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ENFOQUE VICENTINA | SÃO LEOPOLDO (RS) | NOVEMBRO DE 2016 | facebook.com/enfoquevicentina |

(RE)COMEÇO .17

Além da identidade Com um nome social garantido pelo governo, Thalia vive sem prender-se a regras e tabus

N

a noite do dia 27 de agosto, nossa primeira visita ao Vicentina, os jornais locais anunciaram a “morte de um travesti”. No masculino. Essa pessoa não tinha idade, não tinha nome, não tinha nada. Para os jornais era só mais uma, mas, na minha cabeça, duas mortes haviam acontecido ali. A primeira do corpo, baleado, sem registro. A segunda foi a morte da identidade, que pode ter sido tão difícil de afirmar na própria vida, e que se perdeu sem reconhecimento na morte. Hoje, no Brasil, a maioria das pessoas transexuais e travestis não é descrita com o nome social nos registros de óbito. Se o direito de ser respeitado não é garantido nos termos finais, a realidade que se impõem sobre a vida não é menos ameaçadora. Segundo a organização não governamental Transgender Europe (TGEU), o Brasil é o país onde mais se matam travestis e transexuais no mundo. Por isso, a grande mudança nesta história é a própria vida. Em nossa última visita ao bairro, saí em busca de uma pessoa que pudesse contar como é adequar o corpo à sua identidade. Seguindo pistas de um vizinho ao outro e pulando as poças de barro que ainda sobraram da enchente, chego ao interfone de uma casa toda branca. Quando sobe o portão automático, descubro Thalia de Araújo, de 47 anos. Teca, como é conhecida, se identifica com um gênero diferente do que lhe foi imposto no nascimento. “Eu me sinto uma mulher, essa é a minha definição”, conta a moradora, que nos recebeu usando um roupão felpudo lilás. O ambiente que se revela atrás da porta é uma garagem. Enquanto ela se veste para a entrevista, observo uma fonte de água artificial cheia de figuras religiosas, das quais reconheço Iemanjá. Entre gaiolas de passarinhos, um aquário iluminado, e a plaquinha de “Aqui mora gente feliz”, ela nos recebe de maneira simpática. Está acostumada a ter a casa sempre cheia de gente. Moradora do Vicentina há três anos, Teca também é responsável por um centro de umbanda que fica numa sala construída dentro da garagem.

Filha de Iansã

“Engraçado que eu nunca botei placa, e sempre tenho gente”, comenta sobre o movimento de pessoas que recebe em casa. Faz 35 anos que Thalia entrou para a

religião de matriz afro-brasileira Umbanda, e hoje ela é responsável pelos rituais que acontecem no Ilê de Iansã e Ogum, noVicentina. Essa é a profissão que ela exerce: babalorixá, ou mãe de santo, apesar de não cobrar pelo serviço. Antes, trabalhou como costureira e cozinheira, além de ter atuado como técnica em enfermagem.“Tenho o dom de fazer coisas boas e ajudar o próximo, acolher, dar uma ideia boa”. Pergunto se ela poderia jogar os búzios para mim, mas avisa logo que não é possível: “nem tomei banho de ervas”, adverte. Quando fala sobre os rituais realizados com animais, garante que “o significado é fazer um apronte pros orixás”, e que “os afros de antigamente já usavam pra exercer a função e limpar o mal”. A carne ela informa que é limpa e doada. Os miúdos, os pés e o sangue do animal é que são usados na cerimônia. Os sacrifícios, que são vistos por muitos com preconceito, integram parte de várias culturas ancestrais e primitivas. O respeito e o valor dado à vida

do animal fazem parte da “troca” para as limpezas espirituais. Sobre os despachos em rua, ela discorda, “porque têm famílias perto, casas, e as pessoas têm que aguentar o fedor dos bichos porque apodrecem, e pode acontecer ainda de um inocente passar por cima e levar uma carga negativa”, esclarece a experiente babalorixá, sinalizando que a melhor forma de dar destino ao despacho é enterrando na mata, onde a oferenda volta ao solo alimentando outros animais. Para ela, esse é o ciclo correto. A religião é herança do pai, de quem ela não tem boas lembranças.

Um ninho de ´estranhos`

“Procurei uma família onde eu não tive, sou muito amada pelas pessoas de fora, o que eu não tive em casa, aqui fora eu tenho”, afirma a umbandista, que fala dos filhos e filhas de santo com muito carinho. Natural de Estrela, nem sempre o amor esteve presente em sua vida, “meu pai me colocou pra rua com

11 anos porque o vizinho disse que eu era homossexual, eu nem sabia o que era isso”, revela. A relação com o pai, Juraci da Silva Rangel, são memórias de um lar que nem de longe se parecem com o seu. A mãe, Iracema Francisca da Silva Rangel, só conheceu por nome. Morreu atropelada quando Teca tinha menos de 2 anos.“Não conheci nem por foto, os vizinhos que me falaram, meu pai nunca falou dela”, revela de forma emocionada. Quem acolheu o final dessa infância foram os avós adotivos, pais da madrasta. Com eles morou durante alguns anos em Sapiranga, e desde os 12 já trabalhava em uma fábrica de calçados. Desse tempo, o que mais marcou foi a fome. “Tristeza que tem, ou é doença ou é fome, estando bem alimentado tu pode ir em busca de tudo, com fome não”, pensa, refletindo sobre como retribui as pessoas que a procuram, como forma de agradecer as acolhidas que recebeu pela vida. A principal delas foi quando Tereza Viegas a trouxe para morar em Montenegro, aos 15 anos.

“Eu não tive a família carnal, mas tenho uma que consegui aqui fora, os estranhos são melhores que os de casa, às vezes”, opina por sua própria experiência. Tereza, de 67 anos, foi a pessoa que a trouxe de Sapiranga e deu condições para estudar e trabalhar. Muitos anos depois, com 25 anos, a vida deu a oportunidade de Thalia retribuir o gesto. A filha deTereza ficou grávida, e anunciou que deixaria o bebê no hospital. Foi aí que Teca resolveu dar o primeiro passo para construir a própria família.“Registrei a criança como pai”, conta, lembrando que foi a forma de viabilizar o processo de adoção na época. Desde os 3 dias de vida, Thaís Molinari Rangel é filha da Teca. “Ela me chamou de mãe porque quis, e me chama assim até hoje”, conta orgulhosa sobre a filha, seu assunto favorito. Com 21 anos, Thaís é casada, e está grávida de dois meses e meio. Ela mora na casa da sogra, mas visita a mãe toda semana. “A mãe que eu não tive, hoje eu sou pra minha filha, ela é a minha vida, tudo”, confessa Thalia com os olhos marejados. Na casa hoje moram o marido, Éverton de Araújo, de 38 anos, com quem ela tem uma relação de dezessete anos, e também o ex -marido, Jéferson da Silva Martins, de 54. Apesar de parecer estranho, Thalia explica a situação: “Eu expus pro meu marido atual: ‘olha, ele foi meu marido, me ajudou, e agora ele está “Vão ter que precisando de ajuda’, me respeitar, e nós acolhemos ele, porque eu estou hoje é meu filho de respeitando”, cobra santo”, esclarece. A a moradora quando relação entre os três o assunto é o preconceito é de amizade.“O meu marido aceita numa boa, ele é muito querido, quando tem problema a gente conversa, nunca batemos boca”, garante a moradora que obteve o nome social há cinco anos. Mesmo com o passado difícil, ela analisa que se tornou uma pessoa feliz e realizada pelo carinho que recebe. “Sou uma pessoa que tudo que eu tenho na minha vida eu divido com os outros”, ressalta. A identidade é reconhecida pelos amigos que a rodeiam, as vizinhas que vem ao centro fazer atendimento e os desconhecidos e desajustados que ela conheceu pelo caminho, e que nunca deixou de acolher. Saio do bairro com uma sensação de gratidão por ter conhecido essa pessoa que representa tão bem a diversidade da vida. Mulher trans, negra, umbandista e da periferia. Um corpo de luta ocupando a resistência em um mundo onde as injustiças estão inscritas desde que abrimos a porta. Gabriela Wenzel Thiago Borba

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

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