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Sobre Trilhos São Borja, Julho de 1957.

Distribuição gratuita

A vida sob o olhar de um artífice.

Como começou a história ferroviária em São Borja.

Acompanhe relatos de três personagens que tem as suas vidas construídas em torno da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS).


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Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefiriram (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. (Extraído do livro Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade, Editora Irmãos Pongetti, RJ, 1940)

Centro de São Borja

Expediente Esta é uma revista especializada e foi produzida por acadêmicos do curso de jornalismo da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). O propósito deste trabalho foi reconstituir uma revista de época, atravéz de produtos segmentados. Nessa revista de bordo para trens procuramos utilizar as características da grafia e estética do final da década de 50. Ela é composta por reportagens especiais e entretenimento, buscando distraí-los durante as viagens. Tem como público alvo passageiros dos trens e é distribuída gratuitamente. Supervisão: profª Adriana Duval (disciplina de Jornalismo Especializado). Coordenador do Curso de Comunicação Social Habilitação em Jornalismo: Miro Bacin Coordenador Acadêmico: Fábio Corniani Diretora do campus: Denise da Silva Reitora: Maria Beatriz Luce, pro-tempore

Acadêmicos:

Alane Braga, Aline Sant’ana, Ana Karine Lopes, Daniele Kunzler, Franciéle Rodrigues, Mauro Garcia, Roberto Ferreira, Rogério Savian. Diagramação: Alane Braga e Rogério Savian. Contato: adrianaduval@unipampa.edu.br

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Sumário Editorial Caro leitor! Essa publicação foi produzida pensando em melhor atendê-lo. Nela você vai encontrar entretenimento e informação de maneira gostosa de ler. Estamos trazendo depoimentos de pessoas que cresceram ligadas à ferrovia. Também tem curiosidades e passa-tempo para deixar menos cansativa a viagem pelos trilhos do nosso país. Estamos prontos para partir? Oh, seu maquinista, coloca fogo nessa Maria Fumaça! Desejo uma boa viagem a todos nós!

O garimpo dos trilhos de ouro------------------------04 A história ferroviária em São Borja-------------------08 Diário de viagem --------------------------------------10 A vida sob o olhar de um artífice---------------------12 Dicas de viagem----------------------------------------14 Histórias de leitor--------------------------------------15 Túnel do tempo----------------------------------------16 Como funciona uma Maria Fumaça------------------18 Charge--------------------------------------------------20 Caça-palavras------------------------------------------20 Cruzadinhas--------------------------------------------21

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Complete a cruzadinha com as dicas a seguir: 01.

Serenata à Chuva é um acontecimento cinematográfico que marca a história da sétima.............

02.

A cerimônia de atribuição ao Oscar é transmitida pela primeira vez através da....................

03.

Os conflitos entre os blocos capitalistas e socialistas foram denominados de guerra ...............

04.

A década de 1950 é conhecida como o período dos “anos...........................”

05.

Em 1950 a Federação Internacional de Automobilismo organiza o.......................... Campeonato Mundial de Formula 1.

06.

Em 1958 o............................... torna-se campeão da Copa do Mundo pela primeira vez.

07.

Em setembro de 1950, a TV................. é o primeiro canal de televisão da América Latina.

08.

No ano de 1954 ocorreu o....................... do presidente Getúlio Vargas.

09.

O ditado popular da época era: “Se é bom para os EUA é bom para o..................”

10.

Dos estúdios de Disney, A Ilha do Tesouro é a primeira longa -.................. de ação.

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Charge

Passatempo Encontre no caça-palavra, o que é destacado nas frases a seguir: ->“Se é bom para os EUA é bom para o Brasil “... “Tudo era imitado” ->Refletindo o período pós-independência que o país vive durante os anos 50, os melodramas são muito populares na Índia. ->A década de 50 é marcada pelo acentuar das mudanças provocadas pela II Grande Guerra e revela-se propícia para o desenvolvimento de uma nova mentalidade cinematográfica -> Os maiores representantes do estilo musical brasileiro Bossa Nova, foram: Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto.

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BAGHJFGJFHGINDEPENDENCIAFDSHGFHSGFJSDHSJKDFFSDFSDFSHG JFGHFKHNJFHFKHJK MUSICALJFGJKDFGKDGKDHFJHJJRJHEKGHJFHG JKFGFFHGJKFKGD KI JKFHGHHRTJFKJK RJKJEKHJFJDBFGDHBJFGJDH G J D K R H S T J D E S E N V O V I M E N T O J H F H I M I T A D O J R K J F T R K E R F N S S E WA J T KREJKTJKREJKJEGNF JKGNFKGFKJGK FJGFJGKJFDJGFJGJJRSSSSRRR D JGKJFDKLGJDLNMM JKJNHGJDHJFGHJHGJHRJHGJHRJTHJRHTHOETR ETKJJTERJTVDP OPULARESBSARDGJMKHMMBBBBMMAAAAMLKHMMJ D S K D N D F K L J R R F R R Q L J J M E N T A L I D A D E F D J G K L J D F K J G KL J D K F J G J D K G J J G K F R J G K J R J F R T JJ R T Y J R T J Y K F J K H J L K F L H K F E S T I L O H F S D J H F J D H F R S G U E R R A H G F J D H G H D F J G K D J F G J D K J G F J D F K J G K F D B O M R T D M F G ,M D FGMDHFGJHDJGTRKYJRTKLFHKJTKJYHJTHYJTHCINEMATOGRAFICA HJGFNHNFJ HGHGFKNGDMGNMNDFMGNMFDNGNDFNGNDFGNFGPG TABOSSABNDFNMELODRAMAERTJHERJTHEJRHTJETJERJKMMITCVXA


Os planos de Governo, que eram o sonho de todo o país, ainda não condizem com o feitio da realidade. A mina de ouro que buscamos é Progresso. Mas não só de planos é feito progresso. Acima de tudo, é feito de trabalho. O trabalho de garimpar, todos os dias, o local do ouro almejado.

O garimpo dos trilhos de ouro

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Por Aline Santana e Daniele Kunzler

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uando começaram a trabalhar, o Sr. Altamir Mattana, o Sr. Hélio Moda e Sr. Daniel Braga imaginavam, assim como a maioria dos trabalhadores desse Brasil, que o sonho do Progresso em cinco anos era certo. Em Goiás, em São Paulo, Minas, ou em qualquer parte do país, o sonho parecia brotar como ouro descoberto pelos garimpeiros. Dois anos se passaram desde a encantadora promessa do governo Kubitschek,

e ao que parece, a geração de empregos tem feito “a máquina” rodar. Longe do cenário suntuoso, onde o desenvolvimento faz erguer a Nova Capital, o Pampa gaúcho também desfruta da idealização deste sonho altivo que, em questão, vem pelos trilhos. Em março deste ano, o Governo Federal colocou em prática o “Plano de Investimento e Incorporação das Estradas de Ferro da União e por ela administradas” (LEI 3115), para centralizar a administração das ferrovias estaduais e expandir a malha ferroviária em todo país. Um plano que vale ouro.

Linhas férreas que ligam o Brasil de Sul a Norte. Mapa da metade da década de 50.

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De fato, o investimento é alto e as campanhas do governo confirmam isso: são Cr$12.000.000.000,00 (doze bilhões de cruzeiros) para a expansão e manutenção das estradas, já tendo sido investidos outros Cr500.000.000,00

(quinhentos milhões de cruzeiros) na compra dos trens, quando as ferrovias ainda eram administradas pelas entidades estaduais. Só no início do trimestre, mais linhas foram implantadas no trajeto Porto Alegre-Uruguaiana, entre elas Livramento, Santa


altas temperaturas, a água(7), que está na caldeira, é intensamente aquecida, e começa a produzir vapor(8). Esse vapor é conduzido, por intermédio de tubos(9), até o pistão(10), onde vai produzir força. Os movimentos do pistão, para frente e para trás, ocorrem

graças ao controle da entrada e saída da pressão(11) do vapor, a partir de um sistema de válvulas(12). Esses impulsos do pistão fazem o eixo da locomotiva girar, fazendo, assim, o trem se deslocar. A fumaça(13) é eliminada através da chaminé(14).

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Curiosidades: como funciona a Maria Fumaça

As primeiras locomotivas eram movidas a vapor. Entendamos como funciona processo.

Por Rogério Savian

No corpo da máquina existe um tanque de água, com cerca de 20 mil litros, chamado caldeira, e uma fornalha, onde localiza-se o

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fogo. A fornalha(1) é o local onde é colocado o carvão(2) para alimentar o fogo(3). Esse fogo produz muito calor(4) e passa por dentro da caldeira(5), através de tubos(6). Devido às


Rosa, Ijuí, e a parada final, São Borja. Porém, entre as linhas de São Borja e Ijuí, o Srs. Altamir, Hélio e Daniel ainda não viram onde todo esse investimento irá lhes compensar. “Garimpeiros de ferrovias”, os homens trabalham dez horas por dia, sem equipamentos que lhes dêm segurança: de chinelos, calça enrolada e um chapéu antigo, laboram debaixo de sol quente, com a picareta e a pá nas costas, empurrando o trolo (carro de manutenção dos trilhos) com os pés e fazendo consertos nas ferrovias de 10 em 10 km. “Nós saímos para trabalhar de madrugada e ficamos, às vezes, 15 dias fora de casa”, conta o Sr. Altamir, que trabalha na nova Rede Ferroviária Federal há pouco tempo.

Foto: Arquivo pessoal.

“O governo fala dos milhões de cruzeiros que gasta para melhorar as ferrovias, mas o que a gente realmente vê é o luxo dos trens”, completa o Sr. Hélio.

Sr. Hélio Model.

É certo que, há três anos atrás, a Via Ferroviária do Rio Grande do Sul (VFRGS), que ainda era de administração estadual, recebeu grande investimento nas estações e nos novos trens a diesel, que circulavam pela região central (Porto Alegre, Novo Hamburgo e Rio Grande). Com a expansão das ferrovias, outros trens de luxo foram comprados, para fazerem longos trajetos, como Porto Alegre-São Borja. Os 12 luxuosos modelos Minuano, por exemplo, foram adquiridos pela VFRGS por uma “barganha” de Cr$50.000.000,00 (cinqüenta milhões de cruzeiros), por possuírem três carros, dois motores, tração a diesel, transmissão hidráulica da VOITH, poltronas reclináveis tipo "Pullman" e um "buffet-bar". Quando a Rede Ferroviária Federal SA (RFFSA) assumiu a administração da Via, todos os trens comprados pela antiga companhia foram reformados e pintados para atender os novos trechos.

Foto: Arquivo pessoal.

Trem Minuano. O primeiro a funcionar com diesel. Foi comprado pela VFRGS em 1954 para modernizar as ferrovias gaúcha.

Mesmo assim, trabalhadores como Sr. Altamir, vêem o progresso longe de seu alcance. “De vez em quando a Companhia até deixa a gente viajar de graça, com a família, até Porto Alegre. Mas tem que ser no vagão econômico ou no vagão das cargas”, revela. Para o amigo de serviço, o Sr. Braga, a única vantagem em trabalhar num setor que tem muito investimento do governo é ser o chefe de serviço. “O Agente ferroviário, sim, tem privilégios! Ele trabalha por escala, ganha uniforme e pode viajar quando quiser, e na classe A. Além disso, a Companhia está estudando colocar um plano de carreira para eles”, fala. Quanto às normas de conservação das linhas férreas e das condições de trabalho, nada foi dito e, até agora, acrescentado na lei. As co-administrações das Vias, no entanto, já não se encontram mais nas mãos dos antigos administradores estatais. Ou seja, houve a renovação de pessoal para os altos cargos administrativos. Além disso, houve também a reforma da maioria das estações, de acordo com o padrão requisitado pelo modelo dos trens. Para os trabalhadores-de-trilhos, responsáveis pela parte mais importante do funcionamento das linhas, a justificativa para os investimentos ainda é vaga. Embora reconheçam o comprometimento do governo em fazer surgir o “Progresso do Brasil”, o sonho desses trabalhadores, como o Sr. Altamir, o Sr. Hélio e o Sr. Braga, termina às 3 da manhã - hora em que devem colocar os pés na realidade de seu labor e tocar a picareta, para conservarem a mina dos trilhos de ouro.

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Como começou essa história Por Rogério Savian

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m 1905, as ferrovias no Rio Grande do Sul foram unificadas e receberam o nome de VFRGS - Viação Férrea do Rio Grande do Sul. A cidade de São Borja

recebeu os primeiros trens por volta de 1912. No dia 10 de fevereiro de 1913 foi inaugurada a primeira Estação Férrea da cidade. A partir desse momento começam a chegar os carros de passageiros.

Fotografia tirada em frente a um dos primeiros trens a chegar em São Borja - 1928.

No início, foi construída uma estrada de ferro, que ligava São Borja a Uruguaiana, passando pelas cidades de Maçambará e Itaqui. Após 16 anos, a Estação, que estava situada no Bairro Pirahy, mudou de lugar, se deslocando para mais perto do Rio Uruguai, onde, em 1929, foi entregue o novo prédio. Esta edificação possui estrutura semelhante à maioria das outras estações espalhadas pelo estado, por influência da padronização das construções da VFRGS.

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Estação Férrea de São Borja.


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Túnel do tempo: a Maria Fumaça

Por Roberto Ferreira

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Como diz a música de Kleiton e Kledir “Essa Maria Fumaça é devagar quase parada, oh seu foguista, bota fogo na fogueira, que essa chaleira, tem que tá até sexta-feira, na estação..., ...se esse trem não chegar a tempo vou perder meu casamento...”. Paralelamente aos trilhos da Maria Fumaça surgem personagens simples, e muitas vezes anônimos, mas que, assim como ela, têm muitas histórias interessantes. Imagine-se entrando num enorme veículo de formato retangular, com aproximadamente 40 vagões, uma estrutura metálica robusta, iluminada em seu interior e fazendo um barulho estrondoso, que poderá levar-te de um lugar a outro. Pois é, foi em 1912 que os samborjenses receberam a notícia, pela BGS (Brazilian Great Southern) – de que uma linha férrea estava chegando na cidade. No ano seguinte, 1913, é inaugurada na cidade a primeira estação férrea. A partir desse momento a população passa a ter um meio de transporte “eficiente” nas viagens para Itaqui e Uruguaiana. Em 1929, era a estação férrea municipal que inaugurava. Mas foi somente em 1938 que puderam viver a experiência de viajar de trem até a capital gaúcha, sem precisar de ir até Uruguaiana. Porém, nem tudo era tão simples assim, a viagem até a capital

durava em torno de um dia, num vagão de 40 lugares com bancos não muito confortáveis (isso quando não iam de pé). Em seus 46 anos de vida, a nossa Maria Fumaça já fez e continua fazendo parte da história de muitas pessoas. O barulho do trem partindo e chegando mexe com os sentimentos de muitos. Para quem chega, vem junto o desejo de dar aquele abraço apertado e matar a saudade, mas para quem está partindo, fica apenas a falta de quem se foi. O cheiro de óleo queimado e do carvão que alimenta as caldeiras das locomotivas, e apitos dos guardas também são freqüentes. Podemos encontrar nas entradas dos vagões algumas pessoas cujas histórias se confundem com as da própria estação, como os três amigos Pedro Gonçalves, Renato Cardoso e Daniel Pereira, que se dedicam à profissão ferroviária. Numa conversa que tive com o trio, eles me revelaram algumas curiosidades, como um concurso que Pereira fez para conseguir a vaga de telegrafista. Já Gonçalves conta que eu era filho de ferroviário e inspirado pelo pai também ingressou na rede ferroviária e ficava na cabine vendendo passagem. Cardoso ressalta que os trens de passageiros e também de carga dividiam a mesma locomotiva, em que levava muitos bois para vários municípios do Rio Grande do Sul.


O trem que partia de São Borja passava por Uruguaiana, Santa Maria e, após aproximadamente 22 horas de viagem, chegava a Porto Alegre. Para diminuir esse trajeto, em 1932, teve início a construção do trecho São BorjaSantiago, para fazer conexão da linha já existente, que ligava São Luiz Gonzaga com a Capital. O trabalho de construção desse trecho demorou cinco anos para ficar pronto, de 1932 a 1937. No ano de

Mapa da linha férrea no Rio Grande do Sul, no início da década de 50.

1938, é inaugurada a linha entre São Borja-Porto Alegre, que recebeu o nome de Ramal de São Borja (Dilerm. de Aguiar-S. Borja). Os trens de passageiros tornam-se um meio de transporte barato e eficaz para as viagens, comparandose ao trajeto por rodovias que ligam essas cidades. Os câmbios comerciais em torno do fluxo de passageiros é uma das fontes de recursos para muita gente. Antes da partida, vendedores de frutas, doces e livros passam oferecendo seus produtos. A viagem de mais de 500 km demora muito tempo, visto que o trem anda com velocidade média de 30 km/h e também precisa fazer várias paradas até chegar à Capital. No decorrer da viagem, os passageiros podem apreciar a beleza da paisagem gaúcha.

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Diário de Viagem Por Franciéle Rodrigues.

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o sair, logo pela manhã, para uma viagem de estudo que tem duração de cerca de 22 horas, Adilho Cogo parte, com destino à cidade de Porto Alegre, sem imaginar que presenciaria no trem cenas que marcariam sua vida. Como fazia continuamente o mesmo trajeto, já estava acostumado em rever as mesmas imagens, campos, animais, paisagens típicas do Pampa gaúcho. Os principais atrativos das viagens eram os vendedores de frutas, que adentravam o trem logo que parava em uma estação. Certo dia, em um dado momento de sua viagem, quando voltava para São Borja depois de uma prova prestada para um concurso público, Adilho se deparou com uma cena que lhe “cortou” o coração. Em pleno inverno, a temperaturas mínimas, uma senhora ninava um bebê. Mas aquela criança não parava de chorar, todos que estavam no trem desejavam saber o motivo, pois já estavam agoniados. Adilho aproximou-se da mãe e lhe abordou. A senhora, cabisbaixa, respondeu que o bebê estava com frio e ela não tinha como lhe aquecer, pois havia saído desprevenida. A partir do relato daquela mãe, Adilho tirou o pala que usava no momento e deu para que ela pudesse enrolar a criança. Depois disso, ele

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viajou o resto do caminho com poucos agasalhos, mas entendera que era mais importante proteger o bebê do que a si mesmo. “Estava muito frio, mas eu tinha energia suficiente para agüentar, já a criança não”, conta. Porém, esta não foi a única cena que lhe impressionou nos tantos trajetos que já fez. Em outra viagem, voltando de Santa Maria, um casal tentava consolar uma criança, contudo, estava difícil conter as lágrimas do neném. Mais uma vez, a curiosidade e a solidariedade fez com que o homem ajudasse. Ao perguntar para o casal o motivo do choro da criança, o pai respondeu que ela estava com fome, seu leite havia terminado e não tinham dinheiro para comprar alimento. De pronto, ao chegar à estação de Santiago, Adilho pediu a mamadeira do bebê e desceu do trem. Um vendedor de doces que por ali estava, que era conhecido dele, obteve o leite quentinho, para que pudesse devolver a mamadeira e ver aquele pequeno ser atendido. As viagens ganharam, para Adílio, outro sentido. A partir de simples atos, o viajante percebeu o quanto é valoroso poder ajudar alguém, um gesto que lhe rendeu uma lição: “Nunca sair desprevenido”. Cenas como estas ficaram, para sempre, em sua memória das idas e vindas nos trens.


Histórias de Leitor: por Mikita Cabelleira

“Quando eu era menina, para se chegar em Porto Alegre de trem, era preciso um dia e uma noite de viagem. A saída era as 8 da matina e a chegada na capital,às 7, 8 ou 9 da manhã seguinte. Era uma festa, um programasso, tinha de tudo. Uma festa a cada estação, com pastes, laranjas e vergamotas. Já começava em Conde de Porto Alegre, depois Unistalda e, em seguida, Santiago. Em Santa Maria era um desfile de moda. A mais tristinha das paradas era mesmo Porto Alegre. A gente acordava cedo para ver a chegada e as prostitutas da Rua Voluntários da Pátria, as quais desfilavam fazendo “ trottoir”. A cada estação era aquela gritaria de vendedores de pastéis, de balas, de laranjas, de vergamotas, de panos de prato, de tudo. Era uma festa! Era uma beleza! No trem, era uma maravilha, se caminhava de um lado para outro, e ainda hoje, ouço o barulho da Maria Fumaça. Sinto também o cheiro e até as fagulhas, como se estivesse agora passando de uma vagão para outro. Viajávamos sempre de camarote, no carro leito, com cama e tudo. Mas havia vagões de primeira e segunda classe. E o vagão mais cobiçado, era o do refeitório, onde se comia o melhora “ A La Minuta” e o barulho dos trens, ia e vinha, como um zumbido nos ouvidos. Lá íamos nós para Porto Alegre. A volta era mais gostosa, de lá saíamos pela noite, já de cara para dormir mas, em compensação, ao acordarmos... começava tudo de novo: café da manhã em Santa Maria, lanches em Santiago e a volta triunfal com a estação lotada de gente conhecida desfilando. Melhor que nossas chegadas em São Borja, na estação férrea, só as festas protagonizadas pelos nossos bravos soldados,

que ensaiavam dia e noite uma partida de São Borja, para combater na legalidade do Brizola, e nunca saiam devido a inúmeras contra-ordens. Por aqui o pelotão da fuzarca era comandado e composto por gente muito conhecida. Que bons tempos! E que trens maravilhosos!” Contribuição da leitora são-borjense Mikita Cabelleira.

Foto: Arquivo pessoal. Noemi “Mikita” Cabeleira, criança, com suas irmãs.

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Dicas de viagem Por Karine Lopes

ALIMENTAÇÃO Traga lanches leves, sobretudo para os pequenos, que sempre pedem por algo para comer no meio da noite. Biscoitos, frutas, bolos e doces são boas pedidas. No bar-restaurante, a dica é o prato “a la minuta”, sempre cheiroso e convidativo.

Nas paradas em Santigo e Santa Maria, os ambulantes ofertam desde drops de fruncho e mel a pastéis e frutas higienizadas, o que pode ser uma boa alternativa. Sugere-se que leve troco para sua aquisição.

DISTRAÇÃO Leitura sempre é bem-vinda. Erico Verissimo e Monteiro Lobato estão entre os que mais acompanham as horas de viagem. Textos criativos, recheados de estórias ricas em detalhes e tramas. Palavras-cruzadas ou caça-palavras têm a preferência de muitos. Mas cuide para não forçar muito as vistas, sobretudo à noite.

Aos jovens, leituras de periódicos podem ser de uma instrução valiosa sobre a realidade e o comportamento social. Às crianças, giz de cera e blocos de papel costumam garantir um pouco de sossêgo aos pais.

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Dedicação à vida ferroviária : a vida sob o olhar de um artífice.

Por Mauro Garcia

O personagem desta edição é alto, franzino e artífice. Hélio Model, 28 anos e 65 quilos somados ao seu entusiasmo, gosto e valor pelo que faz, é casado com Gracilene de Paula Model, 24. Ambos têm um filho, o pequeno Rudnei Model, de 7 anos. Com persistência, entrou na Rede Ferroviária –

Estação São Borja – com 21 anos, por meio de um pequeno curso para fins de admissão. Apesar da juventude e vigor para trocar exaustivamente e diariamente os dormentes dos trilhos que apresentam problemas, Hélio consegue observar e relatar os fatos corriqueiros que surgem no local em que trabalha, principalmente na plataforma de embarque e desembarque da Estação.

Foto: Arquivo pessoal

(Hélio (de capacete amarelo, à esquerda). Em cima do carrinho Trol: Vilmar Santos (colega de serviço)e Rudnei Model,(filho de Hélio). Do lado direito: Vilmar Correa(colega de serviço) e Alcindo, na garagem do carro de conserto.

Artífice é a profissão para um reparador de Via Permanente, ou seja, o operário que lida com as travessas de madeira sobre os trilhos. A função exige cuidado, porém, rende gratificações e regalias. Apesar das mudanças de tempo, seja nos meses de um verão escaldante ou no período intenso de frio que gela os trilhos e os corpos de quem os repara, nada é capaz de reduzir o empenho e o olhar do jovem ferroviário. Para ele, dificuldade é manter os trilhos alinhados e fortalecidos pelo suporte dos dormentes para que

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as idas e vindas dos vagões não tenham indícios de qualquer possibilidade de acidente. “A culpa sempre será dos artífices”, brinca Hélio, ao se referir à segurança dos trens. A parte generosa do trabalho está reservada aos funcionários que, durante o ano, não faltam sem justificativas. O benefício está em poder viajar gratuitamente de trem, no período de veraneio. Model abre um sorriso quando fala de suas viagens, às vezes na 1ª classe, em outras, na 2ª. Quando perguntado sobre a diferença entre as categorias, ele garante: “Os bancos da 1ª classe são


estofados e os da 2ª de madeira”. E Foto: Arquivo pessoal reitera: “Numa viagem de 22 horas até Porto Alegre, prefiro os bancos estofados!”. Das alegres e tristes situações que presenciou e ainda observa, volta sua atenção para as pessoas que aguardam para partir ou aquelas que esperam o trem chegar. O ponto de encontro na Estação é o que aguça sua curiosidade: “Vejo pessoas que vibram e que choram, que vão e que vêem. Não importa se o transporte é de animais, alimentos ou gente; importa observar”, enfatiza, apontando os olhos para a direção da plataforma de embarque. Projetando-se para contar as Hélio (de capacete amarelo, no centro da foto)Com seu filho Rudnei e seus colegas de serviço em frente a um vagão de passageiros. inúmeras alegrias, o artífice relata as euforias durante as viagens. “Quando saímos entre amigos, levamos gaita e violão. Começamos a cantar e isso contagia os demais 5hs de atraso já vi”, lamenta, pois os passageiros passageiros, assim, as horas passam e todos aprovam”. precisam inventar alguma atividade para esperar Algumas vezes viajamos para outras localidades, a a tão aguardada chegada ou partida. Alguns lêem fim de participar de torneios de futebol. Indaga-nos jornais e revistas, outros, escrevem poesias, e o se pode falar das festas e, ao aceno positivo, discorre: restante vai para casa, aguardar o tão esperado apito “As confraternizações são muito boas, há bebida, da vinda do trem. churrasco e muita música”. Trabalhando e sonhando em ascender na De algumas tristezas das quais presenciou, Rede Ferroviária, Hélio aponta sua vontade e imediatamente lembra-se de um menino que gostava perseverança naquilo que faz. Enquanto aguarda de brincar com o trem em circulação. Certo dia, ele uma possibilidade de promoção, segue observando escorregou, quando se pendurava num vagão em os fatos e relatando os momentos. Tudo com a visão movimento. O menino sobreviveu, mas o acidente de um jovem artífice. ocasionou na amputação das duas pernas. Ao se lembrar de outras agonias, recorda que é comum o trem de passageiros atrasar. “Às vezes 1h, 2hs e até

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Revista sobre trilhos  

A revista foi produzida no 1º semestre de 2011, sob supervisão da professora Adriana Duval.

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