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ENFOQUE VICENTINA | SÃO LEOPOLDO (RS) | NOVEMBRO DE 2016 | facebook.com/enfoquevicentina |

Ciclos da vidA .9

As etapas da existência Histórias que marcaram a vida da parteira Dalila Terezinha Silveira

E

ntão chegou a hora de partir. Depois de três anos buscando histórias no bairro Vicentina, fomos atrás das últimas. Ganhamos a tarefa de falar sobre mortes e nascimentos ou chegadas e partidas do mundo. Eu queria falar com uma parteira, então saí perguntando nas ruas se alguém conhecia uma. Na calçada havia um senhor de cabelos grisalhos e pele negra sentado. Sua cadeira de praia colorida em azul, branco e amarelo indicava um momento de descanso durante a manhã de sábado. Entreguei a ele o Enfoque passado e questionei se ele conhecia alguma parteira. Com a voz baixa me disse que não. Fiquei sem saber o que fazer. Haviam me indicado perguntar naquela casa. Questionei se sua esposa estava na residência. Dalila era o nome dela. Gritei do portão. Uma senhora apareceu. Dalila, de 73 anos, estava de vestido, avental e pano na cabeça. A baixa estatura passava a impressão de uma avó frágil. Perguntei se ela conhecia alguma parteira. “Sim, eu”, respondeu muito natural, como se aquilo fosse evidente. Então era dela que ouviríamos histórias naquele sábado. “Estou amassando um pão e preparando a polenta, será que vocês se importam de voltar aqui em 15 minutos?”, questionou. Era claro que, como boa cozinheira, ela queria aprontar as coisas para receber as visitas. Esperamos. “Dalila!” Lá estava eu gritando novamente em frente a casa. Ela apareceu e logo foi dizendo: “Já até pensei no que vou te contar”. Entramos no local e nos acomodamos em cadeiras de madeira. Ela se preparou para as fotos ajeitando os cabelos. “Já podemos começar”, indicou Dalila. Pedi que me contasse sobre essa história de parto. “Há treze anos”, assim começou a história.

A chegada

Em maio ou junho de 2003, Dalila e o marido estavam em sua casa no Lomba Grande, bairro de Novo Hamburgo. Como conta a parteira, era um dia muito frio. Chamaram os dois, pois, uma das vizinhas próximas precisava ir ao hospital da cidade para ganhar o nenê. A moça estava grávida e não tinha ninguém que pudesse levá-la ao pronto socorro. Solidários, Dalila e Osmar se prontificaram. Osmar

ia dirigindo o carro e Dalila estava ao seu lado na frente. A grávida ia no banco de trás. A certa altura da viagem, que dura em torno de 30 minutos, a moça começou a dizer que o bebê estava nascendo, que podia sentir sua cabeça. Sem pensar muito, Dalila pulou para o banco de trás. Osmar acelerou. A senhora tirou a roupa da moça que dava à luz e verificou que realmente a criança estava nascendo. Então, a aposentada se preparou para fazer o parto. A criança nasceu. Dalila mediu quatro dedos do cordão umbilical e amarrou o mesmo

com uma fralda improvisada. O aprendizado vinha da família. A avó de Dalila foi parteira e tanto ouvir as histórias em casa, a aposentada sabia o que fazer. Como estava muito frio, catou um moletom, enrolou a criança e a colocou no colo da mãe. No banco da frente, o marido começou a ficar preocupado, pois a criança não estava chorando. “Demorou. Andamos mais alguns quilômetros até ouvir o bebê chorar”, contou ela. Depois que o choro começou, foi até o hospital assim. Quando eles chegaram ao hospital todos ficaram impressionados com

a história. Dalila disse que se sentiu orgulhosa por ter salvado uma vida. A médica questionou como ela sabia fazer um parto. E até o jornal quis tirar foto do carro e publicar a história. Mas os donos não quiseram. a menina que chegou ao mundo pelas mãos de Dalila se chama Sheila e tem treze anos.

As partidas

Apesar das boas histórias, Dalila também é marcada pelas partidas do mundo. Ela e o marido perderam o filho quando ele tinha apenas 22 anos. Rubem foi encontrado na esquina de casa

com marcas de facadas pelo corpo. A mãe foi socorrê-lo. O jovem chegou a ir para o hospital, mas não resistiu. Ao lembrar da história, a idosa se emociona e muda o tom de voz. Já se passaram 30 anos, mas até hoje não se sabe os motivos da morte. Há vizinhos que dizem que foi por briga de bar e tem quem prefira não cogitar hipóteses. Outra história que marcou a trajetória de Dalila e do marido foi quando o vizinho Dornel faleceu. Dornel sentava na frente de casa com Osmar e costumava ficar até a hora do almoço conversando. Era rotina. Todos os dias ele aparecia. Mas teve uma manhã que o vizinho não chegou. Dalila já sabia da morte do amigo do marido, mas ainda não tinha contado para ele. “Hoje ele não vai vir.” Foi o que ela teve que dizer a Osmar. A morte de Dornel aconteceu por causas naturais. Ele morava sozinho nos fundos das casas de parentes. Numa noite foi achado morto sobre a cama.

Temos que ir e vamos

Minha última pergunta para a senhora em minha frente foi se ela tinha mais alguma história sobre chegadas e partidas do mundo. Ela confirmou que tinha muitas, mas se fosse contar todas teríamos conversa para um dia inteiro. “Por hoje eu acho que está bom”, argumentou. Eu agradeci e fomos embora. Dalila e Osmar são casados há 45 anos. Moram no Vicentina há 60. Ele foi mecânico. Ela foi doméstica, trabalhou em casas de família. Hoje são aposentados. Mais tarde fiquei pensando nas motivações que levaram Dalila arriscar-se a fazer um parto, mesmo sem saber muito. “Eu tinha que fazer e fiz”, ela contou. É isso que nos leva a escrever, mesmo que as histórias sejam tristes. Nós temos que fazer e fazemos. Foi isso que motivou Dalila a seguir em frente, mesmo depois de tantas perdas. Temos que seguir a vida e vamos. Carolina Lima Natan Cauduro

Dalila se comove ao lembrar das vidas que ajudou a trazer ao mundo

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

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