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16 de abril 2014

Páscoa Ainda faltam alguns dias para a Páscoa mas em Lombomeão (Vagos), na casa de Noémia Condeço – carinhosamente mais conhecida por D. Nita ou avó Nita – a Páscoa foi já na semana passada… pelo menos no paladar. A D. Nita aceitou o desafio d’O PONTO e ensinou-nos todo o processo, desde o amassar da farinha até à cozedura no forno a lenha… tudo como antigamente. «Dissolve-se o fermento na água morna e reserva-se. Junta-se ao leite quente, o açúcar, manteiga, sal e a canela em pó, mexendo-se bem até a manteiga derreter. Depois de frio (ou morno) juntamse os ovos e a mistura do fermento com a farinha de trigo e amassa-se bem numa superfície de mármore ou num alguidar durante 15 minutos ou até se obter uma massa lisa. Untada com óleo, deixa-se repousar a massa até duplicar de volume, durante cerca de duas horas. Só depois, com as mãos untadas de manteiga é que se vai se vai tender a massa moldandoa em bolas do tamanho desejado, deixando-se de parte alguma massa para depois se fazer as correias que irão agarrar os ovos. Deixa-se depois uma hora de repouso antes de se meter no forno a lenha para cozer. Devem-se colocar em formas (de tarte) ou então diretamente sobre folha de alumínio. Demora cerca de meia hora a cozer».

Do amassar ao forno a lenha

Folar da Páscoa sempre em cima da mesa da avó Nita

Recordada a receita, D. Nita começa a pegar nos ingredientes já bem medidos e a seguir religiosamente tudo o que ali está escrito. À medida que vai amassando e acrescentando os ingredientes, até obter uma massa homogénea, explica que esta receita veio num livro que lhe foi oferecido e, desde aí, que tem optado por esta receita em detrimento da receita que fez durante anos e anos em que a massa demorava 24h a levedar. «Esta é muito mais rápida… em duas horas fica pronta para ser moldada e ir ao forno», diz, adiantando que aprendeu a amassar com a madrinha. «A minha mãe ficou viúva tinha eu três meses e foi obrigada a deixar-me em casa da minha

madrinha para poder ir servir para Aveiro. Voltou tinha eu 15 anos mas nos 73 anos que viveu nunca amassou pão, doce ou normal, e muito menos broa». Depois de amassados os 5 quilos de farinha, o alguidar vai para a casa do forno, onde, tapada, fica a repousar. Duas horas depois o tamanho já vai no dobro. É hora de acender o forno para que aqueça de modo a cozer o pão. Com a chama bem “atiçada”, vão-se moldando os folares como os conhecemos: com ou sem ovos e respetivas correias para os “agarrar”. Depois de bem quente e de tiradas quase todas as brasas do interior do forno, um a um vão sendo colocados os folares (já dentro de formas ou em

papel de alumínio – antigamente eram ainda usadas folhas de couve), mas não sem antes pincelar um ovo batido por cima de cada um deles. «Não altera em nada o sabor, mas fica bem mais brilhante e com outro aspeto». Minutos depois a cor natural do folar começa a ser visível e o cheiro… esse aí já faz crescer água na boca… Meia hora depois estão prontos a sair. Alguns ainda precisam de voltar ao forno para acabar de cozer, outros estão prontos a comer. «Vou aproveitar para dar aos meus filhos e netas», diz, dando a provar. O resultado descreve-se em duas palavras apenas: “deliciosamente apetitosos”.

Ingredientes - 1 kg de farinha de trigo - 200g de açúcar - 4 ovos - 50g de manteiga - 15 colheres de sobremesa de canela - 30g de fermento de padeiro - 270ml de leite - 67ml de água morna - sal q.b.


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o seu tamanho, por um ou vários ovos cozidos inteiros e em certos lugares tingidos, meio incrustados e visíveis sob as tiras de massa que os recobrem.

Páscoa. Quando as crianças descobriram os ovos, um coelho passou correndo. Espalhou-se, então, a

Coelhinho e os ovos da Páscoa

Folar da Páscoa Festa comemorativa da ressurreição de Jesus Cristo, a Páscoa está associada a práticas alimentares em que os ovos, os folares, as amêndoas e os cordeiros ocupam o primeiro lugar. Apesar de se apresentar de diferentes formas, de acordo com a tradição gastronómica de cada região do país (com ovo, sem ovo ou com carne, por exemplo), o folar é já, ele próprio, uma tradição nesta altura da Páscoa. Assenta num ritual de dádiva, solidariedade e convívio profundamente enraizado na sociedade portuguesa. O folar mais corrente em Portugal é um bolo de massa seca, doce, e ligada, feito com farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha ou pingue, açúcar e fermento, e condimentado com canela e erva-doce - uma espécie de fogaça - encimado, conforme

No Antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da antiguidade consideravam o coelho como o símbolo da Lua, portanto, é pos-

história de que o coelho é que havia trazido os ovos. Atualmente, é costume pintar ovos cozidos, decorando-os com desenhos e formas abstratas. Paralelamente, e cada vez mais, é habitual ver-se ovos de chocolate.

As doces amêndoas sível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao facto de a Lua determinar a data da Páscoa. O certo é que os coelhos são notáveis por sua capacidade de reprodução, e geram grandes ninhadas, e a Páscoa marca a ressurreição, vida nova, tanto entre os judeus como entre os cristãos. Existe também a lenda de que uma mulher pobre coloriu alguns ovos de galinha e os escondeu, para dálos a seus filhos como presente de

As amêndoas de Páscoa são um dos doces mais consumidos na Páscoa em Portugal. São geralmente formadas por uma amêndoa coberta de açúcar ou chocolate, embora haja muitas variantes. Antes de ser desenvolvida a produção de açúcar era usual terem uma cobertura de mel. A troca de presentes que ocorre nalgumas regiões (frequentemente de um padrinho para um afilhado) é também denominada de “dar as amêndoas”, sendo acompanhada de um saco de amêndoas.

Lenda do Folar da Páscoa A lenda do folar da Páscoa é tão antiga que se desconhece a sua data de origem. Reza a lenda que, numa aldeia portuguesa, vivia uma jovem chamada Mariana que tinha como único desejo na vida o de casar cedo. Tanto rezou a Santa Catarina que a sua vontade se realizou e logo lhe surgiram dois pretendentes: um fidalgo rico e um lavrador pobre, ambos jovens e belos. A jovem voltou a pedir ajuda a Santa Catarina para fazer a escolha certa. Enquanto estava concentrada na sua oração, bateu à porta Amaro, o lavrador pobre, a pedir-lhe uma resposta e marcando-lhe como data limite o Domingo de Ramos. Passado pouco tempo, naquele mesmo dia, apareceu o fidalgo a pedir-lhe também uma decisão. Mariana não sabia o que fazer.

Chegado o Domingo de Ramos, uma vizinha foi muito aflita avisar Mariana que o fidalgo e o lavrador se tinham encontrado a caminho da sua casa e que, naquele momento, travavam uma luta de morte. Mariana correu até ao lugar onde os dois se defrontavam e foi então que, depois de pedir ajuda a Santa Catarina, Mariana soltou o nome de Amaro, o lavrador pobre. Na véspera do Domingo de Páscoa, Mariana andava atormentada, porque lhe tinham dito que o fidalgo apareceria no dia do casamento para matar Amaro. Mariana rezou a Santa Catarina e a imagem da Santa, ao que parece, sorriu-lhe. No dia seguinte, Mariana foi colocar flores no altar da Santa e, quando chegou a casa, verificou que, em cima da mesa, estava um grande bolo com ovos inteiros, rodeado de

flores, as mesmas que Mariana tinha posto no altar. Correu para casa de Amaro, mas encontrou-o no caminho e este contou-lhe que também tinha recebido um bolo semelhante. Pensando ter sido ideia do fidalgo, dirigiram-se a sua casa para lhe agradecer, mas este também tinha recebido o mesmo tipo de bolo. Mariana ficou convencida de que tudo tinha sido obra de Santa Catarina. Inicialmente chamado de folare, o bolo veio, com o tempo, a ficar conhecido como folar e tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação. Durante as festividades cristãs da Páscoa, o afilhado costuma levar, no Domingo de Ramos, um ramo de violetas à madrinha de batismo e esta, no Domingo de Páscoa, oferece-lhe em retribuição um folar.

R. Prof. Ernesto Neves - Praia da Vagueira

Tel.

234 797 276


Páscoa 2014 - OPONTO ed 302