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LAMPIÃO

edição: eduardo guimarães e lincon zarbietti | ilustração: camaleão caricaturas

Jornal Laboratório | Comunicação Social - Jornalismo | UFOP | Ano 1 - Edição Nº 3 - Outubro de 2011


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Lucas Borges e Rayanne Resende

Editorial

Charge

Lampião também ilumina Ouro Preto M ariana, Ouro Preto. Cidades próximas pela geografia, pela história e por sua gente. O vaivém entre as duas é mais que comum. Há pessoas que trabalham, estudam em uma e residem em outra. Até se cria a confusão sobre onde exatamente termina uma e começa a outra. Por isso, a partir dessa edição, o Lampião passa a abordar assuntos de interesse das duas cidades por reconhecer que elas possuem as mesmas problemáticas. Um exemplo que atravessa os municípios é o trecho da BR-356, considerada uma das rodovias mais perigosas de Minas Gerais, que durante o primeiro semestre deste ano, com o desvio do tráfego da BR-381, sofreu um aumento na circulação de veículos pesados. Isso, somado aos graves problemas de infraestrutura da via, comprometeu ainda mais a segurança

de motoristas e pedestres. Outra questão em comum é a insuficiência de bombeiros na Região dos Inconfidentes. O quartel localizado em Ouro Preto atende Mariana, Itabirito e outros 25 municípios nos arredores. Prefeito que entra, prefeito que sai; em três anos, quatro políticos já ocuparam a chefia do Executivo marianense. O Lampião se debruçou sobre as consequências dessa confusão, afinal, mudar o prefeito significa mudar toda uma estrutura política que o envolve. Tanta transformação em tão pouco tempo não pode fazer bem à cidade. Por falar em mudanças, o trânsito na região central de Mariana foi alterado por causa das obras de transposição do Córrego do Catete, que já completam cinco meses e estão longe de terminar. Comerciantes no prejuízo e caos no trânsito de toda a cidade.

Em Ouro Preto, as obras de ampliação do passeio, na Rua São José, no Centro da cidade, também geraram transtornos e estão em andamento. Água que bebemos...Afinal, qual a qualidade da água que recebemos em nossas torneiras? Explicamos a relação entre a cobrança da água e a melhoria nos sistemas de abastecimento e tratamento em Mariana e Ouro Preto. A memória ganha destaque, com reportagens sobre a importância dos arquivos existentes em Mariana e um certo porão que abrigou intensa vida cultural na cidade. E, para encerrar esta edição, nosso olhar se volta para as poucas árvores que nos cercam, propondo aos leitores uma pausa no cotidiano cada vez mais tumultuado de uma cidade que cresce sem perder ares do interior. Aproveitem!

Entre olhares

Lenços de partida Maria Aparecida Pinto

Passados alguns minutos do horário habitual humano de circular pelo Centro da cidade, os casarões e a Sé entram em diálogo sobre assuntos corriqueiros e colônias. São frases soltas e leves daqui, sorrisos e afagos das ruas adjacentes à Direita de lá e assim seguem-se as madrugadas seresteiras.

Nesta, não foi diferente. Os casarões empolgados falavam das coleções de primavera dos tempos de outrora, os comparando com os dos tempos modernos. A própria Rua Direita lembravase, com vagar, das vestimentas diversas como a desfilar em uma linha do tempo. Todos estavam alegres e falavam sem pudor. Surge, então, um barulho inusitado: um espirro: ATCHIN. E o centro responde: – Amém. A partir deste momento, o fio da conversa é outro. – O que aconteceu com você, meu amigo? – São estes “ratos com asas”. Você se lembra deles, Sé? – Mas, é evidente. Contam que seus ancestrais chegaram ao país por volta do século XVI com a ajuda dos europeus. – Não diga! – Escutava muitos arrulhos quando se instalavam nas minhas torres e

brincavam no centro da praça, não é Cláudio? – É verdade. Columbas livias europeias, africanas e asiáticas. Era uma febre: a meninada correndo atrás e fazendo as criaturinhas levantarem voo. Contra a luz, uma imagem belíssima. E agora, há certo vazio. – Não é o que dizem os proprietários dos carros, retruca um casario próximo.

Outro com­­pleta:

– Deslocaram as minhas telhas, cobriram de excrementos o meu forro... Você também sofreu,

Sé, admita. – Não posso negar a realidade dos fatos. Os animaizinhos simpáticos se concentravam aqui, nas redonde­zas, em busca de milho. – Simpáticos? – ATCHIN... – Mas eles já se debandaram... – ATCHIN... – Estão, pois, a perturbar a ordem em outras vi­zinhanças. Outras freguesias... – ATCHIN... – Aqueles pezi­nhos de pombo que circulam pela Direita, que en-

tram nas frestas, que deixam vestígios em tudo. – Agora temos as maritacas, nossas amigas alegres e folgazãs, logo ali no Gomes. – ATCHIN... – Como espirra este sujeito! Amanhece e como os marianenses voltam a circular, todos viram cenário. – Olhe, mãe, duas caixinhas de lenço, no centro da Praça da Sé. E não é que as duas caixinhas de lenço levantam voo ao som do sino das seis horas? É, Sé... É, Manuel.

Lampejos desta edição “Só colocar avisos não vai

“Pior do que devolver recurso devido a uma ineficiente prestação de contas foi o município ter perdido a oportunidade de captá-lo”.

resolver o problema”. José Borges, sobre as mudanças no trânsito. p. 5

Edernon Marcos Pereira, sobre as consequências do trocatroca na Prefeitura de Mariana. p. 3

“Para o município fazer o pagamento (da água), sem alterar o orçamento já existente, é preciso que gere recursos para isso”. Sobre a cobrança de água em Mariana p.8

“A BR-356 não acompanhou o crescimento da frota e nem as características dos veículos”. Carlos Vieira sobre a BR-356 , a rodovia dos problemas. p. 6 e 7

Opinião

O homem é um animal que minera Giulle Vieira da Mata

As mineradoras trabalham habilmente com palavras de efeito. A intenção é comover, jamais fazer pensar. Contudo, refletir e responsabilizar-se é exatamente a habilidade que nos distingue dos animais. Menos para alguns defensores ilustres do setor minerador, para quem o homem não passa de um “animal que minera”. A definição tem sido citada ao lado de trechos de Guimarães Rosa e, pasmem, Drummond. Devemos refletir porque discursos assim encontram eco entre nós. O problema sem dúvida está conosco, ou melhor, na enorme quantidade de espíritos incapazes de ultrapassar a confusão entre querer e dever. Espíritos que insistem em fazer-o-que-querem guiados apenas por suas emoções, apetites e inclinações não reconhecem a importância de fazer-o-que-se-deve. Infelizmente, a julgar pela enor­midade de conflitos surgidos nos últimos anos envolvendo mineradoras e comunidades de atingidos, pode-se supor ser este o caso desses gigantes. As mineradoras estão interessadas, antes, em se livrarem dos obstáculos à realização de seus fins privados, ou seja, o lucro. Acontece que obstáculos ao interesse privado são em geral interesses públicos, o-que-se-deve. Elas se defendem alegando que o direito minerário é público. Mas é preciso ficar atento, porque o recurso é retórico. É exatamente a popularidade dessa ideia de independência absoluta do direito público sobre os minérios que tem garantido a tragédia moral (tão grave quanto a ambiental) em que a exploração mineral envolve os atingidos por suas atividades. O que é o mesmo que dizer que tudo o que diz respeito ao interesse econômico está fora de toda ética. E, ao que parece, acima de toda ética, ou seja, além da capacidade de regular o próprio comportamento, a partir de um profundo senso de dever. Mineradoras não parecem interessadas em colocar limites aos próprios interesses em nome de um coletivo mais amplo. Prova disso são seus slogans. Neles não se vê a palavra dever. Apelase para ideias vigorosas tais como informação, compromisso, sustentabilidade, cultura, até mesmo responsabilidade social e ambiental (mais ambiental que social, mas vá lá). As imagens altamente

sugestivas criadas em suas propagandas parecem visar tão somente encobrir os danos irreparáveis do extrativismo primitivo baseado na superstição do desenvolvimento ao infinito. Ambição assim não conhece limites éticos.

“Mineradoras não parecem interessadas em colocar limites aos próprios interesses em nome de um coletivo” Em defesa, alega-se que para o cumprimento do dever é preciso estar motivado, estimulado, incentivado. No caso das mineradoras, quem exatamente deve incentiválas a agir segundo um senso de dever somos nós, é claro, os atingidos; a sociedade civil; o povo, caso se prefira um termo de maior força retórica. Acontece que “o povo” não passa de uma massa abstrata que depois de quinhentos anos de exploração ainda não conseguiu desenvolver o sentido da moral enquanto algo coletivo. É por isso então! - afirmam em coro os defensores do setor. É por isso que aqui a margem de manobra das mineradoras é ampla, folgada, ao contrário de lugares onde a defesa dos direitos das pessoas tem prioridade em relação aos direitos econômicos privados. É por isso também que, quando afinal de contas, as tais medidas “mitigadoras” não são cumpridas pode-se alegar, em defesa, que é porque os atingidos não exercem seu dever de fiscalização. Em última instância é o vento, que, vez por outra, teima em soprar na direção “errada”. Prova mais evidente de subdesenvolvimento ético-moral é difícil de imaginar. Professora de Sociologia do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Ouro Preto.

Jornal laboratório produzido pelos alunos do 6° período de Jornalismo D Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA)/Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) D Reitor: Prof. Dr. João Luiz Martins. Diretor do ICSA: Prof. Dr. José Artur dos Santos Ferreira. Chefe de departamento: Profa. Dra. Juçara Gorski Brittes. Presidente do Colegiado de Jornalismo: Profa. Dra. Marta Regina Maia D Professoras responsáveis: Adriana Bravin (Reportagem) e Priscila Borges (Planejamento Visual) D Reportagem, fotografia e edição: Allan Almeida, Alyson Soares, Ana Malaco, André Luís Mapa, Bárbara Andrade, Beatriz de Melo, Deiva Miguel, Eduardo Guimarães, Elisabeth Camilo, Eloisa Lima, Erica Pimenta, Eugene Francklin, Fádia Calandrini, Flávio Ulhôa, Gracy Laport, Josie Oliveira, Leandro Sena, Lincon Zarbietti, Lucas Borges, Lucas Lima, Luiza Barufi, Marcela Servano, Maria Aparecida Pinto, Rayanne Resende, Yasmini Gomes e Suellen Amorim D Projeto gráfico: Enrico Mencarelli, Lucas Lameira, Luiza Lourenço, Mayara Gouvea, Simião Castro, Tábata Romero D Colaboração: Anderson Medeiros, Camaleão e Neto Medeiros D Impressão: Conceito Gráfica Editora Ltda D Tiragem: 3.000 exemplares. Endereço eletrônico: jornallampiao@gmail.com. Twitter: @JornalLampiao Endereço: Rua do Catete nº 166, Centro, CEP 35420-000, Mariana-MG.


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Alyson Soares e Beatriz de Melo

Política

Três anos, quatro prefeitos A cada governo, mudam-se objetivos e pretensões do chefe do Executivo de Mariana; captação de recursos e continuidade de projetos são afetadas Fadia Calandrini

As transições, desde 2008, no Poder Executivo de Mariana, causaram graves problemas à administração e ao desenvolvimento da cidade. A captação de recursos dos governos federal e estadual para o município, por exemplo, foi diretamente afetada pelo “troca-troca” de prefeitos, prejudicando toda a comunidade marianense. Em três anos, o Executivo de Mariana teve quatro ocupantes: Roque Camêllo (PSDB), de janeiro de 2009 a março de 2010; Terezinha Ramos (PTB), de abril a maio de 2010; o presidente da Câmara dos Vereadores, Raimundo Horta (PMDB), de maio até dezembro de 2010. Com a troca do comando legislativo, Geraldo Sales (PDT), conhecido como Bambu, assumiu a prefeitura a partir de janeiro deste ano. Em agosto, mais uma vez, Terezinha Ramos reassumiu o cargo de prefeita. A cada administração, mudam-se os objetivos e pretensões do novo chefe do Poder Executivo e a peça orçamentária da cidade é reavaliada. Com a recorrência dessa situação, que se tornou um “clichê” na cidade, recursos são perdidos ou utilizados de forma inadequada, causando danos aos cofres do município. Orçamento De acordo com o ex-secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano de Mariana, Edernon Marcos Pereira, o orçamento sofre constantes alterações e a falta

de unidade de ações impede que a cidade cresça. “A descontinuidade de governos faz com que se perca parte da memória administrativa e, nos convênios assinados com os governos Estadual e Federal, é importante mantê-la”, afirma. E completa: “É preciso prestar contas do recurso que foi utilizado”. Somente este ano, o município teve que devolver à União aproximadamente R$ 2 milhões em recursos, em virtude de prestação de contas com problemas, ausência de informações concisas e falhas no processo licitatório, explicou o ex-secretário Edernon Pereira. Além de devolver recursos que não foram utilizados devido às mudanças administrativas desde 2009, o ex-secretário afirma que o mais agravante, em relação ao orçamento de Mariana, foi a ineficiência do poder público municipal em captar recursos federais e estaduais neste período. “Muito pouco dinheiro foi captado neste intervalo de tempo. Pior do que devolver recurso devido a uma ineficiente prestação de contas foi o município ter perdido a oportunidade de captá-lo”, concluiu. Dentre os o projetos perdidos por conta de recursos está o de saneamento básico. Segundo o vereador Juliano Duarte (PPS), o projeto estrutural elaborado juntamente com a companhia Vale do Rio Doce foi encaminhado e aceito pelo governo federal, no valor aproximado de R$ 53 milhões. “Mas, devido à necessidade de mudanças no plano inicial, o envio de novas informações à

União e as constantes mudanças no Executivo, perdeu-se o prazo”. Em 2010, durante a administração municipal do prefeito interino Raimundo Horta (PMDB), tentou-se recuperar o projeto junto ao Governo Federal, mas 120 dias antes das eleições é ilegal o repasse de verbas para obras de infraestrutura a municípios, completou. PAC Outro projeto perdido devido ao nãocumprimento de prazo relaciona-se ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas. O PAC destinado ao estímulo do desenvolvimento socioeconômico dessas cidades é voltado para a revitalização urbana e para a recuperação de monumentos públicos, e foi lançado no final do ano de 2009. Seriam repassados a Mariana aproximadamente R$ 23 milhões, mas o projeto não foi enviado dentro do prazo exigido. Para o vereador Juliano Duarte, “Mariana ficou desacreditada nos cenários estadual e federal, perdendo recursos imprescindíveis para a melhoria da qualidade de vida da nossa população”. Ele acredita que a definição da Justiça Eleitoral é fundamental para Mariana ganhar mais credibilidade. O município ainda tem uma arrecadação prevista para o ano de 2012 no valor de R$ 200 milhões, mas a corda bamba das inúmeras gestões do Executivo ainda gera dúvidas quanto à capacidade de captação desses recursos.

Desde 2009 escola teve três diretores Luiza Barufi

Luiza Barufi

Devido às constantes mudanças na administração de Mariana, não somente a captação de recursos estaduais e federais ficou prejudicada. A Educação também foi afetada com o entra e sai no Executivo. Por exemplo, somente no último dia 1º de setembro, após reassumir a prefeitura, Teresinha Ramos (PTB) nomeou mais de 60 pessoas para a área, dentre essas, mais de 20 foram para diretores de escolas. O Centro de Educação Padre Avelar (Cempa), que atende 1,5 mil alunos, é uma das escolas atingidas pelas alternâncias no Poder Executivo. De 2009 até hoje, a escola já teve três diretores. O Centro atende alunos do ensino infantil ao médio, além da Educação para Jovens e Adultos (EJA). Atualmente, 90% dos funcionários da escola são efetivos, e, quando há nomeações devido à troca de prefeitos, o quadro administrativo é modificado. A ex-diretora Carlene de Almeida assumiu a direção da escola em 2009, nomeada pelo então prefeito Roque Camêllo. Em 2010, no período em que Teresinha Ramos ficou no poder, Célio Socorro foi nomeado para assumir a função administrativa. No entanto, nesse “troca-troca”, a escola ficou quase 15 dias sem direção até que Célio pudesse assumir. Com a saída de Teresinha e entrada de Raimundo Horta na

Centro Educacional Municipal Padre Avelar também sofre com as mudanças na prefeitura

prefeitura, a professora Carlene retornou à direção da Instituição, em julho de 2010, onde permaneceu até agosto deste ano. Agora, com a volta da prefeita, quem assumiu foi o professor efetivo da rede municipal, Renato Resende de Almeida, nomeado no início de setembro. Perdas Para a atual vice-diretora, Marize Alves de Carvalho, também nomeada em setem-

bro, a escola perde tempo, de certa forma, na adaptação às mudanças. O diretor Renato concorda, mas afirma não realizar grandes modificações. “Tento manter o que a outra diretora fazia, sem mudanças drásticas”. Pais de filhos matriculados no Cempa concordam que as mudanças prejudicam o andamento da escola. Para Elisângela Aparecida Silva, que tem um filho há três anos estudando no Centro, “troca o prefeito, troca o diretor e a educação acaba prejudicada”.

linha do tempo

GRÁFICO: LINCON ZARBIETTI E LUCAS BORGES

Entenda o caso Ana Malaco

As eleições municipais de Mariana, de 2008, renderam ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) 96 processos eleitorais. Desses, 33 chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Faltando menos de um ano para o próximo período eleitoral e pouco mais de um ano e dois meses para o fim do atual mandato, o cargo de prefeito já foi assumido por quatro políticos em seis diferentes momentos. O quadro ainda pode ficar mais instável, já que parte dos processos espera julgamento. Roque Camêllo (PSDB) é eleito com 42% dos votos, mas é acusado de compra de votos pelo partido da segunda colocada na eleição, o PTB, que entra com um processo de cassação do mandato do tucano junto ao Fórum de Mariana. Camêllo recorre ao TRE, que reforma a sentença do, na ocasião, juiz eleitoral de Mariana, Dr. Paulo Roberto da Silva. O Tribunal decide manter Roque Camêllo no cargo de prefeito. No entanto, o PTB e o Ministério Público recorrem ao TSE, alegando que Camêllo só havia recorrido a Corte Mineira três dias depois da publicação da decisão municipal – o que vai de encontro a Lei Eleitoral, que permite que recursos sejam protocolados em um prazo de 24 horas. O juiz da 171ª zona eleitoral, Antônio Carlos Braga, determina o afastamento do prefeito e do vice-prefeito, que foram cassados pela Justiça Eleitoral local, e sentencia que o presidente da Câmara Municipal, Raimundo Horta (PMDB), assuma a prefeitura até a diplomação da segunda chapa colocada em 2008. Após a cassação de Roque Camêllo, Terezinha Ramos e seu vice Roberto Rodrigues (PTB) assumem o Poder Executivo, em março de 2010. Isso porque Camêllo não venceu por maioria dos votos (50% + 1 voto), sendo legítimo que a segunda colocada tomasse posse. Terezinha ficou com 34% dos votos, nas eleições de 2008. Contudo, a então prefeita também é acusada de crimes eleitorais pelos partidos PMDB e PR. E sua candidatura é cassada um mês após assumir o cargo, por supostas irregularidades nas prestações de contas nas eleições de 2008. O juiz Antônio Carlos Braga decide que o então presidente da Câmara Municipal deveria continuar à frente do Executivo. Raimundo Horta fica no cargo de maio a dezembro de 2010. Com a troca da presidência da Câmara, o vereador Geraldo Sales de Souza, conhecido como Bambu, assume a prefeitura em janeiro deste ano e fica no cargo até agosto. Em 5 de agosto, o juiz eleitoral local suspende os diplomas eleitorais concedidos anteriormente a Terezinha Ramos e Roberto Rodrigues. O magistrado tomou essa decisão com base nas alegações em representação pelos partidos PMDB e PR. Braga ainda decide que o presidente da Câmara continue na prefeitura. No entanto, essa decisão é cassada pela juíza Maria Fernandes, do TRE, no dia 9 de agosto. Após liminar solicitada pela atual prefeita Terezinha Ramos, o TRE decide, em 30 de agosto, pela imediata recondução de Terezinha e seu vice à prefeitura. A juíza Luciana Nepomuceno, relatora do processo que reconduziu, ao Executivo, a segunda colocada nas eleições de 2008, caracteriza o caso de Mariana como emblemático, devido às intermináveis ocorrências.

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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Eugene Francklin e Marcela Servano

cidadania

Procon revela que marianenses correm atrás de seus direitos

Dados do órgão apontam que, com pequena vantagem, mulheres lideram reclamações; até agosto deste ano, quase mil atendimentos foram realizados Eduardo Guimarães

Não importa o sexo. Quando o assunto envolve o consumidor, tanto mulheres quanto homens estão buscando seus direitos,  em Mariana. De janeiro a agosto deste ano, 860 reclamações foram registradas no órgão municipal. Com pequena vantagem, cerca de 0,75%, as mulheres têm reclamado mais e responderam por 50,3% das queixas.  Os homens aparecem com 49,7%. De acordo com o órgão, de todas as ocorrências feitas este ano, 55% foram de pessoas com idades  entre 31 e 60 anos.  Em seguida, aparecem  os jovens (com até 30 anos), com 33%,  e os idosos com 12% das reclamações.  É importante lembrar que as reclamações são consideradas fundamentadas depois de recebidas e analisadas pelo Procon em um processo administrativo. A partir

daí, começam a ser feitos os primeiros contatos judiciais com as empresas e reclamantes. Fundado em fevereiro de 1995, o Procon de Mariana recebe diariamente dezenas de consumidores que,  de alguma maneira,  se sentiram lesados. Dados fornecidos pela própria instituição mostram que 45% das  queixas registradas este ano estão relacionadas aos serviços prestados pelas empresas de  telefonia ou internet, que lideram as reclamações na cidade de Mariana. Os outros processos se dividem contra  estabelecimentos  comerciais (41,80%), venda em domicílio (1,91%), e outras causas, que se limitam a 10% do total. As compras realizadas pela internet também têm gerado queixas dos consumidores. Um deles é o instrutor de capacitação profissional, Hugo Mar-

Quem reclama

ques, de 29 anos, que há três meses comprou produtos eletrônicos pela internet, mas ainda não recebeu as mercadorias. Ele conta que, quando  notificou a empresa fornecedora sobre o atraso na entrega, foi informado de que o produto havia sido enviado e recebido por uma amiga dele. Hugo alega que essa amiga não tem conhecimento do material. Agora, ele busca o Procon para mediar o conflito e encontrar uma solução para ter seu direito assegurado. Desde julho deste ano, já estão em vigor os novos valores das multas aplicadas às empresas que descumprirem o Código de Defesa do Consumidor. Em decisão tomada pelo Ministério da Justiça, o valor máximo das punições passou de R$ 3 milhões para R$ 6 milhões. O mí-

nimo passou de R$ 212,82 para R$ 400,00. O valor estabelecido varia de acordo com a gravidade e a vantagem obtidas com a infração, além da condição econômica da empresa. As multas serão revertidas ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, que apoia projetos de entidades sem fins lucrativos nas áreas de proteção e defesa do consumidor, da concorrência e da recuperação e preservação do meio ambiente. Mas, para poder ter seus direitos respeitados, é necessário que a população recorra aos órgãos competentes  e registre as queixas contra os maus prestadores de serviço. O Procon  de Mariana está localizado na Praça JK, no prédio da Prefeitura Municipal. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das  13 às 17 horas. Telefone: 3557-9001.

Médica entra na justiça e ganha processo contra operadora Eduardo Guimarães

Lei antifumo é respeitada em restaurantes de Mariana Eduardo Guimarães

Perto de completar dois anos de existência, a Lei Estadual 3035/2009 já faz parte da rotina dos bares e restaurantes de Mariana. Sancionada no dia 4 de dezembro de 2009, a lei antifumo surgiu para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Na época, ainda sob conturbada decisão, o então governador do Estado, Aécio Neves, afirmou que se tratava de uma lei equilibrada, já que oferece ao dono do estabelecimento a possibilidade de criar áreas exclusivas aos fumantes. O Lampião visitou os estabelecimentos da região central de Mariana e concluiu que os proprietários, para não perder o cliente, estão mais preocupados com o bem-estar da população do que em fechar os olhos a quem fuma. A proprietária da Pizzaria e Res­taurante Dom Silvério, Ivonete Machado, há sete anos criou uma área para fumantes no local. Segundo ela, a área foi fiscalizada pela Vigilância Sanitária e está apta a atender os clientes que fazem uso de cigarros ou cigarretes Para não perder o freguês, o Restaurante Lua Cheia encontrou a solução: o cigarro também é proibido dentro do espaço e a alternativa foi adaptar uma área externa do estabelecimento para os fumantes.

No Jardim Gourmet, por exemplo, o cigarro é proibido, pois além de causar riscos a quem não fuma, o local tem pouca circulação de ar. Para a proprietária do estabelecimento, Patrícia Carolina, algumas pessoas ainda não respeitam a lei, fumam no banheiro, próximas às janelas. “Mas a gente sempre pede pra fumar na porta de entrada”, afirma a empresária.

O comércio que descumprir a proibição do fumo em local fechado será multado em até R$ 6 mil; em caso de reincidência multa será dobrada Entre a população, a lei ainda é debatida e gera diferentes opiniões. Para o estudante de Direito, Hilbert Reis, 21 anos, a lei é, sem dúvida, uma maneira democrática de preservar a saúde das pessoas que não fumam. Entretanto, por ser caracterizada pela delação, ou seja, o dono do estabelecimento denuncia o usuá-

rio do tabaco, “deveria haver uma fiscalização ostensiva, com profissionais que fizessem verdadeiras rondas - e aí sim - no flagrante, multariam tanto o estabelecimento como o fumante também”, afirma Hilbert. Já para estudante de Turismo Lívia Marques, 21 anos, todo tipo de lei antitabagista atinge diretamente o direito de ir e vir do cidadão. Ela afirma que não é fumante e apoia as campanhas antifumo, porque são diferentes de leis. “Vai do proprietário saber se ele deseja adaptar-se para segregar seu público e seguir a lei, ou deseja ir contra o seu público, porém, a favor da lei”, opina a estudante. De acordo com a lei, o estabelecimento comercial que descumprir a proibição do fumo em local fechado será multado em valores que variam de R$ 2 mil a R$ 6 mil, de acordo com a gravidade da infração e o porte do estabelecimento. Em caso de reincidência, a multa ao estabelecimento será dobrada. A legislação também indica que os recursos arrecadados com essas multas serão destinados aos Fundos Estadual e Municipais de Saúde, sendo aplicados em ações e serviços voltados para a prevenção e o tratamento de doenças provocadas pelo cigarro, como o câncer.

Em 2004, a médica Kátia Gimenez, 34 anos, mudou de cidade. Para não pagar pelo serviço de roaming, taxa cobrada pelas operadoras quando se usa o telefone fora do estado, ligou para a TIM e foi informada por dois atendentes que não havia a necessidade da mudança de DDD, pois a empresa não faria tal cobrança. Nos dois primeiros meses na nova cidade, o valor da conta telefônica veio sem taxas adicionais. Entretanto, no terceiro mês, um débito automático de R$ 900,00 (quase todo o valor referente à taxa de deslocamento) foi efetuado em sua conta. Assim que recebeu esta cobrança, Kátia entrou em contato com a TIM, sendo informada que o máximo que poderia ser feito por ela era a repreensão dos atendentes que a informaram sobre a inexistência da cobrança.

No mês seguinte, mais R$ 700,00 foram debitados em sua conta pela operadora. Indignada com as cobranças, solicitou o cancelamento do serviço e precisou efetuar o pagamento da multa rescisória. Sem esperanças, Kátia procurou o Procon levando consigo as contas e o contrato assinado com a operadora. O advogado informou que havia grandes chances de ela vencer o processo, pois o contrato de cobrança de deslocamento da operadora não estava bem explicado. Em dois meses a audiência foi marcada. Já na primeira instância, Kátia venceu o processo e teve todo o dinheiro gasto nas contas e no cancelamento do contrato devolvido. “Na verdade, o Procon orientou pedir o dobro do valor por outros danos, mas aceitei que me devolvessem só o que tinham me roubado”, afirmou a médica.

Empresa de telefonia é campeã de reclamações na região Deiva Miguel

O Procon de Ouro Preto registrou, de janeiro a setembro deste ano, cerca de mil reclamações de clientes de serviços de telefonia e internet da empresa OI, campeã de queixas no município. Desse total, 800 foram consideradas atendimentos preliminares (problemas recorrentes e de fácil resolução), que são resolvidos através de um canal direto do órgão com a empresa via telefone. A OI disponibiliza duas atendentes, na região, apenas para esses casos. Essas reclamações são cadastradas no Sistema Nacional de Informação de defesa do Consumidor (Sindec), que com o auxílio de gráficos demonstra o nível de dificuldade do atendimento. Normalmente, os problemas apresentados ao Procon são relativos a: serviços cobrados sem contratação prévia, solicitações de reparos na linha telefônica e cobranças abusivas de pacotes com valor pré-determinado na contratação dos serviços. O restante das reclamações é considerado de média complexi-

dade. Nestes casos, o agente administrativo do Procon, Fausto de Castro, entra em contato direto com a empresa e envia uma carta de investigação para conferir a resolução do problema do usuário. Logo após, caso não seja solucionado em cinco dias úteis, o órgão encaminha o processo para o fórum e a pendência é resolvida em uma audiência. No caso da internet, as maiores queixas são relacionadas à cobrança de serviços não prestados. Segundo Fausto de Castro, “a empresa justifica as falhas atribuindo aos problemas de cabeamento de rua e ausência de placa de distribuição nos postes, o que exige que se estipulem prazos maiores para os ajustes técnicos”. “Mesmo assim, continua cobrando os serviços nas faturas de seus consumidores”. Sendo assim, o agente administrativo do Procon alerta que a população deve sempre avaliar os serviços solicitados e buscar seus direitos, procurando os órgãos de proteção ao consumidor.


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Eloisa Leal e Maria Aparecida Pinto

Cidade

Atrasos comprometem obra do Catete Mudanças na prefeitura, no plano inicial e obstáculos no local atrapalham a transposição do Córrego do Catete; parte final da obra não tem projeto Allan Almeida

quer conseguimos perfurar e chegar à profundidade devido a fatores locais”, explicou.

Allan Almeida

Já se passaram cinco meses desde o início das obras de transposição do Córrego do Catete e ainda há muito para ser feito. O túnel-bala, na Avenida Nossa Senhora do Carmo, avança a passos lentos. O trecho próximo à rodoviária de Mariana começou a ser executado este mês. Já a parte na Rua do Catete está subdividida. Segundo o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Altair Marchetti, o trecho entre o Posto Sorriso e a Vidraçaria Rezende, onde estão sendo colocadas aduelas de concreto, fica pronto neste mês. Porém, a obra de recuperação do atual canal por onde passa o córrego, entre a vidraçaria e o Terminal Turístico, não tem prazo para ser executada. O ponto mais complicado vai do terminal ao Ribeirão do Carmo e não tem um projeto definido. De acordo com o cronograma entregue, em 20 de setembro, pela Completa Engenharia – em-

Descoberta de quartzo, água e manilhas desativadas provocou atrasos na conclusão de trechos da obra do Catete

presa responsável pela execução do projeto – à Prefeitura de Mariana, já deveriam ter sido executados 761,49 metros, enquanto na prática, somente 400 metros desse percurso foram concluídos. Em maio deste ano, a então coordenadora de Planejamento da

O engenheiro responsável pela Prefeitura de Mariana, Carlos Henrique Reis, justifica o atraso. “Em alguns pontos encontramos obstáculos para avançarmos com o túnel-bala, como quartzo, água, manilhas desativadas e até um muro antigo. Em outros, se-

Prefeitura de Mariana, Fernanda Trindade, afirmou, em entrevista ao Lampião, que a obra ficaria pronta em seis meses, ou até antes disso, entre outubro e novembro. No entanto, em cinco meses os trabalhos ainda não chegaram à metade do previsto.

Imprevistos no caminho levam a mudanças no projeto ALLAN ALMEIDA

Percurso da obra do Catete

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Ribeirão do Carmo

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rua, com o risco de desabamentos. Por isso, o túnel-bala passou a ser executado apenas na Avenida Nossa Senhora do Carmo. No Catete, optou-se pelo uso de estruturas pré-fabricadas de concreto, o que exigiu a escavação da via e o seu fechamento para trânsito, que estava previsto para ser liberado até o dia 31 deste mês. Outro local que passou por mudanças foi o trecho situado em frente à rodoviária de Mariana, onde serão construídos muros de contenção para proteção das encostas e direcionamento do curso da água, proveniente da região do Bairro Cabanas para o interior do túnel-bala. Para a execução destas novas duas etapas da obra foram contratadas duas outras empresas. De acordo com o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Altair Marchetti Junior, a contratação foi feita pela Completa Engenharia e não irá gerar mais gastos aos cofres da prefeitura. Além disso, com as mudanças no projeto inicial, houve uma redução no orçamento inicial, que foi reduzido de R$ 28 milhões para R$ 20 milhões.

Av .N

Desde que começaram, em 16 de maio, as obras de transposição do Córrego do Catete passaram por várias modificações. Um dos motivos pode ser a inexistência de estudos aprofundados. Segundo um funcionário da Secretaria de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura de Mariana, que prefere não ser identificado, pode ter havido falha no projeto. Inicialmente, o projeto foi elaborado por professores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e previa a execução do método conhecido como túnelbala, ao longo de todo o trajeto do córrego – aproximadamente dois quilômetros –, desde o início da Avenida Nossa Senhora do Carmo até desembocar no Ribeirão do Carmo, nos arredores da Praça Tancredo Neves, no Centro. No entanto, estudos posteriores da mesma equipe, formada por professores do Departamento de Engenharia Civil, constataram a inviabilidade de execução do método ao longo da Rua do Catete. Segundo eles, a fragilidade do solo e a proximidade das construções ao local de escavação poderiam causar problemas estruturais na

2

Posto Shell

Rodovia do

s Inconfidentes

Ponte Nova

1

Rodoviária

3

Trecho final do túnel. A partir daí, e

pelos próximos 200 metros, a obra foi executada na superfície, com a instalação de aduelas. O trecho precisou ser

1

Trecho de captação do córrego e da

interditado.

água provenientes do Bairro Cabanas.

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2

existente, que será reforçado.

Neste trecho estão os 11 pontos de

As aduelas irão ao encontro do canal já

ataque (P.A) por onde os operários têm

5

acesso ao túnel-bala. Deste total, somente

será desviado de seu curso atual. Não há

um está mais avançado e dentro do

projeto definido para a obra.

cronograma.

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No local, próximo ao semáforo, o canal

Foz do córrego do Catete no Ribeirão.

Contrato Outra preocupação é com relação ao contrato da empresa responsável pela obra. Como os trabalhos foram iniciados em caráter emergencial, não houve licitação. E, caso o prazo final estabelecido para dia 16 de novembro não seja cumprido, uma prorrogação no contrato ficaria mais complicada, segundo informações do secretário de Obras Altair Marchetti. Sobre uma possível ampliação na data de entrega da obra, o secretário informou que seria preciso um posicionamento oficial da empresa responsável sobre o atraso no cronograma para, assim, iniciar a discussão sobre “medidas futuras cabíveis”. A reportagem do Lampião entrou em contato com os técnicos rensponsáveis pela Completa Engenharia, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.

Em Ouro Preto Barbara Andrade

As obras na Rua São José também passaram por mudanças. No último dia 23 de setembro, a juíza Dayse Starling (7ª Vara Federal em Minas Gerais) decidiu pela continuidade do alargamento do passeio, levando em conta os pareceres favoráveis do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Corpo de Bombeiros. A ampliação do passeio fora embargada por ação popular, fundamentada no risco de lesão ao patrimônio histórico e cultural e sustentada pelo parecer negativo do Corpo de Bombeiros. As obras começaram em 27 de junho e deveriam terminar em 27 de outubro. O secretário de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Gabriel Gobbi, informou que o prazo deverá ser cumprido, mas reconheceu que existem contratempos, como o início do período de chuvas e possíveis agravos judiciais.

Fechamento de rua prejudica trânsito Alyson Soares

d

Alyson Soares

Fluxo de automóveis aumenta e gera transtornos na Praça Tancredo Neves

O fechamento da Rua do Catete, no último dia 15 de setembro, agravou o caos no trânsito em Mariana. Mesmo com a reabertura da via prevista para outubro, com o avanço das obras do Córrego do Catete, em direção ao Terminal Turístico, mais áreas ficarão intransitáveis e motoristas que moram nesta rua não poderão sair com seus automóveis. O diretor do Departamento Municipal de Trânsito de Mariana (Demutran), Geraldo Simplício, afirma que há placas explicativas ao longo da cidade, além de guardas do Departamento de Trânsito em vários pontos para auxiliarem os motoristas. Porém, muitos condutores tiveram dificuldades em entender as mudanças. Segundo o morador

do Bairro Rosário, Nélson de Souza, a sinalização não é suficiente para atender a população. Já o motorista José Borges, que mora na Rua Bom Jesus, Bairro Barro Preto, lembra que “Mariana recebe muitos visitantes que, muitas vezes, nem sabem os nomes dos lugares”. “Só colocar avisos não vai resolver o problema”. Para os moradores da Rua do Catete, a obra trará benefícios, mas o fechamento da via dificulta a vida de muitos. Moradora do local há 16 anos, Maria do Carmo Rodrigues comenta: “aqui tem a vantagem que é logo ao lado do Centro, mas agora tudo ficou mais difícil”. Ela concorda que a obra é importante, mas a demora é a sua principal preocupação. “Que (a obra) tem que ser feita, tem, porque na época de chuva aqui alaga

muito, mas o problema é que tudo demora meses”. Os comerciantes da Rua do Catete, apesar de terem a entrada e a saída de caminhões com mercadorias liberadas, constataram uma diminuição no número de clientes. “Muita gente deixa de comprar aqui por achar difícil sair com os produtos”, diz o comerciante José Carvalho. Quem depende do transporte coletivo também foi prejudicado, já que o tempo médio gasto para viajar de ônibus entre Ouro Preto e Mariana passou de cerca de 40 minutos para 55 minutos. “Os ônibus não passam mais nos horários, acabo tendo que acordar mais cedo”, reclama a balconista Nice Magalhães, que trabalha no centro da cidade e mora no distrito de Passagem de Mariana.


08

MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição:André Luís Mapa e Josie Oliveira

água

Tratamento só é completo no período de chuvas Durante a estiagem, água distribuída em Mariana recebe apenas hipoclorito de sódio para desinfecção; no restante do ano, passa por outras etapas Allan Almeida

Yasmini Gomes

O déficit de prestação de serviços públicos é elevado em todo Brasil, e os problemas referentes ao tratamento e distribuição de água não são diferentes. Cerca de 21,4% das residências brasileiras não recebem água tratada, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) . Em Mariana, o problema não está apenas no número de casas que recebem água (98% da população), mas sim no tratamento destinado a ela. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) é o órgão responsável pelo tratamento da água em Mariana. De acordo com informações que constavam no site do Saae (http://www.saaemariana.com.br), atualmente fora do ar, durante o período de estiagem, cerca de oito meses do ano, a água passa pela Estação de Tratamento e recebe apenas a adição de hipoclorito de cálcio (desinfecção) como tratamento. No restante do ano, quando a turbidez se eleva, recebe tratamento completo, através da adição de outros produtos químicos, passando ainda por três processos de purificação antes de chegar aos domicílios. Em uma primeira etapa, a sujeira é separada em blocos através da adição de coagulantes pelo floculador. No decantador, as partículas são removidas através de um processo de sedimentação. Na terceira, a água passa pelo filtro. Além disso, em meio a esses pro-

SAAE vai pagar por água em 2012 Allan Almeida

No período chuvoso, água passa por três processos de purificação

cessos, acontece a adição de sulfato de alumínio, cal e cloro, que são utilizados para limpar e deixar a água em seu pH ideal. Porém, apesar de todas essas etapas, o processo possui falhas. Uma delas está na ausência de adição de componentes considerados ideais para a saúde, como o flúor, elemento que é exigido pelo Ministério da Saúde para ajudar no combate a cáries. A precariedade das máquinas utilizadas pelo SAAE também é um ponto preocupante. Alguns

equipamentos, além de rachados e enferrujados, estão sujos e colocam em risco a segurança dos funcionários. De acordo com a responsável pelo setor de tratamento de água da autarquia, Rubia Morais, não houve nenhum aprimoramento no sistema de tratamento utilizado pela empresa. Segundo ela, “para que isso aconteça, seria necessária a cobrança pelo uso da água na cidade, para que a empresa tenha fundos para investir na melhoria do serviço”.

A cobrança pelo uso da água está prevista pela Lei nº 9.433/97, que institui a Política Nacional dos Recursos Hídricos, pela Agência Nacional de Águas (ANA). Existem os comitês regionais que estipulam as regras para se efetuar a cobrança. O Comitê da Bacia do Rio Doce, ao qual Mariana pertence, iniciará a cobrança em 2012. Cada cidade deveria organizar seu plano econômico para fazer o pagamento, mas Mariana não se preparou para isso. Segundo o membro do Conselho da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, Fabiano Alves, a autarquia municipal que não pagar pelo uso da água será considerada irregular, terá seu nome incluído na dívida com o estado e ficará impossibilitada de participar de licitações e obter recursos do governo. Para o município fazer o pagamento, sem alterar o orçamento já existente, é preciso que gere recursos para isso. A forma mais simples é repassando a cobrança à população. Em Mariana não há essa exigência e, de acordo com a diretora do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), Juliana Cristina Melo, não existe qualquer projeto a ser desenvolvido pela autarquia ou pela prefeitura para iniciar esse processo. Fatores técnicos e políticos inviabilizam a implantação de um sistema de taxação pelo uso da

água no município, segundo ela. “A população já está acostumada todos esses anos sem a cobrança. Fazer isso agora geraria um baque muito grande (nos moradores)”, afirma Juliana Cristina Melo. Entre os pontos negativos pela ausência desta cobrança está a dificuldade em melhorar o atual sistema de tratamento no município, já que o SAAE não possui recursos para novos investimentos. Ouro Preto Ao contrário de Mariana, Ouro Preto já faz a cobrança pelo uso da água. O Serviço Municipal de Água e Esgoto (SEMAE) cobra, desde o ano passado, uma tarifa operacional. Os valores não são diferenciados. As residências pagam R$ 9,17; os comerciantes, R$ 17,84; já para as indústrias a tarifa é de R$ 33,28. A cobrança é diferente da que é praticada, por exemplo, pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA). A estatal emite uma fatura com base no consumo individual de cada morador/residência, medido por um hidrômetro. Já a tarifa cobrada pelo SEMAE é um encargo operacional para manutenção da autarquia. Além disso, a taxa precisou ser cobrada para atender à norma do Ministério das Cidades para que o município pudesse receber os recursos federais para melhorias no sistema de saneamento.

cidade

Faltam bombeiros na Região dos Inconfidentes lucas lima

Bárbara Andrade

Um incêndio na área florestal conhecida como “Zoca”, atrás do Campus Morro do Cruzeiro, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), destruiu grande parte da mata e quase atingiu as residências próximas ao local, no último dia 6 de setembro. Devido à demora no atendimento pelo Corpo de Bombeiros, quando os moradores perceberam que o fogo atingiria as casas, reuniram-se com baldes e mangueiras e conseguiram amenizar a situação até que os bombeiros chegassem. O incêndio começou durante a tarde. Moradores vizinhos à área tentaram acionar o Corpo de Bombeiros várias vezes, mas eram informados que não seriam prontamente atendidos. O motivo não era negligência. No mesmo momento acontecia uma queimada no Morro do Santana, também em Ouro Preto, e não havia equipamentos nem pessoal disponíveis para atender a demanda. Ameaça Casos como este são comuns na região, já que os bombeiros de Ouro Preto atendem 28 municípios, e têm de escolher o que priorizar na hora do atendimento. Segundo a moradora de uma das casas ameaçadas pelo incêndio no Morro do Cruzeiro, Andreza Maciel, “chamamos todos os vizinhos, que desceram com baldes e ajudaram a apagar o fogo Quando os bombeiros chegaram, não havia mais perigo para as casas vizinhas,” desabafa. O Corpo de Bombeiros de

Ouro Preto é o mais próximo e o que atende as cidades de Mariana, Itabirito e Ponte Nova. Segundo o soldado Luiz Fabiano, a corporação precisa de mais pessoal. “Entramos em turnos de sete a dez pessoas. Precisamos de, pelo menos, 25 homens por turno para atender a demanda”. De acordo com Luiz Fabiano, são priorizados os casos em que residências são ameaçadas, além das áreas críticas, em que são registradas muitas queimadas, como o Parque Estadual do Itacolomi, entre os municípios de Ouro Preto e Mariana, e a reserva Uamii, que fica em São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto.

Incêndio registrado no início de setembro, próximo à rodoviária de Mariana

Em Mariana, situação é crítica Lucas Lima

Ajuda O bombeiro ainda ressalta a importância dos brigadistas voluntários. Durante o clima seco do inverno na Região dos Inconfidentes, as queimadas aumentam consideravelmente. “Os brigadistas são treinados para entrar no foco do incêndio e combatêlo junto aos bombeiros, e conseguem suprir, em parte, a falta de pessoal concursado, garantindo uma resposta mais rápida”, explica Luiz Fabiano. O Governo do Estado detém a responsabilidade de manter, equipar e abrir mais vagas para o Corpo de Bombeiros. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o indicado é um profissional para cada mil pessoas. Mariana, com cerca de 54 mil habitantes, não possui Corpo de Bombeiros. E em Minas, eles estão presentes em apenas 53 municípios de um total de 853.

Somente nos meses de agosto e setembro, o Corpo de Bombeiros atendeu 82 chamadas de combate a incêndios em Ouro Preto, 30 em Mariana e seis em Itabirito. De acordo com o subtenente Roberto Otacílio Dutra, cada incêndio gera em média 30 focos. “Mais de 98% desses incêndios são de ordem criminosa. Falta conscientização por parte do governo e da população que vive em áreas propícias às queimadas”, afirma. Esse quadro poderia ser evitado se houvesse mais investimentos na criação de um quartel dos bombeiros, em Mariana, e na ampliação das brigadas formadas por voluntários. “Existem planos para instalar um quartel em Mariana, mas planejar é uma coisa, e a realidade é outra”, comenta o subtenente Dutra. “Não adianta cuidar, com um band-aid, de uma pessoa que tomou um tiro”, diz, referindo-se à falta de apoio à corpora-

ção por parte dos governos. No último dia 22 de setembro, por volta das 17 horas, um foco de incêndio começou e rapidamente se espalhou atrás da rodoviária de Mariana. Em poucos minutos, o que parecia uma pequena fogueira já cobria o horizonte. Os bombeiros chegaram quase duas horas depois, mas o incêndio só foi realmente controlado com o apoio de um caminhão pipa, que demorou mais 30 minutos para chegar ao local. A situação só não foi mais grave graças ao trabalho dos brigadistas que, mesmo antes da chegada dos bombeiros militares, agiram para tentar impedir o avanço das chamas. As brigadas são formadas por bombeiros civis voluntários, que têm uma base na própria rodoviária e passam por um treinamento de três meses, além de uma série de exames. Normalmente, atuam como apoio para os bombeiros militares. Mas, no caso

de Mariana, os brigadistas acabam, muitas vezes, tendo que agir sozinhos. No total, a cidade possui 24 voluntários, que se dividem em turnos de 12 horas e atendem, em média, três chamadas por dia. Contam com equipamentos como roupas de segurança, material de socorro, bomba costal e uma ambulância Fiorino, que só serve para remoção de vítimas. Segundo o bombeiro civil Fabio Papa, “falta muita verba”. “Aqui pagamos tudo, desde comida até o uniforme”. Com a instabilidade no Governo de Mariana, os brigadistas não sabem dizer se haverá investimentos no grupo. Para o taxista que presenciou o incêndio atrás da rodoviária, José Horta, “há necessidade, sim, de um quartel de bombeiros em Mariana, porque o de Ouro Preto é muito longe”, compara. “É só lembrar o incêndio na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, quando um dos maiores patrimônios da cidade, quase se perdeu”, diz, referindo-se ao fogo que ameaçou destruir a igreja de 1784.

Como proteger sua casa dos incêndios Fazer a capina, que deve obedecer à distância de uma vez e meia o tamanho das árvores. Molhar a área em volta das casas, caso o incêndio ainda não represente risco. Fonte: Corpo de Bombeiros


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Bárbara Andrade

Meio Ambiente foto: leandro sena

A recuperação do aterro prevê a construção de sete plataformas, mas obras iniciadas em junho ainda estão na segunda; período chuvoso pode atrasar o cronograma

Obras no aterro sanitário da cidade correm contra o tempo Leandro Sena

As obras do aterro sanitário de Mariana começaram no início do ano e, devido à demora no re­ passe de verbas, o projeto sofreu grandes atrasos, sob risco de per­ da da licença ambiental e de boa parte do que já foi feito em função da chegada do período chuvoso. O aterro está localizado a cerca de oito quilômetros do centro da ci­ dade, na estrada de acesso ao sub­ distrito de Bento Rodrigues. Durante a gestão do vereador Geraldo Sales de Souza, o Bambu, à frente da prefeitura (de janeiro a agosto deste ano), foi investido quase R$ 1 milhão na obra, mas, com a mudança na administração, ocorrida em setembro, a votação do pedido de crédito suplementar de R$ 3,5 milhões para a continui­ dade do projeto acabou atrasan­ do. Consequentemente, o crono­ grama da obra também. Agora, o projeto passa por no­ vas análises. Enquanto as obras do aterro sanitário não forem con­ cluídas, o lixo recolhido na cida­ de vem sendo despejado no aterro controlado, por determinação da Superintendência Regional de Re­ gularização Ambiental (Supram). Por outro lado, o município pode perder a licença ambiental do aterro controlado se a capacidade

de armazenamento­dele chegar ao estado final de esgotamen­to, o que pode ocorrer entre três a quatro meses, segundo a Secretaria Mu­ nicipal de Meio Ambiente. Caso a licença seja perdida, a prefei­tura de Mariana terá que deslocar todo o lixo para outra cidade, o que acarretaria maior gasto público.

“É uma tarefa difícil, mas tanto a antiga quanto a nova administração se empenharam para concluir a obra o mais rápido possível” Rodrigo Carvalho Carneiro

No cronograma estabeleci­ do inicialmente, o aterro sanitá­ rio de Mariana seria alvo de um projeto de reabilitação, com análi­ ses de contaminação da água e do solo. Segundo relatório enviado pe­los responsáveis pelo projeto, na época, foram executadas, até o final de agosto, remoção de resí­­ duos, colocação de três linhas de dre­nagem para rebaixamento da água subterrânea, impermeabili­

zação de duas plataformas, entre outras medidas.Espera-se, agora, que os processos iniciados sejam concluídos, de acordo com o pro­ jeto inicial. No documento, ressalta-se que as obras necessárias no aterro sa­ nitário deveriam ser concluídas antes do início do período chuvo­ so – que começou este mês – pois, caso contrário, correria-se o risco de perder tudo o que foi realiza­ do, além de comprometer a estru­ tura do local. Segundo representantes da Se­ cretaria de Meio Ambiente, as chuvas não inviabilizariam a obra. O chefe de Políticas Ambientais de Mariana, Rodrigo Carvalho Carneiro, informou que está em andamento um novo processo li­ citatório para conclusão do aterro, que teria início em 30 dias. Para agilizá-lo, existem al­ ternativas que a prefeitura pode tomar: aditamento do contra­ to li­ci­tatório ou dispensa dessa forma­lidade, mas até então nada foi definido. “Estamos correndo contra o tempo para finalizar a se­ gunda plataforma o quanto an­ tes. É uma tarefa difícil, mas tanto a antiga quanto a nova adminis­ tração se empenharam para con­ cluir a obra o mais rápido possí­ vel”, afirmou Rodrigo.

O que está sendo feito Eugene Francklin

No início da gestão do pre­ feito interino Geraldo Sales de Souza, o Bambu, foi diagnosti­ cada a existência de graves pro­ blemas estruturais no aterro sanitário municipal. Um lau­ do, emitido em três de janeiro deste ano, apontava a necessi­ dade de interromper o despe­ jo de resíduos sólidos no local para que não houvesse o risco de saturação e danos à estrutu­ ra do aterro. A Fundação Estadual de Meio Ambiente, através de téc­ nicos da Universidade Fede­ ral de Viçosa, realizou um es­ tudo no local que confirmou os riscos de prejuízos às estru­ turas do aterro, caso nenhu­ ma provi­dência fosse tomada. Em 2 de fevereiro foi assina­ do, en­­tre a prefeitura e a Su­ perintendência Regional de Regulariza­ção Ambiental da Zona da Mata (Supram ZM), um Termo de Ajustamento de Conduta Ambiental para o município recuperar o aterro e, assim, evitar a perda de sua Licença de Operação, conce­

dida pela Supram. Foi estabe­ lecido um crono­gra­­ma para a reabilitação do ater­ro sanitá­ rio e os resíduos pas­saram a ser destinados ao antigo ater­ ro controlado. A constatação de um aflo­ ramento subterrâneo de água, no local das obras de reabilita­ ção, provocou o atraso na en­ trega do projeto à Supram, re­ alizada somente em junho. Isto porque, a previsão era de que as obras deveriam ser conclu­ ídas antes do período chuvo­ so para não comprometerem o cronograma. Até setembro, as obras da primeira das sete plataformas foram finalizadas e executadas pela Construtora Terrayama LTDA, no valor aproximado de R$ 800 mil. O valor estima­ do para a execução do restante das obras previstas para o tér­ mino da reabilitação do aterro é da ordem de R$ 3,5 milhões, aprovados em reunião no dia 19 de setembro, pela Câmara Municipal de Vereadores. As obras da segunda plataforma estão em andamento.

Saúde

Dieta da população de Mariana inclui hábitos saudáveis Foto: Eloísa Lima

Eloisa Lima

Cresce a procura por alimen­ tos  saudáveis  em Mariana. A preo­cupação com a saúde tem ocasionado mudanças no com­ portamento da população. Pro­ dutos light, diet e integral ganham cada vez mais destaques nas pra­ teleiras dos supermercados e das padarias. Sucos, iogurtes, leites desnata­ dos, queijos brancos, barra de ce­ reais e pães integrais tiveram sua demanda aumentada em 27%, em média, no comércio local. O ge­ rente de um dos supermercados ouvidos pela reportagem, Nicío Carneiro Ferreira, afirma que, ge­ ralmente, esses produtos são con­ sumidos por idosos e jovens da classe média. Segundo o Ministério da Saú­­ de, esses alimentos possuem bai­xo valor calórico e são ricos em fibras

e vitaminas além de auxilia­rem no combate a doenças cardiovas­ culares, hipertensão e diabetes. Essa combinação contribui para o aumento da longevidade.

“A chegada do verão faz com que a população opte por uma alimentação mais leve. É grande a demanda por frutas e folhas” Henderson Teixeira

A estudante de Administração Maiara Costa, 21 anos, relata que se sente melhor adquirindo esses produtos, pois mantém uma ali­­

mentação saudável e equilibrada, evitando assim problemas futuros como colesterol alto. Além disso, se sente disposta para praticar ati­ vidades físicas. Os benefícios que o consu­ mo desses produtos trazem para a saúde são reconhecidos pela medicina. Contudo, a nutricio­ nista Cristiane Feitosa alerta que “não devem substituir a alimenta­ ção tradicional, que inclui frutas e verduras”. A proximidade do verão esti­ mula a ingestão desses alimentos, segundo Henderson Teixeira, ge­­ ­­­ ren­te de um dos principais saco­­ lões da cidade. “A chegada do ve­ rão faz com que a população opte por uma alimentação mais leve. É grande a demanda por frutas e fo­lhas. As pessoas bebem muito suco nessa época do ano e comem muita salada também”.

A estudante Maiara Costa prefere comprar produtos light no supermercado


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Leandro Sena e Yasmini Gomes

cidadania

Jovens lutam para continuar treinando Projeto que incentiva a prática de ginástica de trampolim e artística conquista medalhas, mas atletas de baixa renda treinam sem incentivo financeiro Flávio Ulhôa

Equipe que compõe o projeto Esporte e Cidadania conquistou 13 medalhas e três troféus no campeonato de Goiânia Flávio Ulhôa

Os 15 ginastas do projeto Esporte e Cidadania que participaram, em setembro, do último Campeonato Brasileiro de Ginástica de Trampolim Elite e Júnior, em Goiânia, voltaram para Ouro Preto com 13 medalhas e três troféus em diversas categorias e aparelhos. O evento foi promovido pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Porém, a dedicação ao esporte ainda não pode resolver os problemas financeiros da grande maioria dos atletas participantes do projeto, levando-se em consideração que os títulos não são remunera-

dos e que a Fundação Aleijadinho ao qual o projeto vincula-se, não tem recursos, nem alimentação para oferecer aos jovens. O atual campeão brasileiro na modalidade tubling, categoria elite, John Lenon Fernandes, de 21 anos, disse ter passado grandes dificuldades para se manter no projeto, chegando a ter que se deslocar à pè do Bairro Taquaral ao Santa Cruz, para economizar o dinheiro da passagem de ônibus. Sua avó, Diva Magalhães, de 59 anos, é quem custeia as despesas de John e de seu irmão, com a aposentadoria de um salário mínimo. “Não é fácil pagar academia,

alimentação e transporte para meu neto continuar treinando, mas me sacrifico pelo sonho dele e espero que um dia ele possa ter retorno com o esporte”, projetou. John Lenon pretende se formar em Educação Física para atuar junto ao projeto onde ele despertou para as atividades esportivas. Em outubro de 2010, foi aprovada, pela Câmara Municipal de Ouro Preto, a Lei n° 593 que instituiu o Programa Bolsa Atleta. A legislação prevê apoio financeiro e técnico, fornecido pelo município, por meio da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Parques. Os valores, que variam

ESPORTE

entre R$ 250,00 a R$ 1.100,00, de acordo com o nível dos atletas, são destinados para despesas como alimentação, transporte e academia. No entanto, até hoje a bolsa não foi efetivada, explicou o treinador da equipe de ginástica do Esporte e Cidadania, Estácio da Costa, 45 anos. “Esse atraso está complicando nosso trabalho. Há atletas que estão no auge e têm que parar de treinar para trabalhar”, desabafou. Segundo o atual agente administrativo e membro da comissão avaliadora do programa Bolsa Atleta, Paulo Coelho, essa demora para liberar a verba para os atletas se deve à exoneração consecutiva dos secretários de Assistência Social e de Esportes, Dalvo Xavier e Joel Penna. O atual secretário de Esportes de Ouro Preto, Gisangelo Machado, montou uma comissão avaliadora dos critérios de seleção dos bolsistas e disse que o próximo passo para efetivação do programa é lançar um edital para os atletas se inscreverem. “Estamos trabalhando para que esse edital seja lançado até outubro, mas não posso afirmar quando as verbas serão liberadas. A burocracia é complicada, depende da corregedoria municipal”, explicou Gisângelo.

Enquanto isso, os atletas se desdobram para levar o nome do projeto Esporte e Cidadania e da cidade para o mundo. E a prefeitura pode se orgulhar de publicar, em seu site, manchetes como a do último dia 27 de setembro: “Ginastas ouro-pretanos se destacam em campeonato em Goiânia”.

Saiba mais Iniciado em 1999, pela juíza da Infância e Juventude de Ouro Preto, Dra. Lúcia de Albuquerque, o projeto Esporte e Cidadania incentiva a prática de esportes entre jovens em vulnerabilidade social e familiar. Atualmente, é coordenado pela Fundação Aleijadinho em parceria com a Prefeitura de Ouro Preto. O projeto desenvolveu-se na área de ginástica de trampolim e artística a ponto de treinar, hoje, atletas medalhistas em níveis estadual, nacional e internacional em todas as categorias. Os critérios de seleção para participar são basicamente físicos e financeiros. O jovem, também, tem que estar matriculado em uma escola.

INFRAESTRUTURA

Time de rugby em expansão Preparo para a Copa Marcela Servano

O time de rugby da Região dos Inconfidentes prepara-se para estrear no Campeonato da Federação Mineira do esporte. Esta é a segunda vez que o grupo participa de um torneio organizado pela Federação, porém, agora compete em uma modalidade nova, o Rugby Seven, formado por apenas sete jogadores. A primeira fase do campeonato aconteceu no início deste mês, em Uberlândia (MG). Os classificados disputam a segunda etapa em 26 e 27 de novembro. Em 2016, a modalidade Seven vai entrar para o calendário olímpico. No primeiro semestre deste ano, a equipe disputou o torneio na modalidade Clássica do Rugby, formada por 15 jogadores. A diferença entre as duas modalidades é o tempo. A Seven é composta por dois tempos de sete minutos; já a Clássica são dois tempos de 40 minutos.

Fundado há menos de dois anos pelo professor de Arquitetura da Ufop, Alfio Conte, a equipe vem consolidando a prática de Rugby na região. Recentemente, ganhou uma versão feminina. As garotas ainda são poucas. Como o time feminino está no começo de suas atividades, divide os treinamentos com os garotos. As equipes ainda não possuem um local apropriado para a prática do esporte e treinam em um campo emprestado por uma empresa. Os próprios jogadores adaptaram o local ao jogo. Um dos técnicos da equipe, Thiago Donizete, lembra que, por enquanto, o time não recebeu apoio das prefeituras de Ouro Preto e de Mariana. O capitão da equipe, Breno Castilho, emenda: “até o momento o time recebeu apenas promessas das prefeituras da região e da iniciativa privada”. Segundo Castilho, por ser um esporte relativamente novo, há

um preconceito com o rugby, pois os patrocinadores preferem apoiar esportes mais conhecidos como o futebol, já que o retorno em visibilidade é maior. A falta de incentivo não desanima os 30 jogadores que custeiam as despesas entre si. Os gastos com uniformes, viagens e equipamentos já chegam a R$ 10 mil. O estudante de engenharia geológica da Ufop, Thiago Verneque, encara todas essas dificuldades como uma lição de vida. “Na vida temos que vencer desafios e no esporte não é diferente. Aos poucos vamos conseguindo”, diz.

Treinos Quando: segunda, quarta e sexta-feira às 15 horas. Onde: Clube Aluminas: Rua Domingos Mendes s/n, Saramenha, Ouro Preto. Marcela Servano

Sem espaço próprio para treinar, jogadores do time de rugby adaptaram o campo do Clube Aluminas ao esporte

ainda é imaturo Lincon Zarbietti

O planejamento de Mariana para receber parte dos 180 mil turistas estrangeiros, esperados em Minas Gerais, para a Copa do Mundo – de um total de 600 mil aguardados, no país, durante a competição –, ainda está imaturo. Não existe nenhum programa específico em desenvolvimento que tenha por finalidade o turismo receptivo para a Copa de 2014. Faltando menos de mil dias para o evento, os preparativos nesse campo ainda estão em fase de estudos. O diretor de Turismo de Mariana, Silas Sampaio, afirma que “é diretriz da atual administração que a cidade se torne um destino turístico de destaque, não só em Minas, como também no Brasil e, para alcançar esse objetivo, a primeira etapa é investir no turismo receptivo”. Entretanto, questionado sobre a existência de algum projeto de estruturação do segmento no município, Silas afirma que um curso de capacitação de profissionais do setor já foi realizado, em parceria com o Ministério do Turismo, mas que não alcançou todos os agentes da área. Segundo o secretário de Estado Extraordinário da Copa em Minas Gerais, Sergio Barroso, em reunião das cidades-sede, realizada em agosto, em Belo Horizonte, o compromisso da secretaria é fazer com que o visitante se desloque, não somente entre aeroporto e estádios, mas também, para destinos turísticos próximos, com rapidez e segurança. Mariana está dentro do raio de receptividade turística para a Copa de 2014, segundo o Ministério do Turismo, pois está localizada a 115 quilômetros de Belo Horizonte, uma das sedes da Copa, o

que a caracteriza como um destino indutor de turismo. O município possui cerca de 1,5 mil leitos dispostos em hotéis e pousadas. A partir de uma pesquisa do Ministério do Turismo, evidenciou-se que a capacidade da rede hoteleira de Mariana é o menor dos problemas. Isto porque o turista da Copa será relativamente jovem, que pratica uma mobilidade muito maior e permanece menos tempo fixado em apenas uma hospedagem.

O turista da Copa será relativamente jovem e vai permanecer menos tempo fixado em apenas uma hospedagem Contrapondo-se a isto, está a dificuldade em atrair este turista em outras oportunidades, criando-se dispositivos que possuam uma identidade local na rede hoteleira, fazendo com que o turista crie uma ligação com a cidade que visita e que se hospeda. O gestor administrativo da Associação Comercial Industrial e Agropecuária de Mariana (ACIAM), Heliélcio Jesus Vieira, afirma que o desafio da preparação turística para a Copa do Mundo de 2014 é o que deve preocupar menos. “Antes, deve-se trabalhar para atrair o turista nacional, criando mecanismos que levem para os hotéis e pousadas a cultura típica do interior de Minas Gerais e a identidade local cidade de Mariana”.


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Ana Malaco e Luiza Barufi

Memória

Arquivos contam história nacional Localizados em Mariana, quatro arquivos mantêm memórias, compõem e apontam identidades e possibilitam a difusão de informação Maria Aparecida Pinto

Maria Aparecida Pinto

Mariana possui quatro arquivos que possibilitam a construção da identidade e a preservação das memórias local, regional e nacional. São eles: o arquivo sob responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN) de Mariana; o Eclesiástico, da Arquidiocese; o Histórico, da Câmara Municipal e o Arquivo Geral da Prefeitura. Todos possuem acervos que são fontes de pesquisa e implicam na manutenção de informações. Segundo o coordenador de gestão documental da Prefeitura de Mariana, José Geraldo Begname, os arquivos possuem três funções: gestão, preservação de memória e de identidade e difusão da informação. Sobre a importância dos arquivos, o secretário de Cultura e Turismo Marcílio Geraldo Vieira de Queiroz afirma que, “considerando Mariana como a primeira vila, cidade, capital e bispado de Minas Gerais, estes quatro arquivos detêm expressivas referências e registros da inicial história de Minas, sobretudo do período colonial, além de importantes registros do Brasil”. De acordo com ele, “o Arquivo da Câmara abriga leis e registros da primeira câmara de Minas e os ordenamentos da estrutura e formação política da vila e cidade de Mariana que, direta ou indiretamente, serviram de referências para outras vilas e cidades.” Já o Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese conserva registros dos primórdios da organização da Igreja em Minas e na cidade. Segundo o secretário, a população pode usufruir dos arquivos através de pesquisas. Em alguns casos, considerando a raridade e o estado de conservação desses, somente por meio de especialistas. O arquivo que se encontra no IPHAN possui acervo referente aos períodos colonial, imperial e à República Velha. São livros de notas, inventários, registros de tes-

Onde fica Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (AEAM) Rua Direita, 102, Centro. Tel.: (31) 3557-1237 Arquivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN de Mariana (Casa Setecentista) Mariana Rua Direita, 07, Centro. Tel.: (31) 3557-1455 Arquivo Histórico da Câmara Municipal Rua do Seminário s/n, Centro. Tel.: (31) 3557-9417

tamentos e processos judiciais. De acordo com o responsável pelo arquivo, Cássio Vinicio Sales, o local também é composto pelo acervo da Casa da Memória Marianense, desativada em 1984, pertencente à prefeitura e inclui fotografias, gravuras, jornais, manuscritos, medalhas, películas cinematográficas e plantas. Destacam-se o Primeiro Livro da Câmara Municipal de Mariana, “Antigo Cenário da Câmara da Vida do Ribeirão do Carmo”, datado de 1711, e o Livro de Provisões e Patentes relacionado ao fundador da cidade, Coronel Salvador Fernando Furtado de Mendonça. Os documentos são utilizados em dissertações de mestrado, livros de docência,

turismo

Planos existem mas não saem do papel Eloisa Lima

Rica em acervos naturais e patrimônios históricos e culturais, a cidade de Mariana ainda não possui um plano turístico para melhorar a estrutura do setor. Iniciativas para fomentar o turismo não faltaram tanto do município e órgãos federais quanto da esfera privada. Em 2009, a prefeitura em parceria com a Associação Comercial Industrial e Agropecuária de Mariana (ACIAM), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Mariana, Marianatur, e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) desenvolveram um plano que contemplava atividades ligadas ao turismo. Dentre elas, estímulo ao turismo pedagógico, que abrange o Museu da Música e o sítio arqueológico do Gogô, a formatação de roteiros e a criação de identidade e valorização do artesanato e da gastronomia locais. O gestor administrativo da ACIAM e da CDL, Helielcio Vieira, afirma que as propostas foram ouvidas, no entanto existe uma dificuldade em concretizá-las, já que as constantes mudanças no Poder Executivo inviabilizam a sua efetivação, uma vez que as discussões e as avaliações sobre o plano retornam a cada gestão. Em 2010, o então prefeito Geraldo Sales e seu secretário de Cultura e Turismo, Cristiano Casimiro, solicitaram à Associação de Cultura Gerais e ao Sebrae a elaboração do Catálogo de Atrativos

Arquivo Geral da Prefeitura de Mariana

O Arquivo Geral da Prefeitura guarda documentos sobre os mapas cadasrtrais dos bairros

Turísticos de Mariana. O material, concluído este ano, apresenta a diversificação de ofertas turísticas da cidade, seu patrimônio histórico, sua produção cultural e suas belezas naturais.

Propostas foram ouvidas, mas existe dificuldade em concretizálas devido às mudanças políticas No último dia 26 de julho, o catálogo foi divulgado ao público, porém, com a mudança na administração da Prefeitura de Mariana, ocorrida em setembro, a publicação ficou a cargo do novo secretário de Cultura e Turismo, Marcílio Vieira de Queiroz. O atual diretor de Turismo, Sílas Sampaio Teixeira, afirma que tem todo o interesse em dar continuidade ao projeto e que o catálogo também será contemplado pelo plano de turismo de 2012. Segundo o diretor de Turismo, o objetivo inicial do novo plano é melhorar os portais de atendimento aos turistas. Além disso, serão confeccionados materiais informativos (cartas, folderes, sites) sobre os pontos turísticos de Mariana. “Pretendemos reativar o portal turístico localizado na rodoviária e também fornecer um curso de capacitação para os guias de turismo”, disse Sílas Teixeira.

árvores genealógicas e romances de época. Uma média de 500 pessoas consultam cerca de três mil documentos do acervo, por ano. O acesso é livre e a população pode utilizá-lo para pesquisas. As mais frequentes relacionam-se às questões de inventários, herança e compra e venda de imóveis. Municipal O Arquivo Geral da Prefeitura possui acervo com documentação referente ao Poder Executivo. Segundo o coordenador de gestão documental do espaço, José Geraldo Begname, os conjuntos mais importantes “são os de aprovação de projetos, de cadastro imobiliário, a parte fiscal, a documentação da educação e as plantas e mapas ca-

Rua do Catete. Tel.: (31) 3558 2019

dastrais dos bairros”. O arquivo preserva, ainda, edições do jornal “O Monumento” e a planta do coreto da Praça Gomes Freire, datada de 1937. O acervo é aberto ao público, mas não há uma estrutura para atender atividades de pesquisa. Trabalha-se com solicitações de pesquisas para resolver problemas relacionados a processos de aposentadoria, questões pendentes de imóveis e consultas de rotina para assuntos administrativos.

Atração

Sagarana Café Teatro oferece diversão e cultura o ano todo Flávio Ulhôa

O Sagarana Café Teatro, localizado no Bairro Chácara, em Mariana, não se limita a uma “casa de shows” com decoração peculiar. A professora emérita da Ufop,Maria Madalena Lana Gastelois, recons-

truiu uma casa de fazenda do século XVIII, para oferecer à cidade um espaço para a troca de experiências e encontros culturais e musicais. Entre outras atividades, Madá, como era chamada, criou o Festival das Línguas, através do Flávio ulhôa

Espaço interno da casa do Sagarana: uma fazenda do século XVIII reconstruída em Mariana para promover encontros culturais e musicais

qual produziu 46 peças de teatro com os alunos do curso de francês da Ufop. Madalena foi criadora de uma metodologia de ensino da língua francesa por meio de encenações teatrais. Sua obra é táo importante que o Sagarana contratou, recentemente, como bolsista, o estudante de Letras da Ufop ,Marcus Viera Queiroz, para organizar o acervo da produção artística da professora. “Esse acervo interessa aos estudantes de metodologia, dramaturgos e a toda comunidade, pois através dele é possível conhecer parte da história dessa casa tão importante para Mariana”, informou Marcus. Após a morte de Madá, em 2008, sua filha Ana Lana Gastelois assumiu a coordenação do Sagarana, mantendo a filosofia da casa. Somente este ano foram produzidos mais de 100 eventos musicais, como o Interarte – Encontro de Cultura Reggae –, o VI na Boca do Balão, a 1° Feira de Artes, o 1° Encontro Fora do Eixo no Festival de Inverno Ouro Preto e Mariana, além de hospedar a equipe dos alunos de cinema de Cuba que veio gravar um curta em Ouro Preto. Segundo Ana, o Sagarana está aberto para quem quiser produzir eventos culturais. “Acredito que passo a passo as pessoas vão conhecendo a casa e sua proposta, assim proporcionaremos cada vez mais espaço para trocas de conhecimento”, afirmou a coordenadora.


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MARIANA, OUTUBRO DE 2011 Edição: Allan Almeida e Érica Pimenta

Observe a suavidade das árvores fotos: elizabeth camilo

Elisabeth Camilo

De alguma forma, a vida se torna mais corrida e quase não temos tempo para admirar a beleza de nossas árvores. Sinceramente, já nos acostumamos em lidar com a pressa, com o trânsito que se tornou pior nos últimos meses, com a poeira das obras intermitentes, com a preocupação muito válida a respeito da invasão de empresas mineradoras na cidade, tirando-lhe a saúde e a beleza. Mas é preciso manter a poesia em nosso olhar e nos despertar para as dádivas que a natureza tão prodigamente nos oferece. Alguém pode, então, dizer que isso é pieguice de cronista, sensibilizada com a chegada da primavera. Pode argumentar que nessa estação as árvores florescem, e daí? Daí que elas florescem o ano inteiro, cada espécie em meses diferentes, permitindo que nunca faltem flores para o sensível olhar, que vai retratá-las na forma de crônica, de poema, de pintura, de fotografia ou de simples ato de admirar. Lá na rodovia MG-129, marcando o espaço onde o cidadão entra e sai dos ônibus, magnífica gameleira é referência para se chegar à Igreja de São Pedro ou ao hospital. Imensa e sempre verde, em seus mais de cem anos, acolhe sob sua sombra quem vem e quem vai. Há apenas alguns metros, outra árvore se veste de branco algodão, após ter se despido de todo sua verdura no inverno. Os ipês surgem em todos os lugares, nos cerrados e na beira das estradas, na mata do Instituto de Ciências Humanas e Sociais ou perto da margem do poluído rio. A paisagem se veste de verde e amarelo entre agosto e setembro, como em um ritual. Ao lado das patas de vacas, com suas flores brancas, algo sublime ocorre: o ipê branco (foto ao lado) busca, de forma quase desesperada, as últimas reservas de energia e explode em flores, que são mais efêmeras do que os sonhos. Em menos de 12 horas, toda a florescência se desfaz e temos que concordar com o anônimo que me diz, ao me ver fotografando o “evento”, que toda a brancura é um grito de socorro aos céus, pedindo chuva.

Ao lado da ponte e próximas à Praça Tancredo Neves, florescem o ano inteiro árvores variadas, entre as quais as quaresmeiras roxas e rosas. E, ainda, duas árvores altivas se entrelaçam no ar com flores cor de ferrugem, durante uma semana, entre outubro e novembro. E em toda a cidade, coqueiros e palmeiras se espalham aqui ou ali, plantados pelas pessoas ou surgidos da mãe natureza como milagres sem explicação. Girassóis de abril nascem no mato e paineiras duplicam a poesia, pois após se cobrirem de flores rosadas, depois se

enfeitam de algodão, que flui ao chão como sereno. Pitangueiras exibem sua neve para depois se tornarem rubras de frutas; cercas assistem a disputa entre jasmins amarelos , buganvílias de todas as cores bem como de outras espécies de flores que eu nunca soube o nome ao certo. Fica então o convite: mesmo na pressa, mesmo no trânsito, naquela correria do dia-a-dia. Observe a beleza das árvores. Permita a seus olhos momentos diários de poesia, admirando a suavidade das flores e das árvores para nós oferecidas no menu de cada dia.

Histórias de um passado que poucos conhecem foto: gracy laport

Gracy Laport

Carlos Fonseca, fundador do Minas Adega e Bar, mostra fotos da época em que o estabelecimento funcionou em um porão na Rua Direita

Rua Direita, número 94-A, Mariana, Minas Gerais. Das cismas que amadurecem no peito, Carlos Fonseca fez deste endereço, cercado pelo passado persistente nas ruínas da Rua Direita, um distinto espaço na cena cultural marianense da década de 80. 16 de maio de 87. Após um ano abrindo espaço em meio aos afetos de criança, Carlos reforma o porão de sua casa para inaugurar o Minas Adega e Bar, primeiro piano-bar da cidade. Da vitrola ouvia-se a revolução cultural que baratinava o mundo em 68 por Caetano, Gal, Gilberto e Chico, dispostos no repertório musical que fazia ouvir também jazz, MPB e rock’n roll. O piano estava lá, a cargo dos ami-

gos que compunham a boemia de Mariana, varando a noite em rodas dissonantes mas dispostas de som, letra e cor. Os “fiscais da moral” estavam fora, para trás, nos longínquos anos 60. No Minas Adega e Bar entrariam sem censura ou acanhamento Vinícius de Morais, Drummond, Aphonsus de Guimarães, Fernando Pessoa e outros lidos e vividos muitas vezes pelos amigos que antes se divertiam sob os olhares de vigília da família nos bailes da cidade. Carlos não fez mudanças drásticas no lugar que recebia amigos e onde motivos funestos aos olhos desatentos eram urgência para que comemorassem . Seria uma violação. E, ainda que os peregrinos da memória preguem pe-

ças nos olhos, o Minas parece ser ainda uma cisma, já amadurecida, no legado das importâncias que se cultivam na alma. Basta vasculhar o lugar e os arquivos que o preservam. Minas, como prenunciou Drummond, é dentro e fundo. Coincidência ou legado, Carlos Fonseca recebeu o batismo popular de Carlos do Minas. Como os homens, é sabido que os lugares possuem “reconhecências”. Se o Carlos do Bida passou a chamarse Carlos do Minas, o Minas Adega e Bar pode ser conhecido como o Minas do Carlos, o Minas de uma geração. Pois, além das “reconhecências” que carrega, traz um fulgor de pertencimento. É que a palavra Minas não é só uma palavra, mas uma verdade.


Jornal Lampião - 3ª Edição