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Jornal-laboratório I Jornalismo UFOP I Ano 6 - Edição Nº 22 - Março de 2016

Mariana recebe novos médicos, mas a espera pela UPA continua

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Moradores de áreas de risco em Ouro Preto cobram casas e mais dignidade

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Na memória de Bento Rodrigues e Paracatu, as festas ainda resistem

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Arte: Lígia Caires


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Março de 2016

Arte: Thiago Barcelos

Editorial

Trem para lugar nenhum Morar em cidades relativamente pequenas não é sinônimo de viver tranquilamente ou sob os cuidados da administração pública. Para isso, teríamos de contar com o apoio de órgãos que realmente se importassem com os direitos do cidadão, principalmente quando os assuntos são habitação, saúde e mobilidade urbana. Em municípios como Mariana e Ouro Preto, historicamente ricos em cultura e experiência política - se considerarmos as datas de fundação de

suas Câmaras de Vereadores, ambas do século XVIII - as decisões que atingem o cotidiano dos moradores são meras fachadas e acabam por não representar os anseios da população, além de serem irreais para cidades localizadas em territórios tão largos. A efeito de comparação, Mariana e Ouro Preto possuem uma área maior que a cidade do Rio de Janeiro, onde habitam mais de 6 milhões de pessoas. Será que teríamos capacidade de planejar para uma população como essa? Afinal, as

cidades crescem cada vez mais e as necessidades devem ser supridas na mesma medida em que os impostos são pagos. Para complicar o progresso na região e a resolução dos problemas apontados principalmente em bairros mais pobres, os métodos de comportamento dos governantes locais, quando não utilizam de demagogias, beiram a cegueira. O que seria orgulho extraído do Ciclo do Ouro e da mineração pode se tornar prêmio de consolação. Em excesso, o despreparo em pensar

CRônica

rigorosamente no futuro se amplia de maneira desproporcional às verbas disponíveis, como nos casos em que as prefeituras não conseguem lidar com a expansão descontrolada das comunidades e sua óbvia carência por infraestrutura. Até então, tudo e todos exigem por recursos, mas sabem aplicá-los? Porém, o que se observa atualmente é uma desastrosa troca de favores, em que o cidadão é contrariado e acaba por figurar como uma moeda em contextos políticos e sociais. Não tão

OMBUDSMAN Carol vieira

Nenhuma voz é precisa, mas é precisa. Natália Goulart*

Ser território Thamiris Prado

A vida toda é pertencimento. Dedicamos disposição, tempo e suor a conquistas que, ao longo da trajetória traçada aqui, comprovam nossa existência e afirmam a validade dos caminhos que tomamos. Precisamos atestar o lugar que ocupamos nas coisas, pessoas e espaços, pela busca contínua de territórios e testemunhas que se tornem parte de nós diante do mundo. Precisamos de lugares e pessoas que recebam essa entrega. Nós doamos e vendemos propriedades de sentimento àquilo que chamamos de nosso, de terra, de herança, de representatividade, de lembrança, de lar. Seja ele de concreto ou de pele. Esse tipo de necessidade, compartilhado enquanto combustível da sociedade para além do capitalismo, é fruto da urgência permanente que temos em atravessar com menos dureza as realidades cruas que deixam o cotidiano oco, de sentido e de gente. Só os afetos e materializações, do trabalho e da memória, en-

distante dessa visão, as promessas de uma cidade melhor somem de cena como num espetáculo de mágicas e transformam os direitos à cidadania, moradia, saúde e mobilidade em palavras soltas ao vento. Em meio aos obstáculos o LAMPIÃO tem, por missão, trazer à público as exigências por uma sociedade mais justa, menos desigual e com um poder público melhor estruturado, conhecedor de seus deveres diante de uma população desprovida de recursos e retornos ao voto.

cobrem os vácuos de existência que carregamos. É uma espécie de processo inconsciente - mas com propósito - escolhido para nos livrar da condição impraticável de não ser dono de coisa alguma. De não ser parte de algo que possa ser visto, sentido, pisado, transformado. Em tapete de sisal, rima de rap, depósito de lama. Casa pra morar. Resgatar memórias é não se obrigar a conviver com o apetite médio de um presente do qual, por vezes, não escolhemos ser parte. Nem sempre deixar de pertencer é opção. O pertencimento não é só povoado de escolhas. É também território de imposição, invasão dos espaços físico e simbólico alheios. Às vezes se usa o poder e a impunidade pintados de catástrofe natural para desapropriar pessoas. Outras vezes, se vale da mesma condição ambiental para escancarar a impunidade do poder público que desabriga pessoas. A interdependência social implica espera. Seja por conquista de bens, emancipação cidadã, superação de preconceitos, ou rendição à

burocracia falha e desengrenada de que comungamos politicamente. A espera condiciona sonhos, projeções, sobrevivências e lugares que demarcamos, no chão e na sociedade. As coisas se emprestam a nós, e o motivo é didático: a existência dos nossos legados atravessa a nossa - já clareava Saramago em suas definições de eternidade. O jornalismo desafia o tempo. Contraria a durabilidade das coisas quando contesta, ouve, registra depoimentos e pedaços de realidade que passam, escorrem dia e noite pelo cotidiano. Falamos do relacionamento entre o homem e o mundo para entendermos os porquês dos espaços que se dedicam a nós. Somos preenchidos de legados, heranças, determinações territoriais. Se as matérias nos escapam, os abstratos se devolvem. É a troca desses abrigos que nos mantém irrequietos, pulsantes, encorajados. Nos poupa de quase todas as dúvidas atordoantes, mas descortina a incapacidade que temos em ser propriedade particular. A vida toda é partilha.

Quando recebi o convite para escrever este texto, fiquei surpresa, afinal, a tarefa desta escrita é a de ser ombudsman da 21a edição do LAMPIÃO, intitulada, “Do fim ao começo”, sobre a tragédia em Bento Rodrigues. Responsabilizarse por esta convocação e aceitar o chamado de um texto, abrir-se para uma posição crítica a este jornal, é, mais do que nunca, reescrever e reler o LAMPIÃO, em tom de afeto. Como ex-aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, Ufop, não pude deixar de voltar... Voltar a um pedaço de imagem, a memória de um tempo outro, do tempo em que este jornal foi criado, inventado e, sempre, reinventado por nós, desde a primeira publicação e todas as outras que ainda circulam por entre os espaços da cidade. A cada leitura, de cada um que esbarra nesse papel, seja lá quem for, um novo texto. A cada letra escorregadia que, ao poucos, foi trocada, esquecida, presente, um novo jornal. Digo isto porque talvez seja a tarefa do jornalismo e a do LAMPIÃO colocar a palavra em movimento, fazer com que a palavra esteja sempre na travessia, além, reinventando os acontecimentos da vida. A 21a edição nos coloca uma questão, pergunta esta que se repete ao longo das matérias sobre Bento Rodrigues, “quem cuida de nós”? Ainda em forma de interrogação pergunto: quem, afinal, pode abrir-se a escuta dos sobreviventes, dos testemunhos, um a um? A universidade, o jornalismo, a psicanálise, a literatura, o poder publico, o direito? Quem cuida de nós e abre um caminho as vozes da margem? Como contar uma história em que o vão e o silêncio tomam o lugar da palavra? Mesmo sabendo que a tragédia da barragem do Fundão é compreendida em seu sentido técnico e explicativo, através das vozes dos especialistas e entendida, sobretudo, como ato irresponsável do poder público e da mineradora Samarco, algo ainda persiste, a lacuna, alguns restos incompreensíveis de cada sobrevivente. Restos que, mesmo esgotados de explicações, sempre, serão restos cuja palavra não alcança. Quero dizer que, compreender este

Jornal-laboratório produzido pelos alunos do curso de Jornalismo – Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA)/Universidade Federal de Ouro Preto – Reitor: Prof. Dr. Marcone Jamilson Freitas Souza, Diretor do ICSA: Prof. Dr. José Benedito Donadon Leal, Chefe de departamento: Profa. Dra. Virgínia Alves Carrara, Presidente do Colegiado de Jornalismo: Profa. Dra Jan Alyne Barbosa e Silva – Professoras responsáveis: Karina Gomes Barbosa (Reportagem), Ana Carolina Lima Santos (Fotografia) e Talita Aquino (Planejamento Visual) – Editor-chefe: Flávio Ribeiro – Editora de Texto: Thamiris Prado – Editora de Arte: Lígia Caires – Editor de Fotografia: Carol Vieira – Editora Multimidia: Gabriela Visciglia – Repórteres: Alícia Milhorance, Caio Aniceto, Clarissa Castro, Débora Mendes, Hariane Alves, Lara Massa, Monique Torquetti, Pedro Guimarães, Pedro Menegheti, Sabrina Passos, Stela Diogo, Tainara Ferreira, William Vieira – Fotógrafos: Agliene Melquíades, Aleone Higidio, Alexandro Galeno, Caroline Hardt, Fernando Cássio, Francielle Ramos, Paloma Demartini, Priscila Ferreira – Diagramadores: Anna Flávia Monteiro, Camila Guardiola, Caroline Rooke, Fernando Ciríaco, Mariana Rennó, Thiago Barcelos – Repórteres Multimidia Larissa Lana, Luísa Rodrigues, Rodrigo Sena – Revisão: Eduardo Rodrigues, Elmo Oliveira – Monitoria: Catarina Barbosa, Silmara Filgueiras, Stênio Lima – Tiragem: 3.000 exemplares. Endereço: Rua do Catete, nº 166, Centro. Mariana – MG. CEP: 35420-000.

evento somente em termos técnicos é apagar as vozes dos sobreviventes, barrar e atirar a lama no tempo que não é o mesmo do relógio, cronológico, endireitado, objetivo. O tempo é o tempo do trauma. A psicanálise e a literatura nos ensinam uma lição, é preciso suportar a desproporção, a falta, a incompletude, a incerteza, o vazio que existe entre a experiência vivida e a narração. Embora, seja justamente essa rasura, no sentido positivo, que nos permita, mais uma vez, reviver, recontar, voltar a vida. Depois de Bento Rodrigues, narrar, é, senão, contar em pedaços o que se viveu, no espaço da desmemoria, esse é o saber que me parece precioso. Assim, a 21a edição nos apresenta um tempo outro, um relógio na capa, um LAMPIÃO entre a sombra e a luz, uma edição que lança a palavra ao futuro, no balanço de reportagens mais objetivas e acenando lampejos de uma escrita poética, rumo à imaginação. Além disso, nos apresenta vozes, várias delas, sejam oficiais ou a dos sobreviventes, as quais a edição parece se aproximar e buscar, as vozes da margem. Sem a margem, sem o limite que separa a montanha da lama em desalinho, quem sobreviveria? Como reinventar saídas, religarse ao mundo novamente, ir da sobrevida à vida? A aposta é na palavra. Testemunhar, abrir um espaço em que as vozes abandonadas sejam acolhidas, assim como fez o jornal. Acolher as vozes de quem nunca teve a voz, não no sentido do gesto testemunhal pelo viés da certeza, da transparência, da fantasia que, por vezes, acredita algum jornalismo, na crença de que pode explicar ‘tudo’. Mas, um local em que o ato de narrar seja entendido como ficção, no contar de cada sujeito a partir de suas reinvenções. E é aqui a posição crítica deste texto, a de que o jornalismo deveria saber que não existem apenas dois lados, mas, um rio de vozes, de ficções, de poesias para além, muito além dos dois lados. Assim, tenho a abertura nesse texto de dizer ao LAMPIÃO que siga em frente, sempre a mais, rumo à imaginação, a escrita poética, na direção do incerto que a vida e o texto nos ensinam. * Natália Goulart é jornalista e participou da 1a edição do LAMPIÃO.

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Março de 2016

Arte: Thiago Barcelos

Cidade

Grades entreabertas Detentos de Mariana têm oportunidade de estudar enquanto cumprem pena, mas medida enfrenta resistências Caroline Hardt

Débora Mendes

As quintas-feiras em que o professor de língua portuguesa José Antônio de Oliveira Júnior, 28 anos, chegava ao presídio de Mariana para ministrar aulas aos detentos tinham um clima pesado. Após as revistas das celas, que ocorriam às quartas, os presos estavam cabisbaixos, diferente de outros dias, nos quais sempre demostravam grande interesse pelas aulas. Algumas vezes eles tinham os materiais escolares recolhidos pelos agentes na noite anterior, mesmo não sendo proibido levá-los para as celas. O mesmo ambiente delicado era sentido nos dias após o corte de cabelo dos detentos. Para José, a falta de autonomia de situações como essas se refletia na sala de aula. A educação é uma das formas de ressocialização dos presidiários, mas muitos problemas são enfrentados para assegurar esse direito. Em Minas Gerais, apenas 7,7% dos presos frequentam salas de aula. No presídio de Mariana, as aulas são oferecidas desde março de 2015, em parceria com a escola estadual Dom Benevides. Para o início das aulas deste ano, que deveria ter ocorrido no dia 11 de fevereiro, alguns problemas burocráticos foram enfrentados. Um deles esbarrou na realização das matrículas. Muitos detentos não possuem documentos básicos e a dificuldade em encontrar os históricos escolares é grande e causa transtornos, como explica a auxiliar de secretaria escolar Maria de Fátima Silva Mattos, 58. As aulas deste ano darão continuidade ao programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) iniciado no ano passado. Serão ofertados os dois primeiros períodos do ensi-

Caminho. Professor vê ensino prisional como nova chance

no fundamental 1, referentes ao 1o e 2o anos, que terão aulas ministradas por um único professor. Isso se deve à infraestrutura do presídio, com apenas uma sala de aula, que pode funcionar apenas nos turnos da manhã e da tarde. O turno vespertino será ocupado pelo segundo período do ensino fundamental 2, referente ao 7o ano. A secretária Maria de Fátima explica que, apesar de serem adultos e muitos terem frequentado a escola, alguns chegam sem saber nada e precisam ser alfabetizados. Como são poucas turmas ofertadas, é comum ter alunos com diferentes níveis de aprendizagem, e o professor precisa achar um padrão intermediário para realizar um trabalho conjunto com a turma. No ano passado, José Antônio dava aulas para o 6o ano do ensino fundamental, mas um dos alunos deveria estar no 1o ano do ensino médio, turma que não é ofertada. Entretanto, isso não era um problema para José. De acordo com ele, o número reduzido de alunos facilita o ensino, ao possibilitar o acom-

panhamento de cada detento de perto. Na turma do professor, sete alunos frequentavam as aulas, apesar de um deles, muitas vezes, ter sido impedido por desrespeito aos agentes. Tendo em vista que a cada 12 horas de frequência escolar o detento abate um dia da condenação criminal, a privação de comparecer à sala de aula funciona como castigo dentro do sistema carcerário. São poucos os detentos que têm o privilégio de participar da educação dentro dos presídios. A determinação é feita pela Comissão Técnica de Classificação – uma equipe formada por profissionais de diversas áreas, entre jurídica e psicossocial, responsável pela avaliação –, como explica a Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS) de Minas Gerais. Em 2016, pelo menos 20 detentos no presídio de Mariana terão o direto à educação assegurado. Esse número corresponde ao dobro de alunos do ano passado. Apesar de a participação nas aulas não ser uma oportunidade oferecida à maioria dos presidiários, os que manifestam interesse em fazer o

Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) têm o direito de realizar a prova. Segundo a SEDS, no ano passado 37 detentos em Mariana participaram do exame, e três deles obtiveram notas suficientes para retirar o diploma do ensino médio por meio do sistema. Os presos que frequentavam as aulas no ano passado não participaram do Enem, uma vez que era ofertado apenas o ensino fundamental na educação prisional da cidade. Ressocialização Foi depois de dar aulas dentro do sistema carcerário que José Antônio teve a visão transformada. Percebeu que as pessoas erram, que devem pagar por isso, mas merecem novas oportunidades. A educação é o princípio da ressocialização do detento, como afirma o professor, completando que é a saída para uma vida mais estruturada. Os detentos também acreditam nisso, apesar de o preconceito existente dentro do presídio ainda persistir. Muitos desconfiam que eles participam das aulas apenas para ter a pena reduzida. Para o professor da Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete Mauro Savino Filó, 38, a educação dentro do sistema carcerário, além de ajudar o detento a voltar para a sociedade melhor, com outras possibilidades, auxilia na ocupação do tempo durante a detenção, um dos maiores problemas dos presídios brasileiros. Ele explica que, ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos detentos quer trabalhar, mas não há emprego para todos. Mauro ainda afirma que, além da educação, é preciso estimular dentro dos presídios atividades físicas, trabalho, estudo, leitura e serviços manuais.

Mais médicos, menos UPA Tainara Ferreira

Na busca por qualidade no atendimento público de saúde, Mariana aderiu em janeiro de 2015 ao programa Mais Médicos. Segundo o secretário de Saúde, Juliano Duarte, há pouco mais de um mês a secretaria pediu ao Ministério da Saúde mais vagas para a cidade. “Um médico custa caro para os cofres municipais. Quem chega pelo Mais Médicos é custeado pelo governo federal”, explica. Mariana tinha, até fevereiro, um profissional atuando pelo Mais Médicos. Diógenes Teixeira, 28, trabalhou como clínico geral na cidade. Para ele, atuar na atenção básica é interessante para adquirir experiência. “Discutimos alguns temas, temos supervisão. Nós, que acabamos de nos formar e ficamos inseguros, contamos com esse apoio”, conta. Maria Carneiro, 50, era paciente de Diógenes. Ela relata sobre a confiança no profis-

sional e a melhoria no sistema de saúde. “Há um tempo a gente ia e não era atendido. Há cerca de três, quatro anos, não era bom. Agora é rapidinho.” O médico saiu do projeto e até o fechamento não havia substituto. Os médicos do programa podem trabalhar na cidade por até três anos, renováveis pelo mesmo período; recebem em média R$ 10 mil por mês. A atuação é avaliada de acordo com o cumprimento da carga horária, que é de 40 horas semanais. Após isso, eles podem prestar os serviços de maneira privada. Atualmente, o município tem 71 médicos concursados e 56 contratados. De acordo com a Secretaria de Saúde, as 13 unidades do Programa da Saúde da Família (PSF) têm atendimento de clínico geral e pediatra. “Comparada a outras cidades da Região dos Inconfidentes, Mariana é hoje a que mais possui médicos atendendo”, afirma Juliano. A Organização Mundial de Saúde

(OMS) recomenda o número de mil pacientes por médico. Mariana tem, em média, um médico para 463 pacientes. Criado em 2013 pelo governo federal, o Mais Médicos surgiu para ajudar na melhora do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), com a contratação de mais profissionais para os municípios, especialmente os mais afastados. Falta dinheiro Se o Mais Médicos pode ser ampliado, uma das principais obras da cidade, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), não deve sair tão cedo. Juliano Duarte explica que a edificação deve custar R$ 30 milhões. “As obras devem permanecer paralisadas por tempo indeterminado”, diz. Os investimentos iniciais eram de R$ 22 milhões, sendo R$ 19,8 milhões do próprio município. O governo federal repassou R$ 2,2 milhões, suficientes para a construção

de uma UPA tipo I, para um município de até 100 mil habitantes. A obra equivale a uma unidade de atendimento tipo III, para até 300 mil habitantes. No último censo do IBGE, de 2015, Mariana tinha 58.802 habitantes. O ex-secretário de saúde Germano Zanforlim reclama dos critérios populacionais do Ministério da Saúde, que não atendem às demandas reais do município. Germano garan-

te que a decisão pelo modelo da UPA foi conjunta com o Conselho Municipal de Saúde. “Houve previsão orçamentária e financeira para a obra, além de um valor de segurança, recebido há pouco, de 40 milhões em tributos e acerto das mineradoras que a prefeitura não havia recolhido. A obra foi licitada em 2014 e deveria ser entregue em julho de 2016”, esclarece. Ele lembra que tanto o valor quanto

tamanho da UPA eram de conhecimento dos vereadores e da Prefeitura da cidade. Juliano Duarte lamenta a inviabilidade de terminar a unidade. O atendimento será concentrado na policlínica que, segundo ele, tem capacidade de atender toda a comunidade, desde que passe por ampliação. A secretaria não informou à reportagem do LAMPIÃO o valor da reforma nem o prazo de início das obras.

Consultas podem ser agendadas por telefone Instituída em Mariana em 28 de dezembro de 2015, a lei de agendamentos de consultas por telefone facilita a vida de pessoas com necessidades especiais, grávidas e idosos. De acordo com o autor da lei, vereador Tenente Freitas (PHS), o projeto visa diminuir as filas nas unidades de saúde de Mariana, reduzindo obstáculos para quem tem dificuldades em se locomover. As vagas são limitadas a 20% do número de atendi-

mentos presenciais. Segundo Freitas, a lei não deve interferir nos cofres públicos, pois os atendimentos serão feitos por profissionais que já atuam no setor, com a estrutura que a Secretaria de Saúde já possui. Atualmente, na sede da Previne, já existe uma central de marcação de consultas. Em caso de não cumprimento da lei, Freitas esclarece que o secretário de Saúde deve ser acionado, e quem não

cumprir pode sofrer uma ação de improbidade administrativa. “Nosso melhor fiscal é o usuário do serviço. O cidadão que não for bem atendido vai reclamar”, completa. Quem precisar de atendimento médico deve procurar a unidade de saúde mais próxima com documentos pessoais: encaminhamento médico, cartão do SUS, comprovante de residência e identidade para realizar o cadastro na unidade básica de saúde.


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Março de 2016

Arte: Camila guardiola

política

Eleições entram em cena Com a proximidade do novo pleito, nomes e grupos conhecidos do povo começam a se destacar na primaz de Minas William Vieira

Possíveis nomes na disputa pela Prefeitura de Mariana

*Dados declarados ao TSE, referentes à última campanha eleitoral do político.

judique a situação. Thiago não vê problemas na declaração de Duarte sobre uma possível candidatura de oposição. Já a saída do deputado do PPS se justifica, segundo ele, pela “incompatibilidade de ideias e diretrizes”. Em dezembro, Cota recebeu convite do Partido da Mulher Brasileira (PMB) e aceitou. Em fevereiro, mudou de partido novamente, filiandose ao PMDB. Roberto Rodrigues, exgestor em 2012, afirmou que o PTB realizará ainda em março uma reunião para definir os pré-candidatos. Os candidatos oficiais e a chapa serão decididos futuramente. Conforme o político, dentre os partidos que pleiteiam coligar-se com o PTB está o PT, do vereador Cristiano Vilas Boas. Sobre a inelegibilidade de Roberto, o advogado do político, Matheus Silva Campos Ferreira, afirmou que o TSE apenas manteve a decisão tomada anteriormente, rejeitando um recurso. Ferreira disse ainda que outros recursos para reverter a situação devem ser julgados até agosto. Até o fechamento desta edição, Marcelo Macedo (PSDB) não havia respondido ao LAMPIÃO.

Lígia Caires

Os novos rumos da administração de Mariana serão decididos este ano. As campanhas eleitorais só começam em julho, mas os partidos políticos já se organizam para formar chapas que disputarão o pleito de outubro, enquanto decisões da Justiça Eleitoral influenciam as futuras candidaturas. Dentre os nomes divulgados até o momento, está o do vereador Marcelo Macedo, pré-candidato pelo PSDB. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) lançará pré-candidatosainda em março. Até agora, na legenda, se destacam o ex-prefeito Roberto Rodrigues, a prefeita afastada do mandato em 2010 e 2011, Terezinha Ramos, e o vereador José Jarbas Ramos Filho. Entre a população, circulam nomes como o do prefeito, Duarte Junior (PSB), o do deputado estadual Thiago Cota (PMDB) e o do vereador Cristiano Vilas Boas (PT). Rodrigues deve ficar fora da disputa por conta de decisão contra ele no Tribunal Superior Eleitoral em fevereiro, que o mantém inelegível por oito anos. O gestor Duarte Junior diz não pensar em eleições por enquanto. Para ele, isso depende de alguns fatores. “Se tiver um grupo que acha que essa administração deve continuar, serei candidato. Mas só vou me candidatar se as pessoas quiserem que eu continue. O governo está fazendo um bom trabalho, mesmo com a queda na arrecadação”, afirma. Em entrevista ao LAMPIÃO em fevereiro deste ano, o prefeito se disse descontente com o Partido Popular Socialista (PPS), no qual estava à época, segundo ele. Entre-

tanto, o diretório nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) afirma que Duarte se filiou em setembro de 2015. O movimento pode ter a ver com a presença de Thiago Cota na mesma legenda. Segundo Duarte, não há aproximação entre eles. Ao LAMPIÃO, Duarte garantiu que, se Thiago for candidato, disputará a eleição contra o deputado estadual. Sobre a pré-candidatura de Marcelo Macedo, vereador de um dos partidos de sua coligação (PPS, PMDB e PSDB) no último pleito, Duarte considera como positivo o maior número de candidatos, mas entende que a coligação dita acima não será preservada. O prefeito diz manter conversas com o PT sobre uma possível aliança com o vereador Cristiano, mas nega acordos formais. Cristiano também não é candidato oficialmente. Até agora, só há especulações sobre a provável candidatura. Para o vereador, essa é uma decisão que depende de interesses múltiplos, principalmente da população. O petista ainda não foi oficialmente convidado para ser vice em nenhuma chapa. O deputado Thiago Cota também não confirmou se será candidato à Prefeitura. Para ele, os trabalhos que desempenha na Assembleia Legislativa são mais importantes. “Num futuro próximo, não é viável deixar de ter algo que demoramos para conquistar, que é a representatividade no parlamento mineiro”, disse. O deputado acredita ainda que o clima de insatisfação política que existe em Mariana não é exclusivo. Segundo ele, o descontentamento é generalizado, mesmo que o “troca-troca de prefeitos” no município pre-

Insatisfações De 2010 a 2016, Mariana apresentou oito trocas de prefeito. A última ocorreu em maio de 2015, com a cassação de Celso Cota (PSDB), eleito em 2012. As mudanças criaram um clima de insatisfação política nos cidadãos, que passaram a exigir mudanças, sobretudo após a crise econômica e o rompimento da barragem da Samarco. Para o prefeito Duarte, o descontentamento não é com sua gestão, embora o momen-

to financeiro atual seja difícil. “Não dá para manter o padrão que o governo tinha quando arrecadava R$ 33 milhões. Hoje, arrecado 20. Vai voltar para R$ 17 milhões. Temos que administrar com o que temos”, afirma. Segundo ele, a população entende que a baixa nos cofres do município causa efeitos nas ações do poder público. Agora, Duarte tenta buscar saídas para a situação. “Mariana nunca foi uma cidade muito rica porque não teve diversificação econômica, e precisamos melhorar por meio dela e de um turismo mais forte.” Para o vereador Cristiano, há ainda reclamações sobre questões como transporte público, transparência na administração, incentivos à diversificação econômica, ao turismo e combate à corrupção, que, segundo ele, “se eternizam independentemente da tragédia da barragem”. Cristiano afirma que os problemas vêm se arrastando há algum tempo. “Infelizmente, as administrações dos últimos anos não souberam aproveitar a grande quantidade de recursos que passaram pelos cofres municipais para planejar a cidade e criar alternativas à mineração, e hoje pagamos esse alto preço.” O doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Antônio Marcelo Jackson Ferreira da Silva é pessimista em relação às eleições e aos candidatos. “As pessoas dessa cidade e das cidades próximas acreditam que seus problemas devem ser solucionados por uma instância muito superior à do prefeito e, salvo a aparição de um candidato ‘surpresa’ no pleito, pouco ou nada mudará”, diz.

CIDADE

Região sofre com transporte Fernando Cássio

Superlotação. Serviço desorganizado gera tumultos

Lara Massa

“O efeito? Nós vamos andar mais a pé!”, critica Geraldo Soares, 33 anos, pai de 5 filhos, armador e montador de andaime. No dia 22 de fevereiro de 2016, a passagem nas linhas municipais de Mariana – que ligam o centro da cidade a bairros e distritos –, sofreu reajuste de 30 centavos; 12,5% do valor da passagem, indo de R$ 2,40 para R$ 2,70. É o segundo reajuste do ano, antecedido pelo das linhas intermunicipais, que tiveram alta de 45 centavos. “O negócio é pedir carona de Passagem pra cá”, lamenta Geraldo, morador do distrito. O aumento da passagem gerou insatisfação na população que depende do transporte público. A tarifa, que antes comprometia 10% do salário mínimo, hoje consome 12,3% todo mês. Leila Bento dos Santos, 39, relata a dificuldade de remanejar o salário de empregada doméstica. “Tive que abrir mão de alguns gastos,

como alimentação e despesas de casa, para não andar uma distância muito grande a pé.” Além de caro, o serviço é considerado ruim. Superlotação e desrespeito às mães com crianças de colo, grávidas e idosos são reclamações frequentes entre os usuários do transporte coletivo de Mariana. O não cumprimento de horários das linhas de ônibus e a falta de horários e itinerários são as denúncias mais frequentes, segundo o Departamento Municipal de Transito (Demutran). A empresa Transcotta foi procurada mas não se manifestou. Para Leila, a espera pelo ônibus do Cabanas é constante. “Eles sobem lotados. Em horários de pico a gente espera um ônibus mais vazio e vai ficando cada vez mais tarde a volta pra casa.” Para Geraldo, a demora da linha de Passagem piora nos fins de semana. “Aos domingos a gente chega a ficar três horas para pegar o ônibus.” O aumento da tarifa é autorizado

pela Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop), baseado na variação dos preços dos elementos necessários para a prestação do serviço, como mão de obra operacional, veículos e óleo diesel. Neste ano, as maiores variações registradas foram a do óleo diesel (16%) e da folha de pagamento dos funcionários da empresa de ônibus (8,68%). A equipe do Demutran, em conjunto com a Polícia Militar e a Guarda Municipal, iniciou no dia 28 de janeiro a fiscalização dos transportes. Apesar das frequentes reclamações da população, durante os 15 dias de fiscalização, os automóveis da Transcotta apresentaram somente mau funcionamento dos elevadores para cadeirantes. Segundo o Demutran, a empresa foi notificada sobre as falhas. No dia 2 de março, a Transcotta realizou o treinamento dos funcionários para manuseio da nova plataforma de acesso para deficientes. A insatisfa-

ção com o transporte é tema recorrente na Câmara Municipal de Mariana. Em 2015, o Ministério Público pediu a suspensão do edital de licitação do setor, alegando vícios na concorrência. Segundo a Procuradoria Municipal, uma das empresas participantes estaria impedida, judicialmente, de realizar contratos públicos. Enquanto isso, a Transcotta continua prestando serviços à população mesmo não estando contratada. Segundo a Prefeitura, desde 2003 Mariana tenta licitar os serviços de transporte coletivo. Para lidar com a demora na licitação e os problemas do transporte público na cidade, a Câmara Municipal iniciou o debate sobre a implantação do táxi lotação. O objetivo é usar os veículos temporariamente para sanar os problemas enquanto a licitação para nova empresa de ônibus não sai. Posteriormente, o serviço seria utilizado como meio de transporte secundário, como é feito na cidade de Ouro Preto.


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Março de 2016

Arte: Camila guardiola

CIDADE

Ouro Preto, solo instável Período chuvoso deixa município em estado de alerta e população reinvindica soluções de problemas antigos agliene melquíades

Sabrina Passos

O verão é a época do ano na qual há maior incidência de chuvas. Isso acontece porque as temperaturas mais elevadas do ano acabam coincidindo com o período de precipitação. Em Ouro Preto não é diferente, já que entre outubro e março chove cerca de 87% do esperado ao longo de todo ano, confirmando a alta pluviosidade da região. Por conta disso, no dia 17 de janeiro deste ano, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Minas Gerais (Cedec-MG) informou que havia risco de deslizamentos em 15 municípios mineiros, incluindo Ouro Preto. Nesse dia, a cidade estava com um índice acumulado de precipitação de 138 mm, acima do alerta máximo, de 128 mm. A partir dos dados registrados pela prefeitura, o LAMPIÃO apurou que o total de precipitação de janeiro de 2016 foi oito vezes maior que em 2015. A inclinação das encostas e a ocupação desordenada de morros, além dos problemas geológicos existentes, são fatores cruciais para a ocorrência de desastres nessa época do ano. O crescimento populacional sem planejamento e gestão territorial adequada na cidade resultou em processos de ocupação de locais não apropriados e de difícil acesso (encostas e antigas áreas mineradas). São as conhecidas “áreas de risco”. No caso da cidade de Ouro Preto, que as áreas instáveis já estão ocupadas, surge um novo elemento a ser considerado: a vulnerabilidade. Ela expressa perdas materiais e socioambientais e possibilita dimensionar os ris-

cos enfrentados pelo município. De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Ouro Preto, Sebastião Evásio Bonifácio, cerca de 60% do solo urbano é instável e tem risco de médio a muito alto. Uma das principais recomendações para os habitantes das áreas de perigo é nunca realizar obras ou cortes nas encostas sem autorização. Por outro lado, segundo ele, a cidade não enfrenta problemas graves em relação a enchentes e alagamentos desde 2006. Na região, somente Adamantina e Cachoeira do Campo têm esse tipo de problema. As medidas tomadas pela prefeitura se baseiam no lançamento anual do Plano de Contingência do município e nos monitoramentos dos pluviômetros e inclinômetros, instalados pelos bairros que necessitam de mais atenção, entre os quais Alto da Cruz, Piedade, Taquaral, São Francisco, São Cristóvão, Padre Faria, Morro Santana, Piedade e Vila Aparecida. Equipamentos A Defesa Civil, em parceria com o Instituto Geotécnico de Ouro Preto (Igeo), instalou em Ouro Preto, entre 2014 e 2015, 43 inclinômetros, instrumento utilizado para medir deslocamentos em terrenos. A leitura desses aparelhos permite determinar a progressão de movimentos de terra e localizar a profundidade de uma eventual ruptura na superfície. Já a instalação dos pluviômetros faz parte de um projeto do Governo Federal, que direciona esses equipamentos para os municípios com histórico de desastres naturais. Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira a ter

Vulnerabilidade. Construções em encostas aumentam riscos no bairro São Cristóvão

Paloma demartini

Receio. Morador do Taquaral há três décadas, Wagner teme pela segurança da família

pluviômetros automáticos e semi-automáticos. Os automáticos enviam os dados coletados para o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) via sinal de rádio. Já os semi-automáticos fazem a leitura automática, mas são operados pela comunidade. A cidade também possui uma Carta de Riscos Geotécnicos da Área Urbana que foi atualizada em 2011 pelos professores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Roméro César Gomes e Michel Fontes. O documento mapeia as áreas de risco do município para o controle e uso do solo urbano. Para Charles Romazamu, engenheiro geológico da Secretaria Municipal de Obras de Ouro Preto, a parceria realizada com o Igeo é vista como um marco em termos de estudos geotécnicos da cidade. O Igeo Itinerante, por exemplo, “foi uma das ações mais importantes no quesito conscientização da população sobre os riscos que são enfrentados por ela”, segundo Charles. A ação visava divulgar o trabalho do instituto e informar os riscos urbanos à população ouro-pretana. Até o fechamento do LAMPIÃO havia cerca de 140 solicitações de vistoria de obras denunciadas como irregulares, segundo o fiscal de Obras, Patrimônio e Postura da Prefeitura de Ouro Preto, José Mauro Barsante. As denúncias são atendidas por grau de prioridade, levando em conta a gravidade e a complexidade de cada caso. Mas, segundo ele, na maioria dos casos as famílias insistem em

morar em áreas comprometidas e, mesmo que de maneira ilegal, fazem obras para ampliar o espaço do terreno. Indignação Wagner Gonçalves, 47 anos, é comerciante e mora no Taquaral com a esposa, o filho e outros parentes. Ele vive no bairro há 34 anos, e não tem medo de morar em área de risco, mas teme pela família e se indigna com a política da cidade e a falta de poder público. O morador também conta que a prefeitura disponibiliza para algumas famílias o programa Aluguel Social, mas poucas delas aceitam integrar o projeto, que não cobre todas as despesas necessárias, além de ter um limite de renda, considerado por ele muito baixo para integrar o programa. Em novembro do ano passado, moradores de Águas Férreas e Taquaral fizeram manifestação contra a paralisação de obras como instalação de manilhas e escadas para escoamento da água das chuvas. Na época, a prefeitura prometeu reiniciar as obras, que até o fechamento do LAMPIÃO continuavam paradas. A Secretaria de Obras não se manifestou. Wagner estava presente quando 30 famílias do Taquaral, na primeira semana de janeiro de 2012, tiveram que deixar suas casas pelo risco iminente de deslizamento. Muitas famílias se abrigaram em escolas, outras foram para casas de parentes ou alugaram casas por conta própria. Mas, passado o aviso, muitos voltaram para às antigas moradias, lembra.

Pinheiros Altos quer voltar Alicia Milhorance

ros tenha 3 mil habitantes, dos quais apenas 200 assinaram o abaixo-assinado pela reintegração. De acordo com a Lei Estadual Complementar 37/95, para a anexação de distritos a outro município, ambas as partes têm de ser consultadas. A Câmara de Mariana se diz aberta a receber Pinheiros Altos, pois já atende as demandas da comunidade – principalmente de saúde. Em nota, a Prefeitura de Piranga afirma ser nula a hipótese de separação do distrito de Pinheiros Altos. Segundo o vereador marianense Geraldo Sales, o Bambu, com a reintegração a

Paloma Demartini

Tranquilo, mas esquecido. É assim que o morador José Raimundo Duarte define o distrito de Pinheiros Altos, em Piranga. Abandonados, os moradores queriam voltar a pertencer a Mariana, na esperança de mais investimentos na saúde, infraestrutura e saneamento. Porém, o que era um projeto em execução parece sonho distante. O movimento de reintegração de Pinheiros Altos a Mariana começou em 2016, conduzido pelo advogado Francisco Sales Filho. A comunidade foi estimulada a assinar o abaixo-assinado para dar continuidade ao processo, caso fosse desejo da maioria. Dois manifestos sobre o assunto contêm denúncias à atual gestão municipal. Os moradores recolheram assinaturas no comércio local, mas para o líder do movimento, isso não foi suficiente. De acordo com Francisco, a divergência de objetivos desmotivou a continuidade do processo. “Na área rural tivemos mais apoio. A população é mais unida em relação à zona urbana do distrito.” Segundo dados de 2010, Pinheiros tinha aproximadamente 4 mil habitantes, sendo 3 mil só na zona rural. Hoje, não se tem ao certo o número de moradores de Pinheiros Altos, pois em outubro de 2014 Piranga criou o distrito de Santo Antônio dos Quilombolas, então subdistrito de Pinheiros. A dificuldade em conseguir as assinaturas, segundo Francisco, se explica justamente aí, pois “tirar” a parte mais

populosa foi um artifício para diminuir o território e habitantes. O projeto que eleva Santo Antônio dos Quilombolas a distrito chegou à Câmara Municipal de Piranga no final de 2014 a pedido do prefeito, Carlos de Araújo Silva. A justificativa foi que, como distrito, o lugar poderia receber mais políticas públicas. Para o vereador Lucas Rezende, o processo foi de vontade dos moradores da região, com quase 180 assinaturas da população local. O número confirmaria a validade da ação, garante Lucas. Estima-se, após a reestruturação, que Pinhei-

Piranga. Abandono do pré-escolar municipal é retrato de descaso com distrito

Mariana, a população de Pinheiros – além de buscar assistência – quer resgatar sua origem e história. A Prefeitura de Piranga declara desconhecer os motivos que justificam a saída e garante prestar todos os serviços públicos básicos aos moradores. O vereador de Piranga Lucas Rezende diz que o abandono de Pinheiros decorre da má administração do Executivo. “O problema de Piranga não é a falta de verba, mas a vontade de fazer.” A Prefeitura de Piranga afirma que tem verba para executar projetos, mas age com cautela e respeita as destinações aprovadas pela Câmara. O próximo investimento, já aprovado pelo Legislativo, é o asfaltamento das ruas de Pinheiros Altos. As obras devem começar após as chuvas, informa a prefeitura. O asfalto é compromisso antigo. A aposentada Deia Oliveira diz que muitas promessas foram feitas, mas nada foi cumprido. A má condição das ruas e estradas complica a vida da comerciante Arlinda Cunha. O marido faz fisioterapia em Mariana e enfrenta problemas no percurso: “Ele vai para tratar a coluna, mas de tanto buraco no caminho, volta pior”. A educação é outro nó. O distrito contava com o Pré-escolar Municipal Joaquim Viera de Souza. A creche foi construída em 2004 e usada por poucos anos; hoje, está desativada e precarizada. Os alunos foram transferidos para a Escola Estadual Francisco Sales Ferreira. Os vereadores já pediram à prefeitura para reconstruir a Pré-escola. O Executivo confirma, mas espera análise orçamentária.


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Arte: mariana rennó

Inv

ti

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aç ã o

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Moradias

ção

Com relevo irregular e falta de planejamento,

agliene melquiades

Espera. Aguardando novas casas, famílias vivem de forma precária Priscila ferreira

Puxadinho. Beneficiados expandem cômodos para suprir necessidades

2005

A prefeitura remove 28 famílias de área de risco no Taquaral. As casas são demolidas e as famílias inseridas no Bolsa Moradia, realocadas para casas pagas pelo Aluguel Social, enquanto aguardam a construção das casas próprias.

Hariane Alves e Stela Diogo

“Sonho em ter minha casinha. Em deixar algo para meus filhos.” Frase e sonho são partilhados por Gláucia, Rosângela e Eva, que padecem da mesma espera. Retiradas de áreas de risco de Ouro Preto, tiveram as residências demolidas pela prefeitura. Aprenderam a temer a força da natureza, têm medo de dormir e não acordar quando as chuvas duram dias. Hoje, fora das áreas vulneráveis, convivem com o descaso de promessas que nunca se concretizam e aguardam há mais de 10 anos a construção das casas próprias. Gláucia Aparecida Souza, 32, espera com o marido e os sete filhos há 11 anos a nova propriedade. “Eu tinha minha casa, era em área de risco, mas era minha. Me tiraram de lá. Eu quero o que é meu”, exige Gláucia. A casa que ficava no bairro Piedade, divisa com o Taquaral, foi demolida quando foram retirados em 2005, junto com outras 27 famílias. A família mora atualmente no Alto da Cruz em uma casa alugada e recebe o Aluguel Social desde 2006. Além de Gláucia, 162 famílias vivem com o Aluguel Social, parte do Programa Municipal Habitacional Um Teto é Tudo. Só podem ser beneficiados moradores removidos e sem condições de retornar ao local; residentes de área de risco ou alto grau de insalubridade; e pessoas em situação de vulnerabilidade social ou extrema pobreza. A verificação das condições dos moradores é feita por técnicos sociais e Defesa Civil. Ao serem enquadradas, as famílias são realocadas em casas alugadas, renovadas a cada seis meses. Rosângela*, 30, vive com o marido e os três filhos em casas alugadas desde que foram retirados em 2005 da Barra, no Beco do Manxica. Ela recebeu o auxílio por cinco anos, depois foi para a capital e há dois anos retornou ao programa. “Fiquei em Belo Horizonte quatro anos. Voltei pra cá, comprei um lote [no Mangabeiras, no Alto da Cruz] e construí outra casa. Eles me tiraram de novo. Perdi duas casas e até hoje não recebi a minha”, lamenta. Hoje, Rosângela vive de aluguel no Santa Cruz, esperando a indenização prometida ou a construção da casa. “Quando entramos no aluguel, eles falaram para não nos preocuparmos, que teríamos cesta básica e fraldas. Hoje, você vai pedir uma cesta básica é

uma guerra. É de dois em dois meses. Quem vive com dois pacotes de arroz? Quando a gente vai lá é humilhado. Não peço mais, não sou lixo.” Questionado sobre cesta básica e outros benefícios, o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Roberto Leandro, afirma que o programa só é responsável pelo pagamento do aluguel. Quando mudamos, chovia fora e dentro. Arrumei, mas há casas em que as pessoas precisam correr para o banheiro, porque só não molha lá. ” Odice Dutra

Eva Ferreira, 44, vive com oito dos 11 filhos no Santa Cruz, em uma casa alugada pela prefeitura há 10 anos. “Morava no Taquaral com os meninos. Falaram que minha casa era ruim e que eu tinha que sair ou levariam meus filhos. Ia morar só três meses de aluguel enquanto eles reformavam minha casa. Nunca voltei. Meu barraco foi jogado no chão”, lembra. Eva aguarda a casa prometida enquanto cria sozinha os filhos, após a morte do marido. “Meu sonho é ter minha casa. Se eu faltar, tenho certeza que a prefeitura não vai pagar aluguel para eles. Que seja em qualquer lugar ou tamanho. Mas acho que não vou conseguir. Sai prefeito, entra prefeito e eles não fazem nada.” Não vieram Em setembro de 2007, o governo federal liberou R$ 8,1 milhões para Ouro Preto. A verba era destinada à construção de cerca de 300 casas populares, que começaram a ser erguidas só em 2010. Seriam construídas 155 em Cachoeira do Campo, no Alto do Beleza, 57 em Antônio Pereira, 40 no Santa Cruz e 45 em Santa Rita de Ouro Preto. Das casas prometidas, apenas 90 ficaram prontas em fevereiro de 2016 no Alto do Beleza. Para o pedreiro Odice Dutra dos Reis, 48, contemplado com uma propriedade em outubro de 2015, as casas novas têm problemas e não houve vistoria da prefeitura após a entrega. “Quando mudamos, chovia fora e dentro. Arrumei, mas há casas em que as pessoas precisam correr para o banheiro, porque só não molha lá.” As casas têm estrutura pa-

drão: dois quartos pequenos, sala, banheiro e cozinha e cerca de 200m² para expansão. De acordo com o secretário, “as casas estão sendo liberadas aos poucos e as famílias têm 30 dias para relatar problemas”. Além dessas, 200 residências para financiamento, referentes a protocolo de intenção firmado com a Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais (Cohab) em julho de 2015, seriam construídas em três terrenos nos bairros Santa Cruz, Caminho da Fábrica e no distrito de Antônio Pereira até junho de 2016. A Cohab informa que “os terrenos propostos já foram vistoriados e pré-aprovados por equipe técnica em setembro de 2015, mas precisam passar por análise da companhia. Até o momento, o município não encaminhou os documentos que comprovam a propriedade desses terrenos”. Roberto Leandro informa que nem todos os documentos foram enviados ainda devido à burocracia, que demanda tempo. Até o fechamento do LAMPIÃO, o prefeito José Leandro não respondeu sobre os atrasos nas construções e entregas das moradias e sobre o valor existente no Fundo Habitacional do município para o investimento em habitação, além de não explicar quanto do recurso dado pelo Governo Federal existe. Não foi possível identificar quantas famílias foram indenizadas e quais os valores, e nem estabelecer quantas casas exatas foram prometidas e licitadas, já que o site da prefeitura está fora do ar e o Executivo não nos enviou os dados e documentos solicitados. Os vereadores de Ouro Preto também reclamam da falta de transparência sobre o tema, que vem sendo discutido na Câmara. Chico Rei Joana de Cristo, 50, e o marido Francisco Faustino, 64, moram de favor em uma casa no Morro do Santana, em área de risco, perto do barranco que cedeu em 2012, matando dois taxistas. O casal faz parte do Movimento Chico Rei, criado em 25 de dezembro de 2015, quando por volta de 60 famílias, lideradas pela Associação Ouro Preto Moradia, Preservação e Cidadania e Central de Movimentos Populares de Belo Horizonte, ocuparam cerca de 16 hectares da fazenda Maria Soares, da empresa Novelis, em Saramenha. Para Joana, o Movimento Chico Rei

2007 2006 grama ro ício das obras do p

In u d o em T é to e T m U l a ip ic mu n mil hão 1 $ R o D . o p m a C o Cachoeira d la Câmara e doado ao economizado pe ipal de Habitação, Fundo Munic nciam a primeira R$ 456 mil finao programa. et a p a d

08/08 - Famíl i as retiradas do Alto do Taquaral vão à Câmara dos Vereadores protest a r contra atrasos na construção das casas popul a res. 27/12 - Governo Federal l i bera R$ 8,1 milhões para a construção de 300 casas. Prefeit u ra arcará com despesas de compra dos terrenos, paviment a ção e compl ement a rá o val o r das construções.

Moradores de Cachoe2ira0do0 8 não finalizadas no A lto do C ex-moradores do TaquaraBl.ele reintegração de posse, mas A Justiça determina que os só em e as famílias do Taquaral ocupan cont As casas só são entreginueua


Arte: mariana rennó

à margem Ouro Preto en frenta problemas de habitação

Priscila ferreira

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Mani fest a çáo. Integrantes de movimento social reivindicam terras em busca de um fut u ro melhor é uma esperança de sair da área de risco. “Morar aqui é muito ruim, em época de chuva começa a cair barranco. A gente dorme com medo, porque se ele cair, mata a gente.” Segundo o ex-vereador e ex-secretário de Governo de Ouro Preto Wanderley Rossi Junior, o Kuruzu, um dos organizadores do movimento, a ocupação pretende mostrar que existem terras boas para a construção de moradia digna e trazer uma proposta de bairro modelo, com infraestrutura, no terreno ocupado. “Empresas como a Novelis ficam com as terras boas da cidade. As pessoas que não conseguem pagar casas em áreas nobres como o Centro Histórico, disputando com estudantes e pessoas de alta renda, vão morar nas áreas de risco, se sujeitando a perigos. Faltam planejamento urbano e ações efetivas da prefeitura para resolver isso.” Iniciada com 60 famílias, a ocupação ganhou visibilidade e passou a ter 640 pessoas cadastradas até a desapropriação do terreno. O presidente da entidade, Luciano Olivei-

Campo ocupam casas eza, que seriam para A constru tora pede m março de 2010 a nt es ficam nas casas am no A luguel Social. es em 2012.

ra Silva, pré-candidato a vereador, enviou uma carta em setembro de 2015, solicitando uma reunião com a empresa e pedindo a doação de terras para a construção de casas populares. Em resposta, a Novelis informou que “todas as propriedades possíveis para doação já haviam sido anunciadas e comunicadas aos seus respectivos beneficiários até aquela data, não havendo mais a possibilidade de reabertura desse assunto.” Diante da ocupação, a empresa reafirmou que as terras são de sua propriedade e pediu a reintegração de posse. A liminar foi emitida em 29 de dezembro e a área foi desocupada em 21 de janeiro. O movimento prosseguiu fazendo ocupações simbólicas entre janeiro e março. Em fevereiro levantaram o acampamento Chico Rei no terreno público da antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem) de Ouro Preto. As famílias utilizam o espaço para momentos de lazer e educação enquanto aguardam a liberação de terrenos para construção das casas.

2011

O secretário de Desenvolvimento Roberto Leandro garante que o problema de Ouro Preto não é terra, e sim recursos. A prefeitura tem trabalhado em medidas para solucionar as questões de quem mora em áreas de risco, afirma. “Nós [prefeitura] estamos entrando com vários projetos que vão dar possibilidades futuras para quem ainda não tem casa e para quem ainda mora em áreas de alto risco.” As ações são apenas a médio e longo prazo. Território Fundada no século XVIII, Ouro Preto, então Vila Rica, surgiu como território promissor pela riqueza em ouro e outros minérios valiosos. Após o declínio da extração mineral e a mudança da capital para Belo Horizonte, em 1897, a região sofreu grande êxodo populacional. A saída dos ouro-pretanos foi revertida a partir dos anos 1940, com a recuperação econômica local, influenciada pela industrialização. A cidade começou a atrair trabalhadores à medida que fábricas se instalavam.

cont ratar ra pa o çã a t ci i l da do a lt su Sai re zar obras de as empresas que vão ãreo adeli 155 casas em infraestru tura e constr,uçno Vila A legre, 57 em Cachoeira do Campo Santa Cruz e 45 em Antônio Pereira, 40 noet o. O invest imento fica Santa Rita de Ouro Prilhões, com prazo para em torno de R$ 20 m e 360 dias a finalização de 5- 4nã0o cumpridos. respectivamente

As classes de menor poder aquisitivo são forçadas a viver em áreas menos atraentes e bonitas...” Regina Celly e Celênia Macedo

Com a industrialização, novas construções surgiram na cidade. A partir de 1938, a expansão começou ser limitada, pois a cidade foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Nacional e, em 1980, se tornou Patrimônio Cultural da Humanidade. O título, dado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reconhece o valor histórico do local e exige que se preserve o conjunto arquitetônico. Se tornaram inviáveis novas construções no Centro Histórico, área menos íngreme já ocupada por casarões da classe média alta e por repúblicas estudantis da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Famílias com baixo recurso para com-

prar, alugar ou construir no centro histórico, ocupam áreas periféricas da região, que em muitos casos são vulneráveis territorialmente. A desigualdade de moradia de Ouro Preto surge logo após o fim da escravidão. Os negros alforriados, sem salários e sem moradia, tinham de ocupar terras periféricas e precárias. Com o tempo, o problema habitacional se agravou. O potencial turístico e a burocracia para realizar construções em áreas tombadas tornam o centro supervalorizado, com aluguéis entre R$ 1.000 e R$ 4.000. Enquanto que em bairros periféricos, os valores são mais acessíveis. Para a geógrafa Regina Celly e a ambientalista Celênia Macedo, “as classes de menor poder aquisitivo são forçadas a viver em áreas menos atraentes e bonitas, menos dotadas de infraestrutura urbana, insalubres e periféricas. São excluídas de certos espaços”. Taquaral, São Francisco, Santa Cruz, Alto da Cruz, Alto das Dores e São Cristóvão são bairros em áreas de risco alto, segundo informações da Defesa Civil.

2013 80 famíl i as ocupam o residencial Vil a Al egre em Cachoeira do Campo. Em junho, ocorre uma reunião entre represent a ntes da Caixa Econômica e Secret á ria de Desenvol v imento Social , para l evant a r quest õ es rel a cionadas à paral isação das obras e a ocupação il egal . Em 07/05/2014, as obras são retomadas.

2016 Entrega oficial de 90 das 155 casas que deveriam ser construídas no Vil a Al egre, em Cachoeira do Campo. No Alto da Cruz e em Ant ô nio Pereira foi feit a s a terrapl a nagem e iniciou-se a paviment a ção dos terrenos, mas as casas não foram construídas.


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Arte: Carol Rooke

cultura

Os lados opostos do verso Pensamento rápido e ritmo ecoam nas paredes barrocas marianenses, mas machismo inibe participação ativa de mulheres agliene Melquíades

Clarissa Castro

Rimas feitas na hora, improvisadas em meio a várias pessoas, são características das batalhas de MCs (mestres de cerimônia) que existem ao redor do país. Os duelos podem ser feitos com rimas de conhecimento, quando há um tema envolvido, ou de sangue, quando é preciso atacar o oponente. O vocabulário é solto, o clima descontraído, e a plateia vibra a cada tentativa de “ataque” feita pelo MC. Os beats (batidas que acompanham as rimas) geralmente são de músicas conhecidas, mas há quem arrisque um beat box. O DJ libera a batida e os batalhadores têm aproximadamente 45 segundos para “mandar” seu verso e envolver o público nas construções improvisadas. O rap surgiu na Jamaica na década de 60 por meio dos sound systems (amplificadores) e foi difundido nos Estados Unidos anos depois. No Brasil, ganhou força nas ruas de São Paulo com beat box, break e grafite, alguns dos pilares da cultura rap e hip hop. Em Mariana, o rap da Batalha nas Gerais começou no fim de março de 2015, idealizado por Daniel Silva em parceria com Gustavo Marques - o Djonga, e Camila Azevedo, além da influência do grupo marianense Tanamenterap. O evento acontece quinzenalmente e leva música e entretenimento aos frequentadores da atração. Camila, 23 anos e estudante de Turismo, conta que o movimento surgiu por uma vontade de Daniel. “Ele sentiu a necessidade de implantar o movimento em Mariana porque ainda não existia um que fosse consolidado, então se uniu ao Djonga e ao grupo Tanamenterap para começar a batalha.”

O local escolhido como palco para as rimas improvisadas foi a Praça Minas Gerais, que concentra duas igrejas barrocas da cidade: Nossa Senhora do Carmo e São Francisco de Assis. Segundo Camila, o lugar é importante por ser cartão-postal da cidade e possuir valor simbólico e social para os marianenses. Quando chove, a batalha é transferida para a Praça Gomes Freire (conhecida como Jardim), e a disputa acontece em cima do coreto que protege participantes e equipamentos do mau tempo. Ainda que sob chuva e diante de um número menor de frequentadores, o evento não deixa de ser promovido. O movimento começa geralmente às 20h e tem um público médio de 200 pessoas, de acordo com a organização. Os duelos são estabelecidos na hora. Os participantes se inscrevem junto à equipe organizadora, que define em sorteio imediato os confrontos que devem compor a batalha. São oito participantes por noite, e geralmente é pedido aos frequentadores uma colaboração em dinheiro para premiar o vencedor como forma de incentivo. Camila ressalta que seu pai não gosta que ela participe da batalha, por conta de algumas aparições da Polícia Militar no evento. O capitão Geovanni Mendes, 35, alega que a presença da PM é devida a reclamações de perturbação da ordem por parte da vizinhança, e que as ocorrências foram frequentes no final de 2015. Já os organizadores dizem não enfrentar problemas com os vizihos. Envolvimento Mulheres como Karol Conka, Flora Matos e Lurdes da Luz, de letras e rimas com palavras de força, luta e empoderamento feminino, vêm ganhando destaque no cenário

Duelo. Estilo predominante na periferia, rap atrai dezenas de jovens para o centro da cidade

do rap e hip hop atual. MC Soffia, por exemplo, tem apenas 11 anos e já alcançou notoriedade pelas músicas de conteúdo feminista, além de tentar atingir meninas que sofrem preconceito racial. Uma de suas letras mais conhecidas diz “Menina pretinha/exótica não é linda/você não é bonitinha/você é uma rainha”. A participação das mulheres no rap é antiga e hoje ganha espaço. A pesquisadora de literatura periférica e negra produzida por mulheres Bianca Gonçalves, 23, destaca que “é importante lembrar que as mulheres foram atuantes no hip hop desde os primórdios, no entanto não ganhavam a mesma visibilidade dos homens deste cenário”. A antropóloga Mércia Lima, 29, diz que a quantidade de mulheres presente nas batalhas de rap hoje é pequena se comparada com

o número de homens envolvidos, e acrescenta: “Temos que levar em consideração que isso é um reflexo da sociedade em que vivemos”. Para as especialistas, um fator que retarda a participação feminina ou impede que as MCs se dediquem mais à música é a necessidade de demanda a outras atividades, como trabalho, estudo, cuidados com casa, filhos, entre outros. Questionada sobre o machismo no movimento, Mércia garante: é velado, mas deixa rastro. “As lutas feministas estão indo por um bom caminho ao baterem em cima de letra que agride as mulheres. Contudo, o que se percebe nas primeiras letras de raps nacionais é que o machismo era muito presente. Os rappers, grafiteiros e b. boys afirmavam não ter mulheres que se interessavam pelas batalhas. Existem sim, só que elas

têm receio de participar pelo predomínio masculino.” Em Mariana, Camila Azevedo conta que não há muito envolvimento das meninas como MCs. Ela já viu umas duas garotas versando, mas, em geral, participam apenas como frequentadoras. A organizadora conta que só não rima porque acha não ter talento, mas acredita que as marianenses deveriam ter participação mais ativa no movimento. Letícia Gomes, 16, estudante e frequentadora da batalha desde a primeira edição, já ouviu discurso machista dos participantes. Isso a desencoraja a batalhar. “Até hoje vi duas meninas participando. Eu mesma já quis muito participar mas não me senti à vontade, até porque já escutei uma rima que dizia: 'Pode ir pra plateia porque você manda igual menininha'. E não gostei nada disso.”

Da garrafa ao voo poético Priscila ferreira

Pedro Menegheti

Reinvenção. Valfré faz obras de arte utilizando materiais recicláveis

É madrugada em Ouro Preto quando a boca beija em goles a garrafa de cerveja e a mão deixa a long neck no balcão do bar Barroco. Entre as pernas da Curva dos Ventos, nasce o horizonte claro com as notícias de ontem estampadas nos jornais, correndo de mão em mão até serem esquecidos nas mesas da Padaria da Estação. O sino da Igreja de Nossa Senhora das Mercês marca nove da manhã quando o poeta gira a maçaneta para flutuar nas pedras do caminho. Estampa nos lábios o trecho de um poema silencioso: "É preciso transver o mundo". Para Anderson Valfré, 22 anos, a linha da vida se divide em antes e depois dos poemas de Manoel de Barros. Antes, levava a poesia a sério, feito gente grande, e pensava bem o que escrever. Em 2014, quando chegou a Ouro Preto, foi encontrado pelo idioleto manoelês, a língua dos bocós e dos idiotas intitulada assim pelo próprio Manoel. Descobriu o prazer de brincar com as palavras, inventar um mundo pequeno. Depois de Manoel, Anderson viu que o "inútil só presta para a poesia". Quis inventar inutensílios. As notícias passadas e garrafas ocas ocupam os cantos de uma das cidades mais antigas e boêmias do país. Para transver as coisas comuns, Anderson inventou garrafas poéticas, amarradas com fio de nylon

em postes, árvores e cabos do povoado. De vidro e jornal fez jorrar uma invenção que se torna suporte útil às palavras. Dá vida própria a todo verso. Quando comemorou dois verões em Ouro Preto, Anderson Poeta Bicho Bobo, como se chama, se encontrou comigo para conversar sobre o que inventa. Apontou na mesa uma garrafa cuidadosamente revestida de jornal e estampada com um poema: “Querer verbalizar

falar

coisas

sentidos

sem sem

teoria, razões,

descrever sobre um mundo presente e lúdico. Deixo essas responsabilidades para a poesia….”

A garrafa poética sugeria embriaguez lúdica, pedia que fosse um pouco bocó. Me servi de poesia enquanto observava Anderson pegando no quarto os nove blocos de poemas que coleciona desde 2013. No caixote que leva os versos, chamam atenção os dizeres: AMOR LUGAR AMOR Em Ouro Preto, Anderson já é conhecido como o “o moço das garrafas”. Obra e autor se confundem sempre que podem. Mas o criador insiste em afirmar que as garrafas têm vida própria. Ele não precisa mais cuidar da poesia. Precisa deixá-la livre. Conta ainda que toda vez que pendura uma garrafa, sente

que parte de si está ali, engarrafado. Precisa sempre se lembrar, “já não sou mais a garrafa. Como dizia Leminski: ‘ameixa. ame-a ou deixe-a'”. Atingir o outro com um molotov silencioso é a descoberta do jovem poeta, que sonhou com a potência de modificar o estado comum do objeto. O Projeto Transvê poesias é a resposta dos desejos de Valfré. As garrafas e jornais se reciclam em vida nos espaços públicos e inspiram pedestres passageiros. Quando alguém para e contempla o que elas têm a dizer, é como uma profecia cumprida. A intervenção de Valfré, iniciada sem grandes pretensões, soma forças e parcerias a cada exibição. Atualmente, o Projeto Transvê Poesias reapresenta a ideia de performance. O corpo que interage é a garrafa lúdica e o poeta é apenas um mediador entre a escrita e o objeto. O moço das garrafas acresceu o projeto transformando-o em oficina de escrita poética para escolas públicas e bibliotecas. Percebeu a necessidade de contagiar a invencionice e incentivar crianças e adolescentes a se alimentarem de suas poesias. A cada performance, olhos curiosos e mãos ligeiras encontram as garrafas que podem ser levadas quando afetam – anuncia a placa pendurada. As pessoas vagamente se aproximam e a poesia jorra. Contemplam e conversam com aquele objeto pelo tempo de um abraço. Ou pela rapidez de um aceno.


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Março 2016

Arte: carol rooke

cultura

Mãos que tecem memórias Em Cachoeira do Brumado, artesanato produzido com sisal garante sustento de famílias: tradição é transmitida por gerações

Reza a lenda que Aracne era uma famosa artesã da Grécia Antiga. Um dia, foi desafiada pela própria deusa da sabedoria a tecer um bordado melhor que o dela. Aracne não apenas conseguiu, como aproveitou a ocasião para denunciar atos de violência dos deuses contra as mulheres. Por isso, recebeu uma punição divina: foi transformada em aranha, condicionada a tecer até o fim da vida, fadando toda a sua prole ao mesmo destino. Para muitas famílias de Cachoeira do Brumado, distrito de Mariana, tecer também é sinônimo de herança. Efigênia Ramos, 79, começou ainda criança, tendo aprendido o ofício da avó. Trabalha com a venda dos tecidos desde então, por meio da qual criou os oito filhos. “Tinha semana que eu comprava corda e tinha semana que comprava comida pros meninos. Depois foi melhorando. Foi o meio de sustento da gente toda vida”, conta. Tá difícil, muito difícil. Já vieram me falar: ‘Para de fazer esses tapetes, boba, isso vai acabar’. Mas vou continuar. Demora, mas eu vendo. Deus abençoa e a gente vende”. Efigênia Ramos

Encontro Geisiane Borges, 27, na loja Artesanato Cachoeira do Brumado, onde ela e o marido vendem panelas de pedra, namoradeiras e tapetes de sisal bordados por ela. “Antes o tapete era feito com pita, mas sujava e demorava muito para preparar. Hoje em dia a gente usa o sisal, que compramos da Bahia”, diz. Como Efigênia, também aprendeu a fiar com a avó e a mãe. Suas filhas já estão familiarizadas com a prática. Keitany (10) conhece as técnicas e acompanha a mãe, bordando tapetes pequenos. Geisiane espera o momento certo para ensinar a caçula, Darfaly, 5. “Agora não tem muita gente que faz. Da geração que nem a minha, que tá vindo, nin-

guém mais”, conta Juliana dos Santos, 16, enquanto trança o sisal em seu tear - está compondo um tapete grande, com losangos azuis. Segundo a estudante, que confecciona desde os 6 e pretende ser estilista, a tradição vem diminuindo porque os mais jovens não têm tanto interesse, e também devido ao preço do sisal. Geisiane endossa. “Tá chegando muito caro. Quando comecei tava R$ 1,50 o quilo. Hoje em dia tá R$ 4,50”, conta. Dona Efigênia, no entanto, permanece otimista. “Tá difícil, muito difícil. Já vieram me falar: ‘Para de fazer esses tapetes, boba, isso vai acabar’. Mas vou continuar. Demora, mas eu vendo. Deus abençoa e a gente vende”, afirma. Juliana leva o trabalho a sério, mas confessa que gostava mais do ofício quando era menor, já que ele não era uma obrigação. “Antigamente era por diversão. Os adultos colocavam a gente pra tecer do lado deles e ficavam corrigindo. Não era fácil pra gente ficar. Aí começava, ia brincar, voltava, continuava… Era mais gostoso tecer antes”, lembra. Juliana me conduz até a oficina ao lado de casa, onde há sacos de sisal de diversas cores espalhados pelo chão e teares de diferentes tamanhos encostados nas janelas. Ela me ensina a tecer: com dificuldade, passo os fios pelo alinhamento imitando os nós que a vi fazer com agilidade. Juliana disfarça o riso diante da minha tentativa desprovida de destreza. Conto a experiência para Dona Efigênia, e ela garante que é questão de prática. Seus netos pequenos aprenderam a tecer, mas alguns não gostam, pois, com o tempo, os dedos passam a criar cortes e feridas – é o preço exigido pela arte. Juliana, Geisiane e Efigênia; em três diferentes fases da vida, com origens e objetivos distintos, compartilham em comum os ensinamentos dos antepassados. Confesso a elas que jamais conseguiria tecer daquela forma: cada uma das mulheres que entrevistei sacrificou suas mãos ao tear, e antes delas suas mães, suas avós, as avós de suas avós. O sangue que (literalmente) escorre pelo alinhamento atravessa gerações – assim como o ofício que Aracne transmitiu a seus descendentes.

Campeão de exportação O sisal é uma planta nativa do sul do México, mas cultivada em muitos outros países, especialmente os sul-americanos. A fibra resistente derivada dele é usada para fins medicinais e para a confecção de diversos produtos, incluindo tapetes, forragens, fertilizantes e até mesmo tequila. Uma muda, geralmente, produz uma média de 200 folhas, cada uma contendo cerca de 1000 fibras. As fibras da planta já eram utilizadas pelos maias e pelos astecas na fabricação de tecidos simples e papel. No Brasil, os primeiros plantios comerciais foram feitos na década de 1930, sendo exportadas em 1948. Hoje, o país é o maior produtor de sisal do mundo (150,6 milhares de toneladas em 2013), principalmente na Paraíba e na Bahia – mesmo que haja controvérsias acerca dos impactos ambientais provocados por seu cultivo. Para evitar a poluição criada pela extração em

afluentes, países reutilizam subprodutos do sisal como biocombustível. A fibra é também uma alternativa ecológica ao amianto. Depois da colheita, as folhas são esmagadas e batidas por uma roda com lâminas incrustadas, para que só restem as fibras. A fibra é então secada, escovada e ensacada para exportação. No Nordeste brasileiro o sisal é cultivado, em grande parte, pela agricultura familiar, e as fibras são extraídas manualmente. A exportação do sisal brasileiro tem causado aumento no preço da venda de fibras dentro do país, prejudicando artesãos de cidades menores. A fibra é popular como matéria-prima na agricultura devido à sua força, durabilidade, elasticidade e facilidade de absorver pigmentos. Peças de tapeçaria produzidas com sisal não desfiam e nem acumulam poeira.

Francielle ramos

Caio Aniceto

Legado. Juliana dos Santos, 16, continua a prática de fazer tapetes que herdou da avó

A casa volta para o filho Pedro Guimarães

Propósitos turísticos

uma vasta carreira, entre redações de veículos como Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde, e biografias e reportagens de sucesso, como Olga, Chatô, o Rei do Brasil e Corações Sujos - as três também ganharam adaptações cinematográficas. Fernando tornou-se um dos maiores escritores do Brasil, autor de best-sellers que venderam mais de 2 milhões de exemplares. Ele declarou não querer financiamento governamental para viabilizar a ideia, que está em fase de captação de recursos. Enquanto ainda exista incerteza da concretização da Casa de Mariana, o numero 5 na Dom Benevides aguarda seu destino. O lugar pequeno e discreto, que permanece nas lembranças dos antigos moradores, anseia por seu retorno. As lembranças de anos atrás darão espaço para novas. Fernando não volta, mas sua memória fica. Francielle ramos

Rua Dom Benevides, 5. No centro histórico de Mariana, há uma casa na esquina. Pequena e discreta, por sua tímida beleza ainda chama a atenção. O muro de pedra cerca um lugar que já viveu história. Nele, uma placa diz “casa onde nasceu em 1946 o escritor, jornalista e pesquisador Fernando Morais, que nela residiu desde seu nascimento até a transferência de sua família para Belo Horizonte”. Agora, Fernando quer voltar à cidade. Ao menos deixar uma parte sua. O jornalista marianense, nascido em 22 de julho de 1946, anunciou neste ano a proposta de doar parte de seu acervo de mais de 4 mil itens para Mariana. Os planos iniciais de Fernando incluem recomprar o lugar onde viveu e torná-lo parte da Casa de Mariana, nome do projeto. Apesar de ter saído novo da cidade, Fernando voltou muitas vezes a Mariana na infância, quando passava as férias nas casas dos tios e dos avós paternos. As boas memórias que coletou ao longo do tempo não negam: a casa é o coração do projeto. Comprada pelo pai, José Carneiro de Morais, na década de 50, o número 5 da Dom Benevides simboliza um local de memórias. Reinaldo Morais, 60 anos, irmão de Fernando, ainda possui resquícios de lembranças de onde morava. Era muito novo quando a família mudou-se para a capital mineira. Mas ao retornar há alguns anos à primeira casa onde viveu memórias surgiram bem vagamente. Parecia que a casa tinha diminuído. “Uma sala que era pequena eu via como gigantesca. Quando fui lá fiquei um pouco decepcionado”, brinca Reinaldo, aos risos. A Casa de Mariana dará acesso a centenas de documentos, depoimentos e entrevistas que o jornalista acumulou ao longo de seus 50 anos de trabalho. Um tipo de projeto que

não é novidade para a cidade. Pequenas casas e sobrados, datados de séculos atrás, mantêm na memória a carreira de notórios marianenses. Alphonsus de Guimaraens, grande poeta da virada do século XIX para o século XX, deu nome ao museu na Rua Direita, fundado onde morou com a família até sua morte. A professora de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Marta Maia ressalta a importância da Casa de Mariana para o curso. Para ela, Fernando Morais é referência para a área e um dos maiores biógrafos do país. “ O projeto seria como se tivéssemos um museu ao vivo. Com certeza vamos pensar em parcerias, assim como a universidade. Acho que pode ser um grande ganho para a instituição como um todo.” Vencedor de três prêmios Esso e quatro prêmios Abril, Fernando Morais possui

Projeto. Antiga moradia de Fernando Morais pode receber acervo da carreira do escritor

O projeto Casa de Mariana, idealizado pelo jornalista Fernando Morais, visa oferecer um espaço público e cultural à população da região a partir da doação de seu acervo, entre livros, filmes, documentos e materiais jornalísticos. Além de uma biblioteca com cerca de 10 mil volumes, o projeto ainda inclui workshops regulares que englobam diversas áreas. Nomes do jornalismo como Lira Neto e Lucas Figueiredo confirmaram ministrar palestras, como também o produtor cinematográfico Rodrigo Teixeira e o artista gráfico João Batista da Costa Aguiar, além do próprio Fernando, que abordará sobre jornalismo investigativo. A compra da casa, porém, ainda não garante a concretização do projeto. Para realmente entrar em operação, Reinaldo Morais, irmão de Fernando, conta que o objetivo imediato após a aquisição do imóvel seria garantir outro espaço para a maior parte do funcionamento da Casa de Mariana. “O ‘grosso’ das atividades do instituto teriam de ser em outro lugar. Teria um auditório para fazer projeções e palestras, além de uma sala que abrigue adequadamente uma biblioteca de 10 mil volumes”, explica. Segundo ele, a casa na Dom Benevides seria uma parte simbólica do projeto e serviria como um memorial da carreira de Fernando Morais. A coordenadora de turismo de Mariana Lívia Castro, 31, acredita que o projeto seja de extrema relevância para a cidade. Segundo ela, a Casa de Mariana viabilizaria mais um importante espaço cultural na cidade, contribuindo para a valorização e divulgação da história e cultura locais. Sempre sob aspectos benéficos, Lívia ainda afirma que a casa “contribuiria muito para o fortalecimento do segmento cultural, e abriria mais uma opção na gama de produtos turísticos da cidade.”


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Março de 2016

Arte: Anna FLávia monteiro

Gastronomia

Herança na mesa mineira Hortaliça não convencional, a ora-pro-nóbis é fonte de nutrientes e tem uso culinário como aliado no combate à fome Aleone Higidio

Monique Torquetti

Tradicional no cardápio mineiro, a orapro-nóbis é uma planta normalmente encontrada na região de Ouro Preto e pouco conhecida no restante do Brasil. Habitualmente acompanhada de costelinha cozida e angu, a receita deixa qualquer um com água na boca. Chamada também de “rogai por nós”, lobrobo e orabrobó, a planta carrega junto com sua história diversas lendas sobre a origem de seu nome. A mais famosa conta sobre um padre mineiro que não deixava seus fiéis colherem a planta no jardim da igreja e, durante o “rogai por nós” (em latim, ora-pro-nobis), os católicos mandavam seus filhos apanharem as folhas. Com o nome cientifico de Pareskia aculeata Mill, a planta nasce em forma de trepadeira, com o corpo bastante espinhento e adaptável a qualquer ambiente. A planta é de origem brasileira, porém não é exclusiva de apenas uma região; a cactácea teve o uso recorrente no estado de Minas Gerais, onde a presença em receitas, remédios naturais e até em ornamentos é comum desde o século XVII. De acordo com o professor de botânica Hildeberto Caldas de Souza, o uso cotidiano se deu pela presença maciça de escravos na região mineira. Eles se utilizavam da planta por ser rica em proteínas e ferro. Esse também é um dos motivos para a ora-pro-nóbis ser chamada de “carne dos pobres”, pela usual substituição da fonte de proteínas no cardápio. João Félix Vieira, autor do livro “Ora-pronóbis: a carne dos pobres”, conta que o cultivo da planta em Minas Gerais de maneira densa foi originária em 1700, na época da exploração do ouro, quando muitos viajantes vieram para cidades e houve deficiência de alimentos na região. A ora-pro-nóbis apareceu como solução para essa escassez em virtude de seus valores nutricionais. Ouro Preto, Diaman-

Tradição. Eneudina Ribeiro gosta de preparar a planta com costelinha de porco

tina, São João del-Rei, Tiradentes e Sabará são as cidades em que o cultivo aparece com maior intensidade. Na cidade de Ouro Preto não é muito difícil achar quem planta orabrobo. Difícil mesmo é encontrar algum morador que não conheça os benefícios que ela traz a quem a consome diariamente, de acordo com a estudante de nutrição da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Lívia Bitencourt. Eneudina Ribeiro é cozinheira e cultiva a trepadeira na sacada de casa: “Dizem que é bom pra colesterol e diabetes”. E ela não está errada. A planta, além de ajudar na prevenção de diversas doenças, diminui o nível do colesterol ruim (LDL), devido ao alto teor de proteína

cerca de 25%, é rica em vitaminas A, B e C, além magnésio, fósforo e cálcio. Em seu livro, João fala que frequentemente hortaliças não convencionais são esquecidas, mas algumas delas já apresentam comprovação científica de suas propriedades. “A população não aproveita essas fontes naturais de nutrientes que poderiam amenizar carências.” O autor ainda elenca alguns usos na culinária doméstica. “A ora-pro-nóbis, com suas folhas, pode ser usada em várias preparações, como farinhas, refogados, tortas e massas alimentícias, como macarrão e até sorvetes, inclusive as flores, incluídas nas saladas naturais.” Costumam falar que cozinhar não tem segredo, mas Eneudina contes-

ta. “A ora-pro-nóbis tem que saber fazer, porque ‘baba’ demais. Tem que queimar aquela baba dela e fritar”, ensina. Terezinha Aparecida Costa, filha de Eneudina, saboreia a receita tradicional. “Quando faz com costelinha de porco, e até frango, junto com o angu mole, não precisa nem de arroz para acompanhar, é sucesso na família.” A combinação com angu e costela suína são as mais recorrentes na região. Com aspectos semelhantes à couve e ao quiabo, a ora-pro-nóbis tem características que a tornam única. Diversidade Após consumir com costelinha e angu, que tal um sorvete de ora-pro-nóbis? Bolo? Pão? São receitas também tradicionais. “Já escutei falar que coloca ela em sorvete, faz bolo, mas nunca fiz”, confessa Eneudina. Atuais estudos da Universidade Federal dos Vales de Jequitinhonha e Mucuri verificaram que a planta como complemento na massa do macarrão (tipo talharim) é uma boa opção para quem quer se alimentar bem e tem receio de comer a planta in natura. O estudo comprovou que a planta desidratada, inserida na massa, mantém os mesmos benefícios. Reconhecida como hortaliça não convencional, com boa disponibilidade e barata, é aliada ao combate à fome em populações de baixa renda. Pesquisas recentes da Universidade Federal de Lavras mostraram que a farinha múltipla com as folhas da planta pode ser um complemento para a dieta de pessoas com deficiência nutricional. “A inserção na alimentação da pessoa mais pobre, que não come carne e tem uma alimentação precária, vai ter impacto maior, principalmente por causa do ferro. O lobrobo na rotina vai ajudar nas deficiências nutricionais, porque a pessoa vai comer o ferro, o fósforo, o cálcio, o magnésio, e vai melhorar o seu metabolismo”, diz Lívia.

ESPORTE

Projeto incentiva talentos al já contemplou 242 atletas e, no programa, são ofertadas quatro categorias: estadual, nacional, internacional e olímpica/paralímpica. Atualmente, são 89 beneficiados no estado, segundo dados fornecidos da Secretaria Estadual de Esportes. Ouro Preto também aderiu ao programa federal e, até 2015, oferecia 38 bolsas, com um valor investido de R$ 150 mil no ano. “O Bolsa Atleta contempla competidores das esferas internacional, nacional e municipal. Cada modalidade dessa que é premiada tem um valor específico. É feito um rateio dentro da verba destinada”, explica José Moreira, diretor de Esportes da Prefeitura de Ouro Preto. Em 2016, o auxílio provavelmente não será fornecido pelo município: “Até o momento não tem edital aberto, porque a arrecadação da prefeitura caiu”. A secretaria não deu previsão para liberação. Para Moreira, a importância do auxílio é servir de incentivo aos competidores, pois eles recebem uma “força a mais para se especializarem e treinarem, além de competir fora dos domínios de Ouro Preto”. Rafaela Yara é atleta de ginástica de trampolim e faz parte

Em época de Olimpíada, o esporte é um dos assuntos mais comentados em todo o mundo. No Brasil, país sede dos jogos em 2016, o Bolsa Atleta é um programa de incentivo à prática das modalidades olímpicas. O investimento beneficia esportistas de alto rendimento por todo o país. O auxílio federal existe desde 2004 e até agora já ofereceu bolsa para mais de sete mil atletas. É considerado o maior patrocínio individual do planeta, mesmo passando por diversas crises desde a implantação. Em 2011, foram apontadas diversas irregularidades quanto ao pagamento das bolsas e lançamentos de editais; já em 2014, o recurso foi usado de forma ilícita e beneficiou atletas que não estavam de acordo com os pré-requisitos pedidos pelo governo. Baseado na lei nº 10.891, criada em de julho de 2004, a plataforma se divide em seis categorias: base, estudantil, nacional, internacional, olímpica/paralímpica e pódio, sendo a última implantada em 2012, para esportistas que têm potencial em ganhar medalha na Olimpíada do Rio. Os valores variam entre R$ 370 e R$ 5 mil por bimestre. Os benefícios são concedidos para aqueles que tenham históricos de resultados em competições estabelecidas, para custeio de material esportivo, inscrições em competições e treinamento. A assistência contempla o esportista independente de sua condição financeira e sem necessidade de intermédios, basta cumprir os requisitos. O Bolsa Atleta motivou alguns estados e municípios a implantar projetos semelhantes. É o caso do estado de Minas Gerais. Espelhado no governo federal, o estado implantou, dentro do programa Minas Esportiva, o auxílio aos competidores com potencial para representar o estado em competições nacionais e internacionais. O recurso estadu-

do Projeto Esporte e Cidadania, da Fundação Aleijadinho. Treina desde 2011 e recebeu o subsídio da prefeitura em 2015. “A bolsa ajudou sim, porque estamos em uma fase complicada, sem dinheiro suficiente para viajar. Se não fosse a bolsa, não teria participado de alguns campeonatos.” A opinião é dividida com Lucas Junio, que também é ginasta e participa de competições desde 2008. Junio recebe o benefício da prefeitura e do governo estadual há dois anos. O atleta já participou de diversos campeonatos em mais de nove países. “O valor da bolsa, de R$ 2,5 mil, foi o suficiente para ir a essas competições.” Bárbara Silva recebeu o auxílio do governo federal durante dois anos. Praticante de esgrima, participou de competições em estados distantes. “Para conseguir a bolsa, precisei ficar entre os três primeiros colocados no Campeonato Brasileiro.” A inscrição para o programa federal é bem simples: ao sair o edital, basta entrar no site do Ministério do Esporte e preencher o formulário. Após isso, são selecionados atletas que correspondem aos pré-requisitos, que

Fernando Cássio

Monique Torquetti

Promessas. Ginastas Lucas e Rafaela se mantêm no esporte financiados pelo Bolsa Atleta

têm prazo para entregar os documentos necessários. Após o auxílio adquirido, o esportista não tem de prestar contas financeiras ao governo: “Só tem que prestar contas junto à sua federação e junto a seu clube de treinamento, de que está comparecendo aos treinos e continua participando das competições”, diz Bárbara. No caso da esgrimista, o valor é um incentivo para continuar participando do esporte. “O valor da bolsa era suficiente para bancar tanto despesa de alimentação, equipamentos e algumas viagens durante o campeonato, mas ninguém consegue se manter só com a bolsa.”

Olímpiada em OP Ouro Preto foi uma das 37 cidades contempladas em Minas Gerais para receber um dos símbolos da Olimpíada 2016, a tocha olímpica. O revezamento em Minas irá ocorrer entre os dias 7 e 16 de maio, e irá percorrer todos os cantos do estado, começando pelas cidades de Araguari e Uberlândia e terminando na cidade de Muriaé. A Ouro Preto, a tocha chegará no dia 13 de maio, mesmo dia que passará por Itabirito e Inhotim. A chama será acesa no dia 21 de abril, em Olímpia, na Grécia, onde a tradição foi criada. Ao Brasil, ela chegará em 3 de maio a Brasília e irá atravessar 329 municípios brasileiros em quatro meses, até chegar ao Rio de Janeiro, após viajar 20 mil quilômetros em terra e 10 mil milhas aéreas. A Secretaria de Esportes de Ouro Preto, junto com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e outras instituições privadas da cidade, estão organizando uma força tarefa para o evento na cidade. Até o momento, Gabrielle Dias, Liliane da Silva Pereira, Bruno Pedroso Oliveira e Paulo César Coelho são os nomes dos carregadores indicados pela prefeitura. O restante dos portadores será anunciado em breve pelo COB.


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Março de 2016

Arte: Anna Flávia moNTEIRO

PatrimÔnio

Vontade de superar perdas Caio Aniceto

Maria das Graças e Sandra Quintão são irmãs, nascidas e criadas em Bento Rodrigues. Maria é recepcionista da odontologia na Policlínica de Mariana, e Sandra é famosa por suas coxinhas artesanais, que servia em seu restaurante no distrito. Morando agora em casas relativamente distantes, lembram-se das festas típicas que costumavam acontecer no arraial, quando todos estavam próximos, e das quais grande parte dos habitantes participava. É um passado em que Bento Rodrigues ainda existia -– seus moradores jamais imaginando que suas vidas, suas histórias e suas esperanças seriam engolidas por um monstro de lama que desceu pela barragem rompida da mineradora Samarco, em rugidos inesquecíveis aos que escaparam. Bento Rodrigues celebrava, além da Semana Santa e das coroações em maio (nome popular da Coroação de Nossa Senhora), três festas típicas: a de São Bento, na última semana de julho, a de Nossa Senhora das Mercês, em setembro, e a de Nossa Senhora Aparecida, em outubro. “Enfeitavam-se as ruas com bandeirinhas. Na Semana Santa também: colocavam-se os tapetes, cada um enfeitava sua porta, colocava as colchas novas na janela”, conta Maria. As festas de São Bento e N. S. das Mercês eram organizadas por comissões de festeiros, de uma das quais Sandra fazia parte. As celebrações tinham início com encontros de orações: uma novena em São Bento e um tríduo na de Mercês. Os rituais encerravam-se aos sábados, com a procissão da bandeira, que costumava sair da casa do festeiro que estivesse em posse dela, percorrendo as ruas com a banda Bom Jesus de Matosinhos, de Ouro Preto, seguida de uma missa, do hasteamento da bandeira e de um show de fogos de artifício. Durante as celebrações aconteciam ainda bingos e leilões, dos quais Bento inteiro participava. Nas festas

de N. S. Aparecida, as moradoras se arrumavam e iam a pé até uma pequena capela construída na estrada entre Mariana e Bento, em que fica a imagem da Santa. Elas a levavam até a Igreja de São Bento, onde celebrava-se pela manhã uma missa e era feita a coroação. A imagem era então colocada em uma caminhonete enfeitada e saía em carreata por Bento, até retornar à igreja. “Quando chegava lá o padre dava a benção pros carros, pro povo e depois era a festa das crianças. Cachorro quente, bala, pipoca, aquela bagunça toda. Eu e mais três moças enfeitávamos a igreja com flores naturais e minha filha, Mônica, enfeitava os andores”, conta Maria. A imagem da santa foi preservada, e os moradores do distrito agora planejam recriar a festa de outubro – mesmo que em um local que não Bento. Sandra suspira, emocionada. “Ah, saudade da praça do Bento eu tenho da hora que acabava a festa toda, aí a banda parava na minha porta e tocava pra mim. Muita saudade, vai ficar na lembrança, a banda toda tocando lá. Aí nós batíamos palma e eles iam tomar o café pra se despedir. Era muito bonito esse momento, dava uma emoção na gente”, recorda. Como se profetizassem o que aconteceria no dia 5 de novembro, os moradores de Bento empenharam-se como nunca na organização das festas realizadas em 2015. “Esse ano passado então, foi incrível… Todas as festas tinham tanta gente, e a participação foi tão grande, que tava todo mundo comentando. Até falei que achava estranho aquele tanto de gente na Igreja, aí me disseram que era porque na hora da crise todo mundo corre pra procurar Deus. Mas a gente tava é se despedindo das nossas festas”, lembra Maria. Maria me pergunta se eu conhecia Bento Rodrigues. Respondo que havia ido somente depois da tragédia. Ela conta que só teve permissão de entrar no arraial e tentar localizar sua casa quando estava com Aleone Higidio

Continuidade. Zezinho luta para que Folia de Reis retorne a Paracatu

Aleone Higidio

Memórias e costumes: atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco seguem com esperanças de recuperar festividades

Saudade. As irmãs Maria das Graças e Sandra Quintão relembram as celebrações de Bento Rodrigues

uma equipe do Profissão Repórter, da Globo. Mostra fotos de antes da tragédia: o restaurante da irmã, sua casa, a igreja. Respira fundo. Diz que vai me mostrar seu cantinho preferido em Bento – um banco de pedra que seu pai havia feito, debaixo de um pé de manga na praça. Costumava deitar-se nele para descansar. “E agora só tem lama. Ficou a vida da gente lá, soterrada. Nossa história. As coisas que a gente tinha lá e nem imaginava que fazia tanta falta”, lamenta.

Riqueza José Patrocínio de Oliveira, 85, conhecido em toda região simplesmente como Seu Zezinho, é o líder e organizador da Folia de Reis de Paracatu de Baixo. As origens da folia no distrito são incertas, mas a festa como é realizada hoje teve início em 1956, quando Zezinho (à época com 25 anos) reuniu esforços para resgatar a tradição que herdou do pai e dos tios. “Quando tava com 9 anos eu já andava com meus tios na folia. Isso vem de muitos anos pra trás. Aí fui crescendo, virei rapaz e eles me diziam: ‘Ó, isso aqui não pode acabar. Não pode acabar não’”, conta. De acordo com o Portal do Patrimônio Cultural de Mariana, a Folia é um patrimônio imaterial inventariado, mas que atualmente não possui qualquer proteção legal. Apesar disso, a festa é considerada regionalmente como um ícone da preservação da cultura local. A companhia de 15 pessoas percorre os distritos de Furquim, Monsenhor Horta, Bandeirantes e Águas Claras, sempre entre os dias 26 de dezembro 6 de janeiro. Quando retornavam a Paracatu, no dia 6, a festa era realizada. “Faz 46 anos que faço essa festa. Compro um boi de 12, 14 arrobas e muito frango, e dou de comer pro povo”, diz Zezinho. Convicto de que a tradição estaria perdida depois que a lama da Samarco devastou Paracatu levando instrumentos, fantasias e objetos, Seu Zezinho foi surpreendido pela oportunidade de poder realizar a festa novamente. “Nós tínhamos perdido tudo da folia, mas a Samarco me devolveu. A lama levou 3 sacolas, 8 bumbos, pandeiros, reco-reco, um violão, foi tudo embora”, diz. Há mais de 50 anos, o trajeto era feito a pé. No ano passado, foi percorri-

do em uma van enviada pela empresa. Os instrumentos foram cedidos pela mineradora, mas os uniformes e outros adereços, não. Zezinho mostra as fotos que conseguiu salvar. Nelas, os moradores vestiam chapéus, coroas, máscaras e roupas coloridas. Carregavam instrumentos de percussão e bandeiras. Fotos antigas, ainda em preto e branco, de quando a folia teve início. Conta que, assim que foram avisados do estouro da barragem, pegou as fotos antes dos próprios documentos. Recorda-se da atmosfera que costumava permear as celebrações de Paracatu: além da folia, realizavam ainda a Festa de Santo Antônio, em junho, e a Festa do Menino Jesus, em setembro. Esta última normalmente era feita em dezembro, mas os moradores decidiram adiantá-la para setembro em decorrência das chuvas. Esse ano passado então, foi incrível… Todas as festas tinham tanta gente, e a participação foi tão grande, que tava todo mundo comentando. Até falei que achava estranho aquele tanto de gente na Igreja, aí me disseram que era porque na hora da crise todo mundo corre pra procurar Deus. Mas a gente tava é se despedindo das nossas festas” Maria das Graças Quintão

O chão da praça era pintado com tinta branca, azul e amarela – em todas as festas, as casas e ruas eram decoradas com bandeirinhas de várias cores. “Ficava bonito pra danado. Era alegria demais, Nossa Senhora”, lembra. Quando perguntado se espera poder promover novamente as festas perdidas, Seu Zezinho é enfático: “Se Deus quiser! Eu faço elas nem que não for em Paracatu. Não vai acabar, não. Faço em qualquer lugar”. Quer que seus filhos deem continuidade às tradições e, acima de qualquer coisa, deseja retornar à antiga vida. “Quero voltar pra lá. Deus permita que eu termine minha vida em Paracatu.”

Deslocados Desde que foram transferidos dos hotéis pagos pela Samarco, os moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo encontram-se distribuídos por casas alugadas na cidade de Mariana. Separados pela distância e pelos espaços desconhecidos, sentem na pele o estranhamento de serem obrigados a habitar um local a qual não pertencem.. “Essa cidade é só pra quem nasceu e foi criado aqui. Aqui não tá bom, não. Eu queria estar lá. Graças a Deus não tá faltando nada pra gente aqui, mas estamos doidos pra voltar”, conta Zezinho. Pelas ruas de Mariana, pessoas que costumavam ser vizinhas agora topam-se de vez em quando. “A gente encontra outros moradores de Bento espalhados por aqui, parece que tá tudo sem rumo… Sem saber o que fazer. As crianças você fica bobo de ver. Porque lá elas ficavam juntas, a vida era livre. Aqui elas ficam presas”, diz Maria. Muitos moradores são hostilizados, acusados de quererem extorquir a mineradora que destruiu suas casas, suas rotinas, suas famílias. “Tem a sensação que tá estranho... Tem a sensação das pessoas. Os primeiros dias em que eu estava no hotel, não deu nem sete dias e já tinha gente fazendo manifesto nas ruas. Aquilo doeu, doeu muito. A Samarco precisa limpar toda a sujeira que deixou em Bento”, cobra Sandra. A saudade dos bons tempos, apesar de tudo, supera a dor provocada pela paisagem de destruição. Seu Zezinho ainda visita Paracatu regularmente – logo depois de nossa entrevista, juntou filhos e netos para voltar ao distrito. Maria, quase todos os fins de semana, retorna a Bento, mesmo que para observar à distância o que restou do arraial. “Às vezes até hoje a gente tá aqui em casa, cada um em um canto e alguém fala: Vamos lá pro Bento?’, e a gente vai. Nós vamos só pra ficar olhando de longe”, relata. Maria se lembra da vez que encontrou Sandra discutindo com um representante da Samarco, pois a mineradora pretendia construir uma terceira barragem nas proximidades de Bento. Maria tentou amenizar a tensão. “Calma, Sandra. Eles têm pessoas estudadas, competentes, não iam fazer nada pra prejudicar a gente, não. Agora a Sandra joga na minha cara. Diz que eles não fizeram nada para prejudicar a gente, só acabaram com as nossas vidas”. A despeito das incalculáveis perdas sofridas, os atingidos não desistirão até que suas celebrações – suas casas, suas histórias, suas antigas vidas – sejam devolvidas.


12

Março de 2016

Arte: fernando ciríaco

Nam ora

deiras

Entre olhares e prosas, as janelas dos casarios de Mariana se tornam palco da contemplação do cotidiano. O fim de tarde dessas senhorinhas nos lembram aquelas tradicionais “namoradeiras” de janelas por aí afora. O pôr do sol é testemunha de um tempo que passa lentamente até o cair da noite. Passa carregado de lembranças de uma vida e tecendo planos futuros. Seus olhares transbordam saudades de uma época de modo sutil, enquanto numa ciranda notam o presente ali na sua frente. Talvez essas janelas tenham muitos romances para nos contar, assim como diz a música de Gil. F T :A G oto e

exto

lexandro

aleno

Jornal Lampião - edição 22  

O Jornal Lampião é uma publicação laboratorial do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Março de 2016

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