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Abril de 2012

Edição: Nome dos Editores Edição: Nome dos Editores

Jornal Laboratório I Comunicação Social - Jornalismo I UFOP I Ano 3 - Edição Nº 10 - Julho de 2013

mas pode me chamar de

págs. 6 e 7

Ouço o som da música que invade as casas toda sexta pág. 03

Nas escolas, os computadores ainda estão nas caixas pág. 04

Faço 317 anos, e o Ribeirão do Carmo me acompanha

pág. 10

Abro a janela e vejo histórias que não se acabam pág. 11

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Julho de 2013

Edição: Flávia Pupo e Flávio Ernani Arte: Rafael Camara

editorial

Histórias entrelaçadas “Pra descrever uma mulher não é do jeito que quiser. Primeiro tem que ser sensível, senão, é impossível. Quem vê por fora, não vai ver por dentro o que ela é. É um risco tentar resumir”. Os versos cantados por Elba Ramalho traduzem a proposta do LAMPIÃO de retratar a realidade das mulheres marianenses. Mulheres que, nos primórdios dos anos de 1700, eram em sua maioria negra, não podiam se casar e muito menos estudar. Passados alguns séculos, o LAMPIÃO mostra a mulher da atualidade, que conquistou seu espaço e que pode sonhar, batalhar e lutar pelo que deseja. A mulher que ainda sofre com a violência das palavras, a agressão física e moral que machuca e deixam marcas que, talvez, nem o tempo seja capaz de curar.

A Mariana mulher que chega aos 317 anos em 16 de julho, ainda se encanta com o Rio Vermelho, mais conhecido como Ribeirão do Carmo, de sobrenome Rio Doce. Uma relação acompanhada pelos acordes das bandas de música, que há pouco mais de um século saem pelas ruas festejando o aniversário da amada. Mas os acordes podem ser dissonantes e o silêncio de casa invadido por harmonias apresentadas em alto volume. Jovens, filhos de Mariana, órfãos no acesso à informática nas escolas públicas e na busca pelo primeiro emprego. Como LAMPIÃO, caminhei pelas ruas de Mariana e Ouro Preto para encontrar algo novo, escondido aos olhos de todos, que fugisse dos casarões e igrejas históricas.

Subi e desci morros; e, parafraseando o poeta Gonçalves Dias, ouvi o canto do sabiá, as aves, que ali gorjeiam, não gorjeiam em qualquer lugar. Mas, o Parque é o das Andorinhas, e não do sabiá. Andar sobre a corda bamba, que não é a do circo também é atrativo, apesar dos desafios enfrentados pelos esportistas. Mas, na corda não andei. Toquei as amarras que prendem um ser humano livre. Vi pela janela histórica. Vi e ouvi histórias de vida. Vi gente do lado de fora e do lado de dentro. De um lado, o morador de rua que ninguém vê, nos ensina que o conhecimento é, muitas vezes, o maior bem que todos nós temos; de outro, o poder de fazer o bem a qualquer pessoa. É o que as benzedeiras buscam todas as noites

ao abrir a porta das suas casas. LAMPIÃO buscou uma percepção nos diálogos possíveis, uma possível história de vida ou sobrevida. Quis ser sensível na abordagem jornalística, sem perder de vista o impacto social que a reportagem tem. Foi em busca de pessoas não tão comuns, porque, muitas vezes, não as vemos, mas elas estão ali, sempre olhando e intercedendo por nós. Além disso, almejou à doçura, mas também os amargores da terceira idade, misturando o gosto e desgosto da vida no asilo. Identificou detalhes que caracterizam essa idade tão esquecida. Um espaço foi criado para que você, leitor, possa contribuir com sugestões de melhorias para Mariana mulher, amada, por vezes esquecida, mas nesta edição lembrada.

concurso ‘‘a melhor capa do lampião’’ Para comemorar a 10a. edição do LAMPIAO, o jornal promoveu um concurso na sua página do Facebook para eleger as três melhores capas. As eleitas foram as das edições no. 09 e 08, de fevereiro e abril de 2013, e a no. 03, de outubro de 2011. A votação aconteceu de 11 de junho a 08 de julho, com a participação de 231 internautas. Confira as eleitas:

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O mariano

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Opinião

Rafael Melo Estudante de Jornalismo Uma onda de protestos se alastrou em várias cidades brasileiras. Recentemente, o país é alvo de diversas manifestações pacíficas que têm despertado um forte sentimento nacionalista na população, consolidado, sobretudo, pela indignação com o aumento abusivo na tarifa do transporte público frente aos escândalos de corrupção que já mancharam a história do sistema político brasileiro regido por uma imatura democracia. Desde a abertura da Copa das Confederações, as manifestações, agendadas, principalmente, através das redes sociais, se propagam gradativamente por mais cidades. No dia 20 de julho do mês passado, a cidade de São Paulo registrou o sétimo ato contra o transporte público. Cerca de 110 mil manifestantes interditaram a Avenida Paulista e a Avenida 23 de Maio, na região central. No início, o movimento foi idealizado pelo Movimento Passe Livre com o apoio de alguns partidos da esquerda paulista. No entanto, as manifestações passaram a assumir um caráter apartidário, exigindo mais apreço aos valores de cidadania camuflados pelo Estado. Segundo a militante Renata Martins, “há, no movimento, um crescimento de pessoas que criticam o desvio do dinheiro público para as obras da copa do mundo, protestam também contra a falta de verba para saúde e educação, dentre outros problemas que assolam a

www.jornalismo.ufop.br/ lampiao Lá você encontrará conteúdos exclusivos relacionados a leitura de cada página. Não deixe de conferir!

atual comissão de Direitos Humanos do país”. A última referência se trata de um projeto para promover a “cura” para a homossexualidade, aprovada pela Comissão de Direitos Humanos, que atualmente é chefiada pelo deputado evangélico Marco Feliciano. Existem fortes conexões entre essas mobilizações que se espalham pelo território brasileiro. A internet atua como ferramenta essencial para organizar e difundir o movimento diante de algumas coberturas jornalísticas tendenciosas.  No começo, a mídia influente tratou os manifestantes como uma minoria radical e violenta, que pregava o vandalismo para exigir seus direitos. Dessa forma, contribuíram com a intensificação de uma postura truculenta dos policiais que usaram spray de pimenta, agressões físicas e bombas de efeito moral para conter diversas manifestações no país, violentando até mesmo jornalistas que estavam presentes para cobrir as manifestações. Ainda ocorrem protestos nas cidades em que o preço da passagem não foi reduzido. O resultado dessa motivação homogênea nas manifestações é oriundo de uma representatividade do Brasil enquanto nação, impulsionado pela almejada Copa do Mundo que o país sediará. Os preparativos e investimentos para o evento conseguiram disseminar uma insatisfação diligente diante do cenário socioeconômico administrado pelo governo da atual presidente Dilma Rousseff.

lampejos “A educação municipal estagnou por falta de infraestrutura, vontade política e interesse pedagógico”. Elizabeth Cota, secretária de Educação de Mariana – pág. 4 “A cultura conservadora da cidade ainda entende a mulher como objeto do homem e é isso que tem que ser mudado”. Fábio Luiz, delegado de Polícia Civil -Pág. 09 “Descobri que as bandas fazem parte da cidade. Somos sempre muito bem recebidos. Mariana respira música”. Daniele Freitas, instrumentista da União XV de Novembro – Pág 10 “Se tiver uma Mundo Estanho, Super Interessante, pode trazer. Eu adoro ler”. Anderson Lucas, morador de rua, Ouro Preto -Pág 11

Jornal Laboratório produzido pelos alunos do curso de Jornalismo – Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA)/ Universidade Federal de Ouro Preto – Reitor: Prof. Dr. Marcone Jamilson Freitas Souza Diretor do ICSA: Prof. Dr. José Artur dos Santos Ferreira. Chefe de departamento: Profa. Dra. Ednéia Oliveira. Presidente do Colegiado de Jornalismo: Prof. Dr. Ricardo Augusto Orlando – Professores responsáveis: Adriana Bravin (Reportagem),Ana Carolina Lima Santos (Fotografia) e Priscila Borges (Planejamento Visual) – Editora chefe: Flavia Pupo - Secretário de Redação: Flavio Ernani - Editora de Arte: Luma Sabóia - Editor de fotografia: Arthur Medrado - Editor Multimídia: Gustavo Kirchner - Reportagem: Ana Clara Castro, Bruna Silveira, Carolina Lourenço, Daniela Gurgel, Di Anna Lourenço, Edan André, Gabriela Costa, Gerliani Mendes, Kíria Ribeiro, Mariana Borba, Marcelo Nahime, Nathália Nunes e Tamires Duarte - Fotografia: Adriel Campos, Bruna Sudário, Flávia Silva, Íris Zanetti, Juliana Melo, Lídia Ferreira, Marina Ibba, Pedro Ferreira e Thamira Bastos - Diagramação: Bárbara Zdanowsky, Cibele Souza, Cristiane Guerra, Davi Machado, José Sampaio, Rafael Camara, Samuel Perpétuo, Tácito Chimato, Thainá Cunha e Thiago Novais - Multmídia: Felipe Sales, Flávia Silva, Gerliani Mendes, Rafael Camara - Revisão: Flávio Ernani, Isabela Azi, Lara Beatriz e Núbia Cunha - Tiragem: 3.000 exemplares. Endereço: Rua do Catete, n° 166, Centro. Mariana - MG. CEP 35420-000


Julho de 2013

Edição: Kíria Ribeiro e Marina Ibba Arte: Bárbara Zdanowsky

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Cidade

O limite entre o direito e a imposição Som alto e falta de divulgação prévia do projeto “Chuva de Música”divide opiniões entre moradores MARINA IBBA

Daniela Gurgel Mariana carrega as marcas da tradição musical, como o Museu da Música, que abriga documentos relativos à prática musical na região, desde o Século XVII, ou inúmeras bandas civis que animam o calendário festivo da cidade. É com base nessa tradição que, há quatro meses, o município promove toda sexta-feira, no adro da Igreja São Pedro, o projeto “Chuva de Música”, que realiza apresentações gratuitas com uma hora de duração. O projeto é realizado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. O som que se propaga pela cidade chama a atenção pelo alto volume. A pedido do LAMPIÃO, o Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) realizou, em 14 de junho, às 18 horas, a aferição do som propagado no local das apresentações, utilizando um decibelímetro. Os níveis sonoros variaram de 96,2 a 108,6 decibéis (unidade usada para medir a intensidade do som), com o aparelho a cerca de sete metros do equipamento de som. A aproximadamente dois metros, a emissão chegou a 126,2 db. O permitido, de acordo com a Lei Estadual 7.302/78, são 70 decibéis. A moradora do Bairro Vila Maquiné, localizado a cerca de três quilômetros da Igreja São Pedro, Arlinda Maria, também afirma ser atingida pelo som emitido pelo projeto e recorda que, a primeira vez que ouviu

Marina ibba

Menor marca da aferição

A formação montanhosa da cidade favorece a propagação das ondas sonoras das apresentações musicais, que acontecem no adro da Igreja São Pedro

o “Chuva de Música”, se lembrou do terço que era rezado por Dona Odete, todos os dias, às 18 horas, na Igreja do Rosário. “Parte da cidade ouvia por meio da propagação sonora de um alto-falante”. Moradores se queixam A cerca de 400 metros da Igreja São Pedro, alunos e professores da Faculdade de Administração de Mariana (Fama) se queixam do som alto do projeto. Segundo a professora do curso de Engenharia de Produção, Rogéria Queiroz, as aulas iniciam às 18h20 e, mesmo fechando as janelas, o volume é intenso e atrapalha. “Sou professora de cálculos e não consigo iniciar minhas aulas enquanto não encerra o concerto”. Os alunos do mesmo curso também se queixam. O estudante Wilson Ferreira se declarou indignado por não ter sido avisado da realização do projeto. “A prefeitura deveria ter consultado a população para saber se o povo aprovaria isso, realizando uma pesquisa”. A moradora da Rua Dom Silvério, Maria Auxiliadora de Souza, também se sente incomodada com a propagação sonora inten-

sa e sugere um rodízio entre os bairros, pois acredita que a intensidade sonora seria menor. Para ela, o projeto é “interessante”, entretanto, sugere que deveria ser repensado o tempo de apresentação, variação do repertório e o volume que, segundo ela, incomoda muito. O especialista em educação musical, Eric Lana, acredita que parte dos incômodos estão ligados à privação do direito de escolha das pessoas. “A iniciativa de difundir a música instrumental é positiva, porém, acredito que o formato que vem sendo feito não permite às pessoas o direito de escolha”. Diante das queixas e sugestões da população, o vice-prefeito, Duarte Eustáquio, aposta em intervenções. “Achei interessante um rodízio entre bairros e novos artistas no programa”. O coordenador de Cultura e Turismo, José Luiz Papa, não quis se pronunciar. Alegando impedimento por parte do secretário de Governo, Raul José de Almeida Júnior, o Demutran não forneceu os relatórios das aferições realizadas a pedido do LAMPIÃO e as especificações do aparelho utilizado na operação.

O que diz a lei Com base na Lei Estadual nº 7.302, de 21 de julho de 1978, que regula a poluição sonora no Estado de Minas Gerais, as medições sonoras do “Chuva de Música”, apontaram dados acima dos limites permitidos. O parágrafo dois do artigo segundo da lei afirma que: “Para os efeitos desta Lei, consideramse prejudiciais à saúde, à segurança ou ao sossego públicos quaisquer ruídos que, independentemente do ruído de fundo, atinjam, no ambiente exterior do recinto em que têm origem, nível sonoro de 70 (setenta) decibéis - DB (A), durante o dia, e 60 (sessenta) decibéis - DB (A), durante a noite, explicitado o horário noturno como aquele compreendido entre as 22 (vinte e duas) horas e as 6 (seis) horas, se outro não estiver estabelecido na legislação municipal pertinente”. A Prefeitura, por meio do Demutran, declarou que o município possui legislação própria que dispõe sobre ruídos urbanos, o Decreto nº 4804, de 31 de outubro de 2008, que regulamenta as disposições do Arti-

go 64 da Lei Municipal 527, de nove de maio de 1979 – Código de Posturas do Município. No entanto, o LAMPIÃO teve acesso somente ao Artigo 15 do Decreto, com ressalva no parágrafo IX: “Não se compreende nas proibições dos artigos anteriores, ruídos e sons produzidos por shows, concertos e apresentações musicais de caráter cultural e artístico, desde que realizados dentro das condições autorizadas pela Secretaria Municipal de Segurança Pública e Defesa Civil”. Sobre o direito de acesso da população às leis municipais, o vice-prefeito, Duarte Eustáquio, declarou não haver necessidades de se impor a lei. “Toda lei é pública. Acho que não é o caminho, a imposição dessa lei, mas através de um diálogo com a comunidade, poderemos desenvolver bons programas”. O LAMPIÃO protocolou no Demutran, em 28 de junho, ofício requerendo acesso à legislação municipal que regula a emissão sonora, com base na Lei de Acesso à Informação. Até o fechamento desta edição não obteve resposta.

Mariana ganha Rede pela Vida

Marina Ibba

Alunos da rede municipal participam da Marcha pela Vida

Gabriela Costa A Prefeitura de Mariana lançou em maio deste ano o programa “Rede pela Vida”, um projeto sistêmico que aborda a prevenção, o tratamento e a reinserção dos usuários e dependentes de drogas. Porém, a falta de um padrão de abordagem do usuário ainda é uma realidade e faz com que não haja um critério definido sobre o direcionamento do tratamento. O assessor técnico de governo e coordenador do projeto, Israel Quirino, explica que a cidade tem enfrentado um problema urgente em relação às drogas e o projeto “Rede Pela Vida” veio para dar conta dessa situação. O programa, que realizou no dia 22 de junho a Primeira Marcha pela Vida, atuará na prevenção, no tratamento, no acompanhamento familiar, na rein-

serção social e no monitoramento da pessoa em recuperação. O tratamento será realizado a partir da orientação de profissionais sobre qual é a melhor abordagem a ser adotada: o tratamento ambulatorial ou a internação em comunidades terapêuticas. O Centro de Atenção Psicossocial de Mariana (Caps) é o órgão que recebe os usuários e dependentes para que, atendidos pelos profissionais de plantão, sejam direcionados ao procedimento recomendado. No primeiro atendimento, também chamado de acolhimento, os profissionais fazem uma entrevista para coletar informações sobre o usuário e traçar um projeto terapêutico. No entanto, não há um padrão nessa primeira abordagem. De acordo com o psicólogo do Centro de Referência Especializado de

Assistência Social (Creas), Diego Carrara, a falta de padrão não permite ter um critério definido para a escolha do tratamento. “Nós não temos dados suficientes para indicar o nível de uso do paciente – se é um usuário de risco ou dependente –, fator que permite direcionar o tratamento. Pode ocorrer que uma pessoa que não tem necessidade de internação seja internada, por exemplo”, explica Carrara. Solução Em uma visão geral dos casos, o tratamento ambulatorial é recomendado quando a pessoa é considerada usuária e a internação é necessária quando há dependência e necessidade de controle de abstinência. Hoje, existem questionários de acolhimento usados em todo o país que facilitam a identificação do nível de

uso de substâncias. A aplicação desse instrumento seria uma das soluções para a realidade de Mariana, segundo o psicólogo. A assistente social e professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Cristiane Tomaz, acredita que a proposta do “Rede pela Vida” é uma perspectiva progressista de política local, mas ainda faltam elementos para que ele seja efetivo, como no caso do questionário de acolhimento. Além disso, a professora Cristiane questiona a falta de algo novo para a realização dessa política de atenção ao dependente químico em Mariana. “Já não tem esse instrumento que é básico. Então, como esses usuários estão sendo atendidos? Como estavam sendo antes do programa ser lançado”, questiona.


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Julho de 2013

Edição: Edan André e Tamires Duarte Arte: Samuel Perpétuo

educação

Ensino público desconectado do mundo digital Informática como recurso pedagógico ainda não é realidade nas escolas municipais e estaduais de Mariana e Ouro Preto juliana melo

Di Anna Lourenço A informática, como recurso pedagógico no ensino público de Mariana e Ouro Preto, reflete uma política educacional improvisada, não alinhada à realidade da sociedade cada vez mais conectada pelos meios de tecnologias de informação. Nas escolas estaduais e municipais, os relatos se repetem. Professores, diretores e coordenadores enumeram os seguintes problemas: o número de computadores é insuficiente para o tamanho das turmas; faltam profissionais qualificados em informática para auxiliar durante as aulas, assim como, o conhecimento sobre o programa operacional Linux, adotado nos computadores enviados pelo Ministério da Educação (MEC); e a assistência técnica é ineficiente. A indisciplina dos alunos, afirmam os professores, complica ainda mais o uso da sala de informática para as aulas. As condições se agravam com a espera pela assistência técnica, que depende de diversos procedimentos burocráticos. Com isso, as aulas são suspensas nos laboratórios, pois “cada máquina que precisa de reparo gera transtorno”, afirma a diretora da Escola Estadual Dom Pedro II, de Ouro Preto, Dirlene Maria de Azêvedo, 47 anos. “Não sabemos mexer. Qualquer coisinha é um problemão. Não somos técnicos. O governo não paga para este fim”, acrescenta. Alguns professores admitem que não se sentem capacitados o suficiente para utilizarem o computador durante a aula, pois consideram inadequadas as condições oferecidas. Mas, há situações piores, como na Escola Municipal Hélio Homem de Faria, em Ouro Preto, que teve 22 computadores e os demais equipamentos roubados em janei-

ro de 2012. Até hoje o caso não foi solucionado. Despreparo Por conta de todas estas dificuldades, os computadores são utilizados apenas pelos técnicos administrativos e gestores para preparar documentos e prestar contas. Bem como pelos professores para elaboração de aulas, trabalhos e provas. Além disso, a reportagem do LAMPIÃO encontrou alguns laboratórios desmontados e equipamentos que sequer foram instalados. É o caso da Escola Estadual Santa Godoy, em Mariana, onde o kit completo (18 monitores de LCD, 18 teclados, 18 mouses, 18 fones, 1 servidor multimídia, 1 impressora laser, 10 estabilizadores e access Point. Linux Educacional 3.0, com garantia de 3 anos) chegou há mais de dois anos e ainda está guardado. A escola não dispunha de sala para as instalações, de acordo com a vice-diretora, que assumiu em 2011, Solange Ribeiro dos Santos Reis, 48 anos. “Agora só estamos aguardando a empresa responsável pela instalação das máquinas. Providenciamos ,este ano, a sala, após a Secretaria de Educação ter transferido as turmas do projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA) que funcionava aqui, para outra escola”, explica. Improviso A rede municipal de ensino de ambas as cidades, que segundo o MEC, já recebeu os computadores pelo Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo), está em situação semelhante. Os equipamentos não estão sendo utilizados sistematicamente por alunos ou pessoas da comunidade, como propõe o MEC. E as razões são as mesmas. Mas, nestas há mais um

Computadores do ProInfo estão nas caixas há dois anos por falta de estrutura na Escola Estadual Santa Godoy

problema: as reformas dos prédios, fator vivenciado pela Escola Municipal Monsenhor José Cotta e pelo Centro de Educação Municipal Padre Avelar, ambos em Mariana. Os recursos digitais, como lousas eletrônicas, data-show, notebook e laboratórios, vêm sendo estudados, testados e implantados em algumas escolas destes municípios. São diversos projetos estaduais e federais, tais como o Reinventando o Ensino Médio, Programa Nacional de acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo) e Programa de Educação em Tempo Integral (Proeti). “Mas é tudo improvisado, em quantidade insuficiente para atender todos os alunos”, afirma o diretor da Escola Estadual Professor Soares Ferreira, Sebastião Gilmar da Silva, 49 anos.

Gestores explicam a situação A superintendente de ensino em Ouro Preto, Iracema Mapa, 52 anos, e a coordenadora do Proinfo, Adelina de Freitas, 30 anos, explicam que a quantia de equipamentos recebidos pelas escolas é estipulada pelo MEC com base no censo escolar. Sobre a assistência técnica, concordam ser insuficiente, mas não apontam solução. Afirmam que a aversão do docente ao Linux educacional dificulta o uso da tecnologia. Relatam, ainda, ser baixa a procura deles por capacitação e que o problema é mais complexo, inclusive “deficiência na formação universitária em licenciatura”, afirma a superintendente. O secretário de Educação de Ouro Preto, José César de Souza, 45 anos, informou que os inquéritos sobre os roubos dos

computadores avançam em sigilo. Quanto à assistência técnica, afirma ter designado uma equipe para agilizar o atendimento das escolas. Sobre a capacitação ressalta que “o professor precisa querer”. A secretária de Educação de Mariana, Elizabeth Cota, 48 anos, afirma que “a educação municipal estagnou por falta de infraestrutura, vontade política e interesse pedagógico”. E, para reverter esta situação, utilizará recursos da própria secretaria, além de adequar os laboratórios. “Entregaremos 300 computadores à rede municipal de ensino, em um projteo piloto. Compramos, ainda, 20 notebooks para atender à secretaria, diretores e pedagogos. A ideia é fomentar, ampliar e melhorar o que se tem”, ressalta a secretária.

CIDADE

Taxas pagas; ainda assim, falta luz Edan André A primeira capital de Minas Gerais sofre com problemas na manutenção da iluminação pública, o que gera insegurança devido a facilidade de abordagem de criminosos. Um dos exemplos é a Rua Salomão Ibrahim da Silva, mais conhecida como Beco do Cica, que ficou dois meses sem iluminação. “É uma vergonha, a gente paga a taxa de ilu-

minação pública de R$ 5,74, que vem na conta de luz, e não vê o retorno; a gente liga pra Cemig, Prefeitura, e nada se resolve. O pior de tudo é a falta de segurança que aumenta, porque tudo no escuro facilita para os criminosos”, afirma a comerciante Rosângela do Espírito Santo, proprietária do bar Ponto Certo localizado na rua e uma das moradoras do local.

A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), concessionária responsável pela luz, demorou cerca de seis meses para começar a reparar as lâmpadas danificadas na cidade. Em reunião ordinária, realizada na Câmara Municipal dos Vereadores, no dia 17 de junho, o vereador Juliano Duarte convocou três representantes da Cemig para explicarem o motivo da demora adriel campos

Falta de manutenção na iluminação pública deixa vários pontos da cidade no escuro

e quando seria tomada alguma providência. Segundo o supervisor do serviço de manutenção da empresa, Geraldo Arlindo Gondim, devem ser consertados em torno de 510 pontos, provenientes de todo tipo de reclamação. “A Cemig trabalha com prazos, e tem um representante no poder público. Ele é quem manda o cronograma de onde deve ser reparado, neste caso, a Cemig está consertando por ordem de reclamação. Atualmente, quatro equipes estão trabalhando na manutenção da iluminação”, afirma Geraldo. Promessa O líder de negócios da Cemig na região da Serra da Mantiqueira, Luiz Carlos Salim Nogueira, disse que na semana anterior à reunião, a empresa já havia mapeado todos os pontos da cidade e, que no dia 13 de junho, iniciaram os reparos que, segundo ele, deveriam ser concluídos em até 15 dias úteis. A Avenida Nossa Senhora do Carmo foi a primeira a ser atendida. Segundo Luiz, o motivo principal da demora na manutenção das lâmpadas é porque a Cemig compra os materiais de reposição do estoque para todo o Estado de uma só vez e que a empresa

teve problema no lote comprado. A Cemig é uma economia mista, onde o maior acionista é o Estado e a outra parte é privada. Toda compra feita precisa de licitação e, se houver algum problema no lote comprado, ele é devolvido e se faz o outro pedido, informou. A partir de primeiro de fevereiro de 2014, a Prefeitura de Mariana será a responsável pela iluminação pública da cidade, sendo que ela já cuida da iluminação das praças. A Cemig está cumprindo uma determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), através da Resolução 414, Artigo 21, previsto desde 2010. Atualmente, no Brasil, apenas quatro concessionárias ainda prestam o serviço de manutenção na iluminação pública dos municípios. Segundo Geraldo, “o que a Cemig investe em iluminação pública, atualmente, a Aneel não reconhece na tarifa de energia, não tendo retorno então do que a empresa gasta com esse tipo de iluminação, não sendo assim, interessante para a Cemig continuar com a responsabilidade da manutenção da iluminação pública da cidade. Porém, essa transferência não trará nenhuma consequência para a população.”


Julho de 2013

Edição: Gabriela Costa, Kiria Ribeiro e Mariana Borba Arte: Cibele Souza

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Economia

Falta de oportunidade A insuficiência de vagas no mercado de trabalho reduz a chance do primeiro emprego para os jovens Juliana melo

Nathália Viegas Diariamente, centenas de pessoas saem em busca do primeiro emprego em Mariana, porém, retornam para casa sem sucesso. Das 130 vagas disponibilizadas pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine) em Mariana, no período de 10 a 14 de junho último, apenas 28 vagas foram ofertadas a quem não possuía experiência. E com o apontador Luan Ambrósio, 24 anos, não foi diferente. O jovem, que possui escolaridade de nível médio e procurava por trabalho em quaisquer áreas, recorreu aos processos seletivos das mineradoras e ao sistema de emprego da cidade, em vão. “Eu vejo o Sine como um sistema meio manco ainda, pelo menos aqui em Mariana. Eu fiz meu cadastro e se dependesse disso, estaria na mesma situação até hoje.” A coordenadora do sistema em Mariana, Maria Marta da Silva, ressaltou que a falta de vagas não é um problema que cabe ao orgão. “O Sine é inter-

mediador e não define perfil de vaga, sendo esta característica do empregador.” A técnica em Segurança do Trabalho, Milene Costa, 28, desistiu da procura pelo primeiro emprego na sua área de formação e, hoje, é vendedora autônoma. Tentou processos seletivos municipais e nas mineradoras, sem resultado positivo. Em tom de desabafo, revelou que quem possui contatos está um passo na frente dos demais. “Todo lugar que você vai aqui em Mariana, infelizmente, tem que ter uma indicação.” Uma das poucas alternativas para os marianenses é o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que objetiva qualificar os jovens para o mercado de trabalho. De acordo com o artigo 429 da Lei 5452/4, que aprova a Consolidação das Leis do Trabalho, Os estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendiza-

gem número de aprendizes equivalente a cinco por cento, no mínimo, e quinze por cento, no máximo, dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento, cujas funções demandem formação profissional”. O grande problema apontado por quem vivenciou a procura pelo primeiro trabalho é a cobrança da experiência pelos empregadores. “Em geral, eles não abrem mão da experiência.”, disse Luan. A oportunidade deve ser dada aos inexperientes, afinal para que eles aprendam o ofício e adquiram conhecimento é necessário que os contratantes deem o primeiro passo. Informações adicionais: Senai: Rodovia do Contorno, s/nº - Colina, Telefone: (31) 3557-2120 Sine: Rua Wenceslau Brás, nº 88 – Centro, Telefone: (31) 3557-3547 Carteiras envelhecem à espera dos donos que buscam o primeiro emprego

Clonagem: fraude silenciosa PEDRO FERREIRA

Mesmo com leitor de chip, caixas eletrônicos não garantem total segurança

Marcelo Nahime Jr. “Senti-me vulnerável, fragilizada, sem saber se conseguiria retornar a São Paulo, e, desrespeitada pela pouca competência dos envolvidos, em ‘quererem’ resolver meu problema: eu precisava de dinheiro e tinha documentação que comprovava que ‘eu era eu mesma’. Um absurdo! Mas é isso que acontece com quem tem seu cartão clonado.” O depoimento é da paulista Rosana Garcia, cliente do Ban-

co do Brasil, que em 2010 teve seu cartão bancário clonado, durante uma viagem que a coordenadora de Vigilância Sanitária fez a Mariana. Segundo pesquisa realizada em 2012 pela ACI Worldwide – empresa norte-americana especializada em softwares para soluções bancárias –, o Brasil ocupa a sétima posição global em números de clonagem de cartões de créditos e serviços. No país, o percentual de pessoas que já tiveram cartões clo-

nados é de 33%, e um em cada quatro consumidores já passou por essa situação. Rosana viajava por Minas Gerais, quando realizou um saque na agência do Banco do Brasil, de Mariana. Em Belo Horizonte, precisou fazer mais um saque. Foi então que descobriu que seu cartão havia sido clonado e estava sendo movimentado na Argentina. Quem confirmou a informação foi o gerente do banco, na capital mineira, que afirmou que o cartão havia sido clonado em Mariana. O professor de Economia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e funcionário do Banco do Brasil de Mariana, Julio Cesar Lopes, acredita que a situação teria sido resolvida rapidamente. “Se ela estivesse com o Documento de Identidade e a senha do cartão, realizaria um saque no caixa eletrônico. A agência de BH ligaria para a agência de Campinas (SP) – cidade natal de Rosana e onde ela mantém operações com seu cartão –, solicitando um cartão de assinaturas dela, onde poderiam identificar que realmente é cliente do BB”, explica Lopes.

Outra forma de resolver situações como a que Rosana enfrentou seria a checagem presencial de assinaturas em que o cliente fornece o RG, assina um cheque avulso, o Banco liga para a agência de origem e confere se as três opções estão de acordo. Júlio também comenta que “a cliente poderia sacar até R$ 3 mil se ficasse comprovado que ela é correntista do Banco. E, que em casos como esse, devese recorrer à Central de Atendimento ao Consumidor”. O diretor do Procon de Ouro Preto, Rodrigo Barros, explica que casos como o de Rosana, ocorrido em Mariana, não são constantes na cidade. “Certamente existe uma quadrilha operando em Mariana. Para facilitar o serviço do Procon, o consumidor deve ir à Delegacia de Polícia, pois o trabalho dos dois órgãos funciona de maneira conjunta e, portanto, mais eficaz”, explica Rodrigo. MAIS INFORMAÇÕES SOBRE CLONAGEM DE CARTÃO NA VERSÃO ONLINE: http://goo.gl/3Ah6r

Garantir que o consumidor tenha seu problema resolvido é obrigação das agências bancárias. Rosana Garcia sofreu com a lesão ao seu cartão, e acredita que se não fosse o gerente do BB de Campinas ligar para o de BH, ela não teria recebido o dinheiro que precisava para voltar para casa.

Fique atento! Se você possui cartão magnético, vá ao banco para fazer um cartão eletrônico. Ele possui um chip que oferece mais segurança. Evite gravar sua senha do cartão em locais de fácil acesso. Durante o pagamento de compra com o cartão, veja o valor na máquina. Se ele não aparecer e você digitar sua senha, os algarismos dela aparecerão. Evite senhas previsíveis. Fonte: Procon de Ouro Preto (MG

Comportamento

Até que o cartório os agrade Mariana Borba Apesar de possuírem o direito ao casamento civil aprovado para pessoas do mesmo sexo pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os casais homossexuais que desejam constituir matrimônio nas cidades de Ouro Preto e Mariana enfrentam dificuldades quanto às informações transmitidas pelos profissionais dos cartórios. Eles não podem negar-se a habilitar ou celebrar o casamento civil igualitário e a conversão de união estável, de acordo com a resolução 175 do CNJ, aprovada no dia 14 de maio último, que garante os mesmos direitos civis aos homossexuais. O contrato de

união estável coloca o casal com o status de “companheiros”, já o casamento civil confere o registro público e o status de “casados”, além dos bens assegurados, a utilização do sobrenome e a possibilidade de declarar o imposto de renda tornando a outra pessoa dependente. A legalização do casamento havia sido validada em 13 estados no Brasil e no Distrito Federal, desde 2011, sendo válida desde maio para todo o país. Enquanto assinava o documento de união estável, José, que preferiu não ter o sobrenome identificado, e seu companheiro se encontraram em uma situação constrangedora em um

cartório, no mês de janeiro, em Mariana. O tabelião responsável preencheu a certidão com os dizeres: “as partes se declaram de acordo a conviver como marido e mulher”. Ele e seu companheiro pediram que o documento fosse alterado. José afirma que apesar de não ter sido destratado, não houve interesse do profissional em fazer as mudanças, dizendo ser um documento padrão, por isso, não seria possível trocar os nomes. “Viver como marido e mulher, nessa situação, entende-se que há ali o resquício da heteronormatividade”, afirma. O advogado Alexandre Bahia acredita que há um despreparo

dos servidores nessas situações em que o tabelião, enquanto responsável pelos documentos emitidos em cartório, deveria ter alterado a certidão para expressões mais genéricas como: “cônjuges” ou “em matrimônio”. Situações parecidas a respeito da falta de informação dos profissionais aconteceram em de Ouro Preto. Um dono de cartório que preferiu não se identificar afirmou ser preciso passar a documentação do casamento homoafetivo para o promotor analisar cada caso. Mas, segundo Alexandre Bahia, “a resolução do CNJ é bem clara sobre o cartório não ter que suscitar esse tipo de dúvida, nem mandar nada para o

promotor. Quem se sentir lesado pode fazer uma representação na corregedoria.”, diz o advogado. Nenhum registro de casamento civil homoafetivo foi divulgado nas cidades de Mariana e Ouro Preto, desde a aprovação da lei. Apesar de nova, a decisão do Conselho tem um efeito simbólico para Alexandre. “A aprovação no CNJ mostra para as pessoas que elas têm que refletir. Isso força a pensar: existe um Judiciário dizendo que pessoas do mesmo sexo podem se casar”. Afirma, ainda, que não há criação de privilégios já que não se tira o direito de outra pessoa, apenas garante-se a igualdade para quem sempre usufruiu dela.


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Edição: Bruna Silveira, Gerliane Mendes e Tamires Duarte Arte: Tácito Chimato

Ser visceral...concreto...intr Thamira bastos Lídia Ferreira

Lídia Ferreira

Bruna Silveira e Tamires Duarte Chegaram a mim em 1696. Aos poucos foi crescendo o interesse em me conhecer. Meu ouro e minhas pedras preciosas falaram alto. Em 23 de abril de 1745, após me chamarem de Arraial e Vila Real do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, passei a ser conhecida como Mariana, a cidade. Primeira menina a nascer nas Minas Gerais, menina plebeia. Passei por várias transformações ao longo do tempo. Minha voz foi ampliada, meu trabalho diversificado. Fui ficando importante. Me fiz ser impor-

Retorno ao meu passado, tudo que fui Tamires Duarte Chegaram vários tipos de gente. Mas os séculos XVIII e XIX foram épocas difíceis para ser mulher. Não me foi garantido qualquer reconhecimento social. Fui excluída de funções políticas, de administrações eclesiásticas e coloniais. Desclassificada socialmente. Nada disso impediu que eu crescesse. Eu fui a mulher negra que chegou aqui como escrava. E as poucas mulheres brancas que vieram tentar evitar os casamentos entre negras e brancos. Com isso fui criando mestiçagem. Em uma sociedade paternalista e misógina, me constituí de forma diferente. Para mim, o casamento tornou-se união consensual. Por um tempo, o cotidiano venceu a Instituição. Mas não o preconceito pelo feminino. Encontrava-me em extrema pobreza. Para pagar os altos impostos que me eram cobrados em 1735, meu corpo se tornou pro-

priedade dos tributos reais. Chamam-me de “Pisca”, a prostituta, anteriormente Bernarda ou “Inácia, a enforcada” que promoveu a prostituição da filha. Independente do nome foi assim que escapei de confiscos e prisões. Eu, forra. Eu, escrava. Eu, solteira e com filhos. Complementei a renda de minha família ou a minha própria. Meu corpo, objeto. Minha educação, saber ler e escrever as letras que os homens rabiscavam, não era considerada necessária. Mesmo assim, fiz uso da justiça. “Porque ainda que mulher e parda é de inteira verdade e consciência, temente a Deus (...)”, afirmei, eu, Josefa Maria Soares, quando entrei na Justiça, em 1776, contra Francisco da Costa. Fui Clara Maria Teixeira, branca e viúva, que fui ao Juízo e cobrei uma dívida que José Ferreira de Souza tinha com meu marido. Venci. Dona de minha própria venda. Comerciante ambu-

lante, dessas que andavam com tabuleiros pela cidade ou em minas de exploração, para vender alimentos e algumas bebidas. Tecelã, costureira, fiandeira – o setor têxtil me trazia a comida diária, foi um de meus principais ramos nos oitocentistas. Até mesmo agricultura. Não me esquecendo dos trabalhos domésticos: cozinheira, lavadeira, criada. Cresci. Tornei-me chefe dos domicílios seja pela morte ou emigração de meus maridos e companheiros. A casa ficou sob meus cuidados. Em 1819, mais de 170 domicílios eram comandados pelas mulheres. Eu, Ana da Costa Muniz, solteira, fui dona de meu próprio casebre murado de pedra. Fui a rica e solteira Iria Pereira de Jesus, parda e forra. Tinha uma casa na Rua Direita, escravos e trajes caros. De desclassifica a abastada. Os tempos foram muitos, passaram por mim. Eu que fui metamorfose. Eu que fui Mulher.

tante. Sou agora senhora de idade respeitável. Completei 317 aniversários. Carrego Minas inteira de histórias em mim. Sinto cada vaidade, suor e passo delas. Elas, parte de mim. Eu, o caminho delas: de origem, presente e próximo. Sou clássica, religiosa, e respeito meu legado. Mas também sei ser rebelde, sagaz, e às vezes impulsiva. É que sou múltipla. Multicultural, multipensante. Essa é a minha história como cidade. É a minha história como MULHER.

Eu, elas e a história do nosso presente Bruna Silveira Como pedaço, cada uma me faz inteira, me faz cidade. Sou Fabiana Aparecida Pascoal, taxista, faxineira, dona de casa e mãe. Após uma noite inteira trabalhando no táxi, acordo cedo para que minhas filhas não percam o colégio. Tive uma infância pesada, daquelas com direito a madrasta da Branca de Neve. Não acredito em sonho, tudo o que quero eu batalho pra ter. Sou divorciada, matriarca e independente. Minhas filhas, meu bem maior, é pelo sorriso delas que eu luto. Sou a Samanta, sou a Sabrina, filhas dessa guerreira. Sou as freiras do Colégio Providência, base da primeira escola feminina do estado. Viemos pra cá em 1849, e lutamos até hoje pela educação. Sou Aída Anacleto, exvereadora, me orgulho de ter persistido como a única mulher na Câmara por quatro anos. Sempre lutei pelo direito feminista. Sou do Século XXI, e sei que

posso chegar até o XXVII. Sou a avó Maria do Carmo Mol Santos, tenho 77 anos e criei 13 crianças. Tudo o que sou devo à minha mãe, a enérgica dona Ana Efigênia Ferreira Mol. Sempre repito aos meus filhos: “Me deixem trabalhar!”. Sou a neta, Fiama Vitória de Souza Assis, criada pela minha dedicada avó, com rigidez inabitual para os tempos de hoje, mas completamente entendível, se olharmos o tradicionalismo marianense, ilustrado pelos ladrilhos históricos da rua Direita onde moro. Tenho os olhos serenos, que brilham admiração quando mirados à minha avó. Sou as organistas da Igreja da Sé, Elisa Freixo e Josinéia Godinho. Esculpimos a música erudita aos que por cá caminham. Sou Lucilene Maia Silveira, dona de uma loja de material de construção no Catete. Administro a Casa Brumaia com meu marido há mais de 20 anos.

Já ouvi palavras desconfortáveis por trabalhar nesse ramo comercial. Acredito na sutileza feminina, por isso na minha loja há apenas mulheres como atendentes. Sou Érica, Rejane, Marcela, Paloma, Janaína e Kassiele. Sou Valéria, pedreira. Mesmo sendo muito solicitada na cidade é para os homens a maioria das vagas destinadas à minha profissão no Sistema Nacional de Emprego (Sine). Estranho, porque segundo o artigo V da 373-A da Consolidação das Leis Trabalhistas, não se pode ter qualquer referência à idade, gênero, etnia ou situação familiar nas vagas de emprego. Sou dona Hebe Rôla, poetisa, ensaísta, folclorista, professora. Sou uma personalidade das letras daqui. Sou igreja, museu, teatro, música, trabalho. Sou mãe, sou filha, adulta, menina, mulher. Sou a arte e a voz. Meu nome é Maria. Mas pode me chamar de Ana.


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Edição: Bruna Silveira, Gerliane Mendes e Tamires Duarte Arte: Tácito Chimato

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rísceco...orgânico...MULHER Thamira bastos

Lídia Ferreira Lídia Ferreira

Rumo ao final feliz: a luta contra a violência doméstica Gerliani Mendes Ser mulher ou homem não é natural. É um monte de regras de comportamentos socialmente construídos e hierarquizados em prejuízo da mulher. LAMPIÃO olhou para a cidade sob a perspectiva que dizem ser emotiva, pouco racional e frágil demais: a feminina. Se você tem um casamento de amor e respeito, nunca precisou buscar ajuda do poder público. Nunca sentiu medo de quem ama e diz te amar também, nem teve receio pela sua vida de suas crianças. Ana Castro, 42 anos, cabeleireira, mãe de dois filhos viveu isso. Quem olha seu semblante vistoso não imagina 20 anos de casamento violento, impedida de ser profissional, estudante, amiga, mulher, companheira. Ela lembra da Lei Maria da Penha, na sua mão, pela primeira vez na Delegacia Civil de Mariana. “Tudo que estava escrito lá, tudo, eu tinha passado!”. Daí seguiu à risca: leva adiante o Boletim de Ocorrência (BO), recebe medida protetiva, se esconde um pouco, “até a poeira baixar”, conta com amigas, vizinhos, polícia. Hoje Ana vive: trabalha, cursa Admi-

nistração, namora, vai às manifestações pelos direitos das mulheres e paga o aluguel em dia. Quem diria? Metade da vida achando que não podia, quando descobre que é mil vezes mais fácil do que viver sob violência. O ex-marido ainda está impune, porém, ela está liberta, descobrindo do que é capaz. “Mulher não tem que andar atrás do homem, o certo é lado a lado!”, ensina . Este é apenas um exemplo em Mariana. A demanda encaminhada pelo Ministério Público e atendida pelo Centro de Referência de Assistência Social (Creas) é predominantemente de violência doméstica contra mulheres. O atendimento psicossocial se ocupa da garantia de direitos das usuárias podendo auxiliá-las, se necessário, com o benefício do aluguel social. Porém, a medida não é suficiente para garantir a proteção da mulher, já que não é imediata. Os abrigos sigilosos não existem. A assistente social do Creas, Júlia Ferrari, 28, aponta outras carências do município: “A qualificação da polícia seria importante para acolher as mulheres que denunciam a agressão. Ainda há um viés mora-

lista, pouca informação sobre a violência doméstica e, por isso, uma desvalorização destes casos”. O delegado da Polícia Civil que atende casos de violência contra a mulher encaminhados pela Polícia Militar, Fábio Luiz, 36, entende a situação difícil ao falar do assunto. “Nosso serviço é para quando o crime já ocorreu, por isso temos que investir em campanhas para a população. A cultura conservadora da cidade ainda entende a mulher como objeto do homem e é isso que precisa ser mudado.”, afirma. Longe de ser um problema pessoal e vergonhoso, a violência doméstica está atrelada a uma realidade social mais ampla, como explica o psicólogo do Creas, Diego Carrara, 26. “As violências são multiprocessadas, envolvendo questões de vulnerabilidade social ou uso de álcool e outras drogas. Por isso são necessárias intervenções para toda a comunidade”, diz. São estes fatores que explicam porquê a mulher não é responsável sozinha por sua segurança, sendo necessária a participação social e a atenção das políticas públicas.

A segurança pública na proteção às mulheres Gerliani Mendes A última reunião trimestral da Área Integrada de Segurança Pública (AISP) de Mariana, Ouro Preto e Itabirito percebeu uma queda de 40% nas ocorrências violentas. Especificamente as denúncias de violência doméstica diminuíram de 20% a 30%, após o assassinato de Solange Anunciação, no Bairro Cabanas, no último dia 2 de maio. O acusado foi preso no Rio de Janeiro na mesma

noite e aguarda julgamento. O delegado Paulo Felipe Gonzalez Saback, 28, explica que a nova política de segurança pública descentraliza as avaliações das ocorrências, o que possibilita monitorar o quadro de violência. “Ela, a Lei Maria da Penha, autoriza que o juiz criminal aplique medidas que antes eram só do juiz cível, o que aumenta a agilidade no atendimento (das mulheres). A lei também elabora a política criminal, resultando em cam-

panhas de conscientização para toda a sociedade, não se valendo apenas de política repressiva”. A população pode esperar, para o próximo ano, uma Delegacia Modelo de Atendimento - que faz atendimentos especializados por públicos. “Estamos trazendo uma delegada para atender casos de gênero e pretendemos dobrar o número de servidores para a melhoria da segurança pública na cidade”, conclui o delegado Saback.

Além da violência física: dores invisíveis

Gerliani Mendes Quem diz “o que os olhos não veem o coração não sente”, não sabe o que é violência psicológica. Muitos dos atos violentos previstos na Lei Maria da Penha ainda não são assimilados pela sociedade. Além da violência física, o Ligue 180 recebe denúncias de violência moral, psicológica, sexual e patrimonial. Calúnias, insultos, difamações, controle do ir e vir, das decisões e crenças, ameaça, manipulação,

isolamento, relação sexual não consentida: tudo isto é forma de violentar os direitos humanos das mulheres e são denunciáveis. A Legislação brasileira é pioneira nos direitos das mulheres ao acrescenta também a violência patrimonial como modalidade de violência doméstica. Ela ocorre quando a mulher tem seus bens retidos ou destruídos: instrumentos de trabalho, documentos, objetos, dinheiro etc. A aplicação da lei ainda re-

cebe ajustes de acordo com as necessidades, por exemplo, a proibição da retirada da queixa pela mulher, que visa o benefício das crianças nos lares violentos. Conhecer os direitos das mulheres no papel e ver as violências no cotidiano nos faz perceber que ainda há muito para se trabalhar. Enquanto você leu este texto, 12 mulheres sofreram agressão. Quando a história, escrita por nós, vai parar de violentar o feminino?


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Julho de 2013

Edição: Marcelo Nahime Jr e Kíria Ribeiro Arte: Thainá Cunha

esporte

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ADRIEL CAMPOS

Equilíbrio corpo e mente

FOTÓGRAFO

Originado nos EUA, slackline ganha praticantes na Região dos Inconfidentes Kíria Ribeiro Nos circos sempre existem os grandes equilibristas que, com uma corda esticada, caminham sobre ela, no intuito de tentar transpassá-la sem cair, em uma altura que gera medo na maioria das pessoas. Essa habilidade e magia do circo também são necessárias para a realização de um esporte radical que tem ganhado as ruas das cidades de Mariana e Ouro Preto, o slack line, que numa tradução literal do inglês significa “linha de folga”. De origem norte-americana, o esporte está em alta entre os jovens. O slackline é praticado sobre uma fita esticada na base de árvores fortes ou pedras, de forma que o praticante ande sobre ela com extremo equilíbrio, fazendo com que o corpo se movimente como um todo, reajustando os músculos. Em Ouro Preto e Mariana, o esporte tem se destacado e já conta com grupos de cinco pessoas que estão tentando fazer a popularização do slack line nas duas cidades históricas. Para um dos organizadores da equipe formada há seis meses na região de Mariana e Ouro Preto, Luiz Fernando de Oliveira, 29 anos, o slack line é muito novo no Brasil, e vem sendo praticado em algumas cidades litorâneas, principalmente. “É bem recente. Estamos

fazendo um trabalho de popularização do esporte, com apresentações pelas cidades e explicando o que é e quais os benefícios o esporte traz”, diz Luiz. Ainda de acordo com ele, começarão em breve competições de slack line na região. Como é uma atividade que requer muita habilidade dos praticantes, não é recomendado ser realizado em qualquer lugar. Segundo o professor de Educação Física da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Kelerson Pinto, o esporte é considerado radical porque são realizadas manobras de alto risco, exigindo do atleta um bom condicionamento físico. Conforme ele, o slackline contém três modalidades, que podem proporcionar benefícios terapêuticos. “Existem três linhas que são: o trickline, que requer manobras de alto grau de dificuldade; o high line, considerado um dos mais difíceis e almejados pelos praticantes, pois o perigo e a adrenalina estão sempre juntos; e o waterline, que é quando o praticante fica ancorado sobre um rio ou piscina. Portanto, o slack line é um esporte que traduz a sintonia entre a mente, o corpo e o equilíbrio”, afirma Kelerson. Saiba mais sobre o esporte e sobre o grupo formado na região, pelo telefone (31) 8852 2752.

Luiz Fernando é o organizador dos treinamentos realizados no Campus da Ufop, em Ouro Preto

lazer

Outro olhar em Ouro Preto flávia silva

Do mirante do Morro São Sebastião, a paisagem forma um cartão-postal da cidade

O Jardim Zen do Templo Pico de Raios é um espaço de meditação para o budismo

Carol Teixeira e Ana Clara Castro O Morro São Sebastião é um bairro pouco frequentado pela população ouro-pretana, mas que oferece atividades culturais como o Parque Municipal das Andorinhas, Templo Zen Pico de Raios e o bar da Nida. Para chegar lá é preciso subir a Ladeira João de Paiva, que fica a 650 metros da Praça Tiradentes. O início do

ra das Andorinhas. Seu nome surgiu devido à formação rochosa que abriga a cachoeira e a quantidade de Andorinhas de Coleira, espécie comum no Brasil. Templo Zen Pico de Raios é pouco conhecido. O local, que hoje é responsabilidade dos monges Anibal Jipo e Elcio Shoun, realiza mensalmente retiros espirituais e meditações. No jardim encontram-se diversos obje-

morro é marcado por uma placa e um mirante. Ali há uma das vistas mais bonitas da cidade. Igreja São Francisco, Matriz Nossa Senhora da Conceição e toda a Praça Tiradentes podem ser admiradas daquele ponto. Ao longo do caminho a paisagem se transforma. As casas perdem o peso da arquitetura colonial, as ruas retratam o sossego, o peso histórico e a correria do centro

parecem não fazer parte dali. As pessoas se harmonizam em suas pluralidades: jovem, idoso, católico, budista, com tatuagem, alargador, de uniforme, todos convivem bem naquele local. Lá, o Parque Natural Municipal das Andorinhas é o local mais procurado pela população no verão, que sempre busca a cachoeira Véu da Noiva, a vista da Pedra do Jacaré e a cachoei-

tos que compõem a cultura budista como estátuas, candeeiros, frases entalhadas em placas de madeira e flores. Por fim, o Bar da Nida, famoso pelos pastéis. O ambiente, decorado com artesanato, oferece rodas de samba e alegria àqueles que frequentam o local. Uma representação de tudo o que o Morro São Sebastião é: um lugar de simplicidade e beleza mais valiosas que o ouro.

flávia silva

Saiba mais: Parque Municipal das Andorinhas: Tel.: (31) 9409-1600. Bar da Nida: Rua Rio Grande, frente à Capela do São Sebastião. Templo Pico de Raios: www.templopicoderaios.blogspot.com.br


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Edição: Ana Clara Castro e Kíria Ribeiro Arte: Thiago Novais

Mariana 317 anos

Confissões de água corrente Thamira Bastos

Ana Clara Castro. Recuso apresentações, mas nesse caso parece-me extremamente necessário. Possuo riquezas, diversos admiradores e alguns confidentes que me auxiliam até os dias de hoje. Chamo-me Ribeirão do Carmo, de sobrenome Rio Doce. Encantado em conhecê-los. Minhas águas nunca são as mesmas, mas minha essência é dura como a pedra que sai de mim e preenche as ruas. Continuo imóvel junto daquela que me escolheu para chamá-la de mulher, minha saudosa Mariana vive em mim. Nada me para, só a imponência das máquinas que irrompem meu caminho. Tive parte da minha magnitude garimpada. O ouro que escorria das montanhas, reluzia em minhas águas. No dia de Nossa Senhora do Carmo, fui encontrado. Miguel Garcia e Salvador Furtado notaram minha importância; pelas minhas jóias permaneceram. Assim, minha bemamada Mariana tomou forma, se deu em cor e graça toda a sua majestade. Ainda no Século XVIII, por conta das barragens construídas ao meu redor, houve uma enchente. Mariana foi crescer longe de mim, buscou abrigo em sua parte mais alta. Ah! As ironias do tempo. Neste mesmo século criaram uma lei, que proibia a construção de casas nas minhas margens para que não me roubassem a formosura. Vez ou outra ouvia alguém dizer que o ouro não valeria de nada, se não tivessem água para beber. Água sempre foi representação de riqueza e os chafarizes - abastecidos por mim - tinham ligação direta para a residência daqueles que eram mais afortunados. Alguns devem me conhecer pelo nome de Rio Vermelho, apelido de meus tempos de boêmia, alento dos jovens cansados do marasmo que o cotidiano exerce. Na euforia dos anos 70, já no Século XX, fiquei vermelho por causa do minério ex-

plorado que lavavam em minhas margens. Vejo gente passando por todos os lados. Uns reclamam da hora; uns pensam no almoço; outros, no regresso. Alguns até andam dormindo. O ser humano, que em mim reflete, parece condicionado. Fico observando quantos seguem sem vida, falta-lhes o ritmo, estão exaustos da inércia que faz com que cada dia pareça igual. O que me enternece são as crianças que me sopram desejos, me enchem de ternura. São livres, e correm comigo. Hoje em dia eu ouço falar de mal do século, preço da gasolina, aumento no imposto, roubo, sonegação. Falam de gente que mata gente, que clona cartão. Sentem dor. Fome. Choram de amor. Sangram em coro, mas depois consolam-se uns com os outros no Carnaval. A última vez que senti amor foi quando me deram um abraço. Dezenas de alunos organizados pela professora Hebe Rôla reuniram-se a minha volta. Pediam minha salvação, cuidado e atenção a poluição de minhas águas. Instalaram uma rede aérea na ponte que me atravessa. Consciência dos anos 2000, para coletar o lixo que os passantes jogavam, salvaram-me de uma quantidade extraordinária de malefícios. Outra rede que me orgulha muito é a rede social que tem meu nome e o intuito de me proteger. Vivo do amor inspirado pela mulher amada, do gosto de sua história, de sua força. Vivo de Mariana, diante dela sinto que posso voar pelos ares e desaguar no mar. Sou malandro velho, e mesmo com o dente cariado, sou Rio. Sonho em exterminar esse cangaço que até hoje chora, impregnado de sentimentos capitais e grita pela salvação velada de todos aqueles que silenciam soluços de desespero. Rio debochado, pé-de-moleque vivido. Procuro em mim o grito, pois sou filho do céu e Senhor do Tempo.

Música de gerações

Kíria Ribeiro Mariana carrega história e um conjunto arquitetônico reconhecido em todo país. O patrimônio cultural da região é reforçado pelas sociedades musicais, que trazem consigo a tradição cultural da cidade. Quem ouve as bandas tocarem, às vezes, não imagina o trajeto histórico construído pelas corporações civis, que conseguiram alegrar o cotidiano de várias gerações. Fazendo parte da vida dos marianenses, as sociedades civis estão presentes nas festas marcadas na memória de diversos moradores da cidade e nos principais eventos políticos e comemorações religiosas.

A Sociedade Musical São Caetano, de Monsenhor Horta, distrito de Mariana, é a quarta banda mais antiga do Brasil e a terceira mais antiga de Minas Gerais. Fundada em 1836, possui 38 componentes, que durante os ensaios dedicam-se ao exercício da prática musical. Pela corporação passaram gerações de músicos e compositores que deixaram seu talento registrado nas partituras que compõem o acervo. “Nós todos aqui da banda São Caetano prezamos por essa integração com os marianenses. Em qualquer lugar que a banda apresenta o público recepciona de maneira espetacular”, afirma o presidente da São Caetano Djalma Pinheiro. Já a Sociedade Musical União XV de Novembro foi fundada em 1901 pelo médico e professor Gomes Freire de Andrade. No início, a banda dedicava-se a festas e ofícios estritamente religiosos, mas, aos poucos, os músicos aumentaram a frequência de suas apresentações em locais pú-

blicos. Atualmente, a banda conta com 36 músicos efetivos e mais de 50 que colaboram voluntariamente com o projeto. Segundo o presidente da União XV de Novembro, Amadeu da Silva, as bandas civis prezam pela integração no cotidiano dos marianenses. “Desde quando eu tocava, as corporações já estavam integradas com a população. Hoje em dia, a interação é ainda mais forte, e isso nos deixa muito felizes. Os marianenes sempre nos recebem bem em todo lugar que apresentamos”, explica. Os músicos que integram essas corporações afirmam que elas desempenham uma função muito importante na região. Para a instrumentista da União XV de Novembro Daniele Freitas, que toca flauta na banda há quase sete anos, a música é motivo de orgulho para os marianenses. “Descobri que as bandas fazem parte mesmo da cidade e que as pessoas nos acolhem muito bem, em qualquer lugar. Somos sempre muito bem recebi-

dos. A cidade de Mariana respira música”, afirma a musicista Daniele. As bandas exibem cultura e tradição, e conseguem dialogar com os moradores da cidade. As Sociedades Musicais União XV de Novembro e São Caetano, por exemplo, prezam por essa interação e fazem questão de carregar o nome do município por onde se

apresentam. A professora emérita Hebe Rôla diz que desde pequena acompanha apresentações das bandas civis de Mariana. “Gosto muito. Fui criada com a tradição das corporações. O trabalho dessas sociedades é muito bonito. É gratificante escutar uma banda tocando em desfiles e procissões. Já faz parte da cultura marianense”, conta.

Já o estudante do Colégio Adjetivo, Ricardo Alves, morador do Bairro Colina, afirma que as sociedades musicais representam a arte e a superstição da cidade. “Nós, da cidade de Mariana, adoramos as corporações. Elas contribuem para a memória daqui. Vejo gerações passarem pelas sociedades civis”, explica ele. Bruna sudário

A praça Gomes Freire (Jardim) é um dos palcos da União XV de Novembro


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Edição: Mariana Borba e Tamires Duarte Arte: Davi Machado

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OLHARES

Quem muda o olhar abre janelas Apareceu na construção dos casarões dos senhores, endireitada pelas mãos de escravos que entoavam à pedra de ‘cantaria’. Moldada, encaixe perfeito. É aristocrata, é das senhoras humildes de poucos bens. Viu de longe as mudanças que atravessaram a cidade. Tentou ser parte do todo. Olha, por vezes torta, perdida, para o outro lado da rua. A janela, que por tantas vezes foi re-

flexo e só, agora tem dois lados. Na verdade, sempre teve. Assim como histórias de vida. Do lado de dentro, uma sala. Reza boa, pra curar. Do lado de fora, um homem deitado, não há cobertura. Solidão. Abre-se! Escancara a estrutura para revelar. Entra vento, sai poeira pela janela. Vendaval. Cada um escolhe o lado do vidro que lhe convém. Lídia Ferreira

Anderson Lucas, o Gordo, carrega no olhar a insensibilidade do mundo

Uma bomba, tantas revistas e quase nenhuma fotografia Mariana Borba “Era uma casa muito engraçada”. Teto tem, não é dele. O nada, lugar de abrigo, é apenas suficiente. A abertura das paredes é ampla demais para evitar que o vento sopre do rio. Passarinhos invadem o chão de terra batida, brincam com migalhas misturadas às guimbas de cigarro. Tudo ali é pardo, quase nenhuma cor. Anderson, ou Gordo, como o chamam, atira tocos de final de fumaça no chão. Poeira fina sobe, chega ao pé e à perna machucada, como o resto do corpo, mesmo que não seja aparente. Instalou-se na Barra, em Ouro Preto, não sabe se cinco anos ou mais. Perdeu as contas junto aos documentos. Perdeu, não. Tacaram fogo. Já fizeram mal para ele, por ser da rua. Perto do semáforo foi xingado, nem uma, nem duas. Não entendem que ter ou não ‘lugar’ não é opção, escolha, mesmo que pareça. Mantém olhos endurecidos encarando meu rosto. Pede para que eu ajude a tirá-lo dali. Como levá-lo? Para onde iria com um homem de quase 1,80m? Diz ter nascido em Belo Horizonte, encontrou pontos distintos pelo Brasil. Fala do país como quem atravessou divisa, imerso em outra realidade que não essa. Hoje, porém, expõe mais o desdém de quem não faz questão de tirá-lo dali. O pai lapidava. A mãe trabalhava em casa de família. Alguém roubou o que era de pertence, isso fez o rapaz prostrado à minha frente áspero. Não comigo, nem com dona Maria, que lhe dá comida sempre que pode. “Ela já me tirou a fome muitas vezes.” Agradecido, verdadeiramente. Faz feira aos domingos para a senhora de 84 anos incompletos. Trocam alimentos como ami-

Com sua licença, a benção! Tamires Duarte Era fim de tarde. Encontrei-me no caminho errado. No meio da rua, resolvi perguntar aonde deveria ter virado. A simpática moça me acompanhou. É logo ali onde aquele senhor está, ela me disse. O portãozinho de ferro estava fechado. Mesmo assim resolvi esperar, afinal, a caminhada foi longa. Depois de tantos minutos, uma pequena fila já havia se formado... Uma ferradura na porta me chama a atenção, mas minha vez chega. As mãos enrugadas pelo tempo. A sabedoria que as rezas trouxeram. Ela pediu que eu levantasse e lhe desse as mãos. Perguntou logo o que me preocupava: trabalho, escola, o coração. Todos, pensei. A escola, disse, em voz baixa. Acho que essa tal preocupação chegou ao quarto que acalma os espíritos inquietos antes de mim. Uma ou duas perguntas a mais, não me recordo. (o tremor percorre todo o corpo, causa arrepios) Credo. Creio em Deus Pai. É mal olhado, que vem do lugar de estudo e do trabalho, me disse enquanto soltava minhas mãos, agora levemente trêmulas. Silêncio. Alguns tantos dias se passaram. Voltei à casa verde, agora conhecia o trajeto bem. Duas, três, quatro batidas na porta. Ela aparece. Pergunto se recorda de meu

rosto. A cabeça acena afirmando. Mesmo chegando na hora do preparo do almoço, ela aceita conversar comigo. Dois minutinhos, coisa rápida né?, ela pergunta; eu espero que não seja apenas isso. Sento no sofá preto da sala e escuto... ...fui criada pelo mundo; não tive pai nem mãe. Tio Zezé que me ensinou a benzer, mas é um dom que a gente mesmo aprende, pra ajudar as pessoas. O médico não cura tudo; aquilo que ele não consegue atingir, o espírito, eu benzo. Já andei muito pelo mundo, fui em igreja católica, evangélica, centro espírita. Cada um tem sua devoção. Eu benzo em nome de Deus, sou devota. Tenho fé. A gente tem que fazer e querer o bem de todos. E é muita gente que me procura. Pra cada problema, uma benza diferente, um santo guia diferente. Firmo a cabeça, seguro as mãos, e rezo... Agradeço os muito mais que dois minutos gastos comigo e me despeço de Dona Efigênia, benzedeira. A noite cai. Meu relógio marca 19h15, e eu decido subir a ladeira. Outra visita, outro local, outros rostos. Faço o trajeto pela terceira vez naquela semana, na esperança de ter uma nova experiência. Na sala de espera improvisada dentro da casinha, os bancos estavam todos ocupados. Do lado de fora já havia seis pes-

soas. Uma delas também estava ali pela primeira vez, alguém diz. Sento na escada. Quem é o último?, perguntam pelo menos cinco vezes até 20h. Um silêncio respeitoso, apenas o barulho do vento. Meus pés ficam inquietos, as mãos procuram alguma ocupação. Vozes, que vem de um quarto que eu ainda não conhecia, entoam uma canção-reza. A espera não parece mais tão longa. Vou para a parte de dentro da casa. Uma ferradura na porta, algumas pinturas. Você é a próxima? Aceno que sim e entro. O quarto escuro é iluminado apenas por velas. Nas paredes, fotos, pinturas, símbolos desconhecidos, e outros tantos objetos. A senhora de roupas brancas e olhos fechados (sempre fechados) me faz algumas perguntas. Respondo as que consigo entender. A mulher ao lado pergunta se é minha primeira vez lá. É tão perceptível assim?, queria ter dito. Ela então me diz o que eu tenho que fazer, as horas em que tenho que bater os pés, pular e me concentrar no que eu fui procurar naquela sala. A senhora de olhos fechados me fala as últimas palavras, uma premonição talvez. Sorrio e guardo-as comigo. Olho pra trás, agradeço a ninguém em particular e saio. Já era tarde, hora de lua no céu. Fecho os olhos, faço meu último pedido.

gos, trocam angústias. Por falar nela, na palavra da depressão disfarçada, escondida entre as poucas roupas de Gordo, é uma das características que diz quando pensa na rua. “Sofrimento, angústia e insegurança”. Complemento não há quando pode sentir na pele seca todos os males da exposição nas calçadas. “Isso faz uma bomba psicológica na cabeça”. Admite que muitos o ajudam, não podem fazer mais. Entristece novamente. Frutas suspensas na caixa de madeira. Ao lado, o fogão improvisado guarda panelas pequenas, para uma, duas pessoas, no máximo. Colchões espalhados anunciam que alguém precisa de pouso para a noite. O outro homem é como ele, “só que ele roda trecho, é do mundo”. Companhia de amigo, de ser humano na mesma condição embrutecida. Anderson surpreende com o número de jornais e revistas que lê. Quer o livro sobre a Medusa, “a mulher com as cobras na cabeça, conhece?” Pede uns de jornalismo, prometi que levo. Era fotógrafo em tempos que não sabe datar. Quer uma câmera para ter ofício, vender foto para turista, sabe como é... Não, não sei. Mas aprendo que dividir o que não se tem é sempre mais difícil. Como cigarros contados, isqueiro dentro do bolso metido na blusa de frio. Esfrega os olhos como se a dor fosse mais forte do que o cansaço. Não há porque medir, as duas enraízam. A dor diária, a fadiga pendente. Anderson não gosta de esperar o tempo, quer compromissos firmados, cobra quando não os cumprem. Despeço-me do moço envelhecido e grisalho que olha para mim e diz: “Se tiver uma Mundo Estanho, Superinteressante, pode trazer. Eu adoro ler”.

Lídia Ferreira

Dona Efigênia, simplório e profundo olhar


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Julho de 2013

Edição: Íris Zanetti e Gerliani Mendes Arte: Neto Medeiros

ensaio

Não abandonar a si próprio: nossa condição...

Fotos: Íris Zanetti Texto: Gerliani Mendes Envelhecer é o destino, o futuro que camuflamos. Será trágico? Depende de como vemos os idosos e idosas. Como questão social, vemos pessoas que já trabalharam sua cota e agora precisam de cuidados. O cuidado é um direito que nos cabe, nos resolve e nos mantém humanos uns com os outros. Um direito humano e ao mesmo tempo, divino. Como questão pessoal, vemos nos idosos algo que nos espera no futuro, a terra prometida que colecionará histórias e desejará contá-las aos mais jovens, para revivê-las. Ouvi a Dona Maria, o Seu Serafin, a Dona Isabel porque gosto de saber que um dia vou ser ouvida. Duas gerações nos separam. Augusta fala de sua lua-demel, e eu, por certo, contarei casos pouco mais libertários para meus netos. Escutar as suas experiências é a oportunidade de conhecer a minha geração, por comparação, por diagnóstico, por cuidado... Eles gostam de viver no asilo? Alguns pensam que não é a melhor fase da vida, outros felicitam a aura de família que os cerca. Uma, em especial, vive esses dois lados, intercalando humores, desafetos e sorrisos. Nela cabem todos que vivem ali: o gostar e o desgostar.


Jornal Lampião - edição 10