era lá no fim do mundo e as pessoas eram legais... As do Rio eu não conhecia pessoalmente, alguns me tratavam de forma seca, me chamavam de “Porto Alegre”, para ter uma ideia... “E aí Porto Alegre, tá pronta a foto? Manda logo que a gente tem que fechar”.


Depois a Folha [de S.Paulo], que tinha lá o seu charme, quem se achava intelectual assinava a Folha, até hoje é assim. Mas faz anos que eu praticamente não faço nada pra jornal e me informo pela Internet. Eu quase não compro a Folha e o JB acabou, o que é uma pena. O JÁ eu dou uma olhada, é dos meus amigos, tem uma tradição, eu ajudei a fazer no começo, mas eu não me emociono. Eu não tenho ilusão com o Jornalismo. Tudo envolve muito dinheiro hoje, tudo é muito pautado, muito negociado. *** O fotógrafo viveu e registrou processos históricos importantes. Com o objetivo de contar a história dos países socialistas através de seu próprio olhar, Achutti esteve na Nicarágua em 1988, na Alemanha (antes e depois da queda do Muro) e em Cuba quando o socialismo florescia na boca de todos: “Pô, eu era comunista, como não vou conhecer Cuba? Comecei a juntar dinheiro e, quando eu pude, fui a esses países socialistas contar a história do meu jeito, já que eu não acreditava nas notícias que chegavam, porque eu sabia que era tudo distorcido, óbvio. Em 1989, acabou o chamado Socialismo Real e acabou também o meu projeto - que eu chamava de crônica visual”. Em sua linguagem artística, se destaca a temática social, fruto de sua prática fotográfica e de sua formação nas Ciências Sociais. Fundindo Antropologia e Artes visuais, Achutti apresentou em 1996 a denominação Fotoetnografia - uma maneira diferente de fotografar onde a imagem não tem caráter ilustrativo, e sim uma centralidade narrativa que se preocupa com questões sociais e culturais de determinados grupos de pessoas. Narra situações do cotidiano, hábitos, particularidades de diferentes lugares também fazendo uso da sequência narrativa: imagens postas lado-a-lado que acabam contando a cena vivenciada e registrada pela lente do artista.

por conseguinte o que é arte conceitual: quem abre as portas, quem faz os textos de curadoria, acha lugares, promove determinados artistas jovens ou não. Eu uso a Bienal como exemplo porque é muita porcaria pro meu gosto. Ou melhor, bugiganga! Mas eu não vejo nas galerias uma coisa focada no social.

Eu não sei se a arte existe

“Na época do meu mestrado em Antropologia, foi que inventei o termo Fotoetnografia. O trabalho de antropólogo pressupõe trabalho de campo, delimitar um grupo e tentar ir lá conhecer. Aí veio a sugestão da minha orientadora: “Tem a Vila Dique, um pessoal da Ufrgs trabalha com eles, vai lá, eles te apresentam”. O começo da separação do lixo foi em Porto Alegre e um dos primeiros espaços para aplicação da separação foi a Vila Dique. Eu tinha interesse, achei que o assunto se prestava pra fotografia. Tinha a coleta seletiva e a prefeitura largava lá, justo pra eles terem do que viver. A questão do lixo é uma questão que apavora todo mundo, né? É muito fácil ter preconceito com o negócio do lixo. Fiquei três anos indo lá. É óbvio que não vou acompanhar uma separação de lixo para dizer que as pessoas são lixo. Eu queria explorar o que tem na Vila Dique, que é igual a qualquer outro lugar ou melhor até”. Tu usa a técnica artística pra abordar temas sociais. Tu vê isso no circuito artístico atual, nos museus e galerias de arte em Porto Alegre? Acho que não… Eu não vou a tudo, às vezes me irrita a Bienal [do Mercosul], acabo não vendo nem a metade. Pra um professor do Instituto de Artes [da Ufrgs] é horrível dizer isso, mas eu me irrito. Tem algumas exposições que eu acho uma bobagem, acho um saco. Tem uma ditadura do contemporâneo, da arte conceitual. Tem gente que decide o que é arte e

A universidade tem a capacidade de formar um artista? Eu acho que ela ajuda. Acho que o legal mesmo é o convívio com determinados professores. Nem tanto pelo traço que ele vai ensinar, mas pelo que ele não ensina, pelo o que ele é. Pelas conversas, pelo o que ele conta. Mas a arte é mercado, aí é mais complicado... Acho que não basta um diploma na Ufrgs. Tu passa por todo um filtro de relações. Eu tenho certeza que tem muita gente boa que não tá no mercado das artes, que praticamente não consegue expor. E tem gente que tá aí, brilhando, que eu não sei se vai entrar pra história. A arte tá muito efêmera, né? O Iberê [Camargo] que nem Instituto de Artes fez, entrou pra história.

Tu edita as analógicas também? As analógicas também. Eu tenho dois terços de analógica e um terço de digital na minha vida. Nas fotos da minha exposição eu usei isso em várias, até porque tem umas que acabam ficando com uma cor muito caída, muito pastel, meio perdida, aí tu traz ela pra vida um pouquinho com ajuda desses softwares. Isso é desgaste do tempo. Antigamente os caras retocavam as fotos para tirar pontos e riscos com pincel, tinha toda uma manha e tal. Tu acha que a arte existe por que a vida não basta? A vida pode ser arte. Mas se eu sou fotógrafo, se eu sou artista, não tô “pensando” que eu sou artista... Eu tô fazendo foto. Se a arte existe... Eu não sei se a arte existe... Eu acho que a arte é desculpa pra muito coisa boa e muita coisa ruim.

Várias transformações foram ocorrendo no campo da fotografia. Quais foram as “perdas e ganhos” dessa mutação dos sais de prata pros pixels? O que se perdeu foi o ritual que envolvia a fotografia. Bom, agora tu pode fotografar mais, não custa, tu não vai mandar revelar o slide depois. Nos sais de prata, o cara só dava a foto por terminada quando tinha ela em mãos - isso podia envolver um dia, teria que mandar revelar num laboratório ou tu mesmo teria que voltar lá pra tua casa, entrar no escuro e revelar direitinho. Hoje numa fração de segundos ela já tá ali no monitor, depois que tu bateu - não tem ritual. Quanto ao erro, tu já sabe que errou na hora. A expectativa e o ritual de fazer é como quem gosta de cozinhar. Tu cozinha, tu conversa, daí experimenta, mistura, põe no forno. Outra coisa é tu comprar comida congelada, pôr no micro e comer: com a fotografia é a mesma coisa. Tu edita tuas imagens? Eu uso só o básico do Photoshop. Toda a parte que eu não uso é porque não quero, não aprendi, porque eu não tenho saco e não vale a pena. A foto nunca sai pronta, eu uso contraste, saturação, reenquadrar se ela tá meio tortinha, corto um pedacinho.

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do outro lado do muro por Dani Botelho e Matheus Chaparini fotos: Dani Botelho

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hegamos. Em frente ao portão, tocamos a campainha. Logo, surge a figura de um negro alto e magro com seus sessenta e poucos anos e aparência de mordomo de filme antigo. Ele vem nos receber seguido por um alegre guaipeca, igualmente negro, e manco de uma pata. Sem maiores dificuldades, passamos as grades, chegando ao pátio: um longo gramado com algumas árvores ao redor e, ao fundo, uma bonita casa amarela de dois pisos. À primeira vista, ao sol de uma manhã primaveril, o cenário tem o aspecto agradável e acolhedor de casa de avó. Mais adiante, de trás de um arbusto qualquer, surge a figura de um mito: nosso anfitrião, já um tanto ansioso pelo atraso. Curiosos, instigados e um tanto nervosos, seguimos em frente para conhecer o lugar, rebatizado por ele de Asilo do Inferno. *** Sérgio José Toniolo é uma lenda viva. Seu nome está espalhado pelos postes, paredes e mentes curiosas da cidade. E não só. Filho de uma família tradicional de Porto Alegre, Toniolo foi criado no bairro de Petrópolis, onde morou até uma madrugada, no início de 2004, quando foi levado contra a vontade para o asilo. No apartamento 11, ainda vivem um de seus quatro irmãos, a cunhada e

duas sobrinhas. Nas segundas, quartas e sextas-feiras, ele tem direito a sair do asilo pela manhã e passar o dia em casa. O edifício da rua Taquara foi construído por seu avô, Plácido Toniolo. Comerciante influente no bairro, Plácido era o proprietário do terreno onde hoje se localiza o colégio Santa Inês. Também ostentou o cargo de tesoureiro na construção da igreja São Sebastião. O avô do pichador mais reconhecido de Porto Alegre dá nome a uma pequena praça na esquina desta tranquila alameda com a Av. Protásio Alves. Praça esta que Toniolo fez questão de que conhecêssemos em nosso primeiro encontro. Com muita dificuldade para caminhar, precisou de ajuda para descer um andar de escadas e preferiu que pegássemos o carro para percorrer o caminho de duas quadras. Hoje, Toniolo aparenta mais que os seus 66 anos, completados em 17 de outubro. É escrivão aposentado da Polícia Civil desde os 37, quando as crônicas contundentes que escrevia lhe renderam um atestado de loucura. Não contém os tremores ao segurar – com as duas mãos – uma xícara de café ou lata de spray. Dos 93 kg que pesava antes da internação, restam pouco mais de 60 e ele conta, um por um, os nove furos que perdeu no cinto. A fala por vezes confusa e as falhas da memória faz questão de atribuir às fortes drogas psiquiátricas que lhe são impostas como tratamento e o desânimo, ao ambiente carregado do asilo onde vive.

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Tabaré: Quando tu começou a pichar? Toniolo: Em 82 por causa da candidatura. Não foi à toa, né? Eu ia me candidatar. Ia! Mas aí forças ocultas... Toniolo fora filiado ao efêmero Partido Popular, mas nunca tivera planos de lançar candidatura. Um telegrama, que guarda até hoje, trouxe a convocação oficial: “Nosso partido necessita de sua ajuda PT Conte meu apoio para candidatura cargo sua preferencia PT Abraços”. Toniolo: E sabe a convite de quem eu ia me candidatar? Também não era pouca merda... O Tancredo [Neves]! Ele mandou o telegrama me convidando pra concorrer pelo PMDB. Aí eles fizeram uma marmelada, que eu não poderia concorrer porque eu era filiado ao PTB. E tu era filiado ao PTB? Não! Eu tava com o Tancredo no PP, daí ele passou para o PMDB e eu passei junto. E como ele tinha voz ativa, me convidou pra concorrer a “um cargo de minha preferência”. Se eu quisesse concorrer até a presidente... Claro, a gente também tem que ser autocrítico, né? Não pra presidente, governador... E aí eu fui concorrer a deputado estadual.


Após ter sua candidatura barrada pelo Tribunal Regional Eleitoral, Toniolo passou a utilizar os muros para fazer o seu protesto. Mas, antes disso, ele já havia tentado seu espaço através da imprensa.

e a mãe deles ia lá e me defendia: “ô, meu filhinho, o Aranha – ela me conhecia por esse apelido – é como se fosse meu filho, tu faz o que puder por ele.” E ela não ia mandar neles?! Eram filhos dela!

Toniolo: O meu muro começou nas crônicas. Eu escrevi duas mil crônicas e elas eram publicadas no Jornal do Brasil, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Estadão... Daí eles quiseram me cortar a expressão, não quiseram deixar eu me expressar através do muro... O muro é do povo! O povo tem direito de usar o muro!

Tá, mas, eles também sabiam dos uruguaios sequestrados? Claro! Como não vão saber?! Eles eram chefes.

O meu muro começou nas crônicas

Através dos jornais, denunciou corrupção na polícia, atentados paramilitares e fraudes eleitorais orquestrados pelo Terceiro Exército. Em um destes textos, de 1982, Sérgio Toniolo acusa o então diretor do Serviço Centralizado de Informações, o coronel Átila Rohrsetzer, de envolvimento no sequestro do casal de uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias, ocorrido em Porto Alegre. Caso este que ficou famoso, não só por comprovar a ligação direta entre as ditaduras do Cone Sul, mas por um furo inusitado de reportagem, envolvendo um ex-jogador do Internacional e então escrivão do DOPS: Didi Pedalada. Toniolo: Aquilo foi em 82, em plena ditadura militar. Hoje nem general manda mais nada, mas, naquela época, um coronel do exército mandava mais que um governador do estado. Até então, ninguém tinha botado ele na prensa e eu fui o primeiro, porque os jornalistas aqueles da Veja denunciaram o Didi Pedalada! Ah, bosta nenhuma! O Didi Pedalada, o Pedro Seelig, isso aí era chinelinho pequeno. Eram do Dopinho, como se dizia.

Além de muita incomodação dentro da polícia, as denúncias que fazia lhe renderam um atestado de invalidez mental, para o qual ele afirma nunca ter sido examinado. Assim, foi aposentado da Polícia Civil e, também assim, se deram alguns dos episódios mais marcantes da sua história: em sua ânsia de desafiar o poder instituído, e seus detentores, muitas vezes encontrou adversários com força suficiente para lhe derrubar. Ou, ao menos, desequilibrar. Além disso, sua forma polêmica de manifestação, sempre dividiu opiniões. Muita gente te admira e muita gente te odeia por tuas pichações. Qual reconhecimento te deixa mais satisfeito? Prefiro quem critica. Por quê? Porque esse dá mais Ibope. A maioria das pessoas picha apelido e com uma letra que não dá pra entender. Por que tu picha o teu sobrenome e com letra legível?

Pra enfrentar. O único do mundo que picha o sobrenome sou eu. Tu conhece algum pichador que coloque? Eles não colocam nem Joãozinho, quanto mais o sobrenome... É verdade que tu teve uma escolinha de pichação? Ah, tive! Aqui nessa rua. Eu botava as crianças a pichar: pra grande eu dava spray, pros intermediários eu dava pincel atômico e pros outros menores eu dava adesivos. Os bem pequeninhos eu dava giz porque como é que eu vou dar um spray pros pequeninhos? Então tinha uma faculdade do picho? Ah, a faculdade era completa! E o que tu acha de picho em lugar privado? Olha, eu não distinguia nada, eu não distinguia ninguém, eu pichava-le tudo! Por que eu ia deixar de fora? Botava tudo na parede! Mas eu ouvi uma história de que tu não pichava muro de casa, só coisa pública. Ah, uma época eu dei um grito: “não vou mais pichar muro de casa.” Mas era grupo! Aí eu peguei dobrado só pra ninguém ficar cuidando. O que tinha de gente aqui de Petrópolis que não dormia pra me cuidar. Eles ficavam acordados aí uma hora o cachimbo caía e eu pichava. *** Dois dias após a primeira entrevista, voltei ao apartamento de Toniolo, dessa vez, sem a colega de reportagem Dani Botelho. Conforme prometido, fui lhe entregar exemplares das edições do jornal. Naquelas

Por este comportamento, nunca lhe faltaram problemas na carreira policial. Por outro lado, também nunca lhe faltou proteção. Os irmãos Silva Reis eram homens importantes da Polícia Civil gaúcha. Leônidas era chefe de polícia, Marco Aurélio, diretor do DOPS. Segundo Toniolo, eles eram respeitados por não serem “daqueles delegados que davam pau a torto e a direito. O Leônidas, então, era uma moça. No bom sentido, né?” A relação com a família Reis, também é resultado da criação nas ruas do Petrópolis. A solução dos seus conflitos na Civil não distava uma quadra da porta de casa. Toniolo: Quando tinha algum problema comigo eu recorria sabe a quem? Nem a um nem a outro [dos irmãos]. Pra mim eles eram chinelos, eu recorria à mãe deles. Aí não tinha bronca, né? Dona Leontina da Silva Reis. Se eu fosse recorrer a eles, podiam negar. Eu aprontava muito, até eles eu botava na parede

Plano-piloto No mesmo ano em que gravou seu nome na fachada do Piratini, Toniolo foi além. Avisou a imprensa que estava saindo de Porto Alegre para pichar o Palácio do Planalto, em Brasília, pelas Diretas Já. Na chegada a Brasília, o coletivo foi parado por cerca de 40 policiais federais anunciando uma mera vistoria de rotina e garantindo que ninguém seria preso. Neste momento o passageiro do assento 02 se levantou: “Mentira do delegado! Ele vai prender a mim!”

Toniolo: Ele me botou pra rua e queria saber quem era o meu contato com a imprensa no ônibus. Eu falei: “Delegado, o meu contato é todo ônibus! O senhor fique à vontade: prenda todo mundo.” Aí ele disse que não ia prender ninguém, mas me prendeu.

Toniolo: Chegando lá, eles queriam saber quem ia me alimentar e onde eu iria ficar. Eu digo: “Ora, eu vim aqui pra ficar por conta e ser alimentado pelo presidente, o general João Batista Figueiredo”. E ele me mandou de volta, de avião. Foi a primeira vez que eu andei de avião.

Toniolo saíra de Porto Alegre com a certeza de ser preso antes do fim da linha. Na bagagem, garante que sequer levava alguma lata de spray e que tinha dinheiro suficiente apenas para “um guaraná e uma empada”.

T: Mas tu não tinha um plano B? Se eles te deixassem passar batido tu não tinha nem como voltar. Toniolo: Mas, como eu disse pra vocês, não tem estrategista no mundo igual a eu. Não existe!

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48 horas, Toniolo pareceu rejuvenescer 10 anos ou mais. Sem precisar de ajuda, desceu as escadarias para abrir o portão e fez questão de me levar até o terraço do edifício. Subiu os três andares de escada e me apresentou uma das plataformas de onde lançava os famosos Toniolos Voadores. Duas horas após o encontro, Toniolo me ligou para perguntar se eu havia notado diferença nele em relação ao encontro anterior e me contou que havia conseguido esconder os remédios, por isso sentia-se melhor. Toniolo: Tu nunca ouviu falar em alguém que tenha feito algo assim. Uma pandorga escrita “Toniolo”, pendurado na vertical. Nos campos de futebol, eu largava o Toniolo Voador e ele entrava lá no campo voando na cabeça dos jogadores e do juiz. Os cronistas gritavam: “Prendam o Toniolo! Esse é louco!” Loucos eles que ficavam... Eu fazia coisas que ninguém imaginava. No tempo da cobra, eu largava, com a turma da zona aqui, o Toniolo Voador também com luzinha.

pela Justiça, sem a responsabilidade legal sobre sua própria existência, ele tinha duas opções: entregar a sua guarda a alguém da família ou aceitar que a juíza nomeasse um advogado como seu curador. Toniolo escolheu a segunda. O curador funciona como uma mãe perante a justiça, assim, ele não pode sequer assinar algum documento ou receber sua própria aposentadoria, que é administrada pela “mãe jurídica”. Em 2004, a atual curadora cansou-se da incomodação remunerada de responsabilizar-se pela liberdade do pichador-mor da cidade de Porto Alegre e decidiu que ele teria que ser trancafiado em um asilo, sob condições que bem vimos. O ambiente é sinistro. Lá, vivem cerca de 20 idosos, dos quais tivemos contato com a metade. São pessoas de olhar vago, perdido, que te olham sem te ver, te ouvem sem te escutar e não respondem nem a um simples “bom dia”. Velhos debilitados física e mentalmente e sob visível efeito de fortes drogas. A ideia de que a pele deles um dia foi como a nossa assusta. Será que a nossa, um dia, será como a deles? Nas cerca de duas horas em que conversamos, no sofá da sala, pudemos sentir o clima pesado do lugar. As mesmas três moscas permaneceram voando em círculos no centro da sala, o cusco lagarteando na grama do pátio e os velhos com o olhar vago na direção da televisão - ou em qualquer outra, não parecia lhes fazer diferença. Toniolo foi internado com diagnóstico de esquizofrenia, mas é difícil saber se essa condição é anterior à internação ou uma consequência dela. Os 120 minutos que passamos naquele lugar nos deixaram perturbados. E se fossem sete anos? Duas ou três vezes, algum dos idosos tentou subir lentamente a escadaria e foi reprimido por uma voz que veio do alto. Em torno do meio-dia, o almoço foi servido. Toniolo sequer fez menção de se levantar.

Eu não distinguia nada, eu pichava-le tudo!

Com luzinha? Toniolo: Ah, é! Toniolo com luzinha. Uma vez as rádios noticiavam: “disco voador!”. Porque eu largava ela assim, com violência... Eu largava bastante fio e ela descia, tipo uma estrela cadente. E a luzinha eu botava com pilha. As rádios noticiaram, uma vez: “Objeto não-identificado ataca”. Ela foi lá na Vicente da Fontoura, dá um quilômetro e meio daqui mais ou menos... Os caras nem se fragavam que era luzinha, porque ela ficava assim, só de um lado. Daí quando a pipa caía, fazia voltas e tu nem via que era luz. A relação de Toniolo com o futebol não começou soltando pandorga em estádio. Na infância, rolava bola pelas ruas com a piazada do bairro. Entre os peladeiros, o amigo de longa data, José Alberto Fogaça de Medeiros. Perna-de-pau confesso, Toniolo acabou mudando de função, virou árbitro. Chegou a ser filiado à Federação Gaúcha de Futebol e apitava partidas amadoras, além de algumas peladas entre times da polícia. Apesar de não ser atleta, foi convidado, certa vez, para participar de uma excursão com um time de amigos. Com o escrete do Figueirinha - batizado com o mesmo nome da praia de origem - percorreu todo o litoral gaúcho, de Torres a Quintão. Toniolo: Pichava um dia prum lado e outro dia pro outro, não teve praia que escapasse. E um dia eu tô pichando lá em Figueirinha e a bala pegou. Bom, a bala pegou e não foi uma vez só, né? Tu chegou a tomar tiro? Não, não chegou a pegar. Mas não pegou porque a bala não quis! Eu tava pichando um muro e o cara me flagrou - não vou exagerar - a uns 300 metros, no mínimo. Mas tava mais, eu não gosto de contar história, mas tava mais... E o dono me viu. Ele ia chegando na casa daí o farol do carro dele deu a silhueta de eu e aquela turma. Quando ele chegou e viu o muro pichado, bom, daí ele saiu dando tiro pra tudo que foi lado. Até hoje os caras gozam comigo que eu corri mais que os atletas do time. *** A situação atual do senhor Sérgio José Toniolo destoa de todas essas histórias do pichador Toniolo. Interditado

Tu não almoça? Tu almoçaria? E em casa tu almoça? Lá, sim... Mas o meu estômago tá de passarinho. Aqui tu não come o dia inteiro? Nada. Pra quem ficou 52 dias sem comer, só tomando Toddynho, comer só quando eu saio não é nada. E eu não comia nada mesmo, só um Toddynho pra não morrer. Aí depois que fui saber que Toddynho era veneno... Emagreci 40 kg desde que vim pra cá. A comida pode ser a melhor do mundo, mas me dá nojo de comer. É brabo! Os caras se cagando, se mijando... E como é tua rotina aqui? a cama, só fico na cama. E por que tu não vai pro sol? Ah... Eu não tenho ânimo. Mesmo abatido, Toniolo reúne suas forças para tentar ter sua vida de volta e não passar o tempo que lhe resta esquecido no inferno. Toniolo: Eu ainda vou ser reconhecido. Tu pode ter certeza, um dia vou ser reconhecido pela história. Eu sou grande, quer queira, quer não. Mas o cara que tá vivo ninguém dá valor, agora, o dia que eu morrer vou ter um valor enorme. Tu vai ver só! Tu acha que eu tô brincando?

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Dezessete 17/01/1984, 17h, Palácio Piratini. Nesse dia a pichação tinha hora marcada. O número não foi escolhido à toa. Ou foi? “Meu número de sorte. Esse negócio aí de sorte não existe, eu não acredito. Mas eu peguei e me apeguei a esse dia. Porque eu nasci em 17 de outubro. Nove meses antes... Por isso o janeiro.” Sagaz, ele aproveitou uma entrevista ao jornalista Lasier Martins, na Rádio Guaíba, para divulgar o plano. Em função da inesperada ameaça, o então governador do estado, Jair Soares, tomou medidas de segurança. A Brigada tratou de formar um intimidador cordão de isolamento em torno do palácio. Nada que assustasse Toniolo. Com duas latas de spray bem escondidas em uma pasta executiva, ele aguardava na Catedral Metropolitana, como um fiel exemplar. Pontual, como faz questão de frisar, ao baterem cinco horas, ele saiu da igreja em direção ao Palácio. Ao passar pela barreira, comprimentou os homens da lei com um “boa tarde, irmãos” em tom sacerdotal. Toniolo já estava diante do Piratini. A promessa se concretizava. O cheiro de spray se espalhava no ar, a parede se tingia de vermelho e Toniolo já traçava sua penúltima letra quando alguém foi se dar conta do que acontecia. Rendido, foi levado imediatamente para o Hospital Psiquiátrico São Pedro, onde deu outro drible de mestre, este na Polícia Civil. O escrivão pichador conta que estava recém aposentado da carreira policial e, portanto, ainda era conhecido dos funcionários, pois, por seu ofício, costumava entregar internos no afamado casarão da Av. Bento Gonçalves. Ao chegar mais uma vez ao hospital, se adiantou alguns passos em relação aos ex-colegas que o conduziam e alertou no balcão: “Ó, eu tô trazendo dois loucos aí, mas vocês tenham cuidado que eles têm mania de polícia.” T - Eu dei no pé! Até explicar que os loucos não eram eles, era eu, bah, eu já tava longe...


A feijoada não será mais a mesma por Ariel Fagundes foto Gabriel Jacobsen e Martino Piccinini

N

ote bem, o primeiro feijão transgênico do mundo logo estará nos nossos pratos. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou a liberação comercial de uma variedade resistente ao vírus do mosaico dourado, praga que acomete as lavouras do Brasil. O transgênico ganhou o robótico apelido de feijão 5.1, mas ao contrário da maioria, ainda não está ligado a um agrotóxico específico, tampouco é cria das multinacionais da área. A autoria é da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No final das contas, é uma obra pública cuja segurança está longe de ser consenso entre os pesquisadores. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), ligado à Presidência da República, se posicionou absolutamente contra essa planta. Em audiência pública da CTNBio, o conselheiro do órgão lembrou que a própria Embrapa pesquisa com sucesso feijões orgânicos resistentes ao mosaico dourado há oito anos. O presidente do Consea, Renato Maluf, mandou até uma carta à presidenta Dilma Rousseff pedindo a “proibição da liberação comercial do feijão transgênico”.

Made in Brazil Em resposta, o presidente da CTNBio, Edilson Paiva, acusou o Consea de ser “obscurantista”. Mas obscuros são os estudos apresentados pela Embrapa sobre o feijão 5.1, segundo José Maria Gusman Ferraz, biólogo membro da CTNBio e ex-funcionário da Embrapa. “Tem muitos pontos obscuros no processo. Faltam dados para ser liberado com segurança, uma vez que a ingestão diária de feijão do brasileiro é de 150 a 180 grãos por dia”, critica. Segundo o pesquisador, a metodologia usada pela Embrapa para avaliar a segurança desse transgênico é falha: “Nenhuma publicação científica do mundo aceitaria um trabalho desses”. Vejamos o que diz o texto da “Proposta de Liberação Comercial de Feijoeiro Geneticamente Modificado Resistente ao Mosaico Dourado – Evento Embrapa 5.1”, disponível no site da CTNBio. No Anexo I, relativo aos “materiais e métodos” empregados na pesquisa, lê-se: “Foram utilizados ao todo 34 ratos (22 machos e 12 fêmeas) provenientes da Unicamp” que “foram separados e distribuídos em quatro grupos conforme quatro diferentes tratamentos” [pg. 426, os grifos sãos todos meus]. Na página seguinte, uma tabela mostra que somente dez ratos (seis machos e quatro fêmeas) foram alimentados com o feijão 5.1. Na virada da página 429

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para a 430, consta: “O período total do ensaio foi de 35 dias, sendo os primeiros três dias de adaptação e os 32 dias seguintes utilizados para obtenção destes indicativos nutricionais”. “No 35º dia foram sacrificados três machos de cada grupo para coletar o sangue e remover os órgãos internos”, mostra a pg. 431, onde também consta que os demais ratos “foram mantidos nas mesmas condições experimentais até completarem a idade fértil de 80-90 dias sendo então agrupados para promover o acasalamento e a obtenção da 2ª geração de animais”. Segundo o documento, os estudos apresentados foram feitos com 34 ratos, dos quais só dez comeram feijão 5.1 e por somente 35 dias; e, dentre esses animais, três machos foram sacrificados para terem os órgãos e sangue analisados. Uma 2ª geração de ratos é citada, mas as análises não se referem a ela em momento algum. No entanto, Francisco José Lima Aragão, pesquisador da Embrapa, engenheiro agrônomo membro da CTNBio e um dos principais responsáveis pelo feijão 5.1, sustenta uma versão diferente da que consta na documentação que ele mesmo preparou: “Pra começar, não foram três animais [alimentados com feijão 5.1 e sacrificados para análise], não sei nem de onde arrumaram essa informação [!]. Fizemos quatro grupos de animais comendo feijão transgênico, não-transgênico, um

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grupo com baixo nível de proteína e um grupo com ração balanceada. Cada um era composto por dez animais machos e fêmeas e isso foi feito duas vezes. 100% dos animais foram sacrificados e analisados. Não foram só três, foram 22 animais pra cada grupo”. Se assim foi, não está claro por que tais informações não constam no pedido de liberação aprovado pela CTNBio. José Maria Ferraz atém-se aos dados publicados pela Embrapa na documentação que leva o nome de Francisco Aragão na capa e, sobre os três ratos machos alimentados com feijão transgênico que foram sacrificados segundo tal documento, ele afirma: “Esses animais tiveram alterações. Aumento no tamanho do fígado de um rato, diminuição dos rins nos três ratinhos e aumento nas microvilosidades – que são as dobras dos intestinos responsáveis pela absorção de nutrientes. São indicativos de que alguma coisa está acontecendo. Precisaria de mais pesquisa, com três ratinhos só, é impossível: todos deram alteração, mas é pouco pra você fazer uma análise estatística significativa”. Como diz Aragão: “Nós não vimos nenhuma diferença significativa. Existem pequenas diferenças, às vezes pra mais, às vezes pra menos, e existe uma média e uma análise estatística que mostrou que não existe diferença entre eles”. Pagando bem... Desde que a CTNBio foi criada, em 2005, 33 transgênicos já foram liberados e apenas esse feijão da Embrapa não é obra de multinacionais. Porém, a própria Embrapa está intimamente ligada às companhias de biotecnologia. Mesmo sendo uma empresa pública, ligada ao Ministério da Agricultura, que recebeu do governo federal mais de R$ 40 milhões em 2011 (desses, cerca de R$ 180 mil só para suas pesquisas), “boa parte do dinheiro que entra na Embrapa é derivado de empresas”, calcula José Maria Ferraz. Ele trabalhou lá de 1976 a 2009 e revela: “Uma das coisas que conta pra promoção [dos funcionários] é a arrecadação de dinheiro pra pesquisa. O que se faz é captar recursos, e quem tem dinheiro pra investir são as grandes empresas”. Bem sabe Francisco Aragão, que trabalha na Embrapa há 21 anos e já teve suas pesquisas financiadas por multinacionais mais de uma vez. Ele foi responsável pelo desenvolvimento da soja transgênica Cultivance®, lançada em 2009 pela empresa alemã BASF em parceria com a Embrapa. De 1998 a 2000, foi remunerado pela alemã Bayer, que visava criar um feijão transgênico que aguentasse o glufosinato de amônio (agrotóxico vendido pela Bayer sob a poética alcunha de Liberty®) - “projeto que foi abortado”, comenta brevemente. Desde 2009, ele lidera uma pesquisa que pretende criar outro feijão transgênico, dessa vez resistente à seca. Seu estudo é um dos que recebem verba do Fundo de Pesquisa Embrapa-Monsanto, que já repassou mais de R$ 25 milhões da gigante estadunidense para a empresa brasileira. A cifra milionária é uma parte do que a Monsanto ganha com os royalties da soja RoundUp Ready® vendida no Brasil. A Embrapa foi fundamental para que a soja da Monsanto se adaptasse ao solo brasileiro e, segundo Francisco Aragão,

“a Monsanto não está dando dinheiro, é um dinheiro que a Embrapa está arrecadando a partir dessa parceria”. O futuro a quem pertence? O que se vê há décadas é um intenso atrelamento da agricultura mundial às empresas do ramo da química, que enriquecem cobrando royalties sobre as tecnologias que elas desenvolvem e nós comemos. Como boa parte do feijão brasileiro provém de pequenos produtores, se a Embrapa fizer o mesmo que essas multinacionais, o setor produtivo do grão pode ser afetado. “A Embrapa hoje não cobra royalties de variedades de feijão, mas pra esse transgênico isso ainda não foi discutido”, afirma Francisco Aragão. “Seguramente a Embrapa vai cobrar royalties disso”, aponta José Maria Ferraz.

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Segundo ele, o feijão 5.1 não está atrelado a nenhum agrotóxico por enquanto: “As empresas vão fazer uma parceria e colocar isso, é questão de tempo”. Aragão confirma que “é possível, mas a Embrapa não é produtora de herbicida. A introdução de genes de resistência à herbicida depende de acordo com alguma empresa que tenha interesse nisso”. “Espera pra você ver, uma tecnologia que não torna dependente não interessa. Dez empresas detém o controle de sementes no mundo e elas também detém a venda de agrotóxicos, então é claro que elas vão buscar uma parceria pra fazer venda casada disso”, avalia Ferraz. Também há preocupação com a integridade dos feijoeiros que não são transgênicos. “Tem produtores que têm mercado diferenciado pelo produto não ter contaminação”, atenta o engenheiro agrônomo Geraldo Deffune, também membro da CTNBio. Ele assegura que os genes do feijão 5.1 “de qualquer jeito, vão contaminar” outros feijões. Questionado sobre esse fluxo gênico (quando transgênicos fertilizam plantas convencionais), Francisco Aragão reconhece que “fluxo gênico pode existir de várias formas”, mas ele minimiza o problema:

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“Em feijão, a frequência disso é muitíssimo baixa. Se os produtores mantiverem distância das suas plantações maiores do que 10 metros será suficiente para garantir que o fluxo gênico não aconteça pelo pólen. Pelo menos, não numa frequência que possa ser considerada”. José Maria discorda: “Uma grande variedade de feijão crioulo vai ser contaminado. No Paraná, tem casos já registrados de milho crioulo contaminado com transgênicos. Com o feijão vai acontecer a mesma coisa. E se não é pela contaminação do próprio campo, é pela troca, agricultor faz muita troca de semente”. Para Aragão, é simples: “Os produtores que quiserem manter suas plantações de feijão não-transgênico, obviamente não devem pegar grãos de outros produtores”. Não há certeza, mas levará uns três anos até que o Brasil coma o feijão 5.1. “As primeiras variedades que vamos lançar são carioca. Num segundo momento, nós vamos gerar preto, roxinho e muito possivelmente feijão-vagem”, avisa Francisco. “Como ex-pesquisador da Embrapa, fico preocupado porque não se tomou o devido cuidado numa liberação que deveria ser exemplo pras multinacionais”, lamenta José Maria, “não se considera muito as possibilidades de risco na CTNBio, como foi o caso do feijão”. “Ali, a grande maioria não são especialistas em biossegurança. É uma comissão composta sobretudo por pessoas que trabalham com engenharia genética e visam prestigiar a engenharia genética como tecnologia. O pessoal [da CTNBio] que tá ligado à produção vegetal, praticamente todos trabalham com transformação genética. Há um conflito de interesses claro, mas infelizmente essas coisas óbvias são de propósito”, analisa Geraldo Deffune. Posições científicas antagônicas permeiam o debate sobre transgênicos. Em 2001, quatro anos antes da CTNBio, surgiu o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), que tem entre seus associados a Monsanto, a Bayer, a BASF e várias outras empresas da área. Conforme o site da entidade, “seu objetivo básico é divulgar informações técnico-científicas sobre a biotecnologia e seus benefícios” e, para isso, ela conta com mais de 70 conselheiros espalhados pelas principais instituições de pesquisa do Brasil. O professor de Agronomia da UFRGS Marcelo Gravina é um deles e jura que os transgênicos “são uma ferramenta imprescindível, fantástica”. Ele esclarece que “as empresas não só participam, elas financiam o CIB”, órgão que “politicamente, é muito importante”. Não é surpresa a crítica que ele faz à Embrapa: “É muito recurso e pouco produto desenvolvido. É uma lástima que só tenha o feijão transgênico. A China e a Índia têm dezenas de hortaliças transgênicas. Isso sim!”. Pesquisadores como Geraldo Deffune pensam diferente: “Não somos contra o desenvolvimento da tecnologia, mas contra a aplicação precipitada em larga escala comercial. Somos totalmente a favor de que se faça mais pesquisa básica pra desenvolver técnicas seguras de modificação e manipulação genética, mas isto custa caro e as empresas querem o resultado já. O Homem tem sido imprudente com suas tecnologias em geral, chegou a hora de sermos prudentes. Somos os últimos consumidores da Natureza, tudo vai cair no nosso bucho”.


Há 519 anos em Tabaré (13/10/1492)

ESSA É A HISTÓRIA DE TRÊS MOÇOS E UM MOÇO. UMA DISPUTA AMOROSA IMPREVISÍVEL

“SE AS COISAS SÃO INATINGÍVEIS... ORA! NÃO É MOTIVO PARA NÃO QUERÊ-LAS...”

Я пьян, и я в любви, ПРАВДА!

M

AC AC O

SO RR AT EI RO

!

E ELE ESPIAVA...

GRRR... ДЕРЬМО! ОБЕЗЬЯНА ЖОПУ!

FIM

E A DISPUTA ENTRE OS TRÊS FOI ACIRRADA: POEMAS, CONSOANTES E MALEMOLÊNCIA. MAS AQUELE HOMEM MERECIA MAIS...

ENFIM UMA ATITUDE DE HOMEM

OS UT OS OD AD PR TEST AIS M I O NÃ M AN E

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TABARÉ

Vende-se um pedaço de mar [Luísa Hervé]

TABARÉ #7  

Sétima Edição do Jornal Tabaré

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