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porto alegre dezembro 2011

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NANATUREZADEHERMETO

memória, verdade, justiça

tariq ali • guri de rua • gaveta • ai-4 • catamarã


TABARÉ

O

dia 18 de novembro de 2011 entrou para a história do Brasil: nessa sexta-feira, o Governo Federal sancionou duas leis, uma criando a Comissão da Verdade, a outra instituindo a Lei de Acesso à Informação, que põe fim ao Sigilo Eterno. Trata-se de uma vitória. Mas que sabor amargo tem essa vitória. Por mais fartos que já estejamos de infantis competições com nossos hermanos, é impossível dar uma espiada para o outro lado das fronteiras e não sentir alguma inveja, vendo uruguaios e argentinos na dianteira do acerto de contas com o passado. Mas bueno, todos sabemos que essa não é uma disputa entre países. É uma luta comum pela verdade. E temos todos apenas uma verdade: a que continua sendo enterrada cotidianamente, sem sabermos quem matou Rubens Paiva, quem suicidou Vlado, quem torturou Dilma Rousseff.

Todo e cada dia de memória negada evidencia a falácia da “democracia consolidada”. A ditadura Civil-Militar não acabou: ela se eterniza nos mortos sem nome, nas covas rasas, na tortura desgarrada. Orwell já disse que quem controla o passado, controla o futuro. E o que sabemos de nosso passado? Quem financiou a Operação Bandeirantes? O que se passou no Araguaia? Essas questões não são de mero interesse histórico. A ditadura não se perpetua somente por eternizar nossa amnésia, mas também por nos legar um dos aparatos repressivos mais truculentos e brutais do mundo. Somente sabendo como assassinaram Marighela, ou como foi morto Lamarca, é que podemos entender como a PM de São Paulo produz um cadáver por dia e a do Rio de Janeiro outros 10 mil em dez anos. Sim, o braço militar do Estado mata e tortura mais hoje, em 2011, do que nos idos de 1970, auge da repressão.

E não se contenta em ser máquina do extermínio material: o Sigilo Eterno é também uma máquina de extermínio simbólico. É aí que Aschwitz encontra a Operação Condor: os capangas e burocratas sempre agiram em tenebrosa sintonia. Não se contentavam em tirar a Vida do Corpo, mas buscavam tirar o Nome da História. Não bastava ocultar cadáveres, devia-se também enterrar a memória. A luta não acabou. Ela apenas começou. Temos de fazer uma Comissão da Verdade de verdade. Não se trata somente de conhecer nossa história. Vai além da “consolidação da nossa democracia” e ultrapassa até mesmo nossa insaciável sede de Justiça. A Comissão da Verdade tem de ser nossa bandeira fincada contra o fascismo. Tem de ser nossa mordida na mão que tenta nos calar. Tem de ser nossa barricada contra os coveiros da segunda morte de nossos mortos. Tem de ser o pranto de nossa voz rouca que insiste em dizer: ni olvido, ni perdón.

Ariel Fagundes, Chico Guazzelli, Dani Botelho, Felipe Martini, Gabriel Jacobsen, Guilherme Dal Sasso, Iván Marrom, Jessica Dachs, Júlia Schwarz, Juliana Loureiro, Leandro Hein Rodrigues, Luciana Bênia, Luísa Hervé, Luna Mendes, Maíra Oliveira, Matheus Chaparini, Marcus Pereira, Martino Piccinini, Michele Oliveira, Natascha Castro Projeto Gráfico: Martino Piccinini • Diagramação: Luísa Hervé Capa: Luísa Hervé Colaboradores: Bruno Ortiz, Eugênio Neves, Luís Henrique Vieira, Luísa Freitas dos Santos, Paola Alfamor, Tomás Piccinini, Vasco. Tiragem: 2 mil exemplares Contatos: comercial@tabare.net tabare@tabare.net facebook.com/jtabare @jornaltabare Distribuição: Palavraria • Espaço Contraponto • Ocidente • Tutti Giorni Casa de Cultura Mario Quintana • Comitê Latino-americano • Instituto NT • Nova Olaria

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Pastores diplomáticos Gerou rebuliço, esses dias, a renovação do passaporte diplomático do missionário R.R. Soares (aquele que aparece no horário nobre da tevê). Uma semana antes, tinha sido a vez do bispo Edir Macedo (aquele que é dono de tevês, jornais, rádios...) ter sua renovação. Há anos, a benesse é concedida aos representantes da Igreja Católica. Agora que os evangélicos também têm sua bancada no Congresso, a regalia se espalha entre os líderes cristãos. Esse passaporte concede arregos como a dispensa de filas e revistas de bagagens. Entre 2006 e 2010, foram concedidos 328 passaportes diplomáticos sob a alegação de “interesse do país”. Nunca entendi muito bem o que significa Estado laico. Em tempo Os representantes do budismo, do islamismo, do candomblé, do satanismo e da Igreja Tabaré da Graça di Vino também se pilharam do passaportezito. Será que vai rolar? La legalización que se aproxima Depois da Argentina, o Congresso do Uruguai está debatendo a legalização do plantio de maconha para uso pessoal. Dois projetos de lei favoráveis à medida tramitam na casa, um da oposição e outro da situação. Hoje, o consumo da erva não é crime no paisito, entretanto, sua compra, venda e plantio seguem proibidos, gerando uma clara e absurda distorção legal. Em tempo Cada vez mais, é consenso que a repressão às drogas não traz nenhum benefício à sociedade. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal recém legalizou a liberdade de manifestação sobre o tema - que, aliás, está prevista na nossa Constituição de 1988.

CARTAS @tabare.net

[Maíra Oliveira]

Chicano, nem debaixo d’água! O governo dos Estados Unidos está ampliando além-mar o muro que separa o Primeiro mundo do Terceiro. O paredão que hoje faz a divisa entre Tijuana (no México) e San Diego (nos EUA) será substituído por um ainda mais alto e que avançará cerca de 100 metros mar adentro. Tudo isso - e mais 20 mil agentes de patrulhamento para evitar que os mexicanos cruzem a linha. Em tempo A polícia mexicana descobriu um túnel subterrâneo ligando Tijuana a San Diego que tinha até elevador e carrinhos elétricos. No local, foram encontrados oficialmente 32 toneladas de maconha, que é só o que os EUA querem do vizinho. Aluno-propaganda Em Alagoas, estudante virou outdoor. O governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) sancionou a lei 7.288 que permite que empresas patrocinem os uniformes dos alunos da rede de educação básica. Além de bancar os uniformes, as empresas devem se

Caros coeditores, mando esta carta para reclamar da fotonovela hedionda publicada na última edição. Caso vocês não saibam, a zoofilia é uma bestialidade que deveria ser crime. Eu só gostei do chapéu do russo. Victorio Popokelvis, veterinário Zoofilia? Preferimos o termo “amor”. Tu diz isso por que nunca conheceu uma ovelhita nova, bonita e carinhosa. Destesto sujeira na parede dos outros: o Toniolo que se piche e saia nu pela rua. Não! Que ele nos poupe de mais feiúra. Tanta

coisa importante para ser vista e dita, e vocês vêm com este cara...lamentável. Jorge Santos, crítico literário Te parece? Bueno. De qualquer forma, a ideia da pintura tribal é interessante, vamo aderir, com feiúra e tudo!

comprometer a fazer melhorias nas escolas e fornecer material escolar. Em troca, estampam suas logomarcas no peito das crianças. Em tempo O governo não fornece o uniforme das crias e ainda tira o corpo fora da manutenção das escolas. Pra onde será que vai a verba da educação de Alagoas? Pela chaminé Meteram a baia do bom velhinho. Três homens arrombaram a Casa do Papai Noel em São João Batista, Santa Catarina. Bem feito, é o que dá ficar entrando pela chaminé dos outros. Os larápios levaram ursos de pelúcia, enfeites de natal e guloseimas. Um suspeito foi preso, portando um ursinho que ele alegou ser presente de um amigo. O senhor Noel se mostrou muito abalado e não quis falar com a imprensa. A polícia desconfia que os invasores fossem usuários de drogas. Em tempo Tem que tá bem locão mesmo pra acreditar em Papai Noel.

situação desses locais e sobre a origem da Restinga. Existem mais fotos da Ilhota e mapas de como era a região pré-Ilhota, em particular dos riachos? Onde posso encontrar estas informações? Roberto Moreira, adevogado. Pois olha, chê, tem uma penca O Tabaré esteve indiretamente de foto e documento no Arquivo Histórico de Porto Alegre. Vale envolvido em muitos a pena dá uma olhada. E acontecimentos peculiares da caso queiras acompanhar ao minha vida. O último deles foi ver o meu amigo mais tímido Parabéns aos rapazes. A matéria vivo como funciona a remoção forçada de populações pobres, é só da Ilhota ficou excelente e interpretar uma princesinha acompanhar os despejos da Copa tatuada naquela tirinha da última preencheu um grande vazio do Mundo de 2014. Não é mol. no meu conhecimento sobre a edição que saiu. No fim da

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história, ele ainda me aparece beijando um símio! Enfim, uma atitude de homem, certo Darwin? Antes isso do que aparecer pelado na foto da contracapa, né! Fico me perguntando o que pode vir a seguir... Morena Chagas, música. Tímido? Acho que não tamo falando da mesma pessoa. Tem que ver o que esse jaguara inventa nas nossas reuniões! Todas - claro - nudistas.

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Tariq Ali:

acidentalmente ocidental por Gabriel Jacobsen e Luís Henrique Vieira fotos: Gabriel Jacobsen

Q

ualquer um pode titubear sobre o título mais adequado para identificar Tariq Ali. Ele prefere ser chamado de escritor, como nos contou, apesar de ser também professor universitário, ativista político, colunista (do jornal inglês The Guardian) e diretor de cinema. Tariq publicou seu primeiro livro aos 23 anos, já não mais no Paquistão, seu país natal, de onde teve que sair anos antes por se manifestar contra a ditadura militar. Por este motivo, fora enviado por seus pais para estudar na Universidade de Oxford, Inglaterra, onde se tornaria líder estudantil. No fatídico ano de 1968, tornou-se figura conhecida no cenário internacional por conta de protestos contra a Guerra do Vietnã e debates com alguns dos maiores figurões das relações internacionais, como o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, e o ex-secretário de relações exteriores do Reino Unido, Michael Stewart. Daí ficou famosa sua posição antiimperialista que só se solidificou desde lá. Em sua mais recente visita à Porto Alegre, em novembro, gastou alguns minutos de seu disputado tempo conversando com estes repórteres do Tabaré sobre cultura e geopolítica, pouco antes de sua palestra na Câmara de Vereadores. Durante a entrevista, praticando um olhar distante que frequentemente alternava entre os objetos da sala e o teto, pareceu se importar menos com algumas perguntas feitas do que com seu discurso ativista. Apesar disso, não pode ser acusado de covardia, uma vez que sustenta uma posição contestadora de forma muito mais direta e adjetivada do que o circuito intelectual está acostumado. Nós sabemos como o Ocidente vê o mundo islâmico. Como o mundo islâmico vê o Ocidente? Vamos ser claros, quando falamos sobre o Ocidente, estamos falando sobre Estados Unidos, Europa, seus governos e o que dizem sobre o Islã para seus cidadãos. Desde o fim da Guerra Fria, quando o comunismo não era mais o inimigo, o mundo ocidental estava tentando justificar o gasto militar, as guerras. Como manter a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que foi criada para lutar contra o comunismo e nunca lutou uma única batalha durante a Guerra Fria? Eles vieram com algumas coisas, começando com o pilar de direitos humanos junto à política de relações exteriores dos Estados Unidos. Eles poderiam usar isso se quisessem contra regimes que eles considerassem não amistosos. E então, depois do 11 de setembro, a forma como eles usaram o Islã foi uma total denúncia em todos os níveis: como uma religião, como uma cultura, como um povo. E isso criou uma grande onda de Islamofobia no mundo ocidental. Isso foi pego pela mídia, pelos cidadãos. Argumentos que não eram usados desde a Idade Média foram trazidos de novo com uma roupagem moderna. E muitas coisas aconteceram como resultado disso.

Não se pode comparar. O mundo islâmico não é tão homogêneo. No mundo árabe, a população odeia os estadunidenses por causa dos palestinos. No Paquistão, a população odeia os estadunidenses por causa dos ataques de drones [caças não-tripulados], que Obama tem feito ainda mais que Bush. Na Indonésia, não há tanta hostilidade aos Estados Unidos agora. Nos estados do Golfo [Pérsico] e na Árabia Saudita, os regimes colaboram com os Estados Unidos. A Liga Árabe é um osso americano. Não é fácil dizer ou usar o mundo islâmico como uma entidade porque não é uma entidade. Onde está o Ocidente como uma entidade? O terrorismo individual é bastante abordado pela mídia, entretanto tu sempre fazes questão de lembrar a existência do terrorismo de Estado. O que é isso? Bem, o terrorismo individual nós tivemos por centenas de anos. No século XIX e no século XX você tem atos de anarquismo terrorista por toda a

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Europa. Então, não é nada tão novo. O que é novo é que o 11 de setembro foi um ato muito sensacional... Na televisão? Sim, com a imagem enorme que fizeram disso. Então, todo o mundo viu. Mas me contaram, o que é muito interessante, que quando o 11 de setembro aconteceu não existiram celebrações no mundo islâmico. Mas existiram celebrações na América do Sul. No Brasil, no Chile, na Nicarágua, na Guatemala, existiram algumas celebrações. Principalmente privadas, mas algumas vezes públicas. As pessoas se abraçaram umas às outras porque o inimigo tinha sido atingido. E o terrorismo de Estado? O terrorismo de Estado é praticado por grandes potências. É praticado na ocupação do Iraque, onde um milhão de iraquianos morreram. Existem 5 milhões de órfãos no Iraque. E não é só um ato de terrorismo por parte dos Estados Unidos e seus aliados, mas crimes


de guerra. Mas quem vai processar Bush, Cheney, Blair, Aznar? Ninguém. Porque vivemos em um mundo de dois pesos e duas medidas. Um critério para os países que são supostamente os inimigos e outro critério para os países que são parte da campanha do Ocidente. Tu concordas que o terrorismo seja uma reação ao imperialismo? Atos de terror individual feitos por pequenos grupos de indíviduos são sempre uma resposta a algo em algum momento. O caso mais recente é uma resposta à ocupação estadunidense no Oriente Médio. Mas não podemos nunca equalizar atos de terrorismo individual, feitos por pequenos grupos, com movimentos de resistência em países ocupados contra a presença da OTAN, dos estadunidenses e de estrangeiros em geral. Então, é considerado como terrorista qualquer um que desafia no campo [de batalha] a ocupação de seu país. O que significa que você teria que chamar a resistência francesa na Segunda Guerra Mundial e a resistência britânica de terrorismo. Os alemães costumavam fazer isso. Eles sempre denunciavam os movimentos de resistência como terroristas. Eu não aceito isso! Eu acho que a maioria das pessoas não aceita isso. Tu acreditas que o pensamento de que os árabes não querem democracia é uma mentira? Por quê? Bem, não é verdade porque árabes e pessoas de outros lugares sempre quiseram democracia. Tem sido negada a eles. E eles têm lutado por isso de diferentes formas. O país menos democrático no mundo é a Arábia Saudita. Com que frequência você lê sobre isso nas mídias globais? Praticamente nunca, porque a Arábia Saudita é o aliado mais próximo dos Estados Unidos. E a Primavera Árabe, é 100% legítima? A Primavera Árabe é uma expressão da mídia. Tem que olhar para cada país diferentemente. O importante é que as pessoas têm sido empoderadas, se empoderaram por meio do tombamento do ditador da Tunísia e do Egito. Na Líbia, a OTAN [que enviou reforço aéreo aos rebeldes] interveio para fazer esse enfrentamento particular e distorceu esse conflito. A forma como as tropas da OTAN e seus operadores apoiaram a execução ou o assassinato de Qhadafi e como isso foi mostrado nas redes ocidentais foi brutal.

Imagine só, imagine se um grupo terrorista fizesse isso a um líder ocidental, se tivesse filmado e depois posto nas redes de televisão do mundo islâmico... Todo o Ocidente e seus aliados estariam gritando: “Brutais! Incivilizados! Bárbaros!”. Mas foi feito contra alguém que o Ocidente não gosta e está bem, está aceito, se torna parte da cultura política. E atos como esse brutalizam a cultura política do mundo. Pessoas vão sentir: “Ok, se os estadunidenses podem fazer, nós também podemos. Por que não fazemos isso com alguém que não gostamos?”. Tu tens algum conhecimento sobre o relacionamento de políticos brasileiros com déspotas árabes? Eu não tenho nenhuma relação pessoal... Ou melhor, informação pessoal. Mas a relação entre os países ocidentais e os déspotas árabes foi sempre muito próxima. Mesmo com Qhadafi. Condoleezza Rice disse que ele era um modelo para o mundo árabe. Tony Blair, Sarkozy, Berlusconi foram à Líbia e os convidaram para seus países, tomaram seu dinheiro, etc... Eles são todos muito próximos. Mubarak não estaria no poder se os Estados Unidos não o apoiasse. Então, todos esses países foram muito próximos, e os países sul-americanos também. Mas outra coisa é tentar manter esse despotismo no poder, como os franceses fizeram na Tunísia e os estadunidenses fizeram no Egito e continuam fazendo no Iêmen, no Bahrein e na Árabia Saudita. Vamos falar sobre o movimento Occupy Wall Street. Tu pensas que eles têm uma demanda? Vão conseguir algo? Não. Eu penso que são basicamente protestos simbólicos. Mas eles estão irritados com o quê? Estão irritados com seus políticos. Com o Obama, em quem eles botaram esperanças e não fez nada por eles. Mas eles não têm demandas, o que é uma grande fraqueza. E os movimentos foram sufocados pela polícia nos Estados Unidos. O que é importante sobre esses movimentos é que os jovens estão começando a ficar encorajados de novo por todo os Estados Unidos e isso é bom. Mas, eles têm que ir muito além disso. E chegar com um manifesto com dez demandas e então lutar por esse manifesto.

Tu achas que isso faz a esquerda mais forte ou dilui a distância entre direita e esquerda? Faz a esquerda mais forte porque as pessoas estão discutindo ideias de novo. E estão discutindo o que deveria ser feito, o que poderia ser feito, o que é para ser feito. O fato que as pessoas estão se tornando ativas de novo é importante, é algo bom. Qual sua opinião sobre o crescimento do Brasil como uma força influente no mundo? Eu não acho que é uma força influente. Quer ser. É uma força grande, mas essencialmente é uma força na América do Sul. Tem ajudado a América do Sul a ser muito mais independente dos Estados Unidos do que era, mas não sozinho, junto com venezuelanos, peruanos, bolivianos, equatorianos, etc... O que tu pensas da nossa posição de vira-casaca com relação ao Irã? Qual é a última posição? Eu pensei que os brasileiros estivessem se opondo às sanções... Me diz... Primeiro, o Brasil quis mediar o conflito. Agora, quer se abster [em votações no Conselho de Segurança da ONU]. Bem, isso é oportunismo. E eu acho que o ex-ministro de relações exteriores do Lula, Celso Amorim, era muito melhor. Mais forte. Melhor conhecedor do mundo. Eu não sei o que vocês vão fazer, mas o provável é que seja para agradar os estadunidenses. Tu seguidamente te referes à América Latina como a esperança do mundo. O que vês aqui? Nem todos os países são unidos, mas um número grande. Eles não farão só o que os Estados Unidos mandarem. Até o Brasil se recusou a fazer o que os Estados Unidos queriam quanto à Bolívia e à Venezuela: desestabilizar esse países. O Brasil se recusou: “Nós podemos não concordar com eles, mas não vamos fazer isso”. E isso é importante! Então, eu acho que a América do Sul oferece um bom modelo para outras partes do mundo. Bem, esse não é o caso da Ásia, não é o caso do mundo árabe, não é o caso da Europa. Tu achas que algo muda com a aceitação da Palestina como membro da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura)? Não! É um ato completamente simbólico! A única coisa interessante é que os EUA ainda se opõem a isso. Uma coisinha de nada! Não significa nada no campo [de batalha]. 2011 é um ano histórico? Tem sido, mas acho que está terminando mal com os estadunidenses reinstalando o controle no Oriente Médio. Com o exército egípcio jogando fogo e matando manifestantes no Cairo e na Alexandria, com os atentados imperialistas acontecendo. Começou bem e está terminando mal na Europa, com os banqueiros substituindo políticos eleitos, com a vitória da direita na Espanha... Apesar dos “indignados” [movimento espanhol contra a falta de oportunidades no país e diversas instituições globais], a direita espanhola ganhou uma enorme vitória nas eleições recentes. Então, vamos dizer que é um ano que não é uniforme. Memorável, mas não uniforme.

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de corpo e alma por Ariel Fagundes e Tomás Piccinini fotos: Martino Piccinini

T

em que pensar rápido para acompanhar a fala ligeira e cantada de Hermeto Pascoal. Apesar de os gaúchos insistirem em chamá-lo de “Hermêto”, seu sotaque alagoano puxado revela em pouco tempo que o “e” costuma ter som aberto e o “não” soa igualzinho ao “num”. Nós conversamos em um hotel de Canoas após almoçarmos um espeto-corrido de beira de estrada na mesa ao lado da de Hermeto, que comia anonimamente com sua esposa e parceira musical Aline Morena e os demais companheiros de banda. O fato de ser músico profissional há 60 anos, aclamado no mundo inteiro por fãs de jazz e de música brasileira, comumente tido com um gênio, desvanece frente à simplicidade e simpatia de Hermeto. Os 75 anos que ostenta interferem pouco na sua aparência, pois os longos fios de seus cabelos e barbas já são brancos há tempos (frutos do albinismo), mas interferem ainda menos na sua presença de espírito. Debochado e brincalhão, passional e explosivo, o homem aparenta estar mais vivo do que nunca. Por 46 anos, de 1954 a 2000, ele foi casado com Ilza da Silva, mãe de seus seis filhos, que faleceu de um câncer no pâncreas. Desde 2003, mora com a Aline, uma bela mulher, um tanto mais nova, que coassina seus dois últimos discos,

além de ter incentivado Hermeto a gravar seu primeiro DVD e a publicar uma carta em seu site rompendo de vez com as gravadoras. Em reverência eterna ao Agora, Hermeto Pascoal é lúcido como um cristal. Muito do que diz esgaça os limites impostos por uma visão mecanicista da existência. Mas o que alguns chamam de transcendência, nada mais é do que a realidade que ele vivencia desde a tenra infância em meio à mata do Alagoas. Tua iniciação musical se deu na Natureza, né? Sim, nasci num bairro de Lagoa da Canoa. O bairro tinha umas 15 casas e a cidade tinha 20. Lá minha vida era no mato! Eu saía de casa e já tchiu (assovio gesticulado), ia estudar minha gaita ponto. O resto era no mato tocando com tudo que eu encontrava, desde pedra até soprar com folhas, ir pra beira da lagoa tocando... Quando tava chovendo eu gostava mais de tocar com os sapos, eles vêm todos, cantam mais. Tinha árvores que, quando eu chegava, dava a primeira nota e os passarinhos vinham, como se fosse comida. Enchia de passarinho! Meu pai tinha 200 cabeças de gado e aí aconteceu a mesma coisa: eles me viam e já vinham pra cerca, ficavam balançando o rabinho. Eu tocava à vontade e eles vinham só pra escutar o som.

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Quando eu descobri os instrumentos, descobri a inteligência do animal e o preconceito que o povo tem com eles. Até nas religiões que falam que animal tem zumbi, que não tem espírito. O animal tem espírito e tem uns que tem um espírito super adiantado! Tanto quanto o ser humano. Eu descobri isso na prática. Eles não querem saber, querem sentir as coisas. Deus queria (não deu, nem Ele conseguiu) que nós falássemos os mesmos idiomas. Os animais falam o mesmo idioma. E quanto eles gostam de música, sabe? Eu dei a ideia de dedicar um dia pros animais andarem pela cidade, montarmos uns palcos e fazermos shows pros animais [sabia que o Hermeto já fez isso? Leia no tabare.net]. Essa tua sensibilidade se desenvolveu desde pequeno? Eu já nasci com essa percepção. Quando minha mãe tava conversando eu dizia, com aquela vozinha de menininho de sete anos: “Mãe, a senhora tá cantando!”. “Quê isso, meu filho? Tá ficando louco? Tô conversando aqui” – que é justamente o trabalho que faço chamado Som da Aura. A mesma coisa que faço com os animais, fazia com as pessoas (com a voz, com o que elas diziam). Porque eu fui crescendo e vendo que o verdadeiro cantar de nós todos é a fala. Aqui é o meu cantar, o que eu tô dizendo aqui.


O que você fala. O que você pergunta. Se eu fizer o som da sua aura, você se esquece até de me agradecer porque é um negócio tão seu que você não sente nada que eu fiz. Você é o músico, entende? Eu só ponho o acompanhamento [instrumental], só. E tá evoluindo muito, o Som da Aura já vingou no mundo inteiro. Tem músicos fazendo, uns eu procuro dizer o que é que eles deveriam ter feito. Por exemplo, a voz grave tem muito harmônico, tem lugar que fica abstrato demais. Tem que dar um risquinho com o som, fazer um trrrannn, e blurnnn (imitando flauta). Recursos que tem na pintura, né? Música também é pintura. Eu não me inspiro na música pra fazer música. Não sou trouxa de me inspirar no óbvio. Como eu acho que tudo é música, tudo é música mesmo! Ninguém consegue me provar o contrário. Na medida em que tudo é musica, existe música boa e ruim? Claro. Existe o bom e o mau pensamento, ninguém vai dizer que não. Pode-se dizer: “Mas às vezes é mau pensamento pra um e não é pra outro”. Não. O que é mau, é mau. Como na música. Quando é mal temperada, se você botar muita pimenta, ou muito sal, todo mundo vai achar que tá salgado! A não ser um trouxinha que queira dizer: “Não, mas eu gosto salgado”. Mentira! Depois vai beber água sem parar. A mãe da música, pra mim, chama-se harmonia, são os acordes. Eu não gosto dessa música que vem dos Estados Unidos pra cá só pra ganhar dinheiro. Por exemplo, lá no Nordeste tem dois caras tocando ganzá, improvisando, dois violeiros criando, e os caras substituem isso por rap, substituem por essa outra, como é o nome.... Funk? Funk... Mas tem outra que é parecida com o rap, que botaram um nome muito louco. R&B? Essas coisas! Tinha que ter uma lei. A música que faz mal pra alma é pior do que a droga, o crack, do que tudo isso. Isso aí tinha que ser proibido mesmo! Não é censura não, tinha que ser proibido. E tão ensinando nas periferias pras crianças! Tão tirando as crianças de uma droga pra outra que é pior pra alma. Esse que é o problema. A música, ou é ruim ou não é. O cara que tá fumando maconha não vai dizer que é ruim, ele vai dizer que é bom, não é isso? Então, o cara que tá escutando uma música dessas também tá dizendo que gosta, né? “É, essa é boa” (imitando um viciado). Mas o que é ruim, todo mundo sente. Só se cala quem quer. Eu não uso droga porque eu já sou a droga, e não uso política porque a minha política é a música. E a tua religiosidade vem de uma tradição familiar? Sim! Eu ia pra igreja, minha mãe era cantora do coro. Meu pai dizia: “Eu não preciso de padre, ele vem todo dia beber na minha bodega”. O padre bebia cachaça na bodega! E levava um vinho pra botar no cálice e dizer que tá tudo bem. Vendo isso aprendi a não censurar ninguém. Deus fala: “Faça o que você mais gosta na vida que é a sua religião”. Meu pensamento é esse. Pra isso, aprendi a não ser contra a religião de ninguém, mas tampouco a favor. Porque eu não vou deixar de ficar tocando meu piano pra ir escutar o padre falar besteira na igreja. Você acha que eu sou maluco!? Tenho é um respeito incrível por tudo.

Eu não desenvolvi o Saber, quase nada, tenho é o Sentir. Sempre acho que, se eu não sinto, vou saber pela metade. Por que eu falo bastante com Deus? Porque Deus diz pra mim. Só que o meu Deus é aquele do hoje. Eu não quero saber do Deus do amanhã, que eu não conheço ainda. O ontem já passou. Minha religiosidade é através da música e do povo e das coisas que eu vejo no mundo. As religiões me convidam muito, todos que vocês possam imaginar me respeitam. Mesmo com essa opinião minha, eles me respeitam! E na minha casa teve de tudo! Há uns dez anos, meu irmão Manoel virou crente, e crente mesmo. Depois a mamãe, com aquela bondade de mãe, achou que tava deslocada, foi na igreja com ele e virou crente também, morreu crente. Minha filha na época era macumbeira, eu ia na macumba, levava instrumento pra tocar, os caras não queriam que eu botasse os acordes, eu dizia: “Não, mas é só isso...”.

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E depois do meu irmão, a Ilza [esposa de Hermeto na época] também virou crente! Aí você não sabe da maior. Chegou o dia de batizar a Ilza, na nossa casa tinha uma piscininha, e os crentes: “Aqui é um lugar muito bom pra batizar a irmã”, já chamando ela de irmã, né... (mal contendo o riso). Os caras vieram com um órgão pra tocar aquelas músicas de igreja e eu peguei um cavaquinho, cara... (risos) Botei maior contraste em cima do cara! Tig-digdig-digdum (imitando um cavaquinho alto), depois pegava o oito baixos [tipo de sanfona] e tocava uma coisa bonita, moderna, e o crente, só pra eu não atrapalhar o negócio: “Você sabe que tá bonito isso aí com o hino?”, e eu: “Opa, que maravilha!”. Ela se batizou, depois veio o câncer num lugar dificílimo que é o pâncreas. Aí quem foi que veio lá pra casa? Encheu de crente! Tinha um que dizia: “Eu rasgo a Bíblia se a irmã não tiver curada!”, falando

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com emoção, sabe? Era a hora que eu conversava com Deus: “O Senhor sabe que eu tô aqui, mas não tô acreditando em nada disso, tenho que fazer a minha parte pelo menos pra não dizerem que eu não tava aqui”. Como quem tava dizendo: “Se ela tiver que morrer, ela vai morrer”. Eu tava com esperança, mas pra ficar junto com os outros. Na minha consciência espiritual, se Ele não quisesse, não ia ter nada disso. Aí na hora do crente ir embora, ele diz pra patroa: “Você sabe, né? Você tem que ter fé...” - jogou a responsabilidade, né!? A mania é justamente essa, falam que vão te curar e depois dizem que, se não tiver fé, não vai ser curada. Já se desculpando, não é isso? Aí a patroa não deixou pra lá, que ela não deixava pra lá mesmo, era uma pernambucana decidida, e disse: “O senhor não leva a mal não, mas ninguém aqui tem mais fé do que eu. Eu é que tô doente”. Aí a minha filha mais nova chorou em prantos: “Minha mãe tá salva! Graças a Deus, minha mãe tá salva!”, e ficou acreditando em tudo isso. Eu até subi no piano depois e fiz uma letra que diz: “Quando Ele chama, não tem jeito não / Nem a fé segura a Sua razão”. A partir desse dia, aprendi a me desligar completamente da fé e ter esperança. Se você tiver esperança, você não é egoísta, não tá exigindo de Deus, como esse crente palhaço tava. Quando a Ilza faleceu, eu tava viajando pra Dinamarca. Na minha volta pro Brasil, foi espetacular. Porque quando eu cheguei em casa, o caixão tava na garagem. E os filhos, ninguém queria entrar primeiro na casa! (risos) Achando que teriam que cuidar de mim... Eu sou um cara espiritualista e realista. Não tenho tristeza, tenho uma realidade tão forte em mim que, se eu chorar, não vai mudar nada. Penso na pessoa do outro lado, como eu levava ela pro banheiro, sofrendo com o corpo já acabado. Todo mundo num sacrifício danado. Que alívio, ela se foi! Pelo que ela plantou na Terra, ela está colhendo lá, de um jeito que Deus sabe e só ela. Mas eu disse: “Deus, nunca vi mãe nenhuma gostar dos filhos tanto quanto a Ilza gostava, e eu já fiz tanta coisa no mundo que eu poderia ter morrido tranquilamente”. Aí Deus falou: “Mas se você quiser ir, Eu te levo. Pode ir agora mesmo”. E eu: “Não, agora deixa eu ficar mais um pouquinho”, já que eu fiquei, né?!

Mas tem que me botar num guindaste. Agora, a mente, a alma, tá maravilhosa. Corre muito mais rápida, mais consciente. Depois dos 60 anos, a mente começou a correr, e sem pressa! Meu espírito anda pelo mundo, tenho a influência linda e espiritual do mundo inteiro. Quando eu tô compondo, a mente tá rodando! E entra as outras galáxias, não pensa que a Terra tá desligada disso. Sabe por que a minha cabeça não explode? Porque eu não me concentro. As pessoas que tem problemas no cérebro ficam se concentrando. Eu, pelo contrário. Aqui (apontando pra cabeça) tem buraco em todo canto. Muitos músicos tiveram problemas na cabeça, o próprio Edu Lobo quase morreu. Quando esse pessoal tinha isso, eu ficava pensando, como será o meu [cérebro]? Por exemplo, eu sinto um negócio no ouvido direito roncando, aquele uhhh, sabe? Mas não dói. Qualquer coisa que não dói, eu não fico nervoso. Fui no médico e falei: “Doutor, eu não quero tratar isso, pra mim o som tá demais, tá gostoso”. Aí o médico, pô, fica em dúvida: “Será que esse cara é doido?”. Faz tipo um zumbido, mas é um som. E é um trombone, tem hora que parece um flugelhorn [tipo de trompete mais grave]. Tem dia que ele tá mais baixo e eu sinto falta. Me levaram num lugar onde as moças põem água morna pra lavar o ouvido, aí mexeram nesse aqui (mostrando a orelha esquerda), que não tinha nada, e agora tem umas cachoeiras: chhh, chhh... O pior não é isso, já peguei um gravador e botei no ouvido. Mas não grava nada. Eu queria mostrar pros músicos. Eu vivo com isso, não me atrapalha em nada. E agora vou falar da novidade. Já fiz o disco “Eu e Eles”, que eu dediquei aos instrumentos, agora eu quero agradecer ao meu corpo. Principalmente o interior dele, o som das artérias. Eu tive na UTI pra uma angioplastia [cirurgia de desobstrução arterial], e eu fiquei três dias no céu. Toda hora eu tava rindo. Botavam aquele aparelho pra pressão e eu escutava tudo, até quando o médico mexia na veiazinha, fazia um som.Todo mundo com medo e eu cheguei pro doutor: “Não é ironia não, mas será que eu posso pagar para vir pra UTI de novo? Mas pra

Sabe por que a minha cabeça não explode?

ficar aqui e escutar esses sons, queria gravar eles”. Ele nem respondeu porque é uma coisa que ninguém espera. Mas esse trabalho vou chamar de “Corpo e Alma”, eu de corpo e alma. Vai ser assim: vou me deitar com a pança para cima e vou bater. O som que tem lá dentro é um céu no corpo. Cada lugar tem uma riqueza de sons maravilhosos. Eu não podia deixar de dar essa notícia, só peço que não tentem imitar, daqui a pouco você vai escutar: “Eu gravei o intestino grosso”, tem uns imitadores que fazem isso, né? Tem nego falando: “Agora eu vou levar uma chaleira para tocar”, dizendo que foi o primeiro a fazer... [Segundo Aline Morena, o disco novo já está em produção e sairá no início de 2012]. No teu site tem uma carta que diz: “Eu Hermeto Pascoal declaro que libero para os músicos do Brasil, e do mundo, as gravações em CD de todas as minhas músicas que constam na discografia deste site”. É. Ali ó (apontando para a esposa), ela que fez comigo. Foi boa essa pergunta que é pra confirmar que tá certo isso aí. (exaltando-se) Porque rapaz, não é brincadeira não, viu?! Aline Morena: Só que, se você ligar pras gravadoras, vão te cobrar mais ou menos R$ 1 mil por uma tiragem de mil cópias. Mas o Hermeto recebia muito pouco disso, aí rompeu, os contratos não valem mais. Eles não aceitaram e continuam cobrando. Você tem que mandar um email pro site [do Hermeto] e pedir uma autorização específica pra gente assinar. Mesmo assim a gente faz!

Eu posso morrer agora, aqui

Tu sente que já cumpriu teu papel aqui, na história da música? Não, nesse dia é que eu pensei assim. Sinto que estou mais leve do que antes. Porque eu posso morrer agora, eu posso morrer agora, aqui. Se eu morresse aos 30, 40 anos, ia chegar no céu, botar um ringue, e ia lutar com Deus. Mas toda vez que eu pego um instrumento pra tocar, um papel pra escrever, a hora que começa um show, nunca é como se eu estivesse fazendo uma coisa que eu estou acostumado. É sempre novo. Por isso digo que eu vivo sempre aqui (batendo na poltrona), o presente. E como a idade modificou a tua música? A idade é a maturidade, né? Maturidade espiritual. Eu não me sinto cansado. O que me segura muito é minha mente, parece que ela vai esticando. Não fica aquela coisa cansada. Claro, se eu quiser subir numa árvore hoje, eu subo!

tabare.net

Tu veio de uma época em que o consumo de música era bem diferente... Sim... Eu acho que a Internet, pra quem souber aproveitar, chegou numa hora divina. Quem tiver um trabalho bem feito, tem chance. Quando a Aline botou a carta na Internet, nenhuma gravadora teve peito pra falar comigo, elas não têm moral pra falar comigo, pra dizer nada! Nem por escrito nem pessoalmente. Pelo telefone, eu vou queimar a boca de quem tiver falando. E se tiver pessoalmente leva um tapa!


O Errado e o Errante por Iván Marrom

S

audade é foda. E que linda palavra. Doce sentimento repentino e filho da puta, que brota sem razão de ser onde ainda se desconhece a serventia do seu papel peculiar. Fiel lembrança tenho de tempos nem tão passados, momentos embriagados como só eles; do corpo que era tão somente um conjunto físico envolto pela alegria da cerveja barata. E era diário. Era mágico. Talvez, confesso, um período nem tão rico em ações diretas, de marcos revoltosos convencionais, de servidão. Mas acho que, no fim das contas, aquilo ali era a minha rebeldia, meu papel produtivo. E teve um fim. O motivo eu não sei, só sei que assim foi. Faz um ano que eu o conheci. Moleque mirrado, baixinho. Por entre os alcoolizados transitava extravagante, peitando. Roupa velha, rasgada e suja. Pele não muito escura, com cascões ao redor do pescoço. Uma piteira de madeira sustentando um cigarro de filtro branco por entre dedos cujas unhas roídas e negras escancaravam a condição inaceitável em que vivia um ser humano. Chamálo-ei de André, não gostaria de explaná-lo de forma alguma, sendo ele um personagem folclórico da noite cidadebaixense. Minha moto estava na frente do bar, estacionada. Subi e o guri queria andar também. Mesmo sem conhecê-lo, permiti que acelerasse. Hoje eu tô mais anárquico. Não chego ao nível crítico de abandonar o gonzo, largar de mão a ceva; mas parece que adentrei no (errôneo?) mundo da supervalorização da vagabundagem. É aquele lance de se deitar numa praça no sol do meio-dia, fumar um e esquecer as politicagens que, imersas num senso comum, disseminam desavenças e perpetuam o sistema que tantos fazem questão de criticar. E por aí anda o menino de rua. Sei que está no mesmo lugar. Mas busco outros cantos de Porto Alegre, me dedico a conhecêla melhor e traspasso horizontes, não sendo possível um contato maior com este rapazote. Por ora, faz-se suficiente um crivo vermelho seguido de um beque. E depois outro beque. A boemia era um encargo. Diria um dos meus companheiros, o Saltonzito, que o excesso de libertinagem fodia a saúde da gurizada. Ele sempre reclamava das aftas que vinham depois de tanta Kaiser. Outro parceiro chegou a pegar hepatite alcoólica e eu, às vezes, perdia algumas partes do meu pé quando voltava pra casa tropeçando de chinelinho. Entre tardes e noites de devassidão, um amigo especial: o menino. Agraciava-nos o finório com a extrovertida presença de uma criatura carismática e inteligente, que gostava de ler os cartazes das paredes. Dissera que tinha 15 anos, o que não duvido, apesar da estatura baixa e do corpo esgaivotado. E que moleque mentiroso. Dizia morar na Lima e Silva, sustentando a versão enfaticamente. O piá tava sempre com a mesma roupa, cabelo duro de sujeira. Não moraria com os sete irmãos no 2º andar de um

apê na Cidade Baixa, com a mãe técnica em enfermagem e o pai pedreiro. Destaca-se a astúcia desse adolescente esperto e risonho na tentativa de fixar histórias, viver um mundo paralelo. As humanas, porém robotizadas, compaixões habituais com os guris de rua não o contemplavam. Não contemplavam a mim também. Trata-se de um rapaz diferenciado, mesmo rodeado pelos males das vias da cidade. Coisa mais do caralho essa mentira toda. É tão comumente exposta que se torna uma verdade absoluta. O guri fez história pra mim sendo o malandro de rua que consegue morar num bairro de classe média. Quem mora com a véia há quase 15km da José do Patrocínio até entende o motivo da romantização dessa viagem. Não tiremos, jamais e de ninguém, a única liberdade que temos: a imaginação. É o sonho de um ex-morador da Restinga, evadido de uma tal de Casa Especial Quero-Quero (que é um abrigo da prefeitura) e que dorme, quando consegue, naquela praça da Borges perto do Pão dos Pobres. Conseguir essas informações exigiram meses de uma aprazível vivência antropológica urbana inimaginável para um jornalista rodeado de obrigações diárias empresariais, públicos-alvo e a certeza dos grandiosos mil e quinhentos reais no fim do mês. Eu só tinha a certeza da amizade, do sorriso, da chinelagem. Gastava em bebida todo o dinheiro que os poucos meses de trabalho no Jornal do Comércio me deram. E, em alguma hora, chegaria o menino, triunfante após mais um dia vencido, com um Iván cambaleante entre o Mister X e o Elio, atravessando a calçada enquanto do correr de carros e ônibus naquele asfalto repleto de copos plásticos. Meu MP4 volta e meia aparecia sintonizado na Eldorado. Era o André que saía por aí com meus fones de ouvido cantando pagode. Uma vez, dei pra ele um MP3 de camelô. Fiquei feliz ao vê-lo usar durante umas semanas. Depois ele sumiu com o troço e não me importo nem um pouquinho se foi vendido pra comprar porcaria, ou o que for. A culpa foi minha também; burro pra cacete, esqueci de dar o carregador junto. O fato é que o André sempre usava nossos utensílios e devolvia. O mais legal foi quando emprestamos um celular e ele saiu batendo fotos da Massa Crítica. Nesse mesmo dia, contribuiu na conta do Mister X com os dez centavos que faltavam. Numa noite, na frente do Mr. Dam, me contou que tinha sido adotado por uma mulher chamada Luiza, de Viamão, e que largaria a CB em breve.

dezembro/ 2011 #8

[Maíra Oliveira]

Também disse que já tinha sido adotado por uma senhora de Guaíba, e que só saiu de lá depois que invadiram a casa dela de arma em punho. Histórias que eu chuto, mas não afirmo, se tratarem de invenções. Coincidência ou não, passei uns dois meses sem vê-lo. “Quando vê foi adotado mesmo”, pensei. Não sei. Lembro é que, no seu retorno, estava com roupas novas e limpas. E veio com um papo de que andava com uma gurizada no Marinha, fumando uns baseados de tarde. Nossa convivência diária estava começando a ter fim. Muitas eram as noites pegando o Corujão pra voltar pra zona norte, o que não era nada saudável. Acordadão eu só voltei um dia, quando fui no Elio e o vi com a mão fechada. “Tô dando uns bafos no loló aqui”, me disse. “Duvido”, respondi. Ele ofereceu o paninho, que peguei na hora e inalei com força, sentindo um cheiro forte adentrar as narinas e ir até o consciente que, confesso, queria mais. Tive tino pra ir embora, mas a vontade de repetir e a sensação de alívio ao cheirar loló me fizeram entender o motivo do seu uso entre os guris de rua. O tempo passou e descobri seu nome real. Descobri que os meninos de rua trocam nomes entre si. Descobri que ele não tem lar desde os oito anos. Descobri que outros 100 menores, segundo dados da FASC, apresentam-se nessas condições em Porto Alegre, e que esse número sobe para mais de 1.200 quando de maiores penais. Descobri também que a Cidade Baixa sem o Elio é uma bosta, e que tá rolando uma incongruente higienização social com o fechamento dos bares. A última boemia rolou quando da vinda do Eduardo Marinho (aquele carioca lá, procurem vídeos no YouTube) pra cá, em que o André fez questão de meter um fino pra ele. E acabou-se o que era doce. Subi na moto e parti pro Passo das Pedras...

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Igual

por Pepe Martini

[Paola Alfamor] wix.com/alfamor/alfamor

Todavía se escriben poemas de amor y todavía está la hora de la siesta (con sus viejas calles soleadas). los abuelos son otros, pero también están y el ruido de los niños cuando juegan y el ruido de los amantes cuando juegan y las ganas de contarse todo esto.

Cierto allá lejos de los seres mágicos y los anillos de las promesas y las películas de final feliz están las almohadas borrachas que se aplastan por cabezas libres que sostienen sonrisas allá lejos de mis amores que fueron eternos y de los versos nunca escritos en las cartas duerme mi alegría tan roja de vino tinto con mis carcajadas que pocos escucharon de allá tan lejos viene a visitarme mi vida aún enorme porque casi ha vivido poco podrida llega de mis proyectos rotos linda viene a golpearme o besarme a la salida

EU TAVA PELADO

por Vasco.

Pelado, ensaboado e oprimido por um Box de não mais que um metro quadrado. Tinha acabado de desistir da covardia, foi aí que a porta se abriu. - Quem é? Dividíamos um quarto de hotel em seis homens mais um casal – que conseguia, misteriosamente, dar umazinha na madrugada sem fazer alarde. Nosso aposento era uma montoeira de beliches, colchões, gentes e malas com dois cubículos ao fundo: a privada e o box. Excursão de gurizada de colégio, aquela coisa... Praia, biquínis, bauretes e conhaques. Quem não come ninguém fica num tesão danado. E esse era o meu caso. Ainda assim, desisti do cinco contra um. Um banho rápido e vou beber com os camaradas na sinuca. Nessa hora que eles entraram... -Quem é? -Mostra a lata!

-Quê?! – e o box se abriu. – Tu tá loco, porra?! – com um tapa forte lacrei a porta sanfonada. -Não é ele! Vamos embora. Eram três ou quatro caras. Todos bem maiores – mais secos e vestidos – que eu. Congelei por um instante ou dois tentando entender aquilo tudo. Nossa relação com a turma de São Léo nunca fora muito boa. Estávamos instalados no fundo do ônibus quando paramos para apanhar o grupo deles. Um surdo desafinado, uma bandeira enorme e colorida com o nome do nosso bairro e o proibidão bombando violentamente no som do bonde. A primeira impressão é a que fica. Soma-se a isto uma gordinha - muito especial, diga-se de passagem – do lado de lá. Tão deliciosa quanto ordinária, via-se na cara. Lá pelas tantas da viagem, ela chuta o namorado – um pobre diabo, apaixonado – e arrasta nosso camaradinha

tabare.net

De Sousa da festa para o quarto - o cafofo acima descrito. A segunda impressão só piora as coisas. Agora estava eu ali. Não tinha nada a ver com aquilo. Não comi ninguém e quase apanhei pelado. E não acabava aí! Eu ainda tinha um amigo em apuros pra salvar. Porra, De Sousa! Mais-quedepressa me sequei - ainda cheio de sabão – meti uma roupa qualquer e corri para a bodega. Jamais chegaria antes dos caras, já fui pronto para entrar trocando socos e pontapés e... bebiam e gargalhavam, meus companheiros, ao redor da mesa de pano verde. -Porra, velho! Os caras não vieram aqui?! -Que caras? -Os de São Leopoldo! Invadiram meu banho. Queriam te cagar a pau! -Invadiram teu banho?! (Gargalhadas descontroladas) Sério? Não passaram aqui, não. Retornei ao quarto para terminar meu banho.


[Gabriel Jacobsen]

[Arquivo Pessoal]

Casar

A

Comprar uma bicicleta por Leandro Hein Rodrigues

primeira grande sensação de liberdade e de independência que senti foi ao andar de bicicleta pela primeira vez, ainda hoje uma das lembranças mais claras que tenho de minha infância. Minha Monareta (uma bicicleta aro 20, muito popular nos anos 80) foi o melhor presente de Natal que lembro ter ganhado de meus pais. O tempo passa, cresci, fui trabalhar, me apaixonei, casei. Quando percebi, já havia levado meus discos pra lá. Me senti como andando de bicicleta pela primeira vez, outra vez. E quanta festa desde então, quanto uisque com guaraná nas caminhadas até Ipanema, longas madrugadas conhecendo-nos, loucas experiências, muita música, R.E.M., Pixies, Mutantes, David Bowie, e tudo mais. O prazer em conhecer alguém, gostar do que vê, mostrar despudoradamente nossa alma, com confiança, parceria e, mais que isso, cumplicidade e amor. É como um forte ímã, que nos atrai, nos prende com liberdade e nos faz curtir intensamente a vida com felicidade. É evidente, há momentos em que nem tudo são flores. A gente pisa na bola, ou às vezes se machuca. Faz parte do pacote, e a regra do jogo é adaptação, compreensão de que somos diferentes e que a dor faz parte do crescimento. Tendo habilidade e disposição pra resolver essas questões mais chatas, porém necessárias, sobra um bom tempo para o que é bom: namorar e ser feliz. Dependendo, sobra até espaço pra dar umas pedaladas. Há algum tempo ganhei uma bicicleta, praticamente nova. Tá lá, na garagem, esperando por mim, até que eu tenha tempo pra ela. Dá menos trabalho e é mais barato manter uma magrela, mas dormir abraçado em quem gostamos, ganhar um carinho dos filhos, ah, isso é inestimável!

por Júlia Schwarz

A

noitece. Temperatura amena. Meus cabelos voam e minha pele se arrepia. O frescor é fruto da velocidade. Meu rosto se avermelha. Gotas de suor se formam em minhas pernas. Meu sangue pulsa tão pungente pelas veias que quase o sinto explodir dentro delas. Os músculos do coração se esgaçam. Sístole, diástole, sístole, diástole, sinto. Olho ao redor: uma árvore, duas, três, quatro... vinte. O verde das copas borra o azul do céu. Encharca a imaginação de cores. Os músculos se contraem. Uma chuva de descargas sinápticas escorre brilhante pelos neurônios. Há uma tempestade de pensamentos dentro do cérebro. Fecho os olhos. Regro a respiração. A bomba cardíaca diminui o ritmo. Já não percebo as árvores do passeio, nem as crianças brincando que me fazem desviar. Me descolo da alameda. Enxergo mas não vejo. Sinto... uma pulsação de liberdade se espalha por todo corpo. Um arrepio de felicidade me faz crer que posso ser o que quero. Outro arrepio de felicidade me habilita a refutar qualquer ideia de intangibilidade dos sonhos mais loucos. A bicicleta não me leva a lugar algum. Mas me ajuda a atravessar os labirintos da psique. É no agito do coração, no rodopiar das pernas e na firmeza dos braços ao guidão que meus pensamentos são conduzidos à calma. Não são necessários afagos de mãos ou palavras de outra pessoa. Quando as voltas de bicicleta me devolvem a mim mesma, só eu existo. É o bastante. A rota sem direção tem um destino: minha essência. As pedaladas são a projeção física de uma verdade imaterial. A única pessoa que não pode me abandonar sou eu. A única pessoa que decide meu caminho sou eu mesma. No guidão da bicicleta, não cabem quatro mãos. Mas, no guidão do casamento, sim. Casar e não saber conduzir a vida com a mesma calma do guidão da liberdade é provocar a colisão de duas vidas e perder o rumo. Neste momento, melhor guiar minha magrela pelas ruas desertas dos pensamentos delirantes e pela liberdade de ser feliz sozinha.

Há 45 anos em Tabaré

[Bruno Ortiz] brunortiz.blogspot.com

(08/12/1966)

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MAIS UM AI Saiu o Ato Institucional Nº 4 O general-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco assinou, ontem, o Ato Institucional nº 4, que convoca o Congresso Nacional à promulgação de uma nova Constituição, em substituição à vigente, de 1946. Desde o golpe de 64, os militares (des) governam o país através dos Atos Institucionais. O poder verde-oliva emana dos AIs. Em quase três anos de ditadura, esté já é o quarto, além dos incontáveis ais que reverberam nas paredes do subterrâneo deste governo. Os milicos impediram a posse do presidente eleito, deram o golpe comendo na mão do Tio Sam, perseguiram, calaram, mataram e agora isso: rasgam a já emendada e remendada constituição de 46. A questão que fica é: pode o governo militar ir ainda mais longe?

dezembro/ 2011 #8

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TABARÉ

Guaíba adentro [Pepe Martini]

TABARÉ #8  

Oitava Edição do Jornal Tabaré