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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA – UNIPAMPA PEDRO HENRIQUE PINHEIRO PEREIRA

AS TÉCNICAS DO JORNALISMO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO CIDADÃ Trabalho de Conclusão de Curso

SÃO BORJA 2010


PEDRO HENRIQUE PINHEIRO PEREIRA

AS TÉCNICAS DO JORNALISMO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO CIDADÃ

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Comunicação Social - habilitação em Jornalismo - da Universidade Federal do Pampa/Campus São Borja, com requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Jornalismo. Orientadora: Profª Msc. Mara Regina Ribeiro

São Borja 2010


PEDRO HENRIQUE PINHEIRO PEREIRA

AS TÉCNICAS DO JORNALISMO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO CIDADÃ

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à banca examinadora do curso de Comunicação Social habilitação em Jornalismo da Universidade Federal do Pampa/Campus São Borja, para a obtenção do título de graduado em Jornalismo.

Projeto de Conclusão de Curso defendido e aprovado em: Julho de 2010. Banca examinadora: ______________________________________________________ Profª. Msc. Mara Regina Ribeiro Orientadora Jornalismo – UNIPAMPA ______________________________________________________ Profª. Drª. Michele Negrini Jornalismo – UNIPAMPA

______________________________________________________ Profª. Msc. Naiara Dal Molin Ciência Política - UNIPAMPA


Àqueles que não mediram esforços para que eu chegasse até aqui: José Antônio e Maria Clara. Àqueles que tiveram paciência e carinho para conversar nos momentos mais difíceis: Melissa, Luciana e Bruno. E, claro, aos companheiros de sempre: Brunna e Cezar.


AGRADECIMENTO

Agradeço profundamente à professora Mara Ribeiro, que confiou imediatamente no projeto sugerido pelo grupo, dando motivação para a execução do mesmo. Obrigado pelas horas que seriam de descanso, mas foram dedicadas à revisão do relatório; pelo empenho em consultar e recomendar a melhor bibliografia possível, missão na qual teve inegável êxito. Com muito prazer e orgulho agradeço também aos meus pais, Maria Clara e José Antônio, por terem acreditado no meu sonho e, mais do que isso, feito todo o possível para que eu o alcançasse. Serei eternamente grato por terem confiado em mim mesmo no momento em que não merecia. Gostaria, sinceramente, que cada universitário gozasse de apoio ao menos parecido com o que tive de meus pais. À minha irmã, Luciana, precursora em todos os passos, de quando saí da casa de nossos pais até este momento, agradeço pelos ensinamentos e pelo carinho. Agradeço com muito amor à Melissa, minha namorada, que foi alicerce nos momentos de tensão; que compreendeu a falta de tempo; que em uma demonstração inigualável de companheirismo suportou, como eu, a dor da distância e da saudade. Meu agradecimento também a todos os meus familiares, pela incessante preocupação com o andamento do curso, dos projetos, e pela alegria com que me receberam nos encontros que tivemos ao longo desses quatro anos. Deveriam ser os momentos de descanso, mas, graças a eles, foi muito mais do que isso: foram momentos inesquecíveis de felicidade e união. Aos amigos que torceram por mim, entenderam os motivos de minha ausência em momentos importantes, vibraram com cada vitória e, acima de tudo, me carregaram em seus braços no momento da adversidade, meu profundo e eterno agradecimento. Aos colegas Brunna e Cezar, agradeço pela compreensão nos momentos em que fui ausente, pela amizade sincera e de todas as horas. Obrigado também por terem aceitado minhas sugestões no projeto e por não terem medido esforços para que o sucesso fosse alcançado igualmente por cada um de nós. Ao Fábio Gudolle e ao Frederico Pillon, minha gratidão por termos dividido tão fraternamente nosso espaço. Moramos sob o mesmo teto e o fizemos como verdadeiros irmãos. Ficam as nossas histórias e nossa eterna amizade. Aos demais colegas de curso, meu agradecimento pelo companheirismo e por tudo o que me ensinaram. Sobre as técnicas e reflexões acerca da nossa profissão, mas principalmente sobre a vida. Uma turma tão heterogênea que soube tirar proveito dessa característica e conviver em plena harmonia durante os quatro anos. Acima de tudo, agradeço a Deus, que, além de colocar cada uma dessas pessoas em minha vida, deu-me forças para superar os obstáculos encontrados nessa caminhada. Como o verdadeiro Pai Misericordioso Ele me mostrou sempre o caminho da terra fértil e me ensinou a valorizar este momento.


O mundo não é dos inteligentes, mas sim dos esforçados. José Antônio Pereira Júnior


RESUMO

Este relatório de projeto experimental versa sobre os conteúdos desenvolvidos para a construção do software “PaPo – Participação Política”. Para tanto, recorre a teóricos da Ciência Política, entre eles Avelar e Dallari, que consideram a participação como base da vida democrática. Sobre a democracia foram consultados Guareschi e Bobbio, segundo os quais esta pode superar questões como a discriminação. No que tange à Comunicação, o trabalho apóia-se nas idéias de Nelson Traquina, sobre o fazer jornalístico, e J. B. Pinho, quanto à linguagem adotada em função do meio de difusão e do público-alvo. A intersecção entre essas duas áreas de conhecimento é o mote principal da discussão que deu suporte para o desenvolvimento do produto final desta pesquisa. O texto mostra como o jornalismo apropria-se do metadiscurso para transmitir conhecimento sobre cidadania, política, democracia, participação e desenvolvimento da consciência cidadã.

Palavras-chave: Cidadania. Jornalismo. Jovem. Política. Software.


ABSTRACT

This report of experimental Project delas about the contentsdeveloped for the construction of the software “PaPo- Poltical Participation�. That is why it draws to the theorists of political science,among them Avelar and Dallari, who consider the participation as base of democratic life. On democracy were consulted Guareschi and Bobbio, according to whom that can overcome issues such as discrimination. About Communication, the work relies on the ideas of Nelson Tranquina, on doing journalism, and J.B. Pinho, about the language adopted in the means of dissemination and the audience. The intersection between these two areas of knowledge is the main theme of the final product of this research. The text shows how journalism appropriates of metadiscourse to transmit knowledge on citizenship, politics, democracy, participation and development of civic conscience.

KEY-WORDS: Citizenship, Journalism, Young, Politics, Software.


LISTA DE QUADROS

Quadro 1: Agentes políticos entrevistados.............................................................30 Quadro 2: Questionário das entrevistas .................................................................31


SUMÁRIO

1 Introdução..............................................................................................................11 2 Política, processos e a construção da consciência cidadã..............................16 2.1 O cidadão e a consciência cidadã.............................................................16 2.2 O jovem e a política...................................................................................21 3 As ferramentas do jornalismo na construção da educação cidadã.................24 3.1 Jornalismo: conceitos e definições............................................................25 4 O texto jornalístico utilizado no software “PaPo – Participação Política”.......33 5 Considerações finais............................................................................................38 6 Referências bibliográficas ...................................................................................40 7 Apêndice................................................................................................................43


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1 Introdução

Falar de política é uma tarefa das mais complicadas. Especialmente quando o público envolvido são os jovens, que ainda não têm a preocupação com esse assunto, principalmente por entenderem que a política se restringe às ações partidário-eleitorais, não associam às práticas do cotidiano quando argumentam e reivindicam sobre questões comuns da comunidade. Verifica-se atualmente um desgaste do modelo de política brasileiro em função da valorização exclusiva do partidarismo. A participação dos jovens em movimentos político-sociais praticamente inexiste, exceto em períodos como o da geração cara-pintada, que exigiu o impeachment do então presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello. O inconformismo com a política persiste, mas a ação da juventude é inexpressiva. O descrédito da política se deve principalmente a escândalos que se sucedem na administração pública brasileira, “levando a uma descrença em relação à representatividade dos políticos na defesa dos interesses dos cidadãos (...) corrupção, desorganização e fragmentação de projetos que não geram resultados” (CASTRO, 2008, p. 256). Para Linhares (2009):

O momento histórico, marcado, entre outras coisas, pela insatisfação com as práticas de representação, as denúncias cotidianas de corrupção e o surgimento de ferramentas de comunicação inovadoras, gera a necessidade de reformulação do próprio termo “política”. (LINHARES, 2009, p.1)

O desinteresse na política faz com que o jovem não busque conhecer os princípios que embasam o sistema ou mesmo sua estrutura elementar de funcionamento. Para realizar um trabalho de conscientização política focado nesse público é necessário esclarecer desde os mais básicos conceitos, como democracia, cidadania e participação até espaços pouco conhecidos pela juventude, como a micropolítica.


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Nesse contexto, o jornalismo tem o dever de transmitir de maneira responsável e objetiva as informações do cotidiano. Isso corresponde à sua função social. Enquanto difusor de conhecimento e formador de opinião, pode trabalhar na construção de uma sociedade mais participativa. Desenvolvendo seu papel dentro de um sistema democrático alicerçado na liberdade de expressão, o jornalismo mostra-se como uma ferramenta fundamental na construção de uma consciência cidadã, ou seja, despertar no indivíduo a autonomia para agir politicamente. Há pouco mais de duas décadas, o Brasil passou do regime militar para uma abertura democrática com a efetivação do direito de todo cidadão à participação política. Um exemplo disso é a possibilidade de inclusão dos jovens. Porém, a faixa etária entre 16 e 18 anos, correspondente ao período de voto facultativo, teve uma diminuição acentuada no processo eleitoral. Um dos motivos é o desconhecimento sobre a política e seus sistemas, bem como as formas e espaços de atuação. O que se constitui em impeditivo para que o interesse relativo à política aumente. De acordo com Cavalcanti e Meninato (2010, p.2):

A questão do voto obrigatório no Brasil, inibe uma avaliação exata da quantidade de pessoas que estão realmente preocupadas com o direito de votar, mas a lei que permite que o jovem tenha voto opcional a partir dos 16 anos, permite especular acerca da vontade do jovem de participar do processo eleitoral. Uma pesquisa feita pelo Data Teen (Centro de pesquisas do Instituto Paulista de Adolescência) revela que apenas 19,5% dos jovens de 16 à 18 anos já tiraram o título de eleitor. Enquanto no passado se lutou para ter esse direito, o cidadão moderno não dá o mesmo valor a ele.

Uma pesquisa sobre o perfil da juventude, realizada recentemente pelo Instituto da Cidadania (ABRAMO E BRANCO apud CASTRO, 2008), mostrou a relação desse público com a política. Um dos aspectos mais importantes revelados pelo estudo é que apenas 15% dos jovens participam de qualquer atividade de grupo no bairro e na cidade. Mesmo aqueles que consideram a política realmente importante, ainda assim constituem uma pequena parcela desse público: 37%. Uma das razões é a falta de confiança desses jovens em instituições político-partidárias. Isso representa somente 3% do grupo pesquisado. O crescimento da descrença (e, conseqüentemente, do desinteresse) do jovem pelo assunto pode ser constatado através dos dados da justiça eleitoral.


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Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, em outubro de 1992 o número de eleitores com 17 anos era de 1.822.639 (2,02%) e de 1.398.841 (1,55%) com 16 anos, respectivamente, chegando a 3,57% do eleitorado. Em junho de 2007, o número de eleitores com 17 anos era de 1.584.199 (1,26%) e de 507.939 (0,4%) com 16 anos, totalizando 1,66% do eleitorado. Isso representa uma diminuição de 46,5% de eleitores dessa faixa etária. A queda de aproximadamente 50% da participação dos jovens no processo eleitoral demonstra a necessidade de melhorias na educação política. Essa é uma tendência perceptível em todas as camadas sociais. O cidadão é pouco ativo politicamente. Ou até mesmo, como indica Avelar (2004), conformista. Isso se dá ou porque o cidadão não se sente capacitado para participar ou porque deixou de acreditar na política. Avelar (2004, p.223) enfatiza que “ligada à idéia de soberania popular, a participação política é instrumento de legitimação e fortalecimento das instituições democráticas e de ampliação dos direitos de cidadania”. A educação voltada para os eleitores que têm direito a voto facultativo deve instigar o interesse para participação não apenas dos pleitos eleitorais, como também para ação política em tempo integral. Estando preparados e familiarizados com as questões políticas, e com uma consciência cidadã já constituída, o público-alvo terá condições de identificar e pôr em prática seus direitos e deveres. Para Guareschi (2005) todos são sujeitos de direitos e deveres:

Sendo sujeitos, devem ter voz e vez, ter a oportunidade de poder se manifestar e contribuir na construção dessa sociedade comum. Ninguém quer de graça nem a igualdade, nem a liberdade. Tudo isso tem de ser construído com a participação de todos. (GUARESCHI, 2005, p.78)

Partindo

desse

raciocínio

a

participação

política

torna-se

uma

responsabilidade do cidadão que conseqüentemente pode vir a influenciar a realidade local, aprimorando a qualidade de vida. Para dar conta de todas as questões supracitadas o trabalho foi estruturado em três capítulos. O primeiro versará sobre os conceitos de política, suas formas de


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atuação, a importância da consciência cidadã, a democracia e a relação do jovem nesse contexto. Para isso, adotou-se alguns teóricos dessa área do conhecimento. O tema “política” foi tratado à luz das teorias de Max Weber, que considera que esta seja praticada em todos os lugares, o tempo todo. A participação política e, com ela, as micropolíticas, foi discutida tendo por base alguns pesquisadores como Avelar (2004) e Dallari (2004). Para eles, a participação é a base da vida democrática. Ao abordar democracia, tomou-se como referência as idéias de Guareschi (2005) e o Bobbio (2000), que entende que somente a democracia pode atender as questões de integridade social e superação das divisões e discriminações. Para definições relacionadas à cidadania, recorreu-se ao conceito aristotélico de que só é considerado cidadão quem participa ativamente dos acontecimentos de sua comunidade. Dallari (2004) acrescenta que o benefício da ação política é de toda a humanidade. A relação do jovem com a política é tratada no sentido de destacar o desinteresse dessa parcela da população com relação ao tema. Seguindo as idéias de Cavalcanti & Meninato (2010), conclui-se que o esfriamento da participação do jovem na política se dá na forma como ele está inserido na sociedade. O capítulo dois deste trabalho considera que a comunicação torna mais clara as maneiras de participação política e fortalecimento do processo democrático. Aborda também diferentes definições de jornalismo, como a de Traquina (2004), que o pondera como “a vida em todas as suas dimensões”, uma atividade intelectual. Para Bourdieu apud Traquina (2004), o jornalismo faz um recorte da realidade, pois seus profissionais vêem certas coisas e outras não. Portanto, a comunicação deve lançar mão do que há de mais interessante para o público que pretende atingir. O jornalismo digital contém técnicas que são facilmente assimiladas pelo jovem contemporâneo. O software, produto resultante desse projeto, utiliza-se de ferramentas e técnicas desse campo, como o uso de entrevistas, texto direto e a estrutura de hipertexto, comumente usada na internet. A produção do material torna-se mais objetiva e próxima do que é encontrado nos veículos de comunicação tradicionais, como a televisão, rádio e web. Isso prepara o público alvo do projeto para continuar absorvendo informação política em qualquer meio de comunicação posteriormente.


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Concluindo o segundo capítulo, analisou-se o papel do jornalismo para a construção de uma consciência cidadã. E também sua importância na construção de uma democracia fortalecida. Assim sendo, utilizou-se do conceito de Guareschi (2005, p. 77), segundo o qual, “para que haja democracia numa sociedade, é necessário que haja democracia também no exercício do poder de comunicar”. No terceiro capítulo são analisados três aspectos diferentes: a linguagem jornalística adaptada para o público jovem, as características do texto jornalístico empregadas na produção do conteúdo do software e análise da entrevista televisiva, cada um destes desenvolvido por um dos pesquisadores deste trabalho. Este relatório culmina na conclusão ressaltando a importância que tem a comunicação social no desenvolvimento de ações que visem uma atitude positiva dos jovens enquanto cidadãos comprometidos com o futuro da sociedade.


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2 Política, processos e a construção da consciência cidadã

“O que entendemos por política?” O questionamento colocado por Max Weber parece simples, mas leva a uma reflexão ampla e profunda. Segundo as idéias de Weber, a política é praticada em todos os lugares, o tempo todo. Tem-se política financeira, política grevista, política educacional, etc. Mas é importante, além disso, discutir a política enquanto liderança e a influência sobre essa liderança.

É fundamental não perder de vista que todas as atividades, de indivíduos, de grupo ou instituições, que influem sobre o comportamento das pessoas, ou para que aceitem passivamente as decisões de outras ou para que resistam a elas, ou para que conservem a ordem estabelecida ou para que procurem muda-la, ou para que apóiem o governo ou para que se opõem a ele, são atividades políticas. (DALLARI, 2004, p. 83)

A participação nos processos políticos ainda é vista como algo restrito no Brasil. Tem-se a idéia de que sem partidarismo não se faz política ou, pelo menos, não se considera política o que é feito paralelamente ao sistema político-partidário. Mas em uma democracia há muitas formas de atuar politicamente. O processo oferece diversas ferramentas que permitem aos cidadãos influenciar as lideranças políticas. Todavia, para participar de maneira consciente, é preciso entender a estrutura de funcionamento da política. O software, objeto analisado por este relatório, tem como um dos seus objetivos mostrar o funcionamento e as possibilidades que o cidadão tem de atuar politicamente nos diversos espaços possíveis.

2.1 O cidadão e a consciência cidadã


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Quando se trabalha cidadania, pode-se recorrer ao conceito aristotélico que considera o cidadão aquele que participa ativamente dos acontecimentos da sua comunidade. Segundo Aristóteles apud Bovero (2002, p.120), “ser cidadão significa ser um indivíduo que participa do poder de decisão coletiva”. Para construção de uma consciência cidadã é necessário anteriormente ter clareza sobre o que define um cidadão e reconhecer-se como tal. Para Aristóteles antes de falar em cidadania é necessário questionar: quem é cidadão e quem realmente pode ser chamado cidadão.

Aristóteles responde que “ser cidadão” significa – ou seja, consiste em, coincide com - ser titular de um poder público não limitado, permanente (...): cidadão é aquele que participa de modo estável do poder de decisão coletiva, do poder político, ou seja, a participação no poder político é conotativo essencial da cidadania, a qual portanto se resume essencialmente naquela que hoje se costuma denominar cidadania política (...). (BOVERO, 2002, p.120)

Portanto, para ser chamado cidadão é preciso não apenas habitar um local comum a outrem, mas sim exercer ou atuar ou participar das decisões políticas. Somente dessa forma o cidadão passa a ser membro com pleno direito em uma comunidade, pois tem desenvolvida a sua consciência cidadã. Esta consciência só é possível através da autonomia do indivíduo que lhe permite entender as contradições do mundo contemporâneo globalizado. Somente o cidadão autônomo tem a capacidade de refletir e até questionar sobre seu próprio papel sem que outro o faça, assumindo responsabilidade por suas decisões, engajando-se assim em atividades políticas que fortalecem a democracia.

O homem consciente luta pela participação política e trabalha para despertar novas consciências, pois o aumento do número de participantes será a grande força, capaz de eliminar as injustiças e restaurar a dignidade humana. (DALLARI, 2004, p. 96)

Como forma de participação política o indivíduo pode desenvolver os papéis de agente conscientizador ou organizador. Essas estão entre as maneiras mais


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eficientes de participar. Os benefícios dessas ações são mais amplos do que pode parecer, pois mesmo que o objetivo imediato de quem busca conscientizar não esteja sendo visado, é inegável que “toda a humanidade se beneficia quando um ser humano se dispõe a pensar e agir em defesa de sua dignidade ou para a melhoria das condições de convivência” (Dallari, 2004, p.51). O ato de buscar a conscientização coletiva tem uma finalidade ampla e consiste em difícil tarefa, uma vez que o cidadão resiste em compreender a importância da busca pelo bem comum. Dallari (2004, p. 51) considera que:

A conscientização consiste em dar uma contribuição para que as pessoas percebam que nenhum ser humano vale mais ou menos que os demais e que todos podem e devem lutar constantemente pela conquista ou preservação da liberdade de pensar e de agir e pela igualdade de oportunidades e responsabilidades.

Ter consciência da importância dos valores de igualdade e liberdade de pensar de nada adianta se o cidadão não buscar meios de gozar desses direitos. Isso só é possível participando ativamente da sociedade e oportunizando as demais situações em que possam agir igualmente. Os diferentes espaços da vida social e política existentes permitem participação em diversas áreas como no planejamento social, forças sindicais, ONGs e organizações comunitárias. Participação é uma palavra latina cujo significado pode ser compartilhar, associar-se pelo sentimento ou pensamento. Segundo Pizzorno apud Avelar (2004, p. 225):

A participação é a ação que se desenvolve em solidariedade com outros no âmbito do Estado ou de uma classe, com o objetivo de modificar ou conservar a estrutura (e portanto os valores) de um sistema de interesses dominantes.

O cidadão não entende, hoje, seu verdadeiro papel na política, atuando apenas a cada dois anos, no processo eleitoral, acreditando que esta participação é suficiente para cumprir seu papel na democracia.


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De acordo com Lima Júnior (1997, p.22) somente essa participação é insuficiente:

Se a presença do cidadão na política se faz sentir apenas através do ato eleitoral e a participação se faz presente apenas na escolha do representante, a influência do cidadão na política é mínima.

Avelar (2004, p.226) corrobora a idéia de Lima Júnior (1997) dizendo que: “A excessiva ênfase no canal eleitoral, como o cerne das atividades de participação, oculta os meios pelos quais os segmentos de não-elite se organizam e se manifestam”. Há diversas outras formas de agir além do ato de votar, como freqüentar reuniões de partidos, convencer pessoas a optar por certos candidatos ou partidos, contribuir financeiramente para campanhas eleitorais, participar de movimentos sociais, aderir a uma passeata e utilizar-se de diversas outras ferramentas de participação como nas administrações públicas e no acompanhamento dos acontecimentos políticos. Segundo Avelar (2004, p.228), “a participação política continua sendo o principal fundamento da vida democrática, e o instrumento por excelência para a ampliação dos direitos de cidadania”. Mas as ferramentas existentes para a efetiva participação referida pela autora acabam não sendo usadas pela população, simplesmente por desconhecê-las ou não saber como utilizá-las. Seguindo o raciocínio da autora, pode-se entender que, se o principal fundamento da vida democrática praticamente inexiste na maior parte da população, então da mesma forma praticamente não há vida democrática, pois a política tradicional está burocratizada e desacreditada. Conforme Canello (2003, p.01), ocorre hoje uma renovação política, rompendo com as convenções tradicionais. Essa mudança é representada basicamente pelos partidos políticos e se dá em grande parte pelas atividades de micropolítica.

A crise dos partidos tradicionais e de seus programas, bem como da própria atuação do governo, abre uma lacuna que está sendo preenchida


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por novas formas de se fazer política, que se traduzem através dos Novos Movimentos Sociais (NMS) organizações sociais de bairros, escolas, enfim, através de uma gama de entidades que vêm suprir a carência do Estado. (CANELLO, 2003, p.01).

Individualmente a participação diz respeito ao uso que cada cidadão faz dessas ferramentas de ação e busca pela informação, bem como do aproveitamento de todas as formas de influência aos demais, conscientizando os concidadãos a também agirem politicamente. Ao interagir socialmente, o indivíduo está participando coletivamente. A partir dessa convivência, o cidadão pode também passar a influenciar os demais. Dallari (2004, p.44) explica como o cidadão pode agir partindo do individual para o coletivo:

Em caráter estritamente individual cada um pode participar falando, escrevendo, discutindo, denunciando, cobrando responsabilidades, encorajando os tímidos e indecisos, aproveitando todas as oportunidades para acordar as consciências adormecidas. Isso pode ser feito em casa, no lugar de trabalho, na escola, no clube, nas reuniões de amigos, nos veículos de transporte coletivo e em qualquer outra circunstância em que as pessoas possam conversar.

É de extrema importância que o movimento de participação política seja organizado, desenvolvido a partir de objetivos claros e buscando-os com condições de continuidade posterior das ações desenvolvidas. Para isso, é primordial que se crie a consciência do papel do cidadão em todo o processo político. Essa importância da conscientização é defendida por Dallari (2004), que afirma que a efetiva participação política deve começar no plano da consciência. Somente após isso se abre o caminho para a plena participação. A ciência do que se passa não permite que o cidadão se mostre indiferente ou desanimado frente aos problemas sociais. Ainda segundo o autor, “a participação é um compromisso de vida, exigida como um direito e procurada como uma necessidade” (p.43). Quando o cidadão abandona a indiferença aos problemas sociais tem a necessidade de buscar as ferramentas de que dispõe para solucioná-los. A


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democracia garante a existência dessas ferramentas e, mais do que isso, protege a liberdade para o indivíduo utilizá-las. Democracia origina-se das palavras gregas “Demos”, que significa povo, e “cracia”, governo. Trata-se de um sistema em que as pessoas de um país podem participar da vida política. É apontada como sistema ideal desde o século XVIII, defendida por permitir que a vontade do povo esteja sempre em primeiro lugar. Posteriormente, em função da impossibilidade de tomar todas as decisões na presença de todos os cidadãos, criou-se o modelo de democracia representativa. No qual, as pessoas têm o direito de participar escolhendo seus representantes para os cargos de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente, através do processo eleitoral. A Constituição Brasileira garante a liberdade de expressão e os direitos de manifestação, bem como os direitos humanos fundamentais, como a liberdade de religião; proteção igualitária a todos os cidadãos; oportunidade de participação plena na vida política, econômica e cultural da sociedade. Uma das principais características da democracia representativa é garantir a realização de eleições livres e justas, com a participação de todos os cidadãos. Neste contexto, a comunicação aparece intimamente ligada ao processo de participação política, no que se refere à escolha direta dos representantes populares. A transmissão de informações corretas e de maneira clara e objetiva permite ao povo que escolha de maneira mais autônoma. O agente político pode, a partir do conhecimento adquirido, formar opinião própria e tomar decisões com base nesses dados.

2.2 O jovem e a política

Ao contrário do que ocorre hoje no Brasil, é na fase escolar que os primeiros contatos com a política devem acontecer. Os movimentos estudantis, tão atuantes e inseridos no contexto político-social entre a metade e o final do século XX, perderam força ao longo dos últimos anos.


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A militância estudantil serve como um laboratório para o que acontece na sociedade.

Reivindicações

por

melhorias,

formação

de

lideranças

e

o

reconhecimento da importância de se participar ativamente do processo político mesmo enquanto não se ocupa cargos oficiais dentro de um sistema organizado devem ser lições aprendidas durante essa fase. Em função desse enfraquecimento dos movimentos estudantis, caiu também a participação do jovem na política. Não só enquanto estudante, mas enquanto cidadão. O fato de o número de jovens eleitores, ou seja, entre 16 e 18 anos, quando o voto é facultativo, tenha caído pela metade nos últimos anos, mostra que esse desinteresse é uma realidade que põe em risco o futuro da democracia política do país. Não se conclui, a partir disso, que não haverá política. Mas que grande parte do

processo

político

nacional

estará

centrado

nas

mãos

de

pessoas

desinteressadas, alienadas ou despreparadas. O jovem que não se preocupa em votar não é apenas um eleitor a menos, mas um cidadão politicamente ativo e interessado a menos. Pois se não há o interesse em eleger seus representantes, muito menos há o interesse em buscar dentro de seu espaço na sociedade as melhorias que julga necessárias, o que também significaria agir politicamente. É importante, antes de tudo, buscar entender o porquê do juventude não gostar da política. O trabalho que ora se apresenta ouviu alguns deles em lugares públicos e constatou que o tema é tratado com ironia e total desinteresse. O desconhecimento dos processos políticos e da sua estrutura de funcionamento é o motivo mais comum para que se tirem conclusões equivocadas acerca da política. Primeiro, o jovem alega ser desinteressado pelo tema por não gostar dos políticos. Não sabendo, portanto, que ele próprio trata-se de um agente político. Atualmente, ele abre mão de seu pleno direito à cidadania simplesmente por não participar das decisões políticas. Então, como buscar a participação desse público tão importante hoje e, principalmente, no futuro? Por tratar-se de um grupo com características e linguagem próprias, julga-se mais adequado atingir essa parcela da sociedade com uma ferramenta que lhe seja familiar e acessível. Um software educativo sobre a participação política vai trabalhar de maneira objetiva e clara a criação de uma consciência cidadã, ou seja, o jovem passará a ter ciência da sua importância na construção de uma sociedade melhor.


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Segundo Cavalcanti e Meninato (2006), não se pode apontar apenas um motivo que explique o esfriamento da participação da juventude na política. Isso se deve à forma como ele está inserido na sociedade, sua vivência ou posição política. Os autores consideram que

um participante da União Nacional de Estudantes, por exemplo, vai tender a justificar o acontecimento culpando o próprio sistema ao invés de considerar os conflitos internos do jovem em si, o que é potencialmente uma posição perigosa porque ela terceiriza o poder de mudança, e justifica a apatia. Já um ativista, ou militante da época de ditadura, pode tender a outra opinião, pelo fato dele já ter lidado com os “culpados” de forma diferente. (CAVALCANTI; MENINATO, 2006, p.2 ) .

Porém, alguns fatores são de fácil reconhecimento e compreensão, como o descrédito nos políticos e, por conseguinte, na política como um todo; marcas da repressão que se estendem para o período posterior ao fim da ditadura militar, em 1983; características do mundo atual, como o individualismo, potencializado pela política neoliberal, que acaba por afastar o indivíduo do Estado ao incentivar a livre competição comercial. Sobre essas características que marcam a sociedade atual, Cavalcanti e Meninato (2006) lamentam o fato de que, apesar de o mundo estar implorando por transformação, a parcela social que deseja mudanças reais ainda é insignificante. Os autores concluem de forma categórica que se tem que “torcer somente para que, quando a fome bater na hora da colheita, a realidade não nos responda com o mesmo nível de negligência que lhe oferecemos” (p.8).


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3 As ferramentas do jornalismo na construção da educação cidadã

A Comunicação configura-se como uma questão relevante para a humanidade. Considerando-se que ao falar nesse assunto deve-se ter sempre em mente que o ato de informar envolve sempre o outro, isto é, há uma relação/troca entre as partes envolvidas, o emissor e o receptor. E nessa troca há sempre um risco. Segundo Dominique Wolton (2010), “o resultado é incerto visto que o emissor raramente está em sintonia com o receptor e vice-versa”1. Porém, a comunicação é essencial para a emancipação individual do cidadão. Sendo assim quando o resultado dessa troca atinge o objetivo, o indivíduo ganha, de alguma forma, autonomia para suas decisões. Quanto maior a autonomia, mais qualificada é sua consciência cidadã, pois a pessoa absorve conhecimento e, conseqüentemente, age em prol de melhorias da coletividade. Quando se compreende o processo e os efeitos da comunicação, a capacidade do homem de resolver problemas evolui. Isto é, ao perceber que através da comunicação é possível influenciar o outro, a intenção passa a ser uma busca pela melhoria na habilidade de comunicar-se. Tanto é importante que essa preocupação tem-se infiltrado em todas as atividades humanas. Berlo (2003, p. 11) afirma que o objetivo essencial da comunicação é gerar um resultado, uma ação ou reação:

Quando amadurecemos, começamos a estudar os próprios sistemas de comunicação: as organizações sociais, as relações econômicas, os valores 1

WOLTON, Dominique. Informar não é comunicar. Disponível em: http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/22093155.pdf. Acesso em: 30 jun. 2010, 17:31.


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culturais, todos construídos pelo homem usando como instrumento os comportamentos de comunicação. (BERLO, 2003, p.11)

Percebendo o valor dessa interação, o indivíduo conscientemente lançará mão dela para atingir o objetivo de criar uma reação coletiva ou individual na audiência (no outro), tornado-se atuante no meio em que vive. Berlo (2003, p. 12) afirma que, “nosso objetivo básico na comunicação é nos tornar agentes influentes, é influenciarmos outros, nosso ambiente físico e nós próprios, é nos tornar agentes determinantes, é termos opção no andamento das coisas”. Portanto, precisa-se da comunicação tanto quanto do alimento para sobreviver, pois nenhum ser humano é auto-suficiente. Há a necessidade de interação com o outro. A cooperação entre os indivíduos é essencial para alcançar objetivos e metas. Essa união de pessoas com ideais em comum dá origem à organização de grupos sociais ou sistemas sociais. É nesse momento que a política tem papel essencial para gerir essa convivência coletiva. Para Dallari (2004, p. 44) “A força do grupo compensa a fraqueza do indivíduo”. Isso tem sido demonstrado através da história, nos mais diversos lugares e nas mais diferentes situações.

3.1 Jornalismo: conceitos e definições

Para Traquina (2004, p. 19), “o jornalismo pode ser conceituado como a vida em todas as suas dimensões, como uma enciclopédia”. Essa afirmação parte de uma reflexão acerca do trabalho desenvolvido diariamente por profissionais, que relatam os mais variados acontecimentos sobre saúde, política, economia, esportes, educação, ambiente e demais assuntos, quebrando as fronteiras e distâncias, aproximando e tornando públicas notícias locais, regionais, nacionais como também internacionais. Muitos desses comunicadores afirmam que o jornalismo é a realidade. Isso se deve ao trabalho que realizam desde a coleta dos dados até a produção de suas matérias, buscando a cada notícia reproduzir o fato, tal qual ele se apresenta. Traquina (2004, p. 20) pondera:


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No entanto, dever-se-ia acrescentar rapidamente que muitas vezes essa realidade é contada como uma telenovela, e aparece quase sempre em pedaços, em acontecimentos, uma avalanche de acontecimentos perante a qual os jornalistas sentem como primeira obrigação dar respostas com notícias, rigorosas e se possível confirmadas, o mais rapidamente possível, perante a tirania do fator tempo.

Porém, essa questão de reproduzir a realidade, tal qual ela é, é muito contraditória. Muitas pessoas afirmam que esta não existe ou, ao menos, não em sua totalidade, pois as informações sempre são dadas através dos olhos de uma pessoa, e cada indivíduo pode ter visões diferentes de uma mesma situação. Nesse contexto, surge outra discussão importante no desenvolvimento das matérias jornalísticas que é a busca por pluralidade de fontes. Quando uma mesma informação é fornecida por diferentes agentes pertencentes à situação, o profissional tem maior visão do acontecimento e pode levar ao público essas diferenciações, oferecendo a ele condições para que faça sua própria análise dos fatos. Segundo Pierre Bourdieu apud Traquina (2004, p. 30),

os jornalistas partilham estruturas invisíveis, ‘óculos’, através das quais vêem certas coisas e não vêem outras. O jornalismo acaba por ser uma parte seletiva da realidade. (...) os membros da comunidade profissional partilham não só uma maneira de ver, mas também uma maneira de agir e uma maneira de falar, o ‘jornalês’.

As pessoas buscam diariamente por informações, querem saber o que acontece nos mais variados locais e, para isso, usam dos veículos de comunicação. Estes lhes permitem participar das discussões coletivas, formarem opiniões e defenderem suas idéias na sociedade. Ainda fazem com que se sintam confiantes de que através dos vários produtos do jornalismo estarão sempre informadas. A produção jornalística pode ser vista também como uma atividade intelectual, que exige conhecimento de causa, criatividade, organização, disciplina para construir o mundo em notícias. Muitas vezes, os jornalistas são reduzidos a meros técnicos da linguagem e seus formatos, esquecendo que esta profissão vai


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muito além da técnica e é marcada pela responsabilidade social em que os profissionais precisam fazer escolhas sob intensas pressões. Traquina (2004, p. 27) enfatiza que o jornalismo visto como um serviço público abastece “os cidadãos com a informação de que precisam para votar e participar na democracia e age como guardião que defende os cidadãos dos eventuais abusos do poder.” Nesse contexto, o jornalismo tem por finalidade orientar o cidadão sobre o seu papel nas questões relacionadas à política, o que geralmente acontece apenas nos processos eleitorais. Quando os profissionais da comunicação colocam suas técnicas a serviço da educação política, além de desenvolverem seu papel social estão tornando mais claras as possibilidades que os cidadãos têm de intervir na política. Trata-se de não apenas classificá-las, mas principalmente entender como se formam e como é representada a participação política nesses espaços de ação do indivíduo numa democracia. As técnicas de comunicação jornalísticas como entrevistas, o texto simples, a objetividade, a interatividade podem ajudar a despertar o interesse pela política. Os meios de comunicação devem responder pelo caráter social que lhes é atribuído.

a democracia implica na soberania popular e na distribuição equitativa dos poderes. Os meios de comunicação fazem parte desses poderes. Para que haja democracia numa sociedade, é necessário que haja democracia também no exercício do poder de comunicar (GUARESCHI, 2005, p. 77).

Traquina (2004) questiona se “o jornalismo é apenas um espaço fechado de reprodução ideológica do sistema dominante, ou pode ser um espaço aberto a todos os agentes sociais na luta política e social?”. Seria uma visão romântica da profissão imaginar que o jornalismo é a soma de todos os jornalistas a agir em plena liberdade. Traquina considera que se tenha uma “autonomia relativa”, pois os jornalistas são condicionados pelo tempo de fechamento do jornal, pelas hierarquias superiores, pelos próprios donos e demais agentes sociais envolvidos. Traquina (2004, p. 22) considera como papel central do jornalismo a democracia:


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A democracia não pode ser imaginada como sendo um sistema de governo sem liberdade e o papel central do jornalismo, na teoria democrática, é de informar o público sem censura. Os pais fundadores da teoria democrática têm insistido, desde o filósofo Milton, na liberdade como sendo essencial para a troca de idéias e opiniões, e reservam ao jornalismo, não apenas o papel de informar os cidadãos, mas também (...) a responsabilidade de ser o guardião do governo. Tal como a democracia sem uma imprensa livre é impensável, o jornalismo sem liberdade ou é farsa, ou é tragédia.

Diante do exposto, compreende-se que o jornalismo pode cumprir importante função na democracia ao expor de maneira objetiva e imparcial as ferramentas para que a sociedade aja politicamente, dando autonomia para que o faça da maneira que julgar melhor. Com o advento de novas tecnologias, a implementação destas no fazer jornalístico torna ainda mais acessível a difusão desses conteúdos. Considerando a dimensão social da profissão utilizou-se de técnicas jornalísticas, como a entrevista, reportagem e técnicas de redação do webjornalismo para produzir o software educativo, resultado do presente projeto experimental. As entrevistas foram realizadas em formato pergunta-resposta pela necessidade de colocações objetivas e pontuais sobre os assuntos abordados. Considerou-se primordial que o assunto fosse apresentado de maneira que não tornasse cansativo o aprendizado. Para atingir o objetivo pretendido e conseguir um feedback positivo do público alvo, os jovens entre 16 e 18 anos, fez-se o uso de uma linguagem informal, direta e objetiva, que também corresponde a características do próprio jornalismo. O desenvolvimento do projeto consiste na criação de um software de aprendizagem interativo educacional que mostrará ao usuário, através de recursos multimídia, as ferramentas de participação política. Adotou-se o nome de “PaPo – Participação Política” para denominar o software. A formação do acrônimo (pa+po) de “participação política” resulta de uma gíria comumente usada pelos jovens para definir o diálogo. Considerando que Dominique Wolton (2010) afirma que a comunicação é mais que informar, é a troca que existe entre os interlocutores, em que cada sujeito envolvido sai ganhando de alguma forma conhecimento, o que os jovens chamam de “papo” sugere que haja essa mesma troca. A proposta do trabalho é trazer a temática para o universo juvenil


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e, para tanto, o software foi estruturado de maneira que ofereça uma leitura nãolinear e com a liberdade que os jovens buscam incessantemente. Isto pode ser notado também pela adequação com o título adotado. A interatividade proposta se aproxima do conceito de web 2.0, uma vez que é desenvolvido pelos pesquisadores a partir de mecanismos disponibilizados ao grande público. O conceito de web 2.0 diz respeito à possibilidade de aperfeiçoamento constante das ferramentas multimídia a partir da inteligência coletiva. O software é disponibilizado inicialmente em modo off-line, ou seja, sem a necessidade de estar conectado à internet. Porém, a linguagem usada para o desenvolvimento do programa permite sua publicação na rede mundial de computadores (web). Para concatenar essas características, a linguagem de programação utilizada foi o Flash, acessível a partir de qualquer equipamento utilizado atualmente e que permite a exibição de vídeos e imagens em movimento. O conteúdo é apresentado através de material audiovisual em que o usuário constrói seu próprio aprendizado através da participação em um quiz, que consiste em um teste interativo em que algumas das respostas de múltipla escolha serão corroboradas pelos agentes políticos da sociedade. Por exemplo, um vereador responderá questões relacionadas ao legislativo, um prefeito ou secretário ao executivo, um presidente de bairro sobre a atuação de sua entidade, e assim sucessivamente. A linguagem utilizada na construção do software foi projetada para atender o público do Ensino Médio, cuja faixa etária corresponde à idade na qual é opcional possuir o título de eleitor, ou seja, é quando a maioria dos jovens está iniciando seu contato com a política. Por estar em CD-ROM, uma mídia acessível, possibilita a inclusão digital, podendo ser divulgado nos mais variados locais, especialmente em escolas. O conteúdo contém definições das ferramentas existentes para a participação política disponíveis para a sociedade. Para tanto, utilizou-se conceitos de alguns teóricos da Ciência Política apresentados através de técnicas de comunicação com o uso de recursos tecnológicos modernos. Além de conceitos teóricos baseados na bibliografia disponível, também se utilizou da pesquisa de campo, como materiais institucionais, orientação de profissionais e entrevistas com diversos agentes sociais que representam além de instituições que fazem parte dos poderes da união, também representantes de


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micropolíticas, como por exemplo, ONGs e Associações. O quadro 1 contém a lista completa de todos os entrevistados com suas titulações.

QUADRO 1 Agentes políticos entrevistados

Agentes sociais

Função social

Alessandro

Presidente do Grêmio Estudantil José de Alencar do

Souza

Colégio Estadual Getúlio Vargas, São Borja - RS.

Ardil Dobler

Coordenador do Assentamento Cristo Redentor, São Borja - RS.

César Beras

Doutor em Sociologia, professor da Universidade Federal do Pampa, campus São Borja - RS.

João Carlos

Vereador do município de São Borja - RS.

Reolon Jorge Souza

Presidente do Sindicato dos Comerciários de São Borja RS.

Lauro Silveira

Presidente da Associação dos Moradores do Bairro da Vila Santos Reis, São Borja - RS.

Lins Roballo

Coordenadora da ONG Girassol: Unidos na Diversidade, São Borja - RS.

Nerci José Ames

Prefeito municipal de Alecrim - RS.

Paulo Pimenta

Deputado Federal pelo Rio Grande do Sul.

Rafael Silveira

Juiz de Direito da 1ª Vara Cível de Santiago.

Peixoto


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A escolha dos entrevistados seguiu alguns critérios, tais como: a representatividade de sua entidade; a experiência no desempenho da função; histórico de envolvimento nas causas sociais; fluência da fala, a fim de tornar o material o mais claro possível; facilidade de deslocamento e acesso. O quadro 2 lista os questionamentos realizados a esses agentes políticos, com a proposta de utilizar de suas opiniões para construir o conteúdo do software. As temáticas utilizadas versam sobre democracia, micropolítica, cidadania, participação política, como também o próprio conceito de política. QUADRO 2 Questionário das entrevistas Questionário Qual a função de um ocupante do seu cargo? Qual é a importância de sua função no processo político? Por que é importante a participação política de todos os cidadãos? Como se pode incentivar o indivíduo a participar dos processos políticos? O que o senhor entende por democracia? Como o senhor entende a obrigatoriedade do voto? Isso não dificulta a participação autônoma do indivíduo? Qual a relação de sua entidade com os poderes legislativo e executivo? (1) Qual a relação entre o poder legislativo e o poder executivo? (2) Qual a relação do poder judiciário com os poderes legislativo e executivo? (3) O que o senhor compreende por política?

1. Pergunta realizada apenas para o coordenador do Assentamento Cristo Redentor. 2. Pergunta realizada apenas para o vereador municipal de São Borja. 3. Pergunta realizada apenas para o juiz de direito. 4. Demais perguntas são comuns a todos os entrevistados.

Através do software o público visualiza exemplos de concidadãos que buscaram mudanças e de alguma forma colhem frutos por isso. Assim, terão mais facilmente o interesse despertado para as questões políticas que o cercam, bem como tomar ciência da importância de participar e oportunizar participação aos demais, constituindo uma cidadania igualitária, onde haja democracia nas decisões para que estas passem a beneficiar o maior número possível de grupos sociais.


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Nesse

contexto, o jovem

aparece como público

a ser atingido,

principalmente por dois motivos: é a parcela da sociedade que em breve assumirá o comando da nação; é o grupo que apresenta maior declínio nos índices de participação política. Para chegar a esse grupo específico foi necessária a utilização de uma linguagem coloquial, clara e objetiva, que fizesse uma ligação entre a linguagem jornalística e a utilizada pelos jovens, além de contar com elementos visuais atrativos, cores vivas como verde, laranja, amarelo e vídeos objetivos, que trazem a marca do PaPo, através da vinheta inicial, presente em todos as entrevistas que ilustram o tema e a música, estilo rock, admirada pelos jovens. Além disso, buscou-se um formato intermediário entre a linguagem supracitada e o formato convencional, que o jovem encontra diariamente nos espaços de difusão de informação, como jornais, revistas, rádio e televisão. O ambiente virtual e os vídeos educativos contrastam com textos objetivos e diretos, sem gírias nem redação típica da internet, com abreviações e onomatopéias. Isso se deu com a finalidade de inserir o jovem na busca por informação sobre política. Ou seja, a partir da utilização do software ele partirá para o acesso a esse conhecimento nos meios convencionais da mídia e, tendo passado por essa fase intermediária de modo atrativo, porém sério, tenderá a se identificar com mais facilidade, agora por causa do assunto propriamente dito.


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4 O texto jornalístico utilizado no software “PaPo – Participação Política”

Falar de política para jovens é uma pretensão muito grande em um país onde os representantes eleitos pelo povo são tão desacreditados, como é o caso do Brasil. Utilizando-se de ferramentas do jornalismo, pouco acessado principalmente por essa parcela da sociedade, torna-se ainda mais complicado. Mas recorrer a um meio de inserção cada vez maior entre esse público (a internet) mostrou-se uma escolha acertada. Então, importar recursos da redação jornalística para familiarizar os futuros representantes do país com a busca por conhecimento foi a saída encontrada. Ainda que seja um produto pensado para ser disponibilizado em modo off line, o software originado neste projeto pode ser hospedado em servidores da internet. A navegação foi elaborada de forma que o público se identifique com o meio virtual mesmo quando não estiver nele. Com a finalidade também de dar clareza e objetividade à exposição do conteúdo, foram empregadas técnicas de redação jornalística que conferem essas características ao texto. A estrutura do texto jornalístico serviu como base para a construção do conteúdo mostrado no aplicativo. O texto jornalístico é fundamentado na resposta de questões básicas para transmitir uma informação: o que, quem, quando, como, onde e por quê. Ao ler as respostas a essas questões, o leitor terá ciência de tudo o que aconteceu. O que vem (ou não) depois são informações adicionais, que complementam e contextualizam a notícia.


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Uma vez o lead – nome dado ao “esquema” de perguntas a serem respondidas no texto jornalístico – respondido, temos a função informativa contemplada. A partir disso cumpre-se uma função interpretativa, ou seja, trata-se de fornecer conhecimento e ferramentas para que o leitor possa entender todo o contexto daquele acontecimento, interpretando os fatos livremente. Segundo Lage (2005),

O lead clássico ordena os elementos da proposição – quem/ o que, fez o que, quando, onde, como, por que/ para que – a partir da notação mais importante(...) (LAGE, 2005, p.75)

Dito isso, é preciso entender como se dará a análise do texto do “PaPo – Participação Política”, uma vez que este não versa sobre nenhum acontecimento, não é factual e, portanto, poderia prescindir das características da escrita jornalística. O software educativo tem a intenção de informar sobre os assuntos trabalhados neste relatório. Essa informação chegará a um público jovem. Portanto, é imprescindível que se apresente de maneira precisa, objetiva e prática. Além, é claro, de atraente. Para que toda a carga de informação fosse passada da forma mais clara possível, a construção do software apropriou-se das ferramentas do texto jornalístico e do que, segundo o jornalista e escritor Eduardo Bueno, o jornalismo tem de melhor e de pior. Para ele, o melhor da linguagem jornalística é a objetividade, a fluência, a leveza narrativa que acaba capturando o leitor. Enquanto o pior fica por conta do que ele chama de “pano rápido”, ou seja, o pouco aprofundamento em qualquer tema, seja pela falta de espaço, seja pela falta de tempo – do receptor ou mesmo do produtor da notícia (informação verbal)2. Para prender a atenção do público jovem, o PaPo utilizou essas características. Através de textos diretos e concisos, apresenta teorias até então estranhas à maioria dos usuários. Apresentando dessa forma um tema tão rechaçado por esse público, o software faz o que as mídias convencionais não 2

Consideração feita por Eduardo Bueno em entrevista concedida ao programa “Autografando”, da TV Feevale. Novo Hamburgo-RS.


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conseguem, que é cativar o jovem a entender e participar da política e da vida em sociedade. O “PaPo” apresenta-se como uma mediação entre a linguagem dos jovens e a jornalística, propiciando que esses usuários continuem se informando, posteriormente, nos produtos que estão no mercado. Mas para cativar os cidadãos entre 16 e 18 anos, é preciso restringir o aprofundamento para que o leitor se reconheça nos exemplos apresentados. Isso é verificado, entre outros momentos, ao navegar pela página intitulada Participação Política, onde o jovem se reconhece nos lugares propostos para a discussão política: bares, escolas, ônibus, reuniões com amigos. A utilização desses exemplos, em detrimento do aprofundamento das teorias abordadas, se justifica pela intenção de cativar o público, fazendo com que visualize todo o conteúdo e, posteriormente, busque voluntariamente saber mais sobre os temas tratados. O software se utiliza das principais características do webjornalismo, que são a convergência de mídias e a hipertextualidade. A convergência de mídias é verificada na interação entre o texto e os vídeos. A hipertextualidade será analisada de forma mais detalhada porque se refere ao objeto principal desta análise. O hipertexto nasceu de uma idéia do então aluno de mestrado da Universidade de Harvard, Ted Nelson, de desenvolver um processador de texto com a possibilidade de edição fácil e rápida. O sucesso foi tanto que ele ficou conhecido como o pai do hipertexto. Sobre ele, a autora Lucia Leão relata:

Considera-se Ted Nelson o inventor do termo hipertexto e de conceitos importantes como o texto elástico, stretch text, aquele que se expande e se contrai de acordo com a requisição de maiores informações. O termo hipertexto exprime o sonho de manter os pensamentos em sua estrutura multidimensional e não-seqüencial. (LEÃO, 2005, p.21)

Com o passar dos anos, o sistema hipertextual foi aprimorado e hoje compreende informações encadeadas em um website de forma não-linear, ou seja, o percurso de leitura é determinado pelo usuário, que se torna um ser ativo, através


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da navegação pelos conteúdos denominados por Leão como lexias, por meio dos links:

O hipertexto, em geral, é composto por blocos de informações eletrônicos (links) que ligam esses elementos. Os blocos de informações costumam ser denominados lexias. (...) Outros autores preferem usar a denominação nó. De qualquer forma, ambos os termos correspondem às unidades básicas de informação. Uma lexia pode ser formada por diferentes elementos, tais como textos, imagens, vídeos, ícones, botões, sons, narrações, etc. (LEÃO, 2005, p.27)

O interesse do público por notícias “quentes”, ou seja, transmitidas com a máxima rapidez possível, levou o jornalismo a disponibilizar informação via web. O pioneiro em publicações on line foi o New York Times. No Brasil, a iniciativa foi do Jornal do Brasil, com o JB On Line, a partir de uma iniciativa do jornalista Sérgio Charlab, em 1995.

Hoje, há pelo menos sete deles merecendo destaque no jornalismo brasileiro: JB, Globonews.com, Último Segundo, Jornal da Lillian, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Dia. Muitos deles estão dentro de grandes portais, o que os faz serem mais acessados e até mesmo terem maior reconhecimento. (MOURA, 2002, p.45)

Tomando-se como exemplo o objeto desta análise, que é o texto do software “PaPo – Participação Política”, pode-se verificar a ocorrência do sistema hipertextual. Partindo da página de apresentação, onde o texto e a imagem apontam para o tema que será abordado, o usuário tem apenas uma opção dentro do software, que é acessar o restante do conteúdo através de um botão exibido na tela. A partir de então, o trabalho é apresentado integralmente pelo sistema hipertextual.


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O público pode clicar no link “Política” e acessar todo o material inserido nesta seção (texto e vídeos). Seguindo a estrutura do menu lateral, o tópico a ser acessado na seqüência seria sobre “Os três poderes”, mas o hipertexto permite que esse “ser ativo”, como dito anteriormente, escolha que caminho tomar, podendo ir diretamente a outras informações e, posteriormente, se assim preferir, retomar a leitura sobre os três poderes ou mesmo a política.

Na internet não nos comportamos como se estivéssemos lendo um livro, com começo, meio e fim. Saltamos de um lugar para outro – seja na mesma página, em páginas diferentes, línguas distintas, países distantes, etc. (FERRARI, 2006, p. 42)

A hipertextualidade se verifica também na disposição dos vídeos apresentados pelo “PaPo”. O usuário pode acessar cada tema aleatoriamente e não necessariamente no mesmo momento. Isso não faz com que se perca o sentido da informação, caso contrário estaria perdido o objetivo do hipertexto, que é permitir a compreensão de cada conteúdo individualmente, mesmo fazendo parte de uma explanação mais ampla. É importante que o modelo de hipertexto seja utilizado com parcimônia, uma vez que a não-linearidade pode causar a perda do rumo por parte do leitor. No software aqui analisado, o leitor não precisa de mais do que três cliques para chegar a qualquer página. Essa é a equação considerada ideal para tornar fácil a navegabilidade. Utilizando-se destas ferramentas, o “PaPo – Participação Política” credencia o usuário a participar ativamente da comunidade onde se insere. Conhecendo de maneira clara e objetiva as formas de participação na sociedade, sendo inserido nesse meio, o jovem terá necessidade de buscar mais informações. A partir da familiarização com a linguagem jornalística utilizada no software, não terá problemas em se informar cada vez mais nos portais de notícias tradicionais, já que o tema também não será mais um terreno de total


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desconhecimento. Cumpre-se, assim, a função social do jornalismo e o objetivo central do projeto.

5 Considerações finais

Ao término deste projeto nota-se que a política brasileira perdeu credibilidade. Isso é verificado através dos dados coletados, que demonstram um público cada vez mais desinteressado com relação ao tema. A sucessão de escândalos de corrupção e a falta de comprometimento com projetos ou ideologias fizeram com que as instituições representativas do povo ficassem maculadas. Em função disso, julgou-se necessário um trabalho de caráter educativo que apresentasse as formas de intervenção das quais os cidadãos dispõem. Os indivíduos não dominam tais ferramentas e, assim, não desempenham integralmente seu papel de cidadão pleno, aquele que participa ativamente das decisões políticas da sociedade. Este projeto veio contribuir para divulgação de conhecimento, mostrando de maneira objetiva e prática como esses cidadãos podem agir em função do bem-comum. Lembrando que para ser considerado cidadão pleno é preciso atuar efetivamente nas decisões políticas que envolvem toda a sociedade. Desde as macropolíticas, como também, e especialmente, as micropolíticas, que são espaços disponíveis e de fácil inserção. Em sua trajetória de envolvimento na construção de uma sociedade mais justa, o jovem conseqüentemente estará despertando e


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amadurecendo sua consciência cidadã. E só é possível esse processo quando o indivíduo conquista sua autonomia intelectual através do conhecimento. A comunicação, com suas ferramentas, tem grande importância em disponibilizar a todos os cidadãos o conhecimento necessário para que possam assumir seus direitos e deveres em relação as atividades políticas. Ações, essas, que visam o fortalecimento da democracia e a qualidade de vida de todos. Então quanto maior o engajamento, conseqüentemente, maior a qualificação do indivíduo em trabalhar o interesse da coletividade. O resultado é uma comunidade em que a igualdade e a justiça subjuguem o possível individualismo e o interesse pessoal dos representantes políticos. Quando de posse do saber que apenas votar não é suficiente para cumprir seu papel de cidadão, o indivíduo estará ciente que sua participação é mínima e, que, portanto, também é responsável pelos desmandos tão comuns na sociedade contemporânea. Cabe, então, ao jornalismo, com sua primordial função que é zelar pelo bem social, informar que existem muitas formas de participação, além de votar, como convencer pessoas sobre seus direitos e deveres, participar de movimentos sociais, aderir a passeatas e também, não menos importante, o acompanhamento dos acontecimentos políticos partidários, especialmente, os que envolvem a administração pública. O software, de uso das ferramentas do jornalismo digital, se apropria de um conhecimento científico - ciência política - com seus teóricos e pensadores, para traduzir esse conhecimento em uma linguagem acessível para o leigo (“jornalês”, Bourdieu), com o intuito de subsidiar o cidadão para participar de discussões coletivas defendendo suas idéias e assim tomando suas próprias decisões. O conteúdo do software une duas áreas do conhecimento, a ciência política e a comunicação social em prol de um objetivo maior: o de conscientizar e ajudar o jovem a entender que pode e deve fazer a diferença na política e tornar mais fortes as instituições e a própria democracia. Espera-se que o software possa contribuir para o desenvolvimento social através de análises, cumprindo o papel da academia sobre a reflexão da realidade, e mostrar que é possível falar de política de forma simples, mas eficaz.


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TCC Pedro Henrique Pinheiro Pereira