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porto alegre maio 2011

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o jornal que dá na pleura

Papagaio abre o bico

aconteceu•morro alto•futebol pampeano•vagamundo•bin laden


TABARÉ

H

á quem pense que os jornais vieram ao mundo para relatar tim-tim-por-tim-tim como a realidade é. Muitos outros exclamam aos quatro ventos que eles não valem os peixes que enrolam. Os mais contemporâneos sequer desperdiçam seus escassos caracteres para refletir sobre uma mídia tão retrô, fadada ao ocaso. O Tabaré, porém, nasce à margem destes e de outros chavões cômicos esmiuçados sem pudor nas classes de jornalismo. Surge com o propósito de desconstruir a fina lâmina de certezas a respeito do que um jornal é e do que ele deveria ser.

O impulso foi a indignação, a percepção de que a revolta por si só não constroi, não vale a pena e não muda. Cansados já de tanta farsa empresarial, tanta falta de coragem e vontade que vai corroendo sonhos e, sobretudo, desse mal-gosto institucionalizado, proposital e obrigatório que envergonha o jornalismo, resolvemos - antes que a vida, inimiga íntima, nos transformasse em apáticos funcionários - botar a cara e a alma a tapa, vestidos apenas de amor e perguntas. Soubemos construir uma ponte indestrutível de amizade, para que nela passem os debates, as novas e velhas ideias, as histórias esquecidas, a arte, o povo, o corpo sangrento da América. Oxalá, tomara, esperamos que esta garrafa cheia de mensagem chegue às mãos dos leitores-navegantes, pra que neles nasçam risos, revoltas, coisas novas.

Ariel Fagundes, Felipe Martini, Gabriel Jacobsen, Leandro Rodrigues, Luna Mendes, Maíra Oliveira, Matheus Chaparini, Marcus Meneghetti, Martino Piccinini, Natascha Castro Projeto Gráfico: Martino Piccinini Capa: Ricardo Fantini Colaboradores: Afonso Badanhas, Guido Kohn, Luísa Hervé, Manoela F. Ribeiro, Marília Má, Rafael Froner Contato: tabare@tabare.net Anúncios: comercial@tabare.net Tiragem: 2 mil exemplares

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Esta foto abaixo retrata a maneira como nos colocamos diante de todo o processo de criação deste jornal. Amparados em nada além de uma fé canina, suportamos um longo período até conseguir lançar a edição que lês agora. Se por ventura algo adiante lhe parecer estranho ou até mesmo inadequado, não dê tanta bola: nós urramos de paixão, um parágrafo após o outro. Mas num tempo em que a alegria rareia, o Tabaré gargalha. Entregamos estas folhas plenas de tinta e verdade, com a esperança de seguir praticando o sagrado delito de ser jovens praticantes.


Polícia do Rio explode a Publicidade: “...no Rio do verdinho cabeça-de-nego...” A PM segue o combate às quadrilhas do poder paralelo. Depois do Tráfico, foi a vez da Publicidade. No clima de tensão criado na Cidade Magavilhosa, a PM isolou duas praças e a avenida Visconde de Pirajá, uma das principais da Zona Sul carioca, por conta de caixas de madeira fechadas a cadeado. Os objetos deram um belo cagaço no esquadrão anti-bombas e ajuntaram bastante gente ao redor. Entre piadinhas de “é o Mister M que ta ali dentro” e “a senha do cadeado é UPP”, uma das caixas foi demolida. Após a explosão, constatou-se uma presença massiva de ar dentro da caixa. O “artefato” fazia parte de uma campanha publicitária. A agência responsável pela patuscada disse que pediu – mas não levou - autorização da prefeitura. Ou seja, a prefeitura sabia! Comunicação interna, a gente vê por aqui. Em tempo Dois dias depois, miliquinhentos quilômetros de distância, Porto Alegre também teve a sua bomba de mentirinha para fazer alarde. Após denúncia de uma moradora, a BM isolou uma praça, duas ruas e uma escola no bairro Petrópolis. Depois de todo furor, ficou constatado que, apesar dos fiozinhos e da semelhança com uma banana de dinamite, tratava-se de uma pegadinha. Oh! Será que o Rio de hoje é a Porto Alegre de amanhã? Mas é claro, meu amigo! No dia em que trouxerem as praias pra cá... O Paulinho caiu Se fosse no tempo dos milicos, isso significaria um companheiro preso prestes a tomar choque na língua de cabeça-para-baixo. Em tempos democráticos, quer dizer que o nosso glorioso Beatle, em visita recente ao país da caipirinha, tomou-lhe um tropicão e se espatifou em pleno Morumbi lotado. Pela idade do tio, poderia ter sido feia a cousa.

CARTAS

Em tempo Há quem afirme que, se fosse no Pacaembú, era pênalti pro Coríntia. Gourmet de crivo já é demais Chegaram ao fim as sessões de degustação de tabaco promovidas pela Souza Cruz. A turma da 7ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho proibiu a multinacional do fumo de pagar pessoas para provarem as variadas opções de Lucky Strike, Free, Derby, Hollywood, Vogue, Dunhill e Carlton disponíveis no mercado. Curiosamente, a Justiça tomou uma atitude após um ex-empregado da fumageira cobrar uma gorda indenização pelos severos problemas de saúde adquiridos após uma longa carreira de degustador de tabaco. [Maíra Oliveira]

De forma ponderada, a empresa argumentou que seus gourmets eram todos maiores de idade e já fumavam antes de receberem para isso. E, na cara dura, afirmou não haver provas de que os danos à saúde dos funcionários estariam relacionados à atividade exercida. A redação do Tabaré não se espantou quando a Souza Cruz divulgou uma nota garantindo que recorrerá da decisão judicial. Afinal, ela vende mais de 60% dos cigarros consumidos no Brasil e produz cerca de 80 bilhões deles por ano. Só provando pra garantir o sabor de tanta fumaça. Deu água na boca? Em tempo Tabaré adverte: cigarro é uma merda. Já viu degustador de bebida reclamando na Justiça?

Jornaleco! Publicação de quinta categoria! Panfleto mal-escrito! Nem pra papel higiênico serve. Calma, gente, tou falando da Zé Horácio... Júlio Milman, animador de festas infantis, Azenha.

Parabéns ao Tabaré pela bela reportagem sobre as baleias francas (“As gordinhas da Patagônia”, março, 1993) publicada na última edição. Aqui em Nova Hartz tá todo mundo lendo vocês! Frida, hortifrutigranjeira, Nova Hartz.

cartas@tabare.net

Achei fantástica a matéria que fala dos grandes músicos da Região

Nordeste. Não li, porém ouvi de um amigo. Aqui em casa todos ouvem a Lysa Luft e agora passaremos a assinar o Tabaré. Como podemos fazer para receber aqui em Três de Maio? Vida longa ao Tabaré! Sidinei Luis Luft, ourives, New York. ¿Y si Dios fuera mujer? Juan Gelman, poeta, Buenos Aires.

Ah, Juan! Essa é tão fácil que vamo deixar pro nosso amigo Mario Benedetti responder:

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Aconteceu Eu não esperava mas aconteceu. Todo bem que eu fiz, se fiz, ela esqueceu, revelando a sua imprudência. Construí um lar, o lar que ela pedia, exigiu-me coisas que ela não queria, é...

Troca-troca coreano A ex-governadora do Alasca, ex-modelo, exrepórter esportiva, ex-candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano e intelectual assumida, Sarah Pallin, causou um reboliço tremendo ao inverter os pontos cardeais das Coréias. Em um debate de rádio, a bonitona decretou: “Temos de apoiar os nossos aliados da Coréia do Norte”. Ficou claro que se tratava de (mais) uma gafe de Sarah. Entretanto, fontes seguras do Tabaré garantem que os serviços de inteligência de Washington já investigam ligações entre a republicana e a maré vermelha do comunismo internacional.

¿Y si Dios fuera mujer? pregunta Juan sin inmutarse, vaya, vaya si Dios fuera mujer es posible que agnósticos y ateos no dijéramos no con la cabeza y dijéramos sí con las entrañas. Tal vez nos acercáramos a su divina [desnudez] para besar sus pies no de bronce, su pubis no de piedra, sus pechos no de mármol, sus labios no de yeso. Si Dios fuera mujer la abrazaríamos para arrancarla de su lontananza y no habría que jurar hasta que la muerte nos separe ya que sería inmortal por [antonomasia]

y en vez de transmitirnos SIDA o [pánico] nos contagiaría su inmortalidad. Si Dios fuera mujer no se instalaría lejana en el reino de los cielos, sino que nos aguardaría en el [zaguán del infierno,] con sus brazos no cerrados, su rosa no de plástico y su amor no de ángeles. Ay Dios mío, Dios mío si hasta siempre y desde siempre fueras una mujer qué lindo escándalo sería, qué venturosa, espléndida, [imposible,] prodigiosa blasfemia.

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A herança do Morro Alto

[Marília Má] euartrock@gmail.com

por Luna Mendes

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quilombo que quebra o estereótipo mostra que negritude não é circo, é luta. A expectativa de ‘assistir’ à cultura negra é frustrada de solavanco; não existe aldeia, não existe casa grande e muito menos senzala. Os remanescentes de quilombolas não praticam o candomblé e a capoeira, pelo menos não no meio da rua. Vivem suas vidas provando que a cultura não é algo estático, mas acompanha a roda do tempo. Conheci a Comunidade Quilombola de Morro Alto e vi de perto o resultado de mais de cem anos de expropriação latifundiária.

tornar uma das pioneiras da luta quilombola no Brasil. A pedido de sua avó, Rosalina Inácio Marques (neta do ex-escravo Felizberto Marques), Wilson Rosa deu início à luta jurídica pela regularização das terras. Em 1975, ele encontrou no gabinete do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) o mapa original da fazenda. Essa documentação foi somada ao testamento de Rosa que havia sido encontrado no Arquivo Histórico de Osório anos antes. Apesar de estar amparado por provas concretas, Wilson conta que foi taxado até de louco ao longo de sua batalha.

Um direito roubado Em 1887, Rosa Osório Marques deixou em testamento, dentre outros pertences, as suas terras para vinte e quatro escravos. Originalmente, a fazenda de Morro Alto tinha três sesmarias e meia, o equivalente a cerca de 47.600 hectares. Rosa morreu em janeiro de 1888, quatro meses antes da abolição da escravatura. No entanto, o Estado não reconheceu o direito dos negros de assumirem a posse das terras e outras riquezas contidas no testamento: jóias, cavalos e cabeças de gado.

O direito dos remanescentes de quilombolas a ocuparem seus territórios é garantido pela Constituição de 1988. Porém, em 2000, após anos de reivindicação da comunidade de Morro Alto, o Ministério Público Federal (MPF) abriu um processo requerendo somente 30 por cento da área original da fazenda. Baseado em um duvidoso laudo antropológico produzido pela Ufrgs, o Incra reconheceu apenas dez por cento da área requerida, resultando em 4.600 hectares. Ficaram de fora as regiões da Prainha e do Faxinal, duas áreas com comprovada remanescência quilombola.

Desde o século XIX, os herdeiros de direito viram seus hectares demarcados e cercados por outras pessoas. Isso motivou a Comunidade de Morro Alto a se

Descendência guerreira Resistência define essa comunidade que permaneceu em suas terras apesar

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da pressão política, econômica e até militar. Em 1963, houve um levante para reconquistar a área e implantar uma reforma agrária. Seu Manuel Chico, um dos mais antigos lideres da localidade, chegou a ser preso nessa ocasião. O levante teve forte repressão do governo Ildo Meneghetti que, temendo novas manifestações, cedeu lotes de terra a militares. Enquanto eles ocupavam as partes boas e produtivas, os piores terrenos eram revendidos aos verdadeiros proprietários do espaço. Passados onze anos desde a abertura do processo pelo MPF, a situação ainda não está totalmente regularizada. O reconhecimento das terras é apenas uma forma simbólica de reparação. Não há compensação suficiente para uma história de violência e expropriação que continua até hoje. Dentro do território da comunidade de Morro Alto existe uma pedreira extraindo riquezas do solo que nunca serão devolvidas. É lamentável que os remanescentes quilombolas precisem mobilizar décadas de luta para reconquistar um direito que nunca deveria ter sido questionado.


Rivalidade às pampa por Rafael Froner

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rfroner@gmail.com

entro desta região na esquina da América do Sul, em formato de entrecot e delimitada pelo rio Uruguay, muito além desta irmandade cultural e territorial que surge e se desenvolve entre os povos livres e quase livres desta pampa, algo demonstra cabalmente a simbiose que pode existir entre dois coletivos separados por fronteiras imaginárias – no caso, os riograndenses e os uruguayos. Muito além do churrasco, da milonga e do mate, se observa a partir da grande manifestação popular da era moderna – o futebol – a simpatia (vamos definir desta forma) que existe entre bastiões destas duas nações: Internacional e Peñarol; Grêmio e Nacional. Uma relação talvez mais profunda do que o mero desejo de ser, que se construiu a partir de características compartilhadas desde as suas origens, sublevada por enfrentamentos históricos e confirmada pela sua gente, através de uma declarada preferência bilateral que raramente foge à regra. As duplas possuem origens similares, baseadas na velha dicotomia que moldou o futebol sulamericano nos seus princípios: o clube do “povo” contra o clube das “elites”. O Grêmio tem sua origem na colônia teutoriograndense e de comerciantes e industriários da zona norte e região metropolitana de Porto Alegre; o Nacional, que leva no escudo o azul e vermelho do traje de José Artigas, se ergueu como bandeira dos legítimos criollos uruguayos, que fundaram o clube para quebrar a hegemonia inglesa no futebol da época. “A gente vê isso em todo o Prata, sempre um dos clubes representa esse lado platino duma forma mais forte. No Uruguay é o Nacional, na Argentina é o River Plate e no Rio Grande do Sul é o Grêmio”, me re-interpretou a história certa feita o gremista (e, é claro, bolsilludo) Arildo Leal. Não há dúvidas de que, por conta da origem de seus fundadores, dos bairros que representavam ou da face e do comportamento da sua torcida, Inter - fundado por jovens estudantes e trabalhadores dos arredores da Redenção - e Peñarol - clube dos funcionários das ferrovias uruguayas, do arrabalde chamado Peñarol – por possuírem uma abrangência social maior, carregaram por muitos anos a pecha de clubes marginais e estrangeiros (sic), como forças das classes menos abastadas e etnias menos favorecidas de suas cidades, cabendo naturalmente ao rival a bandeira de um localismo mais idealista. É sabido que desde os primórdios do futebol pampeano ocorre com grande intensidade um intercâmbio entre clubes destes países. Dezenas de vezes estes clubes gauchos atravessaram a fronteira seca para certames amistosos, tendo reflexo no seu fluxo de jogadores e na forma de jogar. Esse costume, iniciado através de clubes da fronteira, foi logo absorvido pelos grandes das capitais, de forma que Inter e Grêmio tiveram, desde suas origens até hoje, mais de setenta jogadores e treinadores orientais. Desde dezenas de semi-anônimos, figuras folclóricas e bons jogadores, até os maiores zagueiros que Inter e Grêmio possuíram, é mandatório citar a dupla uruguaya. Hugo De León veio para o Grêmio vindo do Nacional – vitorioso da Libertadores de 1980 em cima do Inter – e

[Luísa Hervé] www.flickr.com/lherve

sendo campeão da América sobre o próprio Peñarol em 1983 - que contava com Jair, célebre ex-centroavante colorado. Esse mesmo Peñarol vendera ao Inter o chileno Elias Figueroa, trazido como resposta colorada à Ancheta, uruguayo contratado pelo Grêmio, jogador do... Nacional. Os enfrentamentos confirmam essa simbiose. Desde a década de 1910, quando a seleção uruguaya excursionou pelo Rio Grande do Sul, até o recente torneio realizado em Rivera em 2010, um longo histórico de torneios e jogos amistosos entre as duas escolas foi construído – onde o adversário escolhido geralmente foi a equipe ‘simpática’ (o Inter, por exemplo, jogou 26 vezes frente ao Peñarol, 12 frente ao Nacional). Em torneios oficiais o próprio destino se ocupou em por seus respectivos rivais frente à frente: Nacional e Grêmio venceram finais de Libertadores contra Inter e Peñarol, e recentemente, o Inter enfrentou o Nacional em duas Libertadores seguidas, além de outros confrontos menos relevantes pelos mais variados torneios sulamericanos que a Conmebol inventou nas últimas décadas. Todavia, esse tipo de dado não poderia demonstrar com mais clareza essa amizade do que a própria opinião de colorados e carboneros, gremistas e bolsilludos. Os torcedores de Grêmio e Nacional ultrapassaram a barreira da simpatia, e hoje suas torcidas possuem forte amizade, enquanto que as torcidas de Inter e Peñarol não são unidas a esse ponto, mas igualmente por um

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sentimento de preferência e apoio mútuo. Nota-se um crescente interesse de ambos os lados nesta troca - que pode ser maior ainda, já que em 2011, pela primeira vez, os quatro clubes disputam a Copa Libertadores na mesma edição: “Eu penso que é uma coisa com as cores”, comenta Rubén, cartunista uruguayo residente em Porto Alegre, colorado aqui e carbonero lá: “o vermelho, o amarelo e negro, são cores naturalmente quentes, orgânicas, entram em conflito com as cores dos outros dois, que são frias, celestes... é natural”, argumenta em meio a cervejas de litro e doses de rum, tentando decifrar isso que nada mais é do que um padrão duradouro dentro da cultura futebolística destas terras irmãs.

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“As portas sempre se abrem pra mim” Entrevista exclusiva com o maior assaltante de bancos e carros-fortes do estado, recém foragido da Justiça por Ariel Fagundes, Gabriel Jacobsen e Matheus Chaparini

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oram 23 condenados. Os brigadianos acabaram pegando negligência e facilitação. Defendi eles até a última porque na verdade eu fugi com minhas próprias mãos. Só que não adiantou, os caras acabaram sendo condenados. Eu também fui, a um ano de reclusão, depois fui absolvido e os caras ficaram. - Tu foi absolvido pela fuga?! – pergunta, incrédulo, o repórter. - Fui. Por isso que tem aquela mordeção toda, que até hoje tá me dando frutos... - Sim, mas tu saiu pelo muro ou pela porta da frente? - O muro é muito alto e tem ganso, né... interrompe Cláudio Vogel, chefe de Papagaio em seu emprego no semi-aberto. Na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), como na Roma Antiga, os gansos eram usados como animais de guarda por serem

fotos: Gabriel Jacobsen

territorialistas e extremamente barulhentos.

Adriano Ribeiro, bem mais conhecido como Papagaio.

- Agora não tem mais, os gansos eu levei e fiz um ensopado (risos). Quando eu voltei [recapturado] eles falaram: “agora tu vai ver, nós botamos cachorro rotweiller!”. E eu falei: “vou levar um filhote pra casa, até é bom, meus filhos tavam pedindo um rotweiller”. Bah, foi a maior folia quando eu cheguei [de volta à Pasc].

Não bastasse a alcunha de maior assaltante de bancos e carros-fortes do estado, é ele quem carrega o título de Único Fugitivo da Pasc. Foi esse homem que nos recebeu com simpatia na sala que ocuparia somente por mais alguns dias.

Enquanto conversávamos, no galpão da fábrica, quilos de terra e argila se transformavam em milhares de telhas que embarcariam rumo à Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes e principalmente Angola. Cada uma delas leva o nome da maior exportadora de telhas do país: a Cláudio Vogel. Diferentemente dos homens e mulheres que prensavam e empilhavam as peças na boca dos fornos escaldantes, estávamos sob o conforto de um ar condicionado no então local de trabalho de Cláudio

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Em seu cartão de visitas lê-se o cargo de assessor do projeto social da Cláudio Vogel. Sua principal tarefa? “Ajudar a organizar isso aí para que esse projeto siga em frente e dure o que durar. É nesse ponto que eu tô entrando, porque eu já tô acostumado a lidar com preso”. Eloquente, confiante e ambicioso, Papagaio conversou por cerca de cinco horas com o Tabaré. Através de uma retórica eficaz, expôs com indisfarçado orgulho seu empreendedorismo e a liderança nata que possui.


A entrevista exclusiva que segue foi uma das mais extensas que Cláudio Adriano concedeu em sua vida.

ser analisada um mês, dois meses. E o que se analisa nessa hora? Os fatores negativos, né? A viabilidade de dar certo: 90%, 80%. Eu ia sempre com 90%.

*** - Na verdade eu fui bem criado. Eu tinha uma família estruturada, minha mãe era uma excelente mãe, meu pai... Só que daí eles se separaram, minha mãe ficou no interior e meu pai foi pra cidade. Aí com 13 anos de idade, minha mãe morreu, foi acometida de uma tuberculose. A gente [ao todo, são quatro irmãos] acabou jogado na rua. Um parente pegou um, outro parente pegou outro... Que que aconteceu? Meu pai veio e nos resgatou. Levou todos pra cidade, ele era taxista. Três anos depois, morreu meu pai. Aí minha vida se tornou um caos. Eu tinha conseguido uma oportunidade no Senai e trabalhava meio turno, era torneiro mecânico e matrizeiro. Não consegui concluir o curso. Os conhecidos – que, na verdade, não eram amigos; eram conhecidos – tavam fazendo pequenos furtos e roubos de carro, e assim eu fui entrando pro mundo do crime. Dezesseis anos comecei na vida ilícita. Imagina, tinha três irmãos pra sustentar em casa, comendo polenta e feijão. Aí um dia apareceu um jovem: “ah, roubei um tocafita”, “tá, mas como é que tu fez?”, “vendi, peguei tanto” - que era duas vezes mais que o meu salário. Aí fui indo... Com 17, conheci os caras que assaltavam banco. E aí eu comecei a roubar. Comecei com pequenos postos bancários, essas coisinhas. E aí começou a minha história, né? Larguei o emprego, comecei a ganhar dinheiro entrando no mundo do crime, e cada vez mais. Aí comecei a pensar que eu tinha que me articular, fazer coisas maiores e foi o que acabou acontecendo.

Eu tenho pavor de arma

Tabaré: Como foi teu primeiro assalto? Foi uma agonia, imagina tu pegar uma arma na mão e fazer um assalto com 16 anos de idade. Era uma irresponsabilidade, eu podia matar alguém. Era um menor sem responsabilidade alguma. Três meses depois, eu tava assaltando banco. E como é que foi essa passagem tão rápida? É que assim, na verdade, eu sempre fui um cara que teve bom estudo. Eu era pra ser engenheiro. Eu sempre fui um cara muito inteligente pra essas coisas, sabe? Pra articular, pra montar, pra programar. Quando eu entrei nesse mundo do delito, do assalto a banco, ah, eu já assumi a frente na hora. Assumi uma liderança e já formei minha própria quadrilha. Eu era o linha-de-frente, fazia tudo.

Antes das portas com detectores de metal, era mais fácil? É, no tempo que eu era novo, era muito mais fácil. Não tinha nada, era só entrar. Como é que o cara faz pra entrar com uma porta daquelas? Ô cara, pra te falar a verdade, faz muitos anos que eu não... Eu parei de assaltar banco em 96. Aí parti pro carro-forte e larguei isso aí. E por que essa mudança? Porque era muito mais capital. Mais fácil ou mais difícil? Mais difícil. E qual é a diferença de capital? Ah, enorme, porque no banco eu pegava 100 mil, no carro-forte eu pegava um milhão. Mas eu digo pra vocês, a minha vida serve como um bom exemplo. De tudo isso, o que é que restou? Graças a Deus, uma grande experiência de vida. Porque o resto foi só sofrimento.

O que tu sentia durante as ações? Dá medo? Medo todos nós temos, né? Não existe pessoa que não tenha medo. Principalmente se tu sabe que tá cometendo algo que pode tirar a vida de um ente querido de alguém. Eu nunca gostei de fazer aquilo. Tanto que todas as vezes em que as pessoas falam comigo eu digo: “eu não me identifico com o que a mídia criou”. O que a mídia criou faz parte da mídia.

E o que a mídia criou? Um estigma, né? Minha fuga da Pasc foi o ponto de partida. Se criou “o cara mais perigoso do estado do Rio Grande do Sul”. E eu nunca fui um cara perigoso. Nem gosto de usar arma. Eu só usava nas minhas ações e depois guardava. Nunca tive em casa, nunca andei armado. Eu tenho pavor de arma. É incrível, às vezes eu falo e as

O meu problema foi a ganância

pessoas dão risada. A minha vida sempre foi trabalhando. Daí aparecia alguma coisa boa e eu ia lá e fazia. Pegava as armas, fazia, guardava as armas de novo e ia trabalhar. [Segundo Cláudio Adriano, seu primeiro negócio foi um restaurante que abriu aos 19 anos. Depois disso, foi proprietário de uma agência de turismo e de uma loja de automóveis. Atualmente, mantém um posto de combustíveis no sul de Santa Catarina. Que tipo de arma tu usava? Ah, armamentos diversos, né? Olha, eu digo uma coisa pra vocês. A importância do meu passado, das coisas que aconteceram comigo... Eu gosto de falar sobre essas coisas para que isso crie uma consciência

Tua quadrilha tinha quantas pessoas na época? Sempre foram quatro. Eu perdi duas quadrilhas inteiras, morreu todo mundo em ações. E como se impõe essa liderança? Com inteligência, né? Uma empresa funciona da mesma forma: quando tu é um cara destacado, tu automaticamente vai assumindo um posto, afinal, se tu sabe fazer muito bem aquilo, ninguém se preocupa. Na época dos meus delitos, eu sempre era um cara bem articulado. Então pegava o pessoal, sentava: “vai ter que ser assim, assim, assim...”. Como eu era de confiança e sabia muito bem organizar as coisas, o pessoal não se preocupava com isso. “Vai lá, o que tu fizer tá bem feito”. Custa muito tempo e esforço pra planejar uma ação? Isso é uma coisa que às vezes tinha que

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de que o mundo ilícito não é futuro pra ninguém. E não tem quem fique sempre livre, né? Não. Isso não existe! Não digo que tu vai pagar por todos crimes que tu cometeu, mas um dia tu vai prestar contas pra Justiça. Não tem como não prestar. E acontece de uma pessoa cometer alguns crimes e sair fora? Tem muitos que são assim. Eu poderia ter saído. O meu problema foi a ganância. Eu, com 25 anos, tava bem de vida. Podia ter saído e seguido minha vida normalmente. Só tinha um processo [por assalto à mão armada]. Não tem uma indisposição com os antigos companheiros? Não... Se não quer mais, sai e segue tua vida. E tu conseguiu construir um patrimônio? Na época, sim. Depois, eu acabei... Com essas vindas pra prisão, acabei descapitalizando. Gasta muito, né? E a vida na clandestindade? É muito cara. O que faz ela custar tanto? É que tu não para em lugar nenhum, né? Tu tem que estar morando classe média-alta, num bom condomínio, num bom bairro. O aluguel é caro, tu não pode comprar o imóvel porque, se tu comprar, amanhã ou depois tu tem que botar tuas coisas pra dentro e sair. Entendeu? Daí tu gasta muito. Eu cheguei a gastar, em 50 dias que eu fiquei na rua, 40 mil reais. Me apavorei com meu gasto. Mil reais por dia. E andando sempre com um volume grande de dinheiro, né? Sim! Sempre em espécie. No mínimo, dois mil na carteira.

Quando entrei no mundo do assalto a banco, ah, já assumi a frente na hora

Como é saber que tu tá sendo procurado e amanhã tu pode abrir a porta da tua casa e a polícia estar te esperando? É muito complicado isso. Tu não dorme bem. Tu sempre tá naquela expectativa de que a polícia, às seis horas da manhã, vai tá na tua casa, esteja onde tu estiver. Com família, com filhos, com tudo. É um pânico! Foragido não podia ir a qualquer lugar, tinha que tá vivendo fora do estado. Vai prum lugar, vai pra outro, não tem um paradeiro. A família tem que ser carregada junto, a família sofre junto. E os filhos têm colégio: um ano estuda num lugar, outro ano estuda noutro. É terrível. A primeira família não agüentou. A mulher cansou, largou. Tenho um filho com ela que vai fazer 20 anos. E a segunda família é a que eu montei há 14 anos. Isso que aconteceu na minha vida foi uma tragédia. Eu era pra ser engenheiro hoje e era pra tá ganhando muito dinheiro. Eu, graças a Deus, sou um cara bem relacionado e as portas sempre se abrem pra mim. Se eu não estivesse aqui na Cláudio Vogel, com certeza, eu estaria numa grande empresa em Santa Catarina.

Bicho dá um dinheiro bom, né? Sim...

tava acabado. Abandonei isso e nunca mais usei. *** O projeto social que Papagaio assessorou surgiu a partir de uma iniciativa de Cláudio Vogel. Em 2010, ele procurou a então governadora Yeda Crusius e pôs sua empresa à disposição para empregar presos em regime semi-aberto.

*** Chegou a experimentar drogas? Cheguei a experimentar, mas não... Eu não fui usuário de droga. O que mais me deu determinação e força de vontade pra conseguir dar a volta por cima, foi isso: eu não fui usuário.

Inicialmente o projeto contava com 19 presidiários. De segunda à sexta, eles saíam da Penitenciária Estadual de Montenegro, às 6h30min, para trabalhar na olaria e retornavam à prisão às 17h. Com o emprego, eles tinham carteira assinada e recebiam o equivalente a 75% do salário mínimo. Além disso, cada três dias trabalhados reduziam um dia de pena.

Quais drogas? A única droga que eu experimentei... A maconha eu fumei uma vez só e não teve jeito de eu me adaptar, graças a Deus. E a cocaína eu usei assim, pouquinhos dias, em festinha e tal... mas nunca fui muito. O meu organismo, graças a Deus, não se adaptou! Eu sofri bastante. Tava usando droga aí depois, no outro dia,

- Só que o que aconteceu? Muitos achavam que não precisavam fazer nada e foram prejudicando a produção da empresa. O preso tem que receber oportunidade, mas ele tem que cumprir com as responsabilidades dele como qualquer funcionário.

Lá tu tem boas relações? Tenho, morei lá muitos anos, desde 92 eu sempre... Balneário Camboriú, Itapema, Florianópolis... Eu tinha um biplex ali em Meia Praia. Eu vendi não faz muito tempo. Muito legal ali, me dou bem com todo mundo. Fui bicheiro ali de 92 a 96, antes da primeira prisão.

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Menos de um mês depois que foi contratado pela Cláudio Vogel, Papagaio ampliou o projeto que, além da ressocialização dos presos, passou a investir na prevenção da criminalidade. - Quero fazer palestras em colégios pra pré-adolescentes e adolescentes. Para que eles possam ter uma consciência de que a prevenção é a melhor coisa que existe. No dia 3 de dezembro, Cláudio conseguiu o que queria. Ministrou a primeira palestra de sua vida para 32 alunos de 11 a 16 anos da escola de futebol do Centro Integrado de São Sebastião do Caí. Seu objetivo era utilizar a história de sua vida como um exemplo a ser evitado. - Quando eu fui conversar com aquela meninada eles não sabiam quem eu era. Comecei me apresentando, falei meu nome e eles não identificaram. Quando eu falei meu apelido, mudou totalmente. Eu só via aqueles olhinhos focados, os olhinhos estalados, escutando tudo o que eu tava falando. Começo pela exposição à rua. Por exemplo, a classe operária não tem condição de acompanhar o filho. O pai e a mãe saem pra trabalhar durante o dia e o filho fica na rua. Essa meninada começa a roubar assim, vai um coleguinha: “roubei tal coisa ali no mercado; vamo junto amanhã?”, e o guri vai...

Eu não dou passo pequeno, só dou passo grande

E tu já pensou em escrever um livro? Sim, depois que meu projeto tiver dado certo. Eu quero usar esse livro como um livro de auto-ajuda, de orientação, entendeu? Não adianta eu fazer o livro agora e alegar “eu quero fazer um projeto social”. No ano que

vem [2011], eu vou escrever um livro. Tô planejando, já tenho mais ou menos bolado. Vou fazer um começo lembrando a minha história, o que aconteceu comigo, mostrando de que forma eu consegui inverter toda essa situação e mostrando o resultado do projeto no final. E se a gente conseguir salvar 30% ou 20%, é um grande lucro. É a nossa juventude, velho: nossos médicos, bombeiros, policiais, nosso empresariado, os nossos professores, imagina! Olha o tamanho da responsabilidade desse projeto, a amplitude desse projeto. Isso aí é uma coisa que tem que dar certo, eu não quero desistir. O meu objetivo é grande: eu não dou passo pequeno, eu só dou passo grande. *** - Esses dias eu tava conversando com o Cláudio [Vogel] sobre as dificuldades que eu tô enfrentando. A juíza de Novo Hamburgo me proibiu de sair da empresa. Até segunda ordem, não posso fazer meu projeto na rua, nem palestra eu posso fazer. O prefeito de São Sebastião do Caí, eu só tenho a agradecer a esse cara. Ele veio atrás de mim! Colocou o secretário de Esportes à disposição e disse: “Cláudio, eu vou te dar uma carta de recomendação pra ti entregar pra essa tua juíza. Eu preciso de ti. No ano que vem [2011], eu tenho três escolinhas que vão dar, no mínimo, 220 alunos. Tem que ser tu pra me ajudar nesse projeto”. Eu falei: “tô aí, tô à disposição”. Esse é o meu objetivo. Eu não tô aqui pra trabalhar na parte operacional, eu tô aqui dentro da empresa pra fazer esse trabalho de rua. Graças a Deus, com o respaldo do Cláudio [Vogel]. A palestra em São Sebastião do Caí acabou sendo a primeira e única que Cláudio Adriano ministrou. No dia 25 de fevereiro, agentes da Susepe realizaram uma inspeção surpresa na Cláudio Vogel e o único detento que faltava era Papagaio. Segundo sua advogada, ele

maio/ 2011 #1

estava na cidade vizinha, Montenegro, com aval de seu chefe, matriculando-se em um curso supletivo. Versão confirmada por Cláudio Vogel e por Papagaio ao Tabaré. Esta infração motivou a juíza Traudi Beatriz Grabin a suspender o direito de Papagaio de trabalhar no semiaberto. Sem o líder da equipe, Vogel cancelou o projeto e demitiu os demais apenados que lá trabalhavam. Papagaio permaneceu trancado por 40 dias, até que a mesma juíza permitisse o seu retorno à empresa de telhas. Durante nosso último encontro, realizado no próprio presídio, Papagaio nos confessou que cogitou fugir no dia em que a juíza cancelou seu direito ao trabalho. Apesar disso, nos garantiu que iria cumprir sua pena até o fim, pois já não possuía o mesmo “espírito guerrilheiro” de outrora. Mas o desgosto pelo retorno à gaiola era visível: ele estava bem mais sério e abatido do que nos encontros anteriores. Pediu inclusive que não o fotografássemos assim. No dia 15 de abril, três semanas depois de conversar com o Tabaré, Papagaio não se apresentou ao Presídio Estadual de Montenegro após o horário de trabalho. Essa foi a sexta vez que ele fugiu do sistema prisional gaúcho. *Até o fechamento desta edição, Cláudio Adriano Ribeiro permanecia foragido.

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por Natascha Castro

T

ô no Peru! Tô no Peru, caralho! O cara não parava de falar esse tipo de frase bêbada e eu me perguntava se era realmente uma boa ideia continuar naquele bar. A decoração era tão norte-americana e tudo que se ouvia era uma mistura de sons incoerentes, mescla de tantos idiomas. As paredes feitas do mesmo silhar que serve de base para toda a arquitetura da Cidade Branca não eram suficientes para me fazer “sentir” o Peru. O turismo corrompe a cultura. É uma prostituição, não há dúvidas. Um escritor peruano entendeu esse processo que começou desde a construção da primeira casa espanhola por aqui. José Carlos Mariátegui falou sobre as heranças enraizadas no estupro, na conquista europeia. Ele também falou do segundo abuso, o turismo. Incontáveis pessoas de todos os lugares, na maioria europeus e norte-americanos, vêem no Peru um excelente ambiente para entrar em contato com a natureza, apreciar

por Guido Kohn

H

paisagens bonitas e conhecer uma cultura já morta, mas muito interessante. A questão era simples, o que o Peru vê em si. A maioria das pessoas daqui, sem contar alguns artistas, arqueólogos e historiadores, não se interessa pelo período pré-colonial. Agora, se tu for um turista com dinheiro, qualquer pessoa pode te conseguir chompas e modelinhos artesanais originais, feitos por eles mesmos, com uma técnica ensinada pelos antepassados incas... Suponho que seja assim em todos os lugares. O pior que uma relação forte e dependente com o exterior pode gerar é essa falsidade cultural.

gritando, parece uma discussão em inglês. Não entendo porque quando as pessoas estão viajando são sempre tão expansivas. Ele defende que o Peru é um país extremamente atrasado, usando como exemplo para provar sua teoria o fato de se beber refrigerante em garrafa de vidro e de quase não existir sinaleiras nas ruas. Também critica a falta de estrutura nas cidades e a desorganização geral das entidades governamentais. Vai ganhar um prêmio esse aí. Alguns livros como “As Veias Abertas da América Latina” deveriam ser distribuídos gratuitamente. Principalmente porque não são apenas os

Um alemão na mesa do lado está

europeus que precisam conhecer melhor a história do Sul. Alguns peruanos que conheci durante esta estadia em Arequipa pouco se importavam com os acontecimentos de seu próprio país ou dos vizinhos. A única coisa que conseguiam era repetir o que a televisão prega sobre o demônio populista e seus discípulos. Sequer lembram que também tiveram um presidente populista de direita, japonês, que fazia coisas como distribuir geladeiras para o povo em atos públicos. Mas essa é provavelmente uma generalização tosca de uísque e suco de maçã, porque sinceramente, como disse já cansada para os alemães, franceses e holandeses tão superiormente intragáveis: o turista vive numa bolha, jamais irá conseguir compreender o Peru, simplesmente porque não é peruano. O que dizer de um povo que não gosta de foto nem de perguntas, que usa a apatia para se afastar do turismo troglodita? Um jornalista não pode dizer muito, então bebe com estrangeiros e lamenta em linhas pouco sóbrias...

guidokohn@gmail.com

oy me desperté a los bocinazos. Vivo a media cuadra de la avenida Corrientes, que por suerte no se hace escuchar en todo momento, podría ser mucho peor pero lo cierto es que hoy me desperté a los bocinazos. Hace un año y seis meses decidí mudarme del conurbano a la capital. Intercambiar, aunque sea temporalmente, el verde, el silencio, lo que queda de pureza del aire, por la movida porteña. Hoy en día todavía no me arrepiento, y no creo que lo haga. Buenos Aires tiene infinitas facetas, es una ciudad que puede ser un infierno o pura magia, dependiendo de los ojos del que mire. Yo, por mi parte, decido hacer de este lugar un espacio (enorme) en el que puedo fácilmente encontrar lo que busco. Mil veces escuché la frase “hay gente para todo”, en situaciones variadísimas, a veces hasta degradantes. Pero es que es así, la hay. Si uno tiene la viveza necesaria, se puede pasar por encima de lo que uno no comparte, de lo que uno rechaza, y acercarse a la vida que se quiere tener. Yo creo que es tan simple como la decisión de viajar en bicicleta en vez de colectivos o subtes. Hay situaciones en las que son inevitables, pero

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si en el resto de los casos uno los evita, la vida cotidiana se hace más llevadera. De cualquier manera, no deja de ser un lugar agresivo, por el otro lado. Gran parte de la gente vive en un estado de locura constante, con apuro, con mucha violencia reprimida (o no, que no sé que es peor). Vivimos rodeados de injusticias sociales, corrupción, un cuerpo de policías de los que es mejor mantenerse bien alejados, gente viviendo en situación de

calle en todos lados, calles sobrecargadas de autos y gente, la inseguridad esa que todos exageran pero que en el fondo afecta aunque sea un poco al momento de andar por la calle. Todo eso vive y respira esta ciudad. Pero yo siento el deber de resistir, de promulgar como pueda una vida sana, una actitud que contagie ganas de hacer lo que se puede. Y en un lugar como Buenos Aires, hay miles de elementos para lograr esto al alcance de la mano.

tabare.net

Y es así, creo yo. En el fondo, quizás bien en el fondo, depende de uno nomás situarse donde se quiere estar. ¡Salud! 

#em português no tabare.net


Saudade da Caroline Afonso Badanhas Toc, toc, toc! – Quem bate!? E a Saudade entra... Não diz, Murmura gritos no meu ouvido: Pronúncia de um nome inefável. Conduz, Ardilosa, Minha mão ao bolso: vem um antigo amor sujo com fiapos de algodão. Dá-me De beber no gargalo da garrafa de tragédia destilada. Despe-me da roupa, da epiderme, da carne, dos ossos Sobra o inquilino. – Quem? Eu!?

Há 10 anos em Tabaré (10/09/2001)

Osama Bin Laden, mentor da organização Al-Qaeda, recebe a equipe do Tabaré em sua suíte na ponta sul de Manhattan. Entre baforadas de narguilé, o saudita enaltece as qualidades da Grande Maçã: “É uma cidade muito bonita, adoro correr no Central Park e gosto de estar onde as coisas acontecem. Só me incomodo um pouco com os grandes arranha-céus, me sinto um pouco oprimido”.

“Sim, Nova Iorque é uma cidade muito bonita” Ao falar de seus novos projetos, ele comenta que os anos de trabalho intenso cobram o seu preço: “Eu estive muito ocupado e agora pretendo dar uma sumida, uma desopilada”.

[Manoela F. Ribeiro] www.flickr.com/manoelafribeiro

Momentos antes de ir para o aeroporto, Bin Laden nos conta seu roteiro de viagem: “Sinto saudades da minha terra, em Nova Iorque quase não existe areia. Pretendo visitar minhas esposas e passar um tempo com o pessoal na Serra Afegã. Aquele lugar tem uma paz incrível”.

Co nfere as respo s tas na p roxima edicao!

E, no vai-vem da solidão, masturba o coração. Gemidos... Nome inefável!

Nome inefável!

Nome inefável! se torna

Lambuzada, Beija-me louca. Nome da amada agora na ponta da minha língua.

1. Ex-membro da Juventude Hitlerista representante d’Ele na Terra 2. “Nunca antes na história desse jornal” 3. A família mais explosiva do Texas 4. Milionário saudita que morava numa caverna e fazia vídeos amadores 5. Líder “populista” latinoamericano que mora num barril 6. O Nobel da Paz mais belicoso dos últimos tempos 7. Ditador baixinho de olhos puxados que parece a minha vó 8. Heroi comunista da 3ª idade 9. Italiano misto de Sílvio Santos, Eurico Miranda, Al Capone e José Sarney

FIGURÕES DA POLÍTICA INTERNACIONAL

Excita, Deixa a Lembrança ereta.

ejaculado na boca da saudade.

O jornal que só teme o fim do mês.

Ao se despedir, mal disfarça a excitação: “Essas férias vão ser um arraso!”.

Estende – como lençol sobre corpo nu – o tempo passado sobre a dor c r ô n i c a.

Nome da amada

ANUNCIA NO TABARÉ!

“Vai, fala!” –c a r o l i n e “Qual é o sabor?” – Porra, é salgado!! [Ariel Fagundes]

maio/ 2011 #1

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TABARÉ

Issa Ali, ourives de filigrana [Martino Piccinini]

TABARÉ #1  

Primeira Edição do Jornal Tabaré

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