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Publicação experimental da disciplina de Laboratório de Radiojornalismo III da Unipampa - Ano I - Nº 1

LEIA

sonora

minha vida rende um livro


A Experiência e a Esperança Bem-vindo às páginas de Leia Sonora, publicação experimental que faz sua estréia. A experiência relatada na revista conduz a caminhos que reforçam a velha e boa audição radiofônica. E mais: parece visitar a época dos alto-falantes, utilizados por muitos dos nomes que, na história da radiodifusão, se tornaram grandes personagens. “Rádio nas Ruas” é um Projeto de Ensino vinculado à disciplina de Laboratório de Radiojornalismo III, do quinto semestre do Curso de Jornalismo. A edição “Feira do Livro 2012” inspirou o desenvolvimento de uma temática que levou a turma a desbravar o cotidiano anônimo sobre o mapa da cidade. A série documental composta por doze programetes, de três minutos cada, recebeu o título “Minha história rende um livro”. Do Centro e de dez bairros surgiram narrativas ímpares que comprovaram: toda pessoa guarda fatos e lições dignos de serem contados. Os programas rodaram a cidade com o auxílio de um carro de som. Os entrevistados ouviram suas histórias, na companhia dos vizinhos e dos alunos. A data escolhida coincidiu com a abertura da Feira do Livro e, ao final da transmissão, o locutor da série fazia um chamamento à população para que buscasse conhecer, no evento e nas obras literárias, outras histórias de vida. A ideia foi singela. O trabalho, intenso. O resultado: um mosaico de histórias que, embora distintas, falam de algo em comum. Compartilham a essência humanizadora de práticas jornalísticas possíveis; estimulam os estudantes para que exerçam as atividades próprias do ofício com pleno senso de compromisso e responsabilidade social. Ao estilo de um rádio artesanal, com o som rasgando o silêncio das ruas pacatas e competindo com os ruídos das avenidas, essa experiência carrega uma esperança: a de que os futuros jornalistas entendam que, por mais que o rádio se transforme, pelos recursos da tecnologia, nada supera a vivência das ruas. Uma proveitosa leitura! Adriana Duval Professora responsável

Expediente LEIA SONORA

Publicação experimental da disciplina de Laboratório de Radiojornalismo III da Universidade Federal do Pampa Ano I – Nº 1 São Borja, dezembro de 2012

Redação: Alane Braga, Aline Sant´Ana, Beatriz Barbosa, Caroline Rossasi, Daniele Kunzler, Diogo Oliveira, João Ricardo Ribeiro, Juliano Jaques, Liziane Wolfart, Luiz Briza Junior, Manuella Sampaio, Mirela Ferreira, Nathálya Gonçalves, Nycolas Ribeiro, Pâmela Faustino, Phillipp Gripp, Rafael Junckes, Renan Guerra, Roberto Ferreira, Sofia Silva, Tamara Finardi, Tatiane Souza e Thalita Chagas Projeto gráfico e diagramação: Nycolas Ribeiro, Pâmela Faustino, Rafael Junckes e Renan Guerra

Tratamento de imagens: Nycolas Ribeiro e Luciano Costa (colaboração)

Fotos: Beatriz Wardzinski, Daniele Kunzler, Juliano Jaques, Nycolas Ribeiro, Roberto Ferreira; Ariel Barcelos e Luiz Ari Martins (colaboração) Produção de peça gráfica: João Ricardo Ribeiro

Coordenação geral e revisão: Profª. Adriana Duval Coordenação do Curso de Jornalismo: Prof. Miro Bacin

Diretora do Campus São Borja: Profª. Denise Silva Reitora: Profª. Ulrika Arns

Sumário No Ar, Rádio nas Ruas........................................................................................................03 Leonardo Gonçalves........................................................................04 Teresinha Correa..............................................................................................................................04 Nilce Eli Streb..............................................................................................................05 Luciane Klüneser......................................................................................................................................05 Maria de Fátima Gusmão...........................................................................06 José Luiz Moreno..................................................................................................................06 Valdemir Marques..............................................................................................................................07 Getúlio Dalenogare.........................................................................................................................................07 Maria Requelmez........................................................................................................08 Ana Paula Alaguis.......................................................................................................................08 Mari Siqueira............................................................................................09 Velocino Pacheco.............................................................................................................09 Galeria de foto......................................................................................................................................10 02

No Ar, Rádio nas Ruas por Mirela Ferreira Contar a história de uma pessoa em três minutos. Um desafio, lançado pela professora Adriana Duval, aos alunos de Laboratório de Radiojornalismo III, e executada com o auxílio da professora Tabita Strassburger. O projeto, intitulado “Rádio nas Ruas” – edição “Minha história rende um livro”, foi empreendido por quase trinta alunos, divididos em duplas e trios, que percorreram o bairros de São Borja em busca de personagens. Ouvir suas histórias, gravar, transcrever, editar, revisar... Passos seguidos pelos acadêmicos na busca da melhor alternativa para a síntese de uma vida. O roteiro de veiculação foi traçado, com a intenção de realizar um giro por São Borja, aproveitando o primeiro dia da “27ª Feira do Livro”, 24 de outubro. A data era propícia a um chamamento para que a população aproveitasse esta oportunidade de acesso à cultura, no centro da cidade. Com isso foram contemplados os bairros: Passo, Itacherê, Tiro, Pirahy, Bettim, Paraboi, Florêncio Aquino Guimarães, Maria do Carmo, Várzea, Menegusso e Centro. Realizar a veiculação dos minidocumentários, a partir de

um carro de som, foi uma proposta irreverente e temerosa. Qual seria a reação dos ouvintes? A surpresa positiva foi constatar olhares que se tornaram luminosos ao entenderem a importância da difusão dessas lições de vida à comunidade. E abraços bem apertados, de agradecimento, dos que tiveram sua história narrada e ouvida em público. Entender o sentimento que se passa nesse momento com cada pessoa não é simples, mas possível de dimensionar. Afinal, ficou evidente a satisfação em perceber que cada história, até então oculta ou pouco conhecida, realmente pode render um livro! E quantos outros livros podem estar escondidos pelas ruas ou em nossa própria casa? A realização desses microdocumentários em série marca a abertura de um caminho longo a ser percorrido. Um estímulo para que, a cada dia, novos personagens sejam descobertos pela nossa sensibilidade jornalística. E assim contribuímos para a construção e a narração das memórias que, de certa forma, constituem a história contemporânea do lugar onde vivemos.

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“A minha vida é longa, eu passei por tudo para vencer”. Assim conclui Teresa Correa, ou Dona Teresinha, como é conhecida na vizinhança da Rua Doutor Moraes. Nascida em Cerro Largo, perdeu a mãe muito cedo e foi criada pelo pai, que juntou economias e a colocou interna, no Colégio São José. Lá ficou até se casar. Conheceu o marido, Arquimedes Correa, em São Luiz Gonzaga, e vieram morar em São Borja. Ficaram hospedados na casa de um cunhado até se estabelecerem na então “Vila Bettim”. Com espírito crítico e altruísta, mobilizou as autoridades para a melhoria das condições do local, que acabou subindo à categoria de bairro. Depois, Dona Teresinha foi, por 14 anos, presidente da comunidade e fundou a associação de moradores, recebendo a doação do terreno onde está construída a sede. Além disso costumava frequentar as sessões da Câmara Municipal, para acompanhar o conteúdo das plenárias. Sempre fez questão de prezar pela justiça e ajudar as pessoas. “Quando alguém precisa de remédio ou de uma fralda pros filhos, eu vou pra rádio e peço ajuda da população”, comenta. Seu marido partiu cedo, quando ela tinha 50 anos. De seus oito filhos, hoje somente quatro ainda vivem. Aos 80 anos, apesar do sofrimento passado e dos problemas de saúde, dentre os quais um AVC, pode dizer que é uma pessoa de bem com a vida e que não desiste de atuar em prol do melhor ao próximo.

Bastidores

Bastidores

Era um sábado nublado, quando me dirigi ao bairro Itacherê, à procura da casa de Leonardo. De longe, ele acena e, enfim, o conheço. Até então, nosso contato havia sido por telefone, quando, com voz grossa e firme, respondia que gostaria muito de falar sobre sua vida. É engraçado como, pela voz de uma pessoa, assim como pelo som do rádio, criamos uma imagem. Não sei o porquê, mas eu imaginava um homem mais velho, de cabelos brancos ou barba grande. Quando chego perto, me deparo com um homem jovem e alto, vestindo camiseta verde, seu uniforme de trabalho. Acolhida em sua casa, sento e explico melhor como será o trabalho e se o mesmo está de acordo, ele prontamente responde que sim. Ligo o gravador e lhe pergunto: “Leonardo, porque a tua história rende um livro?”. Ali, diante de mim vejo um homem contar sua vida, tristezas e alegrias, criando um desfecho, indicando uma moral de sua própria história. Compartilho com ele mais de uma hora de conversa. De minha parte, poucas perguntas; da parte dele, muitos relatos. Ao ir embora, recebo o pedido de ajuda: quer muito passar adiante o que acaba de me contar. No dia da veiculação do microdocumentário radiofônico, diante de sua expressão ao ouvir a narrativa, sinto que, em parte, contribuí para que a síntese dessa trajetória chegasse a outras pessoas. Saí de lá contente por ter conhecido um personagem com histórias impactantes que resultaram em um final feliz.

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No início acreditávamos que seria fácil entrevistar uma senhora conhecida no Bairro Bettim, a Dona Teresinha (Teresa Correia, moradora da Rua Doutor Moraes). Mas os seus 80 anos e os problemas de saúde colocaram em sua vida muitos momentos marcantes, desafiando-nos a uma edição dinâmica que, de certa forma, se transformou em uma “colcha de retalhos” sonoros. Dona Teresinha foi muito receptiva. Comentou que, casualmente, está contando a sua história em livro, com a ajuda de umas das filhas. Espera que logo chegue às bancas e fique disponível a todos os que se interessarem pela sua trajetória. Viúva desde os 50 anos, criou praticamente sozinha os oito filhos e uma menina que auxiliou desde pequena. Sempre se dedicou ao próximo, e sua vida está ligada à criação da Associação de Moradores do Bairro, da qual foi presidente por 14 anos, tendo sido substituída por um dos filhos. Também não poupa esforços para ajudar quem precisa, até mesmo os desconhecidos. Não raro liga para a rádio, solicitando o auxílio dos ouvintes. Sua narrativa nos faz pensar sobre a importância do jornalismo “de verdade”; das práticas voltadas à explicitação da vida como ela é: com seus dramas e suas alegrias, sem juízos de valor, com o intuito de levar ao conhecimento público histórias que, mesmo singelas, possuem ricas lições e podem, sim, render um livro.

Beatriz Wardzinski Phillipp Gripp

Quando criança, morou na fazenda onde a mãe era empregada. Com ela e os três irmãos, acabou vindo para a cidade, aos seis anos. O pai havia deixado a família. Passou fome, não estudou, mas alimentou um sonho: queria experimentar uma vida boa. Na época, considerava que só havia um meio de conseguir isso. “Muita gente sonha em ser jogador de futebol, artista, muitas coisas, eu sonhava em conhecer o tráfico”, conta. Depois de servir ao Exército, foi morar em Porto Alegre. Ficou amigo de chefes do tráfico, vendia cocaína e virou segurança dos pontos de venda. Armado, de touca ninja e vestindo preto, virava a madrugada no morro. Hoje sentese aliviado por nunca ter lhe acontecido nada. Ainda sim ele explica que, sobretudo, havia uma espécie de ética no tráfico: “O pessoal que eu trabalhei não vendia drogas para crianças, não faziam mal, eles cuidavam da comunidade deles e das crianças, apesar de serem traficantes. Eu penso que é uma maneira de não ficarem com a consciência tão pesada.” Neste período conquistou dinheiro e conforto. Porém, um dia, acordou para a realidade: não era aquilo que queria para o futuro. Voltou para São Borja, conseguiu emprego em uma padaria e, pouco depois, abriu um negócio próprio, no ramo de jardinagem. Se dedica e é feliz com o que faz. Gostaria que conhecessem sua história e, por isso, pretende enviar uma carta ao programa Caldeirão do Huck, da TV Globo. “Quero mostrar que todos são capazes de vencer” comenta.

Bastidores

Sentada e com o chimarrão em mãos, seu sorriso chamava atenção, assim como os olhos, apertadinhos. Neles

Liziane Wolfart Tamara Finardi

Alane Braga Mirela Ferreira Thalita Chagas

Nilce Eli Streb

Manuela Sampaio

Luciane Klüneser

Teresinha Correa

Leonardo Gonçalves

Vinda de uma família humilde, Nilce Eli Streb é moradora do Centro de São Borja. Em sua infância ela adorava brincar com os amigos: jogava bola de gude, soltava pipa, subia em árvores, andava de bicicleta, brincava de casinha e de cozinhar. Trabalhou 18 anos na Volkswagen-Sancar, depois começou a revender cosméticos. Teve dois filhos e conta, com orgulho e transparecendo amor, pelo brilho dos olhos, que sempre batalhou sozinha para manter um deles na universidade, no curso de Design de Produtos, em Santa Maria. Nilce, aposentada, faz empréstimos para pagar as mensalidades da faculdade. Tem o cuidado de equilibrar as finanças, para não ficar com dívidas. Sempre de bom astral, adora viajar, contar piada, tomar chimarrão no Porto e faz festa mesmo com pouco dinheiro. Rindo, ela direciona o olhar, envolto de esperança, para a idealização de um futuro: pretende construir um segundo andar em sua casa, para que seus filhos morem com ela. “Quero ficar velhinha ao lado deles, sempre feliz da vida”, brinca.

Bastidores

Faz pouco tempo que Luciane Klüsener Volpato se mudou para o bairro Pirahy. Ali encontrou uma casa aconchegante, com um pequeno pátio onde pode fazer um belo gramado. E é ali que Luciane e sua filha Luiza passam os fins de tarde brincando, esperando Luciano Toller Teló, marido e pai, chegar do trabalho na empresa Pirahy. Hoje em dia é comum que as pessoas coloquem o trabalho à frente de tudo, inclusive da família. Não é o caso de Luciane, que decidiu parar de trabalhar fora para cuidar de sua filha, que está com quase dois aninhos. “Esse tempo não volta nunca mais, é preciso valorizar cada momento”, considera. Luciane busca alternativas de trabalho que possa fazer em casa. Decoração de festas infantis é sua especialidade. Assim, enquanto prepara os itens que farão a diferença nas comemorações dos clientes, tem a filha junto, alegrando sua rotina.

Era um tarde quente em São Borja. Nos preparamos para entrevista, que ia acontecer em frente à associação do bairro Pirahy. Parada diante do portão do local, observávamos que, na casa da frente, uma mãe brincava com sua pequena filha no gramado. Às vezes elas nos olhavam, talvez sem entender o que fazíamos paradas por ali. Depois de quase uma hora esperando pelo entrevistado,

transpareciam marcas de uma vida cheia de histórias. Foi isso que nos motivou a entrevistá-la. Afinal, o que poderia estar guardado nessas expressões? A história de Nilce, registrada em áudio, foi a primeira a ser veiculada no projeto “Rádio nas Ruas”, na quente tarde do dia 24 de outubro. Ao ouvir as palmas diante do portão, a dona de casa abriu a porta, com seu peculiar sorriso e nos cumprimentou. “Aí é uma garagem, é proibido estacionar”, fez o alerta ao motorista do carro de som. Não demorou para sua história ser conhecida pelos que ali passavam. O sorriso não saiu em momento algum de seu rosto e todos olhavam uns para os outros com grande expectativa. “A minha voz é muito diferente na gravação!”, exclamou, no meio da audição. Também gesticulou, por diversas vezes, confirmando o que estava sendo abordado. Uma salva de palmas finalizou os três minutos do programa, com direito a fotos de recordação, um abraço coletivo e o convite para que entrássemos. O que era para ser apenas um trabalho se transformou em uma amizade. Após o carro de som ter partido, Nilce insistiu para que entrássemos em sua casa e, com evidente orgulho, retirou de uma grande pasta os desenhos e fotos de seu filho, dispondoos sobre todo o chão da sala de estar. Por ali, ficamos horas conversando e admirando os trabalhos. Sentimos que nossa personagem foi mobilizada pelo que fizemos. Como se, ao ouvir sua história contada por sua própria voz, percebesse que as recordações devem ser, periodicamente, tiradas das pastas e dos baús. Ao serem narradas, ajudam-nos a entender o quanto as dores e as alegrias têm seus respectivos valores para que a vida valha a pena. constatamos que ele não iria mais vir. Já estávamos indo embora quando a tal moça nos chamou: - Vocês estão precisando de alguma coisa? Sem jeito e com uma certa vergonha por ter levado um “bolo” do sujeito, respondemos: - Não, não. Está tudo bem. Nesse momento decidimos voltar para casa. Mas, no fundo, ficamos agradecidas com a maneira carinhosa com que aquela mulher nos tratou. Alguns dias depois, novamente caminhamos pelas ruas do bairro Pirahy, à procura de algum personagem para o microdocumentário. Batemos em muitas portas, e muitas pessoas nos atenderam. Mas, quando explicávamos a proposta do trabalho e o meio como ele ia ser divulgado, as pessoas desistiam da entrevista. Já estava escurecendo e não havíamos conseguido nada. Cansadas, paramos novamente em frente ao portão da associação do bairro. Como na outra vez, a mulher brincava com sua filhinha. Nos dirigimos até a grade da casa, e logo fomos bem recebidas por Luciane Klüsener Volpato. Entramos e nos sentamos com ela e sua filha no pátio. A conversa fluiu facilmente, o que foi essencial para dar o clima adequado à nossa abordagem. Percebemos o quanto aquela história tinha de lições de vida: uma mãe dedicada; uma família unida. Já estava tarde e Luciane se preocupou com o fato de termos de seguir a pé para casa. Mas tínhamos que ir. E o carinho com que ela nos tratou, um carinho de mãe, serviu para encontrarmos a forma adequada de editar o trabalho. Além do mais, aprendemos a lição de que muitas vezes as fontes podem estar bem a nossa frente.

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Luiz Briza Jr. Roberto Araújo

José Luiz Moreno

Getulio Dalenogare

Diogo Rodrigues Juliano Jaques

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Nycolas Ribeiro Renan Guerra

Com simplicidade, humildade e inocên-cia, um senhor de 82 anos abriu a porta de casa para dois rapazes estranhos. O aposentado Getúlio Dalenogare relatou sua história de vida em dois dias de conversa. Nascido em São Borja, mudou-se com os pais para Nova Esperança do Sul, retornando para cá em 1938. Na volta, arriscaria-se como jogador de futebol, depois de ter o aval de Adelmo Genro, então diretor do então colégio Duque de Caxias (atual Getúlio Vargas). Porém, o pai não apoiou a carreira futebolística. Restou-lhe seguir o ramo do comércio, com um mini-mercado de hortifrutigranjeiros. Das lembranças que mais lhe doem está o fim do serviço de trens. Seu Getúlio é testemunha da época de ouro da estação ferroviária. Reside próximo a essa história, há 74 anos, na Marechal Deodoro, esquina Venâncio Aires. “O movimento que havia aqui na frente era inexplicável. Na época, tudo era tração animal, carruagem, essas de faroeste. O cara pagava cinco mil réis e ia conhecer a cidade, o porto, a praça”, conta. Na busca pelo personagem do nosso radiodocumentário, tivemos a indicação do Hotel Brasil, que está há mais de 40 anos no mesmo endereço, na rua Venâncio Aires, em frente à antiga estação férrea. Lá, a responsável pelo estabelecimento sugeriu que falássemos com Seu Getúlio. Ao contatá-lo, o que mais nos chamou a atenção foi sua receptividade: deixou-nos à vontade em sua residência. Com fala mansa e dificuldade para se locomover, parecia empolgado com a proposta do nosso trabalho: “Aproveitem a chance de estudar! A vida passa rápido e a maior lição que posso passar para vocês é essa”, salienta.

Maria de Fátima Gusmão

Funcionário público, motorista da Prefeitura de São Borja, José Luiz Moreno tem 49 anos e muita história para contar. “Motorista sim, com muito orgulho. Uma profissão que me permitiu mais do que sustentar minha família: permanecer no universo que eu amo, que é o do futebol”, considera. Ex-atleta e ex-árbitro, Pimpim, como é conhecido – apelido que herdou de seu pai, cantor tradicionalista, nos anos 70, do Grupo Amador de Arte Os Angüeras –, reside no Bairro Menegusso, próximo ao Parque de Exposições. É casado e tem duas filhas. “Família é a base. Meu pai era a referência e foi a pessoa que fez com que eu me enxergasse como ser humano”, considera. Pimpim nos recebeu no Departamento de Assuntos Culturais (DAC), localizado junto ao Memorial João Goulart. Depois nos conduziu até a Câmara de Vereadores, onde nos concedeu uma entrevista em tom de bate-papo. Foi como se estivéssemos lendo o preâmbulo de seu grande acervo de histórias, contadas aos amigos mais próximos, em conversas de fim de semana. José Luiz fez questão de alertar: “não tenho trava na língua, digo o que penso”. Sentimos que estávamos diante de um bom entrevistado. Na hora da veiculação, as pessoas identificaram o personagem e, curiosas, se aproximaram do carro de som. Abordá-lo e acompanhar a audição do radiodocumentário sobre fatos inusitados que vivenciou, foi algo que nos propiciou satisfação e boas risadas.

Valdemir Marques

Um dos prazeres de se entrevistar é quando o assunto “fisga” o personagem sem ele notar, pela facilidade de discorrer sobre o tema. O resultado: sua fala aparece costurada com outras, mostrando circunstâncias e especificidades. O jornalista, por mais que busque um foco em suas abordagens, deve se aprofundar no contexto, mostrar o mundo todo, o centro e a periferia do ser humano. E periferia não deve ser sinônimo de “vulnerabilidade social e econômica”. Quem está à margem é visto, em geral, como os que se encontram em uma situação instável, sem perspectivas. Martha Medeiros, em sua crônica “A minha felicidade não é a sua”, considera que a felicidade-padrão remete à estabilidade. Mas como podemos observar, nas histórias de vida tratadas pelos microdocumentários da turma, a verdadeira felicidade está na superação das crises. E o trabalho de reportar o mundo, com a matéria-prima oriunda de entrevistas humanizadoras, proporciona ver e mostrar que a vida é perfeita nas suas imperfeições. No nosso caso, o entrevistado confessou uma história de traumas e superações. O armazém do qual é dono foi alvo de três assaltos. No último, Valdemir levou dois tiros. Pensou em desistir. No entato, isso significaria ter de abrir mão de uma grande paixão, que é lidar com o público em seu estabelecimento, junto com a esposa. Durante a entrevista, ficou claro que ele decidiu por prosseguir, com fé no ser humano, sempre na esperança de que esses episódios não mais acontecerão. Investiu em uma rotina de segurança, para não abrir mão do que mais gosta de fazer.

Caroline Rossasi Daniele Kunzler Nathalya de Oliveira

A procura por uma personagem do bairro Florêncio Aquino Guimarães foi uma verdadeira saga: uns julgavam não ter uma história interessante, enquanto outros, por modéstia e timidez, indicavam os vizinhos que, por sua vez, não queriam conversar sobre suas vidas. Com a indicação de conversar com o coveiro do cemitério Jardim da Paz, chegamos à Giovana Gusmão, sua filha. Comunicativa e orgulhosa da profissão paterna, Giovana nos conduziu pelos túmulos até onde pai e irmãos trabalhavam na construção de um jazigo. Os lucros da família giram em torno do cemitério, sendo o dia de finados o com mais retorno financeiro. Isso é importante para assegurar o almoço na casa cheia. Soterrado de trabalho pela data, Seu Nei não aceitou conceder a entrevista e nos corrigiu quanto a sua profissão: “Coveiro não. Pedreiro!”. Giovana nos guiou mais adentro do cemitério, onde crianças da família brincavam de esconde-esconde atrás de túmulos altos, procurando nos assustar quando as perdíamos de vista. Uma porta de ferro servia de fundo para a casa da família e facilitava o acesso ao cemitério. Dona Maria de Fátima, a esposa do “coveiro”, topou contar sua história: o casamento, a saúde, a vida no cemitério e de como ela não pretende se mudar dali: “Sair daqui só se for pra dentro”, brinca. Na realidade, a família quase não percorre as calçadas do bairro; usa o cemitério como rota alternativa. Nós, no tempo que lá permanecemos, pudemos compreender esse estilo de vida. O cemitério, ao final do trabalho, nos pareceu menos assustador. E a amizade que surgiu desse contato ficará para sempre na nossa memória.

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Maria Edith Requelmez é moradora do bairro do Passo. Nasceu em Garruchos, no ano de 1953. Dona Maria conta que veio morar em São Borja ainda criança, quando os irmãos serviram ao Exército. Pouco tempo depois, o pai faleceu. A mãe se viu sem condições de sustentar a família e tomou uma difícil e angustiante decisão: colocaria os filhos para realizar serviços domésticos, em casas de famílias, em troca de moradia e alimentação. Dona Maria foi “cuidar criança”, como gosta de dizer. Lembra com carinho dos patrões. “Fiquei lá até os dezenove anos, porque depois eles foram embora para o Rio de Janeiro. Eram como pais pra mim, me criaram”, afirma, emocionada. Por conta do serviço, só estudou até a terceira série. Depois se casou e foi tocando a vida. Já são 40 anos de casamento e quatro filhos. Um deles de coração, filho de uma sobrinha. “Ela estava passando dificuldade e achou melhor entregar ele para eu criar”, explica. “É um guri bem estudioso”, orgulha-se. Oscar, o marido, passou um tempo desempregado. Foi então que a família, que morava de aluguel, amargou um dos momentos mais tensos. Todos foram viver numa barraca de lona, no terreno do irmão de Dona Maria. Com o auxílio da Igreja, 23 anos atrás, conseguiram uma casinha de material, no Passo, que, aos poucos, ganhou mais cômodos e foi ficando do jeito idealizado pela família. Uma ajuda que retribui à comunidade como coordenadora do Centro da Pastoral. Junto aos filhos e netos, ela se sente realizada.

Quando decidiu contar sua história, Ana Paula Alaguis fez questão de, primeiro, nos apresentar a filha Jéssica. Ana, que entre o resumo de sua vida inclui o resumo da vida da filha, conta que, desde pequena, São Borja é o seu lugar. Aqui nasceu, 36 anos atrás. Poucos meses depois, com a separação dos pais, foi levada para Alegrete, onde ficou com a mãe. Dois anos mais tarde, o pai trouxe-a de volta. Um passado sobre o qual prefere não entrar em detalhes. A menina Ana Paula, na Terra dos Presidentes, viu histórias de anjinhos, fontes e santas povoarem o bairro Maria do Carmo, onde sempre residiu. Nesse território de mitos e lendas, cresceu, se fez mulher e mãe. E não demorou muito para isso acontecer: aos 17 anos, dava à luz Jéssica, bebê fruto de um relacionamento fora da cidade. Quando teve a filha, se desencorajou de ir atrás do namorado. Escolheu o amparo do pai e dos vizinhos. Há 19 anos, Jéssica tem, junto a eles, a família que o destino lhe configurou. Mais tarde, Ana Paula encontrou um companheiro e deu à primogênita um irmão, hoje com 13 anos. Jéssica, ao contrário da mãe, parece querer cortar as raízes com o lugar. Pensa em mudar de cidade, pensa em uma nova vida. Enquanto isso se prepara: cursa o Pró-Jovem, para ser cabeleireira. Já se aventura em cortes e penteados. A mãe se orgulha dos objetivos da filha, apesar de assumir que jamais teria coragem de largar suas origens. Espera que a vida não lhe pregue peças fora daqui. Caso isso aconteça, já tem o conselho na ponta da língua: “- Pode voltar, que aqui é melhor lugar para estar!”.

Bastidores

Bastidores

A brisa, que pela manhã batia suave no rosto e arrepiava a pele se tranformava numa daquelas ventanias violentas, típicas de São Borja. À tarde, o céu estava cinzento – sinal de chuva pela frente. Mesmo assim, seguimos para um desafio jornalístico, no bairro do Passo. E a água caiu, mesmo. Logo uma casa nos chamou a atenção, avistamos uma senhora e pensamos: “É essa a nossa personagem.” Ao portão, batemos palmas. A senhora veio de prontidão e logo nos deu abrigo. A conversa fluiu com naturalidade, até sua gatinha ensaiava participar. Preguiçosa, se aninhou junto ao Rafa, que voltou da entrevista coberto de pelos. No dia da veiculação do documentário, a empolgação da nossa personagem era inegável e contrastava com nossa aflição. Não queríamos desapontá-la. A primeira reação dela foi sorrir e balançar a cabeça afirmativamente. Verdadeiro alívio. Foi como se tivéssemos apresentado um filme de sua vida naqueles três minutos. Os olhos acabaram marejados e uma lágrima furtiva escorreu. Uma das partes mais legais foi a reação da vizinhança, que a cumprimentava. Uma vizinha gritou: “Está importante, hein?!”. Ela esboçou um sorriso, parecia uma “popstar” do bairro. Esse trabalho nos fez enxergar mais o próximo e dar valor a pequenos gestos. No final, o abraço apertado foi nosso melhor presente. Obrigada, Dona Maria!

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“- Olha marido, vieram me entrevistar... Sim, são da UNIPAMPA, e vieram me entrevistar!”. A alegria da dona-de-casa em receber duas alunas por ela desconhecidas, às 16h de uma tarde muito quente, já valia o trabalho. Ana Paula Moraes simplesmente não acreditou que alunas da Universidade Federal do Pampa estavam ali para conhecer sua vida. Após a apresentação da proposta de entrevista, não demorou nem um minuto até que abrisse as portas de sua casa e de sua história. “- Por que a sua vida daria um livro?”, perguntamos, logo de início. Com um sorrisinho encabulado no canto do rosto, a jovem mulher, que nem parecia ser mãe de uma moça de 19 anos e de um jovem 13, se revelou: declarou seu amor pelo lugar, pelo marido, pelo pai, pelos filhos e pela vida. Quando perguntada sobre a possibilidade de contar a história também para a comunidade de que tanto gosta, se sentiu como uma estrela, em seus minutos de fama. No dia da apresentação com o carro de som, a rua não estava muito cheia. Mas a alegria e empolgação de umas das vizinhas comtemplaram a satisfação de Ana Paula. Com os filhos do lado, Ana Paula pode ouvir e se emocionar com mais este capítulo de sua história: “Valeu a pena”. E realmente valeu, para todos nós. Foi emocionante e inesquecível.

João Ricardo Ribeiro Pâmela Faustino

Aline Sant Ana Sofia Silva

Com 66 anos, dois filhos e cinco netos, Velocino Pacheco Abri tem marcas de um passado de muito trabalho nas lavouras da fronteira oeste. Plantações que ultrapassam a linha do horizonte, um ofício que encarou com competência e zelo. Assim pode passar aos seus filhos o valor que mais preza na vida: a honestidade. Através dela conquistou confiança e oportunidades. Após um longo período no campo, levou a família para morar na cidade. Como lembrança desse tempo de lida no campo ficou apenas as cicatrizes e os valores que aprendeu, recordações que continuam presentes em sua personalidade, com um jeito simples de ser que cativa as pessoas que se aproximam. Atualmente trabalha como vigia noturno de uma escola, profissão que exerce com dedicação e pontualidade aos seus horários – sempre chega antes de seu turno para garantir a segurança de quem passa pelo portão de entrada da instituição. Quando perguntado qual o momento mais marcante de sua história, a emoção toma conta de sua fala. Relembra um episódio em que esteve entre a vida e a morte. Um raio o atingiu; quase morreu. Levado ao hospital por dois de seus irmãos, logo se recuperou. Mas precisou recorrer à sabedoria popular. “Me ensinaram que era para eu me enterrar no chão até o pescoço, para sair aquilo [eletricidade]. Eu ia tirar a roupa, saía faísca de fogo de tudo quanto era lado. Aí, graças

Liziane Wolfart Tamara Finardi

Rafael Junckes Tatiane Bernardo

Era uma menina dentre nove crianças. Começavam e recomeçavam a vida de acordo com a fúria do Rio Uruguai, que, vez ou outra, levava o pouco sem condolências. Mari dormia empoleirada com a trupe num único cômodo, dividindo uma cama de casal com mais três ou quatro irmãos. Tinha a vaidade de um bom aroma nos cabelos, e, por isso, não abria mão do xampu. O gosto pelo estudo prometia um rumo diferente. E seu sonho, desde então, era ser caixa de supermercado. À medida que ia crescendo, ajudava nos afazeres. Mas havia algo de engraçado. Mari nunca acreditou ter passado por alguma dificuldade. Para ela, enquanto criança e mesmo depois de grande, tudo era muito divertido. Essas lembranças que ficariam marcadas por muito tempo foram fundamentais para a maneira como mais tarde ela enxergaria a vida.Então, algum tempo depois, passou a trabalhar com a vizinha padeira. Aprendeu o suficiente para ter o próprio negócio. Findado os estudos, era o momento de sair do Passo rumo ao centro da cidade de São Borja, o que era desafiador na época. E foi. Mari era jovem quando começou a trabalhar como vendedora. Então, Mari conheceu Pedro Bouchet. Pedro era funcionário na prefeitura e depois de conquistar Mari, decidiram ir morar juntos. O começo não foi fácil, e os pés da cama – tijolos empilhados – demonstravam isso. Quando

Mari Siqueira

Ana Paula Alaguis

Velocino Pacheco

Maria Requelmez

Pedro decidiu deixar o emprego para ser vendedor de sapatos, os dois assumiram um risco. E Mari, para ajudar, assumiu um salão – caseiro – de beleza. Foram quatro anos de intensa dedicação e compromisso. A organização, o companheirismo e a Doutrina Espírita foram fundamentais para que ambos crescessem. E alguns poucos anos depois, abria-se a primeira loja especializada em sapatos da cidade, a Santa Clara Calçados. Hoje, Mari e Pedro tem duas filhas, uma cadelinha, quatro lojas, muitos funcionários e, com muito fôlego, ainda coordenam o Centro Espírita José Ferreira de Morais. Pelo menos uma vez por semana, Mari procura ir na casa de seus familiares que permaneceram no Passo. As raízes são as mesmas, bem como a essência humilde dela.

Bastidores

Fomos recebidos por Mary no centro espírita. Sempre sorridente, nos atendeu com simpatia e atenção. Contou-nos sobre sua vida, os percalços e as realizações. Mostrou-se uma pessoa que dá valor ao que passou. Deixou-nos à vontade para qualquer indagação. No dia da apresentação, ela tinha um compromisso no mesmo horário. Enquanto tentávamos resolver a questão do horário, Mary desmarcou o compromisso, nos ligou, e em seguida nos levou até a sua casa. Lá ficou conosco até o momento da veiculação do programa. Diante do carro de som, aparentou um pouco de timidez, mas escutou cada palavra, elogiou a iniciativa e nos deu um abraço que nunca mais esqueceremos. a Deus, não me deu nada”, conta. Como marca desse fato restou-lhe uma cicatriz, que mostra para as pessoas toda a vez que relata o acontecido.

Bastidores

Andar por bairros desconhecidos à procura de histórias que marcaram a vida das pessoas, observando cada casa com seus bichos de estimação no pátio e as crianças aproveitando o fim de tarde, e o sol mais ameno para sair jogar futebol, esconde-esconde e outras brincadeiras inspiradas pelo dia ensolarado. Enquanto outras pessoas aproveitavam para praticar atividades físicas, caminhando na beira do asfalto, até um dos trevos de acesso da cidade; tomar chimarrão na frente das casas, numa roda de vizinhos, que aproveitam para colocar a conversa em dia. A noite já estava caindo quando chegamos diante da escola onde Seu Velocino trabalha como vigilante. Logo começaria o período noturno, de cursos profissionalizantes, e o movimento começa a aumentar no portão da instituição. Sentado na frente, observando o movimento da rua e o entrae-sai de pessoas na escola, o vigia iniciava seu trabalho, às cinco e meia da tarde, uma hora e meia antes do seu turno, mostrando assim a pontualidade que tanto preza. Recebeunos com um simpático sorriso e um aperto de mão, um gesto que costuma demonstrar às pessoas conhecidas. Começamos a conversar e Seu Velocino ao saber do projeto Rádio nas Ruas, se dispôs a contar sua história de vida. Uma trajetória de dificuldades que hoje se tornaram lembranças, que o emocionaram na hora de contá-las e, depois, ouvi-las.

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