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ENFOQUE VICENTINA | SÃO LEOPOLDO (RS) | NOVEMBRO DE 2016 | facebook.com/enfoquevicentina |

VIAGENS .15

O desejo do reencontro Eunice e a irmã moram em países diferentes, mas trocam afeto pelo WhastApp

vir, mas pela rapidez com que ela comprou a passagem não pode embarcar porque“pensaram”que ela poderia estar fugindo do País”, conta a vendedora.

F

oi num sábado de manhã, no Vicentina, que conheci Dona Eunice Linck, 53 anos, vendedora em uma ferragem do bairro. Eunice é a mais velha de três irmãos: Glória Regina Gunther, 49 anos e Jeferson Batista, 37. Sempre muito unidos, os irmãos cresceram juntos. Quando Glória completou 19 anos, conheceu seu atual marido e juntos fizeram uma viagem à Alemanha. Após um tempo de estadia no país, decidiram Todos os dias, que construiriam uma mensagem sua vida por lá. “Ela virtual parte do foi pra lá sabendo Vicentina rumo à pouco da língua Alemanha. Vontade e dos costumes, de viajar para matar e aprendeu tudo” a saudade é grande, explicou Eunice. mas tecnologia traz Dona Eunice me Nos álbuns de comodidade mostra orgulhosa família é visível uma foto enviada a parceria entre as duas irmãs. pela irmã, Glória, da sua últiSempre juntas nas fotos, elas riem ma viagem a Munique. “Minha e demonstram muita afinidade. mãe está sempre grudada no Faz 20 anos que elas vivem lon- celular”, revela Vanice Linck, 18 ge uma da outra, mas graças ao anos, filha de Eunice. avanço da tecnologia, nunca Na Alemanha, Glória vive perderam o contato diário. To- com marido e com os três fidos os dias as duas conversam lhos. De acordo com Eunice, as pelo Whatsapp ou Facebook. rotinas de trabalho por lá são

O sonho adiado

diferentes das nossas aqui no Brasil. Glória costuma trabalhar em vários ramos, atuando como freelancer em cantinas, spas e prestando serviços como faxineira, por exemplo. A vendedora conta que, mesmo com muita saudade da irmã, não consegue pensar em deixar a rotina que tem no Vicentina para viver mais perto de Glória, na Alemanha, ou em qualquer outro

país. Para ela, a estabilidade que tem vivendo em São Leopoldo, na casa própria, com marido e filha, não pode ser deixada para trás. Além disso, o frio do país alemão assusta Eunice, que conta sobre a quantidade enorme de neve que vê pelas fotografias. Recentemente, Eunice perdeu o pai devido a complicações pulmonares e nos rins. “Foi tudo muito rápido, a mana até tentou

Há cerca de três anos, Glória esteve no Brasil para comemorar com a família o aniversário de 15 anos de Vanice, filha de Eunice. A jovem recebeu de presente da tia uma passagem para conhecer a Alemanha. Hoje, aos 18 anos, Vanice recorda a expectativa que um dia teve de fazer a viagem, mas explica que ainda não teve uma oportunidade concreta. “Muita coisa influencia. Não é só acordar com vontade de conhecer a Alemanha e ir. Tu precisas pelo menos saber outra língua”, explica a jovem, que confessa que o frio do país também a intimida. Vanice queria ir para a Alemanha com o objetivo de estudar estética, mas como começou a trabalhar agora, optou por ficar no Vicentina até conseguir organizar as finanças para ir ao encontro da tia. Além disso, ela quer ter certeza sobre a graduação que deseja fazer, pois além de estética, tem apreço por outros cursos. Juliana Silveira Isaias Rheinhemeier

Uma história, muitos destinos Para alguns, viajar de avião é um meio de realizar um sonho. Para outros, um trajeto menor de um destino profissional. Há aqueles que descobrem no transporte uma forma mais rápida de saciar a saudade e os que optam por ser parte de tudo isso, como Janete. Com sorriso largo, a aeromoça Janete Pinheiro Nunes da Silva, de 36 anos, recebe os repórteres em frente à casa de sua mãe. Vaidosa e bem -humorada, salienta que prefere não fazer fotos, afinal “uma comissária sem maquiagem? Jamais!”. Naquela manhã de sábado, sentados em cadeiras bem distribuídas pela calçada, a jovem profissional revela o que a fez viver de viagens. Tudo começou em meados de 2005, na época Janete trabalhava no comércio, como gerente de uma loja de brinquedos. Nesse período, um amigo havia começado um curso para comissários e relatou as inúmeras

possibilidades que a profissão podia trazer. Estimulada por ele, Janete acabou fazendo o curso e, no mesmo ano, submeteu a prova em uma empresa de aviação. “A primeira tentativa (de fazer a prova para se tornar aeromoça) após o curso não deu certo. Depois de um ano tu podes fazer novamente (a prova) e, então, consegui entrar, isso em 2007 - no mês do acidente da TAM”, recorda a comissária. Ela relata ainda que entrou em 12 de julho, e apenas cinco dias depois de efetivamente exercer a profissão nessa empresa, o acidente ocorreu. “Eu até vi um pouco, né. Mas a felicidade de entrar me fez passar por cima dele e continuar. Eu tinha uma amiga que estava nele. Como ela já tinha um ano, porque passou na primeira prova, ela estava no voo e acabou falecendo”. Janete pode não enfatizar, mas se tivesse passado naquela prova, pode-

ria ter sido ela lá. Mas nem por isso pensou em desistir.

Experiências que transformam

Muitos não sabem, mas a especialização de uma profissional de bordo não acaba após o término do curso. Quando se entra em uma companhia aérea é necessário fazer uma espécie de reciclagem. Janete conta que ficou 45 dias em São Paulo, sem contato com a família, o marido, na época namorado, e os amigos. Nesse tempo aprimorou seus conhecimentos sobre tudo dentro da aeronave, como sobreviver na selva, os primeiros socorros, etc. A partir daí é que a profissional está pronta para decolar. “De início é um pouco difícil, você não imagina que vai ficar um tempo longe. Você sabe, mas não vivenciou aquilo, de ficar longe de casa e da família. Teve gente que nesse tempo mesmo já desistiu”, relembra

Janete, enquanto cuida da sua filha Isis, de três anos, que ficou sentada ao seu lado chupando bico e brincando com uma boneca. A aeromoça explica que já fez voos internacionais, mas atualmente suas viagens restringem-se aos nacionais e Mercosul. Com essas oportunidades, conseguiu conhecer lugares lindos, como Nova Iorque, Milão, Orlando e Miami. Mas para quem acredita que é uma vida fácil, engana-se. A vida de uma comissária não tem rotinas, é estruturada pelas escalas – que podem ou não se manter.“Você sabe onde você vai sair e a hora em que vai sair, mas não sabe onde vai chegar, tudo depende do tempo”, e acrescenta que “você pode trabalhar até seis dias direto, ao longo do mês se tem nove folgas, mas essas folgas você precisa escolher duas delas de três a quatro meses de antecedência, as outras é a companhia que define para você”.

Toda essa dinâmica cansativa poderia fazer com que a jovem perdesse o gás, mas ela ressalta que ama o que faz e seu maior prazer é poder ser uma recordação agradável da viagem de quem está no avião. “Esse amor que eu tenho vou manter até eu virar, como eles chamam, aerovelha (risos) ”.

Por onde começar?

Segundo o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), o salário base do comissário de bordo (2016) é de R$ 1.837,85. Por isso, se houver interesse em iniciar sua vida sobrevoando o país, assim com Janete que foi estimulada por seu amigo, há, em São Leopoldo, a Escola de Aviação e Idiomas Salgado Filho, que fica na Rua Conceição, 642, no centro. Os telefones para contato são: (51) 3590.1998 / 3590.2340. Priscilla Mella

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

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