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| dezembro de 2016 |

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AS HISTÓRIAS DE 33 MARIAS, COMO A DE MARIA FRAGA, QUE ASSUMIU OS CABELOS CRESPOS

primeira impressão

SIMPLESMENTE maria


Editorial

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Marca de identidade

ocê conhece alguma Maria? Nesta edição da Primeira Impressão, os alunos repórteres contam histórias de Marias. De acordo com o IBGE, 11,7 milhões de brasileiras se chamam Maria. É mais que o dobro do número de pessoas com o nome masculino mais comum, José. As Marias desta revista, no entanto, não são somente mulheres. Tem a bolacha Maria, a cerveja Maria Degolada e a marca de roupa Curvas

de Maria. Há uma lei inspirada na triste história de Maria da Penha, diferentes locais com nome de Marias e músicas dedicadas a Marias. Tem até um homem chamado Maria. Acima de tudo, porém, as reportagens desta revista contam histórias de vida, muitas delas marcadas por desafios e vitórias. O nome acompanha as pessoas por toda a vida, por isso acaba sendo uma marca de identidade. É tão importante que pessoas o mudam quando entendem que ele não as representa. Esse é o caso

da transexual Maria Eduarda Mena Barreto Vargas, que luta pelo direito de escolha dessa sua nova identificação social. Quem não conhece uma Maria? Para nós, da PI, todas as Marias são importantes, porque todas as pessoas são importantes. Inclusive você. Thaís Furtado Professora editora de texto Flávio Dutra Professor editor de fotografia

Algumas das principais entidades da umbanda e do candomblé se chamam Maria

LARISSA HOFFMEISTER

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RENATA CARDOSO

ÍNDICE

Nesta edição, 33 Marias

006 Maria: vítima de violência ocasionada pelo ex-marido 010 Cervejaria Anner: empresa que produz a cerveja Maria Degolada 018 Giovanna Raupp: devota de Maria de Nazaré 022 Maria José do Reis: religiosa que dedica sua vida às crianças 026 Maria Clara: com cinco anos, tem autismo severo 030 Maria do Bairro: bloco de rua de Porto Alegre criado em 2007 034 Maria Padilha, Maria Quitéria e Maria Mulambo: entidades da umbanda e do candomblé

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038 Maria Alves, Maria Luzinete e Maria Auxiliadora: freiras que cuidam de idosas no Oásis Santa Angela, em Canela (RS) 042 Maria Isabella: com dois anos, tem Síndrome de West 046 Maria Eduarda: transexual que aguarda a chegada de seu nome social 050 Maria da Paz: música composta por Carlinhos Hartlieb 054 Casa de Apoio Viva Maria: abrigo para mulheres em situação de violência 058 Maria Fraga: dedica tempo e disposição para cuidar de seu cabelo afro natural do tipo quatro

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Isabel Ferreira perdeu a filha Maria no incêndio da Boate Kiss

062 Maria Lúcia: primeiro single da banca gaúcha Vera Loca 066 Maria Goreti: uma vida inteira enfrentando a atrofia muscular 070 Marieme do Brasil: senegalesa que vive há três anos no lado de cá do Atlântico 074 Adriana Périco Neiva, Camila Graneto e Iris Souza de Oliveira: militares têm em Maria Quitéria a inspiração para a carreira 078 Maria de Lourdes: instrumentista, é integrante da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre 082 Carlos Maria: músico, prefere ser chamado de Maria

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086 Maria Helena Paredes: detenta da Penitenciária Julieta Balestro, em Guaíba (RS) 090 Curvas de Maria: marca de roupas plus size 094 Casa de Repouso Maria Olívia: localizada em Tramandaí (RS), é lar de 28 idosos 098 Maria Dolores da Silva: empregada doméstica desde os 12 anos, sustentou a família com a profissão 102 Bolacha Maria: uma homenagem ao casamento da duquesa russa Maria Alexandrovna 106 Maria Lopes e Maria Silvane: vida dedicada aos filhos

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Ainda jovem, Maria carrega lembranças da violência doméstica, um problema social que afeta milhares de brasileiras a cada ano Por Mariana Blauth fotos de NATÁLIA COLLOR

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Ela quer ser

entada na sala de reuniões de um centro de apoio a mulheres, Maria* não consegue entender o porquê de estar na atual condição. Nunca imaginara que, aos 23 anos, seu corpo ficaria marcado com cicatrizes causadas por queimaduras de terceiro grau, muito menos que elas seriam causadas pelo homem por quem se apaixonou cinco anos antes. À época não sabia, mas seu casamento era um passaporte para um cotidiano de violência.

Cansada das agressões frequentes cometidas pelo ex-marido dentro e fora de casa, Maria escondia nos olhos castanhos o desejo de um ponto final: ela gostaria de ser respeitada. Em janeiro deste ano, quando revelou a vontade de terminar o casamento, o agressor tentou incendiar a casa onde viviam, em Novo Hamburgo. Fora do controle, ele queimou a jovem, machucando-a do pescoço à barriga. Maria não se recorda do momento em que as chamas encontraram seu corpo que, em seguida, P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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colidiu contra o chão. Acordou com o calor do fogo rasgando-lhe a pele. “Ele me levou até o chuveiro, ficou apavorado e falava que seria preso se eu contasse a verdade”, explica, mexendo os dedos à medida em que as lembranças fluem. Hoje, quase um ano depois das agressões, sua fala é acompanhada de pausas marcadas por uma respiração intensa, à medida em que os pulmões, atingidos pelas queimaduras, produzem chiados ao encherem-se de ar. A rigidez dos ombros é consequência da falta de elasticidade da pele do pescoço, coberto por um lenço que compõe sua vestimenta. As roupas também escondem as cicatrizes que ocupam as regiões das costas, barriga, peito e braços, enquanto um esparadrapo acoberta seu queixo. As lágrimas que escorrem no rosto de Maria,

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respeitada assim como as mãos entrelaçadas repletas de marcas, comprovam não apenas a violência sofrida, mas a tristeza desencadeada pelas lembranças de um relacionamento opressor. Ela sabia que o ex-marido não lhe fazia bem, mas investiu no casamento pelo desejo de formar uma família e por acreditar que o agressor pudesse mudar. “Ele dava um tapa e, ao mesmo tempo, fazia carinho. Ficávamos uma semana separados e voltávamos, e isso virou rotina. Eu estava cansada, sabia que isso iria continuar.”

Embora tenha sido vítima de violência doméstica, a jovem não denunciou o agressor em um primeiro momento por medo, sustentando a ideia de que havia sofrido um acidente. Mas estava longe de convencer as pessoas que a rodeavam, principalmente a família, que a cercava de questionamentos. Quando contou a verdade, se deslocou até a Delegacia da Mulher com o apoio da mãe, onde foi amparada pela Lei Maria da Penha. Desde janeiro, ela não vê o ex-marido, graças a uma medida protetiva que o mantém afastado, mesmo respondendo em liberdade a um processo de tentativa de homicídio doloso.

Luta por justiça

A jovem faz parte de uma realidade arrebatadora: segundo a Secretaria de Políticas para as MulheP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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res da Presidência da República (SPM-PR), foram feitas 63.090 denúncias de agressões contra mulheres entre janeiro e outubro do ano passado no Brasil. Talvez elas ainda não encontrassem apoio legal, não fosse a história de outra Maria vítima da violência. Maria da Penha inspirou a lei que leva seu nome, sancionada em agosto de 2006 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1983, foi surpreendida pelo marido, o professor universitário colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, por um tiro de espin-


garda nas costas enquanto dormia. A agressão deixou-a paraplégica, mas não foi suficiente para o fim das agressões. Quando Maria voltou para casa, depois de meses de internação e cirurgias, ele tentou matá-la mais uma vez, eletrocutando-a durante o banho. Maria da Penha poderia ter sido vítima fatal da violência. Ao invés disso, registrou seu nome na história como um exemplo na luta dos direitos femininos. Após as agressões, que lhe roubaram o movimento das pernas, mas nunca o desejo de justiça, ela saiu de casa com uma ordem judicial. Reivindicou seus direitos em busca da condenação do marido, o que aconteceu somente em 2002, no terceiro julgamento do caso. Enquanto o agressor desfrutava da liberdade em virtude das falhas na lei, Maria da Penha escrevia um livro sobre a violência vivida na própria casa. Publicado em 1994, Sobrevivi… posso contar foi usado como instrumento de denúncia contra o Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Or-

ganização dos Estados Americanos (OEA). A denúncia teve como desdobramento a condenação internacional do Brasil por negligência, tolerância e omissão relativas à violência contra mulheres, além de recomendações que incluíam a solução do caso Maria da Penha e a adoção de políticas públicas para prevenir e punir esse tipo de agressão no país.

Redes de apoio

Dez anos depois da criação da lei Maria da Penha, seu funcionamento serve como base para que milhares de mulheres consigam se livrar do ciclo da violência. Apesar disso, se o processo judicial é essencial para isso, sem dúvidas, o apoio psicológico e social a essas pessoas também o é. Maria entende essa importância. A sala de reuniões onde se encontra fica em um centro de referência a mulheres em situação de violência em Novo Hamburgo, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, o Viva Mulher. É para lá que a Delegacia da Mulher e a rede municipal encaminham as vítimas, que recebem atendimento social, psicológico e jurídico para lidar com as lembranças. “Eu estava perdida e, no centro, me senti mais segura, me ajudaram”, relembra a jovem. Assistente social do Viva Mulher, Tatiane Schwan ressalta que a violência afeta todas as classes sociais e que se trata de uma questão cultural, em que as agressões são praticadas por pessoas que cresceram em meio a um cenário de violência. Para as promotoras legais populares (PLP) Carmen Lúcia Silva e Maria Guarneci Marques de Ávila, da ONG P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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feminista Themis, de Porto Alegre, diversos motivos ajudam a perpetuar os casos de violência contra as mulheres, desde falta de informação a condições financeiras. É para dar suporte a essas pessoas que a ONG desenvolve um trabalho de acolhimento e atendimento às vítimas. As PLPs, lideranças comunitárias femininas que atuam em suas comunidades auxiliando mulheres que sofrem violência doméstica, recebem capacitação em relação a noções de Direito e direitos humanos. Dessa forma, realizam o que Carmen chama de um “trabalho de paciência”, que envolve acolher, ouvir, orientar e encaminhar as mulheres para os órgãos legais. “A mulher assume um relacionamento à sociedade e, na maioria das vezes, se sente culpada pela violência doméstica. O agressor é sedutor, enquanto a mulher está fragilizada e acaba concedendo uma segunda chance. Mas é importante que ela saiba que não é a única que passa por isso, que tenha coragem, independente de querer dar fim a essa situa-


ção, e não tenha vergonha, pois ela não é culpada”, explica.

sibilidade dos profissionais transforma de forma negativa a vida das mulheres. “Quando elas registram A lei funciona? a violência, estão desnorteadas, Se antes a violência era mantida confiando em quem está atrás do em segredo, hoje a lei Maria da Pe- balcão escrevendo. É um momento nha dá segurança para as mulheres, crucial da vida delas”, aponta. que podem relatar as agressões soMaria Guarneci concorda com fridas. “O sistema funciona mais rá- o fato de que ainda há muitos julgapido e dá credibilidade para que elas mentos por parte dos profissionais façam os registros nas delegacias. que lidam com a lei e diz que a consEla também trouxe múltiplas for- cientização pode dar fim à violência. mas de violência à tona, até mesmo “É preciso buscar informação soas mais sutis, como a psicológica e bre os direitos das mulheres como patrimonial”, declara Carmen. forma de empoderá-las. Quem tem Embora a lei tenha proporcio- informação dificilmente terá seus nado avanços na luta dos direitos direitos violados”, constata. das mulheres, dez anos depois de Segundo a PLP, fazer com sua criação, ainda há barreiras. No que a lei funcione é um desafio trabalho que desenvolve na Themis, diário. Maria Guarneci aconseCarmen vê de perto o machismo lha que é essencial que a mulher inserido nos serviços que deve- em situação de violência entenda riam proteger as mulheres. que está sendo vítima e, quando “Um dos maiores embates com perceber isso, busque ajuda. “A servidores das delegacias mulher tem que se emcomuns é que ainda há Promotoras poderar para buscar auprofissionais que enten- legais populares, xílio nos espaços.” dem que a mulher apanha Carmen Silva e porque quer. Eles não têm Maria de Ávila (*) O nome foi trocado para que julgar”, frisa a PLP. atuam na ONG preservar a identidade da Para ela, a falta de sen- feminina Themis entrevistada.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER A elaboração da pauta jornalística é o momento de enxergar possibilidades. A proposta de narrar histórias de Marias foi uma surpresa que me proporcionou conhecer mulheres engajadas com as causas feministas. Optei por tratar sobre a lei Maria da Penha e a violência contra mulheres por ser um tema que exige reflexão. Pude enxergar o lado de quem luta pelos direitos femininos e de quem sofre com as agressões domésticas. Conversar com uma jovem vítima foi um momento difícil, mas de aprendizado. O jornalismo requer respeito pela dor e história de vida do entrevistado, que expõe sua intimidade. Ouvir na tentativa de compreender o outro é uma das coisas mais valiosas da profissão, que permite que o repórter produza olhares diferenciados sobre a realidade. Quem sabe, com essa proposta, possamos incorporar o desafio também na vida cotidiana, a fim de ter uma percepção mais aprofundada e crítica sobre o que acontece à nossa volta.


Das memórias do Partenon O bairro porto-alegrense é inspiração para as histórias líquidas de Glauco Caon, da Cervejaria Anner, QUE PRODUZ A CERVEJA MARIA DEGOLADA Por Victoria Silva. fotos de Thaís Montin

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Glauco começou a produzir cervejas artesanais com o irmão, Guilherme, em 2007

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rostituta, pobre, solteira e imigrante, Maria tinha longos cabelos loiros e encaracolados e apenas 21 anos quando foi morta pelo amante, Bruno, um policial militar, analfabeto, nascido na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. O dia era de passeio – juntos de outros casais, tinham ido fazer um piquenique no Morro do Hospício, no bairro Partenon, em Porto Alegre. Afastaram-se dos amigos durante um tempo para conversar à vontade. Mas o casal se desentendeu. Talvez fosse a forma que Maria encontrara para sobreviver, ou quem sabe fossem as roupas da moça, seu decote fundo que deixava os seios à mostra. Talvez o fato de ter nascido Maria e não João a tornasse vulnerável. O fato é que Bruno perdeu a cabeça, sacou do coldre uma faca e decapitou a namorada. Maria Francelina Trenes passou a ser Maria Degolada. A história ocorreu no final do

século XIX, mas poderia ter sido ontem. No local do crime, batizado então de “Morro da Maria Degolada”, foi erguido um santuário em homenagem à vítima – de Maria pobre, imigrante e prostituta, à Maria santificada pela comunidade. Protetora de quem tem problemas com a justiça, é considerada milagrosa por seus fiéis, mas, reza a lenda, Maria não atende a preces feitas por policiais e até potencializa o sofrimento dos que se dirigem a ela.

Anna Maria

Ao redor do morro, durante os anos que se passaram, foi crescendo a Vila Maria da Conceição, região com mais de três mil moradores dos mais de 45 mil do bairro Partenon. E sobre a qual, em uma breve pesquisa, as palavras “tiroteio”, “criminosos” e “tráfico” aparecem nos primeiros resultados de busca, encobrindo outras tantas histórias que são deixadas de se contar. Como a de Anna Maria da Silva, que se mudou para a região na primeira metade dos anos 40, logo após ser expulsa pelas águas da enchente que tomou o Centro da Capital. A casa dela foi a segunda a ser erguida no Morro, a quatro quadras do santuário da Maria Degolada. “A primeira casa foi a de Dona Rosalina, que fica lá na esquina”, aponta o neto de Anna Maria, Glauco Caon, de camiseta, jeans, tênis All Star e um sorriso gentil. Glauco conta que os pais de sua avó vieram da Áustria, indo morar na zona rural da cidade gaúcha P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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de Getúlio Vargas. À época, havia muitas disputas de terra, e, em uma dessas, o patriarca matou o filho de uma família polonesa, que morava ao lado de sua casa. Foi preso e, quando finalmente solto, foi morto pelo pai da vítima em retaliação ao crime. Viúva e sem saber que teria de pagar imposto por suas terras, a mãe de Anna Maria perdeu tudo e precisou dar os sete filhos para que outras famílias os cuidassem. “Algumas criaram muito bem, outras, como foi o caso da de minha avó, não”, relata. Então com idade para ir à escola, Anna Maria não pôde frequentar as aulas por mais de um ano, pois já podia ajudar nas tarefas domésticas. Com 18 anos, conheceu José Inácio, jovem negro com quem se casou e pôde, enfim, sair de casa, partindo para a Capital. Já no alto de onde hoje fica a Rua Artur Azevedo, o casal, ele alfaiate e ela dona de casa, teve três filhas, Ana Clara, Clélia Marilia e Olga Maria, mãe de Glauco. Embora nunca tenha conseguido estudar,


o que a ressentia profundamente, Anna Maria foi rigorosa com a educação das filhas, que estudaram em escola pública e formaram-se em arquitetura, medicina e odontologia, respectivamente.

Relatos engarrafados

A vida de Anna Maria, já falecida, foi inspiração para o neto, que é biólogo, junto do irmão Guilherme, publicitário, fundar a Cervejaria Anner, em meados de 2007 – uma das artesanais pioneiras na cidade. Como a maioria dos cervejeiros, a dupla começou a fazer a bebida em casa, nas panelas. Aos poucos foram tomando gosto, buscando informações, estudando por conta e aperfeiçoando as receitas. Oficializar as produções foi consequência. A primeira cerveja lançada foi a Pedro Azulão, uma Extra Special Bitter (ESB), estilo inglês. O nome é familiar, principalmente aos que moram nas redondezas do Partenon: é como chamavam o ônibus do Presídio Central, que atravessava as ruas do bairro ainda com poucos prédios e atraía a atenção dos irmãos, que o assistiam passar com interesse. Essa é apenas uma das narrativas que permeiam as criações da Anner. “Mais importante que o tipo de cerveja, são as histórias”, resume Glauco. Em 2008, foi a Maria Degolada que ganhou receita própria. “Desde que eu era criança, até hoje quando venho ao bairro visitar minha mãe, as pessoas dizem que acenderam uma vela para Maria Degolada. Aqui na Vila todo mundo conhece e tem muita fé nela. É uma história muito forte, de violência contra a mulher, e é interessante poder falar sobre isso. Ela foi morta há mais de 100 anos e ainda existem crimes iguais ou piores.” A cerveja figura no livro “Boutique Beer: 500 quality craft beers”, do escritor britânico Ben McFarland, como uma das melhores do mundo. O rótulo estampa uma xilogravura feita pela mãe dos cervejeiros, Olga Maria, e foi considerado como “o mais icônico entre cervejas nacionais e internacionais” pelo designer norte-americano e respeitado autor no segmento, Randy Mosher. A relação da cerveja com a própria Maria Degolada vai além. O estilo escolhido, Tripel, em sua origem, foi criado por monges trapistas, considerados homens

santos na terra. “Por isso usamos essa receita para ela, que é considerada uma santa na região”, explica Glauco. As referências somadas à própria história que se propõe a contar fazem desta a cerveja mais famosa da marca.

Olga Maria

Criadora do afamado rótulo da Anner, a filha do meio de Anna Maria e José Inácio, Olga Maria, é artista plástica e aposentada técnica penitenciária. Ela explica como tudo começou: “Estava recém-formada em odontologia e queria montar um consultório, mas, como as condições financeiras eram nada boas, fiz um concurso para auxiliar administrativo no Estado. Quando assumi, faltava dentista na rede penitenciária e consegui a vaga, mas ganhando como auxiliar administrativo”. Olga Maria exerceu a profissão por cerca de cinco anos no Presídio Central e vivenciou o primeiro motim dos presos, o qual acabou por destruir seu gabinete, impossibilitando que ela retomasse às atividades. Assumiu, então, uma vaga na área de terapia ocupacional, desenvolvendo trabalhos artísticos com os detentos. Envolveu-se tanto com a nova função que nunca mais voltou à antiga. “Eu mais aprendi com eles do que ensinei”, diz. Durante o tempo que trabalhou para o Estado, Olga Maria fez vários cursos voltados à arte que eram oferecidos pela Prefeitura, mas sempre se manteve fazendo xilogravura – técnica que consiste na utilização de uma madeira para entalhe e posterior reprodução em folha com tinta. Durante cinco anos, teve uma banca no Brique da Redenção, onde apresentava e vendia seus trabalhos, tendo, inclusive, participado de salões fora do Rio Grande do Sul. Atualmente, ela mora no mesmo endereço onde cresceu, na Rua Artur Azevedo, e faz do espaço parte seu lar, parte seu atelier. Inquieta, entre os planos da artista está realizar uma exposição individual. Para isso, a casa que servia de laboratório para as experimentações cervejeiras dos filhos está sendo reformada, com a intenção de ampliar seu local de criação. A capacidade de se reinventar e contar histórias – seja com pincéis ou tanques de fermentação – certamente está no sangue da família de Anna Maria. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Quando decidimos o tema da 46ª edição da PI, Marias, me ocorreram diversas mulheres incríveis que acredito merecerem ter suas histórias contadas. Uns dias depois, lembrei da Maria Degolada, não a lenda, propriamente, mas uma famosa cerveja cujo rótulo me fez conhecer a fundo a figura santificada. Fazendo uma breve pesquisa, não foi difícil descobrir as inspirações para os cervejeiros Glauco e Guilherme criarem a receita – a dupla fundadora da Cervejaria Anner é bastante conhecida na cena das cervejas artesanais. De Glauco, aliás, muito eu já tinha ouvido falar e, inclusive, entrevistado para a revista onde trabalho, mas nunca o havia encontrado pessoalmente. Até a conversa que tivemos para esta reportagem. Fui recebida com muita atenção em seu antigo endereço e atual de sua mãe, Olga Maria. De onde eu pretendia sair com uma história sobre uma cerveja, saí com uma história sobre uma família, e, em parte, sobre o bairro onde ela foi construída – sem dúvida, uma das boas surpresas do jornalismo.

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Isabel é mãe de Maria Mariana Rodrigues Ferreira, a única Maria entre as 242 vítimas fatais do incêndio na Boate Kiss

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As cinzas de um desastre Três anos após o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, os pais das vítimas seguem lutando por justiça

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Por JEAN PEIXOTO. fotos de RENATA CARDOSO

á pedi para não deixarem essas flores velhas aqui”, dizia Isabel dos Reis Rodrigues, 43 anos, enquanto recolhia o ramalhete seco de margaridas desbotadas depositado ao lado da imagem de Nossa Senhora de Aparecida, em frente à porta da boate. O olhar distante e marejado de sofrimento retornava ao ponto onde o seu mundo começou a desmoronar. O batom preto e as unhas sem esmalte, já roídas de ansiedade, combinam com a maquiagem pesada para esconder as olheiras e as roupas pretas do seu luto eterno. Em contraste, somente a camiseta branca com a P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

foto e o nome da filha, Maria Mariana Rodrigues Ferreira. A filha mais velha de Isabel teve seu sonho de se tornar médica veterinária interrompido aos 18 anos, junto de outros 241 jovens. A única Maria entre as vítimas fatais do incêndio da Boate Kiss foi filha, amiga e mãe da própria mãe. “Eu tive uma filha criança e uma filha adulta. Não tive uma filha adolescente. A Maria era quem me cuidava, ela era tudo pra mim”, diz a mãe com o resquício de voz que restou entre lamentos e murmúrios secos, intraduzíveis em palavras.

Omissão mata

Omissão: é o ato ou efeito de omitir, é o deixar de fazer, dizer ou escrever. É não agir quando se esperaria que o fizesse. Esta definição poderia ter sido extraída das empoeiradas páginas de 15

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um dicionário qualquer, ou até mesmo de uma página do Google. Mas esta é a definição estampada com tinta amarela, em letras garrafais, sobre o tapume preto que hoje recobre a fachada da boate Kiss. Localizada na Região Central do Estado, Santa Maria é conhecida como município “Coração do Rio Grande”. No dia 27 de janeiro de 2013, o coração do Rio Grande sangrou. O Brasil e o mundo voltaram os olhos para a cidade quando o incêndio da boate Kiss ceifou a vida de 242 jovens, deixando mais de 600 feridos e mutilados. Sobre as portas brancas, de longe se avista a pintura do número 242 rodeado por marcas de mãos impressas com tinta vermelha. Ao lado, duas cruzes fixadas por pais de vítimas da tragédia denunciam as autoridades envolvidas no caso: Ministério Público, Bombeiros e Prefeitura. Estes seriam os responsáveis pelo incêndio segundo as famílias. “3 anos de omissão” diz a frase inscrita com tinta vermelha na lateral direita da porta de entrada, hoje vedada apenas com um cadeado e o silêncio mortificante do abandono.

Uma luz que nunca se apaga

Na Praça Saldanha Marinho, no centro da cidade, os familiares das vítimas da Kiss instalaram uma tenda com um mural de fotos com os rostos daqueles 242 jovens que jamais voltaram para suas casas. A lâmpada fluorescente que ilumina a tenda permanece acesa o dia todo. Mas aquela luz que nunca se apaga não ilumina apenas a tenda. Enquanto aquela luz estiver acesa, haverá luto, mas também haverá luta. É ali, entre o gazebo central e a agência

do Banrisul, que todo dia 27 os pais se reúnem para lembrar dos seus filhos, irmãos, sobrinhos, primos e netos. Mas, sobretudo, para lembrar à comunidade e ao poder público que, mesmo após três anos do incêndio, essas famílias não descansarão enquanto não houver Justiça. Sentada no banco rente à tenda é onde Isabel passa boa parte dos seus dias. Moradora do Loteamento Cipriano, que fica a cerca de 40 minutos do centro da cidade, a jovem mulher de cabelos louros e olhar profundo lamenta a perda de sua Maria. Foi com o pai, o veterinário mato-grossense Marcus Vinícius Back Ferreira, 43 anos, que, embora separado de sua mãe, Maria aprendeu a amar os animais. Tanto que, ao prestar o vestibular, ficou entre os cursos de medicina e veterinária. Quando confrontada com a escolha, as viagens à Bolívia a trabalho com o pai pesaram e Maria escolheu estudar veterinária na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Embora tenha cursado apenas o primeiro semestre, ela já vislumbrava um futuro promissor trabalhando com o pai no Mato Grosso ou na Bolívia. Pepe, o vira-latas que Maria ganhou de seu tio ao passar no vestibular, teve pouco tempo para desfrutar da companhia de sua dona. Ao contrário de Fadinha, a mascote veterana da casa que hoje já tem 12 anos, e acompanhou boa parte do crescimento de Maria. Um crescimento tão eminente quanto precoce. A menina, que aos 15 anos precisou virar mulher para ajudar a mãe que se encontrava em depressão, foi a mesma que criou as três irmãs menores. Um misto de força e doçura. “Ela era como uma P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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mãe para elas. Quando ela se foi eu fiquei sem chão”, lamenta Isabel enquanto contorce as mãos entre as pernas. Ao passar no vestibular decidiu morar sozinha. Sempre responsável, Maria não era de ir a muitas festas. Boa parte das visitas que recebia em seu apartamento eram de sua mãe. Geralmente quando saía à noite, era na companhia do pai. “Às vezes ela me convidava para sair aqui na cidade, mas eu geralmente não ia”, comenta a mãe. O último Natal de Maria rompeu uma tradição de anos: a viagem para a casa do pai, no Mato Grosso. Devido ao início tardio do semestre letivo na UFSM, em decorrência de uma greve de professores, as aulas se estenderam durante o período de recesso. Naquele verão, os alunos não tiveram férias. “Se não fosse pela greve, ela nem estaria aqui no dia do incêndio”, comenta Isabel. Três dias antes da tragédia, Maria “tirou sua mãe da cidade”. Sem que Isabel soubesse, ela comprou uma passagem rumo à Itapema, no litoral catarinense, para que a mãe tirasse alguns dias de descanso. “Quando cheguei na rodoviária liguei pra ela e disse que eu não queria ir. Ela insistiu, e eu fui”, conta a mãe. No dia 26 de fevereiro, uma noite antes do incêndio, o telefone de Isabel tocou. Era Maria. Elas não sabiam, mas essa seria a sua última conversa. Isabel conta que na tarde daquele dia, dentro da igreja, em Itapema, sem explicação aparente, ela teve uma crise de choro. Quando atendeu ao telefone, de imediato disse para a filha que queria voltar para Santa Maria. A jovem explicou à mãe que o cartão de crédito do pai fora clonado e que, portanto, não seria possível comprar a passagem de volta para ela naquele dia. Maria acalmou a mãe e chegaram a um consenso: esperar até a segunda-feira seguinte. — Eu te amo muito mãezinha. — A mãe também te ama muito. O telefone voltou para o gancho e só saiu novamente quando Isabel acordou na manhã do dia 27. Na TV, a reportagem dizia que um acidente havia acontecido na boate Kiss. Ciente de que Maria já havia ido algumas vezes até a casa de shows, desesperada, Isabel ligou repetidamente para o celular da filha, que só chamava. Àquela altura, Maria já não podia mais atender.

O luto que move a luta

“Se importa se eu fumar?”, dizia a voz suave e inquieta, enquanto buscava pelo isqueiro no seu bolso

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Para Carina Adriane Corrêa, do Movimento Do Luto à Luta, toda mãe que perde um filho sempre acha que é culpada de alguma coisa

direito. Falar da filha sem um cigarro entre os dedos parecia uma tarefa quase impossível para Carina Adriane Corrêa, 38 anos. A auxiliar de nutrição é uma das fundadoras do Movimento Do Luto à Luta, juntamente com Flávio da Silva e Marília Tôrres, ambos familiares de vítimas da tragédia. A filha de Carina, a estudante de Filosofia Thanise Corrêa Garcia, tinha 18 anos quando entrou para a lista de vítimas da Kiss. Thanise sempre usava tênis ou sapatilhas nos pés. No entanto, para celebrar o aniversário de um amigo e a aprovação no vestibular de outros dois, na festa da Kiss, a jovem decidiu inovar. “Naquele dia ela quis ir toda bonita, então compramos o primeiro sapato de salto alto dela”, lembra a mãe. Por volta da 1h30min da madrugada, Thanise foi até a área de fumantes da boate e ligou para a mãe. Na conversa, comentou que os pés doíam e que a boate estava muito cheia. A mãe recomendou que ela fosse embora. A jovem decidiu que entraria por mais alguns instantes e, na sequência, voltaria para casa. Foram os instantes que definiram o seu destino. Thanise foi uma das primeiras 20 pessoas a morrer, pois estava muito próxima do palco onde o incêndio teve início. “Nós, mães que perdemos, sempre achamos que a gente é culpada de alguma coisa”, lamenta Carina, que, ainda hoje, se culpa por ter comprado o par de sapatos para Thanise. No lugar da filha, Carina passou a conviver com as crises de pânico e a depressão. Não fossem as incontáveis sessões de terapia e os cigarros, Carina não conseguiria conviver com o vazio da perda. “Eu

ainda me pego procurando ela. Eu sento na sala esperando ela chegar da faculdade, então eu lembro que ela não vai chegar. Eu fumo uns dois ou três cigarros até me convencer de que ela não está mais ali. Então me deito pra dormir e tentar sonhar com ela. Um sonho bom. Essa hoje é a minha vida”, conclui a mãe contendo o pranto.

De vítimas a réus

Não bastasse a morosidade do poder público no julgamento dos acusados pela tragédia, há cerca de um ano, três pais de vítimas da Kiss respondem a um processo movido pelo Ministério Público que os acusa de calúnia e difamação. O presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Sérgio Silva, e o presidente do Movimento do Luto à Luta, Flávio Silva, são alvos da ação do promotor Ricardo Lozza, que os acusa de afixarem cartazes pela cidade acusando o Ministério Público de omissão no incêndio da Kiss. Sob a mesma acusação, o diretor jurídico da AVTSM, Paulo Carvalho, responde a processo movido pelos promotores Joel Dutra e Maurício Trevisan. No exato dia em que a tragédia na boate Kiss completou 44 meses, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a Prefeitura de Santa Maria e o Governo do Rio Grande do Sul não têm obrigação de indenizar familiares das vítimas do desastre. O pedido foi apresentado pela Defensoria Pública do Estado, mas foi rejeitado com base no Código de Defesa do Consumidor. Não cabem mais recursos. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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monumento da irresponsabilidade

A íngreme ladeira da Rua dos Andradas nunca mais foi a mesma, especialmente no trecho compreendido entre as ruínas da Kiss e a saída do Carrefour. A todo momento, pessoas param no local. Alguns, por curiosidade. Outros, por respeito. Uma prece, uma oração, ou uma selfie. Diversos são os motivos que levam as pessoas a se prostrarem em frente ao dantesco monumento da irresponsabilidade que culminou na maior tragédia da história do Rio Grande do Sul e maior catástrofe envolvendo incêndios no Brasil dos últimos 50 anos. O único desastre que superou a Kiss em número de vítimas foi a tragédia do Gran Circus Norte-Americano, em 1961, na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, quando 503 pessoas morreram. Para quem caminha em frente ao que restou da boate Kiss, é como se as chamas daquele 27 de janeiro ainda crepitassem. É como se os gritos e pedidos de socorro ainda pudessem ser ouvidos através daquelas paredes enegrecidas pela fuligem.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Quando decidi escrever esta reportagem, não fazia ideia do que encontraria pelo caminho. Mas acredito que as melhores pautas são movidas pela dúvida e nutridas pelo desejo insaciável de cobri-las. Essa é a paixão que o jornalismo sempre me despertou. A paixão pelas histórias das pessoas. Embora o discurso seja piegas, o sentimento é genuíno. O mesmo sentimento que me acompanha a cada pauta redigida, apurada e deglutida. Entre percalços e surpresas, posso dizer com toda certeza que fui afortunado, pois, embora não acredite em destino, jamais duvido do poder e sabedoria do acaso. Do meu atraso na rodoviária à generosidade dos amigos que me acolheram em Santa Maria junto à Renata, minha fotógrafa — mais um presente do acaso — não restam dúvidas de que escolhi a pauta certa. Ou terá sido a pauta quem me escolheu? Não sei. Melhor assim. Me sinto grato por contribuir do único modo que eu posso e sei, escrevendo. A partir de agora, não é mais o asfalto, nem os 291Km que separam Porto Alegre de Santa Maria que delimitarão a distância entre este repórter e aquelas famílias. A partir de agora, não existe mais distância entre este repórter e aquelas famílias, pois nos tornamos parte da mesma luta.


Devoção à mãe de todos COM 14 ANOS, GIOVANNA É UMA DEVOTA DE MARIA Por Fernanda Fauth. fotos de LEANDRO LUZ

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la tem apenas 14 anos, mas desde os quatro frequenta a Igreja Católica. Apesar da pouca idade, mostra uma maturidade e uma identidade já formadas. “Acho que os princípios da Bíblia ultrapassam religião. São questões éticas. Dê de comer a quem tem fome, ame aos outros como a ti mesmo, não furte, não cometa adultério. São coisas que, olhando assim, tirando da Bíblia, são coisas morais que os pais ensinam às crianças. Mas o que sustenta tudo isso é a fé e o amor. Sempre é. Se a pessoa não amar aquilo que segue, ela sairá muito rápido, o mesmo se não crer no que faz.” Com alma de criança, mas espírito de adulto, essa garota mora atualmente em Gravataí com os pais e irmãos e é conhecida no Twitter como “Gio de Maria”. Em seu Facebook, imagens de Jesus e Maria são compartilhadas diariamente com mensagens e salmos. Essa menina, tão pequena e cheia de fé, se chama Giovanna Raupp. Todos os dias, quando acorda e antes de dormir, reza as orações de São Miguel Arcanjo, de Santo Anjo e 10 Aves Marias. De manhã, normalmente, reza o terço mariano e contempla os mistérios e bênçãos da passada de Jesus na terra. Já à tarde, quando consegue, reza o terço da misericórdia. “E isso na escola mesmo. Esses dias estava na aula de ciências e, enquanto isso, pedia misericórdia pelas almas naquela escola”, fala brincando, em meio a sorrisos. Giovanna cresceu vendo os pais serem coordenadores regionais e frequentando a Renovação Carismática Católica. Contudo, quando pequena, ela não demonstrava tanto interesse em frequentar a igreja. O motivo era o fato de a família não parar em casa, já que os pais iam diariamente para lugares diferentes para pregar e evangelizar. A adolescente chegava a brigar com os pais por não gostar. “Nós nos mudamos muito. Começamos a ir à igreja em Glorinha, depois fomos pra São Francisco do Sul, em Santa Catarina, e depois para Santos, em São Paulo. Lá eu me envolvi mais com a igreja, fui coroinha e quase coordenadora”, comenta.

“Eu andava como uma morta vida, sem expressão”

No meio das andanças e da correria do dia a dia, a mãe Silvana, e o pai, Cristiano, resolveram em 2012 deixar a igreja por um tempo de lado. Nessa mesma época, a família se mudou para Itajaí, em Santa Catarina. Apesar de viverem bem, num condomínio com infraestrutura diferenciada e sem preocupações financeiras, uma mudança no interior de Giovanna começava se manifestar. Ao mesmo tempo em que estava feliz, pois pensava que agora teria os pais finalmente com ela, a garota se sentia infeliz e de certa forma mimada. A esperança de felicidade vinha de seu irmão, que nasceu quando estavam morando ainda em São Paulo. “Tínhamos uma vida de quase riquinhos, sabe? Toda semana íamos pra shoppings, e eu e minha mãe escolhíamos a dedo o que íamos provar, e quase sempre levávamos tudo. Mas e meu coração?”, comenta. As dificuldades começaram a aumentar. A menina frequentava uma escola em que não fez amizades, e a solidão começou a predominar. “Eu sofria por ninguém conversar comigo, e se conversava, era pra tirar com a minha cara.” Com esse rebuliço de emoções, Giovanna tinha como seu lugar preferido o quarto. Ela entrou em depressão. O auge da tristeza e o início de sua nossa vida aconteceram juntos: quando Giovanna tentou se automutilar. Numa noite, na sala de casa, a garota pegou o jogo P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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de facas novas da mãe. “E aqui em casa tem uma imagem de Jesus em gesso, que onde tu está, ele te olha. E eu sentia alguém me observando, quando olhei, parecia ser Jesus. Imediatamente minhas mãos começaram a arder, como se pegassem fogo, e deixei a faca cair no chão. Naquele momento me senti tão amada, tão amada. E fui dormir chorando, com vergonha de Jesus ter me visto fazendo aquilo”, relata Giovanna ao relembrar, emocionada.

“Por Maria, eu só fico mais perto de Jesus”

Em novembro de 2014, Giovanna entrou para o “Jovens Operários de Cristo”. Foi através desse grupo que ela teve a possibilidade de participar do seu primeiro retiro, dessa vez, sem os pais. “Eu estava crente que conhecia todos os tipos de retiros por ter visto e ido com meus pais, mas esse foi diferente. Foi o meu encontro com Deus, o meu primeiro passo pra encontrar o meu Senhor que tanto me esperou e tanto me amou, mesmo eu não merecendo, e vi que sou só uma argila nas mãos de Deus, e que a vontade Dele tem que ser feita através de mim, e assim construir um mundo melhor.” Mas foi em fevereiro deste ano, no Carnaval com Cristo que ocorreu em Gravataí, que a adolescente sentiu a fé renovada. “Eu observei que a devoção por Maria somente me levaria ainda mais perto de seu filho Jesus.” Era um amor diferenciado. Esse sentimento a levou a iniciar uma adoração por Nossa Senhora, pensando e tendo ações moldadas em santidade. Hoje Giovanna procura não usar o que ela acredita que Maria não usaria, não ouvir o que Maria não ouviria, mas, acima de tudo, em cada terço rezado, ela agradece à santíssima. “Encontrei em Maria uma melhor amiga, uma mãe, que sempre me escuta, acolhe o que eu peço e leva a Jesus. Muitas noites em desespero, com choro, por ‘n’ motivos, foi no colo de Maria que eu encontrei a paz, que vi que nem tudo estava perdido, que sim, existe um Deus e que, independentemente do quanto sou fraca e pecadora, me cuida por amor.” Para Giovanna, até a voz que usa para cantar é de Maria. A menina começou a demonstrar sua fé por meio da música com seis anos de idade. Agora, adolescente, chegou a pedir em oração uma certeza de que seu trabalho de levar a palavra deveria ser por meio da voz. Após orar, teve um sonho com um homem tocando

num piano e uma mulher de vestido branco. “A voz dela era tão delicada, e o canto não era com letras, era como eu imagino ser uma música dos anjos, delicado, envolvente. Até hoje quando penso no sonho, meu coração se acelera ao recordar aquela voz”, fala empolgada.

“Gio de Maria” acredita que a devoção por Nossa Senhora a aproxima de Jesus

Devoção X Adoração

Segundo o teólogo e professor da Unisinos, Luiz Fernando Rodrigues, a devoção à Maria pode ser dividida em dois níveis, um devocional e outro teológico. O primeiro estaria ligado à presença de Maria, mas de uma forma silenciosa na Bíblia. “Maria fala apenas duas vezes. Apesar disso, ela é fiel, acompanha Jesus durante toda vida”, relata. Já a parte teológica estaria ligada à visão de que Maria seria a nova Eva, ou ainda à teoria de que ela representa a igreja, devido ao alto nível de fidelidade. Giovana é uma dessas seguidoras devotas por Nossa Senhora, mas entende que, pela Igreja, a adoração deve ser somente à Deus. “Cada ofício, cada coroa, é um obrigada para Maria. Primeiro por dar Jesus ao mundo, e, segundo, por aceitar ser minha mãe também.” Então, quem seria Maria? “Mãe de Deus, mediadora de todas as graças. Serva fiel, modelo de cristão. Associada a toda pregação. Não se pode separar Jesus de sua mãe”, comenta o professor. Para o padre Leandro Froehlich, da Igreja Nossa Senhora da Conceição, de São Leopoldo, o perigo está nos extremos. “A devoção está em ter uma inspiração por alguém bom, em tentar seguir o exemplo. Já a adoração é somente por Jesus. É preciso entender que Maria, mãe nossa, por exemplo, é uma pessoa que intercede”, diz.

O dogma da Imaculada

O dogma da Imaculada foi proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX, que declara a santidade de Maria desde que nasceu, sendo virgem antes e após o nascimento de Jesus. Segundo o padre Froehlich, o dogma não é totalmente aceito. “O reconhecimento de Imaculada para alguns retira a ideia de pecado original, por isso existem controvérsias.” Para o teólogo Luiz Fernando, o dogma reforça convicções. “Maria é a mulher reservada por Deus para gerar o seu filho.” Contudo, é importante ressaltar que os dogmas não significam a criação de uma outra doutrina, pois continuam tendo como base a Bíblia. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Entrevistar alguém como Giovanna, tão nova, mas com tanta sabedoria e cheia de fé, motiva a sempre instigar e procurar por novas histórias. Uma jovem de apenas 14 anos, mas que já possui tanta vivência e pode ir amadurecendo tão cedo. Conversar com o padre e o teólogo também proporcionou a compreensão de que a história em si tem muito a nos contar. Palavras tão próximas como devoção e adoração podem facilmente ser confundidas e usadas como sinônimos, entretanto, na questão religiosa pode-se perceber que existe um significado muito diferente. Quando pensei em realizar e pesquisar mais sobre a questão da devoção, confesso que imaginava algo mais geral, talvez por não saber tanto sobre o assunto, mas ter a vontade de pesquisar e ir a fundo em novas histórias. Ao ir investigando o tema e conversando com fontes, vi que poderia levar a reportagem para outro viés, mais voltada para a vida de uma das entrevistadas, porém, trazendo a fé e a questão da devoção, levantando, assim, pontos importantes sobre a religião em si.


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Vida consagrada pelo sim Conheça a história da Irmã Maria José dos Reis, que há 59 anos dedica sua vida ao próximo Por Daniela Tremarin fotos de Pedro Gabriel Viero

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e acordo com o IBGE, o Brasil possui aproximadamente 11,7 milhões de Marias e 5,7 milhões de Josés. As próximas linhas narram a história de uma mulher que carrega esses dois nomes e que há 59 anos decidiu dedicar sua vida ao próximo. Ela é a irmã Maria José do Reis. A história começa ainda na sua infância no município de Bocaiuva, interior de Minas Gerais. A vida na roça não era fácil: Maria acordava cedo no pequeno sítio da família, e junto com os quatro irmãos, ajudava em toda lida do campo. Aos nove anos, já era responsável por várias atividades, dentre elas a de separar os bezerros das vacas. “Eu montava em um cavalo sem cela e buscava as vacas no pasto, era muito moleca, adorava aquela vida”, conta a irmã com brilho nos olhos. Mesmo com a rígida rotina de trabalho na roça, a preocupação com os estudos sempre foi prioridade na família. De tarde, todos os irmãos largavam seus afazeres e iam para escola rural da região. “Íamos todos juntos. Aquele bando de crianças, tudo amigo, sempre de chinelo de dedo. Quando chovia, a gente tirava os chinelos e ia debaixo da chuva e de pés descalços mesmo.” Aos 13 anos, a família mudou-se para São Paulo para trabalhar nas

fazendas de algodão. Quando retornou a Bocaiuva, aos 16 anos, ela sabia que a vida no interior da cidade já não fazia mais parte dos seus planos.

Início da vida religiosa

Maria se estabeleceu na região central de Bocaiuva, começou a trabalhar na casa da prima enquanto continuava seus estudos. Sempre muito envolvida com a religião, participava de um movimento da Igreja chamado Filhas de Maria. “Era lindo. Nós nos vestíamos todas de branco e nos apresentávamos nas missas”, explica Maria José. Aos 17 anos, com a chegada de quatro freiras vindas da Congregação Nossa Senhora da Visitação do Rio de Janeiro, a jovem Maria viu nelas a vocação que tinha para ajudar o próximo. “A família mineira é muito religiosa. Como um dos mandamentos das Filhas de Maria era ir à missa todos os dias, pontualmente às seis da tarde eu ia para igreja.” Mas com a chegada das irmãs para administrar o hospital e a escola da cidade, Maria sabia que apenas participar do grupo não era mais suficiente. Na época com 18 anos, noiva e com o enxoval pronto, Maria estava com o pé no altar. O noivo, quatro anos mais velho, já percebia que o relacionamento não iria para frente. “Foi bem difícil falar para ele a minha decisão. Como eu já passava mais tempo com as irmãs, ele desconfiava que isso ia acontecer. Cheguei e disse logo: Vou ser freira, você precisa encontrar outra pessoa e seguir em frente, porque a minha vocação é muito maior. ” Logo depois disso, foi morar com as irmãs e no dia 2 de janeiro de 1965 mudou-se para o convento no Rio de Janeiro. “Toda minha vida foi precoce. Eu fiquei só seis meses no postulante, e fui para o noviciado e fiquei mais dois anos como noviça. Nesses dois anos de preparo para ser religiosa, não saía e nem recebi visitas. ” Ainda noviça, ela conheceu outra importante personagem da sua história, Bernadete do Nosso. Entrando dois anos após Maria José no convento, ela se tornou uma espécie de orientada dela. O encontro foi curto na época, mas o destino iria colocar as duas novamente P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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juntas no passar do tempo. Em 1968, ela realizou os primeiros votos tornando-se freira. Depois disso, foram mais cinco anos de estudo, conforme manda a Lei da Igreja. Foi em 1973 que ela realizou os chamados votos perpétuos tornando-se freira de vocação e formação.

Saída da congregação

Irmã Maria José dos Reis, depois de ser enviada junto com um grupo de freiras para missão em Goiás, decidiu que estava na hora de buscar uma nova forma de ajudar as pessoas. Junto com mais oito irmãs, entre elas a irmã Bernadete do Nosso, decidiu sair da atual congregação. “A congregação que me formei era voltada para educação. Eu não queria apenas isso, desejava trabalhar direto com o povo, com as comunidades carentes. Brinco que eu e a Irmã Bernadete causamos a revolução dentro do convento. ” Depois da decisão tomada, era preciso buscar outra congregação que fosse voltada para as atividades que as irmãs queriam. Maria foi a primeira a sair, ela ficou responsável por encontrar um lugar que as receberia. Depois de muita busca, encontraram o Bispo Dom Aloísio Sinésio Bohn. O próprio papa havia solicitado para ele fundar uma Diocese em Novo Hamburgo. O Bispo convidou as irmãs para ajudá-lo nessa nova empreitada. “Meu Deus, o Rio Grande


Irmãs Maria José e Bernadete construíram juntas o Centro Comunitário que ajuda centenas de crianças e adolescentes

do Sul! Eu só conhecia pelo livro, nunca havia visto nada, eu conhecia o Estado pela lenda do Saci”. Ao chegar no local completamente novo, foi preciso iniciar todo um processo para conseguirem um espaço apenas para elas. “Nós vivíamos na casa canônica, mas queríamos estar em contato com o povo, trabalhar para ajudá-los”, explica Maria José. A irmã foi em busca de ajuda das prefeituras da região e, em 1982, a Prefeitura de São Leopoldo cedeu um lote de aproximadamente dois mil metros quadrados no bairro Feitoria para elas. Mas havia uma condição: se em dois anos elas não começassem a construção no terreno, teriam que devolver o espaço. E assim, com a ajuda dos amigos e da comunidade local, começaram a construção. Apenas as irmãs Maria José e Bernadete se mudaram para a nova casa. As outras seguiram atendendo outras comunidades. “Começamos a receber pessoas na garagem da nossa casa. Nós tínhamos um fusca amarelo que o Dom Sinésio tinha nos dado. O fusquinha era como se fosse o SAMU aqui do bairro, quando alguém se machucava, a gente levava para o hospital. ” As duas freiras faziam chás, sopas, roupinhas para crianças e, quando morria alguma criança, eram para elas que os moradores pediam ajuda. “Eu e a irmã Maria José nos tornamos responsáveis por essa comunidade. Eles não tinham para quem pedir ajuda, na época era tudo muito longe, só tinha uma linha de ônibus. Então fazíamos o que podíamos”, conta a irmã Bernadete.

O CENTRO COMUNITÁRIO Talitha Kum

Com passos apressados e sempre atenta às situações ao seu redor, a irmã Maria José caminha pelo Centro Comunitário de Educação Infantil (CCEI) Talitha Kum com orgulho. Quem vê de fora, não imagina o quanto aquele pequeno espaço precisou lutar para sair do projeto. “Nós não podíamos ficar com toda essa gente na nossa garagem, nós tínhamos dois mil metros de terreno. A gente precisava fazer algumas coisas. Então um grupo de mulheres que nos ajudava teve a

ideia de criar o Centro Comunitário para acolher estes pobres, estávamos criando a Casa do Menor, que depois se tornaria o Talitha”, lembra a irmã Maria José. Nessa mesma época, as duas irmãs foram convocadas pela atual congregação, Fraternidade Palavra e Missão, para ir ao Nordeste auxiliar as comunidades locais. Durante cinco anos, a irmã Maria José vinha uma vez por mês, de ônibus, ver o andamento das obras do espaço. Enquanto estavam fora, a Associação de Moradores do Bairro Feitoria entrou com um processo junto à Câmara de Vereadores de São Leopoldo para tirar as terras das Irmãs. Eles alegavam que, por não morarem mais lá, o lugar não estava sendo usado. “Eu tive que correr atrás de vários vereadores para aprovar na Câmara que a casa era nossa. Nós ganhamos, é claro”. Em 1996, elas voltaram definitivamente para cidade e não pararam mais. Hoje, o Centro atende 143 crianças e adolescentes no contra turno escolar, oferecendo oficinas de música, coral, dança, judô, culinária e informática. O cuidado com cada criança é resultado de uma vida dedicada a ajudar o próximo. “Deus ajudou a gente, toda a comunidade nos ajudou. Nós não tínhamos recurso, tudo que construímos foi com muita fé e a ajuda de todos”, diz a Maria José.

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Sim de Maria O que é carisma? Para a irmã Maria José o carisma é a essência de cada ser humano. “Nós nascemos com ele, nós somos guiados por ele. É preciso que cada um busque o que te motiva e transmita isso para o mundo. Isso é o carisma”, explica Maria. Toda a sua vida foi dedicada ao seu carisma. Nesse caso o sim para Maria, mãe de Jesus. Quando aceitou a missão de ser uma devota de Deus, esta foi a forma de transmitir para o mundo seu carisma. Foi pela vida inteira dedicada a vocação que a mulher saída do interior de Minas Gerais mostrou que a diferença pode ser feita com pequenos atos e muita força de vontade.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Conheci a Irmã Maria José ainda na infância, com seis ou sete anos. Moro no mesmo bairro em que o Centro Comunitário atende dezenas de crianças e adolescentes. Sempre soube que ela não nasceu no Rio Grande do Sul, mas nem por um momento imaginava que sua história tinha começado tão longe. Sempre frequentei o lugar, devido a minha mãe ser professora lá, mas dessa vez como repórter tive um olhar diferente da história dessa Maria. Saber o que motivou e como foi toda a luta para construir um lugar que fosse não apenas um espaço no contra turno escolar, mas sim uma segunda casa para todas aquelas crianças, foi uma experiência única. A atenção que as duas freiras têm por todos vai além dessas simples linhas. São 30 anos de um espaço que ajuda não apenas os alunos, mas toda a família. Em uma das nossas conversas, ela me ensinou o que era carisma. Espero conseguir levar adiante esse pensamento e construir minha vida sabendo que, de alguma forma, pude ajudar os outros.


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A luta pela inclusão Com muita determinação, a mãe de Maria Clara fez TUDO o que podia para que sua filha tivesse seu direito garantido POR lei Por Thayná Bandasz . fotos de Gustavo SchenkeL


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os olhos da sociedade, ela é uma criança como qualquer outra. Tem seus momentos de ficar saltitando, incomoda, faz suas birras e fica até cantarolando enquanto pega na mão de sua mãe para ficar segura em um ambiente cheio de pessoas estranhas. O que ninguém imagina é que Maria Clara tem algumas características que a tornam especial. Nascida de cesárea de emergência, pois sua mãe, Tairê Costa, não tinha dilatação, Maria Clara era uma criança grande, com 48 centímetros e 4,7 quilos. Sem qualquer indício de que seria uma criança especial, com um ano foi diagnosticada com Transtorno de Espectro Autista (TEA), conhecido popularmente como autismo, que atinge uma a cada 50 crianças no mundo, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Tairê morava sozinha com a mãe, Tânia Azevedo, quando começou a perceber mudanças no comportamento da filha, que não respondia aos chamados, e não socializava. O cruzamento de olhares quase não existia mais. Como trabalhava demais, achou que o motivo das mudanças fosse o fato de dar pouca aten-

ção à Maria Clara, que estava mais apegada a sua avó. “Achei que ela precisava ir para escolinha, e não que alguma coisa estivesse errada”, conta. Na primeira escolinha, não se agradou com o sistema, mas foi lá que as professoras comentaram sobre a dificuldade de interação da menina. Decidida, trocou para uma creche mais conceituada, que tinha a proposta educativa que Tairê desejava. “Atenderam ela muito bem, mas para uma criança típica”, frisa. Depois de um tempo, Tânia resolveu comentar na escolinha que Maria Clara estava com um comportamento estranho, e a diretora indicou uma psicóloga particular. Tairê marcou a consulta, apesar do preço ir além do que podia pagar, mas precisava descobrir o que estava acontecendo. No consultório, a psicóloga fez a análise e disse que Maria Clara não era autista. “Na hora eu até aceitei o diagnóstico, mas fiquei com aquela pulga atrás da orelha. Fui atrás de outro médico”, conta.

A angústia da descoberta

A neurologista só confirmou o que se esperava: Maria Clara era autista. “Ela disse que minha filha era linda, perfeita, mas era autista. Ainda questionei, mas a neuro me mostrou que ela deveria responder de uma maneira certo teste de reflexo e encaminhou para os exames”, relata. Foi nessa hora que o mundo de Tairê desabou, pois desconhecia o que era autismo. O que a fez ir atrás da APAE em busca de auxílio. Tudo começou a ser mais corrido, tanto para Tairê quanto para Clarinha, que na época tinha dois anos. Nesse processo apareceu Adilson Bueno, que era colega de trabalho, se tornou namorado e também foi de grande ajuda nesse momento de aflição. “Eu já não dormia mais, porque passava o tempo todo procurando informação e precisava acompanhar Clara nos exames. Foi cansativo para mim, mas para ela foi mais”, conta. Tairê começou a enxergar o autismo da filha. Per-

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cebeu que precisava desafiá-la nas brincadeiras e não fazer o que fosse confortável. Nesse tempo, a menina já frequentava as terapias duas vezes por semana pela manhã e a escolinha à tarde. Nas outras manhãs ia para creche às 10h. Tairê e Adilson passaram a se revezar para levar Maria Clara nos atendimentos e procurar informações. Conheceram o método teacch, que trabalha a repetição de tarefas que o autista deve seguir na sua rotina diária. Também souberam que existia um teste de nivelamento. “Serve para descobrir qual é a idade de desenvolvimento mental, onde está a maior defasagem e onde deveria focar”, explica Adilson. Na época, o teste custou R$ 1.500,00, o que era caro, mas necessário para ajudar no desenvolvimento da filha. O resultado deixou Tairê ainda mais apavorada, pois apontou autismo severo, caracterizado pelo atraso na fala ou a falta dela.

A necessidade da inclusão

Os tratamentos passaram a ser mais precisos e perduram até hoje, mas em ritmo mais leve. Maria Clara começou a se desenvolver, mas o que parecia ir bem na terapia e dentro de casa travava quando chegava na escolinha. A evolução não estava acontecendo por completo, pois estavam tratando ela como uma criança padrão.


A partir da lei 12.764, de 2012, ficou instituída a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, ou seja, os autistas passaram a ter os mesmos direitos que outras pessoas com necessidades especiais, como direito às políticas públicas de inclusão, principalmente na educação, garantindo monitoria nas escolas. Mas o educandário não respeitava a lei. “Se eu contratasse uma profissional para acompanhar a Clara, estariam de portas abertas para receber, mas a escola não daria. Por lei, deveriam, mas não fizeram”, conta Tairê. A partir daí, foram atrás das creches municipais, pois sabiam que nelas Maria Clara, que já tinha três anos, teria esse di- A mãe e o padrasto reito respeitado. Então ela foi cha- de Maria Clara, Tairê mada como suplente na escolinha e Adilson, estimulam municipal Jesus de Nazaré. “Fica- a filha a ser cada vez mos com medo, pois estávamos mais independente vindo de experiências ruins, houve desconfiança. Nós participamos um pouco da adaptação. O Adilson até mais do que eu, até perceber que tudo estava bem”, afirma. O processo de inclusão começou a ser feito. A escola foi aberta desde o início para tudo o que Tairê trouxesse e que ajudasse no desenvolvimento de Maria Clara. A socialização dela foi com todos da creche. “Ela se desenvolveu muito na escola. Era a lacuna que faltava para preencher, na socialização, na independência”, aponta. Maria Clara passou a ter monitora, além da fonoaudióloga, da terapia ocupacional e das sessões de psicomotricidade, tudo isso disponibilizado pelo município. A inclusão também é trabalhada com os colegas. “Está acontecendo essa troca. A verdadeira inclusão é colocada em prática dentro da escolinha. Não agrega só para ela, mas para todos que estão em sua volta”, afirma Tairê. Maria Clara, hoje com cinco anos, ficará na escolinha até 2017 e, depois disso, irá ingressar no Ensino Fundamental. Fase que Tairê ainda sente receio de falar, pois a tendência é que o processo de inclusão passe a ser mais frio, com menos pessoas dispostas a ajudar sua filha. “Ela está na fase maternal, que ainda é mais tranquila, mas a inclusão tem suas fases bem difíceis. A gente tenta não pensar muito, porque se pensar demais no futuro, surta”, afirma.

A ideia de fazer com que a criança não se sinta diferente

Responsável por boa parte do desenvolvimento de Maria Clara, a escolinha Jesus de Nazaré faz com que a criança com autismo se sinta acolhida. A diretora Cristiane Nazaré explica que a ideia é integrar a criança em tudo, sempre a respeitando. “Ficamos atentas a todas as ações, é um envolvimento de toda escola. A gente acredita que a inclusão é não fazer atividades separadas, mas que todos possam participar”, explica a diretora. A monitora que acompanha Maria Clara, Jéssica Coutinho, fica responsável por boa parte do processo de inclusão. “Eu deixo ela independente, chama sozinha os colegas para brincar, mas, quando precisa de ajuda, daí me chama, me leva até onde quer. Nossa proposta é ensiná-la a viver, e tem dado muito certo”, afirma Jéssica. O processo tem sido longo, mas os resultados são cada vez mais gratificante. Hoje tudo soma como conquista que só enche Tairê, e sua família, de alegria, visando também um futuro próximo onde o mundo seja mais inclusivo. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Emocionante. Essa seria a palavra caso tivesse que resumir essa pauta e toda sua produção. Apesar de ser um assunto delicado, eu abracei e aceitei esse desafio que o jornalismo nos proporciona. Passei duas horas conversando com a Tairê e com o Adilson, enquanto a Maria Clara brincava pela casa e o Gustavo ia atrás dela fotografando. Foi o tempo suficiente para perceber a força que essa família possui. Ri com os “micos” que a Clarinha faz os pais passarem e também me emocionei quando o assunto foi sobre o futuro. Na minha pesquisa para matéria e na dificuldade de achar dados concretos, comprovei ainda mais o que Tairê me falou várias vezes durante a entrevista: o debate sobre autismo precisa ser diariamente reforçado.

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Ô abre alas, que P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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O Bloco Maria do Bairro há 10 anos contribui com a festa Do Carnaval de Rua de Porto Alegre Por PRISCILA SERPA fotos de VICTOR OKAJIMA

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ra verão de 2007. Depois de muitos anos frequentando o Carnaval de Rua do Rio de Janeiro, os amigos Rafael Tombini, Zeca Brito e Luiza Ollé resolveram montar seu próprio bloco e contribuir com a folia de Porto Alegre. Surge então o Bloco Maria do Bairro. O nome teve inspiração na empresa onde os fundadores trabalhavam, a Maria Cultura, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Com a ajuda da comunidade Areal da Baronesa, considerada o berço do samba de Porto Alegre, e o apoio da Secretaria de Cultura e Manifestações Populares, o bloco foi para a rua. Acompanhado da Bateria Mirim, crianças carentes que participam do Areal do Futuro, que além de bloco de rua também é um projeto cultural voltado à comunidade, o Maria do Bairro levou cerca de 300 pessoas para a festa e fechou a Rua Sofia Veloso, na capital. “Nós não tínhamos nenhuma pretensão. No primeiro ano, éramos uma bandinha, uns instrumentos. A gente levou um cooler para fazer venda de bebidas. E com isso já teve bastante gente. Muita criança participou e fechamos a rua”, conta Tombini, 44 anos, fundador do bloco. Poucos carnavais depois, um dos foliões que seguia o bloco quis se juntar a trupe. Erguer Viana passou a ser o quarto componente do Maria do Bairro e braço direito de Tombini. Com Luiza Ollé como porta bandeira e cuidando da arte, Zeca Brito como cantor e compo-

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Inspiração: sambas enredo vêm das experiências dos integrantes

sitor dos sambas enredo e Rafael Tombini e Erguer Viana na produção, o bloco ficou ainda mais sólido. “O Erguer se fantasiava de Chacrinha e morava na Rua Sofia Veloso, um dia ele chegou falando para a gente que queria fazer parte do grupo”, lembra Tombini. A inspiração para os sambas enredo vem daquilo que os rodeia, das suas influências, mas também há espaço para homenagens a pessoas que de alguma forma foram importantes para o Carnaval e para sociedade. “O Carnaval é um momento onde a gente pode trabalhar, além da questão musical, a questão da crítica, da sátira, da revisão dos valores da sociedade. Esse é o barato”, comenta Zeca Brito, cantor e compositor do bloco. Geralmente, quando fazem uma composição para o bloco, os integrantes tentam sempre pensar como a sociedade está andando, o que está acontecendo naquele tempo e de alguma maneira fazer algum comentário metafórico sobre as coisas que estão em nosso entorno. “A inspiração surge aleatoriamente de acordo com as influências, com o que cada um gosta, os afetos, aquilo

que a gente viveu, ou homenageando alguma pessoa querida. Buscamos coisas que valorizem a cultura da cidade, a história da cidade”, completa Zeca. O maior público do bloco foi nos anos de 2014 e 2015, quando mais de 30 mil foliões seguiram o bloco, conforme dados da Brigada Militar. O Maria do Bairro recebeu um convide informal da Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua do Rio, a Sebastiana, para participar do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro em 2017, mas ainda não há nada confirmado, e o bloco está verificando a viabilidade para realizar a folia em outro estado. Caso seja confirmada a participação do Maria do Bairro, a ideia é fazer um bloco para reunir os gaúchos que moram na capital carioca.

Os Desafios

Já que tudo começou com uma brincadeira, no início o bloco não apresentou dificuldades. Mas, com o passar dos carnavais, algumas coisas começaram a se tornar necessárias. A cada ano, mais pessoas se juntavam à folia do Maria do Bairro e, com isso, os amigos tiveram que investir em um carro de som melhor, camisetas do bloco, entre outras coisas. “Uma coisa que nunca vou esquecer, que me marcou muito, foi, acho que no nosso quinto ano, quando eu vi a banda espremida no carro de som e aquela multidão fazendo festa. Tinha gente pendurada nas grades das casas para curtir a folia. Chegou a assustar, cresceu demais. Ali eu vi que precisávamos de um carro maior, e tivemos também que passar a usar a esquina da Rua Sofia Veloso com a Rua Lima e Silva. Lá tinha mais espaço para o pessoal e para um carro de P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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som maior”, conta Tombini. Infelizmente, a burocracia e a papelada são a parte mais complicada. No Carnaval de 2016, quase que o bloco não foi para a rua. Por causa do mau tempo que estava previsto para a data marcada, tentaram transferir a apresentação para outro dia bem mais afastado do Carnaval. No final deu tudo certo. Mas, todos os anos, os blocos de rua em geral ficam na expectativa. A liberação sempre vem poucos dias antes da data prevista para folia. Tombini comenta: “A parte mais difícil são as autorizações, as liberações. A Prefeitura não incentiva. Eles dificultam o máximo possível. Depois querem dar tchauzinho em cima do carro de som”. O Carnaval, antigamente, era uma festa para que as pessoas pudessem brincar e se divertir, mas com o tempo passou também a ser um negócio. Uma das produtoras de Porto Alegre criou um circuito para o Carnaval de rua da capital. Eles organizam as datas que cada bloco vai para a rua e depois falam com a Prefeitura para tentar a liberação nas datas escolhidas. “Esse circuito


foi criado para alavancar as vendas de uma marca de cerveja que fez negócio com a produtora”, complementa Tombini. Devido ao barulho da festa, a Associação de Moradores da Cidade Baixa prefere que o calendário ocupe apenas uma semana, de segunda a domingo, por exemplo. Mas que não se estendesse por quase três meses, como ocorre atualmente, visto que as apresentações ocorrem somente aos finais de semana. Sempre dois sábados antes de colocar o Maria do Bairro na rua, o bloco faz um aquece no Areal da Baronesa, o que faz girar a economia da comunidade. Os moradores ajudam a organizar a festa e ainda fazem quitutes para vender bebidas e até alugam os banheiros de suas casas para os foliões. No Carnaval de 2016, o bar oficial do aquece vendeu cerca de três mil latas de cerveja, fora outros tipos de bebidas. Para os organizadores do bloco, os órgãos públicos não aproveitam essa fomentação da economia local neste período da forma como deveriam. “A Prefeitura sempre se exime em ajudar. Não sugerem melhorias para o nosso Carnaval. Em Porto Alegre são 28 blocos de rua, 10 só na Cidade Baixa”, desabafa Tombini.

As Motivações

Desde o primeiro ano em que o bloco foi para a rua, o público abraçou o Maria do Bairro de forma lúdica. Tudo era novidade, e o bloco sempre foi muito bem recebido pelos foliões. “É fantástico fazer a festa das pessoas, é uma alegria imensa proporcionar isso. O melhor do Carnaval é poder brincar com os amigos e a família, jogar confete, cantar e dançar as

marchinhas”, diz Tombini. Todos os anos, as datas em que o bloco se apresenta coincidem com o Planeta Atlântida, um grande evento musical realizado no litoral gaúcho. Mesmo assim, muitos foliões ficam na capital e prestigiam os blocos de rua de Porto Alegre. Conforme Tombini, nos 10 anos da existência do bloco, nunca houve brigas, atropelamentos e rixas de gangue durante a festa. “Algumas vezes o pessoal passa mal por causa da bebida, mas outras coisas mais graves nunca aconteceram”, complementa. Muitas pessoas da vizinhança chamam os foliões de arruaceiros, entre outras coisas. E para os que nunca caíram nesse tipo de folia, o conselho é que deixem os rótulos de lado e conheçam como é a festa através dos seus próprios olhos. Participar para poder conhecer. “Os blocos de rua podem trazer lembranças da infância para alguns. O Carnaval de rua é nosso, é brasileiro e é de graça. Não há aquela preocupação de ter que ficar até o final porque pagou ingresso ou algo do tipo”, finaliza Tombini.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Como a folia começa somente a partir de janeiro, o aquece do bloco ocorre apenas dois sábados antes do calendário oficial. Devido a alguns contratempos, a entrevista foi realizada por telefone. Durante a ligação, foi muito fácil perceber a satisfação que o bloco tem em alegrar ainda mais o Carnaval de Rua de Porto Alegre. Porém, também não foi difícil perceber a insatisfação com a burocracia que envolve as liberações para que o bloco possa ocupar as ruas da cidade. O Carnaval é feito de riso, confete, serpentina, e mesmo apesar da entrevista por telefone, eu que nunca pulei no embalo de um bloco de rua, fiquei com muita curiosidade em participar da festa.


Em busca A VIDA DE Marias QUE carregam consigo histórias baseadas na tentativa de remissão

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Por Marco Prass fotos de Larissa Hoffmeister

pessoa não me conhecia. Eu cheguei à casa dela, não marquei horário. A casa ficava em Novo Hamburgo, ainda. Bati à porta, me olhou, não sabia quem eu era, e disse: tu és o Carlos, né? (Carlos Ramos olha fixamente em meus olhos, enfatizando expressão que mescla espanto e desafio). É interessante, né? Até ali, tudo bem. Eu pensei, bem, de repente, ela me viu em algum lugar, sabe alguma coisa de mim. Esperei escurecer. Nos fundos da casa, a ocasião pedia um vestido vermelho e preto. Por mais que digam que ela vive no lixo, ela é vaidosa. Ela gosta de roupas bem extravagantes. Ela gosta de brilho. Aquilo que havia ocorrido logo que bati à porta e que me deixou desconfiado, agora se repetia, contudo, para não deixar nenhuma dúvida. Ela (a Maria Mulambo) olhou nos meus olhos e começou. Falou da minha vida, de quando eu nasci. Falou dos problemas de audição que eu tive quando fiz sete anos, dos problemas respiratórios que eu tive quando fiz 14 anos, dos problemas que eu tive quando fiz 20 anos! (Aumenta o tom de voz ao fim da frase ressaltando a situação atípica e destacando a idade). Coisas que ninguém por aqui sabia. Outra coisa que me falaram: quando tu vieste ao mundo, tu tinhas as patas tortas. Eu usei bota ortopédica até os sete anos, e ninguém sabia! Eu sou natural de Santo Antônio da Patrulha. Não tenho parentes aqui, nem contato com ninguém daqui.


de redenção

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Olhou para mim e falou: tu não vais passar dos 28. Eu estava com 27 anos. Isso em setembro de 2000. Em março do ano seguinte, eu iria fazer 28 anos. Os doutores da terra te mandaram para casa, disse ela. Segundo os médicos, não tinha volta (não havia, de fato; ela estava certa). O que tu farias? Uma pessoa que não te conhece, fala de toda a tua vida? (Silêncio). Detalhes específicos? Foi ali que eu comecei a gostar e a frequentar a casa. Eu fiquei seis anos por lá. Certa vez eu estava com um problema de saúde. Não iria trabalhar. Estava com cálculo renal, mas, até então, não tinha conhecimento disso. Fiz ecografia, vários exames, mas não apareceu nada. Em uma quarta-feira, um dia frio, ela estava no salão. Chamou o meu mensageiro, que a respondeu. Depois de aproximadamente 30 minutos, ele saiu. Eu também me retirei do salão. No banheiro, alguns minutos depois, eliminei 30 pedras. Eu estava com pedras nos rins. Nesses seis anos, foram várias experiências. Têm muitas Marias (O regente da Seara de Umbanda Cacique Ogum da Lua, Maiquel Cor rea, conta detalhadamente). Tem Maria Mulambo, Padilha, Maria do Balaio, Mulambê.... Aí, tem a Maria Padilha das Almas, do Cruzeiro, da Calunga, Quitéria, e assim vai. Na verdade, a característica principal de todas as Marias é a questão da exuberância, a questão do luxuoso, do belo, né? Elas apreciam champanhe, normalmente rosé, perfumes, rosas vermelhas, brincos, colares... tudo o que denota a vaidade, a sedução. Principalmente porque elas são muito procuradas por questões relativas ao amor. Elas são muito relacionadas à festividade, à alegria. Mas cada lugar ensina uma história diferente. Na internet, dizem que uma delas era prometida para um rei. Outros dizem que era filha de um agricultor brasileiro. Também há os que afirmam que ela conheceu um estrangeiro, ou os que contam que ela nem era daqui. São diversas

versões sobre a mesma história. Cada uma das Marias tem uma característica única. Têm pontos cantados de Maria Mulambo em que falam sobre a questão do lixo. É do lixo, é do farrapo só (canta no ritmo). Por isso, ela trabalha com a limpeza. A vassoura de pano é uma das ferramentas que ela utiliza, uma forma de simbolizar essa limpeza. Há muitas explicações, histórias sobre a Maria Quitéria. Eu não diria que ela é a mais guerreira, mas é, digamos assim, faca na bota. Contam que ela carrega uma adaga na mão. Todas viveram em uma época não muito distante à nossa e buscam uma espécie de redenção vinda por meio da caridade. (Carlos concorda com Maiquel e prossegue). No caso da Maria Mulambo, ela procura trabalhar em busca da luz. A história conta que, no prostíbulo em que ela trabalhava, engravidou. Apesar de possuir muito dinheiro, abandonou tudo porque foi rejeitada (à época, a gravidez fora de um relacionamento estável era considerada um verdadeiro escândalo). A gente não tem uma data exata de quando isso aconteceu, mas contam que, em função dessa rejeição, ela teve o filho e o comeu (expressa breve consternação). Ela largou toda a riqueza que tinha e foi viver em meio ao lixo. Por isso que se fala em mulambo, que seria uma pessoa que gosta de lixo, de acumular, recolher coisas. Todas essas Marias eram, certo tempo atrás, como posso dizer... pessoas que viviam em um mundo de pecado perante muitos, quase como se fossem bruxas. Viviam em cabarés, eram da noite, prostiP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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tutas. Por elas viverem nessa vida, foram assassinadas, violentadas ou então fizeram o mal. Eu entrei para a religião faz seis anos (confidencia Jauna Caetano). Foi por acaso. Fui visitar uma casa e era sessão de quimbanda. Um exu chegou e me colocou debaixo da capa dele. Até então, eu nunca havia desenvolvido nenhuma entidade. No começo, tu não sabes quem está se manifestando. Elas não podem chegar falando, precisam de uma permissão do chefe da casa. Levou três meses para que ela se identificasse como uma Maria Quitéria. Até então, todo mundo achava que era uma Maria Mulambo. Quando foi doutrinada, me contou sua história. Contou que era uma mulher da vida, que teve um grande amor e, por ter sido deixada, virou mulher da vida. Nessa função, acabou por tirar muitos filhos.... Então agora ela veio para ajudar a se redimir pelo o que fez em outras vidas. Tanto que, quando ela chega, diz que não traz amor a ninguém (reforça). Ela é meio misteriosa. Não conversa muito.


Não é como as outras, que se manifestam rindo. A Quitéria ajuda a abrir caminhos, arrumar emprego, auxiliar em coisas difíceis. Aos poucos, foi mostrando a sua essência, ajudando as pessoas. Ajudou um rapaz a sair da prisão. Disse que o auxiliaria espiritualmente porque ele não tinha culpa. Ele ficou seis dias preso e ela o tirou de lá (o tom de voz ao fim da frase reforça o prodígio). Procurei um centro espírita e os médiuns me encaminharam para um passe isolado (Cristiane Nauê volta 11 anos de sua história). Falaram que havia uma presença muito forte ao meu lado. Disseram que poderiam se comunicar com ela. Eu, naquela época, apavorada, sem entender nada, pedi que o fizessem. Pensei que não queria um negócio desses ao meu lado, né? (Deixa escapar o riso). Fomos para dentro da sala onde - depois eu vim a saber quem se manifestou na médium de transporte foi a minha pomba gira, Maria Padilha das Almas. Ela chegou calma, tranquila, mas muito debochada. Falou que o

centro espírita não podia com ela, que ela era uma energia forte. Afirmou que vinha me acompanhando há muitos anos e que não iria sair de perto de mim. Então, comecei a procurar casas de religião. Tive o processo de desenvolvimento mais lento, até pelo meu medo. Com o tempo, comecei a ter uma relação mais próxima com ela. Criei bastante carinho por essa entidade. Sabe aquela pessoa que era meio descrente? Eu sempre tenho minhas dúvidas. Mas ela me provava. Eu pedia alguma coisa e em três dias ela me dava a resposta. Essa busca por uma espécie de redenção surge das Marias porque, geralmente, cometeram algum crime (Maiquel continua), mas têm a possibilidade de, através da caridade, atingir evolução espiritual. Elas podem ser mulheres que mataram seus filhos, que abandonaram seus filhos, que abortaram, roubaram, e assim por diante, então elas têm que se redimir, por isso, tentam alcançar essa evolução pela caridade (a qual os devotos tentam levar adiante).

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER A ideia inicial da pauta era buscar, nos classificados dos jornais, um anúncio que pudesse render um perfil sobre alguma Maria da região metropolitana. O que chamou a minha atenção e me fez mudar de pauta, no entanto, foi um convite a uma homenagem a Maria Padilha, que descobri depois, por meio de pesquisa, que se tratava de uma das principais entidades da umbanda e do candomblé. Como eu não tinha conhecimento sobre essas religiões, pensei que seria interessante buscar mais informações e escrever uma matéria sobre Maria Padilha. Conversando com os entrevistados, descobri que havia mais de uma entidade com o mesmo nome, o que encaixou ainda mais a ideia de pauta ao tema da revista. Achei muito enriquecedor pesquisar sobre o assunto e dar voz aos entrevistados da maneira como fiz no texto, experimentalmente, tentando transmitir na matéria todo o mistério que presenciei na sessão de umbanda e nas lendas de cada uma das Marias.


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A vocação religiosa é um desafio vencido a cada dia com satisfação pelas irmãs Maria Por Laura Gallas fotos de Nagane Frey

O Cumprindo o chamado do criador

relógio desperta antes das 6h, é sinal de que mais um dia cheio de desafios e graças está amanhecendo. Os corredores gelados da casa até a capela do Oásis Santa Angela indicam que será um dia típico de inverno em Canela, na Serra Gaúcha. A oração coletiva termina às 7h30min, hora do desjejum das moradoras. Em cada sorriso, abraço, ou bate-papo, o valor da missão é reforçado: “Somos uma família e estamos aqui para servir a Deus”. Enquanto muitas pessoas pensam em seguir carreira profissional nas áreas exatas ou humanas, ou então ser bem-sucedidas e continuar os caminhos profissionais dos pais, outra parte acredita que precisa cumprir uma missão, ou melhor, um chamado. Todo o trabalho exige disciplina, além da dedicação. Vestidas com um hábito azul claro, cabelos cobertos pelo capelo, crucifixo pendurado no pescoço e agasalhadas com um casaco preto, as freiras Maria Alves dos Santos, 37 anos, Maria Luzinete Alves dos Santos, 27, e Maria Auxiliadora Gonçalves, 26, estão prontas para mais um dia de desafio. Elas acreditam que as pessoas nascem com um propósito, e o delas é se dedicar a Deus.

O peso de um nome

Na Igreja Católica, o mês de homenagens dedicado à Nossa Senhora Auxiliadora é maio, o dia dela, 24. A santa foi denominada assim após uma sangrenta batalha em que os cristãos estavam sendo vencidos pelo exército muçulmano que pretendia invadir a Europa. Segundo o site Cruz Terra Santa, por meio de orações e invocações com o nome de Nossa Senhora Auxiliadora, comandadas pelo papa Pio V, em 1571, bravamente, os cristãos venceram o combate.


As religiosas Maria Alves, Maria Luzinete e Maria Auxiliadora se dedicam a Deus e cuidam de idosas no Oásis Santa Angela, em Canela

Pouco mais de quatro séculos depois, nascia em 17 de fevereiro, Maria Auxiliadora Gonçalves. Seu nome foi escolhido pelo seu padrinho, devoto da santa. Coincidência ou não, ela acredita ser uma enviada de Deus para auxiliar àqueles que necessitam, da mesma forma como Nossa Senhora Auxiliadora fez. Nos primeiros instantes, o sorriso fácil até parecia disfarçar a timidez. Uma jovem determinada, estatura de aproximadamente 1,45m, voz rouca (se recuperava de uma gripe), que só deixa a vergonha de lado quando o assunto é sua missão e sua religiosidade. “Nós somos responsáveis pela nossa fé”, afirma. Aos 14 anos, após a Primeira Eucaristia e Crisma, a adolescente do interior de Pernambuco tinha muita curiosidade em relação às freiras. Com a observação aguçada e a admiração pelas religiosas, durante uma tarde de verão, acompanhou, escondida, as irmãs que trabalhavam no hospital de Barbalho irem para um velório. “Eu gostava de olhá-las e, a partir dessa experiência, fui vendo sinais de Deus.” No município não existiam religiosas, e quando viajava para outras cidades, Maria Auxiliadora se realizava ao conhecer freiras de diferentes congregações. “Eu via na irmã algo diferente, o olhar, os gestos, e aquilo me transmitia um sentimento bom. Isso foi me marcando,

e guardei essa lembrança dentro de mim, porque tinha receio de me aproximar. Para mim, era uma coisa muito sagrada”, recorda. Com orações, em dúvida sobre o que desejaria para o futuro, a jovem identificou nesses pequenos detalhes de sua curiosidade sinais de Deus. “Ele vai mostrando até nos tocar. E acredito muito que fui chamada por ele.”

Irmãs religiosas

Irmãs de sangue, 10 anos de diferença, e o mesmo nome e ofício. Hoje ela se chama Maria Luzinete Alves dos Santos, 27 anos, mas até dois atrás, carregava somente o mesmo nome da irmã e também freira, Maria Alves do Santos, 37. Após a sua entrada na congregação Filhas de Santa Maria da Providência, Maria Luzinete procurou acrescentar o segundo nome, após pequenas confusões. “É engraçado, mas nem nosso pai sabe porque me registrou com o mesmo nome da minha irmã”, conta Maria Luzinete sorridente. A história das duas irmãs revela como acontece o chamado de Deus para cumprir a vida religiosa. Com orgulho, elas acreditam vencerem cada dia em nome do criador e de suas missões. Com 18 anos, Maria Luzinete, antes de terminar o Ensino Médio teve dúvida em que profissão seguir, diferente de seus colegas, que já criavam expectativas quanto à vida.

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Ainda confusa, começou a pedir em orações sobre qual caminho trilhar. E foi nos encontros vocacionais da paróquia de sua cidade que descobriu que queria estudar para ser freira. Em 2008, participou de uma semana de convivência na igreja e, logo em seguida, mudou-se para fazer a formação inicial da vida religiosa, o Aspirantado. “As pessoas lá de fora não entendem a vocação religiosa e se perguntam por que largamos tudo para sermos irmãs. Parece mistério, mas só quem vive entende profundamente”, define. O destino das duas irmãs se cruza. Ensinar a palavra de Deus e orientar o caminho religioso às noviças é uma das tarefas da irmã mais velha de Maria Luzinete. Maria Alves, após a Crisma, decidiu o caminho que desejava seguir. Sempre muito determinada, participou de inúmeros encontros vocacionais em Fortaleza. Com sua tranquilidade, explica que, à época, percebia uma inquietação dentro de si e admirava o trabalho das catequistas, de como se doavam para algo tão bonito. “Aquilo me fez pensar como seria bom fazer isso, e com o tempo descobri que era o que eu gostaria de fazer.” Maria cumpriu os votos em 2007. “Nunca tive dúvida ou pensei que estivesse no lugar errado. Dificuldades sempre existem, mas não desanimo, tenho convicção de que Deus me chamou. Isso me faz mui-


to feliz, além de buscar fazer aquilo que a congregação me confia.” De 2010 a 2011, a freira cumpriu obediência (a congregação demanda ações às irmãs) no Oásis Santa Angela, quando acompanhou jovens aspirantes. Em 2012, mudou-se para a Itália, país onde a congregação iniciou, para realizar a Profissão Perpétua, que é a formação permanente da vida religiosa. No final de 2013, Maria cumpriu os votos e recebeu novamente a obediência para retornar à Canela, agora, como responsável pelo Noviciado.

Trabalho em família

Hoje, as três Marias se dedicam não só a Deus, mas a cada uma das idosas do Oásis Santa Angela. O trabalho das irmãs inicia com o café da manhã das 74 moradoras. Muitas delas, já debilitadas com Parkinson e demência, às vezes, possuem só flashs de memória, como se cada hora do dia fosse um recomeço do passado. O clima dentro da casa é familiar. Além das Marias, são mais nove religiosas que fazem o trabalho de acolhimento. Os horários das missas são sagrados não só pelas religiosas, mas também para as moradoras. Passeando pelos corredores da casa de idosas em Canela, é visível o amor e o comprometimento com

que as freiras levam a vida. A dedicação está em destaque no sorriso e no tom da voz de cada uma delas. Maria Luzinete e Maria Auxiliadora, em 2014, receberam a missão de ir para Canela. Juntas estão cursando técnico em Enfermagem. Maria Luzinete trabalha no segundo andar da casa atendendo cerca de 18 idosas que não são dependentes. “A vida é feita de desafios, a cada dia surge um novo. No início, eu admirava o trabalho das irmãs ajudando a comunidade, e tinha consciência de que não era fácil. Eu sabia que onde quer que você esteja, existem desafios, e nenhuma vocação é fácil. Se ele chega até você, é porque você conseguirá resolver, você é capaz”, afirma Maria Luzinete. O frio de alguns cômodos da casa é quebrado quando as irmãs chegam, espalhando esperança e fé para todas as moradoras. No terceiro andar do Oásis está Maria Auxiliadora cuidando de idosas totalmente dependentes. Determinada para essa caminhada, a jovem freira enfrentou a família para se dedicar à vida religiosa. “Minha mãe nunca aceitou minha decisão. Aos poucos, ela foi entendendo e começou a compreender e a aceitar. Nos primeiros anos, quando eu ia de férias para casa, ela pedia para eu não voltar, mas ela dizia: ‘se é da vontade

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de Deus vá’. Foi após eu concluir o Noviciado que ela entendeu, mas sempre achou que eu desistiria.” Uma vez por ano as religiosas fazem um retiro para reorganizar a vida e o espiritual. Mensalmente, um retiro de um dia é preparado no Oásis. “Em silêncio absoluto, percebemos a presença de Deus para manter a vida equilibrada”, acrescenta Maria. E finalizam revelando como é a vocação religiosa. “Ser irmã é ter uma vida ativa e contemplativa no meio do povo. O plano quem faz é Deus, não adianta planejarmos, porque ele desfaz, nos colocamos à disposição dele, e assim vamos vivendo e compreendendo, estamos abertas para a vontade do criador.”

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Mesmo antes de conhecer as religiosas Maria, Maria Luzinete e Maria Auxiliadora, eu acreditava que nascemos, sim, com uma missão. Quando viemos ao mundo, nosso propósito já está escrito por Deus. Não acredito em coincidência, cada vez mais estou crédula de que as coisas acontecem conosco a partir daquilo que foi proposto pelo Criador. Contar a história de três mulheres freiras chamadas Maria, das quais a fé se sobressai a qualquer outra característica, foi renovador para mim. A sabedoria foi destaque em cada palavra dita por elas. Sempre tive curiosidade em conhecer a rotina de religiosas, inclusive, precisei me conter para não as “bombardear” com perguntas. Na manhã linda de sol em que eu e a fotógrafa Nagane Frey as acompanhamos, posso dizer que o tempo foi pouco. Em mim ficou o desejo de querer conhecer mais e obter mais ensinamentos das enviadas de Deus. E, também, me despertou o desejo de frequentar o espaço mais vezes, pois naquela energia me senti confortável.


Portadora de doenรงa rara, Maria Isabella utiliza medicamento derivado da maconha Por JULIANA SILVEIRA fotos de ARTHUR MORAES

Uma luta

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pela vida P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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om um pequeno brinco dourado na orelha, Maria Isabella, dois anos, dormia tranquilamente enquanto eu começava a entrevista com os seus pais. Graziele e Lucas de Freitas me receberam em sua casa numa tarde de sexta-feira, um pouco ventosa, mas com alguns raios de sol, tempo típico de Primavera no Rio Grande do Sul. Os dois estão juntos há oito anos, sendo casados há quatro. Os pais da pequena Maria Isabella falam, orgulhosos, do dia em que descobriram que a família aumentaria. O anúncio de uma gravidez muito esperada foi feito pelo médico após receber o resultado de um exame de sangue realizado por Graziele na manhã daquele dia. Lucas acabara de sair do trabalho para acompanhar a esposa na consulta. Cansado, preferiu aguardar na sala de espera enquanto ela era atendida. Após alguns minutos, o médico abriu a porta do consultório e saudou o jovem rapaz: “Parabéns, papai!” A explosão de felicidade preencheu o casal, à época, ainda no início da vida matrimonial. Os dois passaram os dias seguintes surpresos, afinal, um bebê era tudo o que queriam naquele momento. A gravidez seguiu tranquila até que Graziele começou a sentir fortes dores de cabeça e inchaço fora do comum. Procurou um médico em sua cidade, Sapucaia do Sul, que pediu a ela que fosse ao hospital de Porto Alegre, pois seria necessária internação. Caso contrário, não garantia nem a vida do bebê, nem a da mãe. Em 11 de dezembro de 2013, com 25 semanas de gravidez, Graziele foi internada com diagnóstico de pré-eclâmpsia, e permaneceu no hospital até o penúltimo dia do ano, quando o bebê mais esperado pela família decidiu vir ao mundo. Maria Isabella nasceu pequenininha, pesando somente 830 gramas. Durante a entrevista, Graziele me mostra a chupeta usada pela filha nos primeiros dias de vida, um objeto tão pequeno e delicado que me remete aos tempos de criança. “Parece de boneca”, penso. Bella, como é carinhosamente chamada pelos pais, ficou internada durante quatro meses após seu nascimento, pois precisava adquirir peso suficiente

antes de ir para a casa. Em março de 2014, a menina conheceu seu novo lar, cheio de amor e dedicação de seus pais. Aos sete meses, Maria Isabella começou a ter reações diferentes de outras crianças da mesma idade. Crises de choro e gritos frequentes fizeram com que Lucas e Graziele procurassem um médico. Após exames, o diagnóstico: Síndrome de West, doença que causa uma forma grave de epilepsia e convulsões em crianças, podendo até gerar a paralisia infantil. “Quando descobrimos, a neurologista me explicou que era uma síndrome rara, mas que não era para eu pesquisar nada na internet, pois poderia ficar assustada”, explicou Graziele. No momento em que conversava com a médica, acabou esquecendo o nome da doença. Mais tarde, questionou a enfermeira do hospital e acabou caindo na tentação de procurar o assunto na internet em busca de um esclarecimento. “Eu quase morri chorando”, relata Graziele, que hoje tem pleno conhecimento da síndrome e dedica cada hora de seus dias cuidando da filha. Aos oito meses, Bella parou de mamar, parou de chorar e de sorrir. A cada crise convulsiva, seu estado piorava um pouquinho mais. Mesmo tomando cinco anticonvulsivos diferentes, passava os dias dormindo e, quando acordava, só conseguia mexer os olhinhos, não esboçava nenhuma reação. Graziele conta que P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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“Quando descobrimos, a neurologista me explicou que era uma síndrome rara, mas que não era para eu pesquisar nada na internet, pois poderia ficar assustada” Graziele,

mãe de Maria Isabella


um dia derrubou uma panela e, na queda, o barulho foi estrondoso. Bella não reagiu, não se assustou e continuou dormindo. Esse episódio fez com que os pais procurassem especialistas, com receio de que a menina estivesse com problemas auditivos. Para o conforto da família, tudo estava perfeito com a audição e visão de Isabella. Ela ouvia normalmente, porém a síndrome impedia as reações físicas.

A esperança no desconhecido

Durante um ano, Bella viveu entre idas e vindas de hospitais. Passou muitos dias internada com fortes crises de epilepsia. A pequena menina, tão frágil, mostrou-se uma guerreira, que, mesmo sem bons resultados com os anticonvulsivos, continuava a lutar pela vida com o apoio dos pais. Foi no ano de 2015 que uma nova possibilidade de melhora surgiu na vida da família.

O canabidiol é um componente da planta cannabis sativa, popularmente conhecida como a maconha, que tem a propriedade de auxiliar no controle de crises de epilepsia. Esse medicamento não causa alterações psicosensoriais e tem alta tolerabilidade em seres humanos, evitando a dependência. De acordo com o site da Associação Brasileira de Epilepsia (ABE), o canabidiol não tem eficácia cientificamente comprovada, somente relatos de usuários que obtiveram resultados satisfatórios. Atualmente, no Brasil, o uso do canabidiol é permitido para fins medicinais, mas é necessário um aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Há um ano fazendo tratamento com canabidiol, Bella reage bem. Após três dias de uso, ela voltou a chorar e, em seguida, começou a dar as primeiras risadas. O remédio é uma espécie de pasta, dissolvida pela mãe em óleo e aplicada por sonda na barriguinha da menina. É importado dos Estados Unidos e, com uma autorização da Anvisa, Graziele e Lucas conseguem comprar duas seringas do medicamento por mês. Segundo a neurologista pediátrica do Hospital da Criança Conceição e médica integrante do corpo clínico do Hospital Moinhos de Vento, Valéria Raymundo Fonteles Ritter, desde o período neonatal Maria Isabella fez uso de vários anticonvulsivos na tentativa de controle das crises epiléticas, necessitando esquema terapêutico politerápico com diversos medicamentos, finalizando com o canabidiol. “No caso dela, houve melhora na interação social e diminuição da quantidade e intensidade das crises. Essa medicação melhora a qualidade de vida de muitos pacientes, mas ainda se fazem necessários estudos mais aprofundados.” No meio da minha conversa com Graziele, Bella acorda, tosse um pouco e, em seguida, volta a dormir como um anjo. A menina estava resfriada naquela semana, fator que fez com que remarcássemos a entrevista uma ou duas vezes. Os pais, mesmo sem conhecer o remédio no início, hoje mostram-se satisfeitos com os resultados que o tratamento com o canabidiol está trazendo. “Agora ela até sonha, acorda rindo às vezes”, conclui a mãe. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Antes de a menina nascer, Graziele era gerente de uma farmácia e Lucas já atuava no ramo da construção. Hoje, pode-se dizer que a família tem uma rotina voltada para Bella. Enquanto Lucas vai para o trabalho, Graziele cuida da filha em tempo integral. É tanta dedicação que, quando questionados sobre a própria idade, precisaram de alguns segundos para lembrar. “Às vezes a gente esquece que já tem 26 anos”, conta Lucas. O casal diz que neste ano, devido ao tratamento com a nova medicação, a menina foi internada somente uma vez, grande diferença dos últimos dois anos, quando a visita aos leitos hospitalares era frequente. Um grande quadro da última ceia estampa a parede da cozinha da casa. Católica, a família encontrou forças na religião para acreditar na melhora da menina e também para justificar seu nome. O nome Isabella foi escolhido pela mãe, admiradora do filme “Crepúsculo”, no qual a protagonista chama-se “Bella”. Devido às complicações na gravidez de Graziele, uma das avós da menina fez a promessa para Nossa Senhora que, se as duas ficassem bem após o parto, o bebê receberia o nome de Maria. Na geladeira da casa da família, um adesivo com “a receita da felicidade” traz ingredientes como serenidade, paciência, amor, carinho, alegria e fé, e o modo de preparo é fácil, basta misturar tudo dentro do coração e servir sem moderação. É assim, com a melhor receita de como ser feliz, que a família enfrenta as dificuldades da Síndrome de West, sem permitir que a tristeza se faça presente no lar e ensinando diariamente valores para Maria, que, mesmo pouco entendendo sobre as nuances da vida, já se mostra capaz de ser forte e lutar por sua saúde.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Quando a turma decidiu que o tema desta edição da revista Primeira Impressão seria “Marias” confesso que fiquei perdida. Sempre pensei que chegaria nessa disciplina e contaria uma grande história. Mas o que fazer se eu não conheço nenhuma Maria? Decidi ir à luta e procurar a protagonista da minha matéria. Conversei com amigos, familiares e conhecidos, e tão logo conheci a pequena Maria Isabella. No dia em que fui à casa da família pela primeira vez percebi que tinha uma linda história em mãos, mas teria que ter empatia para retratá-la. Quando cheguei em casa, após a entrevista, comecei a pensar sobre quantas outras crianças sofrem da mesma síndrome que ela, e quantas delas têm a oportunidade de fazer um tratamento tão eficiente quanto o da Maria Isabella, ou melhor, quantas podem usufruir de uma família tão dedicada e unida. Esse foi o dia em que parei de reclamar. Me dispus a somente agradecer a partir dali. Agradeci por poder contar a história dessa menina incrível e de seus pais incansáveis. E continuo agradecendo, pois sinto que consegui descrever, com sensibilidade, a vida da família da Maria Isabella.


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Meu nome, minha arma de poder MARIA EDUARDA AGUARDA COM ANSIEDADE A MUDANÇA DE SEU NOME

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Por Franciele Arnold. fotos de Vinicius Buhler

os seis anos de idade, Maria Eduarda não entendia por que não ganhava bonecas e maquiagens de presente, assim como suas irmãs. Para ela, os brinquedos eram muito mais atrativos do que os que tinha e, além disso, adorava observar a forma como as meninas brincavam: penteando, vestindo e arrumando suas bonequinhas. Sem um motivo muito aparente, esses brinquedos lhe eram proibidos. Em sua casa em São Borja, município localizado a 594 quilômetros de Porto Alegre, ela vivia com os pais, um irmão e duas irmãs, todos mais velhos. A família, tradicionalmente evangélica, era chefiada por um pai bastante devoto e rígido com a criação dos filhos. Ainda assim, Maria se sentia especialmente repreendida. E não era só em casa. Nos primeiros anos na escola, ela se sentia deslocada, e estava de fato. Seu maior desejo era poder usar os mesmos uniformes que as outras meninas. Cor de rosa, com detalhes delicados e meia três quartos. Mais uma vez era repreendida, desta vez pelos professores. No início da adolescência - momento das descobertas e dos primeiros amores - ela percebeu que começara a sentir um carinho especial por alguns dos meninos da classe. Mas novamente era recriminada ao falar sobre o assunto. Era como se estivesse cometendo um grande erro ao se interessar por algum menino da sua classe ou do bairro. Maria cresceu tendo a certeza de era diferente. Pensava até que havia algo errado e amadurecer mostrou que de fato havia coisas fora do lugar. A verdade é que os outros não a viam como ela realmente era. O que Maria via no espelho não era o mesmo que as pessoas viam quando estavam diante dela. Ela nasceu no corpo errado e seu nome não era Maria. Ela era uma menina presa P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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em trejeitos e aparência masculina. Ninguém mais conseguia ver. Hoje, aos 38 anos de idade, Maria Eduarda Mena Barreto Vargas se sente mais adequada: seu corpo, sua aparência, suas roupas e seu nome condizem com a forma como pensa e com o que ela é. Ela descobriu sua transexualidade ao longo dos anos, de uma forma natural. Sempre se viu como mulher, e compreender que seu sexo biológico era diferente disso foi seu primeiro desafio. “É uma coisa bem natural, não é uma coisa assim: a partir de hoje eu vou ser travesti, vou ser uma transexual. Eu não convivia com outras transexuais, aquilo foi indo naturalmente. Fui readequando minha forma física àquilo que eu sentia, àquilo que eu pensava. Foi supernatural.” Para Maria, a descoberta de sua identidade foi acontecendo aos poucos. Na adolescência, ainda com nome e aparência masculinos, se declarou como homossexual pela preferência que tinha pelos meninos. A rejeição por parte do pai, rigoroso, pesou para a jovem. Brigas se tornaram constantes, até que aos 16 anos, Maria resolveu dar um basta, e tomar uma forte decisão: sair de casa. Mudou-se para a capital para tentar uma vida diferente, pois não podia mais viver em um ambiente onde era impedida de ser o que realmente era. E o preço foi alto: desde que decidiu sair, há 15 anos, nunca mais falou com o pai.

A transição

A relação com as amigas que lhe acolheram no novo lar fortaleceu e ajudou Maria a finalmente entender mais sobre o universo da transexualidade. “Fui morar com outras trans mais velhas e fui aprendendo com elas. Eu nem imaginava que tinha que tomar anticoncepcional feminino, porque era esse o hormônio que as trans tomavam. Eu não sabia disso, fui aprender aqui com as outras mais velhas.” A falta de informação é um dos principais desafios encarados pelos transexuais. Por vezes, se descobrir como trans e entender do que se tratam suas frustrações é difícil. A informação sobre identidade de gênero é escassa na mídia, nas escolas e na sociedade. O apoio médico e psicológico para essas pessoas também é pequeno, embora venha crescendo ao longo dos últimos anos. “Acho que tinha 25 anos quando comecei a tomar hormônios. Hoje eu sei que era uma dose muito alta. Uma mulher toma uma injeção por mês e eu acabava tomando duas injeções por semana e mais os comprimidos. Abusava de hormônios, porque você cria

peito, arredonda as formas do rosto, quadril, o corpo, os pelos também, é uma coisa que muda, que ajuda.”

Renascimento

Ser finalmente reconhecida como a mulher que sempre foi é como renascer. Maria fala da transição como uma nova adolescência, onde tudo é novo e descoberta. “O primeiro namorado depois de trans é uma coisa maravilhosa. Tu pode ter teus 30 anos mas é como se tivesse 15”, diz. Ela se entusiasma em lembrar da primeira paixão depois da transição: “Era um sargento do exército que eu conheci. E eu sempre tive aquela coisa: namorar escondido todos vão querer te namorar, mas não era o que eu queria. Por que eu tenho que namorar escondido? Por que as outras pessoas podem namorar ao ar livre e eu não? Foi interessante porque ele foi o primeiro homem que segurou na minha mão e saiu na Rua dos Andradas (em Porto Alegre) às três da tarde. Então esse foi o ponto alto: ter uma pessoa que te respeita e te trata como uma pessoa normal.”

Discriminação

Ingressar no mercado de trabalho foi uma das tarefas mais difíceis na vida de Maria após sua chegada na capital. “Para as trans conseguirem uma colocação no mercado de trabalho é difícil. As pessoas riem contigo, riem de você... Elas acham tudo muito engraçado, né? Tanto o gay como a transexual. Mas na hora de colocar na empresa para trabalhar e para confiar a sua empresa a ela, não confiam.” O mercado não está preparado para empregar transexuais. A discriminação ainda é grande em muitos setores. Maria foi parar onde muitas chegam pela falta de oportunidades: as ruas. Seguindo os conselhos das amigas, que já sobreviviam da mesma forma, ela recorreu à prostituição para sobreviver à sua nova vida. Segundo a Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (Rede Trans), 82% das mulheres transexuais e travestis não completaram o Ensino Médio. Por conta da discriminação e falta de oportunidade e preparo, 90% delas acabam recorrendo à prostituição.

Importância do nome social

Encarar a violência das ruas, a rotina de prostituição, a falta de segurança e de oportunidades mostra o quanto ter uma identidade condizente com a realidade daquela pessoa é importante. No caso de Maria, o nome foi escolhido de uma forma simples. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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“É uma coisa bem natural, não é uma coisa assim: a partir de hoje eu vou ser travesti, vou ser uma transexual. Eu não convivia com outras transexuais, aquilo foi indo naturalmente”

Maria Eduarda está aguardando a chegada da carteira de nome social, que permite que ela seja identificada de acordo com a sua identidade de gênero. Enquanto isso, improvisa seu nome feminino na carteira

Era tradição na família que os filhos tivessem nome composto. Hoje, ela hesita ao revelar o nome da certidão, mas fala com orgulho do seu nome feminino. “Lá em casa todo mundo tinha dois nomes e eu pensei: preciso de um nome pra colocar antes. Eduarda já era antes, se é que vocês me entendem. E aí eu sempre gostei de Maria Eduarda. É um nome que sempre achei tão sofisticado, parece um nome de rainha, princesa, alguma coisa assim.” A Carteira de Nome Social é um documento que possibilita que travestis e transexuais se identifiquem, de forma legal, de acordo com sua identidade de gênero. O Rio Grande do Sul foi o primeiro Estado a emitir o documento, desde agosto de 2012. Para fazer a carteira, as pessoas interessadas devem procurar os postos de identificação, onde é feita a carteira de identidade. O Nome Social, porém, não substitui o documento de identidade oficial (RG). Válido somente no território estadual de emissão, ele é uma forma de afirmar o direito legal do travesti ou transexual de ser identificado da forma mais adequada. Para realizar a troca do nome e do gênero no registro civil no Brasil, é preciso entrar com pedido em processo judicial, apresentando um laudo psiquiátrico emitido com acompanhamento. No caso de Maria Eduarda, foi feito pedido de troca no documento de identidade oficial na justiça. Ela já conseguiu permissão para a troca do nome e aguarda agora a modificação do gênero em seu documento. A identificação social é um direito. Quem é privado disso conhece os constrangimentos de lidar com uma sociedade que não sabe como agir diante do transexual. Além disso, no Brasil o preconceito ainda é muito grande. Um levantamento feito pelo Transgender Europe mostra que 1.500 pessoas travestis e transexuais foram assassinadas na América do Sul e Central no período de 2008 a 2015. Destes casos, 802 foram registrados no nosso país. O Brasil é a nação que mais mata transexuais e travestis no mundo. Maria diz que políticas públicas bem sérias são necessárias. “Mas eu reforço as transexuais, porque elas são a letrinha da sigla LGBT mais exposta. Um homem (cis) você olha e não sabe dizer se é gay ou hétero, e uma mulher (cis) também não. A trans não têm como fugir disso: ela está mais exposta a todo tipo de violência. Então o nome é uma arma de poder: eu posso, eu sou igual, eu sou respeitada, o governo me apoia, eu tenho esse direito de reclamar.” P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Contar a história de Maria Eduarda foi para mim, ao mesmo tempo, uma satisfação e um grande desafio. Acredito que exista uma grande responsabilidade em trazer à tona um tema delicado como a transexualidade. Por mais que assuntos LGBT venham ganhando espaço na mídia e nos meios de informação, ainda se sabe muito pouco sobre o universo, e senti, como repórter, que era preciso tratar sobre isso na edição “Marias” da revista PI. O Brasil é hoje o país que mais mata transexuais e travestis no mundo, e conhecer histórias como a de Maria Eduarda é de grande importância para informar e conscientizar as pessoas. O preconceito ainda reina em nossa sociedade, e saber das complicações e de toda a luta dessas pessoas é inspirador, pois mostra como pessoas trans são seres humanos como todos os outros, com histórias, vivências, medos e desejos. Sem dúvida, saí das conversas e da produção da matéria com muito mais bagagem sobre a diversidade e muito mais respeito a todas as pessoas.


As Rodas de Som no Teatro de Arena reuniam os novos músicos que surgiam em Porto Alegre nos anos 1970

O som de uma paixão Maria da Paz, gravada por Carlinhos Hartlieb em 1978, foi composta para sua musa de mesmo nome Por Deivid Duarte. fotos de João rosa

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REPRODUÇÃO

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s primeiras notas que se escuta é do dedilhar de um violão de 12 cordas de Carlos Alberto Weyrauch Hartlieb. A sucessão de notas dedilhadas ritmadamente por Carlinhos lembram um tango — o apelido devido sua magreza virou nome artístico. No sexto segundo, a quena tocada por Cao Trein fortalece as influências latinas da melodia. O uso do instrumento de sopro típico da região andina mostra a busca por uma sonoridade folclórica, abrindo as veias dos povos que ajudaram a construir a cultura do Rio Grande do Sul. “Olhos abertos noite adentro/ Procurando não perder de vista/Teus passos, teus braços/Teu olhar”. O vocal harmonioso de Carlinhos e as primeiras palavras de sua composição escancaram que a música fala de uma paixão. “Perdido andei tantas vezes/ Quando dava por mim, chorava/Imaginando por onde andava/Teu pensar”. As primeiras frases são embaladas por uma melodia tranquila. Assim como na música tradicional gaudéria, lembrando os passos da boiada, a percussão de De Santana abre terreno para o refrão e acelera o ritmo. Logo após o primeiro minuto, a voz de Carlinhos se intensifica para cantar: “Maria da paaaaaaaaaz”. O compositor repete quatro vezes o nome de sua musa inspiradora, enquanto Bebeto Alves ao fundo canta como voz de apoio “umdêrê-derêrê”. Carlinhos intensifica a voz: “Teu amor me faz procurar saber/Cada vez mais”. Essa é uma música sobre amor, mais especificamente: sobre um amor.

CLICRBS

Estamos no início do verão de 1978, ano em que a música Maria da Paz foi registrada em disco pela primeira vez. Carlinhos Hartlieb, nascido em Porto Alegre no ano de 1947, estava apaixonado. “O Carlinhos idealizou um amor, uma mulher. Foi e ainda é um amor eterno”, confidencia a musa inspiradora da composição. O ano foi bom para o cantor que gravou sua voz pela primeira vez em disco. Maria da Paz é a segunda faixa do disco Paralelo 30. Composta por Carlinhos, que toca violão e canta, ela conta também com Bebeto Alves, Cao Trein e De Santana. O disco trazia o som novo da cena urbana de Porto Alegre, contava com 12 músicas de seis artistas inéditos em disco: Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz, Nelson Coelho de Castro e Nando D’Ávila. O registro seria um dos mais emblemáticos da música feita no Rio Grande do Sul. Para entendermos como chegamos até 1978, precisamos voltar alguns anos. Porto Alegre, 1974. Maria da Paz Ceppas Peixoto recorda vivamente: “Já era o segundo ano em que eu festejava o aniversário da minha filha na Redenção, onde as crianças podiam correr e brincar mais livremente”. Mais conhecido como Redenção, o Parque Farroupilha é um dos mais tradicionais da capital do Rio Grande do Sul. Além da área verde, o terreno conta com o Auditório Araújo Viana, palco em que Carlinhos subiu diversas vezes. Além da filha de Maria, Ananda, a celebração comemorava o aniversário dos filhos de mais duas de suas amigas. Para a festa conjunta, cada uma convidou seus chegados, e Carlinhos Hartlieb era um deles. Como Maria P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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da Paz recorda, ele levou seu inseparável violão e cantou – e encantou a moça que cursava Psicologia na UFRGS. Final de festa, o músico também interessado na guria, se ofereceu para acompanhá-la até em casa. O relacionamento se fortaleceu com o tempo. Inspirado por sua amada, Carlinhos compôs Maria da Paz - e ela mesma foi quem contracenou o clipe da música com o cantor. Sobre o romance de Carlinhos e Maria da Paz, o jornalista e músico Jimi Joe (que na época assinava como Jimi Neto) escreveu na biografia do cantor, publicada em 1986 pela editora Tchê!: “Por muito tempo eles viveram juntos, repartindo sonhos, realizações, casa, comida, tudo enfim. As coisas pequenas e as grandes, as boas e as más. Enfim, aquela história toda. E se não viveram felizes para sempre, é porque a vida não entende coisa alguma sobre contos de fadas”. Entretanto, continuaram bons amigos mesmo separados. Maria da Paz conta que passou a última virada do ano com ele e amigos antes de sua trágica morte. No mesmo ano que o casal se conheceu, Bebeto Alves viu Carlinhos pela primeira vez. Bebeto recorda nitidamente do encontro. Mirando um ponto invisível no horizonte do seu pátio, o cantor reconstrói a cena na sua memória. Boa parte do terreno era banhada pelos raios do final de uma tarde ensolarada. “Consigo ver o cabelo comprido e os óculos de sempre, foi no show Toque”, recorda o músico hoje com 71 anos. Acompanhado de banda, Carlinhos já fazia um som novo misturando Beatles, Bossa Nova, rock e a música folclórica dos pampas. A turnê aconteceu no Teatro de Câmara, entre 10 de maio e 2 de junho. Naquela época, shows eram a maior fonte de renda dos músicos - devido ao grande custo e dificuldade de gravar discos no Rio Grande do Sul. Carlinhos havia voltado de São Paulo fazia pouco, onde foi músico da Companhia de Teatro Oficina, sob a tutela de José Celso Martinez. O músico havia chegado lá depois de sua visibilidade nos festivais universitários da região. Bebeto e Carlinhos tornariam-se grandes colegas de palco e vida, dividindo diversos espetáculos. Além disso, Carlinhos apresentou a música folclórica latina para Bebeto, estilo musical frequente na carreira do cantor até hoje — seu último disco, Milonga Orientao de 2014, explora suas influências latinas. Mas no seguinte os dois realmente se conheceriam. Era final do verão de 1975. Um novo capítulo da música gaúcha começava a ser escrito com o surgimento das Rodas de Som. Capitaneado por Carlinhos, o tea-

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O romance de Carlinhos (à esquerda) e Maria da Paz iniciado no Parque Farroupilha ficou eternizado na canção gravada no disco Paralelo 30, que teve a participação de Bebeto Alves (à direita)

tro de Arena abriu um espaço para os músicos da cidade. As Rodas do Arena aconteciam às sextas-feiras à meia-noite e o objetivo principal era dar voz a novas bandas. A proposta dos shows soa inovadora até os dias de hoje, ainda mais com a crescente insegurança da cidade. O show era aberto por três novas bandas de Porto Alegre. Entretanto, para garantir público, grupos com maior reconhecimento, como Bicho de Seda, fechavam a noite. O lugar, localizado na escadaria da Av. Borges de Medeiros, lotava tanto que era frequente um aglomerado de pessoas na rua. As Rodas foram o primeiro palco de diversos músicos que ajudaram a moldar a música do sul. Em uma dessas noites, entre março e maio de 1975, Bebeto subiu ao palco do Arena junto dos irmãos Ronald (violão) e Ricardo Frota (violino), com a banda Utopia. Eles faziam um som acústico-viajante. Ronald inventava no violão, enquanto Ricardo acompanhava com seu violino a voz de Bebeto cantando letras delirantes. Foi nessa época que Bebeto e Carlinhos afinaram sua amizade. Dois anos depois, em 1977, Bebeto Alves e Carlinhos dividiriam palco em um show coletivo, juntos também de Cao Trein. O show Voltas trazia composições dos três artistas. Todos tocavam e cantavam. Nesse espetáculo, Maria da Paz, do apaixonado Carlinhos, foi executada para o grande público pela primeira vez. Diferente da versão de estúdio, a música tinha uma melodia mais veloz e intensa.

Uma nova fase

As coisas estavam mudando no cenário da música urbana da capital. O que estava sendo feito ali, essa mistura

do folclórico com o pop, do regional com o mundial, era algo novo. Captando – e vivendo – os ares dessa novidade, um dos críticos musicais mais importantes do Rio Grande do Sul, Juarez Fonseca, achou que era hora de gravar esses caras. Deu a ideia para o produtor da gravadora Isaec Geraldo Flach, que aceitou de pronto. Na apresentação impressa no disco, Juarez anunciava a novidade: “Paralelo 30 é um disco gaúcho, mas não um disco gauchista. Ele mostra tendências que coexistem aqui em Porto Alegre, e que são resultado de muitas influências. Desde uma milonga como Que se pasa?, onde Bebeto [Alves] fala da fronteira de Uruguaiana, até o samba-choro Te Procuro Lá,que Raul [Elwanger] compôs com Ferreira Gullar em Buenos Aires”. Cada um dos seis convidados tinha espaço para duas músicas. Carlinhos escolheu Maria da Paz e Admirado por Todos. Ambas as canções foram gravadas pela mesma banda que tocava no show Voltas. Bebeto lembra das gravações como um momento alegre, devido à sintonia dos artistas que dividiram o palco por meses. Os anos avançam, Carlinhos ora compõe para shows, ora para teatro, ora ocupa cargos públicos na área da cultura. No início da década de 80, outro espetáculo coletivo é preparado. Dessa vez o som de Porto Alegre chega a São Paulo. Vários artistas da cena local participam da turnê, inclusive Bebeto. Em 1982, outra temporada fora dos pampas, dessa vez os cantores gaúchos chegaram ao Rio de Janeiro. Bebeto ficou por lá, aproveitando o sucesso de Quando Eu Chegar. O compacto lançado pela Warner, sua nova gravadora, estava indo muito bem. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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“Chego como o vento sul/Mudando o ânimo geral/ Acendendo o braseiro da paixão/Fazendo cruzar nos ares/A procura dos novos olhares”: era dezembro de 1983 e Bebeto escutava uma fita que Carlinhos Hartlieb preparava para ser seu primeiro disco solo. A canção era Como o Vento Sul. Agora estabelecido no Rio de Janeiro, Bebeto estava na empreitada de conseguir um contrato para Carlinhos na Warner. “Quando eu chegar/Quero um entra-e-sai, um vai-e-vem/Um quem não corre, voa”... o toque do telefone interrompe a canção. Era Carlinhos. Bebeto não o via desde que seu amigo o tinha visitado no Rio para lhe entregar a fita recém finalizada, meses antes. O compositor trazia novidades. Depois de finalizar Risco no Céu e não encontrar gravadora para lançar seu trabalho, ele decidiu se abrigar na Praia do Rosa para descansar. Balneário do munícipio de Imbituba, em Santa Catarina, a praia era habitada por pescadores e parcamente urbanizada. O local era quase intocado por turistas. Anos antes, ele havia construído no morro do Rosa Sul, localizado em um dos extremos do Rosa, um barraco de madeira. A capa do disco Risco no Céu, lançado postumamente, mostra seu lar praiano: a vista do mar é deslumbrante, e o lugar parece distante da civilização. Foi a última vez que os dois cantores conversaram. No dia 3 de fevereiro 1984, o corpo de Carlinhos foi encontrado em seu barraco. Nu e com dentes faltando, ele pendia ajoelhado. Seu pescoço estava suspenso por uma corda amarrada ao teto. Oficialmente sua morte ficou registrada como suicídio, mas há quem cogite assassinato devido à posição do enforcamento e os sinais de espancamento.

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Conheci a história de Carlinhos Hartleb antes de uma temporada na Praia do Rosa. Desde então quis escrever sobre a sua trajetória. Maria da Paz foi meu primeiro contato com o artista. Refletindo sobre que tema escrever a para essa matéria, lembrei da história do cantor apaixonado que compôs a canção pensando na guria que também contracena no videoclipe. Devido ao documentário Um Risco no Céu, dirigido por Rene Goya e roteirizado por Jimmi Joe, pude saber que a Maria da Paz realmente existia. Tive de superar meu tempo restrito pelas atividades profissionais para ir atrás dos autores do documentário para conseguir o contato da musa inspiradora da música. Outro percalço foi a negativa de Maria para uma entrevista presencial. Entretanto, o contato por e-mail foi proveitoso. Pude conhecer Bebeto Alves, com quem tive uma conversa inspiradora e cuja memória foi crucial. O encontro com o compositor gaúcho me fez entender mais da obra de Carlinhos e a sua.

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Um refúgio para os sonhos Abrigo acolhe famílias em situação de violência

Por Carolina Lima . fotos de Cassiano Cardoso

E Casa de Apoio Viva Maria é um espaço para mulheres que sofreram violência doméstica

ntre as milhares de Marias espalhadas pelo Brasil, existe uma que não é de carne, nem de osso. Uma Maria que não chora, mas guarda muitas lágrimas. Que não sorri, mas acaba por oferecer algumas alegrias. Uma Maria que permanece como uma amiga, um porto seguro, um espaço no tempo capaz de assegurar que as coisas podem melhorar. Esse local tem Maria no nome, mas serve mais para que as Marias continuem sorrindo, vivendo e resistindo. A violência doméstica é uma realidade no Brasil. Segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), o país tem um registro de violência contra a mulher a cada sete minutos. Cerca de 49% são casos de violência física. Dessas denúncias, 77% foram de vítimas que têm filhos e filhas. 67% das violências foram cometidas por cônjuges, namorados, ex-namorados ou ex-cônjuges. 85% das vítimas sofreram violência em casa ou em ambiente familiar.

É por isso que a Maria que apresentamos é necessária. E também por esse motivo que resolvemos contar a história desse local. A Casa de Apoio Viva Maria é um abrigo para mulheres em situações de violência, que fica em Porto Alegre. A primeira sensação que temos ao entrar no lugar é o silêncio. Em seguida, o cheiro que se sente é parecido com o de hospitais. Essa grande Maria, que cuida de outras, tem um corredor imenso. Há uma sala para os seguranças, uma guarda o refeitório, em outra está acomodada a coordenação da casa, outra sala é utilizada para cuidar dos filhos e filhas das abrigadas. Também tem o local da lavanderia, o quarto que reúne as doações, com roupas, sapatos, produtos de limpeza, produtos de beleza e tantas outras coisas. Ainda fazem parte do abrigo onze quartos com banheiro para as famílias acolhidas e um vasto pátio bem arborizado. Logo de cara, o que encontramos no corredor principal é um quadro com o poema de Mario Quintana. O Mapa sugere a “dor esquisita” que sentimos so-


O MAPA

Mario Quintana

Olho o mapa da cidade Como quem examinasse A anatomia de um corpo... (É nem que fosse o meu corpo!) Sinto uma dor infinita Das ruas de Porto Alegre Onde jamais passarei... Há tanta esquina esquisita, Tanta nuança de paredes, Há tanta moça bonita Nas ruas que não andei (E há uma rua encantada Que nem em sonhos sonhei...) Quando eu for, um dia desses, Poeira ou folha levada No vento da madrugada, Serei um pouco do nada Invisível, delicioso Que faz com que o teu ar Pareça mais um olhar, Suave mistério amoroso, Cidade de meu andar (Deste já tão longo andar!) E talvez de meu repouso...

bre as ruas de Porto Alegre que jamais passaremos. As verdadeiras histórias que jamais iremos contar. As dores escondidas que não podemos falar. A mesma “dor esquisita” que sentimos ao saber das histórias de mulheres que sofrem com a violência doméstica diariamente. E ao saber que o local já abrigou 2.300 pessoas que sofriam com a violência. A casa parece uma velha antiga, apesar de ter apenas 24 anos de idade. É uma moça, se formos observar. Talvez na idade certa para o casamento e a maternidade. Nasceu em 1992, a partir da luta das mulheres da cidade de Porto Alegre. A reivindicação por espaços seguros para vítimas de violência sempre esteve presente nos movimentos feministas. E foi assim que a Casa de Apoio Viva Maria se fez. Um espaço seguro para mulheres e crianças, sigiloso, quase escondido. Não fomos autorizados a tirar fotos da entrada do local para resguardar sua segurança. No início, os vizinhos de Maria achavam que o local funcionava como uma prisão. Estereótipos, estigmas, falta de conhecimento sobre a proposta do lugar fizeram os moradores da redondeza rejeitarem a casa. “A comunidade tinha medo. Achava que fosse um local que recebia condenados”, conta Luciane Machado. Luciane tem uma amizade antiga com o abrigo, trabalha ali há 16 anos. Já foi coordenadora do lugar e hoje é terapeuta ocupacional. O preconceito do início se dá ao caráter do público que vai para a casa. “A grande maioria é de mulheres pobres, em condições insalubres de moradia, acesso dificultado à saúde, analfabetas ou com Ensino Fundamental Incompleto”, afirma. O abrigo é o segundo mais antigo de Porto Alegre. “Foi uma ideia pioneira, se tornando referência para muitos locais”, comenta Luciane. No seu surgimento, a casa nasceu sem o conhecimento de outros lugares

como aquele, pois não existiam. A forma de funcionamento foi sendo acertada ao longo do tempo, em cima de erros e acertos, para que a melhor forma fosse encontrada. “Ainda pode mudar. Não é estático. Podemos conversar e achar que seja melhor fazer de outro jeito”, argumenta. Em 2009, o IBGE afirmou que existiam no Brasil 130 casas abrigo para mulheres em situação de violência. Apesar dessa realidade ser rotineira, os abrigos não são tão populares.

Funcionamento da Casa

Entre mulheres e crianças, os acolhimentos acontecem a partir da demanda dos Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), Conselho Tutelar e delegacias. Segundo Saionara Rocha, assitente social e atual coordenadora da Casa de Apoio Viva Maria, a forma de encaminhamento dos casos mudou. “Antigamente nós íamos até o local para fazer o atendimento e acolhimento. Hoje existe a triagem”, aponta. Saionara também conta que depois da Lei Maria da Penha o número de casos diminuiu. O local conta com uma equipe interdisciplinar que busca traba-

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lhar a questão da violência desde a relação familiar. “A mãe reproduz nos filhos a violência que sofre”, aponta Luciane. Por isso a casa se preocupa com o bem-estar da família em sua totalidade, oferecendo o tratamento para todos. A responsabilidade do local é da Secretaria Municipal de Saúde. Quem cuida da cozinha e da limpeza são funcionários terceirizados. Os demais são funcionários da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. As abrigadas têm acesso a psicólogos, enfermeiros, terapeutas e assistentes sociais e podem ficar no local até o máximo de três meses.

Podemos sonhar

Os relatos da coordenadora da casa sobre as mulheres são diversos. Segundo Saionara, muitas abrigadas vão para lá por causa dos filhos. Ela conta que qualquer avanço já pode ser considerado uma vitória da abrigagem. “Como uma mulher com uma carga de anos de violência vai sair completamente diferente depois de três meses?”, questiona. A assistente também contou a história de um rapaz que foi fazer uma entrega na casa certo dia. O menino comentou como o local estava mudado. Intrigada, ela acabou descobrindo que o rapaz já tinha es-


tado ali abrigado com a mãe. Então perguntou a ele o que tinha mudado na sua vida depois dali. Ele apenas disse: “Não mudou nada. Voltamos para o mesmo inferno”. Existe um estigma em torno dos processos de tratamentos de vítimas em situação de violência, que considera que a vida dessas pessoas muda drasticamente depois de certos processos. Da mesma forma se tende a pensar que estar em uma casa abrigo pode ocasionar uma mudança radical no cotidiano de quem sofre violência. Mas, segundo Luciane, o local, para além de um lugar responsável por mudanças, é para ser um ambiente que proporcione a reflexão. Um momento para entender e replanejar os rumos da vida de quem chega. “Um espaço para pensar e conseguir olhar a situação de outra forma”, aponta. As mulheres que chegam e vão na Casa de Apoio Viva Maria trazem e levam diversos pontos de vistas. O trabalho que se busca fazer é o de conexão com a situação da pessoa, encontrando opções plausíveis de seguir. O local oferece a oportunidade de poder voltar a estudar, trabalhar e planejar a vida a partir daquele sofrimento. Passando por entre os quartos, vemos brinquedos, camas desarru-

madas e janelas fechadas. Em cima da cama beliche, há uma cartolina rosa colada na parede. Nela vemos gravuras de prédios chiques, perfumes e roupas bonitas. O que podemos chamar de mapa da felicidade também guardava três desejos escritos em canetinha colorida: família, ser eletricista, terminar os estudos. Alguma Maria invisível, em meio às violências, conseguia desejar uma vida digna. Isso é a principal possibilidade que temos na Casa de Apoio Viva Maria: sonhar com uma vida melhor. Mesmo que depois a realidade puxe para o inferno de sempre.

PEDIDO DE AJUDA O local necessita de doações. Principalmente roupas femininas e infantis. Mas também aceita qualquer outro tipo de colaboração. Muitas mulheres chegam a Casa de Apoio sem nada, pois não tiveram tempo de sair de casa. Por isso, precisam recompor todas as suas coisas. Para doar, basta entrar em contato com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, pelo telefone

(51) 3289-3900

A violência contra a mulher é crime. Se você sofre algum tipo de violência e precisa de ajuda, ligue

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER A luta diária das mulheres sempre me tocou. Eu, enquanto mulher, reconheço que vivemos em um mundo que é duro com pessoas que nasceram do sexo feminino. Hoje eu vejo que o mundo é duro com muitas pessoas, principalmente, as que vivem em classes mais baixas. Essas são características em comum das pessoas que encontramos na Casa de Apoio Viva Maria. Pobres, analfabetas, mulheres, grande parte negras. Não tiveram acesso à escola, não tiveram acesso às condições básicas para uma vida decente. Conhecer essa iniciativa me fez perceber que, apesar das desigualdades que encontramos nesse mundo, ainda há motivos para que tenhamos esperança. No dia que eu fiz a entrevista, estava desanimada com a realidade do que vemos diariamente. Ao entrar na casa, entrei de corpo e alma. Queria poder ter a oportunidade de ter estado lá como uma mosca, que passa despercebida. Não queria que a minha presença alterasse o modo como as coisas funcionavam lá. Me fiz observadora. Escutei atentamente. Me deixei surpreender pela beleza do local. Apesar de carregar tristezas e lamentos, o abrigo é capaz de garantir sonhos e incentivar a continuação da vida. É esse o ciclo, cair para depois levantar. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Cabelo, cabelo meu! A estudante Maria Fraga fala sobre o processo de empoderamento e reconhecimento de si pelo qual passou nos Ăşltimos anos Por Milena Riboli. fotos de CASSIANO CARDOSO

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ara compreender melhor as questões de busca pela própria identidade e de autoafirmação, fui até o Afro-Sul Odomode, um centro cultural que tem foco na cultura africana, localizado em Porto Alegre, em plena Avenida Ipiranga. Antes de chegar ao espaço, adentrei o que mais parecia um cortiço, daqueles que é comum se ver em novelas mexicanas. Mais de 30 pequenos prédios pintados em tons que ficavam entre o marrom e o salmão rodeavam o que parecia uma praça, a área comum do lugar. Em uma porta entreaberta de uma das casas que ficam na entrada do local, vi uma criança brincando sentada no chão e ouvi um zumbido até então não identificável. Percorri o local na esperança de encontrar o centro de cultura e, chegando ao final do caminho, que é sem saída, observei que alguém me olhava de forma atenta, através da janela de um dos prédios à direita do ambiente. Percebi que não era ali o lugar que procurava, no que voltei até a entrada, passando novamente pela casa que fazia um barulho. Coloquei então a cabeça na porta, abrindo o sorriso com um “Com licença”, no que observei que no cômodo, além da criança que brincava, havia quatro mulheres, todas negras, cada uma com um tom de pele

“Mesmo com todo esse empoderamento que estamos vivendo nos dias de hoje, uma coisa que vejo é que ninguém quer ter o cabelo crespo, as gurias não querem ter cachos. Muitas desvalorizam o cabelo crespo” e cabelos muito diferentes umas das outras. Uma delas tatuava a que estava sentada na cadeira, enquanto as outras observavam e pareciam dar apoio moral. A tatuadora me indicou onde ficava o Afro-Sul e então me dirigi para lá. Chegando ao espaço, não sabia o que esperar. Não conhecia ninguém, mas logo me enturmei e fui muito bem recebida. É um espaço democrático, composto por pessoas de todas as cores e idades, gêneros e estilos, apesar de ter um foco na cultura dos povos negros. Era quase meia-noite quando Onir de Azevedo chegou. Ele está no comando do grupo Frente Quilombola RS há seis anos, articulando cerca de oito estados brasileiros. Ele iniciou a conversa contando que a frente se consolidou, de fato, em 2012, sendo um referencial de resistência contra a retirada dos povos quilombolas da região. Segundo Onir, foi um grupo criado com propósito de questionar a política que vinha sendo feita anteriormente pela Coordenação Nacional de Quilombos (CONAQ), que acabou se incorporando a uma política meramente institucional, deixando boa parte das cinco mil comunidades quilombolas do país de fora. Quando questionado sobre o papel social desses grupos para a comunidade, ele é bem pontual: “É fundamental. Trabalhamos em uma perspectiva que vai na contramão da financeirização do espaço, seja ele urbano ou rural. E Porto Alegre tem um paradoxo, é a cidade mais segregada do país, sobre o ponto de vista racial, e é a que tem o maior número de comunidades quilombolas autoidentificadas, revelando uma resistência muito antiga, ancestral.” E de resistência entendem também as mulheres negras. Negra Jaque, uma das atrações culturais da noite, é uma rapper de Porto Alegre que já tem 10 anos de carreira. Entre uma canção e outra, Jaque afirma que está distribuindo “ferroadas”, mas isso não é um pedido de desculpas, nem de perto. Com letras que retratam a realidade dos jovens negros, periféricos e das mulheres, ela tem o poder de P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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entoar melodias que tocam fundo na mente e na alma, encerrando uma noite de muita alegria e cultura.

Os caminhos do amor próprio

Admiradora de Negra Jaque, Maria Fraga, a figura que você conhece a partir de agora, tem uma forte característica em comum com a rapper: sabe que o lugar da mulher negra é onde ela quiser. Ela pode ser descrita como uma pessoa cheia de luz, animada, de bem com a vida, “pra cima”, de dentes “brancos como o marfim”, como já diria a rapper. Maria é uma estudante de Administração de 22 anos que ainda vê na Nutrição uma chance de realização pessoal, no futuro, quem sabe. “Gosto de fazer academia”, disse a porto-alegrense rindo. “Jogar futebol, festas. Gosto de participar de eventos que exaltam a cultura afro, aumentam a autoestima das mulheres negras e ajudam a valorizar nosso cabelo natural.” E, se tem alguém que entende de cabelo natural, essa pessoa é a Maria. Seus cachinhos muito volumosos compõem um cabelo afro natural do tipo quatro, um dos mais difíceis de cuidar, que se caracteriza por ser um cacho bem apertado, com um diâmetro que se aproxima do de um lápis de escrever. É preciso tempo, dedicação


Maria assumiu, com orgulho, os seus cachos há quatro anos

e muita disposição para manter um possuía química é retirada de uma vez só, deicabelo assim, o que ela afirma que xando na cabeça apenas fios naturais. nem todas têm. “Mesmo com todo Esse processo costuma ser o mais exaustiesse empoderamento que estamos vo de todos, pois, no momento do Big Chop, vivendo nos dias muitas meninas acabam de hoje, uma coificando com o cabelo no CONHEÇA O sa que vejo é que estilo “Joãozinho”, um REPARATIONS ninguém quer ter modelo onde os fios são Para mais informações a respeito da queso cabelo crespo, as curtinhos, e a vontade de tões de Reparação exigidas por grupos gurias não querem desistir é grande. como o Frente Quilombola RS e a OLPN ter cachos. MuiEla relembrou o mo(Organização para a Libertação do Povo tas desvalorizam mento em que resolveu asNegro), acesse reparations.com.br o cabelo crespo.” sumir os cachos. “Começou Ela atribui há quatro anos, quando pasessas questões à própria comodida- sei a me interessar mais por questões de identide e também aos padrões que são dade mesmo. Parei de alisar o cabelo, pelo fato impostos às mulheres. “Muitas têm de não crescer durante o período de alisamento. preguiça de cuidar”, disse. “Para quem Achava estranho, então resolvi parar, e acabei tem cabelo crespo tipo quatro, como descobrindo que crescia sim e que o problema o meu, é muito mais complicado. Di- era que a química quebrava ele demais e fazia reto percebo olhares de indiferença. com que ele não saísse do mesmo comprimento. Minha irmã, por exemplo, alisa desde A partir disso recebi muitos elogios de outras meos 15 anos. Não que ela tenha medo, ninas negras que não tinham coragem de assumir sabe? Mas pra ela é muito mais cô- o cabelo natural, isso me motivou muito.” modo gastar R$ 300 a cada três meO professor Clóvis Vitor Gedrat, mestre ses do que ficar em transição.” em Filosofia, explica que Aristóteles tinha A chamada “transição”, ou “pro- uma frase que dizia assim: “O ser humano é cesso de transição”, é o momento em um animal político”. Esse “ser político” sigque meninas e mulheres que antes nifica que ele tem que viver numa sociedade, alisavam o cabelo porque o preferiam numa pólis. “É muito triste quando estamos assim ou mesmo por terem enfrenta- em uma sociedade em que certas pessoas e do preconceitos, olhares maldosos e grupos são excluídos, porque não têm um comentários desagradáveis, passam perfil de riqueza, de formação, que têm uma a adotar o cabelo natural. Muitas identidade de gênero que não é opcional, ou utilizam-se da prática do Big Chop, ainda por uma questão de raça”, ele pontua, em que toda a parte do cabelo que lamentando casos assim como o de Maria. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Foi incrível poder fazer essa matéria. Parte primordial da nossa cultura vem dos povos africanos e indígenas, e infelizmente o nosso país ainda tende a ignorar isso. Acredito que ter a oportunidade de visitar locais, conhecer pessoas e entender culturas é primordial, e enriquecedoramente bom. Como aluna de Jornalismo, sinto que parte do papel social da profissão é dar vez e voz àqueles que pouco ou nada aparecem, e a ideia desta matéria foi essa. Entender como os entrevistados e os que estavam ao redor se sentiam, entender o contexto social no qual vivem, suas necessidades, urgências, alegrias e tristezas. Tive a oportunidade de conhecer Maria Fraga, uma jovem mulher de sorriso muito tranquilo e com convicções e força descomunais, o centro de cultura afro Afro-Sul Odomode, um espaço que se mantém através de um grande trabalho em equipe realizado por seus frequentadores e também de ouvir outras histórias, conhecer mais sobre a música local, provar da comida, bebida, e estar em uma comunidade que respeita suas diferenças e celebra suas similaridades, tudo isso ao mesmo tempo.


A menina dos olhos da Vera Loca O primeiro single da banda gaúcha, Maria Lúcia, é o prefácio de uma glória que persevera há 15 anos Por Milene Magnus. fotos de Jessica Martins

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lguns poucos trocados, muitas mochilas e o entusiasmo de visitar a praia. No início do calor de 2001, um grupo de amigos ruma ao litoral norte gaúcho a fim de aproveitar o veranico dos primeiros dias de dezembro. A Poti, avenida principal de Capão da Canoa, era o ponto final desta viagem. Para quem nasceu e cresceu no interior, morar em Porto Alegre era estar bem mais perto das praias. Sair da beira-mar no fim de tarde e caminhar até a padaria mais próxima para as compras do café-da-tarde-pós-praia era - e continua sendo - trivial entre os litorâneos do Estado. Homens e mulheres vestindo apenas seus trajes de banho. Algumas cadeiras engatadas aos braços. Muitas cores nos guarda-sóis fechados. E o cheiro de pão quentinho invadindo o olfato dos veranistas. Porém, para cinco jovens de 18 e 19 anos, ver uma fila de mulheres de biquíni era formidável. Uma obra de arte. Pintura de Michelângelo em plenos olhos. E demorar-se na janela do apartamento era a programação unânime ao entardecer. A fila contornava a calçada da quadra inteira. E todas elas estavam de biquíni.

ginação de Fabrício incluíram um português à padaria, um guarda-chuva ao verão e um nome àquela que não passara de uma miragem. “Eu não sei se o dono da padaria era, de fato, português, mas comecei a escrever coisas que me remetiam àquela cena”, lembra desse que foi o início de uma história que trilharia o destino deles.

POP ROCK OU ROCK POP

Vocalista da banda Vera Loca e compositor de Maria Lúcia, Fabrício Beck, em show realizado na Unisinos

Depois da gravação de Maria Lúcia no estúdio de Duca Leindecker, então vocalista da Cidadão Quem, os rumos da história engrenaram. Leindecker apadrinhou o trabalho da banda e levou o som até a Pop House - casa que a rádio Pop Rock tinha na rua Mostardeiro, no bairro Moinhos de Ventos. A música ganhou o encanto e o crédito de Paulo Inchauspe, 46 anos, na época, radialista da Pop Rock de Porto Alegre. Como guitarrista, produtor e compositor, Inchauspe tinha coragem de arriscar. “A maior parte das músicas que eu tocava, era porque gostava e acreditava, assim como Fresno, Mandala e eles”, conta Inchauspe, que empilha elogios ao grupo. Ainda segundo o comuni-

NASCIA MARIA LÚCIA

Já em Porto Alegre, na volta da praia, em um dos dois quartos do apartamento localizado na rua Félix da Cunha, dividido entre os integrantes do grupo, a cena litorânea virou música. Nascia, no violão de um jovem avivado com o propósito de escrever um sucesso, Maria Lúcia. A música estava designada a ser o primeiro single de uma banda que ainda não tinha nome. “Acordei, peguei meu violão e a música começou a sair sem muito esforço. Sabe quando ela já sai pronta?”. A pergunta retórica de Fabrício Beck, 36 anos, vocal, guitarra e autor da menina dos olhos da Vera Loca, é respondida com o brilho no olhar de quem volta ao passado para sentir o frio na barriga que foi escrever um som que ainda é ouvido nas rádios Brasil afora. A inspiração? A linha horizontal que recheava os olhos dos integrantes com mulheres e seus cafés-da-tarde. Quase tudo era real. A padaria. As mulheres. Os dias ensolarados. Entretanto, a fantasia e a solta imaP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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cador, Maria Lúcia é de uma simplicidade e de uma poesia cotidiana que comove. “É como escutar um clipe. A gente consegue ver as cenas em cada frase. Tu consegue ver a Maria Lúcia indo à praia.” Após ouvir o single do grupo - que ainda não tinha nome - Inchauspe os avisou que tocaria Maria Lúcia em um dos seus programas matinais da rádio, o Conexão Pop Rock. A única exigência: o nome do conjunto. Os integrantes tinham pouco tempo e demasiada criatividade. O porteiro do edifício em que ensaiavam cotidianamente resolveu o quebra-cabeça: Vera. Esse era o nome da vizinha que reclamava constantemente dos barulhos de guitarra e bateria que berravam no interior do prédio. “Vera Loca! É isso…” E ficou. Assim nascia a banda de “rock pop”, como se auto declaram, genitora de Maria Lúcia. Com o nome escolhido, a Maria da Vera foi tema de verão da Pop Rock. Ficou mais de sete meses tocando entre as mais pedidas daquela que foi a primeira rádio a tocar o sua primeira música. Fez parte da coletânea ‘Conexão RS’, CD da Pop Rock do ano de 2003. Eternizada


na 15ª faixa do disco, Maria Lúcia estava entre as 17 músicas mais tocadas da rádio, dois anos depois do nascimento daquela menina pretensiosa. Chamou atenção de outras emissoras da época e ainda é comemorada pelos cinco sempre que atinge os alto-falantes do rádio. O mesmo acontece quando ouvem os gritos do público apelando por Maria Lúcia nos shows. Ela não estava destinada a ser perdurável, mas foi. Mas é!

NÃO TEM IDADE

O Noturno’s Bar era uma lancheria e pizzaria, situada no centro da cidade de Guaíba. Poderia ter sido inspiração de muitas músicas, assim como a que Fabrício escreveu. Entretanto, fez parte da história de Diana Maria de Farias, 57 anos, dona do estabelecimento e fã da Vera Loca, com apreço especial por Maria Lúcia. Carrega a admiração desde que o filho Gelson, 31 anos, residia com ela e as outras duas filhas, Gorete e Giovana, 40 e 17 anos respectivamente. “Meu filho ainda não era casado e morava com a gente. Ele cantarolava a música e nós, as mulheres da casa, aprendemos a gostar”, relata a outra Maria. O carinho pela Vera Loca culmi-

nou em uma parceria entre a mãe e as filhas. A união entre as mulheres, de três épocas diferentes, as levou até a apresentação da Vera Loca em uma casa de shows na região metropolitana de Porto Alegre. Mesmo as três sendo nascidas em períodos diferentes, foi no show da banda formada em 2001 que descobriram seus lugares: juntas. Sem a imposição de apreciar os gostos de seus tempos e sem a obrigação de aceitar a playlist com os atuais sucessos, elas mostram que Maria Lúcia, além de atemporal, não tem gênero, classe ou grau. “Eu ali, ao lado do palco, cantando, pulando, parecendo adolescente. Foi muito lindo!”. É assim que Diana relembra o show. “Nós vibramos, pulamos, cantamos, fizemos as coreografias.” A auxiliar de serviços gerais recorda de como sentiu-se ao vibrar com as músicas da apresentação e do deslumbramento que tem com o baixista Filipe Bortholuzi, o Mumu. “Enquanto eu pulava e cantava, o Mumu tocando o baixo, me olhava sorrindo. Quem sabe pensando: ‘creeedo… que velha fresca!’”, se delicia com a lembrança, rindo. O aguardo pelo próximo show é inevitável e o carinho pelo grupo é ainda mais evidente ao mostrar as fotos com os integrantes (especialmente, o enlace com o baixista).

O QUÊ QUE TEM?

Ainda que Maria Lúcia acorde cedo, vá à praia de biquíni e sempre esqueça de passar bronzeador, ela chama atenção de muitos, não só do português da padaria. Ela é descontraída e jovem. Ela não rima e não sai de cena. Essa Maria Lúcia não tem o coração do Santo Cristo prometido e tampouco casou com Jeremias. Essa Maria Lúcia não tem um faroeste inteiro para si; quer mesmo é o vento e o mar do litoral gaúcho. E se fizer sol? Tudo bem. Se não fizer nada, o quê que tem? P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER A minha primeira inspiração de Maria é uma descendente de italianos, trabalhou na roça e originou a família Oliveira. Já a Maria da minha pauta “nasceu” em Porto Alegre e originou a história de uma banda. Elas não têm ligação e tampouco são parecidas: a Maria de Oliveira é minha bisavó, a Maria Lúcia, primogênita de uma banda gaúcha. Uma é real, a outra, fantasiosa. Mas elas têm força e muita coisa para contar. E eu sempre tenho coisas a aprender. Eu sou rodeada de Marias. Familiares, amigas, ídolos, bolachas, ruas, cidades, fé. Acredito na força desse nome e de todas as mulheres que ele representa. Em muitas deposito minha certeza. Em outras, meu amor. Conhecer um pouco mais sobre as histórias de muitas Marias foi um presente que a Primeira Impressão me deu. Eu já admirava muitas, idolatrava outras tantas, mas contar a história de uma nova Maria foi especial. Conhecer e descobrir o universo de uma Maria imaginária, mas não irreal, me fez entender que a energia é, também, resultado do nome que se carrega.


GĂŠssica, vizinha de Maria Goreti, passeia com ela pela rua e ajuda nas atividades de casa

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Quando a superação é rotina Com uma atrofia muscular que limita seus movimentos, Maria Goreti é exemplo de como vencer as dificuldades do dia a dia Por ÉMERSON DA COSTA. fotos de MATHEUS ALVES

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m sol revigorante de primavera reluz nas paredes da casa rosa de pátio pequeno e bem cuidado. O silêncio da rua vazia – situação comum para um sábado à tarde em Brochier, pequena cidade do Vale do Caí, distante cerca de 90 km da capital gaúcha – só é cortado pelos latidos insistentes de um cachorro quando batemos na porta da casa. O cãozinho se chama Bambi, um poodle simpático de sete anos de idade. A casa pertence à Glades Streit, de 65 anos, que vive ali com a filha Maria Goreti Streit, de 45. Ainda bebê, Maria Goreti teve uma atrofia muscular constatada por seu pediatra. A enfermidade impediu o crescimento normal de seu corpo, o que com o passar dos anos restringiu drasticamente sua mobilidade. Com isso, Maria Goreti passou a depender da mãe para praticamente tudo. Ações cotidianas como sentar, se pentear, dormir, comer, tomar banho e ir ao banheiro só podem ser realizadas com a ajuda de Glades. Com muito carinho e amor, a rotina de Maria Goreti e Glades vem sendo a mesma nos últimos 45 anos: supeP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

rar as dificuldades a cada dia. Aos 20 e poucos anos, aceitar sua realidade era o grande desafio de Maria Goreti. “Eu me sentia constrangida de aparecer em público, não aceitava nem a cadeira de rodas, porque achava que ia chamar muito a atenção”, revela. Ela sofria de imunidade baixa, o que tornava comum a contração de pneumonias e outras doenças infecciosas. Um problema no maxilar a obrigaria a passar por cirurgia a qualquer momento. Nessa época, a família vivia em Portão. Lá, encontraram o médium Marlon Santos e o espiritismo, e foi quando tudo mudou. “Ele (Marlon) só colocou a mão no meu rosto, nas costas e em todos os lugares onde doía. A energia dele me mudou, saí de lá uma outra pessoa”, conta. Participar das sessões de cura e das reuniões espíritas mexeu com Maria Goreti, que passou a ver o mundo e sua própria condição de forma menos problemática. Os livros sobre o tema abriram um novo horizonte em sua mente, e sua vida deu uma guinada positiva a partir de então. Nos anos seguintes, passou a utilizar a cadeira de rodas e retomou uma antiga paixão: a pintura. Ela havia começado a pintar panos de prato com 17 anos. Aprendeu o 67

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Não há dificuldade que impeça Maria Goreti e a mãe, Glades, de sorrirem

ofício sozinha. Com a mudança de perspectiva em sua vida, trazida pelas sessões espíritas, passou a pintar cada vez mais e a colher os frutos de seu esforço. As encomendas começaram a surgir, e seu trabalho ganhou espaço na comunidade. “Eu passei a me sentir útil, sentir que fazia parte da sociedade realmente”, explica. Realizou o sonho de pintar quadros e passou inclusive a ministrar cursos particulares de pintura. Alguns de seus panos de prato chegaram a outros países, como Estados Unidos e Alemanha, levados como presentes do Brasil. “Tenho muito orgulho disso. Meu trabalho chegou onde eu não posso chegar”, comemora. A atrofia muscular de Maria Goreti, porém, seguiu evoluindo e dificultando seu trabalho. “Antes eu preparava as tintas e pintava sozinha. Depois, passei a precisar da ajuda da mãe pra conseguir”, explica. Glades lembra das longas tardes de pintura, onde ela e Go-

reti produziam panos de pratos e telas diversas. “O Bambi sempre nos acompanhava, deitado do lado da Goreti”, comenta. Hoje, uma lesão no braço impede Maria Goreti de pintar, devido às fortes dores que a atividade causa, mas ela não desiste de voltar a fazer o que mais gosta. “Tenho uma mandala que ainda quero terminar. Vou emoldurar e colocar aqui na sala”, revela com orgulho. Nos últimos anos, um dos grandes meios de interação social do mundo inteiro passou a ser o principal para Maria Goreti: a internet. Em seu notebook, posicionada confortavelmente pela mãe, ela supera suas limitações físicas no mundo online. Possui um perfil no Facebook onde posta suas fotos, compartilha suas músicas favoritas e bate papo com seus amigos. “Na internet eu consigo interagir sem precisar sair de casa, e isso facilita bastante as coisas”, explica. “Ver vídeos e

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usar o Facebook são passatempos que eu gosto bastante.”

a POSSIBILIDADE DE SAIR DE CASA OUTRA VEZ

As dificuldades na vida de Glades e Maria Goreti aumentaram nos últimos anos. A mãe sofre com problemas ósseos que a impedem de fazer força, o que a atrapalha bastante nos cuidados com a filha. Por conta disso, Maria Goreti passou um longo período sem sair de casa. “Eu queria muito sair, mas a mãe não podia me levar”, explica. Foi aí que Géssica surgiu em suas vidas. “Eu conversava com Deus pedindo para que ele me ajudasse a sair de casa. Um dia veio no pensamento o nome Géssica”. Vizinha de Maria Goreti e Glades, a estudante Géssica Daiane de Oliveira, de 17 anos, foi convidada para ajudar nos cuidados de Maria Goreti em fevereiro de 2016. Aceitou, e desde então frequenta a casa duas ou três vezes por semana, onde auxilia em


Os passeios com Géssica, a companhia do cachorro Bambi e a pintura completam a rotina de Maria Goreti

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Contar a história da Maria Goreti foi um dos grandes desafios da minha trajetória como estudante de Jornalismo. O processo de construção dessa matéria me fez perceber que ações que parecem simples e cotidianas – como sair de casa sozinho e caminhando – são privilégios. E todas as pessoas que não possuem esses privilégios nos dão uma lição incomensurável com as vitórias que conquistam no dia a dia. As reclamações tão comuns à nossas vidas se tornam pequenas e mesquinhas diante de realidades verdadeiramente difíceis, e esse aprendizado imenso é o que levo da experiência de participar da Primeira Impressão. Posso dizer com tranquilidade que não só entrevistei a Maria Goreti e sua mãe, Glades, mas aprendi com elas em cada palavra esperançosa, cada riso divertido e cada relato que ouvi sentado no sofá de sua casa. Como jornalista, só me resta agradecer pela oportunidade de compartilhar histórias como essa.

todas as atividades de rotina. Com a chegada de Géssica, ela pode voltar a sair de casa. “Vamos no armazém aqui da rua, no banco, andamos por tudo”, explica a estudante. Além de Géssica, 2016 trouxe outro presente que facilitou a vida de Maria Goreti: uma cadeira de rodas motorizada. Foi assistindo a uma reportagem de televisão sobre doenças degenerativas que ela descobriu a Arela, uma associação que dá suporte a pessoas com Esclerose Lateral Amiotrófica e dificuldades motoras em geral. Pesquisando pela associação na internet, encontrou a página da associação no Facebook e entrou em contato parabenizando por suas ações. Seu recado foi respondido, e a partir de então as conversas com a associação se tornaram constantes. Em uma dessas conversas, descobriu as cadeiras motorizadas. “Existe uma lei de 2013 que obriga o SUS a fornecer essas cadeiras para quem provar que necessita, e eu nem sabia”,

conta. Maria Goreti procurou a Prefeitura de Brochier, por meio da Assistência Social, e solicitou seu direito à cadeira de rodas motorizada. O processo foi rápido, e em pouco tempo ela já dispunha de seu novo meio de transporte. Porém, apesar de tudo, Maria Goreti lamenta o descaso das autoridades no suporte às pessoas com problemas motores. “Trouxeram a cadeira, mas só porque eu corri atrás e apresentei o pedido baseado em uma lei. Se não fosse assim, ninguém faria força pra me contar sobre meus direitos”, lastima. Quando a cadeira de rodas motorizada chegou, em junho de 2016, Maria Goreti já quase não aguentava de ansiedade para dar uma volta. “Nem almocei e já estava na rua testando a cadeira”, lembra. A adaptação foi rápida, mas não sem alguns percalços, um dos quais ela conta, divertida. “Pra manejar a cadeira, eu preciso estar posicionada bem certinho, P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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confortável e num ângulo onde fique fácil acionar os controles”, explica. “Uma vez eu perdi o controle, e a cadeira disparou pela rua. Fiquei assustada, mas foi engraçado ver a Géssica correndo atrás de mim pra me segurar.” A tecnologia facilitou a rotina de Maria Goreti e possibilitou coisas antes impensáveis. Ela lembra exatamente da primeira vez em toda sua vida em que saiu de casa sem a mãe Glades, em 8 de junho de 2016. “A cadeira aumenta minha sensação de liberdade”, conta sorrindo. Nas eleições municipais de 2016, Maria Goreti foi até a seção eleitoral onde vota – localizada a cerca de 1,5 km de sua casa – em sua cadeira motorizada. “O simples fato de ter mais autonomia, de me sentir participando ativamente da minha comunidade, já me deixa muito feliz”, explica. Em uma vida onde todos os dias são de luta, cada vitória é comemorada com alegria e satisfação.

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“Eu sou a Marieme do Brasil” A senegalesa que está construindo uma nova Maria LONGE DE SEU PAÍS Por Mainara Torcheto. fotos de Marcella Lorandi

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om a fala pausada para que eu pudesse compreender o “francês aportuguesado”, ela explicou: “Eu sou a Marieme do Brasil”. É assim que vou começar apresentando-a, com o nome que ela escolheu quando chegou aqui. Marieme saiu do Senegal e precisou construir uma nova Maria no Brasil. Na época, trouxe consigo apenas a roupa do corpo e uma coisa que não se põe na mala: coragem. Filha única, ela deixou para trás o pai – que tem dois empregos – e uma mãe apaixonada pelas linhas de costura. “Achei que ia ser mais fácil. Eu sofri muito, muito. Peguei o avião no Senegal para vir para cá, mas não sabia que a passagem para

voltar era tão cara”, explica. Três anos se passaram desde que Marieme chegou ao Brasil apenas para “matar a curiosidade, comprar algumas coisas para revender e voltar”. Quando vivia na África, o seu trabalho era vender mercadorias nas ruas, mas ela queria sempre ter novidade. Um dia lhe disseram que, no Brasil, havia coisas diferentes, muita mercadoria barata e que valia a pena buscar para revender no país africano. Foi aí que começou a “viagem de compras” de Marieme. Não falava português, não tinha o que vestir e nem o que comer. Ela acreditava que o dinheiro que trouxera era suficiente para comprar mercadorias e a passagem de volta. Mesmo que ela não quisesse ficar aqui por muito tempo, foi obrigada a encarar P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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uma nova realidade. Não havia nem o suficiente para voltar. Então, em São Paulo, pegou um ônibus para Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, porque ficou sabendo por outros senegaleses que havia emprego. Estava sozinha. Mas, como ela diz, por sorte, a vida tem muitas coisas boas a oferecer. Eugênia Delfino não tem filhos biológicos, mas quase sem querer adotou vários de coração, como Marieme. Juntando as mãos como quem agradece, a aposentada deixa claro que ajuda muitos refugiados e não se arrepende, até faria tudo de novo. Eugênia cuida das casas de aluguel em Caxias do Sul onde muitos deles vivem. Além de ajudar os refugiados com a mobília da casa e medicamentos, ela acredita que a melhor coisa que pode oferecer para eles é o amor. Não é à toa que existe reciprocidade entre elas, uma vez que Marieme a chama de mãe do coração. Marieme do Brasil diz que sofreu muito para se adaptar na nova cultura, mas também teve sorte. Fez tudo o mais rápido que pôde para reconstruir a vida no Brasil. Ela demonstra uma força muito grande, própria dos refugiados que imploram pelo desejo de transformação. Não há base nenhuma, mas

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Marieme está sozinha no Brasil há três anos e, por enquanto, não pretende retornar para Senegal

“Mas eu via nos gestos das pessoas quando elas não me diziam algo bom. Então eu ia ao banheiro e tentava anotar. Quando chegava em casa, pedia para minha mãe do coração o significado das palavras, e foi assim que eu aprendi palavrão” P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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mesmo assim, eles lutam. Fonte de esperança para essas pessoas é a Irmã Maria do Carmo. Ela atende em um Centro de Acolhimento a Imigrantes de Caxias do Sul e entende que, mais do que refugiados que saem de seus países para buscar uma nova vida, eles são seres humanos. “A gente vê a que ponto chegou a humanidade quando milhares de pessoas têm que sair de seus países por motivos políticos e econômicos para poder renovar as suas vidas”, diz com apelo. Essa indiferença Marieme pôde sentir na pele. Mas com gestos firmes nas mãos, diz que quem quer vai à luta. “Eu fui aprender. Vergonha para mim é roubar e fazer fofoca”, diz. Com os olhos úmidos, conta que, quando conseguiu o seu primeiro emprego em uma pizzaria, ainda não conseguia compreender o novo idioma. “Mas eu via nos gestos das pessoas quando elas não me diziam algo bom. Então eu ia ao banheiro e tentava anotar. Quando chegava em casa, pedia para minha mãe do coração o significado das palavras, e foi assim que eu aprendi palavrão muito rápido.”

Uma Maria disposta a realizar sonhos

O olhar, muitas vezes voltado para o chão, esconde a coragem de quem se reinventou mesmo sem muitas oportunidades. O riso escapa, as mãos se apertam e, pela fala trêmula, nota-se um coração pulsando forte, enquanto ela fica imaginando o que quer dali em diante. Trabalha muito em uma peixaria e se doa pelo trabalho, mesmo que nem sempre tenha retorno. Paga aluguel, comida, transporte e ainda envia todos os meses dinheiro à família que ficou na África. Eles não precisam de dinheiro, mas Marieme explica orgulhosa que é muçulmana, e é pecado não retribuir tudo aquilo que os pais fizeram por ela. “Vocês aqui no Brasil têm asilo, lá a gente não tem isso.”

São 31 anos de muita luta, muita história e, agora, sofrimento. Bastou pedir se ela era feliz que a resposta veio imediata: “Muito não.” Na verdade, ainda não. Marieme mora sozinha, é muito independente, e como ela diz, tem um grande projeto pela frente. “Meus amigos do Senegal diziam: branco não vai comprar o teu pastel, vai comprar de outro branco. Mas eu sempre dizia: ‘em todo lugar que eu vou, as pessoas gostam de mim, eu não sei porquê. Mas se eu pedir pra Deus ele vai me dar’”. Marieme do Brasil quer ter o seu próprio negócio: uma pastelaria. Enquanto ainda não concretiza o seu sonho, ela já está conquistando a própria clientela, pois afirma que faz um pastel muito bom, como ninguém tem. Se não fosse verdade, ela não teria fila em sua barraca. Aos finais de semana, ela monta um estande na praça da Igreja e começa a vender. Vende tudo, e, se tivesse mais, vendia mais. “Agora eles querem os doces também, mas eu já fiz o curso e vou começar a fazer de morango... como diz... chocolate preto também eles gostam”, conta orgulhosa. Enquanto o sonho não vem, ela vai levando a vida conforme pode. Um tanto sem jeito, responde que não quer se casar com um brasileiro e está se guardando para o homem certo, que passará a vida toda junto com ela, construindo o amor de uma família. Perfeccionista e fã da limpeza, Marieme toma banho três vezes ao dia e não deixa a unha crescer para não acumular bactérias. Guarda dinheiro, mas não economiza. Ela gosta de se sentir bem, comprar coisas de marca e passar perfumes caros. Sabe que, onde passa, todo mundo fica olhando. Soltando um riso envergonhado, sorri quando me diz que ela gasta porque aí Deus vê que ela quer muito, então ele devolve. “Se eu gastar pouco, Ele vai pensar que tá bom assim, então ele para de me dar.” Também ajuda os amigos que precisam, P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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porque sabe que haverá retorno. “Deus tem o olho maior do que a ganância do homem.” Mesmo que haja dificuldades em seu dia a dia e que ela esperasse ser mais fácil a vida no Brasil, em nenhum momento pensa em desistir. Não quer pedir a passagem de volta para os seus pais por crer que ela precisa se virar sozinha. Mas agora a maré está vindo ao seu encontro. Com o apoio da prefeitura, ela tem certeza que verá uma placa bem grande escrito: Pasteis da Marieme do Brasil. Empreendedora, pode jurar que seu futuro é brilhante e que a felicidade só precisa ser estimulada. Segundo a Irmã Maria do Carmo, que já auxiliou mais de 4 mil refugiados, “nenhum ser humano pode ser ilegal, porque a vida, ela tem o seu valor em si. Essas pessoas têm famílias, amam, sofrem, têm sonhos, esperanças. Somos todos iguais pela dignidade humana”. Assim como a Marieme, há muitas outras Marias de outros nomes pelo Brasil. Além disso, são seres de muita coragem para mudar a vida. Nem que seja um pouco por dia.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Aquele dia não estava sendo muito fácil para mim. Um misto de impaciência e ansiedade estava me sufocando. O sol ardente batia em minhas costas como quem diz: garota, ela não vem. Mas veio, e estava mais cansada do que eu. Foi aí que levei um daqueles tapas de luva. “Eu sou a Marieme do Brasil”, disse ela. Eu acabava de conhecer uma Maria diferente, cheia de contrastes, que teve que deixar o seu país para construir uma nova Maria no Brasil. Desde o início eu quis uma pauta que me fizesse sair da zona de conforto. A Marieme me fez sentir tudo o que ela passou só pelo olhar. Ela me deixava sem perguntas porque eu pensava que não podia entrar mais no coração dela. Mas ela se abriu, e tenho certeza que me disse coisas que estavam guardadas consigo desde quando chegou no Brasil. Isso foi enriquecedor, e eu não poderia ter escolhido pauta melhor. Agora, toda vez que eu passo por um refugiado, tenho vontade de puxar o bloquinho do bolso e ouvir.


Elas não vão com as outras A presença feminina nas Forças Armadas brasileiras vem crescendo em quantidade, qualidade e intensidade Por Nathália Mendes. fotos de Liege Barcelos

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Sargento Camila, Tenente-Coronel Adriana e Sargento Iris fazem parte do efetivo feminino das Forças Armadas

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retrato dela na parede mantém viva a lembrança de sua habilidade e importância nas lutas pela Independência do Brasil. Há dois séculos, ela vestia a farda escondida de seu pai e alistava-se com o nome de Medeiros no Batalhão do Príncipe D. Pedro. Maria Quitéria, primeira mulher a assentar praça em uma unidade das Forças Armadas do Brasil, tornou-se ícone e exemplo de bravura nos campos de batalha. Hoje, muitas mulheres ingressam na carreira militar, vestem a farda e seguem os passos dessa Maria, que não foi com as outras. Mais de dois séculos depois, a presença feminina nas Forças Armadas representa mais de 27% de todo o efetivo, totalizando mais de 22 mil oficiais mulheres, segundo dados do Ministério da Defesa.

Integrante da primeira turma mista da Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), denominada turma Maria Quitéria, a Tenente-Coronel Adriana Périco Neiva ingressou na carreira militar em 1992. Aos 25 anos, deixou a casa dos pais em Porto Alegre para iniciar o curso de formação em Salvador, onde ficaria por nove meses. Formada em Administração, a Tenente-Coronel Adriana adaptou à vida militar o conhecimento que trazia na área durante o período de formação específica. “Quando eu entrei, ninguém acreditava que eu pudesse ter optado pela vida militar, porque eu sou uma pessoa extremamente calma, eu não sou agitada, quem me conhece sabe. Primeiro eu ouço, observo, para depois falar. Sou extremamente tímida, embora não pareça.” Ela lembra que, dentro da escola, o dia começava cedo e a rotina era intensa. Treinamento Físico Militar, P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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aula com manuais, regulamentos, aula de tiro, palestras, entre outras atividades, faziam parte da rotina dos alunos. Sobre o período de formação, recorda: “Sem dúvida, o mais difícil foi a saudade, porque era a primeira vez que eu estava sozinha.” Mas, apesar da distância de casa e da família, a adaptação não seria um problema. “Tenho facilidade de me adaptar a ambientes e a situações. Eu sofro, como todo mundo, mas não demasiadamente. Chegar em uma escola militar é muito diferente, tem toda uma hierarquia, tem regras a serem cumpridas, tem novos hábitos que tu tens que adquirir, então quem opta pela vida militar tem que se sujeitar a isso. Mas essas diferenças, pra mim, foram muito fáceis, porque quando a gente quer uma coisa, a gente tem que abrir mão de outras, não dá para se ter tudo.” Após nove meses de curso, Adriana foi para a 1ª Subchefia do Estado-Maior do Exército, em

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Brasília, onde atuou durante cinco anos. “Foi um período muito feliz da minha vida, eu era Tenente e aprendi muito lá. Convivi com muita gente e aprimorei muito o meu conhecimento.” De Brasília, foi para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, onde ficou durante um ano. A Tenente-Coronel lembra que, naquela época, havia surgido a ideia de permitir a entrada de mulheres na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Como fazia parte da primeira turma de mulheres da EsFCEx, e era uma das mais antigas, ela foi transferida para preparar e organizar a recepção das meninas na escola. A ideia, na época, não saiu do papel. “O Exército tem se preparado ao longo dos anos para receber as meninas. Naquela época, tinha-se a intenção, mas eu acho que não houve forças para que isso ocorresse. Tudo teria que ser adaptado, e a ideia era muito recente.” Por um decreto presidencial, a entrada da primeira turma de mulhe-

res na Academia Militar das Agulhas Negras ocorrerá to Camila Graneto, militar há sete em 2018, onde se formarão as primeiras oficiais do anos. Camila ingressou no Exército Exército Brasileiro. Adriana participou de reuniões para através de uma avaliação curricular. a preparação da entrada das meninas. “A entrada da Durante o período de formação mulher nas Forças Armadas só veio a somar. Eu acho básica, no 8º Batalhão Logístico que foi uma coisa excepcional, eu não tenho dúvida de (8º B Log), em Porto Alegre, ela que o caminho é esse. Não só nas Forças Armadas, mas lembra que integrava uma turma em qualquer área de atuação e em qualquer segmento com 60 mulheres, de um total de da sociedade.” Sobre as diferenças entre os homens 77 pessoas. Camila lembra do períe as mulheres na área, a Tenente-Coronel ressalta: odo de formação: “O meu período “Deve-se manter as peculiaridades de cada indivíduo. básico foi a melhor fase, eu amei. O homem tem algumas características que são afetas a Todo mundo odeia. Os instrutores ele, e a mulher tem as dela. Dizem que a mulher é mais falavam que aquela seria a melhor detalhista, mais observadora e tem mais capacidade para fase, a gente não acredita quando a observar a situação como um todo, enquanto o homem gente está lá. Mas é a melhor fase, se concentra mais. E a soma disso é extremamente porque fazemos coisas que nunca saudável.” Sobre o ingresso das mulheres na carreira pensamos que iríamos fazer na vida, militar, completa: “O Exército, a vida toda, foi masculi- e passamos por todos aqueles deno. Faz 25 anos que a gente tem a mulher no Exército, safios.” Ao contrário de muitos, a e isso é um período muito pequeno. Ele está associado maior dificuldade para Camila não à força física, ao poder, à rusticidade, e a figura feminina foi a adaptação. “Precisei controlar muitas vezes não mostra isso, então é natural um pouco a minha rebelque as pessoas se surpreendam com o fato Sargento Iris dia e a vontade de opinar de uma mulher ser Coronel, por exemplo.” com parte do em tudo o tempo inteiApós sair da EsPCEx, Adriana voltou efetivo feminino ro. Nosso conhecimento para Porto Alegre, onde atua até hoje na 1ª da Prefeitura de técnico é respeitado, mas Seção do Comando Militar do Sul. No mesmo Aeronáutica de ordens são ordens e deórgão administrativo, atua também a Sargen- Canoas vem ser cumpridas pelo


bem da Instituição, por mais que a gente não concorde com algo, todas as coisas têm um por quê”. Após sete anos como militar, a Sargento deixa a carreira no próximo ano com a certeza de que os aprendizados serão sempre lembrados. “Eu entrei aqui uma pessoa, estou saindo outra completamente diferente. O Exército moldou o meu caráter. Não que só tenha acontecido coisa boa, mas eu consegui aprender muito aqui dentro, sou muito grata por tudo, às pessoas que eu conheci, por tudo que eu passei, foi uma experiência maravilhosa.” Às futuras oficiais do Exército Brasileiro, Camila deixa o recado: “Parabéns, vocês estão ajudando a quebrar barreiras que nós precisamos quebrar.”

Desafios e crescimento

Os desafios do início da carreira militar não foram diferentes para a Sargento Iris Souza de Oliveira. Ela sabia que era hora de cortar o cordão umbilical quando cruzou os portões da Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá, São Paulo. O conforto de casa foi substituído pelo alojamento do quartel. Entre 320 colegas que iniciaram o curso de formação, ela vestiu a farda pela primeira vez em janeiro de 2010. Começava ali uma realidade que há anos era almejada. “Sempre me imaginei usando farda. Quando me perguntavam qual carreira gostaria de seguir, respondia que queria ser policial ou algo do tipo.” Ao concluir o curso de Técnico em Edificações, Iris, com 21 anos na época no concurso, encontrou na Aeronáutica a possibilidade de unir a engenharia com a carreira militar, duas áreas das quais gostava muito. “Após muito esforço e dedicação, exigidos durante toda a vida militar, Iris arrumou as malas e deixou a cidade de Canoas, onde morava com a mãe. Em frente ao edifício branco com janelas azuis, homens e mulheres estavam unidos pelo mesmo objetivo e passariam, juntos, por um dos períodos mais difíceis de toda a carreira: o curso de formação. Longe de casa, da família e dos amigos, a palavra fácil não os acompanharia do lado de dentro daqueles muros. Os alojamentos com beliches, armários e banheiros coletivos eram uma prova de fogo para quem deixou o aconchego do

lar para se acostumar com a vida no regime de internato. Os rostos eram desconhecidos, e cada um carregava consigo suas particularidades. Diariamente, eram submetidos a um verdadeiro tratamento de choque para se acostumarem com a vida dentro do quartel. Já no primeiro dia, Iris lembra da vontade de voltar para casa: “Eu nunca tinha ficado longe da minha cidade nem da minha família por tanto tempo, então para mim foi muito difícil suportar essa fase, mas meu objetivo tinha que ser alcançado e eu sabia que valeria a pena.” Após seis meses intensos, vestiu a farda branca no dia da formatura. Mas o fim do período de formação não representava o fim dos desafios para a Sargento. Após a tão esperada formatura, pegou o avião direto para o Amazonas, onde atuaria por cinco anos e meio. No Quartel General do 7º Comando Aéreo Regional, localizado em Manaus, novas dificuldades precisariam ser superadas: “Me mudei para um lugar onde eu não conhecia ninguém, precisei me acostumar com o calor escaldante, a cultura totalmente diferente e até mesmo com a culinária do povo do Norte, que era difícil de eu conseguir gostar.” Mais de cinco anos longe da família em datas comemorativas como Natal e aniversários significaram um desafio após o outro. Diante dos momentos difíceis, era a realização na carreira militar que a lembrava do porquê estava lá: “Eu estava cada vez mais realizada com a escolha que eu tinha feito para a minha vida, vi que ali era o meu lugar.” O resultado de tantos desafios superados foi o crescimento. “Hoje eu vejo que essa experiência, em uma localidade tão longe, fez com que eu crescesse como mulher, como profissional, e aprendesse a dar mais valor aos momentos do dia a dia com a minha família”, ressalta a Sargento. Antes de retornar para a cidade de onde havia saído havia seis anos, a Terceiro-Sargento atuou em missões pela Força Aérea em localidades como Porto Velho, Jacareacanga, Guarulhos, Salvador, entre outras. Atualmente, trabalha na Prefeitura de Aeronáutica de Canoas, unidade responsável pelas Vilas Militares da guarnição de Porto Alegre. Por onde passou, a farda nunca escondeu o jeito feminino. “Ser mulher nunca fez diferença P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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aqui dentro, pois somos respeitadas por superiores e subordinados, assim como os homens.” Nas Forças Armadas, comandar tropas, tirar serviço armado e fazer a segurança dos quartéis não é exclusividade masculina. As mulheres atuam lado a lado com eles. Mesmo assim, alguns se surpreendem: “As pessoas ainda ficam muito surpresas, me parabenizam pela coragem e fazem elogios à carreira militar.” Com 28 anos de vida e quase sete dedicados à carreira militar, Iris relembra os maiores aprendizados que esta escolha lhe trouxe. “Passei a ter mais maturidade para tomar decisões em minha vida profissional e pessoal e fiquei muito mais forte para passar por situações difíceis”, destaca. O orgulho de seus passos na carreira também é notório: “Gosto de vestir a farda, da doutrina, princípios e principalmente de atuar como militar em missões representando a Força Aérea.” Para as mulheres que sonham em viver a carreira militar, ela orienta: “O caminho não será fácil, talvez pensem em desistir, mas o esforço e a luta serão gratificantes, pois a carreira militar é digna de muito orgulho a quem ter amor à farda, defendendo a pátria com sacrifício da própria vida.”

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Por um momento, desejei que essa reportagem não tivesse chegado ao fim. Por outro lado, fico feliz que minhas últimas linhas como estudante de Jornalismo contem as histórias dessas mulheres, que têm, hoje, toda a minha admiração e respeito. Poder ouvi-las, pra mim, foi algo que não preencheu somente as páginas desta revista, mas a minha vida. Termino essa reportagem com a vontade de continuar ouvindo histórias como essas todos os dias. Nem sempre acertamos nossas escolhas na primeira tentativa, mas não digo, nem por um momento, que meus últimos anos foram desperdiçados. Serei eternamente grata por tudo que pude viver como estudante de Jornalismo e por todas as experiências maravilhosas que somente poderia ter vivido se tivesse arriscado dar esses passos, ainda que tenha mudado a direção no final do caminho. Despeço-me e deixo aqui o meu agradecimento a cada uma das mulheres que compartilharam suas histórias nessa reportagem. Lembrarei de suas experiências e as terei como exemplo pelo resto de minha vida.


Uma vida dedicada à música Maria de Lourdes é violinista desde os sete anos e vive a tradição musical da família Por Nicole Fritzen. fotos de LAURA PAVESSI


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om um ar introspectivo e esbanjando calmaria e serenidade, a instrumentista Maria de Lourdes Justi Schinke chegou para a entrevista marcada em uma floricultura na Zona Sul de Porto Alegre, perto do local onde mora. Com o violino em mãos e sob o olhar atento do marido, Walter, Lourdinha, como é conhecida pelos mais íntimos, aproveitou a tarde ensolarada de uma quinta-feira para falar sobre como a música influenciou sua vida. Assim como para muitas pessoas, a música tem sido fundamental na vida de Lourdinha. Nascida em Piracicaba, no interior de São Paulo, ela entrou na musicalidade por influência dos irmãos, que se matricularam em uma escola com bolsa para instrumentos pouco conhecidos, como oboé e fagote. Filha de uma dona de casa e de um operário, a penúltima de cinco irmãos decidiu seguir os passos dos familiares. “Se tivéssemos nascido em outra cidade, provavelmente não

teríamos estudado música. Surgiu essa oportunidade e, como eram instrumentos pouco populares, não havia interesse das pessoas. Meus irmãos decidiram entrar para esse mundo e eu fui atrás”, relata. A Escola de Música Maestro Ernst Mahle foi a responsável por iniciar a tradição musical da família. Aos sete anos, ela ingressou na escola, onde fez um ano de musicalização até decidir aprender violino. “A escola é bem completa, e vai ao acordo com do nível de cada aluno: tem a orquestra infantil, a juvenil e depois a sinfônica. Aprendi muito lá”, comenta. Aos 18 anos, fez vestibular de música na Universidade de Campinas (Unicamp) e ao mesmo tempo entrou na Orquestra Sinfônica de Campinas, onde ficou por seis anos. Depois de formada, em 1988, foi para a Orquestra de Câmara de Blumenau, considerada a melhor do país na época. “Era uma orquestra bem atípica, pois quase nenhum dos integrantes morava em Santa Catarina. Nos juntávamos, fazíamos uma semana de ensaios e saíamos para fazer turnê. A cada quinze dias íamos para Blumenau e tínhamos uma temporada de trabalho, depois voltávamos para casa”, conta. Ela lembra com carinho do tempo que era instrumentista em Blumenau. “Fizemos três turnês pela Europa e éramos um sucesso. Em termos profissionais, acho que foi o melhor trabalho que fiz”, opina. O período foi marcante, segundo Lourdinha, pelo apoio de profissionais renomados da indústria musical. “Era um trabalho bastante solístico. Tínhamos apenas seis violinistas e tivemos a oportunidade de tocar com musicistas renomados”, salienta.

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Patrocinada pela Lei Sarney, a orquestra foi perdendo a força quando a lei deixou de existir. “Os integrantes tentaram se unir para que o projeto não acabasse, mas infelizmente não deu certo. Hoje ainda tem uma orquestra por lá, mas é local, não é mais a mesma coisa”, aponta. Por dois anos, Lourdinha morou em Curitiba, onde foi instrumentista na Orquestra Sinfônica do Paraná. Depois, voltou a morar em Campinas até se mudar para Porto Alegre, em 1997. A ida à Capital gaúcha se deu por indicação de colegas de Blumenau, que a incentivaram a fazer concurso na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Ao ingressar em Porto Alegre, sozinha, ela estava incerta sobre o futuro. “Ouvia que o concurso ia sair, mas não sabia quando. Não sabia o que esperar”, recorda. No fim, teve que aguardar nove anos para fazer o concurso. Nos dois primeiros anos de estadia na capital, trabalhou na parte administrativa da Ospa, ajudando na programação e cumprindo papel de secretária através de um contrato emergencial. Apenas


em 2008 ingressou oficialmente na instituição, onde faz parte do primeiro naipe de violinistas. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre tem uma média de 60 concertos por ano. Os ensaios são realizados de quinta a segunda-feira, na sede da instituição. Além da Ospa, Lourdinha também atua como convidada na Orquestra de Câmara da Ulbra há cinco anos.

Estabilidade e realização profissional

Nos percalços pelas orquestras do Brasil, acabou conhecendo o atual marido, Walter, com quem divide os palcos até hoje. Juntos há mais de 10 anos, os dois se conheceram quando ela ainda morava em solo catarinense. Na época, ele era casado e eles perderam o contato, até se reencontrarem na capital. Curiosamente, é o marido que relembra das datas durante a entrevista. “Não sou boa com datas, é geralmente ele que lembra de tudo”, diz, sorrindo. Segundo Lourdinha, ao contrário do que muitos pensam, a profissão de musicista exige muito estudo e dedicação. “Para tocar um instrumento, você não pode parar ou deixar de lado. É preciso estar sempre estudando, aprendendo. Cada partitura é diferente e exige uma dedicação particular”, afirma. Sobre a experiência de subir ao palco, ela diz que o mais gratificante é o retorno do público. “Às vezes, o que para nós é algo mecânico, para o público é extremamente inspirador. Receber a reação das pessoas é o que mais me motiva”, exclama. Ela ressalta que a música tem um papel importante na formação pessoal e profissional. “Ela tem o poder de despertar a sensibilidade nas pessoas, tornando-as melhores e mais felizes. Acho que esse é o grande legado da música”, avalia. Ao ser questionada sobre quem seria sua inspiração musical, ela cita o irmão Luis Carlos. “Admiro muito a trajetória dele e todo caminho que ele trilhou. Fez tudo por conta própria e batalhou muito”, orgulha-se. Totalmente adaptada à capital gaúcha, ela se declara satisfeita com os rumos da vida e diz que não tem projetos futuros. “Já pulei bastante de um lado para outro, aprendi que os traba-

lhos são cíclicos. Não quero mais grandes desafios para minha vida, estou bem assim”, declara.

A importância da música

Diretor artístico e eventual maestro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Evandro Matté já foi regente de Lurdinha em algumas ocasiões e elogia o trabalho da violinista. “Conheço a Lurdinha há vários anos. É uma profissional muito competente, experiente e sempre preocupada com a qualidade do trabalho”, defende. À frente da Orquestra Unisinos Anchieta, ele destaca a importância da música na vida das pessoas. “A música é reconhecida por muitos pesquisadores como uma modalidade que desenvolve a mente humana, promove o equilíbrio e proporciona um estado agradável de bem-estar, facilitando a concentração e o desenvolvimento do raciocínio. Tem um efeito quase mágico sobre as pessoas”, exclama. De acordo com o maestro, quanto mais cedo a pessoa aprender música melhor para sua formação. “Se toda criança tivesse a oportunidade de estudar música desde cedo, teríamos uma sociedade melhor. Estudar música exige concentração, determinação, trabalho em grupo, respeito ao outro e auxilia no desenvolvimento escolar. Por isso, em países desenvolvidos, o ensino de música para crianças é obrigatório”, aponta. A música tem o poder de transformar vidas e influenciar gerações. É ela a responsável por eternizar bons momentos e reviver lembranças. Para Lourdinha, a música é muito mais do que uma simples trilha sonora: é um estilo de vida.

Lurdinha em uma das apresentações da Ospa, no Theatro São Pedro

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Desde pequena, sempre gostei muito de música. Aos dez anos, meus pais me colocaram em uma orquestra, onde toco até hoje. Quando foi definido o tema da revista, logo pensei em falar sobre mulheres musicistas, não só pelo apreço que tenho por essa profissão, mas também por achar que elas precisam ser reconhecidas pelo trabalho que realizam. Pesquisei e acabei encontrando a história da Lurdinha, que desde pequena é envolvida com a música e integrou orquestras de vários estados do país. Ao entrevistá-la, fiquei admirada com a força de vontade e coragem para encarar os desafios, sair de casa e ir em busca da realização profissional como violinista. Lurdinha encerrou a entrevista ressaltando que está feliz e não projeta mais nada para a vida, pois conseguiu realizar todos os objetivos com a música. Acredito que esse é o maior legado que a musicalidade pode deixar: ela completa, realiza e dá sentido à nossa vida.


Eu sou Maria! Os Marias são homens que nenhuma pesquisa contabiliza. Eles têm histórias e sentimentos Por Luan Pazzini Mendonça fotos de Franciele Costa

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busca começou no cartório, mas a pergunta, bem antes: onde estão os Marias? As inúmeras Marias do Brasil o senso realizado pelo Instituto Brasileiro de Geográfica e Estatística (IBGE) respondeu, mas e os Marias? Cada Maria, como diz a música “Tocando em Frente”, do cantor Almir Sater, carrega em si “o dom de ser capaz de ser feliz”. E assim é possível descrever Carlos Maria Lima de Araujo, um homem feliz, que prefere ser chamado como Maria. Maria é natural de Butiá, município localizado no Vale do Jacuí, no Rio Grande do Sul. Atualmente, reside em Canoas. Nascido em 18 de setembro de 1963, é virginiano, trabalhador e sonhador. Filho de mãe doméstica e pai músico, é cabo da Brigada Militar formado em 1975. É também irmão mais velho de uma família com mais quatro irmãs, e pai de Priscila Stefenon, de 21 anos. Maria não é sobrenome, é segundo nome. Carlos Maria, assim mesmo, composto. Marcar com Maria a história de Carlos foi escolha do seu pai, que, após sonhar com seu avô, que se chamava Carlos Mariano, resolveu homenageá-lo. Como na década de 70 era comum utilizar o almanaque, folheto ou livro que, além do calendário do ano, trazia diversas indicações úteis, como poesias, trechos literários e nomes de pessoas, Carlos Maria poderia ter se chamado José de Cupertino, nome do dia.

As lembranças e sensações da vida vivida

Taco e bolinha de gude são brincadeiras lembradas por Maria. “Infância me lembra felicidade, pureza e energia que pulsa.” Pular sela, brincadeira em que os participantes saltavam uns sobre os outros apoiando as mãos nas costas de quem estava agachado, é a diversão que lembra com mais carinho. A rua de chão de batido, os jogos de futebol e os pés descalços com bolhas são lembranças boas que


Carlos Maria Lima de Araujo, apaixonado por rock, prefere ser chamado apenas de Maria

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“Uma vez, a professora errou meu nome. Ela me chamou de Carla Maria” Maria carrega na memória. “Lá vem carro, segura. E a gente tinha que parar. Lá vem bicicleta, segura. Lá vem gente, segura. Tudo era segura, sabe?”, são frases que ele lembra ter escutado muito dos amigos de rua quando criança. “O sonho do meu pai era que eu aprendesse a tocar violão”, lembra Maria. Aos três anos, incentivado pelo pai, que era músico, nasceu a paixão pela bateria. Em 1968, aos cinco anos, Maria estreou nos palcos, tocando bateria num circo localizado na cidade de Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul. No dia em que completou seis anos, como presente de aniversário, Maria abriu e fechou o programa infantil chamado “Vovô Bicutinho”, apresentado na extinta TV Gaúcha. Com sete anos, tocava nos bailes de Carnaval de Rua do bairro. Após a morte de seu pai, com 12 anos, para ajudar a família, Maria resolveu trabalhar. “Muitos dos meus amigos vendiam picolé, então nunca pensei que trabalhar tão cedo atrapalharia minha infância.” Ele lembra com carinho daqueles momentos. “Chegava ao local de coleta, pegava uma caixa branca de isopor, repleta de picolés, e saía para vender. Foi assim que conheci meu bairro.” Batia de porta em porta e, no caminho, ajudava seus amigos na venda. Mas foi só aos 15 anos, trabalhando como office boy na loja Casa Carvalho, localizada antigamente no Conjunto Comercial, em Canoas, que Maria recebeu o primeiro salário. A sensação foi tão boa que ele ainda lembra. “Eu fiquei eufórico, entreguei o dinheiro para minha mãe, todo bobo.” Maria trabalhou em mais lugares do que o número de vezes que

namorou. A experiência que lembra com carinho foi o ano em que prestou serviço militar. “Eu era cabeludo, rasparam minha cabeça sem eu saber se iria servir ou não.” Em fevereiro de 1982, ele foi chamado para prestar serviço obrigatório no Terceiro Batalhão de Suprimento, localizado no bairro Morretes, em Santa Rita, local em que permaneceu até dezembro do mesmo ano. Mas, apesar dessa experiência ruim logo no início da vida militar, Carlos Maria relata que no Batalhão as pessoas estavam habituadas a se ajudar e lembra com carinho das amizades que cultiva até hoje. Olhos marejados, emoções à flor da pele e felicidade plena. É assim que Maria fica quando fala da filha, Priscila. “Minha filha foi o grande presente. Ela nasceu em 1994. Lembro que, quando minha ex-mulher falou que estava grávida, abracei a barriga dela na hora e comecei a beijar.”

Das histórias sobre seu nome

“Eu detestava meu nome e brigava, mas mais apanhava do que batia.” Nos três primeiros anos de adaptação na Escola Municipal General Osório, localizada no bairro Rio Branco, em Canoas, sofria perseguição por se chamar Maria. A briga com os colegas era certa. Maria lembra que utilizava um guarda-pó de tecido xadrez, azul com branco, para diferenciar os meninos das meninas e que o uniforme voltava para casa rasgado, pois era puxado todas as vezes que o chamavam de “Mariazinha”. Maria lembra de uma cena engraçada que ocorreu na escola. “Uma vez, a professora errou meu nome. Ela me chamou de Carla Maria”, conta. O erro aconteceu porque os nomes eram escritos à mão na chamada, e o equívoco da professora foi motivo de risadas na sala de aula. Priscila Stefenon recorda a reação dos seus colegas quando contava que seu pai se chamava Maria. “É estranho contar para quem não é da família que meu pai tem Maria no nome. Lembro de algumas reações como: ‘sério?’, ou ‘tá brincando?’, ‘Maria mesmo?’. Quando preciso assinar o nome dos meus pais, coloco Carlos M., porque tenho certeza que alguém vai perguntar.” Ela recorda da fama que Maria tinha entre seus amigos. “Meu pai tem cara de bravo, e meus colegas de Ensino Médio brincavam muito com isso.” A numeróloga Denise G. Ferreira, moradora de Porto Alegre, explica sobre a importância na escolha P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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dos nomes. “Cada pessoa, mesmo com nomes iguais, possui diferentes características.” Denise explica o significado do nome Carlos Maria. “Carlos é derivado do germânico, que traz como significado Homem Guerreiro ou Homem do Povo”, e o nome “Maria” traz uma origem incerta, com significado “Mulher Soberana”, indo mais além, mulher luz.” Ela ressalta que Maria inserido em um nome masculino, apesar de ser feminino, expressa o amor em suas várias faces de luz. “Maria é mãe, e toda a pessoa que traz consigo esse nome


possui o amor Àgape, que é um amor incondicional e fraternal, que não conhece limites sobre os que estão sob seus cuidados.”

Sobre a paixão pelo Rock

A paixão pelo rock começou na década de 80. Um primo apresentou o disco Never Say Die!. “Me apaixonei pela sonoridade diferente que o oitavo disco da banda de heavy metal Black Sabbath trazia. Mais tarde descobri que este álbum foi o último gravado com a formação original com a participação do vocalista Ozzy Osbourne.”

A paixão pelo vinil também faz parte da vida de Maria. Ele tem uma coleção de discos em casa e sempre que pode aumenta. “Já quiseram compras meus discos, me ofereceram grandes quantias, mas não vendo de jeito nenhum”, garante. Carlos Maria, que gosta de ser chamado apenas por Maria, tem cor, tem cheiro, tem sentimentos e tem amigos, assim como diz a música que marcou a sua juventude, Xote da Amizade: “É preciso dar a mão, tem que se cumprimentar, mas depois de ser amigo não pode o coração negar.” P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Após surgir o tema da Primeira Impressão, tive a certeza de que falar sobre Maria não seria uma tarefa fácil, e não foi. Maria é um nome que marcou minha vida. Maria Etelvina e Maria Luisa, meus amores. Numa conversa pós-aula com a Franciele Costa, fotógrafa da minha pauta, surgiu a ideia de contar a história de um homem que tivesse no nome Maria. Estranhamento, dúvidas e incertezas. Até chegar ao Carlos Maria, escutei três nãos. O primeiro encontro com o Maria que nenhuma pesquisa contabiliza aconteceu por meio das redes sociais. Ansiedade. O segundo encontro, agora presencial, aconteceu ao som de “Back to Black”, música da cantora e compositora Amy Winehouse. O terceiro e último encontro, o despir em palavras de alguém que não conhecia. Contar a história do Carlos Maria, ou Maria, como gosta de ser chamado, para mim, foi o fechamento de um ciclo espiritual.


Esquecida pelo mundo MARIA HELENA vive há mais de dois anos detida longe da família Por FERNANDA SALLA. fotos de PEDRO KOBIELSKI


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Presa por tráfico de drogas, Maria Helena só pensa em uma coisa quando sair: viver com os filhos

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caminho parecia curto. Engano. Ao descermos do ônibus eu e o fotógrafo achamos que a Penitenciária Julieta Balestro estava há alguns passos de nós. Da BR 116 até o presídio foram 15 minutos caminhando. Junto a nós, uma mulher. Acendeu o cigarro. Fumou. Jogou-o à beira da estrada. Prosseguiu a caminhada conosco. Perguntou-nos se iríamos para lá também e o que faríamos. Ela estava indo fazer o cadastro para poder visitar uma parente. Terça-feira era o único dia para realizar esse cadastro. Havia uma fila de pessoas na mesma situação que ela quando chegamos. Depois que ela perguntou, silêncio. Um silêncio que gritava, angustiante. Ouvia-se, com exceção de um caminhão que passou por nós em determinado momento, apenas os passos de nós três, andando na estrada de chão batido, às 11h da manhã de uma terça-feira. Quando chegamos, vimos que havia uma fila de pessoas para se cadastrarem, como nossa acompanhante, à procura da entrada da penitenciária na cidade. Entramos. Buscávamos por Marias. Como seria viver longe do convívio social, em um sistema majoritariamente esquecido pela sociedade, sendo mulher e, neste caso, com o nome mais popular do país? A busca foi rápida. Uma surpresa: havia apenas quatro Marias no presídio. Para nós, uma: Maria Helena Paredes. Andava tranquilamente pelo corredor, cabisbaixa. Na sala, cumprimentou-nos. Inicialmente, explicou-se, dizendo que não sabia se a entenderíamos por causa de seu sotaque. Maria é sul-mato-grossense. Falava ligeiro, com sotaque perfeitamente compreensível (até semelhante ao do Sul), e com voz suave. Pedi para ela que nos contasse sua história. Prontamente, soltou: “Que história? Não é nem história, é tragédia”. Casada há 25 anos, seria a sexta vez que Maria voltaria para o marido. O casal vivia terminando e

reatando o casamento. Ele a convidou para vir ao Sul, mas em Lajeado, no Rio Grande do Sul, foi “pego” por trazer drogas. Maria foi presa por tráfico e associação. A pena do regime fechado de três anos e dois meses termina em outubro, mas, por estar recorrendo, ela acredita que sairá em dezembro. Desde que foi presa, tentou transferir a pena para seu estado, mas teve azar. Na primeira tentativa, a penitenciária sul-mato-grossense estava em greve e depois superlotou. Mãe de dois filhos, Maria não contém a emoção, e seus olhos lacrimejam ao lembrar deles. A filha, maior de idade, está no terceiro ano de Radiologia, em Dourados; o filho, de 16 anos, está concluindo o Ensino Médio, em Ponta Porã, e pretende seguir em Medicina. Os dois moram e estudam no Mato Grosso do Sul e fazem visitas à mãe quando possível. Antigamente a visitavam mensalmente, mas por questões financeiras, de distância e tempo disponível, hoje eles vêm menos. Ao falar do ex-marido, Maria não aparenta guardar rancor. Ela conta que ele é doente e possivelmente vai receber prisão domiciliar. Diz que os filhos gostam muito dele e que, apesar de ter sido presa nas circunstâncias que foi, o homem nunca lhe fizera mal até então. A fé ajuda Maria a aguentar sua pena e estar longe da família. Ela reza diariamente para ter força de encarar as circunstâncias que a fizeram estar ali distante do mundo. “Não é todo mundo que aceita. Essa é a minha história, entendeu? Enquanto eu estive aqui, a minha mãe faleceu. Minha mãe já era doente. Aí meus filhos vieram falar. Então muitas coisas a gente passa aqui, é um aprendizado muito doído”. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Maria cumpre pena há dois anos e quatro meses. Sua pena total no regime fechado era de três anos e dois meses, mas foi reduzida por ela ter trabalhado na cozinha da penitenciária e feito cursos. Sobre os cursos, ela questiona: “Tudo que é benefício que a gente possa aprender, por que não fazer?”. Tanto que foi em um deles que ela aprendeu a desempenhar algo que predominantemente ocupa o tempo livre: crochê.

O presente e o futuro ao lado da família

Sobre a convivência no presídio com outras mulheres, a apenada conta que não é uma tarefa fácil, mas que procura não ter problema com ninguém e possui uma boa relação com suas colegas de cela. Ela conta que ali as mulheres se dão força e que, sempre que ela chora, é de madrugada ou à noite, para ninguém ver e não “pesar na cadeia” de alguém, expressão que ela usa e que significa não parecer fraca e acabar fortalecendo outras apenadas. No mais, Maria conta que a convivência geral não é fácil: “Aqui a gente conhece o ser


humano. E diz que cada vez mais mulheres estão sendo presas”. E realmente, entre 2000 e 2014, aumentou 567,4% o número de apenadas brasileiras. É o que aponta o relatório Infopen Mulheres, estudo do Ministério da Justiça divulgado no final do ano passado sobre a população carcerária feminina no país. Majoritariamente, isso se dá por meio do tráfico de drogas. Muitas vezes as mulheres são cúmplices de seus companheiros. Justamente o caso de Maria. Sempre com um olhar emocionado para falar sobre a família, Maria diz que seus filhos são sua prioridade, a base de tudo. Ela prefere não fazer tantos planos ao sair, mas uma coisa é certa: quer estar com eles, seja no Rio Grande do Sul ou no Mato Grosso do Sul, onde for melhor para eles e seus estudos. A apenada conta que, antes de ser presa, possuía uma fábrica de lingeries, na qual trabalhou durante 11 anos. Ao ser encarcerada, a fábrica, assim como a guarda de seus filhos, ficaram sob domínio de sua irmã. Contudo, a fábrica não seguiu em frente e, após um tempo, faliu. Pensando no futuro, Maria acredita que se daria bem fazendo e vendendo roupas fitness para quem frequenta academias. Ela não quer mais ter fábrica e funcionários (possuía mais de 40 na de lingeries), e sim trabalhar por conta pró-

pria após vender o maquinário que ainda tem da fábrica. A jornalista Nana Queiroz pontua na sua obra sobre o sistema carcerário feminino Presos que menstruam: “Durante essas viagens ao submundo, descobri que não era apenas o governo que nos impedia de falar sobre o assunto. Tabus são mantidos, também, pelos que se recusam a falar sobre eles. E nós, enquanto sociedade, evitamos falar de mulheres encarceradas”. Com exceção dos filhos, Maria foi esquecida pelo mundo. Está há mais de dois anos isolada de todas e todos que tinha contato antes de ir presa. Há coisas das quais ela não se esquecerá. Do futuro, Maria não sabe, mas carrega consigo uma certeza: “Deus não dá para a gente as coisas que a gente não consegue carregar”.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Sempre gostei de me envolver com temas sociais, seja por meio do jornalismo, seja como cidadã. Ver um tema em que eu pudesse falar de mulheres, e, neste caso, Marias, trouxe de imediato a procura por uma pauta que me envolvesse como profissional e pessoa. Com a sugestão do fotógrafo de retratar uma “Maria presidiária”, o que eu buscava acabou se concretizando. Foi um grande desafio. Sabemos, em tese, dos problemas de sistemas carcerários, tanto para presos como para presas. São pessoas esquecidas socialmente. Tanto que para ir até a penitenciária precisamos pedir informação para várias pessoas, já que ninguém sabia precisamente como chegar. Ver uma realidade tão distante de mim foi de imenso crescimento. Eu estava ansiosa. A caminhada de 15 minutos da beira da BR 116 até o presídio parecia interminável. Já a conversa com a apenada deu a impressão de que fora realizada na metade nesse tempo. Foi uma manhã diferente.


Cada mulher do seu jeito A importância de aceitar o corpo gera benefícios para saúde física e mental, ESSE É O LEMA DA MARCA DE ROUPAS CURVAS DE MARIA Por Amanda Cunha . fotos de BRUNA FLACH

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uito provável que você nunca tenha conhecido uma mulher que gostasse cem por cento do seu corpo e da sua aparência. Ou o cabelo é muito liso, ou os olhos são grandes, ou é muito magra, baixa, alta. Ser confiante e aceitar o próprio corpo é uma etapa importante para adquirir autoconfiança. No entanto, é uma tarefa difícil devido às influências que nos cercam. Por exemplo, as redes sociais enfatizam que status e aparência representam conquistas e sucesso. Celebridades magérrimas, ícones da moda que sequer ultrapassam o manequim 38, a influência fitness que a mídia enaltece e diversos outros meios que mascaram a verdadeira realidade física da mulher. Tudo isso gera conflito. Para a psicóloga Luciana Skolmo, a aceitação corporal é consequência de um complexo processo de autoconhecimento e se dá muito precocemente na vida, nas primeiras relações afetivas que nos definem. A forma como uma mãe tem seus próprios conflitos e questões de

identidade e feminilidade mais resolvidas quando tem uma filha por exemplo, exerce grande influência na questão da futura aceitação corporal. E a psicóloga Kelly Kohn acha que a busca das pessoas por uma vida mais saudável tem sido uma constante, até por um esforço da mídia, de órgãos públicos, de profissões ligadas à saúde que juntas trabalham para diminuir problemas advindos do fato de uma pessoa não cuidar da sua saúde. “As mulheres não são diferentes das outras pessoas e têm buscado uma vida mais saudável, mas ainda são muito ligadas ao cuidado com o corpo e a beleza”, diz Kelly. A busca pelo corpo perfeito é cada vez mais constante, e a insatisfação com qualquer coisa que esteja relacionada à nossa vida não é benéfica, pois gera incômodos, angústia e tristeza. “Precisamos saber lidar com a frustração, lidar com quem podemos nos tornar. Essa aceitação e a tolerância à frustração é um processo que se inicia desde cedo em nosso desenvolvimento, onde nosso narcisismo precisa ser adequadamente construído a partir da influência do meio externo e de nossas primeiras relações’’, afirma Luciana. Um dos públicos que vem buscando mudar os padrões de beleza é o das mulheres plus size. O mercado da moda plus size ganha cada vez mais espaço. Segundo a Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), o faturamento do setor já ultrapassa 90 bilhões de reais, mas ainda existe dificuldade para algumas pessoas de não encontrar roupas para o seu tipo de corpo, que não se encaixa no padrão de beleza estabelecido pela sociedade.

Uma marca diferenciada

Um exemplo de marca de roupas que rompe os padrões estabelecidos é a Curvas de Maria, voltaP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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da especificamente para esse setor. Com personalidades fortes, as empresárias que fundaram a empresa possuem um conceito de diversidade sem preconceito e representam a autenticidade da mulher na hora de empreender. Acreditam que a mulher precisa estar bem consigo mesma e segura de si em primeiro lugar. As duas amigas, Jessica Matos, de 23 anos, e Paula Kochem, de 22, já têm a marca há um ano. A ideia surgiu quando Jéssica ainda estudava na Unisinos e cursava Design. Sempre gostou muito de tecidos e estampas, e Paula, que cursa Moda na Feevale, sempre sonhou em ter sua marca com um estilo de roupa próprio e muito bem confeccionado. Foi assim que as duas resolveram juntar suas habilidades e experiências e levar para as clientes o conforto de uma roupa. O objetivo era produzir o que elas sempre procuraram em lojas e não encontravam. A loja é online e conta com produtos desenhados e criados por elas, além de outros que são de revendedores. Os produtos vão de lingeries a peças fitness. Agora, estão lançando a coleção de biquínis desenhados por elas, e os tamanhos variam do 36 ao 56 para


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poder atender todo o público. O processo de criação é feito no escritório localizado em Novo Hamburgo. É lá que começam as preparações e inspirações, desde ideias, pesquisas de tecidos, tendências, desenhos e até valores. Para elas, é muito importante a escolha do tecido e a modelagem das peças, por isso a compra dos materiais é feita com muito cuidado e atenção. “Nosso foco é criar peças que se adaptem ao corpo das mulheres e que elas se sintam bem com o que estão vestindo, seja qual for o modelo”, relata Paula. A intenção das estilistas não é separar modelos e tamanhos, mas sim fazer com que todos possam usar a mesma peça, magras ou não. A moda já influenciou muito a imposição de um padrão de beleza. Contudo, essa visão tem mudado ao longo dos anos e é claro que ainda tem muito para evoluir. Assim, ao passo que a mentalidade dos indivíduos da sociedade muda, isso permite que conceitos sejam também transfor mados. De acordo com a professora de Moda da Unisinos Luciana Borges, a moda cada vez mais permite que isso aconteça, pois ela parte por diferentes tipos de pesquisa, entre elas as de comportamentos sociais. A moda plus size, da maneira que é trabalhada hoje, aproxima a mulher que possui essas características físicas do mercado em geral. Mas ainda precisa ser trabalhada para que essa mulher se sinta integralmente acolhida em uma roupa projetada especificamente para ela. “Com isso, será possível uma efetiva moda plus size, onde a mulher não se adapte à roupa, mas a roupa seja adaptada na íntegra a ela, ajudando para uma efetiva aceitação corporal”, diz Luciana. Os padrões de beleza estão mudando e abrangendo diversos tamanhos e formas. O instituto Girlguiding revelou uma pesquisa com meninas de sete a 21 anos sobre diversas questões do corpo feminino. Os resultados foram de que 75% das participantes de 11 a 21 anos concordam que as mulheres são julgadas mais pela aparência do que pelas habilidades. 41% das garotas, entre 11 e 16 anos, se sentem constrangidas e envergonhadas pela aparência. E 37% delas confessaram que se comparam com celebridades constantemente. Para Luciana Borges, a padro-

nização da beleza é o caminho mais fácil para o incentivo ao consumo. “As celebridades vendem um conceito que, por sua vez, a mídia divulga e pode vir a vincular produtos a ele. Contudo, essa prática tem perdido força com o tempo e a própria mídia está precisando reciclar-se.” Uma das grandes preocupações da marca Curvas de Maria é garantir que a mulher se sinta bem consigo mesma, sabendo que cada um tem o seu encanto único. E as P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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clientes buscam a beleza da peça, a praticidade e o conforto.

CLIENTES FIÉIS

Maria Eduarda tem 25 anos, é dentista e paulista, mora há três anos no Sul, em Campo Bom. Desde que conheceu as meninas, é cliente assídua. Os lingeries são as suas peças preferidas. Maria, além de se identificar com o nome da loja, também diz que, desde que começou a comprar roupas da marca, passou a se sentir

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Ao longo do processo de escrever e entrevistar as fontes, pude perceber que hoje as mulheres estão bem mais confiantes de si, tanto em relação ao corpo como como com suas próprias vidas. Carreira, corpo, autoestima. Exemplos são as donas da marca Curva de Maria. Várias vezes conversamos pessoalmente e por e-mail e pude ver o quanto elas foram receptivas e esclarecedores sobre o assunto. Roupas são suas paixões mas, muito além disso, elas passam uma energia positiva para clientes e qualquer pessoa que entra em seu escritório. No contato com as psicólogas, pude perceber o quanto pessoas ainda têm a dificuldade de se aceitar fisicamente, e muito disso pela mídia. O que antes era uma bobagem e não muito divulgado pela mídia, hoje é uma questão de saúde física e mental. Fiquei feliz em saber um pouco mais sobre moda com a professora Luciana, que mostrou que hoje as revistas e os desfiles de moda têm influência nas medidas corporais e, principalmente, na opinião das pessoas em relação ao corpo. Ainda é, sim, um padrão de beleza, no entanto, muitas marcas vêm rebatendo isso e mostrando que somos mais felizes com o corpo que temos. Devemos aceitar e amar ele. Sou suspeita para falar, como amante da moda e tudo que envolve esse universo, acredito que temos que nos aceitar do jeito que somos e nos amar. Hoje o mercado está a aberto a todos os tipos de corpos. Gostei muito de produzir a matéria e poder mostrar para todos, e principalmente às mulheres, que hoje podemos ser quem quisermos sem preconceito.

Jéssica e Paula, proprietárias da marca Curvas de Maria, e a modelo Letícia Soares (ao centro) mostram a nova coleção de camisetas

bem com o seu corpo. Antes, não usava roupa curta para sair na rua e, hoje, não se importa com a celulite que antes a incomodava. Outra cliente é a Maria Beatriz, de 23 anos, também dentista, que divide apartamento com colega de trabalho Maria Eduarda. É na casa delas que as meninas se reúnem para provar as peças, comprar e conversar sobre as novas encomendas. A maioria das clientes de Paula e Jessica são as amigas de amigas e conhecidas. Na rede social, a procura

é por públicos que se adequam à marca e procuram peças diferentes e de boa qualidade. Para atingir seu público, elas contam com a ajuda de uma amiga publicitária. A realização de ter o corpo perfeito é imposta por padrões de beleza da sociedade que podem influenciar na satisfação pessoal. O mais difícil para as pessoas é a autoaceitação. Não importa qual o seu peso, sua cor, seu tipo de cabelo, o importante é se amar e se respeitar. Isso faz de você única e real.

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Habitada por bancários, comerciantes, secretários e professores, a casa hoje é o lar de 28 idosos

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Antes do céu Para muitos moradores, a Casa de Repouso Maria Olívia é seu último lar Por MARIANA DAMBRÓS fotos de ANIELE CERUTTI

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casa chama atenção, talvez por sua estrutura ampla ou por causa da vitrine que sempre tem suas cadeiras ocupadas. De seus lugares, bem posicionadas, elas veem o movimento da rua. Entre conversas paralelas e um chimarrão, o dia passa. A vida passa. E elas apenas observam. A vitrine, apelidada carinhosamente pelas meninas, é uma sala coberta por grandes vidraças. Um cômodo novo, construído na ampliação da casa. Alda Cravem tem 61 anos, cabelos curtos e sorriso contagiante. É ela quem me recebe. Proprietária da casa, sempre desejou fazer a diferença. “Eu trabalhei em muitas casas, mas nunca vi um tratamento de amor, com carinho e dedicação”, explica. “Isso sempre me incomodou, porque muitas vezes os familiares pagavam por um cuidado que não existia”, completa. O desejo se realizou há sete anos, quando a Casa de Repouso Maria Olívia abriu as portas no Litoral Norte, na cidade de Tramandaí. O nome é em homenagem à mãe de Alda, uma velinha amorosa que ensinou a filha a gostar e a respeitar os mais velhos.

Entre os sussurros daqueles que desejam partir e as conversas de quem tem muito a viver, há uma tranquilidade na casa. Ampla e cheia de mimos, a casa tem corrimões de apoio e rampas de acesso. Habitada por bancários, comerciantes, secretárias e professoras, a casa hoje é o lar de 28 idosos. Muitos chegaram lá por causa do Alzheimer, de um AVC ou demências. Outros escolheram ir para não serem empecilhos na vida dos familiares. “Nós somos um esteio. A correria do dia a dia e o trabalho muitas vezes não permitem que o idoso tenha o cuidado que precisa em casa”, diz Alda. “A vida não para. Então que bom que nós estamos aqui para auxiliar os familiares”, complementa, entre carinhos, abraços e brincadeiras. Alda me olha e sorri. “É gratificante, não tem como não amar esses velhos.” O pregador azul combina perfeitamente com seus olhos e se destaca em meio aos cabelos brancos. É o primeiro dia de Jovina Kummecke no local. Conversamos pouco naquela tarde de sábado, mas eu prometi voltar. “Vou te esperar, então, para contar como foi a minha semana”, disse a senhora sorridente. E cumprimos as promessas. Na bagagem vieram roupas e lembranças de 94 anos de vida. “Saudade? Graças a Deus eu não tenho saudade de nada e de ninguém”, diz Jovina Kummecke, apelidada carinhosamente de Jô. Após a perda de dois filhos e do marido, morou com uma das filhas, depois com uma nora e também com uma irmã que acabou por falecer: “Quando ela se foi, perdi meu chão”. Chegou na casa pelas mãos da filha. Ela mora no município vizinho e faz visitas duas vezes por semana. “Não dá para morar com filho, por mais que a gente se goste”, afirma Jô. “Eu ficava muito sozinha e gosto de conversar. Se não estou conversando, estou P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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cantando. Passo meu tempo assim”, continua. Ela arruma os óculos que não ajudam mais e suspira ao lembrar que não possui forças para segurar as agulhas de tricô. Uma consequência da idade. Um sorriso surge ao reviver as lembranças da pista de patinação onde conheceu o marido. “Ele patinava muito bem, me pegava pela mão e nós voávamos”, relembra. Mas pontua: “A gente não namorava. Só nos reencontramos anos depois em uma matinê dançante, no Clube de Regatas, e aí aconteceu o amor”. Jovina diz que sua última parada é na casa de repouso e desabafa: “Em cada lugar que eu passei, deixei um pedaço de mim. Vou deixando uns pedaços e pegando outros por onde passo”.

Aos embalos da matinê

Aos 79 anos, com a bengala na mão e sorridente, lá vem Nelson Viana Jardim. Está na casa há três anos e o motivo que o trouxe foi o medo. Não o dele, mas o dos filhos. Independente, Nelson vivia no apartamento próprio em Porto Alegre. Foi bancário, gerente de “restaurante fino”, comerciante e taxista. Foi deixado. A mulher, com quem é casado há 25 anos,


foi morar com a filha para cuidar dos netos. Nelson ficou sozinho no apartamento de dois quartos, acompanhado apenas por seus passatempos: os livros, as palavras cruzadas e os bailes. “Ah, os bailes”, relembra com saudades. O medo dos filhos tem nome: diabetes. Primeiro uma operação, depois cinco dedos do pé se foram. Precisando de cuidados, mas morando sozinho, Nelson veio parar na casa. “Escolhi vir para cá porque meus filhos trabalham e não podiam ficar comigo”, afirma. “Eles tinham muito medo de eu cair e me machucar”, continua. Um dos filhos mora na mesma cidade onde é localizada a casa. Nelson queria morar com ele. Não dá. “Ele é separado, e eu ia acabar ficando sozinho”, convence-se. Os bailes eram seu passatem-

po preferido: “Entrei de sócio em um clube em Porto Alegre quando tinha 15. E depois não perdia um baile”, relembra sorridente. “Minha mulher não gostava de ir dançar, mas me acompanhava.” Quando a esposa virou visita em casa, ele voltou para os bailes, mas agora sozinho. No salão de dança, Nelson arrumou uma namorada. A esposa sabia. Foi avisada que isso poderia acontecer, mas não deu bola. “Sempre fui assanhado”, conta. O relacionamento durou um certo tempo. Para Nelson, tudo que uma mulher tem que ter ela tinha. O motivo da separação foi o vício no jogo: “Ela não saía das casas, e eu não gostava”. O fim chegou, mas o carinho por aquela mulher continua nos olhos do Nelson. Entre as visitas e os almoços em

família no domingo, Nelson vive um dia de cada vez. “A gente toma chimarrão, sai para passear e até em baile nos levam”, diz. “Eu danço, meio desajeitado e me arrastando por causa do pé, mas balanço o esqueleto”, complementa. Em meio às lembranças, ele desabafa: “Eu não gostava de morar sozinho”. O apartamento em Porto Alegre ficou mobiliado. Agora um filho mora lá. “Toma conta”, como diz Nelson. Com um olhar transbordando emoção, ele me olha: “Sou feliz, aqui é minha casa agora.”

As cores da TV

O blusão de cores vibrantes chama atenção. Sentada na cadeira de rodas, lá estava Ivone Brandenbruger, comendo fruta em frente à TV. “Eu gosto de assistir jogo de futebol”, diz com um sorriso.

Aos 79 anos, Nelson sente falta de dançar

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Solteira, nunca quis casar: “Passar trabalho igual minha irmã? Não mesmo”. Com o olhar fixo na TV de tela plana, retraída, ela quer saber da minha vida também. Com um problema no joelho, Ivone decidiu que era hora de procurar uma casa de repouso. “Eu vim de peito aberto”, diz a senhora de 81 anos. Ela morava com a irmã na cidade de Quintão antes de vir para a casa: “Eu quis vir porque minha irmã não tem condições de me cuidar, ela também é meio doente”, afirma. Morou em Porto Alegre e trabalhou em farmácias e em um hospital. “Amizade para mim não tinha problema, sempre fui comunicativa”, revela. O apartamento foi dado ao sobrinho que casara. Em três anos que Ivone está na casa, ele só veio visitá-la duas vezes. Ao

falar do sobrinho, a mágoa transparece em seu rosto: “É aquelas visitas rápidas, né? Só por vir”. Feliz à sua maneira, Ivone conversa para passar o tempo. “Mas só quando estou de bom humor, senão, nem tem papo”, diz. Só roupas vieram na mala, o que tinha que trazer, ela trouxe. Sente saudades dos pais. E do resto, não mais. Se pudesse, Ivone não voltaria para casa: “Eu não me encaixo mais no ambiente, fora daqui”, desabafa. A casa chama atenção, talvez por sua estrutura ampla ou por causa da vitrine que sempre tem suas cadeiras ocupadas. De seus lugares, bem posicionados, elas veem o movimento da rua. Entre conversas paralelas e um chimarrão, o dia passa. A vida passa. E elas apenas observam.

Conversando e cantando, Jovina leva a vida de forma leve. Ivone (à direita), se pudesse, não voltaria para casa

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Contar histórias nunca foi meu forte, ao contrário, sempre gostei de escutar. E foi assim que se deu o processo dessa reportagem. Escutei histórias de pessoas desconhecidas que tinham muito a me contar e me ensinar. Quando pensei nessa pauta, não imaginei como seria, não pensei em um roteiro, apenas me doei e fui surpreendida. O desafio foi grande, porque contar histórias de pessoas reais requer cuidados. Compreendi naqueles dias de entrevista a importância de saber escutar. Perdi o sono, fiquei ansiosa e reescrevi muitos parágrafos. E tudo isso por medo de não conseguir contar, de maneira fiel, as histórias que ouvi. Ainda não sei se acertei ou falhei, essa resposta só vou ter quando eu voltar lá, com a revista nas mãos, e ler a reportagem para eles. A pauta foi difícil, mas me proporcionou conhecer pessoas especiais e aprender muito mais que jornalismo.


Uma doméstica, seis filhos, uma família P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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a história de MARIA DOLORES, uma batalhadora brasileira Por Thiago dos Santos fotos de leonardo severo

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la é doméstica, a mãe era doméstica e, quando precisa, uma das filhas também arregaça as mangas para exercer a profissão. Dedicada a um dos trabalhos mais populares do Brasil, ela encarou as dificuldades de cabeça erguida e, praticamente sozinha, criou seis filhos em um ambiente hostil, rodeado pela insegurança e marginalidade, sem que o crime ou a

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violência fizessem parte de suas vidas. Essa é a história de Maria Dolores da Silva, mãe de quatro mulheres e dois homens que sustentou a família trabalhando desde os 12 anos como empregada doméstica. Nascida em 1959, em São Leopoldo, Maria Dolores tem a palavra trabalho a acompanhando desde bem cedo na vida, “Comecei a trabalhar com oito anos, cuidando das crianças dos outros. Trabalhava de manhã e estudava à tarde, ou invertia, dependendo do turno da


escola”, explica ela, meio imprecisa com relação ao inicio. O trabalho precoce, motivado pela necessidade de ajudar a família humilde, resultou no abandono dos estudos já na quarta série. “Parei de estudar para trabalhar com 12 para 13 anos, porque tinha que ajudar minha mãe. Nos vivíamos entre cinco filhas, eu era a mais velha.” Aos 19 anos, Maria Dolores teve a primeira filha com o ex-marido, Caren Mineia da Silva, agora casada, trabalhando em uma escola técnica de São Leopoldo. Aos 21 anos, veio a filha Carla Denise, hoje morando na casa ao lado da mãe. Com 27 anos, chegou o primeiro filho homem, Carlos Henrique, agora casado, morador da cidade vizinha, Novo Hamburgo. Já com 35 anos, e sempre trabalhando como doméstica ou faxineira, Maria Dolores teve a terceira filha, Cássia Thais, com quem ainda reside. Depois, aos 37 anos, veio João Gabriel da Silva, hoje morando com a irmã. Já aos 40 anos a família ficou completa com a chegada da caçula, Geovana Eduarda, que também mora com a mãe. Três anos após o nascimento da última filha, a relação com o marido, já em crescente desgaste, teve um ponto final. “Ele dizia que estava cansado já, e que não estava vendo resultado no casamento. Eu também tava cansada e sem briga, sem muita conversa, falei para gente terminar. Ele duvidou, achou que eu estava levando na brincadeira, mas eu decidi e então nos separamos”, explica ela. Apesar da sinceridade nas palavras, Maria Dolores não demonstra sofrimento ou arrependimento pelo fim do relacionamento. Ela também não reclama das dificuldades relacionadas à criação dos filhos após a separação. Enquanto conversa, Maria é tomada por uma inquietude típica dos anos de faxina: passa um café, ajeita a casa (alugada) e ainda encontra tempo para fazer o chimarrão e bater um papo com as filhas. Apesar da fala rouca, resultado do cigarro consumido esporadicamente, seu jeitão é calmo e atencioso. Não tem medo de falar de si mesma, mas também não perde a postura humilde dos anos dedicados ao serviço. Mas a trajetória dessa Maria é amparada por uma das profissões mais antigas e populares que existe no Brasil, o serviço de doméstica. E a realidade desta profissão en-

volve trabalho duro, em muitos casos pouca instrução, e até falta de oportunidades melhores. Seguindo essa perspectiva, Maria Dolores retrata a vida de muitas mulheres pelo país. Trabalhadoras de origem humilde que, desde cedo, se submeteram ao trabalho pesado, abrindo mão de parte da infância, dos estudos, mas que, por fim, conseguiram criar os filhos com dignidade e honestidade. Apesar da pouca instrução escolar e do abandono dos estudos, Maria Dolores não deixa os filhos relaxarem e seguirem o mesmo caminho. “Quando a gente ia para escola, a mãe sempre nos levava e depois buscava, porque era muito perigoso ir sozinha, então ela nos acompanhava, pra que a gente não faltasse aula e não tivesse o risco de rodar. Ela também sempre conferiu boletim, foi nas reuniP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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ões. Era ela que sempre nos cobrava”, explica a filha Cássia. Porém, a educação dos filhos não se limita à escola. Cássia também relata outra peculiaridade sobre o convívio com a mãe. “Desde pequenos, a mãe nos educou, e até hoje, quando a gente vai pegar algo pra comer ou fazer algo, a gente pergunta pra ela. Tipo, mãe posso pegar isso? Mãe vou ir em tal lugar, tudo bem?”.

A empregada doméstica e a patroa

E foi nas idas e vindas, levando as filhas à escola, que Maria Dolores conheceu uma amiga especial, a atual patroa, Jocelaine Mareci Nunces da Silva, com quem já trabalha legalizada há quatro anos. Entretanto se engana quem pensa que a história de Maria Dolores com Jocelaine é mais um daqueles casos como o

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Hoje, Cássia Thais sorri tranquila na companhia da mãe. Alguns meses atrás, a tensão tomava conta da família, que vivia cercada pela violência na antiga casa


precisou de um teto para criar-lhes. Foi na necessidade que a Maria encontrou refúgio às margens do Rio dos Sinos, no bairro Feitoria em São Leopoldo.

Um obstáculo chamado violência

A vida na comunidade ribeirinha começou tranqüila para Maria Dolores e os filhos, até que a crescente onda de insegurança no Rio Grande do Sul chegou ao quintal de sua casa. “Quando a gente morava lá perto do rio teve um dia em que começaram a trocar tiros do lado da nossa casa. A gente teve que se esconder embaixo da cama, porque eles atiraram na parede do nosso lado”, relata a filha Cassia. Porém, Maria Dolores não se deixou abater pelo problema, muito menos esperou que a violência contaminasse seu lar. Ainda em setembro de 2015, conseguiu alugar uma casa a alguns quilômetros da antiga residência. A moradia locada fica ao lado da casa da filha Carla, que, seguindo a trajetória da mãe, não se nega a colocar a mão no trabalho, seja como faxineira, bordando crochês e vendendo, ou até exercendo o papel de segunda mãe de seus irmãos. “Quando precisa eu dou bronca em todos eles, porque, quando a mãe saía para trabalhar, eu é que ficava cuidando deles. Às vezes era um em cada mão e outro no colo”, recorda. Acompanhando a história de Maria Dolores e seus filhos, poderíamos imaginar uma família mergulhada em problemas com violência, drogas e a falta de instrução. Também seria de se supor que, em um lar como esse, a falta de apoio financeiro do pai, que após a separação acabou não contribuindo nas despesas da casa, traria dificuldades intransponíveis para a criação digna dos filhos. Entretanto, a luta de Maria Dolores contra os obstáculos da vida de empreendedora familiar foi intensa, e o resultado são os filhos, criados, trabalhadores e honestos. A trajetória de uma mãe faxineira, a história de um sonho de vida: criar uma família. O exemplo de persistência e dedicação enraizado na Maria Dolores, mãe, brasileira, trabalhadora. mostrado no filme “Que horas ela volta?”, estrelado por Regina Casé, onde a empregada doméstica fica reclusa na casa dos patrões. Na história de Maria Dolores com Jocelaine, a liberdade e a dignidade estão sempre mantidas. “A Joce me trata como se eu fosse da família, a gente come tudo junto. Às vezes eu chego com a pá virada, ela logo percebe. Eu fico assim mesmo, e às vezes ela que tá de mal com a vida, tento conversar. E ela me ajuda muito. Dividimos os problemas uma com a outra.” Quando a patroa fala de Maria Dolores, o sentimento parece recíproco. “Acho a Dolores uma pessoa muito honesta, muito caprichosa, trabalhadora, batalhadora, que criou os filhos sozinha. E ela é muito defensora dos filhos, muito cuidadosa. Zela muito pela segurança dos filhos. Nela eu

confio”, explica Jocelaine. Entretanto, como a história vem nos mostrando, nem tudo são flores na vida de Maria Dolores. Trabalhando como empregada doméstica, ela se encaixa em um mercado de trabalho disputado, onde o salário mínimo estadual gira em torno dos R$ 1.100,00 para profissionais com 40 horas semanais. Além disso, há quase sete milhões de mulheres atuando como domésticas no Brasil. E nem é preciso explicar que o salário e a concorrência tornam a vida de uma doméstica brasileira muito mais um caso de sobrevivência do que uma carreira promissora. E é ai que entra um dos grandes problemas na vida da Maria. A falta de dinheiro. Aliado a isso há ainda a falta de planejamento para ter os filhos, como muitas famílias brasileiras. Resultado: as crianças foram chegando e a mãe P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Ao me deparar com a temática amparada no nome Maria a primeira coisa que me veio na cabeça foi a história de Maria Dolores da Silva. Já a conhecia há algum tempo e sabia de sua origem humilde. Porém fiquei extremamente surpreso ao ouvir sua história de vida. Talvez o que mais tenha me chamado a atenção foi o fato de que a Maria conseguiu criar uma grande família atuando em uma das profissões mais trabalhosas e ainda desvalorizadas no Brasil. E embora nunca tenha tido a instrução formal completa, ela soube conduzir os filhos com dignidade e honestidade, sem que a violência ou pobreza penetrasse em seu lar. Outro detalhe interessante foi que no dia da entrevista nos reunimos em sua casa alugada, junto com duas de suas filhas. Ali fiquei impressionado pela determinação de Dolores em sair da antiga casa, situada em uma região violenta. Apenas o fato da mudança de casa, mesmo com poucos recursos, já me marcou, mostrando como a vontade dessa mãe em dar melhores condições para os filhos, estava além de qualquer problema.


A mais famosa A bolacha Maria nasceu em 1874 e até hoje é um grande sucesso na mesa dos gaúchos Por Luísa Boéssio. fotos de Nagane Frey

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uitas são as discussões sobre a verdadeira denominação. O país se divide entre biscoito ou bolacha. Acontece que é difícil dizer qual seria a verdadeira expressão, já que o órgão regulador, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), considera os dois termos como sinônimos. Segundo a Anvisa, os dois são “produto obtido pelo amassamento e cozimento conveniente de massa preparada com farinhas, amidos, féculas fermentadas, ou não, e outras substâncias alimentícias.” Sabemos que os dois estão corretos, o que desempata a disputa é a história. A palavra biscoito entrou primeiro na língua portuguesa. Na reportagem “O certo é biscoito ou bolacha?” para o site da revista Mundo Estranho, o repórter Victor Bianchin consultou livros e teses sobre essa rixa histórica. Descobriu que biscoito é uma palavra de origem francesa. “Bis” e “coctus” juntos significam “assado duas vezes”. Esse pão de farinha de trigo achatado era cozido algumas vezes para resistir por mais tempo. Os marinheiros das caravelas usavam como alimento, que duravam as mais longas viagens durante o período de exploração marítima. Seu registro mais antigo na língua portuguesa é de 1317. Já a bolacha vem de “bolo” com o sufixo “acha”, que indica diminutivo, significa bolo pequeno, e a primeira aparição foi em 1543.

A história da Maria das bolachas

A bolacha Maria foi criada em 1874 em comemoração ao casamento da duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o segundo filho da rainha Vitória, o duque de Edimburgo. Ainda como nos dias atuais, os casamentos reais britânicos sempre foram grandes acontecimentos. Para celebrar a ocasião, os padeiros ingleses James Peek e George Hander criaram um novo biscoito com o nome da homenageada, o que se tornaria a internacionalmente conhecida bolacha Maria. Vendida praticamente no mundo todo, a bolacha Maria é um verdadeiro sucesso. Portugal e Espanha foram os primeiros países a comercializar a bolacha, mas ela pode ser encontrada também no Japão, com o mesmo nome Maria gravado na massa. Para os espanhóis, a bolacha tem um significado mais importante ainda, entrando para a cultura nacional no século 20, durante o período da guerra civil. O país viveu momentos de muita fome e pobreza no final da guerra em 1939, e o governo investiu em campanhas de produção de trigo para fabricação de pães. A colheita foi tão abundante que, com os excedentes do cereal, os padeiros produziram caixas de bolacha Maria que foram despejados nos mercados. A bolacha virou sinônimo de fartura e recuperação econômica do país.

Fábrica Mosmann

O Brasil é um dos maiores produtores de biscoitos do mundo. Segundo a Associação Nacional da Indústria de Biscoitos (Anib), são 1,2 mil toneladas fabricada por ano. O produto está presente em 99,9% dos lares brasileiros, uma média de 700 gramas vendidas por pessoa a cada compra. No interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Parobé, a fábrica Mosmann Alimentos Ltda tem uma tradição de mais de 71 anos na produção de bolachas Maria. Tudo começou quando Eduardo Mosmann, vendo que sua serraria não renderia para manter a mulher e os três filhos, vendeu seu negócio para investir em uma fábrica de massas. Mais uma vez a bolacha Maria foi sinônimo de fartura. Fundada em 1° de maio de 1945, a empresa, que sempre foi familiar, já está na terceira geração. O neto de Eduardo Mosmann, Paulo Cezar Mosmann, é o atu-

al diretor da empresa, que se intitula a “primeira fabricante de biscoito Maria chocolate do Brasil”. Há anos, Paulo e sua equipe trabalham para aprimorar a fórmula da Maria. São mais de seis sabores da bolacha em uma produção de mais de 300 toneladas por mês, vendendo praticamente para todo o Estado. Mosmann ainda faz vendas institucionais para escolas dos estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo, que são destinadas para alimentação de alunos. Percebendo o alto índice de crianças do ensino público que vivem em extrema pobreza e que, muitas vezes, os alunos comparecem às aulas pois é na escola que têm a única refeição do dia, o Governo Federal fez um incentivo nutricional na alimentação escolar. Nutricionistas das prefeituras

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de alguns estados começaram a melhorar a qualidade e funcionalidade dos alimentos fornecidos. Tempos atrás, o que era comprado por ser mais barato, agora deveria suprir a deficiência de nutrientes dessas crianças. Foi assim que a Mosmann começou a produzir um biscoito com mais fibras e funcionalidades. Hoje, a fábrica produz mais de seis tipos: Maria tradicional, chocolate, integral, integral chocolate, aveia e mel, cereais e sementes, e todos com zero gordura trans. Desenvolvendo esses produtos, tentando se diferenciar e tornando-se mais saudável que a concorrência, a Mosmann ganhou credibilidade dos consumidores. A bolacha Maria está presente na vida dos gaúchos desde pequenos, e, para Paulo Mosmann, a bo-


lacha é uma tradição. “É o primeiro biscoito que as crianças comem no Rio Grande do Sul. Aqui, o forte é a bolacha Maria, no Centro-Oeste e Nordeste, é o Maizena (amido de milho). Quando a criança começa a comer alguma coisa, com certeza é o biscoito Maria”, comenta Paulo. Para Mosmann, todo mundo tem alguma relação com a bolacha Maria. “Mesmo que hoje se fale muito da intolerância ao glúten, o trigo está na vida da humanidade. Sua descoberta foi uma evolução para a civilização humana, só estamos aqui por causa dele”, declara.

Valor nutricional

Que a bolacha Maria é uma tradição ninguém discorda. É comum introduzi-la na alimentação infantil logo nos primeiros anos de vida, junto com o leite materno. Mas será que ela faz tão bem e é tão importante assim para a alimentação infantil? A nutricionista Signorá Konrad discorda. A bolacha Maria tem a cada 100 gramas em torno de 440 calorias, além de ser um produto de alta densidade energética que, segundo Signorá, não deveria nem ser considerado alimento. O guia alimentar para população brasileira de 2014 determina que a

bolacha é um produto ultraprocessado, contendo, além dos nutrientes tradicionais, adição de açúcar ou outros condimentos, como aditivos alimentares, conservantes, flavorizantes, estabilizantes e tantos outros. “Então, isso significa que é um ultraprocessado e, se é ultrapro, é totalmente abolido da alimentação”, afirma a nutricionista. Questionada sobre iniciativas como a de Mosmann, de uma inserção de nutrientes e fibras, Signorá admite que é uma tentativa bem-sucedida, mas desconhece a prática na alimentação escolar. Ainda segundo Signorá, dentro daquilo que muitas escolas podem oferecer, às vezes, tendo uma só merendeira para fazer todas as atividades, acaba sendo uma saída, mas se sabe que não é a melhor delas. “O teor de fibras desse biscoito é baixíssimo, no máximo 2 gramas. Você come qualquer fruta e obtém essa quantidade de fibra, então, não é recomendado por nenhum aspecto. Ela não deveria fazer parte da alimentação saudável de uma criança”, afirma.

A certeza

O apelo está no preço e na praticidade da bolacha. Quando famílias de baixa renda não têm muitas alternativas, ou com o ritmo agitado do dia a dia, a bolacha Maria acaba sendo a melhor escolha. E, realmente, essa Maria não faz distinção de raça ou classe social, está em todas as casas, promovendo a alegria da criançada e dos adultos. A maior parte do que consumimos na nossa alimentação diária não é saudável, mesmo sendo desnecessário, alguns desses alimentos têm um gosto especial. A bolacha tem gosto de história, e a Maria, em especial, tem gosto de afeto. Não só por ser um dos nossos primeiros alimentos, mas porque muitos gaúchos têm uma recordação afetiva e especial com ela. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER Minha mãe se chama Maria Helena, a mãe dela, minha avó, se chamava Maria Thereza. Elas foram Marias decisivas na minha vida, mas para escolha dessa pauta eu busquei na minha memória um outro nome, Aurélia. Mais conhecida como vó Lela, a mãe de meu pai, era uma italiana dos olhos claros com dotes culinários no mínimo peculiares. Na verdade, ela não seguia o padrão FIFA vovó na cozinha, mas a recordação mais viva que eu tenho é da vó Lela fazendo papeta de bolacha Maria para mim, no café da manhã. Para quem não conhece, papeta é leite com café, que pode ser misturado com pão ou bolacha. Foi uma das coisas que eu mais comi na minha infância. Bom, já tinha a pauta, mas o que escrever sobre uma bolacha? Durante a pesquisa, várias descobertas. Acontece que a bolacha tem muita história para contar que não cabe em sete mil caracteres. Sinto que o trabalho fica inacabado, talvez esse seja o aprendizado como jornalista dessa vez: sempre tem algo a mais para apurar ou aprender. Aqui vai só a ponta do iceberg, ou podemos dizer, o farelo da bolacha.


Minha profissão é ser mãe Histórias de MARIAS QUE TÊM COMO PRIORIDADE O cuidaDO DOS filhos

Por THAIS RAMIREZ. fotos de THAIS RAMIREZ e Thanise Mello

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las se chamam Maria e moram no bairro Três Marias em Esteio. Elas não se conhecem, mas têm em comum histórias de amor e dedicação aos filhos. A surpreendente notícia de que Maria Lopes seria avó aos 29 anos e a descoberta de Maria Silvane de que seus filhos tinham uma síndrome até então desconhecida pela família fizeram dessas duas mulheres mães em tempo integral.

Avó aos 29 anos

Aos 36 anos, Maria Lopes é mãe de quatro filhos e avó de três meninos: Pedro, Vitor e Lucas

Maria Lopes é mãe de quatro filhos. A primeira nasceu quando ela tinha 15 anos. Maria foi mãe solteira e Angelita, a primogênita, foi criada sozinha até os quatro anos. Mais tarde, com seu novo esposo, Maria teve mais três filhos, Israel, Miquéias e a mais nova, Miriam. Quando tinha 29 anos, já com

quatro filhos, ela descobriu que sua filha mais velha estava grávida também com 15 anos. Ela conta que foi muito difícil quando descobriu que sua filha estava enfrentando a mesma situação que ela viveu. “O começo foi um baque, eu vi ela passando pelo o que eu passei. Na minha época, eu parei de estudar para cuidar dela e ela também parou de estudar. Ela ficou com vergonha da barriga e até hoje não voltou a estudar ainda.” Segundo a psicóloga Vania Maciel, o medo de repetir a história de vida materna, em que um fato vivenciado pela mãe torna-se decisivo para a formação da filha, serve de referência para os critérios de sua educação, onde a jovem tende a abandonar os estudos ou metas profissionais. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em torno de 20,4% das mulheres no Brasil com a faixa etária entre 15 e 19 anos já tiveram um filho e somente cerca de 2% das adolescentes que engravidaram continuaram os estudos. Com uma filha de três anos e mais três filhos adolescentes, Maria se viu avó pela primeira vez. “Quando meu primeiro neto nasceu, ele ficou na UTI, pois nasceu prematuro, e domingo era dia da visita dos avós. Quando a enfermeira perguntou quem eram os avós, eu me apresentei, e ela ficou surpresa pela minha idade. Ela não queria me deixar entrar, chamou a minha filha que estava em repouso

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para confirmar se eu era mesmo a mãe dela.” Hoje com 36 anos, ela já tem três netos, todos filhos de sua primogênita e do genro, que continua com Angelita até hoje. Pedro, de sete anos, Vitor, de cinco anos, e Lucas, de três. Maria está construindo uma casa nos fundos da casa de sua filha. “Eu sou aquela mãe que quero estar sempre junto deles. Por mim, eles não saem de perto nunca. Eu não vi meus filhos crescerem. Trabalhava em uma fábrica, e a mais velha que cuidava dos meus mais novos. A Miriam, de 10 anos, foi a que eu mais acompanhei.” Miriam possui apenas três anos de diferença de seu sobrinho mais velho. Maria conta que a relação das crianças é muito boa. “Miriam quer estar sempre na casa de sua irmã, brincando com os sobrinhos.” Maria atualmente se dedica somente aos cuidados com a família. Angelita está com 22 anos, Israel tem 18 e Miqueias 15. Ela sonha em montar um salão de beleza, está se formando como cabeleireira, pois esta profissão permite a flexibilidade de fazer seus horários e poder estar mais perto dos filhos e dos netos.

Descoberta de uma síndrome

Maria Silvane Severo é mãe de dois meninos, Taylor e Thiery, 15 e 10 anos respectivamente. Com o nascimento do segundo filho, ela descobriu que os dois possuem a síndrome de X-frágíl. Com a cabeça baixa, revela como foi difícil aquele momento. “Eu descobri a síndrome quando o meu mais velho tinha oito anos e o mais novo já tinha três. Taylor já havia passado por váP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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rios exames e ninguém nunca havia descoberto o que ele tinha”. Até que um dia ela viu uma reportagem na TV e as crianças da reportagem tinham as mesmas atitudes dos seus filhos. “Eles se sacudiam, beliscavam e faziam tudo igual o que meus filhos faziam. Olhei para o meu esposo e disse, os meninos têm isso. Até que fiz os exames e descobri que os dois possuíam a síndrome do X-frágil.” De acordo com o site xfragil. org.br, uma em cada 250 mulheres e um a cada 700 homens possuem a pré-mutação no Brasil. Ela pode ser passada para diversas gerações, até que um dia a mutação se torne completa e nasça uma criança afetada por ela. “Até agora vinha dormindo dentro de mim, até que acordou e se manifestou nos meus filhos”, conta Maria Silvane. A irmã de Maria ainda não está grávida, mas fez os exames e foi diagnosticado que ela também carrega a pré-mutação, tendo 50% de chance de seus filhos nascerem com a síndrome. Maria explica que esse exame é muito caro. Sua irmã encontrou o

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mais barato por 600 reais. Segundo ela, como o SUS não oferece o exame, crianças que têm algum atraso na escola podem possuir a síndrome, ainda sem diagnóstico. O mais novo estuda em escola pública e o mais velho, por estar na oitava série e ainda não saber ler, nem escrever, foi levado para a Apae. A síndrome afeta a fala e a aprendizagem das crianças e, por causa dos meninos apresentarem uma aparência normal, ela conta que já sofreu muito preconceito. “Eles chegam no trem e querem um banco para sentar e gritam que querem um lugar para a mãe sentar também. As pessoas em volta não sabem o que eles têm e acabam achando que eles são somente crianças mal educadas”, conta Maria. Os meninos são acompanhados por geneticista, neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo e tomam muitas medicações. A dificuldade na compra dos remédios também se tornou uma complicação na vida de Maria. “Eles tomam seis comprimidos por dia, alguns eu ganho e outros tenho que comprar, e eles são

bem caros. Não trabalho para poder cuidar deles. Levo eles em todos os exames e não paro nunca.” Mas, apesar dos desafios que ela enfrenta, se orgulha da independência e da sabedoria dos filhos. “O Thiery é muito esperto no computador, sabe tudo. Já o mais velho é bom na mecânica. Se ele escuta um barulho no carro, já sabe o que é. Quando vamos viajar, Taylor sempre sabe o caminho, ele não se perde nunca, é um GPS. Se vamos por um caminho diferente, ele questiona. Eles também esquentam comida e trocam de roupa de sozinhos”, conta comovida com cada conquista dos filhos. Maria não mede forças para cuidar dos filhos e doa todo o seu amor em tempo integral para eles.

Maria Silvane Severo é mãe de Taylor e Thiery, ambos com a síndrome do X-frágil

THAIS RAMIREZ

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER A minha primeira ideia era entrevistar diferentes Marias que morassem no bairro Três Marias em Esteio e ouvir algumas histórias delas. Após conseguir as fontes, fui ao encontro delas. A primeira entrevista foi com Maria Lopes. No começo da conversa, ela disse que não sabia o que dizer e que não tinha nada de relevante para contar. Então comecei a puxar assunto, perguntei quem eram os meninos que estavam correndo atrás dela e ela me contou que eles eram seus netos. Minha primeira reação foi de surpresa, pois ela não aparentava já ser avó de três netos. Questionada, ela revelou que foi avó aos 29 anos e me contou a sua história. No mesmo dia fui à casa da Maria Silvane, minha segunda entrevistada. Ela me contou sobre a vida de seus filhos e sua convivência com eles. Ao sair das entrevistas, percebi que as duas histórias se ligavam de alguma forma: a dedicação delas com os filhos. A conversa com as duas Marias me fez perceber a genuinidade deste tipo de relação. Então resolvi falar sobre este assunto, sobre essas mães que abrem mão de suas vidas para cuidar de seus filhos.


Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Endereço: avenida Unisinos, 950. São Leopoldo, RS. Cep: 93022-750. Telefone: (51) 3591.1122. Internet: www.unisinos.br. ADMINISTRAÇÃO REITOR: Marcelo Fernandes de Aquino VICE-REITOR: José Ivo Follmann PRÓ-REITOR ACADÊMICO: Pedro Gilberto Gomes PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO: João Zani DIRETOR DA UNIDADE DE GRADUAÇÃO: Gustavo Borba GERENTE DE BACHARELADOS: Vinicius Souza COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO: Edelberto Behs

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Thaís Furtado (thaisf@unisinos.br) - Redação Flávio Dutra (flavdutra@unisinos.br) - Fotografia

Reportagem

Atividades Acadêmicas: Redação Experimental em Revista / Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial Amanda Cunha, Carolina Lima, Daniela Tremarin, Deivid Duarte, Émerson da Costa, Fernanda Fauth, Fernanda Salla, Franciele Arnold, Jean Peixoto, Juliana Silveira, Laura Gallas, Luan Pazzini Mendonça, Luísa Boéssio, Mainara Torcheto, Marco Prass, Mariana Blauth, Mariana Dambrós, Milena Riboli, Milene Magnus, Nathália Mendes, Nicole Fritzen, Priscila Serpa, Thais Ramirez, Thayná Bandasz, Thiago dos Santos e Victoria Silva REVISÃO: Fernanda Fauth, Franciele Arnold, Jean Peixoto, Marco Prass, Mariana Blauth e Nicole Fritzen ESTAGIÁRIA DOCENTE: Letícia Rossa Monitor: Cristiano Vargas

Fotografia

Atividades Acadêmicas: Projeto Experimental em Fotografia Aniele Cerutti, Arthur Moraes, Bruna Flach, Cassiano Cardoso, Franciele Costa, Gustavo SchenkeL, Jessica Martins, João Rosa, Larissa Hoffmeister, Laura Pavessi, Leandro Luz, Leonardo Severo, Liege Barcelos, Marcella Lorandi, Matheus Alves, Nagane Frey, Natália Collor, Pedro Gabriel Viero, Pedro Kobielski, Renata Cardoso, Thaís Montin, Thanise Mello, Victor Okajima e Vinicius Bühler MonitorA: Thanise Mello Foto de capa: Cassiano Cardoso

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Agência Experimental de Comunicação (Agexcom) COORDENADORA-GERAL: Thaís Furtado

Editoração

ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA: Thaís Furtado SUPERVISÃO TÉCNICA E PROJETO GRÁFICO: Marcelo Garcia DIAGRAMAÇÃO: Mariana Matté e Marcelo Garcia

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ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA: Vanessa Cardoso SUPERVISÃO TÉCNICA: Robert Thieme ATENDIMENTO: Marrih Laidens Direção de arte: Júlia Mattei Andrade Redação: Cibele Alves Gomes Arte-finalização: Pamella Rorigues

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Revista experimental produzida por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 46. Dezembro de 2016.

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