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16. (RE)COMEÇO

| ENFOQUE VICENTINA | SÃO LEOPOLDO (RS) | NOVEMBRO DE 2016 | facebook.com/enfoquevicentina

A“moreninha sofrida” Moradora do bairro conta sua história de vida e morte

V

ítima das circunstâncias, ela foi abandonada na maternidade e maltratada pela madrasta. Com a saúde debilitada, fez três cirurgias ainda na infância. Por erro médico, morreu, mas voltou. Hoje é mãe de nove. Vó de 25. Bisavó de seis. Tem 66 anos e é viúva de um marido abusivo que tentou tirar-lhe a vida por mais de uma vez. Analfabeta, lutou para dar aos filhos a chance do aprendizado e de uma vida melhor. A história de Ivone Flores é repleta de idas e vindas, de desventuras e nuances. É uma vida marcada pela sobrevivência e pela fé. “Se eu soubesse escrever eu mesma escrevia um livro com essa minha história [...] e eu ia chamar ele de ‘A Moreninha Sofrida’”, declara. Aqui estão alguns fragmentos dessa grande história.

Início da vida

Mesmo com a diferença física dela para os irmãos – eles, de pele clara e ela, morena – Ivone só descobriu não ser filha daquela que julgava ser sua mãe biológica aos 39 anos de idade, após a morte do pai. Quem revelou a história foi sua madrinha. Ela nasceu em 1950 no hospital Santa Casa, em Porto Alegre. O pai, João Lopes, havia tido um caso e engravidado essa mulher – a mãe biológica da qual Ivone nunca soube o nome. Quando o bebê nasceu, a mulher contatou o pai e disse: “o nenê tá lá na cama e é uma menina. Tu quer? Tu pega. Se não, eu vou deixar pra eles doar”, recorda Ivone, com base nas memórias da madrinha. A família Lopes nunca mais teve notícias dessa mulher. Seu João, após conversar com a esposa, foi até o hospital buscar a filha e a levou para casa, em Viamão. A madrasta, já com dois filhos homens e encantada com a bebezinha, aceitou o título de mãe, e Ivone foi criada nos primeiros anos como parte da família. “Mas é que nem um cachorrinho, né!? No começo é filhotinho e todo mundo quer, mas depois que cresce...”, alerta Ivone. Já mais crescida, a diferença dela para os irmãos ficou mais acentuada e a madrasta mudou sua atitude com a menina. “Ela ficou muito ruim pra mim [...] Sabe o que é isso aqui? Isso aqui é uma colherada de polenta quente que ela me deu na cara”, conta Ivone, mostrando

uma escura marca na bochecha esquerda. Para a moradora, que acreditava na madrasta como mãe biológica, essas atitudes trouxeram muita dor.

A vez em que renasceu

Em 64, Ivone Flores foi dada como morta. Hoje, já não se recorda dos termos que explicam a sua condição de saúde na época, mas, com nove anos, precisou remover um dos rins e parte do pulmão. Com 14, fez uma cirurgia para colocar uma válvula artificial no coração. Nesse procedimento, uma complicação lhe tirou a vida. Foi isso o que os médicos disseram. “Vocês vão achar que essa velha tá mentindo, mas é verdade”, confirma ela, ao narrar o ocorrido. Após a declaração dos médicos, a família já estava esperando um padre para abençoar o “corpo” da menina. Um rosário havia sido enrolado em suas mãos, postadas sobre o peito. E o pai, sem chão, pedia fervorosamente a Deus que trouxesse a filha de volta. Ivone ainda lembra do sonho (ou visão) que teve enquanto estava desacordada. Ela conta que, na sua mente, caminhou por muito tempo até chegar num casarão grande e iluminado. Nesse lugar estava um homem. “Eu queria muito ter visto o rosto dele, mas não consegui [...] Ele me disse numa voz forte: ‘Vai! Não é tua hora aqui!’, e eu fui. E vim. Sabe quando tu tá dormindo e te dá um baque, e parece que tu caiu? Foi assim que eu voltei”, recorda, emocionada. Com a visão turva, após acordar no hospital, Ivone lembra de uma grande movimentação no quarto. Do pai

gritando pelo médico. Das pessoas exaltadas com o acontecido. Do rosário que voou para o chão quando ela separou as mãos. A jovem menina, já sendo chamada de milagre, foi novamente analisada pelos doutores, que reabriram sua cirurgia em busca de uma razão para a complicação. Dentro de Ivone encontraram, esquecidos durante o procedimento, uma agulha e pedaços de gaze. Ninguém foi responsabilizado pela falha. “Os tempos eram outros”, reflete ela, grata, apesar de tudo, pela segunda chance que acredita ter recebido.

Casamento conturbado

Casou-se aos 16 com Paulo Flores – com quem viria a ter cinco filhas e quatro filhos - e foi morar no Vicentina, longe da madrasta. Paulo era mais velho e, nos primeiros anos de casado, teve a oportunidade de seguir carreira profissional como jogador de futebol. O pai dele, no entanto, o impediu de seguir o sonho. Ivone conta que, a partir daquilo, o marido se tornou uma pessoa amarga, começou a beber muito e a fazer dela o seu saco de pancadas pessoal. Entre lágrimas, Ivone relembra os horrores que viveu com o marido durante os 22 anos de casamento. “Na época, o casamento era só aquele homem pra sempre, então eu acreditava nisso né [...] mas ele era ruim demais pra mim”. Ela conta que Paulo bebia e se transformava. Ele atirava pedras nela, batia e, por duas vezes, tentou sufocá-la enquanto dormia. Nessa rotina, Ivone começou a fugir de casa nos períodos

mentos de tristeza, se agarrava a uma esperança: “Eu pedia, meu Deus, me dê forças pra suportar [...] eu quero poder ter meus filhos criados com saúde. Quero visitar a casa dos meus filhos.” Esse amor, dividido pelos nove, sempre lhe impulsionou a seguir em frente. Sem nunca ter aprendido a O rosto já ler, uma de suas marcado pelo maiores lutas foi tempo mostra força e superação pela educação das crianças. Onze anos era a idade em que o pai decidia tirá-los do colégio para que começassem a trabalhar e Ivone fazia o que podia para evitar isso. Alguns deles eram mandados para a escola escondidos. De todos, apenas uma das filhas não sabe ler. Marcia, hoje com 33 anos, teve dificuldades de aprendizado e decidiu largar os estudos. de bebedeira do marido. Ela Ivone acredita que essa dificulpegava os filhos pequenos e dade seria culpa das agressões se escondia num matagal até do marido, que batia muito a noite passar. Enquanto as na cabeça das crianças. crianças dormiam, passava as Depois que Paulo faleceu, noites acordada espantando ela mudou-se para outro loos insetos em volta deles e es- cal do bairro, onde vive até perando o sol - e a sobriedade hoje com um dos filhos numa do marido - retornarem. casinha que foi construindo A família nunca lhe deu aos poucos com o dinheiro nenhum apoio. Quando fa- da pensão do falecido. Todos lou com a madrasta sobre os ali a conhecem e a admiram abusos que sofria, recebeu de por sua história e sua alegria volta um “tu quis casar, ago- contagiante. Pois, sim, mesmo ra aguenta”. Nenhum vizinho com tantas adversidades, Ivofalou nada. Nenhum policial ne Flores carrega consigo uma nunca fez nada. Coube a Ivo- grande alegria de viver. Aos ne sobreviver a essa realida- 66 anos e com todos os filhos de como conseguiu. adultos, ela declara: “Hoje eu Paulo Flores morreu atro- sou rica. Sou rica. Olha tudo o pelado aos 42 anos, quando que Deus me deu [...] os meus voltava do do trabalho. “Eu pedi filhos vêm aqui, eles me beia Jesus que desse um lugar bom jam, me abraçam - às vezes pra ele ficar”, diz Ivone, ao lem- me dá vergonha, porque eu brar do ocorrido. Sem a figura não sou muito de beijo [...] do marido, ela tinha em mãos esses dias o Eduardo (um dos a oportunidade de uma vida filhos) me disse: ‘mãe, a sediferente. Como na época da nhora é linda. Linda por dencirurgia, tantos anos atrás, Ivone tro e por fora. É a mãe mais teria uma nova chance. linda do mundo’ [...] eu não preciso de mais nada.”

Sentido da vida

Vivendo às margens da miséria, Ivone conta que, nos mo-

Denis Machado Lucas Alves

Impressões de um ouvinte As histórias aqui contadas são meros fragmentos dessa longa trajetória. Ivone conversou comigo ininterruptamente por cerca de uma hora e meia escorada no portão de sua casa. Enquanto me levava para frente e para trás no tempo conforme os causos iam surgindo - muitos se misturando entre si, pois a vida e os problemas não esperam por ninguém - fiz alguns destaques. Muita coisa não está no texto e acredito que, nem mesmo no livro que ela sugeriu, a “Moreninha Sofrida” poderia ter totalidade da vida retratada. Quando tivemos que nos despedir, Dona Ivone encerrou a sessão de histórias de forma única: com as mãos no ar, foi desenhando um gráfico com os altos e baixos da vida até chegar no dia de hoje. Me despeço com a última frase dela ecoando em minha mente: “hoje eu tô no céu!”. (Denis Machado)

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

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