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Jornal RelevO dezembro de 2014

Guido Viaro

Laís Valério Gabriel

Gustavo H. Dalaqua

O mecanismo

Castanha-chuva

A literatura nos faz melhores?

11 13

O Que Sua Banda Nacional Favorita Diz Sobre Você

16

Jorge Maluco

20

Hilton Cruz

Rita Kalinovski

Thiago Dominoni

05

Luizas e Luizes quando luzem Ademir Demarchi

Cinerário Ryane Leão

Expediente Fundado em setembro de 2010. Editor Daniel Zanella Editor-Assistente Ricardo Pozzo Revisão Mateus Ribeirete Ombudsman Whisner Fraga Projeto Gráfico Marceli Mengarda Impressão Gráfica Exceuni Tiragem 3000. Edição finalizada em 7 de dezembro de 2014.

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Opanijé

12

Tractatus/Teoilogia

14

Luz!

18

Fascínio

22

Digressão

24

Afropunk poético

29

Cenas Urbanas

Daniel Zanella

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Terra Incógnita

Daniel Osiecki

Willian Delarte

Diego Callazans

Priscila Lira

Hugo Simões

Thiago Lisarte

Mariana Sanchez

Ilustrações Todas as ilustrações dessa edição foram feitas pelo Eric Monge Han Schneider – behance.net/mongehan – erichan7@gmail.com. Os anúncios da p. 9 foram ilustrados pelo Alan Amorim – behance.net/alanamorim

Contato @ jornalrelevo@gmail.com

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3 Editorial Nova rota Esta edição que você tem em mãos é um marco na trajetória artística de nosso periódico. Depois de muito se pensar-estudar-postergar, colocamos em prática um sonho antigo: ter um artista plástico para ilustrar nossos anúncios, aos moldes de revistas europeias do segmento. Mais: conseguimos, de modo geral, realmente estabelecer uma concordância entre textos e imagens. O ilustrador teve quase 40 dias para estabelecer um fluxo gráfico que dialogasse com o conteúdo, um problema que tínhamos há tempos e era, de forma recorrente, apontado por leitores e por nosso último ombudsman. Aliás, o ombudsman. Temos outras coisas a dizer: a instituição que representa os leitores e desce regularmente o sarrafo em nossos trabalhos segue firme e forte. Em dezembro, Whisner Fraga repercute os desgastes que tivemos na edição anterior por conta de um imbróglio entre crítico literário e autor #xatiado. A contenda, que bombou nossos emeios e caixinhas inbox, é exemplar de como as coisas funcionam em nossa maçonaria literária, que resguarda notas de algum quadro do Saturday Night Live. A leitura de sua coluna é, sobretudo, indispensável. Assim como nosso mapa astral da música brasileira contemporânea – somos ambiciosos. Por fim, estamos chegando ao fim de ano e mal tivemos tempo para um balanço mais profundo. Sabemos que este ano, para nós, foi significante como um livro de ___________ e intenso como o disco novo do _____________ (coloque os nomes de sua preferência). Uma boa leitura a todos. Evoé!

Errata Na página 18 da edição de novembro creditamos a João Debs um texto e uma gravura que são de autoria de Elaine Stankiwich. As fotos, sim, as fotos são de João Debs. Eita.

PRESTAÇÃO DE CONTAS DE NOVEMBRO DE 2014 Anunciantes

R$ 30 – Nova Mania (total R$30). R$ 50 – Joaquim; Avon; Acquamille; Fisk; Pino; Calceaki; Pão & Vinho; Água na Boca; Distribuidora Acquamille; Defenestrando (total R$ 500). R$ 100 – Allejo (total R$ 100).

Assinantes

R$ 100 – Marilza Conceição. R$ 50 – Rafaela Berton; Munique Duarte; Faena Rossilho; Andréia Gavita; Manoel Ramires; Rita de Cássia Alcaraz; Leonardo Prisco de Souza; Joseph Suss; Fabiano Vianna; Wake Up Colab; Fernanda Dutra (total R$650).

Despesas

Correios R$ 260 / Distribuição R$ 50 / Papelaria R$ 50 / Impressão R$ 1.090

Receita R$1.280 Custo total R$1.450

Balanço R$ -170

Cartas do Leitor Olá, prezados editores. Faço votos de que todos estejam bem! A edição do RelevO de novembro está maravilhosa! Parabéns pelo excelente trabalho. Flávio Cruz Souza Sou artista plástico em formação, de Araucária, e conheci o jornal através de Emerson Persona, que foi meu professora na Belas Artes. Gosto muito do conteúdo do jornal, principalmente imageticamente. Como são selecionadas as ilustrações? Me sentiria honrado em poder contribuir com o belo trabalho de vocês. Igor Rodacki Da Redação: Igor, no caso dos ilustradores e fotógrafos, encaminhamos o material à projetista gráfica do jornal, a Marceli Mengarda. Ela é de Itaiópolis, uma cidade conhecida por sua hospitalidade.

Acompanho há algum tempo o jornal e gosto bastante das crônicas publicadas. Além de leitora, também escrevo alguma coisa. Gostaria de saber qual o critério adotado para publicações no jornal, para saber se posso mandar um texto meu.  Nathalia Tsiflidis Da Redação: o critério é mandar o material para jornalrelevo@gmail.com. Aí a gente lê e te retorna, Nathalia. Não demora muito.

Essa Cilene Tanaka é mesmo genial, viu. Enquanto lia a edição de outubro, podia ouvi-la falando e vê-la gesticulando toda eufórica. Dei muita risada com “Segredo de família” e “No Leblon” – a propósito, gostei bastante do livro da promoção do assinante. Obrigada. Taina Lange Gostei da apresentação da edição especial do Dia das Crianças. Levei para casa e passei o resto do dia brincando de sonhar ao ler as historinhas. Foi uma tarde em que viajei em cada escrito, em cada ilustração – brincando de faz de conta, aplaudi a equilibrista “Glórita”. Vi crianças correndo, correndo – sem saber para onde; girando... girando...; nas cantigas de roda; ensinando couves e galinhas. Penalizada pela Rã algemada; guardei flocos de neve no coração; e confrontei pequenices de hoje e de ontem; lembrando as frutas de meu quintal. Imaginei o menino trocando de lugar com o monstro; vendo ursos com óculos brincando de esconde-esconde. Lembrei do meu choro porque a bola em meu colo voou pela janela do ônibus e me vi – aprendendo a escrever ao lado do pai; com música no coração e; “a lua enrodilhada em minha alma”; coloquei sobrancelhas no escrito; revendo o pai consertando a cerca. Lá estava o menino de pés sem calços correndo como o vento; e outros com bola pulando, quicando em seus pés... Senti a certeza de jamais permanecer caído; e curti o perfume das saudades de ser criança. Aproveitei o meu dia. Raquel Macedo Mestre


4 Ombudsman

Whisner Fraga Uma pequena ficção Suponhamos que exista um livro. E que esta obra tenha sido publicada por uma editora e distribuída em livrarias e outros pontos comerciais. Que o produto seja vendido e que o autor ganhe, de alguma maneira, seus direitos autorais. Que o exemplar possa cair na mão de qualquer cidadão com poder aquisitivo polpudo o bastante para esbanjar sua renda com pequenos luxos. E que, de repente, este leitor não curta de maneira nenhuma o que leu. O que ele poderia fazer? Pedir o dinheiro de volta? Procurar o autor e lhe dizer, um tanto alterado, que perdeu tempo com a leitura? Abrir um processo contra o escritor, que fabricou uma literatura de baixa qualidade? Suponhamos que a editora deste livro fictício tenha distribuído alguns exemplares para a imprensa. Ou que um crítico literário curioso o adquira em uma megastore de um shopping famoso. E que, como consequência de uma ou das duas ações, seja publicada uma resenha da obra. Aí, podem acontecer duas coisas: 1. O texto analítico é bom ou 2. O texto analítico é ruim. A partir daí, outras duas situações podem ocorrer: 1. O artigo fala bem do livro. 2. O artigo fala mal do livro. Se o texto analítico é ruim, o escritor pode ficar sossegado e repreender o jornal por ter veiculado algo de péssima qualidade. Mas ele só fará isso se a resenha for ruim, evidentemente. Agora se o texto analítico é bom, aí podemos ter um problema. Se é bom e fala bem do livro, o autor pode dormir sossegado, cônscio de que seu indubitável talento foi reconhecido. Se a avaliação for depreciativa, aí jornal e articulista podem estar com um pepino à mão. Se o escritor for zen com questões de estranheza e desabono, provavelmente abrirá um Royal Salute, se for um medalhão ou bestseller ou um OldEight se for um iniciante, e beberá um bom gole, enquanto se diverte com a opinião alheia sobre algo que ele criou e sabe, dentro de seus critérios, que tem o seu valor.

Agora, se o autor for arrogante ou mesmo não concordar com a matéria ou com a argumentação, ou quiser fazer um barulho em cima de nada, o que certamente impulsionaria a venda de uns três ou quatro exemplares de seu livro, aí podem acontecer algumas consequências, a saber: 1. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra desabonada pode escrever uma réplica e exigir que o periódico a publique. Neste caso, dificilmente deixará de fazer notar sua altivez e sua dificuldade de lidar com a diversidade de opiniões. 2. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra esculhambada pode escrever uma carta e publicar na seção de leitores. 3. O contista ou romancista ou poeta que teve sua obra depreciada pode entrar em contato com seu crítico, ameaçá-lo com processos, pode publicar um post em seu perfil do facebook, pode ir até as bancas que distribuem os jornais, comprar todos e rasgá-los em casa ou eventualmente queimá-los e assim por diante. A vingança não conhece limites. 4. Etc. A questão que se levanta e que deve ter assustado todos os resenhistas de jornais literários é: até que ponto o crítico pode escrever o que bem entende de uma obra? Até que ponto o escritor pode se melindrar com uma resenha negativa? Bom, responder estas perguntas, quando ficam no âmbito pessoal, é fácil. Cada um faz o que quer quando o assunto se restringe a questões de frivolidade. O complicado fica para quando o autor decide levar a questão à justiça. O escritor pode processar um resenhista que escreveu uma crítica depreciativa, mesmo que feita com argumentos razoáveis, dentro de parâmetros e pressupostos praticamente científicos? A resposta é sim. Existe advogado é para isso mesmo. E o juiz, como se portaria diante de uma demanda desse naipe? Como não tenho conhecimento de caso semelhante que tenha sido julgado em qualquer instância, não posso defender nenhum tipo de questionamento, a não ser que me causa muito estranhamento que um ficcionista ou poeta se posicione desta maneira. Como, todavia, se trata de um caso fictício e como o RelevO jamais passou por situação semelhante, venho publicamente me desculpar por esse texto completamente desconexo e inútil e pedir a todos os leitores e contribuintes deste conceituado periódico que não deixem a literatura nunca chegar a este nível e que rechacem com veemência qualquer tentativa de ridicularizar uma arte que já deu ao mundo presentes como “Grande Sertão: veredas” e “Dom Casmurro”.


5 o mecanismo Guido Viaro

A cabeça de cerâmica tinha os olhos arregalados e a boca aberta. Na expressão daquele rosto a dor era menor que o medo, e ambos inferiores a uma sutil sensação de estranhamento, diante de cada e de todos os fatos da vida. A figura estava incrustada em uma parede ocre desbotada, que possuía oito janelas cobertas por pequenos toldos que já tiveram tonalidades mais vivas de vermelho. Nos dois cantos superiores da fachada, arabescos esculpidos em pedra-pomes tentavam emprestar nobreza à parte mais alta do prédio, da mesma forma que as rugas enchem um rosto de dignidade. As telhas cor de terra transformavam-se em um chapéu que encobria, sobretudo, dúvidas. A porta de entrada era uma boca escancarada envolvida por cornijas que davam sustentação a todo o rosto e eram tão imponentes como dois maxilares vigorosos. No alto da porta, discretos como os primeiros sinais de um bigode no rosto de um moço, lia-se, entalhada em pedra sólida, a palavra “Hotel”. A cabeça de cerâmica era resquício de uma época em que o proprietário da casa propagandeava sua profissão na fachada para atrair clientes. O medo daquele rosto poderia advir de um grande alicate enferrujado pronto para arrancar os dentes que doíam. Os toldos, a pintura, as inscrições em pedra eram sobras de outra época. A personalidade do prédio aceitava águas vindas de várias civilizações, além de escutar o murmúrio de riachos próximos. Quando o sol se inclinava derramava sobre as tábuas escuras do assoalho da recepção, uma massa de vida dourada, que parecia possuir a capacidade de rejuvenescer o prédio soturno. Os amarelos permaneciam por duas horas até serem engolidos por sombras, que se perpetuavam por todo o salão. No fundo dele havia um balcão de madeira escura envernizada, atrás dele escaninhos com as chaves numeradas dos quartos. Sobre o balcão havia ainda

um livro de registros, e uma placa de mármore onde se lia em letras douradas “Senhores hóspedes, escrevam seus nomes no livro de registro, peguem a chave do quarto que desejam e quando forem encerrar suas estadias, coloquem o dinheiro em uma caixa de prata que está na segunda gaveta desse móvel. Agradecemos a preferência”. Quem assinava era apenas “Hotel”. O sol esparramava seu fardo de calores e luzes pelos cantos esquecidos da sala de recepção, bolas de fogo estavam disponíveis aos hóspedes que, por passatempo ou curiosidade decidissem examiná-las, as camadas de coloração, a maneira como se moviam pelo chão, e principalmente seus brilhos. Para um observador solitário não é difícil descobrir analogias entre essas luzes excessivas, ou a falta completa delas, e episódios de sua vida. Apesar dos esforços das bolas de sol, a sala de recepção permanecia um ambiente sombrio, aquela luz poderia ser tanto a das cinco da manhã quanto a das sete da noite. O único som que se ouvia na recepção era o barulho do motor do balcão refrigerado trabalhando, além do ruído distante de carros passando ao longe. O velho elevador com porta trançada por losangos de metal, e que acomoda no máximo uma pessoa e sua mala, permanece desligado e só é ativado se houver um pedido do cliente. Dos vinte e quatro quartos apenas um está ocupado. Há três dias o hóspede não sai do quarto. Mantém todas as luzes acesas durante a noite, ruminando sua insônia sem emitir qualquer barulho além dos passos lentos e sem direção que atacam o chão de madeira. Entre dez horas da manhã e meio-dia, o ruído é de um discreto ronco, depois disso, escuta-se o chuveiro ligado, algum barulho que deve estar ligado ao preparo das refeições, e então o vazio completo, o nada, até que anoiteça e os passos indecisos recomecem.

Antes disso, enquanto a ausência é a única presença sólida, o tempo âmbar entra pela janela que há em frente a seu quarto. O presente engole suas duas consequências, o chão endurecido e amarelado encena o que já perdeu suas formas, as tábuas envernizadas cheiram árvores molhadas, o corredor inteiro é salpicado por uma chuva seca, que ao longo dos séculos só acontece quando não há testemunhas. Dentro do quarto, a luz artificial refletida no espelho revela as caminhadas do tempo pelo rosto do homem. Ele estica com as mãos a pele, seus olhos parecem pertencer a outra pessoa, estão tão ausentes que de hoje em diante não receberão os mesmos cuidados e afeto que ele sempre lhes dedicara. De seu rosto ainda sobraram alguns traços másculos ao redor dos olhos e das bochechas, mas a destruição avançava: pálpebras caídas que dificultavam a visão, a perda de três ou quatro dentes que atrapalhava a mastigação. O que o deixou mais chateado com seus olhos, era que ele esperava encontrar neles um pouco de tristeza, o que descobriu foi desdém. Mas o homem decidiu não brigar com nenhuma parte de seu corpo. Sua indecisão deveria partir de um corpo unido, e não de um que buscasse a guerra civil, para depois da vitória, eliminar os derrotados. Esse homem frágil observava cada canto de seu rosto, tentava descobrir as estratégias do tempo para criar riachos de rugas que sempre conduziam a lagoas de pele sem brilho. Depois de algumas horas ocupando-se com assuntos fúteis, resolveu encontrar outros mais profundos, que pudesse debater consigo mesmo. A volta do relógio foi vã, o vazio espalhou-se como um gás volátil. Isso começou a irritá-lo, fez nova busca e voltou de mãos vazias. Ele precisava se conformar, era um homem superficial cujo corpo estava prestes a declarar guerra civil. →


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Sentado em sua insignificância olhava para o espelho, depois de experimentar raiva, sentiu-a cicatrizando-se. Uma espécie estranha de paz espalhou-se por seu estômago, era um lindo canteiro de flores, que encobria uma sepultura coletiva. Um covarde, muitos dizem, um sábio, afirmam outros, por ter ao mesmo tempo conseguido se livrar de todas as alegrias e tristezas. Foram-se os anéis, os dedos, a mão, o braço, o corpo, a esperança, a memória, o símbolo... Os ouvidos, entretanto, mantiveram-se sempre muito atentos, percebia a água dentro das paredes preparando-se para jorrar assim que pensasse em abrir as torneiras, as tábuas do assoalho estalando sob o peso das décadas úmidas, o ruído do cheiro da palha seca que vazava por um rasgo no colchão. Mas nenhum barulho era humano. O silêncio também rangia, vindo de todos os lados tinha a profundidade que ele não encontrava em si mesmo. Talvez não fosse tão ruim permanecer na superfície. Deitou-se na cama, sonhava ser surpreendido pela incoerência do sono, ser conduzido pelos doces caminhos coloridos repletos de medos inventados. A madrugada espalhava seu cheiro de realidade pelo quarto, a cadeira e as cortinas continuavam sendo cadeira e cortinas. Seus desejos nadavam no fundo de um poço com paredes escorregadias. Os pulmões expeliam com violência as sobras de ar inútil. A lâmina da vida não conseguia atravessar a carapaça do tempo, e o que sobrava eram gotas de um sangue que coagulou antes de existir. O silêncio é estilhaçado por passos longos e pesados vindos do corredor, o exato intervalo entre um e outro e a uniformidade do ruído, transformam aqueles barulhos em uma caricatura. A primeira reação foi uma agulhada de alegria, precisava do contato humano, a solidariedade da dúvida e do suspiro. Um

instante depois se questionou sobre a utilidade dessa convivência. No segundo seguinte percebeu que mesmo se essa relação se provasse saudável, havia algo de apodrecido naqueles passos. A imagem de um porco devorando comida estragada reviroulhe o estômago. O hóspede cobriu a cabeça com o travesseiro, enfiou os dedos nos ouvidos, mas continuou sentindo a suave vibração do chão de madeira. Uma interrupção. Segundos depois os passos recomeçam, ciclos perfeitos, ruído, silêncio, ruído, indo e vindo pelo corredor. Talvez abrir a porta e pedir que pare? A mão não chegou a encostar na maçaneta, ele voltou para a cama, esperar, tudo desaparece, costumava mesmo passar as noites acordado. Os intervalos sem ruído aumentaram, mas quando os passos recomeçavam, a duração e a consistência das pisadas permaneceram imutáveis. Percebeu que por trás do barulho dos pés batendo na madeira havia um outro, muito sutil, que se parecia com o ruído do mecanismo de um relógio à corda. Tentou lembrar-se se havia algum no corredor, enxergou a tabuleta na recepção, a escuridão, o silêncio absoluto, mais nada. A procura mental emendou situações e arrastou para perto de si a figura do porco devorando imundícies, agora parecia que além do ruído, um cheiro insuportável vinha do outro lado da porta. Caminhou em círculos cheirando um vidro de perfume, seus passos cobririam o ruído vindo do corredor.

Aos poucos foi sendo arrastado para dentro de uma poça gelatinosa, perdeu o contato dos pés com o chão do quarto, batia as pernas tentando sustentar-se, mas sempre afundava um pouco mais, a luta durou horas, durante várias vezes preparou-se para aceitar o que vem logo após o afogamento, crispou os dedos esticando as mãos na busca da solidariedade atrasada. Não gritou. Sufocava. Os travesseiros cobriam sua cabeça. Uma luz baça entrava pela janela. Demorou a localizar-se, onde estava, qual era sua história? Camadas de realidade eram cuidadosamente envolvidas em retalhos mágicos cujas cores vivas transformavam em sonhos a dureza cotidiana. O silêncio vencera. O hóspede permaneceu mergulhado na manjedoura de prazeres, sentia o movimento involuntário dos músculos de suas pernas, o corpo recebia o merecido descanso, o espírito, embebido em licores etéreos que durante algumas horas afastam de nós todas as dores, dúvidas e alegrias, pedia para que os olhos fossem semicerrados em sinal de deleite. As pálpebras abriram-se quando encontraram seus sapatos jogados no chão. O polegar esfregou o indicador, os lábios apertaram-se. Teve vergonha do prazer que sentira há poucos instantes. Precisava de mais luz. Abriu a janela do quarto e encontrou uma paisagem que poderia pertencer a três séculos diferentes, rua de paralelepípedos e uma fonte em bronze onde figuras mitológicas eram encobertas →


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por jatos d’água. O dia estava cinzento, camadas de nuvens escolhiam maneiras diferentes de bloquear a luz, alguns fachos conseguiam escapar e brilhavam sobre a cabeça esverdeada de Juno. Àquela hora da manhã ele temia ter ideias, mas essa foi inevitável, olhou para as nuvens, para o seu quarto, para a fachada do hotel e para a fonte, tudo aquilo era construído com invisíveis placas de história, que eram as responsáveis por dar solidez a uma parede ou a uma vida. Mas essa descoberta era apenas parte de sua ideia, a vida como a conhecemos é uma mistura de história, desejos e frustrações. Depois de decifrar como funciona a vida, o planeta e tudo o que há nele, o hóspede resolveu preparar um sanduíche de queijo. Contornou os sapatos caídos, deles queria distância. A primeira mordida espalhou um gosto estranho por sua boca. No espelho verificou se não mordera a língua. Sem encontrar ferimentos assustou-se com a tonalidade pálida que prosseguia por suas gengivas e só mudava para o amarelo quando se transformava em dentes. Continuou comendo o sanduíche, que a cada mordida trazia novos sabores inesperados. A simples fatia de queijo colocada entre dois pedaços de pão tinha um gosto parecido com o de um bife cru, levemente deteriorado. Aquela refeição, apesar de desastrosa, pareceu-lhe inevitável como a história. Aquela era sua história. Deitou-se na cama esperando a chegada dos efeitos deletérios causados pela refeição. Sentiu uma leve sonolência e mais nada, os olhos semicerrados contemplavam a lenta mudança de luzes, o meio-dia foi-se embora e as manchas douradas espalhavam-se pelo chão do quarto, era agradável perceber mudanças. Ele não falou nada, não se mexeu, apenas contemplou mais um dia, visto inteiramente da cama do hotel. Sentiu-se feliz. A noite chegou, e pela expressão do rosto do hóspede ele perdeu sua alegria, parecia preocupado, vestiu

os sapatos e recomeçou a andar em círculos pelo chão do quarto. Fez isso durante horas, o suor escorria por seu rosto, e seus passos começaram a ficar arrastados. Quando deitou na cama tinha a camisa grudada ao corpo pelo suor, estava ofegante e não demorou a adormecer. Os grandes pés marcharam sobre suas preocupações, que latejaram como nervos pinçados. Mergulhou para fugir dos ruídos, procurou flores, perfumes, o sorriso de crianças, encontrou o próprio quarto e seus olhos crivados de veias amarelas, olhando para o espelho. Antes de qualquer conclusão, trovoaram os passos. Ecoavam pelo chão do quarto, mantendo o mesmo ritmo, mas soando com mais força. No fundo escutava-se nitidamente o som de algo parecido com a máquina de um relógio. Enfiou-se embaixo da cama e tentou cobrir a cabeça com o colchão. Inútil, as vibrações espalhavam-se por todos os objetos. Sua própria imagem vibrava quando se olhava no espelho. De repente o silêncio. A alegria desconfiada do hóspede foi suficiente para que ele abrisse a janela e recebesse uma lufada de ar quente da madrugada, sentiu o cheiro que costuma anteceder a chuva, desejou que ela viesse logo e trouxesse o ruído dos pingos se chocando contra as telhas de barro. De repente um barulho que a princípio não conseguiu identificar, mas que depois percebeu serem os mesmos passos alternando ritmos. Os pés agora pisavam na madeira três vezes a cada segundo, e com cada vez mais força. O hóspede entendeu que quem estivesse do outro lado da porta, queria infernizá-lo. Mais passos. Agora eram muito altos e rápidos e aconteciam somente em frente à porta do quarto. Por baixo dela ele conseguia ver os sapatos pretos e lustrosos se movendo. Decidiu escrever um bilhete pedindo ao homem que parasse. Enfiou o pedaço de papel embaixo da porta e logo uma mão enluvada

o apanhou. Durante alguns segundos o homem misterioso leu o pedido do hóspede, depois o jogou no chão. Silenciou por alguns instantes. Só o que se ouvia era o barulho do relógio. Chutou a porta do quarto com toda a força, depois começou a sapatear o mais rápido que podia. Com a ponta do sapato empurrou para dentro do quarto o bilhete que o hóspede lhe mandara. O barulho contaminava tudo ao seu redor, a doença escorria pelas cortinas cinzentas, espalhava-se pelos cantos, por suas roupas, sua comida, pela flor seca que flutuava em um vaso, para finalmente invadir-lhe cada célula, ribombar dentro de seu estômago e pulmões até explodir dentro da cabeça, explosão cheia de ecos. A dignidade do hóspede estava sendo destruída. Pareciam várias pessoas sapateando em frente a sua porta. As pausas eram estrategicamente estudadas para causar-lhe um dano psicológico ainda maior. O hóspede gritou com toda sua força, até perder o fôlego e ter um acesso de tosse. Quando melhorou tomou um gole de água, vestiu seus sapatos, urrava e andava em círculos tentando fazer o maior barulho possível. Mas a situação só piorava, os barulhos que vinham de fora eram sempre superiores aos seus. Ele desistiu, sentado na cama percebeu a janela aberta, aquele poderia ser um caminho, terceiro andar, talvez morresse ou ficasse paralítico, mas terminariam os barulhos. Bem em frente à janela estava a porta. Abri-la e encarar o problema de frente. Sua coragem era suficiente apenas para a janela. Se tivesse certeza de que se abrisse a porta, seria agredido ou até morto, não recearia. Mas o problema era outro, não sabia por que, mas desconfiava que a força que produzia aqueles barulhos, era uma espécie de espírito de todas as guerras. Esse ser era construído por pesadelos, más notícias, choros desesperados, sofrimentos, dor, sujeira, fedores, fome, ódio, →


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esperanças naufragadas, orgulhos, atrás da porta do quarto do hóspede escondiam-se as dores das guerras, e cabia a ele fugir delas, ou tentar lutar contra, para que elas não conseguissem escapar, já que pareciam bastante desconfortáveis onde estavam. Essa inteligência maléfica diminuía-o. Se escutasse sua voz, obedeceria a qualquer ordem. O barulho dos pés era um grito: DeSeSpErO, e ele o acatava, o vento morno balançava a cortina da janela, o chão de pedras pedia pernas retorcidas e um rosto desfigurado. Os passos silenciaram, talvez para que todos pudessem ouvir o impacto de seu corpo. O hóspede olhou para o pão e o queijo que estavam sobre a mesa, sentiu pena de si mesmo. As últimas refeições de um homem sempre foram comoventes. Uma lágrima seca tentou, em vão, escorrer. A brisa cessou, as cortinas imóveis bloqueavam luzes, as cores perderam o viço e o espelho refletia sombras. O hóspede desistira de sua condição, queria abandonar o hotel. Havia escolhido a janela. Desamarrou os cordões dos sapatos, retirou as meias e, descalço, deu o primeiro passo, quase silencioso. A palma do pé sentindo a textura fria da madeira envernizada, nenhuma recordação, medo ou expectativa, apenas o desejo de pela última vez obedecer à vontade violenta dos sapatos do corredor. O primeiro passo foi interrompido, o homem agora chutava sua porta, dez, vinte vezes, com toda a força. Ela começava a ceder, o sapato abrira um rombo na madeira,o caixilho perdia a fixação na parede, a fechadura não resistiria a mais alguns golpes. Os estrondos, que tudo arrebentavam, acabaram rasgando indeterminações, inflaram vontades, mudaram a cor de veias oculares, que passaram do amarelo pálido para o vermelho sanguíneo, o hóspede recuou sobre os próprios passos e voltou a vestir os sapatos. As marretadas não soavam mais como ordens. O destruidor devia estar descansando para reiniciar os ataques. O hóspede encosta o ouvido na porta e escuta, muito baixo, o ruído do relógio, nenhuma respiração ofegante, nem o peso de ossos estalando.

Depois os passos recomeçam, lentos, sem convicção. Os chutes fracos soam como batidas de advertência. O hóspede gira a chave e destranca a porta. Silêncio completo. Antes de sair do quarto ele tem a impressão de sentir o cheiro de matéria deteriorada. Na penumbra do corredor distingue a figura de um homem alto de paletó preto, que está imóvel e de costas, o que dá ao hóspede a impressão de alguém arrependido por suas atitudes. Os restos dourados daquilo que fora um dia, arrastavam-se pelas tábuas escuras do chão, deixando a vista alguns pedaços quebrados de alguma coisa difícil de identificar. O hóspede dá dois passos na direção do homem, que permanece imóvel. Olha para os lados para ver se encontra algum relógio de parede, não descobre nem relógio nem seu barulho. Mais dois passos e o hóspede está atrás do homem, nota que por baixo do paletó ele tem uma espécie de calombo bem no meio das costas. Depois de refletir decide colocar uma de suas mãos sobre o ombro do estranho. Não há qualquer reação. A rigidez e a frieza assustam-no. O homem de preto mexe lentamente um dos braços, um movimento desprovido de sentido, ergue o dorso da mão e encosta na própria testa. Um leve ruído de relógio parece vir de dentro do paletó. As luzes agora criam um halo dourado em torno dele. O hóspede espera uma palavra. O homem parece estar perdendo o equilíbrio, tem dificuldades para permanecer de pé. Encosta-se na parede, deixando de ser um anteparo para a luz que agora incomoda os olhos do hóspede. Ele cobre a testa com uma mão aberta e começa a identificar o que são os destroços espalhados pelo chão do corredor. Para sua surpresa descobre que são pedaços de sapatos de cerâmica, que se quebraram quando ele chutou a porta. Olha para os pés do homem de preto e percebe que vários dedos do agressor estão faltando, e devem estar dentro dos cacos de sapatos. O corredor agora estava completamente iluminado por uma tonalidade de amarelo que só se encontra

nas páginas envelhecidas de livros. O homem de preto apoia-se nas paredes com as mãos espalmadas, mas elas escorregam. Ele cai de rosto no chão. O ruído de louça quebrando-se, depois o silêncio. O hóspede sente apunhaladas suas vontades e esperanças. Um desespero seco faz com que ele junte do chão novos pedaços de cerâmica, e identifique o contorno de um queixo e uma boca sorridente. Depois descobre outro caco, onde dentro de dois olhos perfeitamente azuis, enxerga o reflexo dos seus, que apesar de parecerem envolvidos em uma bruma desesperada, começam a soprar para longe a fumaça escura, e tentam se transformar em um simples par de olhos. A inércia do corpo caído lhe desperta fascínio. Precisa compreender a arquitetura daquela derrota. Tenta virá-lo para descobrir o que há por trás do rosto destroçado. O peso morto cimentou-o ao chão. O esforço é vão. A noite espalha-se pelo corredor. As cores se confundem e ele já não tem mais tanta certeza se o que tem nas mãos são os restos de um rosto. Mesmo assim sabe que não pode esmorecer. Se não consegue mover o corpo, decide despi-lo. Com a destreza de um agente funerário retira o paletó negro. As sombras fazem com que desconfie de seus olhos. Com as pontas dos dedos percebe a saliência metálica em forma de “T”, que sai das costas do homem. A haste precisa ser girada para que aquela alma exista. Uma meia volta é suficiente para iniciar o ciclo, os ruídos frágeis e ritmados não conseguem animar nenhuma parte do corpo. A máquina amarga gira em falso como um relógio sem ponteiros, até perder o fôlego e ganhar silêncio. O hóspede dá corda novamente, encosta o ouvido nas costas do homem, quer sugar todo o barulho. As engrenagens soam seus encaixes. O alívio espalha-se por seu rosto e só vai embora quando o ruído cessa. A escuridão parece aproximar do teto as paredes. Os dois corpos são engolidos pela sombra única. Um deles sorri. Ama os instantes repetidos. Os ciclos que dão alma aos autômatos.


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eu contrai poesia. poesia começou com umas manchas por trás da retina. por trás da retina o mundo em fosforescências fez-se um camaleão. um camaleão africano necrosou o mar e em derrame fez-se leopardo a rajar a débil tez do real seu verniz e o transe. o transe foi me causando mais poesia quando o pus da luz fez-se sincronia com a furta-cor anônima que prenuncia a randômica cor da alma. da alma foi crescendo mais poesia sobre poesia até que manchas de poesia fizeram-se sombras e abscessos nos dias. dias de vírus e puro-veneno, sangue nos olhos, gangrena, infecção, generalizada hemorragia e metástase de sacralização letal desse ritmo que fez-se poesia.

Opanijé

Willian Delarte


11 CASTANHA-CHUVA Enquanto o dia escurece antes que seja chegada a hora da lua estar visível aos olhos, e no mesmo momento em que o vento atravessa até a mínima fresta da janela da sala, Catarina morde uma castanha podre. De tamanho pequeno, mas suficientemente grande para uma-do-pará; ela demora certo tempo em perceber o sabor morto. Não por ter o paladar desatento, mas pelas calmas mordidas que conseguiram triturar primeiramente a metade não estragada da castanha. Assim que os dentes romperam as fibras do pedaço desagradável, sua língua molhada quis devolver imediatamente aquele petisco potencialmente ofensivo. Os lábios, ao contrário, mantiveram-se cerrados como se cola persistente os pregasse. Ao perceber a rigidez de seu beiço ela levou as mãos à boca de forma a fazer movimentos verticalmente contrários, a fim de desencravar as peles grudadas uma a outra. Após repetidas tentativas frustradas e emissão de sons angustiados, aqueles possíveis com a boca fechada, Catarina desesperou-se. Apesar da vontade de vomitar, seus lábios mantinham-se firmes na decisão de fecharem-se para o mundo. Questionando se haveria naquele pedaço podre de castanha qualquer espécie de substância capaz de imobilizar partes de seu corpo, Catarina sente a massa triturada e fedorenta crescer em sua boca. Ela tem medo de engolir aquela gosma. Ora, se a castanha conseguiu petrificar meus lábios o mesmo fará com meu trato digestivo. Minto, ela não pensou em termos técnicos ou formais. Caralho, se essa porra de castanha travou meu beiço, vai foder comigo por dentro! A-do-pará se mesclava cada vez mais à saliva acumulada e Catarina se incomodava com essa espécie de bolo cru fermentando dentro dela, tornando-se pasta mole e marrom. Quando tudo tentou e nada mais pôde fazer, Catarina se entregou ao sabor amargo e com nojo engoliu o volume pastoso. De olhos fechados, sentiu o suco mal cheiroso de castanha-dopará-podre descer até cair como cimento em seu estômago. Tal pancada a derrubou no chão. Ela não conseguiu levantar tamanho peso fétido mesclado ao suco gástrico. Aflita, ela deitou no piso frio e chorou. As lágrimas caíam silenciosamente enquanto seu rosto gritava de dor.

Laís Valério Gabriel

De algum modo, o veneno em seu estômago espalhou-se rapidamente por outros caminhos internos e rim, pâncreas, bexiga, fígado, intestino. Catarina nunca havia sentido de maneira tão precisa seus órgãos. O medo a fez contrair todos e cada músculo, o que potencializou a aguda dor que sentia. Com um grito raivoso ela se entregou ao que não queria e, relutante, relaxou todo o seu corpo, cabeça, pescoço, pernas, orelhas, braços, baço, dedos, sobrancelhas, joelhos, língua, artérias, veias, células, sangue, pele e pêlos. A dor era medo. Atenua, Catarina, atenua. Catarina desacelerada derreteu. Escorreu pelas mínimas fissuras do chão branco e ficou derretida por algumas horas. Deu o suspiro mais profundo de sua vida e levantou-se. Queria comer as pitangas do pé de árvore da esquina.


12 [Diego Callazans]

[tractatus]

[teoilogia]

o caso há no acaso.

achei o Olimpo; na vida há seu vinco.

o casual dá o vero.

quem no Aquém jaz no sutil se apraz.

somos sumo? semente, sempre.

em cada grão, o infinito à mão.

no visgo do vácuo vingamos. que mais? quietemos.

mostram, as beiras, os pontos das Moiras. o se ir do Ser, num filete lê-se. é no ruído que se ouve o divino.


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A literatura nos torna melhores� Jean-Jacques Rousseau, Toni Morrison e Cristovão Tezza. Gustavo Hessmann Dalaqua

“As ciências e as artes devem seu nascimento a nossos vícios”. A conclusão de Rousseau na parte final do “Discurso” sobre as ciências e as artes soa escandalosa para ouvidos hodiernos. De acordo com o autor, as ciências e as artes não contribuem para o aperfeiçoamento do gênero humano porque originam-se de seus vícios, em particular da vaidade, do desejo de querer se destacar. “Ó fúria de ser diferente, que poder o vosso!”. Em vez de encorajar a união entre os seres humanos, as ciências e as artes tendem a esgarçar o tecido social e a afastar os seres humanos uns dos outros. Deixando de lado as minudências do pensamento rousseauniano, me pergunto se a perspectiva apresentada no “Discurso” sobre as ciências e as artes ainda se aplica, hoje, à literatura. A um primeiro olhar, a resposta negativa parece ser unânime. A convicção geral em nossa sociedade é a de que a literatura produz cidadãos melhores. Não por acaso, o incentivo à leitura e à escrita vem sendo objeto de políticas públicas há anos. Tais políticas partem do pressuposto de que o cidadão que lê é melhor do que os demais; pressuposto este que não deixa de ser acrítico, uma vez que jamais o contestamos.

Porém isso é verdade? O fato de lermos e escrevermos nos torna mais dignos do que nossos concidadãos que pouco leem ou escrevem? No primeiro “Discurso”, Rousseau sugere que os literatos são os cidadãos que menos contribuem à sociedade porque passam a maior parte da vida “em contemplações estéreis”. Ao invés de dedicar seu tempo para o bem público, o escritor isola-se dos demais para escrever suas obras, motivadas sobretudo pelo desejo de ganhar reconhecimento. É claro que nada impede que, ao angariar notoriedade para a sua obra, o escritor contribua para o bem da sociedade. Com efeito, o próprio Rousseau reconhece tal possibilidade quando diz que a questão não é banir as ciências e as artes da sociedade, mas sim garantir que elas fortalecem a virtude dos cidadãos. A escritora norte-americana Toni Morrison oferece um grande exemplo de como a literatura é capaz de gerar coesão social. Empenhada em escancarar a torpeza do racismo, Morrison dedicou sua vida literária à desconstrução das hierarquias sociais que postulam alguns seres humanos como superiores a outros, e nisso mesmo reside o grande mérito de sua escrita. Lembro-me que foi somente após ler Beloved que realmente compreendi o absurdo do racismo; desde então, sempre combato toda insinuação de discriminação racial com a qual me deparo. Longe de contribuir para a união da sociedade, o racismo é algo que separa os seres humanos. Usando o alvitre de Rousseau como ponto de partida, poderíamos dizer que a literatura de Morrison é boa literatura na medida em que exalta a virtude dos seus leitores – compreendida aqui como a capacidade de lidar com a diversidade constitutiva do corpo social. Não é à toa, pois, que a autora foi agraciada, em 1993, com o Prêmio Nobel. O mesmo não se diz, contudo, do último livro escrito por Cristovão Tezza, “O professor”. Concentrando a narrativa em um professor ensimesmado, incapaz de oferecer pontos de vistas genuinamente opostos ao seu, Tezza reproduz para os leitores hierarquias sociais excludentes, que insistem em afirmar alguns cidadãos como menos dignos do que outros. Desde o início da obra, o protagonista é apresentado como

um sujeito atormentado porque, décadas atrás, abriu a porta do quarto do filho e o viu beijando outro menino. Na visão do narrador, a homossexualidade é uma “doença” que “destruiu” a vida do seu filho. Semelhantes preconceitos, reconheçamos, são por certo comuns em nossa sociedade, e não há dúvida de que o personagem descrito por Tezza exprime a opinião de muitas pessoas reais. No entanto, diferentemente de “Beloved”, o predomínio de uma única voz ao longo d’“O professor” impede a emergência de visões diferentes que exponham ao leitor o efeito corrosivo do preconceito para a vida social. Em vez de denunciar seu absurdo, Tezza reforça a homofobia e deliberadamente evita mostrar o quão deletérias as crenças de seu personagem são para nossa sociedade. Ao passo que a literatura de Morrison pode ser afirmada como boa literatura, a última obra de Tezza pode ser compreendida como má literatura, pois, longe de contribuir para a virtude, aguça divisões que favorecem a entropia social e atentam contra a igualdade dos seres humanos. A conclusão a que chegamos, portanto, é que a literatura não torna necessariamente um cidadão melhor que outro. Antes de afirmar que a leitura tem o poder de produzir pessoas melhores, precisamos avaliar que tipo de livro elas leem. A literatura pode nos tornar melhores quando, como no caso de Morrison, revigora a saúde do corpo político ao patentear a injustiça de esquemas sociais que posicionam determinado grupo de indivíduos como inferiores a outrem. Decerto os apontamentos acima podem ser facilmente desconsiderados por aqueles que julgam descabido avaliar a estética por meio de sua capacidade de incitar a virtude. “Quem disse” – poder-se-ia retrucar – “que a arte deve nos tornar pessoas mais virtuosas, i.e, melhores?”. Como diria Rousseau, que já se debatia com argumento semelhante em seu tempo: se pensarmos assim, tanto pior para nós.


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LUZ! PRISCILA LIRA


15 Prenha. Sabá estava, de novo, prenha. Deitada na rede, imaginava a quantas andava a horta, morria de raiva por sequer poder dar umas boas varadas naqueles. Pular na água, roubar pitomba do vizinho, fácil, trabalhar, nada. Nasceria em dia de santo? Se não, qual seria o nome? Água, água, água, começou e não parava de sair. Molhou a rede, pingou no chão. Com cara de quem sabia, depois de sete luzes, exatamente o que viria, pediu que chamassem a parteira. A paisagem já negra, o rio calmo, o mato barulhento. O filho da Sabá vai nascer! Gritaram na porta da mulher. Um pulo da rede, uns minutos na canoa e lá estava ela, de pernas abertas, repetindo os gritos dos outros sete nove meses. O sangue escorria, as mãos da parteira buscavam o mosquitinho, as coxas tremiam, o rosto suava, sempre vai doer, não acostuma, nunca é igual. As crianças andando no escuro, pegando água do rio, sonolento, para limpar o desespero. Bem que ele podia ter aparecido durante o dia, mas que atrasado, ou amanhã de manhã. Tinha que ser agora? O sangue escorria, as mãos da parteira buscavam o mosquitinho, as coxas tremiam, o corpo suava, sempre vai doer, não acostuma, nunca é igual. Meu Deus! Cadê esse menino que não sai? A sombra da morte, que pedregulho atrapalhava o voo dessa criança aqui pro mundo de uma vez por todas? Sabá pediu o fim, as forças se esvaiam, a sombra tomava forma, dava azia no coração. Sangue, sangue, sangue. Meu Deus! Cadê esse menino que não sai? A silhueta da morte, que pedregulho atrapalhava o voo dessa criança aqui pro mundo de uma vez por todas? Um braço. Um braço saiu por entre o buraco das suas pernas. A paisagem já negra, o rio calmo, o mato barulhento. Sangue. Negrume. Meu Deus. Sete filhos pra criar. Agora, com cinco membros e inútil, Sabá foi carregada para a canoa.

Três braços, duas pernas. Uma estrela do rio de mãos dadas com a morte, no meio do escuro. A água ninguém via, a lanterna focava o nada, o grito se perdia, o sangue encharcava os lençóis, lambuzava seus filhos, a parteira, a canoa. O braço do mosquitinho ganhava um tom arroxeado, a estrela perdia o brilho a cada gota vermelha. Negrume. O caminho para a cidade parecia se estender ao infinito. Naquela noite, o mato silenciou para ouvir os gritos que vinham do nada e nonada se desfaziam. Sete filhos pra criar, sangue. Os lençóis sendo espremidos no rio para suportar mais gotas e gotas. As coxas tremiam, o corpo suava, sempre vai doer, não acostuma, nunca é igual. Meu Deus! A última curva do rio chegava, a estrela, com sua quinta ponta dependurada, prestes a se soltar, não gritava mais, empalidecia junto ao braço de seu filho. Morreremos sendo um. Que isso acabe de uma vez. Sete filhos. Sangue. Sete filhos. A canoa atraca na margem do rio. Outra escuridão. Quem percorrerá o escuro dessa estrada até a cidade, até o hospital? Corre, menino, corre, fecha os olhos e corre, não faz diferença. Corre menino, corre, salva a vida da tua mãe. Corre. Respira, fecha os olhos, ela não vai morrer, salva teu irmão, salva a tua mãe. Corre, menino! Corre! Perde o medo do escuro. O bicho papão está na margem do rio. Fecha os olhos, respira. Corre! Corre! Corre! Corre, menino! Salva a vida da tua mãe! Salva o teu irmão! Corre! Corre! Corre! Corre! Corre! Corre! Corre! Corre! Esquece a noite, esquece a cegueira do medo, esquece o bicho papão. A tua mãe vai morrer, corre! Esquece o cansaço. Corre. A tua mãe. Corre. O teu irmão. Corre. O bicho papão. Corre. O escuro. Corre. A morte. À margem do rio, a quintapontada estrela perdeu seu último feixe de luz. Amoleceu, escorregou por entre as pernas da Sabá. O choro silenciado, o voo interrompido. A estrelinha nasceu empestada daquele negrume todo, faltaram postes e lâmpadas para lhe dar energia. A luz da cidade. Corre menino! Grita! Chama a ambulância! A MINHA MÃE TÁ MORRENDO! O clarão da sirene. Os lençóis encharcados. As crianças chorando. A parteira com os olhos esbugalhados de assombro. A estrela, agora com quatro pontas, era segurada na terra por seus últimos fios de luz e sangue. É levada pelos enfermeiros esterilizados. O rio, o mato, a noite permanece a mesma, em todos os cantos, silêncio. O quinto braço da estrela do rio, assim como fazem as do mar, viverá, lá onde ninguém sabe onde fica. A estrela-mãe refaz o caminho corrido pelo menino. O dia amanhece. Uma chamada no rádio pede que os amigos e desconhecidos da Sebastiana levem suas gotas vermelhas para ajudála a ganhar novo brilho. A tristeza, a dor, a perda, o luto prosseguem e diluem com os meses. A estrela continua a caminhada com quatro pontas, cuida da horta, grita com as crianças, beija o marido. O quinto braço renasce, duas vezes, sem escuridões. Nove filhos pra criar. A estrelinha, que ficou à margem do rio, pisca, no desconhecido, para seus irmãos.


16 O Que Sua Banda Nacional Favorita Diz Sobre Você* Parte 1 – Da Redação

Arnaldo Antunes Você diz que “prefere o livro” sem ter visto o filme. Barão Vermelho As pessoas tiram dúvidas com você na sua área de conhecimento, mas

verificam a informação na internet.

Cachorro Grande Você já achou que urinar na pia fosse uma etapa natural da vida. Cícero Você acidentalmente comenta que não tem televisão em casa. CPM 22 Você inventou um apelido para si mesmo. Criolo Você entende que todo mundo tem um pouco a ensinar. Aos outros. Detonautas Você ainda não vê nada errado em usar munhequeiras. Ed Motta Quando alguém diz “chegado”, você corrige para “chego”. Engenheiros do Hawaii Quando dizem “É claro que você foi convidado! Então o email não chegou!”, é mentira.

Fresno Você se considera um gênio por ter lido O Pequeno Príncipe. Gilberto Gil Você não contou à esposa/marido que já perdeu o filho/a no parque ao menos duas vezes. João Gilberto Você rouba no Poker. Jorge Ben Você rouba no Truco. Jota Quest Você é roubado no Truco e no Poker.


17 Legião Urbana “Viu, ele não é tão chato assim só por adorar Legião”, murmura um círculo social próximo. Aí você usa a palavra “dantesco” e passa a ser odiado novamente.

Los Hermanos Você foi a uma festa à fantasia vestido de “Laranja Mecânica” e se sentiu no

direito de ficar bravo quando viu que havia outras três pessoas com a mesma fantasia.

Mallu Magalhães Na faculdade, perguntam do quê você está fantasiado. Mamonas Assassinas Você perde compromissos por não ter mais de uma calça no guarda-roupas. Maria Bethânia Ao receber a fatura do cartão de crédito, você fica envergonhado pelo dinheiro gasto com incensos. E acende um incenso.

Maria Gadú Sério? Mutantes Você confunde aviões com OVNIs. Nação Zumbi Você finge que estuda para concursos. Nando Reis As pessoas falam com você pra conseguir chocolate. Ou maconha. Maconha, provavelmente. NX Zero Você confunde astrologia com Astronomia. Pato Fu Após seu amigo pedir um gole do refrigerante, você limpa o canudo. Paula Fernandes Você tem ou já pensou em ter uma tatuagem de fênix. Raul Seixas Você conta histórias que começam com “Eu tava muito bêbado”, embora não estivesse. Ultraje a Rigor Você já fez um teste de Q.I e não divulgou os resultados. Tom Zé Você fala sozinho apenas quando nota alguém te observando. Titãs Você diz que encontrou seu cachorro na rua, mas pagou mais de três dígitos nele.


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Hugo Simões

fascínio

vamos é enorme contemplem o gigante vejam meu deus é horrível contemplem o magnífico céus meu pai olhem enorme vejam a montanha deitada vejam o enorme elefante abatido vamos meu deus contemplem contemplem vejam é enorme vejam deitado no meio do centro aqui olhem oh céus oh mares contemplem o corpo gigante curvo olhem e olhem deus contemplem é enorme no meio

contemplem o elefante morto o corpo que se come vejam o corpo a massa contemplem é morta em teus passos vamos vejam a montanha vamos é gente contemplem o elefante contemplem a carne é o centro e vejam e vejam as patas vejam as orelhas vejam os espelhinhos nos dentes vejam nos olhos vocês vejam as patinhas vejam a carne contemplem a montanha no centro contemplem vamos está no meio vejam está em nós e vejam já se levanta morta vejam vamos vejam ela anda nos olhos como


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vejam contemplem a carniça vamos sorridente vamos crianças vamos é enorme vejam e vejam o elefante morto que se esculpe vejam os olhos em nós e vamos contemplem estamos todos vamos no centro está podre e nós puxa vamos puxa elefante já levanta no centro e vamos e vamos que a fome morre e vive vejam contemplem vamos a montanha contemplem agora vamos olhem os dentes espelhos olhem o tanto que vamos montanha elefante vamos essa carne vamos essa carne nos come vejam vejam meu deus vejam é enorme

contemplem o poder vejam que está no centro contemplem o elefante morto contemplem e vejam há tempo vamos contemplem é horrível vejam meu deus é enorme contemplem e vejam os olhinhos vejam as patinhas meu deus é horrível contemplem o elefante morto contemplem a montanha que engole e vive no centro que puxa vejam não há tempo vejam vamos ele levanta vejam é horrível vejam ele já está aqui os dentes espelhados vejam nos olhinhos nós contemplem vamos é enorme

vamos o morto está aqui vamos contemplem o elefante agora vamos agora é tarde vejam já é tarde contemplem o elefante morto contemplem a fome da montanha vamos crianças vamos é enorme vejam ele levanta vamos passem as mãos as mãozinhas vamos passem as mãozinhas contemplem e olhem o elefante morto e nós já não seremos sal


20 Jorge Maluco

Hilton Cruz

Era mais um dia duro de trabalho e os rapazes estavam todos tão esgotados do batente que nem se ouvia as piadas ofensivas sobre esposas e irmãs. Os caminhões faziam fila em frente ao açougue e enquanto os carregadores traziam os fardos; os açougueiros trabalhavam rápido com as facas. As postas de carne iam caindo no chão e eu as pegava, fazia uma última limpeza e pendurava nos ganchos do frigorífico. Estávamos todo o tempo inteiramente cobertos de sangue. Era uma situação tão comum que nem nos dávamos conta de diferença entre o sangue do gado abatido e nosso próprio suor. Os dois misturavam-se e secavam em nossos corpos e se repetia o processo mais umas duas ou três vezes antes de terminar o expediente. Uma vez o sujeito da serra de ossos acertou o próprio dedo com a lâmina e foi levado às pressas para urgência com um pedaço do indicador preso apenas por uma inútil membrana. O salário também era muito pequeno. Mal dava para as coisas mais básicas. Mas não havia nada de melhor no horizonte. E tinha a honra de ganhar o próprio dinheiro, mesmo sendo tão pouco. Na saída do batente os rapazes às vezes derrubavam umas cervas no Bar do Mário. O lugar cheirava a álcool e derrota. As duas coisas estavam sempre rondando as portas de madeira do lugar. Mário era um negro magro e bem alto, de olhos saltados e com o pescoço coberto de patuás, correntes e contas. Ao lado das garrafas com diversos tipos de infusão ele guardava imagens de santos e orixás. Não era de falar muito. Quem não o conhecia ficava com medo só de olhar em seus imensos amarelados olhos. Mas era um bom sujeito, eu acho. Havia um mendigo que, volta e meia, sempre rondava o bar do Mário. As pessoas o chamavam de Jorge Maluco, mas ninguém sabia ao certo se esse era mesmo seu nome. Jorge não conversava com ninguém. Sabia falar corretamente, às vezes passava cantando, mas se alguém puxasse papo ele simplesmente ficava olhando para o chão e não dizia nada. Dirigia-se às pessoas apenas para pedir; às vezes pedia um copo de café, às vezes um trocado para o pão, às vezes uma calça velha e etc. Jorge era sobretudo um mendigo antissocial. Mário, por outro lado, era um sujeito bem seco e pão duro. “Sou igual a Mandacaru”, costumava dizer a quem lhe devia dinheiro, “não dou encosto nem refresco para ninguém.” Todavia, o Mário possuía um vínculo silencioso com o Jorge. Era o único mendigo que recebia alguma coisa naquele bar. Todos os dias, às 16 horas, precisamente, Jorge Maluco parava na porta do bar do Mário, que prontamente saía com um saco de pão e uma garrafa de café e lhe entregava em silêncio. Jorge tampouco mexia os lábios para agradecer. Como lhe era comum, pegava o donativo e ia-se embora em passo curto e rápido balbuciando coisas que se alguém entendia era apenas ele mesmo. Um dia, durante a cerveja pós-expediente, comentei com o Groto, o açougueiro, um branco de Irecê; grande sujeito, bom de trabalho e de copo. – Por que o Mário todo dia, no mesmo horário, dá ao Jorge Maluco o mesmo saco de pão? – Eu soube de uma história, mas não sei se é verdadeira, respondeu o Groto e continuou: Mas o Mário não gosta de ouvir as pessoas falando disso. Fica brabo como cavalo xucro. Groto entornou mais um copo, olhou para os lados para se certificar de que o Mário não estava por perto e continuou: →


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- Há algumas décadas o Mário também foi açougueiro. Dizem que era dos melhores. Tão bom que o dono do matadouro o promoveu a gerente. Mas sabe como é, depois de um tempo trabalhando nessa coisa a gente vai ficando um bocado insensível e duro – Parou, deu outra golada e um trago no cigarro barato. – Bom, como gerente, o Mário tratava todo mundo como tratava a carne que destrinchava. Era direto, cortante e sem compaixão. O Jorge nessa época era um auxiliar de carne, como você, Juan Leon. – Mesmo? – Interrompi, assustado. – Exatamente, e também era dos bons. Mas o filho único que ele tinha caiu doente, uma doença séria, sabe? E naquela época se ganhava ainda menos que hoje em dia. O Jorge faltou ao trabalho alguns dias, correndo com a patroa e o filho a procura de um médico, mas o menino continuava cada vez pior. Quando apareceu no açougue para dar satisfação do período ausente, o Mário foi cruel. Mandou o pobre infeliz voltar imediatamente para o batente. – Caralho. Que escroto! – Pois é. Mas o Jorge se recusou. Aí o Mário disse que se ele não voltasse ao batente não recebia nada. Sem dinheiro, como ele ia comprar comida e remédios para o menino doente? O Jorge desde aquela época era sozinho no mundo. A mulher dele também. Nem parentes, nem amigos... Sozinhos. Sem escolha, Jorge voltou ao trabalho. No meio do expediente recebeu a notícia de que o filho tinha morrido chamando seu nome. Largou a faca e o avental e saiu alucinado, correndo. Ao chegar em casa viu um tumulto em frente ao barraco em que morava. Sua mulher estava estendida ao lado da cama do garoto com os pulsos cortados. – É, qualquer um ficaria maluco com uma coisa dessas. – Pois então. Desde esse dia Jorge não dirige uma palavra a ninguém, exceto para pedir uma coisa ou outra. Por remorso o Mário lhe dá essa esmola todo dia. Também passou a se interessar por essas coisas de santo, espiritismo etc. Quando terminou de contar a história, percebi que o Groto balançou a cabeça e suspirou fundo. Uma coisa triste mesmo. Também era triste para os bois que a gente sangrava todo dia. Mário era duro, escroto também, mas estava apenas fazendo serviço dele. Depois de tanto tempo procurando um jeito de passar pela trincheira sem sangrar, a gente desiste. De uma forma ou de outra, alguma coisa vai se partir. Às vezes, de forma visivelmente cruel, como aconteceu ao Jorge, às vezes de forma silenciosa e lenta. Terminamos a cerveja e fomos embora. No dia seguinte, mais sangue em nossas mãos.


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digressão

Thiago Lisarte

Vejo marcas do teu desejo no meu corpo que me fazem lembrar o cheiro da tua cama, porque minha memória embrulha tudo o que aconteceu naquela noite e neste embaraço os sentidos se confundem e, de repente, tem marcas das tuas unhas que me lembram o teu sorriso e alguns cabelos entre meus dentes que me recordam os olhos da tua gata a me olhar enquanto o movimento do teu corpo moldava o meu e o hálito da tua boca, um pouco cerveja muito chocolate, arrepiava os recém aparados cabelos da minha nuca. E mais: muito mais se mistura e confunde, porque o calor do teu café – “forte ou fraco?” era sua voz perguntando, era a água morna do chuveiro se misturando à sua saliva que havia percorrido como nenhuma outra os contornos dos meus pudores – e tinha aquele teu café fresco e tinha também a fumaça contrastando com a neblina e garoa fina que deixavam a vista para além janela dúbia o suficiente para tornar a imensidão um todo cinza. Nesta vertigem mnemônica vejo perfeitamente uma das tuas tatuagens ao mesmo tempo em que – “já provou cigarro de palha?” – ao mesmo tempo em que me vem aos olhos tua primeira risada de orelha a orelha, o frio sentados na calçada copo na mão, teus lábios pactuando com os meus alguns sussurros bem singelos entre uma e outra cena do filme que às vezes travava por conta da internet – “ei, o filme acabou, acorda” – e, como ia dizendo, vejo de relance o abrir dos botões da minha camisa xadrez logo largada no chão para se somar aos outros pertences, teus pertences, que já estavam espalhados pelo assoalho do quarto (gravuras na parede, calendário cool despencando, óculos marrom armação redonda) e então tudo que segue é encontro, ânsia, ocupação possessiva do território alheio que me confunde, me monopoliza, atrai sem repelir – “yo te quiero, yo te cuido” – porque, na verdade, não é ocupação: é entrega.


Rita Kalinovski

23 meu cão me sabe dele faço parte. sou seu guia farejo tudo que possa machucá-lo. ele me leva a passear eu lhe dou água na sede. ele me cuida eu o protejo. ele me fortalece eu o cerceio ele me ama eu o respeito. Eu o amo E ele fica alegre.   quero fazer uma liturgia da vida. de hoje em diante   não mais indiferenças atos ciumélicos não mais prisões afetivas exigências estéticas comportamentos artificiais ou remorsos descabidos. de hoje em diante o exercício esforçado para amores quase perfeitos. então será uma bem-aventurança até hoje desconhecida.     com instrumentos de cordas faço loas aos que enxergam as  dores aos que recusam  benesses aos que da empatia fazem respeito ao outro aos que perdem coisas mas não seus ideais. E canto loas aos que pelo coletivo lutam batalhas perdidas.


24 AFROPUNK POÉTICO Versos líricos e porrada sonora marcam retorno do intrépido Leprevost à cena musical Mariana Sanchez

No final de 2012 ele subiu ao palco da Boca Maldita e foi consagrado o novo poeta pop de Curitiba. Em 2013, desceu ao inferno – deprimido, sob crises de pânico e Rivotril –, trocou o microfone pelo silêncio da página pálida, virou sócio de uma editora e decidiu que poderia viver bem sem música, mas não sem a literatura. E, no entanto, antes mesmo de 2014 fechar as cortinas, já estava espumando, novamente, no centro do tablado. A poucas quadras do Guairão, o teatro Barracão Encena foi o escolhido para o multi-qualquer-coisa Luiz Felipe Leprevost apresentar, nos dias 17 e 18 de outubro, sua nova performance musical, “A Felicidade Nem Sempre é Muito Engraçada”. Emprestado de um poema do livro Um Parque de Diversões da Cabeça, do beatnik Lawrence Ferlinghetti, o título é uma provocação à ainda vigente ditadura dos comediantes de stand-up. “Parece que a felicidade é essa coisa histérica, e não é. Às vezes, fazer um poema triste pra caralho, cantar uma música como ‘Se Você Não Me Amar’ é a mais suprema felicidade”, compara, citando uma de suas composições mais belas. O espetáculo abre com a leitura a seco de um poema de sua autoria, ‘Technera’, escrito em “apenas cinco minutos” entre 2001 e 2002, sob forte influência de poesia concreta e MPB. Quando morou no Rio de Janeiro, este era seu passaporte para frequentar eventos de poesia oral como o CEP 20.000, onde chegou a ser ovacionado. “Para onde eu ia, levava o ‘Technera’, fazia uma performance, deitava no chão e batucava. Depois, encheu o saco”. Este ano, quiçá nostálgico, decidiu que abriria o show com o velho poema, sem arranjo nem nada. “Música brasileira não é só samba/ não é só negra/ não é só branca/ música brasileira também usa tanga/ descalça é mato/ asfalto e além”, começa o texto. O show que se segue, porém, desmente o poema: “o que faço não é a música brasileira

convencional, de tradição, mas está ancorada nela”, analisa. Após a declamação, Leprevost lança à plateia o exemplar de seu livro de estreia, “Fôlego”, do qual o poema foi extraído. Arrepende-se na hora: “É um livro meio fraco e agora alguém vai ler aquela porra”, justifica. A primeira canção-porrada do show é ‘Síncope’, parceria entre ele, Troy Rossilho e o poeta bigodudo da Barreirinha, Thadeu Wojciechowski. Na sequência, ‘Aquela Menina’, ‘O Medo Tem Cu’ e ‘Baleado’, três clássicos de seu cancioneiro punk, esta última originalmente um conto de “Manual de Putz sem Pesares”, lançado em 2011. Embora já conhecidas do público, as músicas ganharam variações nos arranjos do parceiro Eugênio Fim – mestre das programações eletrônicas e guitarra eletroacústica –, além de um peso extra graças à percussão visceral do baiano Randsom Moreira, o Dão. Entre as novidades do repertório estavam as faixas ‘Cansei Cansei’, ‘Canto Lento’ (sobre um poema do russo Iúri Pankratov, em tradução de Augusto de Campos) e ‘Choveu Dinheiro’. Embora essa última – um funk “baioque” (fusão de baião com rock) – estivesse cotada como carro-chefe do show, nem chegou a ser tocada. “Um dos HDs do Eugênio deu pau dias antes e nós teríamos que produzir novamente esta faixa, do zero, o que acabou não dando tempo”, lamenta. A partir daí, o show ganha um corpo mais batucado e festivo, culminando com a também inédita ‘Lá do Cativeiro’. “Esse tambor foi minha comida, dinheiro ninguém me dá nada”, diz a letra. “No começo do trabalho eu pedia para o Eugênio: ‘menos swing, é punk curitibano’. Aos poucos, a relação dele com a música afro foi me seduzindo e agora eu digo: ‘swing total, porra, vâmo metê!”, brinca. No arranjo da música Pipoca, composição de Botika, Leprevost chegou mesmo a radicalizar: “será que não dá pra deixar um pouquinho mais axé music?”. →


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Outro ponto alto do show é ‘Gilda’, canção-homenagem ao travesti mais famoso de Curitiba, que beijava bocas na Boca Maldita dos anos 70. “A letra é dos mestres Otavio Camargo e Thadeu Wojciechowski com a Barbara Kirchner, mas como ninguém queria cantá-la, por ser muito pesada, acabei virando seu intérprete oficial”, conta Leprevost, que considera Gilda um símbolo marcante na cidade das boas maneiras. “É um universo que está entre o underground e a Curitiba oficial, e eu sinto que vivo nessa fronteira, em cima dessa faca”. Aos poucos, amigos e parceiros musicais vão subindo ao palco e conferindo novas camadas ao espetáculo, como o carioca Botika, o Grupo Fato e as divas Michelle Pucci e Rogéria Holtz. Em dado momento, todos se abraçam para cantar os versos singelos de ‘Inimaginável’. “Um dia eu vou me perder/ eu vou entrar fundo/ eu vou atravessar a fronteira/ mais escura do mundo/ (...) não posso fugir de mim/ se só tenho saídas pra dentro”. Do ponto de vista artístico, o número talvez não tenha funcionado tão bem – parecia haver mais bocas cantando do que microfones, por exemplo –, mas não se pode negar que lagriminhas rolaram na face dos sensíveis. E quando se trata de Luiz Felipe Leprevost, tudo é afeto. A princípio, “A Felicidade Nem Sempre é Muito Engraçada” seria um show de lançamento do seu mais-do-queaguardado CD – aquele mesmo, prometido em 2012 –, mas uma série de atrasos na mixagem malogrou os planos novamente. “Já tínhamos data agendada no teatro quando vimos que o disco não ficaria pronto a tempo, então resolvemos priorizar o trabalho de concepção do show e adiar um pouco mais”. Para avisar a imprensa, o artista preparou um “release poético” que deixava claras suas intenções: “este show está sendo feito porque alguém me ensinou o que era o amor,

depois exigiu que eu esquecesse”. Mais adiante, lembra que está confundindo arte com política, e que “todas as canções do repertório são jingles de campanha para eleger a sensibilidade”. Ter ocorrido no intervalo entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais reforçou, de algum modo, a dimensão política do trabalho. “Estamos vivendo um delírio completo nessas eleições. As redes sociais viraram um campo de batalhas políticas, e o artista é convocado a se posicionar. Ou você é bandido ou é mocinho, e esse tipo de dicotomia é de uma perda de dimensão humana”, reflete Leprevost, que afirma não ver grandes diferenças entre os partidos na disputa. Para ele, o show tinha um viés extremamente político sem ser partidário. “Não vou militar para ninguém, assim como não milito nem para meu irmão [que é deputado estadual]. Minha única militância é a poesia”, decreta. Ao longo de pouco mais de uma hora e meia de espetáculo, o público assistiu perplexo ao transe poético selvagem de Leprevost – o escritor, dramaturgo, ator e músico, todos juntos, ali, suando em bicas sob a iluminação cuidadosa de Adriano Esturilho e o figurino espampanante assinado por Alexandre Linhares. Folhagens aplicadas sobre o blaser davam ao artista um ar dionisíaco, como se algo carnavalesco assomasse de uma Curitiba sisuda. “Eu queria uma coisa épica, que explorasse meu tamanho. Isso de ser épico só pode ser a experiência do corpo”, verseja. Por entre a saia de voile, vaporosa e transparente, as coxas volumosas do artista-bailarino não se vexavam a improvisar uma dança excêntrica, inimitável, como se dissessem: “Já tive uns ataques, vou ter mais síncope”. Este trabalho corporal remonta à performance “Quero Ter essa Fé”, desenvolvida no ano passado ao lado de Carmen Jorge, e também à sua passagem pela Angel Vianna, uma das principais escolas de dança contemporânea do Brasil. →


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Lá, descobriu ser dono de um corpo treinado e repleto de repertórios físicos próprios, construídos durante os anos em que praticou squash, jiu-jitsu, judô e teatro butô – dança e filosofia japonesa de vanguarda que propõe a expressão das individualidades através de movimentos do corpo. Mas o artista só se autorizou a dançar no palco depois de frequentar festivais de dança no Rio. “Tinha um iraniano muito gordo que jogou no chão umas placas de metal e começou a se debater em cima. Pensei: isso aí eu posso fazer”. Tempos depois, ele subiria ao Morro dos Prazeres para executar um butô bastante único: ao som de poemas gritados, que ele gravou e sonorizou, Leprevost dançava só de cueca, com um tijolo atado em cada pé e amarrado com gaze vermelha, feito sangue. Enquanto se movia, ia administrando o peso do corpo e quebrando os tijolos até descambar para uma destruição frenética em transe absoluto com o poema. Na plateia, velhinhas do morro e garotos com armas na mão. “Esse tipo de coisa me deixou muito corajosinho”, admite. Mas defende: “Tudo é permitido se não for gratuito. Este desnudamento precisa ser vestido pela arte”. Carisma e estranheza são palavras que representam bem a atuação de Leprevost no palco. Mas o artista que empolgou o público no Barracão Encena – e que planeja estudar percussão e danças latinas no ano que vem – garante que a música não estava em seus planos iniciais. Mudou de ideia ao notar que bandas e músicos locais faziam algum sucesso cantando suas composições. Então, decidiu se arriscar. “Minhas poesias já eram proto-canções, o que fiz foi refiná-las”. Para ele, a música é uma forma de expressão mais sedutora do que a literatura, no sentido de alcançar um reconhecimento maior de público e crítica, ao menos no curto prazo. “As pessoas criticam fulano por vender a alma ao diabo em troca de sucesso. Eu venderia a minha na hora, o problema é que nunca recebi uma proposta. Talvez o diabo já esteja com o estoque de almas lotado”, lamenta, cheio de ambições de cruzar fronteiras e despontar em outros palcos. “Puta que pariu, que cara sensível” Estar entre duas ou mais paixões é da personalidade de

Luiz Felipe Leprevost. Nascido em 21 de março de 1979, ainda não chegou a um acordo se é de Áries ou de Peixes. “Tecnicamente, sou do primeiro dia de Áries, mas o [poeta, jornalista e agitador cultural] Jaques Brand, que é um especialista, bate o pé que sou 100% Peixes”, brinca, relacionando sua persona performática com o signo do carneiro e seu lado poeta-românticosofredor com o estereótipo do pisciano. Há tempos Leprevost convive com o drama interno de ter de “sacrificar” uma área artística em detrimento de outra, seja a música pela literatura ou o teatro pela poesia. “Para não sacrificar as coisas, acabo sacrificando a mim mesmo”, autoanalisa-se. Em meados de 2013, ao acordar sem poder respirar, com o corpo formigando e uma sensação de paralisia total, Leprevost se viu diante de uma severa crise de pânico. “Até aquele show da Corrente Cultural, em 2012, eu achava que era capaz de dar conta destes universos todos, mas era um erro. O tempo mental é muito diferente do tempo prático. Quando vou fazer uma peça como ator, minha vida acaba. Eu preciso entrar naquilo e não fico contente se não for ao limite das coisas, aonde é perigoso”, desabafou enquanto conversávamos na varada de sua casa, uma semana após o show “A Felicidade Nem Sempre é Muito Engraçada”. Ao ligar o gravador, pergunto se prefere que eu mantenha esta parte da conversa em off. “Pode contar tudo, faz parte da construção do mito”, ri de si mesmo. O sentimento de já ter saído “na capa do Caderno G e no Paraná TV”, como diz o hit de Lívia Lakomy, contrastava com o fato de sair do show da Corrente Cultural sem um tostão no bolso e a sensação de que tudo continuava igual. “Aquilo me colocou numa crise que exigia uma postura de mudança: tentar ser mais adulto e profissional, me entender, cuidar da própria vida e sair do conforto da casa dos pais, ainda que fazendo a melhor arte que eu posso”. Viver a dicotomia de querer ser mainstream fazendo arte experimental é assunto sério, e segundo ele tem a ver com uma certa confusão sobre o desejo. Após um ano de psicanálise freudiana – “eu deito no divã e ele corcoveia” –, garante que vem atravessando bem a crise e, hoje, entende que negar-se como músico não passava de autoboicote. →


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Sobre uma mesa de madeira com vista para as araucárias de Santa Felicidade, Leprevost devorava biscoitos wafer, deixando as migalhas salpicarem a camiseta e caírem no chão, onde tinha os pés descalços e impacientes. Ao longo de mais de duas horas de entrevista, o artista falou também sobre processos criativos. Contou, por exemplo, que tudo o que escreve sai primeiro em verso, mesmo sendo prosa. Mais do que um método, trata-se apenas de uma prática de escrita à mão que lhe dá maior clareza e velocidade do que o texto corrido. Na hora de adequar os escritos à maneira da prosa, junções de frases e possíveis pontuações se aclaram de outra maneira. “Você começa a fazer escolhas técnicas que ajudam no entortamento da semântica e da

sintaxe”, diz ele, admitindo gostar do erro e jamais buscar a palavra exata. “Sou meio disléxico. Às vezes escrevo uma palavra e leio outra, que acaba soando até mais poética”. Para ele, a poesia admite essa fuga da linguagem informativa e comunicacional para se aproximar do ideal defendido pelo chileno Nicanor Parra: “El poeta no cumple su palabra si no cambia los nombres de las cosas”. Por outro lado, Leprevost tem uma preocupação imensa de ser entendido pelo leitor e se diz longe de escrever livros herméticos. “No fundo, tudo o que eu escrevo é para que as pessoas leiam e pensem: ‘puta que pariu, que cara sensível’. É uma frase que me emociona.

ENTREVISTA “A felicidade nunca está pronta” A partir do título de obras consagradas de Dalton Trevisan, Paulo Leminski e Jamil Snege, propus a Luiz Felipe Leprevost uma entrevista com sotaque curitibano. Eis o resultado da adorável brincadeira: Como você se fez por si mesmo? Tenho duas convicções que, num primeiro momento, até podem parecer contraditórias, mas não são. Eis: a gente se constrói a partir da relação com o outro, sempre e inevitavelmente. E: ninguém inventa ninguém, construirmo-nos a nós mesmos é intransferível. Isso de querer ser exatamente aquilo que é te levou além? Ter chegado aonde cheguei (além de muitos portos em que poderia ter ancorado e ficado tranquilo, com o jogo ganho, e aquém de onde ainda pretendo ir e me vejo indo) sinto que só foi possível por ter

errado muito, ter querido ser o que eu não era, ter idealizado, projetado, experimentado bastante. Acho que me perdendo muito venho me encontrando aos poucos. E, sim, sempre está aqui a vida dizendo dos seus modos algo como a sábia frase do Leminski. Sou quem sou, quem fui e quem serei, quer eu queira quer não. Sabe, a felicidade nunca está pronta. Em busca de Curitiba Perdida, que descobertas fez? A minha porta de entrada para Curitiba Perdida foi o Kappelle Pub, e isso eu devo à cantora Rose Moraes (hoje, morando nos EUA), que me levou pela mão. E então a três figuras generosas e a uma inacreditável. São elas, nesta ordem: Laís Mann (primeiro as damas), Gerson Bientinez (mestre), Alexandre França (na época meu irmão mais novo de 16 anos, hoje um dos meus mestres também) e Bia de Luna (que me provou a todo momento que o inacreditável é real). Depois disso... ah vocês sabem.

Quais as vantagens e desvantagens de se tornar invisível em Curitiba? Permita-me responder com a letra de uma canção parceria minha com Antonio Thadeu Wojciechowski e Troy Rossilho: “você jamais deixou de encontrar um gênio na pessoa mais miserável/ daquelas que você olha e é como se não valesse nada/ nem um centavo, nem um bom dia/ nem um olhar que seja só para dizer que ela existe/ e é por causa de você/ e é por causa de pessoas como você/ que o mundo tem razão de ser triste/ é por causa de você/ e é por causa de pessoas como você que existe”. Ou seria mais objetivo dizer: não vejo vantagem alguma na invisibilidade. Você já sentiu alguma vez a Faca no Coração? Opa, e como! A faca do amor, a faca do que será de mim na vida, a faca da perda de alguém. Pode que ganhar na vida um coração sensível implica em a gente vir de fábrica com algumas lâminas nele.


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Thiago Dominoni

Luizas e Luizes quando luzem. Parecia radiante. A vida dela. A vida dela naquele preciso momento estremecia suavemente como quem se atira de um prédio muito alto, João pé de feijão. Alguns poderiam dizer da medida exata desta insanidade habitada nos pés dela. Sim, os pés dela eram muito teimosos. – Fiquem aqui comigo. Não saiam de casa! Dizia. E dizendo caminhava pela beirada do mundo, ziguezague, pisadas firmes, nervuras brancas dos pés. O tempo prendeu meu corpo de uma maneira... de uma maneira! O tempo preencheu meu corpo de uma maneira... de uma maneira! São quatro horas da manhã e sinto-me daquela maneira. Vazia a cozinha, vazio meu abrigo natural. Abri a geladeira, ou melhor, estou abrindo-a. Por abrir. Ou para dar graça as movimentações do meu corpo. O espaço entre o abrir e fechar a geladeira descobre-me em eternidade. Então, estou infinita. Dentro desta situação sintome livre. A liberdade tem um quê de doçura quando estou oca, completa e vil, arrancada de minha raiz. Uma tristeza ornamentada de privilégios verte meu rosto carinhosamente. Meu coração, por hora, neste dia de hoje, está doce. Sou rainha da minha natureza e, a confusão do meu país, é a terrível seca na região do coração, no entanto, as articulações precisam de novas manutenções. Minha presidência não está nada boa. Manutenções. Manutenções. Ela queria ter dito isso, elegantemente mas, não tinha uma boa relação com as palavras. Bateu a mão na testa e

continuou a exclamar sua falta de originalidade. Ela sentia necessidade de ser mãe, como a vida não conseguiu lhe ajudar nisso, preferiu acreditar que era filha de si mesma. Daí as manutenções. E mãe, aprendida na intuição, defende seu filho. Ou seguindo o pensamento de Luiza, luta por seu país. Até morrer. Corpo feminino é a minha maravilha. Nunca tive vergonha da minha feminilidade. Tenho vergonha, apenas, de não reconhecer-me como mulher, ainda que, goste de pentear meus cabelos, e perfumar as mãos. A verdade habitada na carne viva de cada palavra nascida aqui, aqui da minha carne, aqui da frente da minha geladeira, é simples. E de algum modo compreendo-me salva. Este corpo pesado parece-me desconhecido e isto carrega uma estranheza curiosa. Estou gostando de sentir-me estranha para mim mesma. O corpo amalgamado na velhice coloca-me a acariciar os instantes abismais da minha vida. Estou em estado de graça. Olhou o espaço em torno do seu quadril, sua nuca. O espaço entre suas pernas, seus peitos caídos. – Não posso deixar de compreendelos! Pensou. Teve vontade de arrancá-los como quem corta, delicadamente, a cabeça de uma cebola em infindáveis pedacinhos de choro. Pequenas miudezas da natureza. Fechou a porta da geladeira bravamente como quem encontra uma solução, e no entanto, não encontrou nada.


29 Daniel Zanella

Cenas Urbanas Não-amores Chega uma idade na vida do homem que não casou, não teve filhos, não namora mais e não se joga com tanta intensidade no xadrez amoroso em que a solidão é permanência. Mais: região de conforto. Agora, por exemplo. Saio do aniversário do cunhado e entro em casa para lavar o rosto do suor do churrasco. Enquanto me entrego às águas da pia, uma aranha descomunal passeia rapidamente pelo banheiro, com um filhotinho ainda mais célere. É uma aranha grande mesmo, com umas pintas brancas, faz tempo que minha coleção de jornais velhos não criava uma com tal envergadura. Acho-a até encantadora em seus instintos de sobrevivência. O filhotinho de aranha é bem pequeninho e bem rápido mesmo, ainda mais apavorado. Fico com piedade de ambos e espero que a luz não os estresse tanto. Já vou me deitar. Baratas. Minha casa tem barata também. Mas juro que não é por desleixo. Até porque mal cozinho, exceto quando apaixonado, e a vizinha limpou a casa na semana passada. É que faz muito calor, tem muita pilha de jornal e um bueiro gigante aqui em frente de casa. Elas entram de perdidas, acredito. Não as mato porque logo elas reencontrarão o bueiro e a vida vai seguir em seu fluxo habitual. Odeio mesmo é filhote de barata. Outra coisa: meu coração. Me irrito com mulheres que não sabem a hora de ir embora ou que fumam muito. Desde uma quase ancestral pneumonia, implico com o cigarro. Digo que não aos amigos, até tenho cigarros e charutos em casa para os necessitados. Mas implico. E como já não sou jovem, chega um momento da madrugada em que desisto de fazer cerimônia e quero dormir. No meu mundo de ilusões, as pessoas se cansam comigo. Se são amigos e amigas a visitar – recebo cada vez menos visitas –, simplesmente vou dormir. O que quero dizer, minha querida? Apesar de tudo, é melhor ser alegre do que ser triste. Apesar de todas as trincheiras que ergo com exatidão, daqui dez dias estarei por aí. Estou morrendo de saudade de você. Acredite.


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Cinerário Ademir Demarchi

Nas tripas de Cesar Bond Cesar Bond, que morreu há alguns anos, foi um desses poetas errantes, da geração de Leminski, também publicitário, que estudou literatura e filosofia e publicou uns poucos livros artesanais em Curitiba, vivendo intensamente a vida dos botecos da cidade. A literatura curitibana parece, de alguma forma, ter sido toda inventada em bares, espaço privilegiado da sociabilidade intelectual. No caso de Cesar Bond, isso era premente, tanto que ele mesmo teve um bar, onde reunia os amigos da bebida e da poesia. Não ia dar certo, faliu com os penduras. Bond nasceu em 1956, em Irati, filho de uma professora primária que precisava dar aulas e se afastar dele, ainda bebê, situação que descreveu num poema como uma “insuportável perda temporária de minha mãe”. Nesse poema, ‘O pêssego’, ele associa a fruta à ternura materna num momento da infância aos dois anos e a tristeza que era

separar-se da mãe: “O sol era um pêssego quente. Do quente pêssego escorreu uma tarde uma lágrima na boca daquele menino que fui”. De certa forma essa carência ecoou em todos os seus livros, em que o tema amoroso é uma marca preponderante, já pelo título: “as mulheres são todas” e “vente em mim”. Pai, tio e avô também aparecem em seus poemas, sempre escritos com uma contundência algo melancólica que talvez só a bebida e a fantasia sobre mulheres idealizadas dessem algum sentido, refletido, certamente, num copo de bebida bem servido. Eis Bond em seus textos. ‘andar’: “Não gostava de ver o pai/ ajoelhado no chão da igreja./ Não gostava de ver o pai/ sentado na ponta da mesa. / Não gostava de ver o pai de frente.// Gostava de olhar suas costas/ quando estava nervoso/ na frente da janela.” ‘nas tripas’: “Às cinco horas o céu estará cor-de-rosa./ Um amigo diz isso às minhas costas, com absurda certeza./ Fico olhando o céu, cinza, por alguns instantes./ Por alguns instantes delicados e quebradiços ficamos/ olhando o céu por alguns instantes./ E de repente uma ponte. Um fio. / Uma mulher, talvez, enovelada em nossas tripas. / E então estamos sérios. Quietos e talvez tristes. / Voltaremos a rir às cinco horas da tarde.” ‘Cronologia de uma dívida’: “Nasce em 1956. Cai do berço, uma, duas, dez vezes cem. Aos seis anos é abraçado por um tio tido como louco: foi o primeiro carinho que recebeu na vida. Aos dez, já assobia à luz do dia. Aos dezessete, ama pela primeira vez, e para esta mulher doa as córneas. Aos vinte e três, estranha o próprio sexo, se recusa a pagar a conta de um amigo e tenta esquecer para sempre o profundo afeto dado por aquele tio tido como louco. Em 1978, foge para a cidade de Antonina, onde pela primeira vez vê uma réplica do quadro “Judite Cortando a Cabeça de Holofernes”, de Caravaggio, nascido em 1571. Caravaggio perde a mãe aos dezenove anos, e por ter perdido a mãe, compra um menino. Aos vinte e seis anos, se recusa a aceitar que perdeu uma aposta, briga e acaba matando Ranuccio Tommasoni, seu maior amor e seu maior adversário. Foge para Nápoles. Em 1978, na cidade de Antonina, depois de ver pela primeira vez a réplica de “Judite...”, de Caravaggio, ama ninguém e para ninguém doa todos os seus órgãos. Aos quarenta e seis, distraidamente assobiando em plena luz do dia, é assassinado por engano por um estranho, a quem doa a vida. E se vê livre de qualquer dívida e de toda a cronologia.”


31 Daniel Osiecki

Terra Incógnita

Jaboc: labirintos narrativos Escrever sobre o ato de escrever não é novo nem original na ficção, mas tema recorrente abordado por diversos escritores. João Cabral de Melo Neto, Drummond, Vergílio Ferreira, Cristóvão Tezza, Cezar Tridapalli se ocuparam, em algum momento de suas respectivas produções literárias, com a metalinguagem. Escrever sobre o ato de escrever parece não interessar tanto um público não afeiçoado à literatura mais elaborada, pensada, com enigmas deixados para o leitor, mas mesmo assim foi tema bastante explorado por autores diversos. Para ficar em nossas paragens, fora os já citados Tezza e Tridapalli, Otto Leopoldo Wink é um dos escritores que se ocupou com a metaliteratura no belo “Jaboc” (Garamond, 317 pag.), romance de 2006 que só agora descubro. Otto Leopoldo Wink nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. Wink vive em Curitiba desde anos 80. É doutor em estudos Literários pela UFPR e professor de literatura na PUCPR. É poeta, contista e romancista. Seu primeiro romance narra as desventuras de um professor universitário que, em meio as leituras de Fernando Pessoa e muito blues de Muddy Waters, Robert Johnson, Jimi Hendrix e tantos outros, está escrevendo um romance, e esse processo de escrita é repleto de percalços, sofrimento e muito álcool. O livro que o protagonista escreve é sobre um homem que está escrevendo um livro, técnica denominada de mise en abyme, história dentro da história.

Durante toda a narrativa, há referências sugeridas, mas facilmente identificáveis, a Curitiba e à cena literária local, com suas batalhas de ego de escritores provincianos, com suas pequenezas e idiossincrasias. É interessante ressaltar que Wink critica essas pequenezas literárias à distância, através de seu personagem, o que lhe confere certo distanciamento ao apontar as mazelas e mesquinharias literárias de um meio pretensamente erudito, mas que ao ser ironizado, nada mais é do que um desfile de escritores blasé que buscam, desesperadamente, terem mais relevância do que suas próprias obras. Conforme a ação vai transcorrendo, o protagonista vai sofrendo uma espécie de mutação em seu modo de agir, pensar, escrever. De acadêmico de reputação ilibada, trabalhador assíduo e bem quisto no departamento de Letras de uma universidade particular a funcionário relapso, mal vestido, deprimido, beberrão e imerso no seu projeto particular de escrever um livro a qualquer preço. Somada às frustrações profissionais, há também uma iminente crise temporal, pois se sente velho e já impossibilitado de relacionar-se como era no passado. O símbolo disso é a relação que inicia com Virgínia, sua aluna do primeiro ano de Letras, linda e transbordando juventude, como se fosse seu nêmesis. Uma das chaves (ou dicas sutilmente deixadas por Wink) para a compreensão do romance é seu título, uma alusão a Jacó, personagem do

antigo testamento que em uma luta com um anjo misterioso muda completamente seu modo de agir, se rendendo ao chamado divino, o que é uma bela metáfora ao fazer literário, pois simboliza a imagem do escritor em uma batalha feroz com as palavras. Se o escritor se rende ou não, não é fundamental, mas sua forma de buscar seu momento nevrálgico é o que vale no fim. A questão de sempre estar fazendo a mesma coisa sem ter resultados é bastante evidente no romance, simbolizado pelo mito de Sísifo, que segundo a mitologia grega, levava uma enorme pedra ao alto de uma montanha. A pedra rolava para baixo, Sísifo a levava para o alto da montanha novamente, e assim sucessivamente, sem nunca acabar. Portanto, a batalha do protagonista com as palavras e com o fazer literário é simbolizada pelos mitos de Jacó (hebraico) e Sísifo (grego). “Jaboc” é o romance de estreia de Otto Leopoldo Wink e, no ano de seu lançamento, 2006, venceu o Prêmio Nacional de Literatura Academia de Letras da Bahia. Com domínio da técnica narrativa e com repertório teórico bastante vasto, ao qual o autor recorre com frequência durante todo livro, “Jaboc” em momento algum é enfadonho ou soa pretensioso. Pelo contrário, é ágil e flui do início ao fim. Wink acertou a pena neste seu primeiro romance e espero que a obra não tenha sugado toda sua energia.


32 Ryane Leão

sentada no bar quebrada bolso peito alma (to precisando me apaixonar)

Próxima edição

Marcelo de Angelis – Virginia Kleemann – Rodrigo Garcia Lopes – Ronald Magalhães

Relevo dezembro 2014  

Edição de dezembro de 2014 do RelevO, impresso mensal de literatura editado em Curitiba.

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