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porto alegre setembro 2012

o voto é todo o dia

#16

OMaestrodaTortura colmar • castelinho • etiópia • a dois


TABARÉ

S

etembro é um mês de contradições para o povo gaúcho. No dia sete, comemoramos um feriado nacional com forte apelo patriótico: a independência do Brasil em relação à metrópole portuguesa. No dia 20, celebramos um feriado estadual de largo clamor regionalista: o início da Revolução Farroupilha (1835-1895) que, entre outras ambições, almejava transformar a província de São Pedro do Rio Grande do Sul num país independente. De fato, a proclamação da República Rio-Grandense em 1836 é motivo de orgulho entre os gaúchos mais ufanistas. Tanto que, em 20 de setembro, os movimentos tradicionalistas gaúchos organizam desfiles tão pomposos quanto os de sete de setembro. De qualquer forma, essas duas datas ilustram um conflito incrustado na formação da identidade do povo rio-grandense: nacionalismo versus regionalismo. Embora não seja necessariamente um antagonismo, às vezes parece inconciliável ser brasileiro e gaúcho ao mesmo tempo. Existe um abismo entre a nossa cultura e a do resto do Brasil. E, por mais que o país seja composto de culturas regionais diversas, existe um intercâmbio considerável entre as manifestações culturais do resto do país. A cultura gaúcha, por outro lado, costuma ficar circunscrita às fronteiras do estado. A música pode oferecer bons exemplos: qualquer cidadão brasileiro, em qualquer lugar do país, conhece o ritmo nordestino do forró; mas nem todos os brasileiros conhecem o ritmo sulino do chamamé. É mais provável que esta variante musical seja reconhecida em países como Argentina e Uruguai, do que em estados brasileiros

como Rio de Janeiro e Amazonas. E isso revela um agravante na questão identitária do povo gaúcho... Temos uma cultura regional bastante distinta do resto do Brasil. Até aqui, tudo bem. Afinal, todas as culturas regionais têm características próprias. Contudo, possuímos um intercâmbio cultural muito maior com os países platinos do que com a nossa própria nação. Culturalmente, somos mais parecidos com os argentinos e uruguaios. Talvez, a história explique tal proximidade: fomos a última região a ser anexada ao Brasil, uma vez que a área que hoje compreende o Rio Grande do Sul foi disputada a ferro e fogo entre Espanha e Portugal. A matriz espanhola teve muita influência na cultura gaúcha (mais do que em qualquer outra região da plaga tupiniquim). Ademais, a simples localização geográfica já promove um maior contato com Argentina e Uruguai. Aliás, a idiossincrasia cultural do Rio Grande do Sul costuma ser o principal argumento dos grupos separatistas gaúchos. Mas aí surgem alguns questionamentos: Um país precisa ter cultura homogênea? As fronteiras geográficas devem coincidir com as fronteiras culturais? As fronteiras culturais são bem delineadas como as fronteiras territoriais? E afinal o que significa ser gaúcho do ponto de vista cultural? E o que significa ser brasileiro? Essas perguntas não são tão fáceis de serem respondidas. Mas, ainda assim, é importante que se reflita sobre isso. Talvez o brasileirismo e o gauchismo possam conviver harmonicamente dentro da população do estado mais meridional do país.

[Do arquivo]

Chico Guazzelli, Felipe Martini, Gabriel Jacobsen, Iván Marrom, Jessica Dachs, Júlia Schwarz, Juliana Loureiro, Leandro Hein Rodrigues, Luísa Santos, Luna Mendes, Matheus Chaparini, Marcus Pereira, Martino Piccinini, Natascha Castro Projeto Gráfico/Diagramação: Martino Piccinini Capa: Mariana Poppovic [maripoppovic.com.br] Colaboradores: Fred Stumpf, Jimmy Azevedo, Lara Rösler, Mariana Poppovic, Mario Arruda, Paulo H. Lange, Santiago Tiragem: 2 mil exemplares Contatos: comercial@tabare.net tabare@tabare.net facebook.com/jtabare Distribuição: Fabico • Famecos • Instituto de Artes UFRGS Casa de Cultura Mario Quintana • Ocidente • Palavraria • Sala Redenção • StudioClio Comitê Latino-americano • Instituto NT • Nova Olaria


Sociedade Zumbi Será o fim da luta contra o despertador? A Suécia está implementando horários compatíveis com o funcionamento das pessoas madrugadinas. Isso pode significar que algum dia nem todos precisem acordar, sair, se deslocar, trabalhar, estudar, comer, voltar pra casa, dormir, acordar de novo ao mesmo tempo. Cada um funcionando no seu próprio tempo. Nunca mais horário de pico. Não é lindo? Mas ainda é só o começo: a primeira instituição a adotar horários madrugais é uma escola secundária de Gotemburgo, que abriu a possibilidade de aulas entre as 20h e as 8h. No Brasil, algumas localidades já adotaram esse turno-B, como a cracolândia do centro e a Cachorro Sentado. Em tempo Essa notícia foi escrita de madrugada.

[Fred Stumpf]

Ilustríssima Srª Presidenta: casa comigo? O Batalhão da Guarda Presidencial do Exército estragou um dos momentos mais românticos e simbólicos da história do presidencialismo no Brasil. Acho que os milicos não gostam muito do presidencialismo... Um homem apaixonado invadiu a rampa do Palácio do Planalto para declarar seu amor à presidenta Dilma Rousseff e pedi-la em casamento. Entretanto, um brucutu sem coração tolhiu o gesto. Após o disparo de tiros de advertência, os dois trocaram umas porradas e rolaram no chão até que o guardinha pediu arrego pros colegas e conseguiu deter o rapaz que se dizia marido da Dilma. No hospital, foi constatado que Edmeire Celestino da Silva, 29 anos, é fisicamente uma mulher. Ficou até meio chato pro guarda.

Mandou, chegou Serenata é coisa do passado. Flores, bombom... tudo muito demodê! Um chinês apaixonado teve uma ideia muito mais romântica e original. Com a ajuda de um (mui) amigo, Hu Seng se encaixotou e se enviou por correio para a namorada. O problema é que a empresa de correios errou o endereço e o passeio que deveria durar meia hora, levou mais de duas. O embrulho chegou ao local de trabalho da moça recheado com um corpo molengo e semi-morto. Recuperado, o Don Juan de olhos puxados disse que se sentiu mal, mas não quis gritar pra não estragar a surpresa. Ai, que amor, né, gentem? Em tempo Se eu fosse o carteiro, terminava de matar esse china!

Em tempo A primeira presidenta mulher da história do Brasil agora é também a primeira presidenta mulher pedida em casamento em horário de serviço por uma pessoa fisicamente-mulher-autodeclarada-homem que saiu na mão com um milico da história do Brasil.

Chugato A justiça absolveu um homem acusado de furtar, matar, carnear e preparar à milanesa o gato do seu vizinho em Passo Fundo. O juiz da 1ª Vara Criminal da cidade alegou falta de provas. O banquete ocorreu em 2007 e o auxiliar de cozinha suspeito, então com 19 anos, teria confessado o crime informalmente à polícia. Na residência, foram encontrados a pele, a cabeça e os ossos do bichano. O rapaz alega que o gato fora atropelado e, já que tava morto, virou rango. A pele foi apreendida e deve ser doada para uma fabrica de tamborins.

Laricão Um japonês é o novo recordista mundial de comer cachorro quente. O atleta Takeru Kobayashi, 34 anos, devorou nada mais nada menos que 110 róti dóguis em 10 minutos. O recorde foi estabelecido em uma feira em Nova Iorque. Takeru, um rapaz meio magrelo, é atleta profissional e também compete nas categorias Hambúrguer e Macarronada.

Em tempo Churrasquinho todo mundo já comeu, mas à milanesa é novidade. Será que fica bom? Voltaremos.

Em tempo Tá, e eu com isso?

TABARÉ. O JORNAL QUE É LOUCO E AINDA BEBE. ai que vontade de ter criado esse slogan genial pqp... Marcelo Scop, publicitário frustrado Nós também. E não é que o pessoal do Jornal Tabaré é bem legal. Luiza Müller, da concorrência Tu diz isso agora. Eu sempre quis ser d’O Bastião! Chico Guazzelli, traidor Quer ir vai, ué! Só não pede pra voltar depois.

Aí Tabaré qual a boa pra sexta a noite? Tem tt? Thiago Peres, sociedade-B Reunião de pauta a partir das 22h, tá afim? Mas é sem tt. Vem cá, sou amigo de um pessoal que começou o Tabaré. Eu também te amo, onde eu assino? Amarildo Paixão,

leitor correspondido Barbada! Entra lá no tabaré.net/ assina, é baratinho e tri simples. Agora eu te entendo. Curtiu ontem? Bibiana Pozzebon, moçoila bem intecionada Claro que curti. Tu é demais, Bibi!

vez, ali no Comitê. Cheguei em casa e li de cabo a rabo. Adorei!! Se conseguir umas edições antigas pra mim, ficaria bem feliz. Emanuela Pegoraro, assinante nova E jornal tem cabo ou rabo, guria? Tá loco, me aparece cada uma...

Ontem assinei o Tabaré e logo As primeiras edições foram bem depois encontrei ele pela primeira difíceis de sair pela situação econômica. Como que tá hoje em dia o jornal? Fortaleceu? Guga Peruzzo, dazantiga pacarai @tabare.net As últimas férias coletivas no

CARTAS setembro/ 2012 #16

Caribe deram uma prejudicada nas finanças. Mas a firma segue forte. Olá! Tem alguem aí? Pamela Ferrer, curiosa Ter, tinha.

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A dama do Alto da Bronze por Gabriel Jacobsen e Felipe Martini foto Felipe Martini

E

u saí do castelo em 1952. Tinha vivido dez anos com o Carlos.

Estava na Rua da Praia com uma prima muito bonita. Era um sábado, a Rua da Praia era outra, a cidade era outra. Eu tinha dezoito anos; ela, vinte e oito. Quando vi, tinha um homem ao lado dela, o que não era costume. Naquela época era tudo muito reservado. Achavam que toda moça que estivesse sozinha ao lado de um homem era prostituta. A polícia levava com uns cachorros; até botava o laço aquele pra empurrar pra dentro da camburão. Uma vez, um conhecido meu disse: “Tu sabes que eu vi uma coisa que me deixou mal até agora: a polícia pegando uma guria com uma corda pra botar pra dentro da viatura. Ela corria pra tudo que era lado pra não ser presa”. Elas não podiam fazer a vida ali. Só na rua 7 de Setembro, lá pro fundo. A gente voltava pra casa pela calçada da Rua da Praia. Nessa época eu morava com os meus pais na rua Pelotas. Eu já estava separada e tinha um filho. Casei aos dezesseis e me separei dois anos depois. Meu primeiro marido que me despachou. Essa minha prima era também muito recatada e, naquele tempo, a cousa era muito séria. Estávamos caminhando quando ele perguntou pra onde ela estava indo. Eu não dizia nada, queria era ver as vitrines. Ela disse que íamos pra rua Pelotas, perto da Farrapos, onde meus pais moravam num sobrado. Ele disse, entra no carro, garota. Eu pensei: “esse velho desgraçado com certeza é casado”. Aceitamos a carona. Quando foi pra descer do auto, ele, um homem de idade, vinte e dois anos mais velho que eu, perguntou onde eu morava. Aí mostrei a janela, justamente onde eu dormia. Ele perguntou: “vocês não querem sair amanhã?” Ela disse que iria pra Gravataí no outro dia, esperando que ele oferecesse carona. Ele não disse nada. No outro dia eu enxergo ele lá. Fiquei louca de raiva! Eu não queria isso, mesmo sendo ele um homem muito simpático, culto, agradável. Nisso chegou a minha irmã, com uma capa de chuva e uma sombrinha. Essa era casada. Aí eu inventei que ia na casa de uma amiga, pedi a capa emprestada e fui falar com ele: “Pelo amor de Deus, o senhor tire esse carro daqui!” Mas ele insistiu que queria falar comigo. Eu respondi que ele estava me comprometendo, que minha mãe era muito

braba. Preferia até me ver morta que numa situação dessas. As pessoas apedrejavam a gente. Diziam: “a fulana, imagina, separada!” Era assim pra pior. Entrei no carro e fomos parar na avenida Carlos Gomes, quase no bairro Petrópolis. Tinha já uns palacetes por lá. A chuvinha continuava. Aí ele parou e perguntou, o que tu pretende fazer da vida, menina? Eu disse que não queria namorar. Queria arrumar um emprego, mas não de balconista. E que queria antes tirar o curso de datilografia, mas estava esperando o meu pai pagar para mim. Aí ele agarrou minha bolsa, perguntou quanto era o curso, não sei se fez bonito ou feio, mas colocou

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nela o dinheiro. Eu disse “não posso dizer pra minha mãe de onde veio esse dinheiro”. Ele disse que não precisava contar nada, era só ir pras aulas. Aí dei uma de louca mesmo e, uns dois dias depois, me matriculei. Um dia ele fez que se encontrou por acaso comigo, perguntou como iam meus estudos e disse: “eu tenho um amigo que te arruma um emprego quando tu terminar esse curso”. O amigo era ele. O Loureiro da Silva era o prefeito e graças a uma carta de indicação feita pelo Carlos, consegui um emprego na Prefeitura. Quando entreguei a carta, o prefeito deu um sorriso. O Carlos tinha escrito qualquer coisa ali que deixou o Loureiro compreender que era ele o autor. O Carlos assinou a carta como Luciano Lobato, o nome que ele tinha inventado pra mim. O Loureiro olhou a carta e saí de lá empregada. Nos seis meses que fiquei na Prefeitura, o Carlos me seguia sempre. Ele estava me testando, mas também se apaixonando. Um dia eu estava saindo do trabalho e ele veio falar comigo: “eu quero te fazer uma proposta, tu gostaria de casar comigo?” Ele era um homem simpático, até bonito. Disse que poderia falar com meu pai, com quem eu era muito agarrada. Veio um pensamento na minha cabeça: e se o velho me botasse num apartamento com meu filho? O Carlos me disse que eu teria uma empregada, que todos os dias ele me visitaria, mas que não iria morar comigo. Eu aceitei. Falei com meu pai e ele aceitou conversar com o Carlos, em tal hora num café da Rua da Praia, desses de políticos graúdos onde mulher não entrava. Meu pai explicou pra minha mãe que, se eu saísse de casa, não comprometeria mais as minhas irmãs pelo fato de ser desquitada. Primeiro nos mudamos pra um apartamento numa das travessas da Getúlio, num sobradinho pegado em outro. Ele queria tudo coisa assim, que eu ficasse bem enclausurada. De noite, me convidava pra passear, ele conhecia todas as bibocas, sempre nos bairros mais distantes. Tudo arrumadinho, mas não com muita gente. Até que um dia, uma senhora que morava do lado do sobrado e não tinha máquina de costura, pediu a nossa emprestada. Um tempo depois, essa vizinha foi fazer umas costuras no palacete onde o Carlos morava com a esposa e as filhas e descobriu que ele tinha duas famílias. Assim, eu e ela ficamos sabendo da vida dupla dele. E eu emprestava a máquina pra essa danada! Depois disso, num passeio de carro pela Zona Sul,


eu disse: “vou ficar no meu apartamento sozinha”. Ele se enfureceu. Meteu a mão na minha garganta pra me esgoelar. Matar mesmo. Ele dirigia e apertava aqui. Consegui botar a mão no trinco da porta. Empurrei com esforço e me atirei do carro. Corri. Entrei no portão de umas das casas defronte o Guaíba. Ele criou forças e saiu da loucura. Desceu do carro. Entrou no portão. “Vem cá, vem conversar”. Eu tive que afrouxar. Nessa altura ou tu diz sim ou morre. Nos mudamos pruma casa grande e ele disse que me daria uma outra bem bonita. Arrumou com um amigo engenheiro um modelo de casa e fez um castelo em cima do desenho. Mas eu não queria um castelo. Até descobri uma coisa publicada sobre o Castelinho esses tempos que dizia que eu havia pedido um castelo para o Carlos. Eu li aquilo e fiquei tão braba! Liguei pra Zero Hora e falei pro repórter que eu jamais pediria um castelo porque eu queria um apartamento. Com dezoito anos ninguém vai pensar em castelo. A primeira vez que eu fui ao Castelinho, a obra já estava bem adiantada. Quando fui de novo, já estava tudo pronto, com dourado entre as pedras. As cortinas douradas também. Aquele castelo não me deu alegria. Ficava enclausurada lá, nem chegava na janela. E ainda tinha aquela escadaria... Uma vez eu quase morri na frente do cinema Baltimore. A gente esperava a segunda sessão, que começava umas sete e meia. Estava cheio. De repente, ele falou pra mim: “tu tá olhando praquele homem!” Quando ele disse isso, meteu o pé no meu. Um baita dum pezão! E eu estava de sandalhinha. Ele meteu o pé e esfregou nos meus dedos. Eu sai porta afora! Se viesse um bonde, me atropelava. Também já tinha ônibus. A dor foi parar na cabeça e eu fui direto pra Redenção. Chegou a sangrar minha unha. Também tive uma acompanhante que ele contratou, uma enfermeira do hospital Beneficência Portuguesa, além do detetive que colocou para me vigiar. Mais tarde conheci o detetive e acabamos casando. Era moço, bonito. Tá morto já. Conheci porque ele veio atrás de mim a mando do Carlos e contou tudo. Mas não fui feliz com ele também porque sou muito extrovertida. Uma outra vez, o Carlos sacou a arma e atirou pra matar, mas aí eu já tinha saído do Castelo. Era domingo de tarde, a gente tinha chegado da praia e o Carlos me convidou para irmos no cinema. Praia pra mim é o Rio de Janeiro. Eu estava cansada. “Tu nunca quer nada que eu te peço, tu não é uma mulher carinhosa pra mim”. Discutimos. Ele sacou o revólver e atirou pra acertar no rosto. Perto? Eu pensei que a bala estava na cabeça. Passou tão junto que meu ouvido ficou mais de mês zunindo. A empregada ia saindo e eu disse, “me leva pro Pronto Socorro, a cabeça tá zunindo”. Foi a única vez que ele atirou contra mim. Quando eu ia pro Rio, ele sempre pagava tudo pra mim e uma amiga. Mas o Rio, pra morar, não. Minha mãe também me assustava, fazia eu tirar as joias todas quando ia pra lá. A gente passeava muito, Argentina, Montevidéu, mas ele sempre estava de olho em mim. E os meus sempre abaixados. Fora do Castelinho ele já me prendia, mas lá foi onde me senti mais presa, não podia nem chegar na janela. Ele dizia que janela é coisa de gentinha, gentalha. Ia pro Tribunal de Contas duas vezes por semana, porque era ministro, mas estava sempre voltando em casa pra me vigiar. Mas não me arrependo, comprei carro, só oi, oi pra todo mundo. Quando nos separamos, me encontrei com o Brizola na Rua da Praia. Havia o Mil e uma Noites, um clube fino, era carnaval e eu me vesti de Dalila. Com o Brizola, estava o Manuel Vargas, filho do Getúlio. Manuel

também se matou. Manuel sentou do meu lado, eu já estava separada e o pai dele ainda era presidente, e começou a dar em cima de mim, passear de carro. Eu fiquei com o Carlos até 28, 29 anos. E o Manuel queria que eu fosse de avião com ele pra fazenda. Eles davam em cima de mim porque eu usava roupas muito chiques, saia muito bem acompanhada e não era vulgar. Eu conheço Porto Alegre toda. As mulheres me odiavam. Eu e o Manuel tivemos um namorico, sim. Ele parava o carro na Praça da Alfândega, mandava os pretinhos cuidarem do carro e guardar uma vaga pra mim. Ele não gostava de falar de política. Nem eu. Ele me apresentou o pai quando o Getúlio desceu do avião. Estava junto aquele negão que mataram, o Negão Gregório. O Getúlio disse assim: “ah, arrumou uma namoradinha?” “Uma namoradinha, não, papai. Veja só que namorada!”, respondeu Manuel. E o Getúlio disse: “é, eu apliquei mal a palavra”. Quando o Getúlio morreu, não votei em mais ninguém. Getúlio era uma maravilha. E o Negro Gregório foi morto na cadeia... mas ele adorava o Getúlio. Era um cão de guarda. Me admiro é que antes de se matar, o Getúlio tirou a roupa e colocou o pijama. Tirar a roupa pra se matar? Quando eu estava sozinha em casa com o Carlos era bom, eu fazia massagem nas costas dele... Mas quando eu estava só, no castelo, ficava lá no alto, olhando a cidade toda. Gostava muito de ler, ouvir música, mas ele não gostava de música muito chamativa.

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Ele só deixava porque era baixinho. O Carlos falava cinco ou seis línguas e a Ruth falava oito. Eu vou misturando as coisas mas vocês não dão bola... Eu lembro dos últimos momentos com o Carlos. Quando a gente chegou em Poços de Caldas, ele andava doente e eu dava as injeções. Foi no dia do aniversário do Ademar de Barros, que era governador em Minas Gerais. Quando chegamos da viagem ele disse que precisava ir pra Santa Catarina fazer uns banhos de lama, um tratamento. Mas na verdade ele ia pra lá com uma rapariguinha. Conheci ela, mas até já morreu. Eu não fui feliz com homem nenhum. Meu último dia no castelo foi o seguinte. Lembro das palavras dele como se fosse hoje. “Ai, meu amor, não bote fora esse meu amor por ti”. Daí ele foi telefonar, o telefone era na parede, e durante a conversa ele queria pegar um número que estava anotado num papel dentro da carteira. Quando ele viu que a carteira estava na mesa, eu vi os olhos dele tremerem, e na distancia que eu estava, eu chegaria antes na carteira. Meti a mão pra pegar e caiu a carteira de um lado e o papel de outro. Era uma conta de um hotel argentino: fulano de tal e esposa. Não dizia o nome da mulher. Ele disse que estava em Santa Catarina nos banhos de lama que eram bons pra saúde. Ele estava na lama mesmo! Foi aí que ele puxou o revólver do gavetão e eu gritei: “Teresinha, ele vai puxar o gatilho e dizer que foi acidente!” O Carlos durou uns cinco anos depois que nos separamos.

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[Santigo]

A orquestra de choro da Ditadura Militar Como as técnicas de tortura da Ditadura Militar foram afinadas por Dan Mitrione, o agente da CIA que esteve no Rio Grande do Sul e ensinou a polícia gaúcha a aumentar o volume do choro sem fazer barulho

por Jimmy Azevedo

E

m 1970, João Carlos Bona Garcia, preso político da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ouve música erudita com seu torturador em um aparelho de Estado usado para interrogatórios. No terceiro andar do Palácio da Polícia, o major do III Exército conhecido como Átila regozija-se no terno liso. Ele não está vendado, mas flutua como se estivesse, como um violino spalla que reencontra a mais aguda das notas musicais. Companheiro de Carlos Lamarca na VPR, Bona Garcia é submetido a choques no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Porto Alegre, enquanto Átila, a poucos metros dali, ensaia uma dança ao observar excitado a erupção elétrica do corpo de Bona. No monólogo, Átila fala da família, da vida e destas questões quase simbolistas como a música, o vaivém de marés e dos ritmos. — Quem me torturou ali [no DOPS de Porto Alegre] foi o Átila [Rohrsetzer], o delegado Pedro Seelig e, depois, tinha uns inspetores que eram de baixo nível. O

pessoal era doentio, ficava excitado, pulava, gritava. O próprio Átila também enlouquecia. Era muito esquisito, ele te torturava falando da família dele, da mulher e dos filhos, escutando música clássica e com um médico junto. Então, ele não pode ser um cara certo, naquela confusão toda, dando choque.

A Art Poétique dos nuances de interrogatórios e torturas no Brasil fora sofisticada por agentes franceses que estiveram na Argélia e por estadunidenses que, através da Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência – a CIA), se especializaram em métodos de investigação e treinaram policiais de inúmeros países periféricos. No Brasil, somente na nevralgia de caça aos comunistas a partir de 1960, há documentos que indicam que cerca de 100 mil policiais civis e militares foram treinados, submetidos aos filés tecnológicos do tipo “arranco-te os dentes, mas continuarás a sorrir”. Eis que, no começo daquela década em que se multiplicaram os golpes latino-americanos, em

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1964, chega a Minas Gerais "El Maestro de La Tortura", como se referiu o jornal argentino Clarín. Antes mesmo de Jânio Quadros trançar moonwalk com as pernas e as Forças Armadas enterrarem a reforma agrária e o presidente João Goulart, o ítaloamericano Daniel Anthony Mitrione já está em Belo Horizonte indiferente ao leite e ao pão mineiros. Oficialmente, Mitrione é um especialista em insurgências da oficialesca “Missão Norte-Americana de Cooperação Econômica e Técnica – Ponto IV”. No entanto, sua função é treinar as polícias mineiras, que seriam, adiante, forças repressivas e observadoras dos ainda púberes subversivos que cairiam em cento e oitenta graus nos paus-de-arara poucos anos mais tarde. A missão ianque era subordinada ao programa “Aliança para o Progresso”, criado pelo presidente estadunidense John Kennedy para ajudar no “desenvolvimento” da indiada sulamericana. A ofensiva dos EUA sobre a América Latina se intensificou com a Revolução Cubana, a partir de 1959, quando Havana deixa de ser o quintal estadunidense


e o ditador Fulgencio Batista foge às pressas com uma fortuna de aproximadamente cem milhões de dólares. A Guerra Fria, que opunha União Soviética e Estados Unidos, já vinha desde a década de 1950 movimentando os bastidores das Forças Armadas de países subdesenvolvidos, como demonstraram os golpes militares no Paraguai e na Bolívia. Mas, por se tratar de um país continental, o Brasil acabou por se tornar o entreposto estratégico, tático e inteligente para treinamentos militares e o desencadear dos golpes de Estado e regimes militares em países como Uruguai (1973), Chile (1973) e Argentina (1976). Huevos no, testículos Professor e especialista em insurgências, Dan Mitrione ministrou aulas de abordagem policial, uso de materiais repressivos e contenção de multidões em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Em Belo Horizonte, os ensinamentos aos policiais civis e militares teriam seguido à risca o Kubark, método de tortura reconhecido e usado pela CIA. Mitrione ensinava como usar choques elétricos sem deixar marcas. Em suas aulas de treinamento na polícia de Belo Horizonte, Mitrione dava demonstrações práticas de tortura utilizando-se de presos, mendigos e indigentes, insistindo que os manuais da CIA refletiam o fato de que tortura eficaz é ciência ("effective torture was science"). Em seus quase sete anos no Brasil, Dan Mitrione era respeitado como cientista, o que elevava a admiração que recebia de delegados, comissários e agentes de organismos oficiais ou clandestinos de tortura. Em Memória do Fogo, o escritor Eduardo Galeano revela uma citação de Dan Mitrione em sala de aula, durante demonstrações práticas de tortura: “Los huevos no, comisario, testículos”. A figura de Mitrione, que reproduzia uma linguagem erudita e posturas de mesma estirpe, também foi concebida através de insígnias estéticas, como o trato na vestimenta bem cortada e a obsessão por limpeza, além da frieza comum a psicopatas. Cabeças de Piça Quando chega ao Rio Grande do Sul, estado estratégico avizinhado ao Uruguai, o agente da CIA desemboca toda sua tecnologia e sutileza no Palácio da Polícia pouco antes do golpe militar de 1º de abril de 1964. Ali, onde estavam a Guarda Civil e polícia de Choque, inicia um processo de reinvenção material e moral dos policiais, a maioria sem escolaridade. Camionetes são compradas e equipamentos introduzidos no cotidiano de uma Porto Alegre onde os jovens já haviam despertado para a arapuca desde o Movimento da Legalidade, liderado pelo governador Leonel Brizola. Na capital gaúcha, Mitrione e seu companheiro de CIA, Standford Smith, concedem aulas de “controle da ordem pública” em datas e períodos diferentes. No primeiro semestre de 1964, os policiais da Guarda Civil recebem treinamentos dentro do Palácio da Polícia, localizado na Avenida Ipiranga, junto ao Arroio Dilúvio. O policial aposentado Valdevino Silva traz à tona suas lembranças sobre as aulas. — Ele [Mitrione] dava instrução como professor. A matéria que ele dava em Porto Alegre era colocação de algema, uso do cacetete, como agir em controle de tumulto. As aulas de algema e uso de cacetete eram em sala de aula. Aula de controle e tumulto era em campo aberto, com uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogênio. A gente chegava a usar máscaras.

O comissário de polícia disse desconhecer qualquer aula em que cobaias humanas fossem utilizadas para o ensinamento de técnicas de tortura “branca”, como choques elétricos e tensionamentos psicológicos. Precisou vir alguém dos Estados Unidos para dar aula de colocação de algemas? Essa pergunta tu tens que fazer para os americanos. Aquela era a época que estava muito ativo o comunismo no Brasil e era muito combatido pelo governo americano. Aqui no Rio Grande do Sul ninguém deu aula de tortura para ninguém. Eu não recebi aula neste sentido e os meus colegas que participaram dos cursos não participaram de nenhuma aula de tortura. Nos deram técnicas de patrulhamento, policiamento. Eu tenho até diplomas dos cursos. Saudoso, Valdevino ainda lembrou que a turma do Ponto IV enviou munições e viaturas para a tão carecida polícia gaúcha. Os estadunidenses, em seus cursos, tentaram mudar a cultura civil dos policiais, buscando uma postura mais militarista. Um dos legados foi a adoção do capacete como parte do uniforme. Vermelho, o acessório levava duas letras na parte frontal: GC, em referência à Guarda Civil. O apelido dado aos policiais, a partir de então, foi “Cabeças de Piça”. À boca miúda, é claro. Em 1967, quando Mitrione retorna aos EUA, Valdevino da Silva recebe ordem de “criar uma polícia de operações” do então Chefe de Polícia e diretor da Escola de Polícia, Pedro Américo Leal. Conhecida como GOE (Grupo de Operações Especiais, existente até hoje), a estrutura substituiu a Polícia de Choque, agindo em ações especiais com a Polícia Civil, dando cobertura em locais de crime, isolamento em incêndios e tumultos. Hoje octogenário, o aluno de Mitrione ficava responsável por levar e trazer presos políticos e seus familiares à Ilha do Presídio, junto ao Guaíba, durante os Anos de Chumbo.

resistência e dar o que comer aos desvalidos, o Brasil também tem papel importante na troca de informações com setores de inteligência. A política militarista de Costa e Silva, AI-5 e outras marchinhas, já tinha base e respaldo suficiente de organismos estadunidenses. No Chile, Uruguai e na Argentina os serviços secretos já protocooperavam no monitoramento de asilados políticos. Tempos depois, em 1975, nasceria a Operação Condor, promovendo uma caça unificada aos grupos de esquerda no continente. Dois episódios colocam Dan Mitrione e os Tupamaros nas manchetes mundiais a partir de 1970. Neste ano, Mitrione é sequestrado pelos Tupamaros. É interrogado, mas não admite ser agente da CIA e tampouco instrutor de tortura nos países da América do Sul. Suas lições moldaram os “Esquadrões da Morte”, o braço do terrorismo de Estado responsável por inúmeras execuções clandestinas. El maestro serviria de moeda de troca para a libertação de 150 Tupamaros presos, mas o governo uruguaio não aceita. O prazo dado pelo MLN, onde militava o atual presidente José Mujica, expirou no dia 10 de agosto. Mitrione é assassinado a tiros pelos tupamaros. Em outro fronte, depois da repercussão da morte do agente da Agência Internacional para o Desenvolvimento (AID), o Movimiento de Liberación Nacional sequestra o embaixador brasileiro Aloísio Dias Gomide, em 1971. Gomide foi liberado tempos depois, pois os Tupamaros se enganaram de alvo: o sequestrado deveria ser o diplomata brasileiro Manuel Pio Corrêa, que colaborava com o Serviço Nacional de Informações (SNI) e com a CIA. O sequestro de Gomide teria movimentado o Exército do Brasil, que estaria disposto a ocupar Montevidéu e ajudar os milicos uruguaios a procurar o embaixador. Jorge Zabalza (abaixo), ex-dirigente Tupamaro, concedeu entrevista exclusiva ao Tabaré. Preso durante todo o regime militar de seu país, fala sobre a prisão e a decisão de executar Dan Mitrione.

— A Ilha do Presídio estava sob minha responsabilidade. Leva e traz de preso era normal. O que nos dava mais trabalho eram os familiares que iam visitá-los na ilha. Dávamos tratamento VIP aos presos políticos. Eles se alimentavam melhor do que eu me alimentava na minha casa, comida de primeiríssima. Tinham médico, dentista, visita das famílias. Nunca houve uma manifestação por parte dos presos de que haviam sido maltratados, agredidos. Sempre tratamos eles com muita dignidade, respeitamos eles como seres humanos.

El maestro, Tupamaros e matemática Dan Mitrione segue para o Uruguai em 1969. O mês de julho é o começo de uma história que quase resultou na invasão de tropas brasileiras à capital Montevidéu. No Uruguai insurgido por jovens de classe média que se denominavam Tupamaros - Movimento de Libertação Nacional (MLN), Mitrione é apresentado como um burocrata da Embaixada Norte-Americana. Mas, em verdade, estava à disposição dos serviços de segurança, mesmo antes do golpe militar orquestrado por Juan Bordaberry. No mesmo Uruguai dos jovens Tupamaros que expropriavam bancos para patrocinar a

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E a ideia de sequestrar Mitrione para trocá-lo por 150 Tupamaros? A ideia era sequestrar dois ianques como valor de troca pelos presos, essa era a estratégia. Mitrione vinha [ao Uruguai] pela AID (Agência Internacional para o Desenvolvimento), mas na realidade vinha por um programa de segurança política, algo assim, que os EUA tinham. Vinha preparar a polícia para os interrogatórios, né. Para os novos métodos. Dava cursos de picana (choques com um tipo de varinha), retiravam os moradores de rua e treinavam as novas técnicas com eles. Ele introduziu novos aparelhos, tecnologia elétrica mais moderna... Com maior voltagem da que se utilizava no Uruguai com a delinquência social. E, bom... Ele nunca reconheceu que esteve no Brasil, mas soubemos que ele esteve. Está documentado que ele esteve no Brasil até o golpe de 1964, treinando a polícia. Foi instrutor de policiais brasileiros nos EUA, pois esteve na escola de policiais em Washington e esteve na República Dominicana, casualmente, no Brasil em 1964 e na Dominicana em 1965. Não foram encontrados documentos nos arquivos dos EUA que possam provar que ele esteve na República Dominicana, mas sempre soubemos que sim. Com certeza para os EUA Dan Mitrione não tinha muito valor, ele tinha valor para o Uruguai. Para os EUA ele era um peão, não muito valioso. Era um instrutor numa escola de policiais, tinha sido delegado, era um homem não muito politizado. Quando ele foi interrogado [pelos Tupamaros] ele justificou que, bueno, ele tinha nove filhos e necessitava do dinheiro e por isso ele tinha aceitado ir até o Brasil, porque o salário que tinha como delegado no Texas, no Texas?, em algum estado do Sul, não lhe era suficientemente bom, o motivo pelo qual ele trabalhava como instrutor era econômico. Ele admitiu que era da CIA? Como foi a execução de Mitrione? Não, ele não admitiu nunca. Não se empregou pressão, se empregaram provas: isto é assim, isto é assado. Com Mitrione no MLN se pôs um prazo. Não era o único norte-americano sequestrado na América Latina, nós tivemos casos no Brasil que deram sucesso, aceitaram a troca e houve um caso na Guatemala também. Então nós pensamos que ia acontecer a mesma coisa. E de fato, o sequestro foi no dia 31 de julho, e ao redor do dia 6 e 7 de agosto Pacheco Areco [presidente uruguaio] estava prestes a aceitar. Já havia acontecido reuniões... O ministro de Educação e Cultura foi à prisão de Punta Carretas [onde estava presa parte da direção dos Tupamaros] para negociar, esteve com um companheiro nosso dizendo que havia uma possibilidade de abertura. O vice-presidente era um homem muito negociador, Alberto Abdala, e se Pacheco renunciasse entrava Abdala e de certa maneira a dignidade do Partido Colorado ficava salva, pois Pacheco Areco continuaria tendo a imagem de homem duro na qual apostava e a partir disso, mantendo essa imagem, isso lhe daria possibilidade de se eleger novamente no futuro. E bom, eu acredito que esses sete, oito dias foram um desafio para o Uruguai, foi um desafio para os Tupamaros. Estivemos muito próximos a estabelecer uma correlação de forças muito intensa, que acabou obrigando o governo a fazer coisas que não queria naquele momento. A partir daí, a esquerda se deu conta de que eram as primeiras negociações para o nascimento da Frente Ampla [partido político ao qual pertenceu Zabalza e que, hoje, é base do

presidente Mujica]. Sem o Movimento de Liberação Nacional a esquerda não poderia existir. O governo botou 15 mil policiais nas ruas. Vários companheiros caíram, foi um golpe muito duro. Aí tudo mudou, Pacheco Areco se recompôs e nós ficamos em uma situação muito difícil. Hoje existem muitas discussões sobre o caso Mitrione, sobre a execução de Mitrione. Isso é o que eu posso dar de testemunho pessoal, muitos outros mudaram de ideia e interpretam de outra maneira de acordo com o lugar que ocupam na sociedade. Colocamos um prazo, talvez esse tenha sido um dos nossos erros táticos. Se o governo não aceitasse a troca, no dia 9 de agosto nós executaríamos o Mitrione. Poderíamos ter apostado num prazo maior, continuar pressionando ou sequestrando outras pessoas. A decisão sobre executar Mitrione foi tomada em Punta Carretas [onde estava preso Zabalza e outros dirigentes Tupamaros], nesse dia nos colocaram na mesma cela e todos nós estivemos de acordo em executar Mitrione. Pôs-se um prazo, estávamos em uma situação de debilidade, se ameaçássemos e não cumpríssemos deveríamos nos aposentar da causa guerrilheira. Não havia outra saída a não ser cumprir com a palavra dada. Tempos depois, havia algumas enquetes públicas, onde 34% da população do Uruguai opinava contra a execução, mas 32% da população era a favor. Mitrione sabia o que estava por vir, e que estava dentro do que os Tupamaros, os revolucionários, poderiam fazer. Então nesse momento não era uma execução que fosse despertar a ira de toda a população. Você falou da tecnologia, da forma como se desenvolveu a tortura. Você passou por isso, nos mais de 10 anos de prisão? Claro, o Mitrione introduziu também... Os estadunidenses também trouxeram do Vietnã “el tacho”, o submarino [método de tortura por afogamento] com a água dos chiqueiros de porcos, e não era só água, era no vaso. Em alguns lugares era um tanque de água grande, uma tábua, com essa tábua se amarrava o prisioneiro e se afundava a pessoa. Isso aqui no Brasil também se usou, né? E o submarino seco, com uma bolsa de nylon, eles amarravam uma bolsa ao redor do teu pescoço e puxavam da alça que sobrava. E também a venda e o capuz..., obra ianque aplicada primeiramente no Vietnã. A polícia do Cone Sul não aplicava esse tipo de tratamento com os deliquentes comuns. Tudo isso veio importado. Você passou por todos os métodos de tortura? Não, eu não. Não me aplicaram a picana, a primeira vez que caí me bateram. Caí três vezes, escapei duas. A primeira delas, em julho de 1969, me amarraram e me bateram. Houve uma tentativa de fuga da delegacia onde estávamos e nos bateram, tudo isso antes de Mitrione. Na segunda vez, caí na cidade de Paysandú, onde houve um tiroteio com o Exército e dessa vez não me torturaram. O Exército ainda não estava encarregado de aplicar a repressão, em seguida me encaminharam à Justiça civil e ao hospital de Punta Carretas. Ou seja, dois, três dias após os ferimentos, os médicos de Punta Carretas me fizeram sentir o esforço (risos). O médico era um coronel, tirou os pontos sem anestesia, os pontos internos... Bom, na terceira vez sim, também foi em Paysandú, no mato, outro tiroteio, caí ferido novamente. Houve outro médico, também militar, que me operou e me salvou. Eles diziam que me salvavam por informação, e aí

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sim, após a operação passei pelo “tacho” que me arrebentou todas as feridas e gerou uma infecção, passei também pelo “plantón”, que não é latinoamericano, foi outra introdução ianque de tortura. Os que caíram na Tomada de Pando eles colocavam livros, foi o único caso que eu ouvi, uma maneira mais sofisticada. Em Paysandú eles não tinham livros, de repente queimaram todos... (risos) E sim, passei por isso. Mas o pior de toda a situação é o isolamento. Porque, depois que nos tiraram da cadeia, nos deixaram 11 anos isolados em calabouços subterrâneos. Quais foram os piores dos 11 anos de prisão? Ali, por volta do ano de 1978, estávamos em uma situação psíquica que se transformou numa neurose aguda, a um passo da psicose. Em 1978 completouse 30 anos da declaração dos direitos humanos das Nações Unidas. Nesse ano foi importante a pressão da Venezuela. Então essa pressão internacional fez com que fossem aos quartéis, onde nós estávamos, quiseram ver os calabouços, nas condições em que nos encontrávamos. Mas eles não permitiram. Já estávamos há tanto tempo sem ler, sem ver o sol, sem atendimento médico... O ano de 79 foi um ano rosa, pois essa pressão internacional obrigou os militares a nos dar certa liberdade. Isolados, eu e os companheiros tínhamos contato via cartas clandestinas, que existiram somente no período rosa. Em Paso de los Toros [em outra prisão], antes do período rosa, nos mantiveram 25 dias amarrados nos pés e nas mãos, aí pensamos que estávamos liquidados, acabou. Tínhamos esperança que depois de 10 anos nessas condições, com a pressão internacional e outras repercussões, tudo terminaria... Não tínhamos informação alguma, no desespero pensamos, vamos arriscar a vida: fizemos um projeto de fuga do quartel de Paso de los Toros. Esse projeto nos manteve vivos durante um ano e meio... Aí começaram a permitir a entrada de livros, isso foi fundamental, em dezembro de 1978. Recebi um livro de cálculo, com milhares de exercícios. Os fiz três vezes, enchia as paredes com cálculos. Nós líamos muito sobre biologia, mecânica quântica, isso foi o que nos salvou. Assim nossas cabeças giravam para outro lado que não fosse aquele. Quando caiu aquele satélite, o Skylab [estação experimental de setenta e sete toneladas da NASA], ali pelo Pacífico, isso saiu em uma das revistas de ciências que os militares permitiam. Então começamos a discutir, e nos correspondíamos por carta. A discussão era entre Marenales [Julio Marenales] e eu. Marenales defendia que o vento solar tinha detido o satélite e o fez cair, e eu defendia que o satélite tinha desviado do vento solar e tinha acelerado; então a discussão era: o satélite tinha acelerado ou freado? Em certo momento a discussão ficou tão louca, mas tão louca, que peguei o cartão de uma tampa de caixa de sapato que eu tinha comigo e fiz um desenho da terra e as órbitas e a trajetória e como era a aceleração, a partir do momento que se aproximava da Terra. Pedi para ir ao banheiro e escapei, empurrei o guarda, saí correndo até a cela do Marenales e gritei “Não tá vendo que isso é assim!!!” mostrando o desenho, e ele de dentro da cela me dizia que não. E, bueno, esses são causos de quando estávamos presos. Marenales fez um higrômetro com uma casca de laranja para medir a umidade... A casca de laranja com a umidade diminuía ou aumentava. Esse tipo de coisa... A observação das aranhas, dos grilos...


O poeta nativo do presente por Gabriel Jacobsen e Marcus Pereira foto Gabriel Jacobsen

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olmar Pereira Duarte é cidadão uruguaianense de 80 anos. Homem de fala serena, trejeitos aristocráticos e roupa elegante. Possui uma fazenda na cidade onde nasceu. Tira seu sustento do campo: da criação de gado e da lavoura. Além da agricultura, dedicou muitas décadas da sua vida à cultura do Rio Grande do Sul: é escritor, poeta, folclorista, tradutor, letrista e idealizador do festival Califórnia da Canção Nativista – evento de música gauchesca iniciado em 1971, hoje considerado patrimônio cultural do estado. Também escreveu peças para o Balet Brandsen da Argentina, como a Lenda da Salamanca do Jarau. Por tudo isso, é figura de grande respeito entre os artistas gauchescos. Como poeta, publicou 12 livros. Nessas obras, não se atém ao verso metrificado e rimado, como é de costume na poesia tradicionalista. Ao contrário, muitas de suas obras apresentam estilo moderno com texto livre e branco. Apesar de discorrer majoritariamente sobre o folclore e a vida no campo, acredita – como Jorge Luiz Borges – que esses elementos devem ser o pano de fundo para uma temática universal. Seus escritos diferenciam o gaúcho cultuado pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) do gaúcho real, que usa celular e assiste televisão. Através do festival Califórnia da Canção, deflagrou o movimento nativista, que buscava valorizar a música gauchesca produzida na época. Nos palcos do evento, passaram grandes talentos: Telmo de Lima Freitas, Sérgio Napp, Elton Saldanha... Transcorridas mais de quatro décadas, o Califórnia da Canção Nativista continua sendo um grande holofote para os compositores que se dedicam aos ritmos sulinos. Diante deste currículo, apontamos o gravador para Colmar Duarte. Ele expôs suas idéias num português temperado com entonações e expressões sulinas. Explicou que as manifestações culturais estão sempre em transformação. Contou que não teme a influência estrangeira na cultura regional; de modo que não acredita que tais estrangeirismos possam descaracterizá-la. Reconheceu a importância do resgate histórico feito pelo MTG, mas criticou a exaltação excessiva do passado. “Existe um gaúcho vivendo e fazendo história hoje”, afirmou com convicção. Neste mês de setembro, quando se comemora o dia do gaúcho (20), nada mais oportuno que os pensamentos de Colmar Duarte.

Colmar Duarte, criador do festival Califórnia da Canção Nativa, explica as diferenças entre tradicionalismo e nativismo, defendendo a atualização da cultura gaúcha ao longo do tempo

para esse dia. Então, eles resolveram comemorar por conta própria. Eram tudo gente do interior, entre eles o Paixão Côrtes. Eles pegaram uns cavalos emprestados e conseguiram uma bandeira do Rio Grande. Aí, saíram pelas ruas de Porto Alegre comemorando aquele dia, a data do início da

Qual sua definição de tradicionalismo? O tradicionalismo era um grupo de jovens do Colégio Júlio de Castilhos que resolveu comemorar o 20 de setembro. Esta data não era dia do gaúcho, não era feriado, não era nada disso, ninguém dava pelotas

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Revolução dos Farrapos. O Paixão até contou que aquilo causava espanto: todo mundo parava e olhava, os carros buzinavam... Aliás, numa dessas buzinadas um cavalo se planchou – como diz o gaúcho do campo – escorregou as patas traseiras e caiu. E nesse cavalo andava justamente o rapaz que carregava a bandeira.

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Mas, outro gaúcho que estava junto esporeou o cavalo e chegou junto, e não deixou a bandeira cair no chão. Saiu com a bandeira do Rio Grande sob os aplausos dos curiosos que estavam assistindo. Então, esse fato e outros até trouxeram mais simpatia para o movimento e para esse pessoal que estava ali. No ano seguinte, muito mais gente participou. E assim foi crescendo o movimento tradicionalista ano após ano. O povo do Rio Grande de um modo geral se sentiu bem vendo essa gauchada fazendo um culto à tradição, trazendo à baila todas as histórias, a parte folclórica, as danças... A gente aprendeu que tinha um passado digno de respeito, que nossos ancestrais fizeram história e eram pessoas dignas. E nós éramos herdeiros dessa dignidade e dessa história. Mas esse movimento não fez com que o povo do Rio Grande se sentisse incluído nisso. Tínhamos ancestrais desse quilate, mas nós não éramos isso. O movimento nativista depois ajudou a suprir essa necessidade. E o que é o nativismo? O nativismo surgiu quase que por casualidade. Em 1971, organizei o primeiro festival Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul. A ideia surgiu quando uma letra que fiz para uma música foi sumariamente desclassificada de um festival por ser taxado de um trabalho regional. Aquilo me deixou indignado. Isso fez com que eu organizasse um festival onde só se pudesse cantar coisas do Rio Grande. Só que esse festival gerou outro fenômeno social que foi um movimento cultural chamado nativista, que já não era um culto ao passado, como o tradicionalismo. Ao contrário: era uma vivência do presente. O nativismo é um sentimento que tu tens em relação às coisas da tua cultura, das tuas raízes culturais. Tu és nativista porque tu te orgulhas de ter nascido aqui e de ter uma cultura própria. Tu cultuas isso, mas não tem nada que ver com o passado. É o presente. Nós somos gaúchos agora. Então, o tradicionalismo faz um resgate histórico, enquanto o nativismo celebra o estado atual da cultura... Claro. Porque o tradicionalismo é o culto ao passado, às tradições, ao folclore, a tudo que nós fomos. E o nativismo é uma posição da atualidade, é um sentimento atual. A diferença entre o nativismo e o tradicionalismo é isso. Inclusive quando aconteceu o Califórnia – me perdoem os tradicionalistas – o tradicionalismo estava até um pouco estagnado, não tinha muita evidência. E, com o advento do nativismo, o tradicionalismo se sentiu renovado. Porque a base da coisa está lá no passado, nas tradições e tudo mais... coisas que foram resgatadas pelos tradicionalistas. O movimento tradicionalista e o movimento nativista são dois fenômenos sociais que mudaram a auto-estima e o comportamento do povo gaúcho. São dois fenômenos diferentes, cada um com seu valor. Foram muito importantes para que nós hoje sintamos esse orgulho, sintamos essa estima especial pelo que é nosso, pelo o que é gaúcho. Como você avalia a transformação do gaúcho do passado, resgatado pelos tradicionalistas, para o gaúcho do presente, celebrado pelos nativistas? Eu vejo como uma transição natural dentro da história, porque, a evolução da coisa foi tornando o gaúcho do passado nesse gaúcho de hoje. Em todo o movimento – e se é um movimento está em movimento, não é estático – existem até coisas que saem errado, coisas exageradas. De repente, tu estás

cultuando um tipo humano exagerado, um gaúcho fanfarrão, um protótipo exageradamente prepotente... é um ufanismo exagerado. Eu digo nos meus livros que existe uma diferença entre o gaúcho oficial e o gaúcho real. O gaúcho oficial é esse que desfila no 20 de setembro, que freqüenta os CTGs (Centro Tradicionalista Gaúcho). O gaúcho real é aquele que está lá no interior lidando com o gado e que hoje usa o celular. Eu chego na estância e o peão me diz: “Colmar, morreu um tenreiro, acho que é a doença tal, mas repare aqui”, e me mostra quatro fotografias do terneiro no celular dele. Ou então me liga do celular para me pedir recurso na cidade. Hoje, nas lavouras que nós plantamos, as fileiras da plantadeira são reguladas via satélite. São usados raios laser para nivelar a lavoura de arroz. Então, esse é o gaúcho real. E o gaúcho oficial? O gaúcho oficial é aquele que é apresentado para todo mundo, aquele do CTG, que desfila no 20 de setembro, se veste daquela maneira, dança Casinha, Chimarrita, Balão e algumas danças que hoje não se dançam mais. Enquanto isso existe um gaúcho vivendo e fazendo história. Um gaúcho real que, talvez depois que morra, seja venerado pelos tradicionalistas, visto que eles cuidam da tradição. Nós devemos nos orgulhar do nosso passado, da nossa história. Só que não podemos exagerar, porque ufanismo demais não é bom para ninguém. Então, se nós queremos nos sentir gaúchos, basta participarmos da nossa cultura. Uma cultura que não é melhor que a de ninguém. É diferente, tem suas nuances. Somos gaúchos e somos diferentes dos outros. Esses dias, eu estava tentando explicar para pessoas de outros estados do Brasil por que o gaúcho é tão diferente. Porque o gaúcho passou por uma série de provações para ser brasileiro. Ele é brasileiro por opção, porque ele lutou nas guerras. Senão seria espanhol, uruguaio, argentino... o Rio Grande do Sul teria outro dono. E isso faz a diferença, porque se tu lutas por alguma coisa, tu tens um sentimento diferente dos outros. Os outros estados são brasileiros porque são brasileiros, porque nasceram ali. Como você vê os movimentos separatistas, que querem separar o Rio Grande do Sul do resto do Brasil? Eu não saberia te dizer se isso é bom ou ruim. Existe um ditado muito conhecido que é “dividir para governar.” As coisas menores, as coisas mais compactas são mais fáceis de ser administradas. Não quero dizer com isso que sou separatista. Como também não quero dizer que eu entenda porque a guerra dos Farrapos foi separatista a partir de determinado momento, apesar de não ter começado para isso. Foi num momento de dificuldade, em que o rio-grandense foi tripudiado... O império, muito mais poderoso, tornou as coisas difíceis e então foi proclamada a República Juliana. Isso seria muito interessante... Imagina: se o Rio Grande do Sul anexasse o Paraná, ficaria um baita país, tchê. Mas eu não sou ninguém para dizer se isso seria bom ou ruim, nem sou separatista. Eu estou muito satisfeito com esse Brasil. E acho até que esse Brasil precisa dessa gauchada para sacudir o país de vez em quando. No seu trabalho literário, você percebe alguma influência brasileira? Alguma influência de fora do Rio Grande do Sul? Sem dúvida. Não só brasileira, como universal. Porque as coisas que a gente explora numa poesia, os sentimentos são universais. O poeta fala do

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amor, ódio, saudade – sentimentos que são comuns no Brasil, na China, em Uruguaiana, em Tóquio... Os sentimentos são os mesmos, a maneira como expressá-los é que é diferente. As metáforas que eu uso são gaúchas, mas o que eu falo é universal. Eu tenho um poema sobre o meu rio, sobre o arroio que passa no fundo da estância onde eu vivo, o Toropás. Este rio não é conhecido, não está nos livros de geografia, ninguém sabe dele, mas é o meu rio. Para mim, ele é mais importante que o [rio] Uruguai, como diz o... Quer dizer, o que importa é o sentimento que aquele rio me desperta. Qual a avaliação que você faz da influência de culturas estrangeiras sobre a cultura gaúcha? Por exemplo, a cultura estadunidense que entra no Brasil através do cinema, música, etc... Há poucos dias, eu até discuti com alguns gauchistas de plantão. Um deles me disse: “eu não assisto tal coisa, eu não escuto tal música; porque eu sou gaúcho, e essas coisas não são gaúchas”. Aí eu comentei: “então tu tens medo de ser influenciado, tu não acreditas na força da tua própria cultura”. Eu acredito que a nossa cultura é muito forte. E outra coisa: temos que admitir que o mundo não é feito só de campo, vaca e cavalo. Mesmo no Rio Grande do Sul, existem outras colônias, outras povoações, outras realidades rurais. Temos uma série de mosaicos que formam o mural da nossa cultura. E todas nos dão influências muito fortes. Nós não podemos ignorar isso. Quer ouvir um causo curioso? Na estância, eu tenho televisão com antena parabólica, tanto para mim quanto para os peões no galpão. Então eles assistem e se informam sobre o que acontece no mundo. Quando um parente viu a televisão no galpão, me falou: “tu estás contribuindo para a deterioração da nossa cultura”. Mas como eu posso admitir que eu esteja lá dentro assistindo ao que está acontecendo no mundo, e os empregados ali no galpão olhando para o fogo como um índio primitivo? Eu – que sou um cara que acho que sei pensar – não posso admitir isso. Eles têm que estar à par dos acontecimentos do mundo. Eles têm esse direito também. Claro que também me preocupo, porque hoje em dia, com esse poder da comunicação, os peões estão assistindo televisão e podem ser influenciados pelas grandes nações do mundo. Essas nações podem influenciar fortemente os outros povos, as culturas menores, podem até mudar a maneira de a gente pensar e ver as coisas. Mas, num outro dia, um peão velho veio comentar comigo uma notícia que ele assistiu na televisão sobre um país distante. E ele me disse: “Ba, Colmar, lá no país tal as coisas são bem diferentes; nós podíamos agauchar o mundo todo”. [risadas] Quer dizer, eu estava preocupado com a influência da cultura dos outros na nossa. E ele queria influenciar as outras – para ti ver a fé que ele tinha na nossa cultura.

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Manual de como tomar vinho a dois

Sem fazer sexo depois

primeiro lugar, vinho é tinto. Não se toma vinho branco, não sei se já te 1. Emdisseram. Não se toma. Pode até riscar ali em cima e mudar o nome. Manual de como tomar vinho TINTO a dois. Sem fazer sexo depois. eis aqui um manual que se propõe a algo ousado e não-fácil. Vinho tinto é uma bebida extremamente sensual. É meio sexo. E um convite que inclui 2. Aliás, vinho é um convite cheio de malícia. Sempre. Tu pode convidar alguém pra tomar uma cerveja sem necessariamente querer comer a criatura. Mas, se o convite foi com vinho – logicamente, tinto – é putaria na certa a intenção. Importante! Quando eu digo a dois, entenda-se como a 3. Ah! formação mais adequada para o ato sexual, conforme o gosto pessoal. Dois homens. Duas mulheres. Um de cada. Os dois podem até ser mais de dois. Tá tudo valendo.

por 4. Equedaínãoeu tefazerpergunto: sexo depois? Tu

Há 38 anos em Tabaré Adis Adeba, 25 de setembro de 1974

Relato enviado por um soldado etíope à redação Caros jornalistas, não entendo por que seguem pedindo conselhos ao ex-imperador Hailé Selassié. Depois de anos arquitetando a queda do império, quando finalmente sacamos esse tirano do trono de nossa adorada Etiópia, meus superiores seguem deixando que o velhaco desfrute de parte das suas antigas regalias. Dias atrás, na primeira semana de setembro, quando o destronamos e expulsamos de seu antigo palácio, deram-lhe a honra de sair com suas vestes e lhe trataram com a gentileza com que se trata a uma moça. Para quê? Para quando chegasse ao carro que o traria para sua nova prisão o ancião olhasse para o automóvel e dissesse “mas este fusca não está a minha altura”.

tem que ter um motivo muito bom pra isso. Ou muito ruim, neste caso. Se não tiver, não precisa ler esse manual. Vai lá, toma o vinho, come a(s) pinta(s) e deu.

fuma maconha. De forma 5. Não alguma. Fumar unzinho a dois também é meio sexo. Então é

uma questão matemática: meio mais meio... cem por cento de chance. Tu dá aquele doisinho entre a terceira e a quarta taça e, quando tu te der conta, vai tá dentro de alguém e/ou vai ter alguém(s) dentro de ti. Outra coisa importante é não assistir filme. Climinha de cinema dá tesão. Fato. Evita lugares muito confortáveis, muito aconchegantes.

6.

7.

9. Não fala de sexo. Jamais! 8. aquele amigo elogiar muito, daqui a pouco tu 11. Sabe 10. Evita empata-foda? Esse é o tá trovando a pessoa e o próximo passo Cuida a distância.

momento dele. Convida é o que tu não quer. E se quer, já te a mala pra compartifalei lá em cima pra deixar de ler essa lhar a vinhota! porra. Sai fora! Sabe esses lugares legais que a gente vai pra curtir um som, dançar e tal? Também não é uma boa. Começa dançando... Sei não. O seguro morreu de velho. Evita o frio. Aquele friozinho... pede um calor humano. E calor humano...Melhor não.

12. 13. calor também não é bom. 14. Muito Primeiro porque não se bebe vinho no calor. Depois porque calor sugere, né... Esquenta em cima, liga embaixo. Não pode.

Olha, acho que com essas dicas tu te previne bem dessa trepada. Leva a pessoa num lugar que não seja legal, onde a música não preste e não se possa dançar, evita a proximidade, não fala de sexo, não queima fumo, não faz elogios e ainda leva aquele malaempata-foda-castiçal-do-caralho junto contigo que é muito pouco provável que tu faça sexo. Se ainda assim a pinta te quiser, é assédio sexual. Denuncia. setembro/ 2012 #16

Constrangido pela idade de Selassié, cerca de 80 anos, o coronel quase acatou o pedido. Então eu, apesar de soldado raso, quebrei o protocolo: pigarreei, mirando meu superior de tal forma que aquele coxinha logo ficou sério. Olhou com aspereza para o antigo imperador e lhe disse doce “O senhor perdoe, mas é o que temos”. A vontade que eu tinha era de mandar os dois pra dentro do fusca de merda com um empurrão do cabo de metralhadora, mas me contive. Não bastasse as concessões iniciais de meus superiores em deixar Selassié sair com suas roupas de rei e estar aprisionado junto a seus antigos ministros o major permite que ele siga vestido daquela forma. Como se ainda reinasse, faz questão de reunir-se com o alto escalão dando ordens e exigindo punições de maneira arrogante. E como respondem o coronel e o general? Com falsa subserviência. Sem nenhuma necessidade de tal ação – afinal o matusalém sobrevive de nossa piedade e ouro – curavam-se a Selassié dizendo “sim, meu amo” e “mil perdões vossa senhoria” a cada mando e desmando desse rei sem majestade. Assim, apesar da pouca força, o lunático segue a flutuar pelo palácio como se ainda governasse o país e, apesar de já não governar nem mesmo sua própria cabeça, parece ainda comandar-nos. As lideranças do exército são frouxas demais. Se não endurecermos logo, rapidamente os antigos dignitários terão todo o espaço que necessitam para começar uma contra-revolução e acabar com a liberdade de nossa nova Etiópia. Assim sendo, lhes peço encarecidamente que exponham tal situação. De repente, se forem expostos, meus superiores percebam que o papel ridículo a que têm se prestado é danoso à nossos propósitos revolucionários.

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TABARÉ

Do índio à flecha no coração [Mario Arruda]


TABARÉ #16