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NÚMERO SETE AGOSTO G R AT U I T O


O Agosto do Pedal é tórrido, quente e seco. Mostram-se os raios de sol cravados nas mangas e aceita-se a testa sempre escorregadia. Procuramos insistentemente a água, seja ela entre os preparativos de viagens de Verão em bicicleta, dos 60 aos 700 quilómetros, numa Lisboa submersa até às sete colinas ou em mergulhos com rodas às costas. O mestre de cerimónias do "Festen", que é um Bondam, salpica-nos com notas de política internacional e um Glue que também é da galeria das latas, molha-nos com a Montana do Bairro Alto. Há um Unhais suado escondido na Serra para descobrir com o Pedal e a Specialized, um Grémio com refrescos vitamínicos virado para o Ouro para baixar a temperatura e um prémio Brompton para um desafio criativo. Mergulhem nas folhas. JB N#7 – AGOSTO DE 2012 Ficha Técnica: Director: Bráulio Amado (BA) ba@jornalpedal.com Director Adjunto: Luís Gregório (LG) lg@jornalpedal.com Editor: João Pinheiro (JP) jp@jornalpedal.com Redacção: Ricardo Sobral (RS) rs@jornalpedal.com, João Bentes (JB) jb@jornalpedal.com, Duarte Nuno (DN) Fotografia de capa: Ricardo Filho de Josefina • Colaboraram nesta edição: Fotografia: Ricardo Filho de Josefina Ilustração: Bruno Santo, Sofia Morais Banda Desenhada: Rick Smith Revisão: Babelia Traduções babelia.pt Design e Direcção de Arte: Estúdio HHH Comunicação: Helena César (HC) hc@jornalpedal.com Departamento Comercial: e-mail: info@ jornalpedal.com tlm: 915044437/935586915/933514506 Distribuição: Algarve: Bike Postal Porto: Roda Livre Lisboa: Camisola Amarela JORNAL PEDAL é uma marca registada / Morada: Praça Gonçalo Trancoso n o 2 – 2 o esq, 1700-220 Lisboa Tel: 935586915/933514506/915044437 e-mail: info@jornalpedal.com web: facebook.com/JornalPedal / jornalpedal.com / twitter.com/JornalPedal Impressão: Empresa Gráfica Funchalense S.A. funchalense.pt | email: geral@egf.com.pt Tel. 219677450 Fax 219677459 Tiragem: 5.000 exemplares Depósito Legal: 340117/12 O JORNAL PEDAL faz parte da Cooperativa POST postcoop.org Jornal Pedal é uma publicação gratuita que não pode ser vendida. CURTAS

Bora Lá P’ra fora No campo ou na cidade, a Merrell convida todos a ir para a rua e viver experiências únicas. Passeios, provas, momentos e ambientes, onde o objectivo é deixar um rasto de boas práticas sociais, ambientais e de cidadania por todo país. Há passeios de bicicleta em Lisboa e no Porto - sete passeios em que cada um representa uma cor do arco-íris e onde cada participante é convidado a levar roupa e outros acessórios da respectiva cor -, caminhadas, observação de aves, passeios de BTT, acções de voluntariado, visita a feiras, participação em exposições ou realização de provas em parques naturais que são verdadeiras aventuras, um pouco por todo o país. Os Desafios Merrell têm ainda uma componente social, onde as vendas de alguns produtos revertem integralmente a favor de instituições de responsabilidade social e ambiental. Em Setembro, estão já marcados, por exemplo, passeios de bicicleta nos dias 2 (Porto), 22 (Passeio Mobilidade Sustentável em Lisboa) e 30 (Lisboa). Todas as datas de outras provas e desafios podem ser consultadas no Facebook da Merrell ou em desafiosMerrell.com.

Low Bros e "Wild Cats" na Montana Até 1 de Setembro, pode ser vista, na Montana Shop & Gallery Lisboa, a exposição "Wild Cats", dos alemães Low Bros. Qbrk e Nerd são dois irmãos, vivem e trabalham em Berlim e começaram desde pequenos a brincar com lápis e pincéis e a criar mundos de fantasia no quintal lá de casa. Ligados ao Grafitti, são co-fundadores da Crew TPL e da The Weird e pintam juntos desde sempre. É proibido não fazer uma visita aos seus gatos selvagens geométricos e cromáticos que andam à solta e à mão de semear nesta loja-galeria do Bairro Alto. montanashoplisboa.com

Specialized recicla fibra de carbono Indo ao encontro dos princípios de sustentabilidade da marca para um melhor ambiente, a Specialized acaba de criar um processo de recolha de fibra de carbono para que as bicicletas de carbono passem a dar origem a novos objectos em vez de irem parar aos aterros sanitários. Este processo de reciclagem "consiste em cortar quadros em secções mais pequenas e, de seguida, num ambiente livre de oxigénio queimar o epóxi (resina) que une as fibras", possibilitando a sua reutilização. Os quadros velhos de bicicletas podem ser entregues em qualquer loja Specialized que faça parte deste projecto. Mais informações nos pontos de venda ou em specialized.com.

Mercado 560 chega este mês A partir de 20 de Agosto, há um novo mercado para a compra de roupa, música, livros ou trabalhos de jovens artistas e designers, entre outros. Chama-se Mercado 560 e é uma "loja online que promove um estilo de vida urbano e alternativo, que divulga a criação nacional e que, para além de apresentar e apoiar novas marcas, pretende aproximar outras já estabelecidas no mercado ao seu público alvo." Defende a produção nacional, daí chamar-se 560 (início do código de barras atribuído aos produtos frabricados em Portugal), mostrando que o nosso país produz produtos tão bons ou melhores que os de fora. Mês de ir às compras em mercado560.com.

Milhões de pedaladas até Barcelos Três pessoas, três bicicletas, entusiasmo para pedalar, uma grande vontade de ver concertos dos bons e um carro de apoio. Eis os ingredientes para uma viagem de bicicleta, em dois dias, de Lisboa até ao festival Milhões de Festa, em Barcelos, com espaço para uma noite de descanso na Figueira da Foz. Os audazes são três Camisolas Amarelas da Sevenwheels, Fábio Gonçalves, Ricardo Flores e João Pinheiro (também editor do “Pedal”), que fizeram 370km em bicicletas fixed gear, provando que se o conseguiram fazer, sem dramas, qualquer pessoa também pode começar a usar (mais) a bicicleta no dia-a-dia, de casa para o trabalho, para a escola e afins. sevenwheels.pt

FUSO 2012 – vídeo arte em espreguiçadeiras Lisboa prepara-se para receber o FUSO – Festival Anual de Vídeo Arte Internacional. De 22 a 26 de Agosto, deitemo-nos nas espreguiçadeiras nos jardins, terraços e esplanadas de Lisboa para viajar em vídeos, num “percurso temático abrangente, fora do contexto habitual de galerias e museus apresentado ao ar livre, com entrada gratuita”. Resultado de parcerias nacionais e internacionais, a programação é feita por Dalia Levin, Françoise Parfait, Isabel Nogueira, Jean-François Chougnet, João Laia, José Drummond e Solange Farkas, havendo ainda espaço para exposição com curadoria de Nuno Crespo, entre 21 de Agosto e 7 de Setembro, no BES Arte e Finança. Toda a programação em fusovideoarte.com .

Cursos de Condução de BicIcleta e Mecânica: próximas acções A Cooperativa POST oferece formação específica para quem pretende começar a usar a bicicleta e aprofundar conhecimentos sobre condução em estrada e meio urbano. São ainda ministrados cursos de mecânica simples para o dia-a-dia e assistência em viagem, ideal para quem pretende aumentar a sua autonomia na estrada. Mais informações e inscrições em postcoop.org. 01/09/2012 10:00 – 12:30 Aprender a Andar de Bicicleta 15:00 – 17:30 Aprender a Andar de Bicicleta 15/09/2012 10:00 – 13:30 Condução de Bicicleta na Cidade - Nível Iniciado 15:00 – 18:00 Condução de Bicicleta na Cidade - Nível Avançado 29/09/2012 10:30 – 12:30 Mecânica da Bicicleta – Travões e Mudanças 14:30 – 16:30 Mecânica da Bicicleta – Rodas e Pneus 17:30 – 19:30 Mecânica da Bicicleta – Identificar Problemas e Encontrar Soluções 13/10/2012 10:00 – 12:30 Aprender a Andar de Bicicleta 15:00 – 17:30 Aprender a Andar de Bicicleta 27/10/2012 10:00 – 13:30 Condução de Bicicleta na Cidade - Nível Iniciado 15:00 – 18:00 Condução de Bicicleta na Cidade - Nível Avançado

Ali na doca do espanhol Dá para ver pelo vidro que a cozinha passou a oficina e que as mesas passaram a objectos ciclo mecânicos. É em Lisboa, em Alcântara, na Doca do Espanhol, entre coisas de comer e beber mesmo debaixo da ponte vermelha e do zumbir dos automóveis lá em cima. Não se sabe ao certo se uma galeria, loja ou fantasia mas certo é que há indícios de algo dedicado ao culto das rodas, espigões e pedais. Passem por lá e espreitem. Doca de Santo Amaro, Lisboa.

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EDITORIAL


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l o r d m a n t r a s t e . b l o g s p o t . p t


ViagenS PELA TERRA Por Duarte Nuno

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tenção! Nesta estação, menos bicicletas irão circular nas nossas cidades, mas mais irão circular em família ou entre amigos, acompanhadas ou sozinhas, todo-o-terreno, estradeiras ou fixed gear, na cidade ou junto à natureza, por lazer ou mesmo turismo. O Verão está para durar, assim como a vontade de ir de férias e andar de bicicleta nunca há-de acabar. A pensar nisso fizemos umas perguntas a quem passa ou passou as férias a viajar de bicicleta. Desde uma viagem de 62 quilómetros, mais uns trocos, pela zona da Nazaré feita por César Marques com a sua família, até aos 700 quilómetros percorridos por Rui Henriques pelas margens do rio Danúbio, que com os seus dois amigos foram de Passau, Alemanha, até à capital da Hungria. Tudo começa com os preparativos. Uns nada ou quase nada preparam, é quase montar na bicicleta e ir, caso do João Pinheiro e do Eduardo Mendonça, sendo que o primeiro, para já, tinha um carro de apoio que foi carregado à pressa na noite anterior e a única coisa que foi planeada foi a única estadia que precisavam. Já o Eduardo montou o rack, levou câmaras-de-ar e optou pelo couchsurf que teve de marcar com os anfitriões das casas. Pelo outro lado, temos o Rui que, quando foi pelo Danúbio, comprou guias, mas quando fez a Via Algarviana, fez o mesmo que a Joana Janeiro quando foi da capital até Lagos: simplesmente descarregou o percurso GPS (viaalgarviana.org) e levou tenda. Para um pai como o César, a viajar com os dois filhos, a preparação foi total, começando pelo percurso que

tinha de ser seguro, pois são pequenos, até à dormida e alimentação, estava tudo acautelado. Filipe Correia teve uma preparação de médio prazo, tanto a nível da alimentação como fisicamente. Vegan desde há uma década, cortou nos açúcares antes da viagem de Lisboa a Faro, passando por Sagres, no dia que partiu. Um prato de esparguete integral foi o seu pequeno-almoço e para a viagem levou uns cubos de marmelada, frutos secos e bananas. Fisicamente, corre e fazia 30 quilómetros à noite de bicicleta com amigos. Quando fizemos a pergunta “Qual é a tua próxima viagem ou a que gostavas de fazer?” todos foram unânimes e disseram que queriam fazer mais viagens tanto em Portugal como fora. Sugestões: Eco-pista do Dão (César), Pirinéus passando por Tourmalet (Eduardo), Eco-via Lisboa-Badajoz (Corina Chaves), Costa Oeste (Joana Janeiro), Oviedo-Lisboa (Rui Henriques), Faro-Lisboa (Filipe Correia) e Tróia-Sagres (João Pinheiro). E estes são só alguns desejos destes ciclistas. Muitos quilómetros ou poucos, de certo que existem episódios que marcaram a viagem pela negativa, positiva, curiosidade ou estranheza, porque quando uma pessoa viaja de bicicleta consegue interagir com o que a rodeia ao contrário de outros meios de transporte onde vamos enclausurados. A Corina teve uma gaivota ladra que a tentou roubar. Depois, temos um caso que parece um espelho, a Joana encontrou um casal francês com os seus três filhos, todos com a sua bicicleta e os mais velhos já levavam a sua própria carga, enquanto

o mais novo ia atrelado à bicicleta do pai. O César disse que se lembra do ar de estranheza das pessoas com quem se cruzava, pois levava os seus filhos. Enquanto esperava pelo seu amigo, o Eduardo foi abordado por quem passava para perguntarem se ele precisava de ajuda, se calhar quem precisava de ajuda era o seu amigo a subir a Serra de Monchique. Na margem do Danúbio, o Rui achou incrível a quantidade de ciclistas que por lá passavam, outra realidade possivelmente. A maior parte das pessoas, a quem agradecemos ter respondido às perguntas, começa a resposta “Tinha a expectativa que ia ser difícil mas possível...” (Filipe), “Pensei que fosse mais difícil percorrer tantos quilómetros...” (Joana) ou “Pensei que me fosse doer um pouco...” (Rui). Portanto, podemos concluir que fazer 100, 200, 500 e mesmo 700 quilómetros é sempre possível, com ou sem preparativos. Desde que uma pessoa queira fazer, é sempre possível fazer-se qualquer viagem. Esta conclusão foi o resumo de quando perguntamos “O que recomendarias a quem queira fazer esta viagem?”. Pena é o ano ter só 365 dias, porque para muitos de nós, são poucos dias para andar de bicicleta por ano. E conhecer o nosso país, pois existem ainda muitas belas paisagens e pessoas com quem nos cruzamos nessas viagem. Aproveitem o que sobra ainda do Verão e viajem, viajem de bicicleta. Um conselho meu, que também já fiz uma viagem destas: usem creme protector solar, bebam muita água, alimentem-se e, o mais importante que tudo, DIVIRTAM-SE.

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' ATE DEBAIXO DE AGUA ' Por Duarte Nuno

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odos os Verões era sagrado, “ia para terra do meu pai”, como eu escrevia na composição do primeiro dia de aulas pedida pela professora. Mas também íamos a seguir ao Natal e foi num Natal que a minha avó, ao ver uma notícia de inundações no Dafundo, me perguntou: “A água chega à vossa casa?”, a olhar para a televisão e a dizer: “Ai, meu Deus! Olha para aqui Isabel!” – ela era muito devota a Deus. “Se chegasse água à minha casa” dizia eu, com à-vontade, rindo, “metade de Lisboa estava debaixo de água.” Só agora é que me apercebo que ela ainda não tinha vindo a Lisboa e, quando veio, em frente às Amoreiras disse, alto e bom som: “A lua aqui é diferente do que na Macida.” Bem. O disparate de que eu há muitos anos me ri, agora nem tanto, porque com o aumento do nível do mar, muito rápido, só as sete colinas ficaram de fora. Ainda ninguém sabe a razão do acontecimento natural. Tenho para mim que não foi nada de natural. Tive que mudar-me para um ponto alto rapidamente. Estamos cá há pouco tempo, portanto ainda não percebi muito bem onde estamos, mas estamos bem. Uma vizinha minha, de quem não gosto muito mas com quem já fiz as pazes, por acaso ficou ao pé de mim. Diz que estamos em Porto de Mós. É possível... porque, no castelo onde estamos alojados, os zimbórios são verdes. Há comida, água não falta e temos paz entre as pessoas. Nestes momentos é só o que se pretende. Passados seis meses, a comida começou a escassear, a água não aumentava nem diminuía, excepto a potável

que cada vez diminuía mais e a paz ia pelo mesmo caminho, downhill a uma velocidade bruta. Antes que na ilha do castelo de Porto de Mós a paz dê lugar a outra coisa, amanhã meto-me num barco e remo dali para fora sozinho. Amanhã: direcção a minha casa em Lisboa. Hoje, já amanhã, e bem de manhãzinha, “pesquei” uma vaca que vinha a passar morta. Atei-lhe duas ovelhas, que também vinham a flutuar mortas, de cada lado para haver equilíbrio. Está feito o meu barco. E uma tábua faz de remo e siga! Tenho que baptizar o barco, diz que dá azar. Fica Cornélia, está feito. Agarrei numa garrafa de vidro, enchi de água do mar e atirei contra o barco. Partiu-se em mil cacos, já não há azar que apareça. Lembrei-me que o Tollan também foi baptizado. É melhor não lembrar desgraças. Um pé no barco e outro na terra, dou um impulso e lá vou eu. ... Já há uma hora que não remava, pois estava uma nortada a levar-me para o destino. Só utilizava o remo para me desviar de coisas flutuantes que pudessem impedir-me a marcha e direccionar para o que eu achava que era o sentido Lisboa. O remo também serviu para enxotar um bando de gaivotas que vieram ao cheiro a comida. ... Descubro, passados quatro dias, que estou na direcção correcta porque avisto o que me parecem ser as torres do Instituto Superior Técnico. Tenho que me aproximar mais. Correcto e afirmativo, são as benditas

torres. Fico contente, dou pulos de contentamento mas desequilibro-me e vou à água. Felizmente, estava tudo bem acondicionado, só eu é que vou à água. A Cornélia é um barco fiel. Agora direcção Rato. Não ando de bicicleta há muito tempo, o meu recorde tinha sido quando fui operado à hérnia e tive sem me meter em cima de uma por três meses. E a cada dia que passa o recorde vai aumentando, mas hoje acaba. Quero ir buscar as minhas bicicletas e andar nelas todas (são só duas). Visto o fato de neoprene e mergulho para a minha casa. Destranco a porta, vou pelo corredor, abro a porta que dá para o quintal e não as vejo. Com a subida da água, ficaram penduradas no estendal do vizinho do 2º (não sei como se chama). Meto-me em cima de uma e simulo que estou a andar. Meto-me em cima da outra e já é ridículo, eu com fato de neoprene de 5 mm e com a garrafa de ar às costas a tentar fazer algo que, quando havia terra, fazia sentido. Deixo-as, exactamente, aí sem medo que alguém as venha roubar. … Tenho que subir imediatamente pois o manómetro diz que é melhor. Assim o faço mas o tubo que me alimentava é cortado quando passo pela janela em vez da porta. Tento lutar pela minha vida e por uma réstia de ar que me leve à superfície, mas com a aflição de sair perdi o norte e fiquei-me por casa. Eu pergunto-me, se morri, como é que consegui escrever isto?


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cenas da cidade Na Montana Shop & Gallery com Miguel Negretti aka Dj Glue

“Sair à noite” ainda não é sinónimo de pegar na bicicleta, mas já se tornou comum encontrar o n.º14 da Rua da Rosa envolto por pessoas e bicicletas em noites de Bairro Alto. A Montana Shop & Gallery é quase tão multifacetada como um dos seus fundadores, Miguel Negretti. A loja está aberta durante o dia e, à noite, tem acolhido mensalmente inaugurações de exposições ou outros eventos, alguns relacionados com o mundo da bicicleta. Há algo a passar-se nesta loja e tudo gira em torno das paixões de um dos proprietários. O palco é loja que o Miguel abre com quatro amigos após assentar da agitação de onze anos a tocar com Da Weasel, “Já pinto há 16 anos e, na altura que Da Weasel acabou, já andava a pensar em abrir uma cena minha. O Graffiti é o meu hobby e desde o início havia lojas que tinham latas mas não havia uma loja especificamente de Graffiti, em que tu sabias que podias encontrar aquela cor em particular”. A banda de Almada cresce mantendo a sua humildade e a experiência de lidar com variadíssimos públicos e chegar a “enfrentar” uma multidão de 100 mil pessoas permite ao Miguel viver novos desafios com uma confiança e sensibilidade diferentes, “agora consigo fazer a minha cena como se estivesse em casa a curtir e consigo reagir às pessoas que reagem à música”. O Miguel continua a ser o DJ Glue e mantém-se ocupado com os pratos. Produz alguns edits para consumo próprio na cabine e toca "basicamente todos os fins-de-semana" mas, neste momento, encara também, diariamente, os clientes e curiosos que vão passando pela Montana Shop & Gallery. “Grafitti é a cidade e não há nada melhor para descobrir uma cidade do que andar de bicicleta.” A bicicleta esteve sempre presente na sua vida, começou no BMX mas passou os “truques” para o fixed gear freestyle e desloca-se diariamente na sua bicicleta de pista. Lisboa e Almada são o seu velódromo. “Quando o fixed gear começou a ser mais conhecido, foi quando comecei novamente a dedicar-me mais à bike.”, explica. O Miguel é de Almada, não há dúvida, daquilo que a rua nos ensina e onde Miguel foi deixando a sua marca, e a bicicleta fez parte desse processo: “Na altura em que pintava mais, andar de bike ajudou-me também a descobrir sítios para pintar. Agarrava nela e ia dar voltas para procurar novos sítios. Aliás, cheguei a pôr-me em cima dela

Tex to: João Pinheiro Fotos: Ricardo Filho de Josefina ricardofilhodejosefina.com

para conseguir pintar em sítios mais altos.” Hoje as latas encontram-se dentro de quatro paredes, novas, prontas para encontros com outras superfícies. O Graffiti como origem tem, nesta galeria, um espaço para o Street Art. “Comecei a querer passar algumas das minhas cenas para telas. Começar a pensar assim é uma evolução natural de quem pinta há muito tempo. Começas a ver aquilo muito parado e queres experimentar outras coisas.” Pela galeria da Montana já passaram dezenas de artistas nacionais e internacionais (alguns já participaram com ilustrações aqui no jornal) e tem sido o epicentro de uma sub-cultura lisboeta, longe do mercantilismo de outros meios artísticos. Entre todos os artistas que passaram pela Montana, há algo que os une: o universo do Graffiti. Muitos artistas já passaram pela galeria para mostrar o seu portefólio, mas o Miguel mantém-se firme: ”nós fazemos questão que a pessoa pinte actualmente ou já tenha pintado e tenha um papel importante no crescimento da cena do Graffiti em Portugal. Confunde-se bastante a cena do Graffiti com o Street Art. Agora há um boom do Street Art em Portugal e lá fora, mas Graffiti e Street Art são coisas diferentes. Graffiti são letras, bombing, tags, pintar combóios,

etc.; Street Art nasceu do Graffiti, de querer expor as suas cenas. Alguns começaram a utilizar como base de ferramentas o spray, porque para pintar é rápido e podes pintar rapidamente na rua, mas são duas coisas bastante separadas, mas quem vem expor tem sempre esse background de rua, mais hardcore”. Apesar do Miguel referir que ainda há muitas coisas a fazer pela galeria, “para ser mesmo uma galeria”, já recebeu mais de 30 artistas, durante os seus três anos de existência. Mesmo enveredando nesta aventura mais ou menos sozinho e partilhando o seu trabalhado entre a galeria e a loja, o ritmo em que as exposições se vão sucedendo é alucinante, e Miguel chegou à conclusão que talvez um mês por artista seja insuficiente, “há pessoas que querem bastante ver uma exposição, e um mês é pouco. Por isso, vamos passar para um mês e meio, o que dá nove artistas por ano”. O Miguel está bastante satisfeito com o trabalho desenvolvido até aqui, mas pretende elevar um pouco a fasquia e gostava de acrescentar o Coffee ao Shop & Gallery, como já acontece por Barcelona. Tornar a Montana Lisboa uma maior referência para a Graffiti, “um café lounge para os writers se encontrarem e estarem a beber um copo ou café, entre artistas, amigos, para fazerem uma cena um bocadinho mais forte”. O tempo que tem para dedicar à galeria é usado para escolher os artistas e tratar de toda a logística e promoção. Longe da agitação de um mercado de arte, o Miguel sabe que ainda há muito por explorar. “Tenho é pena de não me desdobrar em mais pessoas e conseguir fazer mais ainda.” As diferentes latas, cores, edições limitadas e comemorativas são impressionantes, há também uma parafernália de outros objectos prontos a largar tinta, prints de vários artistas, livros relacionados com o universo da loja, mas também edições dedicadas à bicicleta ou mesmo roupa e outras coisas coleccionáveis Esta loja em nada tem a ver com as falsas questões que nos vendem do empreendedorismo ou iniciativa jovem. Nasce sim de uma vontade e de uma paixão (ou sua multiplicidade), de alguém que acredita numa ideia, vira-se para quatro amigos e diz: “'bora abrir a cena”.


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"A bicicleta enquanto cultura é um pouco como a cultura alimentar, os hábitos ganham-se desde cedo" Klaus Bondam

Lições de Política Urbana com Klaus Bondam

Klaus Bondam (bondam.dk) é o chefe de cerimónias em “Festen”, de Vinterberg, ou o Padre em “Mifune” de Søren Kragh-Jacobsen. Recentemente, tem estado à frente do Instituto Cultural da Dinamarca pelo Benelux e foi um activo na política dinamarquesa, passando pela Câmara Municipal de Copenhaga, no departamento do Ambiente. Foi nessa altura o grande impulsionador e promotor do estilo de vida ciclável em Copenhaga, um modelo que poderia ser seguido por outras cidades, o princípio da “Copenhagarização” (copenhagenize.com). Klaus é actor e político, ao mesmo tempo, e defende o diálogo para uma política da utilização da bicicleta. Tex to: João Bentes I l u s t ra ç ã o : S o f i a M o ra i s (c a r g o c o l l e c t i v e . c o m /s o f i a m o ra i s ) com base em fotografia de Pedro Cavaco Leitão (pedrocavacoleitao.com)


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Klaus nasceu no campo e, desde cedo, com o ingresso na escola oficial, precisava de se deslocar de bicicleta para chegar à paragem de autocarro mais próxima de casa. Mas isso não era, de todo, desconfortável, era o seu “tempo livre” de criança, onde poderia explorar a floresta que atravessava e, ao mesmo tempo, provar que merecia a confiança dos pais ao deslocar-se sozinho. É uma das suas primeiras lembranças cicláveis, liberdade e responsabilidade proporcionadas pela bicicleta. Como adulto, mantém a sua liberdade ao usar a bicicleta e ao andar a pé. Gosta sobretudo do facto de poder sair quando apetece, sem impedimentos, da facilidade como consegue calcular o tempo de percurso e até de não conseguir ver e-mails ou atender o telefone enquanto se desloca, é tempo livre de qualidade. Quando se anda de bicicleta, diz-nos Klaus, sente-se a cidade como ela é, é possível aperceber-se quando está deprimida ou mais alegre, sentem-se mais coisas e de um modo mais verdadeiro. Para seu descontentamento, agora que vive em Bruxelas, não tem a possibilidade de usar a bicicleta tanto quanto gostaria, visto que há um grande número de ladrões e a cidade tem falta de infra-estruturas. Andar de bicicleta em Bruxelas não é relaxante como em Copenhaga e talvez isso seja também um impedimento. Esclarece ainda, Bondam, que andar de bicicleta não é para ele necessariamente lazer, é uma forma de nos transportarmos e é, acima de tudo, uma ferramenta urbana. Copenhaga é naturalmente ciclável. A Dinamarca, em primeiro lugar, tem uma história de prática de taxas automóveis elevadas, o que bloqueou, desde o início, o acesso facilitado à utilização banal do automóvel. Enquanto jovem não é normal ter-se um carro, Klaus tirou a sua carta de condução apenas aos 36 anos de idade. Depois, em termos de política urbana, foi feito um investimento na simples mensagem de que, enquanto jovens, as pessoas deverão andar a pé, deverão andar de bicicleta ou de transportes públicos. A mensagem de que não é preciso ter um carro aos 18 anos, que a liberdade e autonomia existem sem o automóvel. Obviamente que existem, para além das circunstâncias históricas, outras razões para que Copenhaga se tenha tornado numa referência para a mobilidade urbana. Para além de ser sobretudo plana, o clima na cidade é ameno, o Inverno não é extremamente frio (0ºC) e o Verão não chega a ser quente (17ºC), o que facilita a rotina ciclável. No entanto, existe ainda a acrescentar a cultura nórdica, o sentido de comunidade que construiu uma cultura de relação com esta prática ciclável. As raparigas gostam de ser admiradas quando andam de bicicleta, gostam que os rapazes toquem a campainha ao passar por elas, aliás, Klaus afirma até que é na via ciclável que ele conhece pessoas, é a andar de bicicleta que põe a conversa em dia. Na sua carreira enquanto político Klaus diz que em Copenhaga o mais importante foi a vitória na “batalha de valores”, a consciência urbana que tornou Copenhaga mais leve. No início, havia sempre uma discussão acesa por causa da anulação de alguns lugares para estacionamento automóvel tendo em vista a implantação de um passeio pedonal ou de uma via ciclável na cidade, mas agora 51% dos carros na Dinamarca só são usados uma vez por semana ou menos, o que afirma esta vitória de consciência, a percepção de quando devemos usar e o quê para nos movimentarmos no meio urbano e extra-urbano. Mesmo assim, enquanto político, Bondam foi por vezes acusado de odiar os carros e os condutores de automóveis, no entanto, ele próprio é condutor, diz até gostar de conduzir o seu carro e a liberdade que este também proporciona. Há que ser um condutor consciente, saber fazer a escolha deliberada de quando se deverá levar o carro, de quando ir de bicicleta ou a pé. É importante que se perceba que é uma escolha activa. As pessoas gostam de se deixar ir na sua rotina sem se questionarem acerca das alternativas, perceber que se forem de transportes poderá ser igualmente rápido e até mais cómodo, que poderão ter a oportunidade de ler um livro, trabalhar no caminho, que se escolherem ir de bicicleta chegam ao destino mais rápido, que podem aproveitar a viagem em si, podem ver e sentir mais coisas. Em Copenhaga as pessoas ganharam esta consciência, seja um político, um trabalhador fabril ou um advogado e isso também é importante, o exemplo real de que todos participam nessa escolha. É importante ver o Ministro ou o Presidente da Câmara a passar de bicicleta e que um actor ou músico passe a pé diariamente. É preciso o exemplo de liderança,

"Há políticos que saltam para a bicicleta um mês antes das eleições, isso é lixo político"

Klaus Bondam

acreditar na política a sério e não saltar para a bicicleta ou transportes públicos na véspera de eleições, não transformar a mobilidade em lixo político. Klaus defende que há que estar lá todos os dias e que isso até, na sua experiência pessoal, o tornou melhor político. Conta-nos que ao parar nos sinais vermelhos em Copenhaga, de quando em vez, alguém o reconhecia e conversava acerca da cidade e das suas preocupações, havia este sentido de acessibilidade. Quando pretendemos que uma cidade seja ciclável e explorar esse potencial, temos que entender imediatamente os benefícios directos. Menos barulho, mais espaço, menos poluição, mais espaços urbanos, mais cultura urbana. Temos ao menos que nos questionar se a cidade não poderia ser algo mais com essa alternativa. É claro que algumas cidades são mais cicláveis do que outras à partida, a topografia pode ser um obstáculo, o clima outro mas não significa isso que sejam impossíveis de ciclar como prática urbana, até porque é importante relacionar o andar de bicicleta com o andar a pé e de carro. Não se trata de uma guerra entre peões e carros, carros e bicicletas ou bicicletas e peões, é um debate, uma discussão acerca de como queremos as nossas cidades, de como queremos viver e tornar conscientes as pessoas no que respeita ao desenvolvimento urbano. Levar-nos-á isto a pensar no facilitismo de encaminhar as pessoas com práticas mais cicláveis a mudarem-se para países com essas características. Para Klaus não, se ele vivesse em Portugal ficaria e continuaria a andar de bicicleta. Os primeiros passos estão na discussão, através dos círculos políticos, através dos jornais, isso é apenas democracia, começar a falar das coisas. Paris, Londres, Nova Iorque, mudaram imenso nos últimos anos, facto é que se enquanto cidadãos se iniciar a discussão e o diálogo, se enquanto políticos se tomar a decisão de investir na prática ciclável, se houver coragem política poderemos realmente vir a mudar as coisas. Se, em termos concretos, questionarmos se Lisboa ou o Porto se podem tornar uma Copenhaga, Klaus não tem a certeza. Em termos políticos, claro que sim, no entanto é suicídio político trabalhar em algo que ninguém quer. É por isso que é importante iniciar a discussão, perguntar como é a cidade em que queremos viver e explorar as alternativas e os exemplos. Se explicarmos a um automobilista que se estacionar a 500 metros de casa poderá vir a ganhar um jardim com árvores e plantas à porta de casa talvez, assim, não se importe tanto e poderá até vir a gostar e partilhar essa ideia. Uma boa forma de começar o diálogo é voltarmo-nos para as crianças, inclui-las no diálogo e perguntar-lhes como é a cidade em que gostariam de viver, as crianças gostam de sítios calmos e pacíficos, dirão que o fumo e o ruído automóvel as desagrada. Se lhes mostrarmos a bicicleta como uma possibilidade de conforto de mobilidade e o sentido divertido e autónomo da mesma, talvez aí se possa iniciar uma nova vertente cultural. No fundo, aponta Klaus, a bicicleta enquanto cultura é um pouco como a cultura alimentar, os hábitos ganham-se desde cedo. O facto de todos concordarmos num futuro mais ciclável não é utópico de todo, defende Klaus Bondam, veja-se que vivemos num período de paz europeia há algum tempo, vivemos mais tempo, estamos cada vez mais saudáveis, uma vez que ganhamos consciência alimentar e física, somos cada vez mais pessoas e estamos cada vez mais concentrados em grandes cidades. Nos próximos dez anos, estima-se o aumento de milhares e, em alguns casos, milhões de pessoas nas populações urbanas. Como, onde e para onde nos poderemos mover se todos utilizarmos o carro? Facto é que chegámos à conclusão consciente de que a liberdade automóvel tornou-nos um pouco obesos, poluiu um pouco demais e criou demasiados problemas de congestionamento. Para Klaus, fomos um pouco mais além do que poderíamos ir, é altura de voltar um pouco atrás.


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Férias. Também podem ser férias da bicicleta enquanto instrumento urbano, das pedaladas entre carros, através de avenidas e do seu furor citadino. Pode parecer óbvio, mas existe também um ciclar para além do percurso de "A" a "B" em que a bicicleta se apresenta como uma das melhores soluções em cidade. Podemos usar a bicicleta pelo desporto, pelo lazer ou pelo prazer, coisas que no hábito urbano se tornam inerentes ao seu uso, e não uma finalidade per si. Se ir de férias representa uma mudança nos nossos hábitos, isso também pode representar um espaço novo para os nossos hábitos ciclísticos, deixando a bicicleta como meio de transporte e descobri-la enquanto forma de lazer. Há sítios onde o descanso, o desporto e o lazer estão de mãos dadas e transformam-se em turismo activo. Um desses sítios é o H2otel, um hotel diferente, situado em Unhais da Serr a, num belo e suge stivo vale em plena Serr a da E strel a, onde fomos brincar ao BT T e ao ciclismo de estrada, muito bem acompanhados.

sai

da cidade! Texto: João Pinheiro Fotos: Ricardo Filho de Josefina ricardofilhodejosefina.com

REPORTAGEM


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Aponte para o andar de bicicleta é mesmo muito curta, pois os vários percursos começam logo a o “ v i r a r d a e s q u i n a ”, m a l saímos da porta do hotel.

A

o longo dos seis números anteriores deste jornal, temos vindo a defender o uso da bicicleta na cidade, em linhas gerais, e seguimos pelos interstícios que uma decisão dessas acarreta, partilhando histórias e visões de outras pessoas que, como nós, utilizam a bicicleta como meio de transporte; como a bicicleta é uma resposta aos dias de hoje; mostrando e questionando as dinâmicas que a relação homem-bicicleta-cidade produz reflectimos também sobre as cidades e como estas devem ser repensadas. Mas desta vez saímos do quotidiano citadino, em que a bicicleta é um dos nossos companheiros favoritos, e fomos para um contexto completamente diferente. Longe dos prédios e das avenidas, agarrámos em outras bicicletas e tivemos uma experiência diferente. O corpo cansado pelos tumultuosos percursos pela cidade, aqui concentra-se nos trilhos e diferentes reflexos que estes exigem, para mais tarde ou mais cedo perder-se pela imensidão das vistas que o pedalar na serra nos proporcionam. Revistas como a B – Cultura da Bicicleta, longe das questões técnicas das bicicletas mas próxima das sensações do que é andar no contexto rural, aguçam a vontade de experimentar outros caminhos, serra adentro. Nós, enquanto bichos urbanos, mergulhámos nessas imagens.

Um hotel bike friendly? Não é por acaso que o H2otel é o primeiro hotel em Portugal a receber a certificação Bike Friendly pela marca Specialized. Tem excelentes condições para acolher qualquer pessoa que queira incluir a bicicleta nas suas férias, tanto a nível de infra-estruturas, como de serviços especializados e condições para acolher bicicleta e companheiro, onde o gradiente de opções irá satisfazer desde o atleta mais exigente até ao pedaleiro mais preguiçoso. Somos acolhidos com enorme hospitalidade e está tudo

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pronto para nos receber caso levemos bicicleta (parque exterior para bicicletas ou compartimentos privativos na garagem) ou não (já que existe possibilidade de aluguer e loja). A ponte para o andar de bicicleta é mesmo muito curta, pois os vários percursos começam logo ao “virar da esquina”, mal saímos da porta do hotel. Há vários percursos já preparados, que podemos descobrir através de indicações GPS disponibilizadas pelo hotel ou com um guia que faz parte da Bike Team do hotel que conhece a região tão bem quanto gosta de bicicletas. Há, por exemplo, um programa “Bike Friendly by Specialized” que inclui serviços do hotel, nomeadamente, ginásio, jacuzzi, piscinas, massagens, aconselhamento nutricional ou acompanhamento médico, entre outros. Para além de estadias de puro prazer, o hotel também tem acolhido atletas de alta competição em preparação ou estágios de equipas de ciclismo. Um exemplo,


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...desde os 12 anos que anda de bicicle ta e se deslocava para todo o lado “se calhar foi isso que também me deu a parte técnica e física para p o d e r e s t a r n a c o m p e t i ç ã o .” Emanuel Pombo campeão nacional de Downhill 2012

e seguindo a tendência internacional, de como a bicicleta e a “naturalidade” do seu uso chega a mais ramos de actividade, sendo interessante perceber, neste caso, a preocupação por parte de entidades hoteleiras relativamente a este fenómeno. Mais um sinal daquilo que a bicicleta faz despertar.

Brincar aos atletas Portugal viveu o boom da bicicleta de BTT e ciclistas de fim-de-semana, pessoas sem pretensões olímpicas, faziam paralelamente aquilo a que amadores e profissionais dedicavam a sua prática desportiva. Hoje, a bicicleta volta a conquistar o espaço urbano, a utilização pelo transporte e nós somos fruto desta nova geração, uma geração que começa a agarrar pela primeira vez na bicicleta em contexto urbano, ou mesmo que isto não seja bem assim, esperamos estar a alimentá-la com as folhas deste jornal. Vestindo essa capa, mergulhámos nesse universo em que com as bicicletas não temos de nos preocupar

em ultrapassar carros ou parar em sinais vermelhos. Dificilmente, poderíamos estar mais bem acompanhados e fizemos alguns dos percursos que o H2otel oferece na companhia do Emanuel Pombo, campeão nacional de Downhill, e do Cândido Barbosa, ícone do ciclismo de estrada em Portugal. Perguntámos ao primeiro que recomendações tem para alguém que queira começar a praticar BTT sem se ser o equivalente do tipo que na cidade anda de licra. Os conselhos do especialista: “O fundamental são as protecções, material adequado à prática, por questão de segurança e conforto. Depois, é experimentar, a partir daí é tirarem as vossas próprias conclusões, mas acho que no geral vão gostar, porque é um espaço tranquilo, que podem desfrutar, seja um pouco a adrenalina nas descidas, seja sofrer um pouco nas subidas.” Para este atleta, que o que mais gosta é de descidas, “sem dúvida”, um percurso para ser bom, “tem de ter bons trilhos, mas boas paisagens”, coisa que em Unhais da Serra o deixou

bastante satisfeito. Isto de ser atleta não é brincadeira nenhuma, e percebemos isso quando pedalamos ao lado de alguém como o Emanuel Pombo. Bem, “pedalar ao lado” é um eufemismo. Para além da total dedicação deste atleta à modalidade, à bicicleta e ao treino físico, é curioso perceber que a bicicleta não é um mero acaso no seu percurso. Desde os doze anos que anda de bicicleta e se deslocava para todo o lado, “se calhar foi isso que também me deu a parte técnica e física para poder estar na competição.” E quem vive e transpira bicicleta não está imune aos benefícios sociais e ecológicos da bicicleta, “acho que a bicicleta vai voltar a ser mais utilizada, além de ser um meio de transporte amigo do ambiente, estás a ajudar a tua saúde e só tens coisas a ganhar.” Por seu lado, Cândido Barbosa já não se considera um atleta, mas mantém características de quem é moldado por essa dedicação, “considero que ainda tenho genética, que tenho ainda alguma capacidade sobretudo de sofrimento e de visão daquilo que é o desporto e, sobretudo, do que é o ciclismo. […] Tenho aquilo que é o mais importante, uma mente ainda bastante activa em termos desportivos”. Segundo a perspectiva do Cândido Barbosa, estivemos no sítio ideal para a prática do ciclismo de estrada, fora do “habitat urbano”, que tem alguns perigos e obstáculos. E, para entrarmos na modalidade, escutámos com atenção este conselho de ouro: “Para conseguirmos fazer os pequenos treinos e fazer umas voltas maiores, primeiro, é preciso ter gosto pela bicicleta. Tendo gosto, com alguma dedicação ou não muita, facilmente fazem-se 50 a 60 km, na boa, a desfrutar, a não chegar estoirado, chegar com algum vício — “da próxima vez, ainda vou fazer mais”. O objectivo é termos noção daquilo que somos mais ou menos capazes, não nos metermos em loucuras, porque aí vamos perder toda a pica para a próxima vez”.


PRODUTOS

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1 Cláudio, o vencedor do desafio "Desdobra a Tua Criatividade"

A romântica história que Cláudio Marques conta no seu vídeo não podia ter melhor desfecho. Encontrámo-nos num Sábado à porta da loja Mega Aventura para conhecermos o seu mais recente date. Para o desafio que tínhamos lançado há uns meses – Desdobra a Tua Criatividade – o Cláudio, de 16 anos, participou e ganhou com um vídeo bem-humorado contando a relação que tem com a sua “amiga inseparável”. A branca Brompton esperava-o já cedo e, ao longo da manhã, foram apresentados por Leonor Reis, proprietária da loja. Os detalhes para uma boa relação foram cuidadosamente explicados pela Leonor, pois esta bicicleta é uma senhora e sobre a Brompton há muito a aprender. “Vou ter mais cuidado do que com as outras [bicicletas], mas vou dar-lhe muito uso”, diz-nos excitado e com a bicicleta nova em mãos. O Cláudio explicou que mesmo estando em exames preparou o vídeo ao longo de duas semanas, com a ajuda de amigos e dos pais. O Cláudio usa a bicicleta com bastante frequência, mas contou que não gosta de pedalar em alturas de maior trânsito em Vila Franca de Xira, onde mora. Contou-nos também que sempre teve bicicletas em casa mas que estavam todas a ficar muito velhas e, na realidade, precisava de uma nova. Ficamos bastante contentes por termos oferecido a bicicleta ao Cláudio e esperamos encontrá-lo no futuro e saber em que outras “aventuras” se meteu. O Jornal Pedal, com o apoio da Loja Mega Aventura, Brompton Portugal e ArtChiado, ofereceu uma bicicleta Brompton.

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T E x t o : ri c ar d o S Obral F o t o g rafia : j o ã o B entes

É cada vez mais comum ver bicicletas na publicidade e em montras de lojas, independentemente de haver ligação com os produtos que estão a ser vendidos. Importa por isso distinguir o genuíno da mera apropriação estética. Um desses locais onde a bicicleta está genuinamente presente é o Grémio do Carmo – um café, barra, restaurante de pequenos-almoços, brunches e almoços, barra, loja de sanduíches. Trata-se de um espaço bonito num lugar agradável situado no centro de Lisboa que abriu há quatro meses juntamente com a nova loja da Merrell, a primeira flagship store da marca no país. A Merrell, para quem ainda não conhece, é uma marca de outdoor que tem, entre outras coisas, uma linha de sapatos para andar de bicicleta, que inclui saltos altos. Isto por si só bastaria para justificar a presença de bicicletas. Mas subindo ao primeiro andar, encontramos o café gerido pelo Marco Costa, também ele um revolvedor de pedais. Depois de muitos anos a viver em Londres, o Marco decidiu voltar para Lisboa onde, segundo o próprio, vive-se ainda o “boom do snack-bar”. Disposto a desafiar o status quo no ramo da restauração, este designer de equipamentos criou um café-conceito onde não há Coca-Cola, para dar o exemplo mais flagrante. Se o cliente estranhar ou ficar ofendido com a ausência de certos produtos, tem à escolha afogar as mágoas numa Sovina, a cerveja artesanal produzida no Porto que não se encontra facilmente em Lisboa, em sumos naturais variados ou repor os níveis de cafeína com uma das especialidades da casa, o lote de café. Como nem só de líquidos vive o ciclista, há também uma criteriosa selecção de bolos (alguns veganos), quiches, saladas e tudo o mais que vai entrando e saindo do menu diário. O brownie é um must e o bolo brigadeiro ainda mais. Por estar num primeiro andar, o espaço goza de uma tranquilidade que permite apreciar a vista para a movimentada Rua do Ouro, com a devida distância de segurança, tal como num postal. Ambiente ideal para aproveitar a selecção de livros de arte e zonas de leitura que o Grémio do Carmo tem. A programação inclui exposições regulares e concertos que, de tempos a tempos, vêm remexer a tranquilidade e renovar o espaço. O Marco confidenciou-nos ainda que está previsto, para breve, começarem com eventos relacionados com bicicletas, pelo que devemos ficar todos atentos ao que aí vem. Tudo isto fica entre a Baixa e o Chiado, mais ou menos como a estação de metro, um pouco ao lado desta. As entradas fazem-se pela loja da Merrell, na Rua do Ouro, e pelo número 98 da Rua do Carmo. Por enquanto, não têm disponível estacionamento para bicicletas à porta, mas garantem-nos estar a tratar do assunto.


JORNAL PEDAL Nº7  

ediçao de agosto

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