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nº 206 - maio de 2013

MÚSICA

Bicentenário do mensageiro do Amor Gerson Valle O Romantismo dominou a literatura e as artes durante o princípio do século XIX. Em meados do mesmo século o Realismo já vai se sobrepondo nos caminhos literários e das artes plásticas. Talvez porque a essência da música se manifeste numa linguagem subjetiva, que sempre permeia certa sentimentalidade, o movimento romântico nela se identificou a ponto de ser difícil excluir suas características de qualquer de seus períodos. Os estudos acadêmicos mais rigorosos preferem limitar o Romantismo na Música entre a segunda fase de Beethoven (que começa com a Sinfonia Heroica, de 1803) até os anos de 1890, com o impressionismo de Debussy, que tanto quanto os modernismos do século XX guarda traços de expressividade romântica. Que, de resto, há em Mozart e em movimentos instrumentais (sobretudo lentos) ou certas árias do Classicismo e até do Barroco. De qualquer ponto de vista, Richard Wagner (Leipzig, 22/05/1813 – Veneza,13/02/1883) encontrase no centro do movimento romântico, representando seu ápice, tanto em intenção quanto em realização. É evidente que a temática amorosa não é exclusiva de nenhum movimento estético, de tão inerente na vida de todos em qualquer época. Porém, a intensidade com que a ideia do Amor penetra nas obras românticas, fazendo com que as adversidades do destino, de que tratam as grandes obras desde as tragédias gregas, girem sempre em torno dele, é de característica sobremodo romântica. Em Wagner, o Amor é, ainda mais predominantemente, o motivo central em todas as suas obras, acentuando com ele a expressão extremada do Romantismo de seu tempo. Aos 19 anos já escreve um libreto (de que compôs a música apenas de três

momentos), cujo título já é significativo do enlace amoroso: “O Casamento” (Die Hochzeit). Aos vinte anos consegue escrever uma ópera completa, “As Fadas” (Die Feen), apesar de não conseguir encenála, e que já contém um tema amoroso que lhe será caro: a fada Ada, imortal, apaixonada por um mortal, poderá ter como prêmio também tornar-se mortal para se unir a seu amor. A próxima ópera, cujo libreto o jovem Wagner (21 para 22 anos) inspirou-se na comédia “Medida por medida” de Shakespeare (uma de suas eternas admirações, juntamente com Goethe, Beethoven e Schopenauer) tem já por si o título significativo de “A proibição de amar” (Die Liebesverbot) – e de que conseguiu apenas uma representação, por sinal muito tumultuada. “Rienzi” (1837-40) segue modelos das óperas italiana, francesa e do alemão Weber, e neles o amor respinga no texto em meio a fatos históricos. A ópera em que a personalidade de Wagner primeiro se evidencia (como poeta-dramaturgo e como compositor) é “O navio fantasma” (Der fliegende Holländer), de 1840/41. O capitão de um navio é amaldiçoado a errar pelos mares eternamente, até que encontre uma mulher que a ele se entregue por amor, o que o libertará da maldição. Segue-se “Tannhäuser” (1842-45), onde o amor casto (representado por Elizabeth, que acaba sendo santa) conflita com o amor pagão (representado por Vênus, que deseja que Tannhäuser viva para toda eternidade em seus bacanais). “Lohengrin”, de 1845-48, trata de um herói que vem da terra que guarda o Santo Graal, salva uma princesa, casa-se com ela, mas exige que ela nunca questione sua origem, sob pena de o amor tornar-se impossível pela falta de confiança, e ele ter de retornar à sua terra. Nestas três óperas o simbolismo, por meio de

Richard Wagner (Leipzig, 22/05/1813 – Veneza,13/02/1883)

lendas e mitos, evidencia aspectos significativos do Amor. A terceira fase da obra wagneriana é a que representa de forma completa seus princípios revolucionários, com base nas teorias que expôs no livro “Ópera e drama” (1850). A festa de festival cênico em três dias e uma noite preliminar, “O anel do nibelungo”, foi escrita entre 1852 e 1874, com os 4 dramas líricos: “O ouro do Reno”, “A Valquíria”, “Siegfried” e “Crepúsculo dos deuses”, com um total de 15 horas de espetáculo. Trata-se do conflito do amor e do poder. O ouro é amaldiçoado, e por ele deseja-se o poder transitório e insatisfatório. A saída estará na “renúncia pelo Amor” (“Leitmotiv” que encerra o “Crepúsculo dos deuses”). O amor, aliás, é tratado como livre e incondicional, seguindo a admiração de Wagner por Proudhon. Os deuses Wotan e Fricka são casados e nunca se entendem, e ele tem as 9 valquírias em adultério com Erda. Sieglind foi casada à força com o grosseiro Hunding, e é muito infeliz. Ela se liberta, amando seu irmão gêmeo Siegmund, com quem tem um filho, o herói Siegfried, que também ama livremente, sem

casamento, a ex-valquíria Brünnhilde. Wagner casou-se, pela primeira vez, aos 23 anos, com uma atriz 4 anos mais velha que ele, Minna, apaixonado e ciumento. Passam 7 anos difíceis, dos quais 3 anos foram de fome em Paris (como escritor, colabora aí em jornais), até ser contratado, em 1843, como mestre-capela em Dresde (responsável pela programação, escolha de intérpretes e regência de óperas e concertos). A vida e o casamento parecem se equilibrar, mas sua participação, com o anarquista russo Bakunine, numa malograda revolução em 1849, para amargura de sua esposa, obriga-o a se exilar na França, Suíça e Itália. Sem fonte de renda, enche-se de dívidas, que não consegue pagar. Mas, aparecem alguns admiradores, e seu caráter passional o faz manter romances até mesmo com mulheres de seus protetores. O caso mais evidente é o do rico industrial Wesendock, em Zurique, que lhe fornece uma boa residência e sua bela mulher, Mathilde, de 24 anos, apaixona-se pelo homem baixo, narigudo e queixudo, mas de temperamento vulcânico e criatidade renovadora. O amor é recíproco, e des-

ta experiência nasce uma das obras mais significativas da expressão amorosa, “Tristão e Isolda” (185659). A peça é recheada de símbolos, como o filtro de amor que enlouquece o casal se separado; a noite que é a referência à união dos dois; o dia como a intromissão dos conflitos da vida e dos outros que perturbam a paz do amor; e a morte como a libertação da angústia permanente do desejo. A representação desta angústia é conseguida na música através do cromatismo, que sempre leva a frase musical ao tom seguinte, sem resolução, o que acabou interferindo na própria história da música, levando ao atonalismo no século XX. É das mais revolucionárias obras musicais que se tem notícia, além de ser de uma absoluta seriedade, sem concessões (nem árias nem virtuosismos vocais). Aliás, esta a principal característica do Wagner maduro, cujas peças seguem uma contínua tensão, mantendo a música, a poesia e o teatro juntos a transmitirem emoções à plateia (Para sua fruição é necessário seguir o texto em língua que se conheça, salvo encantamentos musicais como a “Noite de amor” de “Tristão e Isolda”, que simula ternuras e orgasmos). Nenhum compasso é gratuito. Tudo se liga, e a orquestra produz, simultaneamente, o que parecem maravilhosos poemas sinfônicos, cuja função lembra o coro grego a comentar o espetáculo. Wagner não se importava com nenhuma situação constrangedora que tivesse de passar para que sua obra fosse íntegra. Viveu por favores e empréstimos, até que um jovem rei (Luiz II da Baviera), encantado por sua obra, a partir de 1864 torna-se seu protetor. Fez o rei trazer para Munique seu maior regente, von Büllow, para a apresentação de suas óperas, e acabou (com a morte de Minna e o forçado divórcio de von Büllow) casando-se

com a sua mulher, Cosima (filha de seu amigo e protetor o pianista e compositor Franz Liszt), com quem já vinha tendo filhos. O rei, homossexual e apaixonado por Wagner, não suportou tal casamento, e a amizade esfriou, sem ser rompida. Cito tais fatos apenas para lembrar que Wagner se encontrava tão comprometido com o amor, que este não delineia somente sua obra, mas também sua tumultuada vida. Cansado com a angústia descrita em “Tristão”, escreve uma comédia lírica, entre 1861 e 67, retornando a complexas construções contrapontísticas. Um hino de amor à Música: “Os mestres cantores de Nüremberg”. O casamento com a adorável filha de um mestre cantor é o prêmio para quem ganhe um concurso de canção, sob o consentimento da moça. E, claro, o jovem que ela ama é o vencedor. O último drama lírico é o encontro com o mundo místico, “Parsifal”, de 1877-82. Nele, o Amor é, antes de tudo, pela renúncia à matéria, seguindo princípios budistas. O amor sensual é encarado como propício à dor, não admitindo matar nem homens nem animais – caso do cisne do 1º ato, alusão ao vegetarianismo de Wagner. Ligado a animais, mantinha especial afeição por cachorros, sempre presentes em sua vida. Não achava justo matar um ser vivo para se manter vivo. Amor à vida no pietismo cristão (que fez Nietszche romper sua amizade) do “tolo inocente” (Der reine Tor). A ideia de redenção e entrega. Mensagem de sempre de toda a obra, cuja maturidade tornou-se mais coesa, do mestre Richard Wagner, que neste mês de maio de 2013 completa 200 anos de nascimento.

Gerson Valle é poeta e escritor, membro titular da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Cláudio de Souza.

DIREITOS HUMANOS Campanha pela libertação das lideranças bahá’ís no Irã será dia 5 em Copacabana Um banner de 10 X 15 metros será estendido nas areias de Copacabana (RJ) no domingo, dia 5 de maio. A imagem, criada pelo artista plástico Siron Franco, representa as sete lideranças bahá’ís e as centenas de outros prisioneiros de consciência existentes no Irã hoje. “Os seres humanos devem ser livres como pássaros,” acredita Siron, que já confirmou sua presença . “Estarei lá para defender o direito à liberdade desses indivíduos, cujo único crime é contribuir com a melhora da sociedade e que vivem”, declarou. A programação está marcada para começar às 10h da manhã, com a presença de parlamentares, militantes de direitos humanos e representantes de organiza-

ções não-governamentais. A Anistia Internacional, que tem acompanhado o caso de perto, estará representada por Maurício Santoro, do escritório no Brasil. Em fevereiro de 2009, a Anistia Internacional emitiu um “Chamado à Ação” e defesa das lideranças bahá’ís, afirmando que as acusações tinham motivação política e descrevendo os detidos como “prisioneiros de consciência, detidos exclusivamente por causa de suas crenças” e por suas “atividades pacíficas em nome da comunidade bahá’í”. Julgamento injusto Presas desde de 2008, as sete lideranças bahá’ís são: Sra. Fariba Kamalabadi, Sr. Jamaloddin Khanjani, Sr. Afif Naeimi, Sr. Saeid Rezaie, Sra. Mahvash Sa-

bet, Sr. Behrouz Tavakkoli, e Sr. Vahid Tizfahm. Cerca de 20 meses depois, ainda sem acusação formal, iniciou-se um julgamento em 12 de janeiro de 2010. Os advogados que acompanham o caso tiveram, em todo esse tempo, cerca de uma hora para se encontrar com os prisioneiros, e apenas poucos dias antes do julgamento tiveram acesso aos autos do processo. Entre as acusações apresentadas contra os sete estão “espionagem, propaganda contra a República Islâmica, e estabelecimento de uma administração ilegal” – todas completa e categoricamente rejeitadas pelos réus. Após o julgamento, mesmo sem a apresentação de qualquer prova que os incriminasse,

os sete foram condenados a 20 anos de prisão. “Esses indivíduos foram presos e condenados simplesmente pelo fato de serem membros da Fé Bahá’í, uma religião que tem sido o foco de uma perseguição sistemática patrocinada pelo governo do Irã desde a revolução de 1979”, explica a representante da Comunidade Bahá’í do Brasil, Mary Caetana Aune-Cruz. “A exemplo do que tivemos em 2011, quando fizemos colocamos quase 8 mil máscaras das sete lideranças na areia, esperamos que haja uma repercussão significativa dessa etapa da Campanha, que está ocorrendo em dezenas de países por todo o mundo”, esclarece Mary. Em 19 de julho de 2011,

mais de mil pessoas deram as mãos ao redor de 7.747máscaras fincadas nas areias de Copacabana.

O número representava a soma do número de dias que as lideranças bahá’ís já haviam passado na prisão.

A Fé Bahá’í é uma religião mundial, independente, com suas próprias leis e escrituras sagradas, surgida na antiga Pérsia, atual Irã em 1844. A Fé Bahá’í foi fundada por Bahá’u’lláh, título de Mirzá Husayn Ali (1817-1892) e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio. A Comunidade Bahá’í com aproximadamente 7 milhões de adeptos, é a segunda religião mais difundida no mundo, superada apenas pelo Cristianismo, conforme afirma a Enciclopédia Britânica. Os bahá’ís residem em 178 países do mundo, em praticamente todos os territórios e ilhas do globo.

Jornal Poiésis 206  

Edição de maio de 2013

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