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ABRIL 2012 Um ano depois da entrada de Francisco José Viegas, o Secretário de Estado já conseguiu fazer várias proezas: além das típicas quebras de promessas (não haver cortes cegos), deverá conseguir ser o responsável pela área da Cultura que mais verbas retirou. O JUP fez as contas, a nível nacional este Governo já retirou às várias áreas da Cultura pelo menos 45%.

DESTAQUE / P 04-07

ADEUS CULTURA!?

UP NÃO AUMENTA UM ANO OCCUPY PROPRINAS DEPOIS D0 WALL STREET 12 DE MARÇO O Conselho de Reitores das Universidade Portuguesas propôs o aumento das propinas para o novo máximo. Essa proposta seria no sentido de usar a diferença entre e propina actual e a máxima para financiar o fundo social de emergência. A Universidade do Porto não aceitou a proposta.

Jornal da Academia do Porto | Ano XXIV | Publicação mensal | Distribuição gratuita directora Nuno Moniz | chefe de redação Maria Eduarda Moreira directora de fotografia Ângela Ribeiro | director criativo Sergio Alves

EDUCAÇÃO / P 08

Um ano depois da manifestação que abalou o país e a política nacional, fizemos um apanhado do que aconteceu desde a sua preparação até aos dias de hoje. Entretanto, mudou o Governo e a Troika continua por cá. Falámos com o Adriano Campos para ter a opinião de alguém que ajudou a montar a "Geração à Rasca" no Porto.

SOCIEDADE / P 12

Fez-se eco em todo o mundo. Em frente ao, provavelmente, maior símbolo do capitalismo internacional, as pessoas juntaram-se em protesto e ali ficaram: fizeram-se acções, debateu-se e reuniu-se multidões. Na comemoração dos seis meses do OWS, José Soeiro traz-nos uma crónico do que viu por lá.

INTERNACIONAL / P 14


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JUP — ABRIL 2012

EDITORIAL E OPINIÃO

EDITORIAL

Não querem saber da Cultura Não será certamente razão para dar um “parabéns” a este Governo, e em especial a Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura. Com uma ou outra excepção, são consecutivos os Governos que de uma maneira ou outra, têm conseguido esvaziar o apoio à criação artística. Seja pela incapacidade de desenvolver programas coerentes a nível nacional, seja por austeridade, seja por desconhecimento de causa, seja por falta de dinheiro, seja por Outra razão qualquer. Desculpas sempre houveram, sempre haverão: desculpem a tripla redundância, mas chegámos a um momento em que não existem desculpas. Viegas, feliz responsável do pós-Ministério da Cultura, leia-se Secretaria de Estado, apesar de apreciado ao início pela própria ex-Ministra Gabriela Canavilhas que também tem estado embrulhada na barafunda que criou com o Projecto de Lei da Cópia Privada, vulgo PL118, tem dado todas as razões a todos as áreas da Cultura para desgostar profundamente do seu trabalho. Para não falar da sua honestidade. Uma das primeiras coisas que o Secretário de Estado da Cultura disse, após ser empossado, foi que não faria cortes cegos. Deu meia volta e, ao abrigo da omni-potente e para tudo justificação austeridade, acabar com os apoios pontuais e anuais, e para que não haja dúvida que é para ir além da “troika”, reduzir os restantes apoios em 38%. A Direcção-Geral das Artes é responsável pela atribuição de subsídios à criação artística. Eles existem para que centenas de projectos artísticos possam chegar à luz do dia e ao alcance de nós, “comuns cidadãos”. Nesta edição o Jornal Universitário do Porto deu-se ao trabalho (com bastante agrado) de procurar e sintetizar a informação relativa ao apoio à criação cultural em Portugal, nomeadamente os apoios da Direcção-Geral das Artes. Os resultados não poderiam ser mais preocupantes, ou mesmo chocantes. Uma boa imagem cabe em duas frases: a nível nacional, as áreas de Arquitectura, Artes Digitais e Fotografia ficaram sem qualquer apoio; a redução de apoios foi de cerca de 45%, correspondendo a um corte de 8 milhões de euros – no total os apoios encontram-se nos 9 milhões e meio. Sem surpresa, e não poderia deixar de ser, a promessa de que os apoios, após os cortes, não seriam inferiores a 13 milhões foi quebrada. “Enganas-me duas vezes, o tolo sou eu”. Estão a destruir a criação artística em Portugal e o único perigo é que só nos apercebamos tarde de mais. Provavelmente, o sinal mais claro desse momento será quando o exemplo máximo de Cultura seja gozar com pessoas que têm a coragem (sendo que algumas será a audácia) de ir cantar a um programa de televisão. Não está assim tão longe, pois não? Nota do director do JUP e membros do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto Soube há poucos minutos, a meio da escrita deste editorial, que o jornalista e eurodeputado Miguel Portas faleceu. Pela sua combatividade tanto como jornalista, ao arriscar inventar novas ideias para o jornalismo, como representante político, nunca recusando dar a cara pelas suas ideias, como quando atravessou o Líbano debaixo de bombardeamento israelita, em nome de todos os membros do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto e em meu nome, deixo esta homenagem a um companheiro e camarada que fará, a todos nós, demasiada falta. • Nuno Moniz, Ricardo Sá Ferreira, Dalila Teixeira, Sérgio Alves, Sandra Mesquita e Luís Monteiro

Miguel de Sacadura Cabral Portas (1958-2012)

DIRECÇÃO NJAP/JUP

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erdidos nesta amálgama de questiúnculas produzidas pela política espectáculo conjuntamente com o frenético ritmo mediático, determinado profundamente por critérios comerciais, vamos absorvendo visões e narrativas sobre uma realidade que nos é construída e imposta, nesta conjugação bem íntima entre o campo político e o campo mediático. Ao mesmo tempo, somos convocados diariamente ao questionamento dessas narrativas: algo não bate certo, quando os sacrifícios que se justificam pelo problema da dívida acabam por agravar o mesmo. Mas à medida que a crise se agrava e na ausência de narrativas alternativas, o desespero e a insegurança acerca do futuro exigem uma imediaticidade a que o tempo próprio da construção das alternativas não consegue responder. Acresce que a própria ideia de inevitabilidade também conduz ao conformismo. Para concretizar: é no ano em que mais bolsas de acção social foram cortadas que menos discussão e conflito estudantil acabamos por ter, sobretudo comparando com as grandes manifestações de 2009 e 2010. E não é fácil porque o tempo necessário para o conhecimento e para a partilha de memória nem sempre é possível de ser criado. E sem ele, afastamo-nos da leitura histórica dos acontecimentos políticos, naquele que é um dos periodos mais marcantes na história da nossa democracia em degradação. Que é como quem diz: perdemos a capacidade de colectivamente debater as questões relevantes do nosso tempo, os factos económicos, sociais e políticos que vão transformando de forma brutal a nossa sociedade. A questão da dívida, sobre a qual aterrou uma narrativa absolutamente hegemónica (a tal da inevitabilidade da austeridade nas contas públicas como solução) é a grande questão politica do nosso tempo. Em vez de amplo debate público, a ideia que o poder politico construiu e os media divulgaram acríticamente acabou por gerar um dominante consenso na ideia de que a austeridade paga a dívida. E assim se

DIRECÇÃO JUP

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO

director Nuno Moniz director criativo Sergio Alves chefe de redacção Maria Eduarda Moreira director de fotografia Ângela Ribeiro directora de ilustração Mariana, a Miserável

Adriano Campos, Alexandra João Martins, Ana Almeida, Ângela Ribeiro, Carolina Vaz-Pires, Cláudia Santos, Daniela Armada, Dalila Teixeira, Diogo Fernandes, Filipa Guimarães, Filipa Sousa, Filipe André, Francisca Paiva, Gabriela Araújo, Inês, Andresen de Abreu, Inês Faria, Ivone Barreira, Joana Cruz, Joana Domingues, João Bragança, José Miranda, José Soeiro, Luis Rodriguez Amayuelas, Margarida Castro, Maria Eduarda Moreira, Marta Lago, Melina Aguiar, Nuno Moniz, Paulo Alcino, Pedro Ferreira, Pedro Santos Ferreira, Ricardo Couto, Ricardo Lima, Ricardo Norton, Sandra Mesquita, Tiago Reis (UP) e Vera Quintas

EDITORES

presidente Ricardo Sá Ferreira vice-presidente Dalila Teixeira vogal JUP Luís Monteiro vogal galerias Hugo Sousa publicidade Sandra Mesquita

Já estamos em incumprimento. Para com a democracia.

educação Daniela Neto sociedade José Miranda desporto Ricardo Norton cultura Vera Quintas internacional e economia Nuno Moniz opinião Luís Monteiro

legitimam as políticas que irão produzir as grandes transformações nas nossas sociedades, nos próximos largos anos, se nada de muito significativo acontecer, e assim se sustentam o fim dos serviços públicos, o corte nos salários e o aumento dos impostos mais injustos. O conhecimento da história surge então como uma arma perigosa para a manutenção do consenso da inevitabilidade. Só o facto de já todos os países do mundo, incluindo os próprios Estados Unidos, terem entrado por mais de uma vez em incumprimento, sobretudo quando os juros usurários dos credores passavam a ser incomportáveis, é relevante para contextualizar o momento que estamos a viver e libertá-lo do dramatismo e do medo que impõem a resposta única à crise. Na ausência de preconceito ideológico, só podemos entender como ilegítimo os termos dos empréstimos que o FMI e o BCE impuseram aos países da periferia (na maioria das vezes, para gáudio dos governos liberais que nesses países encontram agora a oportunidade de levar a cabo o seu programa ideológico privatizador que sempre quiseram executar – “ir além da troika” é a missão assumida por este governo). Mas insistindo na importância da memória histórica sobre a dívida, seria interessante começarmos a recordar os trabalhos de Samir Amin ou de Andre Gunder Frank e as análises que os dois sociólogos fizeram das dinâmicas pós-coloniais patentes num sistema mundo marcado por relações de dependência económica entre os países de centro antigos colonizadores e os países da periferia mundial ex-colonizados, tanto no caso de norte de África como da América Latina: nos anos 60 e 70 as desigualdades estruturais ergueram-se primeiramente por via das relações comerciais desiguais (comprar bens de alto valor acrescentado e vender os de baixo) e na desigual divisão mundial do trabalho onde encontram sempre no juro dos empréstimos (necessários para compensar os desiquilibrios criados pelos primeiros dois factores) o último factor de dependência. Ou seja, o juro não é mais que um

instrumento político de perpetuação das desigualdades entre os países de centro, mais desenvolvidos e com maior concentração de capital e os países periféricos e menos desenvolvidos com menor concentração de capital e cujo factor trabalho é mais barato. A única solução possível passou pelo perdão total ou de parte da dívida ou pela reestruturação das dívidas e dos termos considerados ilegítimos. É o que se passa na realidade europeia. Se olharmos aqueles que são países periféricos mais marcados por esta crise da finança (Grécia e Portugal) e os países que determinam o rumo da politica europeia percebemos como o discurso do “gastamos acima das nossas possbilidades” para os países da União com os estados sociais mais fracos e incompletos nas suas funções sociais, não passa de uma visão ideológica, com traços de xenofobia (PIGS?), que visa esconder as dinâmicas do sistema mundo capitalista e bem presentes nas relações europeias. E bem patentes nas escolhas institucionais em que assenta a construção europeia (como a política do BCE que financia os bancos a 1% para que estes vendam aos estados a 7% - sabemos de que países são os principais bancos financiadores e quais os estados a precisar de financiamento). A narrativa da inevitabilidade impõe-se também com a política do medo - o medo das consequências do incumprimento - que nos conduzem por rumos “inevitáveis” que a história sempre nos mostra que nunca o são. São estas condições que legitimam a aplicação do programa liberal mais agressivo e capaz de nos fazer recuar em muitas das conquistas civilizacionais que as sociedades alcançaram. E no fim, como se nada mais bastasse, ainda mais dívida nos resta. Soubéssemos que sobre dívida já estamos todos em profundo incumprimento: por falta de discussão pública acerca da dívida e do seu carácter politico, imperialista e promotor de desigualdade entre os povos da Europa. E que esse é que é o nosso maior incumprimento. Aquele para com a democracia.• José Miranda

ilustradores — Joana Estrela, João Drumond, Lara Luís, Mariana, a miserável, Óscar Afonso, Rafaela Rodrigues, Rita Roque, Rudolfo e Toni Toninha

pré-impressão Jornal de Notícias, S.A. impressão Nave-printer - Indústria Gráfica, S.A. propriedade Núcledo de Jornalismo Académico do Porto/ Jornal Universitário redacção e administração Rua Miguel Bombarda, nº 187 - R/C e Cave | 4050-381 Porto, Portugal tlf 222 039 041 e-mail jup@jup.pt

imagem de capa Lara Luís depósito legal nº 23502/88 ti, ragem 10.000 exemplares design sergio-alves.com tipografia Trump Gothic by Canada Type e Mafra by DSType

APOIOS Reitoria da Universidade do Porto, Serviços da Acção Social da Universidade do Porto, Universidade Lusófona do Porto, Instituto Português da Juventude


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OPINIÃO

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Onde estavas no 25 de Abril de 1974?

Dalila Teixeira | 24 anos Estudante de Jornalismo e Ciências da Comunicação Diogo Dias| 23 anos Estudante de Design de Comunicação Para ser sincero as minhas lembranças desses tempos estão algo obscurecidas. Lembro-me vagamente de me encontrar algures num espaço muito diminuto, porque passava o tempo às cabeçadas contra a parede! E escuro também… mas não me lembro de ter frio… era porreiro até. De resto não sei mais o que dizer, o 25 de Abril de 1974 passou-me assim um bocado ao lado, mas que fique acente que a culpa não é minha! São coisas da vida acho eu.•

Era para nascer vinte anos antes mas cedo percebi que treze anos depois era muito mais apropriado. Deu-me jeito para aperfeiçoar ideias na barriga de uma coala. Aos dois anos de gestação já falava fluentemente chinês, francês e finladês; suspeitando que me iam mandar emigrar dali a algum tempo. Aos seis anos compro uma vespa amarela mas aos onze o avô Paulo convence-me a trocá-la por um submarino côr de beringela. Dois anos depois descubro que o mundo vai andar de cuecas cor-de-laranja. Estava em 1987, não gostei da cor e decido-me. Certidão de nascimento: “Dalila Teixeira Piegas”. •

Rui Silva| 22 anos Estudante de Design de Comunicação Até parece que foi há 38 anos atrás... A minha vida corria bem como censor durante a ditadura, Comigo não se fazia o que agora se faz, A vida era tão boa durante a censura. Não havia pornografia, Nem sequer comentários políticos como agora se vê, Quem se oposesse, mais ninguem os via, E ninguém tinha de saber porquê... Maldito Salgueiro Maia, Que liderou a maldita revolução, Agora até nudismo se faz na praia, E permitem morangos com açucar na televisão. •

Gonçalo Cabral Ferreira | 17 anos Estudante de Ciências Estava a contrabandear coca-cola e revistas de senhoras desnudas. Estava na fronteira, sem cobertura 3G, portanto só soube quando cheguei a Lisboa, umas semanas depois. Aí já toda a gente sabia e já havia coca-cola e playboys aos pontapés, e ninguém me comprava nada. O 25 de Abril arruinou-me. •


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DESTAQUE

QUASE UM ANO DEPOIS DESTE GOVERNO ENTRAR EM FUNÇÕES, JÁ QUASE NÃO RESTAM DÚVIDAS: ESTE GOVERNO CAMINHA A PASSOS LARGOS PARA SER O MAIOR CARRASCO DA CULTURA. DEPOIS DE PROMETER QUE NÃO HAVERIAM CORTES CEGOS, ACABOU COM OS APOIOS PONTUAIS E ANUAIS E CORTOU EM 38% OS RESTANTES. O JUP DEU-SE AO TRABALHO DE FAZER AS CONTAS COM OS NÚMEROS OFICIAIS: NO NORTE, O MAIOR CORTE A NÍVEL NACIONAL, É DE 47%. O SUBFINANCIAMENTO ALIADO AO ESTADO DOS EQUIPAMENTOS NO PORTO, SÃO A FEIA IMAGEM DA IDEIA DE CULTURA QUE A CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO E ESTE GOVERNO TÊM. por Alexandra João Martins, Carolina Vaz-Pires, Filipe André, Inês Faria, Maria Eduarda Moreira, Nuno Moniz Sandra Mesquita, Vera Quintas ilustração Lara Luís fotografia Ângela Ribeiro


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DESTAQUE

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> SITUAÇÃO DOS EQUIPAMENTOS

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entro de um mês Francisco José Viegas “celebrará” um ano como Secretário de Estado da Cultura. Em doze meses, Viegas fez e quebrou promessas, cortou alguns apoios à criação artística em 100% e conseguiu estrangular uma boa porta dos agentes culturais em Portugal. Francisco José Viegas, eleito como independente nas listas do PSD, no distrito de Bragança, era referenciado, já mesmo antes das eleições, como o provável sucessor de Gabriela Canavilhas, na pasta da Cultura. A ex-ministra, agora deputada da bancada do PS, apesar de ter reconhecido mérito a Viegas, viria a concluir que a estratégia política do novo Governo "não conta com a cultura como um dos seus pilares". O Secretário de Estado esclareceu as suas ideias para a Cultura: atrair os privados para o apoio à cultura, apostar na educação para formação de público e envolver o Ministério da Economia em áreas como o património. Deixou claro que a tendência crescente seria a de “atenuar” o apoio à criação artística, tendo suscitado uma grande dúvida nos agentes de criação cultural sobre a viabilidade dos seus compromissos. Questionado sobre o modelo de apoio às artes, respondeu: “Não haverá cortes cegos. E serão todos discutidos”. O escritor, que um mês antes das eleições de 5 de Junho de 2011 respondeu quando questionado se aceitaria um convite para integrar o Governo com risos e um “é uma das coisas que menos me preocupam”, já se tornou conhecido pela sua acção na pasta que lhe ficou incumbida: além do corte no Orçamento de Estado, quebrou a promessa de que não haveriam cortes cegos e cancelou os apoios pontuais e anuais para criação artística em 2012 e reduziu em 38% os apoios bienais e quadrienais. O impacto sentiu-se automaticamente: menos produção artística, estrangulamento financeiro dos agentes culturais e a contínua degradação dos equipamentos culturais.

> MINISTÉRIO DA CULTURA PASSA A SECRETARIA Em Junho de 2011, com a eleição de Pedro Passos Coelho, o Ministério da Cultura foi extinto em prol de uma Secretaria-Geral, presidida por Francisco José Viegas. A medida polémica, tomada pelo então recém-chegado primeiro-ministro, gerou opiniões controversas. A Cultura foi uma das primeiras áreas a ser alvo de reformas por parte do novo governo. Com a decisão de despromover o Ministério da Cultura, a secretaria-geral visava a poupança de 2,6 milhões de euros anuais na despesa pública, através da redução em 31% das estruturas orgânicas, em 36% no número de dirigentes superiores e intermédios e em 28% nos custos dos cargos dirigentes e subsequente reestruturação organizacional. O novo modelo da secretaria de Estado da Cultura obrigou à criação do Agrupamento Complementar de Empresas (ACE), nascido das cinzas do Organismo de Produção Artística (OPART), que assegura a gestão das entidades públicas empresariais Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional de São João, Teatro Nacional São Carlos, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema - e Companhia Nacional de Bailado. Levou-se ainda a cabo a fusão de organismos com a Direcção-Geral do Património Cultural, a substituir o Instituto dos Museus e da Conservação, o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico e a Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, enquanto a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas passou a aglomerar a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e a Direcção-Geral dos Arquivos. As reacções à despromoção do Ministério da Cultura por parte da secretaria-geral foram imediatas. Enquanto alguns receiam o desleixo e a não-intervenção do Estado no sector, outros desdramatizam argumentando ser uma mera questão de designação. Já o ministro da Cultura grego, Pavlos Geroulanos, diz ser uma “pena” e uma “loucura” Portugal não ter Ministério da Cultura.

A Cultura tem cada vez menos motivos para sorrir, e a vertente dos equipamentos, que inclui teatros e salas de concertos, por exemplo, não poderia deixar de se ressentir com a situação actual. O JUP foi averiguar a situação de alguns dos casos mais emblemáticos do Porto. Os cortes no financiamento da Cultura chegam imediatamente aos equipamentos geridos a nível nacional, como é o caso do Museu Nacional Soares dos Reis, do Centro Português de Fotografia e do Teatro Nacional de São João (que engloba também o Teatro Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória). O público talvez não sinta os cortes na programação principal, pois estes reflectir-se-ão mais a nível técnico. Por exemplo, os museus vão ser mais lentos a restaurar peças ou haverá menos segurança (na Grécia isto deu origem a roubos de valor incalculável). No que toca a espaços como a Casa da Música, que resulta de uma parceria público-privada, provavelmente vão continuar a ter grandes concertos na agenda, mas o mesmo não se deverá aplicar a actividades paralelas como workshops ou conferências. No final de Março este espaço fechou o ano sem lucros nem prejuízos, conseguindo menorizar os efeitos da perda de financiamento, por agora. No que toca aos equipamentos geridos a nível local existem, por exemplo, o Teatro do Campo Alegre, que tem uma companhia residente e o Seiva Trupe que não tem capacidade de ocupação total do espaço. Recebe algumas iniciativas soltas, como as Quintas de Leitura, e a sala de cinema está a cargo da produtora Medeia, que no Porto não tem mais nenhuma sala. Veja-se também o exemplo da Casa das Artes, que está a ser alvo de remodelação, estando quase concluída. A ideia de usar este espaço como pólo da Cinemateca, gerido pelo Cineclube do Porto, falhou devido aos cortes. Assim sendo, possivelmente há um espaço que, quando completamente remodelado, vai estar vazio por tempo indeterminado. Um dos grandes problemas destes espaços geridos a nível local é o facto de não haver uma rede de gestão cultural, uma só entidade que conjugue os programadores com os espaços que estão sem programação e sem abertura para quem produz. Hoje em dia, um espaço emblemático como o Rivoli, que já tanta tinta fez correr, prossegue sem gestão, como uma mera sala de aluguer. Não só sofrem os espaços, como a produção que neles se deveria realizar. Os sectores de investigação, criação e novos públicos serão certamente afectados, e haverá falta de novos conteúdos e novos artistas, que não terão visibilidade ou meios para levarem os seus projectos avante. Será mais fácil e seguro investir em projectos que garantam bilheteira, ou seja, proporcionar meios a quem já os tem. Outros ver-se-ão obrigados a recorrer a financiamento privado, o que levanta a questão da independência, ou não, de conteúdos. Em Portugal há o caso do cinema de animação, que apesar de dar cartas dentro e fora do país, não é lucrativo. Está, por isso, em risco, pois sem financiamento não poderá subsistir. Esta actividade é apoiada pela Casa da Animação, uma entidade privada, que tenta apoiar a área recorrendo a subsídios. Será que a máxima do “não tendo apoio do estado, não se existe” vai prevalecer?

-> Apoios da Direcção-Geral das Artes O antes e o depois do Norte

-100,00%

27.885,63€ > 0.00€ Arquitectura

0,00% 0.00€ > 0.00€ Artes Digitais

-38,00%

38.212,00€ > 23.691,44€ Artes Plásticas

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DESTAQUE

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> SITUAÇÃO DE VÁRIOS CASOS - CRISE NAS COMPANHIAS PORTUENSES” Samuel Rego, da Direcção-Geral das Artes, comunicou, no fim de 2011, o novo corte orçamental do governo no sector da Cultura, 38% em relação a 2009. Perante esta situação, o JUP quis saber de que forma é que as diversas companhias portuenses sentem e lidam com esta nova realidade. A organização do Teatro Universitário do Porto (TUP), afirma que não vai diminuir o número de produções e, quanto aos apoios, aguarda uma resposta da Gulbenkian e da Reitoria. O Teatro de Marionetas do Porto (TMP) encontra-se numa situação bem diferente, tal como todas as estruturas que contam com o apoio financeiro da Direcção-Geral das Artes. Foram várias as alterações, como a relação contratual com colaboradores e a reformulação de despesas. O trabalho do TMP mantém a dinâmica habitual, apesar do trabalho, vendas e circulação ter diminuído em relação aos anos anteriores, diz Sofia Carvalho, elemento da produção. A companhia Seiva Trupe viu-se obrigada a reduzir drasticamente a sua programação, pelo que está a apresentar obras teatrais que, independentemente do seu valor social, artístico e cultural, envolvem menores custos e não estão ligadas à implantação e história da companhia. Numa situação ainda pior encontra-se o grupo “As Boas Raparigas”. Perderam um dos seus grandes activos, o Estúdio Zero, um teatro de bolso equipado tecnicamente, através de financiamento público, e sofreram a demissão da sua produtora, que trabalhava a tempo inteiro para a companhia e para o espaço. Mesmo assim, “As Boas Raparigas” continuam a trabalhar numa co-produção com o Teatro Nacional de São João e Artistas Unidos, para a leitura encenada de Dancing Elétrico, de Enda Walsh. Trabalham, igualmente, na apresentação de Slowly, de Howard Barker, em Novembro, no Teatro Carlos Alberto, em co-produção com o TNSJ, enquanto é editada a mesma obra em livro. O “Visões Úteis” (VU) viu-se obrigado a reduzir o seu quadro de pessoal, extinguindo postos de trabalho. Diminuiu o número de novas estreias, apostando mais na circulação de produções anteriores, diz-nos Carlos Costa, Director Artístico do VU. O Teatro do Bolhão, apesar de não questionar a necessidade de se agir em conformidade no contexto recessivo geral, não consegue perceber o motivo deste corte no apoio financeiro a que foi sujeito o sector cultural. Relativamente ao Porto, esta medida tem um grande impacto nas 12 companhias e dois festivais, que terão, em 2012, um financiamento médio de 76 mil euros. Assim, as estruturas teatrais estarão em modo de subsistência. Prefigura-se uma degradação do tecido teatral e ainda um forte agravamento das condições de trabalho dos profissionais deste sector. A organização sugere, ainda, que cabe à Comunicação Social a defesa e promoção de uma imagem positiva do teatro que se faz em Portugal, ainda que com recursos muitas vezes exíguos. Defendem, igualmente, que, neste momento, é preciso apostar na captação de públicos através da comunicação social, que tem um papel fundamental. O director do Teatro Art'Imagem, José Leitão, afirma ao JUP que a situação cultural em Portugal está em "estado de coma". Todos os programas foram readaptados e as estruturas teatrais - pequenas empresas com trabalhadores assalariados, como muitas outras - tiveram de despedir membros, adiar projectos, cancelar contractos com outros profissionais e instituições, deixar espaços onde trabalhavam e emagrecer elencos, desdobrando personagens nas peças onde isso foi possível. José Leitão refere que a Câmara Municipal do Porto parece não ter qualquer plano elaborado para a cultura na cidade e que deixou praticamente de apoiar e colaborar com as estruturas teatrais e culturais, centrando a sua actividade no entretenimento e diversão. Será necessário o despedimento de três quartos dos trabalhadores, reestruturar a actividade de criação e produção e ainda deixar as instalações da Rua da Picaria, o Tzero.com. palco, onde muitas companhias da cidade têm ensaiado e preparado os seus espectáculos. Dentro deste contexto, a 31.ª edição do “Fazer a Festa” - Festival Internacional de Teatro, o 3.º mais antigo de Portugal, não está assegurada com o apoio da DGArtes. Apesar dos vários cortes terem obrigado as companhias a readaptarem-se a esta realidade, todas elas vão continuar a trabalhar naquilo que sempre foi a sua paixão, o teatro.

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-47,36%

364.646,26€ > 191.955,88€ Cruzamentos Disciplinares

-50,08%

216.082,41€ > 107.877,15€ Dança

0,00%

0,00€ > 0,00€ Design

> ANTEVISÃO: O ROTEIRO DO DIA MUNDIAL DA DANÇA No próximo dia 29 de Abril é comemorado o Dia Mundial da Dança. O JUP seleccionou alguns dos espectáculos que assinalam a data e levam a dança a algumas cidades da região. Na Invicta, um flash mob, organizado pelo Núcleo de Experimentação Coreográfica, promete espalhar o ritmo pela Avenida Rodrigues de Freitas. O Balleteatro abre as portas a aulas gratuitas das 10h às 17h e, pouco depois, pelas 19 horas, exibe V.E.R - Vermelho Encarnado e Rubro, com direcção artística de Ana Macara. Um espectáculo, inspirado na obra de Roland Barthes, que pretende recuperar o valor das emoções levadas ao rubro pelos corpos. Vila do Conde celebra a Dança nos dias 28 e 29 de Abril com uma exposição de fotografia, espectáculos de escolas de dança, um concurso de vídeo-dança e apresentações de diferentes companhias e coreógrafos. A iniciativa conta ainda com Amélia Bentes como coreógrafa convidada. Já em Santo Tirso as Celebrações do Dia Mundial da Dança levam, a partir das 18 horas, vários ritmos ao auditório Engenheiro Eurico de Melo. Por último, em Braga, o Teatro Circo programou, de 29 de Abril a 5 de Maio, actividades, espectáculos, formações e aulas para públicos de todas as idades.

> CAMPANHA “WE ARE MORE” – AGIR PELA CULTURA NA EUROPA A campanha We Are More – act for culture in Europe (nós somos mais – agir pela cultura na Europa) teve início em 2010 e tem duração prevista até 2013, ano em que a União Europeia vai tecer decisões importantes sobre o próximo orçamento multianual. A We are More rege-se pela valorização das artes e da cultura a nível europeu e foi criada pela Culture Action Europe, numa “parceria estratégica” com a Fundação Europeia da Cultura. O nome provém da necessidade de envio de uma “mensagem ampla” e “positiva”, numa iniciativa que se propõe a mostrar que “as comunidades e as organizações artísticas fazem mais e contribuem mais para as sociedades do que é visível à primeira vista”. A campanha defende que, para que exista um crescimento “e uma democracia próspera no futuro” a União Europeia (UE) tem que fazer investimentos para atingir “os seus objectivos de crescimento”. São a cultura, o património e as artes, em conjunto com a educação, a coesão social e a sustentabilidade ambiental, que a We are More define como “áreas-chave na UE”. Com cerca de 25 mil assinantes, a campanha pretende chegar aos 100 mil. A campanha Nós Somos Mais assegura que tem “duas exigências”. Ter um programa cultural reforçado, “mais arrojado e experimental” e também um maior apoio na área da cultura, para o património e para as artes nos Fundos Regionais de Desenvolvimento da União Europeia, “dedicados à coesão e ao desenvolvimento local e regional”: A petição prolonga-se até 2013 e deixa uma mensagem sobre o que considera ser a União Europeia: “A UE é mais do que carvão e aço, nós precisamos mais do que crescimento económico para ser felizes, nós somos mais do que meros consumidores”.


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> PORTO: UMA CIDADE DE ARTISTAS Viu nascer gente como Siza Vieira, Souto Moura, João César Monteiro e Manoel de Oliveira. Agora, afirma-se como a cidade portuguesa com mais escolas artísticas: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), Balleteatro, Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE), Escola Secundária Soares dos Reis (ESSR), Escola Superior de Artes e Design (ESAD), Escola Superior Artística do Porto (ESAP), Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo (ESMAE) e Escola Artística e Profissional Árvore. Mas porquê tanta oferta? Como relembra Miguel Carvalhais, director da licenciatura em design da FBAUP, “o Porto tem uma grande tradição no ensino artístico” e aproveita o “talento e vocações para as artes”, de acordo com Né Barros, directora do Balleteatro. Aliás, Francisco Beja, director da ESMAE, questiona se a razão da afirmação cultural portuense não passará pelas “tentações do mercado serem menores” pelo facto do “Porto ter grandes instituições culturais de referência” ou “por estarmos na moda”. Menos romântica é a ideia de José Fundo, subdirector da ESSR, que ironiza a questão, ao sugerir que as instituições de ensino surgem “para que as aulas ajudem a sobreviver” os que vivem da cultura, “uma área com tão pouco rendimento económico para os artistas”. Contudo, a curiosidade dos mais novos por esta área não pára de crescer. Porque o tempo em que tirar um curso era sinónimo de emprego seguro já lá vai, Francisco Beja formula a hipótese das “pressões familiares poderem ter diminuído” ao mesmo tempo que aumenta “a liberdade para opções por vocações”. Não surpreende Né Barros, que fala “das sociedades mais desenvolvidas” onde “as artes fazem, há muito, parte dos currículos académicos”. Sobre a qualidade do trabalho português, a opinião volta a ser unânime. Pinto da Silva, da Árvore, garante “sérios sinais de quebra ao nível qualitativo e quantitativo” para quem “depende do financiamento estatal”. Beja salvaguarda “a rara excepção” do mandato do Ministro Carrilho, mas o “país não teve nem tem uma política cultural consistente”, fazendo-nos confrontar com “o vazio” cultural. Falta “financiamento público”, “investimento privado e mecenato”, “projectos sustentáveis a médio e longo-prazo”, “público e infra-estruturas”, lamenta Carvalhais. A qualidade da formação gera polémica. Apesar de nenhum dos organismos afirmar que a qualidade do seu ensino está já severamente prejudicada graças aos cortes orçamentais, Carvalhais alerta que a situação possa atingir um nível insustentável, “de todo impossível” de manter. Ainda assim, o maior problema com o qual o ensino se defronta é “o agravamento da qualidade de vida nas famílias dos alunos”, diz Pinto da Silva, que exige um “maior esforço da Escola”. Ainda que se pense que as Artes são uma área só para sonhadores, o professor de Belas Artes anima: o mercado de trabalho local, “apesar de difícil”, “ainda não está saturado”.

-100,00% 41.085,60€ > 0,00€ Fotografia

-51,57%

510.990,72€ > 247.476,90€ Música

-44,69%

2.346.430,36€ > 1.297.864,66€ Teatro

-> O antes e o depois a nível nacional Alentejo 1.614.869,24€ > 887.467,34€ - 45,04% Algarve 512.981,06€ > 277.407,23€ - 45,92%

COMENTÁRIO DE ALEXANDRE ALBUQUERQUE (CENA) “Vamos partir de um pressusposto concreto: na Cultura portuguesa não há nenhuma área que viva sem dificuldades orçamentais. Perante este cenário qual a opção política do governo? Diminuir a sua orçamentação. O anúncio da não abertura dos concursos da DGArtes para apoios pontuais e anuais é mais uma prova de que o único plano para a Cultura é a sua aniquilação. Preve-se que os mais afectados sejam os jovens criadores e pequenas estruturas, muitas delas sem espaço próprio, que viam nestes apoios o seu balão de oxigénio. O CENA (Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual), do qual faço parte, encontra-se totalmente comprometido com a luta dos trabalhadores para a obtenção de mais direitos no trabalho, mas hoje essa luta não se cinge apenas a disputas laborais quotidianas, passa também pela denúncia da displicência com que a Cultura está a ser tratada. A criação artística está a ser posta em causa no nosso país, cabe a todos que a acham essencial defendê-la, afirmar que no meio de tantas medidas de suposto interesse nacional, a preservação da Cultura e da criação são, elas sim, de claro interesse nacional. Graças ao esforço de quem faz e vive do Espectáculo e do Audiovisual, estes têm-se mantido activos, em renovação constante, criando novos públicos, novos postos de trabalho e riqueza económica, mesmo em altura de crise. Este esforço tem de ser reconhecido”.

Centro 2.809.379,24€ > 1.564.524,96€ - 44,31% Lisboa e Vale do Tejo 9.106.606,98€ > 5.009.929,51€ - 44,99% Norte 3.545.332,98€ > 1.868.866,03€ - 47,29%

Total 17.589.169,50€ > 9.608.195,06€ - 45,37%

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JUP — ABRIL 2012

EDUCAÇÃO

por Ana Almeida e Joana Domingues ilustração Joana Estrela

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Conselho Geral da Universidade do Porto rejeitou, a 27 de Março, a proposta do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) para aumentar as propinas para o valor máximo. Com efeito, com o objectivo de reforçar um fundo social de emergência que garantisse os estudos aos alunos com dificuldades económicas, o CRUP recomendou às instituições superiores um aumento de 30 euros no valor total das propinas. A decisão de aceitar ou não a proposta ficou à responsabilidade de cada Universidade e, caso fosse aceite, entraria em vigor já no próximo ano lectivo. Um dos representantes do estudantes no Conselho Geral da UP, Bruno Macedo, explicou ao JUP que “cabe ao Conselho Geral decidir quanto ao aumento das propinas”. Embora o reitor da Universidade do Porto e vice-presidente do CRUP, José Marques dos Santos, tenha feito uma “proposta que ia precisamente de encontro àquilo que era recomendação do CRUP”, o Conselho Geral apresentou uma contraproposta que acabou por vencer, com catorze votos a favor, enquanto a do reitor recebeu apenas sete, afirma o representante. Bruno Macedo explica que os quatro representantes dos estudantes no Conselho juntaram-se e, quando receberam a “proposta do senhor reitor relativamente às propinas”, fundamentaram uma contraproposta. “Quando surgiu o ponto, tentamos puxar a discussão também e toda a gente participou, durou bastante tempo e chegou-se a uma posição relativamente consensual. Nem toda a gente votou favoravelmente, mas obteve-se uma maioria considerável”, acrescenta. O membro do Conselho Geral declara que, efectivamente, o fundo social de emergência já existe na UP, pelo que as questões que se prendem com o mesmo são o seu aumento e a sua revertência. Antes de ser tomada a decisão do não aumento das propinas, o Conselho Geral consultou a “própria execução do fundo social” e reuniu com os Serviços de Acção Social. Com efeito, descobriram que este “tem sido pouco solicitado” e que, igualmente, “tem sido atribuído quase uma totalidade” às pessoas que o solicitaram, assegura Bruno Macedo. O fundo social tem diversas particularidades, como o facto de não ter um alargamento relativamente ao regulamento de bolsas, e utilizar os mesmos critérios de eleição desse mesmo regulamento. Como afirma o membro do Conselho

Geral da UP, já se perderam, “nos últimos 2 anos, 40% dos bolseiros da Universidade do Porto. Por isso, ”este problema nunca ficaria resolvido, nem deve ser a própria universidade a substituir o Estado”. Para Bruno Macedo, o fundo social da UP “não resolve nem tem que resolver o sistema de apoio de acção social do Estado”. Assim, o estudante acredita que o fundo deve existir e que o mesmo “deve ser reforçado”. No entanto, essa tarefa não cabe aos estudantes, “senão estar-se-ia a prejudicar mais pessoas do que aquelas que viriam a beneficiar”, afirma. Decisão da Universidade do Porto é um “exemplo a seguir” O membro do Conselho Geral da UP acrescenta que o órgão máximo das Universidades “deve ser independente nas suas decisões”, de forma a que cada deliberação se faça “em função do que é melhor para a comunidade académica, isento de indicações externas, embora estas devam ser consideradas”. Foi o que aconteceu no caso da UP. Por isso, Bruno Macedo considera que esta decisão deveria servir de exemplo também para outras universidades. O representante acredita que esta é, efectivamente, “uma mensagem importante a passar” da parte dos estudantes, já que acabaram por “construir uma posição fundamentada, propuseram a suspensão antecipada e, depois, em discussão aberta entre todos os membros, foi aceite”. Para Bruno Macedo, tal factor é a prova de que a Universidade do Porto “acaba por ser construída por todas as entidades que a constituem, sem excepção”. Bruno Macedo acrescenta que “é isso que acaba por fazer uma verdadeira academia”, sendo este, portanto, “um grande exemplo que a UP tem a dar às outras universidades”. O estudante pensa, ainda, que estas “devem ver, principalmente, a mensagem da construção das ideias e das políticas da universidade também a partir dos seus estudantes, porque isso é bastante importante”. O representante dos estudantes do Conselho Geral da UP espera, ainda, que as universidades que acarretaram a recomendação do CRUP “cumpram, de facto, a utilização do fundo de emergência e que o alarguem o mais possível”,

sempre sem substituir o papel do Estado, reforça. “Não podemos correr um risco tão grande”, acrescenta Bruno Macedo. Presidentes de AE’s da UP aplaudem posição do Conselho Geral O JUP falou com algumas Associações de Estudantes (AE) da UP para perceber como foi aceite, na comunidade académica, a deliberação do Conselho Geral. Com efeito, os presidentes das AE’s são unânimes: esta era a única decisão aceitável e a tarefa de reforçar o fundo de emergência não cabe, certamente, aos estudantes. O presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Engenharia do Porto (AEFEUP), Ricardo João Cardoso, começou por referir que, “antes de mais, esta é uma vitória da representação estudantil e, acima de tudo, dos estudantes do Conselho Geral”. O presidente considera que este é “um momento dramático, não só, da nossa sociedade, mas também do ensino superior”, pelo que “era fulcral que não continuássemos a coagir contra os estudantes”. Para Ricardo Cardoso, reforçar o fundo social de emergência, através do aumento das propinas, significaria ir contra a Constituição, onde é “assinalado o ensino tendencialmente gratuito”, o que “pressupõe a participação do Estado no apoio aos estudantes mais desfavorecidos e no acesso ao ensino superior por parte de todos os jovens”. Para o presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito do Porto (AEFDUP), Rui Borges, um aumento não faria sentido, até porque “o valor, já de si, é alto”, além de que o “aumento das propinas significará sempre um acréscimo ao sacrifício dos estudantes para poderem frequentar o ensino superior”. O presidente da AEFDUP partilha, ainda, da opinião, quanto ao fundo social de emergência, de que “não compete aos estudantes assegurarem a sustentabilidade de outros estudantes no ensino superior”,

sendo essa uma função que “cabe ao Estado português”. Para o estudante, “o ideal” seria que “houvesse a possibilidade, sem aumentar as propinas, através de uma acção social forte e bem estruturada, de garantir o que pretendem com o aumento de propinas”. Também Francisco Ribeiro Mourão, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina do Porto (AEFMUP) considera que, “atendendo à situação económica difícil que neste momento atravessamos”, esta foi uma “ decisão sensata” por parte do Conselho Geral. Para o presidente da AEFMUP, a Universidade do Porto teve consideração pelos estudantes, tendo, igualmente, “consciência de que o aumento não seria o mais adequado”. O estudante acrescenta, ainda, que “a Universidade, acima da potencial receita, coloca aquilo que é o melhor interesse dos estudantes”. Quanto à existência do fundo social na UP, Francisco Moura explica que “é preciso perceber, também, qual tem sido a sua utilização e, portanto, qual é a necessidade de aumentar ou não o valor do fundo”. Até ao fecho desta edição, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, assim como José Marques dos Santos, reitor da UP, não prestaram quaisquer declarações. •


JUP — ABRIL 2012

EDUCAÇÃO

50 Anos depois do Fascismo O DIA DO ESTUDANTE FOI FIXADO EM 1987 PELA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, A 24 DE MARÇO, E AS SUAS ORIGENS REMONTAM À CRISE ACADÉMICA DE 1962, ÉPOCA DE LUTA ESTUDANTIL.

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24 de Março de 2012 comemorou-se o Dia do Estudante, este ano cinquentenário. Coimbra teve direito a passadeira vermelha nas escadas monumentais e a cantora Luísa Sobral abrilhantou a noite comemorativa. A data é celebrada pelo movimento estudantil, de forma a relembrar as dificuldades e obstáculos que os estudantes enfrentaram nas décadas de 60, o passado do movimento estudantil em geral, aquando da crise académica vivida em Portugal, e a reflectir sobre quais serão as “novas fronteiras” que o movimento deverá atravessar nos anos vindouros. Pretende, ainda, apelar à participação e mobilização dos estudantes, em prol de um novo modelo de educação: uma educação de e para todos. 50 anos depois da Crise Académica, que abriu uma enorme brecha no regime fascista, é inegável a importância que teve na luta contra o fascismo, visto que todo este ambiente levou à demissão do reitor da Universidade de Lisboa, Marcello Caetano. Vários estudantes e dirigentes estudantis da altura foram expulsos de todos os estabelecimentos de ensino em Portugal. Jorge Sampaio, Eurico Figueiredo, Medeiros Ferreira, Isabel do Carmo, Emília Santos, Ana Benavente, Sottomayor Cardia, Antónia Fiadeiro e Maria Augusta Seixas, entre outros, eram então dirigentes estudantis. Antes da cantora lisboeta Luísa Sobral subir ao palco em Coimbra, o reitor da Universidade de Coimbra e

o presidente da direcção-geral da Associação Académica de Coimbra, Ricardo Morgado, deixaram uma mensagem no dia que lembra o estudante. Se “a palavra dos estudantes não é ouvida”, como afirmou Ricardo Morgado, a voz de Luísa Sobral certamente foi. A cantora actuou para uma plateia já aquecida pelos grupos académicos que abriram a noite. Na comemoração da data ainda se assistiu a uma jornada de confraternização e de memórias que continuam bem vivas. De salientar também a realização do ENDA (Encontro Nacional de Direcções Associativas),

este ano, nos Açores. As principais temáticas abordadas foram: Políticas de Juventude, Financiamento e Acção Social, apesar de outros temas também terem sido discutidos. Foram várias as moções aprovadas em plenário, reivindicando o posicionamento das Associações de Estudantes e Académicas de todo o país. De referir que as questões ligadas à Acção Social, seja ela directa ou indirecta foram as mais discutidas, sendo apresentados documentos que transmitem as vontades dos Estudantes. • Daniela Armada

Estudantes fora do pedagógico O MODELO DA GESTÃO DE SECUNDÁRIAS FOI A ÚLTIMA MEDIDA PROPOSTA PELO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. A PRINCIPAL ALTERAÇÃO VISA A SAÍDA DOS ALUNOS E DOS ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO DO CONSELHO PEDAGÓGICO, QUE IRÁ CONTAR APENAS COM OS PROFESSORES.

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decisão foi debatida pelo Ministério da Educação, com as duas principais organizações de sindicatos dos professores, e modifica a composição do Conselho Pedagógico. A medida gera controvérsias entre os visados, que têm opiniões distintas. Fernando Morais, professor há cerca de 20 anos na Escola Secundária Filipa de Vilhena e membro da Direcção, considera que “é importante continuar com a representatividade” e argumenta que o órgão pedagógico contava com estudantes empenhados e com inúmeras participações relevantes para um ambiente escolar favorável. No entanto, o professor defende que “tanto os encarregados de educação como os alunos podem fazer parte do Conselho Geral e aí exercer a sua influência na comunidade escolar”. Segundo Fernando Morais, os alunos não sairão prejudicados, pois contam ainda com a Associação de Estudantes, bem como as delegações de turma, que permitem a presença e

opinião dos alunos em reuniões com os órgãos executivos das escolas. Os estudantes, os principais afectados com esta proposta, têm opiniões distintas. Duarte Castro, aluno da Escola Secundária Martins Sarmento em Guimarães, considera que esta alteração não faz muita diferença e justifica: “Nós, alunos, temos uma ideia de que existe realmente a participação de alguns colegas nossos no conselho pedagógico. No entanto, não sabemos os pontos que lá são abordados, como são discutidos, nem as conclusões que de lá são tiradas”. Além disso, o estudante da Capital Europeia da Cultura, defende que caso haja um retiro dessa participação "fantasma", os alunos não irão sentir, pois não estão devidamente informados acerca dessa “suposta integração no conselho.” Quanto aos encarregados de educação, as perspectivas de mudança não foram bem recebidas. Fernanda Al-

meida, encarregada de educação de uma aluna do ensino secundário, prevê que as alterações irão prejudicar a representatividade dos pais nas escolas. A responsável educativa explica que “numa democracia, a representatividade é a palavra de ordem. Com esta medida, estão a retirar-nos a capacidade de intervenção na vida escolar”.• Filipa Guimarães e Joana Cruz

Postal de Milão A experiência nasce antes de se pisar a terra que vem no contrato, e cresce com expectativas que criamos quando nos preparamos para uma vivência nova. Todos já ouvimos falar de intercâmbios. São amigos ou chegados de amigos que foram ou vieram; de alguma maneira nos chegam as suas histórias. Daí criamos imagens e pessoas, movimentos e sensações pelo nosso subconsciente. É impossível não o fazer. Chegando, tudo se altera, nada é como planeado, nada é o que se pensava; tudo é novo - e nessas horas também nós ficamos novos. Milão é de terreno amplo, com avenidas que nos convidam a andar de bicicleta. A cidade cinzenta rasga o céu com pedra e ornamentos na zona antiga; betão e vidro na parte nova. Mas embora existam distintas formas de rasgar o céu, o ritmo da cidade é o mesmo, pulsante! É uma história de amor entre o moderno e a tradição, lado a lado a cada passeio ou viagem na cidade. Em Milão combina-se o italiano com o mundo. Também aqui se colocam bandeiras nacionais nas janelas de cada casa, os homens com cabelos brancos reúnem-se com cartas e mesas nos jardins e o comércio tradicional chama por nós - em italiano. O custo de vida é elevado, compensa-se a balança com experiências gratuitas e logo logo estamos equilibrados. Quando saímos à noite, existe a sensação de sermos todos uma grande família que não se conhece; tempo de nos apresentarmos e conhecermos, desvendando-nos melhor a nós próprios. Milão coloca-se na rota dos povos de um mundo contemporâneo, tem uma habilidade especial para o fazer. Lar de muitos idiomas, devemos tirar proveito deles. Não é só o italiano que sonoriza as grandes vias, também o inglês e línguas asiáticas o fazem; na Universidade esta dinâmica é acentuada. De aproveitar, não só para quem vive em Milão mas também para quem está no porto, são as rotas aéreas que se desenham de cá. Companhias low-cost fazem encurtar tempo e destinos por um baixo preço, convidando-nos a tirar os pés da terra. Estamos a sul, mas no centro da Europa. Viajar de comboio é também barato, assim como arranjar boleias. Tudo vale para conhecer um país cheio de cultura e misticismo, que se enche de cor para receber, que convida a viajar. Povo das pizzas e massas que nos acompanham sempre, mundo que sendo diferente, na verdade não é estranho ao nosso. Este texto assemelha-se a uma migalha de viagem, que não resume nada. Se aconselho a virem para Milão? Aconselho a fazerem Erasmus. • texto Henrique Guedes

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EDUCAÇÃO

CONVERSAS INDISCRETAS

“O humor e a ironia são armas tremendas” MANUEL JORGE MARMELO, CRONISTA DO PÚBLICO E ESCRITOR, ESTEVE À CONVERSA COM O JUP. A FUSÃO ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, O QUOTIDIANO, O HUMOR E A IRONIA, BEM COMO O JORNALISMO E A DEMOCRACIA FORAM ALGUNS DOS TÓPICOS ABORDADOS NESTA ENTREVISTA. A propósito do lançamento do seu mais recente livro, Uma Mentira Mil Vezes Repetida, como surgiu a ideia de abordar o quotidiano de uma perspectiva tão pouco comum, em que a realidade e a ficção se cruzam? Não consigo dizer como foi que a ideia surgiu. Creio que foi, antes, uma possibilidade que se foi construindo. Seja como for, o jogo entre a realidade e a ficção sempre me agradou e, de resto, explorei-o nos meus últimos quatro romances. Gosto dessa ambiguidade, mesmo que seja só aparente, sobretudo pelas possibilidades literárias que cria. Convivendo diariamente com o ambiente citadino e, de certo modo, claustrofóbico do Porto, de que forma o livro é um reflexo dessas vivências quotidianas e rotineiras? O Porto aparece no livro mais como paisagem do que como realidade concreta. O personagem principal viaja nos transportes públicos da cidade, constata alguma coisa do ambiente geral, mas os assuntos sobre os quais se debruça são, digamos assim, mais amplos. Ou menos mesquinhos do que aquilo que é a mercearia diária da cidade e das autoridades que nela laboram. Hélio Correia disse, numa posição crítica relativamente ao seu novo livro, que “existe [...] um espantoso processo combustivo, uma espécie de volúpia incendiária que contamina mesmo alguns cenários e que consiste em recolher e misturar num crematório alquímico, toda a espécie de personagens que lhe passem ao alcance”. Como “fabricou” a amálgama de personagens tão peculiares que podemos encontrar no Uma Mentira Mil Vezes Repetida? Creio que o método de fabrico não foi muito distinto daquilo que é normal na generalidade das obras de ficção. Há, quase sempre, uma apropriação de material roubado ao real. Mas, depois, esse material é amassado, misturado e tratado ficcionalmente. O homem zebra que aparece no início do livro, por exemplo, nasceu de uma canção da Cesária Évora e no preciso momento em que, ao ouvir essa canção, me ocorreu que fazia sentido imaginar um homem que, como as zebras, trouxesse na pele os sinais da miscigenação, as suas origens estampadas em diferentes traços de pele. Provavelmente, se isso acontecesse,

seríamos todos malhados, riscados. Creio que é interessante fazer reflectir sobre isto. E a literatura, quando consegue tornar plausível aquilo que é irreal, pode fazê-lo mais eficazmente. Tendo em conta o seu romance “Fantasmas de Pessoa”, recorrer ao complexo universo pessoano para construir uma trama policial não foi, de certo modo, uma tarefa árdua e arriscada? Foi. Num primeiro momento foi assustador. E paralisante. Mas ultrapassei esse peso tratando o Fernando Pessoa como um personagem igual a qualquer outro e decidindo que iria divertir-me a escrever esse livro do mesmo modo que me tinha divertido a escrever os outros. Como foi conjugar humor, divertimento, emoção e suspense com as características tão marcantes e tão próprias de Pessoa? Foi fácil lidar com a heteronímia pessoana? Tal como expliquei, fi-lo agarrando em Fernando Pessoa como em qualquer outra personagem, respeitando a sua biografia, mas, sobretudo, encaixando-a numa trama narrativa. O Fernando Pessoa histórico é uma coisa, outra é o “meu” Fernando Pessoa. É uma marioneta que, respeitadas algumas pré-existências, faz os gestos que eu ordeno. O convívio [com os heterónimos] foi relativamente pequeno. Informei-me, assimilei a informação e integrei-a num objetivo mais vasto, que passava por escrever uma ficção na qual Pessoa fosse parte de uma trama vagamente policial. Nesse sentido, a possibilidade de desdobramento individual é muito enriquecedora. O autor ganha o direito de, como Pessoa, se desdobrar em vários narradores e abre novas possibilidades à ficção. A literatura é o melhor espelho da sociedade? Depende de que literatura estamos a falar. Às vezes não. Às vezes nem interessa que o seja. Às vezes uma literatura delirantemente irreal é mais eficaz na tarefa de fazer reflectir sobre o real. Como cronista e escritor que é, qual é que acha que é a forma mais eficaz de chegar ao leitor? Através de crónicas ou através da literatura? Não tenho certeza sobre isso. No meu caso pessoal, como os meus livros não são best-sellers, creio que as crónicas

chegam a mais pessoas e, por isso, são mais eficazes em termos quantitativos. A mensagem chega a mais gente. Mas não sei se chega melhor. Que ingredientes aliou para moldar o seu estilo de escrita? É difícil... Creio que fui juntando as lições que aprendi com tudo aquilo que li à experiência que obtive destes 22 anos de jornalismo. Ler e escrever todos os dias é uma escola formidável, tonifica imenso o “músculo” da escrita. Recorrendo a uma citação de Vasco Pulido Valente, "Afinal o que importa... É rir de tudo"? Não necessariamente. Mas não faz mal nenhum rir de assuntos sérios. O humor e a ironia são armas tremendas. Quem ri de uma piada foi capaz, pelo menos, de entendê-la, de processar informação e de desenvolver um juízo crítico. Tira partido da sua profissão para divulgar valores em que acredita e defende? Acha que é possível moldar a opinião pública? Acho que é possível informar a opinião pública, se ela estiver disposta a ser informada. Mas quando as pessoas estão anímicas e embrutecidas e aceitam toda a palha que se lhe põe na manjedoura, acriticamente, então, sim, é possível, e até muito fácil, moldá-la. Estas pessoas não distinguem, sequer, informação de não-informação, não estão preparadas para receber informação de qualidade. Dada a situação actual do país, a relação entre jornalismo e democracia pode estar a ser posta em causa? A democracia pode estar em causa todos os dias. Se não formos capazes de exercê-la quotidianamente, de afirmar e exercer cada um dos direitos que conquistámos, estamos a criar um precedente para que, amanhã, alguém dos diga que já não precisamos da democracia porque abdicámos, afinal, de votar, de defender as nossas opiniões, de sermos respeitados. O jornalismo, infelizmente, não faz milagres. Não consegue transformar carneiros em seres humanos, sobretudo quando os carneiros escolheram ser carneiros. Luísa Gomes, Inês Ramos e Raquel Costa

A despedida ao centenário AS CELEBRAÇÕES DO CENTENÁRIO DA UNIVERSIDADE DO PORTO CHEGARAM AO FIM, A 22 DE MARÇO, DATA EM QUE SE COMEMOROU O 101º DIA DA UNIVERSIDADE. O PROGRAMA PASSOU PELA INAUGURAÇÃO DE UM NOVO PAVILHÃO DESPORTIVO, PELO ARRANQUE DA 10ª MOSTRA DA UP E PELA TÃO AGUARDADA SESSÃO SOLENE, NO SALÃO NOBRE DA REITORIA.

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ssinalando o desfecho das comemorações do Centenário, realizou-se, no passado dia 22 de Março, a Sessão Solene Comemorativa do Dia da Universidade no Salão Nobre da Reitoria, o ponto alto do 101º aniversário da UP. Assim, a Praça Gomes Teixeira acolheu alunos, ex-alunos, professores e funcionários desta instituição e o cientista Alexandre Quintanilha, como orador convidado. O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, foi ainda uma entidade cuja presença se destacou no desenrolar da sessão. O convidado de honra defendeu a descentralização das instituições de ensino e enalteceu a aposta da U.Porto nas “reformas da governação, na diversificação da oferta formativa e na internacionalização”. José Marques dos Santos, reitor da Universidade do Porto, liderou o acontecimento afirmando que “a Universidade do Porto vive um dos momentos mais altos, se não mesmo o mais alto da sua centenária existência”, lembrando o ano de celebrações várias em torno do Centenário da Universidade, marcado pelo “reforço da ligação da Universidade à cidade, à região norte e ao país”. No seguimento da cerimónia, foi descerrada na praça dos Leões, como é celebremente conhecida, a lápide de "Encerramento das Comemorações do Centenário da Universidade do Porto" e lançado o livro "Cem anos - 100 palavras", fruto de um concurso lançado anteriormente. O 101º Dia da Universidade ficou também marcado pelo arranque da 10ª Mostra da Universidade do Porto, que decorreu no Pavilhão Rosa Mota entre os dias 22 e 25 de Março. Os professores, investigadores e estudantes da Universidade proporcionaram aos 15 mil visitantes contacto directo com as 14 faculdades e centros de investigação que fazem parte da Universidade do Porto, através de actividades de experimentação e partilha de conhecimentos. Com o objectivo de divulgar a oferta por parte dessas instituições, a décima edição deste evento consistiu num

espaço de interligação entre a Universidade e a comunidade. Contando com a presença de estudantes de 90 escolas dos ensinos básico e secundário de toda a região norte, a Mostra da Universidade do Porto, que se estreou em 2003, ultrapassou, este ano, os 100 mil visitantes, maioritariamente estudantes pré-universitários. Confirmou-se, assim, a crescente procura deste acontecimento anual, como forma de adquirir um conhecimento mais apurado do leque de oferta dos cursos de licenciatura e mestrado integrado que a Academia oferece. A inauguração do novo Pavilhão Desportivo Luís Falcão foi também parte integrante do Dia da Universidade. Situado no pólo da Asprela, o espaço veio satisfazer as lacunas notadas pelos alunos da Universidade do Porto, no que refere às práticas desportivas. No decorrer da cerimónia, o reitor José Marques dos Santos realçou o interesse da nova estrutura desportiva para os estudantes da Universidade, no sentido em que “a prática desportiva é importante na formação dos estudantes” e que, “com estas novas infra-estruturas, deixa de haver desculpas para não se praticar desporto na U. Porto”. Estiveram ainda presentes nesta cerimónia Vladimiro Feliz, vice-presidente da Câmara do Porto, e Bruno Barracosa, presidente da Federação Académica de Desporto Universitário. A sessão de inauguração envolveu o descerramento de uma placa e uma visita guiada pelas instalações do pavilhão, culminando com uma demonstração desportiva por parte de atletas estudantes da Universidade. Em dia de greve geral e manifestação nas ruas, não houve travão nas festividades do 101º Dia da Universidade do Porto. A despedida ao Centenário contou com diversas actividades, cerimónias e presenças que homenagearam o término dos cem anos daquela que é uma das maiores e mais reconhecidas universidades portuguesas.• Inês Andresen de Abreu e Francisca Paiva


destaque p/06.07

Touradas Cultura ou violência, eis a questão. A presença na história é inegável. Apesar disso, será que com a evolução da sociedade a História por si só justifica a sua continuidade? Os estudos que classificam os touros como seres que sentem sofrimento, tanto físico como psíquico, fazem diferença? Opiniões contra e a favor. }

entrevista p/04.05

nº07 abril 2012

caderno cultural integrante do Jornal Universitário do Porto

Mr. Dheo Fomos falar com o Mr. Dheo, "na boa". Falámos principalmente sobre arte urbana. Enquanto o desprezo pela arte urbana continua, o Mr. Dheo disse bem "clarinho": cá chamam-lhe delinquente, lá fora pinta em museus. O writter que gostaria de ensinar Rui Rio a soletrar "cultura". }

flash p/06.07

Histórias fora do palco "Desta vez, só desta vez, o teatro fica lá fora. Desta vez, eles são apenas eles mesmos...". É assim que começa a descrição da fotogaleria desta edição. Uma fotogaleria de Paulo Pimenta, fruto de um longo trabalho a acompanhar o projecto "Crinabel Teatro", da Cooperativa de Educação de Crianças Inadaptadas de Sta. Isabel, e os 14 actores que do projecto fazem parte.}


02/destaque

{ parêntesis jup abril 2012

Cultura ou Violência?

Liberdade acima de tudo, eu não quero obrigar ninguém que não gosta, a ir ver corridas de toiros (…) Diogo Costa Monteiro, secretário geral da Prótoiro

AS TOURADAS SÃO UM TEMA QUE TEM GERADO MUITA DISCUSSÃO AO LONGO DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, DIVIDEM OPINIÕES E QUESTIONAM O SENTIDO DA PALAVRA CULTURA. É UM ESPECTÁCULO QUE PARA UNS É VISTO COMO UM COSTUME E PARA OUTROS NÃO PASSA DE UMA CRUELDADE. O JUP FOI INVESTIGAR A EVOLUÇÃO DAS TOURADAS, DESDE A ANTIGUIDADE ATÉ AOS TEMPOS QUE CORREM DE FORMA A MOSTRAR DUAS PERSPECTIVAS OPOSTAS SOBRE O ASSUNTO. por Melina Aguiar e Luis Rodriguez Amayuelas ilustração Toni Toninha

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primeira representação de espectáculos com touros é de 1400 a.C e encontra-se no Palácio de Knossos, na ilha de Creta. Pode ser observada a dança que alguns habitantes minoicos mantinham junto ao touro. Este culto, estendido pelo litoral mediterrâneo, manteve-se, principalmente, na península ibérica durante milénios e os registos históricos dos celtiberos assim o demonstram. Na Roma antiga, utilizavam Uros nos espectáculos, uma antiga raça de bovinos já extintos. Durante a idade média a tauromaquia foi tomando forma e cultivada por parte da classe alta cortesã e das famílias reais. Os nobres protagonizavam os espectáculos lidando o touro a cavalo, enquanto num canto da arena os plebeus eram encarregues de impedir que os animais saíssem do recinto. À medida que as touradas foram evoluindo, os plebeus foram ocupando um espaço maior até se tornarem os actuais forcados e toureiros a pé. O nascimento moderno da tauromaquia surgiu no século XVIII. Neste século as touradas tiveram uma grande evolução, incluindo novos procedimentos que culminaram com o estilo actual das corridas de touros à portuguesa.

Na actualidade, a tourada é praticada em diversos países além de Portugal, como México, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, sul da França e Espanha. A monumental Praça de México é a maior do mundo, com capacidade para 41000 pessoas e encontra-se na capital, Cidade do México. Em Portugal, a maior é a Monumental Celestino Graça e encontra-se em Santarém, com um espaço para 13.500 pessoas. Presentemente é estudada a possibilidade da construção de uma nova praça com características polivalentes para substituição. Em Portugal as touradas duram, normalmente, cerca de duas horas, mas não há limite de tempo. A corrida inicia-se com o ritual da cortesia, reunindo todos os participantes, entre cavaleiros até os campinos, para cumprimentarem o público e o director da corrida a partir da arena.

a favor Diogo Costa Monteiro, secretário geral da Prótoiro, afirma que as touradas “são violentas” e que isso “é evidente”. Mas sublinha: “É um espectáculo muito rico em rituais e em simbologias e obedece realmente a muitas regras, e precisamente por obedecer a muitas regras é que não é bárbaro, porque a definição de uma coisa bárbara é precisamente uma coisa que não tem regras. E é cultura porque eu olho para aquilo e a pessoa que está ao meu lado olha também e nós sentimo-nos um elemento comum, com um sentimento de comunidade. E a festa dos toiros é precisamente isso, daí a sua importância cultural, daí a sua importância como identidade, porque é evidente que não é um espectáculo consensual, mas não é por ser um espectáculo consensual que deve ser proibido, porque há muita gente que gosta. A causa é cultura, identidade e liberdade, são estas três palavras que eu gostaria que ficassem bem explícitas. Liberdade acima de tudo, eu não quero obrigar ninguém que não gosta a ir ver corridas de toiros, vai quem quer, quem não quer, não vai. As touradas vão acabar no dia em que deixarem de haver pessoas que as vão ver.” O secretário geral da Prótoiro diz ainda que muitos dos que criticam nunca viram uma corrida e que “a única coisa que conhecem são as imagens ou informações que lhe chegam através da Internet”.


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contra

A tourada consiste na lide de seis touros e cada um deles é toureado por um cavaleiro tauromáquico, que crava, entre quatro a oito bandarilhas, no dorso do animal. Os cavaleiros são os toureiros que lidam a cavalo, e vão vestidos com trajes do século XVIII e o cavalo vai coberto com uma protecção contra chifradas. Os touros podem ser lidados por um toureiro a pé, porém esta prática é a menos comum nas touradas em Portugal. A pega é a actuação de um grupo de indivíduos que vêm “pegar” o touro, os Forcados. A forma mais comum, hoje em dia, é a pega de caras, onde oito forcados se alinham em fila indiana e pegam o touro até ele ficar imobilizado, e somente em Portugal existe este tipo de actuação. No fim do espectáculo o touro é retirado e regressa aos curros, para serem arrancadas as bandarilhas que lhe foram cravadas durante a tourada. Enquanto isso, os intervenientes dão uma volta na arena e, no caso de uma boa actuação, fazem-no a pedido do público. A crítica da tauromaquia existe desde há muito tempo. Em 1567 o Papa Pio V estipulou uma bula “de salute Gregis Dominici” onde proibia os jogos em que maltratassem o animal e em que os descrevia como “estes sangrentos e vergonhosos espectáculos dignos de demónios e não dos homens”. A pena estipulada era de “excomunhão e anátema”.

Na Espanha de 1723, Felipe V proibiu o exercício da tauromaquia aos seus cortesãos, que toureavam a cavalo, por considerar esta prática indigna e própria das classes baixas. Devido à proibição, o toureio a cavalo em Espanha foi-se perdendo, enquanto em Portugal continuou sua evolução. Em Portugal, e durante esse mesmo período, foram proibidas as “touradas” devido à contrariedade do Marquês de Pombal e à trágica morte do Conde dos Arcos. Em 1836, o então Ministro do Reino, Passos Manuel proibia as corridas de touros num decreto afirmando: “as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas”. Em 1875 funda-se a Sociedade Protectora dos Animais, e que tem apresentado diversos projectos com vista à proibição das Corridas ou à sua limitação, desde 1883. Durante a época do Estado Novo, em 1928, proibiram-se as corridas com touros de morte, permanecendo esse decreto em vigor até ao ano 2000, data em que foi revogado pela Lei 12-B/2000, de 8 de Julho, cuja redacção actual autoriza a realização de espectáculos com touros de morte em alguns casos excepcionais, como nas vilas de Barrancos e Monsaraz.

Na legislação actual são proibidas todas as violências injustificadas contra animais, se infligirem a morte ou sofrimento cruel e prolongado. Também são proibidos os actos consistentes em exigir a um animal, em casos que não sejam de emergência, esforços ou actuações que seja obviamente incapaz de realizar, e é proibido utilizar chicotes com nós, aguilhões com mais de 5 mm, ou outros instrumentos perfurantes na condução de animais, com excepção dos usados na arte equestre, e nas touradas autorizadas e reguladas por lei. Actualmente em Portugal existem várias associações “anti-tourada”, as quais consideram as corridas de touros uma crueldade contra os animais. Uma delas é o MATP - Movimento Anti-tourada de Portugal, uma associação sem fins lucrativos que contribui para a promoção da correcta aplicação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Outro grupo muito popular é o “Anti-touradas Facebook”, com mais de 189 mil pessoas a favor. A França tem declarado as suas corridas de touros como património cultural, e a Espanha actualmente estuda uma proposta de lei similar promovida pelo governo. Em Portugal a actividade é supervisionada e regulamentada pela Secretaria de Estado da Cultura, através da Inspecção-Geral das Actividades Culturais. No preâmbulo da lei Decreto-Regulamentar n.º 61/91, que trata sobre as corridas de touros, o legislador afirma que “a tauromaquia é, indiscutivelmente, parte integrante do património da cultura popular portuguesa”. Contudo, existem regiões e cidades em cinco países no mundo onde a tauromaquia, longe de ter sido parte da cultura, tem vindo a ser ilegalizada, como o recente caso da Catalunha, que não é o único em Espanha, sendo a região das ilhas Baleares a primeira a ter ilegalizado esta prática. No território nacional, Viana do Castelo foi a primeira cidade a declarar-se “anti-tourada” no ano 2009, e também os concelhos de Braga, Cascais e Sintra aderiram a esta causa.

Cassilda Pascoal, membro do MUDA (Movimento Universitário pelos Direitos dos Animais), explica o porquê de estarem contra: “não podemos ignorar todo o conhecimento científico produzido ao longo das últimas décadas que comprova que os animais têm a capacidade de sentir física e emocionalmente, como é o caso dos touros e cavalos. Acreditamos que uma sociedade onde o Estado permite formas de diversão com base na violência gratuita, na humilhação e sangue, sob desculpas da tradição - tradição esta cujas origens remontam aos bárbaros circos da Roma Antiga - não se empenha o suficiente num progresso civilizacional cujas bases assentem no respeito e dignidade social e individual. Como estudantes, repudiamos ainda os milhares de subsídios públicos entregues à industria tauromáquica em Portugal todos os anos, provenientes de autarquias e fundos comunitários para agricultura, ao mesmo tempo em que se corta e todas as áreas da educação e no acesso ao ensino. E reitera: “Recusamo-nos a viver numa sociedade onde torturar e humilhar seres sencientes em praça pública seja motivo de aplauso. Queremos contribuir para uma sociedade saudável, através da sensibilização e consciencialização das pessoas que muitas vezes desconhecem a brutalidade e crueldade existente em práticas tauromáquicas, subsidiadas na sua larga maioria com os impostos”.


O writter que gostaria de ensinar Rui Rio a soletrar “Cultura” entrevista João Bragança fotografias ©Mr.Dheo


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Nascido em V. N. de Gaia, Mr.Dheo, esteve desde cedo ligado às artes. Aos 3 anos de idade começou a copiar frases de revistas e jornais e a desenhar sozinho. Não existiam lápis nem cadernos, apenas esferográfica e folhas soltas. Da infância à adolescência, a necessidade compulsiva de se exprimir tornou-se hábito. Rejeitando desde sempre qualquer tipo de envolvência a uma escola ou curso de Artes, desenvolveu técnicas que lhe permitiram registar uma evolução sem qualquer tipo de influência directa. No ano de 2000 teve o primeiro contacto directo com a arte do graffiti. A conquista de espaços legalizados na rua e pintura dos mesmos, originou contactos que lhe permitiram encarar a sua arte de uma forma mais profissional. Com trabalhos em França e no Brasil, Mr. Dheo é um dos writters portugueses com mais sucesso dentro e fora de portas. Não querendo entrar em questões cliché, prefere as coisas como elas são e não como deviam de ser, Mr.Dheo, irreverente e um autodidata vê a Arte de uma forma particular, onde não podem nem devem existir regras e limites. Há 10 anos que é assim. (P) Quem é e como é Mr. Dheo? (R)Quase tão inteligente como a Lili Caneças e quase tão atraente como o José Castelo Branco. (P) Porquê Mr. Dheo? (R)Não tem uma razão especial. Inicialmente juntei 4 letras que gostava também com o objetivo de criar um pseudónimo pouco comum, ou pelo menos com menor probabilidade de ver repetido em algum lado. O "Mr" foi uma brincadeira de amigos que acabou por ficar.

(P)Como começaste, onde começaste e porquê? (R) Comecei sozinho, em 2000, nas ruas de Gaia e Porto. Tinha comigo desde sempre o gosto pelo desenho e quando descobri o graffiti percebi de imediato que representava uma liberdade criativa diferente de todas as outras expressões artísticas. Não só porque não existiam regras ou limites, mas também porque me permitia fazer chegar de uma forma gratuita o meu trabalho a todo o tipo de classes sociais, idades e raças, afastando-me ao mesmo tempo do elitismo que inevitavelmente está ancorado aos mercados de Arte tradicionais. (P)Quais são as tuas maiores influências/inspirações? (R) Tenho obviamente centenas de referências no que respeita a artistas urbanos, mas honestamente não sinto que tenha influências diretas em termos de estilos, técnicas ou conceitos. É normal que vá bebendo informação e que de uma forma ou de outra essa informação vá influenciando aquilo que faço, mas acredito que as minhas grandes inspirações - para o bem ou para o mal - estão no meu dia a dia. Seja numa notícia de jornal ou numa conversa com a família ou amigos, os conceitos surgem e depois procuro a melhor forma de os colocar em prática. Viver em Portugal na fase em que estamos, por exemplo, é triste e desmotivante. Mas ao mesmo tempo, curiosamente, é uma grande fonte de inspiração.

(P) Graffiti e arte são conceitos dissociáveis? (R) Depende da perspetiva de cada um. A minha, apesar de suspeita, é a de que o graffiti é a forma de expressão artística deste século. No entanto se tivermos em consideração que o graffiti vive do espaço público e de intervenções gratuitas e na sua maioria ilegais podemos concluir que a questão "arte ou vandalismo" será eterna. O graffiti não é elitista nem capitalista. E como não movimenta milhões nem enche os bolsos aos galeristas e aos marchands o interesse em catalogá-lo como Arte, de acordo com os padrões habituais, é praticamente nulo. (P) Como vês o graffitti em Portugal? E a cultura? (R) Respondendo às duas questões numa só: considero que temos sempre, em qualquer área, artistas com muita qualidade. Mas não temos quem os valorize o suficiente. Vamos antes consumir o que está além-fronteiras até porque estamos mesmo numa fase em que nos podemos dar ao luxo de continuar a desperdiçar o que cá temos. (P) Achas que no estrangeiro a “tua arte” é mais facilmente reconhecida? É mais fácil trabalhar fora de portas? (R) É tão contrastante que chega a ser incomodativo. Acho que só tenho a verdadeira noção quando estou lá fora. E não me cinjo apenas ao meu trabalho e à forma como é valorizado e reconhecido, mas em termos gerais. É triste dizer isto, mas nesses momentos penso em Portugal e sinto sempre uma mistura de revolta e angústia por terem governado tão mal e roubado tão bem um povo que, pela sua história e características, não merecia. Sinto pena de nós. É inevitável focar-me apenas e só na forma como sou recebido e em como o meu trabalho é visto sem abordar tudo o resto, porque acaba por estar tudo ligado. A grande maioria dos países minimamente desenvolvidos tem uma mentalidade completamente diferente da nossa. Mais aberta, mais positiva e acima de tudo mais saudável. Cá pinto um muro legal e metade das pessoas que passam fazem cara feia. Lá fora, como aconteceu recentemente em França, tenho 200 pessoas a tirarem fotografias, a fazerem vídeos, a conversarem comigo e a agradecerem o facto de estar a dar vida às suas cidades. Cá tenho a Câmara do Porto a chamar-me delinquente. Lá fora pinto em museus. (P) Em 2010 tiveste convites do FCPorto para criares chuteiras personalizadas e estiveste na Galeria de Arte Urbana em Lisboa onde foste convidado para pintar uns paineis. Consideras que estes convites são um reconhecimento do teu trabalho e do teu génio? (R) A palavra génio é uma cena que a mim não me assiste! (risos) Acredito sim que esses convites são um reconhecimento do meu trabalho, e fico grato por isso. 2010 foi muito positivo, permitiu-me crescer como artista e como pessoa e felizmente tenho tido a sorte das oportunidades continuarem a surgir, mesmo num ano

complicado como é o que vivemos agora. Confesso que o F.C.Porto era um sonho antigo e que surgiu na altura certa. Foi um projeto que me deu muito prazer fazer e espero dar continuidade ao avançar num futuro próximo com algumas ideias que temos em mente. O da Câmara Municipal de Lisboa foi outro que me deu especial gozo, pelo simples facto de em 12 anos de actividade a Câmara do Porto e de Gaia nunca o terem feito. Nesse ano fui também convidado para participar na Primeira Bienal de Graffiti de São Paulo, portanto foi sem dúvida um ano marcante. (P) A internet ajudou-te a ter esse reconhecimento? Quão importante é ela para ti? (R) Ajudou, sem dúvida. A internet hoje em dia, quer se goste quer não, tem um papel fundamental na vida das pessoas, dos artistas, dos negócios. Num espaço de segundos o meu trabalho pode ser visto em todo o Mundo. Não vendo o meu trabalho online mas é lá que grande parte dele é vendido. Ou seja, preocupei-me apenas em estar visível e activo, quer através do meu website quer através do Facebook, e as coisas vieram ter comigo. Não acho que seja necessário elaborar campanhas de marketing pessoal ou profissional e tentar a todo o custo que alguém goste de nós ou daquilo que fazemos. Acho que devemos simplesmente estar presentes e continuar a trabalhar. Se o fizermos o reconhecimento irá chegar de uma forma natural. As pessoas procuram-nos. (P) O que ainda fizeste mas queres fazer? (R) Há muitas coisas que gostaria de fazer mas procuro dar um passo de cada vez e esperar pelo momento certo para fazer as coisas. O graffiti foi a vida que escolhi e é essa a vida que quero continuar a viver. (P) Notas finais, algum recado para alguém em especial? (R) Dr. Rui Rio, soletre cultura. Eu ajudo, vá. C..U...L... }


DESTA VEZ, SÓ DESTA VEZ, O TEATRO FICA LÁ FORA. DESTA VEZ, ELES SÃO APENAS ELES MESMOS - SEM FALAS DECORADAS, SEM GESTOS ENSAIADOS, SEM MOVIMENTOS ESTABELECIDOS. TÍNHAMO-LOS VISTO ANTES, EM CIMA DO PALCO. MAS NUNCA ASSIM - DE ALMA DESCOBERTA. SÃO OS CAMINHOS QUE PERCORREMOS QUE NOS FAZEM. SÃO OS CADERNOS ESCRITOS, OS LIVROS REVISTOS, O SORRISO GIGANTE NO MEIO DA RUA, OS OLHOS FECHADOS PARA CONSEGUIR VER O MUNDO. QUE SONHOS SE ESCONDEM POR DETRÁS DESTES MOMENTOS? PAULO PIMENTA CONDUZ-NOS AO MUNDO ESCONDIDO DOS ACTORES DA CRINABEL, UMA VIAGEM QUE SÓ ELE PODIA FAZER (ELE, QUE SE TORNOU RESIDENTE COMPANHIA DA COMPANHIA DE TEATRO, QUE ESTÁ SEMPRE LÁ - NAS ESTREIAS, NOS ENSAIOS, NOS BASTIDORES). PENSANDO MELHOR, DESTA VEZ, O TEATRO AINDA NÃO FICA DE FORA – NOTEI-O AGORA, NA ALMA DESCOBERTA DESTAS IMAGENS, AO VER MATÉRIA-PRIMA PARA A CRIAÇÃO. } texto Mariana Correia Pinto fotografia Paulo Pimenta


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08/breves

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Uma revista chamada PLI arte & design Vodafone Mexefest: música e chocolate quente animaram a baixa RUAS INTERDITAS AO TRÂNSITO. DEZENAS DE CONCERTOS. MAIS DE DEZ ESPAÇOS. TUDO PRONTO PARA RECEBER O VODAFONE MEXEFEST, QUE PROMETEU DESCENTRALIZAR A CIDADE DO PORTO, NOS DIAS 2 E 3 DE MARÇO.

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magina uma revista 2 em 1 que no interior conta com 5 formatos diferentes, diversos tipos de papéis, e as soluções gráficas apresentadas são quilómetros de criatividade a debravar. Não! Não é sonho nem miragem. É o mais recente número da revista PLI arte & design. A proeza de mais de 200 páginas é da responsabilidade da Escola Superior de Artes e Design (ESAD) onde, a 27 de Abril, será apresentada. O segundo número da PLI chega até nós numa fórmula 2 em 1 (dois números em apenas um) e conta com um largo leque de colaboradores nacionais e internacionais como Steven McCarthy, Paolo Deganello, Luís Miguel Castro, Brad Freeman, Kiluanji Kia Henda, Mário Moura ou o Atelier do Corvo, num total de 36 autores ligados às áreas do design, arquitectura, fotografia e pensamento contemporâneo. Um novo modelo de publicação que pretende divulgar, reflectir, produzir e fazer circular conteúdos ligados à produção teórica e prática associada aos cruzamentos disciplinares entre artes e design. A revista é lançada no Porto a 3 de Maio, na FNAC de Santa Catarina. } Nuno Moniz

Dia 1 Em dia útil, só quando anoiteceu se começou a ver a maior mancha de festivaleiros, nem todos portuenses. É o caso de Francisco Silva, que veio de Lisboa “principalmente para ver St. Vincent”, cabeça de cartaz do primeiro dia. Havia muito para ver: enquanto os Capitão Fausto tocavam no Café Guarany, os Salto animavam a rua, em cima do Coliseu. Os Alto!, atraíram os fãs do rock para a FNAC e, no fim, os “Farra Fanfarra” tocaram dentro dum eléctrico, juntando transeuntes. Após o clássico FCP–SLB, a rua Passos Manuel ganhou nova vida. Os Best Youth fizeram encher o Maus Hábitos e, enquanto o Coliseu pareceu ser grande demais para os que queriam ver Niki & The Dove, o Ateneu revelou-se pequeno para todos os fãs de Russian Red. A banda confessou estar rendida ao Porto, mas tocou para uma enchente que foi desaparecendo. A vocalista sabia a razão pela qual a sala esvaziara: outras atrações tinham começado. King Krule, de 17 anos, deu um concerto que Nuno Pinto, com a mesma idade, descreve como “intimista”. Por fim, St. Vincent desfez as dúvidas dos mais cépticos. Marta Moreira veio de Braga com expectativas baixas, mas, no fim, rendeu-se e classificou o concerto como “um dos melhores” do festival. Depois de Emika e Supernada lotarem as salas onde actuaram, a noite continuou até às 6, no Pitch Club.

Dia 2 Nem a chuva que ameaçou cair impediu que a afluência aumentasse no segundo dia. Na rua, distribuiu-se chocolate quente e algodão doce gratuitamente pelos que preferiram aproveitar o ambiente. O primeiro destaque foi para o jazz de Elisa Rodrigues, que fez encher o café Majestic, deixando boquiabertos os que a desconheciam. Ao início da noite, ouviu-se a voz doce mas feroz de Dillon, no cinema Passos Manuel, que quase remeteu para um ritual satânico ao qual ninguém queria fugir. Rui Oliveira, de 35 anos, refere que sempre viveu no Porto e que só com o festival pôde conhecer espaços diferentes. “É este tipo de eventos que dinamiza a cidade”, conclui. Uma das bandas que o espectador mais esperava ver era The Dø. A banda fez descolar dos lugares sentados praticamente todos os presentes que se aproximaram do palco, transformando o Coliseu numa autêntica pista de dança. Muito antes do início do concerto mais esperado da noite, já os lugares dianteiros do Coliseu estavam ocupados para assistir à banda cabeça de cartaz. Twin Shadow protagonizou um dos mais extasiantes concertos. As cadeiras foram trocadas por um lugar junto ao palco. A banda reconheceu o carinho do público, que teve direito a encore. Nem uma agenda de concertos organizada permitia conseguir ver todos os concertos. O conceito do Mexefest foi elogiado pela maioria dos fãs, que tencionam regressar. Com os objectivos alcançados, a organização do festival considera o evento um sucesso, pelo que a ideia é “haver continuidade”.} Ricardo Lima

“Graffiti no silêncio” ENTRE O DIA 25 DE FEVEREIRO E 25 DE MARÇO, ESTEVE NO PORTO, A EXPOSIÇÃO “GRAFITTI NO SILÊNCIO” DE PAULO PIMENTA, NA LOJA “DEDICATED”.

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as porquê “Grafitti no Silêncio”? Ninguém sabe quando os graffitis foram feitos, “aparecem do nada” quando nós menos esperamos, criando diálogos com a sociedade e com o espaço público e tudo isto acontece no mais puro dos silêncios. Existe um silêncio sonoro, mas não existe um silêncio quanto à intenção. Cada grafitti “grita” para cada um de nós, no sentido em que não nos é indiferente, transmitindo-nos opiniões e sensações inesperadas. É poesia, é metáfora é democracia. Fica exposto para toda a gente o ver, sem fazer distinções de classes e raças. Humaniza a cidade e faz a sociedade ver a sua própria miséria, a antítese em que vive. Reflecte cada um de nós, pensando num colectivo. Podemos afirmar que esta combinação, entre a fotografia e o grafitti é arte sobre arte. Ambas são silenciosas e subtis na forma como surgem, mas ao mesmo tempo pretendem dizer-nos algo. A arte é isso mesmo, diálogo. Nesta foto reportagem o factor humano está sempre presente. As pessoas aparecem nas fotografias como ênfase de uma arte pública que nos acompanha no quotidiano. O grafitti é uma ideologia de transformação social e esta exposição pretende fazer pensar sobre a forma como a mesma é feita. Após a análise, podemos considerar o nome desta exposição uma ironia. Aqui, o silêncio não existe.} Ângela Ribeiro

A arte volta ao bairro em Abril

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Rua Miguel bombarda é a artéria principal mas o Bairro estende-se por mais sete ruas que, através dos seus bairristas aderentes - pessoas que trabalham e expõem as suas obras na área - propõem uma série de aulas, oficinas, cursos, visitas guiadas ou espectáculos a quem quiser visitar o Quarteirão das Artes. “A dinâmica já existe mas nós estamos a criar uma dinâmica nova que é cruzar e juntar programas e fazer com que novas pessoas se instalem e adiram”, começa por explicar Luciano Amarelo, coordenador-geral do projecto. Assim, o “Bairro das Artes Circuit” combina a programação que os bairristas já têm com aquela que é criada de raiz pois, segundo Luciano Amarelo, “a arte é tudo, reside em tudo”, mas depois é necessário pensar como uma lavandaria pode atrair quem procura arte. Neste sentido, ninguém é deixado de fora pois o mais importante é unir quem vive no bairro, os bairrões, a qualquer pessoa que trabalhe no bairro, o bairrista, e àqueles que o decidem visitar, os turistas, segundo um programa de espectáculos que fomente a interacção entre todos os intervenientes. Para o mês de Abril a programação já está lançada e prova que o projecto tem sido bem sucedido pois, como há mais bairristas aderentes, a diversidade de programas também é maior. Assim, para Luciano Amarelo, neste mês já é possível ir ao Bairro e passar um dia inteiro a visitar os diferentes espaços com programação. Todavia, nem tudo está a correr como previsto. À relutância inicial de alguns bairristas em pagar um condomínio que pague a publicidade que é feita ao seu espaço, há falta de apoios e patrocinadores que permitam o projecto crescer e alcançar mais bairristas e bairrões. O ponto alto da programação de Abril será a conferência de imprensa no dia 10 em que será feita a avaliação dos três meses do projecto e em que se definirá o rumo a seguir no futuro. } Ivone Barreira


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Casa de António Nobre -> Avenida do Brasil, nº 531 Apesar de não ter nenhuma placa identificativa, a casa onde faleceu este poeta ainda pode ser vista na Avenida Brasil, na Foz do Douro. No vasto conjunto de casas da dita avenida, a casa pode até passar despercebida, devido ao estado de conservação em que se encontra. Os vidros de janelas quebrados e a falta de pintura na fachada da casa denotam, não só, o factor temporal, mas também o vandalismo ao qual a casa tem estado exposta. António Pereira Nobre nasceu a 16 de Agosto de 1867 no Porto. Foi um poeta das correntes ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista. As suas obras sofrem influências de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, mas, sobretudo do simbolismo francês. Através das suas obras, este conseguiu com que o simbolismo português surgisse com uma linguagem formal e, simultaneamente, coloquial (influenciado pelas suas origens nortenhas). Faleceu a 18 de Março de 1900, na Foz do Douro, aos 33 anos, tuberculoso.}

Casa de Almeida Garrett -> Rua Barbosa de Castro, nº 37

Por entre as ruas mais recônditas da Invicta existem casas que permanecem resistentes ao tempo e ao caminhar da história, cujo interesse é apenas assinalado por placas evocativas. Os olhares mais atentos podem identificar vários destes locais, apesar da degradação que os envolve, mas que, ainda assim, nos ajudam a relembrar personalidades que enriqueceram a história da cidade. texto Cláudia Santos fotografia Ângela Ribeiro

A casa onde nasceu o escritor pode encontrada na rua Barbosa de Castro, nº 37, na freguesia da Vitória, no Porto, onde uma placa identificativa de pedra ornamentada permanece inerte ao tempo, para nos lembrar deste grande escritor portuense. Hoje em dia, no rés-do-chão do edifício, está instalada uma mercearia, e o 1º e o 2º andares estão habitados. Contudo, o andar outrora habitado por Garrett está ao abandono e com frequentes infiltrações de água (retiradas por uma das inquilinas). A imobiliária Real Douro comprou em 2007 o edifício, com o intuito de ali fazer um hotel. Contudo, o projecto estagnou, deixando até hoje um local com elevado interesse cultural ao abandono. João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu a 4 de Fevereiro de 1799, no Porto. Foi escritor, dramaturgo, ministro e secretário de estado honorário português, orador, par do reino e um grande impulsionador do teatro português. Faleceu a 9 de Dezembro de 1854, em Lisboa.}

Casa de Carolina Michaëlis -> Rua de Cedofeita, nº159 No nº 159 da rua de Cedofeita pode ser encontrada a casa que outrora era habitada por Carolina Michaëlis e Joaquim Vasconcelos. Actualmente, o edifício encontra-se em estado de degradação, devido ao qual a Câmara Municipal do Porto até já recorre a medidas de protecção que impedem que os azulejos de caiam. Ao mesmo tempo, as medidas impedem também que placa identificativa da presença da escritora naquele local seja reconhecida por quem passa. O rés-do-chão do prédio é ocupado por uma tabacaria. Assim, um edifício que, em tempos, era palco de cultura, hoje em dia, está em risco de ruir e sem requalificação, pelo menos até 2013. Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos nasceu a 15 de Março de 1851, em Berlim. Foi escritora, lexicógrafa, crítica literária, filóloga da língua portuguesa e professora na Universidade de Coimbra (a primeira, em Portugal). Ao longo da sua carreira, ligou-se a inúmeras personalidades de renome portuguesas, espanholas, alemãs francesas e inglesas, desde médicos a escritores. A 22 de Outubro de 1925 vem a falecer, na cidade Invicta, onde morava.}


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Astromedia Stirling Engine

Desde a invenção dos relógios de quartzo que a sua precisão é um dado adquirido. Para além disso, o seu processo de fabrico tornou-se tão barato que o preço de um relógio está mais dependente de factores estéticos do que de qualidade. Não é por isso de admirar que este Flip Page Clock encontre aqui lugar, não pelas suas qualidades técnicas, mas pelo seu aspecto. Os relógios de páginas já saíram de moda há algumas décadas. Mas como muitas outras tendências de outrora, podem agora ser encontrados em mercados de nicho que se concentram em estilos retro. O exemplar aqui apresentado combina o esquema de virar de página com uma armação metálica de duas pernas, mais a fazer lembrar algo saído de um universo de ficção científica. O relógio tem uma agulha de cada lado para manter as páginas abertas e visto de perfil tem o aspecto de uma engrenagem achatada. As páginas pintadas têm a vantagem de ser mais fáceis de ler sob iluminação forte, ao contrário do que acontece nos ecrãs electrónicos. O Flip Page Clock é bastante limitado em termos de funcionalidades, resumindo-se a apresentar as horas num formato AM/PM, não incluindo uma funcionalidade de despertador. A hora actual só pode ser acertada num sentido, pelo que um engano ao acertar obriga a percorrer de novo as 24 horas. Ainda assim é um objecto de decoração interessante para os mais saudosistas. Funciona com uma pilha do tipo D e pesa 750g. Já o preço pode ser considerado exagerado para o que é, custando cerca de 35€.

02 Night 'n Day Globe Se os gregos antigos já sabiam que a Terra é redonda, os Descobrimentos confirmaram-no de forma inequívoca. Desde então que os globos encontraram lugar em muitos sítios e fascinaram muitos curiosos, mesmo sendo menos práticos do que os seus equivalentes planos. Este Night ‘n Day Globe junta o gosto por globos a vários outros aspectos da dinâmica do planeta, nomeadamente no que toca à passagem do tempo. O globo tem uma luz interna que ilumina as zonas que estão a receber luz solar e assenta numa engrenagem que gira à mesma velocidade que a Terra, de modo que o dia e a noite correspondam, a cada momento, ao que se passa na realidade. Para além disso, o próprio eixo também gira, simulando assim o efeito das estações do ano e mostrando, de forma clara, as diferenças entre Verão e Inverno entre os hemisférios como, por exemplo, o sol da meia-noite nos pólos. Há ainda uma zona de penumbra que indica o crepúsculo. O globo tem 28cm de diâmetro e funciona ligado à corrente eléctrica, sem pilhas. Algumas engrenagens exteriores têm que ser montadas pelo comprador, mas a embalagem inclui um manual de instruções, que contém também informações sobre a rotação da Terra. Para o calibrar da primeira vez é necessário conhecer a longitude do local onde se está. Tem apenas os inconvenientes de ser ligeiramente ruidoso e não permitir rodar livremente sem desligar, o que pode dificultar a sua utilização enquanto mapa propriamente dito. Custa cerca de 100€.

A construção de modelos das mais diversas coisas é um hobby para muita gente. Automóveis e aviões parecem ser dois dos temas com mais adeptos, com modelos funcionais detalhados, mas estão longe de ser os únicos. A Astromedia é uma empresa alemã que fabrica brinquedos científicos e neste caso está a oferecer um motor térmico de tipo Stirling, completamente funcional e feito, em grande parte, de cartão. O motor de Stirling foi inventado em 1816 por Robert Stirling e, comparativamente aos motores a vapor, tem a vantagem de ser mais eficiente e silencioso. O modelo da Astromedia faz jus a essa descrição, pois funciona apenas com o calor de uma chávena de água quente. Como modelo que é, as peças vêm na caixa para serem montadas. A parte exterior é de cartão, sendo o pistão e as placas que recolhem o calor. Uma vez construído basta colocar o motor sobre uma qualquer fonte de calor para que ele comece a girar. Alternativamente também é possível usar uma fonte de frio, como gelo, para o pôr a funcionar, agora em sentido inverso. Como muitos modelos deste tipo, o motor de Stirling exige a utilização de cola e alguma habilidade para efectuar uma montagem limpa. Por outro lado, é garantido que quem o comprar terá várias horas de diversão a montá-lo. O kit traz ainda um manual de instruções detalhado, útil para a construção dele e para se aprender um pouco sobre a história e o funcionamento do motor. Pode ser comprado por 23€.

04 Tape2MP3 Já houve um tempo em que as cassetes de áudio faziam parte do dia-a-dia de toda a gente. Desde os rádios dos carros até às gravações de músicas e programas da rádio, encontravam-se um pouco por toda a parte. E, mesmo com o passar dos anos, não será difícil encontrar estudantes universitários com boas memórias delas. Já encontrar quem ainda lhes dê uso seria difícil até há bem pouco tempo. No mundo das tecnologias digitais o Tape2MP3 é um produto que apela, tanto a quem tem uma vasta colecção de cassetes, como a quem guarda apenas algumas com significado especial. O conceito é muito simples: transformar o conteúdo das fitas em formatos digitais para arquivo ou para utilização como leitores de música. O design também é simples: tem exactamente o formato de um leitor de cassetes tradicional, com o acrescento de uma porta USB. Isto significa que o Tape2Mp3 também pode ser usado como um vulgar leitor de cassetes, para os dias em que a nostalgia vem ao de cima. Quanto à função de conversão, basta ligar ao computador através da porta USB, instalar o software, que é compatível com Windows e Mac, e começar a gravar. Para quem não se contentar apenas com isto é possível acrescentar às faixas gravadas informação como o título, autor, etc. Ligado ao computador, o Tape2Mp3 funciona apenas com o cabo USB. Já para a utilização como leitor portátil são necessárias duas pilhas AA, sendo compatível com headphones de entrada standard de 3,5mm. Pode ser comprado por cerca de 20€.

Paulo Macedo

Kimura Flip Page Clock


crítica/11

música

cinema

2012 abril jup parêntesis }

TABU

The Intouchables

Depois de “Aquele Querido Mês de Agosto”, Miguel Gomes aventura-se por uma África profunda para homenagear de novo o cinema. Desta vez não desnuda a estrutura do cinema como no anterior em que expunha a rodagem fazendo dos bastidores o próprio filme; aqui a presença do cinema faz-se pela forma e não pelo argumento. TABU foi rodado a preto e branco e a segunda parte, filmada com película de 16mm, não tem diálogos, como na era do cinema mudo. Aqui o realizador consegue a proeza de não apenas homenagear o cinema, como de falar de coisas que se foram perdendo no tempo. TABU divide-se em duas partes: "Paraíso", a primeira parte, é centrada em Aurora, uma octogenária solitária e um tanto senil, que vive aos cuidados da empregada cabo-verdiana e da vizinha. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer o seu passado. É Ventura, o eterno amante de Aurora, que com uma ex-colónia africana dos anos 60 em pano de fundo, narra os acontecimentos da segunda parte – “O Paraíso Perdido”. Quem conhece o trabalho de Miguel Gomes sabe que o que se repete em TABU é a capacidade de surpreender o espectador. Uma verdadeira obra-prima do cinema português. TABU recebeu este ano o prémio crítica em Berlim. } Dalila Teixeira

Phillipe (François Cluzet) é um tetraplégico milionário que procura alguém que tome conta dele. Driss (Omar Sy) é um jovem dos subúrbios, praticamente acabado de sair da prisão, à procura de uma assinatura que lhe assegure o subsídio de desemprego. Apesar de aparentemente ser a pessoa menos adequada para a função, Driss fica com o trabalho. Juntos, fazem renascer Vivaldi, recuperam "Earth Wind and Fire" e dão lugar a uma amizade tão forte quanto inesperada ou improvável. “Amigos Improváveis” tinha todos os ingredientes para ser um verdadeiro melodrama, mas acaba por ser um filme que foge aos lugares comuns, que chama “os bois pelos nomes” e que vai pelo caminho inverso ao da vitimização esteriotipada. Duas vidas precárias - uma física, outra social - encontram-se numa comédia que apesar da superficialidade do sub-enredo da paixão de Phillipe, consegue a felicidade de quebrar o senso comum estereotipado.Não é uma obra-prima, mas consegue a proeza de nos pôr a rir e a pensar em simultâneo! “Amigos Improváveis” é baseado numa histórica verídica e é hoje a segunda película francesa mais vista de sempre.} Dalila Teixeira

Break It Yourself

L’Art Brut

Assobios, muitos ecos e uma guitarra sublime. O multifacetado compositor norte-americano Andrew Bird está de volta em 2012 com o disco “Break It Yourself”. O cantautor convida-nos a embarcar numa viagem um tanto ou quanto longa - o álbum contém 14 canções – e com vários pontos de passagem. Se por um lado, o som do violino nos evoca sempre as raízes da terra e paisagens medievais, a voz nasalada e o glockenspiel metálico acrescentam uma boa dose de doçura às composições, criando uma simbiose que, embora campestre, é também citadina. Mas o passeio não termina aqui. Em “Danse Caribe”, os acordes dançáveis e melódicos da guitarra, juntos a uma percussão afro-latina e a um assobiar ligeiro, idealizam um ambiente exótico moderado. “Lusitania” (isso mesmo) é uma simples e bela balada na qual St. Vincent dá o seu toque. E se em “Hole In The Ocean Floor” a presença do violino nos parece em certas partes demasiado erudita, “Give It Away” é popularucha, fácil de ouvir e para cantar. Importante mesmo é que não passem à frente a faixa número dois, “Polynation”, que, embora tenha apenas 46 segundos, é pura magia. Como as sardinhas....

Esqueçam os refrões inesquecíveis, os riffs enérgicos ou letras como “Drunk Or Stoned” ou “Love Letters From A Motherfucka”. Os Wraygunn já não são o que eram. “L’Art Brut”, o último disco de Paulo Furtado e companhia traz-nos calma, demasiada calma numa aparente tentativa de crescimento erudito. O single de estreia “Don’t You Wanna Dance?” leva-nos à memória os anos 80 e os GNR, com, inclusive, vozes de fundo. Ainda assim as vozes de Raquel e de Selma fazem maravilhas como se pode comprovar em “Kerosene Honey”, em que as duas cantam toda a música. “Strolling Around My Hometown” estaria irrepreensivelmente explosiva, não fosse a graça do “bum bam” esgotada no irritante. A influência do projecto individual de Paulo Furtado, “Legendary Tigerman” é notória, sendo “That Cigarette Keeps Burning” o cúmulo. As palmas de “My Secret Love” contagiam e as tendências rítmicas trazem reminiscências de “All Night Long” de “Shangri-la”. “Track You Down” é a emancipação feminina em definitivo no disco. A amorosa mas portentosa “Cheere Cheere”, um original dos Suicide, encerra este álbum de altos e baixos. Talvez a ânsia de histerismo no rock and roll não deixe desfrutá-lo na sua integridade..

} Alexandra João Martins

} Alexandra João Martins

Persepolis

E a noite roda

Não sendo propriamente uma novidade, já que conhecemos a obra de Satrapi pela adaptação a filme da sua mais conhecida obra de romance gráfico, Persépolis, só agora nos chega em português pelas mão da editora Contraponto. Considerada a primeira BD iraniana, foi originalmente editada em França, distinguida no Festival de BD de Angoulême com os troféus para autora revelação e melhor argumento e, mais tarde, nos EUA, com o Eisner para melhor romance gráfico e melhor obra estrangeira. Narrativa autobiográfica, está dividida em duas partes. A primeira, a adolescência de Satrapi, educada no seio de uma família de bom nível cultural e económico, entre 1978 e 1984, no Irão conturbado pela revolução que levou os fundamentalistas islâmicos ao poder e à restrição de muitas das liberdades individuais. A segunda parte, a autora a viver na Áustria, entre os 14 e os 18 anos, e o seu regresso posterior ao Irão, sentindo-se, em ambos os casos, inadaptada e desajustada do local onde vivia. Para além da experiência pessoal, desde as mudanças inerentes à passagem da adolescência à idade adulta e das experiências traumáticas que enfrentou, “Persépolis”, desenhado a preto e branco num estilo naif mas muito funcional, traça um panorama da realidade iraniana durante o período abordado.

Depois de publicar vários livros sobre as suas aventuras jornalísticas, Alexandra Lucas Coelho lançou-se na aventura de escrever um romance. Editada por aquela que tem sido a sua editora, a Tinta da China, é também uma aposta no novo mercado brasileiro, à qual esta chancela se estende. Alexandra Lucas Coelho escreve o mundo, um pouco por todo o lado. Tem-nos trazido os cheiros, as cores, uma enchente de sentidos e sentimentos. O desafio mantém-se, e desta vez, por terrenos ainda não pisados pela sua caneta. Entramos nos quartos e nas salas das personagens, pelo desejo e pelo sexo. Não é perfeito mas não desilude, é notório o esforço para largar o seu lado de jornalista e narradora de viagens e expor mais um toque pessoal. Ana Blau, uma repórter catalã e Léon Lannone, também jornalista, mas belga, conhecem-se em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Aí começa uma história que atravessa várias cidades e paisagens, da Faixa de Gaza à Mancha de Quixote, enquanto o mundo exterior se vai fechando num quarto sem saída. Daí que a divisão do romance não seja cronológica mas sim geográfica.

de Miguel Gomes

Andrew Bird

livros

de Marjane Satrapi

} Pedro Ferreira

de Eric Toledano e Olivier Nakache

Wraygunn

Alexandra Lucas Coelho

} Pedro Ferreira


em Abril

Aloe Blacc DR

MÚSICA

TEATRO

EXPOSIÇÕES

VÁRIOS

12 QUINTA-FEIRA

ATÉ DIA 7

DE 10 A 15 MAIO

13 A 15

Os 39 Degraus (de Hitchcock)

Exposição de Fotografia Visível redescoberto

ENTRADA LIVRE

FÓRUM CULTURAL DE ERMESINDE Hokuto Anipop – Festival de Cultura Japonesa ENTRADA GRATUITA

DE 19 A 11 MAIO

ATÉ DIA 17

CASA DA MÚSICA A Naifa

RIVOLI TEATRO MUNICIPAL

21H30 - 15 €

21H30 - 16 €

13 SEXTA-FEIRA

A PARTIR DE DIA 12

Luísa Sobral

O Medo que o General Não Tinha

CASA DA MÚSICA

TEATRO HELENA SÁ E COSTA

21H30 - 17 €

TERÇA-FEIRA A DOMINGO ÀS 21H45 - 5€

16 DOMINGO

TEATRO HELENA SÁ E COSTA

CASA DA MÚSICA

Arcadi Volodos

18H — €25 HARD CLUB Immortal Technique + Soulkast & Brahi + Mind da Gap

22H - DESDE 17,50€

15 DOMINGO CASA DA MÚSICA Simone

21H30- 50 €

24 TERÇA-FEIRA CASA DA MÚSICA Aloe Blacc

23H - 17 €

O Guardião do Rio

TERÇA-FEIRA A DOMINGO ÀS 21H45 - 5€

27 A 29

COLISEU DO PORTO A Fuga

QUINTA-FEIRA A SÁBADO 21:30H; DOMINGO 17H

ATÉ DIA 20

TEATRO NACIONAL S.JÕAO Alma

QUARTA-FEIRA A SÁBADO 21:30H; DOMINGO 16H

28 OUT. A 30 NOV. TEATRO CAMPO ALEGRE Falácia

SEXTA-FEIRA A SÁBADO ÀS 21H30, DOMINGO ÀS 16H30 - DESDE 10 €

BIBLIOTECA DA FEUP

EL CORTE INGLÊS

Exposição de Fotografia Fragmentos cruzados

ENTRADA LIVRE

ATÉ DIA 26 Ó! GALERIA

MixTape — Lara Luís

TODOS OS DIAS DAS 12H AS 20H ENTRADA LIVRE

ATÉ DIA 27

CASA DA CULTURA – VILA NOVA DE GAIA Maria Dulce Barata Feyo – pintura

SEGUNDA-FEIRA A SEXTA DAS 9H ÀS 20H, SÁBADOS DAS 15H ÀS 19H - ENTRADA LIVRE

ATÉ DIA 30

MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA 250 Anos de Imprensa Literária

TODOS OS DIAS DAS 15H ÀS 20H

29 DOMINGO

ATÉ DIA 30

CASA DA MÚSICA

The Magnetic Fields

INKY

21h - 25 €

Os Cadernos — Uzo

TERÇA-FEIRA A SÁBADO DAS 11H ÀS 20H ENTRADA LIVRE

MOSTEIRO DE S.BENTO DA VITÓRIA Leituras no Mosteiro

TERÇAS-FEIRAS ÀS 21H

19 QUINTA-FEIRA

INSTITUTO PORTUGUÊS DE FOTORAFIA Ciclo de Conferências - Encontros do Olhar 2012

21H30 - ENTRADA LIVRE

TEATRO DO CAMPO ALEGRE Uma Noite Para Esquecer – as escolhas poéticas de Fernado Alvim – Quintas de Leitura

22H

21 A 24

BIBLIOTECA MUNICIPAL FLORBELA ESPANCA – MATOSINHOS Literatura em Viagem

27 SEXTA-FEIRA

CINE-TEATRO CONSTANTINO NERY ESAD World Graphic Day

ENTRADA LIVRE

ATÉ DIA 30

BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL DO PORTO Páginas do Porto – a cidade nos livros

SÁBADOS ÀS 18H

Arcadi Volodos DR


JUP — ABRIL 2012

U.PORTO

AGENDA 19 DE ABRIL A 30 DE JULHO

Verão de saberes na Universidade do Porto

EXPOSIÇÃO: “250 ANOS DA CRIAÇÃO DA AULA NÁUTICA DO PORTO” Edifício da Reitoria da U.Porto (FEP), Auditório Ruy Luís Gomes (4º piso) Exposição sobre a primeira instituição de ensino público na cidade do Porto, considerada a mais antiga antecednete da Universidade do Porto. O acervo inclui documentos ligados às atividades da Aula, instrumentos náuticos e cartas náuticas dos séculos XVII e XVIII Organização: Museu de Ciência da U.Porto - entrada livre

26 DE ABRIL EXPOSIÇÃO ARMANDA PASSOS: OBRA GRÁFICA Salão Nobre da FEP, 18 horas Com Fernando da Silva, José Madureira Pinto e Luís Portela Faculdade de Economia da U.Porto (FEP), 18h30 - entrada livre

ATÉ 19 DE MAIO EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: “DETALHES DA FASCINAÇÃO EGÍPCIA”

UNIVERSIDADE DE VERÃO REGRESSA EM 2012 COM UMA OFERTA DE 32 CURSOS ABERTOS A TODA A COMUNIDADE. INSCRIÇÕES ABERTAS.

Edifício da Reitoria da U.Porto (FEP), Sala de Exposições Temporárias (3º piso) Comissária: Maria do Carmo Serén - entrada livre

11

ATÉ 20 DE MAIO

EXPOSIÇÃO: “CINCO SÉCULOS DE DESENHO NA COLEÇÃO DA FACULDADE DE BELAS ARTES DA U.PORTO” Núcleos I e II: Museu da FBAUP, até 22 de abril Núcleo III: Museu Nacional Soares dos Reis, até 20 de maio A mais valiosa coleção artística alguma vez apresentada por uma Escola portuguesa propõe uma viagem única pela história do Desenho (do Renascimento à atualidade) através de mais de 300 peças pertencentes ao acervo da FBAUP. Mais informações em HYPERLINK "http://centenario. up.pt/" http://centenario.up.pt/

ATÉ 4 DE JUNHO

CONCURSO DE TEXTOS TEATRAIS DO TEATRO UNIVERSITÁRIO DO PORTO (Aberto a toda a comunidade) Regulamento em www.teatrouniversitariodoporto.org Mais informações: concurso@teatrouniversitariodoporto

EM PERMANÊNCIA

EXPOSIÇÃO: “COLEÇÃO EGÍPCIA DO MUSEU DE HISTÓRIA NATURAL DA UNIVERSIDADE DO PORTO” Edifício da Reitoria da U.Porto Horário: 2ª feira a 6ª feira, das 10h às 17h - entrada livre Mais informações em http://centenario.up.pt

U.Porto tem novo pavilhão desportivo

O

E

se, no próximo verão, pudesses aprender inglês, alemão ou espanhol, ao mesmo tempo que discutes política e economia ou pintas uma aguarela? Entre junho e setembro, tudo isso vai ser possível através dos cursos da Universidade de Verão 2012, o programa da Universidade do Porto que regressa este ano com novas propostas formativas para toda a comunidade. Apresentando-se com um formato renovado, a U.Verão 2012 propõe uma oferta de 32 formações nas mais variadas áreas do conhecimento, dirigidas a vários públicos, idades e categorias profissionais, nacionais e internacionais e, de um modo especial, aos estudantes e antigos estudantes da U.Porto. Tudo isto tendo com pano de fundo as várias faculdades da Universidade. A maior participação das escolas da U.Porto é, de resto, a principal inovação introduzida pela U.Verão 2012 face às primeiras edições do evento. “O projeto entrou em velocidade cruzeiro. A marca está estabelecida, tem solidez e, na sequência do que começou a ser feito no ano passado, decidimos que deve ser assumida pelas faculdades”, lança a vice-reitora Maria de Lurdes Correia Fernandes. Em 2012, o desafio será aceite pelas faculdades de Belas Artes, Economia, Farmácia e Letras. Mas a responsável acredita que “a tendência será para que todas as escolas participem, criando as suas iniciativas, com o apoio da Universidade ao nível da divulgação e da organização”. Ao entrarem na U.Verão 2012, os participantes podem, desta forma, beneficiar do ambiente de investigação da U.Porto, da qualidade dos seus docentes e investigadores, e das estruturas de aprendizagem em que a Universidade tem vindo a investir. Mas não só. De forma a reforçar a ligação da Universidade à sociedade e às regiões envolventes, “as faculdades têm a liberdade para, se quiserem, e em função da tipologia de cursos, manter a ligação às câmaras municipais e a ou-

tras entidades com quem a U.Verão já colaborou nas edições anteriores”. Na prática, uma aula teórica pode ser transformada numa visita de estudo, funcionando como um“ laboratório vivo” de muitas das áreas lecionadas na Universidade. A Universidade de Verão 2012 representa mais um passo na aposta que a U.Porto tem feito ao nível da oferta de programas de Educação Contínua, dirigidos a motivações e públicos distintos. Atualmente, o catálogo integra já cerca de 400 cursos pensados em função da atualização permanente de conhecimentos e desenvolvimento pessoal dos participantes. “A oferta lançou-se, está solidificada, é conhecida, tem procura, tem qualidade e dá resposta a necessidades concretas das pessoas. Queremos fazer o mesmo com a Universidade de Verão”, remata Maria de Lurdes Correia Fernandes. O catálogo completo (em permanente atualização) de cursos da Universidade de Verão 2012 – e respetivas condições de candidatura - pode ser consultado em HYPERLINK "http://www. up.pt/" http://www.up.pt/ > Estudar na U.Porto > U.Verão > Catálogo de Cursos. Outros cursos de verão Mas nem só a Universidade de Verão vai fazer "mexer" a Universidade no próximo verão. Das atividades da Universidade Júnior às iniciativas lançadas pelas várias faculdades, não faltarão oportunidades para abrir a U.Porto a todos os que queiram aprender na maior universidade portuguesa. É o caso da Faculdade de Letras, que propõe um leque de 26 cursos em domínios tão variados como a filosofia, a geografia, a sociologia, os estudos anglo-americanos e os estudos portugueses e românicos. Para mais informações consulta o site da FLUP ou contacta o Setor de Formação Contínua da faculdade através do telefone 226 077 152, ou do email: gfec@letras.up.pt.

s estudantes da Universidade do Porto usufruem, desde o início de abril, de uma nova infraestrutura desportiva destinada a toda a comunidade académica. Situado no polo da Asprela (junto à Faculdade de Engenharia), o Pavilhão Desportivo Luís Falcão foi concebido para a prática de modalidades de pavilhão como o Futsal, o Basquetebol, o Andebol, o Voleibol, entre outros. Inaugurado no passado dia 22 de março (Dia da Universidade), o pavilhão tem um horário de funcionamento das 10h às 24h, cabendo a gestão ao Gabinete de Apoio ao Desporto da U.Porto (GADUP). Para além de acolher a prática informal dos estudantes, o novo espaço será também um palco privilegiado do extenso programa de atividade desportivas que a Universidade preparou para este ano letivo para toda a comunidade universitária, e não só (ver mais informações em http://gadup.up.pt/). Na verdade, se algumas das modalidades vão continuar a ter lugar na Faculdade de Desporto (FADEUP), a grande parte passará para o novo pavilhão. "No que diz respeito às atividades que desenvolvemos no Programa de Fitness preparamos enormes surpresas para todo o ano neste novo complexo. Pretendemos pôr toda a comunidade da U.Porto a mexer", projeta Bruno Almeida, diretor do GADUP.

Ainda segundo aquele responsável, o pavilhão constitui um dos marcos mais importantes para o Desporto na U.Porto nos últimos anos, uma vez que " alargará a possibilidade de prática desportiva a toda a comunidade académica que há muito vinha reclamando um espaço desportivo com estas caraterísticas". Palavras que têm eco nas do reitor da U.Porto que, durante a inauguração do novo equipamento, destacou a importância do pavilhão para todos os estudantes da Universidade. “A prática desportiva é importante na formação dos estudantes (…) Com estas novas infraestruturas deixa de haver desculpas para não se praticar desporto na U.Porto”, realçou José Marques dos Santos, vincando ainda a vontade da Universidade em "investir na recuperação de todo o espaço desportivo universitário". A construção do pavilhão – cujo nome homenageia Luís Falcão (1928 - 2008), figura incontornável do desporto universitário portuense e, em especial, do Clube Desportivo Universitário do Porto (CDUP) - implicou um investimento de 700 mil euros (500 mil financiados com apoios comunitários do QREN e 200 mil suportados pela Universidade do Porto).

U.Porto não aumenta propinas em 2012/2013

O

Conselho Geral da Universidade do Porto deliberou, no passado dia 27 de março, a manutenção do valor das propinas a aplicar na instituição no ano letivo 2012-2013. Com esta decisão o valor da propina dos primeiros ciclos e dos ciclos de estudos integrados de mestrado mantem-se nos 999 euros. Já a propina dos 2ºs e 3ºs ciclos fixa-se  nos 1.250 euros e 2.750 euros, respetivamente, valores - de referência* - que se mantêm desde 2010-1011.  A deliberação do Conselho Geral, justificada pelas condições económicas do país e pela intenção de não sobrecarregar os estudantes com mais encargos, vem de encontro a uma das ideias defendidas pelo Reitor da U.Porto na sessão solene do Dia da Universidade (22 de março). Referindo-se ao financiamento das instituições do ensino superior, José Marques dos Santos disse não acreditar “que uma maior comparticipação

dos estudantes no financiamento das instituições seja a estratégia mais eficaz para aumentar as receitas próprias, dados os problemas sociais de acesso ao ensino superior que assim poderiam ser gerados”. Note-se que, de acordo com o   HYPERLINK "https://sigarra.up.pt/up/conteudos_ service.conteudos_cont?pct_id=8922&pv_ cod=05mnazAJdfPt" Regulamento de Propinas da U.Porto, o Conselho Geral pode delegar no Reitor competência para autorizar aumentos dos valores de propinas dos 2ºos e 3ºs ciclos, sob proposta devidamente fundamentada, do diretor da unidade orgânica interessada, até ao limite de 100 % do valor fixado; bem como para  autorizar reduções dos valores das propinas de terceiros ciclos. textos Tiago Reis/ Gabinete de Comunicação da Reitoria da U.P.


JUP — ABRIL 2012 12

SOCIEDADE

Um ano depois do 12 de Março PASSOU UM ANO DESDE QUE 300 MIL PESSOAS EM 11 CIDADES SAIRAM À RUA E DA MANIFESTAÇÃO QUE SURPREENDEU O PAÍS E ABALOU A POLÍTICA. A PERGUNTA É ÓBVIA: "VALEU A PENA?" por Margarida Castro ilustração Rafaela Rodrigues

H

á um ano atrás, no dia 12 de Março, 300 mil pessoas saíram à rua e o país surpreendeu-se com uma das maiores manifestações após o 25 de Abril. Chamada a manifestação da “Geração à Rasca”, ninguém adivinhou ou esperava que fosse tão massiva. Na altura, José Sócrates e o PS eram Governo. Ao lado do antigo Ministro das Finanças,Teixeira dos Santos, oficializou, em Abril desse ano, o pedido de “ajuda externa” à troika. O PS, o PSD e o CDS assinaram por baixo. Sócrates perdeu as eleições em Junho, ganhou Passos Coelho e o PSD. Passos Coelho e Paulo Portas juntaram-se e deram corpo a um governo de coligação PSD/ CDS. Depois destas voltas, e um ano depois, a pergunta naturalmente surge: valeu a pena? Em 1994, Vicente Jorge Silva apelidou a geração que se manifestava contra as propinas de “Geração Rasca”. Em 2011, em Lisboa, Alexandre de Sousa Carvalho, António Frazão, João Labrincha e Paula Gil juntaram-se e com base num manifesto intitulado “Manifesto da Geração à Rasca” propuseram um protesto. Na altura, o evento na rede social Facebook começou a crescer de uma maneira exponencial, como nunca antes visto. O protesto espalhouse pelo país e começou-se a organizar noutros pontos do país. O manifesto que serviu de base para este processo, falando na primeira pessoa, dirigia-se a “Nós, desempregados, ‘quinhentoseuristas’ e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.”. Confirmou-se no próprio dia que, apesar da falada centralidade do protesto numa geração jovem, o que movia este protesto era na verdade inter-geracional. Protestando “para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável”, afirmavam que esse protesto não seria “contra as outras gerações.”. Por fim, afirmavam a disponibilidade para construir as soluções para os problemas elencados: “Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.” Foi

com esta atitude pró-activa que o protesto se espalhou pelo país: Lisboa, Porto, Funchal, Ponta Delgada, Viseu, Leiria, entre outras, num total de 11 cidades, onde se juntaram cerca de 300 mil pessoas. No Porto, após concentração na Praça da Batalha, o protesto seguiu por Santa Catarina, desceu pela Rua Sá da Bandeira e desaguou na Avenida dos Aliados, tornando aquele espaço amplo num autêntico “mar de gente”. As estimativas apontavam para 80 mil pessoas. Já na Praça da Batalha, no microfone aberto ao público, notou-se que as razões que levaram as pessoas a manifestarem-se eram muitas e diferentes. Desde a descrença nos representantes políticos, à sensação de desgosto por parte daqueles que “fizeram o 25 de Abril”, passando pelos testemunhos arrepiantes de condições de vida e de condições laborais. Nos Aliados, o microfone foi novamente aberto e as intervenções e temas repetiram-se por algumas horas. Foram recolhidas, nos mais diversos pontos do país, vários milhares de folhas com propostas para alterar a situação do país. O protesto inundou o país. Na altura PrimeiroMinistro, José Sócrates, no final de uma reunião de líderes da Zona Euro diria: “Compreendo muito bem as ansiedades e os problemas dos jovens, compreendo muito bem.”. Um ano depois, com Passos Coelho agora PrimeiroMinistro, a situação económica piorou e o desemprego e a precariedade aumentaram.

Adriano Campos 27 anos / Nasceu na Guiné Bissau Mestre em Sociologia pela Universidade do Minho / Membro do movimento FERVE (Fartos/as d'Estes Recibos Verdes) Para saber a opinião da situação actual, um ano depois do 12 de Março, de alguém que ajudou a organizar este protesto, o JUP foi falar com Adriano Campos que foi membro da organização do protesto no Porto. JUP: Passou um ano. Ao olhar para o que se passou durante esse tempo, uma pergunta: "Valeu a pena"? Adriano Campos (AC): Valeu pois. Foi um dia que reuniu indignações várias e numa festa da democracia exigiu o respeito pelo futuro não só de uma geração mas de um país que já percebia que o FMI já cá morava. A preparação da manifestação trouxe novas pessoas para o activismo social e fez crescer a necessidade de organizar a alternativa por uma vida melhor. Olhando para trás, faria tudo novamente. JUP: Na tua opinião, o 12 de Março foi realmente um "alto e pára o baile" de uma geração mergulhada na precariedade ou mais do que isso? AC: É certo que foi muito mais do que isso. A pluralidade de vozes na rua deu a mostrar um protesto de várias gerações, onde o respeito pela democracia se cruzou com a exigência do trabalho com direitos. E por isso a voz da precariedade também lá estava, nos falsos recibos verdes, nos trabalhadores temporários, mas também nos estudantes que já percebem o que os espera, e por isso todos tomaram a rua na certeza que a precariedade é o resultado de escolhas e não um efeito cósmico das leis do mercado. Uma vida sem precariedade é possível e no 12 de Março percebemos isso de uma forma muito clara. JUP: Sócrates era Primeiro-Ministro. Houve eleições, ganhou o PSD e agora o PrimeiroMinistro é Pedro Passos Coelho. Comentários? AC: A mudança, como todos hoje percebemos, não foi substancial. A verdadeira alteração ocorreu em Maio, e chama-se “acordo com a troika”. A política da austeridade cega fundiu o PSD e o PS num mesmo bloco, que faz com

que o PS não consiga ser oposição e o PSD faça tudo para ter o PS ao seu lado. Quando daqui uns meses Portugal for empurrado para um segundo empréstimo e para mais medidas de austeridade estes dois partidos estarão juntos na assinatura do novo programa que nos atirará para um desemprego superior a 20%. JUP: Muitas pessoas apontaram o 12 de Março como uma das últimas "machadadas" da era Sócrates. AC: A verdade é que a era Sócrates continua. Mudaram os actores mas a trama é a mesma, por isso temos hoje um Governo que, nem um ano passado, soma críticas atrás de críticas. O 12 de Março mostrou uma indignação e não um caminho alternativo de Governo, seria estranho que o fizesse, deve ser valorizado por essa pedra lançada a um charco de onde, infelizmente, ainda não saímos. JUP: Uma das maiores, senão a maior, manifestação desde o 25 de Abril e as coisas não estão melhores. Faria diferença um novo momento desses? AC: Penso que a diferença está em casa medida de austeridade que nos apresentam. Basta ver, aceitamos a dimuição de salário e logo vieram os cortes no subsídio de natal e férias; aceitamos as privatizações e de pronto a Segurança Social se torna apetecível aos privados. Essa é a receita da troika, uma medida nunca vem só e pouco importa que seja ou não anunciada com antecedência. O que ontem se disse hoje já não vale e isso tem uma consequência: a aniquilação da democracia. Um novo momento, como o que poderemos ter a 12 de Maio, tem que exigir o respeito pelas escolhas democráticas e rompimento com a política de austeridade. •


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SOCIEDADE

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projecto comunitário Es.Col.a, que reabilitou uma antiga escola primária abandonada há 5 anos levado a cabo por um grupo de activistas que a devolveu ao domínio público e à comunidade da Fontinha, bairro do centro da cidade do Porto, e depois de ter festejado um ano no passado dia 3 de Abril, foi despejado após ação interposta pelo executivo da Câmara Municipal do Porto, que entrou em vigor no dia 13 deste mês. Foi ao sétimo dia, pelas 9h do dia 19 de Abril, que cerca de 15 carrinhas da polícia entraram pelo bairro e muitas dezenas de polícias de intervenção entraram na escola, por telhados de casas anexas, pelos portões e despejaram os 8 activistas que dormiam dentro da escola como forma de resistência planeada pelo grupo a partir de dia 13. O projecto que ao longo de um ano foi construído com a população do bairro, que entusiasmou centenas de pessoas que a foram visitando e participando nas actividades dinamizadas, que produzia intervenção social no bairro em apoio educativo às crianças, workshops de construção de instrumentos, aulas de música, oficina de bicicletas e capoeira entre outras, foi despejado pela intervenção da polícia que posteriormente destruiu os materiais, atirando-os para o pátio da escola. A intervenção passou também pela diluição de qualquer marca de memória do espaço, como os lençóis pintados com o nome do projecto no prédio abandonado em anexo. Para isso o comando da policia usou os bombeiros sapadores, que encapuçadamente ajudaram no despejo. O Sindicato Nacional de Bombeiros Profissionais lançou um comunicado, advogando a ilegalidade da situação e afirmando que os bombeiros foram

levados para o local pensando que se tratava de um simulacro e que só no local lhes foi dito para taparem a cara para manterem o anonimato. Nas primeiras horas da manhã a mensagem foi espalhada pelas redes sociais e aos activistas do projecto e aos habitantes do bairro juntaram-se cerca de uma centena de pessoas em protesto com o despejo e a intervenção policial. A polícia, que foi vedando os vários acessos à entrada do bairro, usou tasers e deteve 3 manifestantes. “A escola é nossa e há de ser” ia-se ouvindo no bairro. Ainda de manhã, a resistência que juntava duas centenas de pessoas, decidiu, em assembleia no largo do bairro da Fontinha, a ida à esquadra da PSP no Heroísmo para onde foram levados os 3 manifestantes detidos. Os manifestantes estiveram durante uma hora em frente à esquadra em protesto. De seguida, encaminharam-se para o largo nas traseiras da Câmara Municipal do Porto, onde se juntaram mais grupos de apoio e foi lido um comunicado que exigia a devolução da escola ao projecto e foi contrariado o comunicado da Câmara que questionava as intenções “comunitárias e culturais” do projecto que alegava a recusa do grupo em pagar 30€ mensais pelo espaço. No comunicado lido, foi explicado que ao grupo foi colocada a hipótese de um acordo de cedência do espaço até Junho deste ano, e que em assembleia foi decidido não assinar porque se considerar o acordo uma “armadilha” na concordância legal com um despejo em finais de Junho. Já com cerca de meio milhar de manifestantes o percurso seguiu para a escola primária onde encontrou uma barreira policial. Entre músicas, tambores, palavras de ordem, iam surgindo apelos para os polícias no

local se solidarizarem com o protesto e permitirem a passagem. A deputada Catarina Martins (Bloco de Esquerda) também esteve presente no local. Para o dia seguinte, sexta-feira dia 20, participaram na assembleia cerca de 300 pessoas que fizeram o balanço do dia anterior e decidiram iniciativas seguintes. Foi decidida a apresentação de uma Clown e de uma peça de Teatro do Oprimido nas comemorações do 25 de Abril. Para a mesma data, a assembleia decidiu reocupação da escola. Uma participante na assembleia afirmou que o despejo da Es.Col.A inicia o despejo de Rui Rio da Câmara. Um porta-voz do grupo, em entrevista à imprensa no local, apelou no final da assembleia a que o executivo camarário reconsidere a opção e anunciou que, dentro do quadro de resistência pacífica pelo qual sempre se pautou o projecto, os activistas irão preparar a reocupação no dia 25 de Abril. • José Miranda

Barragem do Foz Tua

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endorismo, a barragem leva já consigo, entre outros já ocorridos, o acidente de 26 de Janeiro que provocou a morte de 3 trabalhadores e testemunhos de operários que trabalham 12 horas por dia, sem contrato e sem subsídios. Mais recentemente, o arquitecto Souto Moura fala da proposta de redução do impacto visual e paisagístico da central hidroeléctrica, na qual o edifício ficará “artificialmente natural”. “Os Verdes” pronunciaram-se sobre o assunto, dizendo que a resposta “é, ela própria, geradora de impactos ambientais”. Já outros aproveitaram a deixa para se acorrentarem aos portões de acesso à barragem (iniciativa levada a cabo pelo Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a Quercus e a Coordenadora de Afectados pelas Grandes Barragens e Transvases (COAGRET)) e impedir temporariamente a continuação das obras.

Autor do Tugaleaks constituído arguido RUI CRUZ, AUTOR DO TUGALEAKS FOI SUPREENDIDO POR QUATRO AGENTES EM SUA CASA, PARA PROCEDER A BUSCAS. O TUGALEAKS TEM SIDO UM DOS MEIOS ALTERNATIVOS DE COMUNICAÇÃO MAIS UTILIZADOS PARA NOTICIAR AS ACTIVIDADES DOS ANONYMOUS.

JÁ DESDE FEVEREIRO DE 2011, QUE AGLOMERADOS DE ACTIVISTAS E AMBIENTALISTAS ARREGAÇAM AS MANGAS PARA TRAVAR A CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM NO VALE DE FOZ TUA. endo uma das 10 barragens que integram o Plano Nacional de Barragens sustentado pela EDP, estima-se “elevar o aproveitamento hidrológico de Portugal para 70%”. A barragem de Foz Tua tem a particularidade de submergir 16km da centenária linha ferroviária do Tua e de pôr em risco a classificação de Património da Humanidade do Douro Vinhateiro atribuído pela UNESCO em 2001. A obra terá um custo de 300 milhões de euros, cobrados na factura de electricidade de cada português, já que é um projecto que conta com o subsídio do Estado como “garantia de potência”. A construção implica também a criação de uma central hidroeléctrica e uma linha de muito alta tensão, com postes de 64 metros de altura que vão completar a paisagem que a EDP considera “potenciar o empreendedorismo e, com este, a criação de mais emprego na região”, esperando a criação de 4000 postos de emprego. Falando em empre-

ilustração Rudolfo

Es.Col.A da Fontinha despejada com violência policial

Mesmo com as medidas compensatórias realizadas pela EDP, ambientalistas continuam a manifestar-se com o famoso relatório do Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios (ICOMOS) na ponta da língua, defensor da inutilidade da barragem. Propuseram-se novas soluções, como a poupança de energia e o reforço da potência não aproveitada das barragens já existentes. Segundo o GEOTA, “investimentos em eficiência energética permitirão poupar 12,6 TWh/ano, equivalente a 25% do consumo actual” ao invés do investimento de 16 mil milhões de euros nas barragens propostas pelo Plano Nacional de Barragens. O governo tem permanecido silencioso a respeito do relatório do ICOMOS e a todos os protestos, prosseguindo com a construção no vale do Tua e Douro Vinhateiro, integrado como Património Mundial. • Gabriela Araújo

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ui Cruz foi constituído arguido no passado dia 8 de Março, quando quatro agentes da PSP, três deles sem identificação, se dirigiram a sua casa para proceder a buscas. Informático de profissão, Rui Cruz criou o Tugaleaks em Dezembro de 2010, um sitio onde são replicados conteúdos a serem partilhados pela internet e redes sociais. O Tugaleaks acabou por se tornar um importante agregador de noticias de movimentos sociais e de activismos vários que geralmente questionam os interesses económicos ou visibilizam os casos mais cinzentos da política nacional. No site eram divulgadas as actividades mais recentes de alguns grupos de hakers como no caso do Anonymous Portugal ou lulzsec. Em declarações ao Publico, em Dezembro de 2011, Rui Cruz afirmava que a visibilidade do Tugaleaks residia no facto de ser o único canal de média alternativo com noticias sobre movimentos activistas e hacktivistas, que o Tugaleaks não era contra ou a favor dos ataques a sitios on-line das várias instituições mas que “os grupos

de hacktivistas estão a impulsionar o acordar do povo com ataques a alvos cada vez mais notórios”. Entre ataques a sites da assembleia da república e de alguns partidos, um dos principais ataques terá sido o da divulgação pública de um ficheiro com os dados e as moradas de 107 polícias da PSP de Lisboa, como retaliação à força policial exercida nos conflitos da greve geral de 24 de Novembro e que terá levado a constituir como arguido o responsável legal pelo site. A actividade do Tugaleaks, muito na continuidade daquilo da actividade seguida pela wikileaks, entretanto desactivado após várias pressões, continua a regular divulgação de informação. Seja no “top 10 de ajusto directo” com os casos mais gritantes, na divulgação de um case-study sobre a Islândia ou com a noticia do mais recente exercício de violência policial no despejo do projecto Es.Col.A no bairro da Fontinha no Porto e também da resposta ao site da Camara Municipal do Porto que o deitou abaixo durante algumas horas. • José Miranda


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INTERNACIONAL E ECONOMIA

"Lost my job, found an occupation" FRAGMENTOS DE NOVA IORQUE, NOS SEIS MESES DO OCCUPY WALL STREET crónica José Soeiro

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m 2011 assistiu a uma nova vaga de protesto global, desde a Primavera Árabe ao movimento dos Indignados espanhóis, dos protestos da geração à rasca em Portugal às mobilizações contra a austeridade na Grécia. Entre estes movimentos, um dos que ganhou maior centralidade foi o Occupy Wall Street. Em meados de Setembro, ativistas ocupavam uma praça bem no centro do distrito financeiro de Nova Iorque, a uns metros da bolsa de valores. Rapidamente esse movimento difundiu-se à escala internacional, tornando-se as suas ações, cartazes e palavras de ordem uma referência de contestação. O alvo principal do movimento Occupy foi Wall Street, como símbolo do capitalismo financeiro dominante e do modo como este sequestrou o poder político e o conjunto dos direitos sociais, provocando desemprego, pobreza e um aumento das desigualdades. Nos Estados Unidos, o movimento tem-se multiplicado em iniciativas sobre cada uma das instâncias onde a desigualdade se produz, seja empresas que promovem o desemprego, bancos que despejam pessoas das suas casas, universidades que endividam estudantes, empresas que impedem genéricos ou censuram conteúdos, ou o complexo industrial-militar. Por Zuccotti Park passaram alguns dos ativistas e intelectuais críticos que marcam o nosso tempo: Noam Chomsky, Slavoj Zizek, Judith Buttler, Naomi Klein, Alex Callinicos, Angela Davis, Michael Moore estiveram na ocupação, tomaram a palavra e solidarizaram-se com os ativistas. Entre 16 e 18 de Março passado, nos seis meses do Occupy, teve lugar em Nova Iorque o Left Forum, encontro que juntou mais de 4 mil ativistas, entre os quais muitos dos principais dinamizadores do movimento Occupy dos vários pontos dos EUA e do Canadá. Em debate, uma miríade de temas de política, cultura, intervenção. O balanço sobre o Occupy, os seus desafios estratégicos e os próximos passos atravessaram todo o encontro. Tendo sido um dos participantes desse fórum, para intervir num debate sobre a realidade europeia e portuguesa, aqui ficam alguns fragmentos dessa experiência.

Pão e Rosas Passaram seis meses desde o dia em que começou o movimento Occupy Wall Street, na rebatizada Liberty Square. Elaine Bernard, sindicalista, lembra uma outra data. Entre Janeiro e Março de 1912, há um século atrás, em Lawrence, Massachussets, mulheres operárias e imigrantes davam uma lição ao mundo. Dois longos meses de greve fizeram os patrões recuar. Queriam melhores salários mas também o direito à humanidade e à beleza. “Os corações mirram de fome, assim como os corpos. Dêem-nos pão, mas dêem-nos também rosas”. O microfone humano O microfone humano é uma bela metáfora do movimento Occupy. Em qualquer sítio, improvisa-se amplificação: “do it yourself”. Qualquer intervenção, para ser ouvida, precisa da cooperação ativa de todos. Cada um vai repetindo o que ouviu para que os outros também oiçam, mesmo que discorde do que foi dito. Pode demorar mais tempo, é verdade. Mas às vezes é preciso ir devagar se temos pressa. Porta-vozes I À porta do fórum, uma assembleia feita com o tradicional microfone humano. Só para confirmar que está tudo no mesmo espírito, a rapariga que toma a palavra pergunta: “quem é que é o porta-voz aqui?”. Toda a gente levanta o braço. Porta-vozes II À noite, há um debate com a Amy Goodman, no conhecido programa alternativo de televisão “Democracy Now”. Faz-se o balanço de seis meses do Occupy e fala-se sobre o futuro: o movimento “occupy your home” contra os despejos, as mobilizações dos estudantes endividados, a campanha pela taxação dos capitais financeiros, a disseminação de iniciativas locais, o MayDay. Três convidados em estúdio: um jovem correspondente inglês, que esteve ativo no processo; a socióloga Francis Pivot, estudiosa dos movimentos sociais e referência na esquerda; um dirigente sindical. São três rostos do movimento, que tomam a palavra e falam – e muito bem – sobre os próximos passos. Alguém os escolheu.

A polícia ocupa Zuccotti Park A capa do jornal Metro tem o seguinte título: “Occupy Wall Street raises fist...NYPD puts it down”. No dia em que fez seis meses, voltou-se ao Zuccotti Park. Festejou-se, debateu-se, cantou-se. Mas as regras tinham mudado: na praça, que é propriedade privada, foi afixada uma placa de metal a dizer que é expressamente proibido levar sacos-cama, tendas, ou sentar-se no chão. A polícia não hesitou: quando os primeiros ocupantes começaram a abrir as mantas, começou à porrada, evacuou a praça e cercou-a de grades. 70 pessoas foram presas. Em resposta às críticas à brutalidade da sua atuação, a polícia emitiu um comunicado em que se justifica da seguinte forma: “os manifestantes deixaram o parque numa confusão, com garrafas de licor por todo o lado” e “às 11:39 da noite uma pessoa chamada ‘smackem1’ escreveu no twitter: ‹só faremos a diferença se matarmos um policia ou dois›, o que configura uma ameaça de morte”. “Não se apaixonem por vocês próprios” A experiência da vida na praça marcou muita gente. Os lugares do Occupy, como as acampadas, foram durante semanas “mini-sociedades autogeridas”, “comunidades holísticas onde nos sentimos seres sociais completos”, onde aconteceram “novas formas de estar junto” e “encontros que nunca tínhamos imaginado, como ver um rabi e duas jovens transgender a debater sentados no chão”, como explicavam algumas das participantes por aqui. “Juntámo-nos como corpos em aliança, na rua e na praça, pondo em prática a expressão ‘Nós, o povo’”, disse Judith Butler. Mas o desafio da transformação não pode ser apenas uma experiência centrípeta. As palavras de Zizek ressoavam em várias discussões: “Não se apaixonem por vocês próprios. Tivemos um tempo porreiro aqui, mas o que importa é o dia seguinte, quando tivermos de voltar às vidas normais. Ter-se-á provocado alguma transformação? O que queremos? Que tipo de organização social pode substituir o capitalismo? Que novo tipo de lideranças?”

A primeira vitória Michael Moore falou no Left Forum e fez uma intervenção otimista, que acabou em manifestação até Zuccotti Park, o sítio onde o movimento começou: “não podemos deixar escapar este momento, é a nossa hora”. Disse que, pela primeira vez em 30 anos, Wall Street deixou de se rir da esquerda e passou a temê-la. “Expusemos a fraude. Segundo as sondagens, mais de 70% dos americanos têm simpatia pela causa do Occupy e acham que devia haver mais impostos sobre os ricos”. Foi assim que Moore mediu a primeira grande vitória: não só apoio que tem, mas ter passado a determinar o que se pergunta e o que se discute. O exemplo das enfermeiras Rosann Demoro é porta voz do sindicato das enfermeiras, que ficou conhecido pela perseguição que fez a Schwarzenegger contra os rácios que queria impor enquanto governador. Explicou no fórum: “onde ele ia, estava a imprensa. Se estava a imprensa, nós íamos. Fizemos mais de 100 manifestações dessas.” Ganharam a luta. O sindicato tem mais de 170 mil membros, tem uma estratégia ativa de recrutamento, deu apoio aos acampamentos do Occupy e está agora empenhado numa grande campanha para taxar as transações financeiras. Numa reunião com as enfermeiras, uma senadora democrata disse-lhes, a propósito desta luta de agora, que elas “tinham de baixar as expectativas”. A resposta veio pronta: “Senhora Senadora, será que vai querer que lhe diga o mesmo quando estiver numa cama de operações?”. Cosmopolitismo No último dia do Fórum, numa concentração em Nova Iorque, ao despedir-me de um mulher dou-lhe dois beijos. “Ah, vocês dão dois beijos?”, pergunta-me. “É, em Portugal normalmente é assim. Aqui como é?”, respondo. “Aqui”, diz ela, “aqui depende sempre, toda a gente é diferente, é uma negociação”. •


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INTERNACIONAL E ECONOMIA

Sarkozy derrotado na primeira volta HOLLANDE GANHOU A PRIMEIRA VOLTA E SARKOZY CORRE O RISCO DE SER O Prometido é devido: PRIMEIRO PRESIDENTE A NÃO SER REELEITO NOS ÚLTIMOS 30 ANOS Eleições marcadas na Grécia N DEPOIS DE MEIO ANO DE UM GOVERNO TECNOCRATA LIDERADO POR LUCAS PAPADEMOS, A GRÉCIA VAI A ELEIÇÕES A 6 DE MAIO. ACORDO DE AUSTERIDADE EM RISCO: PARTIDOS PRÓ-TROIKA NÃO GARANTEM MAIORIA.

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m Novembro, Georges Papandreou, antigo líder do partido PASOK (centro-esquerda) e Antonis Samaras, líder do partido conservador Nova Democracia acertaram, após momentos conturbados, um governo de “união nacional”. O resultado dessas conversações foram a saída de Papandreou, a nomeação administrativa de Lucas Papademos como Primeiro-Ministro e um novo elenco governamental. A condição do acordo: eleições antecipadas. A data é 6 de Maio. Em Novembro de 2011, após conversações com a troika para um novo empréstimo, o então Primeiro-Ministro Papandreou surgiu com o anúncio inesperado da convocação de um referendo ao segundo acordo com a troika. Este anúncio provocou clivagens dentro do executivo, com destaque para o Ministro das Finanças na altura, Evangelos Venizélos, agora novo líder do partido PASOK. Consequentemente, após conquistar um difícil voto de confiança, Papandreou solicitou ao Presidente da Grécia o início de conversações para um governo de “união nacional”. Essas conversações envolveram principalmente Antonis Samaras, líder do maior partido de oposição, Nova Democracia. Samaras, até então muito crítico dos acordos com a troika, submeteu-se, embora tendo algumas condições: a saída de Papandreou dum futuro executivo e a convocação de eleições antecipadas. O Governo resultante teve como Primeiro-Ministro o tecnocrata

Lucas Papademos, apesar de inicialmente Venizélos ter sido apontado como o sucessor. Este Governo foi formado por pessoas do PASOK, Nova Democracia e LAOS (extrema-direita nacionalista). Este Governo teve a missão de “gerir” e aplicar o memorando da troika e o seu programa de austeridade, como também negociar o perdão da dívida com os credores. Segundo o acordo que resultou neste Governo, por imposição de Samaras, após a aprovação e aplicação do segundo acordo seriam convocadas novas eleições. E assim foi. No próximo dia 6 de Maio a Grécia terá eleições legislativas antecipadas, as primeiras desde a explosão da crise da dívida e dos acordos com a troika em 2009. Esta eleição apresenta-se como perigosa para os planos da troika: a sua intervenção teve um efeito devastador na popularidade dos partidos que sustentam a sua implementação. Segundo a evolução das sondagens, os partidos que poderiam apoiar os planos de austeridade não garantem, mesmo em coligação, que haja uma maioria representativa resultante das eleições do próximo dia 6. Uma das últimas sondagens apontava um total de apenas 37,2% para os partidos (PASOK, Nova Democracia, LAOS) que sustentaram o acordo

após a saída de Papandreou. Embora esse resultado possa conseguir um Governo, não é de maneira nenhuma suficiente para sustentar a aprovação de algumas medidas de austeridade que teriam de ser implementadas segundo o acordo com a troika. Dia 6 de Maio a Grécia vai às urnas. Na próxima edição o JUP trará os resultados e um balanço das eleições. • Nuno Moniz

o passado dia 22, a França foi às urnas e para já, mostrou que não quer Sarkozy novamente. François Hollande, candidato do Partido Socialista Francês (PSF) foi o vencedor com 28,63%. Nicolas Sarkozy, o candidato da União para um Movimento Popular (UMP) ficou-se pelos 27,18%. Apesar da curta vitória por parte do candidato do PSF, as sondagens para a segunda volta, já no dia 6 de Maio, dão como certa a sua vitória. Depois de toda a “confusão” que obrigou Dominique Strauss-Kahn, na altura o mais provável candidato do PSF, a abandonar a corrida, François Hollande acabou por ser o nome escolhido nas primárias do partido. Hollande, 57 anos, com um percurso na política francesa que remonta à rogada eleição de Miterrand em 1974, foi durante 11 anos Primeiro Secretário-Geral do PSF (de 1997 a 2008). Na primeira volta apresentou como temas centrais de campanha questões de igualdade e de regulação económica, tendo traduzido isso no seu manifesto eleitoral que continha 60 propostas. Sarkozy, que atrasou até à última o anúncio da sua recandidatura, acabou por fazê-lo no dia 15 de Fevereiro. Não esperou nem um momento, e nesse mesmo anúncio lançou duras críticas a Hollande e às suas propostas. Na altura, Sarkozy chegou mesmo a afirmar que se Hollande fosse eleito, ele criaria um “desastre económico dentro de dois dias depois de entrar em funções”. O candidato da UMP centrou a sua campanha no eleitorado de direita com propostas relacionadas com a imigração, e a Segurança Social. A sua campanha, ao debruçar-se sobre a direita e sobre temas populistas, encontrou em Marine Le-Pen, a candidata da extrema-direita, uma adversária que não conseguiu bater.

Marine Le-Pen, a candidata da Frente Nacional e filha de Jean-Marie Le Pen, líder histórico do partido, conseguiu obter o melhor resultado da Frente Nacional de sempre – 17,9%. Utilizando um discurso capaz de encapotar a xenofobia histórica da Frente Nacional, as suas propostas centraram-se principalmente no proteccionismo e no discurso anti-euro e União Europeia. Após os resultados da primeira volta deixou claro que não indicaria o voto em qualquer candidato. Na quarta posição, Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda, que juntou o Partido Comunista Francês (PCF), o Partido da Esquerda (PG) e a Esquerda Unitária (GU) chegou a ser apontado como a grande surpresa desta eleição. Mélenchon, antigo membro do PSF (saiu em 2008) tendo inclusivé exercido funções governamentais entre 2000 e 2002, conseguiu unir ao longo da primeira volta uma onda de apoio, centrando o seu discurso na necessidade duma “revolução cidadã”. Dos 5% nas sondagens em Outubro de 2011 até aos 15% na recta final, as propostas de Mélenchon centraram-se nas liberdades individuais, na ecologia, regulação financeira e aumento do salário e emprego. As eleições tiveram uma abstenção de 20,53%, sendo que na anterior eleição o valor cifrou-se nos 16,23%. Apesar de neste momento as sondagens darem uma clara vantagem para Hollande na segunda volta (56%), até ao dia 6 de Maio muito poderá acontecer. Sendo certo que o eleitorado que votou em Marine Le-Pen terá um papel importante em decidir quem será o próximo Presidente da República Francesa, também é certo que do lado de Hollande, espera-se que o apelo de Mélenchon em “votar para derrotar Sarkozy” surta efeito. Na próxima edição o JUP trará os resultados e um balanço das eleições. • Nuno Moniz

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DESPORTO

Universidade do Porto inaugura novo pavilhão desportivo na Asprela O NOVO ESPAÇO ESTÁ PREPARADO PARA RECEBER MODALIDADES DE PAVILHÃO E CONVIDA TODA A COMUNIDADE DA UNIVERSIDADE DO PORTO A PRATICAR DESPORTO, DE UMA FORMA INFORMAL. texto Pedro Santos Ferreira fotografia U. Porto

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o passado dia 22 de Março, a Universidade do Porto (UP) celebrou o seu centésimo primeiro aniversário. O Dia da Universidade ficou marcado por várias iniciativas da UP, entre elas a inauguração de um novo pavilhão desportivo, situado no pólo da Asprela, junto à cantina da Faculdade de Engenharia da UP, onde já existe uma oferta de espaços desportivos. Pronto a servir os cerca de 30 mil alunos e baptizado com o nome de Luís Falcão, uma figura incontornável do desporto universitário, este novo espaço “vem colmatar necessidades sentidas pela comunidade da Universidade do Porto. Sediada no Polo II (Asprela), que não tinha nenhum espaço que servisse para a prática de modalidades desportivas de uma forma informal”, revela Bruno Almeida, o director do Gabinete de Apoio ao Desporto da Universidade do Porto (GADUP). Em entrevista ao JUP, Bruno Almeida espera que “esta nova infraestrutura consiga dar resposta a esse desejo antigo dos nossos estudantes, funcionários e docentes”, da mesma forma que considera ser “uma aposta da Universidade do Porto em desenvolver e aumentar cada vez mais a oferta de prática desportiva para a sua comunidade”. A inauguração contou com a presença de José Carlos Marques dos Santos, reitor da Universidade do Porto, e familiares do professor Luís Falcão. Depois de descerrar a placa comemorativa de inauguração, seguiu-se uma visita guiada pelas novas instalações. No campo de jogos estavam alguns dos atletas da Universidade do Porto, praticantes das modalidades de Badminton, Basquetebol, Karaté e Voleibol, que fizeram uma pequena demonstração do seu desporto aos convidados. Bruno Almeida sublinha que “foi interessante observar que os convidados ficaram agradavelmente surpreendidos com esta infraestrutura desportiva”. Este novo edifício tem como finalidade principal a promoção da prática de desportos próprios de pavilhão, tais como Futsal, Basquetebol, Voleibol e Andebol, terá ainda “algumas aulas pontuais de Aeróbica” e também Badminton. Quanto às modalidades de Natação e Escalada, vão continuar a decorrer na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), onde é também desenvolvido o Programa de Fitness da UP, que engloba Musculação, Aeróbica, Step,

Yoga, Pilates, entre outras. Os campos de férias desportivas passarão a realizar-se também no novo recinto desportivo da UP. Daniel Soares frequenta o 3º ano da Licenciatura de Ciências do Desporto na FADEUP e explica ao JUP que “foi colmatada uma lacuna que já existia há algum tempo, criou-se um espaço, não só desportivo, mas também de socialização entre todos os estudantes da UP”, naquilo que considera ser “uma excelente aposta” desta instituição. O estudante da UP acredita que o novo pavilhão “será um espaço mais útil aos alunos das outras faculdades, que não possuem recintos desportivos próprios” e não deixa de recordar que “continuam a faltar outro tipo de espaços não menos importantes, como um sector de lançamentos, com gaiola, para a unidade curricular de Atletismo que, já há muito, faz falta”. Para o novo pavilhão estão também previstos vários programas desportivos que incluem sessões e treinos das modalidades já referidas e existe ainda a possibilidade de alugar o pavilhão à hora, com desconto de 50% para os alunos da UP. Os interessados só terão que entrar em contacto com os Serviços de Acção Social da Universidade do Porto (SASUP), indicando o dia e a hora pretendida, que será atendida mediante a disponibilidade do espaço. A utilização deste recinto está aberta a alunos, funcionários, docentes e aos Alumni, alunos graduados ou antigos alunos de uma universidade. Através do protocolo celebrado entre o Instituto Politécnico do Porto (IPP) e a UP, “os estudantes do IPP também têm a possibilidade de o fazer”, afirma o diretor do GADUP. A construção do pavilhão teve um custo total de 700 mil euros, sendo que 200 mil foram suportados pela Universidade do Porto e 500 mil financiados por fundos comunitários do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN). O investimento realizado permite alargar a oferta da prática desportiva a toda a comunidade da UP, que conta agora com mais um recinto preparado para receber membros da comunidade universitária, com espírito de atleta.

A gestão do pavilhão desportivo Luís Falcão ficará a cargo do GADUP, responsabilidade que Bruno Almeida vê com bons olhos e considera “estimulante e um desafio muito interessante.” Quanto ao futuro, o diretor do GADUP revela ter a esperança de resolver o diferendo existente entre a UP e o Centro Desportivo Universitário do Porto (CDUP) - que desde há quase dez anos impede o acesso da comunidade académica ao Estádio Universitário – e “com a passagem da gestão das instalações desportivas (Estádio Universitário e Piscina Boa Hora) novamente para a tutela da Universidade do Porto, se possam encontrar fundos para a recuperação desses espaços”, isto apesar “de os tempos não serem os mais favoráveis para investimentos”, recorda Bruno Almeida. No que diz respeito ao desporto na UP, o pavilhão é a grande novidade do ano. Contudo, esperam-se ainda grandes surpresas para a comunidade académica. A abertura do espaço desportivo ao público ocorreu no dia 1 de Abril. O recinto terá um horário de funcionamento desde as 10h até às 24h. Luís Falcão: mais que um nome, uma homenagem a um grande atleta O novo pavilhão desportivo da Universidade do Porto tem o nome de “Luís Falcão”, uma das referências do desporto universitário pratica-

do na UP. Natural de Tavira, Luís Manuel Falcão (1928-2008) revelou sempre uma aptidão para a prática desportiva e para o desporto de alta competição. Atleta de várias modalidades, jogou futebol no Sport Lisboa e Benfica, entre 1945 e 1950, integrou a equipa de rugby na CDUL em 1955 e praticou atletismo no Benfica e na Selecção Nacional, durante 10 anos, entre 1946 e 1956. Em 1954, chegou ao Porto como praticante de Voleibol no CDUP e por aqui ficou como professor durante 41 anos. Fica ligado à história da Universidade do Porto por ter sido fundador e treinador da secção de rugby do CDUP. Ajudou a erguer o Estádio Universitário do Porto, do qual mais tarde foi diretor, e foi membro da Comissão Instaladora do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) da UP, actual Faculdade de Desporto (FADEUP). Bruno Almeida, diretor do GADUP, considera-o “uma referência para todos os estudantes que entendam desenvolver alguma atividade no desporto universitário, além de ser uma personagem central na dinamização do desporto universitário” e relembra que “os familiares do professor Luís Falcão também apreciaram o gesto da UP em homenagear esta figura ímpar.”


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DESPORTO

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O rugido da Pantera adormecida O BOAVISTA PODERÁ ESTAR DE VOLTA À PRIMEIRA LIGA. O CASO ESTÁ LONGE DE UMA RESOLUÇÃO, MAS O CLUBE DO BESSA JÁ EXIGIU O REGRESSO AO ESCALÃO MÁXIMO.

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dia 4 de Junho de 2008 será para sempre lembrado como um dos marcos negativos da história do Boavista. Foi nessa mesma data que a sentença do caso “Apito Final” decretou a descida de divisão do clube do Bessa. Para além disso, foi estipulada a suspensão do presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa por dois anos e do árbitro Jacinto Paixão. O “mítico” emblema nortenho deixava a Primeira Liga, sete anos depois de a conquistar. O pior não ficou por aqui pois a equipa “axadrezada” acabaria por descer de divisão na época seguinte, 2008/2009, ao ficar no 15º lugar da Liga Vitalis, o segundo escalão do futebol português. Apesar do castigo do Vizela, que poderia dar a manutenção do Boavista, foi apontado ao clube falta de requisitos suficientes para disputar a 2ª Liga na época imediata. O recurso foi rejeitado pela Federação mas a equipa do Bessa nunca desistiu, com o presidente Álvaro Braga Júnior a ser a “imagem” de esperança e a procura de justiça, uma frase repetida vezes sem conta ao longo dos últimos anos. A disputar a 2ª divisão pela terceira época consecutiva, surge uma notícia que poderá mudar o panorama para o Boavista. O Tribunal Administrativo e

Fiscal de Lisboa anunciou, no final do mês de Fevereiro, que a reunião do Conselho de Justiça, que determinou a descida do Boavista, foi considerada “nula”. Isto significa que o clube “axadrezado” poderá ser admitido no principal escalão profissional de futebol, já na época 2012/2013. Além da reintegração, os cofres do Estádio do Bessa poderão encher-se com a respectiva indemnização que pode vir a ser recebida. Os responsáveis do clube “axadrezado” pediram uma compensação à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no valor de 15 milhões de euros. Agora tudo dependerá da própria FPF que pode vir a apresentar recurso à decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa e tardar a decisão do processo, apesar da esperança “boavisteira” de poder jogar entre os grandes já a partir de Agosto. Esta decisão de invalidar a descida do Boavista vem também no seguimento da suspensão de Jorge Nuno Pinto da Costa ter sido anulada pelo mesmo órgão em Maio do ano passado. A reunião do Conselho de Justiça terá decorrido durante uma parte sem a presença do presidente e do vice-presidente do organismo, o que a tornou “suspeita” e “polémica”. Fora de pormenores técnicos e de

outros afins mais complexos, está a massa adepta “axadrezada”, que vive um momento de êxtase e euforia por receber uma grande notícia depois de quatro anos de desilusão e tristeza, afastado dos grandes palcos nacionais e até internacionais que o clube atingiu, sobretudo na década passada. O presidente Álvaro Braga Júnior mostrou-se emocionado com a decisão favorável e admitiu que “foi feita justiça para o Boavista”, que não volta à Primeira Liga, pois “nunca de lá saiu”. As “boas notícias” foram recebidas pelo “homem-forte” dos “axadrezados” como um sinal de “dever cumprido”. Vários adeptos festejaram às portas do Estádio do Bessa, até com fogos-de-artifício, após a conferência de imprensa, com cânticos que demonstraram que os “panteras negras” não vão desistir de procurar um futuro melhor e risonho. A atravessar um período financeiro delicado, em que o plantel tem salários em atraso, é com muito bons olhos que esta notícia é vista no seio do clube do Bessa. Apesar de o processo ainda não estar encerrado, cada vez mais se afigura como provável o regresso do emblema do xadrez ao escalão máximo do futebol português, para a época desportiva de 2012/2013.• Diogo Fernandes

Quando o atleta é quem arbitra O GOSTO PELA MODALIDADE E A POSSIBILIDADE DE REMUNERAÇÃO SÃO MOTIVOS QUE LEVAM CADA VEZ MAIS JOVENS A CONCILIAREM A FACETA DE ATLETA COM A DE ÁRBITRO.

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ctualmente, cada vez mais jovens optam por tirar um curso de arbitragem. A maior proximidade com a modalidade, o gosto pelo desporto e a remuneração são os principais motivos desta escolha, que tem cada vez mais apoiantes. Liliana Manhente, estudante de Arqueologia da FLUP, pratica atletismo há dezasseis anos e é hoje juíza em várias provas de atletismo. Optou por um curso nesta modalidade devido à paixão que sente pela mesma e pela curiosidade em perceber melhor uma modalidade com várias variantes e muitas regras. “Esta é a única modalidade que me completa e que adoro verdadeiramente”, afirma Liliana. “Para além do trabalho e concentração que um atleta deve ter em treino, também nas competições há um conjunto de regras que o obrigam a ser mais cuidadoso, o que, de certa forma, contribui ainda mais para a formação do indivíduo na sociedade que está “carregada de regras”, realça a estudante, que diz ter passado a ver a modalidade de forma diferente. Ao contrário de muitos outros cursos de arbitragem, Liliana não teve que pagar para realizar o curso em atletismo e acredita que, quando deixar de praticar desporto, esta possa ser uma actividade alternativa. “Embora não seja uma actividade com boa remune-

ração, não deixa de ser uma via alternativa, quanto mais não seja pelo convívio que proporciona e uma forma de manter o contacto com a modalidade que sempre gostamos”, refere. Como acontece várias vezes no desporto, a arbitragem gera diversas situações polémicas que muitas vezes são incompreendidas pelas atletas. Contudo, a estudante de Arqueologia diz nunca ter tido situações desagradáveis com atletas mas sim com treinadores. “Curiosamente nunca tive problemas com atletas porque sou jovem e temos idades próximas e também pelo facto de ser atleta e conseguir compreendê-los e chama-los à razão sem criar conflito”, confessa. Liliana adianta ainda que “com alguns treinadores já não é bem assim, até porque em Portugal continuamos a ter treinadores de atletismo que nunca foram atletas e falta-lhes alguma sensibilidade e pedagogia, inclusivé para com estes”. Relativamente à credibilidade de jovens árbitros e de árbitros mais experientes afirma que o facto de serem mais novos acaba por “ajudar” e criar uma certa empatia com o atleta que é complementada pela camaradagem e ajuda entre árbitros de diferentes faixas etárias. No entanto, Liliana acredita ser importante a organização, já que “como tudo na vida, tem a ver com uma

questão de organização pessoal”. A rotatividade de convocatórias facilita bastante esta organização, pois não é necessário exercer a função todos os fins-de-semana. Para além disso, sublinha que as provas com crianças a iniciar a modalidade torna as competições mais apelativas. “Há um espirito irreverente e de grande boa disposição entre os pequenos atletas e o grupo de juízes”, assegura. Quando questionada sobre o papel do árbitro no desporto actual, acredita que cada vez existe um maior respeito pela arbitragem, “principalmente em modalidades individuais como o atletismo”, apesar de, ao contrário de alguns que optam por realizar a formação por gosto, existir quem procure recompensas monetárias e escolha modalidades que não praticou, como acontece com a ginástica ou ténis. No atletismo, refere que o juíz é ainda um “árbitro por carolice”, onde se recebe pouco, ou mesmo nada, em determinadas associações regionais. Há falta de formações de juízes em Portugal e na Associação do Porto e com um intervalo em média de 10 anos. Enquanto no futebol ou basquetebol as formações são mais frequentes e os árbitros em maior quantidade, no atletismo impera o gosto pela modalidade e carece o dinheiro.• Filipa Sousa

Do Sonho ao Pesadelo André Villas-Boas chegou ao Chelsea após ter devolvido os dragões à glória europeia e ter conquistado três títulos nacionais, proclamando a sua cadeira de sonho. Numa decisão surpreendente, anunciou no início da época a sua vinculação aos ingleses a troco de 15 milhões de euros, tornando-se o treinador mais caro de sempre. Os adeptos portistas ficaram incrédulos, mas os “blues” viam nele o discípulo do “Special One”. Em Stamford Bridge, Villas-Boas encontrou um balneário a precisar de uma renovação e quando se pensava que essa revolução chegaria com o português, este surpreendeu ao manter quase todo o plantel. A especulação da imprensa fazia prever a chegada de grandes nomes, mas o investimento foi abaixo do esperado e apenas as tardias chegadas de Juan Mata e Raul Meireles conseguiram convencer. O futebol praticado não agradava e Villas-Boas pedia paciência, qualidade que não é reconhecida a Abramovich, proprietário do Chelsea. A violenta imprensa inglesa questionava a adequabilidade do cargo ao português e apressava-se a questionar as opções tácticas, chegando a apelidar os jogadores de “pensionistas”, tal era a falta de entrega e paixão ao jogo. Para piorar a situação, constantes casos de indisciplina e de desobediência ao treinador eram noticiados, e por mais que Villas-Boas se apressasse a desmentir, os fracos resultados que atiravam o Chelsea para fora da luta pelo título e para uma situação muito delicada na Liga dos Campeões, pareciam confirmar a perda da liderança do balneário. As críticas dos adeptos tornavam-se mais audíveis, a paciência da estrutura directiva do Chelsea esgotava-se, deixando Villas-Boas numa situação insustentável. Recordou que assumira um projecto de três anos mas, a 4 de Março de 2012, o Chelsea anunciava no seu site oficial que o contrato do português havia sido rescindido. Depois de uma época de sonho em Portugal, a viagem para ilhas de Sua Majestade revelou-se um pesadelo e André-Villas Boas acabou por sucumbir aos maus resultados. • Ricardo Couto

Quando o coração decide pregar partidas DUAS MORTES E UM ATLETA EM COMA. NO MÊS DE MARÇO, FOI ESTE O BALANÇO DE PROBLEMAS DE SAÚDE NA ÁREA DO DESPORTO

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arco Ruel, Vigor Bovolenta e Fabrice Muamba. Estes atletas pouco ou nada têm em comum, para além do facto dos dois primeiros terem falecido e o terceiro ter estado às portas da morte. Março de 2012 foi, sem dúvida, um mês agitado nos problemas de saúde no desporto. Marco Ruel, voleibolista de 29 anos, capitão do AD Machico e ex-internacional português faleceu, após sofrer uma queda quando visitava um miradouro, na ilha da Madeira. No entanto, a hipótese de ter sido cometido suicídio não é posta de parte. Fonte próxima ao ex-atleta, em declarações ao jornal “A Bola” afirma que “o Marco passava por momentos conturbados e não se pode pôr de parte a hipótese de suicídio”. Na semana da morte de Ruel, o mundo assistiu ao falecimento de Vigor Bovolenta. O também jogador de voleibol, que alinhava no segundo escalão italiano, morreu depois de se sentir mal em campo. O ex-internacional italiano ainda pediu ajuda, mas acabou por sucumbir. “Sinto-me tonto, ajudem-me, que vou cair”, terão

sido as suas últimas palavras. Apesar de ter sido assistido no local, o voleibolista não resistiu. Segundo o jornal “Gazzetta dello Sport”, foi-lhe feita massagem cardíaca, mas Bovolenta não reagiu. Após as tentativas falhadas, o jogador foi levado para o hospital, onde foi declarado o óbito. Por seu lado, Fabrice Muamba conheceu, no passado mês, uma experiência de quase morte. O médio do Bolton caiu inanimado, dia 17 de Março, durante uma partida dos quartos-de-final da Taça de Inglaterra, entre o Tottenham e o Bolton. O médico do clube afirmou, em entrevista à BBC, que o jogador de 23 anos esteve 78 minutos "efectivamente morto". O jogador foi internado no Chest Hospital, em Londres, onde permaneceu em observação e tratamentos. No dia 30 de Março, seriam dados sinais claros da sua recuperação quando, a pedido do próprio, foi posta a circular na rede social Twitter uma foto que mostrava o jogador a sorrir, a agradecer o apoio dos fãs e a dar conta da sua boa recuperação. • Ricardo Norton


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CRÓNICAS

CRÓNICA CINEMATOGRÁFICA

Tão mau que é bom

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primeira vez que ouvi falar em b-movie fiz a esperada cara de “quié isso”. Disseram-me na altura que, entre outras coisas, é um filme que é tão mau, mas tão mau, que até é bom. Será mais que compreensível que neste primeiro encontro com o conceito tenha rido, e seguido a minha vidinha. Não demorou muito até ter o primeiro contacto com algo “tão mau, mas tão mau, que até é bom”. Por influência de um companheiro de outras primaveras, o primeiro b-movie que vi tinha por nome “Army of Darkness”; quis descobrir qual era a piada da voz esquisita desse companheiro quando entre risos exclamava “to the castle!”. Este filme de 1992 é, descobri mais tarde, a terceira parte da trilogia “Evil Dead”, que tinha como estrela da companhia uma pessoa chamada Bruce Campbell. Se pesquisarem o nome, provavelmente reconhecerão a figura. Todos os filmes ditos b-movie terão, em termos gerais, uma característica em comum: baixo orçamento. No caso do “Army of Darkness”, a primeira coisa que me vem à cabeça é: zombies que são claramente pessoas com um fato de carnaval de esqueleto. Admito que para muitas pessoas possa ser uma perda de tempo, mas, além de ter servido como justa desculpa, por várias vezes, para tardes de aulas aproveitadas de uma maneira muito mais cultural, provocou provavelmente o maior número de gargalhadas e de memórias cinematográficas, que ainda hoje mantenho bem presente. • Manuel Furtado

CRÓNICA LITERÁRIA

O Genji Monogatari Ao meu primo

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e quando em quando alguém me pergunta a origem do meu apego da literatura japonesa. Tendo em conta que a literatura nipónica continua a ser conotada de exótica e que, a forteriori, não possui qualquer elo com o Japão, a estranheza e consequente curiosidade alheia suscitadas pela origem do meu excêntrico apego parecem-me perfeitamente naturais. Porém, devo reconhecer que até há bem pouco tempo esta pergunta não deixava de me embaraçar. Pois, se bem que estivesse convicto que este capricho literário me tinha sido incutido pela leitura de um «Texte de Jouissance», a do Genji Monogatari, suspeitava contudo que esta explicação, inconscientemente, não visava tanto elucidar a curiosidade alheia quanto me iludir acerca dos motivos reais do meu apreço pela literatura japonesa. Ora, só foi à releitura de certa passagem deste mesmo Genji Monogatari — passagem acerca da qual já te escrevi — que me foi revelada, entre outras coisas, a verdadeira origem deste apego pela literatura japonesa — sua origem erótica. Do mesmo

modo que a leitura de Sei Shōnagon, de Ono no Komachi ou de Mishima me tinham sido incutidas pela do romance de Murasaki Shikibu, esta, por sua vez, tinha-me sido incutida por Eros. É que uma das faculdades do amor — sendo talvez a mais perversa visto que ela se exerce à nossa revelia: daí provavelmente a razão da minha credulidade — é sua faculdade de transbordar o ser amado e de se alastrar naquilo que o rodeia, que sejam objectos, hábitos ou gostos. Assim, desse modo, determinadas obras literárias, tais como o Genji Monogatari, obras que até então tínhamos ignorado ou menosprezado quer por preconceito quer por «bom senso», vêem-se, pela simples razão de terem sido lidos ou mencionados por aquela que amamos, ou, tão só, por termos reconhecida sua voz na da Dama das Glicínias, sublimados, consagrados… E daí, igualmente, volvidos pouco mais de ano e meio após o fim da minha relação amorosa, percebo que a literatura japonesa tenha subsistido em mim… não sendo mais que o ersatz de um amor que julgava ter definitivamente esquecido… • Alexandre Marinho

res na nossa área. Eu sou doutor a afiar facas e tesouras, mas um médico não o sabe fazer. Cada profissão tem o seu doutoramento e são todas precisas”. Apesar de dizer estas palavras com alguma tristeza e de ter consciência que a sua profissão pode desaparecer nas próximas décadas, tem ainda a esperança de um dia transmitir as suas

habilidades a alguém para que o negócio possa continuar, já que dura há três gerações. É esse um dos sonhos deste doutorado no saber de afiar facas e tesouras. • Marta Lago

CONTA-ME COMO É…

… ser amolador

“Foi numa de brincadeira”, é assim que explica Luís Fernandes a forma como aprendeu a amolar facas e tesouras. Com 25 anos, tem agora o ofício que herdou do pai, que por sua vez o tinha herdado do avô de Luís, ainda vivo. “Fui praticamente criado aqui no mer-

cado no meio desta gente toda, gente amiga”, e foi na companhia do pai com quem estava todos os dias que nasceu o interesse. “Gostava de o ver a mexer nas facas, mas tinha medo quando era para afiar as tesouras porque faziam faísca. Fugia sempre”, recorda. No entanto, não foi apenas o gosto pela actividade, foi também necessário. Tinha 13 anos quando o seu pai adoeceu. “Durante sete meses tomei conta do negócio do meu pai sozinho. Desisti da escola para o poder fazer”, e admite ter passado por momentos muito difíceis antes de começar a trabalhar. Hoje, e para sua ajuda, tem outra profissão que concilia com a de amolador. Desde as 10 horas da noite até às 7 horas da manhã trabalha como padeiro, hora a que vai para o Mercado do Bolhão, onde fica até ao meio-dia. Com as palmas da mão já gastas pela sua actividade, põe a máquina a funcionar e cuida das facas e tesouras, consertando também alguns guarda-chuvas que lhe trazem. Durante a tarde, como forma de entretenimento e também de descanso, aproveita para ver as suas séries preferidas na televisão.

Quanto ao negócio explica “que tanto pode correr bem como pode correr mal. Esta semana pode ser má mas a próxima é boa de certeza. Tenho clientes que já eram do meu avô”. Diz que não se sente especial em ser um dos poucos amoladores existentes, mas que tem orgulho naquilo que faz, senão não se encontrava à porta do Bolhão há quase 20 anos. Quando Luís não pode, vai para lá o irmão, que também aprendeu o ofício. Conhece apenas mais duas pessoas com uma profissão igual à sua e justifica-o com o facto de as coisas nos dias de hoje serem mais baratas, por isso ao estragarem-se as pessoas preferem deitar fora e substituir por outras em vez de as consertar. Mesmo assim ainda por lá apareceu alguém para levantar um guarda-chuva, e outra pessoa para deixar um saco de facas. Mas Luís tem outra opinião para explicar a extinção do seu ofício: “a maior parte dos jovens tem falta de interesse e não querem seguir este tipo de profissões. Querem todos ser doutores! Mas há uma coisa que muita gente se esquece - todos somos douto-


texto Bruno Silva ilustração João Drumond

JUP — ABRIL 2012 DEVANEIOS

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