Issuu on Google+

si hay gobierno, soy jornal porto alegre fevereiro 2012

#10

AS IDEIAS PULSANTES DE

EMIR SADER

boa aventura • pinheirinho sandinista • trabalho de campo


TABARÉ

A

nos 90, década das privatizações e do apogeu do neoliberalismo. A derrocada da União Soviética e a ascensão do imperialismo estadunidense colocavam a globalização como única alternativa plausível. Frente aos novos desafios, a esquerda se reestruturava; Chiapas e Seattle figuravam no centro da cena contra-hegêmonica, mas os focos de resistência disseminavam-se lentamente. À meia luz de um café enfumaçado em Paris, os que seriam os “pais” do Fórum - Bernard Cassen, Candido Grzybowski, Chico Whitaker e Oded Grajew - pensavam um evento que agregasse essa série de lutas pulverizadas e que definisse estratégias de organização política. Esse encontro teria culminado no Fórum Social Mundial de 2001, um evento formado por oito entidades brasileiras - Abong, Attac, CBJP, Cives, CUT, Ibase, MST e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e estruturado conforme o modelo conferencista de representação. Para sediar a grande festa da esquerda, a cidade escolhida foi a descolada Porto Alegre que há anos inovava com a experiência de democracia de ‘alta intensidade’ do orçamento participativo petista. Onze anos depois, o Fórum, agora fragmentado, retorna à sua cidade de origem em um conturbado contexto sócio-político, uma crise econômica e social que impede a cedência de novos direitos ao mesmo tempo em que retira muitos dos já conquistados. Um momento em que não se tolera mais a convivência pacífica entre justiça social e o individualismo monetário capitalista. O cabo de guerra vai estourando e o neoliberalismo esgotando as matérias primas e os recursos humanos. Parte daqueles que se propunham a realizar reformas por dentro do establishment ruiu

Marcha realizada no Forum Social Mundial de 2005 em Porto Alegre. Foto: Gabriel Jacobsen

e entrou na mesma massa hegemônica, provocando uma descrença no sistema partidário e a busca por novas possibilidades. Os movimentos que surgem pelo mundo, com a devida particularidade de contextos distintos, soam como um grito de basta; negam os vícios da democracia representativa, usam máscaras e renegam os púlpitos, ocupam a rua, “único espaço não colonizado pelo capital financeiro”, como disse o sociólogo Boaventura, figura marcante do FST. No entanto, o Fórum não dialoga com as novas exigências dessa esfera pública porque a esquerda partidária tradicional insiste em coordenar os rumos da discussão sobre as estratégias de ação contra o capital. Com uma programação descentralizada, a presença maçante de figuras da política tradicional e discussões pouco propositivas, o Fórum Social

Temático 2012 pareceu um rótulo encobrindo um conteúdo esvaziado. O evento não deu conta de acolher a diversidade política pela qual a contemporaneidade clama e tampouco os anseios das novas possibilidades de reorganização do poder. O debate permaneceu aquém do esperado, não avançou para questionar efetivamente as estruturas do poder e propor ações que façam a diferença prática no embate cotidiano. O que resta desse momento em que a cidade emerge em debates é a constatação da necessidade de reestruturação e articulação das reivindicações sociais. O que nos mostram os movimentos que eclodem no mundo inteiro é a urgência de uma nova forma de organização política. Debater os rumos da esquerda em um evento organizado pela sua versão cada vez mais adepta da cartilha mercantil parece ter sido a grande falha desse encontro festivo.

Ariel Fagundes, Chico Guazzelli, Dani Botelho, Felipe Martini, Gabriel Jacobsen, Guilherme Dal Sasso, Iván Marrom, Jessica Dachs, Júlia Schwarz, Juliana Loureiro, Leandro Hein Rodrigues, Luísa Hervé, Luísa Santos, Luna Mendes, Maíra Oliveira, Matheus Chaparini, Marcus Pereira, Martino Piccinini, Natascha Castro Projeto Gráfico: Martino Piccinini • Diagramação: Luísa Hervé Capa: Jéssica Albuquerque [www.flavors.me/jessicaalbuquerque] Colaboradores: Jéssica Albuquerque, Jorge Loureiro, Mariana Poppovic Tiragem: 2 mil exemplares Contatos: comercial@tabare.net tabare@tabare.net facebook.com/jtabare @jornaltabare Distribuição: Palavraria • Ocidente • Tutti Giorni • Casa de Cultura Mario Quintana Comitê Latino-americano • Instituto NT • Nova Olaria

tabare.net


R$ 2,85 é roubo! Sim, subiu de novo. Desde o dia 6 de fevereiro, a passagem de ônibus de Porto Alegre custa duas vírgula oitenta cinco sutis e dolorosas facadas no bolso do passageiro. Dessa vez, o aumento foi de 5,55% - um pouco menor do que os dos últimos três anos. É a tal da inflação: aumenta o combustível, a manutenção dos coletivos, os pneus... Logo, a passagem tem que subir. A merda é que sobe aqui, sobe ali e teu salário fica pequeno perto de tanto aumento. Diz que tem gente pulando roleta por aí. Com chave de ouro A despedida de Rita Lee foi digna de uma grande estrela do Roquenrou: do palco pro xilindró. A cantora enfrentou a Polícia Militar via microfone durante o último show da sua carreira, no Festival Verão Sergipe. O incidente teria começado com a agressão de policiais a membros de um fã-clube. Rita sugeriu que os meganhas fumassem um e ficassem de boa, mas se exaltou quando eles formaram um cordão de isolamento em frente ao palco. Além de comparar os porco com diversos outros quadrúpedes, xingou suas digníssimas mamães e acabou enquadrada por desacato. Sopa de osso O Congresso dos Estados Unidos voltou atrás na votação dos dois projetos de lei relativos à circulação de informação na internet. O projeto Stop Online Piracy Act (ato para parar a pirataria virtual, em livre tradução tupiniquim), que ficou conhecido como SOPA, está na Câmara dos Representantes e prevê cadeia por compartilhamento de material pirateado; o Protect Intellectual Property Act (Ato de proteção da propriedade intelectual, no mesmo tradutor), vulgo PIPA, é um projeto semelhante, proposto no Senado pelo democrata Patrick Leahy. A indústria fonográfica gostou,

CARTAS @tabare.net

mas as grandes empresas virtuais protestaram, a Casa Branca repudiou e o Congresso acabou adiando a votação do PIPA. Com isso, o deputado republicano Lamar Smith, autor do SOPA, decidiu retirá-lo da pauta, mas pretende retomar a discussão em outro momento. Em tempo Não é mol! Já dizia meu tio: quer moleza, come sopa de minhoca. Óleo que não bronzeia O maior vazamento da história recente do estado chegou até as areias de Tramandaí e Imbé, matando animais e engraxando alguns banhistas que ignoraram a advertência das placas. O petróleo vazou a 6 km da praia, durante uma manobra de descarregamento de um navio da Transpetro, subsidiária da Petrobras. A empresa estimou em 1,2 mil litros o volume do vazamento, número questionado pelo Ibama e ridicularizado pela Polícia Federal, que calcula cerca de 20 mil litros. Manchas de petróleo foram vistas em outras praias do Litoral Norte, como Capão da Canoa e Atlântida. E ainda tem gente que reclama do tradicional chocolatão do mar gaúcho. Em tempo Desde 2003, a Transpetro é presidida pelo exsenador Sérgio Machado (PMDB), indicado pelo ilustríssimo Renan Calheiros. E de vazamento

Já dei vários toques. Quem ainda não sacou o Tabaré, não tá com nada. Estou falando de Jornalismo! Wladymir Ungaretti, impuro Quem ainda não sacou o jornalismo não tá com nada. Estamos falando de Vida! Ejemplares de Tabaré fueron distribuidos por Argentina, Paraguay, Bolivia y Perú. Zé Estrada, clandestino Opa, valeu! E mandar pra nós umas coisitcha daí, tem como?

No Brasil vários jornais alternativos denunciam a forma como são aprovados estes transgênicos e a necessidade de mais estudos antes de sua liberação. Um deles é o Tabaré de Porto Alegre, que fez uma reportagem sobre a liberação do feijão transgênico, que em breve vamos estar comendo. Recomendo a leitura. José Maria Gusman Ferraz, biólogo Gracias! Matéria velha ainda rende um caldo. Revira as gaveta ou confere a #7 no saite.

fevereiro/ 2012 #10

Mariana Poppovic [www.flickr.com/maripoppovic]

ele entende, vide problemas com o Tribunal de Contas da União por irregularidades em processo licitatório e até contrato sem licitação em 2005. O bom filho à casa torna Vinte e um presos fugiram do complexo policial do bairro de Barris, em Salvador, BA. Para dois deles, a liberdade durou muito pouco. Ao chegarem em casa, foram convencidos pelas famílias a desistirem da fuga, e foram devolvidos na delegacia. Em novembro passado, 82 presos fugiram deste mesmo complexo. Em tempo Do jeito que a cousa anda, a superlotação não deve ser problema em Barris.

Como Tabaré com café sem açúcar e com afeto de manhã cedinho no bule bulindo.

feito faca, corte a carne de vocês. Fred, vendedor de coco. Tá bem acompanhado, hein!?

No centro da sala, diante da mesa, minha mãe me chama: há um novo Tabaré!

Vesti minha camisa do Tabaré e saí para trabalhar, parei na Osvaldo para pegar o meu guarda-chuva do conserto e, pasmem, uma menina linda chamada Dani me parou para entregar o Tabaré #9. Ganhei o dia. Valeu, Tabaré! Cadinho Andrade, galanteador Sempre bom, né?

A gente se olha, se toca e se cala E se desentende no instante em que fala. Quero é que essa carta torta,

3


Guitarra armada por Natascha Castro foto: Júlia Schwarz

“ O homem que não é capaz de sonhar é um pobre diabo, um eunuco; o homem que é capaz de sonhar e transformar seus sonhos em realidade é um revolucionário; o homem que não é capaz de amar é um animal, é um primata; o homem que é capaz de amar e fazer do amor um instrumento de transformação é também um revolucionário. Um revolucionário, portanto, é um sonhador, é um amante, é um poeta, porque não se pode ser revolucionário sem lágrimas nos olhos, sem ternura nas mãos. Os poetas de hoje, os verdadeiros poetas de hoje, são os que desenham o amanhã; os artistas estão construindo com palavras, com argila, com aquarelas, as maquetes que vão servir de base à sociedade do futuro.” Tomás Borge, um dos Comandantes da Revolução Sandinista.

E

xiste entre a América do Norte e a América do Sul uma extensão de terras povoadas e divididas entre países que a mídia insiste em esquecer e os estadunidenses insistem em chamar de “México”. O maior destes países foi palco da rebelião que emocionou a última geração de sonhadores da América: a Revolução Sandinista, de 1979 a 1990. Da Nicarágua ecoaram vozes em canções e poemas que contagiaram a desiludida esquerda. Uma das mais importantes vozes dessa revolução, o músico Luis Enrique Mejía Godoy participou do projeto MusicAmérica, da Associação Cultural José Martí, que trouxe para o Fórum Social Temático 2012 diversos cantores latinoamericanos. O cantor e compositor, nascido em 1945, contou a história da Nicarágua, resgatando herois forçosamente esquecidos e relatando a realidade da população. Junto com seu irmão Carlos, criou canções como “Nicaragua, nicaraguita”, transformadas em hinos de amor à pátria que motivaram os guerrilheiros por todo o país. Com o triunfo da Frente Sandinista de Libertação Nacional, Luis Enrique passou a trabalhar no Ministério da Cultura, dedicando

sua capacidade criativa à construção de um país democrático e verdadeiramente nicaraguense. A GUERRILHA DA FRENTE SANDINISTA Em 1927, Augusto César Sandino liderou um exército, conhecido como o “pequeno exército de loucos” (apenas 30 homens), que lutou contra a presença militar dos Estados Unidos na Nicarágua. Sandino foi assassinado em 1934 por ordens do general Anastasio Somoza García, que dois anos mais tarde formou a ditadura hereditária da família Somoza. Eles estiveram no poder com auxílio do Estado norte-americano até 1979, quando a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) tomou o poder resgatando os ideais de Sandino. A guerrilha encabeçada pela FSLN se estendeu por mais de vinte anos, combatendo das montanhas até chegar aos centros urbanos. O apoio popular era massivo e provinha de todas as classes sociais. Os ideais libertários e anti-imperialistas uniam cada vez mais guerrilheiros e, em 19 de julho de 1979, o movimento tomou a capital Manágua, expulsando o último Somoza a ocupar a presidência do país. A partir daquele momento a imprensa mundial passou a olhar para a “nova Cuba”. E a repressão

tabare.net

não demorou a endurecer. Com o apoio militar dos imperialistas do norte, um exército contrário à revolução foi armado e treinado na fronteira com Honduras. Além do financiamento dos “contras”, os estadunidenses estabeleceram um bloqueio econômico, dificultando qualquer tentativa de reconstruir o país devastado pela guerra e pelo terremoto de 72. Mas, ao contrário do que muitos supunham, aquela não era uma “nova Cuba”. Mesmo tendo como inspiração a Revolução Cubana e outras revoltas anti-imperialistas, o governo Sandinista se mostrou ideologicamente independente e engajado em reestruturar um sistema democrático. Era uma situação única, apoiada pela solidariedade internacional e desencadeada pelo empenho dos guerrilheiros que morreram combatendo por uma Nicarágua Livre. A FSLN transformou a guerrilha em um processo de reconstrução nacional, trabalhando até 1990. Esse processo era classificado pelos olheiros estrangeiros como singular, utópico, original e apaixonante. Estava fortemente sustentado pela atividade cultural e envolvia todos os setores da sociedade (trabalhadores da terra, homens e mulheres, indígenas, representantes da igreja católica, etc).


Um país de poetas - Nós não contamos a história, nós a cantamos. Contamos cantando. A história da Nicarágua é conhecida pelas nossas canções. Não só nossas, dos Mejía Godoy, mas também das canções que herdamos, anônimas, que se criaram durante a luta guerrilheira do general Sandino, de quando nasce a Frente nas montanhas e se transforma em guerrilha. Digo isto e parece que foram cinquenta anos, mas não. Foram vinte anos. Essa luta cresceu assim. E nossas canções nasceram de forma espontânea e humilde. Primeiro falando dos camponeses e das tradições até começar a falar pela primeira vez a palavra “guerrilheiro”. Essa palavra não existia na Nicarágua - relembra Mejía Godoy. A Nicarágua é um país de poetas. A poesia foi uma das armas da revolução, assim como a música. Tudo girava em torno da cultura. “Algumas pessoas falam da revolução como algo político. E na verdade a revolução é fundamentalmente um feito cultural, sóciocultural, sócio-cultural-político-ideológico”. E um dos maiores expoentes da música revolucionária, que cantou a revolução e trabalhou na criação do Ministério da Cultura, foi Luis Enrique Mejía Godoy. De uma família de músicos do povo, da cidade de Somoto - fronteira com Honduras - nasceram as primeiras influências de Luis Enrique e de Carlos, seu irmão e companheiro de profissão. Principalmente, das culturas maia, europeia, camponesa e sacra. Com a chegada do rádio, ele passou a conhecer outras canções vindas do México e da Argentina. O tango, a milonga, a valsa crioula. Como estudante interno de uma escola católica, ele aprendeu muito sobre a repressão, a disciplina e o castigo. O desconforto dessa situação e a aproximação com a cultura estrangeira foram os fatores que aproximaram Luis Enrique da história escondida da Nicarágua. - Gardel não cantou só as músicas famosas, existem tangos que foram proibidos, como “Cambalache”. Fomos entendendo que existia outra história, do proibido, do negado. Quem era Sandino? Quem era? Ninguém falava dele, meus pais nunca falaram dele. Eu fiquei sabendo dele por um argentino, Gregório Selzer, que fez um livro sobre Sandino. E minhas canções sobre ele nasceram dessa leitura, dos poemas de Ernesto Cardenal e dos escritos de Sergio Ramírez. Mas por quê? Onde eu li isso? Na Costa Rica, no exílio. O músico viveu no exílio até 1979 e, de fora, manteve seu comprometimento com a música revolucionária. - Dizem que Carlos Fonseca (um dos fundadores e grandes líderes da FSLN) disse alguma vez sentir uma grande vergonha porque não existia música revolucionária na Nicarágua. Isso nos anos 70. Por isso, quando contamos como nasceu nossa canção, dizemos que foi mais do que por consciência, nasceu por vergonha. Nossa canção nasce por vergonha, não por consciência. Vergonha de que nada era denunciado.

Não temos nada contra a canção tradicional, folclórica, de amor. Ela faz parte de nosso trabalho. Nós tomamos o caminho da canção regional, que fala do espírito nicaraguense. São patrióticas, canções que amam. Os Mejía Godoy provaram que é possível contribuir muito para a luta, para os processos de transformações com a arte, com a cultura. Nenhum deles foi guerrilheiro, jamais carregaram pistolas, mas foram capazes de incentivar as massas. De gravar um disco chamado “Guitarra Armada”, no qual ensinavam cantando a maneira correta de cuidar e usar as armas, como desarmar um FAL (Fuzil Automático Leve) ou preparar explosivos caseiros. Seu trabalho após regressar do exílio, com o triunfo da Frente, passou a ser na criação do Ministério da Cultura, chefiado pelo padre e poeta Ernesto Cardenal. - Em 1979, um bando de jovens que desceu das montanhas, barbudos, cansados, cheios de loucura, de esperanças, de utopias, com uma ditadura derrotada, se perguntava que governo iria fazer. Tivemos que recorrer a essa capacidade criativa para formar um governo, porque ninguém sabia exatamente como fazer ou o quê fazer. Tivemos ajuda de diferentes países para desenhar uma polícia, um exército, um Ministério de Finanças, um Banco Central, uma moeda. Era terrível, complicado, complexo. Mas nos ocorreu também que deveríamos ter um Ministério da Cultura. E como se faz um Ministério da Cultura? O que faz um Ministério da Cultura? Cardenal foi escolhido para ministro e encheu o lugar de artistas. Poetas, escritores, intelectuais, músicos, bailarinos, atores, circenses. Um grupo enorme de loucos foi fazer o Ministério da Cultura. Ninguém tinha experiência, eu fui parar no Departamento de Música. E o que eu iria fazer naquele departamento? Sou um criador, não sou administrador de nada. E afinal, o que era a política cultural? As políticas culturais nunca são boas, porque as políticas são

Uma canção não muda a história, uma canção move, convoca

coisas que se impõem como pequenas camisas de força, limitadas. Administrar a cultura? É possível administrar os horários para fazer determinado tipo de coisa, organizar um concurso, um festival. Mas administrar os trabalhadores da cultura é muito difícil, ainda mais os poetas, os músicos, os escritores. Podemos administrar um antropólogo, um sociólogo, um jornalista cultural, um comunicador, etc. Mas mesmo assim tentamos fazer, e se fez. Foram diversas as iniciativas do Ministério da Cultura: o trabalho de valorização das culturas indígenas negligenciadas por anos, a ofensiva contra o machismo, as cruzadas pela alfabetização, a valorização do camponês e dos produtos nacionais. E principalmente a tentativa de levar as informações e as ferramentas necessárias para que toda população conhecesse sua história e pudesse assim defendê-la. - Existe uma pergunta, um clichê do jornalismo que é “tua música mudou o mundo?”. Minhas músicas não mudaram nada. Elas me mudaram. Uma canção não muda a história, uma canção move, convoca. Não há arte nem cultura sem loucura. As utopias são loucuras, são coisas impensáveis, inalcançáveis, que acreditamos poder alcançar. E por isso Galeano disse que quando estamos alcançando a utopia ela se afasta mais ainda. O que acontece com a Nicarágua de hoje? Precisamos deixar claro: as utopias estão intactas, novinhas. Então o que parece ter sido a derrota de um povo - não falo da derrota da Frente Sandinista, porque essa é uma derrota concreta - não foi, porque a utopia continua lá. Eu a estou vendo. E agora digo aos meus netos: ali está a utopia, é preciso perseguila. O que é? A esperança. Paulo Freire dizia: “povo que não tem esperança é um povo escravo”. E nós não somos um povo escravo. Estamos mal, somos o segundo país mais pobre da América Central, mas somos um povo milionário em nobreza, em cultura, em esforço e em esperança. Tenho 66 anos, ainda assim considero que posso lutar muito. Mas são os jovens que têm a palavra, os jovens que devem fazer a mudança. Eles devem voltar a ter sonhos.

OS UT OS OD AD PR TEST AIS IM O NÃ M AN E

Shopping Iguatemi ● Av. João Wallig, 1800, 2º piso, loja 2244 Tel: (51) 3273-1294 mahogany.iguatemipoa@mahogany.com.br

Recortes do jornal Barricada Internacional, de 1983 a 1985, lançado pela Frente Sandinista de Libertação Nacional.

fevereiro/ 2012 #10

5


o brasil de emir por Chico Guazzelli, Gabriel Jacobsen e Guilherme Dal Sasso fotos: Gabriel Jacobsen

D

igam, muchachos, que querem que eu fale? Assim começou a entrevista com Emir Sader, que em suas respostas percorre a história política recente do Brasil e da América Latina. Cientista político e filósofo, encarna a figura do intelectual militante que, segundo o próprio, faz falta no Brasil. Professor aposentado pela USP e coordenador geral do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, Emir é um dos organizadores do Fórum Social Mundial. Além disso, é editor e principal blogueiro do site Carta Maior, o autointitulado “portal da esquerda”, no qual se faz “um pouco de guerrilha de imprensa alternativa”, segundo ele mesmo. O site foi idealizado no Fórum Social Mundial de 2001 para difundir informações e reflexões políticas. Onze anos depois, conversamos com Emir neste Fórum Social Temático - que pouco lembrou os fóruns propositivos e vibrantes da década passada. No entanto, as preocupações são as mesmas: política, miséria, crise econômica, revolução. Alternativas. Rumos. Reflexões. Em meio a estes problemas que tanto provocam cenhos franzidos, Emir estampa um sorriso otimista ao se despedir. Questionado se tem esperança, nos profere sua convicção em meio a um mundo de abundantes incertezas: - A América Latina dá esperanças.

Focando no atual processo que a América Latina está vivendo e no papel do Brasil neste contexto, qual a importância do governo Lula na história recente do país e também nessa guinada anti-neoliberal da América Latina? Só isso? (risos) A América Latina foi a vítima privilegiada do neoliberalismo. A virada regressiva do mundo significou sair de um mundo bipolar para chegar num mundo unipolar sob a hegemonia imperial norteamericana, que é pesadíssima. Saímos de um ciclo longo expansivo da economia capitalista, do segundo pós-guerra até os anos 70, para um ciclo longo recessivo. E saímos de um modelo de bem-estar social, regulador, keynesiano, para um modelo liberal de mercado. A América Latina sofreu isso de três formas diferentes. Primeiro, com a crise da dívida. A ascensão do neoliberalismo terminou com o ciclo mais longo de crescimento econômico do continente, que começou com a reação à crise de 29. Mesmo com diferentes tipos de governo, o desenvolvimento era o objetivo colocado ali. Elitista ou não, excludente ou não, com distribuição de renda ou não. Depois deste ciclo, o objetivo passou a ser estabilidade monetária, pagamento das dívidas. Isso achatou todos os países de maneira praticamente igual. Segundo, as ditaduras militares em alguns dos países mais importantes do continente quebraram a capacidade de resistência do campo popular. Brasil,

tabare.net

Argentina, Chile e Uruguai são os casos mais típicos. Em terceiro lugar, a América Latina foi a região que teve mais governos neoliberais nas modalidades mais radicais. O que é desarticular o Estado social chileno? É uma brutalidade. Era um dos países menos desiguais do continente e hoje até a previdência é privatizada. Desarticular o poderio econômico do Estado argentino? A Argentina era autossuficiente em petróleo muito antes do Brasil com sua empresa estatal. O Menem [expresidente da Argentina] privatizou-a em uma semana e hoje eles ficam todo inverno correndo atrás da Repsol, do gás brasileiro, do da Bolívia, etc. Então foram regressões muito fortes, a década de 90 foi o paraíso neoliberal. Justamente por isso houve essa reação muito forte. A América Latina tem essa capacidade surpreendente de se recuperar de golpes muito duros. E aí, com a eleição do Hugo Chávez, depois com o Lula e outros, ela mudou radicalmente sua cara para ser a única região do mundo que tem governos anti-neoliberais e que tem processos de integração regional mais ou menos autônomos em relação aos Estados Unidos. Não é por acaso que é a região que está melhor resistindo à crise internacional. O que têm em comum esses governos? Prioridade nas políticas sociais e não de ajuste fiscal; prioridade na integração regional e não de tratados de livre-comércio com os Estados Unidos; o Estado voltou a ser indutor do crescimento econômico


e garantidor de direitos sociais, e não um Estado mínimo que liberava tudo para o mercado. Então, tanto moderados quanto radicais têm em comum esses elementos. Isso é o que marca a América Latina hoje, na homogeneidade relativa que ela tem. O Brasil faz parte desse modelo com o governo Lula e o governo Dilma. Na história brasileira, o grande trauma é ser o país mais desigual do continente mais desigual do mundo. É o que tinha: a economia crescia ou retrocedia, mas não mudava a desigualdade. Tinha ditadura e democracia e não mudava. Então a principal razão que faz o governo Lula ser progressista, positivo, é ter diminuído a desigualdade no Brasil, fora fazer da política externa um tema importante para o brasileiro, fazer perceber que nossa irmandade é latino-americana, nosso intercâmbio é com o sul do mundo e é uma das razões também pela qual o Brasil resiste à crise. Claramente o centro capitalista está em recessão e nós não estamos, continuamos a crescer. Mas o nosso desenvolvimentismo vem acentuando uma contradição com questões ambientais, indígenas, quilombolas... Quem não desenvolve a economia não tem conflito com a natureza, deixa estagnação total. Belo Monte, eu não sou técnico no assunto, é energia limpa. A alternativa a isto é energia nuclear, petróleo ou apagão. Que vai deslocar população indígena, vai. O que tem que ter são as contrapartidas do governo. Certas visões preservacionistas são animistas, dão à natureza um valor que efetivamente ela não tem. Ela não é boa nem má. Tem que resolver isso em cada caso concreto, mas não existe uma grande solução teórica, sobretudo para países que precisam crescer. Como diz o vice-presidente da Bolívia, na miséria não há emancipação. Uma coisa

é equilíbrio ambiental, outra coisa é preservacionismo. O homem não vai mais transformar a natureza para satisfazer suas necessidades? Todos fazem. Sobre a crise econômica, o quanto ela forçou o debate sobre o papel do Estado na economia? A crise é um momento de irracionalidade particular do capitalismo. Tem casas a mais que as pessoas não podem comprar e, ao invés de você dar crédito para elas comprarem, você cobra as hipotecas. As pessoas entregam porque não podem pagar, então sobram casas. Na Espanha, toda semana sai o que eles chamam de “ranking tijolo”: quantos apartamentos de volta cada banco tem. E estão com mais de 20% de desemprego oficial, fora os trabalhadores não registrados. Aí fica mais claro o esgotamento de um modelo. Em 2008, quando começou a crise, várias empresas do sistema financeiro quebraram e os governos salvaram os bancos achando que os bancos iriam salvar os países. Eles salvaram a si mesmos, e agora, ao invés de quebrar o Lehman Brothers, quebram o país. É uma crise estrutural do capitalismo. Ele tem uma capacidade de produção extraordinária e não distribui renda para esse consumo. Ciclicamente há esse desequilíbrio: superprodução e subconsumo. O mercado não se regenera pela mão invisível do equilíbrio mágico entre produção e consumo. Tu dizes que os governos da América Latina vêm apresentando uma proposta alternativa ao neoliberalismo. É possível vislumbrar um horizonte pós-capitalista nesse processo? Conseguimos vislumbrar o pós-neoliberalismo. O drama maior do nosso tempo é que o capitalismo mostra seus limites, suas contradições, seu

fevereiro/ 2012 #10

esgotamento, mas os fatores anti-capitalistas, os chamados fatores subjetivos do socialismo, também tiveram um retrocesso brutal. Fim da URSS, desmoralização do socialismo, do mundo do trabalho, da política, das soluções coletivas, dos partidos. Então, até recompor os sujeitos que possam construir uma alternativa ao capitalismo, passa um tempo mais ou menos longo. Essa crise é brutal e não tem grandes manifestações à altura do sofrimento e do desemprego das pessoas. Houve um retrocesso também na capacidade de resistência, até porque as sociedades estão muito fragmentadas. Antes a coisa era mais homogênea, o movimento sindical agrupava a maioria das pessoas. Estamos em um período de turbulência grande, decadência do capitalismo sem ter alternativa, decadência da hegemonia americana sem um bloco alternativo. Hegemonia que se enfraquece, mas continua vigente. Voltando para os governos do PT, a proximidade entre partido e movimentos sociais não enfraqueceu estes últimos? Eu acho que é um efeito indireto, não necessariamente desejado. Se a gente for pensar em décadas passadas, a pessoa provavelmente aguentaria mais tempo em um acampamento na beira da estrada, vivendo em condições muito precárias, porque não tinha outra alternativa. Hoje ela pode ter emprego até no agronegócio ou Bolsa Família. As formas de luta anteriores podem não corresponder às formas de luta de hoje. A gente viu ontem [26 de janeiro, em evento do Fórum Social Temático] um momento extraordinário: o João Pedro [Stédile, dirigente do MST] tomar a palavra e interpelar a Dilma, que tratou de responder. É importante uma coisa dessas.

7


Antes era assim: terra desocupada, trabalhadores sem terra ocupam e produzem. Agora, essa terra está ocupada em grande parte pelo agronegócio. Muda a forma de luta. As cooperativas avançaram muito, bem como a economia familiar. Avançou pouco a desapropriação. Claro que se as condições são mais miseráveis e não tem emprego, a combatividade é maior. Não há razões para uma greve geral no Brasil. Os movimentos sociais têm interlocução, até conseguem mais conquistas para a massa da população do que antes. Países como Argentina, Uruguai e Bolívia vêm avançando em temas polêmicos como política de drogas, aborto, democratização da mídia e comissões de justiça e verdade. No Brasil, o projeto do governo é fundado mais no consenso que no enfrentamento. Tu achas que isso prejudica o avanço nessas questões? O estilo do Lula é de avançar no espaço de menor resistência. Quando tem enfrentamento, recua, negocia, procura melhores condições. Tem três temas importantes que eu considero que são enfrentados de maneira muito gradual. Primeiro, o papel do capital financeiro, o monopólio do dinheiro na mão dos bancos. Gradualmente está se diminuindo a taxa de juros, mas muito gradualmente. A promessa de Dilma é chegar no fim do governo com 2% de juro real, que é a média mundial. Então não haveria mais essa fração de capital ruim que não produz nem empregos e nem bens. Segundo, o agronegócio, o monopólio da terra, é um problema pendente. A democratização do acesso à terra tem que avançar, mas não sei se tão rápido como a demanda chinesa de soja, pois nenhum país no mundo deixa de vender um produto desses para um mercado consumidor que vai continuar a comer loucamente. Em terceiro, tem a ditadura da palavra, o monopólio da palavra na mão da mídia privada que o governo não está enfrentando. O marco regulatório seria democratizar o acesso aos meios de comunicação. O projeto original foi muito abrandado e o compromisso do Paulo Bernardo [ministro das Comunicações] era mandar até o fim de 2011 para o Congresso. E não mandou. Já é muito difícil ter um Congresso eleito sem financiamento público, com a presença das corporações e lobbies privados. Sem o financiamento público não há democratização da representação parlamentar. Tem no congresso uma bancada ruralista enorme, e dois ou três representantes dos trabalhadores rurais. Congresso não é retrato da sociedade. Pelo contrário, parece que todo mundo no campo é ruralista e não tem trabalhador rural.

Concordas com a avaliação de que o Governo Lula teve uma forte aprovação, mas o PT teve um abalo na sua imagem? Acho que o PT teve um decréscimo, uma reversão na sua imagem, e depois subiu. Não ao ritmo que cresce o governo, mas de qualquer maneira o principal problema é uma certa intranscendência do partido, quer dizer, quem define as políticas acaba sendo o governo, sem um intercâmbio muito fluido com o partido. O que chamam de lulismo é muito maior do que o PT, até porque as bases tradicionais do PT talvez tenham diminuído relativamente. O apoio social do governo é de setores que o PT não chega até agora. Os setores beneficiados pelo Bolsa Família, população do nordeste, são mobilizados pelo governo sem necessariamente votarem no PT. Como tu avalias a ausência de uma Lei de Imprensa no país? A direita partidária está derrotada, a direita midiática não. É claramente a voz opositora ao governo. A Dilma diz que o seu grande projeto do ano é o Brasil sem Miséria e a imprensa não deu a mínima bola. A imprensa privada é o filtro entre o governo e a cidadania. Não haverá democracia enquanto a formação da opinião pública não for pluralista e democrática. Então esse é um elemento que faz falta no Brasil. Na imprensa alternativa, a gente faz um pouco de guerrilha, mas o exército regular é o deles, que ocupa permanentemente e dá pautas. A pauta desse ano qual foi? Foram os ministros com denúncia de corrupção. Não é o tema central do Brasil. O tema central é como manter o crescimento econômico e as políticas sociais com uma recessão internacional que afeta a massa da população. Mas a imprensa não é financiada pelos leitores, é financiada pelas agências de publicidade. A imprensa tem que ser uma coisa de caráter público.

O estilo do Lula é de avançar no espaço de menor resistência

Os congressistas são mais conservadores do que a sociedade? Por exemplo, a justiça decidiu o casamento de homossexuais. Se fosse no Congresso, “ah, o que a Igreja vai achar?”. Porra nenhuma! A sociedade recebeu super bem, naturalmente. Então tem uma representação muito deformada da sociedade no Congresso, isso dificulta o avanço da sociedade, porque os caras se deixam influenciar ou pelos interesses econômicos diretos, ou por lobbies da própria imprensa. A esquerda poderia ter maioria no Congresso se essa representação fosse mais democratizada pelos financiamentos públicos.

Dentro disso, como é que tu viste na última eleição a posição do Estadão, de assumir o voto para o Serra? Foi um avanço, porque é explicitar o que todo mundo sabe. O mais importante foi a Judith Brito [presidente da Associação Nacional de Jornais] confessar que eles são partido de oposição. Não tem porque tratá-los como o quarto poder, como a Dilma trata. O Obama falou para a Fox: “vocês são um partido, vão ser tratados como um partido”. Mas é importante confessar que nos Estados Unidos têm isso: o órgão de imprensa diz: “estou com tal candidato”. Os outros, ao não dizerem, é que tentam dar a impressão de objetividade. É importante confessar a decisão política. A Carta Capital falou que estava com a Dilma. O Estadão falou que estava com o Serra. O Globo não fala, a Folha não fala. É um cinismo.

pouco isso, não é a revolução dos seus sonhos então bolas para ela, não é nada, é traição. Ainda há outros setores que foram influenciados pelo neoliberalismo. As primeiras gerações marxistas eram dirigentes e intelectuais revolucionários. Quando teve uma quebra disso, especialmente com a stalinização dos partidos comunistas, não dava para ter reflexão teórica criativa nos partidos. Houve uma dissociação, o intelectual se refugiou na universidade e a prática política ficou sem teorização. Então a prática tendeu a se adaptar aos sistemas vigentes, deixar de ter uma reflexão estratégica, deixou de ser lugar de elaboração teórica. Mas tem avanços: o Álvaro García Linera é o mais importante intelectual latino-americano e é vice-presidente da Bolívia; o Rafael Correa é um sociólogo importante. O PT infelizmente não é um lugar de elaboração teórica. Precisaria ser. Os partidos deveriam ser, mas não são. A criação do PSD não é um indício de que a direita brasileira vai se infiltrando na base aliada? A direita partidária, que reflete interesses concretos, se deu conta que vai ter PT no governo por muito tempo. Eles preferem estar influenciando dentro da base aliada - temos o código florestal como exemplo - do que fazer uma oposição feroz de fora, sem capacidade de influenciar. Então, na verdade, o PSD significa redefinir relação, procurar uma maneira mais maleável de se relacionar, defender os seus interesses dentro de um governo que é receptivo. Parece que boa parte da profusão das ideias do neoliberalismo está no âmbito cultural. Como se proteger desse colonialismo cultural? De fato, o elemento mais forte da hegemonia capitalista imperialista no mundo é o chamado “modo de vida americano”. Eles perderam influência política, ideológica, economicamente são menos fortes do que antes, então o elemento mais forte deles é o “modo de vida americano”. Os evangélicos não são alternativos, os islâmicos não são alternativos e o próprio Fórum Social Mundial não criou alternativa para disputar a cabeça dos jovens. A China é uma civilização que nunca tinha sido influenciada ideologicamente por nenhuma outra. A Inglaterra, quando invadiu para levar o consumo do ópio, que é a grande contribuição ocidental à civilização chinesa (risos), saiu, não tinha nem influência nem base para continuar lá. E, no entanto, agora há um estilo de consumo ocidental. As indústrias são privatizadas, mas o sistema bancário é do governo, comunicação é do governo, energia é do governo. Vamos discutir no que vai dar isso, mas em suma, demonstra a força do sistema de vida americano.

O PT infelizmente não é um lugar de elaboração teórica

Como tu vês o engajamento da classe intelectual brasileira? O consenso em relação ao governo Lula é o que chamo de consenso passivo. Consultado, prefere. Consenso ativo é aquele que te mobiliza, vai pra rua. Este é um governo muito consensual, salvo para quem tem um clichê ideológico brutal ou interesses criados que são afetados. A intelectualidade, na sua prática, não está contribuindo muito com o processo ou está seduzida pela outra esquerda, fica com a teoria e dá as costas para a realidade. E a outra esquerda é um

tabare.net

E é impossível se proteger disso? Tem que ter outros valores, mas os pobres das nossas periferias querem consumir marcas estilo shopping center. Isso, em termos gramscianos, significa hege-mo-nia. Quer dizer, as tuas vítimas assumem teus valores, o teu adversário importa teu estilo de produção e de consumo. Como fracassou o modelo centralizado de burocracia soviética e não tem outro no pedaço, não se tem valores alternativos. A grande questão no Brasil é: essas classes emergentes, que valores vão incorporar? Não significa que dar acesso ao consumo seja consumismo. Estão tendo acesso a direitos fundamentais que não tinham. Demandas reprimidas. Mas que valores vão assumir? Solidários, humanistas, cooperativistas?


BOAVENTURA por Chico Guazzelli e Luna Mendes fotos: Gabriel Jacobsen

A

quela era sem dúvida a grande figura do Fórum Social Temático 2012. O objetivo era entrevistá-lo e isso não seria fácil. Éramos dois repórteres colocando o pé na porta a disputar “aspas” com as raposas do jornalismo tradicional. A epopéia em torno do sociólogo Boaventura de Sousa Santos iniciou na manhã de uma quarta-feira em Canoas, lá , ainda titubeantes, nos deparamos com aquele senhor de 72 anos cercado por gravadores, câmeras e flashes, com um olhar estrábico que engana quem tenta decifrar o que seus olhos miram. Rearticulando o front de batalha Crítico do sistema capitalista, em suas palestras Boaventura defende a reconstrução da esquerda com o dever de pressionar para construir um Estado forte combinado a uma democracia de alta intensidade. Nas quatro ‘cartas às esquerdas’ que escreveu, ele convoca todos que partilham de um ideal humanitário a construírem um movimento social não-fragmentado. Elas diagnosticam a falência das esquerdas tradicionais frente ao capitalismo vigente, que é incompatível com o exercício pleno da democracia. Para ele, “a luta democrática tem que ser anti-capitalista”. Boaventura proclama àqueles que fizeram do século XX o ‘Século das Esquerdas’ a reagir ao estado acomodado em que os canhotos do mundo se encontram. “A direita tem todo um sistema que pensa por ela, enquanto a esquerda se esqueceu de pensar.” Soberania se faz com um Estado forte O sociólogo afirmou no FST que um Estado fraco fica à mercê das grandes corporações, é conivente com o saque de suas riquezas e se torna um poder entre os demais poderes e não mais o melhor poder. Ao deixar de arrecadar com impostos para arrecadar com a cobrança de crédito, o Estado se sujeita aos capitais internacionais que, por determinarem os valores dos juros e das dívidas, impõem-no a cartilha neoliberal, acabando com a soberania. Boaventura afirma que “a base da democracia foi sequestrada pelo neoliberalismo” e que, pela falta de participação social, a democracia de hoje se assemelha a uma ditadura: “o cotidiano está dominado por forças não-democráticas”. Limpando o sangue do nosso consumo Para Boaventura, o exercício da democracia passa pelo consumo responsável e “isso significa ver que muitos produtos que usamos têm sangue”. Ele apontou para a sistemática desregulamentação do trabalho em um momento que não se distingue mais o trabalho pago do não-pago, porque mesmo o tempo livre está colonizado pelo consumo. Essa estrutura se mantém pautada na comercialização do conhecimento, as empresas determinam o valor de mercado do conhecimento e isso acaba com o pensamento crítico: “não há mais a curiosidade, mas a potencialidade de uma patente”. A fala incansável e a genialidade no encadeamento das ideias reforçaram a necessidade de mais falas. Com

o sangue pulsando e o gravador ligado, questionamos: Qual o papel dos movimentos sociais nesse momento de crise econômica e social do capitalismo? Os movimentos sociais estão postos para um desafio extremamente exigente na medida em que, sobretudo no Brasil, durante um tempo eles pensaram que o Estado poderia resolver os problemas pelos movimentos. Isso ocorria muito no governo Lula. Nota-se que os movimentos continuam a beneficiar-se de algumas políticas públicas, mas eles têm que voltar à luta aguerrida para defender seus interesses. É hora do enfrentamento com o grande capital e com o extrativismo que é o grande modelo neste momento do capitalismo do agronegócio. Os movimentos têm o dever de não desmoronar e de resistir no urbano e no rural. Como tu vês os movimentos sociais e a democracia de alta intensidade hoje? A democracia de alta intensidade tem que existir dentro dos próprios movimentos. É uma democracia que tem que articular a representativa com a direta, e com a participativa. Ou seja, são livre ações populares, é a presença das pessoas na rua porque elas são parte da democracia. É tudo trabalho dos movimentos contra o sexismo, contra o racismo, contra a homofobia que são parte de uma luta democrática de alta intensidade. A interface dos movimentos sociais Quinta-feira fomos de Porto Alegre a São Leopoldo e não havia nenhuma conferência. Boaventura e o folheto da cidade se enganaram e nosso percurso fora em vão. No dia seguinte cumprimos o mesmo trajeto atrás do bem aventurado pensador. O tema era a água e as dificuldades que as sociedades têm para se abastecer dela.

fevereiro/ 2012 #10

Para Boaventura esta questão é polarizadora da política internacional. Como a terra, a água não é democratrizada, dois direitos, duas necessidades de todos. Para ele, a água deve ser a luta agregadora dos movimentos sociais que devem estar munidos para a luta por uma outra cultura da água. Uma nova educação pela água, só a partir dela mudaremos nossa relação com o bem mais importante de nossas vidas. o direito às histórias invisíveis Fim de tarde de sexta-feira e um auditório lotado para a tão esperada mesa sobre memória. Boaventura ressaltou que o direito à memória é fundamental porque reproduz a experiência da vivência já que a memória é intransmissível. Para entendermos o contexto em que se produziu nossa historia é preciso compreender que ela está cheia de histórias invisíveis, porque o poder não se assenta apenas no esquecimento, mas na mentira. O colonialismo habita o que nos é contado. Para romper com isso é preciso descolonizar a história através da subjetividade, e isso só ocorre através dos movimentos sociais. O direito à memória é um direito imprescíncivel por não ter substituição: “assim como a água e a terra, dispor da memória é dispor do nosso futuro”. *** Clima, água, direitos humanos, e esquerda. Esquecemos das horas no trem, da matéria, pensamos em nós, nos outros e fugimos da individualidade de nossas ações pessoais. No final, o que restou da troca de palavras com o português foram discursos, conversas, contatos. Tudo isso por um ídolo que esquece de se fazer idolatrar. O importante não é Boaventura e sim que ele nos faz pensar sobre os caminhos que seguimos. Tortuosos caminhos por onde já passaram indígenas, negros e agora desfilam nossos alvos pós modernos.

9


Proletários da BOLA por Chico Guazzelli e Guilherme Dal Sasso fotos: Júlia Schwarz

F

ortunas por Marcelo Moreno e por D’Alessandro. Centenas de milhões para construir a Arena e reformar o Beira-Rio. O futebol é uma imensa máquina de fazer dinheiro, sobre a qual orbitam holofotes, empresas, mulheres estonteantes, carros luxuosos e fortunas. Essa é a realidade. De cerca de 5% dos jogadores. No mesmo Rio Grande do Sul em que Grêmio e Inter já investiram mais de 20 milhões de reais apenas em 2012, quase metade dos 1500 jogadores profissionais estão desempregados. Onde vemos jogar Kleber, Victor, D’Alessandro e Damião, ficam invisíveis Márcio Ballack, Paulo Henrique, Alê Menezes e outros tantos que, entre o desemprego e empregos temporários, jogam no Sindicato dos Atletas. O Sindicato foi fundado em 1978, e conta com estrutura pequena, sendo composto por doze cargos, entre técnicos e diretivos, estes últimos eleitos em assembleias realizadas pelo próprio Sindicato. Desde 2001, possui um time onde jogadores sem clube enfrentam equipes profissionais, normalmente em início de temporada, nos chamados jogostreinos. Entre dezembro e fevereiro, são realizadas em média 30 dessas partidas, ajudando a manter o preparo físico e o ritmo de jogo dos atletas. Um exemplo é o meio-campista Paulo Henrique, 39 anos, que tem contrato com o Fourway Rangers, de Hong Kong, mas durante as férias vem jogando pelo Sindicato. “Comecei em 87 no Inter, daí em 94 fui pro México, e depois passei por Criciúma, Grêmio, Sport, Guarani, Japão, Uruguai, Colômbia, Equador, China, Costa Rica, Portugal e Hong Kong”. A instabilidade no emprego não é exclusividade de Paulo. Um dos jogadores mais conhecidos atualmente disputando jogos pelo Sindicato é o centroavante Alê Menezes. Em 15 anos, o jogador passou por 20 clubes. Entre eles Santa Cruz, Avenida e Aimoré somente na temporada de 2011. “O Sindicato significa muito para todo atleta profissional. O Miltinho é uma pessoa sempre dedicada aos atletas, e sempre que a gente tá parado, procura bater essa bola com ele”. Milton Pedroso da Silva, mais conhecido como Miltinho, é quem supervisiona o vai e vem de atletas no Sindicato. Ex-ponta-esquerda do Inter nos anos 70, completa hoje onze anos à frente do projeto. Treinando o time, tenta alternar todos os jogadores nos jogos-treinos (em que os times adversários pagam o transporte e a comida para os atletas do sindicato), já que o objetivo

é colocá-los na vitrine e não necessariamente ganhar os jogos. “A grande jogada do projeto é recolocar o jogador no mercado de trabalho”, resume o Presidente do Sindicato Paulo Mocelin, ex-goleiro do Esportivo de Bento Gonçalves. “Tem mais de 24 mil jogadores filiados na CBF. 12 mil se empregam, 12 mil ficam parados. Aqui no sul, de 1500, metade tá empregada, metade não”, comenta o presidente. O trabalho do Sindicato é praticamente invisível: “Quem tem que aparecer são os atletas, eles são os donos do espetáculo. Essa é a função do Sindicato, trabalhar para eles. A gente faz esse negócio por ideologia, não para aparecer na televisão, dar entrevista”, afirma Mocelin. Inclusive as conquistas da categoria são pouco conhecidas. Uma delas foi conseguir estabelecer o piso mínimo regional de 820 reais. É o único estado brasileiro que conta com a convenção coletiva, como é chamado o piso. Nos outros estados, o que vale é o salário mínimo. No entanto, encontra grandes desafios para se fazer valer. “Não adianta só o sindicato querer ajudar os jogadores se os clubes não ajudam. Ficam três, quatro meses sem pagar, uma cobrança enorme em cima do jogador, sendo que tem família, tem filho, tem esposa, tem que pagar aluguel e muitos não têm dinheiro. E não só no interior. Até o próprio Internacional, em 95, ficou seis meses sem pagar”, diz Paulo Henrique. A situação piora quando nem clube, nem atleta colaboram com a questão. “Tem jogador que fica com medo de ligar [pro sindicato] porque pensa ‘ah, vão ficar sabendo se eu ligar e daí não vão me empregar em outro clube’, mas a gente não quer bater de frente com o clube, mas sim resolver o problema do atleta. Normalmente a gente resolve. Se não resolve, daí a gente bota na Justiça”, diz Mocelin, a respeito da assistência jurídica prestada a jogadores sem condições de pagar o próprio advogado. Outra questão que dificulta a vida dos jogadores é o número de agentes envolvidos na relação profissional. Antes da Lei Pelé (1998), os clubes de futebol tinham predomínio nas negociações e

A gente faz esse negócio por ideologia

tabare.net

eram donos definitivos dos passes dos jogadores. Hoje, são os empresários que assumem o controle e ditam o ritmo das transações. Jogadores sem empresários acabam tendo mais dificuldades para se recolocar nos clubes e conseguir um salário digno. Márcio Ballack, centro-avante do Sindicato, se queixa: “hoje tudo é marketing. Se tem dinheiro tu joga, se não tem, tu não joga. Tudo envolve muito dinheiro”. No que Paulo Henrique completa: “e quem ganha mais é o empresário. Na verdade, o jogador vai por X, e desse dinheiro ele vê 30%, 40%. Os empresários não jogam, só usam telefone, gastam duas chamadas e levam quase 70% do salário”. Dentro dessa realidade, o Sindicato faz o que pode, chegando a fazer até mesmo a função de empresário. Como exemplifica Miltinho, “é muito difícil um jogador sair de um time do interior para um clube como o Fortaleza, e nos anos anteriores nós conseguimos colocar três jogadores lá”. Mas não dá pra fazer milagres, pois o foco do Sindicato é mesmo as questões trabalhistas. Jogador de futebol é uma profissão como qualquer outra. Mas cada vez mais desigual. “Deve ser 5%, 3% dos jogadores que ganham esses salários exorbitantes. Tenho amigos que jogam no interior que ganham 800 reais pra jogar primeira divisão” diz Paulo Henrique, que com 39 anos, perto da aposentadoria e com a carreira quase toda no exterior, admite que dificilmente encararia de novo essa realidade vivida por seus colegas de profissão. “Fiquei 12 anos fora, e pra voltar talvez só pra encerrar a carreira, mas é muito difícil”.


Cruzadinhas

1. Imposto devido pelo proprietário da área do Pinheirinho à prefeitura de São José dos Campos 2. Tratamento dado aos lares das 1700 famílias do bairro 3. Adjetivo utilizado pelos organismos de Direitos Humanos para classificar a ação da polícia 4. Déficit _____________. Expressão que define a falta de moradias adequadas para uma população 5. Direito social previsto no artigo 6º da Constituição Federal menosprezado neste caso 6. Gás __________. Arma não letal utilizada pela PM paulista para forçar os moradores a deixarem o local 7. Tipo de especulação favorecida pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), no caso em questão 8. Empresário libanês preso na Operação Satiagraha por evasão de divisas e lavagem de dinheiro que exigia a reintegração de posse do terreno do bairro 9. Prefeito tucano de São José dos Campos

Há 90 anos em Tabaré (15/02/1922)

Demorou, mas o futuro já começou Uma semana, muitas obras e poucos aplausos Esqueça os versos melosos do Romantismo e a masturbação estéril dos parnasianos: tal qual o ingênuo Realismo, todos estão com seus dias contados. Lá fora, o Raionismo, o Suprematismo, o Nãoobjetivismo, o Ultraísmo, e muitos outros “ismos”, já ocupam as cabeças dos artistas. A avalanche de novas tendências que assola Europa e Estados Unidos finalmente começa a surtir efeito nesse nosso Brasil que jura não ser mais colônia. Pelo menos, é o que indica a Semana de Arte Moderna, que acontece até o dia 17 no Theatro Municipal de São Paulo. Mas o público não parece ter notado isso. Durante a apresentação do escritor Mário de Andrade, um dos principais organizadores do evento, tantas eram as vaias que poucas palavras se distinguiam. A maior parte dos espectadores preferiu relinchar e cocoricar a colaborar. Oswald de Andrade, poeta e amigo de Mário (mas não parente), comentou o episódio: “Galinha d”Angola vai na panela e pra cavalo tem carroça. Tá tudo certo”. Já a pintora Anita Malfatti, verdadeira pioneira do nosso Modernismo, questiona: “Quando a animalidade dos brasileiros poderá ser comparada ao seu bom-senso?”. Com muita sorte, no futuro.

Jorge Loureiro [www.flickr.com/jotahagaelle]

fevereiro/ 2012 #10

11


TABARÉ

Nossos rumos [Gabriel Jacobsen]


TABARÉ #10