Page 1

Foto: Marlon de Paula

Música

Religiosidade

Orquestra Ribeiro Bastos mantém repertório em latim há mais de 200 anos | PÁGINA 7

Ensaio fotográfico mostra fé do são-joanense durante Semana Santa | PÁGINA 8 SÃO JOÃO DEL-REI

JUNHO JULHO 2015 N˚ 15 Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei | Versão online: issuu.com/jornalorapronobis

Distribuição gratuita

Tradições quilombolas Foto: Aléxia Pinheiro

Projetos tentam resgatar as histórias e desenvolver as comunidades próximas à São João del-Rei | PÁGINAS 4 e 5

Incertezas no processo do transporte público

O olhar do estrangeiro sobre São João del-Rei

Usuários questionam serviços prestados pela empresa de ônibus urbano em SJDR. Valor da tarifa, veículos insuficientes e poucos horários estão entre as reclamações. Licitação ainda não tem data definida. PÁGINA 3

Intercambistas relatam experiências e as impressões sobre a cidade histórica. Parcerias da UFSJ com instituições de ensino de outros países contribuem para formação de alunos vindos do exterior. PÁGINA 6 Foto: Cecília Santos

Foto: Suellen Jacques


Comer, rezar, pautar Da oração ao prato típico, até o jornal laboratório. Ora pro nobis, que do latim significa “rogai por nós” é uma expressão que se encaixa perfeitamente no cenário são-joanense que contém tradições religiosas e culinárias. O periódico “Ora Pro Nobis”, realizado pelos alunos do curso de Comunicação Social da UFSJ, é um treinamento para os jovens que logo vão estar no mercado de trabalho. Ao longo deste ano, a ideia é buscar levar aos moradores de São João del-Rei e cidades da região questões relacionadas ao seu dia a dia, prestação de serviços, cidadania e, principalmente, cultura. Um diálogo entre os estudantes de Jornalismo e a população. Nesta edição, vamos viajar pelas comunidades quilombolas e mostrar projetos que buscam desenvolver essas localidades. Ouvir os questionamentos dos usuários sobre o transporte urbano. Com a presença de estrangeiros em programas de intercâmbio da Universidade, fomos saber o que eles pensam sobre a cidade. Além de contar histórias sobre as orquestras e revelar um olhar sensível sobre a Semana Santa. Prestação de serviços, valorização da nossa terra e nossos talentos, tradição, Jornalismo! Estes são os nossos principais compromissos com vocês.

>>

Jatobás, praças e queixas

DANI DA GAMA Palmital, Nazareno/MG: comunidade reconhecida como quilombola em 2013. Recebem-nos moradoras que hesitam em dizer nomes. São duas ‘Cidas’, uma terceira mulher e crianças curiosas que fogemdenossascâmeras.Reúnemse sob um velho jatobá, com revolta e queixas. Perguntamos: “Do que vocês precisam aqui?” Entre tantas coisas, escolhem: “Uma praça”. Em seguida vamos a Jaguara, reconhecida no mesmo ano. Ali há praça, são menos arredios, mas queixosos também. Nas duas o entendimento de quilombola é vago. João Rosa, liderança local, conta que dizem: “Agora Jaguara ta rica, vocês têm muitas coisas pra resgatar! A gente fica com essa curiosidade”. Às vezes é preciso que iniciativas de fora des-

JATOBÁ Árvore é local de reuniões entre moradores de Palmital Para ele, é preciso superar carências básicas para que então possam pensar sua identidade, recuperar não apenas sua cultura, mas sua autoestima. É preciso um esforço do poder público, da Universidade e das comunidades para que elas se organizem e devolvam a si mesmas o que é seu. Na Grécia antiga, a praça era onde cidadãos se reuniam

para debater seus problemas. Aqui, enquanto não há praça, nos despedimos sob o jatobá bicentenário que secou no começo do ano. Querendo que essa história mude: que as crianças de Palmital tirem fotos, que Roselice pinte quadros, que se vejam com orgulho, e que essa curiosidade sobre a própria identidade ajude a recuperá-la e não deixa-la secar, como o velho jatobá.

Além do banheiro BYRON MARQUES

A humanidade tende a dar nomes e conceitos a tudo ao seu redor para comunicar-se com mais facilidade e compreender o outro em seu ciclo social. Damos nomes a objetos, a animais e a outros seres humanos… Basicamente: colocamos o signo em tudo para entendermos o meio em que vivemos. Ingedore Koch, linguista brasileira, diz: “signos são entidades em que sons ou sequências de sons - ou as suas correspondências gráficas estão ligados com significados ou conteúdos. (...) Os signos são assim

Expediente

Jornalista responsável: Chico Brinati (MTb/MG:10.568) Chefes de redação: André Frigo e Mayara Mateus Assistente de redação: Sarah Evelyn Editor de arte: Bruno de Oliveira Digramação: Diego Damasceno, Ana Martins e Tiago Santos Editor de imagens: Marlon de Paula Edição: Tawane Cruz, Priscila Natany, Amanda Magalhães, Maria Carolina Dias e Sarah Rios Analista de mídias digitais: Sarah Rios O Ora-Pro-Nobis, jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), é distribuído na cidade de São João del-Rei-MG, bimestralmente, com tiragem de mil exemplares, impressos na CGP Solutions Ltda. Fale com a redação: jornal.orapronobis@gmail.com

2

pertem esse interesse. O professor Glauco dos Santos, coordenador de programa de extensão que atua nas comunidades, conta que foi difícil: “Eles tinham vergonha”. Como recuperar uma cultura silenciada por séculos de espoliação? O nível de carência é alto. Roselice da Silva reclama da falta de serviço e se orgulha, sugerindo que a comunidade tenha aulas de artesanato: “Ganhei o 1º. lugar de ‘mexer’ com pintura!”. Em Palmital as Cidas também têm vontades: de aula de costura, violão. “Porque eu sou velha, mas tenho vontade de aprender violão”. Cidas que silenciam ao perguntarmos sobre sua história. Revolta por não se sentirem ajudadas pelos projetos que vão lá. Mas o processo é lento e há dificuldade em assimila-lo: “Há um grande grau de desalento”, afirma o professor Glauco.

Foto: João Vitor Militani

Editorial Crônicas

instrumentos de comunicação e representação, na medida em que, com eles, configuramos linguisticamente a realidade e distinguimos os objetos entre si”. Nada precisa ser definifivo. O nome que recebemos não precisa se perpetuar por toda a nossa existência. A mudança do nome parece ser algo simples quando, para nós, não está ligado diretamente à nossa identidade. Imagine-se ser Maria e durante todo o dia ser chamado de João? É algo que fere a essência do ser. Já que todos temos o direito de nos sentir confortáveis em sociedade, como se sentir bem

se não há respeito? A regulamentação do uso do nome social em nosso ambiente acadêmico é uma batalha a mais diante dessa triste guerra que é ser reconhecido como único em sociedade. Infelizmente, a diferença ainda incomoda muita gente. Algumas pessoas lutam para que os moldes sejam reforçados, mesmo com a impactante mudança que a nossa sociedade já contextualiza. O simples uso do banheiro incomoda. Parece não fazer nenhuma diferença usar qualquer um dos dois banheiros, porém, para quem luta para se afirmar no nos-

so convívio é uma importância do caramba. Sim, caramba mesmo! Exatamente pelo fato de que: o uso do banheiro deveria, sim, ser algo simples! Da mesma forma que a carne não revela a essência do ser, seu corpo pode não refletir quem você é. O reconhecimento do nome do uso social na UFSJ vai além do uso do banheiro, é a democracia se fazendo valer ao permitir que cada um possua sua liberdade individual dentro de um ambiente acadêmico. É dar a liberdade do ser para que o coletivo conviva em melhor harmonia. Avante!


Impasse no transporte CECÍLIA SANTOS DYONARA MONARTES LÍVIA GALLO TAWANE CRUZ THOBIAS PEREIRA VIEIRA

A qualidade dos serviços de transporte urbano é questionada por parte dos são-joanenses. Preços que seriam acima do ideal, ônibus lotados e horários insuficientes para atender a população são os principais problemas enfrentados. A empresa responsável pelo transporte no município é a Viação Presidente. Com sede em Belo Horizonte, chegou à São João del-Rei no ano de 2001 e foi aos poucos expandindo seus serviços pela região. A briga entre os usuários e a Viação se intensificou e as reclamações se tornaram constantes. “Ele atrasa, às vezes o motorista não te vê e passa com o ônibus direto, aí depois você tem que pegar outro, e demora”, comenta a estudante Elaine Maciel, de 18 anos. “Tinha dia que eu chorava de nervoso no ponto de ônibus. Eram 40 minutos, uma hora, esperando”, conta Marli Ribeiro, de 50 anos. Quanto ao preço da passagem, Mariana de Oliveira, 16 anos, constata; “O meu trajeto não é muito longo para ser R$ 2,40. Eu acho muito caro”. Em 2013, a justiça determinou a anulação do processo que concedia a linha à Viação Presidente. Com o propósito de discutir a situação do transporte na cidade, foi criado, temporariamente, nesse mesmo ano, na Câmara Municipal de São João Del-Rei, a Comissão do Transporte, composta pelos vereadores Fábio da Silva (PSB), Flávio Rodrigues de Faria Costa (DEM) e Vera Polivalente (PT). Presidente da Comissão, Vera Polivalente comenta sobre algumas possibilidades estudadas, como mais itinerários e colocação de novos pontos de ônibus. “Fizemos vários levantamentos para entrar agora na licitação, por isso estou ansiosa para ver o

edital e saber o que vai ser contemplado”. Em sequência, a Prefeitura contratou a Planum Consultoria, para a elaboração de um edital da nova licitação. A empresa recebeu os documentos estudados pela Comissão de Transporte e ficou responsável por analisar possibilidades técnicas e legais a serem incluídas no edital. O prazo para a entrega dos estudos era no começo do ano de 2014, e logo foi estendido para dezembro. O Secretário de Governo, Leonardo Silveira, esclareceu que o atraso aconteceu porque, quando se muda o ano, é preciso que a Prefeitura zere todo o período anterior e comece um novo diagnóstico. Também foram descobertas em 2015, precariedades referentes às condições dos ônibus que servem as zonas rurais e os distritos. Leonardo esclareceu: “Hoje a empresa que presta esse serviço funciona sem licitação. Tempos atrás, o Prefeito concedia linhas sem abertura de edital. Então pedimos, tardiamente, que fossem feitos estudos para a zona rural. ” E completou: “Temos que fazer direito. Se fizermos correndo, o risco de futuramente ter que anular e gastar mais dinheiro público - não é a nossa intenção - é muito grande”. Uma outra questão que movimentou a cidade foi o aumento do valor da passagem. O valor proposto pela Viação Presidente foi de R$ 2,94. Sobre o fato, o Secretário de Governo, disse que fizeram uma regra básica de correção de índices e chegaram ao valor de R$ 2,40. Para ele, a Comissão podia ter aplicado as informações que dispunha para alcançar um valor menor do que o proposto pela Prefeitura. No entanto, isso não foi feito. Em resposta, Rafael Monteiro Mattos, membro do Conselho Municipal de Transporte - formado no final de 2014, para deliberar o aumento da tarifa,

Foto: Cecília Santos

Processo de licitação que deve escolher empresa de ônibus coletivo urbano de SJDR ainda é incerto

SERVIÇO Usuários reclamam de atraso, linhas insuficientes e preço cobrado pela passagem de ônibus explicou: “Eram documentos contábeis, que na realidade, [+] Saiba mais mostram quanto a Viação Presidente tem de lucro. A comissão ficou aguardando esses documentos. Tínhamos o prazo de 30 dias para análise após recebê-los. O fato é que esses documentos que seriam usados como amparo na análise não chegaram por completo, e ainda, em dezembro de 2014 - próximo ao período do Natal - fomos chamados para uma reunião extraordinária na tentativa de aprovar o aumento. Não aceitamos. Tínhamos tempo e estávamos aguardando a chegada dos documentos. Porém, na primeira semana de janeiro desse ano, foi convocada uma reunião, que não estava prevista, para aumentar a passagem, até porque os documentos não estavam em nossas mãos, e aprovaram o aumento”. Sobre a proposta de R$ 2,40 da Prefeitura, Rafael disse: “É um absurdo. Ela fere, inclusive, o contrato que declara que um aumento só deve ser patenteado diante uma planilha apresentada pela Empresa”. Ainda não há data certa para que a Planum Consultoria conclua o edital para que se dê início uma nova licitação. A Viação Presidente foi procurada pela equipe do Ora Pro Nobis, que não obteve resposta por parte da empresa. 3


Em busca da identidade quilombola Desafios de uma tradição - Projetos tentam resgatar cultura e ajudar no desenvolvimento das comunidades que vivem próximas à São João del-Rei

Quando se fala em Minas Gerais, o imaginário popular evoca a busca pelo ouro e o fascínio das cidades históricas, onde até mesmo os sinos falam. Mas muitos desconhecem a existência de comunidades remanescentes de um povo que participou diretamente da memória cultural do Estado. Escondidos entre as alterosas, – a cerca de 50 km de São João del-Rei – os quilombos Jaguara e Palmital resistem há mais de um século em seus respectivos vilarejos, embora enfrentem uma crise de identidade ligada as suas tradições. Algumas características foram perdidas ao longo do tempo. O reflexo deste esquecimento é a inexistência de manifestações culturais desenvolvidas pelos quilombolas contemporâneos. Somente no Dia da Consciência Negra, os nativos têm contato com os hábitos advindos de seus ancestrais. Nessas ocasiões, os moradores são os responsáveis pelo preparo de comidas típicas enquanto as apresentações afro-brasileiras são feitas por pessoas alheias ao convívio quilombola. “Nós ficamos o dia inteiro cozinhando. Todos comem à vontade. Nosso feijão é nota 10, se existisse nota 1000, era para a gente”, se orgulha uma das moradoras de Palmital. “Capoeira, dança e congado vem de fora”, explica o presidente da Associação de Mora4

dores, João Rosa, sobre o legado africano não ser transmitido internamente em Jaguara. A influência da Igreja Católica na vida espiritual e cotidiana da comunidade é intensa, tanto que todos os entrevistados afirmam que suas terras pertencem à igreja. Para reforçar a tradição quilombola, alianças estão sendo formadas para que esta manifestação cultural afro-brasileira seja valorizada na sociedade e reconstituída na própria mentalidade da população local. De acordo com o professor do curso de História da UFSJ, Manuel Jauará, seu primeiro contato com as comunidades foi muito aquém de suas expectativas. “Foi talvez a nossa maior decepção: a grande diferença entre o que a literatura diz sobre os quilombos e o que nos revela a realidade”, afirma. Este episódio, de certa forma, o motivou a desenvolver projetos de extensão junto à universidade, visando a troca de conhecimento e o bem comum dos envolvidos. Em meio ao intercâmbio de experiências, os moradores foram orientados a respeito da importância de serem legitimados pelo Governo Federal e desde 2013 são legalmente reconhecidos como remanescentes de quilombolas pela Fundação Palmares. Este órgão, vinculado ao Ministério da Cultura, por meio do DPA (Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro) e do Programa Brasil Quilombola, é responsável pelo conjunto de exercícios relacionados à proteção,

preservação e promoção das culturas e religiões africanas. Segundo a assessoria de comunicação da entidade, “a proposta do departamento é assisti-los e acompanhar ações de regularização fundiária dos já certificados, propondo atividades que assegurem a sua assistência jurídica”. Os habitantes ainda podem ser beneficiados com cestas-básicas, melhorias na saúde, educação, moradia, infraestrutura e saneamento. Entretanto, as lideranças da Associação de Moradores de Jaguara e Palmital, não estariam encaminhando solicitações com suas demandas para o DPA, ficando sem acesso a estes amparos sociais.

“Estamos tentando trabalhar com estratégias de desenvolvimento local, o que fazer para dar condições de progresso para estas populações vulneráveis, não só em termos de geração de emprego e renda, mas também consciência coletiva” Glauco dos Santos, professor Ainda assim, os quilombolas têm acesso ao programa Bolsa Família e à aposentadoria rural. Para complementar a renda familiar, a líder comunitária do Palmital, que preferiu

não se identificar, conta que os moradores da comunidade buscam vender sua mão de obra apenas durante três meses por ano nas fazendas próximas. “A gente trabalha de ano em ano, nas colheitas de café e milho”, declara. Sobre a economia local, Jauará acredita que, por já se sentirem seguros com os programas governamentais, não se empenham para criar uma economia interna autossuficiente. “O governo reconhece a necessidade e a relevância da assistência familiar, mas nesse caso em particular, isso tem impactado no esforço da maioria, e tem feito um afrouxamento do laço de solidariedade e fraternidade que sempre uniu essas comunidades.” O projeto socioeconômico desenvolvido pelo professor de Economia da UFSJ, Glauco dos Santos, tenta modificar esta situação e apresentar novas fontes de renda a estas comunidades quilombolas. A proposta principal é desenvolver a educação financeira, trabalhar a questão ambiental e desenvolver técnicas de economia. “Estamos tentando trabalhar com estratégias de desenvolvimento local, o que fazer para dar condições de progresso para estas populações vulneráveis, não só em termos de geração de emprego e renda, mas também consciência coletiva”, explica Santos. Porém algumas destas iniciativas são mal interpretadas por alguns dos moradores, especialmente em Palmital. Dentre as reclamações, as prin-

MORADORES DE PALMITAL Projet cipais se referem à demora em atingir resultados, o hiato entre os projetos e, aparentemente, a falta de continuidade de alguns deles. Questionado sobre esta declaração, Santos explica que a Extensão não pode atuar como uma medida assistencialista, pois cabe aos poderes públicos esta função. “A universidade dever prover as condições para que as comunidades, a partir delas mesmas, tenham uma trajetória de emancipação e desenvolvimento”, defende o professor. Já com relação ao tempo, ele admite a demora dos resultados: “Projeto de Extensão é algo que você não consegue mensurar resultados imediatos em termos de ensino e pesquisa”. Entre estes entraves, está a baixa autoestima dos quilombolas que já se reflete na juventude. Porém a sensibilização das comunidades começa a surtir efeito de forma gradativa. “Tivemos um longo trabalho até mesmo para convencê-los de que eram descendentes de escravos”, conta Santos. E conclui: “Hoje eles têm mais orgulho e afirmam ‘somos um quilombo!’”.

INF Foto: João Victor Militani

ALÉXIA PINHEIRO VIVIANE BASÍLIO JOÃO VICTOR MILITANI THAIS ANDRESSA

QUI


tos visam a educação financeira, técnicas de economia e questões ambientais Foto: João Victor Militani

FRAESTRUTURA Moradores reclamam da falta de obras públicas

ILOMBO JAGUARA Tradição dos quilombos resistem há mais de um século

Preservando histórias Reproduzindo um antigo costume de se reunirem sob a sombra de um jatobá bicentenário, alguns moradores de Palmital, ao serem questionados, evitaram comentar suas origens. Talvez por timidez diante da nossa equipe, que visitava o local pela primeira vez. “Quem era o contador de casos, era o meu pai que morreu. Tem o pessoal mais velho que sabe, mas não quiseram vir até aqui e não vão contar”, explica uma das quilombolas que ainda ressalta a amnésia cultural por parte dos mais jovens: “Nem eu, nem os outros não sabemos de nada”. Embora um pouco mais abertos em relação ao seu passado, os habitantes de Jaguara repetem o mesmo comportamento. “A gente sabe um pouco, os velhos que sabiam mais”, destaca João Rosa. Quando questionado sobre o motivo da tradição oral não ter sido repassada ao longo das gerações, Rosa revela a “falta de interesse” por grande parte dos descendentes mais novos. História que por vezes seria negociada diante de pessoas estranhas à comunidade em troca de benefícios. “A gente está cansado de falar do quilombo e não receber nada em troca”, alega uma moradora que não quis ter a identificação divulgada. Por consequência, foram raros os que se dispuseram a fornecer algumas informações. Rosa foi um

Foto: João Victor Militani

Foto: João Victor Militani

HERANÇA Desafio é passar a história da comunidade aos mais novos dos poucos que aceitou divulgar parte do que sabia, contando que “Jaguara tem esse nome em homenagem à cachorrinha das irmãs que doaram a terra para os escravos”. Oficialmente, a história possui variações. Conforme registros do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional), no século XIX surge a fazenda Jaguara na cidade de Nazareno, conhecida anteriormente como Arraial Ribeiro Fundo. Com o falecimen-

to do proprietário da fazenda, as terras ficaram para sua esposa e, posteriormente, metade da fazenda ficou para sua filha Mariana Isabel Cândida da Conceição. A outra foi arrendada ao capitão Antônio Leite Ribeiro, proprietário da fazenda Palmital. Treze anos antes da abolição da escravatura, Mariana concedeu aos seus escravos a liberdade e lhes deu o direito de usufruir da sua propriedade. Os arquivos referentes à Palmital são escassos.

Infraestrutura carente Apesar de culturalmente semelhantes, as duas comunidades são estruturalmente distintas. Jaguara é marcada por características urbanas, apresenta asfaltamento, quadras esportivas, praças de convivência e pontos comerciais. Enquanto Palmital é predominantemente rural, com ruas de terra e casas espaças. “Aqui precisa é de tudo, principalmente, calçamento. Eu queria que tivesse uma pracinha e uma quadra para os meninos jogarem bola”, confidencia uma das mo-

radoras, que quis ter seu nome preservado. Frente a estas diferenças, o vereador de Nazareno, Jovino César Romão, analisa as possíveis causas destes contrastes. Segundo ele, Jaguara é privilegiada por estar próxima da rodovia, ter casas aglomeradas e ser vizinha de outro povoado. Enquanto Palmital é afastada geograficamente e possui o agravante de ser dividida entre os municípios de Nazareno e Conceição da Barra. Sobre este impasse, uma

moradora desabafa. “Nós nascemos em Nazareno, batizamos em Nazareno, enterramos em Nazareno, o registro de Palmital está todo lá. Como nós somos de Conceição da Barra?”. Ao saber das reclamações da comunidade, o vereador se posiciona sobre este problema. “A divisão gera um pouco de dificuldades para os investimentos serem feitos naquela localidade. Para que as melhorias aconteçam naquele povoado, precisa haver um consórcio entre as duas prefeituras”. 5


Foto: Suellen Jacques

Yes, we are São João del-Rei De fora - Estudantes estrangeiros contam suas impressões sobre a cidade e suas experiências como intercambistas

Eles estão longe de casa há bem mais que uma semana. Além do grande fluxo de brasileiros que buscam oportunidades de estudarem em outros países, há também aqueles que escolhem se aventurar nas terras tupiniquins e acabam encontrando em São João del-Rei uma segunda casa. A Universidade Federal de São João del-Rei já recebeu estudantes de diversas nacionalidades. Segundo o professor do curso de Letras da UFSJ e coordenador voluntário do programa Expressions, Marcos Pereira Feitosa, o quadro atual de estrangeiros na instituição é composto, principalmente, por latinos, americanos e europeus. Eles vêm em busca da grande experiência acadêmica, profissional e cultural promovida pelo intercâmbio. “Eles dão muita importância ao ato de falar português, mergulham na cultura local”, ressalta Marcos, que dá aulas de português para estrangeiros. A estudante Taylah Martin, 20, veio de Atlanta nos Estados Unidos, através do programa Flagship e está cursando disciplinas referentes à gramática, literatura e teatro. A estudante escolheu como cenário para a conversa o campus Santo Antônio, localizado no centro histórico da cidade, por passar muito tempo no local e admirar a arquitetura fechada. Ela já havia estudado português antes de vir para o país e conta como foi difícil o processo de imersão na língua local. “Mesmo tendo desembarcado aqui com um grupo de americanos, eu não queria me tornar dependente deles e conversar apenas em inglês pela facilidade”, conta Taylah. 6

Morando em uma república com duas brasileiras, experiências como fazer comida e ter um cachorro em casa mudaram a realidade da estudante, comparado ao que vivia em seu país. Ela, que já teve a oportunidade de estar em outras cidades como Recife e Belo Horizonte, salienta a importância de conhecer e respeitar a cultura do lugar em que se encontra e do quanto a experiência acrescenta à sua vida. “Eu estou muito feliz de estar aqui. Até meus pais notaram a diferença”, conta, com um sorriso

“Eu estou muito feliz de estar aqui. Até meus pais notaram a diferença” Taylah Martin, EUA estampado no rosto. O alemão Matthias Markthaler, 27, escolheu o Largo São Francisco para contar o seu romance com as terras brasileiras. “É aqui que eu encontro meus amigos, nos divertimos e trocamos ideias”, conta ele, que também admira as palmeiras que enfeitam a praça, tipo de árvore que não é vista na Alemanha. Estudante de Engenharia Elétrica, Matthias esteve em São João del-Rei pela primeira vez em setembro de 2014 para participar de um projeto de matemática, realizado pela UFSJ em parceria com a Universidade Hochschule München, em Munique. Cinco meses depois, ele retornou à cidade por meio do PAINT. Por não ter similaridades com o alemão, aprender a língua foi um pouco mais difícil do que aprender

o inglês, segundo o estudante. Ele, que faz parte de uma turma de português de nível intermediário do curso Expressions, também optou por morar só com brasileiros, para melhorar o aprendizado e garantir a prática. Matthias cita alguns fatores palpáveis que diferem o Brasil de seu país de origem. O clima, por exemplo, é bem mais quente aqui, e ele confessa sentir falta do frio e da neve. Outro fator é a questão da pontualidade. Os alemães costumamserrígidosemrelaçãoahorários e Matthias conta que foi difícil se acostumar com os costumeiros minutos de atraso dos brasileiros, principalmente do transporte público. Mas o que mais chamou sua atenção foi a diferença na personalidade das pessoas. “As pessoas são muito sérias na Alemanha. Aqui as pessoas são mais amigáveis, receptivas”, ressalta e afirma que vai voltar para casa uma pessoa mais calma, paciente e alegre. Assim como a cidade marca a vida desses e outros intercambistas, os estudantes também escrevem suas histórias pelas ruas antigas e levarão daqui olhares que refletem as experiências na aconchegante São João del- Rei. UFSJ Internacional A Universidade Federal de São João del-Rei, em parceria com universidades estrangeiras, traz muitos estudantes de outros países para a cidade. Uma das formas de inserção internacional é o estabelecimento de trocas acadêmicas com outras instituições de ensino através de convênios, acordos de cooperação. Mais de 16 países como Alemanha, Argentina e Portugal fazem parte dessa rede, segundo dados da página da ASSIN (Assessoria de Assuntos Internacionais da UFSJ) na internet.

DE ATLANTA Taylah veio dos EUA para o Brasil em fevereiro Foto: Suellen Jacques

ANA RESENDE QUADROS SARAH EVELYN JULIA BENATTI IOLANDA PEDROSA

O ALEMÃO Matthias pretende ficar em São João até agosto Um dos principais programas é o Portuguese Flagship Program (FPF), que traz vinte alunos por ano da Universidade da Geórgia (UGA) para estudarem a língua, a cultura brasileira e suas respectivas áreas de formação. O programa também promove o envio de brasileiros para a parceira americana. Outra forma de participar é através do PAINT (Programa Acadêmico de Intercâmbio Internacional da UFSJ).

Além de promover a ida de estudantes da instituição para diversas universidades estrangeiras, o programa também recebe alunos de outros países. Para se candidatar, o aluno precisa realizar a sua candidatura e aguardar a análise da ASSIN. Também através da ASSIN é possível que alunos da UFSJ auxiliem na recepção dos intercambistas, tanto através de trabalho voluntário quanto através de bolsas com auxílio financeiro.


O som de uma tradição

Uma das mais antigas orquestras da América Latina se destaca em São João pelo repertório sacro e barroco

A cidade de São João del-Rei é símbolo de tradição e história e tem em suas terras um dos principais nomes da música lírica e colonial mineira. A Orquestra Ribeiro Bastos, uma das mais antigas da América com atuação ininterrupta, começou suas atividades há mais de duzentos anos e até hoje cultiva a tradição se apresentando em cerimônias religiosas, concertos e eventos culturais por todo o Brasil. A música no período do século XVIII já possuía diversos personagens em São João del-Rei, mas somente em 1840 os grupos que foram firmados construíram sua identidade. Foi necessário um contrato assinado pela Ordem Franciscana e pelo músico Francisco José de Chagas para, assim, a Orquestra Lira Sanjoanense e Orquestra Ribeiro Bastos (ORB) garantiram seu espaço. Criada para atender as demandas da Igreja, a ORB tem data de formação, até hoje, incerta. Sua origem se deve a um antigo coro dirigido por Lourenço Brasiel, que permitiu à orquestra uma nova estrutura. O nome é uma homenagem ao músico que atuou por 52 anos como regente, Martiniano Ribeiro Bastos. Há mais de duzentos anos a orquestra vem musicando algumas das mais importantes festas religiosas da cidade, como a Semana Santa, a Festa dos Passos e a Novena do Carmo, além das missas semanais às quintas e sextas feiras, na qual toca vinculada às Irmandades do Santíssimo e dos Passos. Com um repertório composto majoritariamente pela música erudita barroca sacra nacional dos séculos XVIII e XIX, a orquestra faz parte da identidade cultural de São João del Rei. As canções em latim são executadas e cantadas por músicos e cantores voluntários, profissionais ou

Fotos: Rafaella Vieira

LAYS VIEIRA SARAH RODRIGUES TAMARA ASSIS

MÚSICA Orquestra Ribeiro Bastos reúne cerca de 70 pessoas, entre profissionais e amadores. Atual formação mantém repertório com músicas em latim não. O presidente e regente da orquestra Rodrigo Sampaio, fala como é democrática a participação das pessoas no grupo: “A pessoa não tem que chegar aqui pronta, tocando tudo. Ela pode tocar um pouquinho, dali dois meses já vai estar tocando um pouquinho mais, dali cinco anos sabe bem o repertório todo. E ela foi participando da orquestra em todo o processo, sem ter que se preparar integralmente pra essa integração.” Assim, formada por cidadãos são-joanenses comuns, ela agrega pessoas de diferentes idades promovendo um encontro entre gerações que permite a continuidade da tradição. A violinista Letícia Simas faz parte da filarmônica há doze anos e afirma que a orquestra possui grande importância em sua vida. “Foi a partir das minhas experiências tocando, que decidi o que queria para minha vida

“Todo mundo ouvindo e fazendo sua oração pessoal, mesmo sem entender a letra. Mas a melodia toca o coração” Frei José Roberto profissional: ser violinista e professora”, revela. Mas apesar da presença do novo e do experiente, o regente comenta as dificuldades de manter a Ribeiro em vigor contando com o voluntariado num mundo de tantas obrigações. Grande parte dos músicos é profissional e trabalha dando aulas, o que torna difícil o compromisso com os demais integrantes. Já o coro, é for-

mado em sua maioria por amadores. Apesar dos contratempos, alguns elementos colaboram para a continuidade do grupo. Segundo ele, três motivos principais levam as pessoas a permanecerem: a fé, a questão da sociabilidade e a paixão pela música. O sentimento religioso, já que a orquestra é sacra, leva muitos a participarem como serviço prestado a Deus. No lado social, conta o encontro com os amigos e a possibilidade de conhecer pessoas novas. E a paixão pela música xque, segundo Rodrigo, é o principal. “Para fazer um grupo de oração, por exemplo, não são necessárias muitas pessoas, nem expediente, horários. Mas música não se faz com poucas pessoas” Além da importância histórica e cultural, é inegável a riqueza

que a música produzida pela Ribeiro Bastos acrescenta aos ritos religiosos da cidade - que atraem até 35 mil turistas a São João numa festa como a Semana Santa. O frei José Roberto, que celebra na igreja de São Francisco onde a Ribeiro toca aos domingos, reconhece o grande valor tradicional e cultural que a Orquestra representa para a cidade. Segundo o sacerdote a música religiosa nas celebrações ajuda a sintonizar os fiéis com Deus e auxilia no processo de concentração. “Quando a celebração é com música erudita em latim, como aqui em São João del-Rei e em algumas igrejas, você vê aquele silencio, a concentração, todo mundo ouvindo e fazendo sua oração pessoal, mesmo sem entender a letra. Mas a melodia toca o coração”, acrescenta. 7


Ensaio Fotografico

Semana Santa

A comemoração da Semana Santa em São João del-Rei é uma tradição secular, milhares de pessoas vêm até a cidade para assistir as celebrações que representam a paixão, a morte e a ressureição de Cristo. Missas, procissões e encenações falam junto aos sinos alcançando um tom de beleza e arte. O fotógrafo Marlon de Paula capturou alguns desses momentos que se revelam nesse ensaio repleto de fé e emoção.

8

Jornal Ora-Pro-Nobis Edição Abr/Mai 2015  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you