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Curso de Jornalismo . Unisinos . Porto Alegre . RS

Lupa.

Edição

Especial

Os sete

pecados capitais

novembro.2016

Para a religião católica, a confissão dos pecados é uma das maneiras de ser perdoado

Atire a primeira pedra

g Todos os seres

humanos estão sujeitos ao erro

A

popularização dos sete pecados capitais pode ser observada nas reproduções iconográficas, ao longo dos séculos. Como por exemplo, na tábua do pintor holandês Bosch, de 1475. Essas imagens doutrinárias existem desde a Idade Média e difundiram a moral cristã, identificando a preguiça, gula, ira, inveja, avareza, soberba e a luxúria como pecados. O termo que deriva da palavra capital vem do latim caput, relativo à cabeça, o que é superior aos outros. A etimologia explica o adjetivo capitalis como “o que está acima dos outros; principal, dominante”. Na economia, traz a ideia de abundância e influência. Também tem relação com capítulo, ou com o que captamos, assimilamos. Tratam-se de pecados que se agravam com a repetição. São

vícios que, assim como o dinheiro, acumulamos. De acordo com o teólogo Calimério Moura, que estudou teologia na Universidade Batista de São Paulo, o pecado, segundo a tradição cristã, é uma atitude que Deus desaprova, ou seja, é “errar o alvo”. O conceito de pecado surge muito antes do cristianismo, a partir da ideia do pecado original, ou da quebra da ligação entre o homem e Deus, representado pela narrativa de Adão e Eva, segundo o Pastor Luterano Valdemar Shultz, teólogo e professor da Rede Sinodal. O surgimento dos pecados capitais datou do século IV d.C, incluídos na lista de um monge chamado Evágrio do Ponto entre os pecados que considerava os mais graves. Entre eles, estava a melancolia. Mais tarde, esses pecados foram oficializados pelo Papa Gregório Magno, como são conhecidos até hoje. Os sete vícios são os mais corriqueiros. “A gula está relacionada à fome, a inveja, à algo que o outro tem que você gosta-

ria de ter, e assim por diante”, diz Calimério. Para o pastor Valdemar, apesar da doutrina e ensino dos sete pecados capitais fazerem parte da tradição católica, a identificação das pessoas com essa lista se dá por tratarem de questões da ambiguidade humana. “A experiência de vida mostra que a incoerência e as contradições fazem parte do ser humano em suas múltiplas relações”, diz. Valdemar, cujo sacerdócio ecumênico prega a tolerância, ainda acredita que é preocupante a dimensão que a ira alcança em forma de violência gratuita e generalizada em nossa sociedade. Para ele, não existe um pecado dentre eles o mais grave, mas, se fosse escolher um, escolheria a avareza. “Para muitos, a inveja é a origem dos males da sociedade, eu creio que seja a avareza o pior dos pecados, pois, além de incluir a inveja, leva a pessoa a se tornar extremamente materialista em detrimento dos valores e das relações pessoais.” A remissão dos pecados pode

ser feita através do arrependimento, da confissão, por meio da oração, ou pelo abandono. Mesmo assim, o teólogo Calimério acredita que alguns são para a vida toda. “Isso mexe com a questão do caráter, não no sentido de ser mau caráter, mas no sentido de que o pecado já está naquela pessoa, já faz parte dela. Os exemplos são ira, gula e vaidade. Isso você não controla, mas pode amenizar.” A importância do perdão Muitas pessoas também acreditam que quem peca tem mais dificuldade de chegar ao céu. “Eu vejo isso como uma tamanha besteira, pois somos seres humanos e estamos sujeitos ao erro ou ao pecado. Isso é uma ideia de cristãos fundamentalistas. Deus é amor. Se a pessoa se confessar, Ele perdoa”, diz Calimério. Para ele, há uma visão muito distorcida do cristianismo, pois muitos cristãos colocam Deus numa “caixa doutrinária”.

Valdemar também acredita que Deus não condena. “As igrejas protestantes não ensinam os sete pecados capitais, considerando que não há diferença entre um pecado pequeno ou grande, pois qualquer afastamento da comunhão com Deus carece de perdão, reconciliação e renovação.” No Evangelho de João, capítulo 8, está a narrativa com a famosa frase: “Quem não tiver nenhum pecado, que atire a primeira pedra”. Nessa passagem, entende-se muito sobre a ideia do perdão. Jesus perdoou uma mulher que cometeu adultério e evitou que ela fosse executada pelos que a condenavam. Quando ouviram essas palavras, sentiram-se acusados pela própria consciência. Portanto, independente de religião, a reflexão sobre os pecados é algo complexo que depende do contexto histórico e cultural. Texto Cora Zordan Foto Liane Oliveira


2 EDITORIAL

Pecado é não questionar Quais serão os principais pecados dos jornalistas? Não saber ouvir um entrevistado? Não checar uma informação? Não entregar a matéria no prazo? Cada profissão tem suas responsabilidades. Os jornalistas, por exemplo, têm a importante função de informar com credibilidade, e um de seus principais dilemas é sempre ter que fazer escolhas. Falar de um tema, significa deixar de tratar de outro. Apenas algumas fontes serão selecionadas. Somente algumas falas dos entrevistados serão usadas. Apenas algumas imagens serão vistas. No jornalismo impresso, isso é ainda mais cruel, pois o espaço é restrito. As decisões, portanto, são mais sofridas, e os erros, mais perenes. Nesta edição do Lupa, os alunos-repórteres decidiram falar de pecados capitais, aqueles que, para Igreja Católica, dão origem aos demais. Gula, avareza, luxúria, ira, preguiça, inveja e vaidade podem ser considerados vícios, mas também podem ser encarados como doenças, ou até podem ter seu lado bom. Um dos pecados que os jornalistas não podem cometer é não questionar, é não tentar desconstruir estereótipos. Foi dessa maneira que esses sete pecados foram encarados pelos alunos que produziram esta edição do jornal. Provocar a reflexão foi a proposta. Pecado seria não ler suas reportagens.

EXPEDIENTE Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Av. Luiz Manoel Gonzaga, 744, Bairro Três Figueiras - Porto Alegre/ RS. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: José Ivo Follmann. Pró-reitor Acadêmico: Pedro Gilberto Gomes. Pró-reitor de Administração: João Zani. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente de Bacharelados: Vinicius Souza. Coordenadora do Curso de Jornalismo: Thaís Furtado. REDAÇÃO – O Lupa (Leia Unisinos Porto Alegre) é um jornal produzido por alunos da disciplina de Jornalismo Impresso II do Curso de Jornalismo da Unisinos Porto Alegre. Orientação: Thaís Furtado. Textos e fotos: Alessandro Sasso, Arthur Marques, Cássio Camargo, Cora Zordan, Liane Oliveira, Paulo Egidio, Renata Simmi e Tina Borba. ARTE – Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico e diagramação: Marcelo Garcia. Diagramação: Mariana Matté. Impressão: Grupo RBS. Tiragem: 1.000 exemplares.

PREGUIÇA

Lupa

Um trabalhador baiano FRANCISCO CHAVES

g Zelador migrante

do Nordeste quebra estigma de que seus conterrâneos não gostam de trabalhar

P

reguiça é definida pelos dicionários como indisposição para realizar uma ação. Foi considerada um dos setes pecados capitais oficialmente no século VI pelo Papa Gregório Magno. No Brasil, existe o preconceito de que os cidadãos do estado da Bahia sejam preguiçosos. O estereótipo surgiu a partir dos próprios baianos, segundo conta o professor Luiz Otávio Rocha, sociólogo graduado na Faculdade Porto-Alegrense. “Antigamente, era comum os burgueses chamarem os escravos de preguiçosos para desvalorizá-los.” Existe uma via em Salvador chamada de Ladeira da Preguiça, que liga o porto com o restante da cidade. As mercadorias que chegavam de navio eram transportadas ali pelos escravos sob os olhares da elite que residia ao longo do trajeto. “Enquanto os africanos subiam a lomba carregando muito peso, a burguesia ria da dificuldade gritando que eles estavam com preguiça, pela suposta lentidão em cumprirem seu trabalho”, explica Luiz Otávio. Com a industrialização a todo vapor na segunda metade do século XX, nordestinos eram atraídos por vagas de emprego nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Lucas Cardoso Silva, baiano de 28 anos, migrou para Porto Alegre junto de seu pai a procura de uma vida mais digna. “Passávamos por muitas dificuldades em Salvador, meu pai tinha uma pequena mecânica de carros que ia de mal a pior financeiramente. Um dia ele conseguiu vender o negócio e, uma semana depois, já estávamos aqui no Sul”, relata. Lucas conta que no início foi complicado para o pai conseguir trabalho. “Não conhecíamos nada nem ninguém, por isso demorou quase três meses para meu pai arranjar um emprego de faxineiro numa escola de inglês. De preguiçoso ele não tinha nada. Saía até no domingo procurando alguma oportunidade, já que nosso dinheiro estava quase no fim.” Hoje Lucas é zelador de um condomínio na zona norte da cidade e, segundo ele, é muito bem quisto pelos moradores.

Lucas mudou-se de Salvador para Porto Alegre há 12 anos com o pai

ALESSANDRO SASSO

A cantora Gal Costa causou polêmica ao colaborar com este clichê de que supostamente o cidadão baiano não gosta de trabalhar. “Como na Bahia as pessoas são preguiçosas! Técnico do ar-condicionado não pode terminar o trabalho porque está com dor de cabeça. Essa é a Bahia!”, publicou a cidadã salvadorense em sua conta do twitter na época. Após o fato, alegou saber do que estava tratando por ser baiana e deletou seu perfil na rede social considerando que os demais usuários estavam sendo intolerantes e grossos. Valorização cultural

“Eu raramente sofri preconceito por conta dessa ideia da gente ter a preguiça no corpo. Acho que antigamente isso era mais forte. Mas eu não ligo, a única coisa que me incomoda é quando fazem piadas com meu sotaque.” Já com carro próprio comprado exclusivamente com seu dinheiro, o baiano que veio morar no Sul agora quer comprar um apartamento para ficar cada vez mais independente. “Todo mês eu guardo algum dinheiro. Depois que eu comprar um apartamento, meu sonho é abrir algum negócio em que eu possa valorizar a

cultura do Nordeste”. O migrante relata que só quando veio morar em Porto Alegre percebeu como era importante cultivar os hábitos de onde nasceu. “O próprio baiano não se valoriza. Só percebi como temos muita riqueza em nossa música e literatura quando fui instigado pelo bairrismo que encontrei aqui por parte dos gaúchos. Passei a querer saber mais de onde eu vim e sobre quem fez história por lá. É uma maneira de matar a saudade também.” Em 2011, um fato chamou atenção para o que Lucas afirma.

“As próprias novelas da televisão quase sempre se passam em São Paulo ou Rio de Janeiro. Isso, entre outras coisas, colabora para o esquecimento da cultura riquíssima que todo o Norte e Nordeste possuem. E quando tentam valorizar, é com pouca complexidade. Quem não lembra da Suzana Vieira tentando reproduzir o sotaque nordestino na novela Senhora do Destino?”, problematiza o professor Luiz Otávio. Texto e Foto Alessandro Sasso Foto Francisco Chaves


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GULA

Lupa

De acordo com o Ministério da Saúde, mais da metade dos brasileiros está acima do peso

A negação de um problema g Tida como um

pecado praticável, a gula é diretamente ligada ao descontrole emocional

V

ocê acorda atrasado e toma banho em cinco minutos. Sai de casa correndo, pois não há tempo para o café. No almoço, verde de fome, come bastante para “compensar” a falta de nutrientes. À tarde, no intervalo, devora um generoso misto quente e bebe uma lata de refrigerante. Voltando para casa, fica com pena do menino que vende apetitosos doces na sinaleira e compra dois, que consome antes de chegar em casa. O jantar se resume a uma pizza e mais refrigerante, para dar tempo de terminar o trabalho extra ou o freela que deve ser entregue até o dia seguinte. Essa rotina cada vez mais dinâmica e consumidora de nosso tempo provoca sérias consequências na forma como nos alimentamos. Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, realizada em 2015, mais da metade dos brasileiros (52,5%) está acima do peso. E isso vai muito além do que pode se chamar de gula.

No artigo “Obesidade psicológica - você tem fome de quê?”, a psicóloga Mary Scabora e a nutricionista Kelly Kathryn de Oliveira são categóricas ao apontar a influência de questões emocionais no consumo de alimentos. “As dificuldades afetivas podem precipitar alteração no comportamento alimentar, levando a comer além do necessário ou até compulsivamente. Nesse sentido, o alimento substitui o afeto perdido, e o indivíduo encontra certo alívio através de um excesso que ‘preenche’ o vazio emocional”, afirma o texto. De fato, isso se reflete na impressão de quem sofre ou já sofreu com o problema. É o caso da professora Elenice Zacarias, de 43 anos, residente em Maximiliano de Almeida, no interior do Rio Grande do Sul. Depois de passar pela cirurgia bariátrica (redução de estômago), ela viu sua rotina mudar. E, olhando para o passado, garante que a obesidade á causada por fatores maiores do que a gula ou de alteração hormonal. “Ela reflete muitas vezes nosso estado emocional, que causa uma relação desequilibrada do corpo com o alimento. Muitas vezes estamos exaustos de tanto comer e ainda estamos procu-

rando comida”, atesta. Nutricionista e doutora pela UFRGS, a professora da Unisinos Ana Harb estabelece um paralelo entre as razões da doença. “Parte das causas está relacionada à gula, pois o controle alimentar é necessário para manter um peso saudável. Entretanto, com a grande oferta de alimentos superprocessados e altamente palatáveis, há facilidade na obtenção daqueles que superam o gasto energético do indivíduo, colaborando para o ganho de peso”, expõe, sublinhando que a doença é multifatorial, relacionada a fatores genéticos, hábitos de vida, questões psicológicas e ao meio ambiente. A psicologia explica “É importante que a pessoa procure ajuda para entender quais os gatilhos que a fazem comer em demasia e de forma errada”, ressalta a psicóloga Bárbara Berwanger. De acordo com ela, o tratamento da obesidade deve envolver auxílio psicológico e nutricional, e diferentes emoções podem contribuir para a o consumo de alimentos em demasia. “Há casos onde tudo é motivo para comer: tristeza, alegria, frustrações ou realizações”, explica.

Bárbara conta que muitos não compreendem a razão de realizar o acompanhamento com um profissional da área. “Os pacientes precisam entender, além do que e quanto comer, o porquê comem e escolhem tais tipos de alimentos e deixam outros de lado”, observa, exaltando quem opta por buscar ajuda. “Procurar terapia é um ato de coragem, de quem está disposto a olhar para as questões internas para resolver seu problema.” Mão amiga Para orientar quem sofre com a obesidade excessiva e procura ajuda, existe a Associação Brasileira de Apoio aos Operados Bariátricos (Abaob), sediada em Porto Alegre. Apesar do nome, ela não auxilia apenas quem já passou pela cirurgia, mas também aqueles que a procuram como última alternativa. “Muitas pessoas chegam aqui para realizar o acompanhamento para a operação, mas durante o processo de preparação emagrecem por conta própria”, afirma Jussara Tessele, vice-presidentedaorganização. Na sede da entidade, que fica no Bairro Menino Deus, é feito o encaminhamento terapêutico, psicológico e nutricional

das pessoas que se preparam e que já realizaram a cirurgia. A estrutura conta com academia de ginástica e dispõe de profissionais de dança, massoterapia, fisioterapia e até aulas de inglês, dentre outros serviços. Jussara, que depois da operação perdeu 33 quilos e hoje coordena os trabalhos da associação, afirma que problemas psicológicos são os maiores responsáveis pela obesidade. “90% dos obesos são pessoas que passam por conflitos ou traumas, ou quem sofre de depressão e têm no ato de comer seu grande prazer.” Atualmente, a Abaob tem aproximadamente 90 filiados. Cada um deles contribui com R$ 150 anuais, que dão direito também à carteirinha da entidade. Como próxima meta, a administração busca incluí-la na condição de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), para contar com apoio governamental em projetos futuros. Projetos que serão cada vez mais necessários, até que se passe a entender as verdadeiras causas da obesidade. Que muito transcendem a simples satisfação do paladar. Texto e Foto Paulo Egidio


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LUXÚRIA

Lupa

Há limites para o prazer? g Entre 3 e 6%

da população mundial sofre com a compulsão sexual

M

ãos nervosas girando o anel no dedo anelar de forma impaciente. Os olhos vidrados na tela do computador e o pensamento vagando sem conseguir produzir o relatório que o chefe espera. Em seu interior, apenas a vontade incômoda de ir correndo para casa masturbar-se em frente ao primeiro pornô que o Google lhe apresentar. Essa é uma história hipotética, mas, para inúmeros brasileiros, ela é muito real. A palavra luxúria tem origem no latim luxuriae, que significa lascívia, sensualidade. A luxúria é um dos sete pecados capitais que, segundo a doutrina católica, são pecados que servem de “porta” para outros. Aquele que comete o pecado da luxúria entrega-se de forma desregrada aos desejos carnais, principalmente de ordem sexual. Na verdade, na sociedade, é aceitável – e até desejável – que a constância das práticas sexuais seja mantida. “Hoje o sexo se transforma também numa moeda de troca e de prestígio. Ter muitos parceiros, ou parceiras, significa poder”, pontua o professor de sociologia da Universidade de Passo Fundo (UPF) Ivan Dourado. E as mensagens voluptuosas não estão apenas nas letras dos funks “proibidos”,

A cada segundo, 28 mil pessoas no mundo acessam conteúdos pornográficos na internet

ou nas propagandas de cerveja e desodorante. Aparecem também nas novelas, nos programas de auditório e em muitos conteúdos da TV aberta, que, segundo dados do IBGE (2013), atingem 97,2% dos lares brasileiros. Além disso, de acordo com o site MBA Online, a cada segundo, 28 mil pessoas no mundo acessam conteúdos pornográficos na internet. “A pessoa com compulsão sexual usa uma grande parte do seu tempo pesquisando pornografia, se masturbando e buscando parceiros”, aponta a psicóloga formada pela PUCRS Juliana Velloso Fumegalli. Para ela, isso se torna realmente um problema quando começa a atrapalhar o trabalho, cria dificuldades pessoais e financeiras. Além disso, assim como em outros tipos de dependência, as práticas sexuais de um compulsivo aumentam de intensidade e frequência ao longo do tempo, sem obter a mesma satisfação, destaca o terapeuta sexual do Centro de Sexualidade Humana, Diego Villas-Bôas da Rocha, de Porto Alegre. A princípio não deveria ter problema nenhum que uma pessoa fizesse sexo quantas vezes quisesse e com quantos parceiros desejasse. Todavia, como é possível determinar até onde vai o prazer e onde começa a doença? “O sexo está acima de outras coisas que tu aspiras na vida? Tu estás perdendo coisas ou pessoas para dar conta dessa necessidade sexual?”, pergunta o terapeuta. O aumento gradual na

procura por parceiros, o sofrimento pós-coito e a perda de qualidade de vida são os principais indícios de que algo está fora do lugar. “Eu nunca me via satisfeito” Marcos Vinícius de Oliveira, 32 anos, cabeleireiro, enfrenta o desejo excessivo e a ansiedade de nunca saciá-lo por completo todos os dias desde o início de sua vida sexual. Aos 18 anos, foi diagnosticado com transtornos sexuais. Depois disso, ficou casado por sete anos: ”No início do meu casamento, eu pesava 66kg e passei para 91kg. Na época, era assim que eu compensava a falta de sexo”. Depois de se separar, ele teve dois namoros sérios e entrou num período de solteirice, quando finalmente entendeu que a sua libido é muito maior do que a da maioria das pessoas e pode sim ser prejudicial a ele mesmo. “Foi aí que eu encontrei o maior problema. Quem gostava de mim de verdade começou a se preocupar. Eu fui promíscuo de todas as formas possíveis e imagináveis ao longo desses dez meses.” Vini, como prefere ser chamado, é da cidade de Montenegro, no interior do Rio Grande do Sul, foi criado pelo pai e pela mãe com abertura para discutir em casa as dúvidas sobre sexo e, mesmo com uma criação estável, acabou sucumbindo. No auge do vício, teve relações sexuais com três pessoas diferentes no mesmo dia: “Eu nunca me via

satisfeito. Não é orgulho, até bem pelo contrário. Mas, se dependesse de mim, era uma coisa que não tinha fim, a gente não precisaria dormir”. Após um período de análise, ele se deu conta de que é uma pessoa melhor para ele mesmo quando está em um relacionamento: “A minha vida de solteiro eu não quero, não quero aquela facilidade que existia antes, aquela promiscuidade em que eu não me reconhecia, não me via seguro comigo mesmo”. Hoje está namorando há quase dois anos, com Harry Consul, 26 anos, e são felizes, apesar das discussões: “Não me considero uma pessoa das mais sexuais, então acredito que somos extremos um do outro. As nossas discussões giram em torno praticamente desse assunto: pra ele, a falta de sexo”, comenta Harry. Transtorno bipolar, depressão, ansiedade, uso de drogas, tudo isso

pode ou não estar associado ao vício em sexo. Não é sem-vergonhice e nem libertinagem, é uma doença e, como tal, precisa de tratamento. “Para uma intervenção adequada é muito importante que se faça o acompanhamento psicológico. Existem alguns medicamentos psiquiátricos que podem ser utilizados conjuntamente para ajudar”, afirma a psicóloga Juliana. Outro modo de tratamento são os grupos de apoio, semelhantes ao famoso Alcoólicos Anônimos (AA), para dependentes em álcool. Em Porto Alegre, ocorrem semanalmente as reuniões dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA). As reuniões são gratuitas e privadas. A procura por ajuda é o primeiro passo para o fim de um sofrimento. Texto e Foto Tina Borba

Você tem compulsão sexual? Caso a sua resposta para a maioria das perguntas abaixo seja “sim”, considere procurar a ajuda de um profissional. — Você está cada vez passando mais tempo em função das atividades sexuais? Fantasiando ou fazendo sexo? — O tempo de energia gasto com o comportamento sexual tem que ser cada vez maior para que a satisfação não diminua? — Quando termina a relação sexual, você se sente mal, ou triste? — Você já fez alguma promessa de que não ia ter determinado comportamento sexual e não conseguiu cumprir? — Você já fracassou ao tentar mudar seu comportamento sexual? — Família, amigos, estudos, atividades de lazer. Você está deixando algum desses itens para trás em função do sexo? Fonte: Diego Villas-Bôas da Rocha, terapeuta sexual


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INVEJA

Lupa

Espelho, espelho meu g Especialistas

comentam como as crianças lidam com os sentimentos que os contos apresentam

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mundo imaginário dos contosdefadaséidealizado pelas crianças desde muito cedo. Algumas meninas desejam ser princesas. Tem aquelas que se sentem mais à vontade como bruxinhas ou heroínas. Já alguns meninos querem ser super-heróis, vilões ou príncipes. Por meio dessas histórias, as crianças são capazes de se aproximar dos personagens e expressar seus sentimentos. Nos contos de fadas, as bruxas sentem inveja das princesas pela beleza, carisma e simpatia que elas possuem. Muitas vezes, as bruxas acabam sendo as madrastas e fazem de tudo para dificultar a vida da enteada. Na vida real, as crianças passam a se vestir como os personagens e a adquirir produtos do desenho que gostam. Nas escolas, os professores contam diversas histórias que mexem o imaginário dos alunos. Por outro lado, vários sentimentos podem ser provocados nos pequenos. Até quanto isso pode interferir na vida da criança? Conforme a psicóloga Roberta Bellini, de Bento Gonçalves, na Serra gaúcha, os contos são instrumentos de trabalho muito importantes que auxiliam a criança a lidar com a ansiedade que está vivenciando. “As crianças aprendem a superar obstáculos, e isso beneficia o desenvolvimento da personalidade. Além disso, conseguem maior concentração nas suas atividades e ainda aprendem a respeitar as demais pessoas por meio desses contos”, esclarece. Para alguém reconhecer que sente inveja, é um tanto quanto doloroso, seja para as crianças ou para os adultos. As pessoas começam a se questionar o porquê desse sentimento e a procurar motivos. Porém, deve-se trabalhar isso e aprender a direcionar o sentimento de forma positiva. Roberta comenta que a inveja faz parte da natureza. “Num primeiro momento, julgamos esse sentimento como algo errado, feio, baixo. Quando invejamos os outros, sentimos vergonha ou ficamos assustados e nos reprimimos. Se percebermos a inveja dos outros, ficamos com medo ou raiva da outra pessoa. Porém, a inveja faz parte da natureza humana e, portanto, faz parte diretamente de todos nós”, comenta. Deve-se levar em conta que as crianças ainda estão aprendendo a diferenciar os sentimentos. “Para a criança de três ou quatro anos, ou você é bom ou você é ruim, ou você está certo ou você está errado. Ela ainda não entende que existem pessoas legais que algumas vezes fazem coisas que não são tão legais assim”, diz a psicóloga. Por outro

lado, existem crianças que gostam de ser o vilão. Roberta explica que os pais devem ficar atentos. “Quando a criança só quer brincar de ser o vilão, os pais devem encorajar a trocar de papéis de vez em quando. Isso vai ensinar para a criança uma coisa importante, que ele pode se redimir mesmo quando fizer uma coisa ruim”, afirma a psicóloga que é especialista no atendimento de crianças. O exemplo está em casa Os pais devem conversar com os seus filhos sobre a inveja, mas não exclusivamente sobre o seu Os pais devem falar sobre a inveja com as crianças para que não se torne algo negativo

lado ruim, de como as pessoas invejosas não conseguem ser felizes. Deve-se falar sobre os sentimentos e as emoções que a inveja gera. Por meio dos contos, os pais conseguem responder várias questões e de certa forma educar os filhos de uma maneira lúdica. Para a gerente financeira Patrícia Voltz Cesca, mãe das gêmeas de cinco anos Rafaele e Manuele, os desenhos ajudam no diálogo. “Em casa eu comento com elas que não é legal sentir inveja das pessoas e dos amigos da escola, porém insisto que todos têm as suas qualidades e é isso que importa”, detalha. Além disso, Patrícia acredita que os desenhos

não interferem de forma negativa na vida das suas filhas, pois em casa elas são bem instruídas. Rafaela e Manuela preferem se vestir com as roupas das princesas, pois os vestidos são mais coloridos dos que os das bruxas, os cabelos são mais bonitos e os sapatos são brilhantes. “A roupa da princesa é mais bonita”, comenta Rafaela. Conforme Patrícia, as meninas não sentem inveja uma da outra, mas, quando se vestem, sempre comentam que o vestido da outra é mais bonito. “Eu costumo destacar que todas têm as suas belezas. Se o vestido de uma é mais bonito, o cabelo da outra é mais bonito, por isso todas têm as

suas qualidades”, completa. No olhar do professor A escola também é responsável pela formação das crianças. Muitas coisas que são ensinadas na sala de aula refletem no comportamento de cada aluno. Por isso que muitas vezes os professores apresentam atividades como passar filmes, contar histórias, trabalhando com a criatividade e a imaginação. Por conta disso, a professora de Educação Infantil, da Escola Oficina da Criança, de Bento Gonçalves, Daiane Marchioretto, observou sua turma em uma aula, mostrando o clássico da Disney Branca de Neve e os Sete Anões. Ela comenta que o olhar atento dos pequenos foi um fator importante para desvendar o que eles pensam sobre a inveja. “Fiz uma observação e notei que eles prestaram atenção do início ao fim do filme. Alguns comentaram que, se a bruxa não tivesse complicado o caminho da princesa, ela não teria pelo o que lutar”, detalha. Os alunos costumam ver a inveja de modo ruim, porém, ao mesmo tempo, se identificam com algumas situações, explica a professora. “Tem crianças que gostam das bruxas, e algumas delas precisam disso para liberar os sentimentos ruins, como medos, raivas, tristeza que carregam”, completa. É importante conhecer os sentimentos e saber expressá-los da melhor forma possível. Algumas pessoas se identificam com um personagem com mais atitude, outras preferem os mais calmos. A verdade é que todos os sentimentos servem para a formação de cada um. Independente da inveja ser boa ou ruim, ela faz parte das nossas vidas e devemos aprender a conviver com isso.

A Fábula da Inveja Certa vez, um homem, extremamente invejoso de seu vizinho recebeu a visita de uma fada, que lhe ofereceu a chance de realizar um desejo. “Você pode pedir o que quiser, desde que seu vizinho receba o mesmo e em dobro”, sentenciou. O invejoso respondeu, então, que queria que ela lhe arrancasse um olho. Moral da história: para o invejoso, o prazer de ver o outro se prejudicar prevalece sobre qualquer outro desejo. Texto e Foto Liane Oliveira


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VAIDADE

Lupa

Beleza ainda é fundamental g Apesar da crise, o

mercado da beleza não teve queda tão forte quanto outros setores da economia

Nicole sentiu os efeitos da crise nas campanhas de cosméticos que revende, mas está otimista com o futuro

O

s problemas financeiros que vem assolando o Brasil nos últimos tempos vitimaram a economia em vários níveis de serviço, como o público, o automotivo, o das telecomunicações, entre outros. Porém, um deles, relacionado ao comércio, chama a atenção por conseguir alguma estabilidade: o mercado da beleza, que no Brasil representa 9,4% do mercado mundial, deixando o país atrás apenas de EUA e China, de acordo com a Euromonitor International. Como dizia Vinícius de Moraes, “beleza é fundamental”. A aparência está intimamente relacionada à autoestima e, graças a ela, é possível viver um pouquinho melhor, apesar das dificuldades que nosso país enfrenta. E o fato de o mercado da beleza não ter sido tão abalado pela crise financeira - com números razoáveis em 2015, sendo 1,8% do nosso PIB, segundo o IBGE - se dá pelos perfis dos clientes atuais, como cita Arley Kummer, gerente executivo do Sindicato dos Cabeleireiros do RS (Sinca-RS). “Além do tradicional público feminino, temos o público masculino, os jovens e as crianças, que também passaram a consumir os serviços desenvolvidos pelos profissionais do setor da área de embelezamento pessoal”, diz Kummer, O executivo explica, também, o que os brasileiros que trabalham na área devem fazer para não serem derrotados pela atual conjuntura econômica. “Os profissionais do setor da beleza devem sempre procurar se atualizar, buscando estar a frente de tudo o que é lançado mundialmente. Temos como referência da moda o continente europeu, precisamos estar acompanhando tudo o que acontece na atualidade”, explica. Sintomas da crise Em termos menos técnicos, do lado de quem coloca a mão na massa - ou nos cremes e xampus -, estão os donos de salões pelo Brasil afora. Um deles, Alberto Schonhofen, dono do salão Extremidad’s, em Charqueadas, na região metropolitana, conta que o local onde mantém o negócio foi um fator determinante para que sentisse certa diferença no lucro. “Numa região como a nossa, com pouca oferta de emprego, quem vinha fazer pé e mão toda a semana começou a vir quinzenalmente. O cliente que vinha cortar o cabelo a cada 30 dias passou a vir a cada 45 dias”, conta Schonhofen. Ele também trabalha na fidelização do cliente, como o desconto para pré-agendamento. “Se eu corto o cabelo de alguém, e vejo ‘o teu cabelo sai do corte em 30 dias. O corte é R$ 20. Se tu deixares marcado agora teu próximo corte, como já tenho vários horários marcados, eu cobro R$ 15 o teu próximo corte’. Ou seja, eu vou tendo uma visão física do que vou ter de serviços. É tudo preparação, estrutura, organização.” O momento mais crítico do trabalho, segundo Schonhofen, ocorreu no verão de 2016. “O primeiro quadrimestre do ano é ruim para o salão porque as pessoas não estão na cidade. Então, há um fluxo baixo de clientes e um volume de dinheiro menor, por causa do endividamento de início de ano”, afirma o cabeleireiro, que no salão

Para o cabeleireiro Alberto, estratégias de fidelização de clientes viraram arma contra queda do faturamento do salão

ainda mantém um estúdio de piercing e tatuagens. “É uma engrenagem. Com o FMI anunciando o crescimento econômico do Brasil, as pessoas vão conseguir emprego e assim voltam a consumir o que não consumiam antes”, acredita Schonhofen. Profissionais liberais do setor, como a revendedora e consumidora de cosméticos Nicole Reus, também sentiram o perfume da crise à sua volta. Ela, que se diz viciada em maquiagens, notou uma diferença para baixo nas vendas de produtos às suas ami-

gas. “Teve uma queda. Um exemplo: tinha clientes que compravam, de uma só vez, três batons, base, máscara de cílios e hidratante para o rosto. Agora, com a crise, as pessoas preferem comprar metade dos produtos por campanha. Escuto muito ‘não, não posso me endividar, guria, olha essa crise!’”, descreve Nicole, que, no entanto, acredita num futuro sempre próspero na área da beleza. “O futuro dos cosméticos só tem a crescer, e, sempre que aparece algo novo na área, desperta a curiosidade, principalmente nas mulheres, e

muitas acabam adquirindo produtos”. Como se nota, o setor de quem vive de aparências, aparentemente, não vive uma convulsão financeira como outros enfrentam. Ao que parece, para disfarçar imperfeições no mercado da beleza e causar uma melhor impressão aos consumidores, basta uma maquiagem à base de trabalho na cara feia que a crise exibe. Texto e Foto Cássio Camargo


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IRA

Lupa

É campo minado RENATA SIMMI

g A ira é um

sentimento pulsante e característico das torcidas organizadas durante as partidas futebolísticas

O

s estádios de futebol são símbolo de festa, democracia, paixão e fidelidade, tendo como protagonistas as torcidas que defendem e acompanham o clube de escolha. A preocupação com os resultados do time deixa os nervos aflorados. Cada grito, pulo ou canto, no entanto, significa o empurrão necessário para a vitória. Essas emoções nem sempre são controladas e, muitas vezes, acabam ocorrendo casos violentos tanto para torcedores, quanto para atletas e demais participantes. Por ser o esporte mais popular no país, o futebol provoca grande mobilização das pessoas. O estádio acaba sendo um local propício para a catarse de qualquer sentimento latente. O doutor em Educação e pós-doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Gregório Grisa destaca que o fenômeno da violência relacionado às torcidas organizadas, que cresceu dos anos 90 para cá, não se deve a reações pessoais de alguns, mas é parte da dimensão cotidiana de violência dos grandes centros urbanos na sociedade brasileira contemporânea. Há quem discorde. Na visão do conselheiro do Internacional pelo movimento O Povo do Clube Felipe Chagas, o estádio é o local onde, muitas vezes, os torcedores esquecem os problemas ou simplesmente descontam suas insatisfações. “A ira dos torcedores vem de situações vividas diariamente. Ele pode ter tido um péssimo dia, perder a partida, ouvir flauta de um rival e perder a cabeça. O futebol é um escape na sociedade”, afirma Felipe. Para o presidente da Torcida Independente Máfia Tricolor do Grêmio, Cristian Garcia, provocações entre torcidas adversárias não são premeditadas e, inclusive, fazem parte da emoção do jogo. “Desde que não sejam acompanhadas de comportamento violento, são saudáveis e fazem parte do futebol. Sem isso, perde a graça, vira apenas um jogo, e o futebol é mais do que isso”, destaca Cristian. O primeiro mandamento da Máfia Tricolor, caso aconteça de uma torcida adversária partir para a agressão, é defender o patrimônio do clube, da torcida e também defender os demaistorcedoresdoGrêmio. O futebol gaúcho possui marcas de episódios violentos envolvendo torcidas organizadas. Durante o Gre-Nal do Campeonato Brasileiro de 2006, em meio a brigas com a Brigada Militar,

Muitas pessoas tomam as derrotas e as decepções esportivas como algo extremamente relevante na sua vida social, o que produz raiva e outros sentimentos que podem desencadear agressividade. As torcidas organizadas protagonizam esses atos em função de concentrarem as pessoas mais engajadas na paixão clubista. De acordo com o sociólogo Gregório Grisa, isso se deve ao fato de que fazer parte de uma torcida organizada constitui um padrão de sociabilidade poderoso, que se torna um estilo de vida. “Isso influencia outras dimensões do cotidiano do torcedor, interferindo e determinando seu comportamento”, salienta. Segurança nos jogos

Emoções vivenciadas nos estádios de futebol provocam reações em massa nas torcidas

torcedores da Geral do Grêmio incendiaram os banheiros químicos dispostos no fosso do estádio Beira-Rio, sendo necessária a intervenção dos bombeiros, que foram recebidos a pedradas. Em outro caso mais recente, de julho deste ano, torcedores colorados, insatisfeitos com a derrota do time para o Corinthians, invadiram o gramado durante a partida e quebraram

JULIANO BOZA

os vidros que dão acesso ao estádio do Internacional. Mas a ira envolvida com o esporte não ocorre apenas entre torcidas. Como relata o ex-jogador da Chapecoense Carlos Arrue, a violência dentro de campo é uma prática comum que passou a ser inibida pela tecnologia nos gramados, como microfones e câmeras. “Lembro uma vez na Serra, jogava na categoria

juvenil ainda. Depois de uma chegada mais forte no jogador adversário, o técnico deles gritou para o time vir para cima de mim. Logo depois disso, a situação era de um campo de batalha. Os dois times brigando”, relembra Carlos. A competitividade é um agente motivador na sociedade, sendo difícil lidar com a frustração da perda de um jogo, por exemplo.

Com a preocupação em proteger os espaços públicos e a população, a Brigada Militar acaba participando de eventos como as partidas de futebol, com o intuito de prevenir um possível tumulto fora dos estádios. O terceiro sargento da BM Roberto Kondach analisa que as torcidas organizadas, na sua essência, são o símbolo do time, e que deve-se ter isso em mente na hora de trabalhar em eventos com essa característica. “O sentimento pelo esporte é válido, desde que não vire sinônimo de irracionalidade”, comenta Roberto. Para alguns torcedores, a presença de policiamento não representa segurança. “É uma arbitrariedade semelhante ao tempo da ditadura, eles não cumprem o que consta no estatuto do torcedor e inibem o estado de alento dos participantes”, enfatiza o presidente da Máfia Tricolor, Cristian Garcia. Já o torcedor do Internacional Felipe Chagas acredita que a relação entre BM e torcida é “uma bomba-relógio”. O sentimento coletivo de confraternização é prazeroso e importante, e, ao participar de atividades sociais como o futebol, desenvolve-se senso de identidade, de afetos e amizade, que são valores importantes para os indivíduos. Nesse caso, a disciplina e o engajamento são virtudes reconhecidas na medida em que mostram o nível de paixão das pessoas pelas instituições. “Penso que determinado grau de dedicação é saudável como atividade cultural de socialização, todavia, a diferença entre essa dedicação e o fanatismo que oblitera outros aspectos da vida em função de apenas um (o futebol) não me parece salutar e não deve ser incentivado”, finaliza o sociólogo Gregório Grisa. Texto e foto Renata Simmi Foto Juliano Boza


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AVAREZA

Lupa

Os colchões não fazem greve g Coronel

aposentado anota tudo que gasta há vinte anos

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senhor que abriu a porta para mim estava muito elegante. Vestia uma calça social bege, um suéter clássico dos avós e sapatos tão brilhantes que desbancariam até Donald Trump. A partir daí, imaginei onde estaria guardada a avareza que diziam fazer parte da sua personalidade. Eis que sinto um cheiro maravilhoso de café e logo avisto sua esposa, Enir. Parada ali em frente ao seu fogão de quatro bocas, ela despejava água para o café. Utilizava um filtro que nitidamente não estava fazendo seu trabalho de coar pela primeira vez. Talvez aí já estivesse a primeira pista da economia praticada pela família. Setembrino Dias é um exmilitar nascido em 24 de outubro de 1924, em Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, cidade com 38 mil habitantes que fica a pouco menos de 400 quilômetros de Porto Alegre. Aprendeu com o pai, Franklim, e com a mãe, Mercedez, que não se pode confiar em bancos. Por isso, traz de várias gerações o hábito de depositar as suas economias mensais dentro de um colchão de casal. “Gosto de ver a cor do meu dinheiro, sentir que está em minha posse. Se está no banco, está na mão de outras pessoas”, explica o coronel aposentado. Setembrino não tem medo de que roubem seu colchão, pois não recebe com frequência visitas. Aliás, fui a primeira visita que ele recebeu desde a virada do ano. “Hoje posso dizer que meus melhores amigos são meus sacos de moedas e meus fitilhos”, diz com tom de ironia. Na sua infância em Dom Pedrito, seus maiores divertimentos eram caçar lebre e jogar futebol. Os seus presentes de aniversário e de Natal sempre eram os mesmos, balas e rapaduras. Certa vez, fez os doces durarem até o aniversário seguinte. “Não se ganhava tantos presentes quanto hoje em dia. Com uma bala, eu fazia chover”, lembra. Na casa dos seus pais, conseguia economizar bastante. Após se formar no ginásio, conseguiu ter sua primeira aquisição, fruto de muita economia. Um jeep ano 1940. Logo depois de se formar como militar, teve condições de construir uma família com três filhas. Quando as meninas eram pequenas e se aproximavam as

Setembrino tem como maior prazer contar dinheiro

comemorações de final de ano, ele e sua esposa não queriam ficar para trás de seus vizinhos, que tiravam fotos de seus filhos rodeados de presentes. Mas, ao invés de comprar brinquedos diferentes todos os natais, ele e sua mulher pegavam as bonecas e trocavam apenas as roupas. Assim, quando fossem registradas as fotos, se passariam por novas, e seu bolso não seria tocado. Uma mania que adquiriu com seu medo com os gastos é anotar tudo o que sai de seu bolso, dia após dia. As anotações ele guarda em caixas no quarto dos fundos de sua casa, em Porto Alegre, junto com boletos de décadas atrás. Começou a estocar as faturas pois certa vez houve uma cobrança que não foi justificada, outra causa para não confiar em bancos. Diagnóstico Avareza, segundo os dicionários, é a falta de generosidade, a mesquinhez, a sovinice, a insignificância e miserabilidade. No Brasil, diversos adjetivos, muito deles populares, são usados para caracterizar aquele indivíduo que tem excessivo apego ao dinheiro: avarento, agarrado, avaro, casquinha. O psicoterapeuta Arnaldo Beiruti conta que, em seu consultório, tem aumentado a demanda por tratamentos que combatam o medo de gastar. Ele diz que isso é mais comum do que se pensa. Segundo o médico formado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), o principal sentimento desse paciente é o sofrimento. “A pessoa se dá conta de que algo está errado e sofre, seja por percepção própria, ou pela acusação das pessoas do entorno que a transformam em alvo de chacotas e gracejos. A pessoa que não usufrui de suas conquistas apresenta outros sintomas e chega ao consultório por outras demandas. Ou seja, lidar com dinheiro é só uma faceta socialmente aparente de outros comportamentos que causam sofrimento”, explica. Anotar os gastos obsessivamente, guardar dinheiro no colchão, essas são apenas algumas das características de uma pessoa avarenta. Mais do que apenas um dos sete pecados, a mesquinheza é um estilo de vida. Para uns, pode ser bom. Para outros, pode ser sofrido. Espero ter aprendido com Setembrino o lado bom de guardar dinheiro. Texto e Fotos Arthur Marques

Lupa 8  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (Porto Alegre/RS). Edição 8. Novembro de 2016.

Lupa 8  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (Porto Alegre/RS). Edição 8. Novembro de 2016.

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