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Brasil X Alemanha: distância reforça vínculo entre irmãs. Página 15

MARCELA DOS SANTOS

LUCAS NIZOLA

Isaías Rheinheimer

SAUDADE

RENASCIMENTO

Ivone foi dada como morta, mas voltou para contar sua história. Página 16

OPORTUNIDADE

Para superar a perda do emprego, Zeca realiza o sonho de cortar cabelos. Página 19

ENFOQUE VICENTINA

SÃO LEOPOLDO / rs NOVEMBRO DE 2016 facebook.com/enfoquevicentina

EDIÇÃO

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THIAGO BORBA

CHEGADAS E PARTIDAS Edição de despedida traz histórias marcadas por mudanças e recomeços


2. EDITORIAL

A

exemplo do pássaro João-de-barro, que ilustra a capa desta última edição, acreditamos ter construído um ninho no Vicentina. Por nossas mãos passaram histórias de recomeços, oportunidades, esperanças e caminhos inesperados. Conhecer os moradores significou um trabalho de escuta, mas principalmente de troca. Ao longo destas quatorze edições do Enfoque, alguns

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Estamos indo entrevistados foram cúmplices, e dividiram conosco as suas angústias, dores e injustiças. Outros foram mais cuidadosos, e contaram a melhor versão que lembravam de si. Em todos os casos, estava a missão de ouvir sem julgamentos a voz daqueles que, talvez, nunca tivessem imaginado se ver em jornal. Entre as inúmeras formas de conhecer as pessoas, estão as viagens. São histórias de quem

vê o mundo do alto, como a comissária de bordo Janete, ou as confissões de quem viveu pela estrada, como os caminhoneiros Nadir e Ivo. Contamos relatos a partir dos desafios. Como o caso da uruguaia Gloria, que acompanhada do marido, Ramón, cruzou a fronteira por identificar, em solo leopoldense, a oportunidade de empreender. Somos capazes de salvar vidas, e ajudar na vinda dos outros,

como Dalila, que realizou um parto sem saber fazer. Adotamos filhos que não são nossos, porque aprendemos que o amor é maior quando compartilhado. Assim como o João-de-barro, a vida é marcada pelos ninhos que construímos e pelos recomeços que vão surgindo e mudando tudo de lugar, nos ensinando que nada é para sempre. O passarinho constrói seu ninho da melhor forma que pode, alimenta seus

Carolina Lima, Gabriela Wenzel, Laura Gallas, Leonardo Ozório e Priscila Mella

ENTRE EM CONTATO

filhotes, cuida, mas sabe que logo eles cresçam, seus destinos são o mundo. A vida é formada por chegadas e partidas. Mudanças são necessárias para buscar objetivos, ou até mesmo para driblar as dificuldades. Outras mudanças são impostas, e precisamos dar um jeito para seguir a vida sem temer recomeçar. Nesta edição do jornal, que está se despedindo do bairro, saímos em busca das histórias marcadas por idas e vindas.

Isaías Rheinheimer

QUEM FAZ O JORNAL O Enfoque Vicentina é um jornal experimental dirigido à comunidade do bairro Vicentina, em São Leopoldo (RS). Com tiragem de mil exemplares, é publicado a cada dois meses e distribuído gratuitamente na região. A produção jornalística é realizada por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo.

(51) 3591 1122, ramal 1329

enfoquevicentina@gmail.com

Avenida Unisinos, 950 – Cristo Rei São Leopoldo – RS Cep: 93022 750 – A/C Coordenação do Curso de Jornalismo

EDIÇÃO E REPORTAGEM

Disciplina: Jornalismo Cidadão. Orientação: Sonia Montaño. Edição geral: Gabriela Wenzel e Laura Gallas. Edição de textos: Carolina Lima, Leonardo Ozório, Priscilla Mella, Carolina Zeni, Eduardo Brandelli, Guilherme Rossini, João Arthur Moraes, Karine Dalla Valle, Luana Cunha, Marco Pecker e Paola Rocha. Reportagem: Anderson Guerreiro, Ariane Laureano, Carolina Lima, Carolina Zeni, Cassiano Cardoso, Daniela Tremarin, Denis Machado, Eduardo Brandelli, Eduardo Zanotti, Elizangela Meert Basile, Ellen Renner, Fernanda Forner, Fernanda Bierhals, Franciele Gabriela Wenzel, Graziele Iaronka, Guilherme Chaves, Guilherme Rossini, Jéssica Zang, João Arthur Moraes, Júlia Ramona, Juliana da Silveira, Karine Dalla Valle, Laura Gallas, Leonardo Ozório, Luana Cunha, Marcella Lorandi,

Marco Pecker, Matheus Alves, Paola Rocha, Priscilla Mella e Tiago Assis.

FOTOGRAFIA

Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Flávio Dutra. Fotos: André Luis Michel Júnior, Artur Cardoso Colombo, Bibiana Faleiro, Caroline de Souza Tidra, Eduarda Galarça da Silva Alves, Elias Ambieda de Vargas, Fernando dos Santos Campos, Gabriel Aita Ost, Gabriel Appelt Nunes, Gabriel Bickel Scopel, Grégori de Moraes Soranso, Guilherme Petry Rovadoschi, Isaías Roberto Rheinheimer, Jéssica Carina Mendes dos Santos, Kellen Guaragni Dalbosco, Lucas Nizzola de Souza, Lucas Rafael Alves, Lucas Rodrigues Américo, Lucas Weber Lanzoni, Marcela Juliane Vargas dos Santos, Marcelo Janssen Neri da Silva, Milene dos

Santos Magnus, Murilo Dannenberg Martins, Natan Magri Cauduro, Nicole Thaís Roth, Rafaela Silveira Trajano, Rodrigo da Rosa Pereira, Thiago Gomes Borba, Verônica Torres Luize Pestana, Victor Dias Thiesen, Victória Rambo de Lima e Vitorya da Cruz Paulo.

ARTE Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia Diagramação: Mariana Matté

IMPRESSÃO Realização: Gráfica UMA / Grupo RBS Tiragem: 1.000 exemplares

Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: José Ivo Follmann. Pró-reitor Acadêmico: Pedro Gilberto Gomes. Pró-reitor de Administração: João Zani. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente de Bacharelados: Vinícius Souza. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.


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Bem-vindos .3

O acaso cria oportunidades Vindo de Vacaria, Israel tenta se firmar em São Leopoldo ganhando a vida na cozinha

Q

uando surge uma oportunidade, há de se agarrá-la. Foi o que fez Israel Bitencourt Silva, 42 anos, natural de Vacaria e que há três meses chegou ao Vicentina. O homem, que leva o nome de sua cidade natal como apelido, trabalhou na fazenda de seu pai, quando ainda era criança. Fazendo um pouco de tudo, inclusive, aprendendo a cozinhar. “Criei o hábito de fazer o almoço da família. Deus me livre queimar o feijão do pai (risos)”, lembrou Bitencourt. Andado muito, conseguiu abrir seu restaurante no bairro Santa Marta. Ele conta com o apoio de um sócio e de sua esposa, Débora Bastos, 31. Além do gosto pela cozinha, o Vacaria também trabalha em construções de fazendas e estruturas de rodeios. “Trabalho com obra desde que me conheço por gente”, explica. Foi esse ofício que o levou por várias regiões do Brasil. “Tra-

Israel Bitencourt sonha em abrir mais um restaurante perto de sua casa

balhei no Rio Grande do Sul todo, sem falar em Ourinhos – São Paulo e em Mato Grosso, onde ajudei a construir fazendas enormes”, lembra. Mas, nem só de cozinha e construção vive o nosso entrevistado. Também atua como motorista de caminhão com certa frequência. “Motorista quase que a vida inteira, faz pelo menos 17 anos que presto serviço. Já cheguei a andar mais de 2 milquilômetros por dia como caminhoneiro, principalmente depois da morte do meu pai”, explica. Ele que sempre viajou bastante, seja como caminhoneiro ou para construir fazendas, invariavelmente dava um jeito de voltar para Vacaria. Até que cinco anos atrás, Israel Bitencourt foi morar em Portão, onde continuou trabalhando em construções. Dois anos após chegar à cidade, ele conheceu sua futura esposa, Débora e foi isso que o fez ficar por aqui. Débora mora em São Leopoldo, mais precisamente no bairro Vicentina, e foi ela que o convenceu a se mudar. “Ela tem umbigo meio preso em São Leopoldo, nunca consegui levar ela pro interior (risos)”, explicou

Bitencourt. Contudo, ela justifica. “Não consigo deixar minha família”. Família que, aliás, aumentou e muito para Israel, já que ele tinha apenas um irmão e uma irmã até então: Ismael Bitencourt, 39 anos, e Raíssa Kuser, 11. Israel Bitencourt também tem uma filha, Gabriela Bitencourt, 13 anos, fruto de seu primeiro casamento. Hoje, por exemplo, ele tem sete cunhados.

Empreender

A pesar da resistência da esposa, o casal tinha morado algum tempo em Portão e estavam prestes a ir para Caxias do Sul, cerca de seis meses atrás. Foi aí que surgiu a oportunidade de investir em um imóvel no bairro Santa Marta, em São Leopoldo. Esse local foi transformado em uma lancheria, coincidindo propositalmente com seu sonho de trabalhar com culinária. “Aos pouquinhos o restaurante vai se ajeitando, o problema é que sempre se esbarra na burocracia”, explicou Vacaria. O ponto, que trabalha com comida campeira, é algo de muito orgulho para Israel, já que foi com seu pai que ele tomou gosto pelo ofício. “Andávamos juntos dia e noite, éramos muito ligados,

foi com ele que me apaixonei pela cozinha”, lembrou. O restaurante, que leva o nome de “Lanches das Gurias”, em homenagem a esposa e a filha de Israel Bitencourt, é algo que está lhe tomando muito tempo atualmente. “Trabalho das 11h até a 1h da manhã, tudo em função do restaurante”. O planejamento durou cinco meses, mas até hoje Israel Bitencourt trabalha em torno de ajustes físicos e financeiros de seu imóvel. Para o futuro, ele e sua mulher esperam poder abrir um restaurante no Vicentina. “Seria um sonho abrir uma lancheira por aqui, espero que algum dia possa realizá-lo.” Vale lembrar que a família de Vacaria, através de irmãos e primos, possui um restaurante em lá, que funciona apenas em épocas de rodeios. “Pagamos a taxa anual e quando tem rodeio abrimos o restaurante, tem dias que a gente vende mais de mil pratos”, esclarece Israel. Ele, que já trabalhou em construções de rodeios e fazendas por toda região do interior gaúcho, hoje sente a mudança de rotina. “Me criei dentro de uma fazenda, não tinha rotina urbana. Meu descanso era

uma enxada”, lembra. As variações de rotina são visíveis para ele. “Para eu que sou do campo, muda muito sair da zona rural e vir para a cidade”, explica. Até o hábito de tomar chimarrão logo depois de acordar foi alterado. “Levantava às 5 da manhã e mateava, agora ficou pra depois do café da manhã”, relata. O cozinheiro possui alguns hábitos que não troca por nada Como o de ler jornais para se manter bem informado. “Não sei escrever, mas busco informações. É sempre bom estar informado”, explica. Um de seus hobbies favoritos é fotografar. Criou essa prática na época em que trabalhava com o pai, na construção de fazendas. “Eu fotografo tudo, qualquer estrutura que ajuda a construir, todos lugares que visito, tudo. Meu pai já fazia isso e me ensinou a fazer o mesmo”, explica. Com a atual correria, ele ainda está se acostumando a vida na cidade. Mesmo com algumas dificuldades de adaptação, parece que as coisas estão tomando o rumo certo. Tiago Assis Victor Thiesen


4. Bem-vindos

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Histórias entre endereços Moradores do Vicentina contam quantas vezes trocaram de casas e como foi a adaptação às novas residências

“U

m belo dia resolvi mudar” não serve apenas como a letra da música de Rita Lee. Serve também como uma forma de descrever o que alguns moradores do bairro Vicentina fizeram: mudaram de casa. Só quem já passou por uma mudança sabe o transtorno que é. Conseguir caixas para encaixotar as coisas, fazer as malas de roupas, organizar a louça da cozinha, carregar o caminhão com os móveis, limpar a nova residência, colocar tudo no lugar e, finalmente, transformar o novo local em seu lar. A nossa casa, geralmente, é o lugar onde nos sentimos mais confortáveis. É onde guardamos as coisas que vamos adquirindo ao longo dos anos, onde reunimos a nossa família e onde criamos laços com diferentes pessoas que moram ao redor. Agora, quando, após muitos anos, temos que fazer isto tudo de novo, por onde começar? Alguns moradores do bairro Vicentina, que moram nas casas do programa Minha Casa Minha Vida, falaram sobre esse processo de mudança e como foi adapta-

ção na nova residência. Para o cobrador de ônibus Bladimir Britto, 52 anos, que já mudou de diferentes casas, a adaptação foi tranquila.“Apesar de já ter trocado de endereço várias vezes, sempre morei no Vicentina. O que me ajudou bastante a me familiarizar com as novas residências foi o fato de conhecer muitas pessoas da região, só aqui no bairro já estou há 32 anos”, conta Bladimir. “Minha primeira casa foi na esquina da empresa Gedore. Morava com meu sogro e por este motivo re-

solvi me mudar”, completa. Bladimir comprou a casa própria para morar com a esposa na Rua Alberto Link. Após a separação, saiu da residência e foi morar em uma casa do programa Minha Casa Minha Vida. “A casa onde moro hoje é de um amigo. A esposa dele faleceu há um ano e ele não consegue ficar aqui, então, vim morar pra cuidar da casa pra ele. Moro com minha nova esposa Letícia Batista e com meus filhos Willian, 17 anos, e Kaue, 6 anos”, relata.

casei com meu marido fui morar de aluguel. Após a separação, fiquei por algum tempo também em uma casa de aluguel com apenas quarto, cozinha e banheiro e voltei para a casa da minha mãe, também aqui no Vicentina. Há três anos e meio, moro nas casas do programa Minha “Os parisienses Casa Minha Vida com meus filhos Eritêm a Torre cka, 12 anos, e ReEiffel e eu tenho a torre da olaria como nan, 6 anos”. paisagem”, brinca O que motiva Bladimir Britto ao Clairê a sair do bairelogiar o bairro ro é a forma como os demais moradores estão utilizando as casas que ganharam do governo. “O que desanimou bastante é ver as casas transformando em lancherias, mercados e até bares. O bairro estava ficando bem melhor com as famílias em casas novas e o pessoal começou a fazer puxadinhos de comércios por Entre idas e vindas dentro do todos os lados. Não ganhamos Vicentina, Bladimir destaca que na as casas pra isso”, desabafa a mosua profissão também se desloca radora, que está pensando em por diferentes endereços dentro se mudar mais uma vez, talvez do bairro. “Sou cobrador há 32 para um apartamento no bairanos da linha Vila Maria da em- ro Charrua ou Campina. presa de ônibus Sinoscap. Adoro Entre idas e vindas, chegadas morar aqui e não pretendo sair do e partidas e diferentes enderebairro. Os parisienses têm como ços, os moradores demonstraram paisagem a Torre Eiffel, eu tenho que os bens materiais são objetos a torre da olaria”, brinca. de necessidade, mas o que mais Ao contrário de Bladimir, Clairê tem valor é o bem-estar. Leal da Silva, 36 anos, moradora do Fernanda Forner bairro desde os quatro meses, preMurilo Dannenberg tende sair do Vicentina. “Quando

“É muito bom morar aqui” Numa manhã de sábado, perto do meio-dia, Eloir de Paula pode ser encontrado sentado na frente de sua casa, com um chimarrão do lado e um sorriso no rosto. Essa tranquilidade do aposentado é fruto de tudo que ele conquistou após chegar no Vicentina. Natural de Santo Augusto, Eloir, 71 anos, veio a São Leopoldo porque lhe disseram que era uma cidade com boas oportunidades e que valorizava o trabalho. “Eu sempre ouvi que aqui era bom. Daí eu e minha esposa viemos, sem nada”, relembra o idoso. Quando o casal chegou, há 10 anos, se instalou no Vicentina com apenas a vontade de trabalhar. O início foi difícil. Ele já tinha 61 anos, não estava aposentado e não conseguia emprego por causa da idade, então, quem trabalhava era a esposa de Eloir, Maria Celi de Paula. 62 anos. “A firma

que eu trabalhava faliu, daí aqui eu não consegui emprego. Minha mulher trabalhava em Porto Alegre e ganhava só R$40,00 por final de semana”, recorda. O casal recebeu ajuda até conseguirem se estabelecer, e hoje retribuem o apoio doando a quem necessita. “A gente que passou por essas dificuldades sabe o quão difícil é, então sempre que dá a gente ajuda”, explica Eloir (ou Maria Celi?). Atualmente ele está aposentado e Maria de Paula trabalha como cuidadora de idosos há mais de 5 anos. Com a renda que dos dois, o compraram um carro e a casa em que moram, além de terem criado seis filhos. Nenhum dos herdeiros quis retornar ao interior. Hoje, todos já estão estabelecidos. ”Minha filha mora em Santa Catarina, outro mora aqui na Vicentina e

trabalha numa firma em Sapucaia, tenho um que conseguiu comprar uma lavagem de carros em Porto Alegre, os outros ainda moram comigo, mas trabalham e ajudam em casa”, conta o pai. Ao ser questionado sobre uma Há 10 anos no possibilidade de Vicentina, Eloir mudança, Eloir fi- só mudaria se fosse cou surpreso. “Eu para outra casa não pretendo me dentro do bairro mudar não, pretendo talvez reformar minha casa ou comprar uma casa melhor aqui dentro do Vicentina. E eu não consigo entender que as pessoas queiram se mudar daqui, porque é muito bom morar aqui, lá de onde eu vim era bem mais difícil”, insiste o idoso, tomando mais um gole de chimarrão. Eduardo Brandelli Rodrigo Pereira


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BEM-VINDOS .5

O bairro que“habla” Instalada no Vicentina há quase 40 anos, a uruguaia Gloria detalha sua vida em solo leopoldense

terceira herdeira e única nascida no Brasil, Maria de Lourdes, 34. Em seu restaurante, Gloria relata os motivos que trouxeram a uruguaia para o Brasil

O

relógio marcava 10 horas e 23 minutos de uma manhã de sábado quando a moradora do Vicentina, Gloria Bonilla, de 72 anos, foi surpreendida pela dupla de reportagem da Unisinos. Assustada no primeiro momento, ela imediatamente os questiona: “Que quieren?”. Minutos depois, o sotaque castelhano, de origem uruguaia, convida-os para que se sintam à vontade em seu restaurante para um diálogo. “Se eu começar a falar, vocês vão pedir para eu parar (risos)”, anuncia, quando convidada a compartilhar as histórias da vida, como a mudança para o solo leopoldense com o marido, Ramón Bonilla, 72, há 39 anos. Natural de Las Piedras, município localizado a 14 quilômetros de Montevidéu, Gloria conta que a opção pelo Brasil surgiu por meio do espírito aventureiro do companheiro, com quem é casada desde os 19 anos. “Ramón é um apaixonado por tudo que envolve rodas. No Uruguai, passou a fabricar carreta-barracas (espécie de estrutura instalada sobre reboques para acampamento). Em um autódromo, ele conheceu um leopoldense. Os dois ficaram amigos. Eis então

que ele aconselha ao meu marido a ir para o Brasil”, conta. Foi quando o casal, na época com 33 anos, juntamente com os filhos Jhonny, 11, e Karina, 5, fizeram as malas pelo desafio de empreender. Chegaram ao então “timidamente edificado” bairro Vicentina em 1977. Em pouco tempo, as expectativas foram alcançadas. Gloria lembra que o negócio fabricou mais de 1,2 mil unidades de carreta-barracas para todo o país. “Tínhamos 35 funcionários, além de represen-

tantes em Brasília e Salvador. O trabalho desenvolvido sempre foi muito prático”, revela.

Dificuldades financeiras

No entanto, os problemas vieram à tona. Alguns deles, segundo Gloria, persistem, provocando quedas no faturamento e produção da mercadoria. Dificuldades financeiras e restrições na carteira de motorista figuram entre os principais. A atividade é mantida pela

empresa, que junto às suas dependências, conta com um restaurante administrado por Gloria há 16 anos. O local, que oferta comida caseira, também já passou por dias melhores. “(O restaurante) está quebrado. Muito disso se deve ao fato de uma empresa próxima daqui ter se mudado. Ela tinha 130 empregados, o que representava maior parte de nossos clientes. Com a saída deles, o movimento declinou. Nossa última semana, por exemplo, foi um desastre”, comenta ao lado da

O fascínio por automóveis

“Negativo. Eu sempre coloquei freio. Eles (Ramón e Jhonny), pelo contrário, a todo momento aceleram essa paixão”, responde Gloria quando questionada a respeito do elo da família com o automobilismo. “Meu filho tinha quatro anos e já gostava de praticar rally. Influência de Ramón que, como já disse, tem esse esporte no sangue. Tanto que, na condição de pai, Jhonny já tinha um kart pronto para meu neto com um ano”, diz. Jhonny que, aliás, é um dos motivos que sustenta o sorriso estampado no rosto de Gloria durante a conversa. Herdeiro mais velho dos Bonilla, chegou à presidência da Comissão Nacional de Circuitos da Confederação Brasileira de Automobilismo. O mérito alcançado é motivo de orgulho para a irmã, Maria de Lourdes. “Sempre que posso, acompanho ele nesses eventos. Adoro corridas”, comenta. Já Gloria, bem-humorada, o define: “Jhonny nunca me incomodou, ao contrário de minha filha do meio, Karina: ela é uma geminiana (risos)”, conclui. Leonardo Ozório FERNANDO CAMPOS

Entre erros e acertos Mudanças são necessárias para buscar melhores condições de vida. José Clodoaldo Pereira, 33 anos, saiu de Candelária em busca de oportunidades no Vicentina. Pereira veio de sua cidade natal para o bairro em 1992, com sua esposa grávida, e seu filho mais velho. “Eu vim de Candelária e não tinha nada. Com a ajuda de moradores comprei meu cavalo e comecei a realizar meu serviço”, diz o morador. Após 11 anos trabalhando com o serviço de limpeza e catação de material, o trabalhador recebeu uma oportunidade no Polo Petroquímico, em Montenegro. Sem pensar duas vezes, em 2013, mudou-se com a família, agora com mais dois filhos. “Acho que foi um erro que cometi. Deixei tudo aqui, meu trabalho fixo, minha casa e perdi tudo”, diz Pereira. O retorno para o antigo bairro,

o Vicentina, veio com muitas dificuldades. Ele e sua família tiveram que alugar uma casa, pois haviam deixado tudo para tentar a vida em Montenegro. Sem seu cavalo, o trabalhador realizou diversas tarefas, entre elas a de bike-som,

bou se tornando um usuário de drogas. Após muitas dificuldades e também a força de vontade, ele procurou ajuda e deixou o vício. “Graças a Deus eu notei que estava fazendo mal para mim e Após mudanças minha família. pessoais e Um amigo me profissionais, José acolheu em uma Clodoaldo encontrou na reciclagem uma profissão fazenda, lá construí um galpão e me tratei. Agradeço muito a ele, pois com empenho dele sai deste mundo”, diz aliviado. Sua vida sofreu mais algumas mudanças, desta vez, para melhor. Numa jornada de 12 horas de traonde passava o dia na rua com balho, Pereira conseguiu alugar sua bicicleta e reproduzindo os uma residência e comprar uma camerchandisings. Não satisfeito, minhonete Saveiro, modelo antigo, lutou e conseguiu uma carreta de para realizar seu trabalho. Focado madeira e voltou a realizar o traba- na coleta de material reciclado, ele ajuda a família e ao mesmo tempo lho com material reciclado. Neste meio tempo, José aca- contribui para com a limpeza do

meio ambiente “Os materiais demoram muito para se decompor, e então eu pego e vendo no ferro-velho. Para eu juntar R$200,00, preciso de duas toneladas de ferro”, relata o catador. Dentro do bairro, o trabalhador é conhecido e também recebe doações de alguns vizinhos. No último mês, mudou-se de uma casa para outra, sem sair do bairro. Quando o material recolhido lhe serve, José o aproveita para a própria casa. Seu filho mais velho, Giovani, 17 anos, o auxilia no serviço. A esposa, Jociane, auxilia em casa e cuida dos outros dois meninos: Mikael e Jean. Pensando no futuro, o catador continua saindo às 6h da manhã de casa e retornando às 18h para colocar comida, roupa e móveis dentro de casa. Guilherme Chaves Grégori Soranso


6. Ciclos da vida

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Onze vezes mãe Dez partos e muitas histórias para contar na vida de Vanusa Brito

sa. “Ela é uma supermãe. Cuida muito bem de todos os filhos, é carinhosa. Ela se esforça muito para cuidar dos meus irmãos”, elogia .

U

ma mãe nunca esquece o instante em que vê um filho nascer. Vanusa Brito, de 48 anos, lembra dos detalhes da chegada de cada um de seus 11 filhos ao mundo. A primeira gestação aconteceu aos 15 anos e não foi planejada. A dona de casa sempre foi mãe solteira. Batalhou para conseguir criar os filhos e se orgulha do resultado. “Todos eles são maravilhosos. Sei que eles estão traçando um caminho melhor do que o meu”. Morando em uma casa pequena, nem todos os filhos – sete mulheres e quatro homens –, moram com Vanusa. No entanto, o lar vive cheio. Nascida em Novo Hamburgo, aos 13 anos Vanusa ficou órfã de pai e mãe, tendo que largar os estudos para criar os irmãos mais novos. Ela passou por diversos relacionamentos e seus filhos são de pais diferentes. Contudo, na maior parte de sua vida foi mãe solteira. Entre os principais problemas pelos quais a dona de casa passa, está arrumar recursos financeiros para sustentar a casa. “Hoje estou desempregada. Descobri um problema de coluna, o que me impede de trabalhar com muita coisa. Estou pensando em me encostar no ano que vem”, planeja. A família vive com o Bolsa Família e com a ajuda dos genros e filhas mais velhas. Duas filhas de Vanusa já são mães e uma terceira, de 16 anos, está grávida de dois meses do primeiro filho. Uma das irmãs mais novas, Ingrid, de 12 anos, não tem o desejo de engravidar. Pretende adotar crianças no futuro. Ela frequenta a igreja evangélica junto com Vanusa e acredita que atualmente os filhos não valorizam as mães da forma que deveriam. “Eu sei que muitas vezes acabo não dando toda atenção que ela merece, mas sempre que posso, demonstro como ela é especial pra mim e como sinto orgulho dela”, diz a filha. Para o futuro, a garota deseja ser professora ou psicóloga, no ímpeto de ajudar as pessoas. Ingrid e Adrian, de 11 anos, são filhos do mesmo pai, que morreu há quatro meses, vítima de um câncer no cérebro. Eles conviviam com o pai e hoje percebem que nunca é demais demonstrar afeto. “A gente nunca sabe o dia de amanhã.

Tempos difíceis

Pequena parte da família de Vanusa reunida em frente à casa da matriarca. Abaixo, Adrian, de 11 anos, com o sobrinho de três. Vanusa, à esquerda, se considera uma mulher forte e tem orgulho da família que formou

Assim como valorizo minha mãe, acho que falta a gente valorizar os pais enquanto eles estão por perto”, conclui a adolescente emocionada. Adrian deseja ser cientista. “Sei que precisa estudar muito para isso, mas acho que eu consigo”, diz o garoto com entusiasmo. Ele se emocionou muito falando do pai e mais

ainda quando se referia à mãe. As lágrimas, que no começo caiam de tristeza, aos poucos foram se transformaram em felicidade. “Ela é do tipo mãezona. É carinhosa, se preocupa com a gente e sei que ela dá o máximo de si para cuidar de mim”, diz o garoto. Gerusa Bito, 33 anos, trabalha como auxiliar de far-

mácia. Ela chegou a iniciar curso superior na área, mas teve que trancar. Mãe de uma menina, Gerusa não pensa em ter mais filhos por enquanto. Prefere dedicar-se a estudar para o Enem e conseguir uma bolsa. Como primogênita, ela acompanhou todas as outras gestações da mãe e fala com orgulho sobre a força de Vanu-

Vanusa é uma mulher que já precisou tomar decisões que exigiam muita responsabilidade. Uma das maiores foi entregar seus dois filhos mais novos, um casal de gêmeos, para outra família. A gestação deles surgiu de surpresa, quando ela já não tinha mais condições financeiras de sustentar mais crianças. “Eu não tinha condições de criá-los e sabia que eles mereciam uma vida melhor do que eu poderia oferecer. Então procurei uma família que aceitou cuidar deles pra mim”, revela. O casal que aceitou os gêmeos estava tentando ter filhos há 12 anos, mas não conseguia. Atualmente Vanusa convive com os dois e pediu para que a família contasse aos gêmeos a sua real história. “Eles me chamam de mãe, sabem os motivos pelos quais não vivem comigo. Espero que sempre entendam isso”, diz emocionada. Um dos maiores desafios que a dona de casa encontrou para criar os filhos foi mantê-los longe das drogas e da violência. Porém um dos filhos mais velhos teve envolvimento com drogas. “Eu notava um cheiro estranho nas roupas dele e o comportamento também mudou. Então um dia sentei para conversar com ele e ele me prometeu que ficaria longe A mãe afirma que se não fosse a fé, não teria suporte. “Sou evangélica. Acredito que quando uma dificuldade muito grande aparece, Deus está comigo para me ajudar. Então se não fosse ele, acho que eu não estaria mais aqui”, responde com certo alívio. Quando pergunto sobre a possibilidade de se envolver com alguém atualmente, ela responde: “Agora quero cuidar de mim, dos meus filhos e dos meus netos”. E sobre a parte de cuidar de si, Vanusa se revela vaidosa. No entanto, como está desempregada atualmente, não frequenta mais o salão de beleza. “Cuido de mim em casa mesmo. Gostava de trançar meu cabelo, mas como não tenho dinheiro pra isso, assumo meu cabelo volumoso mesmo”, conclui entre risos. Jéssica Zang André Michel


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Ciclos da Vida .7

De todos os filhos e netos que Lurdes criou, apenas Bruna (15) ainda mora com ela

Amor de mãe multiplicado Depois de 50 anos e oito filhos criados, sobrou amor e dedicação para mais quatro netos

A

mor de mãe é considerado incondicional. Não é possível questionar o que elas sentem pelos filhos a vida toda. É um amor que não se compara a nenhum outro. Mas, será possível amar de tal maneira alguém que foi gerado por outra pessoa? Há muitas mulheres que dizem que sim e decidiram adotar. Uma delas mora nesta comunidade e optou por amar, como se fossem seus filhos, os próprios netos. Afinal, há quem diga que vó é mãe duas vezes. Moradora de São Leopoldo há mais de 46 anos, a pensionista Lurdes Antônio Teixeira, 75 anos, criou e casou seus oito filhos. Dona de um pequeno mercado que funciona na própria casa, ela ainda teve forças para cuidar, criar e educar mais quatro netos, dos 30 que tem. A decisão de tomar conta das crianças desde pequenas

surgiu em meio à necessidade. Jéssica e Bruna Andrieli, perderam a mãe ainda bebês após um procedimento cirúrgico. A outra neta, também chamada Bruna, que nasceu com lábio leporino, foi abandonada pela mãe e o Conselho Tutelar a trouxe de Santa Catarina para ficar com o pai. Já a sua filha mais nova deixou um menino, Bruno, para vó cuidar, ainda pequeno. “As meninas não conheceram a mãe e ela deixou para eu criar. Meu filho me pediu ajuda para cuidar da filha dele, eu disse que sim e acabei criando ela. E o meu neto nunca quis morar com a mãe”, relata. Apesar das dificuldades financeiras, tanto para criar seus filhos como os netos, Lurdes foi dando seu jeitinho para não passar aperto e decidiu adota-los para si, mesmo que de maneira informal. “Não tinha quem cuidasse. Tinha pai, mas não tinha mulher. Me pediram ajuda. Estou ajudando até hoje, e até quando Deus quiser”, confessa sem mostrar ressentimentos da situação. Pelo contrário, é visível a alegria e um grande sorriso no rosto por ter realizado

tal feito. “Foi muito legal cuidar de criança pequena de novo. Meus filhos já estavam todos grandes, só dois ainda não estavam casados. Para mim foi um entretimento”, completa. Lurdes confessa que nunca pensou em legalizar a guarda dos netos. Ela diz que sempre deixou claro que eles estavam livres para ir morar com os pais. “Eles nunca quiseram morar com os pais. Nunca es-

condi nada, eles que quiseram ficar. Eu não me importo, fico feliz, se eu criei oito consigo criar mais quatro”, afirma. Uma das coisas que sempre chamou atenção da pensionista foi o fato dos quatro netos a chamarem de mãe, ao invés de vó. No começo, ela confessou que não gostava e sempre deixou claro que é avó de todos. “Mas depois eu me acostumei. São meus filhos.

Eu tenho por eles o mesmo amor que tenho pelos meus filhos e estão todos no meu coração. Na verdade, eu tenho 12 filhos”, conta rindo. Hoje os quatro filhos adotivos de dona Lurdes têm entre 15 e 25 anos. Com quase 20 anos de diferença da filha biológica mais nova da moradora, ela relata que não sabe de onde surgiu tanto pique para cria-los já que estava em idade mais avançada. “Eu sempre tive paciência, tentava resolver tudo na conversa, mas eles sempre foram quietos, o que ajudou na criação”. Com filhos crescidos, estudando e formando as próprias famílias, Lurdes fala com alegria e satisfação de como conseguiu criar todos. “Graças a Deus, ele me deu força e eu sempre consegui colocar comida na mesa e cuidar de todos. Doze filhos não é fácil. Eu sou muito feliz e tenho muito orgulho de ter criado os meus netos. Deu certo, estou aqui ainda e todos eles moram no meu coração”, afirma sorrindo. Ellen Renner Nicole Roth


8. CICLOS DA VIDA

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A vida em um segundo Rotina da família Souza Oliveira se transforma quando um disparo atinge a mãe e a deixa em estado vegetativo

Q

uinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos. Este é o tempo exato de um ano em minutos, mas bastam alguns segundos para uma vida inteira mudar. A família Souza Oliveira sabe exatamente o quanto esta fração de tempo foi capaz de alterar as suas. O dia 21 de abril de 2014 foi o divisor entre a vida e a morte para eles. Os mais de dez tiros disparados contra a residência localizada no bairro Vicentina modificaram a rotina familiar. Era uma segunda-feira normal para o casal Luciana Lima de Souza, 41 anos, Ronaldo de Oliveira, 47, e os cinco filhos. À noite, na casa, seria realizada uma reunião com moradores para tratarem sobre a regularização de algumas residências populares do bairro. Motivo, segundo Ronaldo, que levou a casa simples ser alvejada por criminosos. “Estávamos todos em casa, a porta da sala estava aberta e minha filha correu para fechá-la. Nesse mesmo tempo vi a Luciana deitada em frente à mesa da cozinha, na hora, achei que ela havia se abaixa-

do”, relatou Ronaldo. Foram apenas alguns minutos ou segundos, para perceber que a esposa havia sido atingida por um dos disparos. Uma bala acertou o olho direto se alojando no cérebro de Luciana. A mulher, que sempre foi muito ativa na comunidade, agora vive em estado vegetativo e depende do cuidado incondicional do marido e dos filhos. A determinação e o amor do marido, dos cinco filhos, dos sete netos e todos os familiares é o que mantém Luciana viva. Mesmo sem falar e se movimentar, os olhos estão sempre atentos à movimentação da casa. “Às vezes, eu coloco ela sentada no sofá. Quando a mãe dela ou filhos veem ela chora; é assim que sabemos que a Luciana ainda está presente”, explicou Ronaldo. A luta diária de Luciana pela vida vem surpreendo a todos, principalmente os médicos. Quando saíram do Hospital, todos foram categóricos em dizer “Não irá sobreviver muito tempo”. Após dois anos e meio, muita coisa mudou na vida da família. Dos cinco filhos, apenas o mais novo ainda mora com os pais e a rotina de remédios e alimentação é seguida rigorosamente pelo marido. Quando questionado sobre o crime e as investigações, a fala é rápida e convicta. “Eu não quero saber. A gente sen-

O amor da família mantém Luciana com vida

tiu muita raiva por um tempo, mas o importante é ela. São os nossos 24 anos de casamento e a nossa família”.

Não é apenas um bairro

Mesmo após sofrer com a tentativa de homicídio e os diversos desafios em cuidar da família, o metalúrgico tinha apenas uma certeza: Não abandonar o bairro que ele e a esposa foram criados a vida toda.

A família, os vizinhos e amigos próximos insistiram para que Ronaldo se mudasse com os filhos e a esposa para outro lugar. Isso nunca sequer foi uma opção para ele, sua vida foi construída dentro do Vicentina. “Mesmo sendo muito cobrado em sair daqui por causa do que aconteceu, eu não consigo. Este é o nosso lar, minha esposa, meus filhos e toda a minha família nasceu e se criou aqui. Quem faz o momento e o lugar somos nós

e eu sei que a Luciana não iria querer ir embora,” insiste. A maioria dos filhos saiu de casa, mas sempre que possível voltam para ver e ajudar os pais. Nas datas festivas, como o aniversário de Luciana, dia das mães e Natal todos se reúnem na casa e comemoram por estarem junto com a mãe mais um momento. Daniela Tremarin Verônica Torres

Surpresa materna Com muita atenção e um sorriso no rosto, Márcia Otero Machado, 31 anos, nos recebeu no sofá de sua casa, para falar um pouco de sua vida e as mudanças que passou nos últimos meses. A moradora do Vicentina, que habita a ocupação Cerâmica Anita, mostrou uma expressão alegre e tranquila, que esconde as lágrimas e dificuldades enfrentadas pela dona de casa. Marcia tinha duas filhas, uma de 6 e outra de 12 anos, quando engravidou de trigêmeos. Hoje, as crianças têm cinco meses de vida e o marido saiu de casa há três, deixando Marcia sem auxílio. Casada pela segunda vez, a dona de casa e o ex-marido sonhavam em ter filhos. “Tentamos durante algum tempo, mas eu perdia. Quando eu desisti da ideia, engravidei. Com três meses de gestação, passei muito

mal e fui para o hospital, onde fizeram todos os exames. Porém, falaram que eu não estava grávida. Mas eu continuava com dor e me sentindo muito mal, com enjoo, náuseas, etc. Na época O desafio de minha irmã estava ser mãe de grávida e eu fui trigêmeos sem apoio junto com ela fazer do companheiro falou que seríamos o pré-natal e pedi pais de gêmeos o para fazer outro exame. Aí sim meu ex-marido ficou emocionafoi comprovada a minha gravi- do. Eu já fiquei mais preocupada, dez”, lembra a moradora. mas pensei que ia dar tudo certo. Ela afirma que a notícia dei- Eu me preocupava mais com xou o casal em plena felicidade. as complicações da gravidez, A surpresa veio com a primeira tinha medo de perder os beecografia. Quando, durante o bês”, afirma a moradora. exame, os pais foram informados O que a mãe não sabia é que que seriam gêmeos: duas meni- a próxima ecografia iria mudar nas. Mais uma vez Marcia afirma por completo toda a situação, que, embora a notícia tenha dei- pois não eram dois e sim três bexado eles um pouco apreensi- bês. “Quando o médico mostrou vos, ela e seu ex-marido ficaram que eram três, duas meninas e muito felizes. “Quando o médico um menino, eu fiquei chocada.

Eu não conseguia acreditar. E tudo mudou. Fui encaminhada para Porto Alegre, por ser uma gravidez de risco, várias vezes eu fui internada por complicações na gestação. Entrei em depressão, tive que tomar remédios. Eu tinha muito medo de não conseguir ir até o final”, relata a mãe. As crianças nasceram com sete meses, 28 semanas de gestação. Márcia conta que, na época, a família morava em uma casa coberta de lona. “Nós não tínhamos nada. Os trigêmeos estavam

quase nascendo e nem berço a gente tinha. Aí meu ex-marido foi até o jornal da cidade e pediu ajuda. Nós recebemos muita doação, até o material para fazer a casa. Recebemos muita ajuda e eu sou muito grata”, comenta. O sonho de ter uma família completa e feliz se desfez quando eles tinham dois meses de vida. Dois dos trigêmeos estavam hospitalizados e a mãe ficava dia e noite no hospital. Quando retornou para casa, a família já estava desfeita e o marido abandonou a família. Hoje, Marcia conta com a ajuda da mãe para criá-los. Ela está tentando conseguir alguma ajuda financeira do Governo Federal, mas até o fechamento dessa edição, não havia conseguido. Luana Cunha Jéssica Santos


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Ciclos da vidA .9

As etapas da existência Histórias que marcaram a vida da parteira Dalila Terezinha Silveira

E

ntão chegou a hora de partir. Depois de três anos buscando histórias no bairro Vicentina, fomos atrás das últimas. Ganhamos a tarefa de falar sobre mortes e nascimentos ou chegadas e partidas do mundo. Eu queria falar com uma parteira, então saí perguntando nas ruas se alguém conhecia uma. Na calçada havia um senhor de cabelos grisalhos e pele negra sentado. Sua cadeira de praia colorida em azul, branco e amarelo indicava um momento de descanso durante a manhã de sábado. Entreguei a ele o Enfoque passado e questionei se ele conhecia alguma parteira. Com a voz baixa me disse que não. Fiquei sem saber o que fazer. Haviam me indicado perguntar naquela casa. Questionei se sua esposa estava na residência. Dalila era o nome dela. Gritei do portão. Uma senhora apareceu. Dalila, de 73 anos, estava de vestido, avental e pano na cabeça. A baixa estatura passava a impressão de uma avó frágil. Perguntei se ela conhecia alguma parteira. “Sim, eu”, respondeu muito natural, como se aquilo fosse evidente. Então era dela que ouviríamos histórias naquele sábado. “Estou amassando um pão e preparando a polenta, será que vocês se importam de voltar aqui em 15 minutos?”, questionou. Era claro que, como boa cozinheira, ela queria aprontar as coisas para receber as visitas. Esperamos. “Dalila!” Lá estava eu gritando novamente em frente a casa. Ela apareceu e logo foi dizendo: “Já até pensei no que vou te contar”. Entramos no local e nos acomodamos em cadeiras de madeira. Ela se preparou para as fotos ajeitando os cabelos. “Já podemos começar”, indicou Dalila. Pedi que me contasse sobre essa história de parto. “Há treze anos”, assim começou a história.

A chegada

Em maio ou junho de 2003, Dalila e o marido estavam em sua casa no Lomba Grande, bairro de Novo Hamburgo. Como conta a parteira, era um dia muito frio. Chamaram os dois, pois, uma das vizinhas próximas precisava ir ao hospital da cidade para ganhar o nenê. A moça estava grávida e não tinha ninguém que pudesse levá-la ao pronto socorro. Solidários, Dalila e Osmar se prontificaram. Osmar

ia dirigindo o carro e Dalila estava ao seu lado na frente. A grávida ia no banco de trás. A certa altura da viagem, que dura em torno de 30 minutos, a moça começou a dizer que o bebê estava nascendo, que podia sentir sua cabeça. Sem pensar muito, Dalila pulou para o banco de trás. Osmar acelerou. A senhora tirou a roupa da moça que dava à luz e verificou que realmente a criança estava nascendo. Então, a aposentada se preparou para fazer o parto. A criança nasceu. Dalila mediu quatro dedos do cordão umbilical e amarrou o mesmo

com uma fralda improvisada. O aprendizado vinha da família. A avó de Dalila foi parteira e tanto ouvir as histórias em casa, a aposentada sabia o que fazer. Como estava muito frio, catou um moletom, enrolou a criança e a colocou no colo da mãe. No banco da frente, o marido começou a ficar preocupado, pois a criança não estava chorando. “Demorou. Andamos mais alguns quilômetros até ouvir o bebê chorar”, contou ela. Depois que o choro começou, foi até o hospital assim. Quando eles chegaram ao hospital todos ficaram impressionados com

a história. Dalila disse que se sentiu orgulhosa por ter salvado uma vida. A médica questionou como ela sabia fazer um parto. E até o jornal quis tirar foto do carro e publicar a história. Mas os donos não quiseram. a menina que chegou ao mundo pelas mãos de Dalila se chama Sheila e tem treze anos.

As partidas

Apesar das boas histórias, Dalila também é marcada pelas partidas do mundo. Ela e o marido perderam o filho quando ele tinha apenas 22 anos. Rubem foi encontrado na esquina de casa

com marcas de facadas pelo corpo. A mãe foi socorrê-lo. O jovem chegou a ir para o hospital, mas não resistiu. Ao lembrar da história, a idosa se emociona e muda o tom de voz. Já se passaram 30 anos, mas até hoje não se sabe os motivos da morte. Há vizinhos que dizem que foi por briga de bar e tem quem prefira não cogitar hipóteses. Outra história que marcou a trajetória de Dalila e do marido foi quando o vizinho Dornel faleceu. Dornel sentava na frente de casa com Osmar e costumava ficar até a hora do almoço conversando. Era rotina. Todos os dias ele aparecia. Mas teve uma manhã que o vizinho não chegou. Dalila já sabia da morte do amigo do marido, mas ainda não tinha contado para ele. “Hoje ele não vai vir.” Foi o que ela teve que dizer a Osmar. A morte de Dornel aconteceu por causas naturais. Ele morava sozinho nos fundos das casas de parentes. Numa noite foi achado morto sobre a cama.

Temos que ir e vamos

Minha última pergunta para a senhora em minha frente foi se ela tinha mais alguma história sobre chegadas e partidas do mundo. Ela confirmou que tinha muitas, mas se fosse contar todas teríamos conversa para um dia inteiro. “Por hoje eu acho que está bom”, argumentou. Eu agradeci e fomos embora. Dalila e Osmar são casados há 45 anos. Moram no Vicentina há 60. Ele foi mecânico. Ela foi doméstica, trabalhou em casas de família. Hoje são aposentados. Mais tarde fiquei pensando nas motivações que levaram Dalila arriscar-se a fazer um parto, mesmo sem saber muito. “Eu tinha que fazer e fiz”, ela contou. É isso que nos leva a escrever, mesmo que as histórias sejam tristes. Nós temos que fazer e fazemos. Foi isso que motivou Dalila a seguir em frente, mesmo depois de tantas perdas. Temos que seguir a vida e vamos. Carolina Lima Natan Cauduro

Dalila se comove ao lembrar das vidas que ajudou a trazer ao mundo


10. VIAGENS

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Abrão mostra as mãos de quem dirigiu pela maioria das estradas do Brasil. Para o motorista, quando a saudade da família aperta, o chimarrão é a melhor companhia

Morador percorreu boa parte da vida dentro de um veículo transportando cargas e acumulando histórias

A

lavagem de carros localizada na rua Enrique Lopes toca em alto volume a música Lembrança do Passado, do lendário cantor Gildo de Freitas. A canção é como um aviso de que naquele local é possível encontrar alguém que possa relatar algumas histórias interessantes. Pois é lá que mora o motorista Abrão Moreira Leite, 61 anos, nascido em Sobradinho, cidade que fica a cerca de 230km de distância de São Leopoldo. Seu Abrão, prestes a lavar um veículo, dá um tempo no trabalho, me convida para sentar, tomar um chimarrão e ouvir o que tem a dizer, porque, segundo ele, “história é o que eu mais tenho e falar bastante é o que eu mais gosto”. Ele, que passou mais da metade da vida na estrada, transportando cargas, pessoas e acumulando lembranças, conta que a paixão por dirigir começou cedo, aos 12 anos, quando via os tios mexendo nos motores dos caminhões e carros. “Naquela época, o arranque do carro era no pedal, cheguei a conhecer aqueles caminhões que tinham manivela na frente, hoje ninguém acredita quando eu conto. Com 14 anos eu já dirigia pela cidade” Em 1974, aos 18 anos, Abrão serviu o exército e foi lá que tirou a habilitação para dirigir. Nos

Memórias da estrada três anos em que permaneceu no serviço militar, atuou como motorista de diversos veículos. “Dirigi caminhão, jipe e até tanque de guerra. Pena que minhas fotos não estão aqui para mostrar, ficaram lá em Sobradinho”, explica enquanto busca fotos da família em dois quadros emoldurados. Saindo do exército, Abrão trabalhou por dois anos como motorista de caminhão de concreto na construção da Usina Hidrelétrica de Itaúba, em Pinhal Grande. Após esse período, o morador mudou-se para São Leopoldo, onde iniciou as atividades na transportadora Mandelli, que pertencia ao presidente do time de futebol Aimoré. “A gente buscava doces em Pelotas e vinhos em Caxias. E quando tinha um tempinho, o presidente deixava a gente jogar bola no campo dos jogadores profissionais. Eu sempre fui goleiro, fui campeão de handball ”, relata espalmando as mãos calejadas do trabalho. Abrão teve um casal de filhos que nasceram em São

Leopoldo. Com a esposa e os dois filhos, foi morar em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Lá, conta que viveu o melhor momento financeiro de sua vida, quando, em 1995, ganhou o prêmio do Caminhão do Faustão. “Eu estava viajando quando me avisaram que tinha sido sorteado. Vieram dois caminhões desfilando pela cidade, um cheio de eletrodomésticos e móveis e no outro veio um Corsinha”, lembra. Naquele período da vida, Abrão tinha bons contratos, que rendiam um ótimo salário. “Eu cheguei a ter 20 mil na conta todo fim de mês, naquela época era bastante grana”, confessa.

O perigo das rodovias

O morador não é muito preciso com as datas e nem com a sequência de seus relatos. As memórias vêm e vão em um turbilhão de informações, que muitas vezes parecem desencontradas. Isso acontece, segundo ele, desde o acidente sofrido em

2000, quando o carro que ele estava sofreu uma colisão, deixando-o em coma por um mês. “Eu estava voltando de uma festa, não sei quem bateu, se foi o outro carro ou eu”, revela. Ele conta que após o acidente começou a utilizar o remédio chamado Bromidrato de Citalopram, que é indicado para o tratamento de depressão, transtorno obsessivo compulsivo e síndrome do pânico. “Às vezes sinto pânico, aí acordo de madrugada, esquento a água para o chimarrão e fico tomando sem nem me dar conta que não é dia.” O Brasil tem o transporte rodoviário como principal sistema logístico para movimentar cargas e passageiros. Pelos milhares de quilômetros de estradas e rodovias brasileiras passam 56% de toda a carga movimentada no território. Nela também o número de acidentes fatais envolvendo caminhões e ônibus, registrou aumento de 15% no período de 2010 a 2014. O percentual foi obtido por meio de análise feita pelo

Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), que usou como base os dados do DataSUS, do Ministério da Saúde, sobre o total de mortos nas vias e rodovias brasileiras. Abrão lembra que quando trabalhava de caminhoneiro, por várias vezes chegou a dormir no volante. “Uma vez eu passei direto por um posto de ICMS, sem parar. Quando estacionei para abastecer, um amigo falou do posto e eu disse ‘que posto, não passei por nenhum’. Outra vez eu dormi no volante e acordei quando meu espelho retrovisor bateu na lateral de outro caminhão. Por pouco não batemos de frente. Eu trabalhava virado, dormia umas duas horas por noite, mas nunca tomei rebite”, confessa. Um teste aplicado pela primeira vez no Brasil revelou que 18% dos caminhoneiros utilizam anfetamina, conhecida popularmente como rebite. É o teste da queratina, retirada de um fio de cabelo, e que detecta o uso de drogas até 90 dias antes da coleta. Todo motorista tem uma história estranha que aconteceu na estrada. Quando perguntado se alguma vez viu algo diferente, Abrão demora pensando e conclui: “Eu sou evangélico, na verdade sou Mórmon. Mas nunca vi nada de estranho. Na verdade, só vi onça, bicho no meio do mato. Aí, tipo assim, eu vi o rastro de onça, mas nunca vi onça. Não sou assombrado não.” Marco Pecker Bibiana Faleiro


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VIAGENS .11

Sobre quatro rodas Apesar de sentirem-se desvalorizados, caminheiros gostam do trabalho

acompanhar o crescimento da minha filha, mas nas férias, ela sempre viajava comigo, era uma diversão só”, relembra sorridente. Hoje o condutor aproveita o crescimento dos netos mais perto de casa.

A

lém das dificuldades, a vida pelas estradas do Brasil a fora é levada com bom humor e desejo de melhora. Rodovias perigosas, cansaço físico e a saudade de casa fazem parte da rotina de muitos caminhoneiros que, além do amor pela profissão, se arriscam por suas famílias. “Hoje estamos pagando para trabalhar e não temos apoio de ninguém. É uma vida sofrida, mas fazer o quê? Sou feliz e preciso disso”, resume o aposentado que ainda atua como caminhoneiro, Nadir Capra, 60 anos. Madrugada é a hora de partir. Nadir, antes de iniciar sua viagem a trabalho, pede proteção à Nossa Senhora Aparecida, São Cristóvão e ao Menino Jesus de Praga. Caminhoneiro há 43 anos, ele já vivenciou muitos momentos felizes e tristes, mas se consola afirmando que é preciso ter muita consciência na estrada. “Aqui têm muitas leis, mas de que adianta se o Governo não apoia a classe. Além disso, 50% dos motoristas têm noção dos perigos na estrada, mas têm outros que lidam com drogas e outras porcarias”, afirma indignado. O caminhoneiro nasceu em Ilópolis, cidade localizada no nordeste do Estado. Um município pequeno, com poucas oportunidades. Lá ele conheceu a vida de caminhoneiro, aos 20 anos, uma das profissões bem pagas no passado, segundo ele. Com isso, resolveu se aventurar, foi quando Nadir se apaixonou pelo trabalho. “Nesse tempo de estrada pude ajudar muitas pessoas, isso é o melhor da profissão, mas também já vivi muitas situações tristes, de acidentes em que as pessoas não puderam se salvar”, lembra o motorista.

Categoria desvalorizada

A fé em Nossa Senhora Aparecida dá forças para Nadir Capra seguir na estrada

e vimos uma perna esmagada, mas ainda se mexendo, meu irmão pegou um machado e começou a abrir a cabine, mas quando terminou, a menininha já havia falecido”, conta. Em outra viagem, Nadir viu de perto um colega morrer queimado. O caminhão capotou e explodiu. “São coisas que a gente passa que nunca vamos esquecer”, frisa o caminhoneiro. Sempre na direção defensiva, Nadir se acidentou poucas vezes. Em São Paulo, em 1991, seu caminhão estava carregado com aço, quando a caçamba soltou e tombou e, depois, a cabine. “Graças à iluminação dos meus guias, eu estava a 30 km/h e tive apenas um corte na mão”, recorda aliviado. Aposentado há 10 anos, mas

Histórias de caminhoneiro

Diferente do que muitos motoristas de caminhão contam, Nadir nunca teve visões durante uma viagem. Apenas situações em que pode ajudar. “Meus colegas contavam que ao passar o pedágio no Rio de Janeiro sempre aparecia uma mulher e uma criança que diziam ter sido atropeladas ali, mas graças a Deus, nunca vi nada”, comenta. Um dos momentos mais marcantes, que Nadir nunca esquecerá, foi o capotamento de um caminhão carregado com madeira, em que estava uma família. “Eu e meu irmão paramos para socorrer

Revoltado com as atuais condições de trabalho, Ivo Lopes lembra de quando a categoria era valorizada

longe de deixar a profissão, faz dois anos que comprou o caminhão Scania 124400 Evolução, no qual investiu R$260 mil, e atualmente só viaja pelo Estado transportando grãos. Como trabalha de forma autônoma, Nadir conta com as parcerias de empresas de transporte como Sana, Vidal e Anderle. “Mas agora fico no máximo 15 dias em viagem, aí venho ver a família”, salienta. Nadir retornou de sua última viagem do ano no final de outubro porque sua esposa ficou doente e hospitalizada. Agora ele tem carga marcada somente para janeiro de 2017.“A cada 400 quilômetros rodado, as empresas pagam R$30,00 a tonelada, e cada litro de óleo faz no máximo 2 km, além do gasto com a mecânica do caminhão

e os pneus. Estamos pagando para trabalhar”, reforça.

A vida longe de casa

O caminhoneiro se recorda apaixonado quando conheceu sua esposa Terezinha das Neves Capra, 54 anos. Eles se viram pela primeira vez quando ela tinha 16 anos e ele 20, foi quando Nadir a trouxe para morar em São Leopoldo. Quando Terezinha completou 27 anos, eles casaram e tiveram apenas uma filha. Ângela tem 32 anos, é casada e tem quatro filhos. No período em que viajava por todo o Brasil e parte do Uruguai e Paraguai, Nadir dificilmente estava presente em festas de família. Ele lembra que matava as saudades da família apenas pelo telefone. “Em muitos momentos estive de coração partido, por não poder

“A nossa categoria é muito desvalorizada, não temos suporte nenhum do governo, e acabamos sendo explorados”, salienta indignado o caminhoneiro Ivo Lopes, 50 anos. Motorista autônomo há 13, Lopes fica no máximo três dias em viagem, vai até o Paraná e também transporta para o Rio Grande do Sul. Em seu caminhão Mercedes, que adquiriu há 8 anos, ele carrega de tudo. O morador do bairro revela que é preciso estar feliz para poder ter dinheiro, mas a amargura é grande, segundo ele. “Quando iniciei na profissão éramos mais valorizados, agora todo mundo é corrupto e nos explora, além do mais, temos absolutamente nada de segurança nas estradas”, conclui revoltado. Casado com Ivanara Borba, 45 anos, com quem tem um filho de 15 anos, Lopes é enfático ao dizer que não quer a vida que leva para o herdeiro.“A gente não vive apertado, vive arroxado, e nos obrigamos a trabalhar nessas condições para sustentar a família”, aponta Lopes destacando que aguarda sua aposentadoria.

Sindicato pede união da classe

A categoria dos caminhoneiros autônomos é atendida pelo Sinditac/POA - Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral de Porto Alegre e Região Metropolitana. De acordo com o site da entidade, muitas reivindicações precisam ser levadas não só ao governo Estadual, mas também para o Federal, para isso, segundo o canal, é preciso da união dos motoristas“para buscar solução a uma série de questões que afligem a categoria”. Entre as questões estão alguns dos problemas que Nadir e Ivo ressaltaram: pedágios, resoluções de pesagem (por eixo ou peso bruto total), Lei 11.442, que dispõe sobre o transporte rodoviário de cargas por conta de terceiros e mediante remuneração, imposto de renda sobre a atividade de transportador autônomo de carga, insegurança nas estradas, entre outros aspectos. A reportagem entrou em contato com a empresa, no entanto, os telefones não atenderam, os e-mails retornaram e via Facebook não obtivemos retorno. Laura Gallas Caroline Tidra


12. DESTAQUE

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Um sonho Luiza não pode ver uma câmera que já faz pose. A menina é a realização de um desejo quase impossível

Após superar um câncer e dois abortos, Delani deu à luz uma criança especial

A

tão sonhada, planejada e idealizada gravidez parecia que não chegaria para Daiani Dias. Aos 12 anos de idade, ela precisou passar pela primeira intervenção cirúrgica no útero. Aos 22, enfrentou um câncer no mesmo local. Apesar de todas as dificuldades e relutância dos médicos, ela não desistiu do seu sonho. Sofreu dois abortos até que na terceira tentativa a gravidez se confirmou. Além das complicações no útero, Daiani, diabética e hipertensa, lutou para manter a gestação. Devido ao alto risco, fazia visitas regulares a seu médico. Em um exame apareceu o resultado: o feto apresentava indícios de uma alteração cromossômica que poderia determinar a morte ou a sobrevivência do bebê.

DIAGNÓSTICO DO CORAÇÃO

Um exame realizado na nuca do feto, chamado de translucência nucal, detecta as probabilidades para síndromes. Se a espessura for igual ou superior

A bebê trouxe mudanças na vida de Daiane mesmo antes de chegar

a 2,5 milímetros, considera-se que o risco é elevado. Para o filho de Daiani, a intervenção apontou 4,8 milímetros, um índice alto para trissomias - distúrbio genético onde o indivíduo possui três cópias de um cromossomo ao invés de duas. A trissomia mais provável de atingir o bebê, era a do cromossomo 21, conhecida como síndrome de Down. As células do corpo humano têm 23 pares de cromossomos — são 23 cromossomos do pai e outros 23 da mãe, totalizando 46. No Down, em vez de dois cromossomos no par 21, existem três, o que dá um total de 47. Mais raras, outras síndromes também estavam na listagem - trissomias do 13, a chamada síndrome de Patau, e a do 18, a síndrome de Edwards. A gestante poderia realizar mais um exame para confirmar a suspeita de síndrome de Down, mas o método utilizado era muito agressivo e poderia ocasionar em um novo aborto. O procedimento chama-se amniocentese e consiste na retirada do líquido amniótico pelo abdômen materno para realizar a análise. Se a certeza não veio por meio de exames, Daiani sentia que carregava consigo uma criança especial. Foi por isso que quando a suspeita foi levantada

pelo médico, a gestante mergulhou no mundo Down. Os primeiros pensamentos foram de culpa, de tentar achar um culpado. Questionamentos de - por que eu? Terei condições? O que vai ser do meu filho quando eu morrer? - atordoaram a cabeça de Daiani. Mas, logo foram substituídos pela aceitação e descoberta de um mundo novo. “Eu sabia das limitações da minha filha. Mas, nem por isso deixaria de amá-la”, comentou a mãe. O instinto materno e a certeza do diagnóstico concederam à mãe preparação para os desafios que viriam após o parto. Muitas mulheres só recebem essa notícia na hora do nascimento da criança, e acabam caindo em depressão. No Brasil, segundo o último Censo realizado pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Pesquisa e Geografia, não existe ainda uma estatística específica sobre o número de brasileiros com síndrome de Down. Uma estimativa pode ser levantada com base na relação de 1 para cada 700 nascimentos, levando-se em conta toda a população brasileira. Ou seja, segundo esta conta, cerca de 270 mil pessoas no Brasil teriam síndrome de Down. O risco aumenta conforme

avança a idade da mãe. Uma mulher com 35 anos no momento do parto, como Daiani, tem uma chance em 375 de ter um bebê com a síndrome. Aos 40 anos, uma em cem e, quando a grávida completa 49 anos, há uma chance em 10.

TODOS PELA LUÍZA

Antes mesmo de chegar, o bebê trouxe diversas mudanças na vida de Daiani. Ela precisou se afastar do emprego de assessora parlamentar na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, para cuidar de sua saúde. Antes mesmo de nascer, Daiani e sua família se prepararam para receber essa criança especial. O parto realizado no dia 15 de junho, foi tranquilo, sem sustos. Nascia uma menininha de 45 centímetros e 2,635 quilos. A síndrome, que a mãe já sabia antes mesmo do nascimento, só foi confirmada quase um mês depois do parto. Mas, Luíza ainda traria muitas surpresas e sustos para sua família. Após seu nascimento, foi constatado que havia uma alteração no ritmo dos seus batimentos cardíacos. Exames apontaram que a menina possuía Tetralogia de Fallot. “Tetra” se refere a quatro peculiaridades encontradas em um órgão normal. Nesses


x

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impossível

casos, há uma obstrução do fluxo de sangue que se dirige aos pulmões, dificultando a oxigenação, que com o tempo pode levar a cianose - coloração azulada de pele. Luíza passaria pela primeira de suas 19 cirurgias. A menina precisou ter a mandíbula quebrada para que pudesse desobstruir o canal por onde o som chegava até seus ouvidos. A mãe conta que as idas e vindas ao hospital fizeram com que ela se acostumasse com essa situação. “As pessoas vem se queixar de uma febre. Eu dou pulos se a Luíza tiver só com uma febre. Dentro do hospital a gente vê cada coisa. Eu achava impossível um bebê passar por uma cirurgia no coração. Hoje eu já me acostumei e fico feliz que a medicina tenha avançado tanto”, comenta Daiani aliviada. Em meio a tanto caos, inúmeros sentimentos tomaram conta da família - medo, desespero - mas, sem dúvidas, o pior é a impotência. “Teve uma situação que eu precisei ficar cuidando o tempo inteiro a perna da Luíza. A médica disse que corria o risco de necrosar e teríamos que amputar. Eu entrei em choque, mas tive que ficar ali, sem piscar”, lembra a mãe. Se um filho muda tudo, imagine só um que passou por

19 cirurgias e ficou 9 meses internado num hospital. Daiani conta que, além de mãe, precisou ser um pouco enfermeira. “Tu aprende a suturar, a ouvir o coração, a controlar a respiração, a aspirar; tu vira quase que uma médica”, explicou a mãe, que constantemente utilizava termos técnicos para se referir aos procedimentos.

UM TEMPERAMENTO DIFÍCIL

Durante o dia Luíza realiza duas sessões de fonoaudiologia e fisioterapia. A fono é para auxiliar na respiração e prevenir uma parada e a fisio serve para auxiliar a menina com os movimentos. Acompanhamos esses dois momentos durante a entrevista, e depois, descobrimos que ela não gosta dessa parte do dia. Costuma ficar nervosa e se fecha para as pessoas. A mãe acredita que essa situação seja devido aos traumas que ela sofreu quando ficou internada e entubada. Até hoje a menina não suporta toques em sua boca. “A Luíza não gosta de nada que vai na boca. Ela não come. Quando sem querer tocamos ali, ela protesta”, explicou a mãe. Por isso, sua alimentação é realizada através de uma sonda gástrica.

CARACTERÍSTICAS QUE OS TORNAM ÚNICOS

“O primeiro chorinho, a primeira vez que se sentou, a primeira vez que engatinhou, tudo isso é motivo de muito orgulho para todos nós”

A menininha de 1 ano e 5 meses tem marcas que a tornam única. Daiani ressalta várias vezes durante a conversa que nenhum bebê é igual a outro, muito menos Luíza. As bochechas avantajadas, os olhos puxados e uma linha única na palma da mão revelam que ela é especial. De acordo com a quiromancia - arte que adivinha o futuro segundo as linhas das mãos - as pessoas com Down possuem a linha da vida e do amor em conjunto. Deve ser por isso então que a menina emana uma sensação tão boa. Sempre com um sorriso no rosto, Luíza explora a sala da casa em busca de brinquedos e de novidades. Além dessas características, Luíza também possui outras que são comuns a pessoas com Down - o excesso de pele na nuca, a face achatada, e particularidades nas orelhas - são marcas exclusivas de quem tem a síndrome. Se você possui um filho com Down é preciso ficar atento e entender as necessidades de cada fase da vida, para que ele se desenvolva feliz e saudável. Quase metade das crianças com essa particularidade, apresenta problemas cardíacos. Infec-

ções, hipotireoidismo, complicações na visão e na coluna também podem ocorrer. Além disso, para quem é morador do Vicentina, e está esperando um filho com Down e não sabe o que fazer: em Novo Hamburgo, existe o AFAD, a Associação dos Familiares e Amigos do Down Vinte e Um. Ele auxilia na aceitação e em todo processo de descoberta do Down. A associação está localizada na rua David Canabarro, número 20. O telefone para contato é (51) 3595- 3114.

PEQUENAS CONQUISTAS

Com um futuro incerto e cheio de dúvidas, a família de Luíza comemora todas as suas pequenas grandes conquistas. “O primeiro chorinho, a primeira vez que se sentou, a primeira vez que engatinhou, tudo isso é motivo de muito orgulho para todos nós”, elogia a mãe. A assessora que agora voltou as suas funções só espera que a filha fique bem. “Eu quero ver ela correndo, brincando, pulando”, planeja a mãe. Enquanto esse dia não chega, comemoramos todos os dias as pequenas vitórias da Luíza. Ariane Laureano Milene Magnus


14. VIAGENS

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Do outro lado do Oceano Depois de cinco anos vivendo na Nova Zelândia, Josiane Eberhard voltou com um filho e novos valores

A

o sudoeste do Oceano Pacífico, a Ilha Norte e a Ilha Sul formam a Nova Zelândia. Aqui, na zona oeste de São Leopoldo, fica o bairro Vicentina. O Produto Interno Bruto (PIB) é oposto um do outro, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) não é nem parecido, e a moeda por lá, mais valorizada que o nosso Real, é o Dólar da Nova Zelândia. Esses lugares não teriam nada a ver se não fosse a história de Josiane Eberhard, 35 anos de idade, cinco deles vividos no país neozelandês. Ela é profissional de Comércio Exterior e iniciou o curso na Unisinos, em 2000. Estudando, em um bom emprego e com um namorado cheio de interesses em comum aos dela, a vontade de desbravar o mundo e de conhecer outras culturas era tão grande quanto as possibilidades que eles carregariam nas malas. Em 2005 foi o ano que Josiane e seu namorado José Carlos Prass deixaram o Brasil com destino à Nova Zelândia. Ela perdeu o pai aos sete anos de idade e a mãe aos 23. Deixou a irmã e tios, mas não estava presa a nada no Brasil. Lá na Oceania, há mais ou menos 22 horas de distância do Brasil, cerca de 11.663 km, eles começaram uma vida nova. Josiane acredita que tudo ocorreu da maneira que deveria, “eu tinha até os trinta anos para me arriscar”, lembra. O destino era Auckland, que apesar de muito conhecida, não é a capital do país. O curso de inglês e estadia na escola deixou o casal mais tranquilo, que foi sem medo de chegar por lá no auge do inverno. Depois de muito bem instalados, passaram a buscar as possibilidades do país, que é característico pelos extremos, muita praia e muita neve. Eles optaram por viver na Ilha Norte, em Mount Maunganui, por conta das referências positivas que receberam de lá e da quantidade de pessoas vindas de outras culturas que firmaram suas residências na cidade. O que justifica o alto número de restaurantes indianos e maioria dos letreiros da cidade estarem em mandarim. Ao fim do curso, que durou poucos meses, viveram a experiência de morar com neozelandeses na modalidade de locação de quartos, chamado de flatmade, prática muito comum por lá, segundo Josiane. Afinal, os aluguéis são caros, apesar da vida

confortável.“Na primeira semana compramos um carro por 800 dólares neozelandeses, aqui no Brasil seria tipo um Del Rey, mas completinho”, explica Josiane. O local, por conta da baixa possibilidade de plantação, vive do turismo e dos esportes radicais. Os empregos recusados acabam

sendo a opção dos estrangeiros. Assim, o cenário foi uma analista de importação e um analista de logística, que passaram a ser dois embaladores de frutas, em Mount Maunganui, num emprego temporário. Muitos amigos e colegas brasileiros os fizeram repensar

viu de residência para eles, fosse 450 dólares por semana. Estabilizados, com um carro novo e o próprio negócio, Josiane e José Carlos decidiram que era o moA mãe de mento de aumentar Benjamin recorda com carinho a família, aí veio ao mundo o pequeno os momentos que Benjamin. Durante viveu na Oceania a gravidez do menino, em 2009, o casal veio ao Brasil para realizar o chá de bebê e para que a família pudesse ver Josiane grávida. Uma semana em terras tropicais e logo eles retornaram ao país que, pelo menos naquele momento, era sua casa. Benjamin nasceu, e logo eles perceberam que era hora de retornar ao Vicentina, “até um ano e meio ninguém da família conhecia o Benjamin, nós sentíamos muito a ausência da família, era difícil ensinar uma criança a amar as pessoas que ela via na tela”, desabafa. Josiane caracterizou o processo de retorno como desapego. Os móveis foram vendidos em garages sale, o carro, que eles haviam pago 8 mil dólares, foi vendido por muito pouco e deixado no estacionamento do aeroporto “vendemos por uma merreca para um desconhecido e deixamos a chave embaixo da roda” ela ri enquanto se recorda. Em 2011, a família retornou ao Brasil, e logo foi para a casa de parentes em Imbé, “a gente não queria sentir o choque de realidade logo de início”, conta Josiane. Ali passaram a buscar emprego, voltaram a São Leopoldo e retornaram aos estudos. O país adotou o casal, da mesma forma que o casal adotou aquele povo. Josiane até troua ocupação pela quantidade de xe algumas curiosidades de lá, conhecimento que eles estavam como o fato de que nenhum moadquirindo. Dali foram para uma rador está a mais de duas horas empresa que lidava com peixes. de alguma faixa litorânea, por Em setores separados e por de- ser um território estreito, seja senvolverem cada vez mais o em um ponto da Ilha Sul ou da inglês, eles foram sendo promo- Norte, ver o mar é bem fácil. Ela vidos dentro da empresa. “Nunca ainda reforça o quanto aprendeu comi peixes tão frescos, dos bar- com os neozelandeses, “viver no cos chegarem de manhã e jantar- exterior te faz crescer em valores, mos aquele peixe na noite”, Josia- conhecimento e pessoa, com cerne lembra com saudades. teza vou incentivar meu filho a No ano de 2007, Josiane e ter uma experiência fora”, lembra o namorado decidiram abrir o com orgulho da época. próprio negócio. A internet ainda Hoje, Benjamin Eberhard não era tão comum, smartpho- Prass com 7 anos, não se recorda nes e tablets eram nomes que do tempo que viveu lá, mas tem se ouvia falar, porém o acesso o inglês presente na sua vida. era bem restrito. O casal deci- Josiane Eberhard e José Carlos diu investir em uma lan house, Prass não estão mais casados, com computadores e telefones, ele mora na Argentina e visita o algo muito procurado por estran- filho sempre que possível. Josiageiros para fazer contato com ne, após dez anos, retornou ao a família. Ganhando 5 dólares emprego que deixou para viver neozelandeses por hora, o casal toda essa experiência. conseguiu manter o negócio, Marcella Lorandi mesmo que o aluguel do estaEduarda Alves belecimento, que também ser-


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VIAGENS .15

O desejo do reencontro Eunice e a irmã moram em países diferentes, mas trocam afeto pelo WhastApp

vir, mas pela rapidez com que ela comprou a passagem não pode embarcar porque“pensaram”que ela poderia estar fugindo do País”, conta a vendedora.

F

oi num sábado de manhã, no Vicentina, que conheci Dona Eunice Linck, 53 anos, vendedora em uma ferragem do bairro. Eunice é a mais velha de três irmãos: Glória Regina Gunther, 49 anos e Jeferson Batista, 37. Sempre muito unidos, os irmãos cresceram juntos. Quando Glória completou 19 anos, conheceu seu atual marido e juntos fizeram uma viagem à Alemanha. Após um tempo de estadia no país, decidiram Todos os dias, que construiriam uma mensagem sua vida por lá. “Ela virtual parte do foi pra lá sabendo Vicentina rumo à pouco da língua Alemanha. Vontade e dos costumes, de viajar para matar e aprendeu tudo” a saudade é grande, explicou Eunice. mas tecnologia traz Dona Eunice me Nos álbuns de comodidade mostra orgulhosa família é visível uma foto enviada a parceria entre as duas irmãs. pela irmã, Glória, da sua últiSempre juntas nas fotos, elas riem ma viagem a Munique. “Minha e demonstram muita afinidade. mãe está sempre grudada no Faz 20 anos que elas vivem lon- celular”, revela Vanice Linck, 18 ge uma da outra, mas graças ao anos, filha de Eunice. avanço da tecnologia, nunca Na Alemanha, Glória vive perderam o contato diário. To- com marido e com os três fidos os dias as duas conversam lhos. De acordo com Eunice, as pelo Whatsapp ou Facebook. rotinas de trabalho por lá são

O sonho adiado

diferentes das nossas aqui no Brasil. Glória costuma trabalhar em vários ramos, atuando como freelancer em cantinas, spas e prestando serviços como faxineira, por exemplo. A vendedora conta que, mesmo com muita saudade da irmã, não consegue pensar em deixar a rotina que tem no Vicentina para viver mais perto de Glória, na Alemanha, ou em qualquer outro

país. Para ela, a estabilidade que tem vivendo em São Leopoldo, na casa própria, com marido e filha, não pode ser deixada para trás. Além disso, o frio do país alemão assusta Eunice, que conta sobre a quantidade enorme de neve que vê pelas fotografias. Recentemente, Eunice perdeu o pai devido a complicações pulmonares e nos rins. “Foi tudo muito rápido, a mana até tentou

Há cerca de três anos, Glória esteve no Brasil para comemorar com a família o aniversário de 15 anos de Vanice, filha de Eunice. A jovem recebeu de presente da tia uma passagem para conhecer a Alemanha. Hoje, aos 18 anos, Vanice recorda a expectativa que um dia teve de fazer a viagem, mas explica que ainda não teve uma oportunidade concreta. “Muita coisa influencia. Não é só acordar com vontade de conhecer a Alemanha e ir. Tu precisas pelo menos saber outra língua”, explica a jovem, que confessa que o frio do país também a intimida. Vanice queria ir para a Alemanha com o objetivo de estudar estética, mas como começou a trabalhar agora, optou por ficar no Vicentina até conseguir organizar as finanças para ir ao encontro da tia. Além disso, ela quer ter certeza sobre a graduação que deseja fazer, pois além de estética, tem apreço por outros cursos. Juliana Silveira Isaias Rheinhemeier

Uma história, muitos destinos Para alguns, viajar de avião é um meio de realizar um sonho. Para outros, um trajeto menor de um destino profissional. Há aqueles que descobrem no transporte uma forma mais rápida de saciar a saudade e os que optam por ser parte de tudo isso, como Janete. Com sorriso largo, a aeromoça Janete Pinheiro Nunes da Silva, de 36 anos, recebe os repórteres em frente à casa de sua mãe. Vaidosa e bem -humorada, salienta que prefere não fazer fotos, afinal “uma comissária sem maquiagem? Jamais!”. Naquela manhã de sábado, sentados em cadeiras bem distribuídas pela calçada, a jovem profissional revela o que a fez viver de viagens. Tudo começou em meados de 2005, na época Janete trabalhava no comércio, como gerente de uma loja de brinquedos. Nesse período, um amigo havia começado um curso para comissários e relatou as inúmeras

possibilidades que a profissão podia trazer. Estimulada por ele, Janete acabou fazendo o curso e, no mesmo ano, submeteu a prova em uma empresa de aviação. “A primeira tentativa (de fazer a prova para se tornar aeromoça) após o curso não deu certo. Depois de um ano tu podes fazer novamente (a prova) e, então, consegui entrar, isso em 2007 - no mês do acidente da TAM”, recorda a comissária. Ela relata ainda que entrou em 12 de julho, e apenas cinco dias depois de efetivamente exercer a profissão nessa empresa, o acidente ocorreu. “Eu até vi um pouco, né. Mas a felicidade de entrar me fez passar por cima dele e continuar. Eu tinha uma amiga que estava nele. Como ela já tinha um ano, porque passou na primeira prova, ela estava no voo e acabou falecendo”. Janete pode não enfatizar, mas se tivesse passado naquela prova, pode-

ria ter sido ela lá. Mas nem por isso pensou em desistir.

Experiências que transformam

Muitos não sabem, mas a especialização de uma profissional de bordo não acaba após o término do curso. Quando se entra em uma companhia aérea é necessário fazer uma espécie de reciclagem. Janete conta que ficou 45 dias em São Paulo, sem contato com a família, o marido, na época namorado, e os amigos. Nesse tempo aprimorou seus conhecimentos sobre tudo dentro da aeronave, como sobreviver na selva, os primeiros socorros, etc. A partir daí é que a profissional está pronta para decolar. “De início é um pouco difícil, você não imagina que vai ficar um tempo longe. Você sabe, mas não vivenciou aquilo, de ficar longe de casa e da família. Teve gente que nesse tempo mesmo já desistiu”, relembra

Janete, enquanto cuida da sua filha Isis, de três anos, que ficou sentada ao seu lado chupando bico e brincando com uma boneca. A aeromoça explica que já fez voos internacionais, mas atualmente suas viagens restringem-se aos nacionais e Mercosul. Com essas oportunidades, conseguiu conhecer lugares lindos, como Nova Iorque, Milão, Orlando e Miami. Mas para quem acredita que é uma vida fácil, engana-se. A vida de uma comissária não tem rotinas, é estruturada pelas escalas – que podem ou não se manter.“Você sabe onde você vai sair e a hora em que vai sair, mas não sabe onde vai chegar, tudo depende do tempo”, e acrescenta que “você pode trabalhar até seis dias direto, ao longo do mês se tem nove folgas, mas essas folgas você precisa escolher duas delas de três a quatro meses de antecedência, as outras é a companhia que define para você”.

Toda essa dinâmica cansativa poderia fazer com que a jovem perdesse o gás, mas ela ressalta que ama o que faz e seu maior prazer é poder ser uma recordação agradável da viagem de quem está no avião. “Esse amor que eu tenho vou manter até eu virar, como eles chamam, aerovelha (risos) ”.

Por onde começar?

Segundo o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), o salário base do comissário de bordo (2016) é de R$ 1.837,85. Por isso, se houver interesse em iniciar sua vida sobrevoando o país, assim com Janete que foi estimulada por seu amigo, há, em São Leopoldo, a Escola de Aviação e Idiomas Salgado Filho, que fica na Rua Conceição, 642, no centro. Os telefones para contato são: (51) 3590.1998 / 3590.2340. Priscilla Mella


16. (RE)COMEÇO

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A“moreninha sofrida” Moradora do bairro conta sua história de vida e morte

V

ítima das circunstâncias, ela foi abandonada na maternidade e maltratada pela madrasta. Com a saúde debilitada, fez três cirurgias ainda na infância. Por erro médico, morreu, mas voltou. Hoje é mãe de nove. Vó de 25. Bisavó de seis. Tem 66 anos e é viúva de um marido abusivo que tentou tirar-lhe a vida por mais de uma vez. Analfabeta, lutou para dar aos filhos a chance do aprendizado e de uma vida melhor. A história de Ivone Flores é repleta de idas e vindas, de desventuras e nuances. É uma vida marcada pela sobrevivência e pela fé. “Se eu soubesse escrever eu mesma escrevia um livro com essa minha história [...] e eu ia chamar ele de ‘A Moreninha Sofrida’”, declara. Aqui estão alguns fragmentos dessa grande história.

Início da vida

Mesmo com a diferença física dela para os irmãos – eles, de pele clara e ela, morena – Ivone só descobriu não ser filha daquela que julgava ser sua mãe biológica aos 39 anos de idade, após a morte do pai. Quem revelou a história foi sua madrinha. Ela nasceu em 1950 no hospital Santa Casa, em Porto Alegre. O pai, João Lopes, havia tido um caso e engravidado essa mulher – a mãe biológica da qual Ivone nunca soube o nome. Quando o bebê nasceu, a mulher contatou o pai e disse: “o nenê tá lá na cama e é uma menina. Tu quer? Tu pega. Se não, eu vou deixar pra eles doar”, recorda Ivone, com base nas memórias da madrinha. A família Lopes nunca mais teve notícias dessa mulher. Seu João, após conversar com a esposa, foi até o hospital buscar a filha e a levou para casa, em Viamão. A madrasta, já com dois filhos homens e encantada com a bebezinha, aceitou o título de mãe, e Ivone foi criada nos primeiros anos como parte da família. “Mas é que nem um cachorrinho, né!? No começo é filhotinho e todo mundo quer, mas depois que cresce...”, alerta Ivone. Já mais crescida, a diferença dela para os irmãos ficou mais acentuada e a madrasta mudou sua atitude com a menina. “Ela ficou muito ruim pra mim [...] Sabe o que é isso aqui? Isso aqui é uma colherada de polenta quente que ela me deu na cara”, conta Ivone, mostrando

uma escura marca na bochecha esquerda. Para a moradora, que acreditava na madrasta como mãe biológica, essas atitudes trouxeram muita dor.

A vez em que renasceu

Em 64, Ivone Flores foi dada como morta. Hoje, já não se recorda dos termos que explicam a sua condição de saúde na época, mas, com nove anos, precisou remover um dos rins e parte do pulmão. Com 14, fez uma cirurgia para colocar uma válvula artificial no coração. Nesse procedimento, uma complicação lhe tirou a vida. Foi isso o que os médicos disseram. “Vocês vão achar que essa velha tá mentindo, mas é verdade”, confirma ela, ao narrar o ocorrido. Após a declaração dos médicos, a família já estava esperando um padre para abençoar o “corpo” da menina. Um rosário havia sido enrolado em suas mãos, postadas sobre o peito. E o pai, sem chão, pedia fervorosamente a Deus que trouxesse a filha de volta. Ivone ainda lembra do sonho (ou visão) que teve enquanto estava desacordada. Ela conta que, na sua mente, caminhou por muito tempo até chegar num casarão grande e iluminado. Nesse lugar estava um homem. “Eu queria muito ter visto o rosto dele, mas não consegui [...] Ele me disse numa voz forte: ‘Vai! Não é tua hora aqui!’, e eu fui. E vim. Sabe quando tu tá dormindo e te dá um baque, e parece que tu caiu? Foi assim que eu voltei”, recorda, emocionada. Com a visão turva, após acordar no hospital, Ivone lembra de uma grande movimentação no quarto. Do pai

gritando pelo médico. Das pessoas exaltadas com o acontecido. Do rosário que voou para o chão quando ela separou as mãos. A jovem menina, já sendo chamada de milagre, foi novamente analisada pelos doutores, que reabriram sua cirurgia em busca de uma razão para a complicação. Dentro de Ivone encontraram, esquecidos durante o procedimento, uma agulha e pedaços de gaze. Ninguém foi responsabilizado pela falha. “Os tempos eram outros”, reflete ela, grata, apesar de tudo, pela segunda chance que acredita ter recebido.

Casamento conturbado

Casou-se aos 16 com Paulo Flores – com quem viria a ter cinco filhas e quatro filhos - e foi morar no Vicentina, longe da madrasta. Paulo era mais velho e, nos primeiros anos de casado, teve a oportunidade de seguir carreira profissional como jogador de futebol. O pai dele, no entanto, o impediu de seguir o sonho. Ivone conta que, a partir daquilo, o marido se tornou uma pessoa amarga, começou a beber muito e a fazer dela o seu saco de pancadas pessoal. Entre lágrimas, Ivone relembra os horrores que viveu com o marido durante os 22 anos de casamento. “Na época, o casamento era só aquele homem pra sempre, então eu acreditava nisso né [...] mas ele era ruim demais pra mim”. Ela conta que Paulo bebia e se transformava. Ele atirava pedras nela, batia e, por duas vezes, tentou sufocá-la enquanto dormia. Nessa rotina, Ivone começou a fugir de casa nos períodos

mentos de tristeza, se agarrava a uma esperança: “Eu pedia, meu Deus, me dê forças pra suportar [...] eu quero poder ter meus filhos criados com saúde. Quero visitar a casa dos meus filhos.” Esse amor, dividido pelos nove, sempre lhe impulsionou a seguir em frente. Sem nunca ter aprendido a O rosto já ler, uma de suas marcado pelo maiores lutas foi tempo mostra força e superação pela educação das crianças. Onze anos era a idade em que o pai decidia tirá-los do colégio para que começassem a trabalhar e Ivone fazia o que podia para evitar isso. Alguns deles eram mandados para a escola escondidos. De todos, apenas uma das filhas não sabe ler. Marcia, hoje com 33 anos, teve dificuldades de aprendizado e decidiu largar os estudos. de bebedeira do marido. Ela Ivone acredita que essa dificulpegava os filhos pequenos e dade seria culpa das agressões se escondia num matagal até do marido, que batia muito a noite passar. Enquanto as na cabeça das crianças. crianças dormiam, passava as Depois que Paulo faleceu, noites acordada espantando ela mudou-se para outro loos insetos em volta deles e es- cal do bairro, onde vive até perando o sol - e a sobriedade hoje com um dos filhos numa do marido - retornarem. casinha que foi construindo A família nunca lhe deu aos poucos com o dinheiro nenhum apoio. Quando fa- da pensão do falecido. Todos lou com a madrasta sobre os ali a conhecem e a admiram abusos que sofria, recebeu de por sua história e sua alegria volta um “tu quis casar, ago- contagiante. Pois, sim, mesmo ra aguenta”. Nenhum vizinho com tantas adversidades, Ivofalou nada. Nenhum policial ne Flores carrega consigo uma nunca fez nada. Coube a Ivo- grande alegria de viver. Aos ne sobreviver a essa realida- 66 anos e com todos os filhos de como conseguiu. adultos, ela declara: “Hoje eu Paulo Flores morreu atro- sou rica. Sou rica. Olha tudo o pelado aos 42 anos, quando que Deus me deu [...] os meus voltava do do trabalho. “Eu pedi filhos vêm aqui, eles me beia Jesus que desse um lugar bom jam, me abraçam - às vezes pra ele ficar”, diz Ivone, ao lem- me dá vergonha, porque eu brar do ocorrido. Sem a figura não sou muito de beijo [...] do marido, ela tinha em mãos esses dias o Eduardo (um dos a oportunidade de uma vida filhos) me disse: ‘mãe, a sediferente. Como na época da nhora é linda. Linda por dencirurgia, tantos anos atrás, Ivone tro e por fora. É a mãe mais teria uma nova chance. linda do mundo’ [...] eu não preciso de mais nada.”

Sentido da vida

Vivendo às margens da miséria, Ivone conta que, nos mo-

Denis Machado Lucas Alves

Impressões de um ouvinte As histórias aqui contadas são meros fragmentos dessa longa trajetória. Ivone conversou comigo ininterruptamente por cerca de uma hora e meia escorada no portão de sua casa. Enquanto me levava para frente e para trás no tempo conforme os causos iam surgindo - muitos se misturando entre si, pois a vida e os problemas não esperam por ninguém - fiz alguns destaques. Muita coisa não está no texto e acredito que, nem mesmo no livro que ela sugeriu, a “Moreninha Sofrida” poderia ter totalidade da vida retratada. Quando tivemos que nos despedir, Dona Ivone encerrou a sessão de histórias de forma única: com as mãos no ar, foi desenhando um gráfico com os altos e baixos da vida até chegar no dia de hoje. Me despeço com a última frase dela ecoando em minha mente: “hoje eu tô no céu!”. (Denis Machado)


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(RE)COMEÇO .17

Além da identidade Com um nome social garantido pelo governo, Thalia vive sem prender-se a regras e tabus

N

a noite do dia 27 de agosto, nossa primeira visita ao Vicentina, os jornais locais anunciaram a “morte de um travesti”. No masculino. Essa pessoa não tinha idade, não tinha nome, não tinha nada. Para os jornais era só mais uma, mas, na minha cabeça, duas mortes haviam acontecido ali. A primeira do corpo, baleado, sem registro. A segunda foi a morte da identidade, que pode ter sido tão difícil de afirmar na própria vida, e que se perdeu sem reconhecimento na morte. Hoje, no Brasil, a maioria das pessoas transexuais e travestis não é descrita com o nome social nos registros de óbito. Se o direito de ser respeitado não é garantido nos termos finais, a realidade que se impõem sobre a vida não é menos ameaçadora. Segundo a organização não governamental Transgender Europe (TGEU), o Brasil é o país onde mais se matam travestis e transexuais no mundo. Por isso, a grande mudança nesta história é a própria vida. Em nossa última visita ao bairro, saí em busca de uma pessoa que pudesse contar como é adequar o corpo à sua identidade. Seguindo pistas de um vizinho ao outro e pulando as poças de barro que ainda sobraram da enchente, chego ao interfone de uma casa toda branca. Quando sobe o portão automático, descubro Thalia de Araújo, de 47 anos. Teca, como é conhecida, se identifica com um gênero diferente do que lhe foi imposto no nascimento. “Eu me sinto uma mulher, essa é a minha definição”, conta a moradora, que nos recebeu usando um roupão felpudo lilás. O ambiente que se revela atrás da porta é uma garagem. Enquanto ela se veste para a entrevista, observo uma fonte de água artificial cheia de figuras religiosas, das quais reconheço Iemanjá. Entre gaiolas de passarinhos, um aquário iluminado, e a plaquinha de “Aqui mora gente feliz”, ela nos recebe de maneira simpática. Está acostumada a ter a casa sempre cheia de gente. Moradora do Vicentina há três anos, Teca também é responsável por um centro de umbanda que fica numa sala construída dentro da garagem.

Filha de Iansã

“Engraçado que eu nunca botei placa, e sempre tenho gente”, comenta sobre o movimento de pessoas que recebe em casa. Faz 35 anos que Thalia entrou para a

religião de matriz afro-brasileira Umbanda, e hoje ela é responsável pelos rituais que acontecem no Ilê de Iansã e Ogum, noVicentina. Essa é a profissão que ela exerce: babalorixá, ou mãe de santo, apesar de não cobrar pelo serviço. Antes, trabalhou como costureira e cozinheira, além de ter atuado como técnica em enfermagem.“Tenho o dom de fazer coisas boas e ajudar o próximo, acolher, dar uma ideia boa”. Pergunto se ela poderia jogar os búzios para mim, mas avisa logo que não é possível: “nem tomei banho de ervas”, adverte. Quando fala sobre os rituais realizados com animais, garante que “o significado é fazer um apronte pros orixás”, e que “os afros de antigamente já usavam pra exercer a função e limpar o mal”. A carne ela informa que é limpa e doada. Os miúdos, os pés e o sangue do animal é que são usados na cerimônia. Os sacrifícios, que são vistos por muitos com preconceito, integram parte de várias culturas ancestrais e primitivas. O respeito e o valor dado à vida

do animal fazem parte da “troca” para as limpezas espirituais. Sobre os despachos em rua, ela discorda, “porque têm famílias perto, casas, e as pessoas têm que aguentar o fedor dos bichos porque apodrecem, e pode acontecer ainda de um inocente passar por cima e levar uma carga negativa”, esclarece a experiente babalorixá, sinalizando que a melhor forma de dar destino ao despacho é enterrando na mata, onde a oferenda volta ao solo alimentando outros animais. Para ela, esse é o ciclo correto. A religião é herança do pai, de quem ela não tem boas lembranças.

Um ninho de ´estranhos`

“Procurei uma família onde eu não tive, sou muito amada pelas pessoas de fora, o que eu não tive em casa, aqui fora eu tenho”, afirma a umbandista, que fala dos filhos e filhas de santo com muito carinho. Natural de Estrela, nem sempre o amor esteve presente em sua vida, “meu pai me colocou pra rua com

11 anos porque o vizinho disse que eu era homossexual, eu nem sabia o que era isso”, revela. A relação com o pai, Juraci da Silva Rangel, são memórias de um lar que nem de longe se parecem com o seu. A mãe, Iracema Francisca da Silva Rangel, só conheceu por nome. Morreu atropelada quando Teca tinha menos de 2 anos.“Não conheci nem por foto, os vizinhos que me falaram, meu pai nunca falou dela”, revela de forma emocionada. Quem acolheu o final dessa infância foram os avós adotivos, pais da madrasta. Com eles morou durante alguns anos em Sapiranga, e desde os 12 já trabalhava em uma fábrica de calçados. Desse tempo, o que mais marcou foi a fome. “Tristeza que tem, ou é doença ou é fome, estando bem alimentado tu pode ir em busca de tudo, com fome não”, pensa, refletindo sobre como retribui as pessoas que a procuram, como forma de agradecer as acolhidas que recebeu pela vida. A principal delas foi quando Tereza Viegas a trouxe para morar em Montenegro, aos 15 anos.

“Eu não tive a família carnal, mas tenho uma que consegui aqui fora, os estranhos são melhores que os de casa, às vezes”, opina por sua própria experiência. Tereza, de 67 anos, foi a pessoa que a trouxe de Sapiranga e deu condições para estudar e trabalhar. Muitos anos depois, com 25 anos, a vida deu a oportunidade de Thalia retribuir o gesto. A filha deTereza ficou grávida, e anunciou que deixaria o bebê no hospital. Foi aí que Teca resolveu dar o primeiro passo para construir a própria família.“Registrei a criança como pai”, conta, lembrando que foi a forma de viabilizar o processo de adoção na época. Desde os 3 dias de vida, Thaís Molinari Rangel é filha da Teca. “Ela me chamou de mãe porque quis, e me chama assim até hoje”, conta orgulhosa sobre a filha, seu assunto favorito. Com 21 anos, Thaís é casada, e está grávida de dois meses e meio. Ela mora na casa da sogra, mas visita a mãe toda semana. “A mãe que eu não tive, hoje eu sou pra minha filha, ela é a minha vida, tudo”, confessa Thalia com os olhos marejados. Na casa hoje moram o marido, Éverton de Araújo, de 38 anos, com quem ela tem uma relação de dezessete anos, e também o ex -marido, Jéferson da Silva Martins, de 54. Apesar de parecer estranho, Thalia explica a situação: “Eu expus pro meu marido atual: ‘olha, ele foi meu marido, me ajudou, e agora ele está “Vão ter que precisando de ajuda’, me respeitar, e nós acolhemos ele, porque eu estou hoje é meu filho de respeitando”, cobra santo”, esclarece. A a moradora quando relação entre os três o assunto é o preconceito é de amizade.“O meu marido aceita numa boa, ele é muito querido, quando tem problema a gente conversa, nunca batemos boca”, garante a moradora que obteve o nome social há cinco anos. Mesmo com o passado difícil, ela analisa que se tornou uma pessoa feliz e realizada pelo carinho que recebe. “Sou uma pessoa que tudo que eu tenho na minha vida eu divido com os outros”, ressalta. A identidade é reconhecida pelos amigos que a rodeiam, as vizinhas que vem ao centro fazer atendimento e os desconhecidos e desajustados que ela conheceu pelo caminho, e que nunca deixou de acolher. Saio do bairro com uma sensação de gratidão por ter conhecido essa pessoa que representa tão bem a diversidade da vida. Mulher trans, negra, umbandista e da periferia. Um corpo de luta ocupando a resistência em um mundo onde as injustiças estão inscritas desde que abrimos a porta. Gabriela Wenzel Thiago Borba


18. (RE)COMEÇO

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O instrumento que mudou uma vida Cirurgia não sai como o esperado e erro grave compromete qualidade de vida de moradora do bairro

I

magine ficar 11 meses com algo dentro do seu corpo, sem saber o que é. Sentir a sensação de incômodo constante, ir ao médico e ele não descobrir o que está acontecendo. Esse é foi o drama de Eloa Teresinha Taube, 60 anos. A empregada doméstica que há 20 anos mora no Vicentina ainda sofre com o que aconteceu. A“alemoa”, como é conhecida pelos vizinhos, fez há 5 anos uma cirurgia para melhorar a circulação sanguínea nas pernas. No entanto, desde a operação, tudo em sua vida mudou. No procedimento cirúrgico, efetuado no Hospital São Lucas, da PUCRS, foi esquecido dentro dela, literalmente, um instrumento cirúrgico, utilizado no procedimento. O que era para ser apenas uma correção de um problema simples tornou-se uma situação que atormenta até hoje. Há cinco anos, a doméstica também foi diagnosticada com um entupimento nas artérias dos membros

inferiores. A partir disso, a solução era fácil: instalar uma espécie de “filtro” na altura da cintura, em cada uma das pernas, para que o sangue pudesse circular livremente. A cirurgia consistia em fazer um corte em cada lado, de mais ou menos dez pontos, para a incisão dos filtros. O procedimento foi um “sucesso”. As dores e travamentos nas pernas agora não existiam mais, e o problema que já a incomodava por dois anos estava solucionado. Ela poderia voltar a trabalhar. No entanto, na primeira noite em casa, ao deitar na cama, sentiu uma sensação estranha. Parecia que havia algo dentro dela. Ao falar para o marido, recebeu uma resposta tosca: “tu tá é procurando doença”. Começava o calvário de Alemoa. Os onze meses com o “separador de cirurgia” dentro de seu corpo seriam de procura. Isso mesmo. Um instrumento que, segundo ela, tem o tamanho da palma de uma mão e formato de “C”, não era encontrado dentro dela. “Não sei se não estavam encontrando, ou acharam e tiveram medo de contar, pois foi um erro grave”, explica a doméstica. No entanto, somente

após um exame feito por Raio X, foi encontrado o objeto.

As quatro cirurgias

Após atestarem que havia algo estranho dentro de seu corpo, Eloa foi escalada para nova cirurgia no Hospital São Lucas, da PUCRS, no intuito de retirar aquele instrumento de dentro de seu organismo. Depois de 11 meses, finalmente poderia dormir uma noite de sono tranquilo, mas não foi o que aconteceu. Na operação, notou-se que havia uma situação onde as infecções tomaram uma proporção descontrolada. Com isso, a cirurgia tornou-se muito agressiva a seu organismo, deixando-a bastante debilitada. Desde 2013, sua rotina se tornou de cirurgias anuais para tentar resolver essas infecções. Na segunda, terceira e quarta cirurgias, o problema era o mesmo: as infecções. Aquele objeto não só incomodou ela, como continuava atormentando, mesmo sem estar mais lá. Nessas cirurgias, sempre existiram alguns fatores agravantes. Anteriormente a cada uma delas, a doméstica era internada cerca de 30 dias antes, para fortalecer seu sistema

imunológico. “É horrível. Se fosse só chegar lá e operar seria tranquilo. Mas, ficar todo esse tempo é um sofrimento”, conta Eloa. Além disso, de tantos procedimentos realizados, ela desenvolveu uma hérnia na região do púbis, que exigiu cuidado redobrado. A pior das cirurgias foi a última, na qual teve pneumonia no pós-operatório, e ficou mais uma semana no hospital. Além disso, essa última operação foi a mais incisiva de todas, pois na doméstica foi feito um corte que vai do ventre até os seios, totalizando 40 pontos, que a impede de se locomover com facilidade. “A minha vida nesses últimos dias tem sido assim”, diz Eloa, sentada na beira da rua, em uma cadeira de praia.

Mudança de Vida

Eloa tem passado os últimos dias sentada, esperando que as coisas possam melhorar. “Essa foi a última cirurgia que faço. Na próxima, não sei se aguento”, diz, muito desapontada com a situação. Das principais atividades que sente falta de fazer está o trabalho como doméstica, função que exerceu por mais de 35 anos. “Eu me sinto uma inútil assim, sem

fazer nada. Sou uma sem serventia”, reclama. Sair para se divertir é outra saudade. Ela lembra que saía frequentemente para bailes e jantares com o marido, mas isso, agora, é impossível de fazer. “É muito ruim sair no meu estado, eu estou sempre com dor. Não tenho condições”, afirma. Com três filhos e quatro netos, a aposentada explica que uma de suas netas é sua grande alegria. Betina, de 5 anos de idade, é portadora de síndrome de Down, e aos 2 anos e nove meses teve um grave problema de coração, no qual quase faleceu. “Ali foi o pior momento da minha vida. Eu posso aguentar toda a dor do mundo, mas ver minha Betina sofrendo, eu não consigo”, desabafa a moradora. Ela diz que a neta lhe dá forças para viver, como nunca imaginou ter. “Por mim eu já teria desistido. Mas, meu problema começou com o dela, acho que é um sinal. A Betina é minha razão de viver”, finaliza a doméstica, que durante o fechamento dessa edição do jornal iria tirar os pontos da última cirurgia e verificar se deu tudo certo. Guilherme Rossini MARCELO JANSSEN

Eloa passa a maior parte do tempo sentada, em frente à sua casa. Ela lembra com saudades do tempo que frequentava bailes e jantares


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(RE)COMEÇO .19

Só faltava um empurrão Ficar desempregado e com uma filha recém-nascida levou Zeca a fazer o que gosta

Sua vida nem sempre foi assim. Há mais ou menos 20 anos casou-se com Maria Elisabete da Silva, sua vizinha da frente. Tudo ia muito bem. Zeca estava firme na fábrica onde trabalhava, e Maria Elisabete da Silva estava esperando o primeiro filho do casal, ou melhor, filha, Tiele. Assim que Tiele nasceu, a fábrica de-

sa que me aconteceu”. Logo no início de seu curso, a esposa juntou um dinheiro e comprou uma cadeira de salão para lhe dar de presente. Com a cadeira e com a qualificação, Zeca montou um pequeno salão na garagem da casa dos pais e do irmão. “Ele colocava o carro um pouco mais para Em seu pequeno frente e ali mesmo eu cortava o cabelo dos salão, Zeca é clientes. O teto era o reflexo da bem baixo, eu semrealização pre batia a cabeça na lâmpada”, lembra, entre algumas risadas. Juntou dinheiro e fez sua clientela. Hoje com 18 anos, sua primeira filha, que foi a razão pela qual ele buscou o sonho de ser cabeleireiro, é professora. O casal teve ainda mais um filho, Vitor, que está com 13 anos, além da Ariana, de 24 anos, mitiu o trabalhador. Foi um que é filha da esposa em um retempo difícil. O morador lem- lacionamento passado. bra que ficou com medo de No pequeno espaço que não conseguir dar conta. Até Zeca reservou na peça para que, desempregado, ele viu cortar cabelo, há uma cadeira, um anúncio de um curso para um balcão onde guarda as tecortar cabelo. “Porque não?”, souras, máquinas e ferramenpensou consigo mesmo. Foi tas de trabalho, e algumas foaté o local a procura de mais tos antigas. “Graças ao corte de informações e descobriu que cabelo eu consegui criar minha o curso começaria no dia se- filha e sustentar minha família”, guinte. Sem pensar duas vezes, afirma ele com orgulho. pegou um dinheiro que havia Matheus Alves recebido do antigo emprego e Marcela dos Santos se inscreveu. “Foi a melhor coi-

Perdeu tudo. “Se não fosse a minha irmã abrigar a minha família, não sei para onde iríamos”. Na ocasião, Isabel teve que ficar fora de casa por uma semana, até que as águas baixassem. Aos poucos, com a ajuda de vizinhos, a aposentada conseguiu mobiliar sua casa novamente. Porém, no dia em que conversei com ela, o sofá estava no pátio para ser colocado no lixo. A chuva de outubro não

nenhum. Teria que voltar a morar de aluguel”, disse ela. O problema das enchentes no bairro é corriqueiro, mesmo assim não ganha a atenção necessária dos órgãos públicos. A história de Isabel é apenas mais uma que tinha tudo para ser feliz: após anos de trabalho, juntou dinheiro, comprou uma casinha para morar dignamente com a família. Mas onde há falta de interesse Após a última da classe política em chuva, Isabel resolver problemas deixa móveis e de saneamento bároupas ao ar livre estragou só o sofá, para secar sico, impera a tristeque ainda apreza do povo. sentava placas de barro, mas A chuva, necessária para também os armários da cozi- vida no planeta, quando cai nha, pia e cama. Mais uma vez no Vicentina não só lava o solo a chuva estragou o sonho de como também leva com ela Isabel de viver com segurança para um arroio mau cheiroso o em uma casa própria. sonho de uma vida mais tranSegundo a moradora, ela quila. Isabel diz estar presa à já tentou vender a casa, porém triste realidade ao bairro. ofereceram pouco. “Com o diJoão Arthur Moraes nheiro que estão oferecendo não Lucas Américo consigo comprar nada em lugar

Z

eca Cabeleireiro é o nome estampado na frente do comércio de José Luiz Teixeira, de 49 anos. No local, além de cortes de cabelo, funciona uma agropecuária, que é fruto do seu amor de infância por plantas e animais. Hoje, Zeca consegue sustentar sua esposa e seus três filhos basicamente cortando cabelo. Mesmo sendo sua grande paixão, só assumiu a profissão há 18 anos. Morador do bairro desde que nasceu, Zeca conta que antes de virar cabeleireiro sempre trabalhou em fábrica. Mas seu entusiasmo ao falar do antigo emprego não é o mesmo. Cresceu a vida toda na mesma rua. “Eu morava na casa da frente com minha mãe e meus irmãos. Aí me casei com a vizinha e vim morar aqui na frente”, lembra. O salão de Zeca fica no mesmo terreno onde mora com a família, mas na parte da frente. Nos fundos, além da casa, ele construiu um espaço para seus bichinhos e plantas. “Eu sou apaixonado por animais desde pequeninho. Sempre pegava uns bichos na rua e levava pra dentro de casa”, confessa. E a paixão fica clara. Em uma peça

grande, Zeca mantém diversas espécies de animais. São cachorros, pássaros, galinhas e até porquinhos da Índia, todos separados por baias e bem cuidados. Zeca nos leva por todos os cantos apresentando cada um de seus bichinhos. “Ô, Zeca!”, grita alguém no salão. “Já vai!”, grita de volta o dono do estabelecimento. É um cliente. “Faz o de sempre, passa a máquina um embaixo e deixa em cima altinho”, pede o cliente. Zeca então, pega a

máquina, a tesoura e o pente e põe a mão na massa.

A busca do sonho

Águas que fazem querer partir O Vicentina, como toda a grande comunidade, reúne muitas histórias. Sonhos, pesadelos, gente que chega, gente que vai embora. Algumas partes do bairro, por concentrar moradias de custo baixo, comparado a outras regiões da cidade, desperta em muitas pessoas o sonho da casa própria. Esta foi a motivação que levou a aposentada Ana Isabel Correa de Oliveira, prestes a completar 60 anos, a se mudar para o bairro, “a pior escolha da minha vida”, diz ela. Há quatro anos, Isabel morava no bairro São Miguel, pagava R$ 350,00 de aluguel mais água e luz. Com dificuldades financeiras, juntou dinheiro e comprou uma pequena casa próximo ao arroio

que corta o Vicentina. No imóvel construído de madeira e tijolos, Isabel mora com a filha e os dois netos. Vivendo apenas da aposentadoria e do salário da filha, o sonho dela é ir embora. O motivo que faz com que Isabel sonha em se mudar é uma reclamação de quase todos os moradores, um problema que já faz parte da rotina do Vincentina: as frequentes enchentes que atingem a comunidade. “Quando chove ficamos todos em pânico. Vivemos com medo. Enche o valão e a água vem toda pra dentro de casa, é um horror”, relata ela. Em junho do ano passado, a moradora saiu de casa com a água cobrindo 85cm de altura.


20. ESPECIAL

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Carolina (de amarelo, no detalhe) já mudou do bairro cinco vezes, mas sempre retorna para ver amigos e familiares e no último semestre do curso de Jornalismo voltou como repórter

Estudante de jornalismo fala sobre a contribuição do bairro na sua formação pessoal e profissional

F

ormanda em Jornalismo pela Unisinos, Carolina Lima foi moradora do Vicentina durante muitos anos. Sua mãe ainda mora no bairro e ela visita com frequência esse lugar, onde construiu suas melhores memórias e valores pessoais. Em 2014, a estudante participou da primeira visita para publicação do Enfoque Vicentina e, agora, após quase dois anos, volta para encerrar o ciclo de publicações com um olhar crítico e pessoal, não só como editora e repórter, mas também como entrevistada. Ao longo dos seus 23 anos de idade, Carolina já morou e se mudou do Vicentina cinco vezes. Entre idas e vindas, permanece com visitas frequentes à família e vizinhos. Foi ali que ela passou grande parte da infância e construiu seus valores pessoais. “Tenho um lance sentimental com o bairro. Lá eu aprendi o valor da solidariedade e isso me marcou”, conta a colega em um bate-papo de sexta-feira à noite. Entre as memórias da infância, Carolina destaca a liberdade de ser criança, de correr na rua e brincar até de noite. “No nosso pátio sempre tinha espaço para brincar e a gen-

te ia até tarde”, comenta, ao lembrar da casa em que morava, na mesma rua onde moram diversos parentes. Antes de se tornar uma localidade residencial, o Vicentina era uma área rural onde a bisavó de Carolina possuía um terreno. Quando começaram a surgir habitações, a família herdou um bom espaço na comunidade e ocupava uma área de aproximadamente meia quadra. Ali ficava situada a “Casa Azul”, nome atribuído à cor da residência onde morou a bisavó de Carol. Foi nesse lugar onde ela teve os melhores momentos de infância, e também onde aprendeu a lidar com as dores do mundo real. A tia Noeli é uma das lembranças frescas que a jornalista tem dessa época e da Casa Azul. Ela faleceu vítima de câncer quando Carolina ainda era pequena e foi a primeira vez que a menina soube o que era o luto. “Sempre sonho com aquele lugar. E também com muitos dos parentes que moraram ali e já se foram”. Apesar da dor da perda, a colega reconhece o aprendizado desse momento e o significado do apoio familiar na vida de uma criança. Foram essas memórias que tornaram tão difícil a primeira mudança do bairro, quando Carolina tinha 9 anos de idade. “Eu não queria sair dali, tinha meus amigos, meus colegas

Raízes

da escola. Depois que me mudei foi muito difícil fazer novos amigos e continuava visitando as pessoas que conhecia no Vicentina”. As outras quatro mudanças, porém, foram bem mais amenas. As relações com o bairro onde crescera já estavam consolidadas e persistiriam em qualquer outro lugar onde Carolina fosse morar. Tanto é que a jornalista ainda pretende voltar para essa comunidade. “Acho que daqui alguns anos volte para morar ali. Tenho muitos bons sentimentos e nostalgia quando estou aqui. Moraria próximo a minha mãe”, planeja. Há poucos meses da formatura, Carolina lembra que foi na sexta série ela despertou o desejo pela escrita, através da influência do pai e dos professores da escola Doutor Caldre Fião, onde estudou. O percurso de sua carreira está decidido: “Eu quero contar histórias. Aqui, ainda temos muitas que devem ser contadas”, informa, destacando o gosto por conteúdo lúdico e literário no Jornalismo.

Pé na Rua

Nas edições anteriores do Enfoque, os repórteres ouviram muitas manifestações dos moradores do Vicentina a respeito do conteúdo veiculado na mídia. O bairro é sempre citado como cenário de crime. Para Carolina, é preciso considerar a

contextualização histórica dessa região para compreender o mercado ilegal das drogas. “Não é uma escolha, é uma condição social. Sei que não se justifica o crime, mas como julgar? O caminho está ali, posto para ti”, argumenta. “O povo lá é do bem, são pessoas normais, tem uma vida normal. Não dá para generalizar o que acontece no tráfico com tudo o que acontece no bairro”, insiste. Porém, Carolina também entende que a escrita não se sustenta como a única ferramenta de transformação social. Através da militância, ela busca outros caminhos para um mundo melhor. “A gente busca reunir os jovens, debater realidades da cidade para encontrar soluções coletivas”, diz a jovem que compõe movimentos sociais da região. Atualmente, a estudante faz estágio no ObservaSinos, um programa do Instituto Humanitas Unisinos que monitora e sistematiza dados do Vale do Sinos. A formatura está marcada para o dia 20 de Janeiro, no auditório Padre Werner da Unisinos São Leopoldo. Em sua banca da TCC, a graduanda convidou todos os familiares para comparecer e acompanhar a apresentação: “Meu desejo é sempre aproximar a academia da comunidade para que haja representatividade também nesse espaço”, afirma.

Esse é também um dos valores do Enfoque. Sensibilizar o olhar dos alunos através de experiências inéditas em realidades diversas. No Vicentina, Carolina reconhece que a publicação elevou a auto estima da comunidade: “Lendo sobre a gente, aprendemos a nos valorizar, vemos que somos bonitos”. As edições publicadas nesse período de aproximadamente dois anos certamente foram marcantes tanto para autores quanto para personagens das matérias. “É uma questão de respeitar as pessoas, o olhar que elas têm do mundo”, diz Carolina sobre o processo de entrevistas dos alunos da disciplina de Jornalismo Cidadão. “Alguns colegas têm preconceito até ir lá conhecer. Uma hora eles entendem que violência existe todos os lugares, não é uma exclusividade”, aponta. Poder contar a sua história sem ser julgado, revelar sua identidade e ser reconhecido, protagonizar a própria história: o que acontece de mais importante no Vicentina são os laços que se constroem na vizinhança e que podem transformar o morador e a maneira como ele interage com o mundo, como aconteceu com Carolina. “Muito do que sou hoje, é herança das experiências que tive no bairro”, afirma. Fernanda Bierhals DYESSICA ABADI


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SINAL VERMELHO .21

Precisamos falar sobre abuso de menores Violações dos direitos das crianças e adolescentes aumentaram na cidade

A

o longo das diversas matérias feitas das 14 edições do Enfoque Vicentina, percebemos um problema que poucas pessoas se animaram a falar e, quando o fizeram, foi de forma reservada. O abuso de menores é uma realidade para diversas famílias do bairro Vicentina, mas também de tantos outros bairros e famílias de classes sociais. Precisamos falar sobre abuso infantil antes de fechar esta edição. Algumas mães ignoram, inclusive, que isso aconteça dentro de casa. Seja por falta de instrução, negligência ou simplesmente pelo medo ou incapacidade que impede a vítima de se manifestar. Com base no número crescente de abusos registrados pelo Conselho Tutelar de São Leopoldo, essa realidade não se limita ao Vicentina, mas a toda cidade. Segundo a conselheira Fernan-

da Borges, foram registrados 34 casos de abusos de menores na cidade entre janeiro e junho deste ano. “É preciso atenção a estes números, pois como a maioria dos casos ocorre no seio da família, eles não chegam até o Conselho. E, infelizmente, esse número tem aumentado na nossa cidade”, alerta Fernanda. Como ressalta a psicóloga Luciana Martins, do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI), que leva apoio, orientação e acompanha às famílias em situação de ameaça e violação de direitos, as consequências desse tipo de violência podem afetar diversos aspectos do desenvolvimento das crianças, como aquisição cognitiva, que está ligada ao desenvolvimento intelectual do ser humano, relacionamentos e autoestima.

Como o Conselho Tutelar age nesses casos?

Fernanda explica que, uma vez feita a denúncia, o Conselho Tutelar vai até a residência da

vítima para verificar e tentar colher informações da criança ou adolescente. Se não for possível, eles buscam conversar em outro ambiente, como na escola. Constatado e comprovado o abuso, os responsáveis são informados e a vítima tem que ser afastada do agressor.“Na maioria dos casos, é a mãe que decide se vai sair de casa com o filho, se vai registrar boletim de ocorrência ou se o abusador vai sair da casa. Depende muito de cada família, pois cada caso é único”, explica a profissional. Depois, a vítima é encaminhada para o Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS). A Conselheira ressalta que, a partir disso, a criança vai ter acompanhamento psicológico e do Conselho Tutelar até ser averiguado que a violação foi rompida e que ela está psicologicamente pronta para recomeçar a vida. Segundo dados do CREAS, atualmente o PAEFI acompanha 149 famílias em situação de risco social ou pessoal. Entre essas famílias, 51 dos casos são de abuso sexual.

Em quais situações o menor vai para um abrigo?

Os casos de menores que são levados para as casas de acolhimento são baseados em diferentes fatores, como negligência, omissão, maus-tratos ou quando se constata que os pais são os violentadores, pois o Conselho Tutelar atua somente na falta dos responsáveis. “Antes de acolhermos uma criança, procuramos todas as hipóteses e familiares para não violar ainda mais o direito dela. Mas, quando não há possibilidade ela é encaminhada para a casa de acolhimento”, diz a conselheira tutelar Fernanda Borges. Em muitos casos, a criança ou adolescente permanece no abrigo até os 18 anos, devido a lista de exigências das pessoas que buscam por adoção. Outra iniciativa em São Leopoldo é o projeto Apadrinhamento Afetivo, promovido pelo Departamento de Programas e Projetos de Alta Complexidade da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDES). A ideia

é proporcionar vínculos entre os menores sem a adoção de fato. Com esses laços de afeto, a criança passa a contar com um padrinho. “O padrinho vai ser referência, auxiliar nos estudos e local para ficar até que possa se estabelecer”, diz Fernanda.

Denunciar é necessário!

É difícil mensurar os reais números de abuso de menores, pois, ainda hoje, a maioria dos casos não são denunciados por diferentes motivos. Então, se você suspeita que há algum caso perto de você, mas não necessariamente na sua família, não deixe de fazer sua parte: denuncie. O Conselho Tutelar de São Leopoldo funciona com plantão 24h e as denúncias podem ser feitas anonimamente pelo telefone: (51) 8924-6360 ou pelo disque 100 da Central dos Direitos Humanos de forma anônima e gratuita. Paola Rocha André Michel


22. ENQUETE

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O meu bairro é...

Pelas ruas do Vicentina, perguntamos aos moradores o que pensam da infraestrutura do bairro, o motivo de viverem ali e no que a região poderia melhorar. Também quisemos saber o que aprenderam com a comunidade que hoje conta com cerca de 14 mil moradores Gabriela Wenzel, Laura Gallas e Matheus Alves Thiago Borba, Caroline Tidra e Marcela dos Santos

THIAGO BORBA THIAGO BORBA

Cassiele Eduarda Teppo de Deus é a porta-voz da turma. Ela tem 12 anos e a coisa que mais gosta de fazer desde que chegou ao bairro, um ano atrás, é “participar da sopa”. A atividade, organizada por mães moradoras do Vicentina, é a opção de lazer de várias crianças aos finais de semana. “Nós desenhamos, nós brincamos, as tias vêm aqui ajudar, penteando, cortando as unhas, limpando o nariz”, informa a menina, rodeada de crianças. Caroline Santos Pinheiro, de 10 anos, é uma delas. Juntas, as amigas compartilham a infância e os estudos na escola Rui Barbosa, além do gosto pela matemática.

Vitória, que se confunde na hora do sobrenome, tem 6 anos. A mãe, Deise Cruz da Rocha, dá uma ajudinha: “é Cruz da Rocha”, cochicha para a filha. Faz dois anos que Vitória chegou ao Vicentina, e sente falta é de uma pracinha para brincar. “Balanço, escorregador, gangorra, essas coisas”, imagina a menina. CAROLINE TIDRA

Wilson Luís Heldt Gil, de 62 anos, mora no Vicentina há onze anos, sendo que cinco desses,morou em outra casa. “A minha outra casa era no meio da rua, e daí a prefeitura me tirou de lá”, conta Wilson, lembrando que, quando comprou o terreno, prometeram que nada seria construído perto em função do banhado (perto de quê?). Anos e cargas de aterro depois, a casa de Wilson acabou ficando de fora do planejamento das ruas. Quando perguntamos o que aprendeu morando no bairro, ele garante: “Aprendi que não dá para construir uma casa no meio da rua”. O bom humor segue com Wilson em qualquer endereço.

CAROLINE TIDRA

THIAGO BORBA

MARCELA DOS SANTOS

Adriano Beck tem 42 anos e mora no Vicentina desde que nasceu. “Gosto daqui por ser um bairro muito tranquilo. Mas poderia ficar melhor ainda com um posto de polícia”, argumenta. Mesmo gostando muito do local, Adriano afirma que ouviu muitas promessas de que a comunidade ganharia uma creche onde hoje é o areião. “Seria muito bom para as crianças e para o bairro também”. Com um sorriso no rosto, ele completa: “Aqui aprendi a ser gente”.

A menina de 10 anos é tímida ao revelar na entrevista suas preferências no bairro, e lamenta: “Só posso brincar dentro de casa porque meus pais dizem que tem muito perigo”, afirma Ketelin Silva Oliveira. Quando se fala em melhorias, ela abre um sorriso de canto e responde: “Eu queria que tivesse mais pracinhas e poder sair para brincar”.

Capinando a beirada da calçada, Adriano Grings, 35 anos, afirma que falta manutenção de limpeza das partes competentes. “Estou fazendo um serviço que pago para o governo fazer”, diz o autônomo, indignado. Ele reside há oito anos no bairro e revela que gosta muito da vizinhança. “Gosto muito daqui, conheci minha esposa e tenho grandes amigos. O povo é muito humilde aqui”.


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Jogando bola na calçada em frente à sua casa está Kauã da Silva Müller, 10 anos. Ele e os amigos afirmam que morar no bairro é bom, mas poderia ter mais segurança para brincarem em outros locais. “Aqui é muito legal, gosto de brincar na calçada, mas às vezes meus pais não deixam”.

MARCELA DOS SANTOS

Morando há apenas um ano no bairro, Maria Ambos, 81 anos, abre um sorriso quando é questionada sobre sua vida no Vicentina. “Gosto muito de morar aqui, é tudo plano, dá para caminhar bastante e tem tudo que eu e minha família precisamos por perto”. A doméstica mora com o filho e se diz contente com as condições do bairro.

Milta Marques tem 43 anos e mora no bairro há sete meses. “Vim morar aqui e veio coisas boas pra mim, eu gosto daqui”, afirma. Mãe de três filhos, Milta gostaria que o bairro tivesse um posto de saúde para a comunidade. “Às vezes a gente madruga na fila do hospital no Centro, esperando médico, e não é atendido”, confessa a nova moradora.

CAROLINE TIDRA

CAROLINE TIDRA

CAROLINE TIDRA

José de Oliveira, 52 anos, mora há 30 anos no bairro e é enfático ao dizer o que precisa ser melhorado. “Acredito que em estrutura o bairro precisa melhorar muito, principalmente na segurança e no saneamento básico”, resume José, apontando para o bueiro na esquina de sua casa e para as altas grades no pátio. O operador de empilhadeira é feliz onde mora criou seus filhos e conquistou muitas amizades. “Aqui tenho muitos amigos”, conclui.

Com apenas 10 anos de idade, Marcos Daniel da Silva pensa como gente grande. “Poderiam fazer um posto de saúde aqui no bairro. Ia melhorar muito nossa vida”. Como toda criança, ele gosta de brincar e se divertir, e sonha com um lugar mais seguro para isso. “No lugar do areião podiam construir um campo de futebol. Metade campo de futebol e metade pracinha, para a gente brincar”, completa o menino, com um sorriso sonhador.

THIAGO BORBA

Wellington da Silva Santana, 13 anos, gosta de jogar futebol com os amigos, mas gostaria que tivesse mais opções de diversão perto de casa. “Aqui perto poderia ter um fliperama, porque só vou para a escola e jogo bola com meus amigos na rua”.

MARCELA DOS SANTOS

CAROLINE TIDRA

CAROLINE TIDRA

Juliana Mariano Nunes, 29 anos, veio morar com a família quando tinha apenas 1 ano. A farmacêutica aponta a falta de áreas de lazer, e conta que podem usufruir somente do Parque do Trabalhador. “O que poderia melhorar é a infraestrutura de lazer e de saneamento básico, para que não haja mais famílias desabrigadas quando há enchentes”. No entanto, ao final da entrevista, Juliana afirma: “Aqui sou muito feliz, entre tantas coisas, aqui aprendi a solidariedade”.

“O que eu mais gosto daqui são as amizades que fiz. Desde que vim morar aqui, aprendi a ser amiga”. Quem diz é dona Tereza da Silva, de 73 anos. Ela mora no bairro há 16 anos e sonha com o Vicentina seja mais seguro. “Precisamos de muitas coisas aqui, mas principalmente segurança”, lamenta Tereza. Mesmo assim, ela alimenta a esperança de um lugar tranquilo.

Documentário reconta histórias Repórteres retornam aos lares e às histórias de pessoas que saíram em edições antigas do jornal Enfoque Vicentina

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epois de dois anos do jornal Enfoque Vicentina, um grupo de seis alunos da disciplina de Jornalismo Cidadão decidiu produzir um vídeo, e escolheu recontar histórias de vida já publicadas nas edições anteriores. A ideia inicial do documentário era um produto que

fosse diferente do jornal. O editor responsável, Anderson Guerreiro, ressalta que o trabalho de pesquisa iniciou com a revisão de edições anteriores do jornal, a fim de encontrar histórias interessantes para serem recontadas em forma de vídeo. “Nós primamos por contar histórias de vida, não só sobre problemas da comunidade. Histórias que tivessem um personagem central. Esse foi uma das ideias centrais do documentário”, explica Anderson As matérias escolhidas não necessariamente foram capas do jornal, mas mereciam estar

no vídeo pela sua força. Assim, os repórteres Anderson Guerreiro, Cassiano Cardoso, Eduardo Zanotti e Graziele Iaronka saíram a procura destas histórias. A dupla de repórteres Carolina Zeni e Júlia Ramona se dedicou a ver a relação do bairro com o jornal, principalmente a reação das pessoas ao verem-se no Enfoque. Elas também procuraram registrar o que mudou na vida das pessoas, da vizinhança e do bairro. Seis fotógrafos acompanharam os repórteres na produção do documentário. São eles: Artur Colombo, Elias Vargas, Gabriel

Scopel, Guilherme Rovadoschi, Rafaela Trajano, Victória Lima, Vitor ya Cruz. Muitas histórias poderiam ter sido recontadas no documentário, contudo, alguns moradores não foram encontrados, outros tinham se mudado, falecido ou simplesmente não estavam em casa. Entre as entrevistas que a comunidade conhecerá no documentário há destaque para Denilson, palhaço que tem também um projeto com Hip -hop e Rap. Anderson Guerreiro entrevistou Volmi, um senhor que perdeu a perna direita em

um acidente em Canoas, vítima de atropelamento. Quando a história de Volmi foi contada no jornal em 22 de agosto, ele falou com orgulho que iria para o interior cuidar da mãe idosa, que tem 86 anos. Ao ser entrevistado para o vídeo, Volmi relatou que sua mãe havia falecido no dia 15 de outubro. O documentário poderá ser acessado na página do Facebook do Jornal Enfoque: https:// www.facebook.com/enfoquevicentina e https://medium. com/enfoque-vicentina. Elizangela Meert Basile


ENFOQUE VICENTINA

M

esmo conhecendo e interagindo com o bairro Vicentina por dois anos, a impressão que fica é que, depois de contar tantas histórias, apenas uma pequena parte dos universos escondidos em cada esquina, em cada rua, foram descobertos. Infelizmente, nem todas as vozes foram ouvidas. Em algumas vezes, talvez tenha nos faltado sensibilidade para enxergar com a devida compreensão. Mas, assim como vocês, moradores, somos pessoas em construção, e buscamos aprender com o jornal outras cores e tons que a vida pode ter. Aprendemos a ter empatia e a entender os outros. Nem sempre isso é fácil, mas ouvir já é um bom começo para repensar velhos hábitos, e nos livrarmos daquilo que não nos pertence mais, seja dor ou amor. Obrigada, Vicentina, por abrirem seus corações e suas histórias. Agradecemos também a Associação de Moradores, representada na pessoa do presidente, Seu Pedro Flores, e também a todos os que colaboraram diretamente com a construção deste jornal. Destacamos a simpática figura de Seu Zé Goularte que nos apresentou o bairro e a Educadora da Casa da Criança e do Adolescente Janine da Silva Demenighi, que descobriu o Enfoque e estabeleceu uma ponte entre ele e a equipe da Casa. Partimos certos que são vozes como as de vocês que precisam ser ouvidas. Enfoque Vicentina nas redes sociais: https://www.facebook.com/ enfoquevicentina e https://medium.com/enfoque-vicentina

SÃO LEOPOLDO (RS) NOVEMBRO DE 2016 facebook.com/enfoquevicentina

EDIÇÃO

14

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

Enfoque Vicentina 14  

Jornal experimental produzido por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (São Leopoldo/RS). Edição 14. Novembro de 2016.

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