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Literatura, Pensamento & Arte

Ano XV - nº 165 - dezembro de 2009 - Saquarema, Araruama, Cabo Frio, Arraial do Cabo, S. Pedro da Aldeia, Petrópolis, Teresópolis, Rio de Janeiro

Os encantos que a água traz

A música eletroacústica no Brasil Página 9

Poesia na Rua em Bacaxá está de volta em dezembro O amigo nº 1 do lanche Página 3 A Baía de Guanabara de Levy-Strauss a Caetano Página 10

O Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira realiza no dia 12 de dezembro, no calçadão da rua Professor Souza, em frente à lanchonete Mucho Loco, mais uma edição do projeto Poesia na Rua, com montagem de varal de poesia, música ao vivo e leitura de poemas. Página 7.

Saindo do lugar comum das manchetes jornalísticas, abrindo espaço para novos conceitos, novos modos de ver a vida, o Jornal Poiésis encerra mais um ano renovando esperanças de dias mais iluminados para todos. Assim como o mar se renova a cada dia e se movimenta continuamente, nós também seguimos nosso trabalho em favor de uma cultura cada vez mais ampla. O mar, esse personagem múltiplo e coletivo na Região dos Lagos, nos inspira a colocá-lo em primeiro plano. Seja falando sobre o livro de poemas de Latuf Mucci (página 3), ou as águas que surgem de uma ou outra poesia (páginas 4 e 5) e culminando com o belo texto de Fernando Oliveira (foto) — publicado postumamente na página 6 —, o poder líquido da vida se distribui em nossas páginas. Que possamos, todos, refletir sobre isso: a capacidade que a água tem de se adaptar, limpar, transformar. Olhando com mais afeto o mundo a nossa volta, com mais respeito a nós mesmos e aos outros, quiçá possamos viver com mais alegria, com mais força para vencer os obstáculos, com mais fé e prosperidade compartilhada.

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nº 165 - dezembro de 2009 EXPEDIENTE

O Jornal Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte é uma publicação da Mota e Marin Editora e Comunicação Ltda. Editor: Camilo Mota Diretora Comercial: Regina Mota Conselho Editorial: Camilo Mota, Regina Mota, Fernando Py, Sylvio Adalberto, Gerson Valle, Marcelo J. Fernandes, Marco Aureh, Celso Caciano Brito, Francisco Pontes de Miranda Ferreira Jornalista Responsável: Francisco Pontes de Miranda Ferreira, Reg. Prof. 18.152 MTb Diagramação: Camilo Mota CAIXA POSTAL 110.912 BACAXÁ - SAQUAREMA - RJ CEP 28993-970 ( ( ( ( (

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JOÃO CARVALHO NO 1º CONGRESSO BRASILEIRO DE TERAPIA REGRESSIVA O Psicanalista João Carvalho Neto, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal”, participou do 1º Congresso Brasileiro de Terapia Regressiva que aconteceu em Salvador entre os dias 20 e 22 de novembro. O tema geral do congresso foi “TR na busca da integração, capacitação profissional, ética e qualidade do atendimento” e João Carvalho, residente em Saquarema, apresentou seminário sobre o tema Psicanálise Transpessoal, uma linha de psicoterapia pioneira que vem sendo desenvolvida e proposta por ele, com grande repercussão nacional e internacional. Também estiveram presentes outros importantes nomes da Terapia Regressiva no Brasil, como Ribamar Tourinho, de Teresina, Idalino Almeida, de Salvador, Davidson Lemela e Marta Moreira, de São Paulo.

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O psicanalista, residente em Saquarema, abordou o tema Psicanálise Transpessoal.

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Colaborações devem ser enviadas preferencialmente digitalizadas, em formato A4, espaço simples, fonte Times New Roman ou Arial, com dados sobre vida e obra do autor. Os originais serão avaliados pelo conselho editorial e não serão devolvidos. Colaborações enviadas por e-mail devem ser anexadas como arquivo do Word (.doc ou .docx). Os textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Jornal Poiésis.

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ERRATA Na edição 164, na reportagem sobre o Conselho de Segurança informamos de maneira equivocada que o mesmo é “Municipal”, quando na realidade é “Comunitário”. Portanto, a denominação correta é “Conselho Comunitário de Segurança Pública de Saquarema”. As reuniões são abertas a todas as pessoas interessadas, e acontecem sempre na primeira quarta-feira de cada mês, às 19h, na Delegacia Legal de Saquarema.

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nº 165 - dezembro de 2009

Todas as cores do mar

Que a o espírito de paz do Natal esteja presente em cada um dos dias de 2010. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

Uma leitura de “Águas de Saquarema”, de Latuf Isaías Mucci Soube, através de um amigo, que outro amigo o questionara do porquê de eu ter me mudado para Saquarema. O que eu vira nessa cidade, tão pacata, tão à beira do Oceano Atlântico? A água, o mar, o céu, o sol e suas cores, aqui, parecem ter me cativado de uma maneira diferente de outras terras. O sol nasce manso pela manhã, e mais tarde se põe em cores variadas além das montanhas, refletindo um adeus iluminado nas ondulações da lagoa... ele diz em seu quase silêncio de luz que a vida é enorme quando contemplamos a nossa pequenez. E também as pessoas com seu jeito solar, quente, de falar amigo. Alguma coisa mineira, de antanho, me faz olhar esse mar com admiração. E não a mim apenas isso tudo é cativante. Pois que o professor Latuf Isaías Mucci foi mais além e derramou em versos tudo o que sente acerca desta terra ainda admirável, com suas ondas, surfistas, cores feitas em molduras de gente. Mineiro como eu, veio ele ter em Saquarema o encontro mítico e real. Assim como Manuel Bandeira exaltava uma Pasárgada para onde poderia se refugiar e encontrar o ápice da vida em seu máximo prazer, também Latuf o faz, mas num sentido concreto: ele não busca a terra mítica, pois que já encontrou a terra real de seus sonhos. Em “Águas de Saquarema” (Saquarema, Tupy Comunicações, 2009), o poeta revela um amor tal pela região que o acolheu que, à maneira dos românticos

em relação a suas amadas, recolhe em versos as sensações e sentimentos que norteiam sua vida sempre em direção à coisa amada. Tornase, camonianamente, o amante na coisa amada? “Fora de Saquarema / Sou / peixe com mágoa / pássaro sem paz / ave avessa / exilado poético / asilado ilhado / (...) Fora de Saquarema / Nenhum zen me segura”, revela o poeta em sua “Canção do Idílio”, como um Gonçalves Dias pós-moderno a exaltar a falta que lhe faz sua amada pátria, cujos sabiás fazem verdadeiros ninhos na alma. E reforça sua relação com a terra, firmando raiz: “Não me vou mais embora daqui, / nem que me arrastem pelos cabelos / que já perdi há muito na cidade” (“Radicalmente”). A proposta de Latuf poderia cair no lugar comum. Afinal, fazer um livro com uma temática de grande exaltação e paixão por um local em particular é um desafio. Mas aqui revela-se um mistério, que faz parte da alma do poeta e também de Saquarema. Há vibrações tais nessa terra em que a natureza se expressa de forma tão dinâmica, que ela própria se mostra constantemente em oferenda para a inspiração de

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cantos de amor, como os cantados por Latuf. E ele faz jus a esse chamado. Tal qual o marinheiro que se deixa inebriar pelo canto da Iara, Latuf navega nos cabelos de Iemanjá, surfa as ondas, e mostra-nos uma leitura extremamente lírica e zen do mar, um dos principais personagens do livro. “Os meus velhos olhos / nem se cansam de sonhar / estas ondas antigas / vagando em cantigas, danças densas” (“O mar, o mar”). O poeta não cai no lugar comum. Sua “face líquida” vai se moldando a cada novo encontro com sua amada. Antes, apela à simplicidade para dizer de seu amor, de sua valorização da vida, das pessoas, do afeto. É isso: Saquarema é um grande afeto na vida do poeta. E ele, qual um girassol caeiriano, se volta para o brilho dessa luz que se lhe revela a cada dia de uma maneira nova. Há que se ler o livro de Latuf como quem saboreia as ondas, ou como quem sente a tessitura de uma folha de orquídea ou, ainda, como quem chupa uma suculenta manga em pleno verão. Seus versos em “Águas de Saquarema” são leves, para serem levados pelo vento fresco, pelo hálito de palavras ditas com amor, simplesmente com amor. Camilo Mota é natural de São João Nepomuceno-MG (1965), reside em Saquarema desde 2003. É editor do Jornal Poiésis (www.jornalpoiesis. com), membro titular da Academia Brasileira de Poesia, e membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA).

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nº 165 - dezembro de 2009

Poema natalino

E se inda houver amor

A mãe da Praia de Botafogo

Lucila Nogueira

Maria Clara Maia

Gerson Valle E se inda houver amor eu me apresento, E me entrego ao princípio do oceano, E se me atinge a onda, úmida eu tremo esquecida de insones desenganos.

Não é que os deuses inexistam. Pode ser até que no início de tudo um Deus único tenha trovejado e o Universo se feito ativo. Depois, a necessidade de alimentá-lo em doses do equilíbrio elementar acomodou Seu trovão num convívio diário quase sem gritos. Quando resolveu salvar os espíritos desgarrados da Criação primitiva apareceu despido dos espaços infindos, num tosco estábulo entre bichos e gente sem cartão de crédito, despreocupada pela auto-estima, na humildade de ser e amanhecer.

E se inda houver amor eu me arrebento feliz, atravessada de esperança e mesmo lacerada inda assim tento quebrar com meu amor todas as lanças. E se inda houver amor terei alento para agüentar o inútil destes anos. E não me matarei, sonhando o tempo em que me afogarei no seu encanto

O sol do Senhor avança passo a passo, sem lugar para vãs arrogâncias, a ponto de duvidarmos, nos ares dos silêncios estrelares, se os deuses de fato existem ou se tenha havido o trovão de início de um único Deus na glória das alturas do infinito... Pode tudo não passar de um enorme pasto dos boizinhos presentes no presépio. Mas, ao passar os natais, sobressai a utopia da paz, e nós O acolhemos em festa. Gerson Valle é poeta e escritor, membro da Academia Brasileira de Poesia e do conselho editorial do Jornal Poiésis.

Mar Zélia Santos Motta Olhando o mar imenso, Que as ondas lança e agita, Vejo-o qual pequeno lenço, Na mão de moça bonita! Zélia Santos Motta é poeta e trovadora, autora de “Palavras do Coração” (edição da autora, 2009)

e se inda houver amor, ah, me consente ser pasto de tua chama, astro medonho. E se inda houver amor, eu simplesmente apago esta ferida do meu sono. Lucila Nogueira é poeta, reside em Recife-PE.

Pão e Circo

A mãe de mármore branco, em volta assentam-se os bancos, abraça o filho na praça. Os meninos de rua sem marquise ou telhado hora dessas se encantam. Rodam, contemplam pássaros os meninos muito magros, seios frios, sol radiante. O leite é de um tempo congelado, distante. A cola que se respira, aquece a alma, canta. Fundem-se sonhos trinados, coloridos, rasantes, pelos braços alvos da estátua, a mãe de mármore branco.

Antônio Francisco Alves Neto O homem quer pão também a beleza do circo a fome minorada pela alegria do palhaço o homem quer austeridade em seu reino mas não tolera a ausência da corte do festim o rei que não produz o arroz e a festa está fadado à guilhotina que sina! Como viver em um reino dividido entre o pão e o circo? Alimentando-se da ilusão de sonhar mata-se de pronto a fome para que se possa pensar buscar a saída para o reino frutificar. O homem não vive sem pão nem circo!

Maria Clara Maia é poeta e professora, reside em Saquarema, onde participa do Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira.

Matinas Latuf Isaías Mucci Um copo d’água Um pouco de poesia Uma colher de mel E eis-me pronto para um novo dia

Latuf Isaías Mucci é autor de “Águas de Saquarema”, cuja resenha está publicada na página 3 Antônio Francisco Alves Neto é poeta, participa do Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira, em Saquarema. desta edição.

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nº 165 - dezembro de 2009

Amargo

Outra poética

Fernando Py

Camilo Mota a Mauro Gama

De amargo já me disse em gestos e palavras de amargo cristalizo o suor e porcas lágrimas de amargo ruge um cavalo bárbaro sem tarde de amargo acaricio o corpo amado e música de amargo cheiro a rosa do velório rústico de amargo carrego o mal sagrado nas entranhas de amargo cauterizo o sangue nos meus lanhos de amargo me contemplo a um espelho sem reflexo de amargo sorvo as fezes de um banquete tétrico de amargo me encardo a pele no sujo do tempo de amargo me destruo a poesia em círculo e sempre.

A lua e os mortos Eustáquio Gorgone de Oliveira Para Salvatore Pablo Romano

o poeta celebra a morte no que escreve. em vida só contempla a vida e suas riquezas. porque a morte ronda o paraíso. ele ri, se alegra, sofre com o time que perdeu no campeonato. mas a esperança é como um pênalti prestes a ser cobrado. a alegria no gol que o completará. é triste ver o final do dia estando sozinho. a solidão escapa para a palavra e se insere fundo na carne. nem a lua relembra a paz que trazem as estrelas. noite alta, bits vagam madrugadas. uma canção se insinua e distingue-se dos homens: buona speranza allora – buona speranza... e são os homens que a cantam, e são os homens que a vivem, sem o saberem, quando riem e sonham. pois o paraíso é repleto de tudo e tudo é pouco para quem ama em vida o amor que sente além. a morte é só uma flor a mais, um jogo a mais no campeonato das horas.

(Rio, 16-05-1975) Fernando Py é natural do Rio de Janeiro (1935), membro do conselho editorial do Jornal Poiésis e membro titular da Academia Petropolitana de Letras.

Camilo Mota é editor do Jornal Poiésis, membro da Academia Brasileira de Poesia. O poema acima faz parte do livro “Nos caminhos da noite que o dia vem”, disponível para leitura e download no site www.issuu. com/camilomota.

Laura Kait

Rolando Revagliatti Se surgisse no vão da porta não seria em vão Se fosse inverno seria sopa Se cinzas ao vento a sorveríamos assombrados

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Se decrescesse agora se afogaria em seu pranto Se desistisse? Rolando Revagliatti é um dos expoentes da literatura contemporânea argentina. O poema aqui transcrito foi traduzido por Iacyr Anderson Freitas.

idosa lua já não subia aos céus e prescindia da ajuda de carpinteiros. às seis da tarde, traziam a escada para erguê-la à abóboda celeste. as traças e as andorinhas uniam suas forças às dos operários, e o curso do destino não se alterava. dessa forma era a lua colocada sobre os mortos de Pouso Alto. eles também careciam da luz no ciclo de suas marés. Eustáquio Gorgone de Oliveira reside em Caxambu-MG. O poema acima faz parte do livro “A fortaleza de feno” (edição do Autor, 2009)

Nossa casa Julio Polidoro Um dia descemos do estribo e parte o trem. O bonde se confunde com a neblina. O carro vira a curva além do olhar. À noite aguardamos, na estação, um carro, um bonde, um vagão, mudança de roteiro e de lugar. O carro segue seu traçado. O trem, o bonde, o vagão. Descemos do estribo e nos aguardam, ou aguardamos nós, na estação. A casa é uma idéia vaga. A casa é uma idéia parca: concreto, tijolos, corrimão. A casa é para onde se volta a seta do nosso coração. Tivemos tantas casas, não importa se a elas retornamos, noutro chão. Porque a nossa casa é onde estamos. E mesmo que desçamos do estribo, e mesmo que mudemos de estação, e mesmo que trens partam, sem destino, e mesmo que haja bondes na neblina, e mesmo que o carro vire a curva, e mesmo que se percam do olhar, estribos haverá para subir, e outros cursos, rotas de viagem. E ainda que o vagão, em movimento, ainda que o carro, avançando, ainda que no trem, velocidade, se cumpre a nossa viagem além do carro, do vagão, além do bonde, da estação, além do tempo, do lugar, porque a nossa casa é onde estamos. Julio Polidoro é poeta, reside em Juiz de Fora-MG.

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nº 165 - dezembro de 2009

O surf é o equilíbrio entre corpo e espírito

“Por muitos e muitos anos, as ondas continuarão a quebrar em toda parte do planeta onde haja uma costa para a sua chegada. Poucos anos, por nós surfistas, de corpo e alma, poderão ser surfados já que a vida passa muito rápida e nunca poderemos saber quando vamos morrer. A despedida do oceano, nossa fonte de energia, será de uma forma natural e sem traumas. A nossa última onda só será lembrada pelos nossos amigos e familiares que irão admirar a nossa paixão pelo mar e pela paz que o surf nos proporcionava quando estávamos surfando. Muitos momentos felizes o surf proporcionou na minha vida inteira, fosse surfando sozinho ou em companhia de meus amigos. Talvez numa próxima reencarnação eu volte uma tartaruga marinha, talvez um golfinho, mas espero que independente-

mente da forma física de minha alma eu mantenha viva, para a eternidade, a paixão pelo oceano e por suas ondas. Num momento entre uma série e outra no mar, sua vida passa na sua cabeça e você imagina por que o mundo está essa maldade? A natureza foi uma herança de Deus para as gerações e poucos, muito poucos, sabem aproveitar enquanto a grande maioria maltrata e ameaça o nosso ecossistema. O surf é o equilíbrio entre corpo e espírito e independente da beleza do surf de cada um, ele, o surf, tem que estar presente na mente de cada surfista como um encontro com você mesmo. Mesmo pessoas que possuem algum tipo de deficiência física que

Cinema para todos A sétima arte é uma das atrações no verão de Saquarema. A Prefeitura de Saquarema e o SESC estão promovendo o CINESESC, que trará vários filmes nacionais para exibição para a população do município. O projeto leva para as comunidades o melhor do cinema, de forma itinerante e gratuita, através de um caminhão adaptado para funcionar como uma cabine de projeção. A grande

sala de cinema a céu aberto conta ainda com cadeiras para o público se sentir mais confortável. O primeiro filme, “Tainá 2”, foi exibido no Centro, na praça da Igreja de Nossa Senhora de Nazareth, em novembro (foto). Já estão confirmadas as exibições de “A grande família” (10/12 em Bacaxá), “Se eu fosse você” (21/01 em Jaconé) e “Dois filhos de Francisco” (28/01 em Sampaio Correa).

as impossibilite de deslizar sobre as ondas, continuam a “deslizar” só que de uma forma mental e conhecem muito bem o significado da palavra surf. Para os surfistas verdadeiros, aqueles que uma casa simples, um peixe frito e ondas perfeitas na sua frente seria a realização pessoal fica a minha admiração, respeito e satisfação por saber que nesse mundo tão cruel e feio existem surfistas que pensam como eu.” NOTA DO EDITOR: O texto acima foi-nos enviado por Mariana da Silva Lima de Oliveira, irmã do autor. Ela contou-nos um pouco sobre a trajetória de Fernando no surf, esporte que praticava desde

os 9 anos. Numa carta emocionada, ela conta também que, aos 25 anos, ele recebeu o diagnóstico de um tumor maligno, fez todo o tratamento necessário, mas não conseguiu vencer a doença, vindo a passar pela transição para outra vida no dia 6 de janeiro de 2009. No entanto, ainda com alguma esperança de melhora, Fernando passou o Natal de 2008 com seus familiares. A publicação do texto acima é uma homenagem a ele, e também a expressão de nossa compaixão, e também uma forma de Fernando estar presente entre nós, seus amigos e familiares às vésperas de data em que as famílias estão mais solidárias, nutrindo esperanças de superar as adversidades e construir um mundo melhor. No texto, o próprio Fernando mostra um caminho possível, em que a natureza deve ser olhada como parte de nós, e não como uma alienação de nossos sentidos. (C.M.)

Camilo Mota

Fernando da Silva Lima de Oliveira*

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nº 165 - dezembro de 2009

Capoeira é patrimônio imaterial do Estado do Rio

A poesia ganha as ruas Camilo Mota

Regina Mota

Capoeira é um dos esportes mais valorizados e praticados na Região dos Lagos. Na foto, o formado Zorro com seus alunos do Projeto Primeiro Passo, de Saquarema.

A capoeira é, desde 20 de novembro deste ano, um patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro. É o que garante o projeto de lei 2.414/09, do deputado Gilberto Palmares (PT), que foi sancionado, no Dia da Consciência Negra, pelo governador Sérgio Cabral. A sanção fez parte das comemorações pelo dia. Segundo o autor da lei, a capoeira terá sua prática mais incentivada por parte do governo, assim como estudos a seu respeito. “O texto garante a prática e o estudo sobre este misto de luta e dança genuinamente brasileiro. É uma atividade ligada à história de resis-

tência dos africanos escravizados”, afirmou Palmares. Patrimônio cultural imaterial (ou patrimônio cultural intangível) é uma concepção de patrimônio cultural que abrange as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade, para as gerações futuras. São exemplos de patrimônio imaterial: os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições. Fonte: Comunicação Social/ALERJ

O surgimento do Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira, cuja primeira reunião aconteceu em 21 de março de 2009, é uma ideia que veio se fortalecendo ao longo dos anos recentes. Desde as primeiras conversas, ainda na Livraria Imaginação, com o escritor João Costa, passando pela tentativa (um tanto frustrada) de se comemorar com alguma pompa os 150 anos de Alberto de Oliveira (natural de Saquarema e fundador da Academia Brasileira de Letras), até a formalização da ideia num bate papo entre Camilo Mota e Jota de Jesus, em março de 2009, o processo foi se fortalecendo e tomou forma. Hoje, o Núcleo desenvolve o projeto Poesia na Rua, em conjunto com o Curso de Música Barcelos, que no segundo sábado de cada mês realiza um varal de poesia e um sarau ao ar livre no calçadão da Rua Professor Souza, em Bacaxá. Em dezembro, o evento será no

dia 12, a partir das 17 horas. Em breve, o grupo estará lançando um CD de poesia e música. O que une essa turma? Alguns ideais comuns: o amor pela poesia, o reconhecimento da importância do cultivo da literatura em nossa comunidade, o resgate e a divulgação da obra do poeta Alberto de Oliveira. Durante a II Feira Cultural de Saquarema (foto), realizada dias 14 e 15 de novembro, a Tenda Literária foi organizada pelo grupo, que realizou alguns saraus, atraindo a atenção do público presente. Fazem parte do Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira os poetas Antonio Francisco Alves Neto, Camilo Mota, Charles O. Soares, Eric Iglésias, Genecy Barros, João Batista Costa, Jonas Ohana, Jota de Jesus, Lenivaldo Vignoli, Maria Clara Maia, e os músicos Ana Paula Lima, Regina Mota e Renato Barcelos.

Aos nossos amigos e clientes desejamos um Natal com muita saúde e harmonia e um Ano Novo com paz e prosperidade!

“Que a mensagem de fé e esperança do Natal renove nossas forças, por um Ano Novo sempre melhor.”

São os votos de Regina e Camilo Mota

São os votos de Zezinho Amorim.


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nº 165 - dezembro de 2009

PARA QUE SERVE A ARTE, A POESIA?

Dino Gilioli Num mundo cada vez mais mercantilizado, pautado pela lógica da rapidez das máquinas e marcado pela dura sobrevivência da maioria das pessoas perguntamos: Qual a função da arte, da poesia? Que tempo sobra para a contemplação, para o necessário e saudável ócio? Se a poesia não se presta à visão de mercado, não é útil a reprodução do sistema vigente já é, em minha opinião, razão de sobra para degustá-la como uma criança aconchega-se com seu pirulito. É para isto que deve servir a

arte, a poesia e as demais formas de expressão da nossa genuína condição humana. Para nos fazer mais inteiros, mais íntegros com a nossa espécie e mais respeitosos na relação com outros seres e a natureza. A poesia deve nos ajudar a animar a vida, a dar mais densidade ao nosso cotidiano. Só assim, me parece, a arte estará verdadeiramente cumprindo o seu papel: o de propiciar espaços para a criatividade, para o exercício crítico e para o deslumbramento do verdadeiro sentido do que é ser humano. Dino Gilioli é poeta, reside em Florianópolis/SC

Varal de Poesia do Projeto Poesia na Rua, durante a II Feira Cultural de Saquarema.

Fotos: Regina Mota

O texto de Dino Gilioli foi lido durante o evento e exposto para leitura.


nº 165 - dezembro de 2009

MÚSICA ELETROACÚSTICA BRASILEIRA Gerson Valle Normalmente as invenções e aperfeiçoamentos técnicos ocorrem, em arte, pelo desenvolvimento de uma linguagem que vai necessitando expressar-se de forma diferenciada. Na música, os modernismos do século XX efetivamente encaminharam as linguagens para campos atonais, seriais, aleatórios, que divergiam da harmonia tradicional que se havia consolidado no século XVIII com Bach/Rameau, sem romper, no entanto, certa lógica tradicional do discurso da composição. Mas, no que os experimentalismos encontraram-se com a eletrônica, alguns compositores vislumbraram não mais o “aperfeiçoamento” dos meios de expressão de sua linguagem, mas a “elaboração de uma nova linguagem”, desvinculada da evolução dentro da lógica que vinha ocorrendo na música ocidental. Uma peça eletroacústica “erudita”, em outras palavras, não procura reproduzir canções ou “sonatas-formas” nem nada similar. Isto ocorre com as guitarras do pop ou do rock. Mas, nos “eruditos”, as peças se desenvolvem em função dos sons novos que se tornaram possíveis com a eletrônica. Eles é que criaram a nova estética. Sua percepção tornase diferente da música instrumental ou vocal tradicional. Não existe a idéia, por exemplo, de se fazer ouvir uma sinfonia de Beethoven com os novos sons possibilitados pelas técnicas eletrônicas, nem uma melodia popular em que se tornam elétricas as velhas guitarras, como ocorre na chamada “música eletrônica” popular. A peça é construída não para se ouvir uma música conhecida ou “reconhecível” nos velhos moldes, mas uma elaboração ocorrida em função dos sons mesmos que a eletrônica possibilita gravar. O meio se torna, mais que nunca, a expressão. Houve alguns precursores na linha de pesquisa de novos sons para uma nova música, como o futurista Luigi Russolo, já na década de 1910, e sua “arte dos ruídos”, Edgar

Varèse na década de 20, John Cage inventando o “piano preparado” (com uso das cordas e da madeira do piano) em 1938, assim como alguns sons eletrificados foram modificando os hábitos do ouvido, como o “theremin” (um alarme que percorre diversas alturas de som, na dependência de sua proximidade) ou as ondas Martenot. Mas, foi por volta dos anos de 1950 que surgiu na França (Paris), na liderança do engenheiro de som Pierre Schaeffer, a Música Concreta, e na Alemanha (Colônia) a Música Eletrônica, de que logo se evidenciou o compositor Karlheinz Stockhausen. A primeira consistia em gravar sons “concretos” (como cadeira se arrastando, batida de martelo, um trem se movimentando, sussurros de pessoas, pássaros, etc.) e montar a fita de gravação (como uma película cinematográfica), com cortes, colagens, manipulação de acelerandos, diminuendos, polifonias por gravações sobre gravações, distorções que afastam inclusive a identificação da origem do som, etc. A segunda consistia no mesmo processo de gravação, mas tirada de sons eletrônicos. Ambas acabaram por constituir, mais amplamente, a Música Eletroacústica, que há mais de meio século se pratica pelo mundo, sem, no entanto, ainda ter muita divulgação isoladamente, apesar de seus elementos aparecerem em vários arranjos de música popular, em trilhas sonoras de cinema ou televisão, e mesmo misturados com instrumentos convencionais em peças de concerto. No Brasil, nosso antenado VillaLobos, aconselhou um professor de seu Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, o paraibano Reginaldo Carvalho, a pesquisar, em

Paris, tais novidades. Este se tornou, na década de 1950, no nosso primeiro compositor de Música Concreta. No início dos anos 60 o jovem carioca Jorge Antunes formou-se em dois difíceis e diferentes cursos superiores, o de Física e o de Composição e Regência. De posse de seus conhecimentos, construiu geradores que lhe possibilitaram compor as primeiras Músicas Eletrônicas brasileiras (Antunes também teve formação em artes plásticas, e, à época, antes de Oiticica ou qualquer outro, realizou a primeira exposição no Brasil de uma instalação, relacionando sons com cores, relação esta que constituiria mais tarde tema de seu doutorado na Sorbonne). Detentor de inúmeros prêmios internacionais de composição e professor titular da Universidade de Brasília, Antunes sempre teve uma atuação política que deixou refletir em sua obra (que aborda diversas linguagens, não só a eletroacústica, dada sua formação heterogênea), em peças como Proudhonia, Elegia Violeta para Monsenhor Romero (No se mata la Justícia!), Sinfonia das Buzinas (que eram usadas como protesto na campanha das “diretas-já”), a ópera Olga (sobre a vida de Olga Benario, encenada no Theatro Municipal de São Paulo em 2006), etc. Paralelamente, dirigiu sindicato dos músicos e criou a Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica, em 1994, da qual é o presidente. A referida Sociedade acaba de lançar, neste ano de 2009, o álbum “Coletânea da Música Eletroacústica Brasileira”, constante de 5 cds e um volumoso e esclarecedor encarte, com uma apresentação deste tipo de música e seu desenvolvimento no Brasil, pelo compositor

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Luís Roberto Pinheiro, e as biografias dos 34 compositores e descrições das 54 peças que figuram nesta verdadeira antologia. Alguns nomes vêm formando escola no gênero há anos, como Conrado Silva, Rodolfo Caesar, Flo Menezes, alguns aparecem em diversas formas de vanguarda como Tim Rescala ou Jocy de Oliveira, havendo mesmo músicos de expressão mais distante que frequentaram, como um “poeta bissexto” a Música Eletroacústica, como José Maria Neves, muitos jovens e muitos já bem amadurecidos neste campo. Enfim, tal lançamento oferece oportunidade a se ter um panorama de uma importante facção da produção artística nacional não alcançada pela divulgação midiática convencional. Poucos são os que de fato a conhecem. E não me parece nunca ter havido, entre nós, uma oportunidade de se aproximar dessa Música, de uma forma até didática, como o referido álbum oferece. Para os que conhecem a Música Eletroacústica estrangeira, é o momento de se saber o que se faz no Brasil neste campo. Para os que a desconhecem de todo, não creio haver melhor introdução. E sem conhecimento, não me parece possível nenhuma reflexão estética ou apreciação lúdica. Depois de se penetrar no mundo habitado por este álbum, então é possível discutirse, “desgostar”, discordar, dizer-se o que quer que se pense sobre tal forma de arte. Somente por isto, ele merece todo o louvor. E creio, sem dúvida, que muitos que encaravam com desconfiança a Música Eletroacústica haverão de se identificar na forma contemporânea dela se expressar. NOTA: Os interessados podem pedir a coletânea em sbme@sbme. com.br, ao preço promocional de R$25,00. Gerson Valle é poeta e escritor, membro do conselho editorial do Jornal Poiésis e membro titular da Academia Brasileira de Poesia. É autor do libreto da ópera “Olga” de Jorge Antunes.


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Entre Caetano e Lévi-Strauss

Ataualpa A.P. Filho No tempo do vinil, quando era solteiro e jovem, eu colocava um disco na vitrola como trilha sonora do banho. E dependendo das intenções e dos compromissos pós-banho de água fria é que escolhia as músicas. Quando Caetano Veloso lançou o disco, em vinil, “Estrangeiro”, esse passou a ser o mais tocado (até hoje tenho esse disco guardado). Cantava, acompanhando o disco: “O pintor Paulo Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/ o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/ A Baía de Guanabara/ O antropólogo Claude Levi-Strauss detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela.” Cantava, mas não concordava com essa opinião do ilustre mestre antropólogo. Opinião essa expressa no livro “Tristes Tópicos”, no qual ele afirma que a Baía de Guanabara não lhe despertou nenhum encanto, dando-lhe uma impressão de uma boca desdentada pelas proporções entre a baía e os morros que a circundam. No capítulo “O etnocentrismo” do livro “Raça e História”, Lévi- Strauss afirma: “A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre fundamentos psicológicos sólidos, pois que tende a reaparecer em cada um de nós quando somos colocados numa situação inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos identificamos. ‘Costumes de selvagem’, ‘isso não é nosso’, ‘não deveríamos permitir isso’, etc., um sem número de reações grosseiras que traduzem este mesmo calafrio, esta mesma repulsa, em presença de maneiras de viver, de crer ou de pensar que nos são estranhas. Deste modo a Antiguidade con-

fundia tudo o que não participava da cultura grega (depois greco-romana) sob o nome de bárbaro; em seguida, a civilização ocidental utilizou o termo de selvagem no mesmo sentido. Ora, por detrás destes epítetos dissimulase um mesmo juízo: é provável que a palavra bárbaro se refira etimologicamente à confusão e à desarticulação do canto das aves, opostas ao valor significante da linguagem humana; e selvagem, que significa ‘da floresta’, evoca também um gênero de vida animal, por oposição à cultura humana. Recusa-se, tanto num como noutro caso, a admitir a própria diversidade cultural, preferindo repetir da cultura tudo o que esteja conforme à norma sob a qual se vive.” Em suma, “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. Esse verso de Caetano tirado de uma de suas mais belas músicas, “Sampa”, uma declaração de amor a São Paulo, uso sempre quando alguém não se vê refletido naquilo que desejaria. Nessa citada canção, em referência à cidade paulista, Caetano afirma: “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Atrevo-me a dizer que se esse nobre antropólogo tivesse visto um pôr-dosol do Arpoador, tivesse passeado do Leme ao Pontal ao som de Tim Maia, se tivesse ido à ilha de Paquetá em uma manhã de sol, bebendo uma água de coco, tivesse voltado de lá, passando pela ilha de Villegagnon, local em que franceses ficaram por vários anos, avistando o Cristo Redentor de braços

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abertos e desembarcasse na Urca, mudaria de opinião. Em um apelo bem infantil digo que “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Por isso passei a discordar de que o amor seja cego, uma vez que ele enxerga o perdão e é capaz de perceber a essência humana. Usando ainda os versos de Caetano, atrevo-me, mais uma vez, dizer que a Cidade Maravilhosa “é muito mais bonita/ e muito mais intensa/ do que um cartão postal” (esse versos são de “Fora da Ordem”) porque a maior beleza está no seu povo. O Rio é assim de todos os santos, de todas as raças, de todas as línguas, de todos os ritos, de todos os mitos que afloram em só grito de carnaval. Em Copacabana há céus, purgatórios e inferninhos. E o índio que virá, “apaixonadamente como Peri”, se “não pousar em um ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico” certamente pousará como um menino no Rio, virá em dia de lua cheia que ilumina o Cristo Redentor e reflete no mar dessa baía. Isso talvez ocorra em uma época em que a praia de Botafogo não seja mais vista “como uma esteira rolante de areia branca e de óleo diesel”. Quem viu, em Copacabana, Rita Lee cantando “Valsa de uma Cidade” do pernambucano Antônio Maria e do paraense Isamel Neto, teve uma noção de que não é só o Cristo Redentor que anda de abraços abertos na orla dessa baía que se deixa navegar, mesmo nas adversidades. Em “Outro Retrato”, Caetano afir-

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ma: “Minha música vem da/ música de um poeta João que/ não gosta de música/ Minha poesia vem/ da poesia da música de um João músico que/ não gosta de poesia”. E o gostar ou não, nesses versos, não interfere no respeito nem na admiração desses expoentes da Literatura e da Música nacional. O respeito que temos por LéviSrauss, a contribuição que ele deu para a humanidade fazem com que seja irrelevante o fato de não ter gostado da linda Baía de Guanabara. E somente alguém com talento, como de Caetano, poderia transformar isso em música, e fazer a gente cantar para espantar todos os males. Gosto desse importantíssimo antropólogo que não gostou da Baía de Guanabara. Acho que hoje quem estuda alguma ciência humana e não passar por Lévi-Strauss está querendo arrumar algum atalho, ou está seguindo por um caminho errado. A sensibilidade dele por arte pode ser vista no livro “Olhar Escutar ler” (título original “Regarder Écouter lire”). E dentre as lindas canções de Caetano, eu destaco “Cajuína”, porque fala da minha Terra. E se alguém discorda, defendo-me com os versos de Fernando Pessoa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, /Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.” “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Com essa citação, José Saramago inicia o seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”. Veja e repare a bela Baía de Guanabara, você pode até concordar que ela seja uma boca banguela, mas verá que ela tem um lindo sorriso... Ataualpa A.P. Filho é poeta e professor, membro da Academia Brasileira de Poesia.

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11 Mensagem Primeiro Passo encanta platéia nº 165 - dezembro de 2009

de Natal

Elzo Souza Silveira* O Natal é um momento de reflexão e de grande significado para nossas vidas. É chegado o tempo de pararmos para refletir e repensar sobre todas as nossas atitudes que temos tomado perante as diversas situações encontradas diariamente. É sempre tempo de contemplar aquele menino pobre, que nasceu numa manjedoura, para nos fazer entender que o ser humano vale por aquilo que é e faz, e nunca por aquilo que possui. O nascimento de Jesus Cristo é o motivo maior da nossa festa. Não devemos desviar dessa realidade. Que os próximos 365 dias do ano que se inicia sejam repletos de novas realizações e prosperidade para todos! São meus sinceros votos.

Regina Mota

O projeto Primeiro Passo, que realiza suas atividades na Colônia de Pescadores Z-24, em Saquarema, emocionou o público com belíssimas apresentações de dança e capoeira na II Feira Cultural de Saquarema, realizada nos dias 14 e 15 de novembro na Praça de Eventos. Contando com cerca de 200 alunos, o projeto que conta com a participação de bailarinos conhecidos na cidade, como Patrícia Beltrão e Sergio Coelho, “Serginho”, tem conseguido o reconhecimento do público, sempre atento às apresentações das novas coreografias. O grupo já está em ritmo de festas de fim de ano, tendo iniciado aos sábados os ensaios de pastoril, que integra o ciclo de festas natalinas do nordeste brasileiro. Atendendo ao convite da Secretaria Municipal de Educação e

Curso de teatro com Raphael Tavares O ator Raphael Tavares, conhecido no meio artístico por ter interpretado vários papéis como o famoso Don Casmurro, peça bastante aplaudida quando esteve em turnê no Teatro Mario Lago, em Saquarema, está com curso de teatro no

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Cultura, o projeto Primeiro Passo se apresentou domingo, dia 15, no palco da Feira Cultural, onde foi filmado pela equipe da Inter TV Alto Litoral, filiada à Rede Globo de Televisão, em Cabo Frio. A re-

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Em Foco regina@netterra.com.br

Regina Mota

Artista do MS - Adilson Schieffer, famoso artista em Mato Grosso do Sul, esteve em visita a Búzios, na casa da também artista plástica Ilca Galvão. Na foto, ele mostra uma de suas obras. Em abril ele estará de volta a Búzios em uma exposição individual. Parabéns, conterrâneo!

Casa da Poesia - Localizado em Arraial do Cabo, o espaço cultural tem sempre atividades voltadas para a difusão da literatura, como a Semana da Poesia realizada em novembro (foto). Um dos destaques do evento deste ano foi o lançamento do livro “Américo Vespúcio: O navegante que descobriu Arraial do Cabo”, de Wilnes Martins Pereira.

A visita do poeta - O poeta, escritor e jornalista Camilo Mota visitou a turma do 3º ano, da Escola Municipal Castelo Branco, em Saquarema. Os alunos da professora Biancha Mamede foram muito educados e não perderam a oportunidade de fazerem várias perguntas ao editor do Jornal Poiésis.

Niver - A simpática Priscila Carvalho Nunes, da Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Saquarema, comemorou em novembro mais um niver. Parabéns! Novo poeta - Gabriel Favaron Simmons,16, da Escola Municipal Castelo Branco, foi o vencedor do concurso de poesia da II Feira Cultural, com a poesia “A arte de compor”.

Café na TV - A equipe do Jornal Poiésis foi convidada para participar, dia 4/11, do café com as fontes, realizado pela Inter TV Alto Litoral, filiada da Rede Globo na Região dos Lagos, com sede em Cabo Frio. Na ocasião reuniram-se líderes comunitários, representantes de diversas instituições como OAB, PM, Corpo de Bombeiros, entre outros.

Direto de Minas Gerais - A Equipe Master Praia Clube, de Uberlândia, Minas, disputou com muita garra o campeonato de Vôlei Master, que aconteceu em Saquarema dos dias 11 a 15 de novembro. As gurias ficaram hospedadas na Ayuruoca, Pousada do Barão, em Itaúna, da amiga Angela Feingold.

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Edição 165 do Jornal Poiésis, editada em dezembro de 2009

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